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I - INTRODUÇÃO

O tema abordado nesta monografia esta ligada a Pedagogia. A pretensão


abarcada no presente trabalho diz respeito a um ramo da Pedagogia que objetiva
tutelar o ingresso da história do negro na sociedade. Trata-se, pois do
Afrodescendente.
Especificamente, a delimitação do tema é A Cultura Afrodescendente
Articulada ao Curriculum Escolar.
A identidade da pessoa negra traz do passado a negação da tradição africana,
a condição de escravo e o estigma de ser um objeto de uso como instrumento de
trabalho. O afro-descendente enfrenta, no presente, a constante discriminação
racial, de forma aberta ou encoberta e, mesmo sob tais circunstâncias, tem a tarefa
de construir um futuro promissor.
Uma construção, um efeito, um processo de produção, uma relação, um ato
performativo, instável, fragmentada, inconsistente, inacabada. A identidade está
ligada a estruturas discursivas e narrativas, a sistema de representação e tem
estreita conexão com relações de poder. Considerando que a identidade é uma
construção, é necessário incluir o multiculturalismo e a diferença nesta discussão
porque é através da compreensão destes conceitos que o indivíduo formará sua
identidade.
A pedagogia escolar vigente se limita a divulgar a existência da diversidade,
sem aprofundamento na história e na cultura africana; assim, se faz necessária a
inclusão da crítica dessa política no centro das discussões pedagógicas. Quando o
indivíduo percebe que existem outras culturas ele tem condição de analisar e
respeitar não só a do outro, mas a dele também. Isso proporcionará uma percepção
cultural mais intensa, ele vai saber por que é pertencente a esta cultura e não
àquela; logo, estará instrumentalizado dentro da sua subjetividade para defender,
valorizar, proteger, e divulgar a sua cultura. Isto é o resultado de uma construção
identitária, já que se refere a si mesmo. Neste trabalho entende-se por subjetividade
a compreensão que temos sobre o nosso eu, envolvendo pensamentos e emoções
conscientes e inconscientes, que constituem nossas concepções sobre quem nós
somos. Aliada à identidade e à subjetividade está a cultura, numa relação bem
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estreita. É como se fosse um triângulo onde no ápice estaria a cultura, de um lado a


identidade, do outro a escola e no meio o sujeito.
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1. A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE AFRODESCENDENTE

A África foi a parte essencial da formação cultural, social e econômica de nosso


país, cabendo aos negros, ser a massa substancial da força de trabalho de construir
o Brasil. Foram trazidos, principalmente, da costa ocidental da África. Não podemos
analisar este continente como algo homogêneo, mas sim como um território de
dimensões astronômicas, verdadeiro berço da humanidade. As especificidades dos
diversos grupos humanos que habitam ou habitavam este continente são
desconhecidas pelo senso comum que generaliza a África como um único padrão
cultural, religioso, econômico e social.
Os grupos que supostamente vieram para alimentar a empresa escravista no
Brasil, com o objetivo de desenvolver e explorar a colônia, a partir da produção de
açúcar, assim como a mineração de ouro e metais preciosos, tiveram como base os
povos Yoruba - denominados como nagô, pelos Dahomey -, chamados como gegê,
e os Fanti-Ashanti, designados geralmente como minas. Estes, assim como outros
menores grupos, vieram de regiões como Angola, Congo, Moçambique, Nigéria e
Benin (antiga região do Daomé).
Todos estes povos possuem uma história extensa e dotada de grande
complexidade. Muitos deles, anteriormente à dominação européia, produziam
objetos de cerâmica, praticavam agricultura, conheciam a técnica da metalurgia e
criavam gado. Organizam-se em estruturas complexas como Estados que possuíam
comércio e utilizavam a moeda como expressão monetária.
Os milhões de africanos seqüestrados e trazidos para a América,
principalmente para o Brasil, criaram de forma dolorosa tudo o que aqui se
consolidou. Capturados e arrastados pelos pombeiros - mercador africano de
escravos - utilizados pelos europeus para comercializar estes em troca de tabaco,
aguardente e objetos de interesses destes grupos. A primeira leva de escravos
transportados por navios continha cerca de 12 milhões de seres humanos. Destes,
metade teve o Oceano Atlântico como cemitério. Avaliado pelos dentes, pela
grossura dos tornozelos e dos punhos, era arrematado. Outro comboio, agora de
correntes, o levava terra adentro, ao senhor das minas ou açúcares, para viver o
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destino que lhe havia prescrito a civilização: trabalhar dezoito horas por dia, todos os
dias do ano.
O escravismo foi estruturado em alicerces constituídos pela violência bárbara e
desumana, pela concentração do solo, exploração das riquezas e pela monocultura.
Esse sistema tinha também como projeto a desconstrução cultural dos povos
africanos, como vinha fazendo com os indígenas - sem sucesso. A lingüística, parte
da expressão e identidade fundamental de um povo, assim como outros aspectos
culturais (como a religiosidade), foram manipulados para impedir que houvesse
tentativas de resistência por parte dos africanos. A diversidade lingüística da África
fez com que os portugueses evitassem a concentração de escravos originários das
mesmas regiões étnicas em propriedades e navios negreiros. Assim buscavam
destruir qualquer laço de identidade e solidariedade que houvesse entre o mesmo
grupo.
Surpreendente é, ainda hoje, saber como os diversos povos africanos, assim
como os indígenas, sofrem com as tentativas de desconstrução de sua cultura,
sendo forçados a deixar suas crenças, sua compreensão de mundo, deixando de ser
eles próprios, numa tentativa de transfiguração que não vinga. Estes, juntamente
com os indígenas que restaram do grande etnocídio, assim como da miscigenação
com o português, impossível de deter, formaram o povo que somos hoje, o
brasileiro. Os negros e os indígenas impediram que nos tornássemos uma cópia da
Europa. Impuseram, a partir de muita luta e resistência, novos padrões culturais que
permanecem em todo o país, como o catolicismo brasileiro, as demais religiões, a
culinária, a musicalidade, a força, o conhecimento, nossa beleza com os traços mais
fortes, sem esquecer nossa subversão. Isto ainda é negado e marginalizado, o que
faz dos afro-descentes vítimas de um processo de invisibilidade de uma sociedade
de bases originárias e contemporaneamente marcada pelos preconceitos e pela
exploração.
Muitos dos orixás trazidos da áfrica pelos escravos estão muito mais presentes
na nossa cultura do que na cultura do continente negro. Os Orixás são as forças
vitais que tudo geram e conduzem. É a natureza e toda a sua expressão, como as
águas, a terra, as árvores, o mar, o ar, assim como esta força que nos faz levantar
todos os dias ou o que nos dá sopro de vida. Os negros brasileiros são sinônimo de
fé, de força e de sobrevivência. As religiões de origem africana foram fundidas nas
senzalas unindo diversos mitos, costumes. Sincretizadas para deixarem de ser algo
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próprio e se tornarem algo brasileiro, como o catumbi, o candomblé, a umbanda e a


macumba. Portanto, mitos como Iemanjá (a rainha do mar) sobrevivem em todo o
território, do nordeste ao sul do Brasil.
Ainda hoje, mesmo com a generalização da pobreza, da violência entre
brancos e negros, fruto de um sistema cada vez mais desigual e desumano, o negro
é aquele que acarreta as piores condições de vida. São os que possuem o menor
acesso à educação, ao emprego, à saúde e à moradia digna. São vítimas
constantes do preconceito institucionalizado, sofrendo reflexos históricos nas
periferias. Essas se transformaram nas senzalas modernas onde os negros
continuam sendo castigados aos montes.
Apesar disto, temos o exemplo de que o negro vem, ao longo do tempo,
resistindo a sua condição de exploração e superando-a através das organizações
culturais, religiosas e políticas, na tentativa de destruir a falsa democracia racial que
se publicizou e garantir um país onde as riquezas não sejam benefícios de poucos.
Cabe ainda debatermos amplamente as condições e a dívida histórica que
possuímos com o afrodescendente, assim como superarmos tal sistema, onde
aqueles que produzem todas as coisas são os mesmos que delas são excluídos

2. O BRASIL, AS TEORIAS RACIAIS DO SÉCULO XIX E A EDUCAÇÃO

A O Brasil assiste a abertura da segunda metade do século XIX com a


incumbência de pensar a construção do Estado Brasileiro e a sua viabilidade
perante o resto das nações ocidentais européias. Apresentam-se vários impasses a
resolver, entre eles, como pensar a viabilidade de um país que tem a maior parte da
população formada por afrodescendentes e indígenas.
Em virtude destes impasses começa a se esboçar um argumento racial que
tratará e definirá o conceito de raça a partir dos interesses da elite política e
econômica do país. Os ideários cientificistas europeus entraram no Brasil com um
propósito bem definido, qual seja, explicar e justificar a desigualdade social e a
exclusão.
Segundo a história, aconteceu um casamento do Darwinismo Social e do
Evolucionismo Social, que mesmo sendo teorias incompatíveis entre si, no Brasil
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elas são ressignificadas de modo que se aproveite de cada uma aquilo que é
pertinente ao novo projeto de país que se pretende desenhar. Proclama-se a
diferença biológica entre as raças como forma de manter a superioridade da
população de origem européia e como saída para a questão da mestiçagem
entende-se a evolução como algo fatal para o progresso da humanidade.
Apesar de o processo de branqueamento físico da sociedade ter fracassado,
seu ideal inculcado através de mecanismos psicológicos ficou intacto no
inconsciente coletivo brasileiro, rodando sempre nas cabeças dos negros e
mestiços. Esse ideal prejudica qualquer busca de identidade baseada na ‘negritude
e na mestiçagem’, já que todos sonham ingressar um dia na identidade branca, por
julgarem superior.
O argumento racial é elaborado de forma a escolher, dentre as teorias
científicas trabalhadas, as características destas que melhor respondem aos
impasses pelos quais se defronta a elite brasileira no momento que tem de pensar a
viabilidade da sociedade brasileira.
Era preciso elaborar um novo projeto político para o país que se pretendia
moderno, industrioso, civilizado e científico e definir critérios rígidos de cidadania.
Nestes critérios pode-se pensar a educação como questão central para esse
novo projeto político. De fato, a Educação é pensada como fundamental e isto é
atestado pela criação de inúmeras escolas primárias e secundárias como também
pela criação, no país, das primeiras faculdades.
Estas são criadas não com o intuito apenas de formar quadros para a
burocracia estatal nascente a partir da transferência da corte portuguesa e da
independência política, mas com o objetivo de pensar a construção de uma
identidade nacional homogeneizadora e livre de qualquer contradição ou conflito. A
tradução da teoria racial européia para o Brasil não foi obra do acaso, ao contrário,
foi feita de forma crítica e seletiva moldando autoritariamente uma identidade
nacional e legitimando hierarquias sociais cristalizadas.
Temos alguns casos esparsos nas províncias de criação de escolas de
primeiras letras financiadas por instituições beneficentes abolicionistas, que tinham
como principal objetivo a instrução escolar preparando para o mundo do trabalho e
também aliciando os negros para aderirem à causa abolicionista dentro dos moldes
propostos pela elite letrada, que via numa abolição pacífica do trabalho escravo a
possibilidade de manutenção do status quo.
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A educação dada ao povo ainda tem como característica principal a


homogeneização da cultura popular, ainda não foi de fato colocada como
possibilidade para a população brasileira uma educação que leve em conta a
diversidade cultural do nosso país, uma educação que trate a diferença como um
dado histórico, portanto de forma não reducionista e essencializada.
A diversidade tem de ser trabalhada de forma a colocar as questões ligadas à
cultura de modo não folclórico, que é o que tem sido feito ao longo da história da
cultura brasileira com os elementos afrodescendentes e indígenas.
A elite soube, com muita propriedade, traçar um projeto de nação que
ressignificou a herança indígena e africana, quando fala sobre o carnaval e o samba.
Os elementos dessa herança foram incorporados de forma que a mestiçagem foi
proclamada dando invisibilidade a essas heranças, ou quando não tornou invisível
não problematizou a questão com a propriedade devida.
Parece paradoxal, mas foi exatamente desta maneira que se resolveu o dilema
da mestiçagem no Brasil. Não foi possível negar em absoluto essas heranças, mas a
diversidade de culturas que habitam este país dialogaram ao longo da história de
forma hierarquizada, foi a cultura ocidental que prevaleceu enquanto modelo a ser
seguido. Quando se conseguiu falar dessas heranças foi de uma maneira estática e
essencializada, portanto negando a historicidade da cultura. Dessa maneira isso se
refletiu nas concepções de educação e de cultura que permearam as políticas de
governo.

2.1. AS MUDANÇAS NO SÉCULO XXI

É a partir do movimento negro que entramos no século XXI com várias


conquistas a vislumbrar na área educacional, entre as quais podemos citar: políticas
de ações afirmativas no ensino superior público brasileiro, como meio de
democratizar o acesso ao ensino superior e redimensionar a produção de
conhecimento e o estabelecimento da lei nº 10.639 como forma de inserir no
currículo oficial do sistema de ensino a matriz africana.
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Em se tratando de políticas de ações afirmativas direcionadas ao ensino


superior temos como luta inicial pela democratização do ensino superior público a
criação de cursinhos pré-vestibulares para afrodescendentes que tiveram
importância fundamental neste contexto e foram promovidos pelo trabalho conjunto
de várias instituições, entre as quais: universidades, organizações não-
governamentais, pastorais católicas e agências de fomento internacionais.
Estes cursinhos foram muito importantes, mas percebeu-se que de alguma
maneira eles possibilitaram acesso apenas aos cursos de menor concorrência nos
vestibulares. Ficando os cursos de maior prestígio dentro das universidades como
Medicina, Direito e Engenharia distante destes estudantes que pretendiam ingressar
na universidade através dos cursinhos para afrodescendentes. A partir desta
percepção constatou-se que a reserva de vagas seria algo inexorável na
democratização do ensino superior público. A reserva de vagas seria a única
maneira dos afrodescendentes terem acesso às áreas do saber com mais status
dentro da universidade.
Partindo desta constatação temos duas experiências pioneiras na reserva de
vagas para afrodescendentes que foram o caso da UERJ (Universidade do Estado
do Rio de Janeiro) e o caso da UNB (Universidade de Brasília).
Em se tratando da UERJ, a despeito de haver grupos de pesquisa acerca da
temática racial na referida universidade, o que se pode observar é que o processo
de implantação passou ao largo das discussões dos grupos e foi uma manobra
política de deputados estaduais junto ao governo do estado do Rio de Janeiro. De
início, a implantação causou uma enorme confusão, primeiro porque não foi algo
que tenha partido da comunidade universitária e depois porque a questão das cotas
foi colocada pela imprensa como uma política descabida e sem propósito. Passado
o primeiro momento de grande tumulto, a universidade se inteirou do processo e se
posicionou de maneira a entender a implantação da reserva de vagas para
afrodescendentes como algo de fundamental importância para democratizar o
acesso ao ensino superior.
No caso da UNB a implantação da política de vagas se deu de maneira mais
democrática e partiu de discussões da comunidade universitária, foi a partir do
entendimento de professores universitários de que é candente a implantação de
políticas afirmativas que transcorreu todo o processo.
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Muitos outros exemplos foram se sucedendo como o caso da UFBA, o caso da


UNEB, o caso da UFAL e vários outros.
Muita polêmica tem sido causada pela implantação daquilo que ficou conhecido
como “cotas”, por várias razões: a imprensa tem sido implacável no sentido de
desqualificar esta luta, e tem representado exemplarmente a classe média no
sentido de não permitir que o acesso seja democratizado, ou melhor, que a classe
média não perca vagas no processo de acesso à universidade; a universidade tem
se mostrado um tanto hermética às discussões, o que tem dificultado o processo, na
verdade não se pode falar dessa forma para toda a universidade, setores dela são
mais conservadores, outros são mais abertos e têm comparecido aos debates
quando da implantação das políticas de ações afirmativas; e por último, a dúvida
sobre a real eficácia das cotas como forma de diminuir o abismo entre negros e
brancos no Brasil.
Em se tratando da Lei nº 10.639 – sancionada no início de 2003 pelo
presidente Luís Inácio Lula da Silva – podemos afirmar que ela significa um avanço
no sentido de reconhecer a urgência da incorporação no currículo oficial do sistema
de ensino, o estudo da matriz africana. Mas mesmo sendo um avanço é necessário
ter cautela e ficar alerta quanto à implantação de fato e a receptividade da medida
nas escolas de ensino fundamental e médio.

2. A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DO AFROBRASILEIRO

Mesmo diante dos pontos em aberto sobre o que dizer a respeito da


escolarização dos negros no Brasil outros aspectos parecem bastante evidentes
sobre o percurso escolar das camadas negras. Quanto a isso parece indiscutível
que as conjunturas brasileiras impuseram desafios para a sobrevivência das
camadas negras e elas, por sua vez, tentaram dar respostas conforme suas
necessidades.
A necessidade de ser liberto ou de usufruir a cidadania quando livre, tanto
durante os Períodos do Império quanto o da República aproximou as camadas
negras. Vale ressaltarmos que os líderes escolanovistas responsáveis pelas
Reformas de Ensino no Brasil, entre as décadas de 20 e 30.
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A luta das camadas negras pela sua inclusão no processo de escolarização


oficial, as lições repassadas na imprensa negra sobre “boas maneiras”, o estímulo
ao desenvolvimento de práticas culturais de origem africana, a luta pela inclusão de
temas específicos dos afrodescendentes na escola comum, a luta em torno de
aglutinar os afrodescendentes em uma identidade negra positiva, os cursos de
atualização, os cursos de alfabetização, os cursos de música, de inglês, de
educação física, de artes, corte costura, as palestras, os seminários são exemplos
de práticas vinculadas à ação organizada dos negros que caracterizam uma história
da educação que embora ausente nos relatos oficiais da história da educação
brasileira, evidenciam que mesmo à margem da cidadania os negros
acompanharam os processos de compactação da nação brasileira e nele exerceram
influência.
No que se refere propriamente à escolarização, segundo os modelos oficiais,
percebe-se ao longo da história das camadas negras brasileira que estas sempre
estiveram em contraponto à afirmações que alegam a sua incapacidade para a
vivência bem sucedida de experiências escolares. O fato pode ser comprovado pela
ascensão de uma intelectualidade negra visível desde o período Imperial que via
domínio da escrita atingiu espaços sociais dos quais os brancos pareciam
detentores absolutos.
Embora pareça simples o fato de alguns negros terem sidos intelectuais já que
esse fato teve ocorrência em outras realidades coloniais, como nos Estados Unidos,
o que difere uma realidade da outra é que o Estado brasileiro não se mobilizou, em
nenhum momento da história do Brasil, a desenvolver políticas de inclusão dos
negros nessa sociedade e mesmo assim, os negros desenvolveram a sua trajetória
educacional. Nos Estados Unidos, desde a época da escravidão, a escolarização
dos negros foi garantida pelo próprio Estado.
Os mecanismos do Estado brasileiro que impediram o acesso à instrução
pública dos negros durante o Império se deu em nível legislativo quando se proibiu o
escravo, e em alguns casos o próprio negro liberto, de freqüentar a escola pública, e
em nível prático quando mesmo garantindo o direito dos livres de estudarem não se
criou as condições materiais para a realização plena do direito.
Mesmo assim, embora não de forma massiva, camadas populacionais negras
atingiram níveis de instrução quando criaram suas próprias escolas, recebiam
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instrução de pessoas escolarizadas, adentravam a rede pública gratuita, os asilos de


órfãos e vagas nas escolas particulares.
A escolarização via escolas formadas pelos próprios negros são experiências
que embora tendo existido, ainda se dispõe de pouco registro histórico. Alguns
trabalhos levantaram informações sobre o Colégio Perseverança ou Cesarino,
primeiro colégio feminino fundado em Campinas no ano de 1860 e o Colégio São
Benedito, criado em Campinas em 1902 para alfabetizar os filhos dos homens de cor
da cidade.
A partir da década de 60, com a ampliação da rede de ensino público em todo o
país o ingresso do negro às salas de aulas tornara-se rotineiro, contudo as relações
raciais no interior das escolas permaneceram discriminatórias. A partir da
constatação desse quadro, organizações negras de caráter civil passaram,
principalmente a partir dos anos 70, a denunciar a seletividade do modelo
educacional vigente que, excluindo o patrimônio cultural da população negra dos
currículos escolares, afastava a classe popular.
O que por muitas vezes foi assumido pelas próprias entidades negras que
desencadeavam ações visando sensibilizar professores e alunos para a
necessidade de respeitar a diversidade cultural da população do Brasil e com isso
melhorar as relações raciais nesse país.
A carência de profissionais da área da educação capacitados para execução de
propostas de trabalho que contemplassem os conteúdos voltados para a cultura
negra foi um dos motivos que prejudicou, em grande parte, um melhor resultado do
que se pretendia.
Isso, porque, em geral os cursos de formação inicial do educador não tem
acompanhado os debates sobre ralações raciais e escola e os de educação
continuada, muito menos, salvo quando são ministrados e ou oferecidos pelas
próprias entidades do Movimento Negro.
Durante os anos 80 e 90 ocorreram algumas parcerias entre governo e
entidades negras visando atingir esse objetivo, mesmo assim, acreditamos que a
demanda nacional exigiu um maior enfrentamento da problemática. Sendo por isso
necessário que essa discussão chegue aos cursos de Magistério e de Pedagogia
como conteúdos oficiais.
Como podemos perceber, apesar de ignorado pela história da educação
brasileira oficial há que se admitir que existe uma história da educação do afro-
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brasileiro, uma vez que existem elementos que indicam que as camadas negras no
Brasil, apesar dos obstáculos lhes impostos, galgaram, se não na sua grande
maioria, pelo menos uma certa parcela, diversos níveis de escolarização, em grande
parte por esforços particulares ao próprio grupo.
O resgate de fontes e a reconstrução de um relato histórico da história da
educação brasileira que considere não só as experiências educativas de uma elite
branca ou da emergente classe média branca para as quais o sistema oficial de
ensino brasileiro foi construído torna-se necessário e urgente na conjuntura
brasileira atual, tendo em vista que a realidade sobre as desigualdades raciais no
Brasil já não parecem novidade a ninguém.
É notório que já se assumiu oficialmente que o Brasil é um país multiétnico com
tratamento desigual dos seus grupos. São iniciativas que indicam esse processo a:
revisão dos conteúdos escolares visando contemplar a multiplicidade dos interesses
dos vários grupos humanos existentes no país, a reformulações da história oficial
brasileira com destaque ao papel e as contribuições dos grupos raciais, as
avaliações de livros didáticos visando a abolir abordagens preconceituosas, o
desenvolvimento de estudos que revelam o tratamento diferenciado relegado à
criança negra nas escolas públicas e a introdução do estudo oficial da Pluralidade
Cultural como conteúdo transversal no ensino fundamental.
Contudo, embora toda essa movimentação se construa em torno das escolas
brasileiras, ainda dispomos de cursos de formação de educadores que ministram
uma história da educação que nos parece alheia a tudo que está ocorrendo
atualmente sobre o ensino em perspectiva multicultural. Ao mesmo tempo, os cursos
de Pós-graduação em Educação, locais de excelência para o desenvolvimento de
pesquisas (cujos conhecimentos poderão se refletir nos cursos de formação do
educador) embora disponham de área de pesquisa voltada para a história da
educação brasileira, infelizmente não dispõem de linha voltada para a história da
educação do afrodescendente. Tal fato, por outro lado, dificulta o desenvolvimento
de estudos nessa área de interesse.
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3. A IMPORTÂNCIA DA LEGISLAÇÃO NA EDUCAÇÃO AFRODESCENDENTE

A necessidade de adotar uma postura anti-racista em sala de aula é um debate


que se coloca em questão de tal forma que em 2003 foi aprovada a Lei 10.639 que
altera a Lei de Diretrizes e Bases para que se dê ênfase para o papel do negro na
sociedade brasileira não apenas como vencido. Assim, “O desafio posto pela
conjuntura, passa, portanto, pela conjunção de esforços da União, dos Estados e
dos Municípios no sentido de assegurar a definição dos parâmetros curriculares, a
sistematização e a disponibilização das fontes bibliográficas, o desenvolvimento de
uma metodologia para a capacitação dos professores e a edição de materiais
educativas destinados a professores, alunos e pais” (BENTO; SILVEIRA; CHINALLI,
2005:13).
Nesse sentido, a modificação na LDB visa implementar a obrigatoriedade
da história e cultura afro-brasileira e africana nas redes de ensino brasileiras, o que
não se restringe apenas à disciplina de história. Além disso, destaca que o Estado
deve investir nos recursos efetivos e na valorização dos docentes. Segundo o texto
da LDB/LEI 10.639/2003, destacaria os seguintes incisos:
Artigo 3º, § 4º – O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições
das diferentes contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do
povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e européia.
Art. 26-A – Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e
particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.
§ 1º – O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o
estudo da História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura
negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a
contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à
História do Brasil.
§ 2º – Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileiras serão
ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de
Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.
A implementação da Lei 10.639 insere-se em um processo que visa à
inserção igualitária dos negros no ensino por meio de ações afirmativas, já que
entendesse que, mesmo com a melhoria da educação por meio de políticas para
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toda a população, os afrodescendentes continuam em desigualdade social em


relação aos brancos. Desse modo, políticas afirmativas ajudariam a interferir na
reversão das desigualdades e instaura processos de construção da igualdade social.
Nesse sentido,
“[...] o Movimento Negro apontou há décadas: as políticas universais não
alteraram as desigualdades raciais. A evolução da escolarização entre os grupos
assume trajetória semelhante, mantendo a diferença entre brancos e negros. Todos
se beneficiam com mais escolarização, mas a desigualdade entre negros e brancos
permanece inalterada” (BENTO; SILVEIRA; CHINALLI, 2005: 26).
Por conseguinte, o mesmo estudo define política afirmativa como:
“A expressão ação afirmativa indica a necessidade de compensar os negros e
outras minorias pela discriminação sofrida no passado. Devem ser distribuídos
recursos sociais como empregos, educação, moradia, etc., de forma a promover a
igualdade social. Trata-se, portanto, de construir uma ampla rede de programas
destinados a superar os efeitos da discriminação histórica, de promover
oportunidades iguais para grupos discriminados de forma negativa” (BENTO;
SILVEIRA; CHINALLI, 2005: 27).
Tendo em vista o que foi elucidado até então, a mudança na LDB,
possibilitaria aos alunos, principalmente negros, superar a visão eurocêntrica de
mundo, estimulando um ambiente efetivo de diversidade e igualdade cultural no
interior do espaço escolar. Especificamente para os alunos negros, a implementação
efetiva da Lei daria suportes para fortalecer a sua auto-estima. Essas idéias
estimulariam o exercício do pensamento crítico e ajudariam a formar uma
mentalidade não racista que estimulasse as lutas pela promoção da igualdade
social.
A Lei não surge “do nada”, mas sim de uma demanda social,
principalmente do movimento negro, que resultou de anos de luta em prol do
combate ao racismo. Entretanto, só a lei não mudará uma situação desigual
existente entre negros e brancos no país e uma história educacional que não
privilegiava outro lugar aos negros a não ser o “tronco”, ou seja, o negro como
escravo, deixando de lado todo o legado africano que constituiu a formação da
nacionalidade e da sociedade brasileira. Portanto, se estabelece a relação que há
entre a Lei e a pressão do movimento negro e de setores da sociedade conscientes
da importância de sua implementação. É nessa relação que está a importância da
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Lei, já que ao mesmo tempo em que ela é resultado de luta também chama atenção
e levanta questionamentos para um problema que deve ser levado a sério, mesmo
que ela não esteja sendo implementada plenamente. Assim, conforme Santos,
“Os movimentos sociais negros, bem como muitos intelectuais negros
engajados na luta do anti-racismo, levaram mais de meio século para conseguir a
obrigatoriedade do estudo da história do continente africano e dos africanos, da luta
dos negros no Brasil, da cultura negra brasileira e do negro na formação da
sociedade nacional brasileira. Contudo, torná-los obrigatórios, embora seja condição
necessária, não é condição suficiente para a sua implementação de fato. Segundo o
nosso entendimento, a Lei número 10.639, de 09 de janeiro de 2003, apresenta
falhas que podem inviabilizar o seu real objetivo, qual seja a valorização dos negros
e o fim do embranquecimento cultural do sistema de ensino brasileiro. A Lei federal,
simultaneamente, indica uma certa sensibilidade às reivindicações e pressões
históricas dos movimentos negros e anti-racistas brasileiros, como também indica
uma certa falta de compromisso vigoroso com a sua execução e, principalmente,
com a sua a eficácia, de vez que não entendeu aquela obrigatoriedade aos
programas de ensino e/ou cursos de graduação, especialmente os de licenciatura,
das universidades públicas e privadas, conforme uma das reivindicações da
Convenção Nacional do Negro pela Constituinte, realizada em Brasília-DF, em
agosto de 1986″ (2005: 34).
Cabe salientar, que essa lei foi retificada pela de 2008 que mantém os
mesmo dispositivos, mas apenas acrescenta o ensino de história indígena como
obrigatório. Esse fato é igualmente importante, pois é um passo a mais na aplicação
de um ensino que contemple a diversidade do nosso país. Contudo em 20 de Julho
de 2010 instituí o ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL, Lei nº 12.288 onde garante
à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades e no artigo 11 e seus
parágrafos os direitos estabelecidos pelas leis citadas a cima.
Portanto, chamou-se atenção para a instituição da Lei 10.639 e a sua
importância para implementar práticas anti-racistas no ambiente escolar, embora
ainda haja um “bom caminho” a percorrer para que ela seja implementada de
maneira eficaz, visando combater o ensino eurocêntrico. A lei surgiu através de
lutas, de resultado de ações que visassem posturas anti-racistas. Então, fica claro
que para sua orientação ser efetiva ainda há demanda de muito esforço.
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4. O PAPEL DO PROFESSOR NA EDUCAÇÃO AFRODESCENDENTE

5. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO SISTEMA EDUCACIONAL

6. A POLÍTICA EDUCACIONAL DA UNIÃO E OS CURRÍCULOS DO ENSINO: OS PCN’S