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Resumo Texto 4 – Wisnik parte 

WISNIK, José Miguel (2008). Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo,


Companhia das Letras. Parte 2: A quadratura do circo, pp. 11-41 (T4)

A segunda parte do livro, “A quadratura do circo: a invenção do futebol”, é “uma


consideração sobre a formação dos jogos de bola e a constituição do futebol inglês,
pondo ênfase naquilo que o distingue dos demais esportes”. A hipótese central, que
dá nome a esta parte, é a de que o futebol incorporou e “enquadrou” antigas práticas e
rituais populares, transformadas em um jogo, como ele afirma às pp. 92-93: “O futebol
moderno realiza assim uma verdadeira quadratura do circo em relação às antigas
práticas meio lúdicas, meio religiosas, meio violentas e sociabilizadoras. Aliás, passar
das analogias totalizantes e mandálicas do círculo ao domínio reticulável do quadrado,
da universalidade da esfera ao primado racionalizante do cubo, do rito ao jogo, é uma
das operações molares da modernização. ‘Circo’, aqui, além de ser o ambiente
concreto e algo carnavalesco das festas populares, é o círculo ritual que cede
dominância, no futebol moderno, ao quadrilátero quantificador, dentro do qual a bola
passa a ser o objeto e o meio de operações formalizadas e contábeis.”

ESTRUTURA DO TEXTO (Parte 2. A quadratura do circo: a invenção do futebol):


(42-57) i. Pontapé inicial (onde se responde à questão do “ópio do povo” e busca-se
a explicação para a expressão transcultural e mundial do futebol)
(42) – O ensaísta argentino Juan José Sebreli e sua acusação ao futebol (em La era
del fútbol): ‘nenhuma das grandes ideologias universais – o cristianismo, o islamismo
ou o socialismo […] puderam abarcar unanimemente sociedades, culturas,
continentes, raças e sistemas políticos tão diversos quanto o futebol chegou a fazê-lo
neste final de século’. “Para Sebreli, o futebol se ombreia, de maneira usurpadora,
‘com os grandes sistemas religiosos e políticos’ e faz da ‘insignificância do seu
conteúdo’ a coisa mais importante que acontece a milhares de seres humanos, e ‘a
única que dá um sentido a suas vidas vazias’”
X

Resposta de Wisnik:
(43) Para começar, lembra que para Eric Hobsbawm o futebol era ‘a religião leiga da
classe operária’: “A definição do historiador inglês supunha que o proletariado urbano
imprimiu sentidos ao jogo, de maneira ativa”.

(43-44) Mas isso não responderia à objeção de Sebreli porque ao final do século XX o


futebol não teria mais esse significado: “tudo sucumbe à despolitização e à
desqualificação dos conteúdos culturais, substituídos, no mundo do espetáculo
massificado e mercantilizado, pelo vazio do mais difundido dos jogos de bola. Assim, o
futebol que já serviu ao populismo, ao fascismo e ao totalitarismo do poder econômico,
que lhe dá o seu rematado alcance mundial, e presta-se a promover a aceitação
conformista do trabalho alienado, a mentalidade do puro rendimento, a competição
brutal, a agressão, o sexismo, o fanatismo, o bairrismo, o ativismo irracional das
torcidas, o desprezo pela inteligência e pelo indivíduo, o culto aos ídolos, a
massificação, o autoritarismo, a fusão mística nos coletivismos tribais, a supressão do
espírito crítico e do pensamento independente.”
X

Resposta de Wisnik:
(44) “Não há dúvida de que os itens dessa longa lista estão associados, muitas vezes
profundamente, às práticas futebolísticas. Mas importa saber como, e antes de mais
nada esclarecer se a sua associação com o futebo é necessária. A rigor, a lista de
Sebreli é uma relação de contingências: nenhuma delas define o futebol enquanto tal,
e é possível dizer que ele só se realiza plenamente quando não está dominado por
elas. A possibilidade de estarem em jogo (o fanatismo, o autoritarismo, o sexismo, a
agressão, a manipulação capitalista), de forçarem o jogo, de serem catalisados,
promovidos ou despertados pelo jogo, ao mesmo tempo em que negados pelo jogo, é
que permite ao futebol ser um campo de conflitos simbólicos [grifo de M.A.], de
expressão transcultural e mundial, mais do que o deserto do espírito em que a
humanidade dócil se entrega à manipulação do totalitarismo da vez.”
(44-45) Sebreli não dedica uma só linha ao futebol propriamente dito (exceto para
afirmar que Maradona não é um dos maiores jogadores da história) e “É só essa
ausência sintomática do futebol que permite falar, com tanta certeza, da insignificância
do conteúdo do jogo, quando seria preciso entender que, nele, como nas artes e na
música, o conteúdo está ali como se não estivesse: na ausência de significado, mas
fazendo sentido e pondo em cena conteúdos conflitivos e catárticos que o
transformam nesse vespeiro universal de congraçamento e violência. É pelo fato de
lidar de maneira não verbal com o núcleo de violência que constitui as sociedades, a
um tempo elaborando-o e expondo-se ao risco de trazê-lo à tona, que o futebol pôde
se tornar o vínculo intrigante que atravessa todo tipo de fronteiras.
(45) O futebol pode ser visto como uma atividade estúpida “por quem o olha
completamente de fora” e para Sebreli serviria para “produzir o esquecimento da
exploração coletiva, a fomentar a ganância competitiva e a moldar a personalidade
autoritária.”

Resposta de Wisnik:
(45-46) “mais do que o campo deserto da vida vazia, o futebol é um campo de jogo em
que se confronta o vazio da vida, isto é, a necessidade premente de procurar-lhe
sentido. Procurar, aqui, na acepção ativa que inclui
também encontrar, emprestar e inventar sentido – ali onde ele falta como dado, mas
sobra como disposição a fazê-lo acontecer.” (…) “Essa ‘produção de presença’,
evidentemente não intencionada e não formulada nesses termos, se dá numa
temporalidade própria, em ato, com meios elementares e concretos, e se repõe porque
não se esgota, na sua instantaneidade, na sua imediatez e na indeterminação aberta
de seus conteúdos.”
(46) “Para aqueles outros que, imbuídos de uma teoria crítica geral, não vêem sinais
de vida na catástrofe do mundo, o jogo é destituído de graça, além de participar em
bloco do processo de dominação”

Resposta de Wisnik:
(46) “Para quem a vida se alimenta, no entanto, na sua multiplicidade aberta, de uma
margem irrecusável de desejo e de acaso – em uma palavra, de jogo-, o futebol pode
ser o objeto simultâneo de paixão e desafio intelectual. Essa disposição não é muito
diferente daquela que é pedida pela arte [grifo M.A.] – que supõe certa dose de
aceitação da violência simbólica e da gratuidade.”
(46-47) Resposta parcial à questão do que vem a ser o futebol: “O futebol pode ser
visto como um sistema simbólico que traciona o imaginário colocando-o
aparentemente à beira de um precipício: o real da perda. Está em questão, assim, a
estrutura dialética e diferencial do sujeito, amplificada para as massas. Em termos
simples: é preciso que o torcedor aceite a condição de que estamos sujeitos a ganhar
(assumindo temporariamente uma onipotência imaginária) e a perder (recebendo uma
cota de frustração e de real), ambas relativas e devolvidas ao reinício do jogo. Esse
esquema é genérico o bastante para não representar nenhum conteúdo prévio
determinado, deixando-se investir por conotações ora mais difusas ora mais
direcionadas, em que se engancham modos de relação entre indivíduos e grupos. Em
casos localizados, recrudesce abertamente em suporte de conflitos raciais, religiosos,
políticos, sexuais.”
(49) “Em todos esses casos [oposição entre protestantes e católicos na Escócia
(Rangers x Celtic), torcedores do Tottenham chamados de “judeus” (yids) e que
assumem a alcunha mesmo sem ter relação com a realidade, jogos entre
trabalhadores brancos e negros na periferia de São Paulo], os jogos de bola
catalisam violências acumuladas e potenciais, chamando-as sobre si, ora
exacerbando-as, ora diluindo-as [grifo M.A.]. O núcleo duro do conflito prevalece nos
exemplos mais extremos de Foer, enquanto vinga uma área mole de atrito e
acomodação reparadora no exemplo de José de Souza Martins (pelo qual passam as
complexidades ambivalentes da questão racial no Brasil). A combinação de violência
com reciprocidade festiva [grifo M.A.], em que a ritualização dos choques contribui
para o fortalecimento dos laços comunitários, faz parte habitual, por estranho que
pareça e como veremos adiante, da história imemorial dos jogos de bola.”
(50) No caso da troca de estigmatizações (urubu, porco, favelado, bambi) entre os
torcedores de clubes brasileiros [fundada na história destes clubes que não tem
correspondência sociológica estrita], ela “pode degenerar em conflitos reais entre
facções de torcida que, mais que o jogo, querem conflito, mas pode fazer parte,
também, de um grande psicossociodrama ritualizado [grifo M.A.], cujo movimento
principal consiste em lançar pecha sobre o outro e no qual os estigmas recíprocos são
evacuados catarticamente.”
(51) “A divisão da população de uma cidade inteira em times rivais, claramente
dualizada em algumas cidades, como acontece com Grêmio e Internacional em Porto
Alegre, Atlético e Cruzeiro em Belo Horizonte, e Bahia e Vitória em Salvador, obedece,
para além dos perfis sociológicos, a uma necessidade antropológica: a de se dividir
em ‘clãs totêmicos’ mesmo no mundo moderno, e disputar ritualmente, num mercado
de trocas agonísticas, o primado lúdico-guerreiro, como se não fosse possível ao
grupo social existir sem suscitar por dentro a existência do outro – o rival cuja
afirmação me nega me afirmando.”
(51) “Em todos os casos, a base é uma só: ganhar remete ao imaginário (a sensação
plena e fugaz da completude), perder remete ao real (à experiência de um corte que
devolve ao sentimento da falta), e empatar, ou voltar ao zero a zero do reinício, é o
pressuposto simbólico do jogo, que o movimentea e o faz recomeçar. Quando vigora
dentro dessas condições, o futebol é um instrumento de elaboração de diferenças,
um campo festivo e polêmico de diálogo não verbal, projetado no terreno da
disputa lúdica, que atualiza a necessidade de que haja um outro para que eu
seja, de que um outro que me afirme ao me negar [grifo M.A.].”
(52) “Enquanto psicologia de massas, o futebol se inclui, em princípio, entre aquelas
formações dehipnose compartilhada em que o sujeito se identifica cegamente, ao lado
de outros que compartilham a sua identificação, com um objeto no qual reconhece um
ideal de eu (no caso, o clube como ídolo, e os ídolos do clube a seu serviço).” (…) “No
futebol, no entanto, o ideal de eu hipnótico está posto a prêmio e sujeito
permanentemente a uma queda no real.” Ao contrário das “formações coletivas de
natureza fascista” que por princípio não admitem a possibilidade da derrota.
(52-53) Portanto o investimento emocional no futebol pressupõe essa capacidade de
suportar esta alternância entre vitória e derrota o que pode ser “emancipador pelo
tanto que contém de possível aprendizado sobre a ordem geral das coisas”.

(53) “a hipnose de massas é um nível e um modo da relação com o futebol, mas não o
único, nem o mais importante: o desenho do jogo, suas variações narrativas, os
instantes de beleza plástica e de inteligência, a própria rotina e o tédio convidam o
espectador esclarecido a ir além da hipnose identificatória, a sair do papel restrito do
torcedor clubístico ou nacionalista, e a render-se à reversibilidade e à alternância, que
consistem no seu recado mais fundo.”

(53) No caso das “gangues que agem como torcidas organizadas, e que se
entrebuscam para batalhas campais à margem do jogo – ou que atacam, no limite, os
símbolos do próprio time e seus jogadores, quando frustram a identificação” (…)
“Desaparecem as mediações simbólicas em que se entretecem os opostos, prevalece
a descarga imaginária e real na base do tudo ou nada. O jogo de futebol oferece,
nesse caso, muito menos do que um código lúdico-simbólico, a figura espelhada e
mortal desse outro, representado pelo rival. A lógica que comanda essa posição não é
a da necessidade de um outro que me afirme ao me negar, mas a da necessidade de
negar radicalmente o outro cuja simples existência me nega.”
(54) “O destino dessa forma extremada da hipnose coletiva é o confronto, a pretexto
do jogo, com adeptos de outros emblemas, numa luta-de-morte simulada ou real em
que o ataque à figura do inimigo é um atentado à própria precariedade da auto-
imagem. Não é difícil reconhecer aí uma espécie de maquete viva de um estado de
coisas que o mundo nos apresenta de muitas formas, em muitos níveis, e em muitas
áreas da existência.”

(54-55) Os estudos sociológicos sobre este tipo de confronto mostram que ele supera
uma manifestação restrita a uma classe acabando por mostrar o frágil e tenso
equilíbrio da vida social e “de possibilidade da vida civilizada” em meio ao que
Hobsbawm caracteriza como “uma difusa e extensa erosão do valor simbólico do
Estado e do reconhecimento da representatividade da lei, que possivelmente
contribuem para uma espécie de aquecimento global da violência do mundo, e, com
ela, da violência em torno do futebol”, embora o mesmo autor dê “como exemplo de lei
amplamente reconhecida, capaz de figurar em algum nível como contraponto a essa
erosão, justamente a lei do futebol”.
(55-56) Volta a responder a Sebreli abertamente: “Na verdade, o futebol só tem a força
que tem porque abriga esse núcleo ambivalente: abriga a briga, e, ao fazê-lo,
transforma em outra coisa o fundamento primário, arcaico e irracional da violência.
Ambiguamente, a violência não lhe é estranha, e quando vem à tona, vem, de certa
forma, de dentro daquele núcleo mais íntimo que ele elabora e transcende. O
diagnóstico de Sebreli passa por fora da trama contraditória do jogo e consagra a
segunda alternativa, a da negação tendencial ou radical do outro (a agressão, o
ativismo irracional das torcidas, a supressão do espírito crítico), como sendo todo o
futebol.”
(56-57) A posição de Sebreli tem que ser contextualizada e relacionada ao “peso
traumático da Copa do Mundo de 1978” na Argentina seguida pela guerra das
Malvinas além da “disposição filosófica” (…) “que supõe que a psicologia de massas
se esgota num caso de sociologia, determinado, em última instância, pela
manipulação econômica, atropelando a diferenciação da cultura. Fala aqui uma crítica
cultural de intenções frankfurtianas, mas da qual se tirasse toda sensibilidade parqa a
história social e para a dimensão estética, e da qual só se extraísse o resultado bruto
da negatividade.”

(57) A questão do futebol hoje: Sebreli seria também um sintoma do sentimento


(sobretudo após a Copa de 2006) “de que aquilo que chamamos de futebol vem
mudando a ponto de vir a não poder mais ser, e de que, presas das contingências que
o cercam e o tomam, entra num processo de mutação e numa rota de inviabilidade. O
que interessa nessa questão, a meu ver, é, por um lado, a sua inconclusividade atual –
o que ela tem de aberta -, e, por outro, as enormes consequências culturais, filosóficas
e políticas que ela põe, envolvidas na discussão aparentemente fútil e trivial de um
mero jogo que ganhou importância excessiva aos olhos de seus críticos, aos mesmo
tempo em que foi se tornando um índice inegável do mundo contemporâneo [grifo
M.A.].”
(57) A pergunta fundamental: “O fato é que qualquer discussão a esse respeito gira
no vazio se não tentar entrar no cerne da pergunta mais difícil e elementar: se
tantos interesses, de todos os tipos possíveis, giram em torno do futebol, o que é que
está em jogo no meio desse giro? O que tanto interessa no futebol?”
(57-61) ii. Bola e campo: aqui ele faz uma “fenomenologia” da bola (forma universal)
e do “fascínio tantas vezes compulsivo que ela provoca” (58), mais do que um objeto
de desejo, “o meio que dá a este um foco, como se pudesse torná-lo visível” (59), um
elo entre infância e vida adulta sobretudo para os homens a quem reúne “numa
atmosfera mista de cumplicidade e de disputa”, “difusamente homossexual” (59). À
bola e a “pura promiscuidade lúdico-infantil que ela permite” sobrepõe-se o campo,
quadrado, “território da objetivação dos combates e de sua determinação
quantificadora” (60). “Chico Buarque formulou essa dialética num artigo iluminador em
que reconhece os ‘donos do campo’ e os ‘donos da bola’ nos modos predominantes
de se jogar futebol em países ricos e em países pobres, com ênfase na ocupação do
quadrilátero e na objetivação da disputa, de um lado, ou no domínio gratuito da bola e
sua elevação a brinquedo, de outro” (60). O campo é o “teatro de um jogo de forças”,
“a um passo da arena de guerra”, mas em que o confronto é espetacularizado e
simbolizado (61). A bola permite que não se ataque diretamente o adversário,
desencadeando “a disputa por um objeto interposto”, fazendo com que os jogos
eufemizem ou sublimem “as violências projetadas no campo da batalha” (61)
(61-68) iii. Capotão e capital: neste item ele faz uma história das transformações
materiais e simbólicas da pelota, verdadeiro índice das próprias transformações do
futebol e da sociedade (que teria três momentos), como se vê no trecho que começa
no último parágrafo da p. 66 e vai até o penúltimo da 67.
(68-87) iv. Rito e jogo: um aspecto fundamental neste item é a distinção entre a
“lógica do rito” [ritual conjuntivo diria Damo] em que “parte-se da desigualdade para a
igualdade, do desequilíbrio entre o profano e o sagrado, os mortos e os vivos, o sol e a
escuridão, para a suspensão simbólica da inferioridade terrível do humano diante da
natureza e da morte” versus o jogo “subordinado ao princípio da concorrência
universal, e quer fazer  valer, dentro de regras reciprocamente aceitas entre humanos,
a afirmação do mais forte” (70). O jogo, portanto, tem uma relação umbilical com as
modernas sociedades industriais pois “Trata-se de um contrato de equivalência sobre
bases abstratas visando à concorrência e à acumulação”, “a contrário do pacto ritual
visando a supressão ‘metafísica’ da concorrência, que se faz, no limite, através da
violência sacrificial” (70). A partir daí ele começa a examinar um exemplo de jogo-rito
de bola do México pré-colombiano, o tlachtli, que “visava orquestrar de algum modo os
poderes catastróficos do acaso com uma equilibração ritual das potências celestes e
subterrâneas” (72). No caso do futebol tal qual o conhecemos, teria havido uma
separação entre o jogo e o rito, “como se quisesse chegar a uma versão quimicamente
pura daquele, em que regras de igualdade competitiva garantiriam uma avaliação
neutra das competências em disputa” e desta forma simulando “as próprias pré-
condições da competição no mundo burguês-capitalista” deixando de “contemplar
expressamente, assim, todas aquelas outras forças que ele atiça e contempla,
apesar de tudo [grifo M.A.]: as pulsões de vida e morte, a consagração e derrisão de
um ‘bode expiatório’, o poder soberano que o instaura, a borda mítico-ritual que insiste
e retorna nele, mais a instauração, de que falaremos adiante, de um mercado paralelo
de identificações totêmicas investido em torcidas.” (75)
(76) “Se o fenômeno histórico do futebol moderno tem como pré-condição as bases da
modernidade e do capital, ele não se reduz completamente a elas, funcionando, em
certo sentido, como um avesso compensatório [grifo M.A.] (…) Trata-se, na verdade,
de enxergar o lugar frágil e poderoso em que o futebol se dá, apesar de tudo,
como avesso do jogo social [grifo M.A.]. Pois ele é modernamente vizinho e parente
da pura violência, que o ronda e o pressiona por fora e por dentro (mas sob a qual, no
entanto, se desustruturaria); vive num mundo regido pelo mercado ou pelas pressões
da ideologia, seja política, seja publicitária, que cerca o campo e invade as camisas
(sob o domínio das quais perderia, no entanto, a razão de ser). Entre essas forças
aniquilantes, constitui-se, no limite fino, mantendo um parentesco latente com o rito,
que, ao ser a sua inversão, não deixa de ser a sua outra face. Mas se superando,
quando acontece, e graças à sua autonomia, enquanto esta existir, numa forma
singular de arte [grifo M.A.].”
– Dentro deste item há um subitem dedicado ao Soule (pp.76-87), uma festa popular
praticada em certas regiões da França desde meados da I.Média e que é analisada
por Wisnik como exemplo daquela reciprocidade violenta (a que ele se referiu antes)
capaz de contraditoriamente cimentar os laços comunitários. O que teria havido no
início da Idade Moderna teria sido uma violenta repressão a estes tipos de
manifestação popular, “incompatíveis tanto com a moral reformista quanto com a
moral contra-reformista, assim como com os esboços da futura norma burguesa, e o
estado tomando para si o monopólio da violência” em um “longo processo de uma
virada lógica e simbólica em que se mudarão radicalmente as formas de sociabilidade
e as correspondentes prioridades na ocupação do tempo” (83).
– A partir de 1860 teria se esboçado uma “nova cultura esportiva“, inicialmente
aristocrática e burguesa mas logo apropriada e ressignificada pelas massas urbanas.
Mas nessas novas formas codificadas e regradas, estariam incorporadas (embora sob
controle e numa nova configuração) “as pulsões envolvidas nos jogos de bola” (85).
(86) “Estamos longe, evidentemente, do rito assumido, do sacrifício ou da troca
recíproca projetada como função reguladora da violência e compartilhada como festa e
luta, em que o jogo é ofertado ao todo. Agora, o monopólio da violência do Estado,
atado à Lei, rege a concorrência e tem como horizonte controlar todas as dimensões
da expressão vital – o todo rege o jogo. O custo da violência constitutiva da vida
social, com sua trama de inclusões e exclusões, ganha outro aspecto, em que sua
ritualização se recalca, se sublima, mas também retorna a ponto de desvelar seu
núcleo mais profundo. O jogo de bola, talvez mais do que qualquer outra coisa,
mantém contato com essa história oculta.”

(87) “No império das trocas reguladas ou desreguladas do mercado, sobram os times,
as rivalidades agressivas e festivas que não conseguem se explicar simplesmente por
uma oposição de classes sociais e ideologias, mas que marcam uma efetuação
daquela alteridade hostil e festiva como constitutiva das identidades grupais e
individuais.”

(87-94) v. O consenso inglês: RECOMENDO que este item (assim como o


anterior sobre o soule) seja lido como complemento à leitura 8 do
curso (FRANCO Jr., 2007, cap.1). Aqui Wisnik trata do processo de codificação do
futebol na Inglaterra burguesa, resultando, segundo Pociello, da “’assimilação’,
‘transformação’ e ‘ajustamento’ daquilo que terá sobrado dos jogos populares, na
Inglaterra vitoriana, pela rapaziada dos colleges em que a aristocracia e a burguesia
formavam suas elites – ajustamento consolidado em clubes de ex-estudantes, e que
aplacava e regularizava a turbulência, a informalidade e a aspereza crua daqueles
jogos” (87-88). Este “consenso à inglesa” estaria ligado, “num sentido mais profundo” à
pacificação do jogo político-parlamentar ocorrida durante o século XVIII (N.Elias) (89-
90). Ao mesmo tempo incorpora e controla a rebeldia juvenil dos estudantes daquelas
escolas, canalizada pedagogicamente (90-91).
(91) “Esses sinais nos indicam que os jogos, na sua origem, estavam cumprindo mais
uma vez aquele papel ambíguo que os situa no gume entre o desvio e a norma, a
contestação e a modelização dos comportamentos, a rebeldia e a integração, em
suma, o lugar em que a violência latente se apresenta e ao mesmo tempo se regula –
antiga função assumida pelos ritos, envolvendo agora uma movimentada barafunda de
estudantes, pedagogos e gentlemen.”
(91-92) “Se comparado às antigas práticas, o jogo foi codificado de maneira a
aparar-lhe as arestas, tornando-o controlável e contabilizável, arbitrado por um
sistema de regras e ‘sublimado’ na sua violência [grifo M.A.]. Em vez de um
número incontável e desigual de jogadores, temos onze de cada lado: em vez de
campos, brejos, pântanos e aldeias, um campo retangular e à parte do mundo comum,
cercado de platéia; em vez de participantes feridos e ocasionalmente mortos na
refrega, esportistas protegidos por regras que regulamentam idealmente o corpo-a-
corpo; em vez de uma festa cheia de desperdício até o esgotamento das energias, um
tempo regulamentar a ser esgotado. Essa modernização fez do futebol um
espetáculo, uma sinfonização romanesca dos turbulentos jogos antigos [grifo
M.A.], cuja constituição pode ser comparada à passagem do modal ao tonal, em
música: reduzem-se os elementos segundo um princípio de economia puramente
funcional (os inumeráveis participantes do soule restringem-se aos exatos 10+1
jogadores de cada lado), filtram-se os ruídos (isto é, as contundências, os choques
desregulados, os embates físicos), cria-se um espaço protegido e especializado de
ação (o campo delimitado e autônomo, comparável ao espaço fechado da sala de
concerto), e instauram-se os movimentos cadenciais de ataque e defesa, de tensão e
repouso, de ‘tônica e dominante’, como um discurso contínuo e fluente, sujeito às
modulações da posse de bola por um time ou por outro.”
(94) “O futebol é a quadratura do circo: a passagem necessariamente incompleta de
um mundo ao outro, com aquela sobra irredutível e não racionalizável (um valor Pi
antropológico) que não se esgota na quantificação dos resultados numéricos, na lógica
moderna do jogo, e cujos conteúdos não se deixam nomear. O futebol pôs em jogo,
claro que sem premeditar o efeito, uma zona limiar de tempos culturais que acabou
fazendo dele um laboratório demonstrativo das culturas e um ponto de interrogação
sobre o destino da civilização.”
(94-95) “Sua vocação recôndita e não consciente era a de se tornar o palco
entremeado das disposições, dos imaginários corpóreos e das gestualidades inerentes
aos grupos sociais mais diversos, de fazer pontes entre culturas e de constituir-se
numa não premeditada e informal espécie de antropologia prática. Recolocando, de
maneira balanceada e cifrada, sujeita ao teste da realidade e às vicissitudes da
história, a questão originária da violência.”

Há ainda muitos outros itens nesta parte 2:

(94-100) vi. A lama e a grama


(100-104) vii. O fino e o grosso
(104-110) viii. O juiz
(110-114) ix. O tempo
(114-120) x. Prosa e poesia
(120-124) xi. Futebol não tem lógica
(125-128) xii. A otimização do rendimento
(128-131) xiii. O técnico
(131-133) xiv. A ‘diferença’
(133-136) xv. A maturidade viril
(136-141) xvi. O goleiro
(141-154) xvii. O rúgbi, o futebol americano e o soccer
(155-158) xviii. Donos do campo e donos da bola
(158-167) xix. Berlim 2006

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