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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

MUSEU NACIONAL
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM ANTROPOLOGIA SOCIAL

“Limites da Menoridade:

tutela, família e autoridade em julgamento”

Adriana de Resende Barreto Vianna

Rio de Janeiro
2002
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
MUSEU NACIONAL
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM ANTROPOLOGIA SOCIAL

“Limites da Menoridade:

tutela, família e autoridade em julgamento”

Adriana de Resende Barreto Vianna

Tese apresentada como pré-requisito parcial


para obtenção do título de Doutorado em
Antropologia Social pelo Programa de Pós-
Graduação em Antropologia Social do Museu
Nacional da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, sob a orientação do prof.º Doutor Antonio
Carlos de Souza Lima.

Rio de Janeiro
2002
“Limites da Menoridade:

tutela, família e autoridade em julgamento”

Adriana de Resende Barreto Vianna

Banca Examinadora

Prof.º Dr. Antonio Carlos de Souza Lima

Prof.ª Dr.ª Cláudia Fonseca

_____________________________________________________
__
Prof.º Dr. João Pacheco de Oliveira

Prof.º Dr. Luiz Fernando Dias Duarte

Prof. Dr. Sérgio Luís Carrara

Rio de Janeiro
04/10/02
Para meus pais.

Para Ana e Antonio,

Pela amizade na hora em que tudo parecia impossível.

1
Resumo

O objetivo desta tese é pensar, através de processos de guarda e adoção que


tramitaram pela 1ª Vara da Infância e Juventude no período de transição do Código de
Menores para o Estatuto da Criança e do Adolescente, sobre práticas, expedientes e formas
de gestão de menoridades. Desse modo, busca descrever, através de diferentes situações
envolvendo a transferência da responsabilidade legal exercida sobre crianças e jovens,
como questões em torno da autoridade estabelecida sobre eles, bem como sobre os que
ficam na condição de seus responsáveis, das moralidades que se confrontam ao longo
desses processos e, por fim, do caráter tutelar dessa gestão.
Tem especial importância nesta tese a preocupação em pensar a relação entre um
aparato específico da administração – a Justiça voltada às questões da menoridade – e as
famílias ou unidades domésticas nas quais essas crianças e jovens são alocadas ou onde já
estão no início do processo. Nesse sentido, a descrição e reflexão feita sobre as motivações
e os limites que atravessam a ação tanto de especialistas, quanto dos diferentes envolvidos
em um processo, baseiam-se no pressuposto não apenas da sua diferenciação, mas também
da sua complementaridade. Tal complementaridade, por sua vez, é central na leitura feita
acerca dessas diferentes experiências judiciais – e, portanto, administrativas – como tendo
sentido fortemente tutelar.

2
Sumário:

Agradecimentos ..................................................................................................... 01

Introdução: ........................................................................................................................ 05
Impasses, incômodos e questões de uma pesquisa ............................................................. 12
A legislação e as experiências judiciais .............................................................................. 17
Famílias e casas ................................................................................................................. 24
A organização dos capítulos .............................................................................................. 29

Capítulo 1: Menoridade e dominação ....................................................................... 31


A gestão tutelar da menoridade .......................................................................................... 31
Os especialistas da pacificação ............................................................................................ 47
Em busca de uma infância universal .................................................................................. 66

Capítulo 2: Guardar crianças: narrativas e dramas.............................................. 85


A forma narrativa dos processos ........................................................................................ 88
1ª positividade: os processos como bens administrativos .................................................. 92
2ª positividade: os processos como experiências de negociação em vários níveis ............ 96
3ª positividade : os processos como redefinidores de limites domésticos ...................... 101
Os casos escolhidos .......................................................................................................... 105
Caso 1: Alice, sua mãe e a patroa de sua mãe ......................................................... 106
Caso 2: Cláudia e as muitas caras do abandono ...................................................... 109
Caso 3: As irmãs e a resistência de Liliana ............................................................. 116
Caso 4: Fernanda/Maíra: a criança anunciada pelo rádio ....................................... 121
Caso 5: Anderson e o desejo de voltar atrás............................................................ 129
Caso 6: O crime e a disputa: o processo de Murilo e Diogo ................................... 134
Caso 7: Acusações sexuais e acordos: o processo de Lucas ................................... 142
Caso 8: Crianças recolhidas, crianças devolvidas: a ciranda de Ana e Elisa .......... 150

3
Capítulo 3: Ter crianças: autoridades em julgamento ....................................... 161

A autoridade dos especialistas: os discursos técnicos e a assimetria das falas................. 165


Direitos e obrigações de “ter” crianças............................................................................. 178

Capítulo 4: Ceder ou reter crianças: moralidades em julgamento ................. 194


Cuidados, resgates e compaixões ..................................................................................... 201
A teia de gratidões e a opressão da bondade .................................................................... 217
As acusações, os limites intoleráveis, a empatia moral .................................................... 225

Capítulo 5: A ação tutelar e a produção de destinos ........................................ 234


Resolução de conflitos e categorias tutelares: a harmonia e a adaptação ...................... 241
A busca de casas: a parentela ........................................................................................... 254
A busca de casas: as relações patronais e a oferta institucional....................................... 265

Conclusões, caminhos, perguntas ........................................................................ 282

Anexo: Quadro dos processos ................................................................................ 290

Bibliografia citada ................................................................................................ 317

4
Introdução

Os dois trechos escolhidos para epígrafe da tese foram extraídos de autores


preocupados, cada qual em seu contexto, com diferentes absurdos do mundo dito moderno:
a burocracia infernal em Kafka, e a decomposição e recomposição de identidades pessoais e
coletivas na Israel contemporânea, nos textos de Amós Oz. Em ambos, uma mesma
preocupação se faz presente, a de situar as possibilidades (ou impossibilidades) dos
indivíduos frente a forças que sempre parecem ser-lhes superiores, buscando sentido no
improvável dos tribunais cujas regras permanecem opacas aos indivíduos, mesmo que seus
destinos ali estejam sendo decididos, ou encontrando dentro de si mesmos a teia de
memórias, sentimentos e obrigações que os atam a outros indivíduos. O “tribunal”, em
Kafka, e os “pais”, em Oz, são, dessa forma, duas faces de uma mesma (e ampla) pergunta
que atravessa e motiva essa tese: como vislumbrar um pouco de diferentes relações que, ao
gerir os indivíduos, os constituem?

Como foco empírico, esta tese se situa, por sua vez, no próprio entrecruzamento do
“tribunal” com os “pais”, sejam esses últimos biologicamente definidos ou não, estejam
fisicamente presentes ou, ao contrário, apareçam apenas como seu avesso: os pais ausentes,
a representação da falta, da incompletude ou do desvio frente a um modelo idealizado. Seu
material privilegiado de análise são processos de guarda e, em menor proporção, de adoção;
seu tempo, os anos que envolvem a passagem entre um código legal que vigorou, com
modificações, por mais de setenta anos, e uma legislação caracterizada por seus defensores
como “nova” em todos os sentidos do termo1. Tais processos, compreendidos atualmente na
rubrica legal da colocação em família substituta, tematizam questões em torno das
obrigações daqueles que legalmente são definidos como responsáveis por indivíduos em
condição de menoridade e das formas de intervir sobre ambos – menores e responsáveis.

1
Refiro-me aqui à passagem do Código de Menores de 1979 (Lei nº 6.697), considerado uma continuação do
primeiro Código de Menores (Dec. 17.493 a), de 1927, para o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei
8069), de 1990. Essas mudanças legais serão comentadas mais à frente.

5
Nesse sentido, poderia dizer que a preocupação imediata desta tese é buscar descrever e
compreender como se constróem formas específicas de regulação social, envolvendo a
administração estatal – o “tribunal”, de Kafka – e redes de indivíduos ou configurações
domésticas – os “pais”, de Oz – a partir de uma condição legal, a menoridade. Antes de
descrever mais detalhadamente o universo empírico da pesquisa, gostaria de discutir um
pouco o que compreendo como menoridade e porque opto por esse termo em lugar de
outros, usualmente mais utilizados – e mesmo eticamente defendidos ou, no momento
presente, legalmente corretos – para tratar de temáticas envolvendo indivíduos situados em
uma dada faixa de idade, tais como infância ou juventude.

Antes de mais nada, o uso do termo menoridade permite um maior afastamento com
categorias muito naturalizadas, como infância ou crianças, imediatamente associadas a um
dado período de vida. Além disso, menoridade imediatamente evoca uma relação – com a
maioridade, seu contraponto – e com um tipo específico de regulação social, vindo do
universo jurídico. Assim, se uso em diferentes momentos os termos menor e os termos
criança e adolescente, bem como seus correlatos (“menino”, “menina” etc), isso se deve à
utilidade singular de cada um desses termos. Quando opto por crianças ou adolescentes,
valho-me de representações que tais palavras carregam, ou seja, refiro-me a como
usualmente concebemos indivíduos que estão compreendidos em uma certa faixa etária. Já
quando uso menor, estou procurando enfatizar a posição destes indivíduos em termos legais
ou de autoridade. Esse ponto é importante para destacar aquilo que considero um dos
pressupostos centrais dessa tese: a menoridade é, antes de mais nada, uma relação de
autoridade e, mais especificamente, de dominação.
Conceber a menoridade como uma relação de dominação possibilita separá-la da
infância como etapa de vida ou como conjunto de representações. Nesse sentido, a primeira
diferença concreta a ser apontada entre os termos é que nem todos os menores são crianças
ou, dizendo de outra forma, que nem todos os que se encontram em condição de
menoridade correspondem às representações constituintes da infância. Se esta última, como
antropólogos e historiadores têm apontado há anos, não pode ser tomada como universal ou
a-temporal, também a menoridade obedece a variações semelhantes. Aqueles que estão
nessa condição não o estão por características intrínsecas e imutáveis, mas sim por
enquadrarem-se em certas concepções sobre as possibilidades de participação em um dado

6
universo social e, em especial, pela posição que ocupam em relações variadas de
autoridade. Nesses termos, se contemporaneamente menores e crianças são coincidentes e,
mais que isso, se crianças correspondem à imagem melhor acabada do que sejam menores,
isso se dá pela possibilidade de convergência entre as representações que compõem e
traduzem tais condições/relações.
Ser menor é, sobretudo, encontrar-se em posição de autonomia parcial, por
quaisquer motivos que sejam considerados operantes em um dado momento e em uma dada
configuração social. É, nesse sentido, ser compreendido como estando em situação de ter
alguém que responda por si, que seja seu responsável, permanecendo incluído em um
conjunto de relações de autoridade em posição subordinada, ou seja, não apenas colocado
em meio a relações de interdependência, mas de sobretudo de assimetria. Menores podem
ser mulheres, escravos, filhos não casados, agregados, loucos, índios, enfim, todos aqueles
que, em uma configuração social específica, sejam compreendidos como incapazes (ou
relativamente incapazes) de responderem de forma integral por seus atos 2. Os que precisam
de um tipo peculiar de proteção: a proteção de estarem submetidos à autoridade responsável
de outro indivíduo ou conjunto de indivíduos.
Ao frisar a parcialidade de autonomia – e de autoridade – como eixo de definição da
condição de menoridade, estou considerando que tal parcialidade se constrói
essencialmente como condição jurídica, ou seja, não estou tomando toda e qualquer
subordinação como uma relação de menoridade – embora, de forma mais livre, isso
pudesse ser feito – mas apenas aquelas que são sacramentadas legalmente. Recorrendo a
uma comparação histórica, se buscarmos no primeiro Código Civil republicano brasileiro a
condição de menoridade, a encontraremos destinada a mulheres, selvícolas, loucos e a
menores por idade (considerados incapazes até 16 anos e relativamente incapazes até 21
anos)3. Ou seja, encontraremos pares legais organizados a partir de critérios internamente
variados, mas que têm como denominador comum a percepção de uma incapacidade,
mesmo que relativa, em participar plenamente da vida civil.

2
Discutindo o tipo ideal da dominação patrimonial, Weber coloca que a autoridade do dominus não pode ser
compreendida nem como circunscrita ao poder doméstico, em um sentido estrito, nem como separado dele.
Por outro lado, ao aproximar a figura do filho à do escravo, compreendendo a ambos como parte do domínio
patriarcal, Weber coloca em destaque uma dimensão crucial das relações que envolvem “menores” – sejam
eles de que tipo forem - a parcialidade de sua autonomia e o fato de que a autoridade sobre eles se constitui
um bem de autoridade significativo (Weber, 1996: 753/756)

7
Por outro lado, se a menoridade não pode ser identificada exclusivamente com a
idade – organizadora de categorias variadas como infância, adolescência, juventude etc – é
impossível desconhecer a estreita relação entre ambas. Mais do que uma identificação ou
uma correspondência legal, a infância em suas representações nas ditas sociedades
ocidentais contemporâneas desempenha também o papel de melhor tradução da condição
de menoridade e, em especial, da sua aparente naturalidade. Ao ser tomada sobretudo como
condição que significa a inviabilidade da participação plena dos indivíduos, o que equivale
a dizer o seu reconhecimento efetivo enquanto indivíduos, no sentido de sujeitos dotados de
capacidade de discernimento, livre escolha e pleno exercício da racionalidade, a
menoridade encontra na infância sua representação contemporânea mais eficaz. A
correspondência aparentemente simples entre menoridade e infância, porém, tem sido
confrontada com pelo menos duas vertentes de críticas ou de desnaturalização, nenhuma
das quais pretendo desenvolver aqui.
A primeira delas vem de discussões tecnicamente jurídicas e que encontram ecos e
problematizações também em canais não jurídicos, como no que se poderia chamar aqui de
modo um tanto vago de “mídia”: os limites etários a serem demarcados para a menoridade,
colocados em contradição prática em determinadas situações4. A imprecisão desses limites
ou o desejo de modificá-los demonstra de maneira bem concreta o quanto o arbitrário dessa
naturalização nem sempre passa desapercebido, por mais que seja um dado social aceito
sem maiores contestações. Uma segunda vertente de problematizações vem do que se
poderia chamar, também de forma imprecisa, de um campo militante-acadêmico em torno
das discussões sobre as condições discricionárias e socialmente desiguais envolvendo
infâncias. A força estigmatizante do termo menor foi recorrentemente apontada por
diversos atores, tanto através de produções acadêmicas, quanto de diferentes expedientes de
intervenção simbólica5.

3
Sobre o Código Civil republicano, ver Beviláqua, 1921.
4
Para mencionar apenas três dessas contradições ou debates, citaria a questão do limite (opcional) de 16 anos
para exercer uma das obrigações/direitos de cidadania – ie, de pertencer, na condição de indivíduo, a uma
comunidade política nacional mais ampla –, o voto e o limite de 18 anos para obter outros reconhecimentos
legais (como, para citar um exemplo prosaico, o da habilitação para dirigir); as discussões sobre as
possibilidades de redução da imputabilidade penal plena de 18 para 16 anos ou ainda a problemática fronteira
etária para os casos de pedofilia.
5
As discussões em torno do caráter discriminatório do termo menor, como antagônico às representações de
infância, ganharam repercussão sobretudo ao longo da década de 1980. Em muito contou para isso a maior
participação tanto de organizações não governamentais, quanto de instituições como a CNBB (Confederação

8
Meu objetivo aqui, como dito antes, não é retomar tais esforços, mas definir de
modo mais preciso a problemática com a qual pretendo lidar: a da menoridade como uma
relação que supõe certa qualidade de subordinação e, de modo mais específico, que se
constrói socialmente não apenas através de sua definição legal mas, partindo dela, de uma
série de tecnologias de controle6. Para tanto, é preciso pensar, antes de mais nada, que tais
tecnologias têm como um de seus fundamentos a própria aproximação indicada antes entre
representações de infância e a condição de menoridade como sendo, aparentemente, apenas
a conseqüência legal de tais representações. Nesse sentido, as limitações tomadas como
“naturais” à infância, por um lado, e o seu caráter de transitoriedade, por outro, imprimem à
menoridade, seu correspondente legal, uma dimensão fortemente tutelar, seja pela idéia de
que é necessária a demarcação de alguém que responda por esses indivíduos incompletos,
seja pela idéia de que a transição da menoridade à maioridade deve corresponder a um
período de (trans)formação.
Para explorar essas questões, escolhi como universo empírico um conjunto de
situações envolvendo a transferência da responsabilidade legal sobre menores. Trata-se
predominantemente de processos de guarda ou, em menor número e também com menor
peso para a análise que será apresentada ao longo da tese, de adoção. Nos processos de
guarda, a responsabilidade que está sendo legalmente estabelecida não modifica a relação
de maternidade/paternidade, sendo escolhido como guardião do menor uma pessoa distinta
dos pais biológicos (avós, tios, conhecidos etc.). Não estou analisando, portanto, situações
de guarda envolvendo os próprios pais, como usualmente ocorre em processos de separação
conjugal, avaliados pelas varas de família7. Esta diferença deve-se a estar trabalhando com
um aparato administrativo específico, a atualmente designada Justiça da Infância e da
Juventude e, mais especificamente com situações que tramitam pela 1ª Vara, encarregada
da resolução de processos civis (cabem à 2ª Vara os processos criminais).

Nacional dos Bispos do Brasil) que, através de campanhas na televisão – no caso da CNBB – ou da
publicação e divulgação de pesquisas deram maior visibilidade a essas questões. Em termos legais e
administrativos, os efeitos de tais questionamentos podem ser sentidos na própria substituição do termo menor
por crianças e adolescentes tanto no ECA, quanto no caso das instâncias judiciais, cujo nome foi alterado.
Para um quadro da literatura e dos debates deste período, ver Alvim e Valladares (1988) e Pilotti e Rizzini
(1995).
6
Essa expressão está sendo utilizada aqui no sentido trabalhado por Foucault (1986, 2000) e será
desenvolvida no capítulo 1.
7
Essas diferenças e as características específicas dos processos com os quais estou lidando serão melhor
descritas das no começo do capítulo 2.

9
Concentrei a pesquisa em processos que tramitaram no período de transição do
Código de Menores de 1979 (Lei 6697/79) para o Estatuto da Criança e do Adolescente –
ECA, promulgado em 1990 (Lei 8069/90). Todos os processos analisados na tese tiveram
seu início entre 1989 e 1991, sendo que, nos casos em que seu início deu-se ainda na
vigência do Código de Menores, a resolução final – a sentença definindo a guarda ou
adoção – já ocorreu sob o Estatuto.
Como à transição dos códigos legais correspondeu também uma transição de
nomenclatura administrativa, passando o antigo Juizado de Menores a ser designado como
Justiça da Infância e Juventude, tive que optar por um termo único para designar, ao longo
da tese, essa instância. Escolhi Juizado como o termo que sintetiza essas diferentes épocas,
empregando-o mesmo para processos iniciados depois da mudança de nomes, pelo fato
deste ser, ainda hoje, o termo pelo qual usualmente a Justiça da Infância e Juventude é
conhecida. Ou seja, dada a necessidade de padronizar a nomenclatura, recorri, de forma
consciente, ao “senso comum”, o que faz sentido em uma tese que não trata apenas, como
discutirei ao longo do trabalho, de um aparato administrativo que “vai” até às pessoas, mas
que também as “recebe”, na condição ao mesmo tempo de quem fiscaliza – e pune, em
determinadas circunstâncias – diferentes atos, mas também de quem presta serviços. Os
processos de guarda e adoção, especialmente, mantém esse duplo caráter na medida em que
são normalmente processos movidos a partir da iniciativa de indivíduos que buscam a
administração para dela obter o reconhecimento legal de uma dada relação.
Tive acesso a esses processos através do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, onde
eles se acham depositados, mas não abertos a consulta à pública sem prévia autorização da
Justiça da Infância e Juventude. Assim, solicitei, através do Arquivo Nacional, a
autorização para sua consulta junto à 1ª Vara, com o compromisso, é claro, de sigilo acerca
dos nomes verdadeiros dos envolvidos. O recorte que fiz não obedece a nenhum critério
estatístico, uma vez que seria impossível definir uma amostragem quantitativa para o
volume dos processos que tramitam anualmente pela 1ª Vara, ao menos em uma pesquisa
tão “artesanal” quanto esta, sem perder a possibilidade de analisar mais detidamente os
processos. Além disso, não há, nem na Justiça da Infância e Juventude, nem no Arquivo
Nacional, para o período trabalhado, dados precisos sobre a quantidade e características dos

10
processos8. É possível dizer, porém, que a média anual de casos de guarda e adoção neste
período fica em torno de 600 processos concluídos. As estimativas do Arquivo Nacional,
porém, são superiores a essa média, ultrapassando o número de 1000 processos por ano 9. A
diferença explica-se pelo fato de serem depositados no Arquivo Nacional todos os
processos que foram iniciados e tramitaram com esse fim, e não apenas aqueles que
chegaram a ser concluídos. Ou seja, estão também arquivados os casos em que há
desistência dos pedidos de guarda ou adoção que motivaram a abertura do processo, ou
casos em que simplesmente os demandantes não retornam ao Juizado.
Junto ao Arquivo Nacional, solicitei cerca de 100 processos cujo início estivesse
disposto nesse período de transição legal. Após uma leitura e exploração inicial desses
processos, recortei um universo menor, de cerca de 60 processos, que podem ser vistos no
quadro em anexo a essa tese. Essa seleção teve por critério a recorrência dos temas neles
presentes, por um lado, e a existência de depoimentos que pudessem ser melhor explorados.
Muitos dos casos selecionados, porém, são aparentemente sintéticos e breves, o que não
deixa também de ser interessante, na medida em que eles permitem que se perceba o que
pode ser caracterizado como casos de mais fácil (ou rápida) resolução, do ponto de vista
administrativo. É preciso dizer ainda que também investiguei processos situados em outros
períodos, chegando a sistematizar alguns deles, como os que dizem respeito à fase inicial da
Justiça, então designada Juízo de Menores, mas acabei por não incorporá-los à tese por não
ter como construir de modo mais controlado e satisfatório a longa trajetória desse aparato
de administração da menoridade. Assim, antes de apresentar mais algumas discussões que
serão importantes no correr da tese como um todo, gostaria de expor alguns dados sobre a
trajetória da própria pesquisa.

8
Atualmente a Justiça da Infância e Juventude conta com um serviço de estatística, que começa a oferecer
dados e tabulações para pesquisadores e outros interessados, envolvendo não só o número de casos de guarda
e adoção, mas divisões por idade ou sexo, bem como o tempo gasto na sua tramitação. Esses dados só
contemplam, porém, os processos que tramitaram a partir de 1998. Para alguns períodos anteriores ao que
trabalho aqui, também é possível obter dados mais sistemáticos, embora não tão detalhados como os que
agora começam a ser produzidos pelo serviço de estatística.
9
Na época em que selecionei os processos, eles haviam sido recebidos há pouco tempo por essa instituição,
não havendo – como ainda não há – disponibilidade de funcionários para organizar de forma mais ordenada
esse material. O volume de processos vindos da 1ª Vara ultrapassa, em verdade, em muito esse número,
chegando a mais de 5000 por ano, tanto pelas estimativas do Arquivo Nacional como por levantamentos feitos
por outros pesquisadores (ver, por exemplo, Bulcão, 2001). Esse volume, porém, corresponde a requisições
variadas, e não apenas a processos de guarda ou adoção.

11
Impasses, incômodos e questões de uma pesquisa

Quando comecei a organizar essa pesquisa, ainda como projeto de ingresso no


doutorado, tinha em mente dar continuidade a certas perguntas feitas durante a pesquisa e
redação da dissertação de mestrado e, ao mesmo tempo, mudar um pouco o rumo dessas
reflexões10. Minha inquietação mais visível dizia respeito à vontade de trabalhar com
contextos mais próximos, mais contemporâneos mesmo, no sentido da simultaneidade
temporal – ou de sua ilusão – entre pesquisador e pesquisados. Sabia então que a
preocupação com o sentido histórico dessa contemporaneidade de qualquer forma estaria
presente, menos pelo trabalho feito antes ou pelos vícios de formação, e mais pela certeza
de que aquilo que chamamos de “histórico” pode ser sempre melhor entendido como
processo, dimensão nunca estática de compreensão dos mundos presentes.
Por outro lado, tinha também o desejo de trabalhar com o que me parecia uma
dimensão em certa medida menos espetacular das formas de regular e controlar infâncias –
ou menoridades, como explicado – em comparação com o que havia feito antes. Se a
construção de infâncias definitivamente “erradas” e sujeitas ao controle do aparato
administrativo mais explicitamente repressivo, a polícia, havia centralizado meus esforços
de compreensão em um momento anterior, motivava-me pensar sobre uma área mais
“cinza”, em que esse controle não parecesse ser exercido de forma tão explicitamente
repressiva – pelo menos como pode ser retratado por investigadores do presente – mas de
modo aparentemente mais conciliador e, nesse sentido, de mais difícil questionamento.
Devo dizer também, para ser tão honesta quanto as “ilusões biográficas” permitem,
que outra experiência de trabalho já havia me atraído para um tipo peculiar senão de objeto,
ao menos de narrativa, aquela que é estabelecida pelos processos judiciais. Mesmo
reconhecendo a parcialidade desse tipo de narrativa, a perspectiva de confrontar relatos e
argumentos produzidos em meio a situações de impasse também desempenhou seu papel na
escolha dos pontos de partida da pesquisa. Correndo o risco de reforçar ainda mais o poder
ilusório dessas biografias parciais que vamos produzindo ao remontar motivações e

10
Refiro-me à minha dissertação de mestrado, na qual trabalhei com a detenção, triagem e internação de
menores pela polícia nas décadas de 1910 a 1920, publicada mais tarde com algumas alterações (Vianna,
1999).

12
percursos de pesquisa, não vou relatar aqui todos os desvios e, sobretudo, todas as
desistências que marcaram a passagem de um vago e impreciso projeto inicial de pesquisa
para o que apresento agora, o fictício “produto final” que, creio, todos sabemos nunca ser
tão final assim. Posso apenas dizer que o percurso como um todo acabou sendo mais
custoso de ser cumprido do que eu previa. Só com muito tempo transcorrido, talvez tempo
demais, pude perceber que seus custos diziam respeito menos a impasses concretos,
materiais de pesquisa, que à própria natureza do que procurei fazer. Se as áreas “cinzas”
podem ser intelectualmente motivadoras, e para mim o são, devo dizer que cobram seus
custos sob forma não apenas de perplexidade analítica, mas também ética e, em um sentido
mais amplo, moral11.
A partir do momento em que decidi concentrar o material de pesquisa
prioritariamente em processos civis datados do período de transição do Código de Menores
para o Estatuto da Criança e do Adolescente, duas questões de ordens diferentes se
impuseram. A primeira delas, já mencionada aqui, foi a impossibilidade em realizar um
trabalho estatisticamente representativo, em razão da imensa quantidade de processos que
tramita por ano no Juizado e pela forma como encontram-se guardados no Arquivo
Nacional, sem maiores indexações, e a segunda, a própria natureza do material. Ao abrir,
ler e procurar escolher processos com os quais trabalhar, defrontei-me com incômodos e
dificuldades que dizem respeito ao que se poderia chamar de impasses morais. Se falo deles
nessa Introdução, porém, é menos para justificar ou (re)contar sobre uma experiência
singular de pesquisa, e mais porque acredito que a necessidade de pensar socialmente sobre
esses incômodos acabou determinando muito da forma final que a tese assumiu e, dizendo
de um modo bem direto, porque não creio que se limitem a mim.
O rotineiro dos dramas apresentados ao Juizado e transformado em processo, bem
como as soluções administrativas construídas para esses dramas não permitem, como nos
temas mais espetaculares em torno da infância – o crime, a repressão policial, os
extermínios etc – que se adote tão claramente a postura entre o acadêmico e o militante que

11
Uso moral no sentido do “dever ser” que acompanha e orienta os atores sociais em suas escolhas e na avaliação
de seus próprios atos e de outros. Como Durkheim chama a atenção, esse “dever ser” envolve comandos negativos
e positivos (Durkheim, 1972: 97), ou seja, envolve tanto a possibilidade de se sentir bem, em um “sentido não
efêmero”, como Durkheim coloca no mesmo texto, ou sentir-se mal, em situações nas quais se está diretamente
envolvido ou não. A discussão sobre o que pode ser compreendido como ações ou obrigações morais, embora
apareça mais adiante, ainda nesta Introdução, será feita de forma mais detalhada no capítulo 4.

13
parece orientar, e às vezes resolver analiticamente, a reflexão. Conviver com o que parece
ser o absurdo não só desses dramas, mas do seu tratamento administrativo e não conseguir,
mesmo que para conforto pessoal, demarcar claramente as posições morais a serem
adotadas por todos, ou a serem projetadas para diante, parece ser algo maior do que um
dilema pessoal, em sentido estrito. Parece ser algo que precisa ser discutido, na medida em
que diz sobre significados que esses dramas e seus atores – sobretudo os enquadrados na
moldura algo sagrada da infância – têm para o universo social e cultural onde pesquisador e
pesquisados se encontram.
O caminho que encontrei – ou que se impôs pelos próprios elementos internos aos
processos – foi transformar alguns desses impasses em matéria de análise, procurando
pensar como uma certa linguagem moral constrói tais processos e como se apresenta sob a
forma de atos administrativos. Nesse sentido, ao invés de tentar escamotear meus próprios
incômodos frente a determinadas situações ou relatos, busquei fazer o movimento de todo
antropólogo: colocar questões a esses mesmos relatos, esforçando-me para compreender o
que em princípio parecia incompreensível. Dissecar o que seriam, nessas situações
específicas, os cuidados com uma criança a serem valorizados, que pessoas poderiam
representar a melhor opção de guarda, de que forma a gratidão e outras formas de dívida
moral se colocavam para os envolvidos, as emoções que precisavam ser expressas em meio
a audiências etc, permitiu-me criar a objetividade que em um primeiro momento acreditei
não ser possível.
Assim, o espaço temporal entre perceber o quanto os relatos “roubados” por mim
como pesquisadora me comoviam e, às vezes, atordoavam, e as tentativas de transformá-los
em matéria de análise corresponde, em verdade, ao espaço que separa a experiência de
pesquisa em si da sua re-elaboração ou, como consagrou Geertz (1989), o “estar lá” do
“escrever aqui”. Por outro lado, meu “estar lá” não significou, como procurarei discutir no
capítulo 2, a forma mais facilmente identificável com o trabalho do antropólogo, ou seja, o
“campo”, a interação face-a-face. Se estive em algum lugar, em alguma experiência
etnográfica de questionamento e observação, esse lugar é o do amontoado de processos
arquivados, guardados, selados a olhos não autorizados. E, dentro deles, o que ficou
registrado e sedimentado de diferentes negociações, conflitos e dramas que, por razões

14
variadas, chegaram às barras de um tribunal peculiar como o encarregado de resolver
problemas da menoridade.
Enfatizar a natureza específica da realidade de pesquisa feita é importante para
demarcar o universo com que essa tese pretende estar se lidando ou à qual deseja se filiar.
Embora eu procure apontar e discutir representações em torno da infância, especialmente
em torno do que sejam as formas socialmente corretas de cuidar de uma criança, base e
linguagem de todo processo de guarda, não estou apresentando uma tese sobre infância. Por
outro lado, se as relações e categorias presentes nos processos dizem respeito sempre a
famílias, nem que seja por seu avesso, também não me considero fazendo uma tese voltada
para o que poderia ser chamado de uma antropologia das famílias. Por fim, em que pese
estar trabalhando fundamentalmente com processos judiciais e, por isso mesmo, sendo
obrigada em diversos momentos a refletir sobre algumas especificidades desse mundo,
também não pretendo que esse trabalho seja visto como um exemplo de antropologia do
direito. Isso não quer dizer que acredite estar fazendo algo “acima” ou supostamente mais
complexo do que qualquer desses hipotéticos campos ou sub-campos de pesquisa. Se faço a
menção ao que a tese não é, isso não se explica por qualquer desejo pretensioso de vê-la
inscrita em algum lugar “especial” ou “original”, e sim para justificar um pouco as
múltiplas ausências – bibliográficas, temáticas, analíticas – que com certeza serão sentidas
pelos que a lerem.
Colocadas todas essas negativas, é óbvio que me cabe explicitar qual o ponto em
que considero que esse trabalho se coloque. O que procuro fazer talvez possa ser melhor
enquadrado como uma investigação em torno da gestão administrativa de menoridades.
Dizer isso é dizer que me preocupa sobretudo perceber os modos pelos quais uma
determinada instância administrativa recebe, caracteriza e lida, no plano da produção de
seus registros administrativos, com problemas que legalmente estão colocados sob sua
alçada, bem como que tipos de solução encontra para esses problemas. Sendo assim, minha
preocupação principal é discutir como critérios de avaliação e expedientes de gestão são
produzidos para que se “guarde” crianças, ou seja, para que se encontre ou ratifique
relações (e pessoas, portanto) que se responsabilizem por tais crianças e jovens durante sua
menoridade. E, uma vez que estou lidando não com a observação direta de atos dos

15
diferentes envolvidos em um processo, mas do que fica sedimentado desses atos, o que é
considerado como válido ou pertinente de figurar nos registros oficiais dessas transações.
Nesse sentido, como coloquei no início, o foco do trabalho está dirigido para o
encontro específico entre o “tribunal” e as famílias, termo carregado de significações e que
enfeixa múltiplas possibilidades. Como dizem as epígrafes, o “tribunal” deixa ir e os “pais”
continuam existindo, ou seja, para além do momento desse encontro específico,
representado pelo início e finalização dos processos civis, cada parte ou instância continua
a se confrontar com suas próprias questões. Antes de discutir um pouco das implicações em
trabalhar com esses dois pólos – o Juizado e as famílias – gostaria apenas de explicar
porque opto pelo termo administração em lugar de outros, como “Justiça” ou,
principalmente, “Estado”.
A opção por tratar os processos como peças administrativas permite, antes de mais
nada, trabalhar a partir de uma concepção mais precisa em relação às ações e esforços de
ordenação social empreendidos através dos processos. Desse modo, possibilita conduzir a
análise na direção mais das práticas e estratégias empregadas para gerir certos “problemas”,
do que de formulações abrangentes em torno das funções ou poderes do Estado. Mesmo
quando a discussão é dirigida para algumas dessas formulações mais abrangentes, como no
caso de alguns pontos que serão trabalhados no capítulo 1, o que dá sentido a elas é a
preocupação com as práticas administrativas, com o modo pelo qual, cotidianamente,
impasses são conduzidos para uma direção específica. Desse modo, posso dizer que ao falar
em administração estou buscando lidar com uma certa dinâmica de dominação – que pode
ser chamada de Estado – capaz de compreender as relações estabelecidas entre o aparato
judicial e as famílias ou unidades domésticas, como os gestores sociais da infância. Ao
invés de apenas antagonistas, portanto, a administração e as unidades domésticas podem ser
compreendidas também como partes de uma mesma relação. Com isso, procuro ainda evitar
o que considero que sejam falsos antagonismos, tais como os estabelecidos entre “público”
e “privado” ou entre “Estado” e “família”. Para que isso fique mais claro, procurarei
explicitar algumas questões que estão orientando as discussões feitas na tese tanto a
respeito do universo das relações legais e judicais, quanto das familiares ou domésticas.

16
A legislação e as experiências judiciais

Os processos escolhidos para essa tese distribuem-se, como dito, na passagem do


Código de Menores de 1979, usualmente considerado um desdobramento do Código de
Menores de 1927, e o Estatuto da Criança e do Adolescente (doravante ECA). Essa
passagem significou, no plano legal, uma mudança de perspectivas e princípios
doutrinários, na medida em que a doutrina da situação irregular, marcada pela preocupação
em intervir sobre infâncias consideradas “erradas” – infratoras, “abandonadas” etc – foi
substituída pela doutrina da proteção integral e, no plano das ações judiciais, pela busca do
melhor interesse de crianças e jovens. Esforços pela transformação legal do primeiro
Código de Menores, como alguns autores apontam, já vinham presentes, de formas
diferentes, desde a década de 1940 sendo que, sobretudo a partir dos anos 1970, acirraram-
se as críticas ao pressuposto de que a intervenção judicial deveria ocorrer frente a situações
distribuídas ao longo do eixo abandono-delinqüência12.
A vitória em 1979, quando da promulgação do novo Código de Menores, da
corrente jurídica “menorista”, representada pelos magistrados reunidos em torno da
Associação de Juízes de Menores do Rio de Janeiro, sobre a corrente formada por
representantes do Ministério Público de São Paulo, renovou as concepções que orientavam
o primeiro código, através da doutrina da situação irregular. Durante os dez anos seguintes,
porém, as críticas ao código se ampliaram, tendo papel importante nessas críticas a
produção de pesquisas sobre a infância, especialmente sobre os temas da “infância de rua”
e das implicações do modelo de internamento de crianças em grandes instituições13.
Legalmente a primeira mudança ocorreu quando da elaboração da nova Constituição, em

12
Antes do Código de Menores ser promulgado em 1927, as questões em torno da condição de menoridade
dispersavam-se entre diferentes códigos, como as Ordenações Filipinas, no período colonial, a Constituição
do Império, de 1824 e o Código Criminal, também imperial, de 1830, ou, quando da instauração do regime
republicano, entre diferentes códigos, como o Código Penal, de 1890, a Constituição republicana, de 1891, o
Código Civil, de 1916, além de outras regulações de menor peso jurídico versando sobre a assistência à
infância. Um panorama da legislação voltada à infância pode ser encontrado em Pilotti e Rizzini, 1995, e em
Rizzini, 2000
13
Em balanço acerca das pesquisas sobre infância realizadas ao longo da década de 1980, Irene Rizzini e Irma
Rizzini indicam a concentração dessas pesquisas sobretudo nos temas da infância institucionalizada e do que
ficou conhecido pelo termo “meninos de rua”. Nos dois casos, as pesquisas reforçaram as discussões sobre a
ineficácia de um código legal centrado em medidas corretivas e em concepções estigmatizantes sobre crianças
“com família” ou “sem família” (as “abandonadas”). Ao iniciar a discussão sobre a complexidade das
situações envolvendo crianças vivendo ou trabalhando nas ruas, essas pesquisas colaboraram para a
desmontagem, ao menos parcial, dessa dicotomia (Rizzini e Rizzini, 1991)

17
1988, que incluiu no seu art.227 as linhas gerais do que viria a ser a nova legislação para
infância. No ano seguinte, 1989, a ONU aprovou a Convenção Universal de Direitos da
Criança, dando novo suporte para a promulgação de uma legislação centrada na concepção
de crianças e jovens como sujeitos de direito especiais.
Assim, com esta nova legislação, entrou em cena, no plano legal, outra concepção
acerca da infância e, sobretudo, das obrigações e responsabilidades do Estado frente a
crianças e jovens. Tomá-los como sujeitos de direito especiais significa que indivíduos
menores por idade são legalmente portadores de direitos, embora não possam, nem devam,
ser reconhecidos como iguais em termos civis ou penais aos que são maiores por idade. E,
sobretudo, que esses direitos, pela condição de sujeitos especiais que caracteriza tais
crianças e jovens, devem ser garantidos não apenas pela família ou pelo Estado, mas por
todos os membros da sociedade.
O ECA coloca, desse modo, na condição de direitos “todas as oportunidades e
facilidades a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e
social” (Art. 3º) e, na condição de “dever da família, da comunidade, da sociedade em geral
e do Poder Público” a efetivação desses direitos (Art. 4º). Essa perspectiva, desnecessário
dizer, enfrenta várias dificuldades para se implementar completamente, seja por confrontar-
se com situações concretas em que fica impossível exigir mínimos sociais para esses
sujeitos especiais sem que haja como oferecê-los aos que estão ao seu redor ou como dispor
de mecanismos políticos de redistribuição de benefícios sociais através do aparato estatal;
seja porque a própria legislação apresenta, como apontam Fonseca e Cardarello,
contradições internas aparentemente insolúveis14.
Nesse sentido, é possível caracterizar não apenas o ECA, mas todas as legislações e,
de modo singular, as legislações voltadas para a infância, como enunciados acerca do
“dever ser” das sociedades. Usando os termos de Geertz, é possível pensá-las como uma
forma de imaginar o real que orienta e dialoga com formas de intervir sobre ele, ou seja,
como uma “linguagem da imaginação” e uma “linguagem da decisão” (Geertz, 1983: 174;
232). O foco desta tese, porém, não está localizado nessa “linguagem da imaginação” que

14
As autoras destacam especialmente a contradição entre o art. 19 do ECA, que garante que as crianças têm o
direito de “ser criados e educados no seio de sua própria família” e o art. 4, mencionado acima, que lhes
garantiria o direito a ter acesso à saúde, educação, alimentação, esporte e lazer, o que obviamente muitas
famílias não podem assegurar a seus filhos. (Fonseca e Cardarello, 1999: 103)

18
os textos legais propõem, mas no que se poderia chamar dos “expedientes da decisão”. Ou
seja, em como a “linguagem da decisão” de que fala Geertz converte-se em estratégias,
técnicas e procedimentos para gerir problemas sem ferir nem chocar-se com a
“imaginação” legal.
Ao escolher o momento de transição entre dois códigos tão distintos em termos de
concepções e projetos de gestão da infância, minha intenção era também perceber o esforço
dos diferentes operadores em realizar essa conversão de linguagem. Talvez pelo fato dos
processos estarem concentrados em um intervalo muito pequeno de tempo, não foi possível
perceber algo semelhante. Ao contrário, o que aparece no conjunto dos processos é tanto
uma certa continuidade no uso dos termos – o termo menor é corrente, por exemplo –
quanto uma apreensão bastante confortável da doutrina do melhor interesse, uma vez que
esta, mesmo que colocada em relação à proteção integral e à concepção de crianças como
sujeitos de direito, não se choca com expedientes já utilizados não só imediatamente antes
da promulgação do ECA, mas há muito mais tempo15. Friso, porém, que qualquer
consideração maior sobre isso seria leviana nos contornos dessa tese. Somente uma análise
que contemple períodos mais largos de tempo poderia oferecer indicativos melhores nessa
direção.
Dito isto, gostaria de voltar a uma das preocupações presentes nessa tese. Embora a
legislação seja a referência básica que orienta e define os contornos das ações judiciais,
estas não podem, como antropólogos têm apontado há décadas, ser deduzidas
exclusivamente da legislação16. Entre os textos legais ou as regras explícitas e a ação

15
Este é o caso de um expediente que discuto no capítulo 5, a retirada de jovens – meninas, em especial – de
instituições estatais para desempenharem funções de trabalho doméstico, mas sob o registro legal da guarda.
Esse expediente, muito recorrente desde a criação do Juizado, em 1923, aparece com outra roupagem técnica
nos anos 1990, sendo acompanhado por assistentes sociais e abrindo espaço para que as jovens declarem sua
opinião sobre as novas relações estabelecidas. Apesar disso, é impossível desconhecer uma continuidade entre
esses dois momentos extremos da regulação da infância.
16
No caso da literatura antropológica, a preocupação com as formas de regulação social ganham especial
destaque a partir dos conhecidos trabalhos de Gluckman (1955) e Bohannan (1957) e das críticas e
desdobramentos que tais trabalhos ensejaram. Enquanto na análise de Gluckman o investimento etnográfico
combina-se à preocupação em demonstrar que “sistemas nativos” de regulação institucionalizada de conflitos
poderiam e deveriam ser tomados como dotados de racionalidade tanto quanto o “direito ocidental”, no
trabalho de Bohannan tais aproximações não fariam sentido, uma vez que as formas locais de regulação
deveriam ser compreendidas na especificidade de suas categorias e de sua lógica. Para uma explicitação desse
debate, ver também Nader (1969). Sally Falk Moore, em um balanço bibliográfico recente, aponta para o
quanto a compreensão da lei como cultura, como dominação ou como forma de resolução de conflitos
atravessou as diferentes produções antropológicas sobre direito nos últimos 50 anos (2001: 95-109). Em seu
próprio trabalho, por sua vez, a autora destacou a importância de se considerar, ao trabalhar com regulações

19
efetiva dos indivíduos e grupos, uma enorme gama de possibilidades de negociação,
apropriação e discordância se colocam. Para tanto contam, por um lado, o acúmulo e a
longevidade de certas práticas por parte daqueles que têm a obrigação, por sua posição, de
transformar tais regras em decisões, impondo-as a partir da autoridade singular de que
dispõem e, por outro, a própria dimensão de negociação que tais situações permitem. Desse
modo, ao trabalhar com os processos judiciais, e não com as legislações que fundamentam
tais processos, meu foco de análise necessariamente teve que se concentrar nessas duas
questões.
Começando, então, pelas práticas adotadas pelos especialistas do Juizado, creio ser
importante destacar que uma certa dubiedade de atribuições está inscrita no Juizado desde a
sua constituição como aparato voltado para decidir tanto questões criminais, quanto cíveis.
Mais que duplicidade de funções, o que essa dubiedade indica é uma certa correlação entre
dois campos de problemas: menores que cometem crimes e menores que precisam ser
preservados ou sobre os quais se deve intervir porque se encontram em situações que não
mais podem ser geridas exclusivamente por aqueles que mantém a autoridade e
responsabilidade diretas sobre eles. Nesses termos, os processos de guarda configuram
momentos de redefinição de autoridades, uma vez que dizem da ação de instâncias
administrativas – e seus especialistas – sobre aqueles que mantém originalmente, ou
pretendem manter posteriormente ao processo, uma relação de autoridade e
responsabilidade legais sobre alguém em condição de menoridade.
Na “interpretação autorizada de textos canônicos” que os especialistas produzem
(Bourdieu, 1986: 06), está em jogo, portanto, um processo de sobreposição de autoridades
diferenciadas e assimétricas (de pais ou guardiães sobre os menores, dos especialistas sobre
os não-especialistas) que exige desses especialistas a produção de um cálculo acerca das
possibilidades da relação entre guardiães e menores se realizar de forma satisfatória. Ou
seja, é necessário que os especialistas, ao produzirem uma decisão, orientem-se tanto pelo
cuidado em preservar sua própria autoridade, o que implica em não incorrer em desvios em

institucionalizadas, tanto a dimensão da história (e da transformação, nesse sentido), quanto a da


complexidade e interelação contraditória e conflituosa entre diferentes mecanismos de regulação (1978: 03-
06). As várias dimensões do direito, como categoria, regra e código também são destacadas no balanço que
Shelton Davis apresenta a respeito da “antropologia do direito” (1973: 10).

20
relação às possibilidades que os textos legais oferecem, quanto em calcular a eficácia da
decisão tomada para além do momento do processo em si.
A operação de avaliação e tomada de decisão – o “julgamento” – é, ainda segundo
Bourdieu, uma operação hermenêutica que dispõe de grande liberdade (idem: 09), na
medida em que não há, no conjunto das regras explícitas, como contemplar todas as
variáveis presentes em cada caso. Isso leva a discussão para o segundo ponto que coloquei
há pouco: as situações de avaliação formal e, mais especificamente, de avaliação judicial,
são também, em certa medida, situações de negociação, onde múltiplas (mas não infinitas)
possibilidades estão presentes. Desse modo, proponho que os processos analisados sejam
pensados não pelo prisma da aplicação das regras formalizadas na lei, mas como
experiências judiciais. Ou seja, como situações que, embora remetidas a um campo de saber
e a uma configuração específica de relações de autoridade, colocam-se como situações
relativamente em aberto, na medida em que permitem o uso, por seus diferentes
participantes, de expedientes variados de negociação17.
Nos processos de guarda, e em alguns processos de adoção, desempenha papel
importante a história prévia das relações estabelecidas entre os diferentes envolvidos. Nesse
sentido, as experiências judiciais – depoimentos, investigações realizadas por assistentes
sociais etc – são construídas também como situações de remontagem dessas relações e das
versões que os envolvidos apresentam sobre elas. Sally Falk Moore chama a atenção para a
complexidade das fontes de regulação e suas combinações, ou seja, para o modo como as
leis, ao representarem apenas uma forma possível, entre muitas outras, de regulação da vida
social, combinam-se de modo às vezes contraditório com outras formas e, em especial com
outras leituras acerca da causalidade de cada situação (Moore, 1978: 03-06)18. O modo
como as demandas iniciais são apresentadas ao Juizado, bem como as versões oferecidas
pelos diferentes participantes de um processo, têm importância como construções de

17
Aproximo-me aqui do que Norberto Bobbio (1989) chama de ordenamento jurídico, diferenciado da norma
jurídica na medida em que se compõe como um conjunto de normas interligadas cujas referências não se
esgotam na sua unidade formal; ou ao que François Ewald chama de experiência jurídica, englobando
transformações que dão conta não apenas das normas, mas do sistema jurídico em seus recursos, técnicas,
organização e epistemologia (1987: 29)
18
Refletindo sobre a etnografia em situações de conflito judicial, Gluckman destaca a necessidade de se
pensar, não só quando analisando esses situações, mas em muitas outras, na complexidade e incoerência que
elas carregam: “ao nos darmos conta que a cultura é, de fato, em certo sentido, uma mixórdia, que costumes e
valores independem uns dos outros, discrepantes, conflitivos e contraditórios, teremos de desenvolver

21
causalidades. Assim, o recurso ao Juizado pode ser representado em alguns casos como
expediente em certa medida “natural”, uma decorrência da história prévia das relações –
como nos casos em que os pleiteantes anunciam que querem “apenas regularizar uma
situação” – enquanto em outros pode estar marcado pelo medo da ação de outros, sobretudo
dos pais biológicos, que podem “querer de volta” uma criança, ou pelo sentimento de
injustiça frente à alguma atitude tomada por outras pessoas19.
Como todos esses pontos serão discutidos ao longo da tese, não vou expô-los aqui.
Gostaria apenas de destacar mais algumas questões importantes para análise das
experiências judiciais. A primeira delas liga-se à necessidade de pensar as múltiplas ordens
de negociação em jogo em um tipo de processo como esse, que freqüentemente envolve
pessoas que já se relacionavam antes e que continuarão a se relacionar depois. Como
Gluckman coloca, os processos podem ser apenas um momento entre vários outros de
relação entre as pessoas (1990: 70), o que faz com que seu tempo tenha que ser pensado, de
certo modo, como duplo: se há uma seqüência temporal que corresponde à experiência
judicial em si mesma, com suas etapas, requisições de comparecimento ao Juizado e visitas
de assistentes sociais às casas, e é dela que estarei me ocupando ao longo da tese, há
também outra seqüência que transcorre fora do Juizado. Desistências, mudanças de idéia,
novas mágoas ou possibilidades de conciliação nascem, dessa forma, tanto da própria
experiência judicial, quanto de outras situações que, desenrolando-se fora do “tribunal”, a
ele são levadas.
Esse tempo múltiplo, por sua vez, é também um tempo que combina o que
mencionei antes como sendo diferentes ordens de regulação. O que é apresentado ao
Juizado e o que ali se avalia não é apenas a legalidade das situações – quem detém o pátrio
poder, se suas ações são legalmente coerentes com os direitos das crianças etc – mas
também a compreensão moral que se têm dessas situações. Nesse sentido, os argumentos
que dão base às requisições, bem como a forma como a história prévia das relações é

conceitos para tratar da vida social que sejam menos rígidos e que possam dar conta da interdependência
como também falta de interdependência, do ocasional, quanto do sistemático” (Gluckman, 1990: 75-76)
19
A percepção da injustiça e suas razões é um dos pontos em que Luís Roberto C. de Oliveira se baseia para
problematizar a análise e a proposta de Geertz no sentido de buscar as diferentes “sensibilidades jurídicas”
presentes em culturas distintas. O incômodo dos participantes de um dado universo cultural em acatar e levar
adiante o cumprimento de regras deve considerar cuidadosamente, na perspectiva de Oliveira, a dimensão
contextual em jogo (1992: 34-35; o texto mencionado é Geertz , 1983). Para o caso dos processos analisados

22
apresentada, está eivada de significados e avaliações morais, traduzidas sobretudo na
linguagem do cuidado: o que se fez por uma criança, o que se está disposto a fazer, o que
outros que deveriam ter feito não fizeram. Essa linguagem do cuidado, por sua vez, é
também uma linguagem da emoção, que diz do empenho em construir relações afetivas,
dos sentimentos por uma criança ou da tristeza por sua ausência, do arrependimento em
relação a atitudes tomadas. A expressão tanto dos sentimentos, quanto das moralidades
compostas e entremeadas a esses sentimentos não pode, desse modo, ser tomada como algo
externo à legalidade em si do processo, mas como um dos atributos específicos da
linguagem que o conforma20.
Por fim, uma última questão diz respeito às experiências judiciais, entendidas no
sentido que coloquei antes, ou seja, como sendo também experiências de negociação,
comportarem esforços da parte dos especialistas em converter litígios em acordos. Nesse
sentido, o apelo ao melhor interesse da criança, quer seja compreendido em termos de
doutrina, quer em termos do saber prático dos especialistas, ao mesmo tempo em que
carrega forte conotação moral, apelando a um interesse superior aos das partes em disputa,
desempenha um papel operacional. O objetivo principal que norteia processos de guarda e
adoção é o da busca por uma casa na qual colocar ou manter uma criança. Para que esse
objetivo se cumpra, é preciso, da parte dos especialistas, um esforço não apenas em
desfazer certos conflitos, mas em conduzir as escolhas feitas na direção do que, a partir de
critérios variados, parece ser administrativamente mais rentável. Tal rentabilidade se traduz
principalmente na percepção de uma estabilidade maior ou menor das relações, bem como
naquilo que pode ser oferecido para que a formação/transformação de um menor em um
maior – de uma criança em um adulto – se faça do modo o menos ameaçador possível para
ele próprio e para os outros. Dessa forma, é no jogo entre o poder de intervenção dos
especialistas e aquilo que as famílias ou unidades domésticas têm a oferecer que se

ao longo desta tese, a dimensão contextual possível envolve esse recontar das relações que os envolvidos
fazem durante as diferentes etapas dos processos.
20
Como coloca Mauss, “todas as expressões coletivas, simultâneas, de valor moral e de força obrigatória dos
sentimentos do indivíduo e do grupo, são mais que meras manifestações, são sinais de expressões entendidas,
quer dizer, são linguagem. Os gritos são como frases e palavras. É preciso emiti-los, mas é preciso só porque
todo o grupo os entende. É mais que uma manifestação dos próprios sentimentos, é um modo de manifestá-los
aos outros, pois assim é preciso fazer. Manifesta-se a si, exprimindo aos outros, por conta dos outros. É
essencialmente uma ação simbólica” (Mauss, 1979: 153)

23
constróem as possibilidades de gestão de menoridades e que uma instância como o Juizado
encontra seu sentido propriamente administrativo.

Famílias e casas:

Todos os esforços acadêmicos, políticos e jurídicos contemporâneos em produzir


reflexões sobre as representações e possibilidades de gerir infâncias necessariamente
esbarram em discussões sobre formas, atribuições e projetos de famílias. As variações,
tanto no tempo, quanto em relação à diferença entre grupos em uma mesma sociedade, das
formas de compor as relações familiares têm ocupado antropólogos e cientistas sociais de
um modo geral, e se faz presente também nos corpos jurídicos e perspectivas doutrinárias
que regulam legalmente a infância. Voltando ao que foi dito a respeito da mudança na
legislação sobre a infância, na passagem do Código de Menores para o ECA está em jogo
também a mudança de visões ou valores em relação às famílias: de modelos mais
dicotômicos entre famílias regulares/normais ou irregulares e, por isso, desviantes, passou-
se a uma tentativa de considerar a legitimidade de uma pluralidade de relações.
Um dos pontos em que se assenta essa mudança é a contestação tanto política,
quanto acadêmica, sobretudo a partir dos anos 1960, ao modelo nuclear de organização das
relações familiares como o único (ou o mais) legítimo. A família nuclear, em princípio o
modelo ideológico privilegiado nas ditas sociedades ocidentais modernas para a “criação”
de crianças, vem sendo contestada, tanto frente a outras alternativas, quanto em relação à
sua própria eficácia em bem gerir individualidades. Estudos de gênero, acompanhados no
plano político por movimentos feministas, bem como a análise de formas alternativas e
minoritárias de organização familiar contribuíram em muito para a relativização desse
modelo e, em decorrência disso, para a legitimação, inclusive no plano do direito, de outros
projetos de vida familiar21.

21
Uma ampla gama de estudos têm colaborado para o questionamento da aparente naturalidade do modelo
nuclear. Para além da longa trajetória feita pela antropologia na busca por compreender as relações de
parentesco em diferentes universos culturais, bem como sua conexão com outros elementos de organização
desses universos, a eclosão mais recente de debates relativos à pluralidade de formas e projetos de família
indica que esse é um tema sempre em movimento e que comporta muito mais variáveis que as análises
dicotômicas (famílias nucleares x famílias extensas, ou famílias populares x famílias de classes médias)

24
Alguns elementos têm sido indicados por diferentes autores como importantes para
compreender a força desse modelo, enquanto modelo idealizado, em sociedades
contemporâneas. Um desses elementos vem da valorização feita, inclusive através da
produção acadêmica, da família nuclear como resultado e sinônimo de processos de
modernização das sociedades. Traduzindo um processo histórico específico em um valor –
o moderno frente ao atrasado ou residual – essa percepção acaba por dar fundamento a
leituras dicotomizadas da pluralidade de famílias ou, como coloca Duarte, produz “um
efeito de escondimento dos outros formatos da família contemporânea” (1995: 33). Como
conseqüência disso, as percepções sobre a própria família nuclear tornar-se-iam mais
parciais, sem considerar as relações envolvidas no parentesco mais extenso ou na
vizinhança, por exemplo22. Desse modo, o entendimento do modelo nuclear em contraponto
a outros modelos (famílias extensas, famílias de classes populares, famílias camponesas),
pode ter como efeito a cristalização de diferenças que, se presentes em diferentes momentos
e experiências de organização das relações familiares, não devem ser tomadas de forma
excessivamente rígida.
Os variados expedientes colocados em prática para criar crianças, tais como recorrer
à parentela para diferentes formas de ajuda, ou a vizinhos e outras redes e tipos de relação,
como o compadrio, embora sejam mais visíveis e tenham formas específicas em certos
grupos sociais, não se limitam a uma extração social definida. No caso dos processos
analisados ao longo da tese, como esses dizem respeito sobretudo a um perfil social mais
facilmente identificado com o que tem sido caracterizado por diferentes autores como
famílias das classes populares ou das classes trabalhadoras, os expedientes de cuidado
que são apresentados em muito se aproximam dos que tem sido descritos por esses
autores23. A circulação de crianças, descrita por Cláudia Fonseca (1995), tem especial
importância aqui, uma vez que os processos de guarda, sobretudo, tratam em certa medida

podem dar conta. Alguns exemplos de trabalhos recentes que enfatizam essa pluralidade podem ser
encontrados em Bois- Reymond et al, 1993; Beck, 1997; Demo e Cox, 2000; Burton e Jarret, 2000; entre
muitos outros)
22
Elizabeth Bott, na sua análise sobre a relação entre as famílias e as redes sociais, discute o impacto da
localidade, por exemplo, no estabelecimento do que chama de “redes de conexidade”. Compreender como as
relações familiares atuam implicaria, para a autora, focalizar não apenas as relações mais estreitas, mas
também a “parte da rede composta pelos vizinhos”, bem como pelas “redes independentes do marido e da
esposa” e o modo como se dá a conexidade dessas redes com a “rede total” (Bott, 1976: 104)

25
de um momento peculiar dessa circulação. Como muitos dos casos levados ao Juizado
estão, para usar uma fala recorrente na abertura dos processos, buscando “regularizar uma
situação de fato”, a idéia de que os arranjos feitos já são satisfatórios e devem apenas ser
sancionados pela instância judicial é muito forte. E, como será discutido, as possibilidades
de revalidação e promoção desses arranjos, no sentido do status jurídico de tais relações,
não é pequena.

Uma outra vertente de críticas pode ser encontrada nos trabalhos de autores como
David Schneider (1968 e 1984) e Sylvia Yanagisako (1979), que discutem a “herança
funcionalista” capaz de manter a longevidade e a força do “sangue” nos estudos de
parentesco. Para esses autores, a representação biológica ou genealógica do parentesco
continuaria prevalecendo na construção dos conceitos e recortes empíricos que orientam as
pesquisas etnográficas sobre esses temas. A definição do vínculo mãe-filho como unidade
mínima de construção da unidade familiar, como quer Goodenough (1970), por exemplo,
ratificaria essa ênfase, obscurecendo as múltiplas relações (intra e extra grupos domésticos)
que estariam presentes em tais unidades. A “imaginação biológica” do parentesco
desempenha papel importante também nas avaliações feitas pelo Juizado, sobretudo se
pensarmos que o próprio princípio do pátrio poder aplica-se de forma mais imediata e
“natural” aos pais biológicos, assim como legalmente os processos tanto de guarda, quanto
de adoção estão alocados na rubrica da colocação em família substituta. Mas, sobretudo,
essa “imaginação” compõe-se, tanto nos argumentos apresentados pelos postulantes à
guarda, quanto nas avaliações emitidas pelos especialistas, com outros princípios, como o
do cuidado já ofertado ou a ser oferecido, o dos investimentos materiais e emocionais já
realizados e com as possibilidades futuras que cada arranjo legal pode oferecer às crianças
em questão.
Por fim, um último ponto que gostaria de ressaltar como importante para algumas
das questões que são tratadas ao longo da tese, diz respeito à relação entre famílias e
unidades domésticas24. A centralidade da questão econômica na compreensão das unidades

23
Os critérios que estou usando para caracterizar socialmente as famílias e indivíduos que chegam ao Juizado
ou a ele são levados são discutidos no capítulo 1. Alguns desses expedientes podem ser vistos, tratando de
diferentes universos etnográficos, em Lopes, 1976; Alvim 1985 e, sobretudo, Fonseca 1995.
24
A discussão sobre família, parentesco e unidades domésticas é vastíssima na antropologia e, para além dela,
nas ciências sociais de um modo geral. Como nesta Introdução minha preocupação é apenas indicar pontos
que serão importantes no correr da análise, não me aprofundo em nenhuma dessas questões nesse momento.

26
domésticas como categoria distinta da de família, em muitos estudos remetida ao
parentesco, tem sido destacada por autores que fizeram balanços relativamente recentes
sobre sua trajetória (especialmente Yanagisako, 1979 e Creed, 2000). Essa centralidade,
sobretudo quando confrontada ao modelo da família nuclear, acabaria enfatizando
antagonismos também no plano das relações materiais e das subjetivas que compõem
diferentes configurações familiares, de modo que os estudos tenderiam a reproduzir a
ênfase em um pólo ou outro, de acordo com o tipo de configuração com a qual estão
lidando ou pelo modo como a conceituam25. Novamente o que os processos deixam
transparecer é que a combinação entre afeto e bens materiais, entre trabalho doméstico e
autoridade, entre as “emoções” e os “interesses”, não se colocam separadamente. Na
avaliação caso a caso, ou seja, nas experiências judiciais concretas, direitos e valores, como
trabalho, educação, saúde, afeto etc transformam-se sobretudo em uma configuração
complexa de cuidados a serem considerados.
Assim, nas situações percebidas através de processos de guarda que tramitam pelo
Juizado, várias dessas dicotomias ou polarizações indicadas aqui, perdem seu sentido ou
precisam ser apropriadas de forma bem específica. As famílias que comparecem ao Juizado
ou que são, através da própria ação judicial, reconfiguradas e mesmo instauradas, definem-
se, pela natureza das situações em jogo, em torno sobretudo daquilo que podem oferecer
como cuidado às crianças que devem ficar sob sua responsabilidade. Nesse sentido, em que
pesem os fatos de serem, sobretudo, relações extensas que estão em jogo – parentela,
conhecidos, padrinhos, madrinhas etc – e da forte presença do parentesco, seja como
consangüinidade, seja como valor (ser “como uma mãe”), a experiência judicial

Na medida em que formulações de diferentes autores forem sendo incorporadas às análises, parte dessas
discussões será feita. Para um panorama dessas questões, ver as resenhas de Fukui (1988), Fonseca (1989)
para o Boletim Bibliográfico Brasileiro, as coletâneas organizadas por Almeida et al (1987) e Ribeiro e
Ribeiro (1995); o trabalho já citado de Yanagisako (1979), a resenha recente de Creed (2000), a coletânea
organizada por Burguière et al (1998), entre (muitos) outros. Para um panorama de discussões sobre
transformações recentes nas formas de organização familiares e seus valores, um periódico temático como o
Journal of Marriage and Family é de especial valia.
25
Uma crítica importante a essa divisão é feita por Medick e Sabean, que colocam que “in analysing the
family, anthropologists and social historians have often found difficulties in handling this relationship, and
rather than carefully sorting out the nature of rights and duties, claims and counter-claims within families in
different social and cultural contexts and delineating the corresponding specif territories in which emotion,
trust and sentiment are structured, emotions and interest are often treated as opposites which cancel each other
out. In addition there is an attempt to legitimate such a view by means of evolutionary or ideological
perspectives, which contrast much too easily a ‘modern’ emotional-laden nuclear family to ‘traditional’
family relations based on a different structure of motives altogether” (Medick e Sabean, 1988)

27
sacramentada nesses processos trata sobretudo da necessidade de encontrar locais e redes
de relações nos quais tais crianças possam ser imersas.
Minha opção por usar o termo unidades domésticas em lugar de famílias e, mais
especificamente, como ficará claro ao longo dos demais capítulos, casas remete-se, dessa
forma, ao fato de que a análise aqui construída centra-se na interação peculiar que essas
experiências judiciais promovem. Não se trata, portanto, de pensar como famílias pré-
existentes à ida ao Juizado se modificam ao longo do processo, ou como o “sangue” é
reinventado pela adoção, mas como diferentes linguagens – do sangue, da autoridade, do
cuidado – combinam-se em uma experiência dinâmica de redefinição de relações sociais.
Nesses termos, tão importante quanto perceber o impacto da ação dos especialistas sobre
essas relações, na medida em que consagram legalmente (ou, ao contrário, desfazem
legalmente) certas posições simultaneamente de autoridade e responsabilidade, pela
transferência do pátrio poder exercido sobre um menor, é perceber como se combinam, nos
argumentos de especialistas e das partes interessadas no processo, os diferentes elementos
que constróem o universo das relações familiares ou domésticas.
Retomando um ponto que já coloquei nessa Introdução, ao focalizar minha análise
na relação entre a administração (o Juizado) e as famílias ou unidades domésticas e, mais
especificamente ainda, no retrato administrativo que é feito dessa relação, através dos autos
de um processo, não pretendo nem teria como lidar com essa relação em termos de
antagonismo ou de polarizações. Ao contrário, o que procuro pensar é em que medida essa
dinâmica, ao compor níveis diferenciados de autoridade e ao codificar as obrigações
pertinentes a cada um dos envolvidos em termos fortemente morais, produz modos de
gestão de tipo singular.
A busca por casas precisa ser entendida, a meu ver, como a busca pelo
estabelecimento ou reforço de relações entre diferentes configurações que, se não são
familiares, com certeza são domésticas, ou seja, pautam-se pela idéia da partilha de
obrigações no interior de uma mesmo unidade doméstica. E, ao mesmo tempo, como a
busca por soluções administrativas que garantam a autoridade da própria administração
através não do controle, fiscalização ou repressão das relações que compõem as unidades
domésticas, mas de variadas formas de negociação, conciliação e reforço dessas mesmas
relações.

28
A dinâmica dessa gestão pode ser melhor compreendida em termos de uma gestão
de caráter tutelar, como desenvolverei no capítulo 1. Para tanto, conta como elemento
central o fato de que o objeto que dá sentido ao processo, indivíduos em condição legal de
menoridade, são compreendidos sobretudo como indivíduos que têm que ser cuidados e
controlados, como duas faces de uma mesma moeda. Desse modo, encontrar casas,
reforçando relações familiares ou sublinhando a necessidade dos acordos e mesmo, em
alguns casos da positividade moral do “abrir mão” da autoridade legal sobre os filhos, é
tarefa administrativa que só tem sentido quando se considera que não há uma ruptura tão
decisiva ou antagônica – embora haja uma imensa assimetria – entre os dois pólos de
autoridade presentes em uma experiência judicial.

A organização dos capítulos

A tese está dividida em cinco capítulos. No primeiro deles procuro discutir porque
compreendo a gestão empreendida pelo Juizado como uma gestão tutelar e, de forma mais
geral, em que sentidos a relação de menoridade pode ser compreendida como uma relação
de dominação. Neste capítulo procuro discutir também alguns elementos relacionados ao
papel de um tipo peculiar de especialista, absolutamente central nos processos que tramitam
pelo Juizado, os assistentes sociais. Por fim, busco dar um panorama rápido de questões
presentes, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, na discussão sobre
regulações internacionais sobre a infância.
O segundo capítulo apresenta uma descrição dos processos e procura pensar as
especificidades desse tipo de narrativa, bem como algumas de suas positividades (como
peças administrativas, como momentos de negociação e como redefinidores de limites
domésticos). Neste capítulo apresento também oito processos que escolhi para descrever
mais detalhadamente e aos quais me remeterei constantemente (bem como a outros
processos reunidos no quadro em anexo à tese) durante os demais capítulos.
Os três capítulos seguintes tratam do que considero que sejam as principais
dimensões de compreensão das experiências judiciais analisadas: a autoridade (capítulo 3),
a moralidade (capítulo 4) e a ação tutelar (capítulo 5). Esses três capítulos funcionam tanto

29
como discussões específicas, quanto como uma mesma discussão dividida em três
perspectivas complementares. Para todos eles, o universo de referência tanto empírico,
quanto conceitual é o mesmo. Trata-se de perceber, através da relativa padronização dos
processos analisados, bem como de sua heterogeneidade, como são produzidos expedientes,
estratégias e dinâmicas de gestão de menoridades.
Por fim, uma última observação diz respeito aos critérios de grafia escolhidos para a
tese. Estes são os seguintes: foi utilizado o itálico para expressões legais ou administrativas
(estudos sociais, pátrio poder, melhor interesse etc), para algumas noções construídas
especificamente para a tese (bens de cuidado, casas, retórica da gratidão etc), e para
termos que devem ser pensados com sentido muito específico, como explicado nesta
Introdução ou ao longo dos capítulos (menores, menoridade, família). As aspas, para além
das citações, são usadas para relativizar o sentido de alguns termos empregados e quando,
no corpo do texto, faço menção a expressões usadas nos próprios depoimentos ou em outras
peças dos processos judiciais .

30
Capítulo 1 :
Menoridade e Dominação

A gestão tutelar da menoridade

A percepção do caráter intrinsecamente tutelar da gestão de menoridades depende,


como foi dito na Introdução, do reconhecimento de que esta se dá não apenas através da
construção de mecanismos de controle sobre indivíduos submetidos a essa condição legal,
mas também da produção de responsáveis – indivíduos ou redes de indivíduos – por esses
menores. Nesses termos, implica a definição de tutores, sendo estes compreendidos como
capazes tanto de responder pelas ações de tais indivíduos, quanto de construí-los
efetivamente enquanto sujeitos sociais plenos, ou seja, maiores, no sentido amplo do termo.
Capazes, portanto, de demonstrar adequação a um conjunto significativo de regras e
procedimentos socialmente exigidos dos participantes de uma dada ordem social. Para que
tais considerações não pareçam vazias, porém, creio ser necessário discutir o que estou
concebendo conceitualmente e descritivamente como formas tutelares de gestão e, em
especial, sua relação com a construção e exercício de certas modalidades de dominação.
A emergência de uma legislação voltada para menores e, de forma mais específica,
para crianças e jovens (menores por idade, portanto), depende de uma compreensão
específica a respeito da natureza dos malefícios que podem atingir esses sujeitos de direito
especiais, bem como sobre a natureza dos malefícios que eles podem causar. Nesse sentido,
o eixo de intervenção sobre eles, assim como sobre outros menores que em diferentes
momentos podem ser tomados como seus pares, é dado, por um lado, pela necessidade de
prevenção e, por outro, de incorporação controlada. Tais necessidades devem, em verdade,
ser compreendidas como a dupla face de um mesmo tipo de exercício de poder, concebido
como tutelar, de acordo com a proposta de Lima26. Segundo este autor, tal forma de poder –

26
A partir da análise do aparato estatal voltado para a administração de populações indígenas estabelecido nas
primeiras décadas do séc. XX, o Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais,

31
bem como qualquer outra – não deve ser tomada de modo substancializado, como não raras
vezes ocorre com grandes unidades de análise, como “o Estado”, a “Igreja”, mas sim,
seguindo a formulação foucaultiana, como exercício e, mais especificamente, como
dispositivos de integração, do modo como explorado por Norbert Elias, de populações e
territórios27.
Conceber que a ação de um dado aparelho governamental, o Juizado de Menores ou,
na designação atual, a Justiça da Infância e da Juventude, possa ser compreendida em
termos tutelares implica, desse modo, supor que a gestão por ele realizada (ou através dele
realizada) ancora-se na preocupação em produzir formas bastante específicas de integração
de populações e de territórios. De um lado, tais formas estão diretamente remetidas, como
destacou Lima, à imaginação de sua ação como se dando em âmbito nacional, tanto em
termos de seu fundamento de soberania – o judiciário como parte da administração de
Estados nacionais – quanto em termos de seu objeto de intervenção: populações igualmente
nacionais. A condição peculiar de menoridade em que crianças e jovens se encontram,
porém, faz com que sua inclusão nessa “comunidade imaginada” (Anderson, 1989: 63)
sempre se dê de modo mediado e subordinado, destituído de autonomia.
Nesse sentido, é preciso pensar o cotidiano das regulações realizadas pelo Juizado
em termos do estabelecimento de mecanismos tutelares que garantam, simultaneamente, a
transferência legítima de uma dada obrigação e prerrogativa soberana – a autoridade sobre
menores, seja de que tipo forem – e a manutenção de uma rede de dispositivos confiáveis
de controle. Pensando a partir das formulações de Foucault em relação à soberania e à
disciplina, é possível dizer que tais mecanismos tutelares se inscrevem no cruzamento
dessas modalidades de poder, baseando-se em princípio em um tipo de assimetria no plano

Antonio Carlos de Souza Lima constrói o conceito de poder tutelar, definido como “o exercício de uma forma
de ação de um Estado imaginado como nacional sobre as ações dos povos indígenas no Brasil (...) A este
modo de relacionamento e governamentalização de poderes, concebido para coincidir com uma única nação,
denomina-se aqui poder tutelar” (Lima, 1995: 39). Em que pese o ponto de partida empírico do autor, distinto
do meu, suas formulações permitem que tal conceito seja aplicado a diferentes objetos de gestão, como
procurarei demonstrar.
27
Segundo o autor, “esta forma de poder de Estado pode ser vista como modo de integração territorial e
política, operada desde um aparelho estatizado, parte do conjunto de redes sociais e relações componentes de
um Estado o qual, em diferentes momentos do tempo e implicando múltiplas relações entre distintos
segmentos sociais (logo configurações diferenciadas) tem procurado se representar como nacional” (Lima,
1995: 42). Tanto certas discussões de Foucault sobre o poder como exercício, quanto de Elias sobre os
dispositivos de integração exploradas pelo autor vão ser também trabalhadas por mim, de forma que as
discutirei mais à frente.

32
dos direitos, mas exercendo-se continuamente através de técnicas de regulação de
comportamentos28. Nesses termos, a rotinização do controle sobre menores deve ser
entendida como exercício administrativo que depende primordialmente do reconhecimento
contínuo de sua posição subordinada e da necessidade de tutores que ocupem – pela
administração e com a administração – o lugar de responsáveis.
O ônus da autoridade sobre menores consiste, desse modo, na necessidade de
comprovar rotineiramente a eficácia dos mecanismos de inclusão gradual disponibilizados
para tais menores. Se o fundamento de tal autoridade é o próprio princípio da soberania e,
mais especificamente, da soberania compreendida em termos de unidades nacionais, é
sobre a administração que recai o custo de comprovar a legitimidade e, ao mesmo tempo, a
eficácia da delegação estabelecida ou ratificada. Ou, dizendo de outra forma, é à
administração que cabe produzir as garantias de que a autoridade soberana delegada – a
instituições, a indivíduos, a famílias – possui eficiência tutelar, ou seja, é capaz de gerir
menores e constituí-los enquanto indivíduos plenos. Desse modo, mesmo quando está em
jogo a não intervenção da administração, deixando que menoridades sejam geridas em seu
ambiente aparentemente mais “natural”, como a família biológica, tal princípio soberano de
delegação continua presente, uma vez que, pelo horizonte legal, a autoridade pode ser
cassada se considerada ilegítima em seu exercício.
Cabe, então, pensar sobre dois aspectos diferenciados da gestão tutelar de menores,
mas que se encontram estreitamente relacionados: a espetacularização da soberania e,
contraposta a ela, a rotinização do domínio. O componente mais espetacular da soberania,
ou do direito soberano sobre (e a partir de) menores é dado pela prerrogativa juridicamente
cristalizada de cassação do pátrio poder, ou seja, pela possibilidade legalmente estabelecida
de privar de autoridade sobre menores aqueles que seriam em princípio seus gestores
diretos29. Tal prerrogativa, explicitada em todos as legislações especificamente voltadas

28
Foucault atenta para a importância de pensar o poder como algo que “se exerce, nas sociedades modernas,
através, a partir e no próprio jogo dessa heterogeneidade entre um direito público da soberania e uma
mecânica polimorfa da disciplina” (2000: 45). Ou, de forma mais detalhada, que “temos, nas sociedades
modernas, a partir do século XIX até os nossos dias, de um lado uma legislação, um discurso, uma
organização do direito público articulados em torno do princípio da soberania do corpo social e da delegação,
por cada qual, de sua soberania ao Estado; e depois temos, ao mesmo tempo, uma trama cerrada de coerções
disciplinares que garante, de fato, a coesão desse mesmo corpo social”. (2000: 44). Para uma discussão
pontual sobre soberania e disciplina, ver também Foucault, 1986: 179-191.
29
As condições em que a cassação do pátrio poder pode se dar atualmente, ou seja, sob o ECA, são descritas
no capítulo 2.

33
para a infância – ou seja, nos Códigos de Menores e no ECA – tem por princípio básico a
compreensão dos menores como sendo ao mesmo tempo objetos e parte das obrigações do
poder soberano. Ou seja compreendendo a vida como o princípio a partir do qual essa
soberania deve se dar, no sentido do poder e da obrigação de intervir sobre condições que
ameacem àqueles que estão sob tal soberania30. Nesse sentido, a representação espetacular
da soberania deve se dar por duas vias privilegiadas: a da suspensão dos riscos envolvendo
as populações sobre as quais se exerce, e a da exemplaridade moral, sobre as quais falarei
mais à frente.
O contraponto à exibição do poder soberano, por sua vez, é a rotinização do
domínio, eixo sobre o qual se pode compreender o exercício de formas administrativas de
investigação, avaliação e construção de subsídios para intervenção soberana. Nesse sentido,
a ação espetacular e exemplar de cassação do pátrio poder depende de todo um esforço
administrativo de diagnóstico de situações, o que inclui tanto a identificação de ações
moralmente condenáveis, quanto o exercício de avaliar a eficácia prospectiva daqueles que
devem gerir cotidianamente indivíduos em condição de menoridade. A ação de uma
instância judicial e administrativa como o Juizado só pode ser entendida, portanto, como
ação simultaneamente soberana e disciplinar, combinando na divisão de atribuições
profissionais (e autoridades relativas a essas atribuições) entre diferentes especialistas as
possibilidades concretas de exercício de um poder tutelar31.

30
Ewald aponta que as tecnologias do risco, centradas na obrigação de defesa da vida que dá base aos direitos
sociais, traz consigo a exigência de saberes mais discretos e infinitesimais. As políticas do risco, por sua vez,
estreitamente ligadas a tais tecnologias, como a estatística, por exemplo, obrigam à maior e mais variada
produção de informações. Se, por um lado, tal produção de tecnologias e políticas está ligada ao nascimento e
desenvolvimento de uma seguridade social, tema da análise de Ewald, ela, por outro lado, não se restringe a
isso. Como esse mesmo autor indica, a potência da tecnologia do risco ultrapassa sua simples utilização para
segurança, mas tem a vocação de servir à técnica mais geral de gestão de populações, inclusive por seu poder
de identificar os anormais, aqueles que não poderiam em princípio acompanhar a marcha progressiva do
grupo, não se integrando (Ewald, 1986: 383-389). Tais formulações são evidentemente tributárias das
discussões de Michel Foucault sobre o biopoder. Discutindo as transformações em relação ao direito de
soberania, Foucault coloca que “uma das mais maciças transformações do direito político do século XIX
consistiu, não digo exatamente em substituir, mas em completar esse velho direito de soberania – fazer morrer
e deixar viver – com outro direito novo, que não vai apagar o primeiro, mas vai penetrá-lo, perpassá-lo,
modificá-lo, e que vai ser um direito, ou melhor, um poder exatamente inverso: poder de ‘fazer’ viver e
‘deixar’ morrer” (Foucault, 2000: 287)
31
Para Foucault, a transformação da soberania e a emergência das disciplinas seriam correlatas ao processo de
substituição ou combinação entre o inquérito em sua forma tradicional, voltado para apurar culpas, e o exame,
voltado para a produção de diagnósticos. Uma das implicações disso é o que o poder judiciário não poderia
mais ser tomado como único controlador da instituição penal: “É assim que, no séc. XIX, desenvolve-se, em
torno da instituição judiciária e para lhe permitir assumir a função de controle dos indivíduos ao nível de sua
periculosidade, uma gigantesca série de instituições que vão enquadrar os indivíduos ao longo de sua

34
A rotinização da fiscalização seria, desse modo, condição da própria soberania, na
medida em que a representação do poder e das obrigações soberanas baseia-se no suposto
de sua intervenção constante e, sempre que considerado especialmente necessário, de
maneiras mais emblemáticas. A vigilância sobre comportamentos, mesmo quando não
exercida, deve estar dada como pressuposto, como virtualidade. Enquanto parte da
administração, caberia ao Juizado, nesse quadro, demonstrar tanto a autoridade soberana –
expressa através das sentenças civis – quanto a eficácia disciplinar, através das
investigações, pareceres e demais ações de diagnóstico e controle de riscos. Nesse sentido,
a ação cotidiana do Juizado idealmente se faria como ação ao mesmo tempo moral e
técnica, capaz de identificar com precisão as áreas do tecido social sobre as quais intervir e
de corrigir situações irregulares de gestão daqueles que não podem fazê-lo por si só.
Tanto a fiscalização cotidiana – ou a sua virtualidade – quanto o exercício contínuo
da autoridade soberana não podem ser pensados sem que se construa também, como
processo de longo prazo, mecanismos para centralização de recursos diretamente ligados ao
poder de intervir e gerir populações. Nesses termos, o Juizado pode ser tomado também
como parte desse processo de centralização, articulando ao mesmo tempo sua dimensão
institucional – já que, idealmente, todos os casos de infâncias “irregulares” devem ser
levados para lá – e a rotinização dessa centralização. Ou seja, o exercício cotidiano de suas
atribuições (a produção de sentenças respaldadas por diagnósticos) pode ser compreendido
como resultado de um processo de centralização de recursos e agentes autorizados para
intervir, mas também como condição para que essa centralização se mantenha ou se
represente de modo exemplar32.

existência; instituições pedagógicas como a escola, psicológicas ou psiquiátricas como o hospital, o asilo, a
polícia etc. Toda essa rede de um poder que não é judiciário deve desempenhar uma das funções que a justiça
se atribui nesse momento: função de não mais punir as infrações dos indivíduos, mas de corrigir suas
virtualidades” (Foucault, 1996: 86). Formulação semelhante, até porque inspirada nas discussões travadas por
Foucault, está presente na análise de Donzelot sobre os tribunais de menores na França. Para este autor, o
“complexo tutelar” estabelecido a partir ou em torno dos tribunais de menores embora mantenha sua essência
judicial, combina-se a outros tipos e lógicas de intervenção, obrigando-se inclusive a uma redução de sua
teatralidade. Como coloca o autor, “em vez de um lugar de deliberações e de julgamentos públicos, o tribunal
de menores faz pensar na reunião de um conselho de administração de uma empresa de produção e gestão da
infância desadaptada” (Donzelot, 1986: 95). O papel dos assistentes sociais é fundamental nessa
transformação, bem como a divisão de tarefas entre eles e os especialistas propriamente judiciários, como
discutirei mais adiante, ainda nesse capítulo.
32
A produção de aparatos que rotinizem relações de dominação é condição de existência dessas mesmas
relações, como discute Weber na “Sociologia da dominação” (1996: 695-847). A forma específica que
assumem tais aparatos, porém, depende dos recursos de controle pertinentes a cada “tipo ideal”. Analisando o

35
Voltando ao que coloquei acima, acerca das vias privilegiadas que a representação
espetacular da soberania assumiria (o controle dos riscos e a exemplaridade moral), creio
ser importante destacar que tal representação, quando materializada em rotinas
administrativas, encontra não apenas limites para se realizar plenamente mas, sobretudo,
caminhos bastante peculiares de existência. Assim, nunca é demais lembrar que se a
soberania se viabiliza concretamente através da montagem de aparatos fiscalizadores dos
mais variados tipos, a forma e o grau de tal fiscalização não podem ser compreendidos a
partir do enunciado – discursivo, institucional – de sua existência, mas das ações concretas
que produz, bem como das ações que anuncia idealmente, mas não necessariamente realiza.
Para compreender melhor essa distância entre o enunciado da fiscalização e sua
realização (ou as formas peculiares através das quais se realiza), é preciso pensar em termos
da exemplaridade do poder ou, dizendo de outro modo, da necessidade de sua
representação cênica, teatralizada. A exibição não apenas do potencial repressivo do poder
soberano, mas de sua correção moral, de sua força e zelo frente aos que lhe são submetidos,
é condição de sua própria existência. Como destaca Geertz, é na construção de centros
exemplares que reside parte da eficácia simbólica do poder, ou seja, sua capacidade de
representar-se, em um sentido amplo33. Tal exemplaridade pode ser percebida, em uma de
suas dimensões, no próprio texto legal, que não apenas fornece o repertório de ações e
situações a serem idealmente perseguidas, mas corporifica o poder de intervenção sobre as

processo histórico de formação dos Estados nacionais modernos, tanto Norbert Elias (1972 e 1993), quanto
Charles Tilly (1984 e 1996), indicam a importância da produção de mecanismos de centralização de recursos
territoriais, fiscais e militares. No caso de Tilly, o que ele chama de forças de diferenciação e forças de
integração é importante para pensar as possibilidades de construção de expedientes de ordem (e desordem)
nos Estados nacionais, algo que pode ser aproximado do “processo civilizador” de Elias. Voltarei a essas
questões mais à frente ao discutir a dimensão da pacificação como parte das ações administrativas de Estado.
33
A preocupação com a centralidade exemplar do poder – especificamente do poder de Estado – é
desenvolvida por Geertz em “Centers, kings and charisma”, mas é ao discutir o Negara, o estado-teatro de
Bali no século XIX, que o autor descreve de forma mais minuciosa a importância da exemplaridade de
condutas rituais como condição de existência do próprio Estado, postulando que não se pode separar a
representação do poder, em seu sentido teatral, cênico, do exercício desse mesmo poder. Em que pesem as
características singulares da situação histórico-etnográfica que o autor delimita, creio que essa discussão se
aplica às reflexões sobre os estados nacionais modernos de um modo geral. Ou seja, a representação da
soberania e de seu exercício constitui uma condição intrínseca à existência dessa mesma soberania, não se
podendo separar de modo esquemático o poder de sua encenação. Ou, dizendo de outra forma, devendo-se
considerar as encenações com parte das técnicas do próprio poder em exercício. Os processos judiciais como
um todo, com todas suas técnicas específicas, devem ser entendidos também como parte dessa representação
da soberania de Estado, muito embora sua exemplaridade confronte-se, como no modelo dos centros
exemplares e periferias imperfeitas que Geertz destaca como constituintes do Negara, com as “imperfeições”
das soluções concretas. (Geertz, 1977 e 1991)

36
“periferias imperfeitas”. Assim, se em todo texto legal estão estabelecidos parâmetros da
gestão ideal de menoridades, bem como dos melhores modelos de infância (nem que seja
através dos artigos legais que tratam das “infâncias erradas”), é na sua conversão em
expedientes administrativos que reside a eficácia das possibilidades de gestão. Recuperando
o que foi dito na Introdução acerca da relação entre os códigos legais e as experiências
judiciais, é na contraposição entre a moral exemplar da lei e a construção concreta de
soluções administrativas que se dá a materialidade da composição entre soberania e
disciplina.
Assim, é importante manter em mente que, se faz parte tanto dos atributos da
soberania, quanto da mecânica da disciplina a obrigação de intervir, tais intervenções não
devem ser por princípio compreendidas a partir de sua representação exemplar. Antes disso,
é preciso pensar nas formas específicas que tal intervenção assume, ou seja, nos acordos
que são feitos, nos limites que são tolerados, nos silêncios que são produzidos. Pensar sobre
a capilaridade das ações disciplinares é, nesse sentido, pensar em que estratégias efetivas
estão sendo construídas a partir e através de tais ações. Não se trata, portanto, de avaliar se
há “pouca” ou “muita” intervenção, mas sim de pensar sobre a forma assumida pelos
expedientes administrativos da gestão de menores. Com isso, chego a um componente que
considero central na compreensão desta gestão como tutelar: a relação entre a
administração e as unidades domésticas, indicada na Introdução e, especialmente, o
entendimento dessa relação como parte de um processo mais amplo de fixação de
populações.
O poder de intervenção que a administração tem sobre aqueles que são reconhecidos
como gestores diretos da menoridade – pelo pátrio poder ou pela guarda – bem como sua
obrigação de vigilância, só se viabilizam enquanto expedientes administrativos através do
estabelecimento de relações complementares com as unidades domésticas nas quais tais
menores estão inseridos ou para as quais são designados pela administração. Sua fixação
espacial – em instituições estatais em último caso, mas preferencialmente em casas –
corresponde à obrigação soberana de controlar populações errantes e demarcar fronteiras,
não apenas impedindo a mobilidade desregrada, mas criando mecanismos de visibilidade
sobre as trajetórias dessas populações. Os processos civis de guarda podem ser entendidos
como expedientes de gestão tutelar também nesse sentido: criam ou relatam localizações,

37
fixam, através da outorga ou da ratificação de tutores, menores em casas, ou seja, em
configurações interdependentes de pessoas e lugares. Nesse sentido, constróem territórios,
no sentido da imobilização de populações em espaços administrativamente controlados e
identificados34.
Considerando que “sedentarizar povos errantes” é uma das atribuições do poder
tutelar (Lima, 1995: 74), é possível ver na busca administrativa por casas a construção de
uma cadeia de autoridades e formas de controle que, tendo nos menores a sua razão mais
visível de existência, exerce-se também sobre redes de relações e sobre modos de fixação
dessas redes35. Assim, faz parte de todo processo civil de guarda a indagação sobre os
locais de moradia, indicando a exemplaridade da ação soberana, novamente em termos de
autoridade, pelo poder de intervenção, e de moral, pela representação da forma correta de
existir, do risco a ser evitado.

Tal exemplaridade não desfaz, porém, o fato de que há um grande número de


configurações incluindo menores – as circulações de crianças, como define Fonseca (1995)
– que se formam e mantém sem que jamais sejam alvo de ações fiscalizadoras em sentido
estrito. A questão que quero destacar não está organizada em torno do pressuposto de que a
administração busque tais configurações para intervir sobre elas ou mesmo que use suas
obrigações e poder de ação sobre menores para controlar tais configurações, e sim que
estabelece com aqueles que, por razões e iniciativas variadas chegam ou são levados ao

34
Citando mais extensamente as formulações de Lima sobre a relação entre poder tutelar e territorialização:
“Dito de outro modo, trata-se de sedentarizar povos errantes, vencendo-lhes – a partir de ações sobre suas
ações e não da violência – sua resistência em se fixarem em lugares definidos pela administração, ou de
capturar para esta rede de aparelhos de gestão governamental outros povos com longo tempo de interação
com o conquistador, operando para tanto com a idéia de um mapa nacional. (...) Como nas sociedades de
soberania, este poder incide sobre espaços, estabelecendo-lhes limites muitas vezes com o emprego de
processos fundamentalmente de exibição e teatralização, criando assim territórios para e pela função de
administrá-los. Mas isto é feito excluindo/incluindo uma população a quem é atribuído um status específico.
O exercício do poder tutelar implica em obter o monopólio dos atos de definir e controlar o que seja a
população sobre a qual incidirá” (Lima, 1995: 73/74)
35
Uma comparação com os procedimentos e estratégias de ação do Juizado enquanto instância administrativa
de caráter tutelar pode ser construída em relação às análises de Ramos sobre a atuação do Serviço de
Povoamento junto a imigrantes durante a primeira República. O conjunto de técnicas empregadas pelos
agentes do Serviço configurariam, como o autor chama a atenção, uma cadeia tutelar. Tais técnicas incluíam
práticas tais como a concessão de auxílios e favores aos imigrantes e colonos pela administração; o
estabelecimento de conexões desde a Europa até o núcleo colonial, induzindo e conduzindo os deslocamentos
dos imigrantes, incluindo-se aí a formação de redes de relações interpessoais entre agentes do Povoamento e
imigrantes; os esforços no sentido de construir “um ambiente moral a partir do qual o colono fosse levado a
crer no prestígio e na capacidade dos funcionários em dirigi-los” e, por fim, a função pedagógica dos campos

38
Juizado, uma relação complementar de autoridades delegadas e reconhecidas. Nesses
termos, é possível pensar que o Juizado, enquanto detentor de monopólio de força – como
qualquer instância administrativa – não necessariamente o exerce agindo repressivamente
sobre as unidades domésticas mas, ao contrário, captura parte das relações de autoridade
estabelecidas por essas mesmas unidades e estabelece com elas alianças que permitem a
afirmação de seus próprios poder e utilidade. E, além disso, que tal processo se faz também
como processo de gestão de localidades, no sentido de redes de relações concebidas como
territorialmente fixas e capazes, por isso, de fixar também os menores a serem geridos.

Desse modo, creio ser necessário pensar que a menoridade, enquanto relação de
dominação, promove ou se define, no caso de infâncias, através da relação complementar e
assimétrica entre administração e casas, ou, recorrendo à tipologia weberiana, entre formas
burocráticas e patrimoniais de dominação. Assim, muito embora o que mova o processo de
centralização de poderes do qual instituições como o Juizado fazem parte seja a construção
de um domínio de tipo burocrático, ou seja, centrado por princípio na impessoalidade das
relações e no exercício de competências especializadas (juizes, assistentes sociais,
promotores públicos etc), sua efetividade só se constrói a partir do reconhecimento de
unidades domésticas como unidades de responsabilidade e autoridade. De dominação,
portanto36.

O sentido de uma dominação “tradicional”, nos termos em que Weber coloca, não
deve ser entendido aqui como sinônimo da ausência de mudanças ou transformações nas
interpretações acerca da validade de diferentes configurações familiares ou domésticas.

de demonstração e experiência, através dos quais se encenava a eficácia dos comportamentos a serem
adotados por imigrantes e colonos. (Ramos, 2002: 228-232)
36
Comparando o tipo ideal da dominação burocrática ao da dominação patriarcal e patrimonial, Weber
defende que ambas têm em comum o seu caráter cotidiano (o que pode ser traduzido em termos de
rotinização, como coloquei antes): “(...) ambos encuentram, en última instancia, su apoio en la obediência a
‘normas’ por parte de los que están sometidos a um poder. Pero estas normas son en la dominación
burocrática racionalmente creadas, recurren al sentido de la legalidad abstracta y se basan en un ejercicio
técnico, en tanto que en la dominación patriarcal se basan en la ‘tradición’, en la crencia en el caracter
inquebrantable de lo que ha sido siempre de una manera determinada. Y la significación de las normas es
siempre fundamentalmente distinta para ambas formas de dominación. En la dominación burocrática es la
norma establecida y que crea la legitimidad del que manda para dar órdenes concretas. En la patriarcal es la
sumisión personal al señor que la garantiza como legítimas las normas procedentes del mismo (...). El
fundamento objectivo del poder burocrático es su absoluta necessidad técnica basada en los concimientos
especializados. En el caso de la autoridad doméstica, las antiquissimas situaciones naturales constituyen la
fuente de la creencia en la autoridad fundada en la piedad. Para todos los que están sometidos a la autoridad

39
Antes disso, deve ser compreendido como a possibilidade – sempre socialmente
“inventada” – de naturalização de certos domínios como os mais aceitáveis para que uma
forma específica de gestão de indivíduos se dê. Nesse sentido, a busca por casas e mesmo a
relativa flexibilidade com que as relações componentes destas casas podem ser avaliadas
pelos especialistas não representa nem a diminuição ou a ausência do poder disciplinador
desses especialistas, nem tampouco a inexistência de assimetria em termos de autoridade
envolvendo uns e outros frente a uma situação de julgamento. O que dá sentido a tal
flexibilidade é, ao meu ver, por um lado o que Weber concebe como a dimensão
“tradicional” das relações de dominação domésticas, ou seja, o fato de que essas podem ser
vividas cotidianamente a partir da crença em sua ordem “natural” (a família como
supostamente “natural” e “eterna”) e, por outro, a necessidade de produzir soluções
administrativas para o controle de infâncias e, de modo mais geral, de menoridades.

Nesses termos, as instâncias propriamente administrativas, como o Juizado, com


todas as suas características burocráticas, e o dominus, como unidade ao mesmo tempo de
sobrevivência material e de controle da ação daqueles que dele participam em posição
dominada – como as crianças, os “filhos” – fazem parte de uma mesma configuração
administrativa. Combinam-se, portanto, mais do que se opõem, mesmo que tal combinação
se processe a partir do pressuposto da assimetria que só o investimento soberano em suas
instâncias de regulação e controle da vida social pode estabelecer.

Se o dominus é fundamentalmente uma unidade de obediência, como se pode inferir


do modelo weberiano, ele é também uma unidade territorial. A gestão tradicional que
estabelece é uma gestão de imobilização, portanto, na medida em que detém, pela relação
de dependência e desigualdade entre seus membros, a mobilidade de que eles podem
desejar desfrutar. Tal imobilização, porém, precisa ser entendida novamente nos termos
postulados por Weber para as formas de dominação, ou seja, contando com um pressuposto
de legitimidade ou, caso se queira colocar de outro modo, de obrigações diferentes mas
recíprocas entre seus membros. Aquele que concentra a autoridade, o poder de mando, é
também o que deve se responsabilizar pela sobrevivência do dominus como um todo. Em
termos de gestão de infâncias, tais obrigações se traduzem na explicitação de um conjunto

familiar, es la convivencia personal, permanente y especificamente íntima dentro del hogar, con su comunidad
de destino externa e interna” (Weber, 1996: 753)

40
ideal de cuidados que devem ser assumidos pelos que detém o privilégio da autoridade,
entendida legalmente através da figura do pátrio poder ou, no que será explorado em
detalhe nos próximos capítulos, da guarda37.

Retomando a discussão sobre a exemplaridade da ação soberana e disciplinar


realizada pelo Juizado, o que se pode pensar é que tal exemplaridade, estampada, por
exemplo, em todos os artigos legais dando conta dos cuidados que devem ser garantidos
àqueles que são menores por idade (as “crianças” e “jovens”), transforma-se, enquanto
prática administrativa efetiva, na busca não pela reprodução desse ideal exemplar, mas pela
consagração de autoridades domésticas que não rompam de maneira excessivamente
dramática com tal ideal. Nesses termos, a dinâmica entre administração e unidades
domésticas se estabelece de forma tensa, baseada, por um lado, na necessidade de garantir
que menores se mantenham imersos (controlados, portanto) em configurações específicas –
familiares ou não – e, por outro, na necessidade de não permitir que certos limites sejam
transgredidos, sob pena de desautorizar a própria administração enquanto instância
soberana e disciplinar.

Assim, a moralidade a ser exibida e construída através dos processos e julgamentos


civis contempla, de formas diferenciadas, tanto a administração, quanto as unidades
domésticas. Demonstrar a adequação, mesmo que limitada, à exemplaridade dos cuidados
formalizados na lei, exige de ambos o esforço em afinar-se ao conjunto de atos e
representações que constituem o “bem gerir” de uma menoridade. O que me interessa
recuperar aqui, e creio que ficará demonstrado ao longo da tese, é que a adequação moral
que tem que ser demonstrada por todas as unidades de gestão, sejam elas “burocráticas” ou
“patrimoniais”, no sentido weberiano, tem como ponto nodal a sua própria capacidade de
reter tais menores. O potencial de boa formação de indivíduos que as casas devem
supostamente comprovar à administração, assim como a administração deve buscar ao
escolher casas, não pode ser compreendido senão a partir da demonstração dessa
imobilidade, da dependência continuamente produzida e exibida na “piedade filial” (Weber,
1996: 753) que faz com que menores não se desgarrem.

37
Uma discussão sobre diferentes aspectos da autoridade, bem como os termos em que se pode pensar a
noção de legitimidade, freqüentemente naturalizada em análises que partem das formulações feitas por
Weber, será travada no capítulo 3.

41
A interdependência entre os indivíduos de que fala Elias é, nesse sentido, uma
interdependência também espacial – territorial, portanto – que busca na imagem da
“tradição” (ou do “natural”) a condição para sua existência. A ação administrativa em
relação às unidades domésticas supõe, desse modo, a prerrogativa da capacidade das
últimas em conseguir, através dessa interdependência desigual entre seus membros (através,
portanto, de “dependências” mesmo), controlá-los no plano mais individual, cabendo à
administração geri-los enquanto populações. Em verdade, seguindo a proposta de Elias, não
seria possível sequer separar efetivamente esses dois planos, já que o controle de
populações e o auto-controle dos indivíduos devem ser compreendidos como facetas de um
mesmo processo civilizador38.

Gostaria agora de propor uma outra possibilidade interpretativa para a dinâmica


entre administração e unidades domésticas que, creio, dará mais sentido tanto ao que chamo
de sua complementaridade tutelar, quanto à sua eficácia civilizadora, nos termos colocados
acima. Partindo das formulações de Foucault acerca do poder pastoral, penso ser possível
discutir essa dinâmica em termos não da imposição de formas repressoras de poder, mas da
produção de soluções administrativas através da busca pela conciliação entre interesses e
níveis de autoridade diferenciados. Ao formular a concepção de poder pastoral, Foucault
afirma estar buscando um caminho de reflexão sobre a constituição dos Estados modernos
baseado não nos processos de centralização – administração e burocracia – mas em um tipo
de poder individualizador (Foucault, 1990: 79). Tal poder teria sua melhor representação na
imagem do pastor, especialmente do pastor cristão, responsável pela condução de todo o
rebanho e pelo cuidado com cada ovelha em particular. Nesses termos, sua ação seria
sempre uma ação moral, tanto pelo lado da responsabilidade de velar o rebanho, quanto
pela virtude da obediência que deve ser capaz de seguir e impor, mas exercida, como dito

38
A dupla face deste processo é discutida por Elias nos dois volumes em que se divide “O processo
civilizador” (Elias, 1990 e 1993), dando conta tanto do processo de longo prazo de centralização política dos
Estados modernos (vol.2), quanto da sociogênese da ‘civilização’, entendida também enquanto uma
psicogênese individual (vol. 1). O contato entre essas dimensões pode ser pensado através do conceito de
habitus explorado pelo mesmo autor, como processo histórico de transformação de padrões de
interdependência e inter-relação (ver, além dos citados acima, Elias, 1997: 119-128) que supõe a produção
simultânea e indissociável de representações de si e da coletividade. Como coloca o autor, as representações
que os indivíduos produzem de si devem ser sempre entendidas como um “eu-e-nós ideal” (idem: 147-148). A
ênfase na interdependência entre os indivíduos obriga a que se pense suas unidades não através de termos
facilmente substancializados como “estrutura”, mas em configurações, ou seja, em unidades necessariamente
relacionais e, ao mesmo tempo, capazes de transformação (ver também Elias, 1980 e 1994)

42
antes, no plano da individualização, do conhecimento não de “ovelhas genéricas”, mas do
estado de cada ovelha39.

A ação do Juizado pode ser pensada em termos do poder pastoral na medida em que
se exerce, enquanto ação administrativa, sobre casos particulares, analisando cada
configuração de relações e sua potencialidade. Mas, também, na medida em que se
estabelece a partir dos primados da responsabilidade e da obediência, tanto dos
especialistas frente às suas funções e encargos, quanto daqueles que serão consagrados
tutores – como pais adotivos ou guardiães – ao final do processo ou ainda dos que, mais
que nunca, são reconhecidos como menores ao se confrontarem com o poder da
administração de decidir seus destinos. A eles, aos menores, sejam adotados ou
“guardados”, cabe ocupar o lugar central dessa rede de responsabilidades entre
administração e unidades domésticas, bem como obedecer, uma vez que a relação de
menoridade é, por princípio, uma relação de obediência.

A demonstração maior dessa obediência, por sua vez, está no que Elias chama do
“auto-controle” dos indivíduos, processo simultaneamente sociogenético e psicogenético,
consistindo na incorporação de atitudes e valores como dados da própria individualidade40.

39
Os temas desenvolvidos no pastorado continuariam, para Foucault, “sendo extremamente importantes para
a sociedade contemporânea. Tratam das relações entre o poder político ativo no interior do Estado enquanto
estrutura legal da unidade, e um poder que podemos denominar ‘pastoral’, cuja função é ocupar-se
permanentemente das vidas de todos e de cada um, garantindo-lhes sustento e progresso. O famoso ‘problema
do welfare state’ faz mais que chamar a atenção para as necessidades ou as novas técnicas de governo do
mundo atual. É preciso reconhecê-lo pelo que é: um dos ressurgimentos extremamente numerosos do delicado
ajustamento entre poder político exercido sobre sujeitos civis e poder pastoral exercido sobre indivíduos
vivos” . Foucault destaca alguns aspectos que considera “importantes para a evolução do pastorado, ou seja,
para a tecnologia do poder”, entre eles a responsabilidade e a obediência. Sobre a responsabilidade, coloca
que “vimos que cabia ao pastor assumir a responsabilidade pelo destino do rebanho inteiro e de cada ovelha
em particular (...). Além disso, o cristianismo concebe um sistema complexo de troca e circulação de pecados
e méritos entre cada ovelha e seu pastor. O pecado da ovelha também é imputável ao pastor, que deverá
prestar contas pelo pecado no Juízo Final. Inversamente, ao ajudar seu rebanho a encontrar a salvação, o
pastor irá também encontrar a própria salvação (...) Meu objetivo era simplesmente destacar a força e a
complexidade dos laços morais que unem o pastor a cada membro de seu rebanho. Em particular, eu queria
destacar o fato de que esses laços não dizem respeito apenas a vidas individuais, mas também aos detalhes das
ações dos indivíduos” (...) “A segunda alteração importante diz respeito ao problema da obediência. Na
concepção hebraica, sendo Deus um pastor, o rebanho que o segue acata sua vontade, sua lei. (...) No
cristianismo, o laço com o pastor tem caráter individual. Trata-se de uma submissão pessoal (...). A
obediência é uma virtude”.(Foucault, 1990: 85-86)
40
São diversas as passagens que poderiam ser retiradas do trabalho de Norbert Elias para falar da relação
entre indivíduo e sociedade, sempre criticada por ele quando colocada em termos de polarização. Assim, um
tanto arbitrariamente, escolhi a que se segue, sobretudo pela ênfase dada por ele na formação dos indivíduos
como parte também do transcorrer do tempo (de “crianças” a “adultos”): “normalmente imaginamos o ser
humano, na atualidade, como dotado de diversos compartimentos psíquicos. Estabelecemos distinções entre

43
Nesses termos, a ação individualizadora do Juizado – o caso a caso que compõe seu
cotidiano – realiza-se como ação investigativa sobre potencialidades e viabilidades das
unidades domésticas em relação à conformação, em um sentido amplo, dos menores sob
sua responsabilidade. Os cuidados exemplarmente enunciados no texto legal remetem-se,
desse modo, a processos de constituição individual, por um lado, e a processos de
pacificação social, por outro, concebendo-se a articulação entre administração e unidades
domésticas como tática governamental que permite o controle de populações.

Uma das dimensões tutelares dessa dinâmica consiste, então, na possibilidade da


administração, ocupando o lugar do pastor, nos termos de Foucault, manter-se como
gestora através da distribuição legalmente sancionada de responsabilidades e autoridade.
Investindo sobretudo no poder das configurações ou redes – fisicamente, nas casas – sobre
aqueles que devem, por sua condição legal e simbólica, ser alvo desse controle minucioso
que leva à produção do auto-controle, a administração não se desfaz de suas próprias
obrigações e autoridade – o zelar por todos e por cada um do poder pastoral – embora não
arque diretamente com o ônus do cuidado. Pode, desse modo, cobrar das unidades
domésticas aquilo que se inscreve em suas próprias atribuições. O compromisso soberano
com a vida, com o “fazer viver” de que Foucault fala, viabiliza-se administrativamente
através desse circuito indireto e tutelar de obrigações sobrepostas, no qual as obrigações de
cuidado com os menores são concebidas como atingindo primordialmente àqueles que
seriam seus responsáveis diretos41.

‘mente’ e ‘alma’, ‘razão’ e ‘sentimento’, ‘consciência’ e ‘instinto’ ou ‘ego’ e ‘id’. Mas a nítida diferenciação
das funções psíquicas evocada por essas palavras não é, vale reiterar, algo simplesmente dado por natureza.
Ela só ocorre no ser humano quando ele cresce – criança – num grupo, numa sociedade de pessoas. E, por
mais nitidamente que nossos conceitos possam expressá-la, essa diferenciação só passa a existir aos poucos,
mesmo nos adultos, com a crescente diferenciação das próprias sociedades humanas. Ela é produto de um
processo sócio-histórico, de uma transformação da estrutura da vida comunitária” (Elias, 1994: 36)
41
Em artigo discutindo a questão da cidadania nas classes populares brasileiras, Duarte et al propõem três
grandes ‘processos’ através dos quais se poderia pensar o que chamam do “emaranhado de classificações
disponível sobre a Diferença”: a ‘individualização’, a ‘racionalização’ e a ‘responsabilização’ (Duarte,
Barsted, Taulois e Garcia, 1993: 13). Todos esses processos seriam, por diferentes caminhos, base do que os
autores chamam de ‘cidadanização’, relacionado à concepção foucaultiana de poder disciplinar. Pensar a
‘cidadanização’ implica, porém, para os autores, reenfrentar “o paradoxo dessa sociedade que, ao mesmo
tempo em que cultua os valores articulados pela ‘individualização’, ‘racionalização’ e pela
‘responsabilização’, reproduz permanentemente – como todas as outras sociedades humanas – as
segmentações e diferenciações hierárquicas” (idem: 14). Discutindo a estratégia dos agentes de cidadanização
em relação às classes populares, por sua vez, os autores pensam esse paradoxo também em relação a essas
ações, já que boa parte delas centra-se não na valorização da ‘individualização’, mas “pelo reforço de entes
intermediários que ocupam parte da ‘responsabilização’ pretendida” (idem: 15).

44
Nesse sentido, pode-se pensar que a pacificação social, entendida como objetivo
último da administração, no sentido da trajetória de longo prazo dos Estados modernos, é
construída na prática como um conjunto de estratégias de compromisso com redes e
configurações diferenciadas42. Assim, para além das representações espetaculares da
vigilância – as situações que levam à cassação do pátrio poder – táticas como desconhecer
ou desvalorizar conflitos, realizar cobranças morais, buscar conciliações etc, podem ser
tomadas como alguns dos expedientes que efetivamente tornam possíveis tais
compromissos. Trata-se, portanto, não apenas de reconhecer unidades domésticas como
aptas a gerir e conformar indivíduos, mas de criar as possibilidades de tal reconhecimento,
conferindo a tais unidades domésticas um tipo subordinado de valorização ao toma-las
como “periferias imperfeitas” dos cuidados idealizados legalmente.

Antes de mais nada, cabe à administração garantir o controle dos espectros mais
temidos de desordem social, dos riscos tematizados ao longo dos processos judiciais. A
violência, a sexualidade desregrada, o abandono em suas diferentes formas etc, espreitam o
horizonte da infância fora das unidades domésticas, des-territorializadas e também
descontroladas. Nesse sentido, a pacificação não deixa de ser uma re-elaboração da guerra,
da conquista permanente de populações e territórios sempre tomados como capazes de se
desagregarem ou de se tornarem desconhecidos43. Se pensarmos não em termos abstratos,

42
Tanto os trabalhos de Charles Tilly quanto de Norbert Elias (especialmente Tilly 1996 e Elias, 1993)
destacam que os processos de longo prazo de centralização de recursos e de pacificação dependeram da
guerra, por um lado, com Tilly chegando a discutir de modo provocador a analogia entre o crime organizado e
a guerra como elemento de criação de Estados (Tilly, 1985) e do estabelecimento de negociações variadas
com outras configurações. Em “O Processo Civilizador”, Elias é especialmente claro sobre esse ponto ao
discutir o quanto estratégias de centralização dos Estados modernos dependeram do cálculo feito por
diferentes atores em relação aos ganhos parciais que projetavam conseguir nesse processo, sem que,
obviamente, qualquer dos atores sociais pudesse comportar-se como onisciente frente às transformações de
longo prazo em jogo.
43
Ao falar em pacificação, remeto-me especialmente a concepções de Max Weber, por um lado, e Michel Foucault,
por outro. Weber destaca o quanto é necessário para o estabelecimento e manutenção de formas idealmente
burocráticas de dominação que haja o esforço no sentido de uma “pacificação absoluta” da sociedade, o que só se
realizaria, porém, mediante ações de força, por um lado, e de certos expedientes para administração burocrática
dessa mesma sociedade (Weber, 1996: 729/730). Já a crítica de Foucault às concepções contratualistas de poder,
tomando-o, na tradição hobbesiana, como algo que é “cedido”, encontra na idéia da guerra contínua sua melhor
expressão. A ‘paz civil’ – que poderia ser substituída pela noção processual de pacificação – não seria tomada,
nesses termos, como fim da guerra, mas sim como um deslocamento dela. Segundo Foucault, “sempre se escreveria
a história dessa mesma guerra, mesmo quando se escrevesse a história da paz e suas instituições” (1999: 23). Lima,
por sua vez, relaciona a pacificação a uma modalidade específica de guerra, a conquista, marcada pela necessidade
de fixação do conquistador aos territórios conquistados, bem como da incorporação desigual de populações
conquistadas. Tal empreitada precisa ser pensada, segundo o autor, também como empreitada cognitiva, na medida

45
mas na produção contínua de imagens que tematizam esse desregramento, como as dos
grupos de crianças aparentemente sem relações familiares ou domésticas, andando pelas
ruas, ou ainda das rebeliões constantes em instituições de detenção de menores, a
contraposição entre guerra e pacificação deixa de ser um recurso conceitual para ganhar
contornos de experiência contemporânea e de representações de longo alcance44.

É possível pensar, então, que a produção desse “outro” fantasmagórico – a criança


ameaçadora, descontrolada, solta de relações e vínculos reconhecidos como válidos –
assombra a rotinização da escolha das casas e obriga a que sejam geradas táticas para sua a
domesticação, tanto no sentido de domesticidade, quanto no de docilidade. As crianças
“guardadas” em diferentes unidades domésticas, resultado de situações variadas de
intervenção administrativa do Juizado, são, desse modo, a resposta possível às crianças
soltas, aquelas que tematizam, nos termos de Boswell, o medo por trás do abandono45.

Nesse sentido, é preciso compreender os processos civis de guarda e adoção


também como “conquistas sublimadas” (Lima, 1995: 166), ou seja, como expedientes
administrativos que buscam lidar com a alteridade ameaçadora, a que precisa ser
decodificada, tipificada e frente a qual é válido um tipo de intervenção – ou um conjunto de
táticas de intervenção – discricionariamente aceita. Se o poder soberano deve ser exercido
sobre todos aqueles compreendidos dentro de sua esfera de autoridade – as populações
nacionais, portanto, se pensarmos em termos dos Estados nacionais modernos – a forma
como tal poder é convertido em táticas e estratégias disciplinares não se faz de modo
igualitário. Dizendo de outra forma, os segmentos de populações para as quais certas

que “o ponto de partida fundamental e o operador da conquista é a própria consciência da alteridade e a


capacidade de utilizá-la instrumentalmente para prever os passos e manipular o inimigo” (Lima, 1995: 47)
44
Fonseca e Cardarello discutem o apelo – no sentido do interesse despertado e da disponibilização de
recursos e esforços – que as situações mais dramáticas em torno da infância têm, orientando políticas e
produzindo generalizações e distorções analíticas. Como colocam as autoras, “as estimativas inflacionadas
quanto ao número de ‘crianças abandonadas’ é um exemplo desse processo. Extrapolando a definição legal, o
termo ‘abandonado’ vai se aplicando a um universo mais amplo (atinge, em certos documentos da Unesco,
30.000.000!), tornando-se praticamente sinônimo de ‘criança pobre’. Se, por um lado, esse tipo de exagero
presta-se a campanhas de valor consensual tais como saúde infantil e educação, não podemos ignorar que
aparece, por outro lado, em discursos controvertidos: para justificar a esterilização de mulheres pobres, por
exemplo, ou para advogar a adoção de crianças pobres como solução da miséria” (Fonseca e Cardarello,
1999: 90)
45
Refiro-me aqui à proposição deste autor de que o grande medo por trás do abandono, que tornava o tema
inclusive tão atraente em diferentes narrativas durante a Antigüidade Romana, não era o do abandono em si,
ou mesmo o do infanticídio, mas o da confusão imprevista entre escravos e livres, supondo-se que a criança

46
viabilidades são criadas, negociadas ou aceitas, encontram-se presas a determinados
universos de possibilidade, bem como a determinadas representações46. Nesses termos, é
preciso pensar a ação do Juizado não apenas como ação soberana e disciplinar para todos,
mas como ação pacificadora para alguns, aqueles que supostamente se encontram mais
próximos das representações de desregramento e guerra. É preciso, então, pensar
especialmente sobre o papel daqueles que se voltam diretamente para a produção de
diagnósticos sobre cada caso, bem como para a produção, através sobretudo do
aconselhamento e da mediação (nas mais variadas formas) de soluções administrativas.

Os especialistas da pacificação

Um primeiro ponto a ser colocado a respeito dos processos civis é que, se eles se
inscrevem na esfera da produção propriamente judicial, tendo nos juizes, mas também em
promotores e curadores seus especialistas privilegiados (especialistas dotados de um tipo
peculiar de autoridade, portanto), isso não faz deles produtos exclusivamente judiciais, no
sentido do pertencimento profissional daqueles que os redigem e organizam. Agindo em
estreita colaboração, embora em posição subordinada do ponto de vista da produção de
decisões – sentenças – estão outros especialistas, estes de fato construtores das minúcias
dos processos, os assistentes sociais. Os assistentes sociais efetivamente podem ser
considerados a “voz” dos processos, na medida em que é de seus relatórios que se extraem
as descrições das configurações em que uma criança está ou deve ficar. Nesse sentido, se os
especialistas do judiciário têm a função de produzir o resultado do “inquérito”, no sentido
colocado por Foucault (1996) e mencionado antes, aos assistentes sociais cabe conduzir o
“exame”, a avaliação singularizada voltada à produção de diagnósticos. Como pretendo

abandonada, sendo de origem desconhecida, poderia assumir um status social que não era o que lhe caberia.
(Boswell, 1988: 62)
46
Vale a pena lembrar aqui as análises de T. Todorov (1988), discutindo a dimensão cognitiva da conquista
da América e, especialmente, de Said sobre o “orientalismo”. Este último autor, ao discutir o “orientalismo”
em suas diversas dimensões, alerta para que essa modalidade de compreensão e decodificação do “outro” só
pode se realizar na medida em que congrega a dupla dimensão da dominação: o controle e o conhecimento.
Como lembra Said, “o Oriente foi orientalizado não só porque se descobriu que ele era ‘oriental’ em todos
aqueles aspectos considerados lugares comuns por um europeu médio do século XIX, mas também porque
podia ser – isto é, permitia ser – feito oriental” (Said, 1990: 17)

47
discutir no capítulo seguinte as implicações da forma narrativa específica dos processos,
por ora não descreverei o que cabe a cada especialista em termos da construção dos autos,
mas procurarei colocar algumas questões em torno da especificidade da atuação dos
assistentes sociais.
Se as negociações em torno dos processos civis, em especial dos processos de
guarda, podem ser compreendidas em relação a esforços mais amplos de pacificação social,
o tipo de ação empreendido por assistentes sociais ao longo destes processos deve ser
entendido como parte fundamental desses mesmos esforços, na medida em que é dos
relatos feitos por eles que se extrai a base para os acordos a serem firmados e que são
avaliadas as viabilidades administrativas de cada decisão. Fixar menores em casas,
consolidar legalmente o seu pertencimento a uma dada configuração de relações é, desse
modo, tarefa não apenas dos especialistas judiciais, mas sobretudo, no plano da ação mais
capilar, dos assistentes sociais. Nesses termos, as incumbências propriamente judiciais do
Juizado são apenas uma faceta, muito embora uma faceta dotada de força singular, de uma
dispersão mais ampla de tarefas e expedientes administrativos em torno da gestão de
infâncias ou menoridades47.
O sentido preventivo de suas atividades – parte da própria compreensão de sua
função pacificadora – faz com que o Juizado encontre-se em relação, por princípio, com
outras instâncias ou mesmo que seja concebido, em termos de seu funcionamento interno,
como devendo congregar saberes múltiplos. Esta necessidade vem da própria compreensão
dos esforços em prevenir, mais do que de punir, como parte intrínseca à modernidade das
intervenções administrativas sobre a infância – lembrando sempre que o moderno é um

47
Analisando o caso francês, Donzelot coloca que “o tribunal de menores não é uma jurisdição menor para
menores, mas sim a viga-mestre de um gigantesco complexo tutelar, englobando além da pré-delinqüência
(...), a Assistência Social à Infância (...) e uma boa parte da psiquiatria infantil” (Donzelot, 1986: 105). Para o
contexto mais recente, Serre (2001) fala de um processo crescente, especificamente mas não exclusivamente
francês, de “juridicização” das questões em torno da infância, a partir da rubrica da “criança em perigo”. O
caso específico analisado pela pesquisadora, o dos maus tratos domésticos, oferece uma perspectiva nítida
dessa “juridicização”, entendida como a extensão da intervenção da instância judiciária em outras esferas da
vida social. Nesse sentido, embora sempre relacionada a outros saberes e autoridades específicas,
notadamente as que vêm dos discursos, no sentido foucaultiano, psi, a autoridade propriamente jurídica e
judicial das intervenções sobre a infância continuaria ocupando lugar central no “complexo tutelar” de que
fala Donzelot. Algumas discussões acerca das transformações mais recentes nos temas em torno dos direitos e
cuidados da infância serão feitas mais adiante, ainda nessa parte.

48
qualificativo operacionalmente variado, mas que mantém seu componente de valor desde a
criação do Juizado até sua existência contemporânea48.
Nesse quadro, a introdução do trabalho técnico de assistentes sociais, embora se
coadune a esforços mais gerais de decupação (e composição) dos problemas da infância
entre diversos saberes, dotados de graus variados de formalização no tempo e situados em
relações desiguais uns frente aos outros, ocupa um lugar peculiar. Se a criação de uma
instância como o Juizado está marcada pelo cruzamento entre diferentes campos de
conhecimento dotados já na época, ou seja, em 1923, de certa densidade profissional e
reconhecimento social, notadamente o campo propriamente jurídico e o médico, o diagrama
mais impreciso da “assistência” também desempenhou papel importante. A contraposição
entre formas de caridade consideradas no final do século XIX e princípios do XX como
“tradicionais” e a caridade científica representada pelas correntes filantrópicas indica, em
princípio fora da arena judicial, a tensão entre projetos diferentes de intervenção centrados
na idéia de assistência.
Os principais argumentos de acusação trocados por atores identificados a essas duas
formas dominantes de assistência (internamente subdivididas elas mesmas) se pautavam
predominantemente, até os anos 1930, pela idéia de que a filantropia seria por demais
impiedosa e destituída de fé, enquanto a caridade mais tradicional, usualmente vinculada às
instituições religiosas, seria desorganizada e sem critérios científicos (Rizzini, 1993: 47).
No plano da intervenção estatal, por sua vez, as décadas de 1920 e 1930 – período em que
se modificou o panorama da assistência, com as instituições religiosas perdendo seu quase
que exclusivo domínio sobre a assistência – marcam de início uma combinação ou
oscilação entre essas duas perspectivas, havendo uma tendência geral, porém, para que
argumentos filantrópicos, como as própria formas de diagnósticos e intervenção

48
Analisando as propostas e ações do jurista Evaristo de Moraes, um dos principais articuladores no campo
jurídico da proposta de criação tanto do Juizado de Menores, quanto de um corpo legal especificamente
voltado à infância, Irene Rizzini indica o quanto os argumentos mobilizados por este e outros atores sociais
estavam balizados pela perseguição ao que seria o “direito moderno” da época. A associação feita por ele
entre infância e periculosidade, eixo da defesa de uma ação preventiva sobre os menores, nas palavras da
autora “refletia um movimento quase que simultâneo na Europa e, mais marcadamente, na América do Norte,
de modernização da Justiça, com repercussão direta sobre a legislação e a prática jurídica destinadas aos
menores de idade” (Rizzini, 1997: 202)

49
preventivos, fossem também assumidos por atores e instituições alocados no lado da
caridade 49.
Nesse quadro, a reformulação das organizações católicas foi crucial não apenas
para que essa tensão encontrasse uma via produtiva, através do redirecionamento das
formas de assistência prestadas por instituições vinculadas à Igreja Católica, mas para a
própria definição do que viria a ser o serviço social enquanto ação administrativa. Como
alguns autores têm apontado, a gênese das atividades efetivamente profissionais de
assistência, ou seja, não voluntárias ou realizadas no âmbito da caridade, encontra-se
estreitamente ligada ao desenvolvimento de novas organizações católicas, preocupadas com
a redefinição do papel da Igreja no Estado republicano e com a perseguição a formas mais
sistemáticas e socialmente valorizadas (em termos de sua afinidade com padrões de
cientificidade) de intervenção.
Nesse sentido, organizações como o Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo
– CEAS, diretamente ligado a setores da Igreja Católica, e que ministrou o primeiro “Curso
intensivo de Formação Social para Moças”, em 1932, lançaram as bases para o que um
pouco mais tarde seriam as primeiras Escolas de Serviço Social, surgidas em 1936 em São
Paulo e 1938 no Rio de Janeiro. A gênese do CEAS, por sua vez, pode ser localizada nas
organizações criadas no bojo da “Reação Católica”, termo pelo qual ficou conhecida a ação
de setores da Igreja Católica no sentido de restabelecer – de forma modificada – a
influência junto ao Estado que teria sido formalmente perdida com o caráter laicizado na
Constituição republicana de 1891. Entre essas organizações merecem destaque a Ação
Católica e a Ação Social, ambas surgidas na década de 1920 e preocupadas com a
estruturação de formas mais eficazes de intervenção. O papel do CEAS no surgimento da
formação técnica especializada em Serviço Social pode ser inferido de sua pauta de cursos,
entre os quais incluíam-se cursos de filosofia, moral, legislação do trabalho, enfermagem de
emergência, entre outros (Iamamoto e Carvalho, 2000: 165-173).

49
Irma Rizzini fornece um panorama detalhado dessas tensões e de sua importância na construção da
assistência pública no Brasil (Rizzini, 1993: 47-61). Além de Rizzini, um quadro dessas diferentes atuações
pode ser encontrado nos trabalhos de Alvim e Valladares, 1988: 3-5; Landim, 1993: 14; Arantes, 1995: 194-
207, entre outros. A absorção de parte das críticas filantrópicas e as transformações subsequentes sofridas pela
assistência católica, inclusive em relação à sua vinculação a instâncias estatais pode ser colocada em termos
da procura por parâmetros para um apostolado leigo, de filiação e inspiração nitidamente religiosas, mas
orientado pela busca de formas mais eficazes e “cientificamente” balizadas de intervenção. (ver Brandão,
1975; Iamamoto e Carvalho, 2000)

50
No caso específico do Rio de Janeiro, embora a presença católica tenha sido
decisiva na organização dos primeiros cursos de formação de assistentes sociais, percebe-se
mais claramente o esforço realizado pela própria administração e, notadamente, pelo então
Juízo de Menores, em incentivar e organizar os canais para que essa formação pudesse se
dar. Assim, ao lado de instituições como o Instituto de Educação Familiar e Social, criado
em 1937 por iniciativa do Grupo de Ação Social, católico, surgiram a Escola Técnica de
Serviço Social, em 1938, por iniciativa do Juízo de Menores ou, em 1940, o curso de
Preparação em Trabalho Social na Escola de Enfermagem Ana Néri, pertencente ao
governo federal e que deu origem à Escola de Serviço Social da Universidade do Brasil 50.
Por outro lado, está presente no próprio decreto que cria o Juízo de Menores a
preocupação com a organização de formas sistemáticas de investigação sobre os casos
apresentados e, para que isso fosse cumprido, com a busca de recursos em outros campos
de saber, capazes tanto de avaliar a situação moral dos menores e suas famílias, quanto as
suas condições médico-psíquicas51. Nesse sentido, a atuação de profissionais formados
tecnicamente através de cursos ministrados por organizações católicas ou pelo próprio
Juízo, ou ainda pela associação entre ambos, na década de 1930, e pelas escolas de Serviço
Social, a partir da década de 1940, obedece a uma preocupação fundadora da própria
instância administrativa: intervir a partir da emissão de diagnósticos avalizados.
Retomando o que foi dito na primeira parte do capítulo, essa intervenção pode ser
lida conceitualmente a partir do poder pastoral, na medida em que se organiza como ação
sobre uma coletividade, tomada por princípio como relativamente homogênea (ou capaz de
ser compreendida de forma homogênea, pela construção de tipologias em torno dos

50
Esses dados podem ser encontrados de forma mais detalhada no trabalho já citado de Iamamoto e Carvalho, que
descrevem ainda, para o caso do Rio de Janeiro especialmente, o que chamam do caráter de “semi-oficialidade” da
Primeira Semana de Ação Social, realizada em 1936. Esse caráter seria perceptível no estreitamento dos laços entre
as instituições católicas que promovem o evento e os representantes governamentais da “Comissão de honra”,
membros do legislativo, judiciário e executivo, bem como a Primeira Dama, srª Darcy Vargas (Iamamoto e
Carvalho, 2000: 181-182). Tanto nesse encontro quanto em outros, posteriores, é enfatizada a necessidade de
formação técnica especializada para aqueles que deverão levar adiante as tarefas, sobretudo preventivas, de
assistência, quer elas se realizem através de organizações católicas ou estatais, bem como de uma ação conjugada
entre ambas e, agregando-se a elas, instituições patronais (idem: 184)
51
Irma Rizzini destaca que “era tarefa do juiz inquirir e examinar o estado físico, mental e moral dos
menores, como também a situação social, moral e econômica dos pais, tutores e responsáveis pela sua guarda.
Para tal, deveria contar com o auxílio de um médico-psiquiatra e seis comissários de vigilância” (Rizzini,
1995: 264). Um panorama da legislação relativa ao Serviço Social pode ser encontrado em Backx, 1994 e
Paula, 2001 e uma discussão sobre o papel específico desses profissionais durante o Estado Novo, junto ao
Departamento Nacional da Criança, pode ser vista em Pereira, 1999.

51
“problemas da infância”), mas também como ação individualizante, na medida em que
supõe não apenas políticas gerais de intervenção, mas análises da cada caso. Nesses termos,
é possível estabelecer, como Foucault propõe, tanto uma relação entre o poder pastoral e as
obrigações variadas de cuidado dos Estados modernos, inclusive sob as formas de
existência dos “Estados de bem estar”, quanto sublinhar o fato de que tais obrigações só se
realizam, enquanto práticas administrativas, como ações de diagnóstico, valoração e
intervenção singularizadas52.
Um outro aspecto merece ser destacado, por sua operacionalidade para o que
pretendo tratar aqui: o papel desses profissionais nas ações de mediação que, junto com as
de diagnóstico, compõem seu saber específico. Na gênese do serviço social
profissionalizado está não apenas a preocupação com o escopo de questões relativas à
assistência de um modo geral, seja ela originariamente religiosa ou não, mas com a
possibilidade de colaborar na resolução de conflitos e na preservação de relações. O ideal
de família, presente tanto na legislação, quanto nas representações de infância saudável,
defendida por higienistas e pela Igreja católica, supõe o esforço em conservar unidades
domésticas, reformando-as na medida do possível, através sobretudo de técnicas de
aconselhamento, já que dispositivos de barganha semelhantes aos dos “Estados de bem
estar” europeus não se implantaram de modo significativo aqui53.

52
Tanto François Ewald, quanto Abram de Swaan, ao descrever os processos de longo prazo de estruturação
dos Estados de bem estar europeus (de Swaan) ou especificamente o caso francês (Ewald) sublinham a
necessidade de uma nova concepção de responsabilidade social, bem como de novos mecanismos de gestão
dos males sociais. De Swaan destaca o que chama de “processos de coletização”, mostrando como ações
heterogêneas e dispersas de auxílio mútuo foram sendo centralizadas em instituições estatais, implicando na
maior gerência governamental sobre domínios familiares ou grupais, como no caso das associações de
trabalhadores (1988: 187-217, especialmente). Já Ewald fala na redefinição do “contrato social” em um plano
mais geral, incluindo a formação efetiva de legislações sociais, sublinhando, porém, que a generalização e
padronização da previdência social – em comparação com a caridade que lhe antecede – não retira o caráter
moral dessas ações, a ser encarnado sobretudo pelas assistentes sociais estatais (Ewald, 1986: 323-332).
53
As pressões higienistas para a reestruturação das famílias nas primeiras décadas do século XX são descritas
por diversos autores, como Costa, 1983; Rago, 1985, entre outros, e têm nos escritos de época de Moncorvo
Filho referência fundamental (ver, por exemplo, Moncorvo Filho, 1922 e 1926). As reações de organismos
patronais, como a Fiesp, por sua vez, oferecem um contraponto interessante às representações do esforço
higienista, na medida em que demonstram, ao menos como intenção, os limites a serem dados à implantação
de mecanismos estimuladores da reestruturação familiar. No que tange especificamente ao trabalho infantil,
tema de interesse de um organismo como a Fiesp, a reação ao Código de Menores demonstra o quanto esses
atores sociais não se encontravam dispostos a bancar sua parte para que as transformações defendidas com
fervor ideológico pelos higienistas se concretizassem: “o Código de Menores não garante nem a segurança
geral da sociedade, nem a segurança individual do operário. Nocivo aos mesmos, fere além disso a liberdade
de trabalho, não em benefício da sociedade ou de qualquer de suas classes, mas para favorecer a calaçaria da
adolescência e a multiplicação das prostitutas e dos criminosos” (Livro de circulares da Fiesp, apud Vianna,
1976). Comparando o processo francês com o brasileiro, Fonseca e Cardarello colocam que aos assistentes

52
Tal dimensão faz com que as ações dos profissionais do serviço social, inclusive
quando alocados junto ao judiciário, estejam pautadas por um ethos que se pretende ao
mesmo tempo técnico e moral. Ou seja, que se oriente – e se construa ao longo de sua ação
cotidiana – pela preocupação em intervir a partir de uma posição superior à das famílias, já
que respaldado pela formação técnica peculiar, mas que combine essa formação a
estratégias discursivas predominantemente morais ou moralizantes. Assim, para além dos
juízos de valor emitidos ao longo dos processos, o caráter moral das ações profissionais se
faz presente também na utilização de argumentos envolvendo os compromissos de uns
frente aos outros na casa, como caminho para que a mediação empreendida pelos
especialistas se realize com sucesso.
O caráter pedagógico de tais ações, realizado através das estratégias de
aconselhamento dos envolvidos em um processo, só pode ser entendido, portanto, frente a
essa combinação entre técnica e moral: trata-se de conduzir a soluções a partir de um saber
superior ao das próprias famílias, mas orientando-se fundamentalmente pela necessidade de
preservar ao máximo tais famílias, exceto em casos nos quais outras opções se ofereçam
como mais atrativas (guardas patronais ou parentais consideradas superiores por algum
critério, por exemplo)54. A pedagogia que atravessa as atividades de assistentes sociais não
deve ser tomada – ou não deve ser tomada apenas – como parte de tarefas e esforços
fiscalizadores, mas como ação tutelar que busca orientar e conduzir aqueles que são

sociais franceses teriam sido fornecidos mecanismos compensatórios à intervenção moralizante sobre as
famílias, como “empregos para pais ‘ociosos’, tratamento para mães alcoólatras e centros educativos para
educar seus filhos durante as férias”, enquanto assistentes sociais brasileiros pouco teriam com o que
negociar, restringindo-se via de regra a pressionar as famílias com a ameaça da perda dos filhos (Fonseca e
Cardarello, 1999: 110)
54
A variabilidade no uso das categorias e critérios de julgamento vai ser discutida a partir dos processos
selecionados, quando creio que ficará evidente que, se existem limites que não podem ser ultrapassados,
inexiste uma forma rigidamente estabelecida de avaliar os casos, tendo imensa importância o tipo de “oferta”
em jogo em cada situação. Variabilidade semelhante foi apontada por Cláudia Fonseca ao discutir que “o
‘respeito pelas práticas costumeiras’ dos pobres tende a diminuir rapidamente quando entra em conflito com
os interesses de alguém ‘em melhores condições’” (Fonseca, 1997: 141). João Pacheco de Oliveira, por sua
vez, ao discutir o que chama de “os referenciais da administração”, coloca que “sem restringir a elasticidade e
limitar as funções ideológicas da tutela, há necessidade de um conjunto de normas que instrumentalizem os
funcionários (e possam vir a ser de conhecimento geral) sobre as modalidades pelas quais deva ser exercido
esse mandato. Existem dois aspectos envolvidos nisso: a) a definição das normas, realizadas por leis,
estatutos, regimentos, portarias, instruções etc; b) o conhecimento e a atualização das normas pelos
funcionários, implicando em canais de socialização, em meios de supervisão e correção das iniciativas
tomadas” (Oliveira Filho, 1988: 225). Nesse sentido, tal variabilidade se distribui entre os limites das normas
definidas e o discernimento e julgamento específico que cada avaliador faz incidir sobre um caso concreto.

53
entendidos como incapazes de dominar plenamente os códigos e de assumir integralmente
os modelos mais idealizados de família.
Assim, em que pesem as possíveis mudanças nas formas de atuação dos assistentes
sociais alocados junto ao Juizado em diferentes fases de sua existência, o que não está
sendo contemplado nessa tese, há uma orientação que parece se perpetuar, a de agir
buscando as soluções possíveis, reconhecendo em tais soluções uma grande inferioridade
frente ao ideal55. O reconhecimento dos limites desse possível, por sua vez, está dado tanto
pela trajetória específica de construção – ou não construção – dos mecanismos que
efetivamente viabilizam e obrigam à implantação das responsabilidades coletivas de que as
legislações sociais tratam, quanto pelo que estou compreendendo aqui como sendo o
sentido tutelar de tais ações. A percepção de uma incompletude que não pode ser
integralmente superada, seja ela dos próprios menores ou de suas famílias, dá às ações dos
assistentes sociais a conotação de um esforço sempre tutelar, na medida em que supõe que
o encontro entre especialistas e não-especialistas faz parte de um processo de aprendizado
em que cabe aos primeiros iluminar os demais (sobre como se construir e conduzir
enquanto unidade doméstica), mas, ao mesmo tempo, supõe que tal aprendizado tem limites
que não serão ultrapassados.
A suposta oferta de benefícios que orientaria tanto a existência em si de
profissionais voltados ao “serviço social” – a assistência a ser prestada, portanto – quanto
as possibilidades de barganha disciplinadora, coloca assistentes sociais na posição tutelar de
ensinar sobre os comportamentos desejáveis, mas, ao mesmo tempo, de condenar os que
estão na posição de buscar seus serviços ou de ser alvo de sua fiscalização como sendo
incapazes de realizar plenamente o aprendizado56. Cabe agora, então, discutir em que

55
Para que as variações sofridas na concepção do que seja o serviço social fossem rastreadas, seria necessário
percorrer o itinerário – ou os itinerários – de diferentes faculdades que formam esses profissionais, bem como
das influências que, em determinados períodos, certas teorias, ou a apropriação que foi feita delas nos cursos
universitários, podem exercer. Seria o caso, por exemplo, de pensar a influência das correntes marxistas na
auto-avaliação que esses profissionais fazem de sua função social, bem como, no caso específico da infância,
o impacto que a doutrina da proteção integral, preconizada pelo ECA, tiveram sobre esse trabalho. A
preocupação com as possibilidades do serviço social atuar como elemento “transformador” e não
“conservador” da sociedade aparece em autores como Paula, 2001; enquanto algumas contradições e conflitos
de assistentes sociais com relação à legitimidade de suas próprias funções são mostradas por Cardarello, 1996.
56
Este tipo de relação de simultâneas dependência mútua e desprezo é apontada por Paine que, discutindo a
relação entre Innuits e funcionários da administração canadense, chama a atenção para o conflito presente na
reação de desprezo dos últimos ao que qualificam como a dependência dos Innuits em relação aos benefícios
sociais oferecidos pelo governo canadense, ao mesmo tempo em que são os responsáveis pela distribuição
desses mesmos benefícios (Paine, 1977: 84-85)

54
residem tais limitações e, ao mesmo tempo, qual o sentido da ação tutelar realizada pelos
especialistas – os aprendizados nunca concluídos – e seu lugar enquanto elemento de
pacificação.
O universo ao qual se destinam as ações dos assistentes sociais não é o universo das
famílias em geral, muito embora conflitos e temáticas envolvendo a relação entre infâncias
e famílias se espalhem heterogeneamente por diferentes grupos sociais57. Desde sua gênese,
essas ações e seus canais institucionais estão voltados para o que chamaremos aqui de
forma propositalmente genérica de populações pobres, considerando que tal designativo
inclui variáveis significativas em seu interior.
Faço a opção por esse termo, e não por aqueles usualmente utilizados em estudos
sobre famílias, como famílias populares ou famílias das classes trabalhadoras, em
primeiro lugar, por respeito à própria gênese do serviço social, ou seja, como um serviço
nascido de formas de assistência predominantemente religiosas em que o cuidado e a
bondade realizam-se frente àqueles que são considerados desprovidos de quaisquer meios
para gerir a si próprios de modo plenamente satisfatório: como pobres, enfim. Assim,
desempenha papel indiscutivelmente importante nessa gênese aquilo que Boswell (1988)
descreve como a transformação de significados sofrida pelo abandono a partir da Idade
Média européia, em razão da expansão da cristandade e das suas instituições organizadas.
Ainda nessa direção, lembro que se retomarmos o pastorado propriamente cristão a que
Foucault faz referência, é possível pensar que o rebanho a ser cuidado inclui todos os fiéis,
mas que encontra uma representação bastante difundida como o rebanho dos “pobres de
Deus”58.

57
Donzelot discute a diferença acerca dos diagnósticos em relação aos perigos que atingiriam as crianças de
famílias ricas e pobres e, em conseqüência disso, as diferentes formas de intervenção a serem dedicadas a
umas e outras (Donzelot, 1986: 15-23). Já Verdès-Leroux critica neste autor justamente o que considera uma
formulação excessivamente genérica por ignorar “a natureza de classe dos fenômenos sociais” (1986: 7-8):
Independente desse embate específico, creio que é importante chamar a atenção para a heterogeneidade dos
fenômenos ou fatores considerados ameaçadores para a infância em diferentes momentos e para diferentes
grupos sociais. Atualmente, essa heterogeneidade encontra um ponto de conversão na noção de risco, que será
discutida mais à frente, e que pode contemplar tanto situações que atravessam os diferentes grupos ou classes
sociais – como a exposição à mídia ou mesmo a violência doméstica – ou que atinjam apenas alguns desses
grupos – como o trabalho infantil ou a miséria.
58
Uma outra aplicação interessante do termo pobre e do tema da pobreza como condensando múltiplas
inferioridades e definindo a condição de menoridade se dá no caso do tratamento colonial a povos indígenas.
Discutindo a colonização portuguesa e as relações de poder estabelecidas com povos indígenas no século
XVIII, Ângela Domingues coloca que “no que a infrações ou crimes dizia respeito, os ameríndios estavam
sujeitos à tutela de tribunais eclesiásticos ou civis, consoante a natureza do delito em julgamento. Era na

55
Essa escolha se faz ainda por outro motivo, este ligado ao que se poderia chamar de
gênese institucional ou de gênese administrativa. Como dito antes, em geral os autores
preocupados com a investigação do surgimento do Juizado, sob designação de Juízo de
Menores, têm destacado os esforços políticos e intelectuais de atores situados entre os
campos do direito, da medicina e da filantropia de um modo geral para sua criação, bem
como para o surgimento de uma legislação específica para a infância. Em que pese a
importância de tais intervenções, passíveis de serem mapeadas historicamente através dos
projetos de lei apresentados ou de publicações em jornais e anais de congressos científicos,
creio que uma outra dimensão dessa genealogia tem sido negligenciada. Refiro-me aqui ao
que procurei explorar em outro trabalho: a relação entre o corpo policial e suas práticas e a
legislação e administração judicial da infância59.
Práticas como o recolhimento discricionário de menores considerados abandonados,
vadios, ou praticantes de algo vagamente definido como pequenos furtos, não se faziam,
como procurei mostrar então, descoladas de um duplo objetivo das ações policiais: zelar
pela ordem pública e, ao mesmo tempo intervir sobre indivíduos singularmente
compreendidos como perigosos (efetiva ou virtualmente). Por outro lado, o cotidiano
policial também estava marcado, em relação a esses menores e suas famílias ou
responsáveis, por expedientes de negociação variados, entre os quais encontravam
importância singular as demonstrações de que os menores detidos estavam inscritos em
relações tutelares reconhecidas como válidas pelos policiais. Desse modo, além dos pais, a
existência de patrões ou padrinhos, podia representar a fiança capaz de separar a detenção
da liberdade.
Como não pretendo me alongar nesses argumentos, já desenvolvidos antes, gostaria
apenas de destacar que a gestão estabelecida pelo Juizado ao longo da sua trajetória, ainda

apreciação da infração, no decorrer do processo e na atribuição da pena que a noção dos índios enquanto
miseráveis ou pobres influía. Esta pobreza era, antes de mais, financeira: a maioria dos índios não tinha
rendimentos para sustentar os custos de um processo. Depois, era também moral ou ética: grande parte dos
ameríndios não possuía a capacidade de avaliar com justeza as suas ações, bem como as de com quem eles
contactavam. (...) Ao mesmo tempo em que lhes concedia o estatuto de miseráveis ou pobres, a coroa não
esperava que os súditos ameríndios do Norte brasileiro fossem capazes de instituir sobre si um governo
próprio, livre e justo (...). Daí advinha a necessidade de nomear tutores ou indivíduos que representassem e
governassem os índios” (Domingues, 2000: 306-307)
59
Alguns desses debates políticos e acadêmicos foram dissecados por Faleiros, 1995 e Rizzini, 1997; entre
outros. O trabalho em que procurei discutir a ação policial anterior ao Juízo de Menores e ao Código de
Menores, indicando o quanto de seu saber prático e ações estratégicas são incorporados e formalizados na lei
que lhes é posterior é Vianna, 1999.

56
que considerando mudanças em termos de legislação ou práticas de intervenção, se faz
pautada pelo mesmo tipo de preocupação preventiva e, caso considerado necessário,
punitiva. Afinal, ser incapaz de apresentar um responsável continua sendo motivo de
internação, dando-se sob variadas rubricas que compõem a semântica do abandono60.
Mesmo que as internações por abandono não sejam classificadas punitivamente, como
também não o eram nos registros policiais do começo do século XX, isso não faz com que
elas sejam percebidas de modo menos negativo pelos próprios assistentes sociais. A ilusão
higienista das instituições de internação benéficas, capazes de, como dizia Franco Vaz,
diretor da Escola Premunitória Quinze de Novembro, “metamorfosear miniaturas de
facínoras” em indivíduos úteis (apud Vianna, 1999: 164), parece ter se perdido
definitivamente. Ao contrário, como se verá em alguns processos analisados nos outros
capítulos, a internação é usualmente retratada como maléfica pelos próprios responsáveis
por sua viabilização. Por fim, creio ser importante lembrar também que antes do
estabelecimento de instâncias judiciais especificamente voltadas para a gestão da infância e
da formulação de uma legislação com o mesmo objetivo, diferentes instâncias
administrativas davam conta do que se poderia caracterizar aqui como a “infância com
posses” e a “infância sem posses” – pobre, portanto.
Para realizar uma genealogia de longo prazo dessas divisões, porém, seria
necessário pensar não apenas na regulação da infância no período imperial ou republicano
anterior ao Código de Menores mas, indo mais longe, na figura do juiz de órfãos, cujas
funções eram definidas no período colonial pelas Ordenações Filipinas. Os critérios dos
juizes de órfãos para os casos de orfandade baseavam-se nas suas posses ou em sua
capacidade de trabalho, enquanto as viúvas só podiam manter a curadoria sobre seus filhos
menores nas situações em que este fosse o desejo expresso por seus maridos em testamento
e, mesmo quando isso ocorria, o direito de curadoria era perdido caso houvesse um novo
matrimônio. Caso não houvesse curador designado, ou a mãe perdesse seu direito, o menor

60
As variações no que chamei aqui de semântica do abandono dizem respeito não apenas a qualificativos
usados para descrever e, desse modo, explicar o abandono – moral, por pobreza etc – mas também à
capacidade dos diferentes atores sociais articularem e manipularem, frente a diferentes situações, essas
categorias classificatórias. Tomando como foco as categorias de internação em unidades da Febem depois da
promulgação do ECA, Fonseca e Cardarello destacam a maleabilidade com que tais categorias são
empregadas por assistentes sociais em diferentes momentos. As autoras chamam a atenção especialmente para
uma transformação peculiar, representada pela conversão da categoria “problemas sócio-econômicos” em
“negligência” termo com grande poder acusatório. (1999: 107)

57
poderia ser colocado, mediante soldada (forma de pagamento arbitrada judicialmente e à
qual o menor só tem acesso na sua maioridade) , em outra casa, fosse essa de parentes ou
não (Silva, 1988: 19-31).
Embora pelas Ordenações Filipinas a alocação dos menores pudesse ser decidida
mediante pregão público, com a soldada para os maiores de 7 anos sendo arbitrada pelo
Juiz de Órfãos, era possível evitar tal expediente na medida em que se arbitrasse soldada
para parentes, de modo a que o mecanismo do pagamento em si não fosse desrespeitado,
mas também não houvesse o desligamento completo da família (Silva, 1998: 19-31). Por
outro lado, no caso de órfãos com tipos peculiares de posse – como escravos – a tutela
definida sobre eles exercia-se também sobre esses bens, inclusive no caso de índios que,
não sendo considerados propriedade, podiam estar ligados a esses órfãos na condição de
“serviços” ou “peças forras necessárias ao sustento dos órfãos”, ficando também
imobilizados no mesmo arranjo tutelar (idem: 28-39). Por fim, é interessante notar que
tanto as varas de órfãos continuaram existindo durante o período imperial, embora referidas
às novas legislações, como a própria Constituição do Império, de 1824 e o Código
Criminal, de 1830, quanto o mecanismo da soldada continuou a ser utilizado, inclusive no
período republicano, para o caso de jovens que fossem designadas para fazer serviços
domésticos, ficando sob guarda de seus patrões.
É possível, pensar, portanto, em termos de processos de longo prazo capazes tanto
de engendrar mecanismos estratégicos, quanto de criar instâncias administrativas (judiciais
ou não) diferenciadas para gerir a infância “com posses” e “sem posses”. Nesse sentido,
creio ser importante retomar o que foi dito na Introdução com relação à correspondência
entre certos modelos familiares – como a família nuclear – ideologicamente predominantes,
mesmo que não universalizáveis concretamente, e o tratamento judicial dedicado a outras
configurações em torno de uma criança. A cisão entre varas de família, destinadas a
arbitrar situações de guarda entre aqueles que detêm a paternidade/maternidade de uma
criança, usualmente envolvendo processos de separação conjugal, e o Juizado pode ser
pensada como correspondendo, grosso modo, à divisão entre o modelo nuclear e outros
modelos ou possibilidades de criação de uma criança61.

61
No Rio de Janeiro, essa é a divisão judiciária ainda predominante, havendo, porém, dos últimos dois anos
para cá, sobretudo, uma participação maior das varas de família na arbitragem também de guardas envolvendo

58
Se tais modelos correspondem, por sua vez, não só a experiências sociais
diferenciadas, mas, como vem sendo indicado pela literatura sobre o tema, a divisões ou
hierarquias sociais mais amplas, é possível inferir que a separação judicial de tarefas em
torno dos casos de guarda – envolvendo famílias nucleares ou não – também organizam
tais divisões e hierarquias. Desse modo, a circulação de crianças como expediente
identificado a grupos populares (Fonseca, 1995), pode ser compreendida judicialmente
como estratégia de gestão de modelos familiares ideologicamente percebidos como faltosos
ou imperfeitos, independente da forma que a intervenção judicial assuma (ratificando ou
desconhecendo como válido tal expediente).
Assim, é preciso decompor a pobreza em uma gama mais variada de faltas, ou seja,
não a considerando apenas como sinônimo de inferioridade ou precariedade econômica,
mas também de distância em relação a critérios variados de desigualdade social. Não é um
dado fortuito, porém, que tais critérios usualmente coincidam com a inferioridade
econômica, compondo o que Tilly designa como combinações entre desigualdades
categóricas, ou seja, como a diversidade de pares de desigualdade que em si mesmos já
configuram relações assimétricas, mas que podem ainda ser agregados de formas variadas
uns aos outros, reforçando tais assimetrias e dando-lhes durabilidade e capacidade de
expansão62. Assim, à desigualdade econômica decisiva que norteia a separação entre as
configurações ou unidades domésticas consideradas capazes de bem gerir e formar suas

outros parentes, principalmente avós paternos ou maternos. A promulgação do novo Código Civil com certeza
também trará mudanças a esse cenário nos próximos anos.
62
Charles Tilly coloca a produção da “desigualdade durável” (durable inequality) como questão a ser
investigada. Centrando-se não na diferença ou hierarquia de classes baseada em um único critério, como o
econômico, mas em um plano mais amplo e cheio de variáveis, como a desigualdade de acesso a certas
oportunidades, ou a operacionalidade de categorias discriminatórias, Tilly propõe que se pense em termos de
combinações entre desigualdades categóricas, dispostas em pares como homem/mulher, branco/negro,
ricos/pobres etc. Mais que uma formulação teórica de compreensão dos critérios de desigualdade, o que Tilly
oferece com essa proposição dinâmica é a possibilidade de se pensar, por um lado, na operacionalidade desses
critérios, já que eles orientam os atores sociais em suas escolhas e decisões (optar por contratar um
empregado negro ou branco, por exemplo), e, por outro lado, sobre a sua capacidade de proporcionar a
concentração ou o armazenamento de oportunidades por certos grupos ou indivíduos. A capacidade de
controlar oportunidades teria por efeito não apenas favorecer de modo desigual alguns indivíduos em relação
a outros, mas permitir que a desigualdade se sustente no tempo, renove-se enfim, ganhando a durabilidade em
torno da qual o autor constrói sua pergunta. O fato de Tilly trabalhar com a questão da desigualdade de
recursos de um modo mais amplo do que em análises centradas na assimetria econômica parece-me de
especial valor para o que está sendo analisado aqui, uma vez que o Juizado, como todas as demais instâncias
judiciais e, de modo geral, as administrativas, lidam fundamententalmente com a retenção e distribuição de
recursos dos mais variados tipos – sentenças, favores, informações etc – e operam também a partir daquilo
que os indivíduos que recorrem a tais instâncias têm a oferecer em termos de recursos igualmente variáveis:
relações pessoais, nível de instrução etc. (Tilly, 1998, especialmente páginas 1-40).

59
crianças e as que não podem, agregam-se outras desigualdades, inscritas em relações de
gênero, raciais, étnicas, envolvendo “estabelecidos” e “outsiders” etc.
O diagrama dessas diversas desigualdades articuladas e em movimento compõe
tanto a dinâmica interna dos processos, na qual as ações de assistentes sociais convencendo
demandantes a optar pelo que seria melhor para a criança têm papel decisivo, quanto
ajudam a definir o caráter tutelar dessas ações. O que chamei antes de dimensão pedagógica
da intervenção dos assistentes sociais, ou seja, sua presença nos processos conduzindo,
ensinando, oferecendo referências idealizadas de comportamento e, ao mesmo tempo,
lidando com o “possível” e construindo nessa ação cotidiana a inferioridade desse possível,
deve ser compreendida em relação a esse diagrama de desigualdades combinadas e, por isso
mesmo, duráveis. Mais que aplicar categorias de desigualdade socialmente aceitas e
naturalizadas, o que todos os especialistas do Juizado fazem, tanto assistentes sociais,
quanto curadores e juizes, é, usando a formulação de Tilly, dar-lhes ainda maiores
possibilidades de permanência, na medida em que, controlando recursos específicos,
capazes de produzir valor (como as categorias de avaliação usadas para indicar com quem
uma criança deve ficar) constróem sua continuidade.
Nesses termos, a aparente complacência com determinadas configurações familiares
ou domésticas, bem como a produção de certas soluções administrativas para situações
específicas, implica em acionar e reposicionar desigualdades categóricas variadas a partir
da desigualdade que justifica e dá sentido aos processos, centrada na idade. A relação de
menoridade pode ser pensada, então, como relação de desigualdade capaz de aglutinar
outras assimetrias (econômicas, entre modelos de famílias etc), reforçando-as inclusive pela
possibilidade de ocultar suas conectividades. Assim, a combinação de tais desigualdades
categóricas define o que poderia ser chamado do horizonte de possibilidades de cada
solução administrativa, uma vez que, atuando sobre a gestão não de uma infância genérica,
mas de cada caso singular, os diferentes especialistas do Juizado – com destaque
novamente para os assistentes sociais, por sua responsabilidade profissional de relatar e
caracterizar cada situação – produzem a equação entre o ponto de onde se parte (as
múltiplas pobrezas) e o horizonte de intervenção considerado aceitável. Nesse sentido,
gerem também a desigualdade, a partir da capacidade de impor suas decisões e avaliações –

60
cristalizadas nas sentenças finais dos processos – e de selecionar discricionariamente o que
é aceitável para cada configuração doméstica63.
Quando penso a atuação do Juizado como uma forma de gestão de pobrezas,
portanto, pretendo não estar reproduzindo aqui o que seria um julgamento de valor do senso
comum, nem cometendo uma imprecisão conceitual, mas sim trabalhando com o que de
certo modo considero a operação sempre comparativa que norteia a ação dos especialistas:
entre modelos ideologicamente valorizados ou desvalorizados de família, bem como entre
infâncias idealizadas na lei, detentoras de direitos, e infâncias a serem preservadas e
contidas nos limites do possível e do tolerável para cada caso concreto.
Assim, se fica claro na leitura de vários dados presentes nos processos – que optei
por não sistematizar aqui, como renda, bairros, condições de moradia etc – que a população
contemplada pelo Juizado inscreve-se no que alguns autores optam por chamar de classes
populares, a questão que me parece mais decisiva não é a de retratar a realidade sociológica
dos serviços prestados por essa instância administrativa, mas perceber como esses
elementos são traduzidos em termos de faltas (de pobrezas) pelos especialistas, e como essa
percepção orienta os expedientes administrativos mobilizados em cada caso.
É preciso justificar, então, porque não utilizo tais dados e porque optei por não
tentar traçar um quadro materialmente comprovado dessa situação de classe, embora ela
esteja sempre no horizonte. Em primeiro lugar, como não tenho a intenção nem os suportes
necessários para transformar essa análise em uma demonstração estatística dos casos
contemplados pelo Juizado, não poderia investir em “provar” matematicamente essa
extração de classe ou a qual proporção de situações reguladas pelo Juizado ela

63
Creio que essa formulação ficará mais clara quando confrontada a processos concretos, mas, como um
exemplo inicial, chamo a atenção para o que, no capítulo 4, designo como sendo as “cenas da salvação”, ou
seja, os casos em que está presente de modo especialmente forte a imagem de uma situação original de
múltiplas precariedades – abandono, miséria dos pais etc – frente à qual as soluções encontradas sempre
parecem ter algo de redenção, ou os casos que envolvem a retirada, por guarda ou adoção, de crianças
institucionalizadas. Outras possibilidades para a formulação de Tilly incluem os casos de relações patronais,
que trato no capítulo 5, sejam elas estabelecidas entre mães e guardiães, ou com as próprias crianças. Nesses
casos aparece de forma mais nítida a combinação entre diferentes desigualdades categóricas (econômica, de
nível de instrução, item sempre valorizado por assistentes sociais etc) e, o que é pensado por Tilly como outro
par de desigualdade, a relação de gênero, uma vez que o trabalho doméstico, seja de mães ou das próprias
crianças e adolescentes, normalmente é atribuído a mulheres. Por fim, um elemento que não foi sistematizado
na pesquisa, mas que mereceria ser contemplado em outro momento, diz respeito às relações étnicas ou
raciais, dado de desigualdade que não apenas se combina a vários outros, mas que constitui um quesito de
significativa importância no mercado de adoções.

61
corresponderia. Não fazendo isso, restava-me afirmar externamente que a clientela atendida
pertence a uma dada extração, atribuindo-me um poder classificatório ex-machina64. No
caso específico da atuação de assistentes sociais, portanto, a questão que se coloca é como a
construção e identificação de tais pobrezas contribuem para a gestação das soluções
administrativas que, inclusive honrando o princípio doutrinário do melhor interesse da
criança, são tomadas como as mais proveitosas?65
Voltando a um ponto já colocado antes, creio ser importante destacar que essa
relação comparativa sempre presente na atuação dos especialistas e, ao mesmo tempo, a
relativa tolerância com que soluções muito distantes das referências idealizadas são
produzidas, é inseparável do processo histórico de construção – ou não-construção, mais
uma vez – dos mecanismos de “bem-estar” no Brasil, ou seja, daquilo que permitiria operar
a disciplinarização das famílias nos termos que os autores voltados ao estudo desses
processos em países europeus têm analisado. As pressões e barganhas estabelecidas com as
famílias obedecem, nesses casos, a dinâmicas entre idealizações e recursos que não podem
ser generalizadas para outras situações. Ao colocar isso, porém, não pretendo reeditar
interpretações na linha “centros exemplares-periferias imperfeitas”, supondo que haja um
ponto ideal a ser atingido. Ou melhor, se é possível pensar uma certa relação de
exemplaridade entre os processos europeus e o processo brasileiro, tal exemplaridade
precisa antes ser descrita e situada histórica e sociologicamente, e não tomada como valor.
Nesse sentido, precisa mais ser pensada em termos da produção – ou tentativa de produção
– de legislações em certa medida universais, bem como de fóruns ou instâncias
internacionais e de seu impacto para o caso brasileiro. Alguns elementos que permitem

64
Partindo de considerações de Bourdieu (1989), João Pacheco de Oliveira lembra que “a função do sociólogo (...)
não é a de fornecer uma classificação verdadeira, mas sim descobrir a lógica de constituição das classificações e os
jogos que se estabelecem entre elas. Pretender substituir os atores sociais, elaborando mais uma classificação e
entrando no jogo das classificações em disputa, seria um equívoco inclusive ético, auto-atribuindo-se uma
autoridade para definir fronteiras, autoridade reivindicada pelos próprios sujeitos históricos” (Oliveira, 1998: 284)
65
Para um quadro mais completo dos critérios de avaliação desses especialistas, seria interessante pensar a extração
social das próprias assistentes sociais, o que não está sendo feito aqui. Este dado, porém, só poderia ser avaliado
seriamente se colocado também em termos de processo histórico, mapeando a distância entre as senhoras caridosas
presentes na gênese do serviço social e as atuais profissionais encarregadas da administração dos “problemas
sociais”. A distribuição de prestígio entre diferentes campos, nos termos em que Bourdieu (por exemplo, em
Bourdieu 1989 b ou 1994) costuma tratar a questão pode ser importante para esse diagnóstico. Ou seja, em que
medida a subordinação do serviço social, enquanto saber técnico especializado, corresponde também à
subordinação ou assimetria de classe entre seus profissionais e outros, como os que ocupam, no Juizado, os
cargos efetivamente de decisão – juizes e promotores. Verdès-Leroux (1986) discute isso para o caso francês
e Backx (1994) dá indicativos para o caso brasileiro.

62
indicar essa relação serão apresentados mais à frente, embora não possam ser discutidos a
fundo, uma vez que isso implicaria em outra pesquisa, distinta da que estou apresentando
aqui.
O que gostaria de colocar agora é a possibilidade de tomar a singularidade do
processo brasileiro e, mais especificamente, da dinâmica de produção de soluções para
infâncias pobres de que o Juizado se encarrega, em relação a modelos de inclusão que
poderiam ser chamados, de modo um tanto genérico, de coloniais. Retomando as
proposições sobre o poder tutelar, temos que seu sentido está dado sobretudo pela
necessidade de incluir populações e territórios em uma unidade política mais ampla,
operando não com o suposto de igualdade ou participação plena dessas populações, mas de
assimetria e parcialidade. Nesse sentido, a tutela, não apenas como figura jurídica, mas
como pressuposto presente em diversas relações, sublinha, por um lado, os limites da
inclusão de certas populações, e, por outro, a necessidade de compreender e gerar as formas
singulares e subordinadas pelas quais tal inclusão seletiva pode se dar.
Fazendo referência mais uma vez ao trabalho de Paine (1977), significa que os
tutores coloniais devem agir sempre tendo em mente as limitações de seus tutelados,
conduzindo-os ao aprendizado como a governanta lida com as crianças sob sua
responsabilidade: sabendo que elas não podem aprender ou dominar plenamente os códigos
e regras ideais, que têm que ser cobradas dentro de suas possibilidades, de sua
inferioridade. De modo semelhante, o trabalho de Mamdani recupera a extensão e a
utilidade de tal metáfora para caracterizar populações “nativas” na África. Segundo este
autor, os colonizadores britânicos chamavam a todos os homens africanos de ‘boys’,
independente de sua idade: “houseboy, shamba-boy, office-boy, ton-boy, mine-boy”, assim
como colonizadores franceses usavam o “tu”, forma de tratamento normalmente aplicada às
crianças, para se referir a africanos (Mamdani, 1996: 04) 66.
As crianças oferecem, desse modo, a melhor representação para as relações
tutelares-coloniais, na medida em que permitem que se conjugue a naturalidade da gestão
com os componentes de dominação nela presentes. Nesse sentido, pensar a inseparabilidade

66
Como este autor coloca, “’the negro’, opined the venerable Albert Schweitzer of Gabon fame, ‘is a child,
and with children nothing can be done without authority’”, lembrando a inseparabilidade entre dominação e
menoridades. A “infância perpétua” dos africanos, como a qualifica Mamdani, não pode ser desligada,
portanto, da amplitude da relação colonial enquanto relação de dominação (Mamdani, 1996:04)

63
entre a tutela e os menores de diferentes tipos que podem ser reconhecidos ou produzidos
enquanto tal por contextos e configurações variadas, é pensar também em termos de
colonização de populações conquistadas/em vias de serem conquistadas. E, retomando o
que foi dito no começo deste capítulo, é lidar sobretudo com estratégias administrativas e
cognitivas frente a esse “outro” incluído de modo subalterno em unidades mais amplas.
A aplicação de saberes técnicos e administrativos se faz, nesse quadro, como
produção ao mesmo tempo de diagnósticos frente a situações peculiares – como os exames
de que fala Foucault – e como reatualização e consagração de um bias previamente
assumido, o da necessidade do “governo doce” que somente as ações de cunho tutelar
podem oferecer. Nesses termos, buscar compreender esse “outro” sob domínio – do
governo colonial, da legislação, das instâncias judiciais – é, ao mesmo tempo, buscar re-
enquadrá-lo em sua posição limitada, atuando com a benevolência dos que estão em
posição superior67. Como Pagden destaca, partindo de declarações do ministro de Assuntos
Externos de Napoleão, o Império é a “arte de colocar os homens em seus lugares” (Pagden,
1995: 126)68. A adoção de certas estratégias administrativas obedece, desse modo, tanto ao
pressuposto da inferioridade dos que estão sob gestão, quanto à preocupação com a
eficiência a ser extraída de tais estratégias. Nesse jogo de interações assimétricas, por sua
vez, são produzidos os próprios colonizadores e colonizados, bem como os especialistas e
seus objetos de intervenção.

67
Discutindo as estratégias de pacificação de povos indígenas pelo SPI, Lima coloca que “pode-se ler a
pacificação como uma estratégia montada sobre várias técnicas semióticas. Inicia-se pela busca de sinais –
vestígios, para usar um termo de época – da presença indígena para, através de sua adequada interpretação,
conduzir um povo em estado de guerra, sem atos de violência aberta, a compor relações em que o conflito
assuma outras formas. Para tanto são também os sinais – da fala tentativamente emitida pelos intérpretes ao
sistema de objetos (...) exibido pelos pacificadores – os principais instrumentos na produção da mensagem
básica emitida pelo Serviço: ‘nossa superioridade tecnológica pode esmagá-los e se não o fazemos é porque
os amamos; sendo, em qualidade, diferentes dos civilizados que antes os atingiram, vimos convidá-los para
compartilharem do nosso poder e abastança’” (Lima, 1995: 167). Já no que diz respeito diretamente à gestão
de infâncias, Fonseca comenta a benevolência demonstrada por juizes em relação a processos de guarda
envolvendo mulheres pobres nas primeiras décadas do século XX, aproximando-as também de estratégias
coloniais (Fonseca, 1999: 138)
68
Charles Maurice de Talleyrand, ministro de Assuntos Externos de Napoleão Bonaparte e que, por suas
funções, poderia ser qualificado como um “intelectual orgânico” dos Impérios, é mencionado várias vezes por
Pagden para discutir as transformações – e permanência – nas representações e estratégias de gestão de
Impérios. Talleyrand, por exemplo, defendia a maior eficácia do modelo grego de gestão de Impérios em
comparação ao romano, uma vez que no primeiro haveria maior autonomia dos povos conquistados. Pagden
coloca, então, que “the Athenian, unlike the Romans, had established colonies which had always been largely
independent partners of the metropolis – children, as Adam Smith described them, but emancipated children”
(Pagden, 1995: 127)

64
Nesse sentido, a tolerância exibida na busca pelas soluções possíveis para as
infâncias imperfeitas que chegam ao Juizado, não deve ser tomada – ou não apenas – como
sinal de transformações no plano legal ou mesmo de representações e valores mobilizados
pelos especialistas do Juizado, mas como parte de saberes coloniais. É preciso, pois,
compreender a variedade de arranjos, conciliações e acordos promovidos pelos
especialistas a partir de sua preocupação em obter eficácia na gestão de inferiores – as
unidades domésticas possíveis em lugar das famílias modelares. Seu sentido último não é o
de disciplinar famílias no sentido de impor-lhes um modelo único, e sim promover sua
pacificação, no duplo sentido abordado antes: como fixação territorial e como
domesticação.
Em cada processo de guarda atualizam-se, desse modo, formas de gestão que podem
ser remetidas de modo geral a tradições coloniais, na medida em que supõem não apenas a
semelhança entre os envolvidos, mas também as distâncias que não podem ser superadas, por
mais que venham a ser diminuídas com o tempo e através das tarefas “civilizadoras”
empreendidas pelos gestores. Indicar a existência de tradições de gestão significa, porém,
pensar em termos de diferentes formas de conhecimento que podem ser acionadas e
combinadas por administradores e por aqueles a quem tais administradores se dirigem,
compondo um conjunto de atos e normas em constante movimento e situados em diferentes
escalas. Nesses termos, as categorias mobilizadas por assistentes sociais para retratar os casos
sob sua alçada e, sobretudo, a tensa relação estabelecida entre os limites normativos que não
devem romper – sob pena de arriscar sua própria superioridade enquanto técnicos dotados de
algum tipo de saber privilegiado – e a maleabilidade necessária para chegar a soluções
administrativas, podem ser entendidos como atualizações de saberes e atos de pacificação69.

69
Partindo das formulações de Barth (1995: 66) em relação às formas de conhecimento (knowledge), Lima procura
discutir o que seriam tradições coloniais de conhecimento e gestão. De acordo com sua proposta, “uma tradição de
conhecimento para gestão colonial, neste caso, poderia ser pensada como um conjunto de saberes, quer
incorporados e reproduzidos em padrões costumeiros de interação, quer objetivados em dispositivos de poder,
codificações, elementos materiais de cultura (arquitetura, indumentária etc) e incorporados em etiquetas,
disposições corporais, gestos esteriotipados Descobrir e disseminar informações, submeter e definir, classificar e
hierarquizar, aglutinar e localizar os povos conquistados e os espaços por eles habitados, são operações
desenvolvidas pelo que chamo de saberes de gestão e pelos poderes pelos quais se exercem e geram. Mas tais
formas de conhecimento incidem também sobre os povos e organizações que conquistam e colonizam novos
espaços geográficos e seus habitantes, num necessário e transformador efeito de retorno . Os conhecimentos assim
gerados reordenam as representações dos povos colonizadores, e de suas organizações administrativas, sobre a
natureza e as sociedades humanas, conferindo-lhes novas posições em seus próprios mapas mentais. Sugiro, pois,

65
Se a formulação das tradições de gestão em termos coloniais remete-se, antes de
mais nada, à própria genealogia dos Estados em territórios que passaram pela experiência
de serem colonialmente geridos – como no caso brasileiro – torna-se necessário, por um
lado, pensar na profundidade histórica de tais gestões, algo que não posso fazer aqui senão
de forma propositiva70 e, por outro lado, pensar um pouco no que significa renovar tais
tradições frente a contextos que vários autores têm definido como pós-coloniais. Em ambos
os casos, está em jogo o estabelecimento do que autores como Barth (2000) e Hannerz
(1997) têm chamado de escalas ou fluxos culturais, procurando criar mecanismos para
descrever e conceitualizar a complexidade social, tanto em termos de tempo, pensando em
mudanças processuais, quanto de espaço, criticando concepções homogêneas de sociedade
ou cultura. Na parte que se segue, busco apresentar alguns dados sobre o momento
específico em que o material dessa tese está situado, ou seja, em torno da implantação do
ECA, da perspectiva das regulações internacionais que, embora não sejam analisadas aqui,
constituem um plano sem dúvida importante para compreensão desse momento.

Em busca de uma infância universal

Falar em formas de regulação da infância no século XX, especialmente na sua


segunda metade, é falar da produção de modelos ou diretrizes operando em escalas
diferenciadas. As tentativas de criar e sistematizar legislações que atuem não apenas em
níveis nacionais, mas supra-nacionais, bem como de delimitar discussões éticas e
problemas a serem sanados em diferentes realidades políticas e culturais obriga a que se

que os poderes de gestão de populações em contextos coloniais definem simultaneamente, espaços sociais e
geográficos, criando-se, por vezes, verdadeiros territórios entretecidos a hierarquias sociais (Lima, 2002 : 156)
70
Uma investigação sobre a profundidade das tradições coloniais precisaria levar em conta múltiplos arranjos
e expedientes administrativos centrados na dupla preocupação do poder tutelar: conquistar povos e territórios.
Nesse sentido, implicaria em considerar a relação entre códigos e condutas geradas para o centro do Império
colonial, ou seja, Portugal, e suas colônias, de preferência em um quadro comparativo. No caso da gestão de
infâncias, implicaria desenvolver esforços no sentido de descrever e discutir a multiplicidade das famílias
coloniais e suas relações com a administração; discutir seriamente a correlação entre infância e escravidão,
considerando inclusive o peso do componente étnico; pensar estratégias missionárias de incorporação e
educação de crianças indígenas, entre várias outras possibilidades. Além disso, caso houvesse a ambição de
relacionar práticas e experiências administrativas com a produção de corpus legais, seria o caso de percorrer a
longa tradição do direito romano na regulação das famílias. Como coloquei no texto, tal empreitada (ou
mesmo parte dela apenas) não é possível nos limites deste trabalho.

66
recoloque o foco dos modos de gestão da infância em planos simultaneamente concorrentes
e compostos. Nesse sentido, a busca por uma “infância universal” precisa ser pensada não
apenas em termos da produção de representações e ideais genéricos, mas sobretudo de
processos históricos e embates político-morais.
Proponho pensar essas questões a partir de dois eixos gerais que se tocam. O
primeiro desses eixos pode ser traduzido no que Elias e Tilly compreendem como
processos de integração, válidos para a discussão acerca da gênese dos Estados nacionais
modernos, mas também aplicáveis, como os próprios autores indicam, a processos que os
ultrapassam. O segundo eixo toma por base o que mencionei acima como realidades pós-
coloniais, ou seja, a configuração de um cenário internacional marcado, especialmente após
1945, pela desarticulação progressiva dos últimos impérios coloniais, constituídos e
efetivados sobretudo ao longo do século XIX. Atravessando esses dois eixos, por sua vez,
está a relação entre legalidade e moralidade, presente tanto nas regulações universais – ou
com pretensões de se universalizarem – quanto nas legislações nacionais que se inspiram
ou dialogam com essas regulações. Assim, para além dos esforços em viabilizar a
implementação legal de certas regras universalizantes, através de declarações de direito,
convenções e instituições internacionais, está em jogo nesses processos a circulação de uma
linguagem moral, perceptível nos diferentes temas pelos quais a infância vem sendo
problematizada nas últimas décadas.
Começando então pelo primeiro desses eixos, creio que cabe aqui lembrar que
processo de formação dos Estados nacionais modernos está historicamente marcado pelo
estabelecimento a longo prazo de mecanismos de integração territorial, administrativa e, no
que diz respeito à constituição de sentimentos de pertencimento nacional, também
simbólicos. Nos trabalhos tanto de Elias (1972, 1993 e 1997), quanto de Tilly (1984, 1985 e
1996), esta formulação não ocupa o lugar de um pressuposto teórico apenas, mas sim de um
processo que deve ser descrito em termos de estratégias, contradições e constituição de
redes de interdependência. Desse modo, o papel operacional da guerra, já destacado no
começo deste capítulo, bem como dos sistemas que Tilly chama de distribuição (relativo à
intervenção na divisão de bens entre a população) e de produção (relativo ao controle sobre
a criação e transformação de bens e serviços) (Tilly, 1996:158) ocupam lugar central. A
forma, sobretudo, como, nas palavras deste autor, “a aplicação de justiça, a produção e a

67
distribuição passaram de triviais a tremendas”, não pode ser desprezada na compreensão
desses processos. Sem jamais desvincular o avanço da administração estatal nessas
dimensões específicas de seus objetivos de pacificação, mas, pelo contrário, relacionando-o
sempre ao horizonte das múltiplas guerras a serem travadas pelos Estados nacionais, Tilly
acaba por destacar um aspecto importante para pensar variados mecanismos e estratégias de
gestão cotidiana também em períodos de paz.
De forma semelhante, Elias, ao criticar as concepções sistêmicas de compreensão
das sociedades, destaca, por um lado, que modelos centrados nas noções de estrutura ou
sistema ocultam o “como” e o “porquê” dos processos de integração de longo prazo,
formalizando e endurecendo alternativas mais dinâmicas de entendimento desses processos,
baseadas em interdependências e ações (Elias, 1972). Quando utiliza essas críticas para
desnaturalizar a relação entre os processos de formação de Estados e de construção de
nações, Elias não apenas coloca em jogo a necessidade de explicar cada qual desses
processos em suas especificidades, mas também de descrever como eles se conectam. Ou
seja, se não há, modelarmente, uma “sociedade” ou “sistema” que automaticamente, no
plano conceitual, dê conta das formas próprias aos Estados nacionais, o recurso à
investigação de suas condições históricas – isto é, processuais – torna-se imprescindível.
Ao mesmo tempo, de acordo com essa perspectiva, as tendências à integração e ao conflito
não se colocam como opostas, uma vez que ambos podem ser percebidos como parte de
relações de interdependência. Indo além, em certos momentos Elias destaca especialmente
que não há incompatibilidade entre a concepção das normas sociais como sendo
integradoras e, ao mesmo tempo, desintegradoras, o que faz com que o processo civilizador
(em sua dupla dimensão, de controle social e auto-controle individual) esteja sempre
incompleto e em perigo (Elias, 1997: 161)71.
Alguns dos elementos dos trabalhos de Elias e de Tilly que mencionei rapidamente
aqui parecem-me importantes para pensar a questão específica dos vários níveis ou escalas
em que vem se dando a produção de regulações em torno da infância em termos de
mecanismos historicamente situados e processualmente construídos. A promulgação de um
corpo legal como o ECA não pode ser tomada de forma apartada de outras regulações e

71
Criticando como a sociologia viria usando indiscriminadamente o conceito de norma, Elias coloca que “não
se considera que diferentes normas possam ter diferentes funções sociais, nem que a maioria dos tipos de
normas possuem funções integradoras, assim como desintegradoras” (Elias, 1997: 149)

68
discussões, tanto legais, quanto políticas e acadêmicas, bem como não pode ser
desligada de um processo mais amplo de aumento da interdependência entre Estados
nacionais. Trata-se, assim, de discutir como, por um lado, o processo civilizador de que
fala Elias não se limita a fronteiras nacionais, e, por outro, como a constituição dos
Estados nacionais está relacionada a mecanismos de intervenção sobre a produção e
distribuição de bens, entre os quais, como lembra Tilly, inscreve-se a “aplicação de
justiça”.
Isto posto, creio ser importante dar um breve panorama das regulações
internacionais contemporâneas em torno da infância, que servem de pano de fundo aos
processos que serão tratados a partir do próximo capítulo. Nessa trajetória têm destaque
especial a Declaração Universal dos Direitos da Criança, de 1959, tributária da
Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, ambas estabelecidas pela então
recém-criada Organização das Nações Unidas. O quadro de emergência das duas
declarações está obviamente marcado pelo impacto da Segunda Guerra Mundial e, mais
especificamente, pelos debates em torno do holocausto como “crime contra a
humanidade”72. Embora tentativas anteriores de regular internacionalmente a gestão da
infância já tivessem aparecido, como na Declaração de Genebra, de 1924, na qual se
proclamava a necessidade de uma proteção especial às crianças, não se pode falar de
esforços mais significativos nessa direção antes do pós-guerra.
No plano jurídico-político, o que as declarações estabelecem são princípios
gerais a serem seguidos pelos países signatários, tendo, nesse sentido, forte caráter
moral, mas não estabelecendo programaticamente o modo pelo qual tais princípios
devem ser convertidos em regulações ou procedimentos nacionais. De modo diferente,
as convenções, quando firmadas no plano das Nações Unidas ou em unidades regionais

72
Zygmunt Bauman (1998) discute o impacto do holocausto como fenômeno que coloca definitivamente em
xeque a crença nos processos de modernização – entendidos como racionalização, burocratização etc – como
sendo capazes de levar à superação progressiva da barbárie. O impacto e a dificuldade em refletir sobre ele
viriam, desse modo, não apenas da dimensão do genocídio, mas sobretudo da sua forma, em nada antagônica
à eficiência da fábrica, à impessoalidade da burocracia ou à racionalidade da ciência. Uma outra referência
importante para essa discussão é a análise feita por Hannah Arendt (1999) sobre um evento específico, o
julgamento de Adolf Eichmann, realizado em Jerusalém em 1961, após o seqüestro do réu por um comando
israelense. Nela, Arendt chama a atenção para o embate entre lógicas e instâncias de julgamento
contraditórias entre si. Frente às dificuldades de novo julgamento internacional, bem como frente às
necessidades políticas de afirmação da soberania de Israel enquanto Estado nacional recentemente criado, o
que deveria se realizar como um julgamento em torno da violação dos “direitos da humanidade” transformou-
se em julgamento nacional, criando um quadro de imensas contradições jurídicas, políticas e éticas.

69
(convenções européias, latino-americanas etc), criam outro nível de compromisso entre
os signatários, sendo usualmente acompanhadas também de indicações sobre como sua
implantação deve ser realizada. Desse modo, entre a Declaração Universal dos Direitos
da Criança, de 1959, e a Convenção Internacional dos Direitos da Criança, aprovada
pela ONU trinta anos depois, em 1989, há não apenas uma diferença de tempo, mas
também de forma e densidade no plano legal 73.
Em termos da estruturação de organismos internacionais, o pós-guerra também é
fecundo. Se antes da Segunda Guerra existia apenas a OIT – Organização Internacional
do Trabalho, surgida em 1919, com a criação da ONU multiplicaram-se organismos
com a função de gerir as diferentes áreas ou frentes em que foi concebida a divisão dos
direitos humanos. Além da Comissão de Direitos Humanos, foram criadas como parte
do “sistema das Nações Unidas” a FAO – Organização das Nações Unidas para
Alimentação e Agricultura, a UNESCO – Organização das Nações Unidas para
Educação, Ciência e Cultura, o UNICEF – Fundo das Nações Unidas para Infância e a
OMS – Organização Mundial de Saúde 74. Antes da Convenção Internacional dos
Direitos da Criança, o Brasil foi signatário também da Convenção Americana sobre os
Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), de 1969, que estabelece no art. 19
que “toda criança tem o direito às medidas de proteção que sua condição de menor
requer, por parte da família, da sociedade e do Estado”.
Voltando às considerações de Elias e de Tilly, é possível pensar que o cenário do
pós-guerra está marcado por esforços no sentido da constituição de instâncias de

73
Sobre os compromissos estabelecidos quando da assinatura de convenções internacionais, a advogada Tânia
Pereira esclarece que “as Convenções contêm regras de procedimentos flexíveis e adaptáveis às mais diversas
realidades, delineando políticas legislativas a serem adotadas pelos Estados-partes. Estes têm a obrigação de
não só respeitar os direitos reconhecidos nas convenções, mas também garantir o livre e pleno exercício dos
mesmos (...). A Convenção [de 1989] exige, por parte de cada Estado que a subscreva e ratifique, uma tomada
de decisão, incluindo-se os mecanismos necessários à fiscalização do cumprimento de suas disposições”
(Pereira, 1999: 04/05). Em termos de legislação nacional, a Convenção de 1989 foi ratificada no Brasil
através do Dec. 99.710/90, de novembro deste ano, tendo sido antes aprovada através do decreto legislativo nº
28, de janeiro do mesmo ano (ver, além de Pereira, 1999; Pilotti e Rizzini, 1995: 382, e Marcílio e Pussoli,
1998)
74
Têm importância ainda nesse quadro, no plano da organização macro-econômica ou financeira, o que ficou
conhecido como sistema de Bretton-Woods, formado pelo Fundo Monetário Internacional – FMI, pelo Banco
Mundial e pelo Acordo geral sobre tarifas e comércio – GATT, hoje substituído pela Organização Mundial de
Comércio, bem como as unidades de organização regionais criadas em diferentes momentos (Organização dos
Estados Americanos – OEA, Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID etc), e o Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento – PNUD. Para um quadro geral dessas organizações, ver Rodrigues, 1994 e
para sua participação no cenário atual ver, entre outros, a trilogia de Manuel Castells (1999a, 1999b e 1999c).

70
regulação internacional idealmente capazes de produzir níveis de acordo e intervenção
para gerir o que não pode – ou não deve – ser controlado em termos estritamente
nacionais. Nesse sentido, o processo de longo prazo de integração que possibilitou o
surgimento dos Estados nacionais modernos encontra nesse período o que seria, ao
mesmo tempo, um ponto de desdobramento e de contradição. O desdobramento aparece
na necessidade de criar canais através dos quais a interdependência entre Estados
nacionais se reorganize, necessidade esta dada, entre outras coisas, pelo colapso dos
Impérios coloniais na segunda metade do século XX. Nesse sentido, tanto a legislação
internacional, quanto o conjunto de instituições de regulação criadas nesse quadro
multiplicam o que seria o processo de integração, no sentido de Elias, entre os Estados
nacionais.
Por outro lado, se a construção dos Estados nacionais se fez também como
produção da ilusão da comunidade nacional como sendo aparentemente a-temporal e
dotada de uma essência – cultural, lingüística etc – a emergência ou multiplicação de
fóruns e legislações centrados não integralmente nos Estados nacionais, mas na
“humanidade em geral”, coloca em cena uma contradição. A equação em que um Estado
é igual a uma nação confronta-se de forma mais visível com a referência a uma
universalidade que, se suposta e discutida há muito mais tempo, não tinha ainda
conhecido esforço semelhante de regulação 75. Assim, uma das questões que o
amadurecimento dos direitos humanos coloca, na medida em que esses deixam de ser
percebidos em termos de um estatuto geral ou de declarações de princípios genéricas,
como a que foi produzida no bojo do Revolução Francesa, e passam a estabelecer pautas
de intervenção, diz respeito aos limites da soberania nacional. Por outro lado, no centro
dessa tensão encontra-se a própria concepção longamente construída de individualidade,
uma vez que a formulação de um plano ou referência de intervenção como a dos direitos
humanos supõe a existência de indivíduos dotados, por um lado, de direitos e

75
Buscando discutir a longa trajetória da reflexão francesa acerca da diversidade humana, Todorov parte dos
moralistas do século XVII para pensar como diferentes caminhos de compreensão sobre que seria o
denominador comum entre “nós” e “os outros”, bem como sobre as variadas soluções encontradas para
tematizar a diferença entre os povos. O autor destaca também os debates entre natureza humana e moral e,
ligados a eles, os projetos de “governo da humanidade” ou “Estado universal”, presentes em autores diversos
como Condorcet, Saint-Simon e Comte (Todorov, 1993: 32-49)

71
obrigações em relação a unidades que os transcendem e, por outro, do livre arbítrio que
os torna senhores de suas decisões.
No plano da concepção dos Estados nacionais modernos, a individualidade está
presente, entre outras coisas, na forma singular de ligação dos indivíduos com a
comunidade política mais abrangente – inclusive, no modelo democrático, através da
representação individual do voto. Assim, a fragmentação proposta pela concepção de
indivíduo não desfaz, mas se compõe com a representação dos Estados nacionais e de
seus processos de integração, como colocam Elias, ao chamar a atenção para a
dualidade dos códigos normativos presentes nos Estados-nação, centrados ora no
princípio igualitário da individualidade e ora no princípio não-igualitário da
coletividade (Elias, 1997: 146) e Dumont, ao discutir a ideologia do individualismo.
São diversos os caminhos pelos quais poder-se-ia pensar a generalização de
modelos centrados na concepção de indivíduo, especialmente se contraposta às
discussões em torno da pessoa, entendida como tradução de perspectivas mais
holistas. Dumont aponta algumas dessas questões, chamando a atenção para o fato de
que “a ideologia moderna é individualista – sendo o individualismo definido
sociologicamente do ponto de vista dos valores globais. Mas trata-se de uma
configuração, não de um traço isolado, por mais importante que seja” (Dumont, 1985:
21). Nesse quadro, atributos como a igualdade teriam valor decisivo, o que faz com o
que os nacionalismos modernos não sejam, como alerta o mesmo autor, antinômicos
aos indivíduos, uma vez que postulam a unidade sem desrespeitar o princípio
fragmentário suposto nos últimos.
A produção de regulações objetivando o controle de uma infância concebida em
termos universais supõe, desse modo, pelo menos duas grandes discussões. A primeira
delas, que não vou desenvolver aqui, estrutura-se em redor da idéia da criança como
indivíduo, postulando para a infância o caráter de um período de vida dotado de certa
universalidade, independente das múltiplas variações culturais. Os discursos e
concepções “psi” desempenham, nesse caso, papel absolutamente central, dando outra
densidade e produzindo novas verdades, no sentido foucaultiano, para o que seria a

72
“natureza humana” comum a todos os indivíduos 76. Comentando as relações entre a
infância altamente psicologizada e, por isso, passível de ser concebida como universal,
e as nacionalidades, a antropóloga Sharon Stephens coloca que na equação moderna, do
mesmo modo como todos pertenceríamos de forma aparentemente natural a uma nação,
todos teríamos, também “naturalmente”, uma infância (Stephens, 1995: 15).
A segunda discussão diz respeito à compreensão das crianças como sujeitos
especiais de direito não apenas em nível nacional, mas também supra-nacional. A
Declaração de 1959 e, principalmente, a Convenção de 1989 procuraram estabelecer
parâmetros para a gestão da infância ao redor do mundo, e, no caso da Convenção, atar
os representantes de diferentes Estados nacionais a um compromisso programático.
Nesse sentido, é possível pensar na generalização de um modo ideal de intervenção
sobre a infância, cuja pauta de direitos a serem respeitados e preservados, reestrutura e
reedita, a partir de novos critérios, hierarquias e cisões entre mundos modernos ou
arcaicos, desenvolvidos ou não etc. Como esta relação “centro/periferia” está presente
também em outros momentos, como na própria absorção de experiências e formas
discursivas nascidas em outros contextos (a filantropia, os debates jurídicos “mais
avançados”, o conjunto de saberes e formas de intervenção higienistas etc), trata -se aqui
de sublinhar, em primeiro lugar, o próprio poder impositivo desses acordos e, em
segundo lugar, indicar quais seriam alguns dos elementos presentes na forma específica
de relação “centro/periferia” desses códigos normativos e sua aplicação.
Um ponto a ser destacado é a mudança no modo como a intervenção
propriamente estatal ou governamental passou a ser colocada. O modelo da intervenção
mais direta por parte do Estado, fruto do que autores como Ewald (1987) e de Swaan
(1988) descrevem, para países europeus, como o processo de centralização de
mecanismos de auxílio mútuo e compensação social antes dispersos, está presente tanto

76
Toda a discussão de Foucault em torno das disciplinas é fundamental para pensar essa questão, em especial
seu desenvolvimento em relação à sexualidade e aos anormais (ver, sobretudo, Foucault, 1977, 1994 e 2001).
Em artigo explorando as relações entre antropologia e psicanálise no Brasil, por sua vez, Duarte coloca que a
relação entre o que ele chama de regulamentações morais da pessoa, isto é, os processos em que a construção
da pessoa encontram-se sujeitos a intervenções programáticas e repressivas oriundas dos aparelhos de um
estado nacional e as regulações morais, como processos mais abrangentes, não pode ser desvinculada da
capacidade dos saberes científicos ‘sustentarem’ intervenções públicas (Duarte, 2000: 108). Uma outra
discussão rica entre a composição e concorrência de saberes ‘psi’ e outras formas de regulação, instituídas a
partir dos saberes jurídicos, pode ser encontrada no surgimento de uma instituição como o Manicômio
Judiciário, analisado por Carrara (1998)

73
nos códigos de menores, quanto no aparato administrativo que lhes acompanha – o
próprio Juizado, as instituições diretamente geridas pelo Estado, como SAM, Funabem
etc. Ao postular que as obrigações com as crianças e jovens cabem não só aos que são
legalmente responsáveis por eles, ou ao Estado, de um modo geral, mas à “sociedade
como um todo”, tanto a Convenção de 1989 quanto o ECA propõem uma outra lógica
para aquilo que Ewald chama da repartição das responsabilidades coletivas. Assim, a
concepção das crianças como sujeitos de direito especiais a serem defendidos e
priorizados frente a todos – inclusive à família e ao Estado, caso necessário – de certo
modo descentraliza e dispersa, ao menos idealmente, o diagrama de responsabilidades.
No caso brasileiro, essa dispersão foi representada por atores e instituições
envolvidos com a implementação de uma nova legislação nacional como fazendo parte
da transformação política em jogo no contexto de redemocratização. No seu curto
período de existência (1990 a 1995), a CBIA – Centro Brasileiro para Infância e
Adolescência, órgão que substituiu a FUNABEM – Fundação Nacional para o Bem-
Estar do Menor, produziu inúmeras cartilhas de divulgação da nova legislação, bem
como pesquisas voltadas para explicitar e difundir as novas concepções em vigor. Nelas
discute-se, sobretudo, a importância da nova relação com a “sociedade civil”,
explicitando-se o que seriam os conselhos de direito ou tutelares que o ECA institui 77.
A concepção de uma infância tão soberana que pudesse fazer com que a
entidade mítica “Estado” fosse cobrada em suas responsabilidades tem nesse momento
um poder de sedução que não deve ser desprezado, na medida em que alia a
democratização – processo político em curso, mas também valor social – à idéia de
modernidade. Entre outras coisas, a nova legislação seria mais “moderna”, porque mais
“democrática” em termos de suas concepções internas e do chamado à participação da
“sociedade civil”.

77
São inúmeras as publicações desse tipo. Alguns exemplos ilustrativos da produção do CBIA são o livro de
Edson Seda (s/d), advogado e ex-diretor da FUNABEM, explicando as premissas do ECA e a importância da
“participação da sociedade civil” na defesa dos direitos da infância e juventude, bem como o de Antonio
Carlos Gomes da Costa, significativamente chamado “De menor a cidadão”; a publicação, pela CBIA em
conjunto com a Unicef, do texto da Convenção de 1989 (s/d); e textos sobre a própria natureza da CBIA, em
que fica clara a preocupação da nova instituição governamental em se desligar das imagens negativas em
torno do binômio Funabem-regime militar (ver, por exemplo, CBIA, 1991). Para além das publicações vindas
do próprio aparato da administração, como a CBIA, diversas organizações não-governamentais trabalhando
com questões de infância e juventude publicaram cartilhas ou diferentes materiais de divulgação do ECA e a
respeito dos conselhos tutelares e de direito.

74
Mas, apesar a ênfase vir sendo dada, pelo próprio contexto nacional, nas
mudanças políticas internas e na emergência de novos atores, enfeixados nessa
igualmente mitificada “sociedade civil”, não é possível caracterizar esse processo
dentro de limites estritamente nacionais. Pensando menos em termos de legislações e
mais em termos de formas de articulação, é importante lembrar que nesse momento
estão sendo redefinidas de modo mais visível também redes de solidariedade. Como
diferentes autores têm apontado, a percepção da distribuição das solidariedades e ações
políticas em níveis estritamente locais e territorializados torna-se a cada dia mais difícil
de se sustentar, o que faz com que termos como redes, fluxos e fronteiras sejam
utilizados com freqüência cada vez maior para descrever conectividades entre atores
sociais situados em múltiplas escalas de pertencimento. Organizações não
governamentais atuando em diferentes escalas, fontes financiadoras internacionais e
projetos de ação localmente definida acabam por compor um quadro heterogêneo de
atores voltados para as discussões e intervenções em torno da infância 78.
Por outro lado, os modelos de gestão pública defendidos nas duas últimas
décadas têm enfatizado a necessidade de uma participação mais heterogênea – mais
“democrática” – não apenas no que diz respeito aos “experts” da intervenção, mas
também no que tange ao seu público alvo. Assim, em lugar da gestão centralizada na
administração estatal e seus especialistas, entra em cena a participação de outros atores,
articulados através de organizações não governamentais e dos representantes dos
movimentos populares (Doimo, 1995), chamados a colaborar na elaboração desses
projetos de gestão79. Essa mudança está ligada claramente às transformações
(usualmente representadas como “crise”) dos Estados de bem-estar, mas também à

78
Hannerz apresenta um panorama desses termos e autores, aglutinando-os em redor de problemáticas da
reflexão sobre a cultura tanto em tempos de “globalização”, termo cunhado e vulgarizado recentemente,
quanto em relação à trajetória da antropologia e algumas de suas tentativas de refletir sobre a circulação de
experiências e referências culturais. Três feixes de termos se organizariam a partir das idéias de fluxos (e suas
metáforas); limites (fronteiras e suas questões, como a etnicidade) e híbridos. Cada conjunto organizado em
torno desses termos estaria tentando dar conta de faces de uma mesma questão – ou de suas múltiplas
possibilidades: a relação entre universos culturais postos em constante relação. (Hannerz, 1996: 07-29)
79
Um balanço das produções recentes em torno dessas questões para contextos internacionais é fornecido pela
resenha de Fisher (1997) e pela introdução de Grillo (1997) à coletânea que organiza com Stirrat sobre os
discursos acerca do desenvolvimento. Diferentes artigos dessa coletânea apresentam e problematizam os
caminhos encontrados pela antropologia para discutir e avaliar experiências de intercâmbio entre “experts” e
as populações que são ao mesmo tempo alvo e, para usar uma categoria nativa das narrativas e projetos de
intervenção nos últimos vinte anos, parceiras nesses projetos. Para uma análise local dessa problemática, ver
o artigo de Castro (2002) a partir do programa “favela bairro”.

75
absorção de críticas nascidas das discussões sobre as relações entre saber e poder,
especialmente fortes no quadro de colapso dos impérios coloniais durante a segunda
metade do século XX.
Se durante muito tempo o eixo modernidade/atraso foi idealmente disposto de
forma relativamente linear, estivesse ele organizado em termos de etapas ou signos de
civilização ou de desenvolvimento, estabelecendo hierarquias intra e entre nações, a
crise política dos impérios coloniais, aliada ao que se poderia chamar de uma crise
narrativa em torno dos diferentes sujeitos sociais, criou para esse eixo uma outra
forma80. A ênfase nos componentes de dominação da relação entre saber e poder fez
com que o pólo da modernidade se deslocasse na direção da heterogeneidade, de modo
que o “mais avançado” passou a ser representado também como o mais capaz de
incorporar narrativas dissonantes: o popular, o nativo, o minoritário. Como aponta
Said, a multiplicidade das narrativas que emergiram do “encontro colonial” fez com que
as relações hieráquicas tivessem que ser repensadas, não porque deixassem de existir,
mas porque passaram a se estabelecer, de modo mais nítido que antes, em múltiplas
combinações. Usando a analogia feita por esse autor, diferentes modos de ser Ariel ou
Caliban se propuseram ao longo desse “encontro” e, dentro das unidades nacionais
surgidas da descolonização, bem como nos centros metropolitanos, esses diferentes
modos não se excluem, mas colocam-se em concorrência (Said, 1995: 270-271).
Os pontos de contato entre o “pós-colonial” e o “pós-moderno” primam
sobretudo pela construção do que se poderia caracterizar como sendo hierarquias
“confusas”, no sentido de operarem colocando em disputa múltiplos padrões normativos
e, paradoxalmente, inscrevendo a relativização como discursividade obrigatória. As
escalas, fluxos e híbridos de que fala Hannerz adquirem, desse modo, não apenas a
conotação de imagens mais adequadas para processos sociais visíveis e historicamente
mapeáveis – a possibilidade de minorias exibirem e fazerem circular narrativas sobre
sua condição em diferentes fóruns e através de diferentes dramatizações – mas de certo
modo também são incorporadas como valores e regras programáticas. Legitimar
projetos de intervenção a partir da idéia de que deles participam, como formuladores e

80
Para uma crítica da relação entre desenvolvimento e “terceiro mundo” ver, além das referências colocadas
antes, o trabalho de Escobar, 1995

76
gestores, os que são também seu objeto, torna-se um novo modelo dominante, segundo
o qual a multivocalidade deve ser perseguida e, sobretudo, representada.
Do mesmo modo, porém, que as crianças servem de metáfora para as populações
coloniais, ajudando a construir o que Pagden chama da “linguagem do Império” (1995:
06), capaz de editar de diferentes modos a “superioridade flexível” das metrópoles
(Said, 1990: 19), os discursos em torno da participação das minorias ou das relações
entre saber e poder encontram na infância não só uma imagem, mas um limite. O
primeiro desses limites coloca-se em termos de sua condição ao mesmo tempo de
sujeitos universais – como bem o provam as Declarações e Convenções de direitos – e
de criaturas locais, em um duplo sentido, tanto envolvendo suas relações familiares e
pessoais, quanto no sentido de seu pertencimento cultural, dado ora postulado como um
“direito”, ora tematizado como um impasse . A tensão em relação à autoridade familiar
sobre as crianças e a posição que as últimas devem ocupar como objetos de prioridade
coletiva – na linha da nova distribuição das responsabilidades – tem sido traduzida
sobretudo em termos da “família perigosa”, não no sentido da família que não forma
corretamente os indivíduos sob sua alçada, mas da família que os ameaça e ataca
enquanto sujeitos de direito.
A Convenção de 1989 é antecipada e acompanhada da produção de inúmeros
encontros internacionais, relatórios e debates tematizando os novos diagnósticos sobre
os males que afligiriam essa infância universal, bem como de propostas de intervenção
sobre esses males. Dez anos antes, em 1979, no “Ano Internacional da Criança”,
promovido pela Unicef e World Health Organization, foi divulgada a noção de
“crianças do mundo” (“world’s children”) e, a partir daí, diversos congressos e fóruns
internacionais buscaram debater a “infância universal” enquanto categoria capaz de
ordenar discursos teóricos e políticos em diferentes frentes temáticas e nacionais.
É possível citar, entre outros, a conferência “Children at risk”, realizada em
Bergen, Noruega, em 1992; os encontros promovidos pela National Commission of
Inquiry into the Prevention of Child Abuse (britânica), e o European Centre Childhood
Programme, cuja comissão, formada em 1987 e incluindo diferentes países europeus,
produz relatórios e encontros sistemáticos entre 1990 e 1993. Outro exemplo
interessante é o da Childhood International Research Network, sediada na Universidade

77
de Oslo e composta por vinte e cinco “instituições-chave”, cujos projetos de pesquisa
incluem o monitoramento dos direitos das crianças em diferentes partes do mundo, o
papel da tecnologia e comunicação de massa na socialização de crianças, e o impacto de
políticas econômicas nacionais sobre a vida de crianças.
A dispersão de situações heterogêneas que ameaçariam a infância é disposta em
torno da noção de risco, buscando, por um lado, absorver as críticas ao efeito
discriminatório dos modelos de intervenção centrados em ideais histórica e culturalmente
situados – em termos genéricos, a família nuclear idealizada – e, por outro, sublinhar o
componente pernicioso das relações de autoridade em geral. Tanto no caso da relação
com as famílias, quanto no caso do direito à identidade cultural, contradições em
princípio insolúveis se colocam. Fora dos limites dramáticos que servem para dar
visibilidade a essas discussões, uma enorme gama de variáveis e sutilezas se colocam,
envolvendo desde o grau e a forma dos riscos vividos pelas crianças – como em relação à
violência doméstica ou à categoria de difícil precisão da negligência – até a necessidade
de compô-los com temas universais, como os do afeto e do cuidado psicológico 81.
Esse é o caso do verdadeiro “malabarismo” classificatório realizado pelos
participantes da National Commission of Inquiry into Prevention of Child Abuse. Em
seu relatório, de 1996, após várias tentativas de precisar o que seria abuso, segundo os
parâmetros definidos pela convenção da ONU de 1989, ao chegar à discussão sobre os
comportamentos aceitáveis e inaceitáveis na relação entre crianças e família - pais,
sobretudo –, os membros da comissão optaram um grau de relativização tão grande que,
na prática, invalidaria as definições anteriores. Usando como exemplo a atribuição de
punições às crianças, os relatores defendem que essas não podem ser mensuradas de
uma forma absoluta (o que levaria à possibilidade de precisar quando seriam abusivas),
uma vez que, caso tenham lugar em famílias com uma relação “negativa” de
paternidade, ou seja, na qual se façam presentes constantes atitudes de desvalorização e

81
Na abertura do relatório que sintetiza o encontro do European Centre Childhood Programme de 1990, os
relatores colocam que “despite progress in physical and material realms, we cannot be so sure about
children’s psychological well-being” (1990: 07). Ao mesmo tempo, apontam que “the single child appears in
psychological reasoning to be a ‘supra-historical’ individual, in the sense of an idealisation of a child that is in
principle not subject to historical change. Yet, we know that childhood is changing historically and culturally”
(1990: 36). Cabe notar que o European Centre tem entre seus participantes predominantemente cientistas
sociais (sociólogos e antropólogos) e cientistas políticos, o que talvez ajude a compreender a ênfase dada

78
crítica das crianças, poderiam vir a ser percebidas como falta de afeto, o que as tornaria
mais danosas do que as perpetradas em famílias onde o vínculo afetivo estivesse bem
consolidado (1996:07)
No caso do direito à identidade cultural, as contradições também são nítidas, uma
vez que o exercício pleno desse direito pode significar na prática negar boa parte dos
postulados universais em torno da infância. Para além de discussões mais amplas em
termos das fronteiras entre o “local” e o “global”, bem como da própria definição do que
seja cultura e qual sua operacionalidade na complexidade das relações contemporâneas
(Barth, 2000: 107-139), essas contradições materializam-se em um sem-número de
dramas localizados, envolvendo questões como a adoção internacional e as disputas de
custódia entre pais de diferentes nacionalidades 82. Como frisa Stephens, as crianças, por
encarnarem também símbolos de futuro e serem objetos de políticas sociais e culturais
específicas, acabam operando como base para debates sobre pureza étnica, identidade
nacional, auto-expressão minoritária e auto-gestão (Stephens, 1995: 23).
Uma tentativa de relacionar problemáticas “locais” com parâmetros
universalizantes – e vice-versa – pode ser vista na iniciativa do European Centre, em
1990 e 1991, de compor diferentes relatórios escritos por comissões nacionais de alguns
países (europeus, sobretudo) com um relatório-síntese no qual são discutidas
perspectivas e problemas da “infância contemporânea”83. Nos relatórios nacionais,
organizados segundo um modelo relativamente padronizado, as comissões procuram
fazer um perfil tanto da composição da infância (modelos familiares predominantes,
grupos étnicos e religiosos etc), quanto de políticas que viriam sendo, nas duas décadas
anteriores, implementadas.

nesses encontros à concepção de crianças como um “grupo social”, bem como as críticas feitas ao predomínio
das concepções “psi” na definição da infância e seus problemas.
82
A preocupação de pais adotivos de outra nacionalidade de que seus filhos tenham conhecimento sobre o
país de origem, descrita por Abreu (1995), indica o quanto a relação entre nacionalidade e filiação pode ser
complexa e, de certo modo, naturalizada. Fonseca destaca, por sua vez, o quanto a adoção internacional
“mexe profundamente com as ficções chave da modernidade – a ‘família’ e a ‘nação-estado’” (Fonseca, 1997:
205). Já no caso das custódias partilhadas entre ex-cônjuges de diferentes nacionalidades, um artigo que
discute de forma exemplar as implicações éticas dessa tensão é o de Starr (1997: 93-98). Nele, a autora avalia,
a partir da disputa pela guarda de uma criança, cuja mãe é imigrante paquistanesa nos EUA e o pai retornou
ao Paquistão, o confronto legal e normativo entre dois parâmetros nacionais de avaliação de quem tem o
direito de ficar com a criança.
83
São apresentados relatórios nacionais dos seguintes países: Canada, Tchecoeslováquia (ainda unificada),
Dinamarca, Inglaterra e País de Gales, Finlândia, Alemanha, Grécia, Irlanda, Israel, Itália, Noruega, Escócia,
Suécia, Suíça, Estados Unidos e Iugoslávia (também ainda unificada).

79
Alguns relatórios, como os da Noruega e da Dinamarca, preocupam-se
especialmente em estabelecer a proporção de benefícios que estariam sendo
direcionados para a infância no âmbito do Estado de bem-estar. Em outros, a ênfase
recai sobretudo na heterogeneidade de experiências de infância, como no caso do
relatório feito pela comissão da Iugoslávia, impresso pouco antes da declaração de
soberania da Croácia e da Eslovênia e, conseqüentemente, da guerra da Bósnia. O
relatório preocupa-se, então, em mostrar como estão distribuídos diferentes grupos em
termos de etnicidade, religião, língua e como, nas seis repúblicas (Bósnia-Hersegovina,
Macedônia, Montenegro, Croácia, Sérvia e Eslovénia) ou nas duas províncias
autônomas (Vojvodina e Kosovo, ambas dentro das fronteiras da República de Sérvia)
são decididas questões como a custódia de crianças, estão distribuídos os recursos de
bem-estar ou são compostas, majoritariamente, as relações familiares.
Por fim, um último caso que gostaria de mencionar é o do relatório de Israel, que
faz um balanço acerca das experiências de educação comunitária de crianças,
relacionando isso ao caráter peculiar da história de Israel, bem como o impacto de
diferentes etapas de imigração. É interessante notar também a cisão operada pelo
próprio relatório em relação aos dados a serem apresentados: embora os relatores
iniciem declarando que a sociedade israelense compreende “duas comunidades”, a
“árabe” e a judaica, não são apresentadas informações nem sobre infâncias e famílias
não-judaicas, nem tampouco, dentro desse universo, sobre as comunidades como os
kibuttz ou as comunidades de judeus ultra-ortodoxos, mencionadas no texto.
Em todos os relatórios nacionais é tematizado, com ênfases diferentes, um ponto
que é mais desenvolvido no relatório-síntese: a necessidade de encontrar formas de
conciliar a compreensão das crianças e jovens como sujeitos especiais, ou seja, tendo
que ser protegidos e formados, mas também compreendidos como indivíduos portadores
de direitos. É no relatório italiano que isso aparece com mais força, quando os relatores
colocam que qualquer tipo de proteção corre o risco de tornar-se uma forma de controle
social que inevitavelmente restringe a independência do sujeito que pretende proteger.
Em resposta a esse dilema, são estabelecidas propostas, em relatórios nacionais e no
relatório-síntese, de compreender crianças e jovens como grupos minoritários, no

80
sentido de Wirth, ou seja, como grupos que, por suas características físicas ou culturais
recebam tratamento desigual (Wirth, 1965: 309) 84.
Essa proposta aparece também em críticas acadêmicas que questionam a
perspectiva “adultocêntrica” das análises especializadas e das políticas de intervenção e,
por fim, em novas tentativas de criar regras programáticas que levem em conta a
participação das crianças e seus desejos. No relatório do European Centre, uma das
críticas às perspectivas contemporâneas de compreensão e intervenção sobre a infância
centra-se no fato das crianças serem pensadas sempre como “projetos a serem moldados”
ou como “adultos futuros” (1990: 36-37), enquanto a Childwatch mantém como uma de
suas linhas de pesquisa a avaliação de crianças sobre decisões que as afetem 85.
Nesse sentido, é possível pensar nos debates sobre a gestão da infância como
uma espécie de “última fronteira” (porque das mais naturalizadas) das críticas à relação
entre saber e poder, sucedendo discussões feministas e sobre minorias étnicas. Cabe
lembrar que, como nessas duas outras frentes, a crítica ao “adultocentrismo” também se
constrói simultaneamente como crítica política, em sentido estrito, postulando a
transformação dos objetos de intervenção em sujeitos, e como crítica acadêmica,
discutindo a relação de força presente no “falar pelo outro” e não “com o outro”.
Voltando às hierarquias “confusas” do mundo pós-colonial (e pós-moderno),
creio que é importante assinalar que o chamado pelas falas minoritárias não só não
desfaz relações de poder e assimetria entre os participantes, mas recoloca, como disse
antes, os discursos sobre a superioridade das perspectivas mais modernas. Assim, os
elogios ao ECA como legislação “avançada” ou “de primeiro mundo”, bem como a
representação dos ataques que periodicamente a legislação sofreria como sendo sinal de
retrocesso, não deixam de ser uma reedição dessa hierarquia valorativa de longo prazo.

84
No relatório do European Centre, a idéia de crianças como grupos minoritários é defendida da seguinte
forma: “the notion of childhood as minority group is one which signifies distinction from other societal
groups. On the one hand it causes us to focus attention on the common characteristics that distinguish its
members rather than on their individual characteristics. On the other hand, the use of this concept forces us to
consider the relationships between childhood and other social groups, and therefore, to more carefully
evaluate the possible forms of inequality that characterise it at the level of juridical status, power, distribution
of resources and economic and social opportunities” (1990: 36).
85
Algumas discussões sobre a participação ativa de crianças em pesquisas e em situações que envolvam seus
próprios interesses podem ser vistas em Kefyalew (1996), Thomas e O’Kane (1999) e Roche (1999) e uma
experiência de participação de crianças em projetos de intervenção pode ser vista em um projeto da Unicef
sobre meio-ambiente, levado adiante na década de 1990 (Unicef, 1997)

81
E, mais que isso, não deixam de ser indicativos também de outras tensões
aparentemente sem solução, como a que contrapõe as regulações legais e as regulações
morais.
A discussão sobre as escalas em que diferentes códigos normativos operam –
seja com a formalização dos códigos legais ou não – pode ser formulada também em
termos de moral, o que aqui me interessa especialmente e que procurarei desenvol ver
em outros capítulos. Em ensaio sobre as implicações éticas da pesquisa científica,
Roberto Cardoso de Oliveira recupera as formulações do filósofo Karl-Otto Apel sobre
os três espaços sociais em que as ações humanas e seu poder de comunicação se dariam
– a micro-esfera (espaço da família, vizinhança e matrimônio); a meso-esfera (da
política nacional) e a macro-esfera (o dos interesses comuns a toda a humanidade) –
para discutir a assunção ou não da moral como pertinente a tais esferas e suas
implicações para o trabalho do antropólogo (Oliveira, 1996: 23). Segundo o autor, o
caminho da micro para a macro esfera eqüivaleria ao caminho das perspectivas morais
mais localizadas e, por isso, passíveis de maior relativização, para as mais universalistas
e, nesse sentido, mais resistentes à essa mesma relativização. O encontro entre essas
dimensões, porém, não se realiza de forma simples, uma vez que formas diferentes de
compreensão do correto e do incorreto, do justo e do injusto, estão colocadas em jogo 86.
Pensando na gestão da contemporânea da infância, é possível tomar essa
composição tensa de níveis e formas de regulação tanto em relação ao princípio
doutrinário do melhor interesse, presente na Convenção de 1989 e no ECA, quanto a
questões mais operacionais da administração da infância. Começando pelo melhor
interesse, cabe notar que, embora a Convenção e o ECA definam um conjunto
claramente universalizante de direitos para a infância, a sua operacionalidade está

86
A dificuldade em transcrever para termos legais apropriados e com pretensões universalistas o que é
tomado como um drama pessoal e moral é o tema também do artigo de McKinley (1997), no qual a autora
aborda a “tradução” que os representantes legais, norte-americanos, de uma mulher original do Senegal fazem
de sua narrativa pessoal, no sentido de garantir-lhe o asilo pleiteado nos Estados Unidos. O esforço em moldar
sua narrativa singular – o que implica em fazê-la calar-se sobre determinados assuntos, como o de nunca ter
desejado imigrar com os próprios filhos, por considerar que “pertencem” legitimamente ao pai – nos termos
aceitáveis para o pedido de asilo por perseguição de gênero mostra claramente a tensão entre esses vários
níveis. E, sobretudo, mostra o quanto certas leituras centradas na universalidade dos direitos humanos e
individualizantes é também uma leitura profundamente moral. Para um tribunal norte-americano, a
possibilidade de que uma mãe deixe seus filhos para trás não como um sacrifício absoluto parece tão imoral
que inviabiliza a realização de seu “direito” individual: emigrar/imigrar, pedir asilo.

82
marcada por uma perspectiva de relativização, senão moral, mas dada pela ênfase na
avaliação caso a caso. Nesse sentido, o melhor interesse representaria uma tentativa de
ajuste do universal a condições peculiares, garantindo inclusive a coerência da relação
ideal entre infância e individualidade.
O que os processos que serão analisados a partir do próximo capítulo permitem
perceber, porém, é que no seu correr não está em jogo apenas a necessidade de
coadunar direitos universais a condições individuais, mas também de produzir
julgamentos morais sobre todos os envolvidos. Retomando as formulações de Tilly
sobre as desigualdades categóricas, creio ser o caso de pensar como as avaliações
morais acerca dos pais e guardiães envolvem de modo mais significativo a percepção de
que há limites que podem ou não ser tolerados em razão das oportunidades que se
oferecem, e menos de que há direitos universais a serem preservados ou diagnósticos
individuais a serem realizados.
Assim, muito embora as regulações legais mais recentes, como a Convenção de
1989 e o ECA, concebam crianças e jovens como dotados de uma individualidade legal,
em que pese sua condição especial e, nesse sentido, abram críticas às formas
evidentemente mais tutelares de gestão desses sujeitos, essa questão não parece ser nada
simples de se resolver no plano das avaliações operacionais de cada caso. Ou seja, não
parece ser facilmente convertida em expedientes administrativos. Sob o enunciado dos
“direitos universais da criança” multiplicam-se tensões e embates que envolvem
disputas de autoridade, bem como convergências e divergências morais.
O que procuro pensar a partir dos processos é como uma variedade de questões
de difícil resolução para a gestão da infância são vividas em uma experiência específica
de intervenção. O Juizado, como instância administrativa encarregada de produzir
soluções para diferentes impasses envolvendo o controle e o cuidado de menores, tem,
ao mesmo tempo, que proceder de modo coerente com o código legal que determina
suas ações, mas também que calcular e criar possibilidades. Minha preocupação ao
tomar esse conjunto de processos não é, portanto, ver como a “lei” ou os “direitos”
realizam-se ou deixam de ser realizados neles, mas como formas de gestão são postas
em prática. Retomando o que disse nas duas primeiras partes desse capítulo, trata-se de
buscar o sentido da menoridade enquanto relação de dominação de caráter tutelar: pelo

83
objeto que está sendo gerido, mas também pela prática dos gestores. Assim, se
procedimentos podem ser respeitados, como, por exemplo, colher depoimentos das
crianças que formalmente são o centro dos processos de guarda ou adoção, isso não
desfaz a leitura tutelar desses depoimentos, do mesmo modo que o apelo a uma vulgata
psicologizante e, por isso, individualizante, não desfaz a compreensão das crianç as
como criaturas domésticas/domesticadas por sua imersão em casas. Não desfaz sua
menoridade, em um sentido mais profundo, portanto.

84
Capítulo 2:

“Guardar” crianças: narrativas e dramas

Introdução

O objetivo deste capítulo, como foi dito na Introdução, é permitir que se perceba,
através da construção dos processos civis em torno da gestão de menores, a dinâmica
componente da relação de dominação nela presente, pelo encontro do aparato
administrativo-judicial encarregado desses “problemas” com as unidades domésticas das
quais tais menores partem ou para as quais são destinados. Nesse sentido, creio ser
importante chamar a atenção, antes de mais nada, para a dimensão criadora de tais
encontros: ao longo da montagem do processo, delimitam-se ou redefinem-se contornos
tanto para essas unidades domésticas, quanto para a própria administração. Mais que uma
situação de formalização de relações já existentes – como freqüentemente os demandantes
optam por caracterizar a situação – ou de julgamento arbitrário e unilateral por parte
daqueles que têm formalmente o poder de sancionar o resultado final do processo – a
sentença civil – o que transparece no conjunto de depoimentos, pareceres e decisões que
compõem os processos é uma relação tensa entre níveis e instâncias diferenciadas de
autoridade. Como já havia apontado antes e pretendo explorar mais nesta parte, o bem
crucial que circula e ganha contornos ao longo dos processos civis é a autoridade: dos
responsáveis ou postulantes a responsáveis sobre os menores, por um lado, e dos
especialistas – assistentes sociais, promotores e juízes – sobre os possíveis responsáveis,
por outro.
A construção do processo não pode ser pensada, porém, como uma via de mão
única, nem como uma situação hierárquica rigidamente pré-definida. Embora especialistas
e demandantes ou demandados disponham de autoridades muito distintas, dadas pelo
próprio fato de se tratar de uma instância judicial, o que se percebe na leitura dos processos

85
é que esses se constróem como experiências administrativas dinâmicas. Se, em uma
dimensão, podem ser tomados como exercício da assimetria de poderes entre os
especialistas e os demais participantes do processo, em outra dimensão são usualmente
resultado da disposição dos últimos em buscar a administração enquanto sua “servidora” –
como quando desejam regularizar a situação para obter certos benefícios – ou como
mediadora e autoridade capaz de solucionar disputas e impasses que não puderam ser
resolvidos dentro das próprias unidades domésticas.
Desse modo, estou me propondo a pensar a construção dos processos a partir de três
positividades: como bens administrativos em circulação; como experiências de negociação
em vários níveis e como redefinidores dos limites familiares ou domésticos. Todas as três
positividades, por sua vez, apontam para um mesmo pressuposto: o da riqueza narrativa
própria dos processos ou, dizendo de outro modo, o da sua viabilidade enquanto objetos de
análise em si mesmos e que não obrigatoriamente precisam ser confrontados a dados de
outra natureza para revelarem seus aspectos conflitivos ou para serem explorados
efetivamente enquanto constructos sociais. Nesses termos, creio ser importante enfatizar
que não busco utilizar os processos nem como meio para realizar uma antropologia das
relações familiares, nem como tradução pura e simples da operacionalidade burocrática
sobre aqueles que chegam – ou são levados – ao Juizado. Tratando ao mesmo tempo os
processos como uma realidade em construção – os autos vão sendo montados no tempo,
através do esforço em codificar de forma burocraticamente adequada as experiências que
ali se desenrolam – e como sedimentos de uma construção de realidade ordenada através da
própria montagem dos autos e da decisão final proferida pelo juiz, busco tomá-los como
objeto social merecedor de um tipo peculiar de etnografia.
A realização de tal etnografia, por sua vez, implica tanto atentar para as
especificidades da narrativa burocrática – não são falas, são depoimentos; não são as
justificativas proferidas face a face, mas as que ficam registradas – quanto assumir que não
há um “real mais real” que esteja sendo deixado de lado ao se trabalhar com a face
documental de tais conflitos e demandas. Suponho, portanto que, se o olhar para os
processos exige – como qualquer outro olhar construtor de etnografias, diga-se de
passagem – que se fique atento às condições de produção das narrativas com as quais se
está lidando, isto não se dá pelo fato desta ser uma narrativa mais socialmente fabricada que

86
qualquer outra. As descrições e riquezas que podem ser extraídas desse tipo de produto
narrativo são similares, embora de natureza bastante diversa, das extraídas através do
“trabalho de campo”, modo por excelência de construção de etnografias. Uma vez que
busco nos processos não uma verdade que os transcenda, mas as suas possíveis verdades
enquanto produção social, faço movimento semelhante ao de qualquer etnógrafo, mesmo
que partindo de papéis, carimbos e falas traduzidas para a linguagem do depoimento
judicial87.
Um outro elemento também merece ser destacado para justificar a escolha por
trabalhar com as narrativas dos processos e não com falas ou registros de observação: ao
construir meu material de análise a partir de tais documentos, estou lidando com a faceta
mais pública do encontro entre administração e unidades domésticas ou, dizendo de outro
modo, estou tomando como objeto o que já foi socialmente construído também como
objeto. Não são as relações familiares ou domésticas em sua complexidade fora do Juizado,
como não são os especialistas em suas reflexões paralelas à elaboração dos autos mas, ao
contrário, tudo aquilo que, em longa negociação entre fala e silêncio, vai sendo moldado
como o efetivo objeto de administração, aquilo que vai circular, ser guardado e arquivado
ou ainda ser recuperado quando uma nova etapa administrativa se colocar para os mesmos
personagens da burocracia. As “verdades parciais” que os processos encerram, bem como
as outras “verdades parciais” que uma pesquisa neles centrada pode produzir, dizem
respeito ao que fica sedimentado como registro “oficial” de processos variados de
negociação, embora em outros níveis e instâncias essas negociações possam ser refeitas ou

87
As discussões sobre como construir a narrativa etnográfica fazem parte da própria definição da identidade
da antropologia enquanto ciência social. Aparecem, por exemplo, no relato de Malinowski sobre suas dúvidas
a respeito de qual seria o local correto para problematizar a questão da linguagem nativa e sua tradução,
sintomaticamente situadas, nesse caso, em um suplemento lingüístico. Sua escolha baseou-se, segundo conta,
na percepção de que as explicações e digressões quebravam o fluxo da narrativa, caso incorporadas
diretamente ao texto principal, e representavam um peso excessivo ao texto, caso fossem deixadas como notas
de pé de página. Nesse mesmo texto, Malinowski chama a atenção para a equivalência entre palavras e ação,
indicando que lidar com a linguagem nativa – e aqui poderíamos multiplicar em muito o que seja “nativo” – é
lidar com uma pragmática do comportamento humano (1935, anexos: 03-09). Mais recentemente, assistimos a
uma profusão de debates e experimentações em torno da narrativa etnográfica, tematizando desde a distância
entre a experiência eivada de subjetividade do trabalho de campo e o esforço de objetividade da escrita,
sintetizada na conhecida expressão de Geertz, “estar lá, escrever aqui”, a que já fiz menção, até as múltiplas e
inevitáveis relações de poder presentes na construção da “ficção etnográfica” (Geertz; 1989; para um quadro
geral dessa produção, ver Marcus e Cushman, 1982 ou, para um balanço mais recente, Marcus, 1999).

87
transformadas88. O que proponho aqui, então, antes de mais nada, é refletir sobre o tipo de
realidade – ou o tipo de verdade – que pode ser acessada através dos processos, pensando-
os ao mesmo tempo como objetos socialmente construídos, como foi dito acima, e também
como objetos socialmente construtores de novas realidades, de capitais de autoridade, de
limites e formas de intervenção administrativa. Antes de discutir com mais cuidado essas
questões, acredito ser importante, já que se está falando aqui da produção de uma narrativa
a partir de outras narrativas de determinado gênero, descrever um pouco como tais
processos se apresentam para quem os lê e de que partes se compõem.

A forma narrativa dos processos

Os processos envolvendo a guarda de crianças e adolescentes podem tramitar


nas varas de família, quando a disputa se dá entre os pais biológicos, ou no Juizado,
quando está envolvido um terceiro indivíduo ou casal, com laços de parentesco ou não
com os pais biológicos 89. Como dito na Introdução tive acesso aos processos de

88
Uso o termo “verdades parciais” tendo por referência a discussão de Clifford sobre as riquezas e limitações
da etnografia. No texto que tem por título “Partial Truths”, Clifford destaca, entre outras questões delicadas
para o que poderia ser chamado de “ofício do etnógrafo”, o fato da etnografia se colocar entre a arte e a
ciência ao produzir suas verdades literárias – as do texto final. (Clifford, 1986). Encontrar a autoridade
etnográfica, assumindo a parcialidade inevitável das condições de produção da autoria, parece-me um desafio
ininterruptamente colocado para a disciplina. A autoridade dada por “estar lá” – isto é, observar, entrevistar,
perceber pessoalmente – não parece ser suficiente para dissipar a angústia frente à parcialidade intrínseca à
reconstrução dos relatos coletados e, sobretudo, à elaboração do relato final, o do “autor”.
89
A figura legal da guarda aparece no ECA em relação à Família Substituta, ou seja, aquela que não se enquadra na
definição de Família Natural (“Art. 25: Entende-se por família natural a comunidade formada pelos pais ou
qualquer deles e descendentes”). Segundo o Art. 28, “A colocação em família substituta far-se-á mediante guarda,
tutela ou adoção, independentemente da situação jurídica da criança ou adolescente, nos termos desta Lei. §1º
Sempre que possível, a criança ou adolescente deverá ser previamente ouvido e sua opinião devidamente
considerada. §2º Na apreciação do pedido, levar-se-á em conta o grau de parentesco e a relação de afinidade ou de
afetividade, a fim de evitar ou minorar as conseqüências decorrentes da medida”.
A guarda propriamente dita, por sua vez, está definida no ECA ao longo dos artigos 33, 34 e 35, da seguinte forma:
“Art. 33: A guarda obriga a prestação de assistência material, moral e educacional à criança ou adolescente,
conferindo a seu detentor o direito de opor-se a terceiros, inclusive aos pais. § 1º A guarda destina-se a regularizar a
posse de fato, podendo ser deferida, liminar ou incidentalmente, nos procedimentos de tutela e adoção, exceto no de
adoção por estrangeiros. § 2º Excepcionalmente, deferir-se-á a guarda, fora dos casos de tutela e adoção, para
atender a situações peculiares ou suprir a falta eventual dos pais ou responsável, podendo ser deferido o direito de
representação para a prática de atos determinados. § 3º A guarda confere à criança ou adolescente a condição de
dependente, para todos os fins e efeitos de direito, inclusive previdenciários. Art. 34: O Poder Público estimulará,
através de assistência jurídica, incentivos fiscais e subsídios, o acolhimento, sob a forma de guarda, de criança ou
adolescente órfão ou abandonado. Art. 35: A guarda poderá ser revogada a qualquer tempo, mediante ato judicial
fundamentado, ouvido o Ministério Público” (Brasil, Ministério do Bem-Estar Social, Lei Federal 8069/90)

88
guarda através do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, onde estão depositados. Sendo
de natureza civil, a sua consulta dependeu de uma autorização da instância judicial,
assegurando a preservação da identidade dos envolvidos. Por essa razão, optei não
apenas por substituir os nomes de todos os ali citados, mas também por não deixar
registrados os seus respectivos números, preservando, assim, um certo anonimato
burocrático dos “casos” aqui tratados.
Essa preocupação está ligada também ao fato de, ao investigar esse tipo de
material, ter sido levada indiretamente a participar de um momento muito específico da
relação dessas pessoas com a administração ou, dizendo de outro modo, com o retrato
que delas foi feito pela administração a partir das experiências judiciais. Nesse sentido,
se todo etnógrafo tem que se confrontar com dilemas éticos envolvendo a transposição
do que foi dito ou observado para o texto de autoria indiscutível do próprio etnógrafo –
seu momento de dolorosa onipotência –, no meu caso tenho o agravante de sequer ter,
pela natureza do trabalho feito, consultado essas pessoas sobre a exposição que agora
faço de um momento de suas vidas. Cabe, afinal, não esquecer o elementar: apesar de
estar lidando com um produto específico construído a partir da realidade das pessoas e
que, portanto, jamais esgotará ou mesmo representará a complexidade dessas
realidades, por trás dos papéis, da objetivação administrativa, estão pessoas concretas,
em sua maioria ainda vivas – imagino – e, no caso específico das crianças que são o
centro dos processo e suas motivações, iniciando sua vida adulta. Assim, por mais
obscuras que sejam as teses acadêmicas e por mais que para nossa frustração e, em
alguns casos, conforto, imaginemos que elas fiquem confinadas a um mundo muito
peculiar, não quis correr o risco de “deixar rastros” sobre a trajetória administrativa
envolvendo a vida de pessoas que não me autorizaram a tanto.
Dito isto, creio ser importante descrever um pouco da composição dos
processos de guarda. Estes têm início com uma petição por parte dos que estão
requisitando a guarda do menor, seguindo em ordem cronológica até a sentença final.
Os processos se compõem como uma investigação, ou como várias investiga ções
agregadas, cujo primeiro passo consiste em verificar a situação legal original em
torno do menor que está motivando esse tipo de pedido. Em alguns casos, a
responsabilidade legal sobre o menor está definida através do pátrio poder de um ou

89
ambos os pais. Nesses casos, ou o próprio detentor do pátrio poder endossa desde o
princípio a petição de guarda, sendo de qualquer forma chamado a uma entrevista no
Juizado para esclarecer essa concordância, ou – caso um dos pais ou ambos estejam
ausentes – são expedidos comunicados através do Diário Oficial, solicitando seu
comparecimento ao Juizado. Caso este(s) não se pronuncie(m), a guarda pode ser
passada à revelia, o que implica obviamente na cassação do pátrio poder 90.
O processo pode se compor, desse modo, de várias audiências, dependendo do
grau de concordância ou discordância entre os envolvidos. Crianças e adolescentes
podem também ser chamados a depor, o que, entretanto, não é muito comum. Além
dos depoimentos, uma peça-chave dos processos são os estudos sociais, realizados por
assistentes sociais no local de moradia do menor ou daqueles que pretendem ser seus
guardiães. Desses estudos sociais constam itens, tais como: situação civil-familiar
(dos requisitantes), situação socioecônomica, situação habitacional e visita
domiciliar. Em alguns deles, as falas de crianças e adolescentes são registradas, mas
na sua maior parte o que prevalece é o discurso indireto de assistentes, inclusive
quanto a essas falas (“fulano disse-nos que...”). Os relatórios de assistentes sociais
podem ser tomados como a alma dos processos civis, já que é sobretudo neles que
tanto juízes quanto promotores se baseiam, seja para solicitar audiências que
acreditem ser necessárias, seja para construir sua versão/decisão sobre qual o melhor

90
A perda ou suspensão do pátrio poder está definida no ECA entre os artigos 155 e 163, da seguinte forma:
Art. 155: O procedimento para perda ou suspensão do pátrio poder terá início por provocação do Ministério
Público ou de quem tenha legítimo interesse. Art. 156: A petição inicial indicará: I – a autoridade judiciária a
que for dirigida; II – o nome, o estado civil, a profissão e a residência do requerente e do requerido,
dispensada a qualificação em se tratando de pedido formulado por representante do Ministério Público; III – a
exposição sumária do fato e o pedido; IV – as provas que serão produzidas, oferecendo, desde logo, o rol de
testemunhas e documentos. Art. 157: Havendo motivo grave, poderá a autoridade judiciária, ouvido o
Ministério Público, decretar a suspensão do pátrio poder, liminar ou incidentalmente, até o julgamento
definitivo da causa, ficando a criança ou adolescente confiado a pessoa idônea, mediante termo de
responsabilidade. Art. 158: O requerido será citado para, no prazo de dez dias, oferecer resposta escrita,
indicando as provas a serem produzidas e oferecendo desde logo o rol de testemunhas e documentos. § único:
Deverão ser esgotados todos os meios para a citação pessoal. (...) Art. 161: Não sendo contestado o pedido, a
autoridade judiciária dará vista dos autos ao Ministério Público, por cinco dias, salvo quando este for o
requerente, decidindo em igual prazo. § 1º: Havendo necessidade, a autoridade judiciária poderá determinar a
realização de estudo social ou perícia por equipe interprofissional, bem como a oitiva de testemunhas. §2º: Se
o pedido importar em modificação da guarda, será obrigatória, desde que possível e razoável, a oitiva da
criança ou adolescente. Art. 162: Apresentada a resposta, a autoridade judicial dará vista dos autos ao
Ministério Público, por cinco dias, salvo quando este for o requerente, designando, desde logo, audiência de
instrução e julgamento (...)”(Brasil, Ministério do Bem-Estar Social, Lei Federal 8069/90)

90
interesse da criança, de acordo com a doutrina preconizada pelo ECA 91. Ao contrário
do que ocorre em processos criminais, as sentenças civis tendem a ser muito sumárias,
sem maior detalhamento sobre a decisão tomada pelo juiz.
O pronunciamento dos promotores que assumem o posto de curadores de menores –
ou seja, aqueles que são designados pelo MP como responsáveis pela defesa dos interesses
desses menores – também costuma ser muito sucinto. Agindo em parte como fiscalizadores
do processo como um todo, os promotores/curadores solicitam informações que consideram
estar faltando ao processo ou indicam a necessidade de novas audiências com os
envolvidos, quando julgam necessário.
Um tipo singular de processo de guarda envolve não a passagem entre particulares
da responsabilidade legal sobre um menor, mas a assunção dessa responsabilidade em
relação a algum menor que se encontra em instituições. Também nesses casos pode haver
ou não registro de pais biológicos conhecidos e estes, por sua vez, podem manter ou não
contato com o menor que estava internado. O período inicial de guarda, nesses casos, é
acompanhado de visitas de assistentes sociais para monitorar o que normalmente é visto por
esses profissionais como sendo um período de adaptação.
Uma outra possibilidade para a situação da guarda é quando esta ocupa um papel
intermediário em processos de adoção. Também aqui mais de uma situação é possível. Em
alguns casos, a adoção é um objetivo definido desde o início e a guarda funciona como um
dispositivo legal semelhante ao que ocorre com processos envolvendo menores que se
encontravam em instituições de internação, ou seja, permite que seja feito um
acompanhamento do período normalmente tratado como de adaptação. Singularmente,
quando o desejo de adoção é explicitado desde o princípio do processo, há um esforço bem
maior em acompanhar esse período, perceptível no volume de visitas de assistentes sociais.
Essa maior preocupação está relacionada, sem dúvida, ao próprio estatuto mais definitivo
da adoção em relação à guarda. Enquanto a primeira supõe o cancelamento do vínculo

91
As atribuições de assistentes sociais e demais membros da equipe interprofissional que deve acompanhar o
trabalho judicial realizado pela Justiça da Infância e Juventude também está delineado no ECA. De acordo
com o “Art. 151: Compete à equipe interprofissional, dentre outras atribuições que lhe foram reservadas pela
legislação local, fornecer subsídios por escrito, mediante laudos, ou verbalmente, na audiência, e bem assim
desenvolver trabalhos de aconselhamento, orientação, encaminhamento, prevenção e outros, tudo sob a
imediata subordinação à autoridade judiciária, assegurada a livre manifestação do ponto de vista técnico”.
(Brasil, Ministério do Bem-Estar Social, Lei Federal 8069/90)

91
biológico original, a segunda apresenta-se como mecanismo mais flexível, na medida em
que a transferência tanto da responsabilidade, quanto da autoridade sobre o menor não
implica cancelamento da maternidade ou paternidade.
Uma segunda possibilidade, porém, é do desejo de adoção manifestar-se legalmente
após um período de guarda. Nesse caso, ao invés da guarda ser uma espécie de estágio
intermediário da adoção, o que se tem é a produção de dois processos diferentes, mas
interligados. Ou seja, inicialmente tem-se os trâmites que viabilizam e consolidam a guarda
e, após um intervalo bastante variado de tempo, inicia-se um novo processo para adoção
definitiva do menor que já se encontrava sob a guarda de um indivíduo ou casal. Nesse tipo
de situação, como será possível perceber a partir de casos analisados adiante, uma nova
modalidade de discordância entre pais e guardiães pode se estabelecer, com os primeiros já
tendo concordado com os termos da guarda, mas se negando a aceitar a adoção, exatamente
por essa representar a ruptura legal definitiva entre pais biológicos e filhos.
O que os processos de guarda permitem perceber, portanto, é parte da dinâmica que
relaciona a administração com diferentes atores sociais que ocupam, ao mesmo tempo, o
papel de demandantes e objetos de regulação e o poder criador ou redefinidor de
representações e relações sociais trazido por tais experiências de negociação. Gostaria,
assim, de voltar ao que chamei antes das três positividades presentes na análise desses
processos judiciais, antes de apresentar algumas de suas narrativas possíveis.

1ª positividade: os processos como bens administrativos

A primeira das positividades a que me referi, ou seja, dos processos como bens
administrativos em circulação, deve ser pensada, antes de mais nada, em relação à
distância entre o falado e o escrito, especialmente se considerarmos o escrito como
mecanismo de controle burocrático e construção ou afirmação de autoridade. Nesse
sentido, o conjunto de relatos de que os processos são feitos precisa ser tomado como
resultado da conversão das falas em depoimentos escritos e desses em peças para
produção de uma decisão administrativa e judicial. As condições de constrangimento das
falas, dadas antes de mais nada pela própria situação de estar perante um conjunto de
especialistas com poder de avaliação e de decisão – assistentes sociais, curadores, juízes
92
– pleiteando algo ou rebatendo questionamentos e cobranças de comportamento, as
transformam em peças discursivas singulares.
Desse modo, a escolha sobre como narrar a relação com a criança, cuja guarda está
sendo decidida, ou com qualquer outra pessoa relacionada a ela, carrega sempre o peso de
produzir uma versão de si mesmo que possa ser tomada como positiva perante os
especialistas com quem a interlocução assimétrica está sendo estabelecida. Como será visto
em alguns casos descritos, mesmo em situações aparentemente menos conflitivas – quando
há acordo na cessão da guarda de uma criança – está presente o esforço em limitar uma
eventual representação negativa daquele que cede, sobretudo se estão presentes imagens do
abandono ou do descaso com a criança de cuja guarda se abre mão. Assim, as “biografias”
cristalizadas na escrita do processo têm por função tanto construir representações –
reputações, pode-se dizer – sobre e para todos os envolvidos, quanto intervir nos próprios
rumos do processo e da decisão judicial que o encerra92.
O poder de “tornar explícito o implícito” que a escrita traz (Goody, 1987:127)
interfere diretamente na natureza das falas que vão sendo depositadas ao longo dos autos.
A descrição das relações estabelecidas entre os envolvidos compreende, dessa forma, um
certo cálculo da repercussão que tais descrições podem ter. O que é interessante destacar,
porém, é que esse cálculo não parece pertencer apenas aos demandantes ou demandados,,
mas também aos especialistas. Estes, como responsáveis pela condução e desfecho do
processo, estão duplamente constrangidos ao registrar suas falas ou ao conduzir e intervir
sobre as falas alheias: por um lado, precisam mostrar-se afinados com a linguagem que
seu saber especializado exige e, por outro, devem tornar simultaneamente visíveis e
invisíveis – ou audíveis e inaudíveis – certos relatos produzidos pelos depoentes. Ou,
melhor dizendo, como se encontram ao mesmo tempo na posição de investigadores das

92
Como lembra Bourdieu, “todo agente social aspira, na medida de seus meios, a este poder de nomear e
constituir o mundo nomeando-o: mexericos, calúnias, maledicências, insultos, elogios, acusações, críticas,
polêmicas, louvações são apenas a moeda cotidiana de atos solenes e coletivos de nomeação, celebrações ou
condenações de que se incumbem as autoridades universalmente reconhecidas” (Bourdieu, 1996 b: 81-82). O
que procurarei discutir através dos casos selecionados é a relação entre o poder de nomeação dos diferentes
agentes presentes no processo e a própria peculiaridade desses atos discursivos quando transformados em
depoimentos e decisões judiciais.

93
relações que lhes são trazidas – ou das que podem se consolidar após a decisão final – e
na posição de produtores de uma “solução” administrativa para a criança cuja guarda está
sendo decidida, precisam compor os depoimentos, relatórios, pareceres e demais peças
narrativas do processo, de modo a viabilizar tal solução, sem correrem o risco de
danificar sua imagem profissional.
Creio que o elemento mais expressivo dessa duplicidade é o que chamei de discurso
indireto dos assistentes sociais, presente sobretudo nos estudos sociais produzidos por tais
profissionais. A invisibilidade das perguntas, a seleção do que deve constar dos relatórios
em diferentes momentos do processo, a comparação entre as possibilidades oferecidas pelos
pleiteantes à guarda etc constróem o julgamento sob a aparência de descrever realidades e
conduzem à “solução” debaixo da capa da neutralidade técnica do discurso especializado.
Assim, a escolha do que deixar registrado ou do que silenciar ao longo do processo precisa
ser compreendida a partir desse horizonte primordial de constrangimento: a busca de uma
solução administrativa, de uma casa onde situar alguém durante a sua menoridade.
Por outro lado, como foi dito, tal solução não pode ser produzida e, em certo
sentido, naturalizada como conseqüência das condições antes relatadas pelos profissionais
sem o apego à forma do discurso especializado, o que vale tanto para os relatórios dos
assistentes sociais, quanto para os pareceres e decisões de curadores e juízes. Desse modo,
pode-se dizer que não apenas a produção de silêncios – tudo o que não fica relatado e
registrado como observação ou fala – é decisiva para que os processos se construam como
atos administrativos, mas também a formatação padronizada do que fica registrado é
igualmente importante. Como destaca Bourdieu, a retórica de impessoalidade e
neutralidade é condição essencial para que decisões judiciais singulares possam ser
tomadas como universalizantes e, nesse sentido, como efeito de um processo de constante
racionalização (Bourdieu, 1986: 06). Ou seja, um dos elementos que permitem a apreensão
social dos processos de guarda como decisões ao mesmo tempo específicas – trata-se
sempre da guarda de uma criança singular – e universais – no sentido de obedecerem a
princípios racionais e regulares – é a observância de certas regras discursivas que são
sempre também regras administrativas.
Sob esse aspecto, o número de visitas a serem feitas à criança ou seus guardiães, a
sistematização dos dados que se consideram relevantes para a decisão final, o recurso a

94
psicólogos quando certos impasses se estabelecem, os inúmeros registros dando ciência do
andamento do processo que os curadores emitem etc têm por efeito converter os dramas
singulares que chegam ou são levados ao Juizado em atos da burocracia, capazes, portanto,
de certa padronização e dotados de suposta neutralidade racional93. Assim, as falas
convertidas em depoimentos e as experiências de interação traduzidas por assistentes
sociais em relatórios não devem ser entendidas como deformação de supostas “condições
reais” de sua produção, mas como o único modo através do qual encontram a
operacionalidade e a legitimidade para se transformarem naquilo que é sua finalidade
primordial: serem bens administrativos, peças narrativas que circulam pelas instâncias
burocráticas cumprindo a função de padronizar problemas e produzir soluções.
A autoridade narrativa dos diferentes agentes especializados que transformam a
polifonia das falas em peças padronizadas e univocais é, assim, não apenas tributária da
autoridade de posição de que dispõem, mas uma exigência a ser cumprida para que tal
polifonia não crie a inviabilidade da administração dos “problemas” a serem resolvidos.
Desse modo, é importante chamar a atenção para a delicada fronteira em que tais agentes e
suas narrativas se movem: ao mesmo tempo em que é preciso relatar cada caso em sua
singularidade, justificando inclusive a relevância de saberes especializados em
investigações mais capilares, como o dos assistentes sociais, é igualmente necessário
submeter todos eles a uma lógica comum, dada pela correção legal dos procedimentos
adotados e pela investigação tecnicamente padronizada. A eficácia administrativa de tais
processos reside, desse modo, no equilíbrio tenso entre o singular e o padronizado e na
capacidade de produzir prognósticos em torno da decisão tomada – ou seja, garantir que a
relação de guarda sacramentada ao final do processo possa revelar-se eficaz na “criação”
daquele menor.

93
Embora exista recurso a psicólogos em alguns dos processos vistos, somente a partir de 1999, ou seja,
posterior ao período em que os processos aqui tratados se localizam, foi constituído o Núcleo de Psicologia da
Justiça da Infância e Juventude, com a contratação de quatro profissionais. A utilização dos serviços desses
profissionais até então era feita de forma mais esporádica, apenas nos casos considerados especialmente
difíceis por algum motivo.

95
2ª positividade: os processos como experiências de negociação em vários níveis

A segunda positividade que propus para pensar as narrativas dos processos de


guarda pode ser tomada como estreitamente ligada ao que chamei acima da sua eficácia
administrativa. Para que um processo resulte em uma solução – a colocação de uma criança
ou jovem sob a guarda legalmente sancionada de alguém – é necessário que diversas
negociações se realizem. Se, como já destaquei, o processo implica a avaliação formalizada
de todos os envolvidos por meio de diversos discursos técnicos, é inevitável que tal
avaliação compreenda também uma certa dimensão de negociação, a começar pelas
representações produzidas ao longo dos depoimentos. A conversão da fala em depoimento
ou da visita de assistentes sociais em relatórios pode ser entendida igualmente como
produto de diferentes negociações feitas entre os que são objeto do processo, em primeiro
lugar, e destes com especialistas ao longo do processo, culminando com o seu desfecho, ou
seja, com a definição legal da guarda.
As diferentes dimensões de negociação dos processos não podem ser resumidas,
dessa forma, nem aos acordos ou litígios entre postulantes à guarda, nem desses com os
especialistas do Juizado. Antes de mais nada, estão sendo atualizadas elaborações e
reflexões acerca do que seriam as obrigações sociais de “guardar” uma criança. Assim, os
relatos sobre as relações prévias entre todos, sobre o comportamento dos pais biológicos e
dos possíveis concorrentes à guarda, em relação ao que se pode oferecer à criança cuja
guarda se está tentando obter, são o resultado de negociações no plano mais geral das
representações sociais, sendo o processo como um todo parte de um grande esforço em
remontar as histórias pessoais como histórias afinadas com o que seriam as representações
mais decisivas do que significa criar uma criança94.

Cabe aqui destacar mais uma vez a diferença entre o que pode ficar no plano da fala
e o que se sedimenta como relato escrito, nesse sentido, a própria memória indelével do

94
As discussões sobre as obrigações sociais encontram no trabalho de Marcel Mauss uma referência
fundamental. Ao construir sua teoria sobre a dádiva, Mauss chama a atenção para a complexidade e a força
social dessas relações ou, dizendo de outro modo, para o poder de coerção das representações que permeiam
(e constróem) as relações de reciprocidade entre os homens. A discussão das obrigações envolvidas nos
processos será feita no capítulo 4.

96
processo. Como em qualquer processo judicial, nos processos de guarda estão presentes
infinitas possibilidades e critérios de avaliação que não ficam explicitados nos autos.
Assim, ao trabalhar com seus registros escritos, o que posso recuperar não são esses jogos
múltiplos de classificação informal dos envolvidos, mas as falas consideradas por diferentes
agentes como relevantes de serem registradas. Acusações, argumentos valorizadores de
suas condutas, bens materiais ou simbólicos alardeados como parte das obrigações e
benefícios daqueles que cedem ou que solicitam a guarda de uma criança, comportamentos
ou discursos tomados pelos especialistas como mais significativos que outros – e, por isso,
devendo ser destacados em seus relatórios e pareceres – compõem o saldo cristalizado das
diferentes negociações empreendidas ao longo do processo.

Por outro lado, o embate de representações que se cristaliza ao longo do processo


não deve ser tomado de forma simplista, onde categorias relativamente fechadas ou
regulares de acusação se contrapõem a categorias igualmente fechadas de valorização.
Como já chamei a atenção em outro momento, a contextualização ou o conjunto de
argumentos e de condições relatadas em torno a um caso de abandono, por exemplo,
podem permitir que esse caso seja matizado de formas diferentes, inclusive no sentido de
afinar-se com as representações mais relevantes sobre os cuidados em torno de uma
criança. A mãe que constrói o relato das suas motivações para abandonar como algo no
fundo relacionado à preservação da criança – frente à miséria ou à violência – encontra nas
negociações empreendidas ao longo do processo um espaço de articulação diferenciado
daquela que não consegue romper com a representação do abandono como um ato em certa
medida egoísta ou negligente. Do mesmo modo – e isso será melhor discutido através dos
casos descritos adiante – a construção do ato negociado de passar a guarda de um filho para
outra pessoa também pode ser construído nos relatos e depoimentos como ato de dádiva, e
não de fracasso individual ou irresponsabilidade.

O que procuro destacar, ao indicar que os processos comportam negociações em


diferentes níveis, portanto, é que a situação judicial precisa ser compreendida, por um lado,
como uma situação relativamente aberta, no sentido em que se constrói como embate de
justificativas e relatos variados; por outro, como algo que comporta composições e

97
confrontos de representações sociais mais complexas e variadas que as condensadas nos
textos legais.

Considerando que tais negociações explicitam compromissos ou obrigações,


podemos tomar o trabalho de formalização que o processo judicial promove como a
construção de um outro patamar para tais compromissos. Ou seja, se em casos de
solicitação ou disputa de guarda está em jogo a produção de representações favoráveis ao
que se supõe socialmente que sejam as obrigações de um guardião, o fato dessas
representações serem transformadas em registros escritos de natureza peculiar, como o
variado conjunto dos autos processuais, as transforma em algo diverso das obrigações
vividas fora desse contexto. Nesse sentido, creio ser possível tornar o específico dos
registros feitos ao longo do processo como algo que guarda propriedades de semelhança
mas também de diferença com o que é percebido nas relações prévias à ida ao Juizado. Se
um dos elementos fundamentais nos depoimentos prestados ou nos argumentos
apresentados durante a visita de assistentes sociais às casas é a montagem de uma história
das relações – entre guardiães e pais biológicos, entre guardiães e sua parentela, de todos
com a criança etc – pode-se tomar a própria experiência reflexiva e argumentativa desses
depoimentos e relatos como transformadora de situações prévias95.

Torna-se importante retomar alguns pontos destacados na Introdução sobre as


experiências judiciais – e os processos sendo seu produto burocrático – como situações
colocadas entre as ilusões da universalização absoluta dos códigos legais e da singularidade

95
Diferentes autores têm focalizado ao longo de suas experiências de pesquisa o quanto o ato de relatar uma
experiência vivida parece produzir sobre os entrevistados novas possibilidades de reflexão e elaboração
dessas mesmas experiências. O balanço de vida feito nesses momentos, considerando relações familiares, de
trabalho, escolhas feitas, frustrações, decisões errôneas ou acertadas etc efetivamente permite um certo
processo de reelaboração da identidade pessoal e, inseparável disto, de reflexão sobre o que seriam as
expectativas com relação ao comportamento das pessoas com quem momentos e situações foram partilhados.
Nesse sentido, podemos pensar que os depoimentos – para entrevistadores, mas também para investigadores
dos mais variados tipos – produzem experiências de reflexão sobre si, sobre o outro e sobre o conjunto de
valores sociais que os sujeitos supõem que orientam as suas ações e as do mundo ao seu redor. Castro Faria
resume essa questão em uma frase emblemática ao dizer que “o depoimento (...) permite que a pessoa que fala
se transfigure em testemunha” (Faria, 1993: 01) Uma discussão mais geral sobre a remontagem das trajetórias
pessoais e, conseqüentemente, sobre a identidade social pode ser encontrada, entre outros títulos, no trabalho
de Goffman (1988). Já Pollak (1986) e Das (1999), por sua vez, também apontam questões acerca dos difíceis
relatos em torno de experiências críticas e alguns dos depoimentos recolhidos no trabalho organizado por
Bourdieu (1997) trazem essa marca da remontagem de longas trajetórias de vida, em que parte das frustrações
vividas no momento presente são tomadas como fruto de processos sociais mais amplos (isso fica
especialmente claro na entrevista feita por Abdelmalek Sayad com um imigrante argelino na França, na qual

98
ou informalidade absoluta das negociações privadas ou domésticas. Se as experiências
judiciais comportam margens muito mais amplas de valoração dos comportamentos e,
conseqüentemente, de negociação entre os envolvidos, flexibilizando e complexificando o
que aparece padronizado nos códigos legais, de outro modo, elas também formalizam
obrigações que antes poderiam ser percebidas e vividas de forma menos explícita. Como
colocado no capítulo 1, o próprio princípio doutrinário atualmente dominante na legislação
sobre infância e juventude, o da busca do melhor interesse da criança, acaba por legitimar
esse ponto intermediário e singular das experiências judiciais, na medida em que a
observância das regras legais supõe a particularização – dentro de certos limites – de cada
caso avaliado judicialmente. Desse modo, pensando ainda na dimensão de negociação que
as experiências judiciais comportam em comparação com a aparente rigidez dos códigos
legais, é possível perceber no espectro variável dos melhores interesses a oportunidade de
conversão legalmente respaldada de certos conflitos em acordos formalmente reconhecidos
pelas partes em confronto.

É importante, então, enfocar um plano específico de negociação que os processos


compreendem: o da busca da conciliação, o da transformação de elementos de litígio em
acordos sancionados através de uma instância de autoridade socialmente superior às partes.
Nesse caso, a formalização de obrigações que a experiência judicial constrói tem papel
decisivo, na medida em que não apenas faz com que certas regras sejam explicitadas e
certos comportamentos cobrados por agentes em posição social distinta (e superior, em
termos de autoridade) à dos envolvidos, mas porque possibilita o estabelecimento de um
contrato formal – o processo, a sentença – onde antes havia sobretudo acordos e desacordos
não formalizados. Voltando, portanto, ao que haveria de específico na análise de processos
judiciais, creio ser importante pensar que os registros escritos que deles fazem parte são
também o produto cristalizado desses esforços em construir acordos, o que implica,
inclusive, o ocultamento do próprio papel de mediação que os especialistas desempenham.
Embora em alguns momentos esse papel seja colocado de forma mais evidente, como em
passagens nas quais assistentes sociais explicitam conselhos que deram ou correções ao

ele, ao comentar a distância entre seu projeto de família e os rumos que os filhos tomaram, os isenta e a si
próprio de culpa, declarando que a culpa é da emigração/imigração que os jogou nessa situação contraditória).

99
comportamento de alguns dos envolvidos, em geral o que se pode perceber são práticas no
sentido de tornar menos visível essa mediação.

Se em outro momento destaquei a importância dos discursos indiretos (disse-nos


que...; perguntado, falou que...) na construção da eficácia administrativa dos processos,
gostaria de sublinhar agora um outro elemento importante no modelo narrativo dos
relatórios de assistentes sociais: os intervalos de tempo e os silêncios que acompanham
esses intervalos. Como os processos se compõem de diferentes audiências e de visitas de
assistentes sociais entre essas audiências, o que neles fica registrado são os momentos mais
emblemáticos para a obtenção da solução, para que se chegue à sentença. Entre esses
momentos, porém, não só há evidências de que outras negociações entre os envolvidos
podem transcorrer, como a ação mediadora dos assistentes pode continuar a ser exercida.
Mães que inicialmente resistem a ceder a guarda dos filhos ou a transformar a guarda já
concedida em adoção surgem em novas audiências declarando mudança de idéia, terem
sido esclarecidas sobre o que cada uma dessas figuras legais implica, estarem pensando
melhor etc96. Se é claro que o fato dos processos envolverem em geral pessoas que se
conhecem previamente ou que mantêm relações relativamente regulares entre si é decisivo
para tais mudanças de rumo, transformando os registros escritos e as próprias situações
judiciais formais em apenas um nível de negociação, que não exclui outros operando fora
das audiências, também parece claro que a ação dos especialistas não se reduz nem às
situações estritamente formais, nem muito menos ao que dessas situações fica registrado.

Nesses termos, a busca pelo acordo encontra nos especialistas a mediação


fundamental, ao mesmo tempo em que há da parte destes o esforço em tornar relativamente
opaca tal mediação, sedimentando nos autos apenas as decisões expressas diretamente pelos
envolvidos. Os silêncios do processo, desse modo, são também significativos para pensar
os limites da explicitação do papel mediador desempenhado pelos especialistas e a fronteira
em que se movem, entre conduzir/costurar acordos e fazer com que estes pareçam ser fruto
quase que exclusivamente do desejo das partes. Tal ação mediadora, por fim, pode ser

96
A dimensão “aconselhadora” dos técnicos ou figuras de autoridade – como juizes – é destacada em
diferentes trabalhos etnográficos, como os de L. Sigaud (1996) acerca de demandas de trabalhadores rurais,
de A. Cardarello (1996) sobre os Conselhos Tutelares, ou de J. Comerford (2001) sobre litígios em torno dos
limites entre propriedades de diferentes famílias rurais, indicando que esta não é uma questão circunscrita a

100
entendida como parte de uma experiência de redefinição de limites familiares ou
domésticos, como busco destacar a seguir.

3ª positividade: os processos como redefinidores de limites domésticos

A terceira positividade para a qual o trabalho com os processos aponta, a da


redefinição de limites familiares ou domésticos, termo que prefiro utilizar, como explicado
na Introdução, exige uma discussão prévia sobre como estou concebendo essas unidades. O
princípio fundamental com o qual pretendo lidar é o da unidade familiar ou doméstica
como algo dinâmico, ou seja, não tomado nem como previamente definido – pelos laços
“de sangue” ou da maternidade/paternidade biológica – nem como algo fixo sobre o qual
venham a incidir mudanças ou a se inscrever rupturas. Ao invés disso, procuro tomar tais
unidades sobretudo como valores, no sentido de entendê-las, em primeiro lugar, como um
conjunto de relações descritas pelos próprios agentes – os que chegam ao Juizado, mas
também os especialistas que classificam tais relações em seus discursos técnicos – e, em
segundo lugar, como um enunciado qualificativo com capacidade de positivar certas
relações (ser “uma família”, ser a “verdadeira família”, ser “a mãe de fato” etc). Assim, os
processos não apenas expressam o formato das relações que estão sendo questionadas ou
remodeladas legalmente ao longo da construção de seus autos, mas podem ser
compreendidos como experiências de embate moral e simbólico, a partir do que seria o
conjunto de valores capaz de definir uma família ou, dizendo de outro modo, da própria
família como um valor social97.
A ida ao Juizado e a formalização de uma relação – através da definição da guarda –
não podem ser pensadas como experiências externas à construção de tais famílias ou
unidades domésticas, mas como parte vital dessa construção. Se, como destaquei no item
anterior, há uma transformação no status e no reconhecimento social dos acordos
domésticos informais quando são ratificados pelo Juizado, é possível ir além da idéia da

um tipo específico de conflito, mas que aponta para uma compreensão mais ampla do que seja o papel das
unidades administrativas frente à resolução de tensões e impasses.
97
Relembro aqui as críticas de autores como Schneider (1968 e 1984) e Yanagisako (1979), mencionadas na
Introdução, à imaginação biológica que continuaria atravessando tanto os estudos sobre parentesco, quanto os
sobre família.

101
formalização e pensar a experiência de negociação dos processos como constituinte de
relações familiares ou domésticas. Desse modo, o que os autos sacralizam é parte da
dinâmica social envolvendo diferentes agentes sociais – inclusive os especialistas – no
sentido de reconfigurar as relações em torno de uma criança cuja guarda está sendo
decidida. Tomar a criança – ou o menor – como o ego de tais processos não significa,
portanto, subscrever a genealogia das relações em torno dele como uma genealogia
biológica, mas sim mapear a configuração social na qual ele se encontra, ou a configuração
social que se ilumina a partir dele. Tal configuração, por sua vez, tem nas representações
acerca do parentesco um dado social e simbólico fundamental, formando o universo de
referência de todas as outras representações produzidas (como ser ou não ser “boa mãe”;
ser a “verdadeira mãe”; ser “realmente parente”; ser “como alguém da família” etc).
Se a relação de parentesco biológico é sempre o ponto de partida invocado de
alguma forma nos processos – seja pela própria definição legal do pátrio poder como sendo
originalmente dos pais biológicos, seja pela referência simbólica – fazendo com que todas
as soluções administrativas encontradas possam recair na figura legal da família substituta,
isso não deve ocasionar o fato de as perguntas formuladas aos processos se prenderem a
esse ponto de partida, isto é, não deve fazer com que se busque nos processos o registro da
ausência da “família verdadeira” ou da substituição do “parentesco efetivo”, mas sim que se
procure perceber a capacidade dos processos em produzir famílias. A polissemia de termos,
como família, casa e de todo o universo semântico a eles relacionado aponta, no caso dos
processos analisados, tanto para uma questão conceitual – a de não reeditar a imaginação
biológica do parentesco – quanto para uma questão específica da investigação empírica que
estou propondo aqui: perceber de que modo tal polissemia permite construir critérios de
julgamento e soluções administrativas.
Dessa forma, o recurso ao universo simbólico do parentesco para referendar a
produção de novas unidades domésticas em torno do “ego” do processo – a criança sob
guarda – mais do que subscrever o parentesco biológico ou a família nuclear está
construindo opções alternativas a eles que, por diferentes razões, podem ser concebidas
como administrativamente mais eficazes. A família produzida ou reformulada a partir da
experiência do processo judicial precisa ser compreendida, desse modo, como indicativo da
inseparabilidade entre as unidades domésticas – prévias, ratificadas ou transformadas pelo

102
processo – e a administração estatal ou, para utilizar a linguagem mais recorrente nos
estudos sobre parentesco, como interligando dimensões domésticas e político-jurídicas 98.
O ponto-chave dessa inter-relação, por sua vez, encontra-se, como discutido no
capítulo 1, no fato de que as famílias ou unidades domésticas legalmente sancionadas
correspondem a casas, ou seja, correspondem a locais nos quais as crianças serão fixadas e
através dos quais serão formadas, geridas, criadas. O que o processo constrói como
viabilidade administrativa, portanto, é a demarcação de um local – o que representa,
fundamentalmente, um conjunto de relações ao qual essas crianças passarão a ser
identificadas. A construção narrativa dos processos evidencia essa preocupação, na medida
em que as investigações sobre as possibilidades de guarda de uma criança direcionam-se
não apenas para o escrutínio das relações de parentesco, mas também de moradia. Como foi
descrito antes, um dos itens obrigatórios dos estudos sociais componentes dos relatórios
feitos por assistentes sociais é o que pretende dar conta da situação habitacional,
descrevendo a qualidade das condições materiais da moradia a ser oferecida, bem como das
relações componentes da casa (quantas pessoas moram, que pessoas seriam essas, sua
disponibilidade em aceitar a criança). Nessas descrições, a dimensão simbólica do
parentesco citado ou recriado é destacada através da atenção ao que seria o cotidiano da
casa: o envolvimento nas tarefas domésticas, as condições de saúde e educação a serem
oferecidas, se teria um quarto separado ou com quantas e quais pessoas este seria dividido,
a presença de brinquedos etc. Nesse sentido, a materialidade da casa e suas relações podem
ser pensadas como a tradução do projeto administrativo de que o processo trata: como
garantir que um menor fique bem “guardado”.
Por outro lado, do mesmo modo que as famílias têm fronteiras variadas, raramente
cabendo nos limites estritos do modelo da família nuclear, mas mobilizando redes variadas
de interação e solidariedade, também as casas dificilmente podem ser retratadas como ilhas

98
Marcelin, concordando e desenvolvendo etnograficamente críticas apontadas por Schneider (1968 e 1984) e
Yanagisako (1979 e 1977) aos estudos sobre família e parentesco, chama a atenção para o quanto esses
estudos “inscrevem-se num circuito de comunicação onde os termos são previamente fixados” (Marcelin,
1996: 126), levando a que não se consiga romper com postulados universalistas de família. Yanagisako,
especialmente, destaca que a fixidez das definições de família teria ainda por efeito operar com a cristalização
da separação entre o domínio doméstico e o político-jurídico. Como exemplo dessa cristalização, a autora
cita, entre outros, os trabalhos de Evans-Pritchard sobre os Nuer, por este separar as relações entre sexos ou
entre adultos e crianças como pertencentes ao doméstico, sendo exploradas em volume apartado do que
congrega as análises sobre a estrutura social mais ampla desse mesmo grupo (Yanagisako, 1979: 194; os
trabalhos de Evans-Pritchard referidos pela autora são, respectivamente, de 1951 e 1978)

103
isoladas99. Se as casas materializam relações, estas freqüentemente ultrapassam os limites
do local consagrado para que a criança seja “guardada”, inclusive na investigação movida
por assistentes sociais. Constam nos processos, através de depoimentos e de relatórios,
indagações (e as respectivas respostas) sobre a rede familiar mais extensa, sobre a
proximidade física entre parentes ou mesmo sobre a coabitação prévia de requisitantes e
cedentes de guarda, como em casos envolvendo relações patronais domésticas. O cuidado
em deixar registradas tais dados informa da sua operacionalidade no processo como um
todo, ou seja, da sua capacidade em responder a pergunta que fundamenta toda essa
operação judicial: com quem deve ficar a criança? A resposta que parece surgir dessa
construção narrativa não aponta necessariamente para o que poderia ser caracterizado como
o modelo ainda hoje ideologicamente hegemônico de família, a família nuclear em torno de
um casal, mas sim para uma rede mais variada de relações que possa assegurar a
manutenção – material e simbólica – daquela criança.
Aquilo que os processos podem oferecer como riqueza de análise remete ao
confronto, por um lado, entre valores e classificações sobre que tipo de família seria mais
adequado para situar ou manter uma criança, expresso através das investigações feitas por
assistentes sociais e pela própria decisão final do juiz e, por outro lado, à variedade e
plasticidade das opções de casas que se apresentam. Se o que fica sedimentado no processo
precisa ser considerado como tendo um peso social diferente das relações e acordos que
transcorrem em outro âmbito – fora da administração – é possível compreender, através da
análise dos autos, algo sobre a dinâmica estabelecida entre as unidades domésticas e o
aparato administrativo em torno das opções viáveis de guarda. Considerando, portanto, que
o parentesco em si está sempre presente, nem que seja como modelo ideal e como relação
de guarda juridicamente mais “natural”, o processo como um todo se constrói entre os
limites dessa representação (“pais biológicos” ou “pais substitutos”) e a avaliação das

99
Além do trabalho de Bott (1976) sobre as redes sociais, e de Fonseca sobre a circulação de crianças (1995),
mencionados na Introdução, outros trabalhos vêm problematizando o ocultamento da extensão das relações
familiares e a elas compostas. Alguns exemplos podem ser encontrados nos trabalhos de Bender, 1967 e de
Burton e Jarret, 2000..Marcelin, por sua vez, chama a atenção na sua pesquisa sobre famílias negras no
Recôncavo Bahiano, para a importância de trabalhar não apenas com a idéia de casas, mas de configuração
de casas, enfatizando as relações de solidariedade e compromisso estabelecidas no que chama de “relações
familiares em eterna construção” (1996: 102)

104
opções concretas que podem ser mobilizadas para a guarda de uma criança 100. A
redefinição de relações familiares ou domésticas que o processo constrói vai sendo
delineada narrativamente entre esses dois limites, reforçando as representações em torno do
parentesco e das melhores famílias e também flexibilizando ou adequando tais
representações até chegar ao que é sua finalidade primordial: encontrar casas.

Os casos escolhidos

Como exposto na Introdução, após fazer o levantamento inicial e a leitura


exploratória de um conjunto de cerca de 100 processos vindos da 1ª Vara da Infância e
Juventude e depositados no Arquivo Nacional, selecionei um conjunto menor, de cerca de
60 processos, que pode ser visto no quadro em anexo à tese. Dentro desse conjunto,
selecionei oito processos, que aqui estou chamando de casos, considerando uma certa
variedade de situações apresentadas. Ou seja, embora esses processos tenham vários
elementos comuns, explorados nos capítulos que se seguem, de acordo com os temas ou
problemáticas por mim selecionadas, cada um deles narra uma história peculiar (como
qualquer dos processos, obviamente) e traz à cena dados que julguei que valiam a pena ser
descritos. Na medida em que apresento os relatos – de diferentes naturezas: depoimentos,
estudos sociais etc – também forneço uma interpretação prévia a eles, indicando pontos que
considero que sejam relevantes para os temas da tese.
O objetivo principal de recriar narrativamente esses processos foi, como dito na
Introdução, permitir que, apesar de todos os jogos de espelhos (minhas narrativas por sobre
as narrativas administrativas, compostas, por sua vez, a partir de depoimentos), fosse dado

100
Cardarello (1996) e Rizzini & Rizzini (1991) se voltam para a construção, sobretudo a partir dos anos
1980, de uma discussão sobre a inadequação da rua como local para a infância e, com isso, das possibilidades
de recuperação, sob nova forma, da ideologia da “boa família” (a família “saudável” para a criança).
Cardarello, em especial, destaca como, no jargão de assistentes sociais, essas concepções se traduziram nas
imagens de “família estruturada” ou “família organizada” (1996: 28). Por outro lado, a mesma autora marca a
importância, entre diferentes profissionais da Febem-RS, da categoria vínculo como critério importante na
decisão de com que pessoas uma criança deveria ficar ou mesmo para a discussão de dilemas como separar ou
não irmãos em casos de adoção. O vínculo, com sua base no discurso psi, pode invocar, desse modo, a força

105
ao leitor a chance de conhecer um pouco do seu desenrolar, não os apresentando apenas a
partir de recortes temáticos. Para que essa escolha fosse feita, contou também como dado
relevante a percepção do processo como algo que se compõe no tempo: processos breves ou
longos, processos que trazem outros processos agregados a eles, que comportam
desistências, mudanças de opinião ou decisão, arrependimentos. Sua fragmentação em
temas de análise não permite que esse desenrolar seja percebido, acabando por ocultar uma
dimensão fundamental dessas narrativas enquanto peças de negociação.
Além disso, como penso o acúmulo de depoimentos e avaliações também em
termos da constituição de dramas, nos quais têm relevância elementos como a
intensidade emocional de certas falas e, sobretudo, a necessidade de convencer os
interlocutores, considerei que somente uma descrição um pouco mais detalhada dessas
narrativas poderia traduzir algo de sua eficácia dramática 101. Por fim, uma última
explicação diz respeito à escolha dos nomes que dão título a cada caso. Como os
processos, enquanto peças administrativas em torno da menoridade têm como centro as
crianças e jovens cuja guarda ou adoção está sendo decidida, optei por usar sempre o
nome (fictício, claro) dessas crianças como elemento identificador dos processos. Nos
capítulos que se seguem, inclusive, freqüentemente farei menção a esses casos a partir
do nome utilizado e, no caso dos processos não foram incluídos no sub-conjunto mais
detalhado deste capítulo, a sua localização está facilitada pela disposição dos nomes em
ordem alfabética no quadro em anexo.

Caso 1: Alice, sua mãe e a patroa de sua mãe

O processo pela guarda de Alice, de 13 anos, teve início em 08 de janeiro de 1990,


encerrando-se no dia 30 do mesmo mês. A rapidez do processo, como se verá, deveu-se à
relativa simplicidade do acordo. Mãe, filha e a requerente da guarda, a patroa da mãe,
chegaram juntas ao Juizado, apresentando um discurso à primeira vista já bastante

das representações de parentesco, mesmo que traduzidas em alguns casos mais como história de socialização
do que como laço biológico em sentido estrito (1996:88-103).
101
A importância da emoção nos depoimentos é discutida no capítulo 4.

106
arrumado, requerendo do Juizado que desempenhasse o papel de homologador de um
acordo previamente acertado. Em que pese a brevidade do processo, porém, o que se vê é
que o acerto prévio entre as partes não eliminou todas as tensões e essas transparecem em
algumas falas, em alguns silêncios e preenchem o tempo entre o início e o fim do processo.
O pedido de guarda, com o qual o processo se inicia, foi apresentado pela sra. Zilá,
advogada e patroa da mãe de Alice. Nesse pedido, a requerente esclarece que Madalena,
mãe de Alice, trabalha em sua residência há 15 anos, “desde os tempos de solteira, gozando
também de uma relação familiar harmoniosa, recebendo cuidados e ajuda, além de salário”.
Esclarece ainda que, “em face da harmonia dessa relação familiar, (...) deixou de oficializar
a guarda da referida menor, com prejuízo do ponto de vista previdenciário, pois está
pagando plano isolado de saúde”. Tendo a empresa onde a requerente trabalha optado por
outro plano de assistência médica, Alice só poderia ser incluída como beneficiária caso
houvesse a oficialização de sua condição de dependente. Afirmando que conta com o
consentimento tanto do pai quanto da mãe da menor, a requerente finaliza sua solicitação
pedindo a guarda da menor, “a quem jamais deixou de tratá-la como filha, para os fins de
direito”. A petição, assinada pela requerente, pela mãe e pelo pai de Alice registra dois
endereços residenciais distintos: um para a requerente e para a mãe e outro para o pai. A
condição dos endereços é esclarecida pelo relatório feito em 26/01/90102 pela assistente
social encarregada do caso. Segundo ela,
“a srª Madalena Fernandez, 46 anos, natural da PB, de onde partiu há 20
anos para o RJ, em busca de melhores condições de vida, trabalha como
empregada doméstica há 16 anos na residência da srª Zilá Silva (...). Após
iniciar o período de gestação, a srª Madalena casou-se com o sr. José, 46
anos, natural do CE, e em 16/12/76 nasceu Alice, atualmente com 13 anos
de idade.
A srª Madalena, com a ajuda da srª Zilá, adquiriu uma casa à rua Sta
Edwiges, 20, Bairro Formoso. No entanto, a srª Madalena reside no
emprego, indo para sua moradia nos fins de semana. Alice reside na casa
da srª Zilá e algumas vezes acompanha a mãe nos fins de semana.
Em vista das dificuldades da família e pela relação que se estabelecera
com as sras. Madalena e Zilá, Alice é mantida por esta que, desde o
nascimento da menina, se encarrega de suas despesas básicas, como
alimentação, educação, saúde, vestuário etc”.

107
Após essa caracterização inicial, em que a assistente claramente assume como uma
informação a declaração de que a menor seria mantida pela requerente, ela passa a registrar
aqueles que viriam a ser os pontos principais da entrevista mantida com os envolvidos.
Aponta também que “mãe e filha mantiveram-se muito caladas, permitindo que a conversa
fosse conduzida pela srª Zilá, apesar das tentativas de participação das mesmas”. E, pelo
que fica registrado pela assistente, essa condução, que nitidamente espelha a relação
assimétrica entre os participantes da “conversa”, apontou para dois pontos básicos, já
mencionados na petição inicial: a “harmonia” da relação entre as três e a conveniência
como motor da iniciativa de recorrer ao Juizado. Mas há mais. Contrapondo a exposição
entre a requerente e a mãe, percebem-se tensões que os acertos prévios não foram capazes
de desfazer. Diz a requerente:

“que vivem harmoniosamente, não havendo dificuldade na relação. Que


só requereu a guarda de Alice para fins previdenciários, pois a
convivência das três é muito feliz. Que Alice tem uma cabeça muito boa,
não havendo conflito entre a pobreza e a riqueza. Que apesar do
casamento de Madalena ter fracassado, reforça as relações familiares
entre o casal e a filha (...).

A mãe apóia o discurso da patroa no que diz respeito a essa se comprometer com
despesas de manutenção da família. Afirma ainda que recebe por seu trabalho o salário
mínimo, mas que da patroa também ganha roupas e calçados103. A distância entre os
discursos cresce, porém, justamente nas representações de família e na autoridade de mãe.
Diz essa:
“(...) que apesar das dificuldades da família, tenta reuni-la sempre que
possível e que vai aos fins de semana para casa, onde fica em companhia
do marido. O casal não possui outros familiares no RJ. (...) Reconhece e é
grata ao que a sra. Zilá faz por sua filha. Numa primeira entrevista, disse-
nos que concordaria em conceder-lhe a guarda da menina somente para
fins previdenciários, pois não desejava ‘perder seus direitos de mãe’, ou
necessitar da autorização da requerente para decisões em relação à vida
dela com a filha, citando a exemplo a possibilidade de viagem. Que
apesar da sra. Zilá se encarregar das despesas de manutenção da sua filha,

102
Note-se que a data é relativa ao relatório, não às entrevistas. Sobre essas não há indicação clara, apenas que
foram necessárias duas entrevistas, em datas diferentes, até que a mãe concordasse plenamente com o pedido
de guarda.
103
Os salários indiretos, prática comum e bastante tradicional em relações de patronagem, merece uma
discussão mais cuidadosa, a ser feita no capítulo 5.

108
a orientação e educação são responsabilidade dela, mãe, pois convive a
maior parte do tempo com a filha, já que a sra. Zilá trabalha fora e fica
ausente durante o dia.
O sr. José, seu marido, trabalha como servente, recebendo mensalmente o
salário mínimo. No entanto, não participa das despesas de manutenção da
família, uma vez que sofre de alcoolismo, motivo principal da ausência de
Alice nos fins de semana”.

Vê-se claramente no depoimento da mãe, portanto, registrado pela assistente social,


o esforço feito por esta para distinguir aquilo que considera como sendo a sua família, o
que inclui o seu marido, pai de Alice, e o que é representado pela requerente como sendo
família (com a exclusão do marido e com ela ocupando o lugar de provedor). Além disso, a
mãe demonstra temer perder o que concebe como os seus “direitos de mãe”,
necessariamente ligados à possibilidade de tomar decisões no que diz respeito à sua filha.
A autoridade investida na figura da patroa que “mantém” Alice, por sua vez, é relativizada
pela contraposição com o cuidado cotidiano, que seria fornecido por ela e não pela outra. O
reconhecimento de uma “gratidão” pela patroa também pode ter efeito relativizador, já que
permite perceber, e ao mesmo tempo limitar, a ação desta. Por fim, aquilo que é
representado pela requerente como um casamento fracassado, ganha nas palavras da mãe
uma outra coloração. Em momento algum, esta evidencia seu casamento como extinto. Ao
invés disso, confere à ambígua representação do “sofrer de alcoolismo” o papel de
responder pelos limites deste mesmo casamento e da relação entre filha e pai104.

A tensão presente na negociação leva, de acordo com o registrado no relatório da


assistente social, a que outra entrevista seja feita com a mãe. Nessa segunda entrevista, cuja
data não está explicitada no relatório, a mãe aceita o pedido de guarda, afirmando “que
ainda que tivesse que abrir mão de sua filha, concorda em ceder a guarda da mesma à
requerente, acreditando que essa não interferirá na relação entre mãe e filha”. O tempo do
processo registrou, portanto, o esforço de envolvidos e mediadores (como a assistente
social) em derrotar as desconfianças da mãe e criar uma solução supostamente capaz de
preservar interesses divergentes.

104
A importância do “alcoolismo” como categoria de acusação – e, paradoxalmente, de absolvição,
dependendo de como é usada – será vista com mais calma a partir de outro caso tratado nesta parte.

109
Caso 2: Cláudia e as muitas caras do “abandono”

O processo em torno da guarda de Cláudia congrega, em verdade, dois outros


processos, transformados ao longo da sua trajetória burocrática em apensos do processo
final105. Com isso, a narrativa burocrática move-se em dois sentidos diferentes. Em cada
processo há uma seqüência cronológica, através da qual é possível acompanhar a
apresentação de uma demanda, as negociações para resolvê-la e o seu desfecho. Na
inter-relação entre os processos, porém, ocorre uma inversão do tempo. O processo que
vem na frente, “puxando” os demais, é o mais recente e os outros, secundarizados
burocraticamente, transformam-se em adendos explicativos do primeiro. O efeito dessa
montagem é um incômodo caminhar de trás para frente: se no início do processo principal,
em 1989, Cláudia tem pouco mais de sete anos, nos processos que estão agregados a esse
sua idade é cada vez menor, até chegarmos a um relato em que ela tinha apenas um ano de
idade. Nesse caminho invertido, a situação inicial ganha densidade e perspectiva, fazendo
com que o “abandono” que motiva o pedido de guarda apareça como parte de uma
trajetória mais longa e complexa em que vários “abandonos” estão em jogo.
Assim, seguindo a ordem em que a narrativa burocrática foi montada, encontramos
em 18 de dezembro de 1989 o início do processo no qual a srª Marta Cardoso requer a
adoção simples106 da menor Cláudia, da qual já detém a guarda há um ano e meio. A
guardiã justifica a transformação da guarda em adoção em parte por querer “oferecer-lhe [à
Cláudia] os mesmos direitos que têm os seus filhos naturais” e em parte “para regularizar a
situação antes de viajar para sua terra natal”, onde pretende morar. Sobre sua própria
situação, afirma que os filhos nutrem grande estima pela menina e que mantém com seu ex-
marido uma relação de amizade. A assistente social responsável pelo relatório, feito a partir

105
“Apenso” é o termo burocrático utilizado para processos anteriores que são agregados a um processo em
curso.
106
Como o processo tem início em 1989, ainda estava em vigor o Código de Menores de 1979 que reconhecia
dois tipos de adoção como válidos: a simples e a plena, o que será modificado pelo ECA que só reconhece um
tipo de adoção. No próprio processo em questão essa transformação legal ficará registrada.

110
de visita domiciliar, frisa o fato de Cláudia remeter-se a parentes de sua guardiã pelos
termos “tia” e “avó” e de manifestar o desejo de viajar com ela107.
No mesmo relatório, a assistente social informa que a criança colabora nas tarefas
domésticas da casa, agregando de imediato a essa informação uma comparação com sua
situação anterior, na qual Cláudia seria responsável por “todo o serviço”, além de cuidar
dos irmãos menores. De modo semelhante, diagnostica que a criança “apresenta boa
adaptação à família” e que “só lhe causa preocupações [à guardiã] quando é visitada pela
mãe, pois apresenta, durante uns três dias, comportamento diferente do normal: fica
agressiva, não dorme direito etc”. A alteração de comportamento, por sua vez, é atribuída
ao drama central do processo, ao qual, como leitores, somos apresentados pela primeira vez
nesse momento, mas que compõe o eixo nervoso de boa parte da trajetória de Cláudia como
objeto de intervenção do Juizado: os abusos que teria sofrido por parte do padrasto e “o dia
em que foi abandonada”.
O primeiro ponto, sobretudo, parece ter impacto decisivo na imagem positiva que é
construída em relação ao novo lar de Cláudia, tornado sempre ainda melhor em comparação
com o anterior (lugar de menos trabalho, de melhores acomodações e, sobretudo, de
proteção em relação aos abusos sexuais que ocorreriam na casa original). No parecer
redigido pela curadoria de menores, emitido um dia após o relatório da assistente social, a
curadora destaca novamente esse ponto, tomando-o como cerne da situação irregular
vivida pela criança. Diz a curadora:
“a menor está integrada no lar substituto e manifestou sua vontade de nele
permanecer. Há entrosamento entre ela e a filha da requerente, maior de
idade, que também demonstra preocupação em relação à mesma. A
situação irregular da menor está estampada nos autos em apenso, vítima
da prática de atos libidinosos por parte do companheiro de sua mãe”.

107
A utilização de termos que apontem para a recriação do parentesco “de sangue” em relações adotivas é um
dado simbólico da maior relevância, como indicam os estudos centrados nos processos de adoção, como
Abreu, 1995, e Costa, 1988. Do mesmo modo, a distinção entre “tipos de mãe” (“mãe de criação”, “mãe do
coração” etc) parece ser um elemento crucial na conciliação de tensões ou disputas latentes de autoridade e
prestígio nos casos de “circulação de crianças”, como revela o trabalho de Cláudia Fonseca (1995). Para a
importância das representações em torno do sangue, ver Abreu Fº (1980) O que chama a atenção nos
processos judiciais é que este dado não desponta apenas como componente legítimo na fala de crianças, pais e
guardiães, mas transforma-se em poderosa categoria de julgamento por parte das assistentes sociais, atuando
como indicativo de integração e outras noções caras ao discurso especializado de tais
profissionais/mediadoras. As categorias e a ação avaliativa e mediadora das assistentes serão vistas com mais
cuidado em outro momento do texto.

111
Dos argumentos desenvolvidos no estudo social realizado pela assistente social
responsável, portanto, os que merecem destaque na decisão da curadora são os que dizem
respeito, pelo lado positivo, ao ideal da integração, sempre evocado para sustentar a
continuidade de acordos de guarda e, pelo lado negativo, à sexualidade presente na relação
do padrasto com a enteada. Outros elementos, porém, não mencionados pela curadora
parecem contribuir para tecer um quadro positivo na manutenção da guarda e sua
transformação em adoção. Entre eles, curiosamente, está, nos termos da assistente social, o
“apoio” oferecido à mãe de Cláudia para que ela deixasse o companheiro que, segundo
contam a guardiã e sua filha, a maltrataria.
O que se percebe, portanto, nesse ponto do processo, que determinaria
cronologicamente o seu final, é que existe entre a mãe natural e a guardiã algum tipo de
relação e que, mesmo com o processo sendo encaminhado no sentido da adoção plena de
Cláudia por sua guardiã, algum contato entre mãe e filha se mantinha. Os processos
apensados nos revelam, porém, que tal relação não antecede ao desenrolar judicial do caso,
mas foi construída a partir dele.
Em 21/10/88, ou seja, um ano antes de ser iniciado o processo de adoção, foi
registrado no Juizado que Cláudia, então com 6 anos, havia sido encontrada na porta de um
colégio católico por Marta, que viria a se tornar sua guardiã, e que trabalhava como
secretária nesse mesmo colégio. Pregado à roupa de Cláudia havia um bilhete, em péssima
ortografia, assinado por sua mãe, e no qual estava escrito o pungente relato dos motivos do
abandono. Segundo esse bilhete, a mãe estava deixando Cláudia para livrá-la de um
cotidiano marcado por brigas entre ela e seu companheiro, cujo saldo freqüente seriam
espancamentos que atingiam também seus três filhos. No bilhete, Joana, a mãe, conta ainda
que apenas Cláudia não seria filha desse companheiro, sendo responsabilizada por ele
quando as outras crianças choravam. Joana acusa ainda seu companheiro de tentar se
“aproveitar da inocência” da filha, deixando claro o componente sexual do comportamento
do padrasto. Por fim, afirma ter escolhido deixar a filha naquele local na esperança que
pudesse estudar, pedindo ainda que quem a encontrasse não julgasse a ela, Joana, porque
ela não havia tido instrução na vida e não contava com parentes no Rio108.

108
O bilhete, reproduzido aqui literalmente, diz o seguinte: “Rio de janeiro, 1,10,88
Senhoras irmas

112
O tipo de ação de abandono realizado aqui, nas palavras da curadora de menores,
“deixando vestígios, em local em que provavelmente a menor viria a ser socorrida”,
contribui para que seja tomada como decisão acertada realizar uma diligência à casa de
Cláudia, para a qual ela declara saber ir a partir de uma estação de trem, e procurar o
contato com a mãe. A diligência revela, sobretudo pelo relato de vizinhos, já que nessa
ocasião a mãe de Cláudia não é encontrada, o que os funcionários do juizado descrevem
como sendo “péssimas condições”, nas quais viveriam a menina e seus irmãos. Essas
péssimas condições diriam respeito tanto às acomodações, quanto ao tratamento que as
crianças receberiam do pai e da mãe, segundo os vizinhos (“periodicamente o casal se
desentende, havendo brigas violentas, que terminam com castigos para os filhos, com
surras e cabeças raspadas pelo pai”; ou que as crianças seriam “deixadas em cárcere
privado e até sem comida”).
Esse quadro é reforçado na entrevista feita com Cláudia, entrevista essa que fica
registrada no processo a partir do resumo redigido pela assistente social responsável pela
entrevista. Segundo ela, foi possível constatar, através do relato da menina, que ela “vivia
realmente em péssimas condições” e que
“ela se referiu ao companheiro da mãe com muito pavor e contou-nos das
péssimas experiências vividas com ele. Era espancada e usada
sexualmente. Cláudia tinha um grande hematoma nas nádegas e o ânus
ferido (...). Tem muito medo de ser novamente abandonada e não deseja
voltar a morar com a mãe e só se refere com carinho aos irmãos menores.
Disse-nos que ‘vai estudar muito para tirar os irmãos daquela casa’.
Confirmou-nos que a mãe saía de casa para trabalhar e que quando a
vizinha não podia ficar com eles, ficavam presos em casa e sem alimento”

estou escrevendo para prendi aceiti esta minha filhia pois estou vivendo com um homem que bebe temos 3
criaças não samos casados. Eu tenho casa pobia preteto vende me sempara dele
trabalho ele me parte na ferte das criaças quebra as coisa vende estaga a casa fala palavrais so que trabalha
com gente que leva pro mal caminho Eu fala com ele para pressa na nossa vida arruma a casa nos fim da
semana mas some somente aveiz que ceapruveita da inucesia de minha filhia de 7 anos a mais grande em
gando eu saio ou dumor ele gando me goeceu que tem uma filhia mas e só agora que ele fica nos maltratado
agora que tenho 2 filhos dele
ele fica alegando a comida fala que eu procura o pai dela que não tem obringação com ela e gando um dos
filhios dele chora ele briga com ela e que bate Eu discuto com ele e ele me bate e eu bato nele a ele comessa
quembra as coissa de casa e mim, Eu encine um prouco a estuda porrisso pressem procurre deixa ela num
luga ela passara a marra e alimentado estuida respreitada não me jugua prois eu vivi com os meus pais
brincando não tive muitos estusão na vida.
mardarei noticia de mim. não tenho parete aqui no Rio de Janeiro”

113
Alguns dias após o sofrido registro da fala de Cláudia, a mãe, então com 24 anos,
comparece ao Juizado e dá seu depoimento. Nele, conta de sua chegada ao Rio, trazendo a
filha após ambas (ela e a filha) terem sido, em suas palavras, abandonadas pelo pai da
menina. Relata também o que seria sua relação com o atual companheiro, dizendo levar
“uma vida pior que uma prostituta”, sendo constantemente espancada e mostrando marcas
desses espancamentos. Declarou ainda que “pensa em abandoná-lo, mas sente-se
amedrontada, pois ele anda em más companhias, usa drogas e bebe muito”. Quanto à
relação específica do companheiro com Cláudia, declara que esse a pressionava a “dar” a
menina, dizendo que, se isso ocorresse, ele não deixaria “faltar nada em casa”.
Sobre o ato do abandono em si, ou seja, sobre ter deixado a filha na frente do
colégio, declara que acredita ser melhor para ela ficar com a nova família, mas que não
quer que ela pense ter sido abandonada, dizendo que gostaria de visitá-la. Fica claro,
portanto, que a questão do abandono não aparece como situação incontestável ou sem
contradições, nem para a mãe, nem mesmo para os profissionais do Juizado, que registram
as condições específicas em que este teria se dado (com o bilhete, a certidão de nascimento
e em um colégio de freiras) como algo relevante para determinar, inclusive, a busca da mãe.
Isto fica particularmente patente na conclusão do relatório, quando a assistente social
coloca que
“nas entrevistas realizadas com a mãe da menor, percebemos que esta
tomou a atitude de abandoná-la em um momento de grande desespero.
Ela comparece a este Juizado freqüentemente, demonstrando interesse em
saber como a filha se encontra. Porém, não se acha ainda em condições de
ter a mesma em sua companhia, mas deseja muito poder visitá-la”.

No mesmo relatório, informa que a mãe ainda não sabe com quem está a filha, já
que Marta, a guardiã, “ainda se sente insegura de fornecer-lhe seu endereço”. Esta situação
já havia se alterado, porém, na audiência realizada quatro meses depois, quando Joana diz
ao Juiz que “realmente deseja dar a filha de papel passado”. Na audiência está presente,
além de Joana, Marta, a guardiã. Ademais, pelo que se percebe da fase final do processo,
quando a adoção é finalmente formalizada, não apenas as duas mulheres se conheceram, e o
fizeram através da mediação dos profissionais do Juizado, como estabeleceram algum tipo
de acordo a respeito de visitas que a mãe faria à filha. Como o papel mediador dos
profissionais do Juizado será destacado em outro momento, gostaria agora de voltar no

114
tempo e retraçar o percurso burocrático que já havia sido realizado por Joana e Cláudia
alguns anos antes, quando mãe e filha chegaram ao Rio.
Do mesmo processo consta, como um segundo apenso, o encaminhamento que
havia sido feito em 1985, quando Cláudia tinha dois anos de idade, para interná-la em
albergue estatal a pedido da mãe. Segundo consta do relatório feito por uma assistente
social do Juizado, a mãe solicitou a internação da criança por estar tentando conseguir
emprego, o que se tornaria impossível com a filha pequena, já que não a aceitavam com ela.
A mãe, então com 20 anos, relata que não conhece ninguém na cidade, tendo sobrevivido
da venda de balas pelas ruas e da ajuda de passantes. Na avaliação da assistente, “a
requerente demonstra grande afeição pela filha, com muito cuidado no que diz respeito à
higiene e alimentação da menor”. Informa ainda que “a menor traz sempre roupas limpas e
uma ótima aparência [e que] a requerente abriu uma caderneta de poupança em nome da
menor, com o que a mesma recebe de auxílio pelas ruas”.
No relatório da assistente transparece claramente a tentativa de qualificar –
moralmente, “tecnicamente” – de que “tipo” de abandono se estaria falando: nesse caso,
não mais a partir apenas dos indicativos práticos em torno do ato em si de deixar a filha (o
bilhete, a escolha do local), mas da reprodução de certo padrão de ordem reconhecido como
válido e mesmo necessário na relação maternal: as roupas limpas, o esforço de poupar. O
recurso às instituições estatais é retratado, nesse conjunto de condições, como recurso
complementar, e não antagônico, à relação de autoridade e responsabilidade da mãe com a
filha. Embora não haja, na parte processual que trata da adoção de Cláudia, indicações
explícitas sobre o impacto dessas avaliações pregressas do comportamento da mãe, parece
claro que uma complexa avaliação moral se estabelece em todos os momentos, com
implicações sobre a fase final do processo – marcada, como visto, pela aproximação entre
adotante e mãe.
A trajetória burocrática de Cláudia, aqui traçada em “flashback”, não se encerra
nesse ponto, porém. O final do processo revela mais um apenso, no qual consta que em
agosto de 1983, quando Cláudia tinha apenas um ano, sua mãe a deixou na porta do mesmo
colégio onde ela voltaria a ser encontrada anos mais tarde, buscando depois o Juizado para
saber da filha. Na entrevista feita então com a mãe, esta revela ter mais dois filhos em

115
Goiás, um sendo criado pela avó materna e o outro pelo pai e estar vivendo, no momento da
entrevista, com um novo companheiro.
Lido na estranha ordem em que se apresenta, o processo nos revela que o aparente
ato final – do ponto de vista do relato burocrático, do abandono e posterior adoção de
Cláudia – é apenas um momento de um processo muito maior em que vários “abandonos”
estão em jogo: o da própria mãe, que se representa como tendo sido “abandonada” pelo pai
da menina e que deseja, mas não pode, “abandonar” o atual companheiro; dos filhos que
ficaram em outro estado, cada qual com um familiar; das várias e diferentes formas de
“abandonar” ou “salvar” Cláudia: na porta da mesma instituição religiosa em duas ocasiões,
diretamente em uma instituição estatal, em outra. Abandonar para salvar: seja pelo recurso
à “exposição” em local público, seja recorrendo ao Estado109; seja para protegê-la das
privações que ambas estariam passando, buscando organizar-se para um futuro melhor
(emprego, caderneta de poupança ou um novo companheiro), seja para protegê-la do
cotidiano de violência e, sobretudo, das investidas sexuais do padrasto.
Parece crucial pensar, portanto, o “abandono” não como uma situação, mas como
uma configuração moral da qual participam, a partir de posições diferentes, todos os
envolvidos: mãe, adotante, assistentes sociais, curadores. Pensar a comunicação – o que
inclui a sintonia e a discordância – estabelecida entre esses atores acerca dos “abandonos”
em curso é importante não apenas para discutir melhor os sentidos presentes nas diferentes
negociações que o processo judicial registra, mas para indicar possibilidades de
compreender a relação entre moralidades e práticas de autoridade em torno da infância.

Caso 3: As irmãs e a resistência de Liliana

Em janeiro de 1990, dª Margarida procurou o Juizado para pedir a guarda de


Liliana, uma jovem de 19 anos, e de suas duas irmãs menores, de 15 e 13 anos110. Explicou

109
A discussão sobre a exposição e o abandono como forma de salvação ou resgate de crianças será feita no
capítulo 4.
110
O termo “Dª” é utilizado ao longo desse processo e de vários outros, indicando a existência de uma relação
de respeito – pela idade e pela posição da demandante – entre os envolvidos que é incorporada e reproduzida
pelos especialistas do Juizado.

116
então que as três são suas sobrinhas-netas e que residiram com ela por cinco anos, depois
da morte da mãe, passando a viver com o pai e sua nova companheira há dois anos. Cinco
dias antes de sua ida ao Juizado, porém, as três irmãs “retornaram definitivamente”, nas
suas palavras, para sua casa. O motivo do retorno seria o fato do pai beber constantemente
e, quando isso acontecia (constantemente, também, supõe-se), agredi-las. dª Margarida
afirmou estar disposta a “assumir a criação das menores”, mas gostaria que o pai pagasse
uma pensão, pois o que ganhava seria insuficiente para mantê-las.
Cerca de vinte dias depois, o pai e a requerente (dª Margarida) encaminharam um
documento ao Juizado, declarando “que cessaram os motivos que ocasionaram o pedido de
guarda e que duas menores, Letícia e Ana, voltarão para a casa do pai”. O mesmo
documento informa, porém, que Liliana “continuará com a requerente, haja vista a revolta
que a menor tem do pai”. Apesar dos esforços dos envolvidos em fazer cessar a demanda
ao Juizado, a curadoria considera ser necessário realizar um estudo social do caso.
Em maio do mesmo ano, dª Margarida foi então entrevistada, repetindo as
informações básicas que havia dado quando do início do processo e detalhando o que
seriam as situações de conflito entre filhas e pai e o que ela, dª Margarida, tomaria como
explicações para tal conflito. Segundo ela,
“o sr. João é pessoa trabalhadora e honesta, mas quando bebe torna-se
diferente, tratando as filhas de forma um tanto ríspida, principalmente
Liliana, pois a mesma insistia em desobedecê-lo. Certa ocasião, a referida
menor foi a um ‘pagode’ e, como chegou tarde em casa, o pai tentou
agredi-la fisicamente. Em face de Liliana não ter aceitado a atitude do pai,
decidiu ir para a casa de uma colega. dª Margarida, ao saber do ocorrido,
levou Liliana para sua casa e solicita o termo de guarda dela. (...) afirma
que desejaria assistir também às outras duas menores, mas alega não
possuir condição financeira para tal. Tendo em vista Liliana ser mais
desobediente com o pai, prefere assisti-la diretamente”

A partir do novo depoimento de dª Margarida, começa a desenhar-se uma economia


de comportamentos, responsabilidades e interesses que vai ocupar o desenrolar das
negociações: o pai, embora se torne agressivo quando bebe – dado apresentado desde a
primeira ida de dª Margarida ao Juizado – “é pessoa trabalhadora e honesta”111, e Liliana,

111
É interessante chamar a atenção para o poder da “bebida” como categoria explicativa para comportamentos
ou representações aparentemente contraditórias. A “bebida” e o “vício” estabelecem uma situação de
rompimento do “comportamento normal” que permite que se ataque moralmente alguém e, ao mesmo tempo,
paradoxalmente, construa-se ou se sustente uma imagem positiva dessa mesma pessoa. A “exceção”, o “outro

117
que “insiste em desobedecê-lo”, tem sua parcela de culpa nos conflitos. Por outro lado, e
isso fica especialmente claro com o depoimento da própria Liliana, o que está em jogo no
processo de guarda (e conseqüente solicitação de pensão) não é apenas a figura de Liliana,
ela mesma já prestes a sair da menoridade legal, mas as irmãs menores que dª Margarida
não pode “assistir” sem que o pai contribua financeiramente.
Essa relação fica reforçada pelo depoimento de Liliana, prestado na mesma ocasião.
Segundo ela, o pai bebe e “em conseqüência disso” a agride, poupando, porém as irmãs.
Estas, entretanto, por serem mais novas, “não sabem se cuidar e não recebem cuidados por
parte da madrasta, que trabalha”. Liliana, ao mesmo tempo, acusa e absolve o pai pela
violência, não só por justificá-la como conseqüência da bebida, mas ao tentar limitá-la –
atingiria apenas a ela, a mais velha – declarando que o mesmo não ocorre com as irmãs
(informação essa que posteriormente seria desmentida pelas meninas). As acusações de
Liliana atingem também a madrasta, na medida em que esta, por trabalhar, não poderia
cuidar das enteadas menores. Após traçar esse quadro, Liliana apresenta sua solução e, ao
mesmo tempo, sua demanda: declara que, pensando nas irmãs, “gostaria de residir na
companhia do pai, desde que esse não batesse mais nela, além de não chamá-la atenção na
frente de suas colegas”.
A posição de filha mais velha de Liliana desempenha papel importante na definição
de posições e responsabilidades dentro da família e, em especial, em relação às demais
irmãs112. A fronteira com a maioridade legal, no seu caso, estimula uma diferenciação
hierárquica entre elas, tanto em termos do que cabe a cada uma das filhas, quanto ao
potencial de conflito envolvido nessas expectativas. A idade opera, portanto, como
importante categoria de autoridade, matizando tanto o que lhe é cobrado – a obediência –
quanto o que ela se propõe a fazer – cuidar das irmãs.

eu” que se mostra através da bebida não representa a totalidade do indivíduo, de modo que o “problema” aparece
nem tanto na dimensão da “pessoa integral”, mas da “pessoa parcial” que se revela na bebida. Desse modo, a
bebida em si é transformada no problema, preservando-se a pessoa e, conseqüentemente, as relações. Não à toa,
esse é um expediente explicativo muito recorrente no caso de conflitos amorosos que chegam às delegacias e aos
tribunais, como pode ser visto em Gregori, 1993 e em Carrara, Vianna e Enne, 2002b (no prelo).
112
Vale a pena lembrar aqui a abordagem de Bourdieu sobre as transformações sofridas pelo campesinato
francês (1962). Embora tratando de outro contexto, Bourdieu enfatiza elementos também presentes no caso de
Liliana e suas irmãs, tais como a trama de responsabilidades que une e coloca em conflito os filhos mais
velhos e os mais novos, bem como o compromisso de todos com a manutenção da unidade doméstica e as
tensões pela ampliação ou restrição das opções sociais de cada um – como no caso do mercado matrimonial.
Duarte também destaca a importância da distribuição de obrigações nas relações hierárquicas entre irmãos
(1986: 190)

118
Reproduz-se, assim, na ação de Liliana, o que já havia ficado patente na ida de
dª Margarida ao Juizado: a tentativa de introduzir um novo e poderoso elemento de
negociação e mediação em meio a um conflito aparentemente sem solução pelas vias
“normais” (isto é, das relações já estabelecidas entre os envolvidos). Liliana procura
claramente negociar sua volta para casa, buscando um mecanismo externo à sua relação
com o pai que coloque limites no comportamento deste, ao mesmo tempo em que utiliza,
como “moeda de troca”, a necessidade de cuidar das irmãs, essas as verdadeiras menores
pelas quais o Juizado deve zelar. Desse modo, Liliana, ao contrário de dª Margarida e do
pai, foge da discussão sobre sua “desobediência”, na medida em que se coloca como
alguém a ser vista como responsável pelas irmãs. De objeto de guarda busca, portanto,
transmutar-se em uma espécie de guardiã, no lugar de dª Margarida, com quem não
ficariam morando por essa não poder sustentar as irmãs; do pai, tornado relativamente
irresponsável pela oscilação de comportamento em função da bebida; da madrasta, que
trabalha e não “cuida” das meninas.
Sr. João, o pai, por sua vez, ao dar seu depoimento na grande entrevista em que
todos foram reunidos, conta, com o acordo de sua companheira, que “Liliana sempre foi
desobediente, gostando de chegar tarde em casa”. Isto o teria levado a “chamar sua
atenção”, o que não produziu resultado, já que essa “acabou saindo de casa”. Quando isso
ocorreu, de acordo com seu relato, procurou dª Margarida e esta levou Liliana para morar
com ela. Segundo ele, portanto, a grande responsável pelo conflito é Liliana e sua
“desobediência” eterna e ele, o pai, o principal ator do acordo entre dª Margarida e Liliana,
já que teria sido sua iniciativa acionar a tia-avó, a quem, em suas palavras, a filha
“respeita”113. Sobre a possibilidade de ceder a guarda das filhas, ou ao menos a de Liliana,
o sr. João se opõe, apesar da “grande consideração” que afirma ter por dª Margarida. Nesse
caso, como em outros, fica clara a fronteira entre deixar criar – lembremos que a senhora
manteve as três meninas com ela por cinco anos – e o “dar de papel passado”, o ceder
formalmente a guarda.

113
Aqui, como aponta Foucault para pensar a gestação de modelos normativos de poder, o “delinqüente” – no
caso, Liliana e sua desobediência – é construído antes da delinqüência em si, como alguém que “sempre foi”,
“sempre demonstrou”, ou seja, que é portador de uma essência que o faz naturalmente propenso ao ato que
um dia, como predestinado, irá finalmente concretizar (Foucault, M., 2001).

119
Por fim, no relatório final da assistente social, as duas posições – do pai e de Liliana
– são recuperadas, sem formarem, porém, um relato conflituoso, mas como dois lados que
se complementam:
“pudemos perceber que Liliana manifestou desejo de retornar para a
companhia paterna, desde que o pai não a agredisse e repreendesse na
presença de colegas, como costumava fazer quando bebia. Por outro lado,
o pai, apesar de confirmar o fato de ingerir bebida alcoólica, disse-nos ser
mais enérgico com Liliana em virtude dessa gostar de freqüentar bailes e
chegar de madrugada em casa (...)”

Incorporando ambas as versões, a assistente realiza parte do trabalho conciliador a


que o Juizado (também) se dedica, suavizando a representação da violência ou agressão
através da idéia do ser “enérgico”, repartindo culpas e responsabilidades no conflito, de
modo a que nenhum traço disruptivo da relação de paternidade/autoridade fique
sedimentado nos autos. Mesmo a ação moralmente condenável da bebida, que poderia ser
operada como um elemento de condenação global do pai, com sua conseqüente
desautorização enquanto responsável, é empalidecida no relatório final. A dimensão
moralizadora e, ao mesmo tempo, conciliadora, dos especialistas do Juizado fica ainda mais
clara no final do relatório, quando a assistente registra que:
“em relação às duas outras menores, estas afirmaram que o sr. João já
bateu nelas, porém isso não se deu de forma violenta. Afirmaram desejar
continuar na companhia do pai. Este mostrou-se bastante envergonhado
ao abordarmos o assunto acerca do alcoolismo e bastante preocupado com
as filhas”

De modo semelhante ao que foi visto com relação ao “abandono” no caso de


Cláudia, a violência também se revela menos um valor absoluto ou um conjunto definido
de situações e mais uma configuração de condições morais, na qual os limites não estão
dados apenas pelo grau ou intensidade (quantos “abandonos”, que tipo de agressão), mas
pelo modo como as relações ocorrem nesse “abandono” ou “violência”. Não é de
surpreender, portanto, que – chamada para um depoimento final já em julho de 1991 – a
filha do meio, Ana, declare que “está tudo harmonizado (...); que o pai está sendo delicado
e bom”.
Espécie de fecho inquestionável de uma história de conflitos mediados e resolvidos,
o depoimento da filha do meio combina uma categoria-chave do discurso normativo das

120
assistentes sociais, a harmonia, com representações genéricas o bastante – “delicado” e
“bom” – para fornecer uma imagem positiva do pai, sem deixar registradas perguntas
específicas sobre bebida ou violência, os pivôs das acusações feitas a ele. É importante
assinalar ainda que o pai que se apresenta através do depoimento da filha é um pai já
domesticado pela “vergonha” de ter ido ao Juizado, por ter sido moralmente inquirido, se
nem tanto pela violência, com certeza pelo “alcoolismo”, nos termos da assistente social.
Assim, a ação do Juizado, tanto nesse caso quanto nos anteriores, não pode ser pensada em
termos apenas da aplicação ou não das normas explicitadas “na letra da lei”. Os diferentes
encontros registrados nos autos – com os envolvidos ou entre profissionais, através da
circulação do texto padronizado dos relatórios sociais encaminhados pelas assistentes aos
curadores e ao Juiz – revelam esforços de avaliação e intervenção mais sutis e complexos.

Caso 4: Fernanda/Maíra: a criança anunciada pelo rádio

Em 18 de janeiro de 1990, o casal Paulo e Marta procurou o Juizado solicitando o


registro civil e a guarda da menor Fernanda, um bebê de menos de um mês de idade que
lhes teria sido entregue pelos próprios pais por “não disporem de recursos financeiros” para
tratarem de problemas de saúde da criança. Na petição que inicia o processo, esclarecem
que Fernanda apresenta lábio leporino e fenda palatina, problema que demandaria algumas
intervenções cirúrgicas para ser corrigido.
Junto com a petição e os documentos normalmente exigidos de um pleiteante à
guarda, o casal anexa a declaração de uma repórter de conhecida emissora de rádio,
afirmando ter sido procurada no dia 28 de dezembro do ano anterior por Marcos, pai de
Fernanda, que gostaria de “dar a filha por não ter condições de criá-la”. Designada para
fazer uma matéria jornalística com Marcos, soube por ele que a criança havia nascido
naquele mesmo dia e que ele “não teve condições financeiras para comprar nenhuma fralda
para o bebê”, que também não havia recebido nome. Segundo suas declarações, Marcos
teria afirmado que sua mulher estava de acordo com sua atitude. A repórter relata ainda que
teria tentado fazê-lo desistir da idéia e que a reportagem veiculada através do rádio
solicitava que ouvintes doassem roupas, material de construção e outros objetos que

121
ajudassem os pais e permitissem que mantivessem a filha com eles. A matéria, ainda
segundo declarou por escrito a repórter, teria feito com que várias pessoas telefonassem
para a emissora de rádio interessadas em adotar o bebê, entre elas o casal que agora
postulava a guarda junto ao Juizado.
Cerca de duas semanas mais tarde, o casal apresentou outra petição, através da
Defensoria Pública, esclarecendo as razões pelas quais estaria desistindo da guarda
anteriormente pedida. Segundo eles, após ter sido feita a petição inicial pela guarda de
Fernanda,
“os pais biológicos da criança (...), brasileiros, casados, profissões
ignoradas, sem domicílio [grifos do autor], começaram a chantagear o
casal, exigindo quantias em dinheiro e material de construção civil. No
início, o casal, visando ajudá-los (pois tem mais quatro filhos), colaborou
comprando material de construção; entretanto, continuaram a fazer
exigências num crescente tal que o casal não pôde suportar. Foi então que
face à recusa do casal em continuar atendendo suas exigências, que o pai
da menor passou a ameaçá-los de morte, caso a filha não lhes seja
entregue imediatamente.
O casal, apavorado, apesar do grande amor que já sente pela criança,
posto que seus pais não têm onde morar e não trabalham, não tendo,
portanto, condições de prover-lhe o mínimo para a subsistência e, menos
ainda, para prestar-lhe assistência médico-cirúrgica de que necessita,
motivo pelo qual gostariam que VªExª apreciasse a conveniência ou não
de uma internação até mesmo no hospital da Funabem, face ao seu estado
delicado de saúde.
(...) Informam, ainda, que necessitam efetivar a entrega da menor em
juízo ainda hoje, pois estão se sentindo ameaçados e acreditam que o pai
da menor cumpra realmente o que tem dito.”

Aproximadamente três meses depois de ter apresentado essa petição, o casal que
postulava a guarda de Fernanda é chamado para uma entrevista no Juizado, na qual registra
como teria se dado o contato com os pais da menina e os acordos que os envolvidos teriam
feito nessa ocasião. Conforme havia sido colocado na primeira petição apresentada ao
Juizado, o casal teria tido contato com a situação de Fernanda através da reportagem de
rádio e, segundo seu relato, entre os vários casais interessados em adotar o bebê, eles teriam
sido os escolhidos por Marcos, o pai. Nessa ocasião, teriam acordado com Marcos que
aguardariam que a criança fosse registrada para então recorrerem ao Juizado pedindo sua
guarda. Os telefonemas que se sucederam entre o casal e o pai teriam girado, porém,
segundo a versão do casal, em torno de “desculpas” variadas por parte do pai por não ter

122
tirado a certidão de nascimento da criança e pedidos de dinheiro para comprar material de
construção. Afirmam ainda que, “por solidariedade, pensando nos outros filhos dos pais da
menor em foco”, mandaram entregar material de construção para eles, mas que isso “não
foi suficiente para que ficassem satisfeitos; continuaram a pedir mais, sempre adiando a
certidão de nascimento da criança”. Frente a essa situação, decidiram pedir oficialmente a
guarda de Fernanda, informando ao pai “que tudo agora seria tratado no Juizado”.
O passo seguinte de Marcos, ainda segundo o relato do casal, teria sido ameaçá-los
de morte, caso não devolvessem sua filha, o que os fez “abrir mão da criança”. No mesmo
depoimento, afirmam também ter esperança de reavê-la, se isso fosse possível, mas que o
fato “teria que ocorrer no mais absoluto sigilo, sem que os pais da criança jamais
soubessem”.
O conflito, quando relatado pelos pais de Fernanda, também chamados para uma
entrevista no Juizado, apresenta muitos pontos em comum com a narrativa do casal, mas
recebe outra “cores”. Segundo o que o pai contou à assistente social, a decisão de procurar
a emissora de rádio se deu “porque estava desesperado, não tinha onde morar e estava
desempregado”. Como resultado da matéria veiculada na rádio, um casal (Paulo e Marta) se
oferecia para adotar a criança e um senhor oferecia emprego à Eliane, mulher de Marcos e
mãe de Fernanda, aceitando que levasse a criança com ela. Optando pelo casal que se
propunha a adotar sua filha, Marcos levou-os à maternidade, “onde entregou-lhes a menor”.
Segundo o que fica registrado no processo,
“No ato da entrega (...) combinou com o casal que este iria ajudá-lo a
reconstruir a casa em troca da criança. Porém, o casal limitou-se a dar-lhe
algum material de construção, insuficiente para começar a obra. Diante
disso, resolveu retomar a criança e confessa que ameaçou o casal de
morte. Justificou sua atitude pelo fato de estar tentando resolver o
problema de sua família, já que seus outros filhos não têm onde morar.
Afirmou que depois arrependeu-se e ‘o sentimento paterno foi mais
forte’. Porém, segundo ele, se o casal requerente tivesse atendido às suas
necessidades, isto é, dado o material de construção necessário para
reconstruir sua casa, teria deixado a criança com eles, já que desta forma
teria resolvido o problema dos outros filhos”

A entrevista é ainda acompanhada de uma visita à casa dos pais da criança,


caracterizada pela assistente social como uma “casa humilde, em condições precárias de
higiene, situada em local de difícil acesso e sem saneamento básico”. O estudo social

123
redigido pela mesma assistente, por sua vez, caracteriza e sintetiza a situação nos seguintes
termos:
“Trata-se de uma criança que necessita de cuidados especiais devido ao
problema congênito de lábio leporino e fenda palatina. Devido a este fato,
parece ter havido por parte dos pais biológicos uma rejeição inicial, aliada
à situação financeira porque passam atualmente. Os outros cinco filhos do
casal parecem relativamente bem cuidados, embora as condições de
moradia sejam muito precárias.
O pai da menor declarou estar arrependido do ato praticado, isto é, ter
dado a criança ao casal requerente, porém afirma que se tivesse recebido
o material de construção que necessita para reerguer sua casa, teria
deixado a criança com o mesmo. A sra. Eliane [a mãe] parece pouco
emocionada com a situação atual da criança, que encontra-se internada no
hospital da Funabem, onde afirmam estarem visitando-a semanalmente, o
que foi confirmado pela assistente social do referido hospital (...)
O casal requerente demonstrou profunda afetividade pela criança e
acalentam ainda a esperança de reaver a mesma, porém não querem
nenhum envolvimento com os pais biológicos de Fernanda.
Considerando que o bem estar da criança é o que deve prevalecer,
sugerimos que os pais biológicos sejam observados durante o período que
a menor permanecer internada no hospital da Funabem, quanto à
assiduidade das visitas e à forma de relacionamento com a criança,
levando-se em conta o interesse do casal requerente na adoção da menor,
tendo inclusive condições de proporcionar-lhe tratamento e
acompanhamento adequado à sua problemática física, que requer
tratamento médico-cirúrgico especializado”

A mal-sucedida negociação entre os pais e possíveis guardiães de Fernanda,


mediada em primeiro lugar pela emissora de rádio e, a partir de certo ponto, pelo Juizado,
desenrola-se, enquanto narrativa processual, em torno de um estoque relativamente limitado
de temas e representações: a palavra rompida, a natureza do acordo, a situação socialmente
desigual dos envolvidos e os cuidados especiais de que a criança necessitaria.
O que aparece no relato dos candidatos à guarda como uma expressão de
“solidariedade” à família de Fernanda, aparece na fala do pai como um acordo de termos
precisos que teria sido rompido. Por outro lado, nos dois casos há o esforço em não permitir
que a negociação em torno da guarda da criança possa vir a ser compreendida como um
“negócio”, seja pela recusa do casal Paulo e Marta em prosseguir no que parecia vir se
tornando uma barganha ilimitada e perigosa (a certidão de nascimento em troca de pedidos
renovados de material de construção), seja no caso dos pais de Fernanda – especialmente

124
do pai, que até esse momento é quem fala pelo casal – em retratar suas preocupações como
sendo conseqüência ao mesmo tempo do seu “desespero” e de suas preocupações como pai
de outras crianças. Na passagem mais ilustrativa dessa tensão, o pai argumenta que “o
sentimento paterno foi mais forte”.
Por outro lado, é interessante notar também a força do papel mediador
desempenhado por um canal de comunicação de massa, como a emissora de rádio, capaz de
motivar soluções imediatas, seja pela apresentação de candidatos a adotar Fernanda, seja
pela oferta de emprego que a mãe recebe, e o papel relativamente secundário, nesse caso,
do Juizado114. Este, ao contrário da rádio, é acionado supostamente para “regularizar a
situação” (ou seja, formalizar o que já teria sido acordado entre as partes) e para resolver
um conflito que se apresenta impossível de ser solucionado pela via do acordo extra-
judicial. Os postulantes à guarda, por sua vez, buscam no Juizado a possibilidade de um
anonimato protetor, invertendo a situação original do “acordo”: desejam permanecer com a
criança, mas desde que isso possa ser feito sem conhecimento dos pais. Não sendo mais
desejável, portanto, o acordo através do contato direto (o “dar o filho”), a dimensão
impessoal do Juizado é evocada como possível garantia para a guarda e futura adoção
pretendidas.
Nesse ponto das negociações, fica clara uma certa tendência no processo, através da
ênfase das assistentes sociais nas condições de vida dos pais de Fernanda, na representação
do casal de possíveis guardiães como tendo demonstrado “profunda afetividade pela
criança” e, sobretudo, nas reiteradas referências aos cuidados médicos de que o bebê
necessitaria, de equacionar o “bem-estar da criança” (termo também acionado no processo)
à possibilidade desta ficar com o casal Paulo e Marta. A recusa dos pais em ceder a guarda,
porém, em que pese o fato de terem anunciado sua disposição de “dá-la” através do rádio,
em princípio inviabiliza que esta tendência se transforme em um expediente concreto ou em
uma decisão judicial simples, no modelo das decisões centradas nos acordos entre as

114
N. G. Canclini (1999) chama a atenção para o fato de que em sociedades nas quais as dimensões dos “bens
sociais” ou “bens de cidadania” são constantemente tratados a partir da linguagem dos “bens de mercado”
(planos de saúde privados, propagandas ou marketing eleitoral etc), de forma igualmente constante há a
confusão entre meios de comunicação de massa e meios legais ou políticos. A confiança na eficácia, na
presteza e mesmo nas boas intenções dos meios de comunicação pode ultrapassar em muito a que é
depositada nas tradicionais instituições de cidadania (canais políticos, judiciais etc), tornando-os
interlocutores preferenciais em situações dramáticas, inclusive pela possibilidade de singularização dos
dramas apresentados, em contraposição com a relativa impessoalidade da burocracia.

125
partes115. Com a recusa do casal em ficar com Fernanda nas condições em que isso poderia
se dar – ou seja, sem o anonimato agora pretendido e com o peso das ameaças feitas pelo
pai – e com sua permanência em uma instituição do Estado, o hospital da Funabem, o que
se estabelece não é, como ocorre em outros casos, uma tentativa de convencimento das
partes no sentido de uma decisão de “comum acordo”, mas uma espécie de quarentena
moral e tutelar dos pais. A própria suspeita levantada por uma das assistentes – de que os
problemas de saúde apresentados por Fernanda teriam suscitado a rejeição dos pais, aliada,
claro, ao anúncio público da “doação” da filha – coloca sua autoridade de pais em questão.
Tal vigilância tutelar se prolonga até o fim do ano de 1990, quando, consolidada a
desistência dos guardiães – e, portanto, qualquer traço de disputa sobre quem poderia
atender ao “bem-estar” de Fernanda – e mantidas entrevistas constantes com os pais e
novos envolvidos na situação, estes são reintegrados plenamente à sua condição de
responsáveis pela filha, agora renomeada como Maíra116.
Dois novos elementos chamam a atenção nesse processo de reabilitação da
autoridade dos pais: a carta pessoal que o pai encaminha ao Juiz de Menores, explicando
sua posição e recontando a história do acordo mal-sucedido, e a entrada em cena de um
novo personagem, patrão do pai e “fiador” – moral e econômico – de suas condições para
reassumir à filha. A carta mencionada, anexada ao processo em torno de novembro de
1990, diz o seguinte:
“Espero que esta carta ao chegar em suas mãos lhe encontre com paz e
saúde. Doutor Juiz, o que me levou a lhe escrever é para pedir-lhe que
interceda no meu problema e me ajude, pelos fatos que passo a lhe expor.
Excelência, o final do ano de 1989 para mim e minha família foi uma
tragédia, minha casa desabou, fiquei desempregado com minha esposa
grávida, eu no meu desespero dei minha [filha] ao casal que consta no

115
A caracterização das diferentes transações, já mencionada na Introdução desta parte, será retomada
também mais à frente.
116
A escolha e composição de nomes é um dos dados cruciais de construção simbólica da
paternidade/maternidade e, nesse sentido, da autoridade socialmente reconhecida dos pais. Não à toa, a
produção de novas certidões de nascimento nos casos de adoção é tratada como momento-chave dos
processos, representada às vezes como uma nova etapa no ato de “dar” os filhos. “Dar de papel passado”,
“ceder os direitos de mãe (ou pai)” etc são termos que aparecem em diversos processos, compondo, como será
explorado adiante, a gramática e as fronteiras do controle sobre o bem social representado pelos filhos.
Fazendo referência ao “nome de família” como elemento primordial do capital simbólico hereditário,
Bourdieu destaca o fato dessa autonomia e poder criador serem socialmente limitados, uma vez que “o pai é
apenas o sujeito aparente da nominação de seu filho, já que ele o nomeia de acordo com um princípio que não
domina e, ao transmitir seu próprio nome (o nome do pai) ele transmite uma auctoritas da qual não é o auctor
e em conformidade com uma regra que não criou” (1996: 131)

126
processo, eles tentaram comprar minha consciência, foi quando ameacei
eles de denunciá-los, botaram minha filha sob vossa guarda, me
denunciaram como chantagista, tudo bem pois me encontro com minha
consciência tranqüila e isto basta para mim este casal não existe pois
lidaram de má fé não só comigo como também com minha filha, agora
pretendo viver o presente com minha Maíra.
Excelência, minha filha precisa vir para casa com urgência, pois cada
visita que a faço ela se encontra com mais sarna no corpo por falta de sol
e de alimentação adequada, estou totalmente agradecido pelo que foi feito
por ela naquela instituição. Estou certo que agora posso dar a ela amor,
carinho, alimentação, educação, pois estou de cabeça erguida, já estou há
um mês direto agindo o desligamento da minha filha e o meu patrão não
está nada satisfeito com o meu proceder e vejo a hora de perder o meu
emprego que é o sustento de minha família.
Excelência lhe peço que entenda o meu problema pois prometo a Deus e
ao senhor que darei o melhor para Maíra.
Desde já agradeço a atenção a mim dispensada e rezarei sempre que
puder pedindo ao nosso bom Deus para lhe dar forças e saúde para que
continue a sua missão com muito Amor e Justiça”.

A carta, endereçada diretamente ao Juiz responsável, traz diversos elementos


importantes para reversão do quadro de tutela em que os pais se encontravam, sem poder
tomar decisões sobre a filha, como retirá-la do hospital e levá-la para casa. Há, em primeiro
lugar, o esforço em realizar uma remontagem da narrativa sobre o conflito, aparecendo pela
primeira vez a categoria de acusação de “compra”, dirigida ao casal que pleiteava a guarda.
Se estes acusavam o pai de “chantageá-los”, agora o pai os define como tendo agido de má-
fé e procurado comprar sua consciência. Fica evidente, portanto, a partilha de um código
moral comum a todos os envolvidos – inclusive os especialistas do Juizado encarregados de
avaliar o caso em suas diversas instâncias – em que o dinheiro (como “venda” ou “compra”
da filha) contamina a imagem daqueles que se desejam responsáveis legais e legítimos de
uma criança.
Por outro lado, o “bem-estar” da criança, invocado antes como critério que poderia
definir com quem ela deveria ficar, aparece concretizado nos argumentos do pai através
das afirmações de que a filha estaria contraindo outras doenças no hospital e,
especialmente, na afirmação de que os deslocamentos constantes para ver a filha (medida,
inclusive, de seu compromisso com ela) poderiam vir a lhe custar o trabalho conseguido.
Dessa forma, uma das condições da manutenção da unidade da “família”, o sustento,
estaria sendo ameaçada pela própria dinâmica burocrática que não o autorizava a retirar a

127
filha do hospital. Por fim, há que se chamar a atenção para o expediente recorrido: uma
carta diretamente endereçada ao Juiz e na qual sobressaem a retórica do respeito
(“Excelência”, “doutor Juiz”), da promessa pessoal e, conseqüentemente, a percepção da
relação com a “autoridade” como aquela que envolve o compromisso pessoal, a honra da
palavra dada e a representação de si mesmo como alguém moralmente apto a usufruir de
determinada confiança, no caso a confiança em passar da posição de tutelado pela
administração a tutor, gestor de sua própria família 117.
Como foi dito antes, um último elemento parece ser importante na composição do
final do processo: o aparecimento da figura do novo patrão de Marcos como alguém capaz
não apenas de afiançar que o pai dispunha de condições materiais para sustentar os filhos –
um dos argumentos utilizados por ele mesmo para ter decidido “dar” sua filha em um
momento de desespero – mas também como componente importante de uma nova e mais
ampla rede de apoio à unidade familiar como um todo. Dono de uma barraca de horti-fruti-
granjeiros, o sr. Manoel, segundo consta do último relatório feito pela assistente social, em
28 de novembro de 1990, além do emprego, teria oferecido a Marcos um novo lugar para
morar, nos fundos de sua própria casa, permitindo que eles não mais ficassem com a sogra
de Marcos, como haviam tido de fazer. Desta avaliação final da assistente, consta um
depoimento do sr. Manoel, tratado pela família como “tio Manoel”, afirmando que os pais
estariam sofrendo com a ausência da filha e que ele “acha que agora, dentro de suas
limitações, [os pais] têm condições de criar e educar a filha”118.
No mês seguinte, Maíra deixa o hospital da então FCBIA (em lugar de Funabem),
com um arrazoado que arrola como elementos importantes para essa decisão judicial “a
ansiedade demonstrada pelo casal pelo desligamento de Maíra”; “o aspecto saudável dos

117
O uso de cartas como recurso de negociação burocrática parece ser um expediente comum em diversas
situações e momentos. Como demonstra Reis, a representação da relação com a “autoridade” como uma
relação de interlocução e compromisso diretos aparece em certos momentos como contrapartida à “opressão
burocrática” (Reis, 1999). Por outro lado, a conjugação entre o apelo pessoal e uma “ameaça” velada de
desordem, como conseqüência da intervenção burocrática sobre famílias, pode ser vista também em situações
de certa forma semelhantes à contemplada aqui, mas em outro momento, como nos apelos feitos por mães,
parentela ou pelos próprios menores ao Chefe de Polícia, no sentido de libertar menores presos nas primeiras
décadas do século passado. Nesses casos, a representação dos próprios menores como “arrimos de família”
funcionava tanto para desmentir acusações de vadiagem, quanto para fazer ver aos que eram responsáveis por
sua prisão (e que podiam ser por sua soltura) que a detenção trazia em si o perigo de uma desordem ainda
maior, na medida em que impedia que a unidade familiar mantivesse seus escassos recursos de sustentação
(Vianna, 1999: 124-129).
118
A discussão entre relações de patronagem, tutela e apadrinhamento será feita no capítulo 5.

128
outros filhos do casal”; “a aparente disposição do sr. Marcos de responsabilizar-se por sua
família, deixando a dependência financeira de sua sogra” e, de forma conseqüente com o
paradigma do melhor interesse da criança, “a importância do convívio familiar para o
desenvolvimento físico e psicológico de uma criança”, cessando, desse modo, a vigilância
que tinha se estabelecido sobre os pais.

Caso 5: Anderson e o desejo de voltar atrás

Em dezembro de 1990, o casal Juvenal e Ada procurou o Juizado para dar início à
adoção de Anderson, de um ano de idade, que lhes teria sido entregue por uma vizinha que,
por sua vez, o teria recebido da mãe. Segundo o relato que o casal fez à assistente social na
primeira entrevista, a mãe de Anderson teria ido trabalhar na casa desta vizinha e um dia foi
embora deixando a criança. Como essa vizinha afirmou não poder cuidar do menino por
problemas de saúde, eles “aceitaram amparar o menor” que se encontrava “sem vestes,
muito sujo, desnutrido e com alguns ferimentos nas nádegas”. Ainda segundo seu relato, o
desejo de adotar Anderson teria vindo da “afinidade” que sentiram por ele, bem como “pelo
bem que estão fazendo a uma criança carente”.
Após os postulantes à guarda e posterior adoção de Anderson terem recebido um
parecer favorável da primeira assistente social a cuidar do caso, o Juizado conseguiu
localizar a mãe que, inicialmente, declarou-se propícia à adoção de seu filho pelo casal.
Cerca de quatro meses depois, porém, a mãe procurou o Juizado e disse estar arrependida
por ter concordado com a adoção e afirmou ter condições de assumir sua criação, por contar
agora com um companheiro e com o apoio de sua mãe.
A reação dos então guardiães de Anderson apresentou-se sob a forma de um
arrazoado de acusações ao comportamento da mãe, apresentadas através da Defensoria
Pública e dispostas do seguinte modo:
“1. Os requerentes, há cerca de um ano e meio, detém a guarda de fato do
menor em questão.
2. Durante todo este lapso temporal jamais foi o menor procurado por sua
genitora, sendo certo que os requerentes só vieram a conhecê-la em
audiência realizada por este Douto Juízo.

129
3. Jamais tentou a genitora aproximar-se de seu filho que, em virtude de
tal situação fática, a desconhece.
4. Ressalta-se o fato de que os requerentes nunca impediram a genitora do
menor de vê-lo, sendo certo que há cerca de 5 meses o companheiro
desta, Sr. Marcelino, apareceu na residência dos suplicantes pedindo para
ver o menor - o que lhe foi permitido - tendo dito nesta oportunidade que
a genitora do menor estava esperando um filho seu e que faria todo o
possível para não ter aquele menor junto à sua família.
5. O menor em questão desconhece não ser filho biológico dos
requerentes, chamando-os por pai e mãe.
6. A genitora do menor demonstra, durante todo o feito, por sua conduta,
ser uma pessoa volúvel, inapta a cuidar de maneira equilibrada do menor
em questão.
7. De fato, até a presente data, foi a mesma omissa com seu filho,
deixando-o ao abandono.
8. Tal conduta por parte do genitor enseja a destituição do mesmo do
pátrio poder.
9. Também não podem concordar, os requerentes, com a visitação
pleiteada pela genitora, face ao forte comprometimento psicológico que
tal fato traria ao menor.
Ante o exposto, requerem a V.Exa:
- a realização de Estudo de Caso, para avaliar-se a real situação do menor;
- a improcedência do pedido de visitação, face aos danos psicológicos que
teria o menor ante a realização da mesma;
- a procedência do pedido dos autores, deferindo-se aos mesmos a
Adoção do menor.”

O que antes parecia configurar-se como um “acordo”, pautado pela “circulação” de


Anderson da mãe à vizinha dos guardiães e desta a eles, assume, a partir da recusa da mãe
com relação ao pedido de adoção, o tom de um conflito aberto, com ações inclusive na
direção da cassação do pátrio poder e de negativa aos pedidos de visita. A noção de
abandono, por sua vez, é recoberta de sentidos moralmente negativos, como a omissão, o
caráter “volúvel” da mãe e, o que desempenha papel especialmente importante no
desenrolar do processo, a negativa do companheiro da mãe em ter a criança com eles. O
impasse motiva a elaboração de um estudo social pela assistente social responsável pelo
caso, no qual alguns desses elementos vão ser reforçados.
De modo bastante significativo, os primeiros elementos apresentados no relato da
assistente social, após um breve “histórico” da situação (quando Anderson foi deixado com
os guardiães, a negativa da mãe ao pedido de adoção etc) configuram uma espécie de
discurso de justificativa da mãe sobre ter “dado” o filho, centrado na “inexistência de

130
condições concretas” para sustentá-lo. Segundo conta a mãe, o que ganhava fazendo
faxinas não garantia o seu próprio sustento e o do filho, e ela tinha saído da casa onde vivia
com a mãe em função de “aborrecimentos e desentendimentos familiares”. A partir daí, o
relato se volta para quais seriam suas condições atuais, entre as quais tem papel decisivo a
disposição ou não do companheiro em aceitar que ela traga o filho para morar com eles,
como fica claro no texto abaixo:
“Durante a entrevista, Patrícia [a mãe] manifestou a vontade de ter o filho
de volta ao seu convívio. Contudo, sinalizou que a satisfação desse
desejo, no momento atual, depende do consentimento do seu
companheiro (...). Comenta que esse posicionamento contrário à idéia de
reaver Anderson já ocasionou vários atritos entre ambos (...)
Ao ser indagada sobre as reais possibilidades – caso decida reassumir a
maternidade de Anderson – de poder contar com o apoio de outros
elementos de seu grupo familiar, ressaltou que, em não sendo para ficar
em sua companhia, prefere entregar o filho aos requerentes, deixando,
dessa forma, transparecer que não é favorável que tal compromisso fique
a cargo de sua família. Nessa direção, esclareceu que a sua avó (Sr.ª
Maria Aparecida), logo que soube o que ela (Patrícia) havia feito, chegou
a se oferecer para ficar com o menino. Segundo Patrícia, a bisavó de
Anderson não apresenta condições para manter o bisneto ao seu lado,
visto que, além de ser idosa, tem que trabalhar para assegurar a sua
subsistência. (...) No tocante à sua genitora, Sr.ª Maria de Fátima Ribeiro,
comentou que esta se encontra numa fase conturbada de sua história de
vida . Narra que a figura materna separou-se do companheiro com o qual
vivia, andou vendendo o que possuía dentro de casa, mandou internar um
dos filhos. Sob o ponto de vista de Patrícia, a avó materna, Sr.ª Maria de
Fátima, também não se acha preparada para auxiliá-la na criação de
Anderson. Ainda a respeito da solidariedade e colaboração de seu núcleo
familiar quanto ao retorno da referida criança ao seu convívio,
salientou:... ‘Depois o menino fica com eles e aí vão ficar jogando na
cara, acabam devolvendo a criança (...) Não quero que fique com
ninguém da minha família ...’.”

Fica claro que a assimetria das condições econômicas da mãe e dos guardiães
desempenha, nesse caso, um papel decisivo, na medida em que atravessa toda a
representação construída sobre a sua viabilidade de requisitar a volta do filho. À essa
assimetria agrega-se, porém, a pouca autonomia da mãe, dependendo do consentimento do
companheiro para ter o filho com ela. A alternativa aventada – a mobilização de uma rede
familiar de apoio – também não se sustenta, seja pela inviabilidade econômica da mãe e da

131
avó – “mães substitutas” ou complementares119 – seja pelo temor expresso por Patrícia de
que isso venha a representar um elemento posterior de acusação a ela dentro da própria
família, podendo ter como desdobramento até mesmo a “devolução” do filho. A
precariedade das garantias que Patrícia pode oferecer para manter o filho com ela ficam
ainda indiretamente reforçadas diante da menção ao internamento de outro filho que sua
mãe teria tido que fazer em razão da separação recente de um companheiro. Em que pesem
as escolhas que a assistente social possa ter feito no sentido de dar destaque a alguns
elementos na sua narrativa, todos enfatizando as limitações da mãe para manter o filho com
ela, fica claro que a própria Patrícia não busca fornecer garantias a todo custo de suas
condições de conservá-lo com ela, indicando inclusive, como já dito, que ele poderia vir a
ser “devolvido” por sua própria família. A pergunta que se coloca, então, é o que motivaria
a mãe a recusar a adoção do filho pelos guardiães e o que poderia ser tomado como parte de
suas demandas. Como se pode ver nos trechos abaixo, sempre filtrados, é claro, pela leitura
que a assistente social faz das motivações da mãe, o que está sendo colocado através da
recusa à adoção é um conjunto de negociações variadas que a mãe busca estabelecer com
os guardiães e com o companheiro.
“Patrícia, logo que iniciamos a entrevista, assinalou que somente
concordaria com a adoção se os requerentes permitissem a manutenção do
contato com o filho (...)
No decorrer deste encontro mantido com Patrícia, esta deu a entender
que, se fosse uma decisão judicial, o companheiro, Marcelino, teria que
aceitar a permanência de Anderson ao lado dela (...)
Durante encontro mantido ao mesmo tempo com Patrícia e Marcelino,
este assinalou que o comportamento cotidiano da companheira não deixa
transparecer, em sua opinião, que a mesma se acha aborrecida, chateada,
por estar afastada do filho. Patrícia, em resposta a essa observação,
argumenta que o fato dela não mencionar a criança no seu dia a dia não
significa que não esteja sentindo falta de Anderson. A genitora revela,
ainda, o desejo de que a criança não tome conhecimento de que é adotada,
haja vista o receio de que o mesmo venha a ficar revoltado quando
souber, achando, reflete Patrícia, que foi preterido pela mãe em favor da
outra filha e do companheiro”.

119
É bastante significativo que as “negociações” que têm lugar no Juizado sejam conduzidas e envolvam
predominantemente mulheres, o que indica o quanto a questão da filiação, cuidado e gerência da infância é
tomado como algo predominantemente materno. Voltarei a esse ponto no capítulo 5. Sobre a distribuição e
composição social da maternidade como algo que pode ser socializado entre várias “mães”, ver Fonseca,
1995.

132
Se a motivação mais “completa” de Patrícia é ter de volta o filho, esta não se
apresenta, portanto, como única possibilidade para a própria mãe. A tentativa de fazer uso
da autoridade judicial para reverter a decisão do companheiro poderia compor um quadro
nessa direção, mas níveis intermediários ou alternativos de negociação também estão
colocados: estabelecer os termos de uma relação triangular entre ela, o filho e os guardiães
ou, caso isso também se revele impossível, atuar ainda sobre os termos em que a possível
adoção se realizaria, ou seja, sem que o filho soubesse ter sido adotado, para não se sentir
preterido. Fica claro que a ida ao Juizado e a participação de Patrícia no processo vão se
estabelecendo para ela mesma como uma experiência de negociação, na qual os limites de
seu reconhecimento público como mãe, como autoridade sobre o filho, portanto, estão
sendo questionados e aos quais ela procura responder com um conjunto de expedientes
morais: justificar por que “deu” o filho, tentar negociar com o companheiro, buscar compor
uma maternidade complexa com os guardiães, com direitos a visita e, por fim, preservar o
filho do que acredita que seja danoso para ele: crer que foi abandonado, no sentido de ter
sido preterido pela filha que agora tem com o companheiro.
Nesses termos, o quadro moralmente negativo que os guardiães buscam estabelecer
para o “abandono” do filho por Patrícia tem por contraponto não apenas a sua negativa em
ceder de imediato ao pedido de adoção, mas a possibilidade de criar, a partir da negativa, o
espaço para matizar esse abandono: não por ser “volúvel”, mas por não ter condições
econômicas; não por ter preferido a nova família que está construindo, mas por não
encontrar, nem na autoridade judicial, as garantias para a redefinição das suas condições de
negociação junto ao companheiro.
A proposta de visitas a Anderson, compartilhando com os guardiães a
“maternidade”, encontra resistência peremptória da parte do casal o que, dada a grande
assimetria estabelecida entre as partes envolvidas, acaba, junto com outros elementos,
definindo o desfecho do processo120. Os guardiães invocam como justificativa para recusar
a demanda de Patrícia não apenas o pouco contato prévio entre mãe e filho, mas o não

120
Como se verá em outros casos, nem sempre as propostas de “acordo” entre as partes são recusadas ou
implicam derrota de um dos demandantes. O sucesso ou fracasso de tais negociações depende das relações de
proximidade ou afastamento estabelecidas entre os envolvidos e, sobretudo, dos capitais sociais e morais de
que cada parte dispõe. É importante notar o caráter de mediação do Juizado e o quanto a experiência do
processo pode ser tomada por alguns dos envolvidos como uma experiência de negociação semelhante, em
certos elementos, às negociações entre casais nas “Varas de Família”.

133
desejar expor suas outras filhas adolescentes ao convívio com Patrícia e Marcelino. Desse
modo, a linguagem da preservação familiar, incluindo não apenas a criança objeto do
conflito, mas também as filhas do casal de guardiães, oferece a justificativa para que o
processo continue se desenrolando em termos de substituição completa da
maternidade/paternidade, ou seja, tanto com a efetiva cassação do pátrio poder original,
quanto com a ruptura do laço “informal” que poderia vingar com o sistema de visitas
proposto pela mãe.

Por fim, em junho de 1992, um ano e meio após o início do processo, tem lugar o desfecho
do caso. Patrícia é solicitada a comparecer novamente ao Juizado pela Promotora de Justiça
que indica, desde a formulação do pedido de oitiva, o quanto a situação se desenhava
negativa para ela. No referido pedido, a promotora assinala que o relatório da assistente
social indica a “contradição existente nas razões da mãe” para querer tê-lo com ela e para
poder mantê-lo. Da audiência final fica registrado que Patrícia “está de pleno acordo com o
pedido de adoção requerido pelo casal” e que “sabe que o registro será cancelado e os
requerentes passarão a ser os pais do menino”. O tempo entre a entrevista em que ela
apresentava suas tentativas de ficar com o filho ou de negociar os termos em que ele seria
cedido aos guardiães e os silêncios embutidos na forma lacunar da resolução final
construíram, desse modo, o espaço da desistência/derrota da mãe no processo de disputa,
representado no seu final como uma concordância espontânea da reinvenção da filiação de
Anderson.

Caso 6: O crime e a disputa: o processo de Murilo e Diogo

O processo pela guarda dos irmãos Murilo e Diogo, de 07 e 09 anos, tem início em
janeiro de 1990, motivado por um fato especialmente dramático: o assassinato da mãe dos
meninos por seu marido, pai de ambos. A tia-avó dos meninos, dª Lia, pede sua guarda e
explicita, no correr do pedido, sua visão sobre a relação do casal, sobre o pai das crianças e
sobre o impacto que o crime teria tido sobre eles. O crime e, segundo sua versão, o fato de

134
ninguém na família do pai ter manifestado o desejo de ficar com as crianças, fazia com que
a guarda dos mesmos pela família materna fosse uma conseqüência de certa forma natural,
na medida em que foi com eles que as crianças ficaram desde o assassinato da mãe e da
prisão em flagrante do pai. No conjunto dos familiares maternos, por sua vez, ela seria a
que disporia de melhores condições financeiras para acolhê-los, além de ser vizinha da
sobrinha, mãe dos meninos, o que fez com que um deles, Diogo, corresse para sua casa no
momento mesmo da morte da mãe.

Ao falar da relação do casal, dª Lia a caracteriza como “problemática” e “permeada


por muitas discussões, agressões e separações”. Como motivos para as brigas constantes,
ela aponta o ciúme que o marido de sua sobrinha sentia por ela e a “pouca
responsabilidade” que ele demonstrava na manutenção da família. Como elemento que
ilustrava a tensão constante entre os dois e, especialmente, essa dupla acusação que faz
pesar sobre o pai dos meninos, dª Lia relata uma situação específica que a assistente opta
por deixar registrado no seu relatório:
“Contou-nos que em certa ocasião, dª Sandra [a mãe das crianças], que
passava por dificuldades financeiras, já que praticamente sustentava
sozinha seus dois filhos, decidiu usar o DIU, método anticoncepcional.
Afirmou-nos que quando o marido descobriu, surrou-a, obrigando-a a
retirá-lo”.

A situação entre ambos, sempre de acordo com o relato de dª Lia à assistente social,
vinha evoluindo na direção da separação, caminho defendido por ela própria e pela irmã de
Sandra como o que deveria ser adotado por esta, muito embora ela argumentasse que
“apesar de tudo, ele [o marido] era o pai de seus filhos”. A decisão de se separar poderia ter
sido, inclusive, o elemento motivador do conflito que resultou na morte da sua sobrinha,
como transparece no trecho abaixo.
“(...) parecia que nos últimos tempos sua sobrinha já não estava tão
decidida a continuar vivendo com o sr. Marcos [o pai das crianças] e no
dia em que veio a falecer, decidira fazer uma limpeza em sua casa,
retirando os pertences do sr. Marcos. Este, por sua vez, comparecera em
sua casa pela manhã, ameaçando-a de morte, mas a srª Sandra não aceitou
sair de casa, negando inclusive o pedido da requerente de que viesse para
sua residência com os filhos. Mesmo diante de sua negativa, dª Lia ligou
para a polícia pedindo reforço, mas infelizmente não foi possível evitar o

135
ocorrido. (...) Poucas horas depois aconteceu toda a tragédia, que
lamentavelmente foi presenciada pelos menores”

O fato do crime ter sido presenciado pelos meninos é um dado relevante nesse
momento do processo, uma vez que fundamenta inclusive a raiva expressa, segundo dª Lia,
pelo mais velho dos dois, Diogo, em relação ao pai. Segundo ela, Diogo teria dito no
enterro da mãe que iria “se vingar do pai quando fosse maior”. A leitura psicologizante que
a assistente social faz da condição dos meninos nesse momento é de “trauma”, o que faz
com que ela decida conduzir a entrevista com ambos não na direção do crime em si ou do
pai, mas de como eles estariam se sentindo morando com a tia-avó. O quadro de
“adaptação” de ambos é retratado pela assistente através do que teriam sido as suas
declarações: “todos lhes tratavam bem”; além da tia avó residir com eles, uma das filhas de
dª Lia, que era madrinha de Murilo, as atividades que realizavam junto às outras crianças da
vizinhança, como soltar pipas, tomar banho de piscina ou ir ao parque e ao cinema. Nesse
caso, portanto, o “trauma” e a “adaptação” constituem duas faces da mesma argumentação:
a da manutenção das crianças junto à família materna.

A narrativa fundamentada no crime começa a se transformar em narrativa centrada


na disputa quando, cerca de um mês depois da entrevista com dª Lia e as crianças, a
assistente social procura por seu pai na delegacia para saber de sua concordância com
relação ao pedido de guarda. Impossibilitado de ficar ele mesmo com a guarda dos filhos,
Marcos, o pai, reivindica que fiquem com sua família, justificando-se para a assistente
social da forma como está relatada abaixo.
“[Marcos] disse-nos que não entendeu a atitude de dª Lia em acolher seus
filhos sem que falasse com ele ou com algum de seus familiares. Que até
entende que na situação em que se encontravam, por terem perdido um
ente querido, não tenham pensado na sua família (do pai), mas não
concorda que os filhos fiquem com ela, pois tem uma irmã e uma mãe
que podem acolhê-los. Afirmou-nos que dª Lia nunca trouxe os filhos
para visitá-lo. Que falou com o filho mais velho e esse lhe perguntou:
‘você gostou do que fez?’. Que acha que os filhos têm de estar junto da
sua família. Que se arrepende muito do que fez, mas teceu alguns
comentários, tentando justificar o ato.
Indagado por que motivo os seus parentes não reclamaram em juízo a
posse e guarda dos seus filhos, respondeu-nos que por medo de
represálias ninguém até então se pronunciara a respeito, e que seus

136
familiares sentem medo de ir até a casa da requerente para visitar os
menores”

Mesmo em situação legal desfavorável, o pai busca construir para si um espaço


de autoridade sobre o futuro dos filhos, ao mesmo tempo em que tenta veicular o que
seriam suas justificativas para o crime – e que a assistente opta por não deixar
registradas nos autos. O medo que sua família teria de eventuais “represálias” por parte
da família materna, ao mesmo tempo em que ocupa o lugar de uma justificativa para
que esses não tivessem se manifestado até então sobre a guarda dos meninos, desenha a
situação como um conflito entre grupos familiares, no qual as crianças desempenhariam
tanto o papel de objetos de disputa, quanto de avaliadores da própria ação do pai. O fato
de dª Lia não levá-los para visitar o pai, junto com a pergunta do filho, reproduzida pelo
pai à assistente social, dá ao relato do pai o caráter de uma contra-acusação, não no
plano legal, mas no plano moral. A dor da família materna poderia estar se
transformando em ação de ruptura entre pai e filhos, o que fica reforçado ainda em
outro momento da entrevista, no qual Marcos insiste que a assistente interceda junto à
dª Lia para levar os filhos para visitá-lo, de modo que ele possa “aos poucos
reconquistar a sua confiança”.

Essa lógica, embora cristalize o antagonismo entre as famílias, não é totalmente


deslegitimada pela família materna, já que dª Lia e sua filha, segundo a assistente,
“demonstraram certa tristeza e perplexidade quanto ao posicionamento do genitor”, mas
acharam “que ele está no seu direito de pai”. Em que pese, portanto, o drama do
assassinato da mãe pelo pai, a idéia de que há um conjunto de “direitos” da
paternidade/maternidade se mantém. O obstáculo explicitado pela família materna para
que as visitas ao pai se dêem encontra-se, desse modo, não no desconhecimento desses
“direitos”, mas na resistência de Murilo e Diogo que afirmam não querer visitar o pai.

A ação dos profissionais do Juizado – notadamente as assistentes sociais


envolvidas, responsáveis nesse momento por toda construção “interna” do processo –
frente à recusa do pai em ceder a guarda dos filhos à família materna, se dá no sentido
de buscar um termo de conciliação, enfatizando que seu “bem-estar psico-social”
deveria ser colocado acima do conflito entre as famílias. Isso faz com que uma das

137
assistentes atuando no processo busque a tia paterna dos meninos para comprovar seu
desejo em ficar com a sua guarda, enquanto o pai estivesse na prisão. Esta justifica sua
disposição, em primeiro lugar, por achar que, após o falecimento da avó materna, as
crianças teriam ficado “sem um parente direto” para assisti-los, dando a entender, nesse
sentido, que dª Lia, por ser sua tia-avó, não poderia ser compreendida como tão
“parente” quanto ela própria 121. Além disso, a tia paterna invoca novamente as
representações em torno das disputas entre as famílias, por acreditar que os sobrinhos
estariam sendo “influenciados” pela família materna para recusar o pai e,
conseqüentemente, toda a família paterna, como fica claro no trecho abaixo.
“disse-nos que estando os menores na companhia da srª Lia torna-se
impossível cogitar qualquer possibilidade de encontro entre pai e filhos,
já que todos da família viram-se impedidos de vê-los, face às ameaças
que surgiram da outra parte. Informou-nos que tanto ela quanto seus
familiares ficaram perplexos com todo o acontecido, lamentando
inclusive o desfecho e que isto, aliado às ameaças sofridas, fizeram com
que não agissem de imediato para ter os menores em sua companhia.
Quanto a uma possível reação das crianças na hipótese de terem seu lar
substituto alterado, compreendem que num primeiro momento o
sentimento destes é de revolta, mas está convencida de que os mesmos
estão sendo influenciados pela família da vítima, já que, enquanto
crianças, elas podem ser envolvidas emocionalmente”.

A disputa pelas crianças consolida-se, desse modo, como disputa por “objetos” com
características peculiares concernentes à sua condição simbólica de “crianças”, bem como à
sua condição legal de menores. Como “crianças”, podem ser “envolvidas emocionalmente”,
ou seja, levadas a agir sem discernimento, enquanto como “menores” podem ser legalmente
disputadas e ter seu destino decidido por uma instância jurídica. Nas duas dimensões está
presente a sua percepção como bens sociais de especial valia e, conseqüentemente, da
autoridade sobre eles (concretizada na figura legal da guarda) como elemento definidor da
posição social daqueles que a detém. Fica cada vez mais claro, ao longo do processo, que a
definição da guarda como “direito” de uma das famílias desempenha o papel de redefinidor

121
A hierarquização simbólica do parentesco, aqui apresentada em termos de “parentes diretos” ou
“indiretos”, chama a atenção mais uma vez para a dimensão de construção social do parentesco, como insiste
Schneider (1984). O poder hierarquizador dessa construção, por sua vez, ainda fazendo referência a esse
mesmo autor, seria tão mais eficaz na medida em que, estruturando-se a partir de representações sobre o
“sangue” e a “natureza”, criasse categorias de entendimento e conformação do mundo tomadas como
“naturais” e “biologizadas”. A discussão desse autor sobre o que ele chama de princípio do “sangue mais
espesso que a água” é especialmente útil no caso em questão. O tema voltará a ser discutido mais adiante.

138
dos significados sociais do próprio crime cometido pelo pai. A percepção da recusa dos
meninos em ver o pai, como “influência” da família materna, ou da ação desta como sendo
ameaçadora em relação à família paterna – embora o teor das ameaças não fique registrado
em momento algum do processo – dá continuidade ao drama em si do assassinato,
desdobra-o em novo “julgamento”, esse civil e moral: a “absolvição” do pai pelos filhos, a
ser consolidada com a efetivação da guarda desses para a família paterna.
Essa perspectiva fica também cada vez mais definida, na medida em que o crime vai
sendo recriado na fala do pai e da tia paterna, em termos de “acontecido”, “desfecho”,
“perda de um ente querido”. Ou seja, na medida em que vai desaparecendo nas narrativas a
figura da autoria propriamente dita, transformada em um “conflito” ou em uma
“tragédia”122. Com o andamento do processo e com a conseqüente cristalização da
concorrência entre as famílias pela guarda dos meninos, essa linguagem vai tornando-se
dominante e, o que é de especial valor para se pensar a atuação do Juizado, sendo cada vez
mais incorporada nos relatórios das assistentes sociais. Se no relatório elaborado após a
entrevista com a tia paterna, a ênfase da assistente social responsável é no “aspecto
emocional” das crianças, uma vez que “ambas as partes apresentam as condições básicas
necessárias para assumirem as responsabilidades dos menores no que tange a sua
subsistência, saúde e educação” e, por outro lado, “torna-se difícil compor os interesses das
partes”, na audiência realizada no Juizado, em abril de 1990, na qual Murilo e Diogo estão
presentes, essa posição sofre uma transformação.
Nessa audiência, sem que fique registrado que processos de negociação entre as
famílias e delas com os meninos possam ter tido lugar, Diogo, então com nove anos,
declara desejar morar com a tia paterna, por lá poder contar com mais crianças para brincar
e por estar “dando muito trabalho à tia Lia”. A mesma versão é reforçada por dª Lia e sua
filha, que declaram achar melhor que as crianças fiquem com a família paterna,
comprometendo-se a ajudar o casal (a tia paterna e o marido) que ficariam com a guarda.
Nessa audiência, portanto, a disputa formalmente encerra-se como acordo, inclusive com a

122
Mariza Corrêa, ao analisar casos “passionais” (ou seja, em que um dos parceiros amorosos mata o outro)
destaca a similaridade de etapas vivenciadas nesse tipo de crime pelos acusados: a quebra de uma regra básica
de relacionamento seria seguida por um momento de “crise”, sucedido, por sua vez, por um momento de
ajustamento e, por fim de reintegração (1983: 34). Pode-se pensar como essas diferentes fases implicam
reconstruções narrativas tanto ao longo da construção dos autos criminais, como na releitura pessoal do drama
e das identidades sociais postas em jogo através e a partir do drama.

139
sanção de um dos meninos, ao reproduzir o discurso que parece ter sido construído nesse
momento como discurso comum a todos.
Pouco mais de um ano depois, porém, dª Lia volta ao Juizado declarando sua
frustração com o “acordo” feito. Diz ter concordado em encerrar a disputa pela guarda dos
irmãos motivada pelo que acreditava ser o “melhor para eles” (sendo, segundo consta dos
autos, elogiada pela Curadora de Menores por seu “desprendimento”), mas que estaria
sendo impedida de vê-los pelo casal que assumiu sua guarda. Em razão desse quadro,
solicita a intervenção do Juizado, “no sentido de serem acordados dias em que os pequenos
Diogo e Murilo” ficariam com ela e sua mãe, bisavó das crianças. Embora não haja registro
no processo do sucesso ou não da demanda feita por dª Lia (há o registro de ter sido
convocada uma audiência, mas não os seus desdobramentos), fica claro que o “acordo”
não foi capaz de suplantar a dimensão de disputa entre famílias presente na definição da
guarda dos meninos. O recurso ao Juizado aparece, então, como o canal possível para
definir os termos da “partilha” das crianças, desta vez traduzida no estabelecimento
formal de dias de visita.

Desse ponto em diante, o processo permanece sem maiores dados até 1996, ano em
que o pai de Diogo e Murilo sai da prisão por ter cumprido um terço da pena a que tinha
sido condenado. Frente a esse novo quadro, os guardiães das crianças procuram o Juizado
para oficializar a “devolução” da autoridade formal sobre os meninos para o pai. Para além
de um componente que já tinha ficado claro desde que expressaram o desejo de ficar com a
sua guarda, qual seja, o de permitir com isso a manutenção e redefinição dos laços entre pai
e filhos, um novo elemento aparece com força na sua narrativa: a idéia de “recuperação” do
pai e a importância da formalização de sua relação com os filhos para que essa
“recuperação” se dê plenamente. Segundo a tia paterna, irmã de Marcos,
“na sua avaliação ele é hoje um homem totalmente recuperado e disposto
a reorganizar sua vida, ao lado dos filhos a quem sempre estimou. Após
sair da prisão, o genitor foi morar com a requerente e com a mãe num
terreno comum a todos, onde se construiu um espaço para ele e os filhos
morarem.(...)
Esclarece que tanto ela quanto o esposo e a avó paterna continuarão
assistindo os menores, até porque todos moram no mesmo local.
Entretanto, percebe que para o genitor seria importante ter garantido o seu
direito de pai para que sinta maior segurança e livre do incômodo que é
não poder assumir seus filhos. Estimulam a sua atuação em todas as

140
atividades referentes aos filhos e o sr. Marcos vem conseguindo atender a
isto, participando, por exemplo, de reuniões na escola, explicando-lhes os
deveres de casa etc”

Segundo sua versão, portanto, não estaria em jogo a “assistência” concreta a Diogo
e Murilo, já que esta continuaria a ser feita pela parentela mais próxima, inclusive pelo
dado de moradia conjunta, mas sim do efeito positivo que recuperar “direitos de pai”
poderia ter para Marcos. O discurso da recuperação, inclusive em termos de avaliação do
período cumprido na prisão, é feito também, de formas diferentes, pelo pai e pelos filhos.
Na fala de Murilo, o filho mais novo, “o pai está mudado”, o que faz com que expresse seu
desejo de continuar morando com ele, mas afirmando que ele e o irmão “continuariam
obedecendo também à avó e aos tios”. Se a autoridade é o bem simbólico crucial que
circula nos processos de guarda, a “obediência” prometida à família como um todo
naturaliza a transferência da autoridade formal para o pai, sem que isso possa representar
um risco maior de desordem. Diogo, o filho mais velho, faz também eco ao discurso
dominante da recuperação do pai e da manutenção do laço entre eles ao afirmar que “há
alguns anos passaram por uma fase difícil, porque não se conformavam com a perda da
mãe”, mas que “o importante é daqui para frente”. A narrativa sobre a superação do drama
maior – o assassinato da mãe pelo pai – e dos dramas subseqüentes – a disputa entre as
famílias pela guarda, a reivindicação do pai para que os filhos fossem vê-lo na prisão –
aparece, desse modo, incorporada também por aqueles que seriam ao mesmo tempo objeto
e parâmetro do processo no Juizado. Por fim, o próprio pai expressa suas razões para
desejar ter novamente a guarda dos filhos, mais uma vez utilizando-se da gramática da
recuperação e da superação:
“(...) [Marcos] sente-se feliz em poder estar com os filhos, a quem se
refere como sendo a razão de sua vida. Emociona-se ao falar do passado e
atribui o seu gesto a um momento de desespero. Admite o erro e se
considera uma pessoa recuperada. Acha que a prisão fez com que
amadurecesse e hoje se considera um outro homem. Deseja dar aos filhos
uma boa formação e vem participando das atividades deles, como forma
de recuperar o tempo perdido”.

O “erro”, o “momento de desespero” como releituras do passado, bem como a idéia


do tempo passado na prisão como tempo de “amadurecimento” e transformação (ser “um
outro homem”) coadunam-se, na fala do pai, com as noções expressas nas falas da tia e das

141
crianças. Nesse caso, portanto, a idéia de preservação da unidade doméstica – mesmo em
detrimento de outra unidade que em dado momento esteve presente como litigante –
conjuga-se, por um lado, com a produção de um certo “esquecimento”, como ficou
especialmente claro na fala de Diogo; por outro, com o restabelecimento de uma posição
socialmente plena de pai para Marcos. Os “direitos de pai” aparecem, desse modo, como
parte de sua redefinição social e, nesse sentido, como parte de uma economia mais ampla
de ordem social.

Caso 7: Acusações sexuais e acordos: o processo de Lucas

O processo pela adoção de Lucas, de sete anos, por seus guardiães, tem início em
dezembro de 1990, sendo que a guarda formal havia sido decidida seis anos antes, em 1984.
Os guardiães, Alberto e Matilde, eram patrões de Graça, mãe do menino, quando esta teve
o filho. O desejo de transformar a situação de guarda, já definida há vários anos, em
adoção, é motivada, segundo os guardiães, pelo impacto negativo que as visitas da mãe
estariam tendo sobre Lucas, tornando-o “ansioso e intranqüilo”. No mesmo documento,
porém, estes apresentam também outros motivos que teriam sido ocultados durante o a
requisição da guarda do menino e que diriam respeito à conduta moral da mãe,
notadamente referentes a atos sexuais praticados com o filho. Desse modo, ao invés de um
processo centrado no acordo entre as partes, como teria ocorrido quando da definição da
guarda, desta vez estaria em jogo o pedido de cassação integral do pátrio poder da mãe e,
em conseqüência, a substituição definitiva da maternidade através da adoção.

Alertando, como foi dito acima, que certos “fatos repudiados pelos bons costumes”
haviam sido encobertos durante o processo pela guarda de Lucas, os guardiães recuperam
ações que teriam ocorrido quando a criança tinha quatro meses de idade para comprovar a
inadequação moral e psíquica da mãe. Segundo seu relato,
“Após o parto, voltando a srª Graça às atividades normais perceberam os
demandantes sérios e comprometedores desvios de conduta da
mencionada senhora.

142
Certa feita, quando o menor atingia o 4º mês de vida, Cláudia, filha dos
requerentes, então com vinte anos de idade, flagrou a demandada
praticando sexo oral com o passivo Lucas.
A reprovável e repugnante conduta foi justificada pela agente como de
praxe familiar, uma vez que suas irmãs assim também procediam com os
próprios filhos.
Sob impulso dos mais respeitáveis valores éticos e morais, lograram os
requerentes, em regular processo, a guarda e responsabilidade de Lucas”.

A invocação de um dado de acusação, ocultado das instâncias judiciais durante seis


anos, é feita neste momento, ao que tudo indica, como forma de renegociar uma situação
que teria se tornado incômoda para os guardiães. A dissolução relativa e não-absoluta da
maternidade, representada pelo acordo de guarda, apresenta-se nesse momento como
insatisfatória e, baseando-se no princípio do melhor interesse da criança, os guardiães
pedem pela cassação do pátrio poder, sublinhando, inclusive, ser este um direito “relativo”
e não “absoluto” ou “despótico” de acordo com a nova legislação. A “inabilitação da mãe”
para o exercício de seus deveres, como colocam os guardiães em seu pedido, contraposto à
relação que já teria sido estabelecida ao longo dos anos entre eles e a criança, bem como os
privilégios materiais de que Lucas desfrutaria (ser beneficário do sistema médico e
previdenciário do Ministério do Exército, freqüentar o Clube Militar como dependente do
guardião e cursar estabelecimento de ensino privado) configurariam o quadro capaz de
legitimar a conversão da guarda em adoção.

Uma vez apresentado o pedido de cassação do pátrio poder, porém, novas acusações
vêm à tona, de ambas as partes, deixando perceber que a ruptura expressa no pedido dos
guardiães, bem como a escolha por recuperar uma acusação de anos atrás estão
relacionadas ao avanço de tensões na relação entre a mãe e os guardiães, tensões essas
expressas também através de acusações sexuais dirigidas não dos guardiães para a mãe
mas, ao contrário, da mãe a eles. Em documento de contestação formal elaborado através
da Defensoria Pública, Graça, a mãe, apresenta a seguinte versão do conflito:
“A contestante, antes do Natal/90, fora visitar o filho e observou que o
mesmo estava com manchas do lado do ânus e a contestante perguntou ao
filho, na presença do primeiro autor [o guardião], o que vinham a ser tais
lesões, preocupada por ser o filho quase um homenzinho.
Obteve como resposta do menor a seguinte frase: ‘eu não sou mais
homem, homem já era’.

143
A contestante então procurou satisfações com a segunda autora [a
guardiã], sendo que esta ‘piscou’ o olho para o menor e disse para a
contestante: ‘você não terá meios de provar nada’” .

O texto sexual torna-se, desse modo, a linguagem de acusação de ambos os lados,


acompanhado, no caso dos argumentos da mãe, pela representação dos guardiães como
estando conscientes da sua impossibilidade de comprovar as acusações feitas. Por outro
lado, como no caso do pedido de cassação do pátrio poder apresentado pelos guardiães, a
acusação sexual precisa compor-se com os outros elementos que fazem parte da situação
anteriormente acordada de guarda, ou seja, o fato de que efetivamente Lucas está com o
casal há vários anos. Se na justificativa dos guardiães há a composição entre a
representação negativa da mãe pelo lado moral e psíquico e a apresentação dos benefícios
sociais e afetivos que estes viriam dispondo para o menino, no caso da argumentação da
mãe, torna-se necessário recriar a história da cessão da guarda do filho, representada, como
em outros casos, como doação que só reforça suas qualidades de mãe, uma vez que teria
sido feita pensando no melhor para o filho. De acordo com sua versão,
“A contestante foi trabalhar como doméstica na casa dos autores quando
estava no 7º mês de gravidez. Os autores ajudaram a contestante durante
este período e ao nascer a criança demonstraram um intenso interesse em
ficar com o menor. Proibiam que a mãe amamentasse o próprio filho,
dizendo que a mesma era negra.
Quando o menor tinha 6 meses de idade, tentou a contestante sair daquela
casa e procurou a ajuda de sua irmã (...) para retirar os pertences do
menor e os seus próprios.
Os autores, então, lhe prometeram que ela podia continuar a trabalhar
com o filho e que seria doravante bem tratada e que nada mais lhe
aconteceria.
Passados três meses foi novamente agredida pela autora, sempre pelo
mesmo motivo: os autores desejavam que a contestante lhes desse o filho
e esta não aceitava o pedido.
Conseguindo sair daquela casa, foi com o menor para a casa de uma
amiga (...), sendo descoberta pelo autor que lá chegou chorando e dizendo
que ele e a autora não podiam viver sem o menor.
Como mãe pobre e desejando dar ao filho uma vida melhor, aceitou a
proposta, encontrando-se hoje completamente arrependida pelos fatos que
vêm ocorrendo e ainda porque não lhe permitem sequer uma visitação
digna ao filho, não deixando a contestante sair com o menor, nem beijá-
lo, nem conversar com o menino sem a presença dos autores”.

144
A história da guarda, do modo como contado pela mãe, assume a forma de um
“cerco” premeditado visando fazê-la “dar o filho”, ao qual ela teria procurado resistir
buscando ajuda entre parentes e amigos, mas terminando por ceder aos apelos dos
guardiães, em parte por comoção com a necessidade que estes afirmavam sentir do menino
e em parte pela preocupação com o próprio filho. Em todo o seu relato há a tentativa em
reforçar seu lugar materno e, em contraposição, em mostrar os esforços dos guardiães em
esvaziar esse lugar, inclusive na proibição à amamentação e, atualmente, ao que classifica
como uma visitação digna, o que incluiria o contato físico e a autonomia da relação (“beijá-
lo e conversar com o menino sem a presença dos autores”). Em outra passagem do mesmo
documento, a mãe destaca que “o que os autores fornecem ao menor é tão somente
assistência material e nada mais”, separando, desse modo, o capital de que os guardiães
disporiam do seu próprio.

Uma primeira forma de ler o conjunto de acusações sexuais apresentado por ambos
os lados pode ser, então, como construção de um complexo de atributos positivos e
negativos que as partes em conflito procuram demarcar para si e para seu antagonista. Nos
dois casos, as acusações sexuais funcionam como ponto limite da representação negativa do
outro, da sua inadequação para manter a guarda – e, em última instância, o pátrio poder –
sobre o menor que está sendo disputado. Assim, ao invés de aparecerem no processo como
acusações formais, surgem como parte da composição de um quadro mais amplo dos
envolvidos e, especialmente no relato dos guardiães sobre a mãe, como um dado passado,
agora recuperado como parte das justificativas para pedir a alteração do status legal de sua
relação com a criança. Já as acusações da mãe são, ao mesmo tempo, a resposta dada à ação
movida pelos guardiães para conseguir a adoção de Lucas e, como fica claro ao longo dos
depoimentos registrados no processo, o ponto de acirramento das tensões entre todos os
envolvidos.

Chamada a depor, Graça relata novamente as pressões que teria sofrido anos antes
por parte dos antigos patrões para “dar o filho”, alegando que este nunca havia sido seu
próprio desejo, mas que “desde que o menino nasceu o casal fica com essa agonia com o
menino, não querendo entregá-lo” e que só teria concordado em deixá-lo com os guardiães
porque Alberto havia prometido “que não lhe tomaria o filho”. Em certa ocasião, porém,
teria sido vítima de uma estratégia ardilosa por parte do casal, que a teria feito assinar um

145
documento em branco, afirmando depois que com isso “não teria mais direito ao filho”.
Quanto às acusações sexuais, afirma ter visto várias vezes “o short do filho manchado de
esperma”, mas nega ter feito “escândalos” por isso, como a acusam os guardiães. Retrata
ainda as dificuldades que teria em manter contato com o filho tanto pelos empecilhos
colocados pelos guardiães às suas visitas, quanto pela influência que exerceriam sobre a
criança, que teria, a seu ver, vontade de chamá-la de mãe, não o fazendo porque os
guardiães “não deixam”. Por fim, neste mesmo depoimento, Graça afirma que concordaria
em rever sua posição de exigir o cancelamento da guarda do filho em favor dos guardiães
se “o juiz regulamentasse as visitas, permitindo que tivesse o filho consigo nos fins de
semana, nas férias escolares, no aniversário e etc”, mas que mesmo nesse caso não
concordaria com a adoção, mas apenas com a manutenção da guarda.
O casal é inicialmente refratário ao acordo proposto pela mãe, insistindo na
cassação do pátrio poder, em função dos “notórios desvios mentais” que esta apresentaria,
levando adiante o conflito. No documento formal de contestação ao depoimento de Graça,
o advogado que representa o casal a acusa de querer “apenas posar como mãe”, alegando
ainda que “tivesse equilíbrio, ante suas reconhecidas dificuldades econômicas, se associaria
à grande obra que realizam Matilde e Alberto, através de fraternos e carinhosos contatos
com o filho”. A legitimidade da maternidade de Graça é posta em questão, como fica claro,
tanto pelas acusações de “desvios mentais”, quanto de pouca generosidade e
responsabilidade para com o filho, uma vez que não reconheceria suas próprias limitações
financeiras para criá-lo. Oscilando entre os extremos da incapacidade completa da mãe, que
justificaria a ruptura total do laço de maternidade, com a cassação do pátrio poder, seja por
sua conduta moral ou por suas condições psíquicas, e a possibilidade da manutenção do
acordo com a domesticação de sua conduta, o documento de contestação é construído nos
mesmos termos do depoimento da mãe: ratificando representações da generosidade
materna, acenando com a ruptura total entre mãe e guardiães como horizonte do conflito
que se desenrola, mas mantendo a porta aberta para a negociação, caso a ruptura não seja
possível ou se desenhe desfavorável para a parte que apresenta seus argumentos.
No depoimento dos guardiães, por sua vez, novamente a história não contada do
acordo de guarda aparece, desta vez como marcada por rupturas por parte da mãe. Segundo
Alberto, o guardião, a mãe

146
“depois de um determinado tempo que havia concordado com a guarda
legal, compareceu na Delegacia do bairro a fim de prestar queixa contra
eles, alegando que o casal estava com o seu filho sem a sua aprovação, o
que foi desmentido pelo requerente que apresentou, na ocasião, uma
declaração que ela mesma assinou concordando com a referida medida.
Não sabendo mais o que argumentar, segundo ele, a Sr.ª Graça alegou,
então, que foi ameaçada por este com uma arma de fogo, para que
assinasse o mencionado documento. Desde essa época, eles mantêm com
a referida senhora uma relação conflituosa, havendo períodos mais
calmos e outros tumultuados.
O casal, de comum acordo com ela, marcou os domingos para a visita
desta ao filho, procurando junto da criança não fazer qualquer comentário
acerca do comportamento materno, tentando, dessa forma, poupá-lo de
maiores dissabores”.

Em lugar das acusações sexuais que fizeram parte da contestação ao comportamento


da mãe no documento que iniciou o processo, nesse depoimento têm destaque, por um lado,
o rompimento do acordo prévio, inclusive com a utilização de falsas acusações e, por outro,
a representação do casal como responsáveis por preservar a criança, abrindo mão de criticar
abertamente a mãe.
Nesse processo de construção de imagens positivas e negativas em torno do
“interesse da criança” são ainda agregados novamente os bens de cuidado que já haviam
aparecido antes no discurso de todos – dos guardiães, ao citarem os bens previdenciários e
de lazer a que Lucas teria acesso estando como seu dependente legal; da mãe, nas falas
sobre a “doação” do filho como algo que faria parte de suas preocupações. Além de constar
da visita da assistente social o registro do quarto que a criança teria e dos brinquedos que
fariam parte dele – bens simbólicos do cuidar – o próprio Lucas reforça, na sua conversa
com a assistente, o quanto esses bens (e o discurso sobre eles) está presente na avaliação
que faz sobre a situação de disputa em que se vê colocado. Segundo o relato da assistente
social, Lucas
“disse-nos que quando ela chega lhe dá um beijo no rosto e ele retribui.
Depois, às vezes, ficam jogando bola ‘chute ao gol’, acrescentando que
ela não consegue agarrar o mesmo número de bolas que ele. Entre uma
frase e outra sobre o desempenho de ambos neste jogo, indagamos se
gostaria de conviver somente com ela, tendo ele nos respondido de forma
negativa, dizendo que se fosse viver com ela perderia ‘as coisas’ que tem
agora, tais como: amigos, brinquedos, casa, passeios, etc...
Indagado acerca do que achava da Sr.ª Maria das Graças, se gostava dela,
este revelou-nos que não gosta quando ela lhe xinga, não entendendo o

147
motivo desta ter falado ‘aquilo’ sobre ele e acrescentou que ‘às vezes ela
até fala legal e às vezes não’”.

Embora o drama em torno das acusações sexuais continue presente, inclusive na fala
do menino, o que passa a ocupar cada vez mais um lugar central no desenrolar do processo
é a economia do que cada um teria a oferecer, economia essa que mescla signos dos afetos
– as brincadeiras feitas, o tipo de intimidade, quem é chamada de mãe – e o que pode ser
oferecido como parte do cuidado, dos bens materiais e simbólicos que justificariam o
objetivo de “guardar” a criança, ou seja, geri-la até a maioridade. A predominância dessa
economia de argumentos e avaliações por todos obscurece a linguagem da acusação sexual
sem superar, porém, a dinâmica do conflito. Cada vez mais, entretanto, o que está em jogo
são os termos dessa negociação e menos a desqualificação absoluta de uma das partes. A
ação de ruptura transforma-se, progressivamente, em ação de acordo, como uma releitura e
reformalização do acordo de guarda feito antes.
Em nova entrevista, Graça continua a mostrar-se totalmente contrária à adoção do
filho, mas essa recusa coincide cada vez mais com o território argumentativo que vem
sendo construído por todos, inclusive através da fala do filho, reproduzida e destacada pela
assistente social. Segundo a mãe, a recusa à adoção está ligada ao fato de “não desejar
perdê-lo definitivamente, sabendo que se o fizer não poderá mais vê-lo, como ainda
acontece aos domingos”. Afirma ainda que
“pretende não tirá-lo, crendo no direito que tem por ser mãe, da
companhia dos requerentes, somente se ele assim o quiser, por não
desejar privá-lo de tudo aquilo que tem ao lado deles. Entretanto, quer vê-
lo com mais liberdade e ainda poder levá-lo para passear consigo”

Os “direitos de mãe” aparecem, portanto, em duas dimensões na argumentação e


nas atitudes de Graça: como direito de efetivamente impedir a transformação da guarda em
adoção e, valendo-se desse recurso legal (já que Lucas não poderia ser adotado à sua
revelia), de negociar os termos em que a guarda seria mantida. A consciência do capital de
barganha de que, como mãe, ela dispõe, fica claro na audiência seguinte, em que insiste não
apenas no fato de não aceitar a adoção, mas na recusa à própria guarda, declarando querer
“o filho de volta”. Frente ao endurecimento da posição da mãe, os guardiães finalmente
recuam no pedido de cassação do pátrio poder, retornando a juízo alguns dias depois,

148
declarando terem chegado a uma “composição amigável” que, após algumas modificações,
acaba consistindo no direito de visita da mãe durante um dos dias do fim de semana, das 10
às 17h, de visita livre durante as férias, nos aniversários do filho e da mãe e no Natal.
No momento em que esse acordo é formalizado, as acusações sexuais de ambos os
lados desaparecem por completo, transformadas no máximo em um aconselhamento da
assistente social junto à mãe, colocado no seu relatório da seguinte forma:
“procuramos lhe lembrar o quanto é prejudicial para o equilíbrio físico e
emocional da criança, ser alvo de tais discussões e conseqüentes disputas,
lembrando-lhe ainda que o mesmo está em fase de crescimento e com isso
formando a personalidade e definindo os caracteres pessoais, sendo-lhe
bastante constrangedor ser colocado em dúvida o seu sexualismo”.

O andamento do processo indica, desse modo, a operação de um trabalho


conciliador por parte dos profissionais do judiciário, em que acusações que poderiam ser
tomadas como limites para as próprias representações de infância, como aquelas
envolvendo o que em geral é representado na legislação e em publicações do campo
temático da infância como “abuso sexual”, é convertido em ajustamento dos termos de
guarda. O aconselhamento da assistente social em relação à mãe apresenta uma leitura
psicologizante do tema da sexualidade para a infância e das implicações que tais acusações
poderiam ter para a criança, ao mesmo tempo em que cumpre um papel pedagógico-
conciliador que esvazia a acusação em si mesma.
O questionamento ao comportamento sexual dos guardiães, que havia sido
levantado pela mãe e que, ao que tudo indica, acirrou as tensões entre todos e contribuiu
para que o casal tentasse transformar a guarda em adoção, anulando legalmente o vínculo
entre mãe e filho, é transformado em uma dimensão de um processo mais amplo de disputa.
São “as discussões e conseqüentes disputas” que são representadas como negativas pela
assistente social em sua fala para a mãe, e não a possibilidade de que qualquer das
acusações sexuais feitas pelas partes seja verdadeira. O trabalho de montagem do processo
é, nesse caso, um trabalho de silenciamento sobre aquilo que seria verdadeiramente
incontornável, caso restasse comprovado por um dos lados (o comportamento sexual) em
nome da resolução conciliadora de conflitos. Novamente o que se tem aqui, portanto, é o
predomínio da unidade doméstica como um todo, nesse caso composta através do acordo de
visitação entre mãe e guardiães, frente ao que seria a representação centrada no indivíduo –

149
o menor “sexualizado” pela patologia de uns ou outros. A desimportância progressiva da
questão sexual é a possibilidade de manutenção do acordo e, com ele, da fixação de Lucas
em uma casa.
Por outro lado, cabe ainda destacar que o capital desigual entre os envolvidos não
representou nesse caso, como havia ocorrido no caso de Anderson, descrito antes, a derrota
completa da mãe, uma vez que esta consegue conciliar o fato de ter passado a guarda do
filho para o casal com as representações do seu papel como mãe preocupada com o melhor
para o filho. Ao mesmo tempo, deixa claros os seus esforços em manter o contato com ele,
acusando os guardiães de impedirem que esse se dê de uma forma mais completa. Graça
não sucumbe à imagem de alguém totalmente incapaz de recuperá-lo, caso deseje. Sua
insistência em não só negar o pedido de adoção, mas ir adiante e romper com o acordo de
guarda, caso necessário, a coloca, sobretudo, em uma posição de negociação mais favorável
do que se poderia supor em um processo iniciado com a situação de guarda estabelecida
previamente e com uma ofensiva dos guardiães em relação à mãe, questionando seu
comportamento do ponto de vista psíquico e moral.
Por fim, cabe ainda destacar um último elemento: a analogia entre as negociações
feitas por casais pela guarda de filhos nas Varas de Família e a que tem lugar no Juizado
entre o casal guardião e a mãe. O acordo final estabelece dias de visita, partilha entre Natal
e Ano Novo, visitações em dias de aniversário. A “guarda partilhada” que se estabelece na
prática entre mãe e guardiães os configura como uma única unidade, senão de parentela ou
coabitação, ao menos de autoridade sobre e a partir da gerência da menoridade de Lucas.
Nesse sentido, como havia sido indicado na Introdução dessa parte, pode-se pensar a
construção dinâmica de uma unidade “familiar” (cujo ego é o menor) a partir da
experiência da negociação junto às instâncias judiciais. Se a proposta inicial dos guardiães
era de rompimento com o vínculo que o primeiro acordo de guarda havia estabelecido,
eliminando a mãe como um elemento constituinte da sua relação com a criança, pelo
desenvolvimento do processo, a solução produzida não apenas mantém esse vínculo, mas o
formaliza ainda mais. Desse modo, é possível tomar a experiência de confronto e
conciliação formal que tem lugar no Juizado como experiência não apenas ratificadora das
unidades familiares ou, em sentido mais amplo, domésticas, mas sua construtora, mesmo
que para isso se torne necessário modificar e silenciar argumentos de todos os envolvidos.

150
Antes de desenvolver melhor algumas das implicações desse processo, porém, gostaria de
apresentar um último caso.

Caso 8: Crianças recolhidas, crianças devolvidas: a ciranda de Ana e Elisa

Em outubro de 1989, a srª Albertina Ribeiro buscou o Juizado para solicitar a


guarda de Ana, então com oito anos de idade e vivendo em uma instituição mantida pela
Igreja Católica. No pedido, a srª Albertina informa que já vinha visitando a menina há cerca
de dois anos e que esta teria por ela, requerente, “grande afeto”, o que a motivou a pedir sua
guarda. Na entrevista para concessão da guarda provisória, a srª Albertina, então com 66
anos, relatou que sempre viveu com a mãe e que, com o seu falecimento, “começou a
pensar em um sonho antigo que era poder ser guardiã de uma criança”, acrescentando ainda
que “em sua família várias pessoas já haviam adotado essa medida, tendo inclusive uma
irmã de criação, que por sua vez adotou também uma menina”123. Sobre a sua ida ao
Educandário onde Ana se achava internada, afirmou que foi indicada por uma vizinha e
que, lá chegando, uma das Irmãs responsáveis pela instituição a apresentou a Ana. Ainda
segundo seu relato, declarou que se afeiçoou à menina, “acreditando que poderia
concretizar o seu sonho”. Após a realização do estudo social, ao longo do qual a assistente
social responsável afirmou que Ana teria se apresentado “com boa aparência, embora
inibida”, manifestando desejo de continuar a viver com a srª Albertina, a guarda provisória
é transformada em permanente.
Pouco mais de um ano depois, em janeiro de 1991, a mesma requerente procurou o
Juizado para adotar outra criança, Elisa, irmã de Ana e que se encontrava internada em
instituição estatal. No pedido que inicia o novo processo, a srª Albertina declarou que
gostaria de adotar os dois irmãos de Ana (além de Elisa, com cinco anos, havia Edson, um
menino de nove anos), mas que não teria condições econômicas para tanto, precisando
restringir sua iniciativa à irmã mais nova. Baseando-se no que qualificou como um
“excelente relacionamento” com Ana, a srª Albertina declarou desejar pedir diretamente a

151
adoção de Elisa, medida que pretendia tomar também com relação à irmã mais velha que já
se encontrava sob sua guarda. O parecer do estudo social realizado para esse pedido foi
favorável, com a assistente social tendo deixado registrado que procurou alertar a
requerente de que, apesar de irmãs, as duas meninas provavelmente apresentariam
comportamentos diferentes. Mais uma vez, portanto, o perfil de aconselhamento da ação
dos assistentes sociais foi explicitado ao longo do processo, aliado nesse caso ao
prognóstico positivo emitido pelos profissionais, em razão do qualificaram como “êxito” na
relação com Ana. Sobre a requerente, especificamente, a assistente social responsável
registrou que essa “demonstra sensibilidade, amadurecimento e equilíbrio emocional”.
Em março do ano seguinte (1992), porém, a srª Albertina encaminhou ao Juizado o
seu pedido de desistência da adoção de Elisa, alegando que esta “não atende mais à
requerente e vem apresentando péssimo desempenho escolar”. Alguns meses se passaram
sem que novos registros fossem produzidos até que, em junho, ocorreu uma entrevista com
a srª Albertina e as duas meninas. Nessa ocasião, a requerente afirmou ter desistido de sua
intenção de não ficar mais com Elisa mas, em compensação, pretender, segundo o termo
utilizado no processo, “devolver” Ana, que morava com ela há mais tempo. Do relatório da
assistente social constam os seguintes motivos para essa decisão:
“Esclareceu que os motivos que a levaram a tomar tal decisão estão
relacionados à mudança de comportamento da referida menor [Elisa].
Disse que conversou longamente com Elisa e a informou sobre sua
intenção de devolvê-la. A partir de então a menor em questão se
modificou totalmente, fazendo com que a requerente repensasse a sua
decisão. Notamos que a menor Elisa é uma menina ativa, extrovertida,
muito alegre, o que a torna bem diferente de sua irmã, Ana, de 12 anos.
Esta menor, por sua vez, é tímida, introvertida e com dificuldades de se
expressar. (...)
Dª Albertina informou que estava pensando em devolver Ana (...).
Esclareceu que Ana regrediu nos estudos, não está obedecendo e que está
muito preocupada com o futuro da menor, por estar quase na fase da
puberdade, o que poderá trazer problemas sérios para a requerente, se a
menor continuar com esse tipo de atitude”

Dois elementos podem ser destacados nas decisões e justificativas da srª Albertina:
o cálculo dos custos – o ônus – de criar as meninas, projetando para a fase da puberdade de

123
As tradições familiares de adoção aparecem em vários processos, como forma de reforçar o pedido e
legitimá-lo também pela perspectiva das unidades familiares mais abrangentes. Esse ponto será melhor

152
Ana a expectativa de problemas maiores, e a compreensão da guarda como uma situação
passível de “devoluções”. Nesse sentido, a desistência de um determinado projeto, como o
de criar as duas meninas, sedimentou-se na linguagem do processo como uma ação de
retorno não apenas unilateral, mas marcado pelo direito assimétrico de interromper
determinada relação em virtude da frustração de certas projeções – como as feitas sobre o
comportamento ideal das duas meninas. A “devolução” denota aqui algo muito diverso das
situações em que a internação é representada como alternativa aparentemente temporária
para a criar os filhos. Não se trata, portanto, de uma ciranda entre famílias ou unidades
domésticas e instituições de internação, mas de reenviar para o local de origem aqueles que,
por qualquer razão, não conseguiram atender às expectativas de quem se apresentava ao
mesmo tempo como demandante e como solução para um “problema social” (as crianças
institucionalizadas).
A lógica expressa pela guardiã na figura da “devolução” das crianças pode ser
tomada, desse modo, como homóloga à do circuito de mercadorias, em que a insatisfação
daquele que buscou determinado bem pode ser expressa e solucionada através desse
expediente unilateral de retornar o “produto” à sua fonte. Por outro lado, fica claro no
depoimento registrado que a possibilidade da “devolução” foi utilizada, dentro da relação
da guardiã com as meninas, como mecanismo de negociação sobre o comportamento dessas
últimas. Ou seja, se por um lado está presente na formulação do depoimento, o que poderia
ser caracterizado como uma assimetria mais típica das relações de mercado ou de consumo
individual, por outro está evidente a construção de uma barganha na linha da
educação/criação dentro de unidades familiares: o castigo, a punição através da suspensão
de um privilégio concedido – nesse caso, o privilégio de não ser mais uma criança
institucionalizada, de “ter” uma casa, uma família. Não à toa, o registro da mudança de
comportamento de Elisa surgiu como justificativa para a revisão da decisão anterior de
“devolvê-la”, mostrando que a negociação punitiva surtiu o efeito pretendido.
A intervenção da assistente social, por sua vez, se fez sob a forma de um
aconselhamento pedagógico, evidente na idéia de prestar um “esclarecimento” sobre o
comportamento de Ana, tipificado pela assistente como próprio de uma categoria de
crianças, as que experimentaram a vivência da rua. Desse modo, a atitude em relação à

discutido no capítulo 5.

153
decisão da srª Albertina não apenas mobilizou as estratégias já vistas em outros casos de
intervenção através do aconselhamento, mas instaurou ou consagrou a assimetria entre o
discurso profissional, eivado de categorias psicologizantes, e o discurso leigo, caracterizado
por expectativas impossíveis de serem realizadas e pela estratégia punitiva. Segundo o
relato da assistente social,
“Esclarecemos que Ana passou por experiências que Elisa, por ser um
bebê de colo à época de sua internação, não vivenciou. Ana, por ter
vivido com população de rua, desenvolveu mecanismos de defesa, que
sempre coloca em prática ao se sentir insegura. Esta senhora concordou
com todas as nossas ponderações e acrescentou que reconhece que a
transferência de escola foi prejudicial à Ana e que vai tentar uma bolsa de
estudos para as duas irmãs”

Ao chamar a atenção para o peso da transferência de escola – uma reclamação


expressa por Ana à assistente social – a intervenção profissional ganhou o sentido de
mediação entre a menina e sua guardiã, comunicando, sempre no tom do “esclarecimento”,
o que seria a contrapartida das queixas da srª Albertina sobre o mau desempenho escolar de
Ana, coisa que ou a própria menina não conseguiu expressar ou que, caso tenha falado em
algum momento anterior, não recebeu da srª Albertina a devida importância. Nesse sentido,
a fala de Ana, retrabalhada pela assistente social, ganhou um peso que por si só não tinha
sido possível antes, destacando mais uma vez a dimensão de autoridade dessas mediadoras.
A conclusão desse relatório, apesar das hesitações da guardiã quanto a devolver ou
não qualquer uma das meninas, ainda foi favorável à guarda. A representação de um
“passado traumatizante”, como possível responsável pelas dificuldades vividas por Ana em
seu relacionamento com a guardiã, é aventada na conclusão, sendo aconselhado
acompanhamento psicológico para a menina. A invocação da imagem tipificada do que
seria a infância na rua, seguida por outro conjunto de imagens igualmente tipificadas sobre
as infâncias institucionalizadas desempenharam, nesse momento do processo, a
possibilidade de reconhecer uma situação problemática, mas ainda preservar a legitimidade
da guarda e, conseqüentemente, da própria guardiã. Na conclusão, a assistente destacou que
“Dª Albertina demonstrou zelo com a guarda das menores”, afirmando ainda que respeitava
“a indecisão da mesma com relação à menor Ana”.
Em dezembro do mesmo ano, porém, esse arranjo argumentativo começou a se
tornar insustentável. A entrada em cena de uma nova personagem profissional, a psicóloga

154
encarregada de acompanhar Ana e, em razão disso, estabelecer contato também com a sua
guardiã, produziu um novo tipo de discurso. À generalização anterior apresentada pela
assistente social sobre os custos emocionais da infância na rua foi contraposta uma
avaliação singularizada da guardiã, indicando a sua desautorização para ficar com as
meninas ou, nesse momento pelo menos, com Ana. No seu relatório, a psicóloga apresentou
a situação nos seguintes termos:
“D. Albertina, durante todo esse período, preocupou-se em proporcionar
às menores uma boa assistência no que se refere à alimentação, educação,
saúde e vestuário, demonstrando ser uma pessoa bem intencionada no
bem estar das crianças. Porém entre ela e Ana não foi possível se
estabelecer uma ligação afetiva capaz de superar as dificuldades de
relacionamento inerentes à convivência entre ambas.
D. Albertina tem valores educacionais rígidos e ultrapassados. Ela está
com 69 anos e não tem nenhuma flexibilidade para lidar com os intensos
desafios da tarefa a que dispôs. Ela é, também, uma pessoa afetivamente
carente e esperava que as menores preenchessem a sua vida. Sua
formação pessoal e educacional, distanciada da realidade da criança
desassistida, não lhe permite compreender, nem tolerar.
Em nossa intervenção, observamos que, além de decidida a devolver Ana,
a guardiã mostra-se resistente a qualquer orientação: Em nosso
entendimento, a crise atual com Ana repetir-se-á, também, com Elisa. É
provável que D. Albertina não consiga manejar as dificuldades típicas ao
crescimento de Elisa, tal como acontece agora, em crise agravada pela
entrada na adolescência, com a irmã maior.
Ante o exposto e, mesmo considerando as dificuldades que a devolução
poderá acarretar, de imediato, nosso parecer é que as duas irmãs retornem
ao internato, tendo em vista o fracasso das colocações e o prognóstico
desfavorável, a longo prazo”.

É bastante significativo que a psicóloga tenha iniciado seu parecer ressaltando as


boas intenções da guardiã, algo que permite ao mesmo tempo resguardar o parecer anterior,
emitido pela assistente social, e preservar uma ação socialmente percebida como positiva.
Nesse sentido, pode-se pensar que essa estratégia argumentativa buscou, antes de mais
nada, não romper com um postulado moral partilhado por todos: o da bondade e abnegação
dos que acolhem, dos que se oferecem como possibilidade àqueles que, em princípio,
estariam restritos às opções mais contraditórias com o ideário da infância (a rua ou a
instituição)124. Essa representação positiva foi parcialmente revertida, porém, com a

124
Cabe aqui lembrar a análise de Boswell (1988) sobre a “bondade dos estranhos” e, como em outros casos
vistos antes, o bônus social obtido a partir das representações de ser alguém disposto a se sacrificar – a bancar

155
imagem da guardiã como “uma pessoa afetivamente carente”, cuja motivação principal para
o ato realizado teria sido não a abnegação de acolher as meninas, mas o preenchimento de
sua própria vida. Desse modo, aquilo que em princípio poderia ser tomado como ato
altruísta ganhou a tonalidade, através das palavras da psicóloga, de algo egoísta, no sentido
de estar centrado quase que exclusivamente no desejo da guardiã.
Por outro lado, a representação dos interesses da guardiã só se tornou efetivamente
negativa quando rompeu a retórica mais evidentemente moral para ganhar a forma de
avaliação profissional da psicóloga sobre ela. Além da caracterização de seus valores
educacionais como sendo “rígidos e ultrapassados”, estabelecendo uma hierarquia clara a
partir do eixo atrasado-moderno, a percepção da srª Albertina como “resistente a qualquer
orientação” foi fundamental para inviabilizar a possibilidade de outro parecer favorável. Ao
indicar que não haveria como “modernizar” a guardiã, sob a forma pedagógico-profissional
da “orientação”, a psicóloga estabeleceu a sua condenação não apenas a partir da situação
vivida no momento mas, como ficou claro no final do parecer com a idéia do “prognóstico
desfavorável”, também para o futuro.
Desse modo, o relatório da psicóloga apontou para a necessidade de se cassar a
autoridade da srª Albertina ao contrapô-la a uma autoridade maior: a do discurso técnico
psicológico como fornecedor de diagnósticos. Ao mesmo tempo, não custa lembrar que tal
discurso só tem, nesse caso, poder de ação – para além de ter poder de produzir verdade –
na medida em que a psicóloga atua não como uma profissional individualizada no mercado,
mas como representante daquele que ainda detém, efetivamente, a autoridade sobre as
meninas, o Estado. Ou seja, o diagnóstico produzido no contexto do processo e das
negociações em torno da guarda e da virtual adoção das duas irmãs é também peça de
fiscalização, encarnando uma autoridade que transcende à da legitimidade dos discursos
profissionais sobre os leigos e que é a autoridade do Estado como detentor efetivo desses
bens em circulação, as crianças.
A partir da entrada em cena da psicóloga, algo só utilizado em casos considerados
especialmente problemáticos no seu desenrolar, o processo deixa de ter como mediadores
principais os assistentes sociais para se concentrar nas falas da própria psicóloga e nas
demandas da promotora que responde pela função de Curadora de Menores nesse processo.

o ônus, portanto – em nome de “criar” uma criança com a qual não se tem laços de sangue. O peso dessas

156
Assim, em maio de 1993, a Curadora indicou como medidas aconselháveis o retorno de
Ana à instituição religiosa de onde foi retirada pela guardiã, com a assistência da psicóloga
até sua adaptação, e a manutenção de Elisa com a guardiã, mas também com
acompanhamento psicológico. Percebe-se claramente o estabelecimento de uma tutela
profissional não apenas sobre a guarda desfeita, mas sobre a que permaneceu. O
prognóstico de que a situação negativa poderia se repetir com a irmã mais nova parece ter
sido tomado como legítimo, colocando a guardiã – e não apenas uma relação específica de
guarda – sob suspeita. Como se vê no trecho abaixo, retirado do novo parecer psicológico,
feito em junho de 1993, essa suspeita acabou tendo por conseqüência a desautorização
completa da guardiã não apenas no que se refere à Ana, mas também à Elisa:
“Após uma série de três atendimentos à Ana e à Dª Albertina, pude
observar o desejo da menina de retornar à instituição. Dª Albertina, por
sua vez, mostrou-se também, desde o início, irrevogável na decisão de
enviar Ana de volta à instituição. Acredito que não haja como reverter
esse quadro, diante do momento atual de convivência das duas.
Ana não se sente bem na casa de Dª Albertina e acredita que nunca se
sentirá. Pensa que viverá melhor na instituição. Conta que os dois
primeiros anos passados com Dª Albertina foram relativamente bons mas
que os dois últimos foram difíceis. Esta se tornou bruta, agressiva e
nervosa, segundo Ana. Gosta de Dª Albertina porém não acha mais
possível morarem juntas. Não se sente bem em sua companhia e quer
voltar logo para a instituição. Ana acha que ‘Elisa está bem lá pois elas
duas são diferentes e cada uma sente de uma forma a convivência com Dª
Albertina’. Além disso, segundo Ana, ‘Dª Albertina não gosta dela, gosta
só da Elisa’.
Ana não tem, aparentemente, nenhuma lembrança de seus pais ou família.
Suas únicas recordações referem-se à vida institucional. Lembra-se das
pessoas do Educandário, tanto de colegas quanto de freiras e funcionários.
Embora tímida, fala de si, de seus gostos, das matérias que gosta na
escola, do que quer ser quando crescer, etc.
Ana não apresenta nenhum distúrbio grave do ponto de vista psicológico.
Por ter passado muitos anos institucionalizada, apresenta algumas reações
típicas, como dificuldade de expressar e lidar com afeto. No entanto, está
muito lúcida quanto à sua situação e parece preparada para sair da casa de
Dª Albertina.
Por outro lado, Dª Albertina, numa primeira impressão, não apresenta um
perfil ideal para um adotante. Falou com muita frieza e agressividade, não
apontando nenhum indício de afeto e apego a esta criança, Ana, que cria
há 4 anos. É surpreendente a frieza e a falta de tato para com a menina,
não demonstrando nenhuma dúvida ou remorso quanto à idéia de

representações será melhor discutido nos capítulos que se seguem.

157
devolvê-la à instituição. Aliás, esse parece ser o seu maior desejo: livrar-
se do mal que é tê-la em casa. Quer sossego e tranqüilidade, o que não
tem conseguido com Ana. Dª Albertina aparenta ser autoritária,
intolerante e pouco sensível às crianças. Parece não se dar conta de que
uma criança institucionalizada não teve uma infância normal como as
outras e que pode apresentar reações negativas e dificuldades diante de
uma nova situação de vida.
Dª Albertina deseja adotar Elisa que é mais jovem e dócil. Receio que
possa querer ‘devolvê-la’ também, caso Elisa, algum dia, resolva
enfrentá-la ou deixe de ser obediente como tem sido até agora.
Dª Albertina parece desconhecer aspectos do desenvolvimento infantil,
principalmente, ter pouca sensibilidade e paciência para lidar com
crianças. E, especialmente, crianças institucionalizadas deveriam ser
criadas por pessoas dispostas a ajudá-las a enfrentar esta fase difícil de
adaptação a um lar. Dª Albertina parece, ao contrário, querer que tudo
continue do seu jeito e sob o seu domínio. Perde a paciência com
freqüência chegando mesmo a bater nas crianças (tanto Ana quanto a
própria Dª Albertina admitiram)”.

Ao final desse parecer, a psicóloga apresentou três sugestões de procedimento que,


segundo ela, já teriam sido discutidas com a Curadora: a volta de Ana à instituição, um
sistema de visitas regulares da irmã mais nova a ela, para que mantivessem a ligação, e a
realização de um trabalho junto à srª Albertina, no sentido de, nas suas palavras, alertá-la e
adverti-la para seus compromissos com as exigências de uma adoção. A psicóloga frisa
ainda a mesma opinião emitida ao longo do parecer: de que a guardiã “parece despreparada
e pouco disponível para lidar com crianças”. Não há ainda nesse conjunto de sugestões,
portanto, a proposta de Elisa retornar também a uma instituição, embora a ameaça de que o
processo de “devolução” ocorrido com Ana venha a se repetir esteja sempre colocada.
A representação mais generalizante do que seja a infância institucionalizada
também apareceu nesse novo parecer, como havia surgido antes na avaliação da assistente
social, mas com clara mudança de enfoque: o problema central passou a ser a incapacidade
ou falta de disponibilidade da guardiã para entender a diferença entre uma “infância
normal” e a infância de Ana. A crítica ao desconhecimento da guardiã sobre “os aspectos
do desenvolvimento infantil”, por sua vez, reforçou a distância entre o conhecimento
técnico e o desconhecimento leigo, dando maior peso ainda à desqualificação da guardiã.
Por fim, resta chamar a atenção para o modo como as imagens da docilidade e da
violência passaram a se desenvolver nesse caso. Na contraposição da situação de cada uma

158
das irmãs e na produção do prognóstico correspondente – ou seja, de que a situação de Ana
poderia vir a se repetir com Elisa – o componente da docilidade apareceu, antes de mais
nada, como atributo da idade, mas também, de forma mais sutil, como parte das relações de
menoridade em geral. A docilidade esperada pela guardiã começou a se revelar impossível,
ao menos nos termos imaginados por ela e, não à toa, a justificativa encontrada centrou-se
na idade como elemento de instabilidade. No discurso da srª Albertina, a fronteira da idade
como ruptura com a docilidade apareceu sob a forma do medo da puberdade, da fase de
transição em que, ainda sendo legalmente menores, as meninas poderiam se revelar mais
perigosas, desestabilizadoras da lógica da guarda como suposta por ela. Por outro lado, no
discurso da psicóloga, a mesma docilidade – também chamada de obediência – foi tomada
em consonância com uma aventada grade de “aspectos do desenvolvimento infantil”, o que
possibilitou a suposição de que o mesmo conflito viesse a ocorrer com a ainda dócil Elisa.
Nos dois casos, a representação biológica do processo de crescimento – a puberdade, o
desenvolvimento infantil – foi contraposta a um aspecto crucial da relação de guarda, a
autoridade, o controle sobre os que devem ser formados/guardados.
Nesse cenário, um elemento até então ausente das caracterizações do conflito entre a
srª Albertina e Ana apareceu: a violência. A menção à violência física não ganhou
visibilidade em outros momentos do processo, sendo feita apenas no instante em que, para
todos os envolvidos, a situação revelava-se insustentável. A insistência da guardiã em não
ficar mais com a menina, “livrar-se do mal que é tê-la em casa”, nas palavras da psicóloga;
a avaliação de Ana de que a falta de afeto da guardiã transformou-a em alguém “bruta,
agressiva e nervosa”; por fim, a condenação da guardiã pela psicóloga como alguém que
“não apresenta um perfil ideal para um adotante”, tendo falado com “frieza e
agressividade” sobre a menina, compuseram o quadro mais amplo no qual a ação violenta é
não só passível de ser registrada, mas perfeitamente coerente com as decisões a serem
tomadas. Nesse sentido, aquilo que chamei em outros momentos de uma configuração
moral em torno dos elementos disruptivos da infância e, especialmente, do direito de
“guardar” uma infância – a violência, o abandono, o sexo – deve ser entendida como
estreitamente relacionada à dimensão propriamente administrativa do processo.
Voltando ao caso específico da guarda de Ana e Elisa, é importante destacar que
somente quando o arranjo geral da guarda estava definitivamente sendo construído no

159
processo como algo inviável, como um projeto frustrado, indicando na direção da
“devolução” de uma das meninas e do espectro de futura devolução da outra, é que o dado
da violência não apenas apareceu, mas foi registrado e correlacionado aos demais
elementos que comporiam esse fracasso administrativo. O quadro traçado em torno da srª
Albertina não foi o de alguém antes de mais nada “violenta”, mas sim de alguém
“despreparada” ou “fria” ou ainda “carente” que, nesse conjunto de circunstâncias e
atributos, tornou-se também “bruta”, “agressiva”, “nervosa”. Alguém em quem não se
poderia mais depositar a confiança necessária para a guarda de crianças, sendo a violência
apenas um componente secundário da ruptura com a relação de aliança suposta na
passagem legal da guarda.
O processo, porém, não se encerrou nesse ponto. Apesar do parecer emitido no
sentido do retorno de Ana à instituição, esta permaneceu com a srª Albertina até 1994, sob
protestos desta última que, frente à demora na solução definitiva para o caso, em dado
momento queixou-se para a assistente social que “qualquer dia deixo Ana aqui”. Pelos
relatórios produzidos pela assistente social, não apenas o conflito entre ambas se manteve,
como a relação com Elisa também demonstrou sinais de se tornar mais difícil. Na mesma
entrevista em que reclama da morosidade do Juizado em proferir uma decisão final, a srª
Albertina declarou ter desistido também da adoção de Elisa e, em uma atitude que poderia
ser tomada simultaneamente como descaso e como pressão sobre o Juizado, não matriculou
as duas meninas na escola para o novo ano letivo.
Por fim, em uma última tentativa de reviravolta do processo, em março de 1994, a
srª Albertina declarou continuar desejando adotar Elisa, afirmando que esta só tinha
confirmado para a assistente social que gostaria de voltar para a instituição a pedido da
própria guardiã que estaria, nas suas palavras, magoada com Elisa por não querer comer.
Além disso, a srª Albertina declarou nessa ocasião ter dito à menina ser sua “mãe
verdadeira”, fato que Elisa depois confirmou para a assistente social, dizendo, porém, saber
que isso não era verdade. Esse relatou causou na assistente social o que ela descreveu como
um “estarrecimento”, levando-a, respaldada nos pareceres anteriores de outros profissionais
(isto é, psicólogos), a sugerir o retorno das duas meninas para uma instituição, o que
efetivamente ficou decidido em agosto de 1994.

160
Capítulo 3:

Ter crianças: autoridades em julgamento

O objetivo deste capítulo, como anunciado, é discutir uma dimensão específica das
relações de menoridade percebida a partir dos processos de guarda: a da autoridade que
circula, redefine-se e constrói-se ao longo das experiências judiciais. Assim, reiterando o
que já foi dito, creio ser possível tomar tais experiências como situações centradas – desde
sua demanda inicial até sua sentença – na busca pela demarcação das relações de autoridade
legítimas em torno da guarda de uma criança. Nesse sentido, os embates judiciais, em
quaisquer de suas modalidades, do “acordo” às acusações mais explícitas, configuram um
conjunto de relações e representações em torno do que seria “ter” uma criança. A definição
legítima de tal posse legal e simbólica passa, por sua vez, pela capacidade dos envolvidos
em representarem-se como indivíduos – ou unidades domésticas – capazes de converter a
autoridade “natural” do pátrio poder em autoridade reinventada, e por isso sacramentada, a
partir da experiência judicial. Mesmo quando a sentença final reitera o pátrio poder
“natural”, ou seja, o concernente aos pais biológicos, tal reiteração deve ser compreendida
quase como uma reinvenção dessa “naturalidade”, na medida em que foi preciso comprovar
a legitimidade da condição original.
Ao qualificar as experiências judiciais como experiências de construção ou
redefinição de relações de autoridade, porém, é importante precisar com mais clareza o que
se compreende aqui como autoridade. Antes de mais nada, estão sendo consideradas como
relações de autoridade aquelas que, através de diferentes níveis e instâncias de
formalização, supõem o que Weber chama de “poder de mando e dever de obediência”125.

125
Weber usa essa expressão nas discussões expostas na “Sociologia da Dominação” ao diferenciar a
dominação exercida através de uma constelação de interesses, especialmente mediante monopólio, e a
exercida mediante autoridade, caracterizada pelo poder de mando e dever de obediência. O tipo mais puro da
última forma seria o poder exercido pelo pai de família, pelo funcionário ou pelo príncipe (1996: 696).

161
Se a sentença que finaliza os processos civis cristaliza ela própria uma relação de
autoridade – do Estado, através do aparato judicial, sobre os que são consagrados como
guardiães – seu próprio objeto não deixa de ser, como discutido no capítulo 1, os encargos e
benefícios de outra relação de autoridade: a que se constrói a partir da condição de
menoridade. O poder de mando e o dever de obediência que se definem ao longo dos
processos diz respeito, portanto, tanto à relação dos guardiães com o Estado, quanto com
aqueles que ficam sob sua guarda.
A multiplicidade de relações de autoridade presentes nos processos precisa, desse
modo, ser diferenciada para que possa ser melhor compreendida. No caso da relação entre
os envolvidos com a guarda – pleiteantes ou cedentes – e os diferentes especialistas do
Juizado está em jogo, antes de mais nada, a autoridade legal de que os últimos estão
investidos e, como parte dessa autoridade, seu poder de consagrar uma nova posição social
para os envolvidos. Retomando mais uma vez o que foi dito no capítulo 1, trata-se de uma
relação de autoridade construída entre a soberania e a norma, no sentido do exercício do
poder soberano do Estado através dessa prerrogativa específica de obediência – da qual a
sentença é o produto formal acabado – e da ação normativa que visa encontrar soluções
administrativas satisfatórias para o problema que uma criança “não-guardada” representa.
Por outro lado, como procurarei explorar neste capítulo, a busca ou o
comparecimento dos pleiteantes à guarda ou dos detentores originais do pátrio poder ao
Juizado, instância desse poder simultaneamente normativo e soberano, não pode ser tomado
como algo que ocorra sem conflitos ou contradições126. Como o que está em jogo é,

Desenvolvendo a relação entre autoridade e obediência, Weber coloca que “por naturaleza, inclusive en toda
forma de relación autoritária basada en el deber existe, por lo mismo que se obedece, una cierta proporción
mínima de interés, um móvil inevitable de obediencia” (1996: 698)
126
Ao comparar as situações envolvendo o direito privado e as que se inscreveriam no que denomina como
direito público, Weber especifica que nessas últimas “frente a un sujeto que desde el punto de vista jurídico
aparece como portador preeminente de poder, con faculdad de mando, encontramos un conjunto de personas
que, de acuerdo con las normas del derecho, se encontran sometidas al primero” (1996: 499). Como dito no
capítulo 1, o direito público está diretamente relacionado às questões da administração, embora não se
confunda integralmente com elas. Novamente citando Weber, “desde el punto de vista del ‘gobierno’, los
particulares y sus intereses son, según el sentido jurídico, fundamentalmente objetos, no sujetos jurídicos. Em
el estado moderno existe precisamente la tendencia a aproximar entre sí, desde el punto de vista formal, la
aplicación del derecho y la ‘administracion’ (en el sentido de ‘gobierno’). Porque en el ámbito de la actividad
judicial suele imponerse al juez actual, en parte por medio de normas jurídicas, en parte también
doctrinalmente, la obligación de resolver las controversias de que conoce atendiendo a principios materiales:
moralidad, equidad, conveniencia etc. Y, por otra parte, la organización del estado en la actualidad concede al
particular, que en principio sólo es objeto de la ‘administración’, determinados recursos para proteger sus

162
sobretudo, a redefinição de uma relação de autoridade prévia ou futura em torno desse
objeto simbólico peculiar – o menor – o processo como um todo deve ser tomado como a
sedimentação de diferentes disputas, inclusive frente aos limites que podem ser
considerados legítimos da ação dos especialistas. Se podemos dizer que o poder de mando
está claramente definido na relação entre os diferentes envolvidos e aqueles que estão
investidos da autoridade soberana do Estado, isso não quer dizer que o dever de obediência
que lhe é correspondente seja sempre executado sem resistência, contestação ou tentativas
variadas de negociação. As tensões que transparecem dos registros processuais precisam ser
entendidas, desse modo, como resultado do confronto entre diferentes níveis de autoridade
que entram em jogo na experiência judicial: a afirmação do poder soberano do Estado é
sempre, no caso dos processos de guarda, uma intervenção a partir de outras relações de
autoridade que estão sendo ameaçadas ou ambicionadas.
Assim, o confronto entre esses níveis ou formas distintas de autoridade se organiza
a partir de uma dinâmica tensa e, por vezes, contraditória. Buscar – ou ser buscado por – a
autoridade estatal corporificada pelo Juizado resulta tanto em tentativas de criar ou reforçar
as relações de autoridade estabelecidas fora desse locus e dessa experiência específica,
quanto um risco de perda do capital simbólico já acumulado. Mais do que uma relação
entre estruturas rigidamente fixadas em torno de autoridades legalmente estabelecidas, o
que está em jogo nas experiências judiciais talvez possa ser melhor definido como uma
configuração social que se ilumina a partir de dramas e conflitos específicos, na medida em
que, apesar da rigidez aparente da posição dos atores e instituições envolvidos em cada
processo, há espaço para estratégias, negociações e tentativas de convencimento, no sentido
de fortalecer alguns atores em detrimento de outros127.

intereses frente a la misma, medios que, formalmente ao menos, son del mesmo tipo que los que la aplicación
del derecho implica” (1996: 501)
127
O reconhecimento da autoridade formal deve ser pensado em termos de ações sociais, de forma a não criar
uma imagem ilusória da relação entre especialistas e não-especialistas como de poder absoluto ou passividade
absoluta de cada uma das partes. A importância da relação entre autoridade e ação social é destacada por
Bendix que, partindo de Weber, coloca que “o consenso compartilhado de uma ordem legítima e as pessoas
nas organizações formais que ajudam a manter essa ordem através do exercício da autoridade constituem uma
rede de relações sociais que emergem de uma ‘união de interesses’. Desse modo, as ações podem originar-se
da ‘ordem legítima’ e afetar a busca de interesses na sociedade, do mesmo modo que a última tem múltiplos
efeitos sobre o exercício da autoridade” (Bendix, 1996: 51). Por outro lado, a compreensão das experiências
judiciais como iluminando não uma “estrutura” ou padrões normativos abstratos e estáticos, mas uma
configuração social, permite, seguindo Norbert Elias, não separar analiticamente indivíduos e sociedade, de
modo a restituir aos atores sociais presentes nessas experiências sua capacidade própria de ação. Como diz
Elias, “por configuração entendemos o padrão mutável criado pelo conjunto dos jogadores – não só pelos seus

163
A gramática dos processos também se encontra centrada, como indicado no capítulo
anterior, em palavras e descrições que enfatizam tanto o “direito” dos que reivindicam ou
rebatem a transferência da guarda de uma criança, quanto os valores e representações que
transformam tal “direito” em ação legítima. Posicionar-se frente aos especialistas ou demais
participantes do processo é sempre posicionar-se, portanto, em relação ao que se
compreende como o modo correto de “guardar” uma criança, “bem” que se possui ou
deseja possuir, mas que é também representado como coletivo, seja no próprio corpo legal,
seja na dimensão mais fluida dos valores e relações sociais. Quem comparece ao Juizado
encontra diante de si a tarefa de moldar sua imagem a essa ambigüidade: “sua” criança é
também uma criança de todos, sendo necessário provar a legitimidade de sua posse. A
legitimidade a ser construída, porém, não pode ser compreendida como um conjunto
fechado de procedimentos e representações e dotado, desse modo, de significados
igualmente fechados. Não apenas, como procurarei discutir ao longo do capítulo, tais
significados estão colocados permanentemente em relação a contextos, interlocutores e
exigências variadas, mas também sujeitos a variações em relação à autoridade – esta
igualmente dinâmica – dos interlocutores128. Falar da produção de legitimidade em relação
a “ter” uma criança é falar em termos de uma virtualidade, algo que se projeta a partir de
um conjunto de representações e práticas, mas que não se possui como um objeto ou uma
ambicionada condição social permanente.
O processo de busca dessa virtualidade – o legítimo guardião, assim como dos
legítimos avaliadores – é também o processo de busca da construção contínua da
obediência, bem relacional que está sempre sob ameaça. No caso dos especialistas, está
claro que o poder de mando concentra-se fundamentalmente na figura do juiz, sem o qual

intelectos, mas pelo que eles são no seu todo, a totalidade de suas ações nas relações que sustentam uns com
os outros. Podemos ver que essa configuração forma um entrançado flexível de tensões. A interdependência
dos jogadores, que é uma condição prévia para que formem uma configuração, pode ser uma interdependência
de aliados ou de adversários” (1980: 142)
128
Criticando a reificação do conceito de legitimidade, João Pacheco de Oliveira defende que se estaria
tratando como uma variável o que seria, em verdade, “um fenômeno muito mais complexo, que não pode ser
conceituado como algo susbtantivo, mas sim como um conjunto de possibilidades culturais subjacentes que
permitem a emergência de versões e discursos virtualmente compatíveis, e que apresentam conseqüências e
eficácia social similares. De início, ao falar em legitimidade se deve especificar na ótica de qual ator ou grupo
social se pretende que determinadas ações, padrões ou ideologias sejam considerados como legítimos (....). A
afirmação da legitimidade é um ato de volição de um ator social, dependendo da capacidade deste de
sintetizar e dar significação a muitos dados da realidade, satisfazendo aos homens enquanto produtores de
sentido e enquanto sujeito de necessidades “ (Oliveira Fº, 1988: 274; grifos do autor)

164
não há sequer a possibilidade de desfecho do processo. Entretanto, como creio que os casos
expostos devem ter deixado evidente, todo o caminho lógico e administrativo de construção
da sentença depende da ação de outros especialistas, notadamente de assistentes sociais,
curadores de menores e, em alguns casos, de advogados particulares. Tais especialistas têm
por tarefa não apenas construir tecnicamente o processo, qualquer que seja o escopo de suas
funções, mas de, ao fazê-lo, produzir a legitimidade da decisão final129. Dessa forma, ao
mesmo tempo em que estão imbuídos de seus “carismas de cargo” específicos – expressos
sobretudo através de linguagens especializadas e de formas relativamente padronizadas de
apresentação dos procedimentos adotados ou requeridos – podem ser pensados como peças-
chave para a produção da obediência à sentença final. A ratificação da autoridade dos
guardiães originais ou seu confisco em nome de novos guardiães não pode ser percebida,
portanto, como tributária apenas da sentença final e da autoridade maior corporificada no
juiz incumbido de emiti-la, mas como resultado do conjunto das ações dos demais
profissionais frente aos envolvidos.

A autoridade dos especialistas: os discursos técnicos e a assimetria das


falas

Nos termos em que a produção do processo está sendo pensada aqui, é possível
considerá-los como narrativas que compreendem a conversão – mas não a desconsideração

129
Segundo Weber, “la subsistencia de toda ‘dominación’, em el sentido técnico que damos aquí a este
vocablo, se manifiesta del modo más preciso mediante la autojustificación que apela a principios de
legitimidad”. Para pensar tais princípios, Weber estabelece três modelos básicos: o das normas racionais
instituídas, que seria o que melhor se aplica à ação dos profissionais do Juizado, o da autoridade pessoal e o
do carisma, sempre lembrando que, como tipos ideais, podem ter alguns de seus elementos intercambiados ou
combinados nas situações concretas. Sobre o primeiro desses tipos, Weber define que “la ‘autoridad’ de un
poder de mando puede expresarse en un sistema de normas racionales estatuidas (pactadas u otorgadas), las
cuales encuentram obediencia en tanto que normas generalmente obligatorias cuando las invoca ‘quien puede
hacerlo’ en virtud de esas normas. Así, tal sistema de normas racionales legitima al que dispone del mando, y
su poder es legítimo em tanto que es ejercido de acuerdo con las mismas. Se obedece a las normas y no a la
persona” (1996: 706). Além disso, “también el que ordena obedece, al emitir una orden, a una regla: a la ‘ley’
o al ‘reglamento’ de una norma formalmente abstracta. El tipo del que ordena es el ‘superior’, cuyo derecho
de mando está legitimado por una regla estatuida, en el marco de una ‘competencia’ concreta, cuyas
delimitación y especialización se fundan en la utilidad objetiva y en las exigencias professionales puestas a la
actividad del funcionario” (1996: 707; grifos do autor).

165
– das motivações e relatos iniciais apresentados pelos postulantes em peças administrativas
e judiciais que consolidam a autoridade dos especialistas e, com isso, do próprio aparato
burocrático. Creio que o elemento que deixa isso mais claro é o das transformações que as
demandas iniciais sofrem ao longo do processo. Pensando pelo prisma da composição e
confronto de autoridades que está em jogo nas experiências judiciais, as demandas
usualmente centradas na idéia de “regularizar uma situação de fato”, de obter ganhos
imediatos, como benefícios previdenciários ou inscrição de menores em planos de saúde
privados ou ainda de responder a exigências legais, como obter o registro de nascimento ou
modificá-lo para conseguir a aceitação desses menores em escolas, podem ser tomadas
como demandas que pretendem consolidar a relação de autoridade estabelecida fora do
Juizado, ou seja, a relação desses demandantes frente aos menores sobre os quais
pretendem ter a guarda e, num sentido mais amplo, sobre o universo social no qual essa
relação se dá (escolas, sistema previdenciário etc).
Uma vez iniciado o processo, porém, por mais rápido e sem conflitos que ele seja,
essa dinâmica sofre uma alteração. Com a entrada dos especialistas em cena, como
assistentes sociais com seus estudos sociais relativamente padronizados a serem
confeccionados – o que implica uma série de procedimentos de investigação – as possíveis
demandas dos curadores e, por fim, a própria decisão judicial final, a autoridade desloca-se
para a ação e para os discursos desses especialistas, de forma que o objetivo de consagração
da relação de autoridade estabelecida fora do Juizado é posto em risco. Como se fossem
“caixas de Pandora”, os processos comportam uma dimensão de desafio para os que os
iniciaram e que se vêem obrigados a atuar no sentido de fazer sua motivação inicial ser
reconhecida e aceita pelos especialistas130.

130
Discutindo a apresentação de demandas de “pequenas causas”, Luiz Roberto C. de Oliveira coloca a
questão das dificuldades em codificar legalmente as diferentes “queixas” expressas pelos litigantes: “além da
possibilidade de relativização da forma de apresentação de evidências, (...) a eventual inabilidade dos
litigantes para expor as suas causas – explicitando a seqüência de acontecimentos ou de ações que motivaram
a disputa – com ênfase no raciocínio lógico-dedutivo privilegiado pelo Juizado, pode ser superada através das
questões levantadas pelo juiz e da maior liberdade de expressão das partes, viabilizando a enunciação de
esclarecimentos quanto ao mérito da causa” (Oliveira, 2002: 33). A possibilidade de sucesso dessas
exposições, porém, depende da forma como tais relatos são absorvidos pelo juiz, ele também prisioneiro de
sua posição. Como coloca o autor, “o juiz não pode fugir da preocupação em estabelecer o mérito jurídico da
causa, através da avaliação da responsabilidade jurídica do querelado, o que impõe um filtro significativo
àquilo que pode ser normativa ou legalmente tematizado no âmbito de uma audiência judicial” (idem: 33)

166
Alguns casos descritos no capítulo 2 podem ser esclarecedores nesse sentido. No
primeiro caso, o de Alice, sua mãe e a patroa de sua mãe, a autoridade da patroa está
inicialmente colocada de forma bastante evidente não só pela relação patronal, mas pelo
domínio sobre quase toda a fala emitida na fase inicial do processo. A petição inicial
expõe seus motivos, bem como sua versão de ser a provedora de fato de Alice,
desautorizando, nesse sentido, a figura paterna. Além disso, como a assistente social
responsável pelo caso deixou registrado, nas audiências sua fala era não apenas
predominante, mas claramente inibidora da fala da mãe. A exposição de motivos por ela
feita construiu-se, por sua vez, a partir da relativa naturalidade da situação como um
todo, ou seja, como se recorrer à autoridade judicial nesse caso não fosse mais do que
recorrer a um serviço administrativo cuja função primordial seria a de subscrever
acordos – e relações de autoridade, portanto – já previamente definidos.

Por mais que o resultado final do processo tenha sido o da realização de seu desejo,
consagrando e promovendo a outro status a múltipla relação de autoridade existente nessa
vinculação doméstica-patronal (sobre a mãe, como patroa; sobre a filha, agora como
guardiã), a dinâmica como um todo da experiência judicial, com suas audiências e
perguntas – essas registradas de forma apenas indireta – não deixa de representar um risco,
no sentido que coloquei anteriormente. Um indicativo desse risco está presente, como
apontado na exposição do caso, na sutil resistência da mãe em aceitar que o contorno
familiar fosse desenhado como queria a patroa, ou seja, sem menção válida ao marido ou
tratando seu casamento como “fracassado”.
Um outro caso que permite perceber de forma ainda mais clara a presença desse
risco e os esforços por parte dos envolvidos em controlá-lo é o de Fernanda/Maíra, a
criança inicialmente anunciada pelo rádio. Como nesse caso está presente um conflito de
interesses e, em conseqüência disso, há troca de acusações entre as partes, fica mais nítido o
quanto a busca ao Juizado como mediador obriga a uma conversão de discursos, bem como
coloca todos em situação de relativa suspeita, por mais que a ação dos especialistas se
oriente pela busca de acordos conciliatórios. O casal que inicia o processo afirmou ter
decidido recorrer ao Juizado a partir do momento em que se estabeleceu um impasse nas
negociações com o pai da menina, impasse esse representado acusadoramente por eles
como “chantagem”. Ir à instância judicial, nesse caso, representa recorrer a uma autoridade

167
superior, evidenciando que os dispositivos de autoridade antes mobilizados não surtem
mais efeito ou, pelo menos, não surtem o efeito desejado. Cabe aqui perguntar que
dispositivos seriam esses para cada parte interessada, uma vez que foi através deles que as
partes primeiro negociaram entre si e, em um segundo momento, com os especialistas.

Na perspectiva do casal que deseja a guarda, os dispositivos estão todos


relacionados à legitimidade que acreditam lastrear as primeiras tentativas de acordo com o
pai: no plano moral, seu próprio desprendimento (“por solidariedade”, teriam concordado
com os pedidos iniciais de dinheiro) e, no plano dos recursos materiais a serem oferecidos,
a assimetria entre sua condição social e econômica e a dos pais. Sua autoridade, portanto,
da forma como se apresentam – ou seja, como se constróem discursivamente – para os
especialistas, centra-se ao mesmo tempo na idoneidade de sua conduta e nas possibilidades
prospectivas em relação à criança: o que têm a oferecer. Fica claro, assim, que há da parte
deles o esforço em afinar-se, nas suas falas frente aos especialistas, com o que seriam em
princípio os critérios a balizar as decisões em processos de guarda.
O pai, por sua vez, tem, como elemento de autoridade mais decisivo, o próprio pátrio
poder, que ele não deseja ceder de imediato ao casal, em razão do desenrolar fracassado das
negociações entre eles. Frente à ação do casal, essa autoridade é colocada em risco, na
medida em que, mesmo decidido a não ceder o pátrio poder, pode ser obrigado no desfecho
do processo a dele se desfazer. Ou seja, poderia tê-lo cassado pela autoridade judicial, caso a
argumentação dos pleiteantes viesse a ser integralmente subscrita. Uma outra estratégia,
porém, apesar de motivadora da denúncia de sua ação como algo moralmente negativo (a
“chantagem”) acaba por desempenhar um papel importante na preservação dessa autoridade.
Ao ameaçar o casal, ato considerado unanimemente como negativo, inclusive por ele mesmo
em um dado momento do processo, acaba rompendo definitivamente a possibilidade de que
um acordo viesse a ser sancionado entre as partes. O casal deixa registrado, tentando
capitalizar a autoridade judiciária em seu favor, que só ficaria com a criança caso as
negociações, com o intermédio do Juizado, pudessem transcorrer sigilosamente. Como isso
não se realiza, acabam por retirar-se do processo, roubando dos especialistas a possibilidade
de consagrá-los como a melhor opção para a criança.
O fato do casal deixar de concorrer pela guarda da criança não coloca os pais
biológicos, porém, totalmente no controle da situação. Como procurei destacar quando

168
expus o caso, cria-se sobre eles uma suspeita que se traduz efetivamente – senão na
cassação do pátrio poder – em uma espécie de quarentena de autoridade. Eles passam a ter
direito de visita à filha, mas são submetidos por parte dos especialistas a visitações e a
inquirições sobre sua condição financeira e de moradia, bem como a uma espécie de
monitoramento contínuo do seu interesse por ela131. Nesse processo de monitoramento, os
outros filhos acabam funcionando como indicativos da sua capacidade de cuidar
futuramente, quando autorizados pela instância legal, da criança agora renomeada como
Maíra.
Dinâmica semelhante pode ser percebida no caso de Lucas, na medida em que o
novo processo obriga inclusive os envolvidos a construir uma memória do que teria sido
deliberadamente ocultado dos especialistas na primeira etapa da definição de sua guarda.
Não apenas as acusações sexuais, que discutirei melhor mais à frente, precisam ser trazidas
como elemento mútuo de acusação da mãe e dos guardiães para procurar desautorizá-los
diante dos especialistas, mas a explicitação do que ficou oculto na primeira fase das
negociações entre eles e o Juizado vem à tona. As estratégias de negociação, por sua vez,
como chamei a atenção durante a apresentação do caso, se fazem através do mesmo
binômio: buscar construir representações positivas sobre seu comportamento enquanto mãe
ou guardiães adequados e, nesse sentido, fazer calar as acusações sexuais; e medir forças
em relação à autoridade a ser cedida ou conquistada. A relutância da mãe em aceitar a
adoção acaba resultando, como foi visto, na produção de um tipo de acordo distinto do que
os guardiães desejavam no início do processo. O apego da mãe ao seu elemento
fundamental de autoridade, o pátrio poder, respaldado por conseguir construir-se no
processo como alguém que nunca “abandonou” o filho e por devolver aos guardiães a
acusação anteriormente feita a ela, acaba impedindo o objetivo dos últimos de recorrer a
uma autoridade formalmente distinta e superior às partes para efetivamente conquistar o

131
Cardarello, 1996, analisando as Unidades Transitórias da Febem de Porto Alegre, chama a atenção para as
pressões exercidas por assistentes sociais, através de visitas às famílias, para que essas, segundo o jargão
profissional, “se organizem”. Nessas visitas, combinam-se uma dimensão pedagógica, no sentido de indicar às
famílias o comportamento que se espera que tenham para que possam recuperar suas crianças e uma dimensão
avaliativa. Inspecionar as condições de moradia, checar se os pais conseguiram emprego, verificar como estão
as outras crianças etc, acabam operando estratégias capilares de controle sobre essas famílias. Nos termos em
que estou trabalhando aqui, creio ser possível dizer que esse processo avaliativo centra-se todo na
possibilidade de restituir/consagrar às famílias a autoridade que foi temporariamente perdida a partir da
entrada em cena dos representantes de uma autoridade que lhes é superior.

169
que poderíamos chamar aqui de uma reinvenção da autoridade do sangue, sagrando-se pais
adotivos e não apenas guardiães de Lucas.
A intervenção dos especialistas nesse caso, por outro lado, demonstra estar ao
mesmo tempo refém da dinâmica do processo e imbuída dos encargos específicos de sua
autoridade. Voltando ao que argumentei antes, existe a necessidade das partes envolvidas
em afinar-se ao que seriam as exigências – e ao poder decisório – dos especialistas,
desfazendo as acusações de comportamento sexual ilegítimo em relação à criança, nem que
seja através da retribuição das acusações. Por outro lado, ao contrário de agir apenas como
imbuídos da autoridade de julgar (e punir, se pensarmos nas possibilidades de perda da
guarda ou do pátrio poder), os especialistas precisam também produzir soluções para o
impasse que se apresentou não só com o início do processo, mas com a posição adotada
pela mãe ao longo desse. Assim, estão presos a uma obrigação específica de sua autoridade
– a de não reconhecer como verdadeiras quaisquer das acusações sexuais feitas, sob pena
de ter de retirar a criança da alçada de uma das partes ou de ambas – e às suas funções
administrativas, sintetizadas na necessidade de alocar ou manter Lucas em uma casa.
O caminho para chegar a uma solução formalmente consensual passou, como visto,
pelo esvaziamento das acusações e pelo estabelecimento de acordos de visita sancionados
pelo Juizado. O que gostaria de pensar agora, porém, é a necessidade dos especialistas de,
para chegar a tal solução, não apenas buscar mediar o conflito, mas distinguir, através das
ações e da linguagem adotada nos autos, uma posição legítima para o seu papel e as
conseqüentes implicações nas múltiplas relações de autoridade presentes nessa experiência
judicial.

Como as acusações sexuais são o ponto mais flagrantemente disruptivo com as


formas socialmente corretas de “ter” uma criança, sobre elas incide uma das dimensões
mais delicadas do processo enquanto expediente administrativo132. Ou seja, como é sobre
elas que se organiza a argumentação dos guardiães acerca da necessidade de romper com
uma relação, no caso da mãe com o filho, torna-se necessário – frente à ausência de provas
concretas que fiquem registradas – operar não apenas um silenciamento sobre elas, mas
uma transformação no modo como são abordadas. Se inicialmente elas são apresentadas,
primeiro pelos guardiães e, em seguida, pela mãe, totalmente imersas no universo da

132
A questão da sexualidade, como uma fronteira moral nos processos, será explorada no capítulo seguinte.

170
desqualificação moral e/ou psíquica de cada parte, ao iniciar-se a intervenção dos
assistentes sociais elas vão sendo retraduzidas para um discurso de inspiração “psi” e para o
campo do aconselhamento sobre a necessidade de desfazer o conflito em nome de preservar
a criança133. Nesse sentido, é retirado de certo modo seu poder de acusação moral, a fim de
que possam ser conduzidas para um terreno em que é possível, ao mesmo tempo, criar
espaço para a conciliação e preservar a distinção entre a autoridade dos especialistas e a dos
não-especialistas.
O ponto em que isso fica especialmente nítido é o do registro pela assistente social
de seu aconselhamento para a mãe, feito no sentido de apontar “o quanto é prejudicial para
o equilíbrio físico e emocional da criança ser alvo de tais discussões e conseqüentes
disputas”, além de ser “constrangedor” ter “colocado em dúvida o seu sexualismo (sic)”.
Como coloquei na exposição do caso, a aproximação dessas duas questões – as “disputas” e
a sexualidade – tem por efeito esvaziar o peso das acusações, uma vez que as reinscreve no
terreno mais geral da luta entre os guardiães e a mãe por Lucas. Para além disso, porém,
esse diagnóstico final e a ação de aconselhamento que lhe é correspondente cumprem
também o papel de ratificar a autoridade dos especialistas, tanto pelo poder de produzir
diagnósticos de que estão incumbidos, através de seus mecanismos investigativos e suas
estratégias narrativas, quanto pela possibilidade de, colocando-se acima das partes – das
“disputas”, portanto – visualizarem o que seria melhor para a criança134. Tal visualização,
porém, como dito acima, não se faz apenas através da afirmação desse lugar distinto e
assimétrico que permite conciliar e formatar um acordo onde antes só havia concorrência
pela criança, mas através da “psicologização” do conflito moral.

133
Cabe aqui lembrar o trabalho já citado de Duarte em que o autor, ao discutir a relação entre regulação e
regulamentação moral nos Estados nacionais modernos, destaca que “uma das características desses Estados
nacionais mais marcantes para a ‘regulação moral’, em geral, é o fato de se proporem operar nos marcos de uma
rigorosa racionalização das relações entre meios e fins (coerentemente com o horizonte de valores que lhes deu
origem). Isso implica uma particular atenção à organização dos saberes científicos e à sua capacidade de
‘sustentar’ as intervenções públicas; ou seja, uma particular imbricação entre as ‘regulações’ em geral e as
‘regulamentações’ eventualmente sistematizadas pelo aparelho de Estado” (Duarte, 2000: 108)
134
Uso diagnóstico aqui inspirada não só nas questões levantadas por Foucault (1987 e 1996), mas também nas
observações feitas por Sutton, no sentido de que a produção de conhecimento baseada no “método de caso”
adotado, entre outros profissionais, por assistentes sociais, estaria centrada na preocupação com a confecção de
diagnósticos, entendidos pelo autor como a reconstrução da biografia de um indivíduo em termos de um esquema
etiológico sabido e respeitado. O autor chama ainda a atenção para o fato de que esse procedimento teria suas raízes
tanto no modelo médico de patologia individual quanto, em um sentido mais amplo, no modelo calvinista de
pecado e redenção individual. Assim, como estilo cognitivo dominante das modernas profissões de auxílio, a
biografia e o diagnóstico daí decorrente manteriam um inegável elemento também de combate moral (1996: 203)

171
O discurso sobre a sexualidade caminha junto com as observações presentes em
inúmeros processos sobre as conseqüências psicológicas de determinados acontecimentos,
sobre “traumas” que poderiam advir daí etc. Ou seja, faz parte de uma compreensão da
infância ancorada nos termos e concepções “psi” – expressas com pesos diferentes por
assistentes ou psicólogos, como discutirei adiante – e voltada para a tarefa de gestão da
menoridade enquanto condição transitória e preparatória para a vida adulta. O
aconselhamento técnico se faz nesses casos, portanto, baseado em uma certa concepção da
infância como período de gestação de patologias e saúdes. A descrição apresentada é, desse
modo, uma dupla prescrição, tanto no sentido da condução de atos que propõe para os
outros atores sociais, quanto no próprio poder de instituir, prescritivamente, quais os atores
dotados de fala autorizada a compreender e intervir sobre as situações em julgamento135.
Antes de discutir sobre como isso aparece em outros casos, nos quais não necessariamente
há referência à sexualidade, acredito ser importante pensar um pouco sobre a centralidade
dessa questão na compreensão e, conseqüentemente, na elaboração de formas de gerir a
infância e nela intervir.
Como Foucault destaca, as discussões contemporâneas sobre sexualidade
construíram-se centradas na idéia da repressão e na conseqüente necessidade dos indivíduos
dela se libertarem. Essa visão ocultaria, porém, o quanto de discursividade teria sido
produzido em torno do sexo e, mais do que isso, o quanto de exigência se coloca
socialmente sobre a necessidade de falar sobre sexo. Desse modo, a pergunta a ser feita
com relação à sexualidade não deveria estar dirigida simplesmente aos silêncios em torno
do tema, mas também à obrigação de falar e, especialmente, de falar a partir de certas
estratégias discursivas e agentes autorizados136. Assim, seria necessário recuperar uma

135
Discutindo o que chama das condições de possibilidade e limites da eficácia política, Bourdieu explora as
relações entre descrever e prescrever ou, dizendo de outro modo, entre a produção de classificações (ou di-
visões, como ele chama) e a intervenção a partir dessas classificações. Ou seja, o poder de fazer existir ao
enunciar e a luta que lhe é correspondente de fazer calar, de modo a manter o que o autor chama de “o
silêncio da doxa”. Embora essas considerações digam respeito à produção de discursos políticos stricto sensu,
creio que podem ser úteis na discussão feita aqui (Bourdieu, 1996 b: 117/126)
136
Foucault coloca sua inquietação em termos de por que não “interrogar o caso de uma sociedade que desde
há mais de um século se fustiga ruidosamente por sua hipocrisia, fala prolixamente de seu próprio silêncio,
obstina-se em detalhar o que não diz, denuncia os poderes que exerce e promete liberar-se das leis que a
fazem funcionar. Gostaria de passar em revista não somente esses discursos, mas ainda a vontade que os
conduz e a intenção estratégica que os sustenta. A questão que gostaria de colocar não é por que somos
reprimidos, mas por que dizemos, com tanta paixão, tanto rancor contra o nosso passado mais próximo, contra
o presente e até contra nós mesmos que somos reprimidos?” (1977: 14)

172
dimensão de positividade na repressão, no sentido de sua capacidade não apenas de impedir
procedimentos, mas de estimular, favorecer e incitar falas e ações.
A fala dos especialistas em torno de questões envolvendo de algum modo a
sexualidade das crianças em jogo pode ser pensada como algo inscrito nessa produtividade
da repressão: ao condenar condutas sexuais envolvendo crianças, desde o extremo mais
interdito do sexo propriamente dito, como ocorre no caso de Cláudia, até o aconselhamento
sobre como construir positivamente a sexualidade de uma criança, como no caso de Lucas,
os especialistas atuam, em primeiro lugar, como repressores de determinados
comportamentos. Ou seja, imbuídos da autoridade específica de seus cargos – sejam
psicólogos, assistentes sociais ou juízes – buscam fazer cessar uma determinada conduta ou
tomam decisões, como a de cassação do pátrio poder, em razão de tal conduta. Por outro
lado, como em qualquer outra ação repressiva, há na construção desses interditos forte
positividade, no sentido da capacidade de fazer existir o modo correto de falar, agir,
comportar-se. A ação repressiva, inclusive através da conduta aparentemente mais suave do
aconselhamento, pode ser tomada como uma ação disciplinar e pedagógica que não apenas
interdita, mas que produz realidade e valor, especialmente em torno das representações
sobre o que seria a “sexualidade saudável”.
Como antes abordado, o poder de caracterizar ou julgar qualquer conduta como
caminhando na direção dessa positividade, representada pela “boa sexualidade”, pela
“sexualidade correta” etc, não se encontra nas mãos de todos os participantes do processo,
mas apenas nas dos especialistas. As avaliações emitidas têm o poder não apenas de indicar
pedagogicamente modelos disciplinares a serem seguidos, mas de desautorizar, em um
sentido bem amplo, o controle dos não-especialistas sobre suas crianças. Mesmo que
aparentemente sua autoridade não seja atacada, podendo mesmo ser reforçada ao final do
processo, caso a guarda ou adoção seja concedida, ela é colocada em uma posição
condicional durante o processo. Dessa forma, a gestão da infância é também pensada como
o processo de inserção dos indivíduos em uma certa gramática sexual: o que falar, o que
não falar e, sobretudo, como falar137.

137
Citando Foucault mais uma vez, “não se deve fazer divisão binária entre o que se diz e o que não se diz; é
preciso tentar determinar as diferentes maneiras de não dizer, como são distribuídos os que podem e os que
não podem falar, que tipo de discurso é autorizado ou que forma de discrição é exigida a uns e outros. Não
existe um só, mas muitos silêncios e são parte integrante das estratégias que apóiam e atravessam os
discursos” (1977: 30). Ou ainda, pensando em termos de processos históricos, “(...) também a justiça penal

173
Se a sexualidade ocupa um lugar privilegiado na gerência de indivíduos
considerados como estando em formação, isso não significa, porém, que o discurso
psicologizante dos especialistas se aplique apenas a casos em que há questões ou acusações
sexuais em jogo. A percepção de que pode estar em curso a formação de um “trauma”, com
conseqüências para a vida adulta desse menor a ser gerido aparece em diversas situações.
No caso de Ana e Elisa, as crianças devolvidas à instituição, bem como no de outra criança,
Marcela138, esse não relatado na parte anterior, aparece a percepção do “trauma” como algo
ligado à própria circulação entre instituições e casas, havendo, em ambos os casos, a
culpabilidade dos guardiães por assistentes sociais e psicólogos. Tal culpabilidade, por sua
vez, também vai sendo feita ao longo do processo nos termos de uma certa compreensão
valorativa e psicológica dos guardiães, retratados progressivamente como pessoas
“despreparadas” para o objetivo a que se propuseram.
É interessante notar nesses casos, em primeiro lugar, a reviravolta promovida pela
entrada de psicólogos em cena, feita apenas quando os casos são considerados como
estando em um ponto crítico – leia-se, com a possibilidade da devolução da criança. A
partir do momento em que isso ocorre, como fica claro no caso das irmãs, as tentativas
conciliadoras das assistentes sociais tendem a ficar em segundo plano, atacadas por leituras
mais individualizantes dos guardiães como pessoas carentes, excessivamente exigentes e
até mesmo violentas. Assim, é possível pensar que a aparição dos especialistas,
verdadeiramente dotados de autoridade em relação à fala e à ação psicológica, promove
uma secundarização daqueles que só podem usufruir dessa mesma linguagem de autoridade
de modo subalterno ou, como chamei antes, como vulgata. Ao mesmo tempo, como aos
psicólogos corresponde de certo modo um papel de reconhecimento da falência dos
arranjos, seu lugar operacional tende a ancorar-se mais no processo inverso àquele que se

por muito tempo ocupou-se da sexualidade, sobretudo sob a forma de crimes ‘crapulosos’ e anti-naturais, mas
que, aproximadamente na metade do século XIX, se abriu à jurisdição miúda dos pequenos atentados, dos
ultrajes de pouca monta, das perversões sem importância; enfim, todos esses controles sociais que se
desenvolveram no final do século passado e filtram a sexualidade dos casais, dos pais e dos filhos, dos
adolescentes perigosos e em perigo – tratando de proteger, separar e prevenir, assinalando perigos em toda
parte, despertando as atenções, solicitando diagnósticos, acumulando relatórios, organizando terapêuticas; em
torno do sexo eles irradiam discursos, intensificando a consciência de um perigo incessante que constitui, por
sua vez, a incitação a se falar dele” (1977: 32)
138
O resumo do processo de Marcela pode ser visto no quadro em anexo e será descrito com mais detalhes no
capítulo 5.

174
dedicam os assistentes sociais: não garantir a imersão da criança em uma casa, mas sua
saída de lá, sua “devolução”.
A hierarquia entre essas diferentes categorias profissionais, marcada pelo que se
poderia chamar de um domínio plenamente autorizado de um determinado tipo de saber ou
um domínio apenas relativamente autorizado, afigura-se, na dinâmica do processo, como
experiência administrativa, não apenas uma relação de superioridade e inferioridade, mas
também de complementaridade e distribuição tanto de funções quanto de tarefas, no sentido
da relação entre o Juizado e as unidades domésticas. Dizendo de outro modo, se nos
processos está em jogo o embate e a composição entre diferentes relações de autoridade,
essa divisão de encargos diz respeito também a diversas possibilidades presentes no risco
de colocar crianças para serem guardadas em casas. No caso dos assistentes sociais,
embora a linguagem de inspiração “psi” estabeleça diferenciais de autoridade com os
envolvidos, ela se encontra mais a serviço da costura desse arranjo, enquanto no caso dos
psicólogos, encontra-se mais a serviço da sua dissolução. Tributários de sua própria
formação, os psicólogos fazem incidir sobre os acordos de guarda a leitura individualizante
de todos os envolvidos, enquanto os assistentes sociais, como visto no caso de Lucas ou
mesmo no de Ana e Elisa, quando todo o discurso inicial era favorável à dedicação da
guardiã, optam por enfatizar as possibilidades de conservação das relações139.
Dois outros casos que permitem pensar sobre a relação entre o uso da categoria
“trauma” como pertencente a um discurso autorizado/de autoridade e o esforço de
assistentes sociais em buscar conciliar situações ou garantir a inclusão de crianças em casas
são os de Cláudia e de Murilo e Diogo, os irmãos cuja mãe foi assassinada pelo pai. No
caso dos dois meninos, o assassinato da mãe os coloca inicialmente na posição de crianças
“traumatizadas”, justificando inclusive a sua resistência em ficar com a família paterna ou
visitar o pai na prisão. Na medida, porém, em que esse não recua diante do que considera
seu “direito de pai” e pressiona os assistentes sociais a mediar a relação dos filhos com sua
família, em primeiro lugar, e com ele mesmo depois, o “trauma” vai sendo convertido na
“tragédia”, descrição quase sem sujeito de um ato com sujeito claramente definido. Ou seja,
na medida em que o pai não abre mão do que seria parte de sua autoridade, mesmo estando
sem autonomia de conduzir mais efetivamente a relação, por estar preso, parte da

175
autoridade discursiva dos assistentes sociais também vai se alterando, cedendo espaço para
falas mais favoráveis à integração dos meninos à família paterna, elogios ao
“desprendimento” da avó materna e, por fim, subscrevendo a versão da família paterna
acerca da importância da participação dos filhos no que seria a recuperação do pai após sair
da prisão.
Já no caso de Cláudia, a percepção do “trauma” relacionado à sua vida pregressa, ao
abuso sexual sofrido e também ao abandono pela mãe, não pode ser desvencilhada de todo
o esforço de garantir sua permanência com a guardiã. Enquanto a percepção dessa vida com
a mãe, representada por sua vez em determinados momentos do processo também como
vítima, ou da miséria ou da violência do companheiro, passa a ser desqualificada como
opção viável de alocação de Cláudia, a alternativa da guardiã é reforçada não apenas como
o refúgio possível em uma situação repleta de intoleráveis para as representações de
infância correta, mas como totalmente assimétrica pelos próprios critérios mobilizados
pelas assistentes sociais.
Deixando de lado aqui o que seriam os critérios centrados mais especificamente nas
condições de vida segundo o que usualmente é exigido nos estudos sociais – moradia,
condição financeira, cuidados – e o espectro de intoleráveis – violência, sexo, abandono –
tem-se ainda nesse caso o que seriam os critérios extraídos dessa leitura vulgarmente
psicológica feita pelos assistentes sociais. Marta, a guardiã, é retratada como uma pessoa
“preparada” para lidar com a situação que se apresenta, demonstra ter construído uma boa
relação com os outros filhos e com o ex-marido (todos indicativos de uma “saúde
psicológica”) e, sobretudo, pretende recorrer a psicólogos para ajudar Cláudia a superar
seus “traumas”. A intervenção de profissionais nesse caso, feita privadamente e não através
do Juizado, inscreve-se não apenas no rol dos bens de cuidado mobilizados, mas de certo
modo capacita ainda mais a guardiã como pessoa autorizada a lidar com os problemas da
guarda de uma criança, convertendo para ela parte da aura e da autoridade profissional
reconhecida nesses especialistas.
Um outro caso que permite pensar a força do reconhecimento de certas profissões e,
portanto, da autoridade de certos saberes no estabelecimento de um capital simbólico frente
à autoridade dos especialistas do Juizado, encarregados de conduzir o processo e selar

139
A ação dos assistentes sociais como ação conciliadora e centrada nas unidades domésticas e não nos

176
decisões, é o da adoção de João Pedro, caso não detalhado na parte anterior. João Pedro
(nome dado pelos candidatos a pais adotivos) é um bebê recém-nascido, encontrado junto a
um hospital público. Como no mesmo hospital trabalha a candidata à mãe adotiva do bebê,
ele não chega a passar por qualquer outra instituição pública, já que o casal inicia o
processo de adoção nos primeiros meses de vida do menino, quando este ainda se encontra
no hospital. Entre o pedido formal de adoção, feito quando João Pedro tinha sete meses de
idade, e a concessão da adoção plena, transcorre cerca de um ano, período durante o qual
são concedidas guardas provisórias ao casal. Durante esse tempo, são feitas duas entrevistas
com assistentes sociais, acompanhadas de visitas domiciliares.
Os elementos que transformam esse caso em uma espécie de “modelo ideal” de
adoção dizem respeito tanto à idade da criança, um bebê praticamente recém-nascido, o que
reforça a idéia da família substituta integral; a motivação do casal, casados há 11 anos e
impossibilitados de ter filhos; sua posição profissional e econômica, reputadas pela
assistente social como favoráveis, já que o marido é administrador de empresas, professor
de um colégio privado renomado e funcionário público e ela, além de trabalhar no hospital
onde estava o bebê, é assistente social de formação, tendo também apartamento próprio; o
fato de tanto os candidatos a pais e quanto criança serem negros, o que é representado pelo
marido como fator favorável; e, sobretudo, os indicativos de investimento emocional e
afetivo realizados ao longo do processo. Entre esses investimentos destacam-se, por sua
vez, a montagem do quarto do bebê, o envolvimento dos parentes, com escolha de padrinho
e madrinha, inclusive, e durante o período em que João Pedro permaneceu no hospital,
enquanto a guarda provisória era avaliada no Juizado, as visitas constantes do casal,
sobretudo da mãe, por trabalhar no mesmo local.
Esses elementos são ainda reforçados por depoimentos de funcionários do hospital
durante as visitas de assistentes sociais, assinalando que o casal deveria ficar com a criança
e pela fala de um dos médicos, devidamente registrada pela assistente social responsável,
alegando que seria perigoso para o menino permanecer no hospital por mais tempo, já que
não tinha qualquer doença e poderia mesmo vir a contrair alguma pelo contato com os
outros bebês. Este último argumento, diga-se de passagem, foi utilizado também pelo pai de
Maíra ao final do processo, em seu apelo ao juiz, alegando que a filha corria riscos por

indivíduos será retomada e desenvolvida no capítulo 5.

177
permanecer na instituição estatal, enquanto os pais continuavam sendo avaliados sobre sua
possibilidade de novamente virem a assumir a filha.
Destaca-se aí, portanto, em primeiro lugar, a questão do capital social construído, no
caso da adoção de João Pedro, não só pelas condições econômicas do casal, mas pelo
reconhecimento de suas profissões como especialmente favoráveis para essa tarefa – criar
uma criança – na medida em que não só desfrutam de certo prestígio social, mas porque
estabelecem fácil empatia com a formação dos próprios especialistas encarregados de
avaliá-los. O fato do casal ser formado por um professor de escola privada conceituada e
uma assistente social de formação contribuem para o acesso privilegiado ao bem social da
“criança adotável”, já que tomam contato com ela antes que o caso chegue ao Juizado, e
também para sua representação como um investimento seguro na gestão de um indivíduo
em formação. Por outro lado, a opção, em dado momento do processo, de registrar a fala de
outros profissionais do hospital – sobretudo a do médico – como falas favoráveis ao casal e,
em especial, contrárias à permanência da criança no hospital pela indefinição administrativa
sobre seu destino, pode ser pensada pelo prisma das diferentes autoridades discursivas de
todos os envolvidos. Mobilizando a autoridade de que dispõe – no sentido de poder e de
obrigação – a assistente social produz um diagnóstico favorável à adoção respaldado por
outros profissionais, externos ao Juizado mas desfrutando de capitais simbólicos
semelhantes ou mesmo superiores ao da assistente. Nesse sentido, a sacramentação de um
ato de outorga/criação de autoridade, como a adoção, com o pátrio poder que lhe é
atribuído, é produzido a partir de outras múltiplas relações de autoridade.

Direitos e obrigações de “ter” crianças

Se até agora procurei enfatizar a relação entre os diferentes níveis ou relações de


autoridade presentes nas experiências judiciais em torno da guarda de crianças – destacando
a necessidade dos postulantes adequarem-se à ação dos especialistas e esses precisarem
atuar ao mesmo tempo preservando os elementos que constróem sua autoridade específica
como uma autoridade outorgada, mas dependendo sempre, por um lado, de certos

178
procedimentos ou estratégias e, por outro, visando encontrar soluções administrativas para
os problemas que se apresentam – gostaria agora de desenvolver um outro ponto.
Considerando o processo como um todo como registro e construção de uma relação de
autoridade – dos guardiães, pais biológicos ou adotivos sobre as crianças – ao mesmo
tempo mediada e instituída pela administração, na figura institucional do Juizado, torna-se
necessário pensar sobre o que seria o fundamento dessa transação. Ou, colocando em outros
termos, o que significa permitir que pessoas “tenham” ou “guardem” crianças?
Antes de mais nada, essa permissão significa, inclusive juridicamente, instituir um
responsável sobre um menor, ou seja, alguém que legalmente responda diretamente pela
gestão da condição de menoridade legal em que outro indivíduo se encontra. Tal gestão,
por sua vez, não se realiza sem que certas obrigações sejam observadas, algumas delas
devidamente formalizadas nos textos legais, de modo que rupturas com essas obrigações,
caso levadas a julgamento, podem implicar na destituição da autoridade do gestor. Para
além do que se formaliza nos Códigos de Menores ou no Estatuto da Criança e do
Adolescente, porém, creio que os processos, como experiências de avaliação e negociação,
permitem pensar de forma mais dinâmica essas obrigações e as recompensas sociais que
motivam os que as aceitam ou que lutam para não perdê-las140.
O primeiro passo para refletir sobre essas questões está, creio, na própria semântica
adotada por pais, guardiães, candidatos a guardiães ou a pais adotivos. Os termos utilizados
estão quase sempre presos à percepção de uma troca ou de uma circulação: dar o filho,
ceder a guarda, perder direitos, dar direitos, dar os mesmos direitos que os outros filhos
têm, perder o filho, abrir mão, dar de papel passado. A questão que se coloca, portanto, é: o
que está circulando, ou o que está sendo dado, perdido ou trocado? De forma diferente do
que aponta Fonseca (1995) sobre a circulação de crianças operada informalmente entre a
parentela, vizinhos e conhecidos, o próprio fato de comparecer ao Juizado e de lá sair com
uma situação definida legalmente traz para esse expediente um outro peso, uma outra

140
Como indicado no capítulo 1, a demarcação das responsabilidades coletivas envolvendo crianças é um
elemento fundamental em todo o processo de surgimento das legislações sociais e, em especial, da legislação em
torno das crianças. Sigaud, partindo das propostas de Weber, destaca que “a coexistência de comportamentos
distintos em face da violação das normas jurídicas no interior de uma mesma configuração social é reveladora da
fragilidade da crença no direito como princípio de explicação para os comportamentos e sugere que tais
princípios devam ser buscados para além do direito, de suas normas e instituições” (1996: 362)

179
forma. Não à toa, em vários casos está presente a imagem de que a ida ao Juizado busca
“regularizar uma situação”, demonstrando minimamente o desejo de dar novo status e outro
reconhecimento legal – poder-se-ia dizer também uma outra visibilidade – a transações
efetuadas às vezes há muitos anos. Não poucas vezes, porém, esse processo apresentado
como mera decorrência de alguma exigência externa ou como desenvolvimento da
transação anterior encontra resistências, hesitações e desenrola-se de modo conflituoso.

Em que se assenta, então, essa distância entre a fala inicial dos atores e a dinâmica
assumida pelas experiências judiciais em seu decorrer? O que motiva resistências que
aparentemente não estavam colocadas no ato inicial de circular uma criança? Nos termos
em que venho buscando colocar a discussão nesse capítulo, parece-me claro que essa
distância está relacionada ao deslocamento de autoridade a partir da intervenção do
Juizado. Dar, perder, ceder uma criança é, antes de mais nada, dar, perder ou ceder a
autoridade sobre ela. Ao consolidar essa passagem, através da intervenção de uma
autoridade superior – a do próprio Juizado e seu poder de produzir uma nova verdade social
– os envolvidos vêem-se colocados em uma relação que pode ser simultaneamente de
obrigações e assimetrias, uma vez que alguém “doou” e alguém “recebeu”, com o
agravante dessa relação se tornar legalmente sacramentada141.
A tensão construída especificamente a partir dessa formalização fica mais evidente
nos casos em que há recusa em ceder a guarda, independente do tempo transcorrido e da
forma de relação entre os envolvidos, ou em que há concordância com relação à guarda,
mas não com relação à adoção. Em ambas as situações, está em jogo desenhar uma certa
fronteira entre o que pode ser pensado como uma colaboração aceitável, um arranjo que
não desfaz o primordial da relação de autoridade com a criança, independente das
condições concretas em que isso se dê, e a ruptura considerada indesejada. Dar, abrir mão
ou perder o filho, nesse sentido, inscreve-se como o ponto extremo de uma larga variedade
de composições de autoridade. Por outro lado, é preciso pensar sobre as motivações

141
O tema das obrigações advindas da troca encontra uma referência clássica no Ensaio sobre o Dom, de
Mauss (1974), no qual, entre outras coisas, indica que a sanção advinda de não trocar corretamente – dando,
recebendo ou retribuindo – é a perda de autoridade daquele que rompeu com as expectativas e compromissos
envolvidos na troca. Ao discorrer sobre o pottlach, Mauss destaca dois elementos essenciais: “o elemento da
honra, do prestígio, de mana que confere a riqueza e o da obrigação absoluta de retribuir essas dádivas, sob
pena de perder esse mana, a autoridade, o talismã e a fonte de riqueza que é a própria autoridade
(Mauss,1974: 50)

180
apresentadas para ceder ou resistir a essa ruptura, ou seja, frente a uma situação de
depoimento, como os atores justificam sua posição e recontam sua história.
Uma possibilidade envolve a produção de uma memória que justifique o ato de dar
a criança: ou como uma situação premida por condições externas, uma conduta advinda da
necessidade, como se dá de forma mais dramática no caso de Cláudia; ou de forma mais
atenuada em outros, como ação voltada para a preservação da criança, a busca por uma
alternativa melhor de vida para ela. Nesses casos, busca-se separar a doação da criança da
imagem do abandono, como algo que remete a não se importar com ela e, em função disso,
a estar disposto a romper os laços. A releitura contextual dessas situações é, desse modo,
uma releitura também moral do ato feito, o que tem conseqüências para a definição dos
limites na circulação da autoridade142.
Tanto no caso de Cláudia quanto no de Alice, a apresentação de justificativas para a
cessão da autoridade (o “dar de papel passado”, no caso de Cláudia, e o acordo de guarda,
no caso de Alice) se inscreve na lógica do cuidado e, na medida do possível, da manutenção
da presença materna. A mãe de Alice, em especial, procura separar o que seria a “gratidão”
à patroa, o reconhecimento do que faria materialmente por sua filha, do que seria a
maternidade em si, expressando o temor de que a formalização da relação levasse a uma
corrosão de sua autoridade (como, por exemplo, no caso de dar autorização para a filha
viajar ou efetivamente tomar decisões sobre sua vida). Ir ao Juizado, no caso dela,
representa uma situação de extremo risco para os limites que procura preservar na relação
com a patroa, o que faz com que, mesmo concordando com o desejo de guarda expresso por
esta última – tanto que vai ao Juizado efetuá-lo – não o faz de forma tranqüila. Já no caso
de Cláudia, a perda definitiva da autoridade formal da mãe sobre ela, com a adoção da
menina pela guardiã, é parte de um processo paradoxal de redefinição da sua relação com a
filha, agora como uma relação triangular, envolvendo também Marta. Curiosamente,
portanto, a ida ao Juizado e o decorrer do processo de adoção não representaram a ruptura

142
Considerando como instituições uma enorme gama de associações, inclusive a família, Mary Douglas
afirma que qualquer instituição que busca manter sua forma necessita ganhar legitimidade através do
estabelecimento de posições distintivas na natureza e na razão, fornecendo a seus membros um conjunto de
analogias através das quais podem construir a naturalidade e a racionalidade das regras institucionais e
mantê-las em uma forma contínua e identificável. Desse modo, qualquer instituição controlaria a memória de
seus membros, o que implicaria em fazê-los esquecer experiências incompatíveis com sua imagem de
correção, provendo as categorias de seu pensamento e assegurando o edifício social através da sacralização
dos princípios de justiça. (Douglas, 1986: 112-113)

181
da relação, mas deram a ela uma nova forma, indicando a plasticidade possível na “posse “
de uma criança.
Um outro caminho na releitura do ato de dar o filho envolve não a absolvição ou a
manutenção da figura materna em relação às novas figuras legalmente instituídas –
guardiães, mães adotivas – mas a desqualificação dos guardiães, seja por sua caracterização
feita durante os depoimentos, seja pela idéia de um logro sofrido durante a circulação da
criança. Dos casos detalhados, dois apontam claramente para essa imagem dos guardiães
como pessoas que romperam os acordos firmados, chegando a expedientes desonestos e
tentando, enfim, ludibriar os pais para conseguir a criança: o caso de Maíra e o de Lucas.
No caso de Maíra, o pai procura justificar seu ato – denunciado ao Juizado como
ilícito pelo componente de “chantagem” – apelando, por um lado, para a ruptura do acordo
feita pelos guardiães e, por outro, para o retrato da situação em que se encontrava como
sendo uma circunstância desesperadora, em que ele precisava não apenas pensar na filha
recém-nascida, mas nos outros filhos. Esse expediente permite que ele recrie uma posição
mais positiva para seu ato de dar a filha, na medida em que o coloca como vítima de um
contexto, objeto de infortúnios que não tinha como controlar, retratando conseqüentemente
os guardiães como pessoas que se aproveitaram de seu desespero e por relacionar a isso a
obrigação primordial de que é feita sua autoridade como pai: cuidar dos outros filhos.
Embora o desfecho do caso tenha que ser compreendido frente à desistência dos
candidatos à guarda, não há dúvidas de que essa releitura da transação é fundamental para
que a autoridade do pai seja integralmente corroída pela especulação de ter, de algum
modo, vendido a filha através do rádio. Por outro lado, mesmo no episódio em si do
anúncio da criança, fica clara a preocupação em preservar um outro tipo de autoridade, a de
escolha de quem seriam os novos pais de sua filha. Dar Maíra, nesse momento ainda um
bebê recém-nascido, não é um ato aleatório, como o abandono em local desconhecido
(mesmo esses, quando se dão na porta de hospitais, como ocorreu com João Pedro, ou de
igrejas, no caso de Cláudia, não se revelam tão aleatórios assim), mas parte de um grande
processo de negociação. A imagem do logro sofrido, portanto, não diz respeito só ao que
materialmente estaria sendo subtraído, na versão do pai, da transação inicial, mas à própria
autoridade de alguém que selecionou entre diversos candidatos quais seriam os mais
adequados para receberem o bem de que ele abria mão.

182
Já no caso de Lucas, a representação negativa dos guardiães passa tanto pelas
acusações de comportamento quanto pela inadequação destes ao que seriam as suas reais
atribuições. Na versão da mãe, os guardiães estariam procurando exercer um controle que
iria além de seu papel, impedindo-a de ver o filho sozinha ou de ter maior contato físico
com ele, agredindo seus “direitos de mãe”, como discutirei mais à frente. Não à toa, de
modo semelhante àquele que a mãe de Alice procura fazer em determinado momento do
processo, ela tenta separar o que seria o principal elemento de vantagem dos guardiães:
cuidar materialmente e cotidianamente de Lucas, alegando que o que eles lhe dariam seria
“assistência material e nada mais”. Mas, para além disso, existe também a imagem do
logro, do engodo representado pelo papel em branco que ela teria assinado em um dado
momento da relação entre eles. O papel em branco, que aparece de outra forma também no
caso de Leonardo, uma criança dada pela mãe na rodoviária, e do qual falarei mais adiante,
tem o efeito, em primeiro lugar, de marcar a má intenção dos que recebem – subvertendo o
discurso da generosidade daqueles que acolhem – e indicando o quão socialmente precioso
é considerado esse bem que circula, especialmente quando se trata de bebês recém-
nascidos. Mas, além disso, tem também o poder de inverter uma assimetria que é
necessariamente uma assimetria de autoridade em relação a crianças: a que se estabelece
entre ignorância e conhecimento.
Se, por se tratar de algo representado como estando em formação, as crianças
sugerem que no cálculo de seu cuidado deve entrar a possibilidade da educação, em um
sentido amplo, de modo que escolas particulares, cursos ou mesmo a formação prévia dos
guardiães e candidatos à guarda são fatores relevantes na busca de soluções administrativas
para a gestão de crianças, a assimetria em termos do que socialmente pode ser entendido
como “conhecimento” coloca os vários envolvidos em posições diferenciais em termos de
autoridade. Ao recolocar essa assimetria no plano do logro, porém, as mães contrapõem a
essa desigualdade uma outra igualmente importante ou simbolicamente até mais relevante:
a que envolve a imagem difusa de “roubar” uma criança, de adquirir ilicitamente algo a que
não se tem direito “naturalmente” porque não é de seu sangue. A diferença de
conhecimento é transformada, nesses casos, em ato corrupto, com o qual se buscou falsear
os limites concretos da relação que estava sendo proposta, ou seja, com o qual se procurou
transformar uma negociação parcial de autoridade em cessão completa desta. “Nunca quis

183
dar meu filho” é a expressão que sintetiza essa ultrapassagem de limites: trata-se de um
empréstimo, uma circulação temporária ou limitada, mas não uma doação.

O fantasma das negociações mal realizadas assombra, desse modo, todos os


envolvidos, aparecendo não apenas nos casos em que há recusa, por exemplo, à passagem
da guarda para a adoção, mas também no medo de que as mães “voltem atrás”, que
decidam recuperar o que em algum momento foi cedido e fazendo com que todo o
investimento, sobretudo o afetivo, seja posto por terra. Voltando ao caso que mencionei há
pouco, da criança passada pela mãe na rodoviária aos que viriam a ser os guardiães, creio
que pode ser interessante esclarecer um pouco de sua história para discutir esse medo do
retorno das mães. Os guardiães, Silviano e Lúcia, buscam o Juizado em 1989, solicitando a
adoção de Leonardo, então com quatro anos e sob sua guarda desde recém-nascido.
Alegando que os pais não fizeram contato nos últimos anos, e sem que esses consigam ser
localizados pelo Juizado, conseguem a adoção em 1990. Se o processo de transformação da
guarda em adoção foi relativamente rápido e simples, o mesmo não ocorreu no processo de
guarda, colocado em apenso ao de adoção.
No pedido que abre o processo de guarda, o guardião, que compareceu ao Juizado
com Ana Paula, mãe de Leonardo, e Dª Selma, mãe desta, afirma que Leonardo, de um mês
de idade, lhe foi entregue pela mãe na rodoviária do Rio de Janeiro, ainda sem registro de
nascimento143. Alega ainda que “na ocasião, face ao desespero da mãe, a impossibilidade de
mantê-lo, o declarante concordou em recebê-lo”. Em anexo ao pedido, há um documento
em que a mãe declara que voluntariamente entrega o filho ao sr. Silviano, comprometendo-
se “a jamais procurá-lo na Justiça ou em qualquer outro lugar”. Embora não se possa
caracterizar a situação como marcada pela má fé – pelo menos não exatamente do mesmo
modo que a mãe de Lucas procurou retratar a assinatura do papel em branco – uma vez que
o “contrato” é apresentado na própria petição inicial, o fato do guardião ter tentado selar o
compromisso dessa forma e nessas condições teve implicações no desenrolar do processo.

143
A ausência de registro de nascimento torna as crianças que circulam nessa condição um bem especialmente
valioso, ao mesmo tempo em que joga suspeitas sobre as transações efetuadas nessas condições, já que a
criança pode vir a ser registrada por terceiros. Esse expediente, singularmente conhecido como “adoção à
brasileira”, é de difícil quantificação, por sua própria natureza, mas reconhecido como usual por todos os que
de algum modo estão envolvidos com esse tipo de processo. Simbolicamente, a sua denúncia ou simplesmente
o reconhecimento de sua existência desempenham papel relevante em todas as discussões, boatos e temores
acerca do “comércio de crianças”, especialmente para o exterior. Sobre a sua importância nos processos e
representações em torno da adoção internacional, ver Abreu, 1995.

184
Ao ser entrevistada por assistentes sociais alguns dias mais tarde, a mãe afirma ter
desistido de entregar o filho, alegando que o fez naquele momento em razão da situação em
que se encontrava, sem dinheiro e sem apoio do companheiro ou da mãe para manter a
criança consigo. Alega ainda ter sido pressionada por sua sogra a fazê-lo e que esta, por sua
vez, teria ficado com outra filha sua, cedida por ela, na sua versão, a pedido da sogra que
queria muito criar uma menina, já que só teria tido filhos homens. Depois de um tempo, no
entanto, passou a impedir que ela, Ana Paula, visitasse a criança. Quanto ao papel assinado,
afirma ter sido levada pelas condições a fazê-lo, porque sem isso não teria nem o dinheiro
para a passagem de ônibus até Cabo Frio, fornecida pelo casal, de forma a procurar seu
companheiro e tentar convencê-lo a ficar com ambos – ela e a criança. Os candidatos à
guarda, por sua vez, alegam em certo ponto do processo estarem arrependidos do
estratagema do compromisso por escrito, tendo feito isso movidos por sua própria
ignorância quanto aos procedimentos legais – isto é, autorizados burocraticamente e, por
isso, capazes de produzir autoridade – e por medo de que a mãe desistisse de dar a criança.
O processo, do modo como narrado, resultou em um texto muito tenso, com os
guardiães em certo momento aceitando desistir de Leonardo se ficassem como seus
padrinhos, para poder, na sua argumentação, continuar a oferecer os cuidados,
especialmente de saúde, que a criança necessitaria, já que Leonardo tinha diversas alergias.
A relutância da mãe em ceder a guarda definitiva (o casal consegue a guarda provisória na
primeira ida ao Juizado), por sua vez, não foi totalmente desfeita em nenhum de seus
depoimentos, embora ela tenha sido constantemente questionada sobre sua impossibilidade
de manter o filho, já que não tinha emprego ou renda fixos e seu companheiro era contra a
que ficassem com ele. Por fim, com a sua ausência, essa resistência se desfaz em termos do
andamento do processo e Leonardo acaba por ser adotado.
É interessante notar nesse caso que a base da autoridade da mãe é muito tênue,
ancorando-se até certo ponto apenas na sua recusa em ceder o pátrio poder e na sua
representação como alguém que tomou a atitude que tomou em um ato de desespero,
desejando rapidamente voltar atrás. O tempo entre a doação e a recusa representa, nesse
caso, um componente importante, o que torna difícil toda a negociação da guarda, a ponto
do guardião propor uma solução de compromisso: ser padrinho, ser um pai sem autoridade

185
legal, um pai por aliança144. Por outro lado, pesam contra a mãe outros dados de autoridade:
a incapacidade em manter-se sem o companheiro e, conseqüentemente, a sua dependência
frente à mãe e, em especial, frente à sogra, coisa que, a se considerar a sua versão, já teria
lhe custado outro filho. Independente do fato de ela ter, segundo os guardiães,
“desaparecido do mapa”, portanto, e considerando que com toda sua negativa, ainda
durante o processo de passagem da guarda provisória para a definitiva, a criança
efetivamente ficou com os guardiães – ou seja, a doação feita na rodoviária nunca chegou a
ser totalmente desfeita – é de se crer que os dados de dependência da mãe, aliados a outras
acusações que não detalharei nesse capítulo, tenham sido mais relevantes para o desfecho
do processo do que o seu desejo de retomar a autoridade cedida quando da passagem do
filho para o casal145.
Processo semelhante ocorreu no caso de Anderson, em que a mãe manifesta seu
desejo de retomar a criança quatro meses após ter sido iniciado o processo de adoção. As
tentativas da mãe em preservar ao menos algumas dimensões de sua autoridade – visitas,
indicações a respeito de como os guardiães ou pais adotivos deveriam criar seu filho, sem
dizerem que foi abandonado etc – fracassam frente ao quadro geral exposto, de modo que
ela não consegue reverter a doação indiretamente feita ao casal, já que na prática a doação
teria sido feita a uma terceira pessoa e dela passada ao casal. Tanto no caso de Patrícia, mãe
de Anderson, quanto no de Ana Paula, mãe de Leonardo, está presente um outro elemento
de desautorização, para além da doação em si do filho em um determinado momento e da
sua incapacidade em provar o lugar de provedora que lhes é exigido – ou de seus
companheiros ou parentela. Trata-se do que se poderia chamar da autoridade pela
proximidade, por estar no território da maternidade como exercício. As duas encontram-se,
ao contrário de Graça, mãe de Lucas, ausentes fisicamente dos locais onde seus filhos estão
sendo criados. Não apenas perdem a autoridade que pode ser extraída do dado em si da
maternidade, mas a possibilidade de compor com mais tranqüilidade os arranjos complexos
de partilha dessa mesma maternidade, como Graça tanto insiste em fazer com sua presença
indesejada junto aos guardiães do filho.

144
O tema do compadrio tem grande importância na literatura antropológica sobre famílias, grupos
domésticos e redes de aliança (ver, por exemplo, Mintz e Wolf, 1986; Franco, 1983 e Sigaud, 1996). O tema
vai ser discutido no capítulo 5.
145
Outros aspectos desse caso serão também retomados no capítulo 5.

186
É impossível dissociar esse tipo de autoridade da importância que as casas,
enquanto unidades físicas de gestão e alocamento de crianças têm. Se o cuidar pressupõe o
controle cotidiano, estar em algum ponto físico que permita esse controle é fundamental,
mesmo que não necessariamente na mesma casa no sentido de uma moradia. Como alguns
pesquisadores têm apontado a partir de situações etnográficas variadas, a compreensão de a
que casas uma pessoa pertence vai muito além dos limites nucleares ou físicos, supondo
essencialmente uma rede de relações que é, obviamente, uma rede também de construção
de identidades – ser filho de quem, ter várias mães etc146.
Não à toa, são usualmente feitas indagações nos processos sobre as possibilidades
das crianças ficarem com outras pessoas da parentela, indicando a relativa colagem entre o
parentesco e o território; entre as casas como unidades de moradia e como entidade moral.
E, nos termos em que procuro trabalhar nesse capítulo, entre a autoridade como
possibilidade do enraizamento físico, territorial das crianças e a manutenção da autoridade
extraída do parentesco em si e, especialmente, da descendência enquanto
maternidade/paternidade. Ter o filho, preservar o pátrio poder como recurso legal, mesmo
com a existência da guarda, e não estar lá, ou seja, não estar fisicamente inserida de algum
modo na casa, no território em que a criança é guardada, é correr o risco de ser percebida –
para usar a acusação que a guardiã de Lucas fez à sua mãe – como alguém que está apenas
“querendo posar de mãe”. E é ser percebido também como um outsider, alguém que, por
não pertencer a um grupo ou rede definido a partir da associação territorial, não consegue
dominar os códigos exigidos e pode estar mais facilmente sujeito a estigmatizações147.

146
Entre outros, os trabalhos já citados de Fonseca (1995) que discute as estratégias adotadas por mães de
buscar parentes que morem perto ou vizinhos, como fisicamente mais próximos ou, caso isso não seja
possível, enviar os filhos para parentes fisicamente mais distantes; de Marcelin (1996) que fala em
configuração de casas e de Comerford (2001) que usa territórios de parentesco, iluminam a variedade de
facetas que essa questão pode contemplar. Além disso, é inevitável fazer referência ao trabalho de Thomas e
Znaniecki (1974) e os impasses e possibilidades encontrados nas tentativas de manter redes familiares mesmo
com separação física.
147
Elias e Scotson se propõem a pensar a relação entre estabelecidos e outsiders, enquanto uma configuração
específica, em termos de processos de estigmatização de grupos, capazes de promover, obviamente, também a
estigmatização individual. Pensando a partir da relação entre os grupos antagônicos, os autores destacam a
interdependência entre eles, não os isolando como o próprio processo de estigmatização busca construir. Ou
seja, não subscrevem como recurso analítico o que, em verdade, é parte da dinâmica entre os próprios grupos.
Como expedientes de demarcação de diferenças e, conseqüentemente, de produção de estigmas, os autores
destacam a fofoca tanto em sua vertente elogiosa, quanto em sua vertente desabonadora. O exercício de
detração a que os depoimentos por vezes se dedicam, e que serão discutidos no próximo capítulo, podem ser
pensados como um momento muito especial do recurso à fofoca. Sobre a relação entre esta e o diferencial de
poder entre os grupos, os autores colocam que “a fofoca, no entanto, sempre tem dois pólos: aqueles que a

187
Nesse sentido, o atuação do pai de Murilo e Diogo é exemplar. Mesmo estando
preso e, desse modo, fisicamente impossibilitado do contato com os filhos, ele insiste na
necessidade de não perder o seu lugar de pai. O recurso possível, além da manifestação de
seus “direitos de pai”, de que falarei adiante, é advogar pela manutenção dos filhos junto à
sua própria família de origem, retirando-os, inclusive pela transferência de casas, da família
materna. A naturalidade da guarda junto à família materna, por sua vez, foi explicada
durante o processo como sendo tributária não só da própria situação, o assassinato da mãe
pelo pai, mas pela proximidade física entre as casas, com os meninos “acostumados” a
estar com a tia e a tia-avó maternas. A casa original, portanto, isto é, anterior ao crime, não
se compunha apenas da casa nuclear, mas dessa rede de relações e moradias que criava,
tanto quanto um território definido pelas relações de parentesco, um território do cuidado,
sendo o mais sintomático disso o fato das crianças terem, de acordo com os relatos feitos,
corrido para a casa da tia-avó quando a mãe foi morta.
Para que a situação de aprisionamento e, portanto, de impossibilidade de estar
fisicamente cuidando da gestão dos filhos não se transforme em perda completa de
autoridade e, no extremo, em perda da própria descendência, com os filhos afirmando não
quererem falar com ele e mesmo desejarem “se vingar”, o pai precisa reinseri-los na sua
própria rede, de modo que não apenas a relação seja retomada, mas o próprio crime seja re-
significado. Como observamos anteriormente, a narrativa do processo se constrói partindo
da ruptura provocada pelo crime, com os filhos se negando a ver o pai e caminhando até a
releitura do drama, com os filhos servindo de ferramenta para a recuperação do pai. A
transformação física das casas foi também, nesses termos, uma transformação retórica do
ato em si: as crianças representando ao mesmo tempo o papel de motor dessa
transformação, de bem simbólico em disputa e de promotores do compromisso e do perdão
possíveis entre as famílias. Se, em determinados momentos, os dois lados acusam-se de
obstruir o contato, cada qual falando que o outro lado não permitia visitas, em novo
momento, as crianças firmam um compromisso, na sua fala para a assistente social, de

circulam e aqueles sobre quem ela é circulada. Nos casos em que o sujeito e o objeto da fofoca pertencem a
grupos diferentes, o quadro de referência não é apenas o grupo de mexeriqueiros, mas a situação e a estrutura
dos dois grupos e a relação que eles mantêm entre si. Sem esse quadro de referência mais amplo, é impossível
responder a uma pergunta crucial: saber por que a fofoca pode vir a ser, como no caso das fofocas da “aldeia”
sobre os moradores do loteamento, um recurso eficaz para ferir e humilhar os membros do outro grupo e para
assegurar a ascendência sobre eles” (Elias e Scotson, 1994: 130)

188
“continuar a obedecer” à tia e à tia-avó maternas, ligando, através da autoridade
reconhecida pela obediência, os lados em confronto. Ou, dizendo de outro modo,
garantindo que o deslocamento físico não significaria romper com a rede de parentesco,
mais que nunca uma rede de autoridades.
A garantia da obediência, por sua vez, também aparece nas negociações entre
Liliana, o pai e a tia-avó perante o Juizado. Além de estar presente, também nesse caso, a
questão da proximidade de moradias, o argumento de Liliana para não querer morar com
o pai está centrado no que seria, na sua visão, o exercício de uma autoridade ilegítima,
por seu excesso ou sua forma: proibi-la de ir a bailes, repreendê-la na frente de outras
pessoas e, no limite, bater nela. A possibilidade de ficar na casa de dª Margarida, por sua
vez, passaria não apenas pela antigüidade da relação de cuidado – dª Margarida cuidou
dela e das irmãs por cinco anos, depois da morte da mãe – mas pelo respeito que ela teria
pela tia-avó, reconhecido pelo próprio pai. O respeito, parte de uma semântica de dívida e
gratidão, mas também de obediência, aparece nesse quadro como a possibilidade de
exercício da autoridade mais naturalizada, sem a ruptura de limites que Liliana reconhece
nas ações do pai.
Nesse caso, a crise de autoridade do pai está relacionada também à idade de Liliana,
próxima da maioridade, e da autonomia relativa conseguida através do trabalho. Sua derrota
nas negociações, como foi visto, pode ser atribuída, em primeiro lugar, à recusa do pai em
formalizar a relação de moradia extensa em que viviam com dª Margarida, transformando-a
em uma passagem de guarda burocraticamente reconhecida e, como conseqüência disso, ser
levado a monetarizar uma relação, até então colocada em termos de dom gratuito, pelo
estabelecimento de uma pensão148. Além disso, o fracasso do projeto de Liliana pode ser
atribuído, como foi dito, à própria rede de responsabilidades em que ela reconhece estar
imersa, devendo cuidar das irmãs. Frente à situação que se apresenta com relação ao pai e à
madrasta, Liliana só reconhece viabilidade nesse cuidado caso ele seja feito na mesma
casa, recusando a possibilidade de ficar morando com dª Margarida e as irmãs
permanecerem com o pai. A autoridade do pai sobre Liliana, prestes a se desfazer pela

148
A gratuidade do dom alegada pelos que participam de diferentes circuitos de troca deve ser percebida, de
acordo com Mauss, também em sua dimensão de ocultamento das obrigações. Dar visibilidade e tornar
explícitas as obrigações pode significar romper o sentido de tais trocas, inviabilizando-as como circuitos que
nunca se fecham integralmente (Mauss, 1950)

189
maioridade e pela relativa autonomia financeira, é reforçada através do partilhamento da
moradia e das obrigações não apenas entre pai e filha, mas entre irmãs, indicando mais uma
vez o quanto a autoridade legalmente definida através do pátrio poder é apenas uma
dimensão de relações muito mais complexas de interdependência.
Por fim, ainda pensando na vinculação entre a obediência como expressão da
autoridade pretendida ou reconhecida e as casas, há o caso de Teresa, não detalhado antes e
o de Ana e Elisa. Teresa, uma menina de treze anos no início do processo de guarda, era
filha de uma ex-companheira do guardião, já casado novamente quando do início do
processo. No momento em que resolvem recorrer ao Juizado, Teresa já estava com o casal
há um ano e meio, tendo vindo do Ceará para o Rio de Janeiro a pedido da mãe, para fazer
tratamento médico. O pai de Teresa havia morrido há já alguns anos, de modo que o pátrio
poder da menina estava exclusivamente nas mãos da mãe. A nova companheira do guardião
afirma que não se opôs à vinda de Teresa e assina o pedido de guarda junto com ele.
Ambos contam que a menina chegou em sua casa com desnutrição, tendo sido levada ao
médico e feito tratamento dentário. Um ano depois de concluído o processo, o casal voltou
ao Juizado para desistir da guarda e afirmou estar “devolvendo” a menina à mãe,
por ser desobediente, envolver-se com pessoas de má índole e por “falta de consideração”
com eles. Nesse caso, portanto, o rompimento com a obediência esperada – e,
conseqüentemente, com a autoridade pretendida – teve como desfecho a desterritorialização
de Teresa (ou reterritorialização, dependendo do sentido que se queira dar à sua migração).
Processo semelhante ocorreu com Ana e Elisa, ambas acusadas de desobedientes em
determinados momentos e ameaçadas de serem devolvidas, nesse caso não para os parentes
de origem mas, na ausência destes, para as respectivas instituições de onde foram retiradas.
A frustração com a autoridade não reconhecida revelou-se, nesse caso, tão grande que
acabou por significar a desistência do projeto de reinvenção familiar que a guardiã
procurou promover trocando a casa por parentesco, ao adotar duas irmãs, mesmo estando
em instituições separadas. O desejo de dª Albertina de adquirir para si três dimensões da
maternidade – autoridade, moradia e sangue – justamente no momento em que ela própria
havia perdido recentemente sua mãe, indica o quanto o deslocamento de certos lugares
sociais envolve transformar-se em termos de autoridade. Deixar finalmente de ser filha
implicou para ela a tentativa de construir-se como mãe, inclusive por meio de expedientes

190
fantasiosos, como inventar um pai negro para Elisa para justificar a cor diferente entre
“mãe” e “filha”. Ter uma família, nesse sentido, implica em reinventar o sangue através da
autoridade, da autorictas socialmente reconhecida por meio de relações, mas também de
documentos: certidões, retratos de supostos pais, processos judiciais149.
Uma outra discussão a ser feita, retomando pontos que já foram mencionados nesse
capítulo e nos casos detalhados, é a da fronteira – como relação e como barreira,
antagonismo – entre o cuidado, no qual se inclui a casa e a gerência cotidiana da criança
em formação, e o sangue150. O medo do retorno da mãe biológica que mencionei antes e
que está presente em diversas petições de guarda e adoção, evoca essa fronteira e seu
aspecto mais traiçoeiro: como garantir que o cuidado não se perca frente ao sangue? Como
respaldar-se que a autoridade obtida através do bem cedido não seja roubada em um novo
momento, quando a “mãe de verdade” se sobreponha à mãe por cuidado?151
É frente a esses dilemas que se constrói a argumentação sobre os “direitos de pai”
ou os “direitos de mãe”. O reconhecimento, mesmo em situações extremamente
conflituosas, como o caso de Murilo e Diogo, de que existe algo que são “direitos de pai”
ou, nos termos em que a tia-avó dos meninos fala, que compreende que “o pai tem seus
direitos”, coloca novamente em jogo a relação entre o sangue e a autoridade. Ter direitos,
nesse caso, é essencialmente ter direito, como diz a mãe de Alice, a tomar decisões, não
importando quem tenha a guarda formal ou sustente materialmente, ou é ter contato físico
e liberdade de movimentos com o filho, como quer Graça, mãe de Lucas, ou ainda pedir,
mesmo como favor, pela possibilidade de manter contato com a filha, ainda que cedendo

149
A passagem pelo Juizado pode ser tomada como um “rito de instituição” da nova família judicialmente
ratificada ou criada, na medida em que, em primeiro lugar, consagra uma divisão entre um “antes” e um
“depois” do Juizado e, em segundo lugar, permite a naturalização do que ficou definido legalmente, levando
ao que Bourdieu define como o poder de fazer desconhecer o arbitrário de tais ritos. Desse modo, da mesma
forma como os ritos voltados a sacralizar o masculino ou o feminino, o adulto ou a criança têm o poder de
naturalizar aquilo que sacralizam; o rito de instituição de uma família judicialmente reconhecida teria por
efeito ao mesmo tempo consagrar e naturalizar sua existência. Nas palavras de Bourdieu, “o ato de instituição
é um ato de comunicação de uma espécie particular: ele notifica a alguém sua identidade, quer no sentido de
que ele a exprime e a impõe perante todos (....), quer notificando-lhe assim com autoridade o que esse alguém
é e o que deve ser” (1996 b: 101; grifos do autor)
150
Cabe aqui lembrar as discussões apresentadas por Duarte sobre o que ele chama do continuum físico-moral
da família. Como coloca o autor, “essa representação do sangue, tomada em oposição à criação, está
intimamente presa à representação sobre a família. Esta, por sua vez, é também uma categoria físico-moral’,
na medida em que, no que toca à constituição de seus sujeitos componentes, abarca tanto o sangue quanto a
criação. Em sua relação com a família, sangue é, portanto, o lado mais físico, ainda que ele próprio seja físico
e moral” (Duarte, 1986: 201-202)
151
Esse tipo de medo aparece nos casos de Helena, Luísa, Lincoln, Jonas, Isabela e Cleiton.

191
a maternidade através da adoção, como a mãe de Cláudia. É reivindicar que algo
permanece – de descendência e, por isso, de autoridade – para além das condições
concretas de moradia, cuidado e contato.
É a relação entre sangue e autoridade que está presente no fundamento do pátrio
poder, do mesmo modo que é a sua ruptura, percebida socialmente como anti-natural, que
força as contestações mais veementes e as categorias de acusação mais pesadas em torno da
maternidade ou paternidade como relação social – o “posar de mãe”152. Nesse sentido, falar
da relação entre sangue e autoridade não significa naturalizar os limites da família e
tampouco colá-la estritamente ao parentesco biológico, mas sim perceber como as
representações da relativa “naturalidade” da família ou do vínculo do sangue são
importantes para construir a conseqüente “naturalidade” também da autoridade ou do
direito baseada nesse mesmo princípio153.
O contra-argumento movido em relação aos “direitos de pai” ou “direitos de mãe”
como ancorados no sangue vem da disposição em cuidar, disposição essa que pode ser
medida pelo tempo – há quantos anos estão com a criança – mas também por um conjunto
de sinais materiais ou materializáveis desse cuidado. Um primeiro grupo de bens de
cuidado pode ser o formado pelos bens de investimento na formação da criança, no seu
valor como futuro adulto: o plano de saúde em que Zilá quer inscrever Alice; o Clube
Militar, o plano de saúde e a escola privada de Lucas; a bolsa de estudos de Cláudia. E
um segundo grupo, que se combina a esse primeiro, é o dos bens de cuidado construídos
a partir do descuido anterior: o psicólogo de Cláudia; o berço e o quarto preparados para
receber João Pedro, deixado na porta do hospital enrolado apenas em uma manta; os
remédios, a alimentação e os cuidados médicos despendidos com todas as crianças dadas
ou recolhidas e que se encontravam com anemia, alergias, “traumas”, hematomas,
piolhos, desnutrição etc. O rol de mazelas descritas em cada um desses processos tem por
função não apenas contar uma história, mencionar fatos contextuais, mas demarcar a

152
É possível acrescentar, seguindo as críticas de Schneider, já mencionadas, que a força dessa percepção
manifesta-se ainda nos estudos antropológicos sobre o parentesco, ou quando aparece sob forma de esquemas
naturalizados, ou quando obriga explicações sobre o parentesco que não é sangüíneo e que acabam por trair,
inversamente, essa mesma naturalização (Schneider, 1968 e 1984)
153
A naturalização do sangue aparece também na sua dimensão a-temporal, explorada por Cláudia Fonseca na
discussão sobre a “soma das mães”, ou seja, sobre como a existência de uma mãe adotiva não desfaz a idéia
da “mãe de verdade”, da mãe de sangue. Em um dos depoimentos recolhidos pela pesquisadora, a mãe
declara: ‘mãe nunca perde o direito aos filhos’ (1995: 97)

192
distância entre o sangue e o cuidado e, nesse sentido, entre os direitos – ou a autoridade
merecida – de cada parte. Não à toa são sempre reproduzidos nos relatórios ou fixados
nos depoimentos: são dados de memória, mas são armas de disputa também. São
contextos, mas igualmente são critérios de avaliação, bússolas administrativas para a
escolha da melhor casa.
Construir-se como portador da autoridade mais legítima, ancorada no cuidado, em
contraposição à autoridade do sangue, que naturaliza os “direitos”, mas obriga os que
cederam ou perderam os filhos – legalmente em termos de contato e convivência – a se
justificarem, é usar da representação e da relação de responsabilidade como base para a
autoridade. Essa figura jurídica inseparável da menoridade, consagrada na idéia de ser o
responsável, é também uma figura moral, como discutirei no próximo capítulo. Os pais
chamados de irresponsáveis em determinado momento dos processos, ou construídos
descritivamente enquanto tal – “foram embora”, “não trabalham”, “não sustentam”,
“nunca deram nem uma fralda” etc – têm que responder, caso queiram, a essa acusação
não apenas alegando a naturalidade do sangue – o que, via de regra, também o fazem –
mas dando um sentido moral e emocional a esse laço, inscrevendo-o no plano das
necessidades fora de seu controle, por um lado, e dos sentimentos que não se desfazem no
tempo ou na distância, por outro. A possibilidade de resgate de sua autoridade, mesmo
que fracionada, passa pela capacidade de negociar essas representações frente a outras
que lhe são onerosas, criando para si a legitimidade possível, não como bem imutável,
mas como relação continuamente em risco.

193
Capítulo 4:

Ceder ou reter crianças: moralidades em julgamento

Se no capítulo 3 procurei discutir as experiências judiciais em torno da guarda de


menores como experiências de redefinição de relações de autoridade, gostaria agora de
pensar a respeito de uma outra dimensão, em larga medida de difícil separação em relação
à autoridade: a moral. Um dos pontos que procurei destacar, especialmente no final do
capítulo, é o da correlação entre a percepção de uma autoridade legítima – ou de formas
legítimas de exercer a autoridade de que se está imbuído, ou que foi outorgada a alguém
através do processo e sua sentença – e o conjunto mais amplo de obrigações que
corresponderiam ao exercício dessa autoridade. Toda a construção da legitimidade,
mesmo que como virtualidade depende em certa medida da capacidade de produzir
representações e demonstrar práticas coerentes com esse conjunto de obrigações.
Do mesmo modo que ocorre com a conceituação da autoridade, também a moral
não pode ser definida em termos pré-dados ou, melhor dizendo, não pode ser tomada
como um conjunto claramente definido e estanque de comportamentos e valores. Falar
em moral implica falar na produção, veiculação e embate de significados; implica
retraçar dinâmicas entre representações, bem como entre os agentes sociais que produzem
ou se apropriam de tais representações e das estratégias ou contextos nos quais elas são
postas em ação. Nesse sentido, à moral como uma forma de organizar certo conjunto de
percepções e atitudes corresponderiam moralidades, entendidas como campos dinâmicos
de construção e veiculação das representações morais, nunca totalmente fechadas de
antemão e dependentes das experiências concretas nas quais são invocadas e explicitadas.
Um primeiro ponto que se coloca para essa discussão, portanto, é o da definição
do que poderia ser tomado como moral e, de forma peculiar, como moralidade ou
moralidades. Durkheim procura delimitar o campo específico de problemas sociológicos
em relação à moral como aqueles que se impõem aos indivíduos – qualquer fato social,

194
na concepção durkheimiana – a partir de algumas características próprias, o que faz com
que sejam capazes de dialogar com outros fenômenos sociais mas, ao mesmo tempo,
serem sociologicamente distintos. Entre essas características estaria a força obrigatória
com que se colocam, seja pelo prisma das punições ou das recompensas recebidas por
observá-los ou ignorá-los, seja pela sua capacidade de engendrar regras de condutas
vividas pelos indivíduos no plano dos sentimentos. Nesses termos, as obrigações
propriamente morais teriam como natureza serem constitutivas dos indivíduos em uma
dimensão de certo modo mais profunda que as delineadas pelas prescrições
explicitamente punitivas ou pelas recompensas objetivas, a ponto dos indivíduos poderem
ser levados a tomar atitudes que aparentemente os levariam a contrariar seus interesses
mais imediatos. Com isso, Durkheim chama a atenção para o fato de que os lucros a
serem extraídos das ações moralmente corretas devem ser buscados fora da obviedade das
perspectivas analíticas utilitaristas 154.
Colocar em questão o poder coercitivo da moral e, ao mesmo tempo, a
singularidade dos benefícios sociais a serem dela extraídos remete, ainda segundo
Durkheim, à importância das representações e relações de autoridade, subsídio da
obrigatoridade e do desejo de mover-se no mundo de forma moralmente correta. Ater-se a
certos procedimentos como sendo moralmente mais corretos do que outros implicaria,
dessa forma, reconhecer a autoridade das representações por trás de tais procedimentos e,

154
Durkheim destaca a complexidade dos fatos morais, afirmando que esses se encontram relacionados a
todos os outros fatos sociais, mas não se confundindo com eles. Como fato social, sua força obrigatória
precisa ser realçada, mesmo que não se restrinja aos expedientes punitivos que estão ligados à quebra da
moral mas, ao contrário, à perseguição de uma certa “felicidade”: “morality results from the efforts which
man makes to find a durable objective which he can attach himself to in order to find a hapiness which is not
merely transient” (1972: 92). Contrapondo-se às perspectivas utilitaristas ou estritamente individualistas de
compreensão dos fenômenos morais, Durkheim aponta novamente para o caráter propriamente social dos
prazeres que se pode extrair da observância dos valores morais: “could not one say, on the contrary: morality
is first and foremost a social function, and it is only by a fortunate circunstance, because societies are
infinitely more long-lived than individuals, that they permit us to taste satisfactions which are not merely
ephemeral?” (1972: 94). Por outro lado, afirmando a complementaridade entre as recompensas e punições
sociais extraídas do comportamento moral, Durkheim destaca que se trata de dois aspectos de um mesmo
fenômeno, e não de fenômenos distintos entre si: “we have so far only considered negative sanctions (blame,
punishment), since in these the characteristic of obligation is most apparent. There are sanctions of another
sort. Acts that comform to the moral rule are praised and those who accomplish them are honoured. In this
case the public moral consciousness reacts in a different way and the consequence of the act is favourable to
the agent, but the mechanism of the social phenomenon is the same (...) There are not two kinds of moral
rules, negative and positive commands: these are but two types within the same class” (1972: 97)

195
simultaneamente, beneficiar-se dessa mesma autoridade como algo de que o indivíduo
indiretamente passa a estar investido 155.
Voltando às discussões feitas no capítulo anterior, é possível estabelecer um
paralelo com o que indiquei como sendo a busca da legitimidade, decorrente da
formulação weberiana sobre a construção da autoridade como “poder de mando e dever
de obediência”, e o esforço em adequar-se moralmente a certas situações ou
representações. A autoridade extraída das ações moralmente corretas pode ser tomada
como tributária não simplesmente do poder de mando mas, paradoxalmente, do que se
poderia qualificar como o poder da obediência, ou seja, a autoridade obtida a partir dos
esforços em conseguir ser percebido como alguém que traz para seu comportamento e
para o que se poderia chamar ainda um tanto imprecisamente de sua imagem social –
objetivada em uma certa reputação, por exemplo – os benefícios de obedecer a preceitos
sociais moralmente valorizados.
Nas situações que estão sendo analisadas aqui, as tentativas de construir esse
poder da obediência desempenham papel crucial, na medida em que permitem que as
diferentes disputas e investigações de que os processos se compõem se realizem a partir
de uma linguagem reconhecida por todos os envolvidos – especialistas e não-
especialistas – como válida. Desse modo, a linguagem moral que atravessa os processos
– mostrar-se boa mãe, bom guardião – constrói a “liga” que permite ao mesmo tempo
que se distribuam autoridades – manter o pátrio poder, perdê-lo, acordar formas
partilhadas de criar filhos – e que se qualifiquem ações, objetivo último de qualquer
tipo de julgamento. Se, como dito antes, a experiência judicial tem como característica
pôr em risco a autoridade de todos os envolvidos, inclusive a dos especialistas, é
possível caracterizar a linguagem pela qual esse risco é expresso e mesmo construído
como uma linguagem moral: a manutenção ou aquisição de uma certa posição de
autoridade depende do esforço em demonstrar estar adequado ao “dever ser” das

155
Citando como exemplo a adoção de procedimentos respaldados pela ciência, Durkheim relaciona
autoridade e moral: “(...) we adopt a given mode of life because it carries the authority of science; the
authority of science gives it its own authoritity (...) We see in these examples what there is in the conception
of rules beyond the notion of regularity: the idea of authority. By authoriy, we must understand that influence
which is imposed upon us by any moral power that we acknowledge as superior. Because of this influence,
we act in the way which is prescribed, not because the required conduct is attractive to us, not because we are
so inclined by some innate or learned predisposition, but because there is a certain compelling influence in the
authority dictating it. Voluntary obedience consists in such acquiescence” (1972: 98 ; grifos do autor)

196
obrigações e comportamentos morais; ter a capacidade de bem obedecer, nesse sentido,
para garantir o poder de continuamente mandar 156.
Do mesmo modo, porém, que a autoridade não pode ser tomada como bem
estático, que se adquire ou se perde de forma fixa, mas sobretudo como algo que se
exerce e, nesse sentido, constantemente se põe em risco, a moral também precisa ser
compreendida como linguagem em uso, presa, portanto, a um conjunto relativamente
estável de pressupostos, mas especialmente objeto de luta. Voltando ao que coloquei
antes, trata-se de contrapor ao desenho relativamente fechado da moral, como um tipo
específico de ações e representações, o exercício mais plural de moralidades, como um
campo de enunciados sobre intenções, atos e condições nos quais esses atos foram
realizados157 – campo capaz de ser descrito a partir das falas dos atores, do contexto em
que tais falas foram produzidas e de seu poder enquanto argumentos, isto é, falas
destinadas a determinado fim. E, indo além disso, creio que é o caso de se pensar não
apenas que tais moralidades podem ser descritas, mas que elas só podem ser apreendidas
se descritas, ou seja, que são, da forma como as compreendo, tão prisioneiras das
condições de seu enunciado que só fazem sentido quando recuperadas em sua dimensão
de ação social.
Na Introdução da coletânea intitulada “The Ethnography of Moralities”, Signe
Howell defende o uso do termo no plural, em lugar de moralidade ou simplesmente
moral, por crer que isso reforça o próprio sentido da disciplina antropológica, centrada na
inquietação da comparação e na busca de significados distintos daqueles da sociedade do

156
O “dever ser” está sendo usado nesse caso para sublinhar a relação social presente no processo de
formulação de ideais de conduta. Não tomo tais ideais como pertencentes ao plano das “representações”,
como se este se opusesse ao das ações, mas eles próprios como ação social. Creio que a forma como
Durkheim coloca a importância desses ideais para a vida cotidiana pode ser esclarecedora: “de este modo, la
formación de un ideal no constituye un hecho irreductible, extraño a la ciencia; depende de condiciones que la
observación puede determinar; es un resultado natural de la vida social. Para que la sociedad sea capaz de
adquirir conciencia de sí y mantener, en el grado de intensidad necesario, el sentimiento que tiene de sí
misma, es preciso que se reúna y se concentre. Ahora bien, tal concentración determina uma exaltación de la
vida moral que se traduce en un conjunto de concepciones ideales en el que se retrata la nueva vida que así se
há despertado; corresponden éstas a esse aflujo de fuerzas psíquicas que entonces se sobreañaden a aquellas
de que disponemos para la realización de las tareas cotidianas de la existencia. Una sociedad no se puede
crear ni recrear sin crear, a la vez, el ideal” (Durkheim, 1968: 393)
157
Herzfeld usa o termo taxonomias morais como forma de indicar a inviabilidade, para as análises
antropológicas, de isolar categorias morais – como honra, vergonha etc – tanto de outras categorias, quanto
dos contextos em que são utilizadas. Esse cuidado se prenderia, antes de mais nada, ao fato de tais taxonomias
estarem remetidas à avaliação pública de comportamentos e não a qualquer estado interior hipotético dos
indivíduos (1980: 340-341)

197
pesquisador. Por outro lado, o uso do plural permitiria contemplar tanto discursos quanto
práticas, inclusive em suas contradições (1997: 04). Um outro alerta que permeia os
diversos textos da coletânea e que procuro seguir aqui é o da atenção ao esforço de
descrever tanto o que os atores explicitam como sendo comportamentos moralmente
corretos (sobretudo se comparados com os de outros atores) e os atos ligados a essas
moralidades, bem como o destaque para situações de impasse que forçam o maior
esclarecimento sobre o que os próprios atores assumem como pertencente ao território
das questões morais. Creio que é nesse sentido que retomar as proposições de Weber
sobre a ação social, já explicitadas no capítulo anterior, pode ser útil: a moral deixa de ser
uma palavra auto-explicativa para se tornar o ponto de partida de perguntas e descrições,
liga-se a estratégias, cálculos, embates, reações etc. Ou seja, inscreve-se no plano das
ações constituintes e constituídas por relações sociais, não podendo ser tomada como uma
estrutura estática de significados que tem que ser descoberta pelo pesquisador a partir da
secundarização dos próprios atores.
Uma outra questão se coloca então: como perceber tais moralidades em meio a
situações como as que estão sendo tratadas aqui, ou seja, construídas através de
depoimentos prestados para especialistas investidos de autoridades diferenciadas e
voltados para a busca de uma decisão judicial? Essa questão permeia, em verdade, as
preocupações de diferentes antropólogos que lidam com conflitos judiciais e, em termos
bem sintéticos, poderia ser traduzida pela busca de fronteiras entre o legal e o moral. Ou,
dizendo de outra forma, pelas tentativas de perceber em que medida a legalidade de certas
operações e decisões – em princípio instituída pela própria posição dos atores sociais e
pela observância a um certo corpo legal formalizado e a procedimentos regulares – estaria
convergindo, competindo ou mesmo ferindo outra ordem de regulações que não conta
com o mesmo grau de formalização, mas que nem por isso seria menos operante.
Um primeiro caminho para abordar essa relação diz respeito à convergência ideal
entre legalidade e moralidade, ou à pretensão de que os códigos formalizados e os agentes
autorizados a colocar tais códigos em prática estejam operando com o que poderia ser
tomado como o “dever ser” social mais fortemente institucionalizado. Assim, as leis e sua
aplicação estariam remetidas ao que Geertz chama da tradução entre uma “linguagem da
imaginação” em uma “linguagem da decisão” (1983: 174). No caso da legislação em

198
torno da infância, como discutido, tal linguagem estaria organizada sobretudo em torno
da responsabilidade, figura jurídica de forte conotação moral. Ser responsável implica
estar preso a um conjunto de obrigações morais não apenas de controle dos indivíduos
durante sua menoridade, mas de formação desses mesmos indivíduos.
Nesse sentido, os próprios textos legais, em que pesem suas variantes doutrinárias
e contextuais, ancoram-se fundamentalmente em certos preceitos morais sobre o que deve
ser disponibilizado para que esses indivíduos em formação sejam ao mesmo tempo
protegidos de sua condição especial e controlados prospectivamente. Ou seja, como
corpos legais procuram indicar obrigações em princípio coletivas, mas que devem ser
realizadas a partir de um conjunto identificável de relações simultaneamente de
autoridade e de responsabilidade (pais, guardiães etc) 158. Desse modo, o controle judicial
sobre as condutas individuais estaria ancorado na preocupação em fazer coincidir a
“imaginação” legal – em si mesma uma “imaginação” moral – com a avaliação dos atos
empreendidos por aqueles que, na condição de responsáveis, têm a autoridade e a
obrigação de formar novos indivíduos.
Um segundo caminho de discussões se impõe, então. Se nos textos legais está
sempre presente a tentativa de fazer convergir o plano legal com o moral, na dinâmica das
avaliações judiciais essa mesma coincidência nem sempre se coloca. Cabe dizer, antes de
mais nada, que essa distância faz parte do próprio exercício do direito (ou do direito em
exercício), simultaneamente regra e processo; “imaginação” e “decisão”159. A
singularização posta em prática nas experiências judiciais – não são as obrigações legais e

158
Recorrendo novamente às formulações de Ewald sobre o surgimento das legislações sociais, das quais o
direito em torno da infância é tributário, cabe lembrar que a redistribuição e a nova formalização de
obrigações coletivas que esse tipo de legislação faz surgir confunde-se totalmente com a moral tanto no
sentido de pensar um “mal coletivo” a ser repartido, quanto pela noção de risco. A relação entre
responsabilidade e risco permite que se reflita sobre a contraposição entre custos propriamente sociais e,
nesse sentido coletivos, e a intervenção sobre situações específicas como forma de minimizar tais custos.
Assim, como aponta o autor, à concepção de um mal social que recolocaria legalmente as obrigações
jurídicas, políticas e modernas das sociedades ocidentais a partir do séc. XIX, corresponderia também a
produção de formas de avaliação da moralidade das condutas, capilarizando as intervenções em nome de
princípios mais gerais de distribuição das responsabilidades coletivas (Ewald, 1987: 18-22; 55-57)
159
Essa problemática é destacada de diferentes formas por vários autores. Para mencionar apenas alguns,
Geertz chama a atenção para a necessidade das operações judiciais produzirem “fatos”, como a materialidade,
sobre a qual a lei pode incidir, sempre tomando esses mesmos fatos como um intrincado processo de
produção de significados (1983: 170-172); Bourdieu, enfatizando o papel dos especialistas, destaca o esforço
de conversão que estes têm que fazer para que “injustiças” ou “danos morais” sejam assumidos como
“direitos” ou danos legalmente sancionáveis (1986: 09-11) e Sally Falk Moore destaca a pluralidade do que

199
morais do pátrio poder em abstrato que estão sendo avaliadas, mas a ação daquela mãe
específica, daqueles guardiães – permite, desse modo, que se perceba não apenas a
associação entre coerção legal e coerção moral, mas seu atrito. O desenrolar do processo
ao mesmo tempo em que representa o esforço, sobretudo por parte dos especialistas, em
criar a aproximação entre moralidade e legalidade – o guardião mais adequado legalmente
deve ser o que possa ser representado também como moralmente mais correto – deixa
registrado diferentes sentimentos de desconfiança e, ligados a eles, de injustiça.
O tema da injustiça pode ser, se colocado de uma maneira bastante ampla, uma
forma de compreender a distância entre a autoridade e a moralidade, na medida em que
expressa a necessidade de aceitar, ou a tentativa de não aceitar, decisões ou situações
desenhadas a partir de uma assimetria de posições sociais 160. Se não é possível, pela
própria natureza narrativa dos processos, apreender com clareza sentimentos de injustiça
frente à sentença final, já que o processo se obriga a um “fim”, sacralizado na decisão
legal do juiz, é possível percebê-los nas tentativas de renegociar, através do Juizado,
acordos feitos fora dele, em processos abertos ou reabertos para que uma nova etapa seja
produzida (como em processos de guarda que se transformam em processos de adoção
depois de um certo tempo), ou ainda em certos tipos de apelos centrados na invocação aos
“direitos”, como tematizado no capítulo anterior.
Por fim, se a linguagem moral dos processos precisa e pode ser descrita, o mesmo
ocorre com a injustiça. Nesse sentido, mais que um ponto de partida para pensar a relação
entre autoridade e moral, como coloquei há pouco, as formas de expressão da injustiça
também devem ser explicitadas, bem como o seu campo semântico, mais variado do que
uma leitura apressada ou reificadora dos direitos legais poderia sugerir. Como ficará claro

chama de “processos de regularização”, nos quais estariam incluídas não apenas as regras explícitas dos
códigos legais, mas planos, símbolos e ideologias de comportamento social (1978: 06)
160
Analisando diferentes situações, Barrington Moore Jr. coloca a pergunta sobre o que faz com que algo seja
percebido como injusto, causando indignação moral e em que casos a ira aparece ou não como resposta às
injúrias. Sobre a relação entre autoridade e injustiça, o autor diz que “as pessoas sujeitas à autoridade podem
aceitar uma determinada lei e acreditar que a punição por sua violação é merecida enquanto, ao mesmo
tempo, encaram uma forma específica de punição como algo que um ser humano não deveria infligir a outro.
Ou, então, podem rejeitar a própria lei. É possível distinguir duas formas básicas da última situação. Ou a
autoridade impõe punição à violação de uma lei ou norma que é aceita pelos que estão sujeitos à autoridade,
ou ela impõe punição de acordo com uma lei que não é mais totalmente aceita pelos súditos. Basicamente,
ambas as situações fazem parte do pôr à prova contínuo do contrato social implícito ou explícito, que tem
lugar onde quer que exista autoridade” (Moore Jr, 1987: 56)

200
ao longo desse capítulo, a injustiça recebe diferentes nomes e qualificativos, todos
centrais na demarcação de categorias de acusação e, conseqüentemente, de moralidades,
no sentido do que se compreende – frente a contextos, histórias retraçadas e memórias
invocadas– como o modo correto de criar uma criança. A gratidão ou a ingratidão, a
irresponsabilidade, os cuidados despendidos e os negados, o tempo de relação entre os
envolvidos, a dor causada pela ausência da criança etc constituem os expedientes
discursivos através dos quais se desenha, no embate dos processos, as justiças e injustiças
sofridas. E, também, através dos quais se constróem os jogos possíveis entre autoridade e
moralidade: ser simultaneamente o guardião ou a mãe/pai legalmente autorizado e
moralmente valorizado; compor a autoridade e preservar um limite de representação
moral positiva; perder a autoridade e mesmo assim buscar construir-se narrativamente –
isto é, publicamente – como alguém adequado moralmente às situações que se
apresentaram. Creio que o jogo complexo desses atos e representações pode ser melhor
percebido resgatando alguns processos, como procurarei fazer agora.

Cuidados, resgates e compaixões

As demandas levadas ao Juizado e que se transformam em processos de guarda e


adoção trazem sempre um princípio embutido, o de que em situações de passagem da
autoridade formal sobre uma criança está sempre em jogo uma balança de sacrifícios e
benefícios, de ônus a serem pagos e recompensas a serem obtidas. Para que alguém
“ganhe” uma criança, portanto, é preciso que outro alguém esteja cedendo ou perdendo
seu poder legal sobre ela, de modo que a circulação de autoridade estabelecida através do
processo seja, na prática, a circulação de certos compromissos ancorados no peso e no
prazer de cuidar. O que a sentença final sela, para além dessa passagem/consagração de
autoridade, é uma nova definição dos que devem publicamente se tornar responsáveis
também pelas obrigações com relação à gerência da menoridade, da formação de um
novo indivíduo a partir de certas exigências social e legalmente reconhecidas. Tais
obrigações, por sua vez, inscrevem-se necessariamente, como procurei apontar antes, em
uma gramática moral organizada em torno desse “cuidar”, sendo possível pensar que a

201
sentença, e mesmo o andamento dos processos como um todo, são construídos como
embates morais não apenas no sentido da consagração do melhor responsável, mas
também da definição de quem está lucrando ou perdendo nessa circulação formalmente
instituída.
Voltando à questão dos ônus e recompensas, uma primeira pergunta a ser colocada
diz respeito a como eles são representados pelos envolvidos ao longo dos processos ou,
de outra forma, como os atores buscam construir-se como beneficiários ou doadores
nessas transações legais? Como o compromisso com o cuidar embutido nas sentenças é
representado e o que permite em termos de recompensas sociais para os que abraçam tal
compromisso ou dele se desfazem? Quais os termos escolhidos para descrever essa
passagem e quais as ações alardeadas são capazes de traduzir essa balança moral do
cuidar ou deixar de cuidar?
Um primeiro ponto a ser pensado diz respeito às formas de construir o interesse
– melhor seria dizer o desinteresse – em assumir legalmente esse compromisso, de
modo que as ações não possam ser traduzidas senão como ações moralmente
valorizadas e, por isso, valorizadoras daqueles que as empreendem. Dessa forma, a
ilusão do desinteresse – como a ilusão de atos que não esperam recompensas objetivas
ou imediatas – desempenha papel central não só na representação dos envolvidos sobre
suas motivações, mas na dinâmica do processo como um todo, na medida em que este
serve idealmente à finalidade de encontrar quem melhor se disponha a arcar com o
cuidado de uma criança. A demonstração do prazer obtido – a criança que se tornou “a
alegria da casa”, “o xodó de toda a família”, que “deu um novo sentido à vida” dos que
cuidam dela etc. – inscreve-se, desse modo, em um jogo mais amplo de cuidados e,
sobretudo, de interesses desinteressados, ou seja, de motivações que em princípio se
explicariam por si mesmas 161.

161
Recuperando as formulações de Huizinga sobre a illusio e sua relação com o ludus, em sua dimensão de
jogo e prazer lúdico, Bourdieu procura destacar a importância de, como participantes de determinados jogos
sociais, os atores produzirem e manterem a illusio própria a esses jogos. Nessa dinâmica, teriam importância
tanto as representações de interesse em participar (no sentido de não ser indiferente) quanto, ao mesmo
tempo, de desinteresse (como o desconhecimento – a illusio – das relações de força de um campo). No sentido
em que estou trabalhando aqui, sustentar a illusio do desinteresse, como ato não-calculado, é fundamental
para que os atores se mantenham como competidores legítimos em torno de uma criança, o que implica
inclusive saber construir as representações sobre o lúdico, como prazer, a ser extraído da vitória. Bourdieu,
1994: 151-152; a referência feita por Bourdieu remete-se a Huizinga, 1971.

202
Nesse sentido, todos os bens de cuidado exaustivamente listados – berços,
brinquedos, planos de saúde, pediatras particulares etc. – representam sinais do
investimento que pode ser calculado e, ao mesmo tempo, que nunca pode ser expresso
claramente em termos materiais, já que serve de indicativo da ação desinteressada que
não espera pagamento imediato ou não o espera na mesma moeda. O custo do desvelo só
pode ser pago por seu próprio reconhecimento, de forma que o processo como um todo,
especialmente através de sua sentença, mas também em seu próprio desenrolar, constitui -
se como situação privilegiada para que uma parte da retribuição socialmente esperada
ocorra, sacramentada pela administração. Assim, os elogios ao desprendimento, à
generosidade e à solidariedade de pais, guardiães e pais adotivos, feitos por diferentes
participantes do processo ou por especialistas, não deixam de se inscrever na lógica das
recompensas sociais possíveis frente ao cuidar.
Creio que um caso ainda não detalhado pode ser interessante para pensar essas
questões, exatamente por ser aquele em que a manifestação de resistência a assumir
legalmente uma criança acontece. Em dezembro de 1989, a srª Tânia, de 30 anos,
procurou o Juizado para requisitar a guarda de sua sobrinha, Milene, de um ano e sete
meses. Contou então que a criança vivia com ela, sua mãe, seu padrasto e uma irmã mais
nova desde seu nascimento. O pai de Milene, irmão da srª Tânia, morreu meses antes da
menina nascer e a mãe foi morar com eles nos últimos dias da gravidez e primeiros após o
parto. Segundo o seu relato e o de sua mãe, avó de Milene, quinze dias depois do
nascimento, a mãe de Milene saiu da casa e não voltou mais. A família paterna afirma
também não conhecer nenhum parente da mãe, de modo que não teria como localizá-la.
Quando tiveram que recorrer a um hospital em razão de uma crise de bronquite de
Milene, encontraram dificuldades para interná-la por falta de documentação, o que
motivou a ida ao Juizado. Segundo a declaração da tia e da avó, a escolha da primeira
como possível guardiã da menina se deu por razões previdenciárias, visando beneficiar a
criança ao inscrevê-la como dependente do plano de saúde da empresa em que a srª Tânia
trabalha. Quanto aos cuidados com Milene, ambas afirmam que a atenção cotidiana
ficaria a cargo da avó e de seu marido, chamados de mãe e pai pela menina, mas quem
arcaria com as despesas necessárias para o seu sustento seria a tia. Declaram ainda que
esta “não poupa esforços” para que a menina tenha tudo o que precise. Em duas

203
entrevistas em momentos diferentes do processo, porém, a srª Tânia expressou seu temor
em assumir legalmente a sobrinha por acreditar que isso poderia prejudicá-la em futuros
relacionamentos amorosos. Esse temor, apontado como “justo” por uma das assistentes
sociais que trata do caso, é contraposto tanto por sua mãe, quanto pela própria assistente,
à necessidade de se pensar no que seria melhor para Milene. Por fim, em setembro de
1990, a guarda foi outorgada, sacramentando a concordância da tia com esses
argumentos.
O caso demonstra claramente a existência, em primeiro lugar, de um certo plano
de contradições entre um projeto individual, simbolizado pela perspectiva de uma relação
amorosa futura, e um projeto familiar em torno da gestão de uma criança. Nessa balança,
o temor individual – moralmente qualificado de “justo” pela assistente social – acabou
sendo derrotado pelo peso das obrigações familiares, indicando a disposição em arcar
com certo custo pessoal em nome da preservação do objetivo partilhado por todos: o
cuidado com a filha do irmão morto, ou seja, com a linhagem como um todo.
Há também uma outra contradição sendo operada através da distinção entre a
responsabilidade material e a filiação socialmente reconstruída. Se a tia é a responsável
pelas despesas, isso não a torna necessariamente a “mãe”, lugar ocupado por sua própria
mãe, avó de Milene. É a ela e ao seu marido que é atribuída a filiação nominal, já que são
eles os designados – e, portanto, os que se designam – como “mãe” e “pai” na fala da
criança. A resistência da tia em aceitar ser a guardiã formal da menina expressa também
uma contradição na divisão dos cuidados e na forma como esses são sacramentados a
partir da intervenção judicial. Assumir a guarda é, em certo sentido, ocupar o lugar
materno, algo incompatível com a divisão intrafamiliar. Não à toa, a solução acabou
sendo construída pela ênfase na relação da guarda não com a maternidade de um modo
geral, mas com as responsabilidades materiais – a extensão do plano de saúde à Milene,
como dependente – e, portanto, com o que seria da alçada da tia nessa partição familiar de
zelos.
A divisão dos cuidados expressa, assim, também uma relação entre os interesses e
desinteresses a serem valorizados. Nesse caso, o interesse em Milene – no sentido da
busca pela família e pela assistente social do que seria melhor para ela – derrotou o
interesse virtual em uma vida amorosa futura e, nesse sentido, na construção de um

204
projeto de família em certa medida individualizado, separado da família-casa descrita
como a realidade atual da guardiã (mãe, padrasto, irmã mais nova, sobrinha), na qual
ela ocupava o lugar de provedora.
Um outro caminho para pensar a expressão dos interesses e desinteresses vem
através da fórmula recorrente do “regularizar uma situação de fato”, indicativa do que se
poderia chamar aqui da história do desinteresse, enquanto ato generoso de cuidar que já
se estabeleceu na vida fora do Juizado e que supostamente dele demanda apenas o
reconhecimento burocrático de tal generosidade, inclusive para que ela melhor possa se
realizar através de benefícios previdenciários, matrículas em escolas etc. O caso de Alice
novamente é exemplar dessa representação pela tentativa de naturalização que Zilá,
patroa de Madalena, procurou criar para o pedido de guarda. A generosidade do cuidar já
estaria acumulada, segundo seu relato, na própria moradia conjunta, na “ajuda” para além
do salário (ou seja, na doação que ultrapassaria a relação mercantil de compra de
trabalho) e, sobretudo, na descrição do que seria o ônus materialmente calculável do
cuidado com Alice: alimentação, educação, saúde, vestuário e um impreciso “etc”.
Por outro lado, da parte do pai, viria não apenas a limitação material de não ser capaz
de sustentar Alice, mas especialmente uma limitação moral: o alcoolismo. A história do
cuidado, do modo como foi representada no processo pela demandante, Zilá,
corresponderia, como uma limitação material, à ausência ou parcialidade desse mesmo
cuidado da parte do pai e mesmo da mãe.
Como foi apontado antes, essa forma de representar as relações em torno de Alice
gerou resistências da parte da mãe que buscou separar os cuidados materiais do que seria
a essência da criação de Alice, “orientação e educação”, consideradas como sendo de sua
responsabilidade. O caminho discursivo encontrado por Madalena para reequilibrar a
balança entre os que supostamente estariam cedendo, doando – no caso, a patroa e os
gastos despendidos com Alice – e os que estariam recebendo e, por isso, sendo colocados
em situação de débito – ela própria, o marido e Alice – foi o que chamei em outro
momento de uma retórica da gratidão, presente em diversos casos. Assinalar a gratidão
com relação à patroa, mas separar os limites familiares e, principalmente, decompor o
cuidado em atividades que vão além dos gastos materiais, não apenas permite preservar
sua autoridade, mas também controlar o débito instaurado através dessa representação.

205
Assim, se o débito não pode ser desfeito em termos materiais, sendo mesmo estendido
com a sentença, já que Madalena acabou concordando com a passagem da guarda, em
termos morais ele pode ser resignificado. Sua aquiescência com o pedido da patroa
passaria não por abrir da mão da filha como alguém que se coloca na fronteira do
abandono, reconhecendo não ter alternativas a não ser deixar de lado sua autoridade pela
incapacidade de sustentá-la, por exemplo, mas seria em verdade um ato duplamente
generoso, com a filha e com a patroa.
Ao ceder a guarda, Madalena permitiu que a filha adquirisse um bem de cuidado
altamente valorizado à gestão de infâncias, o plano de saúde privado, ao mesmo tempo
em que possibilitou que a patroa convertesse em dado legalmente reconhecido o que
ocupa um lugar simbólico importante na forma como ela própria se representa em relação
à Madalena e à Alice: como tendo efetivamente uma família. Aquilo que Madalena lhe
negou ao longo do processo, não concordando com as imagens de seu casamento como
fracassado e, conseqüentemente, de ter sua família representada pela filha e pela patroa,
acabou sendo relativamente aceito com a sentença final. A diferença nesse caso é que
Madalena passou de alguém que simplesmente recebe para alguém que cede, que através
de seu ato permite que outro adquira o que seria um bem inestimável: uma filha que não é
sua, mas que passa a ser parcialmente sua pelo ato de outorga – isto é, de generosidade –
por ela realizado.
Operação semelhante, embora contextualmente muito distinta, teve lugar em certo
momento no processo de Murilo e Diogo, quando a família materna aceitou que as
crianças ficassem com a família paterna, tendo visto seu “desprendimento” ser elogiado
pela Curadora de Menores. Desprender-se, nesse caso, significa assinalar a generosidade
presente na cessão de um bem altamente valorizado, as crianças, único laço não só entre
as duas famílias, mas sobre as quais se depositava o peso da releitura dessas relações. Ao
concordarem que as crianças fiquem com a família paterna, como expediente
intermediário da restauração da sua relação com o pai, a tia e a tia-avó não estão
necessariamente sendo generosas com as crianças – como no caso de Alice ou em vários
outros em que se explicita o que a criança teria a ganhar ficando com outra pessoa – mas
sim com o próprio pai. Recorrendo à imagem de que o pai “tem seus direitos”, elas
permitem de certo modo que o crime seja separado da moral, ou ainda, que o fato do pai

206
ter assassinado a mãe das crianças (irmã e sobrinha-neta das guardiães) não se transforme
na sua desautorização moral como pai. Não à toa, como já foi assinalado, o final do
processo é marcado por falas por parte da família paterna e do próprio pai sobre a
importância das crianças na sua readaptação, indicando que a punição legal pelo crime – a
pena cumprida – não se transformou em uma punição moral mais abrangente, pelo menos
em relação aos filhos.
Se nesses dois casos está em jogo a cessão entre famílias ou, no caso de Alice,
entre a mãe e a patroa, com a última de certo modo adquirindo, a partir do ato da mãe, a
possibilidade de construir-se ficticiamente como família, uma outra dinâmica aparece no
que chamarei aqui de cena da salvação , para a qual conta como elemento central aquilo
que Boswell chamou da “bondade dos estranhos” 162. É nesses casos, formados por
diferentes relatos sobre crianças cedidas nas ruas, deixadas com vizinhos, pegas no trem
quando estavam desnutridas ou doentes, recolhidas na porta de igrejas etc., que as
imagens do resgate e da salvação aparecem com mais força, construindo em princípio
uma representação moral especialmente positiva para os que recebem.
O caso de Cláudia, deixada na porta da igreja com um bilhete pregado à roupa, e o
de João Pedro, o bebê colocado na frente do hospital, são emblemáticos desse tipo de
situação. O abandono anônimo, mas não sem critério, com hospitais e igrejas aparecendo
como locais de recolhimento, sugere em si mesmo um tipo peculiar de drama, o que trata
do resgate como projeto embutido no ato do abandono, da exposição como estratégia de
salvação163; a cena completa do abandono e do resgate se inscreve em um certo campo
prévio de significados, fixando para aqueles que recolhem a criança o papel de
salvadores, inclusive com os componentes dramáticos do acaso e da coincidência.

162
Refiro-me aqui novamente ao livro de John Boswell, “The Kindness of Strangers”, sobre o abandono de
crianças na Antigüidade e Idade Média.
163
Boswell destaca que as concepções contemporâneas de abandono e exposição – como abandono em local
público – sublinham a dimensão do risco, de forma que está sempre no horizonte a possibilidade da morte da
criança, sentido ausente dos termos empregados na Antigüidade. “Expor” uma criança significava sobretudo
colocá-la fora de casa, em local onde poderia ser notada e, em conseqüência disso, recolhida. No caso de
algumas línguas modernas – Boswell explora os sentidos dos termos no inglês e no francês contemporâneos,
entre outras línguas – as crianças abandonadas são representadas com o sentido da sua descoberta já
presumida: ‘founding’ ou ‘enfant trouvé’ (1988: 25-26). No caso brasileiro, é possível lembrar também a
longevidade da exposição como ação de risco, mas também de salvamento – tanto para mãe, quanto para
criança – e como expediente que se torna institucionalizado com as “rodas dos expostos”, instaladas em
diferentes cidades brasileiras no séc. XVIII (Rizzini, 1993)

207
Esse tipo de relato, quando trazido ao Juizado, apresenta uma retórica pré-definida
sobre como a criança foi encontrada e sobre os cuidados que lhe foram dedicados a partir
daí. O drama, aqui representado como suspensão e transformação da vida ordinária, é
reencenado narrativamente a partir do contexto do depoimento, de modo que um e outro –
o drama narrado e a narrativa dramatizada – podem ser tomados como parte de um
mesmo processo performativo. O momento do encontro com a criança dada ou recolhida
é tomado como um momento-limite, um divisor de águas na trajetória de todos: criança,
seus futuros guardiães ou pais adotivos. Revivê-lo, sob a forma da sua recomposição
narrativa, cria uma seqüência lógica entre diferentes momentos dramáticos, com a ida ao
Juizado representando uma nova etapa ritual, voltada a consagrar a relação inicialmente
estabelecida pelo acaso ou pelo arbitrário do destino 164.
A memória do recolhimento encontra simultaneamente nas etapas ritualizadas do
processo – audiências, depoimentos, visitas de assistentes sociais – um desdobramento,
como se a formalização da guarda e a da adoção fossem as únicas medidas realmente
“justas”, em um sentido bem amplo que inclui também as imagens do desígnio do acaso,
do destino, e uma possibilidade de ser revivido. Nesses termos, os relatos devem ser
tomados como atos performativos com poder não apenas de argumentação, no sentido da
organização racionalizada dessa memória e de seu uso para um objetivo concreto, mas de
trazer ritualmente à cena o já vivido, de modo que este possa ser partilhado de forma
alegórica também pelos demais presentes 165.

164
O uso do termo drama inspira-se aqui no trabalho de Victor Turner sobre os dramas sociais e, em especial,
sobre a relação estabelecida pelo autor entre os momentos liminares ou situações de liminaridade e o que ele
denomina como o processo ritual. Se em Van Gennep (1978) a liminaridade é pensada como uma fase dos ritos
de passagem, em Turner ela é ampliada enquanto instrumento de compreensão. O caos produtivo que os
momentos liminares trariam teria por característica criar variadas possibilidades simbólicas, encenadas em
dramas estetizados que corresponderiam aos dramas vividos em diferentes situações sociais. A relação entre
esses diversos dramas, por sua vez, não se daria de forma circular, mas em uma espiral de transformações,
devendo, desse modo, ser compreendidas como diferentes momentos de um processo ritual. (Turner, 1993: 17)
165
Retorno às proposições de Turner sobre os dramas sociais, focalizando agora suas colocações acerca da
construção cognitiva de seqüências temporais que fazem com que estes pareçam ter uma estrutura. Segundo
Turner: “Social dramas and social enterprises – as well as other kinds of processual units – represent
sequences of social events, which, seen retrospectively by an observer, can be shown to have structure. Such
‘temporal’ structure, unlike atemporal structure (including ‘conceptual’, ‘cognitive’ and ‘syntactical’
structures), is organized primarily through relations in time rather than in space, though, of course, cognitive
schemes are themselves the result of a mental process and have processual qualities (...) The phase structure
of social dramas is not the product of instinct, but of models and metaphors carried in the actor’s head” (1974:
35-36) A força performativa dos dramas, bem como dos rituais, é também abordada por Tambiah, que destaca
a relação entre fala, ato e cosmologia em rituais e eventos, enfatizando seu poder de, recorrendo a estoques
controlados de procedimentos, produzir significados (Tambiah, 1985)

208
Mesmo no caso de João Pedro, em que não é a futura mãe adotiva que o encontra,
mas esta é avisada da existência da criança por outras pessoas do mesmo hospital, está
presente a idéia de uma certa coincidência salvadora, em que o desejo de cuidar alia-se à
necessidade de resgatar. Para não voltar nesse momento a esses dois relatos, já discutidos
antes, gostaria de apresentar rapidamente dois outros casos, o de Jonas, doado na rua, e o
de Samanta, cedida no trem. O processo pela guarda de Jonas, de três meses de idade,
teve início em dezembro de 1990, quando o casal candidato à guarda, Luci e Túlio,
procurou o Juizado e relatou como teriam tido acesso à criança. Segundo Luci, a criança
lhe foi entregue pela mãe em uma rua do centro do Rio de Janeiro. O registro da sua
entrevista com a assistente social está colocado nos seguintes termos no processo:
“que no dia 27 de novembro de 1990, a Sra. Luci estava andando na Rua do
Livramento, no Centro da Cidade, junto com sua filha Yara de 19 anos de
idade, à procura de emprego, como propagandista, na Rádio Tupi, que fica
nesta mesma rua, e que fora informada de tal emprego pelo Jornal.
Caminhando com a filha, conversava sobre a sua intenção de arranjar um
menino de 3 anos para adotar, criá-lo nas suas condições, intenção essa,
porque não teve filhos masculinos, só filhas. Neste momento em que
declarava isto para sua filha se aproxima da requerente uma senhora vestida
humildemente, com idade presumida de 26 anos com ar de muito sofrida,
estava acompanhada de 2 crianças; um menino nos braços de 2 meses de
idade, que é o menino em tela, e outro com 3 anos de idade. Esta senhora se
identificou como mãe dessas crianças e com o nome de Emília Souza não
revelando sua residência, dizendo-se estar passando muitas dificuldades. O
genitor não assumiu a paternidade e a mesma não dispunha de condições de
arcar com as necessidades básicas dos filhos, precisava trabalhar, na função
de empregada doméstica ou diarista, com as duas crianças estava sendo difícil
a concretização de seu êxito. A genitora pediu que a Sra. Luci se não poderia
ficar com o filho pequeno, assumi-lo como seu filho, para que Jonas tivesse
vida digna, e a mesma pudesse arrumar um emprego”.

Os guardiães afirmaram que a mãe de Jonas ficou com seu endereço, mas que não
os procurou. Declararam ainda estar cuidando sistematicamente da saúde de Jonas, já que
ele teria problemas de audição. Após a realização do estudo social, a guarda definitiva foi
dada ao casal em julho de 1991, convertida depois em adoção plena em setembro de 1993.
Já o caso de Samanta envolve uma situação distinta, uma vez que o pai manteve
contato com a guardiã, tendo, porém, vários pontos de aproximação com o caso de Jonas.
Ofélia, de 68 anos, procurou o Juizado em janeiro de 1990, pedindo a guarda de Samanta,

209
então com dois anos de idade e morando há um ano com ela, a filha e a neta. O relato de
como teve contato com a criança ficou registrado da seguinte forma no processo:
“Conheceram os pais da menor através de sua neta. A neta da srª Ofélia
conheceu os pais da criança no interior de um trem da Central do Brasil.
Vendo o estado precário em que a criança se encontrava, com febre,
muito debilitada e raquítica, perguntou-lhes se queriam confiar-lhe a
menor. Os pais aceitaram a oferta e em seguida a levaram para a
requerente. A menor estava com um ano de idade e apenas cinco quilos
de peso. Desde o primeiro contato, segundo a srª Ofélia, a porta da casa
ficou aberta aos pais da menor, que podem visitá-la sempre que
desejarem. Disse ter certeza de que o pai só lhe confiou a filha por causa
da difícil situação em que se encontrava, desempregado há dois anos,
vivendo de biscates”

Há ainda menção, em diversos momentos do processo, a “problemas


psiquiátricos” que a mãe da criança apresentaria e, em certo ponto, há um relato do pai
dizendo que ela estaria “desaparecida”. Ele, porém, até o final do processo, em junho de
1990, continuava visitando a filha, sendo por ela reconhecido como pai. Nas três
entrevistas realizadas ao longo do processo há menção às condições precárias de saúde da
criança quando recolhida pela guardiã, bem como do recurso a pediatras particulares e à
preocupação da srª Ofélia no sentido da menina realizar exames neurológicos, em função
do que chama os “problemas” da mãe. Por fim, a assistente social chega mesmo a
assinalar, em uma das entrevistas, o fato da menina ter recebido a primeira mamadeira do
dia ainda dormindo, no colo da guardiã.
Os dois casos trazem, desse modo, uma divisão clara entre o antes e o depois do
recolhimento, bem como um certo inventário das seqüelas do descuido anterior e do que
seria necessário para revertê-las: problemas de audição, desnutrição, recurso a pediatras,
exames e, no caso de Samanta, o relato significativo, pelo próprio esforço em deixar
assinalado um ato corriqueiro, da alimentação da menina pela guardiã. As descrições
apontam, nesse contexto, para a composição de um quadro que vai além dos indicativos
usualmente mobilizados, como a adaptação ou os bens de cuidados despendidos. Falam
de resgate, de salvação, de uma cena mítica que se atualiza em pequenos detalhes, que
carrega sempre como contraponto o fantasma da não-salvação, do que teria acontecido
com aquelas crianças se o instante do recolhimento não tivesse se dado. Assim, aos casos
concretos, descritos através de ritos judiciais, são agregados elementos míticos cuja força

210
parece vir de sua suposta a-temporalidade, do “desde sempre” das crianças abandonadas e
salvas e, conseqüentemente, de seus salvadores 166.

Nesse quadro, o relato sobre o que seria o momento da cessão/resgate da criança


tem um peso especial, ganhando contornos; no caso de Jonas, de predestinação ou magia,
no sentido de tornar real o desejo enunciado. A coincidência entre a expressão do desejo e
sua realização, com todos os componentes aleatórios da cena – estar andando na rua, ser
abordada por uma mulher estranha – reforça a idéia de inevitabilidade da ação a ser
tomada: ficar com a criança. E o que me interessa em especial discutir: constrói uma
eficácia que ultrapassa o momento em si da doação do filho para chegar a seus
desdobramentos judiciais. Assim, ao agregar ao relato da obtenção da criança esse
componente mágico da invocação, a guardiã consegue – ou ao menos busca conseguir – o
que se poderia chamar aqui de maior eficácia na sua própria performance como futura
responsável legal por ela.

A coincidência entre a expressão de um projeto, de uma intenção e de sua


realização com as características em que essa teria se dado, ou seja, com a guardiã
sendo objeto de apelo e não a demandante explícita de uma criança, faz com que ele
adquira algo de transcendente. No seu relato, portanto, a ida ao Juizado não se faz como
caminho para obter o que deseja – o projeto anunciado antes de “arranjar um menino
para adotar” – mas como desdobramento secundarizado frente à força mágica da
situação em que a criança lhe foi entregue. Se considerarmos ainda a idade da criança,
dois meses, ou seja, na faixa de idade mais ambicionada para adoções, e a ausência da
mãe em todo o processo, é possível pensar sobre a importância desse relato de

166
Ao reconhecer um caráter mítico nos relatos sobre as crianças resgatadas, estou pensando em termos de
não-separação entre mito e rito, de modo que o rito judicial pode ser tomado como um dos espaços
privilegiados para a encenação do mito do resgate. A importância de não destacar mitos de ritos é sublinhada
por Mariza Peirano no ensaio em que faz um balanço sobre a trajetória do pensamento antropológico sobre os
rituais. Nesse texto, a autora alerta, em certo momento, para o que seriam os custos dessa separação,
cristalizada a partir de certas leituras do trabalho de Lévi-Strauss: “mitos e ritos marcariam uma antinomia
inerente à condição humana entre duas sujeições inelutáveis: a do viver e a do pensar. Ritos faziam parte da
primeira; mitos, da segunda. Se o rito também possuía uma mitologia implícita que se manifestava nas
exegeses, o fato é que em estado puro ele perderia a afinidade com a língua (langue). O mito, então, seria o
pensar pleno, superior ao rito que se relacionava com a prática. O resultado paradoxal dessa distinção foi fazer
ressurgir, com novas vestimentas, a velha e surrada dicotomia entre relações sociais (ou ‘realidade’) e
representações” (2002: 21).

211
predestinação na construção do que chamei acima da busca de uma maior eficácia
narrativa para o relato 167.

Para além, porém, desse caso específico, o elemento que permite que todos os
casos que lidam com a cena da salvação tenham maior eficácia narrativa está relacionado
à força moral de que ficam investidos os salvadores. Como coloquei antes, ao apresentar
relatos em que as posições estão tão demarcadas não apenas pelas situações em si, mas
pelo que invocam de mítico – o abandono, o perigo de morte no horizonte, o resgate, a
nova vida – esses casos como que acompanham um desenho pré-dado, em que as
posições dos atores estão ritualmente determinadas, bem como a relação moral entre eles.
Assim, em primeiro lugar, a maior força moral dos que recebem a criança viria, como
coloquei antes, da projeção em relação ao que teria acontecido se o drama específico do
resgate não tivesse ocorrido. Essa projeção é sustentada não só pela imagem da exposição
como morte, mas também pela descrição dos pais, seja na menção aos “problemas
psiquiátricos” da mãe de Samanta, que evoca o medo da hereditariedade, seja na menção
ao sofrimento e humildade da mãe de Jonas. Nos dois casos, portanto, o resgate projeta-se
também para o que seriam as possibilidades de futuro daquelas crianças, como
fantasmagorias que reforçam a urgência da ação salvadora 168.

167
Uso a idéia de ato mágico ou de invocação de forma bastante livre aqui, não os tomando como atos
explicitamente realizados com intenção de intervenção mágica, ou com o recurso a especialistas da magia. O
melhor seria pensar que, no modo como o relato é levado ao Juizado, há um esforço em revestir de
sacralidade ou magia o acontecido. Quanto a tratar a expressão do desejo da guardiã como invocação, recorro
ao “Esboço de uma teoria geral da magia”, no qual Mauss e Hubert relacionam como parte dos ritos presentes
na diversidade da “magia”, os ritos orais, alertando que esses, como os demais tipos de ritos por eles
relacionados, não correspondem a “grupos de fatos bem definidos”. Entre os ritos orais presentes tanto na
magia quanto na religião estariam “juramentos, promessas, preces, hinos, interjeições e simples fórmulas”
(Mauss, 1974: 84)
168
Discutindo a forma como a sífilis e a intervenção sobre ela são representadas, Carrara mostra a força da
hereditariedade como elemento de explicação moral dos indivíduos. A idéia de um mal biológico ligado às
condições de vida e moralidade, bem como a sua capacidade de passar de uma geração à outra, desempenha
papel importante nas teorias científicas – e no senso comum - da passagem do século XIX para o XX
(Carrara, 1996: 62-66). Duarte, por sua vez, discutindo o sangue, relaciona a sua transmissão (pela
descendência) ao estabelecimento de uma “herança moral” que caberia aos indivíduos (Duarte, 1986: 204). Já
para pensar a projeção sobre o que seria o “destino” das crianças caso não tivessem sido salvas, uma situação
especialmente representativa disto ocorre quando, em casos de adoção internacional, os pais adotivos trazem
os filhos para visitar seus locais de origem. Como relata Domingos Abreu, em tais situações inevitavelmente
ocorrem comparações entre a vida atual dessas crianças e a vida para qual estavam inicialmente destinadas,
(Abreu, 1995).

212
Por outro lado, a força moral dos salvadores fica reforçada pelo fato deles não
precisarem desautorizar moralmente os pais, na medida em que não há disputa, mas
cessão e, sobretudo, pela forma como essa cessão teria se dado. Nos dois casos descritos,
bem como no de Cláudia, há registro de que os guardiães não tentam impedir que os pais
tenham acesso aos filhos, seja dando o endereço à mãe, como no caso de Jonas, ou
permitindo visitas, como nos casos de Samanta e Cláudia. Não há aqui espaço para a
representação de uma aquisição “interessada” de crianças, centrada no pólo do prazer a
ser obtido com isso, mas sim de piedade, de dedicação desinteressada.

Como contraponto a isso, os pais que doam são descritos como estando em uma
situação de limite, ou seja, como pessoas que cederam os filhos por preocupação e não
por qualquer ato moralmente condenável: o pai de Samanta foi absolvido pela guardiã,
que afirmou que ele não faria isso se não estivesse desempregado; a mãe de Jonas
procurava emprego como forma de reter pelo menos um dos filhos; a mãe de Cláudia
buscava preservá-la do padrasto, de quem também era vítima. Assim, a oferta, como no
caso de Samanta, o pedido, como no caso de Jonas, ou o abandono em locais
simbolicamente destinados à salvação, como nos casos de Cláudia e João Pedro,
constróem um mesmo momento dramático: o da outorga por desespero, complementado
pela aquisição por compaixão. O reconhecimento do sofrimento do outro como algo
capaz de motivar ou justificar uma ação inscreve-se tanto na esfera da produção de uma
leitura de si mesmo, necessariamente colocada em termos morais, quanto condiciona as
formas pelas quais esse ato deve ser lido por outros, externos à cena inicial, mas
chamados a dela participar em um momento posterior e profundamente decisivo, como o
da homologação dessa memória de relações estabelecidas pela compaixão169.

169
O trabalho de Boltanski (1993) é fundamental para pensar os diferentes níveis em que pode se processar a
relação entre a piedade (mais geral e abstrata) e a compaixão (mais local e vivida face a face), duas formas de
representar a identificação emocional com o sentimento alheio – literalmente, essa com-paixão – e os
compromissos morais ou, como ele designa, o engajamento. Se esta relação é tributária, por um lado, de um
longo imaginário cristão, que não se desfez, mas se transfigurou nas pessoas morais modernas, por outro,
como aponta Boltanski, precisa ser entendida atualmente também em termos das relações de distanciamento
formal – a burocracia, a mídia e todos os inúmeros canais através dos quais se pode partilhar do sentimento e
dos dramas alheios sem se envolver diretamente com eles, mesmo que chamado a intervir ou a se emocionar.
Seu impacto sobre os especialistas será discutido mais à frente, através da idéia de empatia moral. Para a
importância do abandono de crianças no imaginário cristão, a referência fundamental continua sendo Boswell,
1988. Para as continuidades entre as concepções cristã e moderna de pessoa, ver Duarte e Giumbelli, 1995.

213
Gostaria de retomar agora um dos aspectos destacados por Durkheim em suas
proposições sobre a moral, qual seja, o de sua relação com os sentimentos (Durkheim,
1972). O embate de moralidades realizado através dos processos e suas etapas implica,
desse modo, demarcação de certas formas de perceber e expressar sentimentos. A
compaixão, por exemplo, abordada logo acima, permite a produção de leituras morais
sobre cedentes e pleiteantes à guarda, bem como sobre a relação que se estabelece entre
eles. Nesse sentido, moralidades, como enunciados socialmente demarcados em torno do
valor ou do sentido moral das ações dos próprios agentes e daqueles com quem estão
postos em relação, trazem em si também uma dimensão de exposição e reflexão sobre os
sentimentos. A raiva com a atitude do outro (buscar “retomar” o filho, por exemplo), a
frustração pelos acordos inviabilizados, a tristeza pela possibilidade da perda da criança, a
angústia por não ter como criar e vários outros sentimentos enunciados nessas
experiências judiciais fazem parte não só da dinâmica das relações ali retratadas e
reconstruídas, mas também do confronto e composição de moralidades. São, dessa forma,
também armas de disputa e de acordo, expedientes táticos que permitem construir certas
soluções administrativas170.

No caso de Maíra, a criança anunciada pelo rádio, há menção em certo momento à


“apatia” da mãe e à possibilidade de isto estar relacionado a um interesse menor em ter a
criança consigo. Em um caso construído a partir de uma suspeita moral extremamente
forte, a da negociação material da filha, como discutirei em outra parte deste capítulo, a
expressão e observação do que poderiam ser os sentimentos é decisiva para indicar o
compromisso desses pais e, conseqüentemente, o grau de confiabilidade a ser a eles
atribuído. Não à toa, os pais também procuram marcar sua posição, na parte final do

170
Bailey chama a atenção para o papel das emoções no contexto das organizações formais ou burocracias.
Embora ele trabalhe especificamente com o que chama de arenas políticas, como assembléias e parlamentos,
creio que algumas de suas considerações podem ser úteis para o que está sendo contemplado aqui. Segundo
ele, tais organizações têm duas características importantes: não fazer uso da força explícita e desenvolver
sofisticadas regras de competição interativa. Nesse quadro, as emoções e a forma como são expressas e
percebidas teria um papel persuasivo ou tático, ou seja, se prestariam a criar situações de credibilidade ou
descrédito para os que as exibem (Bailey, 1983: 22-23). No caso das experiências judiciais, as avaliações
também envolvem o bom ou mau uso das emoções, como aquilo que supostamente permite desvendar um
“verdadeiro eu” por trás das condições do discurso. Referências fundamentais para as tentativas de controle
da interação e da imagem de si estão também presentes nos trabalhos de Erving Goffman (1985 e 1988) e,
claro, Georg Simmel (1971)

214
processo, através dessa caracterização dos sentimentos: estarem sentindo falta e ansiosos
por seu retorno e, na frase-síntese proferida pelo empregador do pai, estarem “sofrendo
com a ausência da filha”. O testemunho do sofrimento cumpre, nesse caso, o papel de
uma fiança moral que busca afastar de vez tanto as suspeitas de venda da filha, quanto de
“rejeição” por seu problema físico, hipótese levantada por assistentes sociais no começo
do processo171.

Já no caso de Anderson, a criança que a mãe tenta sem sucesso reaver, o


testemunho negativo em relação ao que seriam seus sentimentos vem do próprio
companheiro que, em determinado momento, declara que esta não deixaria “transparecer,
na sua opinião, que (...) se acha aborrecida, chateada, por estar afastada do filho”. Em
resposta a isso, na mesma situação, Patrícia, a mãe, retruca que o fato de não mencionar
cotidianamente a criança – e os sentimentos pela sua ausência – não significaria que não
estivesse “sentindo falta” do filho.

Como o caso é marcado por diversos atritos – não só de Patrícia com os guardiães,
mas com relação à sua própria família (mãe e avó) e ao companheiro, que é favorável a
que a criança fique com os guardiães – esse diálogo sobre os sentimentos expressos ou
não expressos e sobre o que se poderia deduzir a partir deles enfraquece ainda mais a
posição da mãe. Acrescentando-se a isso as acusações morais feitas a ela pelo casal
guardião, de ser volúvel, ter desaparecido sem deixar contato e ser irresponsável, tem-se
um quadro em que a supostamente precária manifestação de sentimentos pesa ainda mais.
A mãe, por sua vez, reage buscando separar a visibilidade desses sentimentos do que seria
sua verdade, o “sentir falta”, do mesmo modo que procura ao longo do processo matizar
um pouco o ato do abandono tanto pela sua contextualização, quanto por pedidos, ao final
do processo, para que o filho não saiba ter sido adotado, para não julgar que foi preterido
pela nova família que construiu com o companheiro.

Através desse pedido, a mãe busca separar a derrota judicial – também ela uma
derrota na relação com o companheiro, já que esse não aceitou aliar-se a ela no seu

171
Barrington Moore Jr destaca também, na produção do reconhecimento da injustiça, a importância do
sofrimento como elemento capaz de conferir autoridade moral aos que se sentem injustiçados e, desse modo,
tornando possível a produção, em certas ocasiões, de um paradoxal sentido de superioridade em meio a
situações de submissão (1987: 81-82)

215
projeto de reaver o filho – da imagem de desinteresse pelo filho. A sua preocupação com
o que ele possa vir um dia a pensar ou a sentir, caso tenha conhecimento sobre não ser
filho dos guardiães, alinha-se também à linguagem dos sentimentos, mais que nunca uma
linguagem moral, ao separar atos – como o abandono – de sentimentos – o não sentir falta
ou o não se importar. Se a equação entre demonstração dos sentimentos e construção
moral não foi eficaz para seu objetivo inicial, portanto, o de reassumir a autoridade legal
sobre o filho, não significa que não tenha um papel a desempenhar na dinâmica dos
processos enquanto dinâmica também de construção de si.

Assim, creio ser importante chamar a atenção para a obrigatoriedade da expressão


de emoções nesses contextos. Seguindo a proposta provocativa de Bailey, de pensar em
diferentes formas de relação entre os selves, como construções de si, e o uso tático das
emoções, é possível indicar o quanto a percepção social de tais emoções – o que inclui a
percepção que o próprio ator tem sobre seus atos e sentimentos – não se dá de forma livre.
De acordo com este autor, seria possível pensar172. Demonstrar sentimentos, falar sobre
emoções em meio ao desenrolar dessas experiências judiciais é sempre reconhecer-se
inscrito em uma ordem de obrigações, de forma que correr o risco de ser percebido (e
talvez de se perceber) como agindo de forma estritamente pragmática é construir para si um
lugar moralmente insustentável. A demonstração dos sentimentos desempenharia, desse
modo, o papel de indicador do quanto tais obrigações estão internalizadas, a ponto de que
mesmo os atos de cessão ou de abandono não venham a ser tomados como atos destituídos
de custos para os que os realizaram. O registro dos sentimentos – a tristeza pela ausência, o
medo pelo futuro – é também, nesses casos, o registro das penalidades instaladas dentro dos
sujeitos (em “si”) pela ruptura com as obrigações sociais de “ter” crianças.

Nesse quadro, acredito ser importante destacar um tipo peculiar de sentimento


freqüentemente presente nos processos – a gratidão – que, por sua característica de

172
Bailey propõe a construção de cinco modelos de selves frente à questão da exposição e usos táticos das
emoções: divine self, civic self, moral self, tactical self e silly self. Os dois primeiros, ancorados
respectivamente nas obrigações com relação a alguma ordem transcendente ou com relação a amplas ordens
de pertencimento (como a nação, por exemplo), ocupariam os pontos extremos da demonstração e contenção
de emoções frente a um conjunto de deveres. O moral self teria como característica dominante a exibição de
relações não-instrumentais, mas não necessariamente de deveres formalizados, como nos dois primeiros
modelos. O tactical self e o silly self estariam marcados pela perseguição de objetivos mais pragmáticos, com
a exibição das emoções ocupando, no primeiro caso, um lugar claramente instrumental e calculado e, no
último caso, como expressão de descompromisso com deveres externos a si (Bailey, 1993: 55-57).

216
explicitação de compromissos e dívidas, permite posicionar moralmente os atores de
diferentes maneiras, promovendo acordos (ou desacordos, no caso de seu par
complementar, a ingratidão), esclarecendo expectativas e forçando reconhecimentos. É
dela que pretendo tratar no item que se segue.

A teia de gratidões e a opressão da bondade

Gostaria de começar esta parte esclarecendo ou, para ser mais exata, decompondo
uma expressão que usei em outros momentos do texto, o da retórica da gratidão. Como
tal, estou compreendendo uma variedade de argumentos, relatos e reflexões dos diferentes
atores sociais presentes nos processos que tematizam a idéia do compromisso ou da
dívida moral estabelecida a partir de atos aparentemente gratuitos, no sentido colocado
por Mauss173. Dessa retórica fazem parte não apenas as falas que usam explicitamente a
idéia da gratidão, mas também as que apontam para variadas formas de representação
desses débitos: ter feito muito por alguém, estar fazendo o bem, ser reconhecido,
dar/receber apoio, dar/receber assistência. E, em contrapartida, o que configuraria o plano
da ingratidão nessa retórica de gratidões: estar decepcionado, sempre ter arcado com
despesas e outras formas de cuidado, estar magoado e, como projeções de ingratidões
futuras, ter medo de que um dos pais volte atrás, “que apareça aqui um dia querendo o
filho de volta”.
Como chama a atenção Mauss, a “coisa dada” amarra doador e recebedor em uma
mesma teia de obrigações, mais complexa do que a aparentemente simples equação do

173
Refiro-me, claro, às proposições de Mauss no “Ensaio sobre a dádiva”. Como ele explicita no começo do
ensaio, “(...) não são indivíduos, e sim coletividades que se obrigam mutuamente, trocam e contratam; as
pessoas presentes ao contrato são pessoas morais – clãs, tribos, famílias – que se enfrentam e se opõem, seja
em grupos, face a face, seja por intermédio dos seus chefes, ou seja ainda das duas formas ao mesmo tempo.
Ademais, o que trocam não são exclusivamente bens e riquezas, móveis e imóveis, coisas economicamente
úteis. Trata-se, antes de tudo, de gentilezas, banquetes, ritos, serviços militares, mulheres, crianças, danças,
festas, feiras em que o mercado é apenas um dos momentos e onde a circulação de riquezas constitui apenas
um termo de um contrato muito mais geral e permanente. Enfim, essas prestações e contra-prestações são
feitas de uma forma sobretudo voluntária, por presentes, regalos, embora sejam, no fundo, rigorosamente
obrigatórias, sob pena de guerra privada ou pública” (Mauss, 1974: 44-45; grifos meus). A dimensão de
obrigatoriedade na aparente gratuidade e alguns de seus desdobramentos são também apontados por Mary
Douglas no ensaio “No free gifts” (1992: 155-166) e por Lygia Sigaud em “As vicissitudes do dom...” (1999)

217
doador como aquele que fica em posição de crédito e o recebedor com o ônus do débito.
Se, como procurei destacar, por um lado, há múltiplos e nem sempre consonantes
esforços para caracterizar quem está efetivamente doando e quem está recebendo nas
situações tratadas aqui, por outro a própria situação de troca envolve complexidades
variadas: o tempo e a forma corretos da retribuição, o risco da quitação completa como
ruptura das relações, os cuidados a serem tomados na explicitação da dívida e do crédito e
todo um sem-número de ameaças e perigos presentes em cada tentativa de renovar ou
liquidar as relações instituídas a partir da dádiva.
O primeiro ponto a ser discutido, nesse sentido, é a capacidade de instaurar
relações que as trocas possuem, de forma que, mesmo em situações estabelecidas antes do
ato em si da troca, este as transforma, leva-as para um outro patamar e obriga, por isso, os
sujeitos nelas envolvidos a novas formas de representá-las. No caso das representações
veiculadas através da retórica da gratidão, fica claro que o cuidado dispensado à criança,
esteja ele legalmente formalizado ou não, é percebido, antes de mais nada, como a
produção de um débito que atinge os que originalmente “teriam” ou deveriam “ter” a
criança. O ato em si do cuidar em todas as suas formas de materialização – os bens de
cuidado – pode ser, desse modo, convertido para a linguagem do contrato estabelecido
formal ou informalmente, dando margem à expressão das perdas e ganhos de cada um, da
ligação estabelecida entre os que “tinham”, mas não quiseram ou puderam cuidar, e os
que “não tinham”, mas passaram a ter a partir do cuidado. Afinal, citando Mauss,
“o que, no presente recebido e trocado, cria uma obrigação, é o fato de que a
coisa recebida não é inerte. Mesmo abandonada pelo doador, ela ainda é algo
dele. Por meio dela, o doador tem ascendência sobre o beneficiário, como o
proprietário tem, por meio da coisa, uma ascendência sobre o ladrão” (Mauss,
1974: 54)

Dois casos detalhados antes são exemplares no sentido do reconhecimento mútuo


dessa relação: o de Alice e o de Liliana e suas irmãs. Nos dois, por sinal, o termo gratidão
aparece literalmente, sendo decomposto pela enunciação do que a patroa de Madalena
forneceria a ela e à filha para além do salário e pelo reconhecimento do pai das meninas
ao que dª Margarida teria feito por elas nos anos em que ficaram sob seus cuidados. A
expressão da gratidão cumpre aqui o duplo papel de, por um lado, solidificar a dívida,
através de seu reconhecimento em uma situação pública de caráter peculiar (o processo e

218
suas audiências e autos) e, por outro lado, de limitá-la. No caso de Alice, essa limitação
passa, como já dito, pela separação entre gratidão e o que seria a responsabilidade própria
à maternidade e, no caso das irmãs, pela distinção entre um tempo passado e um tempo
presente, bem como pela separação entre o respeito – a “consideração”, nas palavras do
pai – e a formalização da guarda e, como conseqüência disto, o atendimento à demanda
de dª Margarida de ter uma “pensão” para cuidar das meninas.
Nesses termos, é possível pensar a retórica da gratidão como uma estratégia
discursiva e de comportamentos que implica não apenas o reconhecimento dos débitos, mas
uma forma de negociá-los. Nos dois casos, a negociação pressupõe a percepção de que o
outro lado também recebe algo, que há uma “coisa dada” em troca do que se ganha. Ou,
dizendo de outra forma, que o cuidado não se apresenta apenas como ônus, mas como ação
que, exatamente por estar ela mesma ancorada em uma certa representação de gratuidade –
ou de desinteresse, como designei antes – não deve ser totalmente resumida em custos
materiais (as despesas com Alice), ou tampouco neles traduzida (a “pensão” pedida nesse
momento). A gratidão afigura-se, desse modo, acima de tudo como retórica moral que
aceita incorporar mensurações materiais, mas não se reduz a elas, impondo limites também
às formas de representar o crédito e, conseqüentemente, o poder do credor174.
Um outro ponto a ser considerado é o da centralidade do tempo nas relações de
dádiva e, por isso, na retórica da gratidão. Mauss destaca a importância da retribuição,
retomada por Bourdieu na figura do contradom e seus intervalos de tempo, sem os quais
não seria possível construir a ficção da gratuidade 175. No tipo de situação analisada aqui,

174
Bourdieu alerta que “a economia do dom, ao contrário da economia do ‘toma lá dá cá’, baseia-se em uma
denegação do econômico (em sentido estrito), em uma recusa da lógica da maximização do lucro econômico,
isto é, do espírito de cálculo e da busca exclusiva do interesse material (por oposição ao simbólico), que está
escrito na objetividade das instituições e nas disposições. Ela se organiza visando à acumulação do capital
simbólico (como capital de reconhecimento, honra, nobreza etc), que se efetua, sobretudo, através da
transmutação do capital econômico realizada pela alquimia das trocas simbólicas (trocas de dons, de palavras,
de desafios e réplicas, de mulheres etc) e que só é acessível a agentes com disposições adaptadas à lógica do
‘desinteresse’ (disposições que podem encontrar sua realização no ‘sacrifício supremo’, aquele que consiste
em ‘dar a própria vida’, em preferir a morte à desonra – ‘é melhor morrer do que...’ – ou, no contexto do
Estado moderno, em ‘morrer pela pátria’)” (Bourdieu, 1996c: 10-11)
175
Para Bourdieu, “é o intervalo temporal entre o dom e o contradom que permite ocultar a contradição entre
a verdade vivida (ou desejada) do dom como ato generoso, gratuito e sem retribuição, e a verdade que o
modelo revela, aquele que faz do dom um momento de uma relação de troca transcendente aos atos singulares
da troca. Ou seja, o intervalo que possibilita viver a troca objetiva como uma série descontínua de atos livres e
generosos é o que torna psicologicamente viável e visível a troca de dons, ao facilitar e favorecer a self
deception, a mentira para si mesmo, condição da coexistência do conhecimento e do desconhecimento da
lógica da troca” (Bourdieu, 1996c: 07-08). Uma dimensão específica da ação do tempo também analisada por

219
envolvendo o recurso ao judiciário e, uma vez iniciado o processo, a vivência de uma
temporalidade peculiar, marcada pelas audiências, entrevistas e, para além delas, por
possibilidades de renegociação das relações também fora do Juizado, o tempo
desempenha papel crucial. Antes de mais nada, a própria ida ao Juizado traz como
obrigação uma enunciação do tempo anterior ao processo, ele mesmo tomado como feito
de dons e contradons: como a criança chegou até aquelas pessoas, que relações estão
estabelecidas com seus pais, qual a sua idade, há quanto tempo está com eles. A
construção narrativa desse tempo antes do “momento” é a construção de uma memória
das relações e, por isso, das obrigações que se supõe fazerem parte dessas relações.
Para além disso, o tempo mesmo do processo é também um tempo de afirmação do
que é devido ou esperado de cada um. A construção de um acordo a partir das limitações de
poder de cada parte em conflito, como no caso de Lucas; a negociação entre famílias
enquanto um outro tempo corre, o da pena a ser cumprida pelo pai, como no caso de Murilo
e Diogo; a quarentena moral dos pais de Maíra representam diferentes formas de ligar os
débitos às retribuições. A peculiaridade das negociações travadas por intermédio dos
especialistas do Juizado, e contando com uma decisão final por eles sancionada sob forma
de sentença, é a maior fixidez que tais negociações produzem em relação aos intervalos
entre dom e contradom. A liberdade que os atores teriam, como aponta Bourdieu, em adiar
a resposta, deixar na expectativa etc. (Bourdieu, 1996c: 14) se vê reduzida pela necessidade
de responder às demandas institucionalizadas em visitas e audiências. Afinal, é importante
lembrar que um possível tempo de não-resposta, como nas convocações de
comparecimento ao Juizado que não sejam atendidas, é legalmente traduzido em falta de
interesse em responder, podendo acarretar a destituição do pátrio poder.
Por fim, uma outra dimensão é a do tempo à frente, daquilo que é projetado como
a retribuição virtual, ou seja, aquela a que se está obrigado em razão de um dom aceito no
presente e que só pode ser pago pela ação – ou omissão – no futuro. Em outras palavras,
um tempo da gratidão como compromisso prospectivo. Essa dimensão pode envolver
tanto os diferentes interessados em ceder ou adquirir crianças, quanto, de uma forma
muito especial, as próprias crianças em sua menoridade.

Bourdieu em outro texto é o das lutas de honra, nas quais é possível perceber, entre outras coisas, o que ele
chama da dialética da ofensa e da vingança, necessariamente marcadas por um intervalo ritualizado
(Bourdieu, 1980: 161).

220
Para o primeiro caso, entre os que cedem e os que adquirem crianças, é possível
pensar em situações como a estabelecida em torno de Cláudia, na qual a concordância da
mãe com a adoção passa por um compromisso dela própria e da guardiã (e depois mãe
adotiva), no sentido de afastar Cláudia do padrasto. No caso de Leonardo, a criança dada
na rodoviária, mencionado no capítulo anterior, esse compromisso prospectivo assumiu a
forma mal-sucedida do papel assinado pela mãe, por meio do qual ela se comprometeria a
não procurar o filho no futuro. Um outro caso semelhante e ainda não apresentado
envolve Júlio César, uma criança de sete anos que vinha sendo criada pela tia-avó,
segundo depoimento da própria, confirmado pela mãe. Do processo, iniciado em 1991,
constam os relatos de ambas, dizendo que a criança estaria com a tia-avó desde um mês
de idade, quando a mãe separou-se do marido por este ser “alcoólatra e violento” e
buscou abrigo na casa da tia. Seis meses depois, porém, foi embora, só retornando sete
anos depois.
O retorno da mãe, caracterizada por sua tia como tendo voltado “do mesmo jeito,
sem responsabilidade e muito agitada”, motivou a ida ao Juizado para pedir a adoção de
Júlio César. A demandante afirmou ainda nessa ocasião que a mãe tinha e continuaria a
ter acesso ao filho sempre que desejasse e esta, em contrapartida, afirmou que “o filho é
muito querido e bem-cuidado pela requerente e sente-se grata por tudo”, declarando ainda
que “concorda plenamente com o pedido de adoção e em nenhum momento pensa em
voltar atrás”. O dom estabelecido no passado e no presente – ter cuidado da criança e não
impor empecilhos para a mãe vê-lo – recebe por contrapartida não apenas a mudança na
situação legal atual, com a concordância da mãe em relação à adoção, mas o
compromisso futuro de “não voltar atrás”. Além disso, a colocação de dois indicativos
moralmente negativos no tempo do passado e parcialmente reatualizados no tempo do
presente (o da ida ao Juizado) – o comportamento do pai, caracterizado como alguém
“alcoólatra e violento” e o da mãe, “sem responsabilidade e muito agitada” tanto antes
como no seu retorno (ou seja, podendo desaparecer novamente) – contribui para marcar a
obrigatoriedade da mãe em subscrever o pedido de adoção. As acusações morais

221
alimentam, desse modo, a retórica da gratidão, e vice-versa, na medida em que entre elas
se constrói aparentemente uma relação de causa e efeito 176.
Nesse caso, cabe ainda destacar o papel importante da ritualização representada
pelo registro nos autos do processo tanto da gratidão quanto da promessa apalavrada de
não desistir do que ali ficou firmado. Levando em conta que legalmente não há retorno
possível na adoção, uma vez que esta anula a maternidade original através, inclusive, da
produção de nova certidão de nascimento, esse ato cumpre o papel de dar mais força aos
compromissos – ou ao uso a ser feito deles – fora do judiciário, uma vez que mãe
biológica e mãe adotiva continuarão ligadas pela própria relação de parentesco entre
elas177. Desse modo, cumpre o papel de reforçar a manutenção da gratidão ou dos termos
em que essa gratidão deva ser manifestada e reafirmada continuamente, não só no tempo
presente do Juizado, mas no tempo futuro para além da sentença.
Uma outra dimensão da gratidão ancorada na expectativa de futuro diz respeito,
como coloquei acima, às próprias crianças. É possível pensar que, em princípio, ela está
presente como fundamento em todas as relações que envolvem a gestão e o cuidado de
crianças, já que a perspectiva do vir a ser é central nas representações da infância. Ou
seja, o que chamei antes do prazer de cuidar supõe não apenas o tempo presente desse
cuidado, freqüentemente expresso em termos da “alegria” ou do “sentido” que a criança
daria à vida dos que lidam com ela cotidianamente, mas também da projeção do que a
relação será para diante e do orgulho pelo realizado nessa criação como um bem de valor
inestimável.

176
A relação entre acusações e compromissos estabelecida aqui pode ser aproximada um tanto livremente do
que Bailey chama da retórica do compromisso. Esta se caracterizaria por ser um tipo de retórica assertiva
centrada no adversário, mas não necessariamente endereçada a ele, através da qual é possível obter ganhos do
sentido de ser representado como o oposto da imagem que está sendo atribuída ao adversário – por exemplo,
responsável versus irresponsável. A dinâmica dessa retórica implicaria também na construção de
compromissos, uma vez que a sustentação desse par acusação do outro/valorização de si suporia uma certa
preocupação em demonstrar-se depois afinado com os pontos positivos da imagem construída (como alguém
“honrado”, por exemplo). (Bailey, 1983: 144-145)
177
Sobre os compromissos legais em torno da adoção, cabe lembrar que os artigos 47 e 48 do ECA
estabelecem, respectivamente, as condições em que se dará a produção do novo registro de nascimento,
inclusive que “a inscrição consignará o nome dos adotantes como pais, bem como o nome de seus
ascendentes” (Art. 47 § 1º), que “a sentença conferirá ao adotado o nome do adotante e, a pedido deste,
poderá determinar a modificação do prenome” (Art. 47 § 5º) e, sobretudo, que “a adoção é irrevogável”
(art. 48)

222
Para além dessa formulação mais geral, porém, é possível indicar nos processos
alguns elementos do compromisso que se projeta ou que se busca estabelecer com as
próprias crianças. Frente a situações como as das entrevistas e depoimentos, em que são
instadas a falar de como se sentem com relação a mães, pais e guardiães efetivos ou
pretensos, esses objetos dos processos, essas coisas dadas e não-inertes freqüentemente
trazem para suas narrativas a explicitação de seus próprios compromissos, bem como
tentam estabelecer compromissos para aqueles que têm poder sobre eles – nem que seja o
poder de impor sua presença. Lucas, provocado a falar sobre a mãe, descreveu as
situações em que gosta e em que não gosta de estar com ela, marcando ainda por que não
desejaria sair da casa dos guardiães onde tinha “coisas” (isto é, relações) – brinquedos,
amigos – que avaliava não poder ter com a mãe. Liliana procurou negociar com o pai os
termos do que viria a ser a nova relação entre eles, pós-Juizado, indicando o que não
gosta em seu comportamento e de certo modo ameaçando-o com sua maioridade
próxima. Ana e Elisa, cada uma a seu modo, depuseram sobre o comportamento da
guardiã e sobre como se viam nessa relação.
Dos diferentes elementos que podem ser destacados a partir dessa perspectiva,
gostaria de me concentrar em um que me parece central para pensar a retórica da
gratidão – e das obrigações, de um modo mais geral – como parte dos componentes de
dominação intrínsecos à menoridade: a obediência. Comprometer-se a obedecer surge em
diferentes falas dos menores como a paga possível pelo cuidado, como o contradom às
dádivas que as casas lhes oferecem. Murilo e Diogo sacralizam o acordo entre as famílias
paterna e materna aceitando a condição inevitável de coisas que circulam, mas também de
coisas que obedecem, ao declarar seu compromisso com a família materna de cuja casa
saíam. Liliana é acusada de desobediência, assim como Teresa, a menina devolvida à mãe
pela família do ex-padrasto. A sujeição pelo cuidado tem, portanto, uma linguagem bem
definida para se expressar: é preciso enunciar a obediência e, mais que isso, praticá-la sob
a forma de atos cotidianos, indicando em certa medida a sua não-consciência, o seu poder
enquanto constituinte de sujeitos. Negá-la, sob a forma da emancipação, como Liliana
ameaça fazê-lo ao se aproximar da maioridade legal e, sobretudo, ao garantir alguma

223
autonomia de sustento, é também sinal de ingratidão, de rompimento com o que Weber
denomina de piedade filial, contrapartida e componente da autoridade doméstica 178.
Nesse sentido, emancipar-se é agir sobre o tempo – o tempo da maioridade – e,
como resultado disso, sobre a autoridade em relação a si mesmo. Esse agir sobre o tempo,
porém, como representa sempre agir sobre uma relação – a da menoridade – pode ser
sentido como uma ruptura de cunho moral, uma ingratidão, do mesmo modo que a pressa
em retribuir dádivas pode ser entendida como desejo da quitação que faz cessar os
compromissos e, com eles, as relações179. É, portanto, ameaça. Creio que o caso que mais
clara e cruelmente explicita esse medo do tempo e de sua ação corrosiva sobre a
obediência é o de Ana e Elisa.
A perspectiva de crescimento das duas assombra a guardiã, na medida em que é
tomada como ruptura da obediência ou, como procurei caracterizar quando discuti o caso,
da docilidade. As imagens da desobediência cotidiana – Ana ter regredido nos estudos e
não “atendê-la” mais, Elisa não querer comer – ganham contornos de não-reconhecimento
frente à gratidão a que estariam obrigadas por terem sido retiradas de instituições e
colocadas em uma casa. A punição nesse caso, como ficou claro nas falas da guardiã, é a
devolução, o “qualquer dia deixo Ana aqui” que declara para a assistente social no
Juizado. A rebeldia, em qualquer das suas pequenas formas diárias, é percebida como
algo sem lugar em uma relação de tamanha assimetria: assimetria legal, dada pelas
relações de menoridade e guarda, mas também assimetria instaurada pelo peso simbólico
do resgate que dª Albertina insinua no “pegar para criar”. A desobediência, materializada
em atos ou imaginada pela idade, pelo tempo que avança, não pode ser tolerada em um
contexto de dádivas tão pesadas, tão impossíveis de serem pagas. A fantasmagoria do

178
Comparando os tipos modelares da dominação burocrática e da dominação patrimonial, Weber destaca que
ambos têm em comum o seu “caráter cotidiano”, sendo que “en el caso de la autoridad doméstica, las
antiquíssimas situaciones naturales constituyen la fuente de la creencia em la autoridad fundada em la piedad.
Para todos los que están sometidos a la autoridad familiar, es la convivencia personal, permanente y
especificamente íntima dentro del hogar, com su comunidad de destino externa y interna” (Weber, 1996: 753)
179
Recorro novamente a Bourdieu na discussão sobre os intervalos entre dom e contradom: “A pressa, sinal
de submissão, torna-se aqui sinal de impaciência com a dependência e, por isso, quase ingratidão, pela
premência demonstrada, pressa em desobrigar-se, de ficar quite, de ficar livre para quitar (...); pressa de
encurtar o intervalo de tempo que distingue a troca generosa de dons do brutal ‘toma lá, dá cá’, e que
determina que o sujeito fique obrigado, enquanto se sentir obrigado a retribuir, a reduzir a nada a obrigação
que existe desde o instante em que o ato inicial de generosidade foi realizado, e que só pode crescer
progressivamente à medida que o reconhecimento da dívida, sempre suscetível de ser resgatada, se transforme
em reconhecimento incorporado, em inscrição nos corpos, sob a forma de paixão, de amor, de submissão, de
respeito por uma dívida que não pode ser paga e, como se costuma dizer, é eterna” (Bourdieu, 1996c: 13)

224
resgate, feito a partir do recurso às instituições estatais, tomadas em si mesmo como
produtoras de infâncias anormais nas falas de psicólogos e assistentes sociais que
participam do processo, é mais que nunca, fazendo referência à associação apontada por
Mauss, um “presente envenenado”.
Assim, as motivações para guarda ou adoção enunciadas em torno do desejo de
“fazer bem a uma criança carente”, como nos casos de Anderson e de Lucas; o dar além
do que seria esperado, como no caso de Alice; a compaixão, a solidariedade etc. também
constróem ou alimentam expectativas de retribuição. Da guarda receosamente cedida pela
mãe de Alice à devolução “sem remorsos” – termo usado em um dos relatórios – de Ana
e Elisa – o que fica claro é que, nesse circuito em que aqueles que são menores ocupam
ao mesmo tempo o lugar de coisas dadas ou adquiridas e de paga pelo que está sendo
dado, um preço comum é instituído: a gratidão pela obediência. A opressão da bondade
configura-se, nesse caso, como uma das facetas possíveis para os venenos que os
presentes guardam.

As acusações, os limites intoleráveis, a empatia moral

Discutir as experiências judiciais como experiências de explicitação, embate e


redefinição de moralidades implica também pensar um outro recurso discursivo de
demarcação de posições morais: as acusações. Estas podem estar dirigidas ao
comportamento dos envolvidos e, nesse sentido, a negligências ou rupturas com o que se
supõe que seja o conjunto de cuidados da responsabilidade, mas podem, mais
especificamente, envolver aqueles que seriam os limites morais intoleráveis em relação à
infância. Quando isto ocorre, as acusações inserem-se em um outro plano e as
negociações daí decorrentes ou a busca de soluções administrativas precisam ser feitas
levando em conta também os dados inegociáveis, ou seja, aqueles sobre os quais paira
algo de proibitivo, com os quais não se pode realizar composições. Desse modo,
procurarei discutir nessa parte dois níveis de acusação. O primeiro deles engloba
acusações referidas ao comportamento em geral dos indivíduos ou deles com os menores;

225
o segundo lida com as fronteiras ou limites intoleráveis. Por fim, procurarei relacionar
essas questões a elementos presentes na ação dos especialistas, através da idéia de
empatia moral.
Entre as acusações dirigidas aos que originalmente deteriam o pátrio poder é
possível destacar, em primeiro lugar, as que procuram remontar a memória da relação
entre os envolvidos. São acusações centradas no tempo – quando a criança foi deixada, se
houve contato ou não – e nos bens de cuidado que deixaram de ser dedicados a essa
criança. É o caso de Anderson, por exemplo, no qual a imagem que os guardiães
fornecem da mãe na petição inicial é a de ser “omissa com o seu filho, deixando-o ao
abandono”, ou de Cleiton, de um ano e meio e criado por uma vizinha depois de deixado
pela mãe que, segundo ela e outros depoentes, não apareceu mais, e de vários outros
casos envolvendo avós maternos ou paternos e a parentela de um modo geral 180.
Em alguns processos, as acusações são feitas em contextos de disputa aberta –
mutuamente dirigidas pelas partes em conflito e, em geral, contrapondo à acusação de
abandono a de aquisição ilegítima – ou pela forma como a criança chegou aos que têm ou
pedem a guarda, ou pela forma como compreenderam essa guarda: como doação, ao invés
do empréstimo pretendido. Para pensar um pouco sobre esse tipo de situação, vou expor
um caso que traz essa marca de conflito aberto, inclusive com recurso a expedientes de
intimidação, o de Ângela.
O processo em torno de Ângela tem a peculiaridade de não ter sido motivado pela
pessoa que vai acabar por requerer a adoção da menor, de forma a cortar os vínculos
legais com a mãe biológica, mas por esta última, que denuncia a primeira como tendo
raptado sua filha. Ângela é filha de Jurema que, na época de seu nascimento, trabalhava
como empregada doméstica na casa de Nicete. Segundo depoimento desta última e de
vizinhos ao longo do processo, Jurema foi embora quando Ângela tinha cerca de um mês,
não retornando senão quase dois anos depois. Nesse período, Nicete passou a deter a
guarda provisória de Ângela. No processo que inicia para reaver a filha, Jurema acusa
Nicete de recusar-se a “devolvê-la”, alegando que “entregou sua filha (...), de pai
ignorado à sra Nicete (...) para poder trabalhar. Que pretende reaver sua filha, mas a
referida senhora recusa-se a devolvê-la”. Enquanto o argumento do trabalho oferece uma

226
justificativa “nobre” para o ato de deixar a filha, o binômio reaver/devolver enfatiza a
idéia do “empréstimo”. Para Jurema, há um acordo tácito, de cunho sempre moral, que
obriga a outra a devolver-lhe a filha e que, uma vez que não esteja sendo cumprido, exige
a intervenção do Juizado.
A denúncia de Jurema motiva um grupo de profissionais do Juizado a ir até o local
para buscar a criança e averiguar a situação. Nem Ângela nem Nicete são encontradas,
mas a incursão funciona como situação de recolhimento de opiniões, informações e
depoimentos de vizinhos e parentes. A discussão em torno do parentesco legítimo
transforma-se em uma disputa de moralidades, na qual as relações de vizinhança têm
papel decisivo. Dentre os depoimentos recolhidos, aqueles que parecem ter maior peso
negativo são os de vizinhos que alegam que Jurema “tinha o costume de freqüentar a
‘tendinha’ até de madrugada – inclusive já teria falecido, motivo pelo qual seu irmão teria
passado uma lista para o funeral” – e, em certa medida, o do próprio irmão que diz não
saber o que Jurema estaria “armando”, pondo em dúvida, portanto, a legitimidade de suas
motivações, e recusando-se a acompanhar os funcionários do Juizado até a casa de
Nicete, embora indicando como chegar lá. Essa recusa pode ser tomada como parte de sua
inserção em uma comunidade moral de vizinhança, que faz com que não deseje ter sua
imagem completamente associada à da irmã 181.
Para além desses depoimentos no local, algumas pessoas, notadamente as mais
comprometidas com dª. Nicete, resolvem acompanhar os funcionários e formalizar seus
depoimentos . Uma dessas pessoas é o padrinho de Ângela que declara, entre outras
coisas, “que na data atual o casal [d. Nicete e seu companheiro, que não partilha a guarda
de Ângela com ela] já se prepara para a festa de aniversário de dois anos de Ângela”,
chamando a atenção para um bem de cuidado ritual. É importante notar ainda nesse
depoimento o vínculo expresso do depoente: padrinho da menina. Há uma relação de
compadrio, portanto, estabelecida com os pais “emprestados”, que multiplica
compromissos à revelia da mãe biológica.

180
A importância do recurso à parentela como elemento de avaliação judicial será tratada no próximo
capítulo.
181
As relações de vizinhança como relações morais são enfatizadas por autores com diferentes propostas,
como Elias e Scotson (2000), que discutem a relação entre estabelecidos e outsiders em uma pequena
localidade e Banfield. Pesquisando uma comunidade rural no sul da Itália, Banfield cunha o termo familismo

227
Nos depoimentos tomados posteriormente, com intuito de transformar a guarda em
adoção plena, o mesmo padrinho de Ângela e outros vizinhos voltam a construir um
quadro moralmente negativo da mãe biológica, como alguém que se apresenta
constantemente embriagada e eventualmente drogada; resgata-se a história do falso
funeral e, sobretudo, que quando Jurema deixou a filha, “o fez em caráter definitivo, pois
foi cuidar da vida”. Nos depoimentos está presente a fronteira entre o empréstimo
legítimo e o abandono. Por fim, com a adoção definida em favor do casal, é interessante
notar o conjunto de aspectos que tornou possível a transformação do “deixar para tomar
conta” em abandono, com perda definitiva de direitos: o tempo transcorrido, o
comportamento da mãe e, sobretudo, o próprio fato desta ter recorrido ao Juizado para
reverter o acordo feito, este último aspecto formalizando o conflito entre as partes e
forçando a mudança de estratégia da mãe adotiva – não querer mais apenas a guarda, mas
ter o desejo de cristalizar legalmente a “nova vida” de Ângela com um processo de
adoção formal.
O que este caso permite também perceber é a ligação possível a ser estabelecida
ao longo do processo entre as acusações centradas no ato em relação à criança e aos
guardiães – desaparecer, não sustentar etc. – e as que procuram retratar a
irresponsabilidade dos que estão sendo acusados como parte de um comportamento ou
um modo de vida mais abrangente, de forma que a irresponsabilidade específica com
relação aos filhos apareça como tradução desse caráter geral que não pode ser
modificado182.
Uma outra possibilidade de uso das acusações e que também está presente no caso
relatado acima é a que enfatiza os comportamentos de exceção, ou seja, aqueles que não
são tomados como fazendo parte integral do indivíduo mas que, quando surgem, operam
uma transformação nas suas ações e, por isso, os tornam não-confiáveis para os encargos
de ter uma criança sob sua responsabilidade. É o caso das recorrentes menções ao uso de
drogas ou álcool. O pai de Alice “sofria de alcoolismo”; o de Liliana ficava “agressivo

amoral, para caracterizar o que descreve como um ethos que exclui a solidariedade e colaboração para além
do círculo estreito da família (Banfield, 1967: 83)
182
A leitura dos atos como indicativos de uma identidade ou uma forma de vida mais abrangente é abordada
por autores preocupados com a produção social do estigma, como Goffman (1988), ou com as identidades
desviantes ou outsiders, como Becker (1971). Nos dois casos prevalece a perspectiva relacional de

228
quando bebia”; o de Milton e Marc, dois meninos deixados com a avó, “fazia uso de
tóxicos”, tendo passado um período preso por isso; o de Júlio César, caso relatado no
item anterior, “bebia e maltratava a mãe”.
Nesses casos, como fica especialmente claro no processo de Liliana e suas irmãs, a
condenação moral em torno do “vício” pode ser simultaneamente um dado de reprovação,
mas também de relativo perdão, já que traz à cena algo que contém a idéia de um duplo
“eu”: o que se comporta de determinada maneira em estado supostamente normal e o que
age de outra forma, quando tomado pelo álcool ou diferentes drogas. A avaliação moral do
indivíduo assim caracterizado depende, desse modo, de um conjunto mais diversificado de
indicativos. Se no caso relatado acima, o estar “embriagada e eventualmente drogada”, com
que Jurema foi descrita, opera contra a autoridade que pretendia resgatar com relação à
filha, o mesmo não ocorre com o pai de Liliana, em que a bebida é representada como
provocando uma alteração de comportamento que pode ser apontada e repreendida por
assistentes sociais, mas que não inviabiliza seu poder sobre as filhas.
Procuro com isso chamar a atenção para a importância de não pensar nenhuma das
categorias de acusação de forma isolada, mas sim compreendê-las como parte do que
chamei em outro momento de uma configuração moral. Ou seja, para além da enunciação
dessas acusações, é preciso perceber como são matizadas e que outros elementos são
capazes de agravá-las ou atenuá-las, bem como de que expedientes os especialistas
dispõem para negociar a solução administrativa viável para uma criança, a partir e apesar
das acusações que pairam sobre seus responsáveis ou candidatos a responsáveis.
Para compreender como essas configurações operam, creio que o melhor é discutir
o que designei no começo desse item como os intoleráveis da infância. Considero que
quatro tipos de ação ou de situação colocam-se, atualmente, como centro das
representações antagônicas à infância: o abandono, o sexo, a violência e o mercado 183.
Em princípio, se tomados como valores, esses elementos desautorizam os que os
promoveram a manter sua ligação e seu poder sobre a criança. O que os processos

compreensão das identidades, ou seja, dessas não podendo ser pensadas senão frente ao esforço social de
demarcação de fronteiras e caracterização comparativa de comportamentos.
183
Esses tipos de ação constituem parte do sentido contemporâneo de risco ou, mais precisamente, infância
em risco, mencionado no capítulo 1. Como dito naquele capítulo, a organização de um diagrama variado de
situações capazes de ameaçar a infância faz parte dos esforços em construir formas de regulação universais
sobre a infância que não excluam a diversificação social e cultural dessas de infância.

229
permitem perceber, porém, é que há formas variadas de caracterizá-los, de falar sobre eles
e, o que talvez seja ainda mais significativo, de construir silêncios ao seu redor.
O abandono da mãe de Anderson não é construído, em termos morais, do mesmo
modo que o abandono de Cláudia, assim como o abandono contestado enquanto tal por
Jurema é penalizado com a ruptura da maternidade biológica, através da adoção, o que
não ocorre com Graça, mãe de Lucas, que consegue sustar a transformação da guarda em
adoção justamente por afastar de si as representações da guarda como doação e, no limite,
como abandono, no sentido da desistência da criança.
As acusações sexuais mútuas no caso de Lucas são silenciadas ao longo do
processo, enquanto as presentes no caso de Cláudia criam um limite para a negociação
entre as mães – a biológica, que consegue ver valorizado moralmente o seu ato de
abandono como ato de preservação, e a adotiva. A violência expressa em alguns casos,
novamente o de Cláudia, esse verdadeiro compêndio de intoleráveis, e o de Rodrigo, não
relatado aqui, um menino espancado pela guardiã que, em conseqüência disto, perde a
guarda, apontam para a ruptura da relação estabelecida, enquanto os registros ou
reclamações de violência presentes nos processos de Liliana e mesmo no de Ana e Elisa,
no qual isso só aparece na fase final, são contemporizados e em boa medida silenciados.
Por fim, o fantasma do mercado, no sentido do comércio de crianças, se faz presente nas
denúncias dos guardiães de Maíra em relação à “chantagem” do pai e deste em relação
aos primeiros por tentarem “comprar sua consciência”. O medo de que a doação seja em
verdade venda coloca todos, sobretudo os pais, em posição de suspeita, motivando
observações e um intervalo na concessão da autoridade plena, que pode ser também
tomado como um intervalo tático do ponto de vista administrativo para que outra solução,
que não a devolução aos pais, se desenhe.
O que esses quatro intoleráveis sublinham é não só o que seja o cuidar –
responsabilizar-se cotidianamente, guardando em uma casa e, portanto, não abandonando;
formar moral e sexualmente e, desse modo, conformar individualidades mais auto-
controladas184, dosar a violência produtiva, no sentido do controle disciplinar – mas
também a importância de manter a ficção do cuidado gratuito e não mercantilizável. E,

184
A idéia do auto-controle está aqui remetida mais uma vez à proposta de Norbert Elias, ou seja, como forma
de controle que faz parte do que o autor chama de processo civilizador e que compreende uma dupla
dimensão de contenção ou pacificação: dos indivíduos e da sociedade (Elias, 1990 e 1993)

230
sobretudo, manter a ficção de que esse cuidado se estabelece em um continuum ordenador
que liga Estado e unidades domésticas e, por isso, permite que a autoridade sobre as
crianças seja supostamente uma autoridade entre a outorgada e a “natural” (pelo biológico),
entre a violência – como controle exercido a partir de expedientes assimétricos de força e
poder – e a moral, como a forma idealmente correta de exercer tal violência.
Retomando uma indagação colocada por Boswell acerca do grande medo por trás
do abandono das crianças na Antigüidade, capaz de despertar narrativas tão atraentes
quanto apavorantes sobre esses dramas, seria o caso de colocarmos para os intoleráveis
contemporâneos e sua apropriação a mesma pergunta: qual o medo por trás deles? O que
faz com que não possam ser totalmente ignorados nos processos mas que, ao mesmo
tempo, possam ser silenciados, contornados de forma tão ostensiva que é impossível não
notar o esforço necessário para produzir esse silêncio?
Creio que o medo centra-se sobretudo nos riscos representados pela caracterização
das unidades domésticas como redutos não-confiáveis para a gestão de crianças e, por
isso, como sendo incapazes de produzir ordem em um sentido amplo e, ao mesmo tempo,
capilar. Assumir a presença desses intoleráveis é assumir a inviabilidade do acordo, da
relação de outorga e compromisso entre unidades domésticas e aparatos administrativos
como gestores da menoridade. Em outras palavras, reconhecer o intolerável é produzir o
impossível, em termos da formulação de soluções administrativas para essas crianças.
Não custa lembrar que o que resta de solução frente à desistência de qualquer acordo de
guarda ou adoção, entre parentes ou entre estranhos, são as instituições criadas e
mantidas, de um jeito ou outro, pelo próprio Estado, alvo de condenações morais e
“técnicas” (como no caso dos discursos de inspiração “psi”) por seus próprios
especialistas.
Nesse quadro, a possibilidade de empatia moral como critério de avaliação
desempenha um papel crucial. É ela que permite transformar os matizes desses
intoleráveis – que abandono, quanta e qual violência, qual a verdade das acusações
sexuais, quais os interesses e motivações nas situações que sugerem mercantilização – em
ações administrativas185. Explicando melhor: uma vez sacramentados nos autos,

185
Discutindo os insultos morais, Oliveira coloca que “a percepção do insulto moral demandaria
freqüentemente e de maneira particularmente acentuada nas sociedades modernas, a evocação obrigatória dos
sentimentos. Não porque tal percepção exigiria que os atores experimentassem diretamente a emoção do

231
quaisquer desses intoleráveis criam limites administrativos, impossibilidades de acordo.
Negam, desse modo, alternativas de gestão. Retomando o caso de Cláudia, que concentra
vários desses intoleráveis e de forma materialmente comprovada através de seus
hematomas e lembranças pungentes, o que se pode perceber é que não há ponto de
retorno para a autoridade da mãe, ao menos enquanto viver com o companheiro. Isso não
impede, porém, que a empatia construída a partir de uma certa absolvição moral da mãe,
que a abandonou em local público, com um bilhete contando sua história, que já havia
antes tentado lançar mão das próprias instituições estatais para conseguir cuidar da filha,
funcione como caminho para elaborar uma nova forma de gestão, envolvendo não apenas
a casa que o destino, como na cena da salvação, construiu para ela, mas também a mãe
biológica, percebida ela própria como vítima. O papel mediador das assistentes sociais
operou, nesse caso, uma espécie de alquimia administrativa e moral: de situação de
ruptura radical, concentrando os piores fantasmas para as representações contemporâneas
de infância, o processo se transformou em um “acerto de mulheres”, em uma gestão
conjunta, na medida do possível, entre mulheres que não se conheciam antes.
Já no caso de Liliana, a violência do pai foi minimizada frente a uma
representação mais geral de ordem, sendo o único fator que poderia realmente contaminar
tal violência – a bebida – objeto de indagações que produziram “vergonha” no pai, o que
indica mais uma vez o quanto a própria prática de dar depoimentos no Juizado pode ser
entendida como uma experiência moralmente controladora de comportamentos. De modo
bastante significativo, a ação dos profissionais do Juizado não se deu, nesse caso, como
uma ação favorável à transferência da guarda, sobretudo porque fica claro, desde a
iniciativa de dª Margarida em recorrer ao Juizado para conseguir do pai das meninas uma
pensão para continuar a “assistir” às suas filhas, que essa transferência não se faria de
forma muito simples.

insulto, mas porque seria sim, necessária, a identificação com ela” (Oliveira, 2002: 82). Desse modo, seria
possível que uma reação vicária, ou seja, impessoal e desinteressada, fosse motivada a partir de relatos
envolvendo o ressentimento de outra pessoa em relação a um fato ocorrido com ela. Como coloca o autor, “o
sentimento equivalente ao de ressentimento no caso da reação vicária seria o de indignação ou de
desaprovação moral. Isto é, não se trata de associar a dimensão moral exclusivamente à reação vicária, pois
ela também está presente na experiência (pessoal) do ressentimento, mas de chamar a atenção para o fato de
que a dimensão moral se caracterizaria por poder ser socializada e/ou intersubjetivamente partilhada” (2002:
83). Creio que esse tipo de definição aplica-se ao que chamo aqui de empatia moral, na medida em que essa
não se estabelece como ressentimento pessoal, mas como a construção de um elo simpático frente ao
sofrimento ou indignação alheios.

232
Mais uma vez, portanto, o que se pode perceber como o medo por trás da transação
em torno da guarda é o do conflito levar a uma ruptura radical com a ordem doméstica,
buscando-se acomodar todos os fatores de tensão – o comportamento “violento” do pai, a
“desobediência” de Liliana, o pedido de pensão de dª Margarida – em um outro código
conciliador. Esse esforço condensou-se, não à toa, na expressão “está tudo harmonizado”,
produzida supostamente pela irmã do meio como resposta ao questionamento dos
profissionais. O conflito que motivou a busca ao aparato administrativo aparece, desse
modo, como algo superado, algo que pode voltar a se processar apenas no interior da sua
esfera mais legítima e “natural”: a ordem familiar, considerando que esta não exclui a
própria demandante inicial da intervenção do Juizado, dª Margarida.
Por fim, dois casos que indicam a importância de operar a construção de silêncios
que sustentem, até onde for possível, as unidades domésticas como unidades de gestão é o
de Lucas, pelo esvaziamento das acusações sexuais, e o de Ana e Elisa, pela menção
tardia à violência. No primeiro caso, o silêncio avança na medida em que se consegue
construir uma conciliação entre as partes em litígio, banalizando-se as suspeitas mútuas
de condutas sexuais que, se comprovadas, necessariamente levariam à perda de
autoridade por um dos lados. Já no segundo, o processo é inverso: a denúncia só surge
quando o acordo foi rompido e rompido ao ponto da guardiã ameaçar “devolver” uma das
meninas à revelia das providências do aparato estatal.
Nesse sentido, a empatia moral, como processo de identificação com a posição do
outro – no caso de Ana e Elisa, presente em todos os relatórios iniciais falando da
compreensão com as queixas da guardiã – cumpre a missão de assegurar a confiabilidade
nas unidades domésticas possíveis, de construir sua legitimidade mesmo que a custo de
silenciar, não necessariamente no sentido de não saber, mas de impedir que seja registrado
como memória administrativa, os conflitos e as ações violentas que são parte de qualquer
relação de dominação. Esse trabalho de registro e não-registro, de legitimação pela fala ou
pelo silêncio, de cálculo de viabilidades e inviabilidades se faz como parte de um modo
específico de administrar e, por isso, de dominar, que não pode ser entendido sem uma
discussão sobre categorias e expedientes tutelares presentes nos processos. É disso que
procurarei tratar no capítulo seguinte.

233
Capítulo 5:

A ação tutelar e a produção de destinos

Procurei enfatizar nos capítulos anteriores a importância da contraposição, bem


como da composição, entre formas e representações de autoridade e moral na produção de
uma solução administrativa, de uma sentença e, conseqüentemente, de destinos para as
crianças e seus responsáveis. Neste capítulo, pretendo focalizar uma dimensão específica
desse processo de construção de decisões judiciais, que chamo aqui de ação tutelar. Se no
primeiro capítulo procurei esclarecer as razões pelas quais concebo a gestão da
menoridade como tutelar, em um sentido mais abrangente, busco agora descrever através
de que expedientes e categorias organizativas tal gestão se transforma em ação. Ou seja,
de que forma pode ser observada não como um princípio teórico ou analítico, mas como
conjunto de procedimentos e representações entremeados a esses procedimentos que se
fazem vivos na construção dos processos.

Para que isso seja possível, é preciso, antes de mais nada, retomar o que estou
qualificando como tutelar. Considero como tal, em primeiro lugar, uma forma de gestão
que se organiza a partir de uma relação complementar, embora assimétrica, entre
administração e unidades domésticas. Nesse sentido, a finalidade e, ao mesmo tempo, o
modus operandi dessa gestão se caracterizam pela tentativa de estabelecer um circuito ou
uma cadeia de tutelas, compreendidos sobretudo como autoridades e responsabilidades
diferenciadas e interligadas. Nesse quadro, o menor em torno do qual se organiza o
processo é, ao mesmo tempo, o elo extremo e o eixo da relação tutelar, na medida em que

234
é sobre a necessidade de definir responsáveis para ele (dotados, portanto, de autoridade
legal sobre ele) que se organiza esse circuito 186.

Como procurei discutir no capítulo 1 e demonstrar através dos casos


selecionados, não concebo que essa relação possa ser traduzida simplesmente como
uma relação de fiscalização e controle da administração sobre as unidades domésticas, o
que não implica desconhecer a desigualdade em termos de autoridade presente entre
elas. Ou seja, se o aparato administrativo intervém sobre os possíveis responsáveis –
negociando, mediando conflitos ou mesmo punindo, através da cassação do pátrio poder
– isso não significa que suas ações devam ser colocadas em termos de antagonismo
absoluto com relação a esses responsáveis, ou como projeto de imposição de um
modelo determinado de comportamento e organização familiar ou doméstica. O que os
casos deixam perceber é que a ratificação ou transferência de autoridade da qual a
administração está encarregada se constrói como um conjunto de negociações em torno
das viabilidades de cada caso.

Nesse sentido, a definição das crianças e jovens como sujeitos de direito especiais,
base de toda intervenção legal sobre eles e seus responsáveis, ao mesmo tempo em que se
assenta na suposição de uma desigualdade intrínseca à sua própria condição – baseada,
como dito no capítulo 1, na impossibilidade de discernimento e, conseqüentemente, de
autonomia – obriga que as soluções buscadas para sua gestão se façam no sentido de
encontrar expedientes que intermediem sua construção enquanto indivíduos dotados de
plenos direitos e deveres. Ou, dizendo de outra forma, que se lide com a responsabilidade
e a autoridade sobre esses indivíduos parciais através da escolha de unidades mais amplas
nas quais possam ser inseridos. A busca de soluções administrativas para cada caso se
faz, na prática, como uma busca por unidades de tutela que controlem a formação de tais
indivíduos durante sua menoridade.

186
Como discutido no capítulo 1, ao compreender a menoridade como relação de dominação, suponho, em
primeiro lugar, que a cadeia de autoridades aí estabelecida é não apenas uma condição da responsabilidade
suposta em tais relações, mas do próprio poder como algo que só tem sentido se entendido como exercício, de
acordo com a proposta analítica de Foucault. Segundo este autor, “o poder se exerce em rede e, nessa rede,
não só os indivíduos circulam, mas estão sempre em posição de ser submetidos a esse poder e também de
exercê-lo. Jamais eles são o alvo inerte ou consentidor do poder, são sempre seus intermediários” (Foucault,
2000: 35). A compreensão dessa relação como tutelar, porém, tem outras implicações específicas, as quais
pretendo retomar nesse capítulo.

235
O que me interessa destacar especificamente neste capítulo são os critérios e
práticas que parecem orientar e dar sentido à variedade de soluções encontradas. Ou seja,
se a questão de fundo em todo processo de guarda de menores é decidir a melhor escolha
viável – traduzida doutrinariamente no melhor interesse – e se essa escolha se faz
necessariamente como um processo de eleição tutelar, quais são os limites dentro dos
quais tal variedade pode se estabelecer sem romper um primado fundamental das crianças
como sujeitos de direito especiais: o de que a responsabilidade sobre seus destinos
idealmente cabe ao Estado. Desse modo, olhar para os dramas específicos que se
constróem nos processos é olhar para essa tensão crucial: como a administração, através
de seus especialistas, pode intervir de modo a delegar satisfatoriamente a
responsabilidade sobre a menoridade desses indivíduos sem romper com o princípio de
suas próprias autoridade e responsabilidade?

A mecânica presente nessa ação, por sua vez, se não pode prescindir de uma certa
exibição do poder de fiscalização – uma das bases práticas da legitimidade na outorga da
autoridade/responsabilidade – também não pode levá-la tão a fundo a ponto de
inviabilizar a escolha de tutores. Assim, o grande paradoxo que parece conduzir a ação
dos especialistas nos casos de guarda pode ser traduzido como a necessidade de produzir
a encenação da autoridade delegada de forma correta – tanto em termos técnicos quanto
morais – e, ao mesmo tempo, fugir ao máximo do que seria o horizonte legalmente
aceitável, mas administrativamente mais inviável: assumir integralmente a
responsabilidade por esses menores. Encontrar soluções pode significar, na prática,
construir administrativamente não os gestores ideais, mas os gestores possíveis187.

Nesse sentido, a ação dos especialistas se faz como ação tutelar também na
medida em que a eleição desses gestores supõe o apagar, em certa medida, dos próprios
menores nesse processo. Mesmo quando instados a falar, dar depoimentos etc., eles

187
Foucault, discutindo a transformação nos modelos de culpabilização, afirma que o modelo disciplinar
implica, em contraposição com o modelo soberano, a elaboração de um “estranho complexo científico-
jurídico” (Foucault, 1987: 23) que se faria presente na construção de seu produto mais acabado, a sentença.
Assim, “a sentença que condena ou absolve não é simplesmente um julgamento de culpa, uma decisão legal
que sanciona; ela implica uma apreciação de normalidade e uma prescrição técnica para uma normalização
possível” (idem: 24). Os dados técnicos levantados, como os presentes nos estudos sociais, indicariam, desse
modo, as possibilidades de construção de uma certa normalização, não apenas do comportamento dos
indivíduos – no sentido de moldar esses comportamentos a determinadas exigências – mas do próprio

236
ocupam menos o lugar de sujeitos, como quer o texto ideal da lei, e mais o de objetos
tutelares, na medida em que a finalidade decisiva dos processos é encontrar tutores que
passem a responder por eles. Correndo o risco de cair em uma aparente redundância,
creio ser possível colocar a construção dos processos como uma experiência de
menorização dos menores, de reafirmação de sua condição de objetos a serem alocados
sob o controle de outros, sejam esses ou indivíduos, ou redes de indivíduos. Assim,
produzir sua condição de tutelados, sacramentada na sentença final, não é apenas
resultado do reconhecimento de sua posição legal peculiar, mas objetivo da ação
administrativa como um todo.

Creio ser importante fazer esse tipo de consideração, já abordada no capítulo 1,


para chegar à problematização de uma imagem recorrente em parte da literatura sobre as
formas de controle da infância nos últimos dois séculos, qual seja, a de que a ação dos
Estados nacionais modernos se construiu como uma ação de controle dos indivíduos
através de suas crianças. Tal posição, consagrada sobretudo por Donzelot, em sua análise
sobre o surgimento dos tribunais de menores na França, pode dar lugar a representações
excessivamente polarizadas da relação entre Estado e famílias, segundo as quais o
primeiro encontra nos menores a porta de entrada para o controle capilar das últimas.
Quando me proponho a pensar critérios e práticas tutelares na escolha de responsáveis
para os menores, não avalio que as ações daí resultantes se expliquem ou se caracterizem
por essa febre fiscalizadora mas, ao contrário, que está em jogo a produção da viabilidade
da delegação. Ou seja, que não se trata de usar crianças para regrar famílias – e, dessa
forma, adultos – mas sim de buscar famílias para controlar crianças. A naturalização da
condição de tutelados dos últimos se faria menos como um estratagema de controle sobre
famílias e mais como expediente administrativo para minimizar o paradoxo de um Estado
que não pode fugir daquilo que também não consegue realizar: a sua responsabilidade
sobre esses menores188.

processo como aquele que é técnica e moralmente correto, capaz de encontrar soluções administrativas
justificáveis.
188
Novamente parece também estar em jogo a contradição apontada por Duarte et al (1993) entre os
processos de “individualização” e “responsabilização” constituintes da cidadania em Estados nacionais
modernos. Solucionar a questão da responsabilidade estatal – soberana, portanto – sobre esses indivíduos em
condição especial, os menores, implica investir em uma dimensão específica da construção dessa cidadania, a
da “responsabilização” de outros indivíduos ou redes de indivíduos como única forma de gestão

237
Assumir, portanto, que certos tutores são viáveis não significa fazer incidir sobre
eles um aparato fiscalizador minucioso, muito embora tenham que ser produzidas
imagens e encenações dessa fiscalização, mas sim construir possibilidades
administrativas que ultrapassem as instituições estritamente estatais 189. Nesse sentido,
significa produzir um certo compromisso complementar para controle e gestão daqueles
que são os objetos diretos da tutela, os menores, só possível com a naturalização da
outorga de responsabilidade e autoridade como uma ação moralmente correta. Dizendo de
outro modo, é preciso representar a fiscalização, bem como a autoridade nela embutida,
para produzir o (des)compromisso com essa mesma fiscalização.

Nesse ponto, creio que é importante chamar a atenção para uma segunda dimensão
do que estou compreendendo como ação tutelar (ou como o caráter tutelar das ações dos
especialistas durante o processo): a dimensão pedagógica das experiências judiciais. O
que chamei antes de naturalização da tutela, através da outorga de autoridade que a
sentença final consagra, pode ser entendido também como uma experiência de construção
de limites, possibilidades e condições negociadas para essa mesma tutela. Explicando
melhor: o processo como um todo, com seus procedimentos investigativos sumarizados
em estudos sociais, bem como com suas audiências e depoimentos transformados em
autos, assinala para a construção de limites, a serem tolerados ou não, códigos e
linguagens utilizados, intenções e compromissos explicitados. Assim, estrutura-se como
uma experiência de apreensão das formas corretas ou aceitáveis de tematizar a tutela
como relação legítima, ou seja, da virtualidade de comportamento a ser exibida para que a
outorga se dê sem maiores contradições para todos os envolvidos, inclusive para os
especialistas. O tempo gasto para transformar uma demanda inicial em uma sentença é,
desse modo, também o tempo da tessitura de um certo aprendizado, nem tanto das
condutas, mas da forma de representá-las.

Por outro lado, ao lidar sobretudo com viabilidades, como venho insistindo, e não
com ideais abstratos de cuidado e gerência da infância (embora estes estejam sempre
presentes no horizonte da ação administrativa), as negociações de que os processos são

razoavelmente aceitável (já que a gestão direta pelo Estado é concebida por seus próprios especialistas como
improdutiva na formação de indivíduos).
189
Uso a idéia de encenação da fiscalização, no sentido já descrito no capítulo 1, ou seja, remetido à imagem
de uma exemplaridade moral e ritual do Estado, partindo das discussões feitas por Geertz (1991)

238
feitos compreendem uma outra faceta pedagógica. Elas ensinam sobre o possível, sobre o
tolerável e, por isso, sobre os limites do desejável. Se as crianças que são sujeitos de
direitos na letra da lei estão balizadas pelo ideal, aquelas que comparecem ao Juizado são,
sobretudo, objetos do possível. A flexibilidade presente no caso a caso, na avaliação de
cada situação peculiar não apenas indica a grande distância entre “intenção e gesto”, entre
o ideário legal e a prática das experiências judiciais, mas também ensina sobre a
importância de conformar-se ao possível.

Desse modo, as negociações empreendidas até a consagração de uma figura legal


de autoridade, esteja ela sob forma de guarda ou de adoção, se fazem também como
delimitação da distância entre os direitos e a realidade administrativa, esta última
norteada, sobretudo, pela busca de alternativas ao mais impensável: uma criança sem
tutores ou uma criança reduzida à tutela direta do próprio Estado. Creio que as situações
que deixam isso mais claro e que procurarei discutir mais adiante são as que envolvem as
crianças retiradas das próprias instituições estatais, ou seja, as crianças que têm o Estado
como tutor não apenas em um sentido último, do próprio dever de soberania deste de
intervir, ratificar ou cassar o pátrio poder de responsáveis, mas também como guardião
efetivo dessa menoridade. As condições em que tal passagem de autoridade se dá indicam
que a busca de alternativas viáveis para a gestão da menoridade se faz também a partir da
consideração do que há de mais negativo no exercício de uma tutela/administração direta
pelas instituições estatais 190. Desse modo, a escolha de guardiães que possam oferecer
casas acontece advinda também da pressuposição de que estes tendem a ser uma
alternativa mais eficaz de gestão da menoridade do que tais instituições.

190
A percepção das instituições como prejudiciais é tematizada principalmente a partir dos anos 1980, como
indicam Rizzini e Rizzini (1991). Trabalhos como os de Altoé (1990 e 1993) apontam nessa direção e, no
plano da reorganização administrativa, as tentativas de criar unidades de menor escala despontam
principalmente em torno da votação do ECA e do fim da Funabem e da estruturação da FCBIA. Cardarello,
trabalhando com as UTRs de Porto Alegre, mostra que a imagem da instituição como algo negativo aparece
em situações-limite, como no caso da separação de irmãos mantidos nas mesmas unidades. Divididos entre
enfatizar a importância da manutenção do vínculo entre irmãos, bem como da própria singularidade das
UTRs, que não deveriam ser confundidas com as demais unidades da Febem, e o postulado de que “nada é
melhor que uma família”, assistentes sociais e psicólogos declaram-se sem saber como agir (Cardarello, 1996:
92-94)

239
Retomando o que coloquei no início do capítulo, acerca do estabelecimento de
um circuito ou uma cadeia tutelar 191, creio ser importante destacar mais uma vez o papel
das casas como unidades de gestão da menoridade. A busca por tutores aceitáveis não
se constrói simplesmente como uma busca por indivíduos com determinadas qualidades,
mas sim como a escolha de casas, de locais e redes de relações nos quais se possa fixar
esses menores e, com isso, fixar de certa forma a própria menoridade, como condição
de autonomia parcial e como tempo de transição. As estratégias empreendidas pelos
especialistas envolvem, desse modo, não apenas um certo escrutínio dos indivíduos,
mas das casas tanto no sentido físico, quanto no sentido dos bens de cuidado a serem
oferecidos e, como conseqüência disso, da sua capacidade de formação e gestão de outros
indivíduos. Assim, as avaliações sobre a conduta moral dos candidatos à guarda ou
adoção de uma criança são também avaliações morais sobre suas redes de relação.

Como tais avaliações se orientam, sobretudo, por uma certa pragmática


administrativa, representada pela necessidade de impedir que tais crianças permaneçam
fora da tutela de alguém, bem como fora da tutela direta das instituições estatais, a
moralidade nelas presente guarda algo de uma exemplaridade nunca totalmente cumprida.
Ou seja, se é necessário enunciar os limites morais que não podem ser transgredidos – os
intoleráveis, como chamei no capítulo anterior – e de promover diferentes encenações de
investigação moral acerca da conduta dos envolvidos, isso não quer dizer que tal
enunciação deva ser compreendida como uma disciplinarização minuciosa e literal dessas
condutas. O que a pragmática administrativa produz, nesse sentido, pode ser melhor
traduzido como a busca por certos compromissos morais que traduzam e permitam a
legitimidade do acordo tutelar – a passagem da guarda – mas que, ao mesmo tempo, saiba
limitar a cobrança por esses mesmos compromissos. Enfim, que se construa o tolerável, o
possível, não como realização de direitos idealizados ou de modelos ideológicos de
família, mas como expediente administrativo capaz de evitar o pior.

A fixação de menores em casas representa, desse modo, o objetivo último dos


processos e, nesses termos, do próprio esforço administrativo em viabilizar os circuitos
tutelares. Encontrar uma casa – aceitando circulações e acordos previamente feitos,

191
Sobre a noção de cadeia tutelar, ver o trabalho já mencionado de Jair Ramos (2002), no capítulo 1, sobre as
ações administrativas do Serviço de Povoamento junto a imigrantes e colonos.

240
entregando crianças institucionalizadas, destituindo e instituindo guardiães – significa
produzir locais para essas crianças, em um duplo sentido: locais físicos, dos quais em
princípio não podem sair ou serem retiradas sem autorização legal, e locais sociais
hierarquizados, de autoridade e obediência. Estar sob guarda é, dessa forma, estar
também guardado, alocado e preso a um lugar e a um tutor.

Não à toa, duas categorias têm destaque nos estudos sociais presentes nos
processos: a harmonia e a adaptação. Mais que termos técnicos, tais categorias indicam o
pressuposto tutelar que embasa a busca por casas como soluções administrativas. Indicam
a solução de um desregramento a ser evitado, o das crianças fora de casas, à parte de um
conjunto de relações que responda pelo cotidiano de sua gestão. Para pensar sobre tais
categorias, porém, é preciso pensar um pouco mais sobre o seu uso pelos especialistas
responsáveis por uma parcela importante da construção das soluções administrativas, os
assistentes sociais.

Resolução de conflitos e categorias tutelares: a harmonia e a adaptação

Para compreender o uso destas categorias nos estudos sociais componentes


dos processos, é preciso, antes de mais nada, chamar a atenção para alguns elementos
próprios do ofício daqueles que redigem tais estudos, os assistentes sociais. No capítulo 3,
centrado nas discussões sobre autoridade, procurei destacar a diferença não entre a
autoridade técnica de assistentes sociais e psicólogos mas, sobretudo, o que se poderia
qualificar como uma diferença de sentido ou objetivo nas funções desempenhadas nos
processos por esses dois tipos de profissionais. Ou, para ser mais coerente com o universo
de discussões e materiais de análise com que estou lidando, nas funções que ficam
cristalizadas nos escritos dos autos. Desse modo, procurei destacar que as avaliações de
psicólogos, muito rarefeitas no conjunto dos processos vistos, cumpriam o papel de
sacramentar a dissolução de certos acordos, como no caso de Ana e Elisa, ou de indicar a

241
impossibilidade de reverter uma certa situação de cassação do pátrio poder, como no caso
da menção ao recurso a psicólogos, no caso de Cláudia.

Nesse sentido, mesmo quando surge apenas como alusão, o trabalho desses
profissionais parece desempenhar o papel de sedimentar um certo impossível ou, dizendo
de outra forma, a impossibilidade de uma dada unidade. O enfoque sobre a criança
individualizada, porque “psicologizada” ou “psicologizável”, indica também, como um
efeito complementar, a falência de um certo investimento na criança como parte de uma
unidade maior que ela, através da qual ela ganha sentido e que, simultaneamente, ganha
sentido a partir dela – a família, a casa, a maternidade/paternidade.Ao contrário desse
trabalho individualizador dos psicólogos, a ação de assistentes sociais parece caminhar na
direção da ênfase nas unidades ou, como coloquei antes, na construção dos acordos. Mais
que uma peculiaridade dos processos civis, porém, esse objetivo e os procedimentos a ele
correlatos inscrevem-se na própria natureza do serviço social, compreendido enquanto um
saber pacificador de relações sociais. Como essa dimensão também foi discutida em outro
momento, gostaria de destacar certas estratégias pertinentes a tal pacificação, bem como
a importância da sua representação através do uso dessas categorias de acordo, a
harmonia e a adaptação. Essas estratégias envolvem, sobretudo, a resolução de conflitos
e o modo como a representação desses conflitos e seus desfechos se combina a essas
categorias, a categorias similares a elas ou mesmo, paradoxalmente, à sua ausência.
A harmonia aparece ao longo dos processos com dois sentidos – entendendo-se
aqui sentido ao mesmo tempo como significado e como direção: o de apontar para a
solução/dissolução de conflitos e o de destacar a importância da configuração de relações
frente ao indivíduo ou aos interesses individuais. Nessas duas possibilidades de uso está
presente a percepção de que a experiência judicial como um todo tem por finalidade
superar diferenças – de objetivos, de comportamentos – que sejam de alguma forma
ameaçadoras para a gestão de menores, através da produção ou aceitação de tutores que
os controlem. O que a harmonia como categoria usada pelos técnicos da administração
indica, porém, é que tal controle não pode ser produzido de um modo que invoque sua
própria arbitrariedade enquanto parte de expedientes e tecnologias de dominação. Nesse
sentido, a harmonia buscada cumpre o papel de ocultar a dimensão de violência presente

242
em relações de autoridade e, conseqüentemente, de ocultar ou minimizar ações que
explicitem tal violência ou a resistência a ela.
Isto fica bastante claro no caso de Liliana e suas irmãs, em que a menção à
“harmonização” do quadro de relações (“está tudo harmonizado”, na declaração à
assistente social feita por Ana, a filha do meio) indica o encerramento de uma das
dimensões do conflito, a que supõe a mediação dos especialistas do Juizado. Nesse caso,
tal mediação implicou, como visto, divisão de “culpas” entre Liliana e o pai, assegurando
a cada um seu quinhão de responsabilidade e compromisso com o esforço em preservar as
relações para além da ação dos especialistas. Assim, tendo sido as acusações de ambos os
lados relativamente aceitas pelos especialistas – sendo o critério da aceitação a sua
reprodução nos estudos sociais, com o tom de diagnóstico e balanço da situação geral – o
desfecho do processo pode ser compreendido não apenas como encerramento de uma
situação conflituosa, mas como formalização de um compromisso que se espera que os
envolvidos honrem a partir dali. À Liliana caberia, então, uma maior obediência; ao pai, a
contenção frente a um comportamento – a bebida – sendo a violência silenciada e tratada
basicamente como um desdobramento da bebida.
De modo geral, o que está sendo indicado, portanto, é não apenas uma expectativa
ou conjunto de expectativas em torno do comportamento dos envolvidos, mas também
dos especialistas tanto no sentido de como agir, quanto no sentido de quando e de que
forma interromper essa mesma ação. O encerramento do processo cristaliza, desse modo,
também os limites que os próprios especialistas parecem considerar para a legitimidade e
eficácia de suas operações. E, retomando o que foi discutido no capítulo 3, os limites de
sua própria autoridade frente às relações de autoridade já estabelecidas fora dali. Fazer as
relações voltarem à rotina – isto é, reconduzi-las ao quadro ordinário da vida cotidiana,
retirando-as do momento ritual e excepcional do recurso ao judiciário – é, desse modo,
não somente uma conseqüência do andamento dos processos, mas sua finalidade192.

192
Expediente semelhante tem lugar em processos de violência entre pares conjugais, indicando que a
mediação e os compromissos extraídos daí fazem parte tanto das demandas de envolvidos, quanto da
compreensão que os especialistas têm de sua função nesse tipo de caso. Como sacramentou certa vez um dos
juízes encarregado de julgar tais processos, “o casal se encontra em harmonia e paz, vivendo o dia-a-dia como
se nada tivesse ocorrido”, justificando desse modo a sentença de absolvição do acusado. O limite da
intervenção judicial, portanto, mesmo em um caso cuja acusação se constitui e é reconhecida como crime
(agressão, art. 129 do CP), pode ser determinado nem tanto pela ação em si, mas pelo papel que tais

243
Nesse sentido, a harmonia desempenha também o papel de marcar a fronteira
entre a formalização das relações que a ida ao Juizado produz e a sua continuidade sem
essa intervenção. Tomando o processo de Lucas, a criança disputada por guardiães e mãe,
com mútuas acusações de conduta sexual imprópria, como contraponto ao de Liliana e
suas irmãs, o que se percebe é que a ação conciliatória, embora esteja presente sob forma
de aconselhamentos e de tentativas de diminuir os atritos entre as partes em litígio, é
limitada pela própria extensão do conflito. Fundamentalmente, o que está em jogo ali é a
tentativa de uma das partes em eliminar a participação que a outra teria na vida da
criança, cassando seu pátrio poder e transformando a guarda em adoção. Frente à
resistência da mãe e às condições gerais do processo, detalhadas antes, o acordo formal a
que todos chegam delimita claramente o que cabe a cada um, inclusive em termos de
participação em ocasiões especiais (natais, aniversários etc.). Assim, se neste caso está
presente o esforço em reverter o conflito, transformando-o em uma
maternidade/paternidade formalmente partilhada, isto não se faz sob a égide sintética da
harmonia, ou seja, o acordo formalizado em detalhes minuciosos afigura-se mais como
uma espécie de contrato, no sentido do estabelecimento de cláusulas precisas a serem
cumpridas, do que uma composição de interesses que possa ser deixada sob a gerência
dos próprios envolvidos.
Nesses termos, a formalização das condições cotidianas do acordo cria para os
envolvidos e, conseqüentemente, para o Juizado uma situação que se poderia retratar
como de desconfiança constante. Ao contrário do tom conclusivo do “está tudo
harmonizado” no processo de Liliana e suas irmãs, que lega aos envolvidos o controle
sobre seus comportamentos, encerrando de modo aparentemente mais definitivo a
intervenção dos especialistas, a explicitação das regras de partilha da guarda de Lucas
indica a possibilidade de que, por desejo de qualquer uma das partes, o conflito seja
reaberto no plano judicial, a partir de argumentos sustentados pela ruptura das condições
formais do contrato.
Duas dimensões tutelares podem ser exploradas a partir dessa contraposição. A
primeira delas teria por base a necessidade de vigília permanente ou, como chamei acima,
de desconfiança constante. A dissolução apenas parcial do conflito entre mãe e guardiães,

especialistas assumem como sendo o mais adequado frente a certa configuração de relações. Para esse

244
no caso de Lucas, traduzida pelo fato de nenhuma das partes retratar-se das acusações de
comportamento feitas à outra parte – acusações essas que invocam um dos intoleráveis da
infância, a má conduta sexual, por mais que isso tenha sido operacionalmente esvaziado
ao longo do processo – faz com que a autoridade do Juizado se mantenha virtualmente
presente na relação entre os envolvidos, para além da sentença formal. Ou seja, as regras
estabelecidas ao fim do processo, como condição para efetivação de algum acordo ou,
melhor dizendo, contrato, operam como um dispositivo que permite, pela vigilância
constante entre as próprias partes, que a autoridade do Juizado se sustente no cotidiano da
relação. Não se trata da fantasia de um controle capilar e minucioso a ser operado
diretamente pelos especialistas em relação à grande unidade formada por guardiães e mãe
como responsáveis em diferentes medidas por Lucas, mas da manutenção de uma
vigilância indireta, na qual o Juizado, como terceiro elemento frente a uma relação
conflituosa, se mantém presente não apenas como mediador, mas como autoridade
superior e capaz de ser acionada a qualquer momento 193.
A segunda dimensão, por sua vez, relaciona-se não com esse suposto de vigilância
constante, ainda que indireta, mas com a plasticidade da relação entre os especialistas e os
responsáveis. A adoção do discurso emblemático do acordo, feita por um dos
participantes do conflito na família de Liliana, reafirma como que uma confiança mútua:
os especialistas do Juizado encerram a sua intervenção, coisa que se recusaram a fazer em
um primeiro momento, quando o pai procurava definir rapidamente o processo, a partir de
um acerto de múltiplos compromissos entre os envolvidos. A combinação entre
formalidade e informalidade nesse acordo faz com que a relação tutelar que legalmente
está sendo colocada em jogo – do pai com as filhas, notadamente as filhas mais novas –
seja construída como um circuito amplo e variado de ações tutelares parciais. Assim, a
obediência de Liliana consagraria a legitimidade da autoridade do pai sobre ela, enquanto
o constrangimento do pai frente às indagações da assistente social sobre a bebida
desempenharia o papel de avivar o compromisso moral suposto nessa relação

exemplo e outros semelhantes, ver Carrara, Vianna e Enne, 2002: 92)


193
Tal relação evoca as análises de Simmel (1964) sobre a tríade e, em especial, a apropriação que delas faz
Lima ao pensar o poder tutelar quando remetido à interação triangular. Assim, “mediar sem tomar partido em
disputas, acumulando poder desta maneira; arbitrá-las decidindo-se por uma das partes, beneficiar-se do
próprio conflito (...)” criariam “possibilidades interativas” para o exercício dessa modalidade de poder (Lima,
1995: 55)

245
simultaneamente de autoridade e formação (e, nesse sentido, de alguma exemplaridade a
ser exibida pelo tutor).
Por fim, as relações envolvendo responsabilidades evocadas e reconhecidas por
Liliana com as irmãs menores, ou de todas e do pai com dª Margarida, pela gratidão,
funcionam como garantia da eficácia dessa cadeia tutelar, na medida em que esta se firma
a partir de múltiplos compromissos. Ao contrário da explicitação de regras e direitos –
como os de visita da mãe de Lucas – o que a intervenção do Juizado produz é a confiança
na capacidade dessas múltiplas relações se regularem no plano das próprias unidades
domésticas. Harmonizar relações significa, nesse caso, des-legalizar (no sentido de retirar
da alçada jurídica) em certa medida o conflito, deixando que as partes voltem a resolvê-lo
no seu dia-a-dia, mas não tem o sentido da sua sacralização, através da necessidade de
definir direitos e a forma exata – ou o tempo preciso – de cuidados a serem despendidos
por cada um.
Em ambas as dimensões está presente o que seria, nos termos de Foucault, uma
das atribuições do poder pastoral: a capacidade de fazer com que os indivíduos se
responsabilizem uns pelos outros, distribuindo-se de modo variado a forma e a
intensidade da intervenção direta, em última instância, do tutor – o Estado, como o pastor
do rebanho como um todo 194. Assim, em ambos os casos, a resolução dos conflitos aponta
para a construção de acordos, no sentido de garantir como a menoridade continuará a ser
gerida, buscando-se evitar o aprofundamento desses mesmos conflitos. Cabe lembrar que
nos dois casos está presente como possibilidade a ruptura de certas relações: no de Lucas,
a ruptura com a mãe, caso as acusações fossem comprovadas e, não o sendo, com os
guardiães, frente à resistência da mãe em transformar a guarda em adoção; ou no caso das
três irmãs, a sua ruptura com o pai, sem que dª Margarida tivesse como garantir seu
sustento, sua “criação”. O que está no horizonte, portanto, é um problema administrativo,
dado pela necessidade de assegurar que os impasses apresentados no início dos processos

194
Dissecando o sentido do termo polícia nos séculos XVII e XVIII, Foucault atribui a ele também a
propriedade de “desenvolver as relações de trabalho e comércio entre os homens, bem como a assistência e o
auxílio mútuo. (...) A polícia deve garantir a ‘comunicação’ entre os homens, no sentido amplo da palavra. Do
contrário, os homens não teriam condição de viver; ou suas vidas seriam precárias, assoladas pela pobreza e
perpetuamente ameaçadas. (...) Enquanto forma de intervenção racional exercendo o poder político sobre os
homens, o papel da polícia é fornecer-lhes um pequeno suplemento de vida; ao fazê-lo, ela fornece ao Estado
um pequeno suplemento de força. Isto é feito através da ‘comunicação’, ou seja, das atividades comuns dos
indivíduos (trabalho, produção, troca, acomodações)”. (Foucault, 1990: 94)

246
não resultem em menoridades mal-geridas, sobretudo por limitações em termos do que
seriam os bens de cuidado valorizados.
A mediação, como ação que envolve ouvir, reconhecer e esvaziar o potencial
conflituoso das acusações apresentadas, buscando soluções que apontem para algum tipo
de consenso, independente do grau de formalização de tal consenso, cumpre, desse modo,
uma função administrativa elementar. Assim, chegar a uma solução, à harmonia, é
eliminar dissonâncias perigosas, construindo a consonância do melhor interesse dos
menores – vide a fala de Liliana sobre as irmãs ou o aconselhamento das assistentes
sociais à mãe de Lucas, no sentido de não reproduzir para o menino suas desconfianças –
como garantia de que as condições de melhor gestão possível da menoridade se realizem.
Nesses termos, implica valorizar sempre mais o conjunto de relações a ser consagrado
através dos compromissos firmados do que o que poderiam ser as demandas individuais.
Cabe, porém, lembrar que, nessas situações, o poder da mediação só existe na
medida em que ela se realiza como ação tutelar dos especialistas sobre os envolvidos, ou
seja, pelo poder sempre virtualmente presente de punição através da cassação da
autoridade, algo que nenhuma das partes isoladamente pode realizar sobre a outra 195. Dessa
forma, a finalização do conflito é condição para o estabelecimento desse circuito tutelar de
autoridades delegadas e reconhecidas, que não desfaz a autoridade do Estado, representada

195
Analisando um outro conjunto de situações de mediação e resolução de conflitos, como o que se dá no
interior de fábricas e unidades produtivas em geral, Christopher Lasch busca discutir o que ele define como
um processo de “crise da autoridade” ao longo do século XX – e que talvez pudesse ser melhor caracterizado
como diferentes formas de exercício de relações de autoridade. Usando especificamente um exemplo retirado
da “sociologia industrial”, Lasch destaca o papel da escuta de queixas pelas autoridades e seus intermediários:
“a administração de pessoal trata a queixa como uma espécie de doença, curável através da intervenção
terapêutica. As autoridades já não fazem apelo a padrões objetivos de certo e errado, que poderiam revestir o
poder de uma maior moralidade, mas também poderiam justificar a resistência a ele. Ao invés de tentar
explicar ou justificar o poder, elas buscam apenas o reconhecimento de sua existência. O poder já não carece
de qualquer justificativa além do fato de seu exercício. A nova forma de controle social evita os confrontos
diretos entre as autoridades e aqueles a quem elas procuram impor sua vontade” (Lasch, 1991: 234). Em outro
momento do texto, discutindo a importância que a família continuaria tendo para a ordem social, mesmo em
meio a essa suposta “crise de autoridade”, o autor chama a atenção para o fato de que a relativa flexibilidade
na observância a certas regras não exclui a punição como horizonte: “por um lado, as autoridades convidam
ao desprezo porque permitem tantas violações às suas próprias regras; por outro lado, elas ameaçam cobrar
uma terrível vingança em algum momento indeterminado do futuro. À medida que a postergação da
gratificação perde a força de controle social, a postergação do castigo assume o seu lugar” (idem: 239).
Embora não concorde com a percepção de uma “crise de autoridade”, como coloquei acima, creio que essas
considerações ajudam a pensar o que está sendo discutido, ou seja, o fato de que as diferentes formas de
negociação, mediação e construção de acordos não só se fazem no sentido de afirmar certas autoridades – e,
no quadro que está sendo abordado aqui, certas relações tutelares – como não desmentem a relação crucial de
autoridade do Estado, tutor último da menoridade.

247
pelo poder de interpretação (as narrativas reelaboradas nos estudos sociais) e de decisão (a
sentença), mas que a recobre de um intento aconselhador e conciliador196. O sentido
administrativo do esforço envolvido em tais mediações, por sua vez, é dado não apenas
pelo presente, ou seja, pela necessidade de sanar dificuldades de gestão que se apresentam
como motivadoras da busca ao Juizado, mas também pela obrigação de criar possibilidades
futuras. Desse modo, a harmonia buscada, quer esteja representada pelo uso da própria
categoria ou por outras que fazem parte do mesmo universo semântico (como os conflitos
“superados”, ou o “está tudo bem agora” ou ainda, com sentido positivo, o “[alguém] está
mudado” etc.), indica a necessidade de firmar acordos com probabilidade de se manterem
estáveis. As cobranças morais e materiais feitas têm, portanto, também o sentido de
expedientes não apenas de superação, mas de compromisso.
É possível pensar, então, que a experiência judicial, ao conduzir a releituras acerca
do passado, obriga as narrativas produzidas a partir dos depoimentos coletados em
diferentes momentos – ao longo do tempo próprio à experiência judicial, portanto – a
ganhar a forma de compromissos também para o futuro. Os expedientes de controle
moral, como o constrangimento do pai de Liliana ao ser questionado sobre a bebida, ou
dos pais de Maíra ao serem inquiridos tanto por sua ação no passado – “dar” a filha em
troca de material de construção – quanto do futuro – provarem ter condições de sustentá-
la quando e para que saísse das instituições estatais – desempenham também o papel de
indicadores dos compromissos necessários à transmissão ou retificação da autoridade.
Creio que, dentre os casos detalhados, o processo que melhor expressa a afirmação
do compromisso para o futuro como algo que exige a reelaboração do passado é o de
Murilo e Diogo, os meninos cuja mãe foi morta pelo pai. A passagem da guarda da
família materna para a paterna, como condição para que o pai reassumisse sua autoridade
sobre os filhos – seus “direitos” – é feita, como dito antes, orientada ao mesmo tempo
pela imagem da recuperação futura do pai e pela necessidade de que um dos efeitos do
crime não se perpetuasse com a cisão entre as famílias materna e paterna. As acusações
feitas por ambos os lados de obstruírem os contatos, de impedirem a outra parte de ver as
crianças, ou ainda de as influenciarem negativamente, materializam a perspectiva dessa
ruptura radical de uma unidade mais ampla, cujo centro são as duas crianças. Uma das

196
Novamente cabe lembrar aqui o papel de “governanta” assumido pelos tutores em certas situações, como

248
falas finais do processo, feita pela família paterna, destaca o oposto disso tanto pelas
imagens de participação intensa do pai na vida dos filhos – explicando-lhes os deveres da
escola, por exemplo – quanto pela afirmação de que a tia-avó dos meninos os visitaria e
“ajudaria” com algumas das despesas de sua criação.
A construção do acordo bem-sucedido, vitorioso frente a uma situação de conflito
radical, envolve, desse modo, a produção de um certo perdão ao ato do pai –
materializado na distância entre o desejo de vingança, enunciado por um dos meninos no
começo do processo, e sua declaração de que o pai “é outro homem”, ao seu final – e a
concretização de condições de colaboração, de cuidado na gestão da menoridade das
crianças. Nesse sentido, a formulação de Hannah Arendt sobre a face comum que o
perdão e o compromisso teriam, na medida em que ambos são expedientes da ação dos
homens para fazer frente aos fantasmas da irreversibilidade e da imprevisibilidade da
vida, encontra um sentido pleno 197. A ação sobre o irreversível – o assassinato da mãe –
só pode se dar sob a forma de algum tipo de perdão, consolidando compromissos que
protejam e combatam o imprevisível daí advindo.
Nesse caso, portanto, a imprevisibilidade pode ser tomada não apenas como
parte da condição humana, como quer Arendt, mas mais especificamente como temor a
ser combatido pela administração. A atuação dos especialistas para ajudar a consolidar
os vários níveis ou relações que tornam os indivíduos interdependentes frente ao
compromisso com a infância dos dois meninos, expresso em diferentes tipos de cuidado
– a explicação dos deveres escolares, o sustento material, a rede familiar paterna –
desponta, desse modo, como tarefa administrativa. Trata-se, pois, de construir a
previsibilidade possível, silenciando desejos de vingança e conduzindo ao perdão que

destaca Paine (1977)


197
Em “A Condição Humana”, Hannah Arendt argumenta que “o recurso contra a irreversibilidade e a
imprevisibilidade do processo que ela desencadeia não provém de outra faculdade possivelmente superior,
mas é uma das potencialidades da própria ação. A única solução possível para o problema da irreversibilidade
– a impossibilidade de se desfazer o que se fez, embora não se soubesse nem se pudesse saber o que fazia – é
a faculdade de perdoar. A solução para o problema da imprevisibilidade, da caótica incerteza do futuro, está
contida na faculdade de prometer e cumprir promessas” (Arendt, 1981: 248) “Talvez o argumento mais
plausível de que perdoar e agir são tão intimamente ligados quanto destruir e fazer resulte daquele aspecto do
perdão no qual a ação de desfazer o que foi feito parece ter o mesmo caráter revelador que o próprio feito. O
perdão e a relação que ele estabelece constituem sempre assunto eminentemente pessoal (embora não
necessariamente individual e privado), no qual o que foi feito é perdoado em consideração a quem o fez”
(idem: 253)

249
permite reatar laços. Por outro lado, como a autora destaca, o ato de perdoar não diz
respeito apenas ao que foi feito, mas sobretudo a quem o fez. Frente à insistência do pai
em não permitir que os filhos ficassem exclusivamente com a família materna, o
espectro de conflito e desordem foi ampliado, sendo necessário intervir não apenas
sobre a leitura do ato em si – tanto que o assassinato é sempre tratado como “tragédia”,
ato sem ator – mas sobre a relação com o próprio pai, através da passagem da guarda
para sua parentela direta.
Cabe, por fim, lembrar que se essa passagem não é imposta pelos especialistas,
também não deixa de ser valorizada, na medida em que a cessão da família materna é
moralmente positivada como “desprendimento”, elemento que já destaquei em outro
momento. Novamente, portanto, menos como autoridades que obrigam e mais como
autoridades que aconselham, assistentes sociais produzem uma solução administrativa
que passa necessariamente pelo fortalecimento de certas relações capazes de garantir, por
um lado, a restauração da autoridade legal do pai – o pátrio poder a lhe ser restituído na
sua saída da prisão – e, por outro, de fixação dos meninos em uma casa que proteja e
garanta a permanência efetiva dessa autoridade – a casa paterna.
A importância da demarcação de casas, elemento já destacado antes e que será
mais trabalhado no próximo item, aparece também nos usos operacionais da adaptação.
Presente em praticamente todos os casos em que há contraposição dos interesses de mães
e guardiães, sejam estes parte da rede de parentesco ou não, a adaptação remete, em
primeiro lugar, ao tempo da gestão e, sobretudo em casos de conflito (mas não só), à
contraposição entre o sangue e o cuidado. Argumentar no sentido da adaptação de uma
criança é argumentar pela permanência de uma configuração de relações em lugar de
outra, o que pode ser compreendido como uma avaliação da maior probabilidade de
sucesso desta configuração em gerir a menoridade.
É preciso ter claro, então, que a avaliação produzida nos processos sobre uma
criança – sua estabilidade ou instabilidade emocional, suas reações, o modo como
expressa seus desejos – está sempre, por princípio, remetida à eficácia da gerência feita
sobre ela, ou ao modo como se acha ligada às relações que constituem uma casa. Um
bom indicativo disto é a importância dada ao que chamarei aqui de parentesco nominal,
ou seja, a quem são dirigidos termos que indicam o valor de certas relações: quem é

250
chamado de pai, de mãe, de irmão ou irmã, de avó etc. 198 O uso desses termos é
freqüentemente registrado e especialmente destacado quando há questionamento sobre o
papel dos guardiães, demonstrando que são tomados como parâmetros que permitem
avaliar e representar a profundidade dos laços criados. A leitura individualizante dessas
crianças, fundamentada nos discursos de inspiração psi, encontra-se, desse modo,
balizada por sua compreensão como produto de um conjunto de relações no qual ocupam
uma posição específica, a de objetos de formação – a posição de menor, portanto, em
sentido amplo.
Argumentar a partir do critério da adaptação é argumentar em favor da
manutenção da rede de cuidados e gerência já estabelecida, confiando que, nos casos em
que há uso regular de termos denotando parentesco, esteja embutida a estabilidade
também de certas relações de autoridade. O parentesco nominal e seu registro cumprem,
desse modo, o papel que empresta às relações fundadas no cuidado a naturalidade suposta
no sangue. Sua eficácia tutelar, por sua vez, baseia-se na possibilidade de perpetuação de
tais relações (mesmo que como projeção) e na complexidade das configurações
estabelecidas, uma vez que dificilmente há o uso de categorias desse parentesco nominal
apenas para as pessoas que têm diretamente a guarda da criança. Onde há uma mãe,
freqüentemente há também avós, primos, tios etc., invocando tecidos mais complexos de
relações de cuidado, identidade e, idealmente, constância.
Por outro lado, o tempo de gestão tem papel crucial na compreensão dessa
constância ou probabilidade de constância. Representa tanto o testemunho dos
investimentos já feitos, algo que por seu peso moral não pode ser desconhecido, quanto
de certo modo o grau de confiabilidade a ser atribuído àquela configuração de relações
para guardar a criança. Nesse sentido, a compreensão da relação tutelar unindo
administração e unidades domésticas, ao invés de antagonizá-las, é fundamental para
pensar o poder do tempo – traduzido em adaptação – como critério de arbitragem entre

198
Radcliffe-Brown, analisando o que chama de “parentesco por brincadeira”, destaca a importância de se
atentar para o uso das terminologias de parentesco como indicativos das relações sociais estabelecidas por um
dado grupo. Assim, a classificação de parentes corresponderia a uma certa “ficção legal” (Radcliffe-Brown,
1973: 126) capaz de expressar formas diferenciadas de respeito. A seleção de termos orientaria também o tipo
de comportamento esperado frente a diferentes parentes, inclusive com relação àqueles com os quais a relação
jocosa é quase que obrigatória. No que diz respeito especificamente ao uso dos termos pelas crianças,
Radcliffe-Brown destaca que este se pautaria em muito pela divisão de funções consideradas necessárias à sua

251
diferentes litigantes, isto é, entre diferentes opções de alocação de menores. Como tal
tempo é tomado também como a base sobre a qual se inscreve a possibilidade de
constituição dos indivíduos, o que faz da menoridade sempre um perigo potencial, a sua
medição traduz a eventualidade de afastamento desse perigo.
Há, porém, um tipo de situação em que tempo e adaptação parecem coincidir de
forma peculiar, sublinhando o fantasma do perigo a ser afastado através do desligamento da
criança de uma configuração em si mesma concebida como especialmente ameaçadora.
Trata-se dos casos que evocam o que chamei no capítulo 4 de cena da salvação, ou seja,
situações em que a perspectiva de um futuro especialmente perigoso – pelo espectro de
morte da própria criança e também pelo temor do adulto em que poderia se tornar –
parecem ter sido sustadas no instante do resgate. O caso de Cláudia, mais uma vez, deixa
isso nítido. O uso da adaptação aqui não se remete necessariamente ao tempo em que
estaria com a guardiã, muito embora esse critério também esteja presente, mas sobretudo
à comparação com a situação anterior. Estar adaptada indica, assim, o sucesso do resgate
como um todo, de forma completa, no sentido da garantia de que vá permanecer com a
guardiã e mesmo ser adotada por ela, reinventando o sangue. Torna-se possível, para os
especialistas mediarem a partir daí a construção de uma nova relação, envolvendo a
menina e suas mães.
A adaptação pode ser compreendida de forma especialmente dramática nesse
caso, mas também em outros, a partir da proposta de Tilly para o termo, ou seja, como
elaboração de rotinas diárias que podem envolver ajuda mútua e que se organizam com
base em estruturas categóricas desiguais199. Assim, o aconselhamento, a condução no
sentido de favorecer relações para as quais o tempo funcione como testemunho de
estabilidades idealizadas, ou mesmo a colaboração para que uma nova configuração de
relações se estabeleça ou solidifique – baseada na ajuda mútua entre mães ou pais e
guardiães ou entre famílias maternas e paternas – envolvem a combinação entre

criação, cabendo a lados maternos ou paternos, bem como a parentes em diferentes gerações, tratamentos
diferenciados (idem: 124)
199
Discutindo os mecanismos que possibilitariam a produção de desigualdades duráveis, Charles Tilly
destaca, entre outros, a emulação e a adaptação. Sua definição para esses dois mecanismos é a seguinte: “two
further mechanisms cement such arrengementes in place: emulation, the copying of established organizational
models and/or the transplanting of existing social relations from one setting to another; and adaptation, the
elaboration of daily routines such as mutual aid, political influence, courtship, and information gathering on

252
diferentes categorias de desigualdade. Retomando o caso de Cláudia e lembrando outros
que fazem parte da cena da salvação, como o de Samanta, a menina entregue no trem, o
que se pode perceber é que o tempo de cuidado, o parentesco nominal e quaisquer
critérios mais que componham a adaptação também se remetem a outras categorias de
desigualdade: o perigo da doença ou da morte, da violência, do abuso sexual, das
condições de moradia, higiene, escolarização. Referem-se, nesse sentido, como quer
Tilly, a outros pares ou oposições centradas em desigualdades variadas que se condensam
na comparação entre as duas possibilidades de gestão no horizonte, mesmo que uma delas
apareça apenas como fantasmagoria.
Por fim, a adaptação aparece também em um contexto específico: o das crianças
retiradas de instituições. Nesses casos, as dificuldades de adaptação tendem a ser lidas
em um primeiro momento como tributárias da experiência marcante do internamento.
Mesmo quando o fracasso da inclusão é repartido com os gestores, tendendo inclusive, na
medida em que a “devolução” se aproxima, a ser creditado sobretudo à inabilidade dos
guardiães – afinal, aos maiores também cabe a maior responsabilidade, ônus e par
complementar da autoridade – o peso da desigualdade entre crianças institucionalizadas e
não-institucionalizadas está presente 200. É possível, então, pensar a inadaptação como
parte de uma compreensão estigmatizada mais geral dessas crianças, no sentido da
reatualização constante de uma situação anterior – compreendida como sua formadora
enquanto um “tipo” de indivíduo – que possui poder explicativo para novas dificuldades
que se apresentem 201. A percepção de que estaria em jogo a gerência de um tipo especial
de menoridade, a que carrega a marca da institucionalização, faz com que o fracasso
dessa empreitada nunca seja exclusivamente do tutor, mas também do tutelado. De certa
forma, é também a preocupação em minimizar os danos, tomados como inevitáveis em
processos de institucionalização, que faz com se busquem essas disposições,

the basis of categorical unequal structures. Explotation and opportunity hoarding favor the installation of
categorical inequality, while emulation and adaptation generalize its influence” (Tilly, 1998: 10)
200
Esta questão aparece, de formas diferentes, nos casos de Ana e Elisa; de Marcela, devolvida à instituição
de onde havia sido retirada, e de Luciano, uma criança que é adotada por um casal de suíços e, frente a
impasses e problemas entre o casal e ele, acaba saindo de lá e sendo adotado por outro caso. O caso de Ana e
Elisa foi detalhado no capítulo 2 e os resumos dos outros dois casos podem ser vistos no quadro em anexo.
201
Goffman chama a atenção para o fato de que um dos elementos das relações de estigma seria a composição
de um tipo de “biografia” sobre o indivíduo estigmatizado. Dependendo da visibilidade de seu estigma e das
informações sobre ele disponíveis ou acessíveis a outras pessoas, um número maior de acontecimentos tende

253
consolidando a complementaridade entre unidades domésticas e administração como
arranjo tutelar possível. Este tipo de situação será melhor explorado no próximo item,
sobre a busca de casas.

A busca de casas: a parentela

A compreensão da ação dos especialistas como uma forma de ação tutelar


depende, como coloquei em diferentes momentos, da percepção de uma das tarefas
administrativas, o encontro de casas onde fixar menores, como sendo central à
transmissão e composição de relações de autoridade sobre a menoridade. A pacificação
empreendida em diferentes níveis – como resolução de conflitos entre possíveis
guardiães, mães e pais ou, em sentido mais aberto, como operação sobre os perigos
virtuais da menoridade mal-gerida – só encontra seu sentido pleno com o esforço de
localização de crianças e jovens. Nesses termos, a construção das relações de guarda pode
ser entendida, sobretudo, como ação de tornar imersos em relações e imobilizados em
lugares aqueles que não devem estar nem soltos, desgarrados, nem relegados ao controle
direto e cotidiano da administração.
Para pensar sobre a centralidade desse objetivo é preciso, porém, enunciar e
discutir mais detalhadamente as alternativas que se apresentam – ou são criadas – para
tanto, ou seja, de que tipos de opção dispõem a administração e seus especialistas para
transformar um expediente legal de responsabilidade, a guarda ou a adoção, em um
expediente de imobilização. Onde encontrar casas que, pelo menos em um momento
inicial, pareçam ser alternativas viáveis para evitar duas possibilidades sombrias: a rua ou
a institucionalização? E, para além disso, como confiar na manutenção de relações de
autoridade que sejam capazes de efetivamente garantir a fixação desejada, de forma que a
complementaridade tutelar entre o Estado soberano e as unidades domésticas gestoras não
fracasse em seu objetivo administrativo?

a ser lido como decorrência desse estigma, fazendo com que ele se torne uma espécie de recurso explicativo
geral da trajetória desse indivíduo (Goffman, 1988: 77-84)

254
Começarei discutindo o que parece ser o recurso mais naturalizável e no qual o
papel decisório da administração é operacionalmente mais “apagado”, na medida em que
pode ser representado tanto pelos especialistas, quanto pelos demandantes como o mais
próximo da função burocrática de reconhecer acordos ou arranjos sancionados/sancionáveis
entre os envolvidos: o recurso à parentela202. Este freqüentemente, como também já
destaquei em outro momento, assume a aparência de formalização e promoção (no
sentido de incremento em termos de autoridade legalmente reconhecida) dos expedientes
de circulação de crianças discutidos por Fonseca (1995). O que procurarei destacar agora
é o quanto a indagação pela disponibilidade da parentela em comprometer-se com os
cuidados necessários à criação de uma criança articula níveis diferenciados e complexos
de autoridade e, nesse sentido, desenha circuitos tutelares que vão além não só da relação
entre responsáveis legais e menores, mas também entre a administração e esses
responsáveis.
O questionamento à disponibilidade de parentes outros, além dos que ocuparão o
posto legal de responsáveis, aparece em situações nas quais há dúvidas sobre a
capacidade desses responsáveis em garantirem praticamente a gestão das crianças. Como
exemplos dessas situações, é possível lembrar as perguntas feitas à Patrícia, mãe de
Anderson, bem como à sua própria mãe, avó do menino, ou ainda as investigações sobre
ambas as avós de Leonardo, o bebê deixado pela mãe com um casal na rodoviária 203. No
primeiro caso, frente às negativas do companheiro de Patrícia em assumir o filho que ela
desejava reaver, concordando que a melhor opção de destino para a criança era
permanecer com os guardiães, os assistentes sociais passam a indagar dela sobre o apoio
que teria de sua própria parentela. Como suas respostas também são negativas nesse
sentido, sua posição fica ainda mais enfraquecida do que já estava pelas condições gerais
em que a guarda da criança tinha sido passada ao casal. Como chamei a atenção na
exposição do caso, o registro de que a mãe de Patrícia estaria ela própria com
dificuldades em garantir outro filho menor consigo, pensando em interná-lo em

202
Vale lembrar que esse recurso, quando movido pelos especialistas, encontra-se em boa medida de acordo
com expectativas também dos envolvidos, no sentido das reciprocidades concernentes às relações de
parentesco. Essas obedeceriam, como coloca Pitt-Rivers (1971), a prescrições mais rígidas do que outros tipos
de relação, como as de amizade. A importância dos grupos parentais na organização de expedientes variados
de cooperação é também assinalada por Wolf (1966) e Bourdieu (1962 e 1979), entre muitos outros.

255
instituições estatais, a rede de apoio e responsabilidades partilhadas que se poderia
estabelecer fica ainda mais esgarçada.
O caso de Leonardo apresenta pontos semelhantes, na medida não apenas em que
está presente esse esforço dos especialistas em mapear as redes de relação envolvendo os
pais, mas em que há a combinação entre diferentes elementos de comparação entre pais e
guardiães – todos negativos para os pais: a avaliação moral do seu comportamento, os
bens de cuidado a serem oferecidos, a fixação de uns e outros, ou seja, a possibilidade de
localização tanto dos responsáveis possíveis, quanto da criança a ficar sob a sua
autoridade. Como se verá, pesa também sobre os pais de Leonardo, especialmente sobre a
mãe, o que poderíamos chamar aqui do ônus da mobilidade descontrolada – estar “ora em
um lugar, ora em outro”, poder “sumir sem deixar rastros” – acusação que também foi
feita em certo momento à Patrícia, mãe de Anderson e que desponta em outros processos.
Pais que parecem deslocar-se sem que haja possibilidade de identificar rapidamente seu
paradeiro traem, dessa forma, um compromisso fundamental da relação entre
administração e unidades domésticas: o de saber onde estão, como condição para supor o
conhecimento sobre o destino e, principalmente, a fixação dos menores sob sua
responsabilidade.
Para que isso fique mais claro, creio ser importante retomar um pouco algumas
falas registradas nesse processo. Como o ele se organiza de trás para a frente – com o
processo pela adoção de Leonardo tendo início em dezembro de 1989 e a ele sendo
agregado, como apenso, outro anterior pela sua guarda, de 1985 – começo por uma
imagem que tem lugar na entrevista seguinte ao pedido de adoção, a de que os pais “se
encontram em paradeiro totalmente ignorado” pelos guardiães. Agregam a essa
informação outra, a de que teriam ido a Cabo Frio, cidade onde os pais do menino
moravam, à sua procura, lá sendo informados por um ex-vizinho que “eles sumiram”.
Segundo o mesmo depoimento indireto, ou seja, o do ex-vizinho recontado pelos
guardiães, “a mãe de Leonardo já se encontrava grávida novamente e a filha tida após o
nascimento de Leonardo tinha falecido”. Fica claro, portanto, que o deslocamento físico,
o “sumiço” não é um critério de acusação e avaliação isolado, mas se combina a
representações mais amplas sobre o comportamento moral do casal, pela nova gravidez e

203
O papel dos avôs e avós têm relevância em vários processos, seja como guardiães, seja prestando

256
incapacidade em manter da forma esperada os próprios filhos, tendo em vista a morte de
uma das crianças.
Esse quadro só fica mais evidente, porém, na medida em que o processo como um
todo carrega a marca de uma memória burocrática, a partir do momento em que ficam
arquivadas, passíveis de recuperação, outras informações sobre a trajetória propriamente
administrativa – na condição de objetos de administração – dos envolvidos no processo.
As negociações e decisões que levaram à oficialização da guarda de Leonardo, base para
o posterior pedido de adoção, ao serem resgatadas como memória burocrática, compõem
um quadro mais detalhado da associação entre o deslocamento físico e a pouca
confiabilidade moral/administrativa dos pais.
Como foi exposto no capítulo 3 e pode ser visto de forma sintética no quadro em
anexo a esta tese, Leonardo foi passado aos guardiães pela mãe quando tinha um mês de
idade, na rodoviária do Rio de Janeiro, ocasião em que Silviano, o futuro guardião, deu a
Ana Paula, a mãe, o dinheiro da passagem para retornar a Cabo Frio. A mãe declarou
pouco tempo depois estar arrependida de ter “dado” o filho, desejando reverter a situação.
Ela contava então com 19 anos e Edmilson, o pai da criança, com 21 anos. Na sua
primeira entrevista com a assistente social, Ana Paula declarou que pretendia criar o filho
com a ajuda da mãe, dizendo ainda que “sua mãe tem condições de criar seu filho e que
nunca lhe faltou nada em sua companhia”. A mãe de Ana Paula, por sua vez, não
compareceu nessa ocasião ao Juizado por estar cuidando em Cabo Frio, segundo a filha,
dos outros filhos que estariam doentes.
Na mesma ocasião, foi entrevistado Edmilson, designado no estudo social como
“suposto pai do menor”, em razão de sua declaração expressando dúvidas quanto a ser pai
realmente de Leonardo, “pois a mãe do menor, embora vivendo em sua companhia,
gostava muito de freqüentar bailes, e ele não tem certeza se ela teria tido um caso
amoroso”. Quanto às possibilidades de Ana Paula criar Leonardo, Edmilson disse,
segundo a assistente social, que ela “embora goste do menor e o trate bem, não tem
condições de ficar com ele, tendo em vista que sua própria mãe se recusa a fazê-lo”.
Como prova do que estaria dizendo, Edmilson apresentou à assistente social uma carta
que teria sido escrita para ele por Ana Paula em que ela dizia que a mãe não a queria com

depoimentos, como no caso acima. Sobre as relações entre avôs, pais e netos, ver Barros 1987.

257
o filho em sua casa. Por fim, quanto à sua ocupação, Edmilson declarou “fazer biscates na
venda de refrigerantes”.
Em outra ocasião, as duas avós foram entrevistadas, sendo a avó paterna registrada
como “suposta avó”, mantendo-se a desconfiança expressa por Edmilson sobre a
paternidade de Leonardo. Selma, a avó paterna, com 50 anos na ocasião, declarou que em
sua opinião a criança deveria ficar com o casal que postulava a guarda definitiva, uma vez
que nem ela, nem a avó materna teriam condições de criá-lo. Além disso, classificou Ana
Paula como “uma pessoa sem responsabilidade”, que andava “em companhia de
prostitutas”, razão pela qual teria sido proibida de freqüentar a casa de sua própria mãe.
Essa, por sua vez, é desqualificada por ela como sendo também “uma pessoa sem moral,
já tendo tido vários homens” e “dado” muitos filhos, inclusive Ana Paula, que não teria
sido criada por ela e que teria “filho até no estrangeiro” 204. Quanto ao comportamento de
Ana Paula em relação a Leonardo, Selma declarou que certa vez teria encontrado o
menino “rodeado de fezes” e que Ana Paula não teria paciência com ele, “tentando até
estrangulá-lo certa vez”. Por fim, declarou que “em último caso (ou seja, caso Leonardo
não ficasse com o casal que pleiteava a guarda), para ele não vir a ser internado, se
responsabilizaria, mesmo com sacrifício, pois seria obrigada a abandonar o emprego”.
Já Jussara, a avó materna, com 34 anos na ocasião, declarou que gostaria de se
responsabilizar pelo neto, junto com a filha, “para a mesma ter gosto pelo filho”. Quanto
à carta que Ana Paula teria enviado a Edmilson dizendo que a mãe não a aceitava com o
filho em sua casa, declarou que isso não seria verdade e que Ana Paula só teria escrito
isso para pressionar Edmilson a providenciar uma casa para que morassem juntos. Jussara
afirmou ainda na ocasião que, caso Leonardo ficasse com ela e a filha, essa não iria mais
a bailes.
Creio que essa exposição do caso, embora um pouco longa, seja importante para
esclarecer sobre o cruzamento entre diferentes critérios de avaliação e, em especial, sobre
o recurso à parentela como um dado importante no cálculo das viabilidades de gestão de

204
O papel da fofoca, no sentido da informação sobre o comportamento alheio, como indiquei em outro
capítulo, tem sua importância modificada quando transformada em depoimento. Nesse caso, não apenas faz
circular informações sobre o outro, mas as coloca em um contexto de avaliação formal, do qual todos os
envolvidos estão cientes. Para a importância da fofoca na demarcação e controle de redes – que podem ser
também redes de localidade – ver, além de Elias e Scotson (1994), indicados em momento anterior, Epstein
(1969).

258
uma criança. A precariedade das possibilidades da própria mãe, dada principalmente pelo
drama inicial do processo, a “doação” de Leonardo que ela qualifica depois de “um ato de
desespero”, a situação econômica – Ana Paula, assim como Edmilson, declara ter
ocupações ocasionais, “biscates” – e, como dado secundário, a idade, 19 anos, estando
próxima, ela também, do limite da menoridade, fazem com que seja necessário percorrer-
se a rede das relações que poderiam de algum modo garantir a criação de Leonardo, uma
vez que ela se mantém, até certo ponto do processo, afirmando seu desejo de reaver o
filho (e, portanto, de não ceder espontaneamente o pátrio poder, nem como guarda, nem
como adoção). A primeira opção, o pai da criança, obedecendo à primazia legal, mas
também ao valor ideológico do casal como eixo de um modelo de família, não se revela
viável nem economicamente, nem moralmente, já que o mesmo, apesar de ter legalmente
registrado Leonardo como seu filho, afirma desconfiar da paternidade, jogando sobre o
comportamento de Ana Paula o ônus dessa desconfiança.
A opção seguinte é a busca das avós, uma das quais, a avó materna, afirmando
concordar em “assumir a responsabilidade” pelo neto, mas explicando essa concordância
reforçando as suspeitas sobre Ana Paula, já que estaria fazendo isso como uma estratégia
de motivá-la em relação ao próprio filho. E a avó paterna não apenas expressa sua
desaprovação em relação ao comportamento de Ana Paula com Leonardo, indicando o
que seriam dois possíveis intoleráveis – o espectro do abandono pelo pouco cuidado, pela
negligência no cotidiano, e a violência – como a ataca moralmente como pessoa “sem
responsabilidade”, estendendo essas acusações à avó materna.
Vale a pena nos determos um pouco sobre um dos elementos desse ataque: a
prática de “dar” filhos, inclusive Ana Paula, chegando ao limite de “ter filhos até no
estrangeiro”. A fronteira moral, já expressa nas acusações ao comportamento sexual de
Jussara, coincide, nesse ponto, com a fronteira territorial (e igualmente moral), da prática
de “dar” filhos até não ter nenhuma possibilidade de contato com eles. Por fim, o descaso
com a prole evoca ainda o fantasma da hereditariedade dos comportamentos, na medida
em que Ana Paula, ela própria “dada” pela mãe, estaria em situação de “dar” seu filho.
Nesse caso, porém, a atitude é aprovada pela avó paterna, em razão do quadro negativo
que faz de Ana Paula e de suas próprias opções, já que cuidar do neto significaria um

259
“sacrifício” a ser feito apenas para evitar um destino pior: a institucionalização – um ato
abnegado contraposto a atos egoístas ou negligentes, seja de Ana Paula, seja de Jussara.
O depoimento da avó paterna constrói ou reforça, portanto, uma rede de suspeitas
especialmente onerosas em uma situação de avaliação como a que está em jogo no
processo de guarda. Para além da assimetria econômica entre guardiães e pais, e da
incapacidade destes – especialmente da mãe, já que o pai deseja que a cessão da guarda se
realize – em garantir o sustento do filho, há as acusações de cunho moral à mãe e à avó
materna e, por fim, a indicação de que qualquer decisão favorável à manutenção da
criança com a família materna não gozaria de nenhuma confiabilidade. A
“desterritorialização” possível da criança, dramatizada no limite extremo do
“estrangeiro”, mas também nas práticas constantes de “doação” – e aí, “doação” fora da
intermediação e controle do Juizado – permanece como possibilidade205.
O que parece ser decisivo nesse caso, portanto, é a incapacidade de assegurar
relações que fixem a criança, que acenem com a possibilidade de uma gestão
relativamente previsível tanto no que diz respeito aos bens de cuidado a serem
minimamente assegurados, quanto à própria mobilidade, seja essa compreendida como
mobilidade territorial ou de relações. Ao falhar não apenas no que seria o modelo
idealmente mais desejado, no sentido ideológico mesmo, do casal, e a opção seguinte, das
relações parentais como relações ao mesmo tempo de localização e de responsabilização,
ou seja, como unidades domésticas, a insistência da mãe em apegar-se ao pátrio poder
passa a ter cada vez menos possibilidade de sucesso 206. Por fim, retomando a fala dos
guardiães no início do processo de adoção, o seu “sumiço” corrobora essa rede de
suspeitas, cristalizando de vez a opção administrativa pelo casal guardião, então
transformados em pais de Leonardo.

205
A relação entre territorialidade, no sentido da proximidade espacial, da contigüidade, e a maior ou menor
força dos laços de uma rede familiar é destacada por Elizabeth Bott nos seguintes termos: “a conexidade da
rede depende da estabilidade e da continuidade dos relacionamentos. A rede de uma família tornar-se-á de
malha mais frouxa se a família ou os outros membros da rede se distanciarem física ou socialmente, de modo
que o contato seja diminuído e novos relacionamentos sejam estabelecidos” (Bott, 1976: 116)
206
Cabe lembrar aqui as discussões feitas na Introdução sobre os modelos de família e sua relação com
experiências ou posições de classe. O modelo nuclear, ideologicamente dominante, aparece como primeira
tentativa administrativa e como possibilidade oferecida pelo casal de guardiães. O modelo das relações
amplas de parentela, ideologicamente mais subordinado e representativo do que os autores usualmente
classificam de classes trabalhadoras ou classes populares ocupa nesse quadro o lugar de um expediente
secundário.

260
O recurso à parentela pode ser tomado, em termos de estratégias administrativas,
não apenas como reconhecimento e absorção de lógicas e expedientes presentes nas
próprias famílias e redes ou unidades domésticas, mas também como uma espécie de
mecanismo de fiança, através do qual se comprometem de forma indireta atores que não
necessariamente ficam como responsáveis legais pelos menores. Casos em que isso fica
especialmente perceptível são aqueles em que os pais se encontram também em condição
de menoridade legal ou muito próximos a ela, com a idade sendo considerada um fator de
subordinação e dependência 207. Tais casos podem ser pensados como situações de
menoridades sobrepostas, nas quais a decisão sobre a gestão de uma criança tem também
que contemplar uma espécie de escala de responsabilizações, autoridades e garantias de
controle. A relação tutelar ganha, desse modo, matizes ainda mais diversificados do que
os usuais, ou seja, não se caracteriza apenas pela definição de responsáveis para um
menor ou pela complementaridade de autoridades entre administração e unidades
domésticas, mas também pela demarcação daqueles que devem responder pelos
responsáveis e garantir, através de sua autoridade, a autoridade destes sobre a sua criança.
Uma outra possibilidade para pensar a relevância das fianças ancoradas na
parentela, por sua vez, centra-se não nas investigações sobre os pais, mas sobre
guardiães ou adotantes. Mesmo em situações em que tais guardiães são capazes de
comprovar sua autonomia material ou que espelham o modelo ideal do casal como
centro de uma família nuclear, a menção à rede de parentes se faz presente, bem como a
indagação sobre a aceitação destes ao projeto de guarda ou adoção empreendido pelo
casal. Este é o caso da adoção de João Pedro, o bebê encontrado na porta de um
hospital, em que os guardiães e candidatos a pais adotivos fazem questão de afirmar o
quanto a família mais ampla gosta da criança, tendo ele se tornado em pouco tempo “o
xodó” dos parentes. Neste caso, como em vários outros, o parentesco nominal tem
grande importância, sendo devidamente registrado nos estudos sociais o tratamento que
a criança dá a avós e tios adotivos.
Já em situações como a de Matheus, de quatro anos, cuja guarda foi pedida por
uma mulher solteira, Marisa, a indagação sobre como os parentes receberam sua decisão
ocupa papel administrativo claro, na medida em que avaliza as possibilidades de gestão

207
Ver no quadro em anexo o caso de Roberto

261
fora do modelo idealizado do casal. Perguntada diretamente sobre como os parentes viam
sua decisão de assumir a guarda de uma criança, Marisa declarou “ter ouvido a opinião
dos pais, irmãos e tia-avó, os quais estão lhe dando total apoio”. Ao mesmo tempo,
definiu-se como estando “na idade ideal para iniciar a convivência com uma criança” (36
anos) e como tendo “vida própria”, uma vez que, além de emprego estável como
funcionária do Banco do Brasil, morava sozinha em apartamento próprio. Sobre as
possibilidades de tempo para ficar com Matheus, observou não ver maiores problemas
quanto a isso, uma vez que seu turno de trabalho coincidiria com o período em que
Matheus poderia ficar na escola. Seus pais, por sua vez, morariam perto com outra filha,
de 26 anos. Instada a falar do quadro familiar, Marisa, segundo a assistente social, o
descreveu “com muito carinho, citando especialmente a tia-avó como pessoa de sua alta
estima, fazendo questão de ouvi-la a respeito de sua decisão”.
Fica evidente que, neste caso, combinam-se dois planos não-excludentes de
representações sobre as possibilidades de organização familiar: o da relativa auto-
suficiência e independência econômica de Marisa, mesclada a uma certa imagem de
maturidade emocional (a “idade ideal” mencionada por ela), com o da ligação com a rede
familiar como condição para assumir plenamente o projeto de criar uma criança. A rede
familiar não aparece nesse caso, portanto, como quesito de sobrevivência material ou
mesmo de gerência dos cuidados cotidianos – Marisa transfere para a escola parte dessa
tarefa – mas sim de algo mais próximo às representações de estabilidade emocional e de
composição de uma parentela também para Matheus 208. Agregue-se a isso a menção à tia-
avó em termos de respeito – por fazer questão de ouvir sua opinião – e afeto, indicando
um tipo de reconhecimento em certa medida exemplar que poderia vir a ser transmitido
também à criança que pretendia tomar sob a sua guarda. Nesses termos, a avaliação da

208
É possível pensar aqui não no antagonismo entre modelos familiares, mas na sua combinação, com a
trajetória de autonomia de Marisa indicando sua ligação com o que autores têm qualificado como a lógica
individualizante das camadas médias, e as relações com a parentela remetendo à lógica da solidariedade,
normalmente definida como característica de famílias populares (ver, por exemplo, Bilac, 1995: 52-58; Da
Matta, 1987 b: 126-134). Por outro lado, como já chamei a atenção na Introdução, creio ser importante
perceber o quanto a questão das redes familiares ou domésticas não