Você está na página 1de 2

Faculdade de Letras e Ciências Sociais

Departamento de Arqueologia e Antropologia

Licenciatura em antropologia

Método etnográfico

Docente: Fernando Manjate

Discente: Joana Mussica

2º Semestre 3º Ano

Dos Santos, J. R. 1999. “Noções entre Problema Social e Problema Sociológico”. Évora:
CIDEHUS.

Dos Santos (1999) procura esclarecer em primeiro lugar o significado genérico do que é um
problema antes de distinguir o problema social do sociológico. Para o autor, um problema
define-se em duas acepções: dificuldade e questão. A dificuldade refere-se a uma dificuldade
prática, tornada importante e pertinente para quem a sente, pelo sofrimento que causa (ex.:
problema com o carro, etc.); enquanto a questão refere-se as interrogações que a dificuldade
suscita em quem a sente, isto é, o questionamento movido pela tentativa de resolve-lo (qual é o
problema com o carro?). Assim, a dificuldade prática e as questões que ela suscita junto daqueles
que a sentem, são o que a linguagem corrente designa, indistintamente, por problemas.

Desta forma, o autor define por problema social a uma dificuldade e questão que atinge um
grupo ou uma categoria de pessoas e suscita interrogações num círculo alargado, para além do
foro individual. Um problema social enquanto questão e dificuldade é elaborado pelos actores
sociais e progressivamente formalizado com discursos que o legitima e aceite como existente e
pertinente. Assim, o modo de produção de qualquer problema social é analisado enquanto
fenómeno social (porque interessa o conjunto dos actores e das relações sociais que o processo
implica), e enquanto fenómeno discursivo e conceitual (porque nos importam as questões da
forma dos discursos e dos conceitos).

Segundo o autor, o problema de droga constitui um problema social porque causa sofrimento não
apenas pessoal (aos drogados), mas também as pessoas a sua volta (família, amigos) em
diferentes espaços públicos e privados, gerando deste modo, conflitos e agressões pela urgência
da falta, perturbação da polícia, de saúde, prisões, assim como envolve esquemas de corrupção,
nas relações estabelecidas entre produtores, consumidores e legitimadores desta substância como
droga.

Para o autor, o problema social é elaborado a partir do momento em que a dificuldade aparece e
é sentida, e pode levar a implicação de numerosos grupos sociais, com interesses e pontos de
vista divergentes, ideologias diversas e contraditórias. Assim, o problema social pode ser
caracterizado em discursos interpretativos (qual é o problema e em que consiste a dificuldade
sentida); explicativos (as causas da dificuldade); e normativos (tentativa de solucionar).

Segundo o autor, a passagem do problema social ao problema sociológico faz-se pela sua
relevância enquanto fenómeno social, e é discutido em torno das categorias científicas. Trata-se
de um problema elaborado e tratado com os meios próprios e eventualmente resolvido no âmbito
da disciplina específica com metodologias adaptadas ou concebidas (operacionalização dos
conceitos, teorias e métodos científicos, em função do seu processo histórico da sua formação).

Em suma, a caracterização de qualquer problema ao problema social, é necessariamente


começar-se pela percepção de uma dificuldade, cuja natureza pode ser apenas vagamente
delineada. Enquanto o problema sociológico caracteriza-se pela intervenção da comunidade
científica em debate, análise das causas formulando teorias metodológicas de modo a
desenvolver um raciocínio coerente para explicar o facto e resolver o problema social.