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FACULDADE DE LETRAS E CIÊNCIAS SOCIAIS

DEPARTAMENTO DE ARQUEOLOGIA E ANTROPOLOGIA


LICENCIATURA EM ANTROPOLOGIA
1º SEMESTRE, 4º ANO, LABORAL

ANTROPOLOGIA DA SAÚDE E DOENÇA

DOCENTE: Carla Braga & Esmeralda Mariano

DISCENTE: Etílio Simião Muchanga

1. Introdução
Nesse trabalho apresento o texto de Caprara e Rodrigues, com o título “A relação assimétrica
Médico-Paciente: Repensando o vínculo terapêutico”. Esse texto analisa a prática dos médicos
inseridos no sistema de medicina moderno desde a sua postura objectivista que toma o corpo e a
mente como elementos separados, as consequências desse olhar positivista sobre o processo de
consulta e tratamento. E, propõe novas estratégias por adoptar na prática dos biomédicos que
passam pela concepção do paciente como um todo composto pela parte física, psíquica e social.
A prática biomédica é caracterizada, segundo os autores, por relações diferenciadas entre o
médico e paciente. Essa diferença localiza-se no nível comunicacional. Deste modo, a discussão
dos autores insere-se na comunicação médico-paciente, visto como elemento estratégico para a
melhoria dos processos de tratamento por, para além do uso de técnicas biomédicos que
asseguram o diagnóstico fisiológico, captar a dimensão psíquica e social do paciente. A
elaboração do artigo em análise seguiu duas metodologias: a revisão de literatura, por um lado, e
o trabalho de campo, por outro.
2. Repensando o vínculo terapêutico segundo Caprara e Rodrigues (2004)
2.1. A lógica dos biomédicos quanto a questão da saúde e doença.
Segundo Caprara e Rodrigues (2004), a racionalidade científica da medicina moderna baseia-se
na mensuração objectiva e quantitativa, e visão dualista da mente-corpo. Daí, o seu enfoque

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centra-se no desenvolvimento de técnicas (bioquímica, farmacologia, imunologia, genética e
mais) que tomam a doença enquanto uma categoria fisiológica, sem considerar a subjectividade
do paciente. Quanto a formação do pessoal dessa área, vê-se maior preocupação em capacitar os
médicos de todo conhecimento necessário para lidar com o corpo do paciente. Assim, os
biomédicos encontram-se, geralmente, desprovidos de habilidades para cuidar do paciente na sua
totalidade, abrangendo o físico e o subjectivo.
Por exemplo, no estudo realizado, do qual os autores participaram, de 1999 a 2001, inserido no
Programa da Família no Estado de Ceará, Brasil, usando métodos qualitativo e quantitativo, os
autores identificam a interferência dos princípios biomédicos na relação médico-paciente. O
elemento principal apresentado, no artigo, que revela a postura objectivista da medicina moderna
diz respeito a comunicação. Nota-se, nas consultas, a falta de esclarecimento do problema do
paciente pelo médico, desconsideração do médico em verificar o nível de compreensão do
paciente quanto a sua situação, desvalorização da interpretação que o paciente elabora sobre sua
situação. Todos esses elementos de exclusão do paciente na construção do seu processo de
tratamento manifestam-se nas consultas de carácter rápido no qual ocorre a relação médico-
paciente e demonstram as assimetrias existentes entre o médico e o paciente. A falta de diálogo
está vinculada a desconsideração biomédica da subjectividade do paciente que, segundo os
autores, é um elemento (a subjectividade) crucial que influencia o processo de tratamento ao
interferir no nível de adesão das recomendações médicas pelo paciente.
2.2. Novas lógicas por considerar na relação médico-paciente.
Segundo Caprara e Rodrigues (2004), o paciente é composto por vários elementos que circulam
na dimensão fisiológica, psíquica e social, do qual pertence. A sua composição desses três
aspectos (fisiológico, psicológico e social) torna composto por um lado objectivo (corpo) e
subjectivo (mente). Esses elementos, diferentemente do advogado pela ciência moderna
positivista, os autores a concebem como elementos interrelacionados entre si. Assim, interferem
um no outro. Penso que aqui vale dizer que a doença é um aspecto social.
Devido a dimensão subjectiva dos pacientes, os autores defendem a humanização da biomedicina
que pressupõe estar consciente e guiar sua prática (refiro-me ao trabalho dos biomédicos)
tomando o paciente no seu estado físico, psicológico e social. A consideração da subjectividade
dos pacientes cria um ambiente de confiança e familiaridade pois a consulta acontece num
ambiente de negociação e concordância no processo da construção da terapia. Esse elemento é

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crucial pois leva a adesão mais acentuada do tratamento, como resultado do facto do paciente
sentir-se dentro do processo e confiante. A consideração da objectividade e subjectividade do
paciente significa, articular o saber biomédico e as representações do paciente (Caprara e
Rodrigues, 2004).
Como forma a habilitar os biomédicos a uma prática comunicativa, os autores sugerem a
introdução desta temática ao longo da formação dos biomédicos, caracterizado pela escolha da
interdisciplinaridade. É nesse processo onde os biomédicos serão capacitados a lidar com os
pacientes enquanto sujeitos conscientes quanto a área da saúde e doença. Compreendendo o
paciente, o enfoque dos biomédicos centra-se no paciente e não no corpo.
3. Conclusão
Como sugeri na introdução, Caprara e Rodrigues (2004), dedicaram este artigo para analisar
alguns aspectos relacionados a relação médico-paciente. Essa análise teve dois. de um lado, os
autores explanam em que consiste a biomedicina e as limitações decorrentes da sua postura
quantitativa e dualista e, de outro lado, os autores sugerem a construção de uma prática
biomédica centrada no paciente, através da melhoria da comunicação entre o médico e paciente.
O elemento sugerido permite que haja partilha de significados entre o médico e paciente que
culmina com maior inserção do paciente no processo do tratamento.
Eu penso que o artigo é crucial por despertar a necessidade de tomar o paciente como um sujeito
consciente, dotado de conhecimentos que interferem nas suas acções que escapam ao sugerido
pelo biomédico. Embora os autores chamem atenção a valorização do paciente enquanto um
sujeito consciente, penso que o artigo coloca exposto, de forma implícita, a superioridade dos
biomédicos. Digo isso porque me parece que o que os autores exigem que os médicos façam nas
consultas é ouvir os pacientes para ganhar sua confiança e familiaridade, sem com isso declarar o
valor/prestígio terapêutico dos seus saberes não oficiais. Acho que é tempo de pensar-se numa
relação médico-paciente no qual deixa-se de lado os jogos de poder e pensa-se no bem-estar dos
envolvidos!
4. Referência bibliográfica
Caprara, A. e J. Rodrigues. 2004. “A relação assimétrica Médico-Paciente: Repensando o
vínculo terapêutico”. Ciência e Saúde Pública 9 (1): 139-146.

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