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Na capa:

O mítico rei-ferreiro Ngola Mussuri (Ngola Musudi)


,.- _lqr-rE do Padre João António Cavaãzi ae Vtontecìcïãtã Ìmeaaos do sec. XV[).
"Missione Evangetica...", manuscrito panicurar d" il;üõ;ü, er"raiiúóã"-r"ììâi"l

NOTA DO EDITOR

O Arquivo Histórico Nacional tem como função principal a salva-


guarda, tratamento e classificação do vasto acervo documental do país,
sobre variados supoúes de informação, e ainda o desenvolvimento da
pesquisa histórica. Dando hoje à estampa a obra do professor Joseph
FICHA TÉCMCA
Miller, Kings and Kinsmen - Early Mbundu States in Angola, numa
Autor: primeira edição em língua portuguesa, pretende, deste modo, cumprir a
Joseph C. Miller função de divulgação de obras de carácter científico cuja difusão, na
Título: maioria dos casos, se vê condicionada pelas leis do mercado, porqué
Poder político e parentesco. Os antigos estados Mbundu em Angola.
estas não se compadecem com os interesses dum público muito especí-
Título original: fico (e entre nós ainda limitado) das ciências sociais. pensamos
Kings and Kinsmen. Early Mbundu States in Angola.
que compete às instituições do Estado ajudar a suprir esta lacuna,
Copyright @ 1976 Oxford University press
desempenhando sempre e cada vez mais o papel de mola impulsio-
ïbadução:
nadorâ para que o cônhecimento da História e demais Ciências possa
Maria da Conceição Neto
Edlçãor
coabitar Connosco, na proporção dos interesses dos investigadores e dos
- ARQUIVO HISTÓRICO NACIONAL interesses úais gerais da nossa sociedade.
Ministério da Cultura Esta publicação não teria sido possível sem o empenho do
Execução gráÍical Ministério da Cultura que, no âmbito do programa de actividades do
Fotocomposição e montagem: Litocor,Lda., Rua Emílio Mbidi, 6g-A 20" Aniversário da Independência de Angola, financiou a tradução, e
Impressão e acabamentos: Litotipo,Lda., Rua 1.. Congresso, 39/41 sem o apoio da Embaixada de Portugal; graÇas ao qual a Cooperação
Capa: Sérgio Carvalho Portuguesa e o Instituto Camões financiaram a edição.
Depósito legal n," 1430/96 Abriu o Arquivo Histórico Nacional esta vertente editorial ele-
Tiragem: I 500 exemplares gendo o trabalho do Professor Miller porque entende que ele responde
1. edição: Luanda, Dezembro de 1995
aos anseios de uma historiografia renovada que se reclama entre nós e
se constrói corn base numa metodologia de complementaridade das
.*.e: 20.. ANTvERSÁRro DA TNDErENDÊNcrA DE ANcoLA
EDrÇÃO SUBSIDTADA PELA COOPERAçÃO PORTUGTIESA
fontes disponíveis para o exercício do "fazer" histórico. O recurso às
E O INSTITUTO CAMÕES
fontes orais, aliado à exploração das fontes escritas, como se demons-
tra no trabalho rigoroso de Josefh Miller, reveste-se de uma importân-
t
t Ir
I

I I

t cia capital, tendo em conta as características


cujo passado pretendemos reconstituir.
das sociedades africanas
ÍNnrcn
|' Não sendo novidade no meio
científico tal prática, pois hoje, mais do que
a importância do testemúnho- ori .o,,,o
nunca, se reconhece a
irfr"rcindível para o estudo das
xl
xxi
a sociedade africanas, é também^verdade
trabalho do professor Miller foi pioneiio.
que, pÍìra o caso de Angola, o xxii

a onde se relacionam os métodos da História


Ëxemplo a. in""rtfiaao
Au entffiogu
{, 1

4
ll
a (com apoio da Linguística), abriu
urn "
essencial ao conheci- 28

a mento do passado angolano. "urnrnto


. .Outra razã,o para esta escolha prende_se
ïu. 31

a da obra, simultaneamente
com o próprio conteúdo
contribuìo à problemática teórica sobre
31
37
42
a origem- e formação do Estado n" noriu-região de África
profunda análise interpretativa de factos
a
e uma m. 55
a decisivamente, no sécuio dezassete,
hiítóricos qu"-,,,ui-"uru,
o .rpuço onde emergiu a Angola
59

I
63
actual' o impacto dos Imbangara e da 70
instituiçao do kiïomio', ulrirn 73
como o conflito entr
a poderescentrarizadoiqilïüi:;i,lïn:ï,ïïHrn:ïïï:: 86

a de língua Kimbundu e dos,célebr".


,rruã, do Ndongo e Matamba.
ry. 89
89

I O presente livro, cujo ponto de partida


nje, envolve também aspectos dã história
foi uma pesquisa sobre Kasa_
90
106

I Kongo, ovimbundu e, nà domínio merod;ú;ico,


dos Lunda, Cokwe, Luvale,
e iguãiÀ"nàlipor- t12
I tante para outros povos que. hoje são parte
integru""r" ã. ï"g;i;ï;, tt2
tt4
I portanto, com justificada satisfação
que o arquivo Histórico ríuJnur
entrega esta obra ao público de língúa
portuguesa.
r28
r36
D 140

D ivr t49
r49
Rosa Cruz e Silva
t Directora do A.H.N.
159
165

D '/ vtr. 174


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I t75
191

I r98
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I \Vil
2t7
220
) 221
228
t 237
24"1

I l.'1 rx' 260

l 261
266
2'75
)
2'/9
) Glossário de termos africanos usados no texto . . . 296
Índiceremissivo..... 299
)
À memória de meu pai, John W. Miller
t903-t974
I
D
I
I
I
I Prefácio
I
I Embora os historiadores estejam acostumados a trabalhar com infor-
t mação registada de úAo imperfeito, ou pelo menos imperfeito em relação

I aos objectivos de cada um, os dados em que se apoia este estudo têm
características especiais que exigem uma declaração preliminar sobre a
D NOTA DE TRADUÇÃO maneiÍa como foram recolhidos e as técnicas que forÍÌm utilizadas paÍa os
I aÍìalisar. Qualquer estudo que se proponha combinar dados diversos, obti-

I O autor, há vinte anos, explicou as suas razões para


nos.vocábulos em línguas bantu (p. xvi). Actualmente
a grafia usada
existJjá, embora
dos a partir de materiais etnográficos, linguísticos, documentais e trans-
mitidos oralmente, está necessariamente imbuído dos estudos pioneiros do
I ainda não suficientemente divulgada, uma grafia
Kimbundu e ouüas línguas presentes no texto, qu.
angoìana oficial para o
não se afasta muito da
Professor Jan Vansina sobre o significado histórico dos testemunhos não
) que Miller usou. Considerando a variedade escritos. Visto que o nosso conhecimento dos primórdios da formação do
de leitores e da sua formação,
em distintos países, decidimos nesta primeira
tradução para o português Estado entre os Mbundu depende de todo este tipo de fontes e, sobretudo,
D manter no essencial a ortografia da versão
original, ãpção discutível mas visto que alguns destes dados foram registados muito antes de qualquer
que pareceu o menor dos males. A tentaüva .,aportuguesar,,
) de
línguas bantu resultaria em distorções grors"irur,'r*ao
termos das uma destas disciplinas ter atingido o seu grau actual de sofisticação, o
l eruditos. Alterámos o sá da versão inglesa para
mal aceite pelos
x, dado que aqui coincidem
lfog:1, bantu e a língua portuguesa (leia-se como ,.xadrês,,).
problema da metodologia adquire uma importância superior àquela que
habitualmente teria.
D T em
Os etnónimos mantiveram-se_invariáveis, independentemente Os dados recolhidos durante o meu trabalho de campo de 1969-70
t número, com maiúscula inicial mesmo quanoo
Recoúecendo o barbarismo que tal repiesenta
do género e
n ncioiam como adjectivos.
na língü ponuguesa, é uso
entre os Imbangala de Angola requerem uma análise o mais aprofundada
possível. Consistem em cerca de trinta horas de entrevistas gravadas em
) consagrado internacionalmente e pareceu-nos
de seluir. Lemtramos aos Kimbundu e em Pornrguês; paÍa além disso, há uma quantidade um pouco
menos familiarizados com as línguas bantu
) "gato", o r
sempre como em ..rupo',,
que o g õ te sempre como em
mais pequena de traduções inglesas dos textos em Kimbündu. Muito mais
lue seia intervocálico,
) e o c coÍÍesponde ao som próximo de tcá. ^.ìro horas de enftevistâs foram registadas sob forma de notas manuscritas, em
Quando o autor se refere a vilas e cidades .,portuguesas,,(no bruto, e desenvolvidas depois sob a forma de fichas de trabalho dactilo-
) dezassete ou à data da pesquisa, 1969),
século
manteve_r, o norn. por eÌe usado, grafadas. Actualmente, todo este material está na minha posse e enconaa-se,
colocaàdo-se entre [ ] o nome angolano actual.
) evidentemente, à disposição de quem desejar utiüzá-lo paÍa fins de investi-
gação. Espero que num futuro próximo se possÍrm colocar cópias em locais
) adequados em África e nos arqúvos orais da Universidade de Indiana.
) Gravei as primeiras entrevistas na íntegra, com a intenção de prepa-
) rar transcrições e traduções segundo os padrões delineados pelo Professor
Philip D. Curtin,r mas as condições locais rapidamente fizeram com que
) fosse mais úúl abandonar a gravação e continuar com notas de campo
) escritas. Não consegui obter nenhum tradutor capaz de produzir uma
) tradução portuguesa correcta - -
ou mesmo coerente dos textos em
Kimbundu. Isso obrigou-me a entrevistar tanto quanto possível em Por-
) tuguês. Embora um certo número de entrevistas tenha sido gravado em
) ' Philip D. Curtin (1968b).

)
I
xll PREFÁCIo pRBr'Ácto xiit
Português, os problemas decorrentes de se
niuïarem histórias Imbangala Comecei por localizar os indivíduos que, de um modo geral, eram
numa língua estrangeira, num contexto totalmente
,rtifi;i"1";"*e elimi_ considerados como tendo maior probabilidade de fomecer uma informação
nou aquelas características de subtilez a a cuja
captação o gruuuao, ," o passado dos Imbangala. AfortunadaÍnentl,
abrangente e exacta sobre
adapta melhor.
tendo em conta as limitações prevalecentes no plano da pesquisa,
o modelo de entrevista gravada também se tornou ineficaz
devido a revelou-se que a maior parte das tradições históricas Imbangala sobrevi-
um certo desvio do conteúdo abrangido no
decorrer d" ulte- ventes eram coúecidas por apenas um punhado de indivíduos, dos quais
riores com os informantes. A "onu"rraçã"s
maior parte dos testemunto,
consistiu em genealogias e discussões informais fãrt"rior", todos falavam um pouco de Português. Estes homens, o ndala lçandumbu
sobre inrormaçao ringuís- (historiador oficial da corte do antigo estado de Kasanje) e os balu a
tica e etnográfica, as quais podiam ser preservadas
de um modo tão exac- musendo ("hi$toriadores" não oficiais mas profissionais) tornaram-se os
to e eficaz por meio de notas escritas como por
meio de um gravador. informantes primários deste estudo. Tornou-se claro que a maioria das ou'
Embora no decurso das posteriores tenham surgido argumas
-entrevistas
composições narrativas dignas tras potenciais fontes de informação, a que poderemos dar o nome de infor-
de serem gravadas (no geralJas tentativas
de as repetir para gravação falharam), foirelativamentã mantes secundários, pouco poderiam acrescentar aos dados que se podiam
pouco o material obter dos informantes primários. Contudo, a presença de um informante
deste tipo que ficou por gravar. A utilização
de apontamentos escritos teve, secundário numa entrevista, estimulava muitas vezes um informante
por outro lado, a vantagem de permitir uma
invèstiguçao
-uir upràfunda- primário (agiçrdo ostensivamente como intérprete) a recordar alguma infor'
da do que a que permitiria a gravação, sobre
vários assuntos considerados mação que, de outro modo, não lhe viria tão prontamente à memória'
demasiado sensíveis para serem discutidos
diante de un' g.uuuJo..' A maior parte das entrevistas começavam com uma declaragão
As limitações de tempo e de dinheiro, assim
restrições às voluntária por parte do informante, em que este dava a sua versão pessoal
actividades de pesquisa em portugal e em "o-o "áu,
Angola,
possibilidade de pôr em prática o prano de pesquisa
restringiiam_me a da história do seu título e/ou linhagem. No caso de informantcs
que seria tãoricamente secundários, estas declarações, muitas vezes expressas sem uma habili'
óptimo. É óbvio que os historiador"r a" Ári.u
só utilizarão prenamente as
fontes disponíveis quando abordarem os dados dade ou mestria particulares, tinham tendência paÍa ser muito brevos c
obtidos oominanão racit- incompletas. Alguns informantes secundários decidiam omitir esta fasO da
mente tanto as línguas como as culturas implicadas.
Naquela epoca, era enffevista. O informante primário, que no geral me acompanhava nas
difícil para um historiadol n.1o residente aoquirir o n"."rràrio
upi.r.içou- entrevistas aos informantes secundários, a seguir à declaração inicial fazia
mento nestes domínios. As linguas africanas de
Angola ainda não foram perguntas que se destinavam a incitar o informante secundário a aPer'
devidamente estudadas e, embora se possa
adquirir em Lisboa um feiçoar ou resolver contradições internas. O informante primário acom'
conhecimento duma variante de Kimbunáu
suficiente para t abalhar, uma panhante dava então a sua versão pessoal da mesma história, com o pts-
familiaridade com a ìíngua, que seja verdadeiramente
útil, .*ig.-.rtuao, texto de inspirar o informante secundário. A maior parte das entrevistgs
no 'terreno. A etnografia angolana sofre de
uma negrigência seÃeurante e terminavam com as minhas perguntas sobre pontos pouco claros, contradi-
iTpo" ao pesquisador constrangimentos da mesma ordem. De um modo ções que eu úúa notado e novos conceitos e termos
que tinham surgido
ideal, o historiador deveria fazer preceder os seus
estudos históricos de no decorrer da entrevista.
uma prorongada aprendizagem lirrguística e de
uma pesquisu As entrevistas iniciais com informantes primários seguiram mais ou
mas a impossibilidade de dispor de materiais importantes
fora"rnÇari.u,
ïngota de menos o mesmo formato, mas levaram a toda uma óérie de enconEos subse'
toma isso impossíver. As condições em Angoia
tomavam impossível quentes que tinham uma amplitude muito maior, não seguindo neúum
planificar um projecto de pesquisa metódico, que
se estendesse por viírios modelo particular. No geral, eu abria as sessões posteriores com um ponto
meses ou anos. por isso, considerei mais
eficiente juntar a maiãr quanti_ histórico retirado de uma entrevista prévia e pedia ao informante que o
dade de informação possível.num curto espaço
de tanpo e optei poàei*a, repetisse ou se alargasse sobre ele. Geralmente, a discussão avançava
de lado um rigoroso e preliminar trabalho àe
fundo, rapidamente, por meio de mais perguntas e respostas, para problemas
co, preferindo gravar o "tnograd"o "'ri"guírri_
de informação acessúl
ltiToEsta estratégia
mente que fosse exequível.
o mais ,ãpiAu_ etnogËíficos e linguísticos gerais, à medida que o informante tentava
orientou a minta-perquira esclarecer pontos obscuros. O formato destas enüevistas posteriores,
durante os cinco meses que passei vivãndo perto
dos Imbaniala, no muitas vezes repetitivo, de pergunta-e-resposta, tornou supérflua a utili-
Distrito de Malanje.
zaçáo do gravador para a maior parte delas.
xtv
PREFÁCIO PREFÁCIO XV

Emboratarvez tivesse sido merhor basear espalhados pela Itiília, Espanha, Inglaterra, França e Brasil, para nomear
os inquéritos etnográficos
no método de observação participante,
desenvolvido pelos antropólogos, apenas os repositórios mais importantes, só foi me possível consultar pes-
obstáculos que os investigadores os
estrangeiros brancos enfrentavam soalmente os do Museu Britânico. As riquezas pouco exploradas do Arqui-
Angola impossibilitavam-nos de viver em
nuría ardeia. Alguma aì inrormaçao vo Histórico de Angola, que estavam facilmente acessíveis, dizem intei-
etnográfica deste estudç provém ramente respeito a períodos ulteriores.
de perguntas directas sobre pontos
pareciam imporranres à luz que
do mat"rii histórico ror-a. úã- r"gunoo Dadas aq limitações criadas pelas condições acima sintetizadas, ten-
método ríe' invesügação.foi o fazer perguntas com base numa
de_ tei tomar um mmo entre Cila e Caribde, ou seja, entre reconhecer
lista de ter_ as
mos em Kimbundu retirados de fonües
recuam até ao século dezasseis.
ãscritas ,"u. que
imperfeições dos dados a ponto de não dizer coisa nenhuma e buscar uma
"r-iÃï*ï"ra,
Eu simplesmente apresentava cadã palavra reconstrução coerente de acontecimentos que projectasse os dados para
aos informantes, perguntava_lhes
se a conheciam
significava. Esta técnica abriu caminhou
.uro
", e
uR*ìJ*,
o qu"
além das limitações que lhes são inerentes. Este dilema tem uma importân-
u,uu, novas frutuosas linhas cia especial no que respeita aos materiais orais, já que são menos bem
pesquisa, muitas vezes em sítios de
bastante inesperados. outras concrusões conhecidos que, os escritos e já que a análise depende deles em muitos
sobre a estrutura e a cosmologiu
ro.iJ àãs Imbangara emergiram duma
análise posterior, tanto das ãirtó.iu.
I
aspectos. Por isso dediquei uma secção do Capítulo à descrição das
rorn'ui. como de outros dados. histórias formais e informais dos Imbangalâ e a uma análise do seu sig-
O historiador tem de^ rogar aos ,"u, .Çu, nificado para os historiadores ocidentais. Dito isto, apenas necessito
antropólogos que teúam
paciência perante a farti de uma
inv".tiiaçao ehográfica sistemática. explicar as considerações que me levaram a utilizar as tradições do modo
A pesquisa ringuística de base
.onririiï numa tentativa de coligir como o fiz. Estas tradições são susceptíveis de serem estudadas a muitos
vocabulários de 200 palavras em todos o, iid".to,
com base na lista que os linguistas
o.irntui, oã ir-,ouunou, -
outros úveis nomeadamente, a intrigante possibilidade de uma crítica
ut'izarà em hgação com os seus estu_ literária formal que vem sendo desenvolvida pelo Professor Harold
dos sobre glotocronorogiul e in*rrÇçáo etnogriífica geral permitiu Scheub da Universidade de Wisconsin - mas os constrangimentos que
melhorar a compreensãolinguísticu,,
oï àiu"rros dicionários disponíveis actuavam neste caso tomaram necessária a elaboração de um "denomi-
sobre as línguas bantu de engofa.ornpi.-rn"n,aram
aquelas listas. nador comum" de um nível relativamente baixo, que fìzesse com que as
A documentação escrita sobre a,Angola tradições que eu coligi em 1969 pudessem ser comparadas a outras
dos séculos dezasseis e dezas-
sete encon*a-se agora disseminada
pú t c, continenás,-;;i;;"""r. variantes registadas por escrito nos séculos dezassete, dezanove e início do
A colecção rte longe mais importuntr in"oìna-se século vinte.
nos vários arquivos de
Lisboa, grande parte da quâr nur
.ot..çà", de manuscritos da Bibrioteca O método escolhido, dada a situação anofiada das tradições, não
T:"1on{, do Arquivo Nâcional au roi" ão Tombo e da Bibrioteca da poderia estar dependente da comparação de um grande número de
duda' Especialistas estrangeiros interessados em temas variantes que já deixaram de existir. Nem poderia exigir um grau de
de vez em quando, africanos viram,
Solicitei, mas nunca
restringiao o u."*o ï ag;ì, ã"*l'ï"iïn'"","r., facilidade linguística impossível de obter neste caso. Foi também
uuroriruçao necessário recoúecer que
-todas as tradições
iara a colecção da publicadas evidenciavam
1ceUi,
Biblioteca Nacional, elquT.to "onrultar
qu" u .ão.gu*zaçao que se dizia estar em mudanças drásticas em relação ao que deve ter sido a sua forma oral
curso na Biblioteca da Ajuda
nà Ton dJromuã me impeaiir original. As versões destas mesmas tradições por mim recolhidas sofrem
qit ae u". ,,,ui,
uma pequena parte, "do importantc
9:
Fiquei por conseguinte, em Lisboa,
material que aí se enconrra. de mutilações semelhantes (embora menos extensas) já que fui incapaz de
."f""ã""t" de versões pubricadas da assegurar transcrições exactas ou traduções dos textos em Kimbundu.
maior parte dos documentos, à excepçaà
aos qu" ," encontram no Arquivo Mesmo as versões gravadas em Português devem ter sofrido modificações
Histórico ultramarino. por sorte, a,ior
ãrì"úmentos coúecidos do sécu_ consideráveis à medida que o informante as ia traduzindo, no meu
lo dezasseis e anteriores, assim como
u.u gÀ0" quantidade de documen_ interesse. Tal como fica claro no Capítulo I, assim espero, mesmo o facto
tação do século dezassete foram publicud;,;
os mais importantes muitas de se recitarem estas histórias para um investigador vindo de fora in-
vezes em diversos sítios. Dos'muitos
ãã*,n"nro, que se enconüam fluenciou inevitavelmente a maneira como foram narradas. Não podia ser
empregue nenhuma análise que dependesse da explicação literal do texto;
't D. H. Hymes (1960), n.6.
as próprias palavras ou não tiúam sido gravadas, ou não podiam ser
Sobre as experiências de um outro
estrangeiro, ver Salvadorini (1969),
pp. 16_19. suficientemente compreendidas para justificar tal abordagem.
xvl PREFÁCIO PREFÁCIO xvii

. A pesquisa que conduziu ao presente estudo começou é mais fonémica do que fonética e assim, por exemplo, a pronúncia
como uma
investigação, bastante vaga, sobre a história
de Kasanje, o rËino tmuangata ci- Mbangala/Cokwe/Lunda surge aqui na forma geral em Kimbundu, Èi-.
fundado no finar do período que acabei por As referências nas notas de rodapé são dadas de forma abreviada,
escorher como tema deste
trabalho. A mudança de períodó e de tema
resurtou do facto de os estudos mas a bibliografia contém as habituais citações completas que, assim
existentes não fornecerem antecedentes
úteis sobre os quui, uur"u, urnu espero, virão clarificar algumas das referências obscuras que se enconffam
história de Kasanje.,No geral, a bibliografia em'muitas publicações mais antigas sobre este tema. Muitos dos docu-
confundia o. r-u-gula com
os chamados "Jaga", guerreiros famoús mentos utilizados foram publicados em vários sítios por diversos editores
e temíveis que, provavelmente,
nunca existiram da maneira como foram e, nestes casos, tentei incluir todas as localizações que conhecia. Ao pôr os
descritos. Além áirro, náo tiúam
sido publicados estudos sistemáticos sobre nomes portugueses por ordem alfabética, segú as regras da Biblioteca do
ffi a etnografia dos Mbundu, em
geral, e menos ainda sobre os Imbangala. Resúnindo,
i.porrfu"t Congresso dos Estados Unidos, embora a maior parte dos leitores devam
descrever o ambiente:. qu: os Imbangãa "ru
ffi
ffi saber quem tiúam sido os Imbangara
fundaram K;j;,;mesmo estar conscientes de que diferentes bibliotecas (sobretudo as localizadas
ffi io século dezassete. Náo rn"p*- fora dos Estados Unidos) podem seguir convenções diferentes. As citações
cia que se pudesse esperar escrever uma história do "testemunho" de um indivíduo fazem referência, em todos os casos, a
daquere reino, qu" n""rr"
ffi
sentido, sem uma certa compreensão das
condições qu" ilb;;ala en- entrevistas realizadas durante o meu trabalho de campo em Angola
ffi contraram quando atingiram "r ,ànrr"ii,n"nro
o seu rar actual e r"À up (para a lista de informantes, ver Bibliografia).
il razoale.lm-e1le s.eguro das tendências que
trouxeram consigo. Segui a convenção inglesa, geralmeúe aceite, de não utiüzar prefixos
t A incidência do presente trabarho em processos Bantu antes dos nomes de'grupos etnolinguísticos, à excepção do nome
de forinação do Esta-
do resultou da minha.compreensão de que
pouco do que havia lido sobre Ovimbundu (correctamenüe, os Mbundu) para distinguir esses habitantes dos
a emergência de estado_s farava do qu"
r*tiu qu".*r,i*r, pr"brema planaltos do Sul, dos Mbundu que vivem a norte do Kwanza. O plural da
"o
central no espírito dos Imbangala cõm quem " entre as rnaior parte das palawas Bantu apaÍece ente parênteses depois da sua
tinha falado: a tensão
suas lealdades ao parentesco e o seu iespeito primeta ocorrência no texto e um glossário de termos Bantu, que se encon-
pelos r"ir. ún,uli,n"i.u
vista. geral da bibliografia sobre o tema
.oìurn."u-*e de que a experiên- ha no final deste estudo, deve facilitar a identificação de termos que não
cia. dos Mbundu poderia. realçar um aspecto
da história pàrrti.u'J ,o"ia sejam familiares ao leitor.
africana que tinha passado relativamente despercebido.
Foi com.bastante
I
ptzeÍ que descobri, enquanto estava a escrever este estudo, que É um prazer agradecer, de forma mais breve do que desejaria, a algu-
historiadores e antropólogos na Nigéria,
como Abdulrúi smiú, Robin mas das pessoas e instituições que contribuíram para areahzação deste estu-
Horton e E.J. Alagoa, tinham teoria e factos, duma manãira que do. O Doutor David Birmingham e a sua farnília acolheram-nos em Londres
I de imediato clarificou o meu "*porio
próprio p"nrÀ"nio .*pi'i'ãï^""*, e contribuÍram para que da nossa estadia ali retirássemos proveito e ptazet.
incertezas persistenres que obscurãciam a rninha "
ur.ao rouÃãfãiJuao oo, Mme Marie-Louise Bastin Ramos deu-me a coúecer alguns dos materiais
Mbundu. Espero que eles concordem que a que se poderiam encontrar no Musée Royal de I'Afrique Centrale em
I
hisróriu aor úúur,ãïpla, ,".
sujeita ao tipo de análise de que eles fóram pioneÌros. Tenruren, Bélgica. Em Lisboa, acrescento a miúa graúdão aos agradeci-
Na ausência de uma ortografia oficialmente padronizada mentos de muitos ouffos que beneficiaram dos amigáveis conselhos e do
mbundu, tentei empregar uma versão da "ortografia
do Ki_ apoio prestável do Professor Doutor António da Silva Rego. Desejo também
prática das línguas exprimir o meu apreço ao Doutor Alberto lria, director do Arquivo Histórico
africanas", simprificada para se adaptar
às possibilidades dum alfabeto
padrão da língua ingres.a.o Ultamarino e ao pessoal desse arquivo e ao da Biblioteca da Sociedade de
ãivergenìia entre o rirtr.u sugerioo
pelo Instituto Inrernacionar.A.*i"r
de Línguas ã cultoru, Africanas
Geografia de Lisboa, que me apoiaram no exame das ricas colecções docu-
utilizei aqui, é a minha rtilização doiJ" francês para I qu. mentais de Lisboa. O Doutor Dauril Alden partilhou comigo, de modo mais
" repre-
indicar o som do que generoso, os frutos das suas explorações tanto nos arquivos como nos
sentado pol -r- na palavra inglesa pleasure. irto não poderá teva, a
ambiguidades, já que o ' j" inglês não ocorre locais menos bem coúecidos e contribuíu certamente para a educação de um
em Kimbundì. e ortograna
historiador noviço num novo país. A Sra. Asta Rose J. Alcaide, o Sr. Roberto
Bently e esposa, o Sr. Grayson Tennison e esposa, também contribuíram para
mffi,,ofer,i"unLanguagesandCultures(l930).ParaestaediçãoemPortuguês,
o propseguimento da miúa investigação enquanto estive em Lisboa.
O
il PREFÁCIO pnBr'ÁCtO xlx
Sua Excelência o Dr. carlos Garcia de Azevedo,
'lt Governador do Dis-
trito de Malanje em Angola e o Sr. Administrador José Manuel
Fernandes
soal de todos estes arquivos, demasiado numerosos para os poder citar
aqui, que de bom grado e com eficiência localizaram os muitos volumes
de Mota Torres concederam a autorização necessária
a trabalho de campo no concelho do
para levar a cabo o
euJla. o Sr. Eng..ìgrónomoManuel
de documentos que,requisitei. O Sr. Adjunto Sá Pereira, da Missão de

a António correia de pinho, director do Instituto oo-etgolaao,


t.nrilrrr"n,"
Inquóritos Agrícolas de Angola, e o Eng." Mendes da Costa, dos Serviços
Geográficos e Cadastrais, permitiram-me que examinasse documentos
a me concedeu facilidades de alojamento em instalaçoes
quais não poderia ter trabalhado com êxito no ,"io
ão Insiiiuto, sem as úteis que estavam à sua guarda. O Sr. Acácio Videira, da Companhia de
a {éy
dos Imbangala. para
oa dívida profissional que tenho para com os padres
e irmãos leigos
Diamantes de Angola, apresentou-me a informantes cujo conhecimento
contribuíu para completar os meus estudos. Estou também agradecido,
a da Missão católica dos Bângalas, peló trabalho quã
realizei na missão, a
d1h1 família e eu jamais poderembs retribuir a gentirezae a cordial por muitas razões, a Michael Chapman, ao Dr. Luis Polonah e esposa, ao
D pitalidade do padre Alfredo Beltrán de otaloia,
do padre José Luis
hos- Sr. Peter de Vos e esposa, ao Sr. Richard Williams e ao Sr. Lester Glad e

a Rodríguez Sáez, de Esteban Arribas, carmelo ortegas


e de José Luis Mar_
esposa.
Ninguém que tenha estudado sob orientação do Professor Jan
a tinez..outros que gentilmente contribuíram para o sucesso
investigações no terreno incluem o Sr. Adjunto vitor
das minhas Vansina poderá deixar de beneficiar do exemplo e dos encorajamentos
a e esposa' o Sr. Administrador Amândio Eduardo
António dos Santos
correia Ramos e esposa,
que ele dá aos seus estudantes e colegas. A sua larga experiência marcou
a pesquisa e a redacção deste estudo desde o seu início; a ele devo
a o sr. Administrador Adelino correia da Silva e esposa,
o Sr. Administra- originalmente a escolha do assunto. Inevitavelmente sente-se que, afinal,
a dor Frederico de Mello Garcês e esposa, o sr. Adminirt
Viller Salazar, o Sr. Albego Manuel pires, o padre pedro
uoo.sig;rd von
í.
o estudo corresponde a pouco mais do que a investigação pormenorizada
a Schaad e esposa' e muitos cidadãos do
Uría, o
euera. Evidentemente, a miúa
I_toya sobre uma ideia por ele mencionada uma vez, num contexto de algo muito
mais vasto. Os professores Philip D. Curtin, John Smail e Harold Scheub
a obra tem a sua maior díyida para com os Imbangala
nas notas de rodapé ao rqngo de todo o rivro e cuSo
cujos nomes aparecem da Universidade de Wisconsin leram os primeiros rascunhos e
a co especializado
cõúecimento históri_
fornecE os fundamentos sobre os quais foi construído
ofereceram as suas inestimáveis críticas. Durante os meus anos em Madi-

o qualquer um dos outros aspectos deste estudo.


uma eipressão especial de
son, o Professor Curtin, em especial, exerceu uma influência constante e
disciplinada sobre o meu pensamento e a minha maneira de escrever.
a gratidão vai para o sr. Sousa calunga e o
sr. Apolo oe Matos quã vieram
a aceitar-me, segundo espero, como colega de profissão. Uma estadia de um ano do Professor Steven Feierman na Universidade de
I Em Luanda, o falecldo Sr. Eng.9 Agrónomo Virgílio
gentilmente pôs à minha disposição or *.urro,
Cannas Martins
Wisconsin, como professor visitante, deu-me a oportunidade de beber da
sua visão profunda e das suas agudas capacidades analíticas; ele
D gação científica de Angola. A Dra. Maria
do Instituto de Investi- orientou-me para muito do material teórico sobre formação do Estado.
o Angelina Teixeira coelho aju-
dou-me pacientemente a abrir caminho através da Se outros encontrarem algo de si próprios no meu trabalho, a minha falha

I tação do Arquivo Histórico de Angola e forneceu-me


vastíssima documen-
orientação e
em não reconhecer explicitamente o seu contributo não resulta de uma
falta de gratidão. Nenhum dos citados é responsável por qualquer
I assistência de muitas outras formur; u ,uu ajuda generoru
o, ,"u, fraqueza que possa restar e aceito plena responsabilidade por todas as que
Ãquitecto "Fernando
t conselhos abriram novas rotas de pesquisa. o sr.
Batalha e o Dr. José Rerrinha gentímente partilharam existam.

t incomparável familiaridade com


os frutos da sua
o purúdo angolano. o faiecido
A pesquisa nem sequer teria tido lugar sem o generoso financia-
mento do "Foreign Area Fellowship Program" de Nova lorque, que me
t Dr. Mário Milheiros dispôs benevolameìË do seu
a familiarizar-me com os arqúvos de Luanda.
tJrnpo p*u -" u;uo*
Desejo iurnïe- agradecer
permitiu viajar para a Europa e África e gastar, na preparação da disser-
I ao Padre António custódio Gonçalves, director do
Arquivo da"câmara
tação original (Universidade de Wisconsin, 1972), mais tempo do que, de

t Eclesiástica e ao vice-presidente Ramos do Amaral,


da câmara Munici-
outro modo, teria sido possível. Contudo, o Programa não tem relação
com as conclusões expressas. Estou também grato à Universidade de
t pal, pela autorização concedida para consultar
as colecções da Biblioteca
e do Arquivo da câmara Ecresiástica e a Biblioteca
dá câmara Munici-
Virgínia pela boÌsa de investigação do Wilson Gee Institute e os fundos
I pal' o coronel Altino A.p. de Magalhães deu-me
a conhecer o Arquivo
Histórico do Quartel Generar. Tenho uma especial dívida
adicionais que apoiaram a preparação do manuscrito revisto. Glyn Hew-
son, Beth Roberts e Paul Zeigler permitiram que eu beneficiasse das suas
, paÍa com o pes- especiais competências.
I
PREFÁCIO

Apreciei o olhar atento e o bom senso dos editores da


clarendon
Press na preparação do manuscrito para publicação.
Embora as notas de
fd1pÍ já não estejam de acordo con' o estiio preferido nos textos
históricos' aceitei a forma mais económica sugËrida peros
editores,
reconhecendo as actuais realidades da indústria editorial.
A minha maior gratidão pessoal dirige_se, evidentemente, à minha
esposa Janet e aos meus, filhos, que seguiram de
bom grado os trilhos, Índice de Mapas
por,vezes sinuosos, que levaram à forma final deste
ruüUho. De algum
modo Janet encontrou tempo para dar conselhos editoriais
valiosos, para
além de manter a famíria em funcionamento, e a ela pertence
uma boa
L Geografia dos Mbundu e seus vizinhos (c. 1970) 33
parte de quaisquer louvores que este estudo possa
vir a merecer. III. Autoridades lungana Baixa de Cassanje (século dezasseis e mais cedo). . 7l
m. Subgrupos Mbundu e instituições polÍticas anteriores ao século dezassete 77
tV. Expansão do Ngola a Kiluanje (antes de 1560). . 80
J.C.M.
V. Kulembe e Libolo (c. secs. XV-XVI?) 9l
Londres, Fevereiro de l9i5 VL himórdios da história dos Songo e'dos Mbondo 107
V[I. Expansão do reino Mbondo do ndala &isaa e estados subsidiários
(c. século dezasseis?) ll0
Vm. Dispersão das instituições políücàs Lunda (antes de c. 1600) 141
IX. Os Imbangala e os Portugueses (c. 1600-1650). 193
X. OslmbangalaasuldoKwanza(séculodezassete)...... 2ll

Índice de Figuras

L Uma genealogia nasendo reptesentatwa. . . , . l:7


U. Diagrama mostrando como as genealogias se combinam para descrever
um reino. 20
m. Diagrama esquemático da estrutura e inter-relações das genealogias
históricas Mbundu 22
ry, Inter-relações dos títulos ngola. , 85
V. Genealogia ilustativa das alegadas origens de antigos títulos políticos
Lunda. .

Indice de Quadros

I. Cronologia do ngola a kiluanje


)
t
I
t
I CAPÍTULO I

I Introdução
I Abreviaturas utilizadas nas Notas de rodapé
D À medida que as modernas nações africanas caminhavam para a
t e na Bibliografia
independência política, nos finais dos anos 50 e no início da década de 60,
I AA
A.C.E.
Arquivos de Angola (Luanda)
Arquivo da Camara Episcopal (Luanda)
os historiadores davam o seu contributo buscando no passado africano
precedentes que justificassem a capacidade e o direito dos Africanos
D ACU Annaes do Concelho Illtramarino (parte não entrarem no tão longamente esperado "reino político" de Kwame
fficial)
D A.c.s. Arquivo Geral, Salamanca Nkrumah.r Eles encontraram abundantes provas nos impérios sudaneses,
t A.H.A. Arquivo Histórico de Angola (Luanda) nos Zulu, nos estados da região interlacustre, e nos reinos da savana, os
quais se tornaram mÍìrcos pontuando o ensino e o estudo da Flistória
l A.H.C.M.L.
A.H.U.
Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Luanda
Arquivo Élistórico Ultamarino (Lisboa) africana até aos nossos dias. Todavia, todos eles se achavam em aparente
D Ajuda Biblioteca da Ajuda (Lisboa) absoluto contraste com áreas "sem Estado", vagamente apercebidas nos

I A.N.T.T.
AMC
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa)
Annaes Marítimos e Coloniaes (Lisboa)
interstícios dos estados, e os especialistas deram por si a perguntÍìr porquê
e como as assim chamadas "sociedades sem Estado" tinham um dia feito
) ARSOM Académie royale des sciences d'outreme4 Mémoires N.S. (Histoire) a transição para as diversas formas de governo que preocupavam igüal-
mente os académicos e os políticos. Os seus esforços, que esta introdução
) A.Q.C. Arquivo do Quartel General (Luanda)

t BIICA
B.M,
Boletiu do Instituto de Investigação Científica de Angola
British Museum (Londres)
resume de forma bastante esquemática, apoiaram-se de modo eclético
num certo número de conentes intelectuais presentes nos círculos
I B.N.L.
B.N.M.
Biblioteca Nacional de Lisboa
Biblioteca Nacional, Madrid
académicos ocidentais, mas tiveram tendência para se agrupar em torno
de um dos mais antigos mitos do passado africano - a hipótese "hamita"
) B.N.R..J. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro - e frzeÍam derivar daí uma variedade de conclusões que o presente estu-
) B.S.G.L. Biblioteca da Sociedade de GeograÍìa de Lisboa do questiona, através da análise do processo de formação do Estado entre
) BSGL Boletim da Sociedade de Geografra de Lísboa o povo Mbundu de Angola.
CA Current Anthropology A primeira geração de historiadores profissionais envolvidos com
) CEA C ahi e r s d' é t ud e s afric ai n e s África aceitou como quadro para estudar a história política africanos os
) cssã Comparative Studies in Society and History conceitos basicamente dicotómicos de sociedades "com Estado" e
sociedades "sem Estado".2 Ao fazerem isto, eram levados a ignorar as
) EHA
IRCB
É,tude s d' histoire afric aine
implicações de viírios estudos antropológicos, os quais não só retiravam
Institut royal coloníal belge, Mémoires in 8."
) I.S.C.S.P.U. Instituto Superior das Ciências Sociais e política Ultramarina (Lisboa) ênfase ao contraste entre "estados" territoriais centralizados e sociedades
) JAH Journal of African History acéfalas "sem Estado", organízadas em termos de grupos de filiação,
JHSN Journal of the Historical Society of Nigeria classes de idade, sociedades secretas e coisas semelhantes, mas também
) MA M ensório Administrativ o (Luanda) mostravÍÌm que muitos, senão todos, dos "estados" africanos incorpo-
) MMC Musée royal de l'Afrique centrale (Tervuren), Annales, sér. in g."

) M.R.A.C. Musée royal de I'Afrique centrale


' Se aceitarmos que os manuais podem servir de buómetro das concepções básicas de uma geração
PA Portugal e^ Átrica
de historiadorei, os de Robert i. Rotberg (1965) e de Basil Davidson (por ex. 1959 e 1961, que se
) RIJ Rhode s Livin gstone J ournal referem ambos a reinos, apesar dos respectivos títulos) fornecem exemplos adequados.
': Apresentada formalmente pela primeira vez no estudo clássico dirigido por Meyer Fortes e E.
) SWJA Southwestern Journal of Anthropology
Evans-Pritchard ( 1940), na introdução.

)
I
2 TNTRoDUÇÃo
A METODOLOGIA
ravam uma" variedade. de fortes rinhagens
e outras instituições não políti_
cas, como elementos básicos da sua estrutura.J -gq€g$-.Pq*qma:pqsiç4q 4e ts !99@qic3 qa s-o_c-iodade.
Estes historiadores, estando mais relacionados rA, sóciedade sem
" F sta d o " seriaassinçonvç$i-d-4 .en_llqqdo " gúqEc- g
com a mudança do umts-érie jlq passos quase_impslrqpptív.ei$,,.gg*qq4ig-ggr-$lativamentÊ vão
que alguns dos seus colegas antropólogos,
acharam que a literatura
disponível oferecia pouca inspiraçao alterar o significado relativo das muitíssimas estmtu{giq, ôënúãiãatÍas o--
iara ãs ajudar u *unàj* asiectos ae
desenvolvimento e transformâçaonos ,einos que
eles estudavam. A maior +tq"f@J.S9lF99-o",-
encontram na maioria das culturas africanas.s
sociais .
P:]gTLgg{-g
parte contentava-se em explicar as "origens"
dè um estado lpu,u ura. u trr_
minologia, de certo modo excessivameìrte simplificada, ue eu considero como um
mais proeminência na lirerarura) e depois nao luáffi.iu.o* novo e impoÍante ênfase no estudo da formação do Estado em África,
quaisquer mudanças posreriores nas instituições"onr"iuiuããr"r"u", revendo os dados sobre os Mbundu da região noroeste de Angola, povo
assiá
o contraste evidente entre os estados extraordinariamente "úú"t..iour. que vivia numa pafre do continente até à data pouco atingida por estas
conhecidos dos historiadores, e a superficiar
complexos, reviravoltas de inovação. _O t!{gj: lg.1gglg qry19 algpn! dos .
sem quaisquer instituições p-olíticas do
"simplicidad." o" .ãJ"dud., Mbundu construiram yglladas "rtq$
esrruturas políticàs dürúte os séôülôs que
tipo que era familiar aos ocidentais, -
colocava nas mãos dos analistas o dilema p-recõõer@lêC i mèmo ao péQúèno è ítãd;1;b;-
à. tentu,
uma forma de sociedade se tinha transformado
é que
na outra. eau pra"nrr,", o "*pt.r.ã.o iüsïèïïê-Àn gõiãõó s*4 _yirg-s q[.q9 ;ç.ïiô- ÌV ii. S o- rrudo
ïisìffico,ëmonstrã ou sugere, como as peiòoáô'ôiganiiaram "noo estados "
no
vazio, a maioria das primeiras expÌicações
apoiou-se
cialmente "oatastrófrcos" de iormáçao ào Estado: essen_ .;;;;."*"*
'"onquirtuoor", quadro de uma estrutura social e intelectual particular, mas tem pouco a
migrantes, secessões, reacções defensivas, ver com imaginárias taxinomias ou com a construção de pgras genera-
etc. preencheram a literatura, à
medida que sucessivos especialistas se juntavam lizadas sobre o "processo". Estas últimas tarefas ficam mais bem entregues
na busca de uma forma qlnas mãos competentes dos antropólogos. No_ eqtaqrql_.lggdg_.gp_g$Igo
de relacionar sociedades acéfalas "sem
Êstado,, com as centralizadas for_
controro político e social que se observavam histórico sobre africanos que não usam a escrita, necessariamente toma
T"r,9: nos clássicos estados '
Oóí.éïü,.Offiios, dè fórmq egteti-
da Africa Oriental e Ocidental conhecidos
nessa época.a
uma nova geração de historiadores da África'ociãentat
t
\'i-
'!P " q--ççp"9rernos-.t ç-om-s-abedona,.c,"em gist-a a explicar o- pgnsa-
í:f "ã
_p_9nto 9 q
dirigiu recen-
temente a atenção dos académicos para
direcções que eliminanï o antigo "@iíïêsôióïer l9_-._dg-s"..-c_qnsgutores de estados Mbundu.
contraste entre "com Estado" agúmâs aãs diversas formãï de'
e "sem Estado" e, concomit**-"n,", "instituições de tipo estatal" dos séculos XVI e XVII, em termos que tor-
reduzem a necessidade de teorias catastróficas
para as origens dos estados.
Eles reconhecem oue**ip.[!giE9-ei-{9_lip.9-gsjgB_l:_Ep-:co4ce1io niÌm a experiência dos Mbundu comparável à de outros povos noufos
gg9 eg _ locais de África. Poderá igualmente sugerir os modos como cada institui-
FÈÌcni-ra neo derinirïõ .,'õ;;,o);*i#*
gry sociedades anreriormenre
ção transformou o meio social e político no qual floresceu e, simultanea-
olhadas como "seú Ës1aao; è"qiíê
-Túitâs Ì'Ë;ffi=b=iã,,n*#taï"ï;;a
-
ï:::f ::lp$g911. .t_ti3=91ú" o.rrà, inútuiç0",
* mente, foi transformada por ele.
-A
questão básica, para fins comparaüvos,
-ve23 pode ser formulada*assirn:: comoZïue fgiúF
cotLoE; que foram 6rmãffirInaoas rnstrucoes
instituiõõãí
--.J---.
simïr
slml- --*---
' E E Evans-pritchard ,t9"1g:,1^9j91 e A.w. Southhalr (1953) rinham
anreriormente fornecido "_lg"jg*9çao*ç-olt:gts"o_s@rÍ9i9g{up-oqge-fl ççap
monografias que nào só Drovavam o pouco
contraste enÈe ,,com Estado,,e ,,sem Estadã,,, fortemente autónomos, no caso dos,\{Lq1g!g_de Angola? Esta formulaçãò
também descreviam sisremas em procèsso como %
de transição'Jis_e^gurda para a primeira forma.
tribuição de Audrev Richard emfin;;li;il:Ëi,lï"o,f trs+_oi_.encionâva, mas não
A con_
punha
do problema pretende deixar para mais tarde a necessidade de uma
relevo, o paper dai rinhasens na poìítica aors.^úì]p"i", em
posição das rinhaeens nos*reinos rirui, c..pr."víiïõiì)ïrá;;i; q"" ,.. definição de "Estado" exacta e a priori, uma vez que todo este estudo
-.%.*.
a".rì*úiàìrì*u"r.n,.
da" Jan vansinaÌ1962a) mosrrou a grande u*iãuã"ìË roi iuurìníãjá ãËïàilà"ua"qru_
documentadas se relacionavam com as suas p;ilã;ilËd;ruïïïritr.u,
uiu. ja jepresenta, em certo senúdo, uma busca de uma identificação empírica das
partes componentes. Mas foi só com
(1969) que a arencão dos antropórójãs";""Ë;,""õli|iìamenre, Méyer Fortes 'estruturas políticas I Mbundu com base na sua experiência histórica.
para a questão dos"estados
linhagens. Enrre oi antr"noroeo.irãï;il, ê,;,;ü;ïüündier 0970) estáva céptico acerca dae
dicotomia que prevaÌecia ôntre'os-seus colegas Talvez os estados Mbundu venham a contribuir, em última análise, paÍa a
so apaÍeceu
uatãnL*l,u. um aeuat. aiurgaaïïãüi"ï qu"r,ao
em Franca em r973 quando-claude i-ãìir.
rrsz3iï1""ì-tïiiã."ëïó <rs73) definição universal que mais alguém veúa a dar do "Estado", mas a medi-
desafiaram a prevalecènre associaçãã l;; ;;*;;dï",,.r*ururu, lgroíso modo da, considerável, em que os,estados Mbundu foram condicionados pela
;i"ï;il"Str É.,':i:::*"
"sòci"aaaes
"om il Ê;i;dd e a identificação
"l"menrares,,
de "esrruturas com-
' ilustrativo das teorias corentes no início
dos anos ó0 aparece em Herberr Lewis ' paí
Refro-me particularmente aos recenres trabalhos de E.J. Alagoa (1970, l97I a, 1971b), Abdu[úi
|]ïd;:"nì" Smiú (1970), e Robin Horton (1969, 1971). Steven Feieiman (1974) aprçsentou'abordagens
prçsgntou abordagens
diferentês, mas igualmente impoÍantes, para á história antiga dos eìtados aã Ámõ" Oiónia.
rNrR.oDUçÃO
O "MITO HAMITA" E O SEU LEGADO

sociedade na quar existi4am, mantem-se como


um aviso contra definições maioria dos estados e peÍmaneceu até à mudança ("declínio") que
abrangentes' que não conseguem ter em conta
os aspectos da sociedade recomeça durante a conquista europeia no final do sec. XIX.'o
ditos "não-políticos".
Áfr.rça veio as sim a
A-t"tgg9gr-ee41l- -&.L!44çgp- do- *E-qtado**ç!q
-da
O "mito hamita,, e o seu legado jgrgl4"rgg--.-bgee{"+'{.J-qla,s.!'eir9-9"-p-9**999-ipqg-o"! qYe
'mpT-eÌT-iT;
os primeiros analisrtas da formação do Estado em tìtuições estatais plenamente desenvolvidas q'g?+Pol9ses'1t919-9_-91p-aci:
África confiavam "*iaoc; iüü"q"lrlifi,s*11!,gsiiüúas potitiòãi"baiìôas
excessivamento em elaborações teóricas traçadas "o;n
çfr]4 aïtëiãçôes
a partir das simplistas estabelecidas no momentó oa "conquïíiâ".-"Úmâ tal têoiia recebeü úú"
suposições dos Europeus a respeito do que
então era olhado como a ïëfõïÇo, que nãô'fiíi"iiëqúènti, dó-õôïtilüã'o superficial de muitas tradições
"África tradicional". Éoss"m quui, rorr"À
airicutoaaes práticas de reen_
a's
orais africanas que sustentavam que "o mundo tal como foi criado é o
contrar dados históricos globais sobre os remotos
períodos em que se con_ mundo tal como é hoje".'t Em resultado disto, poucos dos primeiros histo-
solidaram os mais coúecidos estados africanos,
a maioria dos primeiros riadores perspectivaram teorias mais complexas da formação do Estado ou
historiadores permitiram que o pano de fundo intelectuaÌ'europeu
imperasse, quer sobre os factos conirecidos olharam de modo sistemático para a evolução das estruturas do Estado
quer, por vezes, sobre o senso através dos tempos.'2
comum' quando muitas vezes colocavuÌm, na
bãse dos antigos reinos, O "mito hamita", hoje em dia mal-afamado,fazia prever e continha
grotescos "elefantes, à falta de cidades".6
uma vez que os antropórogos de em si estas correntes de pensamento e, num certo sentido, forneceu a base
vários credos se encontravlm entre os primeiros
especialist"as ãurop"u, u sobre a qual a maioria das primeiras histórias dos estados africanos foi
tomar a sério as civilizações Oa África subsariana,
u. pr._irü, qu" construída.'3 Certamente, iá não é necessiírio refutar as conotações racistas
estavam subjacentes às suas obras tiveram,
no início, u .uio. influência desta teoria, que foram postas em evidência de vários pontos de vista,r'
sobre a questão de como os estados tinham
fundamentais das duas principais escolas
começado ;
Àfrr;;.;r'ia"iu, mas pode ainda ser útil considerar o "mito hamita" como o protótipo de
da etnografia europeia do perío-
as duas guerras,r a ãscora da Kurturkreise,
viírias versões posteriores e mais subtis da mesma lógica de formação do
9g^ "l*"
difusionista, representada em África por Seligman
históriËo-.ol*rul ou Estado. Na sua forma original, o "mito hamita" tendia a fazer coincidir
e Baumann e wester- todas as "civilizações" em África com grandes estados centralizados e
mann-,t e aantropologia social funcionalista
briìânica descendente de Mali_ argumentava que
nowsky e Radcliffe-Bro1vn,'foram as que tiveram
maior efeito. A procu- à parte as influências semitas relativamente tardias (...) a civiliza-
ra pelos difusionistas de origens para certos elementos
sociedades esparhadas por todo o mundo, "*i"-u, de ção da África são as civilizações dos Hamitas, a sua história é o
urroiiudu a soa p.eait"cfâo po, registo destes povos e da sua interacção com os dois outros
migrações que seriam responsáveis pela propagação
desses erementos, substractos populacionais africanos, os Negros e os Bosquímanos,
levou os historiadores a aceitarem, p*u ur origeÃ
dos estados, ì"oriu, quer esta influência teúa sido exercida por egípcios altamente
baseadas na "cataclismo", geralmen-te sob
a forma de ,,teoria de con- civilizados ou por pastores mais selvagens, tal como são hoje
qüista". o ênfase dos funcionalistas na
integração
de operar das sociedadeS, por s€u Uào,
-ã"i*uuae no harmonioso modo representados pelos Beja e os Somali. (...) os Hamitas que
pouco espaço para a
mudança e condicionou. os historiadores presumi-re.
a qo" u'o pi.iooo
essencialmente a-histórico de estabilidade Os evolucionistas neo-marxistas têm tido relativamente pouco ti dizer a respeito da formação do
se seguiu I runoaçao aa Estado em Áftca, devido à óbvia impossibilidade de aplièação do "modo de produção asiático" às
condições de África; ver por exemplo Jean SureçCanale (1964). Revisões recentes sugeridas p{r
Catheiine Coquery-Vidrovitch (1969), para reduzir a dicotomia entre "sociedades com Estado" e
Jonathan Swift, On poetry: A Rhapsody(London "sociedades sem Éstado", procuram pressões locais que possam ter levado as estruturas do Estado
1733)linhaI77. a formarem-se. Emmanuel Tenay (tSZ+), embora ainda tendendo pam subestimar o potencial
só muito recentemente os evoruciònistas-curturais
sobre.Africa. Roben F. Stevenson
;;.;; influenciaram os escritos históricos político e económico das sociedades baseadas em linhagens, começou a integrar os grupos de
rúü""iiì.ì ffSOS) i.j"iü"'"ipji;i;; filiação na análise marxista dos estados africanos.
primitivo
ocuparíìm-se do problema"-õ"í"0
e'r.!*Íç1ïõìãi;t:il:iï,ffillïïffiïIi:ï:ïÍ:i3j"l": Jan Vansina (1965), p. 105.
dâs origens ao.etúo í"iuluutn"ttte
Em Honon (lg7l) oodem detecïar-se a dois casos africanos clássicos.
i-"ïüéiàìii indirectas (por exemplo de R.L.
l2
Lloyd A. Fallers (1965) ilustra lindamente a convicção prevalecente de que a "mudança", ou pelo
"rg"t"ã!
pressao popu-racìã;"i';ï";;ã" menos as mudanças visíveis, começaram quando a influência euroPeia penetrou.
l*:::":"0::,1_:11ir: ::p
uhaÍtes c' seligman (1957).
do Esrado ( re68)).
Hermann Baumann e D. wËstermann (1g62). para Seligman (195?) deu a formulação clássica à ideia, presente na tradição cultural europeia desde
ver sobrerudo H. C. de Decker ( I 939).
os Mbundu, longã data, de que um grupo vagamente raciaVcgltural/linguístico conhecido como "Hamitas" se
A maioria dos estudos em inglês qntellgrgs a 1970, incluindo expandiu, bem como muito da sua cultura. pela Africa subsariana.
representam variações sobre as teorias básicas -'-' Fortes e Evans-pritchard (1940), J. Greenberg (1949), St. Clair Drake (1959), R.G. Armstrong (1960), B. A. Ogot (1964), e Edith
aesta escãia
Sanders (1969), para citar apenas algumas das mais sistemáticas críticas.
6 rNrRoDUÇÃo O *MITO HAMTIA" E O SEU LEGADO

chegavam eram "europeus" criadores de gado _ chegando em Despido das suas características racistas mais susceptÍvcis do
ondas sucessivas - melhor armados e oe inúigência mãs objecção, o velho mito "hamita" obteve uma renovada respeitabilidadc om
viva do
que os escuros Ìrlegros agricultores. (...)rs finais dos anos 50, sob a forrna de uma remendada "hipótese de eqtado
sudanês", apresentada na primeira síntese moderna da História de África.D
Para a história das rorigens do Estado, a vívida imagem De acordo com esta argumehtação, uma "civilizaçío" de origem vaga-
nansmitida
por seligrnan, de "Hamitas" criadores de gado, brandindJlanças, mente egipto-sudoesb-ãsiática difundiu-se para grande parte da África
descen-
do sobre populações de agricultores prácidos e broncos, encoia.iou sub-sariana numa data remota e trouxe com ela os primeiros reinos cen-
os his-
toriadores a aceitarem a hipótese do "Estado conquista', ,"gunão tralizados em larga escala que houve nesta região:
a qual a
maioria dos estados africanos teria resultado da imposiçao-rle
instiúçoes
estrangeiras sobre os indígenas agricultores. ,r, prãcurâ de O estado "sudanês" era essencialmente uma excrescência parasita,
origens não-
africanas para os estados do Sudão ocidental já tinha levado prãcúmaaa alimentando-se da base económica das preexistentes sociedades
a
descoberta de Judeus de tipo europeu no, *i"purrados dos de agricultores. Para estas sociedades ele contribuíu com determi-
reis do Gana;
a derivação de todos os estados sudaneses ocidentais posteriores (Mali, nadas ideias novas de organização política, e certas novas técni-
Songhai etc') a partir dos precedentes gâneses disseminava cas, nomeadamente no campo da actividade mineira, da metalur-
largamente a
inspiração estrangeira por toda a África ocidental.r. Historiaãores gia e do comércio. Os seus propagadores mais antigos paÍecem
das
regiões dos Grandes Lagos, da África Oriental, com ter-se movido para sudoeste a partir do vale do Nilo, e ter-se
uma justificação
apenas um pouco maior, baseada na clara associação estabelecido, provavelmente com a ajuda do cavalo e de uma
dos govàrnantes do
sec' XIX com o gado, aribuiram origens "hamitas" ao Buiyoro cavalaria militar, entre os povos agricultores situados imediata-
e a todos
os outros estados alegadamente derivados dele.rz os "Harútas" mente ao sul do Sara...lmais tarde] os primeiros mineiros e
irrompe-
ram também pela história de outros reinos tão para sur como comerciantes de marfim atingiram a região dos Lagos, o Katanga
a Rodésia,
mas basta mencionar aqui um único exemplõ para demonsüar e a Rodésia, usando as suas técnicas superiores para estabele-
a sua
influência na historiografia sobre os Mbundu. um prestigiado cerem um poder político de acordo com os seus próprios padrões
etnógrafo e
estudioso dos Mbundu, ainda há bem pouco tempo em r962,reracìonava tradicionais...2'
,
as origens do mais poderoso estado Mbundu do sec.
XVI com o ímpeto de
invasores conquistadores avançando para sudoeste, cuja Esta hipótese conservava a premissa central do velho "mito hamita"
influêncià "civi- ,
lizadora", mesmo sem o gado dos clássicos "Hamitis", era
semelhante aos protótipos de Seli gman. rs
fortemente
ï - a de que forasteiros teriam t uiido o aparelho de Estado pua a África
fg,d_o,r_ estrs . invas,ql.gs _ fun- subsariana - mas substituindo "Hamita" por "Sudanês" em conformidade
S"9E:t de estados,. q.eiarn':Hqqltqq l,'lsemìiãi ou I'cu4i1aÍ,;G-r9g; i
com o efeito evidente da nova hipótese, o de fazer desviar o julgamento de
penharam papéis essenciaÌmente idêntiòos: trazgr i1qi1tg.içgSr valor que está implícito no contraste entre os estrangeiros a cavalo e os
pg[,iíg.r_
qg*E..3T"nte formadas para estabelecer os estados africanos que emer- agricultores locais. A teoria do "estado sudanês" favorecia claramente os
gram e vieram a ser os mais bêrütóífiètrcÍos'dos obseúâcíóiõô indígenas agricultores que, podia agora ver-se, tinham tido de sofrer a
*r"p-çJ,
-do qeç. XIX e XX. o rigor desta imagem excrescência de uma forma de estrutura política essencialmente
da ,eryr qge-1eflçctia os miros eu.opeus dà"srau;ìi#ilt;;;â;..*
vúàgeq iíó iêcüi" ,auat6s: estrangeira, imposta no seu todo, através da tecnologia mais complexa dos
sglg afric_ano. invasores, e não tanto pela sua superioridade racial. O velho "mito hami-
ta" dos finais do século dezanove tinha alcançado a respeitabilidade nos
r5 Seligman (1957), pp. 85, 140-1. meados do século vinte, vestido com a terminologia menos pejorativa da
r^ Mauric.e^Delafosse (Ì912), II,22-5,3g: E.W. BoviÌl
t196g), p.50: as primeiras edições de J.D. tecnologia em vez daraça.22
Fage (1961) p. 18. repetiam.esta noçào. Arnbuíu-se a fundaçào
aur u run-
iguatmente estrangeiros; smltn (tqzO), pp.1ãs ã-r"gr. "iaiua.ì-.ììãao-iÌãu.u
.
r7 !,afores
Veja os aurores citados em Ogot (196a), pp. lga_!.
'?o Roland Oliver e J.Fage (1962), pp.44'52.
'8 José Redinha (1962'1 e António Mirandai4ggalhaes (r934)_, pp.540-t. os chamados,'Jaga,,em '','Oliver e Fage 1962, pp. 51-2
Angola também foram exoliciramente identifiEado, òoro:'Éui,.iitu.', ,;,
pp.49-51, e a minha crítiàa 0973a). õ;;;;Ëi;rËË t rs+zl Uma observação também feita por Robin Horton (1971), p. 110, n. 47. O paralelismo entre as
"hipóteses sulanesas" e as teorias outrora conentes acerca da imposição do domínio colonial
'' Uma modificação introduzida por George p. Murdock .lgl9), p.4a. eurbp"u em Áf.i"a é demasiado óbvio para mereceÍ um comentário mais desenvolvido.
ll 8
INTRoDUÇÃo

|I ' -ã"e,..ï'ìiffiãinovaçãonasabordasenscroshisroÍiadorcsàror- |I triffiï:Lïïn.Hff,t"oi;:rXï::;ï::ffi.*i:"ÏiP",*tj /' "llt

II n*r*m*m*+**ffi 1
rnação do Eslado em Áftiá.
I "^pr"*;;-;;.;ffi;;ïï*". pÍofetas sem honra enrÍ€ os s€us p&€s. Além do mais, a idemificação do . nll
ilíl
*,rti"^ pie-J[ïtL
mudânças estrunrais na6 instiruiçõ€i
l'."r0". I sr-:s*9-*!-.èo_enho -!eg.a:g de qu3lquqr conexão_c"- e*!q"-ü '.
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ilil]
10 rNrRoDUÇÃo
A METODOLOGIA ll
Mesmo uma panorâmica sobre as teorias
relativas à formação do mais do que o estabelecimento de um estado já plenamenüe desenvolvido,
Estado tão esquemálic1 cgmo a que aqui foi apresentada,2e
mostra a con_ que se expandiu geograficamente mas não mosfrou qualquer evoluçÍto intcr-
tinuada e generalizada influência do "mito
hamita,, depois de mais de uma
década de modemos esrudos históricos -pJr#iu*.nr" na? Há, alguma evidência histórica de superioridade üecnológica assogiada
,"ur" Àii.u. aos fundadores do Estado enffe os Mbundu? Os dados mostarão, em con-
exposto em termos abertamente racistas
durante o final do século XIX, foi formidade com os estudos que prosseguem noutras frentes, que a formação
em princípio abandonado após a II Guerra
Mundiar, mas manteve a sua do estado no noroeste de Angola pode úer sido um procegso muito mais com-
influência sob a forma das hipóteses que
lhe estavam ,uU.;*"nt"r. Oo, plexo do que Íìs análises anteriores têm sugerido.
quarro principais elementos do "mito
hamita" presentes;;'áril;;aus na
maioria das abordagens posteriores a formação
- do Estado por conquista,
a identificação dos conquistadores como estrangeiros, A metodologiat3
a atribuição de Uma das evoluções que forçou os historiadores a abandonarem o
algum-tipo de superioridade a esses conquistadore;;;;;ü;ïo
gsta_ "mito hamita" foi um afastamento progressivo da História do género
do de forma rotal e instantânea com pouca
turas políticas
modificação posteriàiàu, .r*- Seligman, largamenie "conjectural", {üÍrs€ exclusivamento baseada nos
-
todos sobreviveram, de uma forma apenas
tigJarnente preconceitos europeus e não tanto nos dados, afastamento realizado no sen-
modificada, na "hipótese do estado sudanês',.
Apesar das tentativas feitas tido duma abordagem mais verdadeiramente histórica, fundamentada em
pelos críticos para chegarem a uma
interpretação mais sofisticada de mais e melhores tesüemunhos factuais. De muitas formas, a crescente com-
"migrações", "conquista'f e "origens,',ro os historiadores
continuaram
a ser plexidade na recolha de informação acerca do passado africano forneceu o
influenciados por versões das mesmas
ideias, mesmo depois de terem catalizador que forçou os historiadores a descartarem as teorias dos anos
abandonado a ideia de uma única fonte
externa para todos os reinos 50, uma vez que elas eram simplesmente impossíveis de ajustar aos factos
atricanos' os historiado^res estão.agora a
ampriar u ,uu oor.u ã" que emergiam da pesqúsa publicada duranüe adécada de 60. A dependên-
mudança nos estados africanos, à medida irouu, ou
que desenvorvem técnicas mais cia do historiador relativamente às provas, contudo, obrigam-no a exercer
apuradas de recorha e análise dos dados.
Mais recentemente, começaram
a um cuidadoso controlo sobre os métodos através dos quais ele analisa a sua
examinar com maior cuidado o significado
histórico oo, on'ìffi.nt", informação, especialmenüe se ele tenta desenvolver novas vias para
migrantes forasteiros que aparecem como
tendo fundado muitos reinos elucidar o conteúdo histórico da tradição oral, do testemunho linguístico, e
africanos.3t
dos materiais etnogriáficos. Uma vez gue antropólogos, linguistas e
A história dos mais
antigos estados entre os Mbundu fomece
uma historiadores, de forma alguma chegaram a um consenso universal sobre os
oportunidade paÍa testar mais amplamente
a apricabilidade de novas abor_ critérios para a interpretação destas fontes, especialmenúe quando lidam
dagens, actualmente em desenvolui."nto por
historiado." a" ouí^ purt", com o passado mais remoto, o historiador tem de dar a conhecer a natureza
de África. os Mbundu, nitidamente, aiJpuntram
_
de estruturas políticas dos seus dados tão explicitamente quanto possível, especificar os meios
amplas e complexas na época em que o, po.tugu"r", ai
teriam elas de facto sido fundadas p.to trpo "fr"glil, *u, pelos quais ele os coligiu, e expor a lógica em que se apoia a sua interpre-
clássico de migrantes conquis- tação dos mesmos. A presente secção refere-se à primeira e à última destas
tadores vindos do interior, c9-9 ur interpretações
literais ïe urÀrnu, au, responsabilidades.
tradições pareciam indicar?32 Será que a
hiìtória política Mbundu não revera Quem quer que se proponha escrever aceÍca da história política
Mbundu antes da chegada dos Portugueses no final do sec. XV[, incorre
" por Jack coody ( reó8), John D. Fage (re65),
na especial obrigação de explicar porque é que uma tal reconstrução,
[ï]lïiï,ïtïi,iï.'ôïJ;ï"taçào Daryil Forde
" I^"^l"^:t:"lle Vansina {19óóa)'.pp. l4-t8, e Lewis-fl966). os alerras expressos baseada predominantemente em fontes não escritas, pode pretender dispor
iïrii::ïrïlïïï "r?ïã-
contã.por toda a g"nt' ü"i'ãíue. ;iil;;;ã; #ï;',;,
nesres esrudos
M"""y de qualquer grau significativo de precisão sobre acontecimentos que ocor-
'' Feierman(1974):JanVansina(l97lb):JohnD.Fage(1974);eRexS.O,Fúey(1970)chamama reram há mais de 400 anos atrás.s Uma via para justificar esta abordagem
l:ïffi:"3#,'l#lras
dimensões oo c.e,ciÀenro ; ;;à;;; na formação e desenvorvimenro dos
'r os relatos ponuÊueses tíoicos que focam actividades
dos Europeus entre os Mbundu são: Arfredo Uso aqui o termo-'metodologia'para me referir à lógica que governa a minha interpretação das
de AÌbuquerque Felner r i933) eRrtpl-oàr!ìa.ììõ+"s:s;.ïa"ta
zo' ?6-4r, deu às Í'ontes escr;tu. u. Iaúã-iriluìàíü"i sirmingham 1t966.y. esp. pp. l7- fonte_-s para_a história Mbundu; o Prefácio contém um breve iesumo das técnicas uiadas para a
í.o'*ur, ao integrar materiais da tràdição, recolha de dados.
,Al:i;l"lff;:ï,il:ïljr,r"jï:,a;;ie.",ç"ã, üïiiìtããliïïü"a"i".-aia"Ëìïcïïii,".ïiJirs3+r. Christopher Ehret (1917).e David W._Cohen (1972) encontram-se entre outros estudos recentes que
exploram os limites técnicos nos dados sobre o passado africano longínquo.
t
D t2
INTRODUÇÃO
I é proclamar sem am,biguidades
A METODOLOGIA l3

I vez que a habituar regra de que


as limitações inerentes a este
nenhum
estudo, uma
irir,o.iuoo, pod;;;;;"rcrever
reflectem grandemente o estado das estruturas sociais e políticas
I a história completa de
-"T".
particurar' o conhecimento Í09.." upìi"u_.. neste caso com ênfase
Mbundu no momento em que elas (as tradições) são recitadas.is portan-

I natuÍeza do
da históriu *tigu dos Mbundu
testemunhg,
JriÃìruoo, p"ru
to, as tradições nunca se referem a indivíduos. Elas referem-se muito
mais, selectivamente, apenas a certas partes do passado, aquelas que têm
I vida Mbundu nos sécuroslyl
XVI e xvïì,
fracção bastante pequena da totalidade
da
oìuil ã,npr.*u.
analogias evidentes no presente.3e Os historiadores tradicionais
I Embora as tradições.torlgu'n
das
; q;;;"u"i"rd";"ir;
bastanre
Imbangala,oo de cujos testemunhos veio a maioria das tradições usadas
neste livro, encaram os séculos passados pelo prisma das condições
I .in
di.zer
s ti tu iç

u..ï.
ões política$ M"bundu,
i" onal id ade s. "â;-rêr"
ur*
"o"r"n-r-Jãu-ãvotuçao
sociais e políticas do seu próprio tempo, buscando as origens de grupos
#ï:#:::
a u-
. f 0""1ff #i"J::::::'
I ainda maior na medida".s
em que a maroril oos escritos
região tendiam a interpretar as anteriores sobre a
de filiação, de títulos políricos e de relações estruturais que têm
importância no presente.at Isto significa que os Imbangala tendem a con-
D tradições literarmente, como
protagonistas humanos ihdividuais; referindo-se a servar como "história" (isto é, aquilo que ocorïeu no período anterior à
à" ru.lo, a história oo, r"rounàu que
) pode recuperar (antes dos
documento, portugu"ses focarem
se memória vivente) apenas aqueles acontecimentos que estabeleceram
I duos) trata quase excrudivamente arguns indiví_
ã"-ir""rìr* (mais do que de reis), de precedentes sociais ou políticos que influenciam padrões de conduta

ì il:T:ïiffi:,'ii,i"ïlf,ï1;; Í"
ild;s
de auroridaa" I'ui, ao qu.
contemporâneos (por ex., as linhagens A e B olham-se como inimigas; o
portador moderno de um título político antigo desempenha um papel
) Excepto quando os documentos
da época revelam uma modesta
específico na corte do rei; a linhagem C ocupa as terras da linhagem D
parcela de informação sobre
I humano, na maioria das vezes
or ."ur, padrões de comportamento
.ii.iJ.i" dos Mbundu que é possível
sob condições bem especificadas, e assim sucessivamente). Uma vez que
os Imbangala vêem explicitamente a sua história como relacionada com
) conhecer trata apenas de versões
iàeanruoas o" ,"alaããã,""íì o presente, as suas versões do passado antigo adquirem uma caracterís-
) dos caprichosos rumosj p.r.uriu.ì*"*ï ,ur* tica atemporal sincrónica aos olhos dos historiadores letrados, treinados
dadeiros acontecimentod tristoricoì.-r"J"
."no, regulares, dos ver_ para ver o mundo numa perspectiva fortemente diacrónica. A palavra
) tal ou outra' é afectada ptror estl
rri*,ória, com base documen_
aminiãã "lntre pe.cepções estarísticas Imbangala que mais se aproxima do termo "história", musendo,az tem
) percepções normativas áa
rearidade, àistinção
ìu" à; ,iJã, a" rongu
e mais o sentido predominantemente sincrónico de "ligação" do que o de
data' um conceito básico oor
I untÃi0ffi, os quais distinguem en,,e "origem".ot Em muitos sentidos, os Imbangala vêem o seu passado como
aquilo que é, aquilo qu.". r:-acreditá pouco mais do que uma miragem do presente, ligeiramente refractada, e
) aquilo
,.i1ou é rúatado .oÀïr"nool
que deveria
terìido'* Mas no pr"rà"" caso, o encaram o passado como acontecimentos algo afastados das percepções
sado idealizado e o comnortamento fosso entre o pas-"
) r"ãl das pessoas vivas, mas ainda presentes sob a forma das suas consequên-
to-u-s" de certo modo maior do
que o habituar, devido à iaracterísti.u cias. Eles traçam uma analogia entre a quase-congruência do passado
uttu."nt, nn..u,iuu oãruãrnu"r.
) o que pode ser .onl.":idg u9"r"ì ou'|ïiri,i"ì-i'i*oià;ff;
) Mbundu, portanto, está lim.itado _,
u uÃã õ"rrp..riuu basrante idearizada Aspectos do conceito de Malinowsky sobre uma "Carta constitucional mítica" lmythical charterl
têm uma relevância óbvia pua o modo como os Imbangala usam a informação io6re o passado.
seteccionados do oesenvoì"ii,"","
)
S.lffi::rr institucional oàr-un,igo, Para alóm do tipo de histórias aqui discutidas, os Imbangala relatam uma grande quantidade de
reminiscências individuais que cobrem o período que rãcua ate 1870. urì'o uez que estas têm
Ì características completamente djferentes. das tradições históricas, e uma vez qu'e não dizem
As tradições orais Mbundu são
histórias de grupos (a nível geral, respeito ao período em estudo, não as incluo na minha análise.
local e familiar, para empreg*,
I
,;;;;ì;iu propostu por vansinar?) e
os Imba.ngala são rrm subgrupo.dos Mbundu que vive no extremo leste da área de língua
Kimbundu; são geralmente conhecidos como tendo as tradições com maior vitalidade que ainda se
podem encontrar na parte norte de Angola.
I
15 Cf,. Jack.Goody_e cf. Goody e watt (1963) que fazem norar (p. 310) que é típico do indivíduo que não domina a
Ian Wan
genealogias do Genesis se n -(1963), p. 30g, onde os auto escrita "ter pouca percepção do passado a nãò ser em termos do presente,,.
recenre que
;ïïï"ï01ï"i',ï,:i'ïâ:il ï:,ï.0,:ï:ll'ï3ì,H: o Íermo musendo pode assumir.uma forma plúral, misendo, noutros contextos, mas os lmbangala
,. 1.. llirh: "^'iJ*ÉÍ:".iiff: par.e9ga5á-lo-qpenas no singuÌar para se aproximar de "história" no senrido Letrad.o: vlja Chare-
lain (1894), p.21.
i*ilÏ'1,.:Ï:ïËr,Tlii!'ãiif,i:1,:':É: ;".',",',",:',ïJï'i3[ï:"i*^ïi"i:.",:ïï;::.lï:!,.ij o carácter simultaneamente diacrónico e sicrónico do pensamento Imbangala sobre g passado,
verianlser.,"-
:Ï:ïïi.s|ui.6:,|'?ïïf::ï,f ';ã;q;ir,';ue eras de racro eram. raiJ esrimarivas
,,dmeros passíveis de 9l9oltr3 paralelo duma maneira geral nas sociedades afiicanas ilerradas; Hãnon (196-f,'esp. pp.
" vun.inu l-çiü';. Ë,* serem verihcados , p^niiaã, ià"i., 176-8. Também E.E. Evans-Pritchard (1939), esp. pp. 212-14. A influência crtciat da auiênàiu da
"!iil?1,;.r, escrita, tal como foi reconhecida por Horton, mèrèóeu urn tratamento desenvolvìdo em Goody e
Watt (1963). Ver também Vansina (1965), pp. 1045.
14 rNrRoDUçÃo
A METODOLOGIA l5
(história) e do presente, e a semelhança que existe
en,.e os cacos par-
tidos e a panela anteriormente completa; ì- outru, ocasiões, cionados entre si estabelecidos num continuum temporal.a? Isto exclui
eres assi-
nalam por vezes que a história é como um espírito quaisquer cálculos de cronologia absoluta baseados exclusivamente no
ancestral (nzumbi,
plural jinzumbi) em relação ao antepassado quando conteúdo das tradições.s
vivo.*
Na medida em que os Imbangara visualiiam o passado
como"rruuì
pouco mais A influência das condições contemporâneas sociais e políticas sobro as
do que um aspecto do presente, a sua concepção nadições históricas Imbangala compensa a falta de uma cronologia exacta
do passado não se afas-
ta de modo significativo da de muitas outras sociedìdes levando-as a reter registos de alguns acontecimentos múto antigos. onde
que não domi-
nam a escrita. quer que as instituições teúam sobrevivido por muito tempo, elas tiveram
A íntima associação que os Mbundu vêem entre a história e a
üendência para preservar os concomitanües testemunhos orais dessas for,mas
sociedade e a política modernas, obviamente afecta sociais e políúcas muito anúgas (embora de uma daüa impossível de deter-
o modo como os his_
toriadores letrados devem interpretar estas tradições. minar no calendrário). Alguns dignitários agora encontrados,nas,triúagens
uma vez que as
tradições modernas tendem a incluir apenas aqueles Mbundu, bem como muitos dos próprios gnupos de filiação, claramenüo
acontecimentos do
passado que têm manifestações visíveis no presente, existem desde há centenas de anos.ae Podemos partir do princípio que as
elas não fornecem
uma série coerente ou integrada de acontécimentos tradições que dão contâ da origem destes títulos e grupos podem ter vindo
do passado rela-
cionados uns com os outros através de qualquer sentiào de períodos igualmente remotos, na medida em que as instituições não pas-
causal ou
cronológico. Em vez disso, referem-se a um conjunto saram por modificações estruturais substanciais nos anos deConidos. Evi-
de acontecimentos
passados, não relacionados entre si, que os dentemente, muitas instituições Mbundu sofreram mudanças substanciais no
modernos historiadores tradi-
cionais Imbangala implantam firmemente numa estrutura passado, e as concomitantes radições podem, correspondendo a isso, ter-se
narrativa arti_
ficialmente forjada, sempre que querem que os seus afastado das suas formas originais, mas no geral parecem ter sobrevivido
materiais façam
sentido, intuitivamente, para a sua audiência.s portanto, elementos suficientes para permitirem às rnodemas tradições fornecer um
as conexões
implícitas entre os episódios narrados numa exposição retato parcial mas confiável das estrutuÍas sociais e políticas Mbundu
histórica
Imbangala, aparentemente antecedentes e consequentes, datando de bem antes do século dezasseis. As fonúes documentais mostraÍr
raramente
correspondem a causa e efeito em sentido históricã, que as insútuições dominantes em finais,do sec. XD( (estados, linhagens
uma vez q"; ;;
acontecimentos que o historiador tradicional liga, para etc.) se tiúam estabelecido pelo menos em meados do século xvl.
obter efeito
dramático ou didáctico, podem ter estado sepúadôs As üadições modemas completas correspondentes oferecem; portanto, um
no tempo por
décadas.e Não se pode fazer depender as interpretações guia relativamenÍe seguro para os acontecimentos a partir dessa época.
destas ouoiçã",
do conteúdo literal da narrativa, para obter infôrmaiao
acercadas moti- A estreitâ associação ente as tadições históricas e a estrutrua
vações dos actores ou das condições que determinarâ. institucional da sociedade Mbundu intoduz ainda maior estabüdade nas
u.u dada acção.
Dois acontecimentos podem sequência numa tradição, não radições que sobreüveram. uma vez que as mudanças sociais e políticas
"p*"""i"m
porque um se tenha seguido aooutro no passado, cronologicamente, mas tendem a causÍìr o desaparecimento das antigas versões das nadições, as que
porquE alguma outra lógica (geográfica, estrutural, peÍmanecem pareceriam descrever, com um alto grau de precisão, os acon-
etc.) fez com que o
moderno historiador tradicional Imbangala os relatasse nessa tecimentos históricos relacionados com o estabelecimento das suas respecti-
ordem.
A visão Imbangala do seu passado, tal como é expressa nas tradições, vas estruturas. Assim, interpretações de Eadições descrevendo a origem de
consiste numa série de pontos, historicamente não ielacionados, títulos reais que ainda hoje existem (ou exisúam no fim do século xD() con-
extraí-
dos do passado; não há uma cadeia evorutiva de acontecimentos
rela-
É evidente a analogia da esautura da visão do passado dos Imbangala com noções de cálculo do
tempo observadas noutras sociedades; cf. a afimiação de Evans pritõhaÍd de quebs Nuer seàoòìam
Depoimento de Kiluanje kya Ngonga. em pontos de referência, mais do que.num continuum abstracto, para exprimir o t".po (ïel9;.
Entre_os Imbangaìa' a recitação da história tem muito A mesma noção foiparafraseadacoúo'tempg e.ve1tu.al" ["eventualìime"]
de uma actuação pública e, obviamente, os i,oro.r. eoc&t< iieo+j.
os.Imbangala, evidentemente, têm uma vüedade de outros sistemas dd cflculo oo temió que
hrstonadores tradicionais tenram moldar. a.s.ua_replesentação
gosìo aã, ,"ui ãüniÃ.'-lïìo u podem usar em função dos objectivoL Aqui interessam-me, especificamente, as percepçbes do
minha sensibilidade oara esra dimensão da históriâ Imu"n-jaú "o
pror"ssor Harord scheub da uni_ tempo e não o tempo no sentido Íilosófico.
ü;;i;; iïbïï'i.'++0.
.
versidade de Wsconiin; cr. rrercnilu em "o n. s. go.pt9p"g desenvolvi
Veja-se, por exemplo, os reinados de três antigos ."i, ponto_com alguma profundidade relativameni" u o,n aspecto das
huuniau aos quais se dizia que abarcaram -e:tg
tradições Imbangala, in Miller(1979).
apenas alguns dias mas que. na realidad€, goï"**i* pãi{uuse crnquenüa anos, de acordo com
,-
fontes documentais; Joseih C. Miller
Asit e-ísïg,,." '" com base nos testemunhos documentais (ver adiante). Beatrix Heintze (1970) descrcve uma esta-
biüdade similar entre grupos remotamente aparentados, a sul do Kwaàza, de ant"s ae i-ooo ate
cerca de 1900.
)
) 16 A MF,TODOLOGIA 17
INTRODUçÃO
)
) têm uma probabilidade
$e veracidade relativamente ala. A prova documen- e todos figuram nas árvores genealógicas que os historiadores tr.adicionais
al desa esabilidade, a( aqui deduzida apenas da lógig inerente às tadições Imbangala recitan numa clássica forma bíbüca.
I históricas ünbangala, re$ulta da comparação de tadições modernas com uma
'tradição Ngola a Kiluanje [um título político masculino] veio de Kongo dya
) de meados do jsec. xvllo que coresponde a essÍrs tadições em
Mbulu lum gupo étrico apresentado aqú como se fosse uma mulher]
quase todos os aspectos pelevantes. Mesmo onde mudanças polÍúcas impor-
) e geÍou NdaÍnbi a Ngola e Mwiji mwa Ngol4 Kangunzu ka Ngola
tantes' opemdas no cenüo de um estado, modificaran ; de ttil;th.ipal (que é do Negage [uma localidade no noroeste de Angola]), e Mbande
) transmissão, nadições paralelas lidando com os mesmos.dtulos podem con-
a-Ngola [todos eles únúos políticos mascúinos subordinados]'
servaras suas mals antigas formas, foradaáreanaqual.as modificações ocor-
) Mbande a Ngol4 agora rei em Marimba [Posto administativo por-
Í€ram; tais nadições arcaicas fornecem múas vezes bons dados sóbre acon- tuguês junto do rio Kambol, gerou Kambala ka Mbande e Kingongo
) tecimentos antigos que, . na fuea central, foram obscurecidos por kya Mbande. Kingongo kya Mbande gerou Mbande a Kingongo'
) desenvolvimentos posteriiores. A esabiüdade inerente às tadições pode por- Mbande a Kingongo foi para nganal(abarika Nzungani [isto é, tomou
)
tanto permitir a recuperação de dados que se baseiam nas fases de lormação uma múher desta linhageml e geÍou Ngonga a Mbande, Fula dya
de estados, mesmo daqueles com as mais turbulentas histórias.sr Mbande, Kamana ka Mbande, Ngola a Mbande, e Njtnje a Mbande'
f' A maioria dos materiais usados neste estudo incluem-se em duas Ngola a Mbande casou com Mbombo ya Ndumbu [uma mulher de
)
grandes categorias da çpresentação* da história dos Imbangala: genealo- oma liohag"- não identificadal ..'. Kabila ka Ngola gerou Kalnrnga ka
gias, ou os musendo prgpriamente ditos, e episódios narrativos chamados Kabila, Múi wa Kabila, Nzungi ya Kabila Ngola a Kabila... Aqueles
)
malundn (singular lunda)'2. outras fonnas da arte oral Imbangala contêm que acabo de nomear são os actuais soáas [tinrlares políticos Mbundu
I materiais úteis para : â Írecoostnrção histórica; nelas se inciuem vários recoúecidos pelo governo portuguêsl próximo de Mucari [antigo
géneros; como provérbios (iisabu, singular sabu), expressões de louvor Posto administrativo a leste de Malanjel.s
I' (hnnbu, sing. e plural), canções e outas realizações .air p*urn"nte estéti- O testemunho citado, que tem àtípicaforma do musendo Imbangala,
I
cas ou didácticas. o tempo disponível para a pesqúsa de campo não me deu pode ser representado em forma de rírvore genealógica como Se mostra na
I oporrunidade de recolher material sufrciente para permitir o úpo de sofisti- Fig.I. Embora tais "árvores de famflia" pareçam retratÍìr um processo de
cada análise crÍtica, necessária para retirar sentido histórico áe tal tipo de
I
fontes. como justificação parcial da miúa decisão de limitar a análise aos Ftc. I. Uma genealogia musendo representativa
I dois modos básicos de representação histórica, ela é coerenüe com uma firme
Kongo dYa Mbulu (f)
distinção que os Imbangala fraçam enüe, por um lado, os musendo e os
malunda e, por outro lado, todas as ouftas categorias de representação oral.s3 Ngola a Kiluanje (m)

As breves descrições que se seguem, de genearogias Imbangala e de narra- (mulhernão


tivas históricas, ilustram como elas dão corpo a aspectos do pensamento "offidea-
Ngola rulota Ngola Ngola ï mencionada)

histórico Imbangala, tal como acima foi exposto. ka Kingongo kya


Kambala (mulher não
As genealogias históricas, on musettdo. consistem em conjuntos de Mbande Mbande mencionada)
I

(mulher não identificada


nomes pessoais ligados ente si pelas relações convencionais de filiação e - Mbande a
da linhagem de Kabari ka Nzungani) I Kingongo
afinidade: pars têm filhos, maridos têm esposas, irmãos, filhas, sobriúos etc., '
Mbombo ya - Ngola a Ngonga a Fula dYa Kamana ka Njinje a
s Ndumbu (0 | Mbande Mbande Mbande Mbande Mbande
P. Joao António Cavazzi de Montecúccolo (1965). Umaanátise detalhada seú apresentada
t' no Cap. VL (o informante não
de que testemunhos históricos rclevantes podem ser pr"r"*ìdor, sob a forma de
-o_-çyrnenloroÍa da âÍea centÍal de desenvolvimento, é
aÍcarsmos, especificou esta ligaçào)
análogo ao que foi usado Dor Vansina
(1962b) para reconsrruir a antiga história do Rwanáq oú ÍïõnaenJiu aì, I

io-ãL'iú"utr,i"".
arcarcas aparccercm em regiões periféricas, Sobrc esta última tendênci4 ver Joseph (mulher não
GËenberg mencionada)
(t972), pp. t%-a.
i jl_"{_"qlr:l' tem aqui o.sentido de reprcs€ntação ou apÍesenração pública. A história orar Muhi wa Nzungi ya Ngola a
perante de-terminada assisrência e segun-do rcgrai prêdetermlnadas de Kakunga ka
I
lT_.:,,o1u11."n!!
naçao . U termo 'reprcsentação" adequado.(Ì.ID
pàceu_nos o mais
- ',ence- Kabila Kabila Kabila Kabila
t'i
o-termofoiconfirmadoemchatelain(1994),p.21;etambém sigurdvonwillersalazar(s.d.,c.
1965?) lI: 160.
ll
Testemunho de Domingos Vaz. í Testemuúo de Domingos Vaz
18 rNïRoDUçÃO
A METoDotocrA 19
ge-ração biológica, com casamentos e descendentes etc., de facto
referem-se exclusivamente a títulos políticos (no
caso das figuras mas_
Uma genealogia composta de títulos não revela nada acerca da
culinas) e a gïupos de frriação (as figúras femininas), cronologia absoluta do processo de construção do Estado. Não se pode
todos reõrindo-se a
instituições que sobreviveram até ao presente. Isto calcular com base no suposto tempo de duração da vida humana,,por
empresta à genearogia
uma qualidade sincrónica, a quar pode ser confirmada,ìomo exemplo, o tempo mínimo ou máximo decorrido entre a criação do título
o tirtoriudo,
tradicional fezno fim da passagem citada, referindo-se do ngol.a kiluanje e a posição muhi wa kabila. Um número descoúecido
a indivíduos vivos
que detêm os mencionados títulos. de representantes humanos poderia ter ocupado ambas essas posigões, tal
A genealogia tem efectivamente conteúdo histórico significativo, como todos os títulos intermédios, e cada um dos ocupantes, o primeiro, o
embo-
ra de um tipo específico e limitado. As relações
enne út'lo's poríticos ügados
terceiro ou o décimo, poderia ter concedido a posição subordinada indica-
como "pai" e "filho" na genealogia, indicam na esfera da na genealogia como "filho". Apenas é permitido EaçÍìr a conclusão
contemporânea que o
portador do título-"filho" deve ftatar o portador limitada de que a criação de um título "filho", necessariamente, sucede-se
do título-"pai'i1po.
Ndambi a Ngola relativamenúe a Ngola Kituanje) com "*"o,pto cronologicamente à origem do seu título "pai", mas em teoria este inter-
o ,Ësp"ito unaogo uo
que é devido pela progenitura humana ao seu pai valo pode variar de um ano, ou menos, até vários séculos. Nem isto impli-
biorógico/sociu. úÀte s"n-
tido, o poÍador do únrlo jrinior está poriticu."ìt" ca que os útulos de "irmãos germanos" (por ex. Ndambi a Ngola, M*tji
subordinado ao portador do
título senior. Historicarnente,.estas relações significam mwa Ngola, Kangunzu ka Ngola e Mbande a Ngola) teúam sido criados
t -ue- qi" o- o.*
pante do título-"pai" criou o título-"frlho", conòedendo-o mais ou menos na mesma época, uma vez que os ocupantes que sucessi-
em atgú o'o*"nro,
no passado, a um não mencionado membro de uma vamènte se sucederam no título-"pai" podem conceder posições subordi-
linhagem ftossivelmente,
mas não necessariamente, também um filho biológico nadas de igual escalão genealógico. Em geral, posições nos níveis senior
a"
era o portador do títuro_senior). A genearogia identifica
[oe*ïaquet" **po da genealogia tendem a ser mais antigas do que as que estão na base, por
a-liúagem quer pelo
seu próprio nome (ex. Kabari ka Nzungani), quer razões históricas, mas são conhecidas excepções suficientes para que se
histórica dessa linhagem (ex. Mbombo ya Ndumbuj.
pelo nome A" o,nâ ;,il;; considerem altamente duvidosas as inferências históricas feitas nesta base.
os ,,casamentos,, mostra_
dos na-genealogia rigam assim (sobretudo) úturos políticos ,,mascurinos,,, O facto de apresentar todos estes nomes como uma única e complexa
como filhos, às linhagens "femininas" como "mães;'; genealogia distorce ligeiramente o conceito que os Imbangala têm dos
a mrragem materna
detém o direito de designar os que vão ocupar a posição seus musendo, uma vez que eles recoúecem um certo número de árvores
de "fiIho; e assim üem
a posse do título, no mesmo sentido em que ar genealógicas distintas, cada uma correspondendo a uma instituição social
*ut iiiúug"ns tmuantata con-
os seus próprios membros. os mais velhos ou ,,tios,, ou política principal, como um estado ou um grupo étnico. A genealogia
lolam oa ínnagem
(makota, singular l<ota) acuamcomo guardiães acima reproduzida começa com um nome retirado de uma genealogia dis-
e conserheiros em relação ao
portador do título. tinta, semi-mítica e etiológica (Kongo dya Mbulu)'s e depois traça o desen-
Embora a maioria dos úturos esteja associada a uma volvimento de uma parcela do estado do sec. XVI do ngola a kiluanie
única rinhagem
"matema", é significativo que as posiçõei de maior através da linha principal da descendência "masculina" (isto é, política).
relevo, como a aoìgoh o
kiluanje,paraa qual muitas tiúageni podem designar, rotativamente, As figuras femininas nesta genealogia vêm todas de outras genealogias
o o"u-
pante da posição' não teúam qualquer liúagem independentes, que descrevem relações estruturais de linhagens gover-
específica (ou nome femini-
no) associado a elas (como uma "esposa"). Neste caso, nadas pelo ngola a kiluanje e os títulos subordinados a ele associados.
o ngora a kituanje
descende de Kongo dya Mburu, um nome representando Devido ao facto de os meus dados virem basicamente do extremo leste da
vagamenüe todas as
liúagens dos Mbundu setenffionais. Historiôamente, contuão, área etnolinguística Mbundu, não posso dar uma lista exaustiva de todas
uma genearo-
gia como a que acima foi citada deve ser lida como as genealogias de liúagem Mbundu, mas a estrutura regular destas
um registo diacrãnico da
dispersão da autoridade política derivada de um rei
a kiluarle. simultaneamente, a genealogia indica o
Mbundrïprin i 55 Utilizo o termo "mítico" no seu sentido técnico, referindo-se a acontecimentos que se acraCita que
"ipÃ, incor-
nome das liúagens "sot decorrem num peíodo fôra da história, atemporal, composto de episódiosdesÌigados, o perÍodo de
poradas no reino em associação com os tít'ros "Deus na ïbrrai', como foi descrito, por exeúplo, por M.L Finley ( 1965). Embora toda a "história"
confiados ao seu roitolo. sio_ Imbangala apresente certas características "míticas" de acordo com os padrões letrados_(magia,
cronicamente, a mesma genealogia é eqúvarente a etc.), os Mbúndu distinguem claramente entre a sua tradição etiológica e as genealogias históricas
um roteiro da organização
do Esüado, uma vez que especifica as áações hierrárqúcas musendo. Os nomes contidos nestas últirnas "existem" no sentido em que têm representantes vivos;
ente únios e, por os daquela não têm nem nunca tiveram. Se os Imbangala têm uma elaborada cosmologia expressa
extensão, enfe as linhagens a eles associadas. em tennos mitológicos, tal não se revelou no contexto das discussões sobre história; para os Mbun-
du em geral, veja Chatelain ( I 894).
D
o 20 INTRODUçÃO
A METODOLOGIA 21

I tradições sugere que devem existir uns seis ou sete conjuntos de nomes ao Mbondo do ndala kisua, o\ÍÍa para o império Lunda, outra ainda para o
o ì

todo, um para cada umrdos nomes que aparecem na genealogia etiológica estado Imbangala de Kasanje, etc.ss Alguns títulos isolados, não relaciona-
I (dos quais Kongo dya Mbulu é apenas um).
A forma internar destas genealogias de linhagem pode variar
dos com qualquer destas genealogias coerentes, sobrevivem como
remanescentes de estados antigos que já não existem' A sua separação das
I consideravelmente. Das três para as quais tenho informaçdò adequada, estruturas genealógicas invariáveis do musendo principal, liberta-as para
I uma apresenta certas características de uma genealogia segmentar clássica irem e virem nos outros campos genealógicos, de acordo com a fantasia ou
I na qual os grupos de filiação que a compõem estão articulados numa única
e abrangente árvore genealógica, que vai longe (doze ou mais "gerações,')
o desígnio de cada historiador tradicional; alguns destes títulos podem ser
datados de antes de meados do século dezasseis a partir das fontes docu-
) e de forma piramidal. As outras duas mosfram laços explíciior up"nu, mentais. Os musendo Mbundu podem portanto ser vistos como um certo
I entre linhagens estreitamente aparentadas, raramente ultrapassando duas número de conjuntos genealógicos distintos que se enquadram em dois
t ou três gerações em profundidade e saltando directamente destes níveis tipos básicos:
genealogias de linhagem, que mostram relações estruturais entre
t para um suposto antepassado no topo; esta estrutura assemelha-se à de
clã, com muitas linhagens de nível aproximadamente igual, nenhuma das
um
linhagens existentes e ao mesmo tempo revelam aspectos dos processos
I quais pode fraçar a sua exacta descendência a partir do fundador comum.'. históricos de cisões de linhagens que levaram à actual distribuição dos

I No entanto, a variação nas estruturas internas destas genealogias de


linhagem náo faz qualquer diferença para a sua interpreiaçao h[tórica,
grupos de filiação;
e genealogias políticas que, simultaneÍunente, mostram a composição
I uma vez que o mesmo tipo de "casamento" as relaciona a todas com as dos estados Mbundu e dão testemunho da evolução histórica desses reinos.

t genealogias políticas.t? O historiador tradicional individual, tal como o "bricoleur" de Lévi


Strauss,se idealizagenealogias compósitas, como a que está reproduzida na
I Ftc. II. Diagrama mostrando como as genealogias se combinam para
Fig. I, para ligar liúagens individuais a uma ou outra das esffuturas de
D estado, retratando estas ligações como "casamentos" entre títulos políticos
descrever um reino
masculinos e linhagens femininas. Uma genealogia etiológica dominante
I liga entre si os subgrupos Mbundu reconhecidos e relaciona os Mbundu,
I Genealogia etiológica
como um todo, a alguns dos seus vizinhos (ver Fig. III).
t (laçosfcestrais
fratícios)
(laços'4rcestrais
fictíiiqs)
Os episódios narrativos malunda, a segunda das formas usadas pelos
Imbangala para recitar a sua história, são anexados aos nomes' seja
I dos títulos políticos, seja das linhagens indicadas nas genealogias.o O his-
l toriador oral pode, depois de recitar uma genealogia, contar por suas
I próprias palavras muitos ou poucos episódios que ele queira escolher' de
um conjunto bastante estereotipado de episódios narrativos relacionados
t com cada um dos nomes que constam do musendo. Ele serve-se de um
ì REINO conjunto relativamente pequeno de discursos para compor um determina-
do número de pontos acerca das origens, direitos ou responsabilidades dos
) títulos ou linhagens envolvidos. Cada lunda explica a tazão de um dever
Para cada entidade política recoúecida pelos Mbundu existem
) genealogias políticas separadas, compostas por títulos em vez de
ou privilégio reconhecido, e o facto de o conjunto de malunda associados
ì com cada título serem em número finito e estereotipados, deriva do
liúagens; assim, existe uma para o ngola a kilianje, outra para o estado
t conrudo, estes agrupamentos de liúagens apenas de modo incipiente constituem clãs,
A Fig. III mostra as principais estruturâs políticas reconhecidas pelos Mbundu, representadas como
círculos na metade inferior do diagrama.
) que não descendem de. antepassados ãpóniriros distintos (várioi ug*pu-nto,
uma vez
ãirËi"n,",
Claude Lévi-Strauss (196ó), pp. l6-36.
nomes anrmaÍn descender do mesmo antepassado). Eles não têm ..toÌems" nem "ó.n Os malunda históricos constituem um subconjunto de um corpo muito rnais vasto de composições
t membros obrigações polÍticas signilicativaì.
ïgações sob a forma de diagrama.
impõem aos seus

..casa_
em Drosa. estruturadas de modo similar rnas não históricas (histtlrias de animais, histórias rela-
cionadas com temas domésticos, etc.). Châtelain (1894) publicou um certo número de malunda
l^lp_;Jlry:F Boston (1964), p. I 12, descreve um
) mento ' slmbóhco"sslmilar entre os lgala. Mbundu em Kimbundu, com traduções em Inglês.

I
22 INTRODUÇÃO AMETODOLOGIA 23

número limitado de relações formais que a maioria das posições mantém


com linhagens ou com outros ítulos.
eg
€sÊ Ao que parece, os historiadores tradicionais usam episódios naÍra-
sE
6 É.E
tr úvos similares, seguindo o mesmo padrão, para compor os mesmos pon-
ã s-ê" tos aceÍca de títulos e liúagens, ao longo de extensos períodos de tempo.
àÀ
oÉ.!J Èot
<s:() 3 Esta conclusão ressalta da comparação entre variantes, recolhidas desde o
Éq

Êbô
oo
ú4
!o< século dezassete até ao século vinte, de alguns dos mais bem coúecidos
nnlunda.Contudo, cada historiadot individualmente, pode empregar ima-
gens, metáforas, clichés ou enredos notavelmente diferentes, aplicando as
suas capacidades criaúvas para dar às palavras das suas representações um

a
valor tanto estético como histórico. A flexibilidade dos pormenores daÍ
o
ro resultante, nas variantes dos malunda, contrasta fortemente com a evidente
O.
d estabilidade do aspecto cental de cada episódio que, em cÍrsos que podem
0)
li ser verificados, peÍrnaneceu Constante através de décadas e, em alguns
ú
o- casos, de séculos, Em todos os casos coúecidos em que recolhas docu-
Ê€
a)í mentais ou testemunhos oculares de um acontecimento puderam ser com-
ì eE se paÍados com episódios narrativos posteriores referentes à mesma ocgrrên-
v
È
IE
õts
do =z
E- cia, os malunda preservam com precisão um núcleo factual histórico,
È oÍ
Ëe
(1)(a
mesmo quando os historiadores que recitam o episódio o rodeiam de uma
ì g€ ci\
13 .F
artística elaboração ficcional.6l Uma vez que o contexto de uma autêntica
ÉE
r€ o.o representação históricac, geralmente define o propósito do historiador
8a .98
.dt nadicional ao seleccionar certos episódios para incluir na sua narativa
(por ex., para reivindicar direitos de uma linhagem a determinado título,
:'òo paÍa estabelecer um precedente, para ensinar, para honrar um útular que
rs
ocË esteja presente etc.), e uma vez que o núcleo histórico do episódio narrati-
€9
È:o vo escolhido usualmente se relaciona directamente com os objectivos do
dbo
ú9 historiador, a análise da representação permite determinar (pelo menos a
nível de uma primeira aproximação passível de ser trabalhada) o signifi-
o cado histórico da maioria dos episódios narrativos. As probabilidades de
Fi
exactidão tornam-se um tanto mais elevadas quando um certo número de
'':
variantes do mesmo lunda podem ser comparadas, a fim de identificar a
E.
parte estável que reapÍrece em todos os exemplos.

Â-
EÈ È8. o'Refro-meaquiaorelatodoséculodezasseteregistadoporCavazzi(1965),testemuúoquaseocu-
É9-
rÈ>
;b
E6
i*, -5 maiunda dos séculos dezanove e vintã descreÍendo os mesmos acontecimentos; também
"
ôUi"tno, confirmação adicional a partir da análise de recolhas pessoais e relatos escritos de tesüe-
rJ.E muúos ocularcs dãs guerras de mèados do século dezanove, as_quais estavam a com€çaÍ â ser con-
s8 ËãË, gç-
$E úA^ de nouo sob a íorma de malunda na década de 1960. Oìúcleo estável do facto histórico,
10.
.g
to-
E- iËiE
Ë€FI ii^ U"ao Mbundu, pode ser comparado aos "core clichés" dbs intsozi dos Xhosa analisados por
ÉË-6
o-qÈ.9 o Y ilrold Scheub ttSiSl. n origeà da ideia de um núcleo estável rcmonta a lévi-Strauss;
o: 6:.: ã d ó€
Ë'
cf. J.S.Boston (1969), p. 36.
8E .0) E F E E

=
É3"8 =

Éi
E€
ó? Uma "reoresentacão histórica autênúca" só pode brotar, por definição, das actividades normais do
oouó eni socieaa'Oe, geralmente em conexão com dispútas legais ou outras ocasiões que fazem
-El i ãúú ú retuço"s forãais entre títulos e/ou linhagens.-Tais cirõunstâncias ocoÍÌem com uma frc-
ol
oJ
r
I ã'"*i" d" i; diminuindo grandemente.na Aúla moderna, e esta circunstância é responsável
trl I
fela situaçao de atrofia das tradições actuais'
24 INTRODUÇÃO AMEToDoLoGIA 25

As metáforas, os símbolos, até o enredo que os historiadores linhagem a pârtir do grupo de filiação do qual descende, traça a rota segui-
il tradicionais escolhem para esclarecer o significado de cada lundn aos sets
Ì
da pelos membros da liúagem "sobrinha" para chegarem até ao seu lar
ouvintes, pertencem maisrà rica e complexa reserva dos temas artísticos e
actual, e relatam as condições sob as quais o grupo recebeu os direitos de
intelectuais Mbundu do que à história.* o nível artístico e intelectual
ocupação das suas terras actuais.6' Outros malunda esclarecem as relações
dos malunda pode fornecer um terreno fértil para o tipo de análise estru-
da linhagem com os seus vizinhos, defendem a sua reivindicação do con-
turalista que provou ser válida na compreensao dos prã."rro, intelecruais
trolo de títulos potíticos e assim sucessivamente. A importância funcional
e das cosmologias dos povos iletrados em todo o mundo, mas o facto de
óbvia dos episódios narrativos na legitimação dos direitos da linhagem ou
as narrativas históricas dos Imbangala apresentarem esta dimensão a um
do título não obsta a que seja um facto que a maioria, senão todas, das
certo nível não elimina, a um outro nível, o seu valor como fontes históri-
cas.ú A comparação dos malunda com fontes documentais demonstra,
actuais relações se baseiam em precedentes históricos, os quais podem -
com cuidado ser identificados através da análise dos malunda. O pre-
-
empiricamente, que o conteúdo histórico está presente; por outo lado, a
sente, como dizem os Imbangala, é como os ossos de um antepassado, e
lógica interna de uma representação histórica, a qual relaciona os pode considerar-se apropriada a analogia entre a reconstrução histórica
malunda com títulos e liúagens específicos e com uma gama restrita de
baseada nos episódios narraúvos Imbangala e as técnicas de reconstrução
pontos históricos, permite disúnguir o conteúdo menos obviamente
fisiológica dos paleozoólogos.
histórico, que o historiador tradicional pode acrescentar por sua própria
É importante reconhecer que cada episódio narativo pode ser narra-
iniciativa, da estrutura histórica estável do episódio narrativo.* acrítica
do em total independência de todos os outros. Todos os malunda devida-
ocidental, ao fazer cuidadosamente a disünção enhe o núcleo histórico e
mente representados têm o seu próprio e completo enÍedo, um começo e
os enfeites artísticos, pode com confiança usar os malunda como fontes
um final, e não dependem dos ouffos episódios parafazer sentido nem para
para a limitada gama de tópicos sobre os quais incide o presente estudo.6
a sua integridade artística. Porém, o historiador tradicional Imbangala
os malunda podem ser ainda subdivididos em episódios políticos ou pode recitar sucessivamente qualquer número de malunda relativo a um
de linhagem, de acordo com o tipo de nome ou ítuló ao qual estão asso-
dado título e, se ele for competente, pode conseguir tecer conjuntamente
ciados. os que estão ligados às genealogias políticãs geralmente
os enredos, temas e jogos de imagens que ffanscendem cada um do episó-
descrevem circunstâncias que rodearam a criação dos títulosi estabele-
dios e ligar os distintos elementos da sua representação numa composição
cem o direito das liúagens "proprietárias" ao seu controlo. outros malun-
histórica e estética integrada, muito mais longa. Mas o historiador ociden-
da, ligados ao mesmo títuIo, podem relatar acontecimentos que se acredi-
i..1 tal cometeria um erro se confundisse a üama do enredo, construída p'or
ta justificarem as suas reflações formais com outras posiçães políticas.
quern está a representar, com a prova de uma evolução histórica coerente,
Podem também referir-se à origem de insígnias de autoridade associadas
desdobrando-se através da sequência completa dos episódios narrativos.
ao útulo, esclarecer os sens poderes mágicos, ou explicar as prescrições
Os malunda seleccionados para qualquer representação, em parte depen-
rituais que atingem os detentóres do útuú. Episódios narrativos anexados
dem mais do contexto em que esta decorre do que da lógica dos aconteci-
às genealogias de liúagem quasq,sempÍe justificam a cisão de uma nova
mentos históricos, e não é provável que duas representações incluam o
mesmo conjunto de episódios narrativos' Daqui se segue que estas repre-
sentações mais extensas não estão sujeitas à análise, a qual depende, de
63
Ver Victor Ttrmer (1967) para uma anárise de sistemas simbólicos, de idêntica
complexidade, dos
Ndembu do noroeste da ãmbia.
pongordg com a analogia.a-presentada por Vansina (l9z1b), p.455, onde ele arsumenta que qualquer modo, da ligação das implicações de um lunda às de um outro,
as
ImPlcaçoes altamente simbólicas das versões dos textos escolarcs convencionais
da- {o Mavflower não destoem o seu conreúdo histórico; o simboüsmo
aáericanos'sobre em algum sentido directo; pelo connário, o conteúdo histórico de cada
3.hi9tó.
T_'jÍ:.1._ Y-":-ry"_,9pjljõ"'
"pd;;i;f*ç" "
mais cépticas, ver Beideknã-lúzoiJ-úiã'ti-üãcifr"|ìrïzol, episóúo deve provir da suã própria lógica interna, É evidente que não
qu$:19,1 destes dois últimos, segundo me par€ce, exigem que a "históha" atinia uni
prooaDrlroade mars elevado acerca.do passado.(próximo de umã virtual
erau de pode haver qualquer cronologia, ainda que relativa, baseada na ordem em
certeza) do lue muítos dos
historiadores modernos considerariarn necessáriì. que os episódios podem ser contados. Por outro lado, é muitas vezes pos-
o tÍabalho de campo relativamente limitado no qual se baseia o presente estudo. não
me permiúu
estudar de modo sistemático o importante rema do simbolis.o úuuìàu. À *ãirl
ã" ïLiiii*a.
histórico da dimensão artística àos matunda p"r'onilì;;;;;'ilffiã;, ïË"#La" 6t A
importância potencial, e daí eu qualificar de "men'os obuiamenrc; r,-iitã'ri""'ü estruturâ destas tradições assemelha-se à das tradições de linhagem analisadas -.e._rejeitâdas
tos artísticos dos malunda.
.1i"ìiãã! ã.?:;"- como história - por Mcóaffey (1910), passim mas espècialnrente pp. l8_e_.segs- A estabilidade das
genealogias de linhagem dos Mbundu é a maior coerência das linhagens Mbundu. tornam os.mlun'
P1t^|:::11*-Ílï-t)91d9 gngo.ntrar-se a tentativa mais sofisricada que eu conheço para elaborar "dalmbíngalamenoíestereotipados e dão-lhes um valor consideravelmente maior, como história,
o conteúdo histórÍco de materiais similares.
do que asïadições Kongo deicntas por McGaffey.
26 INTRODUçÃO AMETODOLOGIA 27

sível encontrar indicações indirectas das sequências históricas dos acon-


tos descritos poÍ testemuúas oculares. Fiz depender o uso de provaS otnO'
tecimentos descritos nos episódios. Se, por exemplo, os malundaespecifi-
gráficas e linguísticas da possibilidade de determinar, em grande-modldr
cam as fases de um movimento físico de uma zona geográfica para outa,
ãnavés de métodos documentais, que se mantém a necessária condiçãO dC
colocando os episódios ao longo de uma linha recta ligando or doi, pon-
estabilidade. Os registos escritos, para o caso dos Mbundu, são relativa'
tos, podem aproximar-se bastante da ordem pela qual os verdadeiros acon-
mente abundantes e acessíveis, devido às actividades que nos séCUlOg
tecimentos ocorreram.
dezasseis e dezassete, naquela região, foram levadas a cabo pelo goVOrnO
A
interpretação dos malunda históricos dos Imbangala exige, português, pelas companhias comerciais holandesas e pelos missionÍlriog
obviamente, que o historiador use todas as fontes externas dispãníveis que países europeus (principalmente italianos).Ó Afoúrnadamontc
ã" nárior
o possam ajudar a distinguir os factos da ficção. Tais fontes incluem pÍtra o moderno coúecimento da história Mbundu, alguns dessss
palavras, em especial nomes próprios e topónimos, termos para os símbo-
È*op"ur tiverem um inüeresse activo pelas coisas africanas e Oscreveram
los de autoridade relacionados com os títulos e linhagens dãs genealogias,
relatos dando conta das suas impressões sobre as tradições Mbundu tal
e outros termos técnicos que podem indicar processos históricos de como elas existiam no século dezássete. É importante salientar'a distinção
difusão ou movimentos populacionais através de barreiras linguísticas ou
entre as histórias Mbundu, tal como eÍam ent?lo contadas, e a percepção
dialectais conhecidas. A análise de testemunhos etnográficoi, especial-
l que os Europeus do sec. xvII únham delas, pois poucos desses escritores
mente símbolos de autoridade ou práücas esfreitamente associadas a dis-
compreendiam muito do que ouviam. A comparação dos registos escritos
tintos grupos de pessoas, pode fornecer um apoio semelhante. uma vez
com os modernos testemunhos orais e os dados etnográficos mosüa que ag
que qualquer destes tipos de testemunhos pertence ao presente e, muitas
fontes documentais estão apenas ligeiramente meÌos revestidas pela per-
i
1

l
vezes, é difícil de comprovar directamente no passade (excepto com a
tï sonalidade dos seus autores do que os malunda estão revestidos pela habi-
ti
recolha arqueológica de objectos materiais), a sua aplicaçao ã tradiçoes
H
lidade artística de cada historiador nadicional Mbundu. Os documentos
que se referem aos séculos dezasseis ou dezassete impõe a obrigação de
m
são também comparáveis às tradições orais no facto de fornecerem uma
determinar se as fronteiras linguísticas não se moveram enüretanto, ou se
visão da realidade do sec. XVtr quase tão selectiva como a das genealo-
fi

frl os sistemas sociais e de crepgas não se modificaram significativamente.*


gii ì
gias.ToMuitas vezes, as fontes escritas e não escritas sobrepõem-se o sufi'
tri
íl A regra habitual de que "a ausência de provas de mudança autoriza o his- ãi"nt p*u estabelecer uma base de complementaridade para a crÍtica
toriador a presumir a estabilidade do passado" parece cada vez menos
mútua, mas tamMm tratam, com bastante frequência, de facetas comple'
fl:
lll
aceitável à luz do acumular de provas, para o qual os Mbundu contribuem,
fit tamente diferentes dos acontecimentos, permitindo fazer luz sobre uma
de que impoÍarìtes alterações podem oconer, e de facto ocorïem, mesmo
gama relativamente ampla de aspectos da história política Mbundu. Por
fin

,l naqueles aspectos da vida africana que em tempos se pensava serem mais


I ãXemplo, é tÍpico dos documentos descreverem batalhas con6a os porta-
resistentes à mudança. Eu tentei que a minha análise se apoiasse nessa
ü,
í{i
dores de títulos Mbundu, ítulos cujas origens e significado em termos
estabilidade da estrutura social e da língua apenas quando havia provas
:1,
africanos podem ser deduzidos das tradições.
que indicavam categoricaÍnente a probabilidade de não ter havido nenhu-
Esteìsboço das formas e características das fontes para os primór-
1
I
i ma mudança significativa.
dios da história política Mbundu fornece o pano de fundo necessário para
Nestas circunstâncias, as fontes documentais tornam-se complemen-
uma apresentação explícita da metodologia que está por detrás da recons-
tos cruciais p$a o uso das fontes não escritas focadas nos parágrafos
truçao históri"à qoe se segue.,As principais dificuldades técnicas depen-
precedentes. É o facto de dispormos de suficiente material
Angola dos séculos dezasseis e dezassete, que possibilita, na"."rito,
ui.u dem de encóntrar uma fundamentação lógica para
análise final, (a) projectar no tempo, três séculos para trás, factos observados nos
a tentativa de reconstruir a história política Mbundu nesse período. Já jus-
séculos dezanove e vinte (listas de palavras, dados etnográficos,
tifiquei a utilização dos musendo e malundn Imbangala com o fundamen- mas também tradições orais)
to de que os materiais documentais antigos confirmam, quer a ausência de
mudanças significativas no seu conteúdo ao longo de três séculos, ou ainda Para além de Cav azzi (1965\, o relato de António de Oliveira Cadome
ga (1940-42) foP*,ilto'
,*"aã-ïufior". In Aìtónio'Brásio (1952-71) estão publicadog--qua_s9_t_odos os documentos
mais, quer a estreita correspondência entre as tradições e os acontecimen- l,.ilrt*iáãrËiJt"it* iot unot antes dè 1600 e muitos de entre 1600 e 1655'
paÍa I9.q1"-9:^P-:Y d"
Cf. G.I. Jones (1963), p' 391, que afirma que os documentos europeus "
n úin"ì;ooOirn òr unr rirais lendáriô do que os dos Africanos e estar sujeito.s-precisamente
Daniel F. McCall (1964) e Vansina (1968 e 1970) são introduções úreis. "àtá"t", estrutual""
aoi;"fi;õ"ttó, í" ló.ft"tsão e à mesmâ dependência do 'tempo
)
)
28 TNTRoDUÇÃo
A PERSPECTIVA 29
) (b) projectar no espaço, para leste, os testemunhos
documentais do
século dezassete que se referem, fundamentalmente, tempo numa única região, relativamente pequena, e mosEa os seus con-
) às partes
mais ocidentais,da região Mbundu, e tactos políticos com áreas vizinhas, com vista a avaliar como as influên-
I (c) fazer generalizações para toda a área Mbundu a partir
de dados
cias externas afectaram e, por sua vez, foÍam afectadas por um processo
) de campo recblhidos principalmente entÍe òs Imbangala, basicamente contínuo de evolução histórica tocal. W
subgrupo dos Mbundu. da, portanto, a abordagem que segue conquistadores migrantes através da
)
Reconhecendo que toda a história é uma questiío
)
.
mais do que de ceÍteza\ e tendo consciência
de probabiüdades

neste caso podem não se aproximar do nível que


à" r{uE
ra uç * Pluoaoulgaqes
qo" 4s ;;rú;úiil;;;(; \. i-.. t"' Mbundu
) é iossív"i ul"*ç* o;;
tempos e lugares, as caracterísücas dos-dados , do século dezasseis, e que esta
I 9oqo_r
justificar que se tracem conclusões acerca
disponíveis;*"i". {*-;
) Mbundu, uma vez que
da história instituciáú aos

(a) os pritrcipai' risemas dos Mbútu, a úvel social, porítico


h msj.u'rg!99.t!s=9-l!9999:ïry+3e.Pg'=E=Ë+4"
I
intelectual, cobrem toda a região; - .T .
ê
l' o) tal como todas as estruturas deste tipo, eles estÍlo fortemente i {
f:
) integrados uns nos outros, de forma que o conhecimento
da
exisiência de um aspecto da cultura num local nos to
) permite .i
inferir muito sobre outros aspectos correlacionado, O"rru tì.,*
I cultura noutros locais, e
I
(c) é lógico esperar que mudanças numa parte da
cultura induzam I e dezassete-
mudanças noutras partes da mesma. I Os testemunhos a respeito dos Mbundu mostrÍìm uma história
I
Fcúla o' eìoooior insllucroml gues'e *"f:* qg:- dryão de plitrcípios de orgaaizâção
o sécu- |
sê uoa inrtituiçao ago-poÍEênorpúa ì *1-*9"P:
I
9P*. 9o
l(,3.doqrEeDtos
o.r*Fo.vinre, e p6Íres "o.
deta sõ;fu, j#;ffi;:
do éculo dezisréto, o histoÍiâdü podc
I p"lídq, e úo de, "E!tâdos". " priddpior
,Estes ye*_
üa das geryalggiqt qge lqscÍeJe4 4s l€lacõ€.s gtrFe tíqdgg:reles
I ;.;*ft ; s; I t"h
Ì
oão,'r-pu;ã-oì'Ë;t"ïffiffiJ:Ë## , rl
.1g::T:Slgi"snuôlf.€xistissemuEoÈdd;;;p",á; ...,plg\"-:ryItp*j9!ï.!0.ïSi+iery..fg
{h. "gl@4"-.-;"d":"b*.;'!l't-@0",*.---3;-
llsllii*iDsdrdçõcsôrd"*;Ã;"""fi;;;ffi;,ffi ,lr ï',1,' yularïcuç*!'a:&-gia:i@er"
"^-qEn"E
-
iacqFnrando outlos aepertDr bisrúia rios tvíbúã;"-o;o;;ï; de pÍeexir"1"
{ t" $o's-ti^çao uÌna.poprrlação
<ta
,, 99 loyo:-"gga4çs_,
t'I"r./.õ@EõaGF-4trÀ-ãõiiíì6nõèõõ-unros?fiõ6õioJdaunidadede
de indivÍduos e coisas do gc""-, q""r,a, oI.
alpcctor atavés dâs font"i*ú"i,"i".
- [rr*i;;ffiï.ï: "'*" tr" ,'"
. {J,1-,
\, 4t ' a, nõva inÍgnia de autorid3lqì qg8la que ela se dift.nde. o prircipÂl
* A penpcctiva , 'af , -, pro-lema histórico envolve a consEução de uúa sequêrcia em qÌre se
. Urna er.pos4ão iniciâl sobr€ â perspectiva sdopbda neste.".*, f, rïÌ,.),")possa confiar..pâra a rnultiplicidade de símbolos de autoÍidade actual-
podê !om!Í o leu raciochio Ínâis facilmente
comFertrsível. Eu esoua
.. ."VJi ,. ;-f*.!o*,srâ{iLod. mss. hlbibr.tmDE eiÈ como um po!turrdo p.n ú priEiÌivs Íú-
Eútú.ssüniÍ o ponto dc üstr dc um obs€rvador exr-".
r"*a.-
"
\ i,.' Ë;G**ìã;õï-i:ïËõ.#Ëpï,iË.il*"r"a"q"i"**rmú.o,tÊ@.
do.algurÊs póxiúo do centro do renitírio
Mbunú. il;;d;;ï.
".i"."_ ,"'" .q'1. ,.t
g#"ïl'ffi':ïffi,tf"*:iiJtH;ffi.ffif:ffiïitrffi,'H.ï:
.#Shmf:f$IHffifïJï'iHCïH#Jf;SËïffi*
l*,,"^11"]1t"-"ï.ffi::queocorreseminnu&rci;;*;;ì;íffi;
oeiodopovoqueviveaÍpio-i.".,p"'ì"*-ü..ïoiï,fi""1ij.ïlll .' ; - â,o;ff;ffi.liffL**ffi""ÍH"ï,ïïilÏi,:Lïilïi-*J:f"?"tr"tr;:fr
p."". ,,'{,.'"
/ Ii ,, ,.,' ;ãi#H"ffiil';ãïúS*"#"m.*tï:ff":ff"'lïï""ffif-ï.ff;ï.:Ëffi:
de arud.úçás estimuladâs por contados entÍE
os Mbu"a"
qü€ vivern à sua volI". o estudo descÍ€ve.
pois. ".r*.
as."ú"d;;;;À;; ffi*ffitfg*mif1X-._*l*ïWti:.#*tìjUffiUffi;*
" ÁE"*ia'.q*vu,ims.r.Eceó8)6tu i,r.,€kia'...Ínpdaçio,,.pp.,0ôs. :ffii*1ilêffiffi;1$#'i'T$tr#trJ:A:"if5il"',f.'ffih".'ffi*
conta movimentos menores de indivíduos (não grupos) em todas as épocas e lugares.
i
I
30 IÌ'[TRODUÇÃO
ii
i,
mente presentes entre os Mbundu, comprovaüvos da sua história política
;
altamente complexa. Os processos de difusão são manejados como items
separados movendo-se numa área limitada e, assim, evitam-se as piores
CAPÍTI.JLO II
ciladas da escola da Kulturkreise com as suas difusões de "complexos" de
O Ceniário
traços culturais por todo o mundo._A minha forma de manej_qq oç. tES!,:,
muúos etnográfi cos tenta evitar " sobrevivências i.l imutáveis, preferindo
ìËtençOêS",tràí qüaüípoàeú-tèt passado por
modificações consideriíveis'
ïo -decõnèì õõS -íéc-ü19s, EE_te slng- â 9y_lq$*_9q+_çmp9lâIg1*
*M'5ünfrjïilit?xJë-
gg-s"_, l-* 999r-t11gP-o-*F-
õêi-.iïoã ïõrno u-- acü;ltdo-de símboiõi;lata"ras,-"
_
ciadiããftftqpqts"=entssp-"ee-ry4*--ssdtrFó-ç911"so-í|iki,aÍaâ-
cffi
i
***'< F I r- -,-- õ!-1:í:3:'i:-
raãÏçoes,'-i"nstïtuìfreí"-piátìõas ÌndepënôerÌtea_ G_m-Uotï ìpqãgaçhp1,. -
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í4
tln3çã"".d4,Ë*go-iffS"gqrSóiiõÌleïi<is
^a:--

vindo s de diferente s tenilio s .rio paó SafõT .{( _qlgg9!-C-oSqre.gl9$-S


I òõfrpõíder plenamente os primórdios da história política.dos Mbundu se
I
-e_ Ì tivermos em conta o seu cenário geográfico - montaúas, rios, recursos
!óqrugn:v"qg-l-q:gse-",qil-{grïL$i{e*Tgljs-Jese.pj*ee-0-e-- J

económicos, produção agrícola e clima - e também todo o pano de fundo


!

'il
_grnq_gUltug !lu:4!l
_ç9"-eJ9Jgç4-o_,_g |i-'-tqradçr_podq su_g-q11"H9Í!q:"qq
social e intelectual da sua cultura. Uma vez que os aspectos da geogfafia
expliça1n gomg e- porquê as pessoas o9 g$o4qg3 E r.!lq {pyç .,spr
.quq .

física do tenitório dos Mbundu pouco mudaram do século dezasseis dté


aceite como h etapa inicial da história políúca dos Mbundu.
):

I hoje, não há problemas técnicos que ensombrem a exposição que se segue'


sobre ai principais influências ecológicas na história política dos Mbundu.
A geografia humana dos Mbundu do século dezasseis não nos dá tantas
certezas, não apenas porque desde então se alteraram as fronteiras dos
principais subgrupos etnolinguísticos Mbundu, mas também porque nem
i"qo"r as distinções étricas modernas dentro da região Mbundu são bem
conhecidas. Bastante mais spgura, devido à documentação já analisada no
Capítulo I, é a passagem em revista de determinados aspectos d1 antiga
estrutura social Mbundu, com a qual se conclui o pr€sente Capítúo, com-
pletando assim a revisão dos materiais que formam o pano de fundo
necessário para avaliar os mais antigos estados M-bundu coúecidos.

O rneio flsico
Os contornos gerais da geografia angolana estão em conformidade
com o padrão geral da metade sul do continente africano, comparada pelos
geógfafos a um grande pires invertido: no oeste, uma faixa baixa e estrei-
ta de terras arenosas sepaÍa o Atlântico de fileiras de colinas, que se
I
erguem em terraços em direcção a um planalto interior, a leste. Este padrão
u
báiico do relevo é menos marcado no norte junto da embocadura do rio
congo (ou Zaire), onde as elevações do interior são mais baixas, rnas
[, to-ã-r" muito bem marcado para sul onde os planaltos atingem altitudes
que excedem bem os 1 800 metros, erguendo-se por vezes abruptamente
[i, aìima das planícies costeiras. Numerosos rios correm geralmente de leste
para oeste, inigando as encostas das montanhas em leitos rochosos e
pou"o fundos que não se alargam para dimensões navegáveis até se
ãproximarem muito da costa. Mesmo os maiores rios - o Congo, o Kwan-
7r Um termo que me foi sugerido por Jan Vansina em conversa pessoal. za e o Kunene - permitem à navegação oceânica penetrar apenas
i,Ì'

it
I 32 OCENÁRIo o uero rÍsIco
ï
i'il 160 quilómetros ou ainda menos e, no interior, todos excepto
o congo têm
ril.' apenas pequenos troços de águas sem obstáculos. os riosào
interior norte
t1:ndem a correr para leste le norte em direcção aos principais
li afluentes do
Congo, enquanto que os do sul alimentam os sistãmas ^triarolrafrcos
t
Oo
curso superior do Kwanza, do Kubango-okavango e do zantóeze.
I
o rio
Kwango é o principal aflupnte do Congo no território Mbundu.
A chuva decresce de norte para sul; üai desde chuvas geralmente
regulares, embora sazonais, juntô do rio congo, uc utingirïonoiç0".
próprias do deserto à medida que nos aproxirhamos
do báxo Kunene.
Também diminui de leste fara oeste, de acordo com o sisüema
pr"ua"."n-
te de ventos de leste. A mâioria das precipitações no interior
vem de leste
durante os mbses querites, que vão de setembro a Abril
no noÍe, mas com r-
um perÍodo de chuvas acerituadamente menor para sul. Toda q\
a baixa faixa
costeira é significativ*-"1ç mais seca do que as terras ci
altas, uma vez que
os' ventos dominantes do litoral empuÍram o ar frio da corrente fria de U)
o
Benguela, vinda do sul dâ África, para bem longe, quase
até à foz do
congo, a norte. Este ar aqirece e secã à medida q.i" pu.ru sobre N
a i",,u
encostas de"
não deixa cair quase nenhuma precipitação, excepto quando a
u
montanhas viradas aos ventos forçam estes ventos a subir. C)
uma estaçãq Ò
seca, geralmente sem nuvens e agradável nos 'planaltos o
do interior,
contfasta com um inverno frio, húmido e enevoado (mas EÉ
sem chuva)
coúecido por cacimbo ao longo da maior parte da costa.r €
A disnibuição demográfica dos Mbundu no século dezasseis corres_ À
U)
po.ndia, em traços largos, à hidrografia da parte o
noroeste de Angola. As fron-
teiras etnolinguísticas t:ndiam a acompanha, os principais (\l
de água; a
excepção era a parte ocidental, onde as montanhas "u.ro,
a leìte da ilha de Luanda li
èo
forneciam uma fronteira natural que separava os Mbundu, o
nas terras allas, c)
dos Kongo situados nas terras baiias, oistintur do ponto
de vista geogriáfico H.
e meteorológico.2 Por oufto lado, os Mbundu estavam de
um modõ geral 4.
confinados à região banhada pelo rio Kwanza. o afluente
mais importante
da margem norte do Kwanza, o Lukala, corre por um planalto à
que vai
subindo, de elevações na ordem dos 900 metos, na sua
faixa ocidental ao
longo do curso médio do rio, até mais de I 200 mefros
na zonaqu"
1969, a parte orientâl do distrito de Malanje. As fronteiras "ru, "-
norte dos
Mbundu, que os dividem dos Kongo, acompanham azonamontaúosa
que
este planalto junto às nascentes aoi rios Nzenza re"ngo)ì-óano.
9o.9"ju
(a ârea coúecida mais tarde por "Dembos"), até ao
seu curi"lunto da,
modernas cidades pornìguesas de Carmona
[Uíje] e Negage.
I Veja F. Mouta e H' o'Donner (r933), D. s. whittlesley (rgz4),eDomingos
H. c. Gouveia (t956).
' i:lt,:9Tiq",t impressão generarizada, mas evidentemente errónea,
de que os rerritórios dos Mbun-
du se esrendiam até ao oceano; ver Joseph Uiller (
i
t 97ãb) o, oUlervifo". qu; ;;;;;"Ë.
,t 34 oceNÁnro O MEIO FÍSICO 35
i
1
Os afluentes da margem sul do Kwanza, vindos do chamado planal-
do curso inferior dos maiores rios, e manchas de floresta na escarpa da
:l to dos ovimbundu, ou planalto de Benguela, corïem aEavés de tenitório
Baixa de Cassanje a. Geralmente, o crescimento de vegetação mais densa
habitado pelos Mbundu, pelo menos até ao rio Longa, a sul, o primeiro rio
I
1i é impedido pelas quantidades moderadas de chuva, variando entre 90
importante ao sul do Kwanza. As populações do planalto què viviam na
centímefios por ano, no oeste, e 137 cenímetros por ano junto ao rio
região a sul e sudoeste, onde as águas se dividem, foram mais tarde
Kwango. As chuvas caem segundo um padrão sazonal extremamente
conhecidas por Ovimbundu3 e diferizÌm um pouco mais dos Mbundu, pela
desigual - ligeiras e irregulares de Setembro ou Outubro a Dezembro,
língua e cultura, do que os Kongo. os habitantes das terras baixas da faixa
depois um período seco altamente variável, ao qual se seguem as maiores
litoral imediatamente a sul do Kwanza - chamados Kisama até ao baixo
precipitações, em Fevereiro e Março - e' por consequência, as chuvas
Longa, Sumbe entre o Longa e o Kuvo, e Seles, Mundombe etc. mais para
iinfru* uma importante influência na actividade económica das pessoas.s
sul - parecem ter tido mais em comum com os Ovimbundu do que com os
Embora pouca pesquisa tenha incidido sobre as técnicas agrícolas dos
seus vizinhos do norte, Kongo ou Mbundu. Os ocupantes do chamado
Mbundu do século dezasseis, é evidente que a maioria da população se
planalto de Luanda, a área irrigada pelos rios Kwije e Luhando, a leste do
dedicava à agriódtura e é provável que produzisse, principalmente,
curso superior do Kwanza, tarnbêm pertencem aos Mbundu; neúUma
variedades de painço e sorgo. Na ausência de uma cultura básica resistente
fronteira definida demarcava o seu limite sudeste e os Mbundu do sudriste
diluíam-se gradualmente nos Cokwe e Ngangela.
tirar o máximo
A principal excepção a um meio de tenas altas, no geral, ocupado fi fi õientespaÍadúãeãáolotggsgg!eLl9991-{e$g-o-e**Lq*9f g'
pelos Mbundu, ocorria no longínquo nordeste; aí, populações comparti-
ffiúos ggqlq]qa*lll*-__* não chove (embora
durante os uma ou duas üo-
,--:.-_----_---*-_.*j-*,-i-
lhando as mesmas características etnolinguísticas viviam na ampla bacia
formada pelos rios Kambo, Lui e Kwango, de altitude relativamente baixa
ffiiialmente
-"'"'.*.** a estação sec"a),-9.3p lo,ngo da prime-ira
Mbun-
oarte da estacão que se segue, fase do crescimento das plantas. Os
(365 a 600 metros). Uma escarpa quase vertical, variando em altura desde -
ãrr"mflëaa;A;m esi; Adf i;as-i.a çõìi vesëtsi i--e frutos sëlvagsïq,
.

algumas dezenas de metros até 600 metros, corre no sentido sudoeste desde
tanâõ êipecia ïAõi ài plantas encontradas nas florestas muxito ao longo
as nascentes do Kwale até para lá do Kwango e separa estas terras baixas,
conhecidas em tempos mais recentes como Baixa de Cassanje, das ele-
vações muito mais altas imediatamente a oeste. os Mbundu da região norte
da Baixa de Cassanje parecem ter-se fundido gradualmente nos Kongo,
enquanto que os das margens do Kwango tenderam a assemelhar-se aos
Cokwe/Lwena e Lunda que habitavam as altas savanas que se estendem
para leste deste rio por cerca de 1 600 quilómetros. Excluindo esses da
Baixa de Cassanje, os Mbundu geralmente viviam apenas nas elevações
mais alta.s dos planaltos que circundavam o Kwanza, a leste das montanhas
que separam a sua bacia interior das terras baixas do litoral.
O padrão de vegetação dominante dos planaltos dos Mbundu consiste
em savana aberta intercalada ocasionalmente com savana arborizada,
actualmente reduzida a umas poucas áreas mas provavelmente mais exten-
sas no século dezasseis, antes de muitas árvores terem sido destruídas, em
John Gossweiler (1939): E. K. Airy Xaw (1947\ fez um resumo de Gossweiler em inglês.
épocas mais recentes, com o incremento das caçadas com queimada. quedas plu-
Angola, Serúços úeteorológicos [eSS; inctoi mapas.mostr.ando padrões recentes das
outras excepções ao predomínio de savanas incluem as florestas húmidas uioinéri"ur r ietttp"raturas i'a regào; eótudos paláclimatológicos não existem.
Os Mbundu da m*"". oort" do kwanza dependem hoje da mandioca como produto. agícola
bási-
que cobrem as montanhas ao longo do limite oeste do planalto de Luanda, Oiiõã"a"* de planos (sobretudo manihot uüliisima) imponadas do
C".ïã.,úïirìfr"ãJ".
algumas manchas de florestas-galeria (mixito, singular muxito) ao longo Brasil no sec. XVIL José Redinha (19ó8)' pp. 96-7'
Mesmo com a mandioca, as técnicas de cultivo ainda se baseiam numa estratégia demáxima uti-
tii"cão aa nu.iaadé do solo; ver relatórios no arqúvo da Missão de Inquéritos Agícolas q" Aog9-
i" Luanaa. Testemuúo de Sousa Calunga, 27 Jú. 1969, para a região-da.Barxa de cassanJe.
' Para efeitos deste estudo, os Mbundu são o povo de forma genórica aqui examinado, e falam a lín-
José"inRedinha (1958), p. 228, confirma que as_antigas aldeias em Angola se Íoram concenEanoo ao
gua Kimbundu. Os Ovimbundu vivem no planalto de Beng-uela e falam a língua Umbundu,
longo dos vales dos rios desde tempos neolíticos.
I 36 ocENÁRro suBDrvlsoEs srNouNcuÍsrlcAs No sÉcut-o DEZASSEIS 37
)
I algumas lagoas acessíveic. Não há ruzão paranão afirmar que a maioria
dos.Mbundu criava galinhas, cabritos e talvez algumas on"rhur; o gado
mentava extensos pântanos salgados ao longo do seu curso inferior e, no
século dezasseis, os residentes daquela área exportavam a sua produção
] bovino, provavelmente, eia criado apenas naimaiútas elevações a sul do para os Mbundu setentrionais e mesmo para os Kongo orientais.ra Estas
I Kwanza, uma vez que a inosca tsé-tsé tornava a criação de gado pouco
segura nas outras zonas.
fontes de sal e de ferro provavelmente formavam os núcleos de um con-
junto complexo de redes de comércio regional que regularmente punham
] os Mbundu tinham uma forma de tecnologia própria da Idade do os Mbundu em contacto uns com os oufros, e também com os seus vizin-
) Ferro, baseada principalmente no abastecimento local de minério de feno. hos. Certamente, pelo século dezassete, chegavam até aos Mbundu o cobre
Depósitos de minério achavam-se quer a norte do Kwanza, no vale do rio do Katanga e o tecido de rrífia das regiões de floresta, a norte, e não há
) Nzongeji, quer a sul do rio nas montanhas que subiam para o planalto de razão par:a duvidar que outros contactos económicos, cobrindo uma larga
I Benguela- Algum ferro deve ter chegado aos Mbundu orientais ã partir dos área, se tenham desenvolvido muito antes da chegada dos comerciantes
cokwe/Lwena a leste do Kwango,s e os Mbundu meridionais sem dúvida
) tiúam acesso aos fornecimentos de ferro existentes no território dos
europeus ao litoral.'s

ì ovimbundu, próximo do Andulo e da moderna vila de Teixeira da Silva Subdivisões etnolinguísticas no século dezasseis
)' [Bailundo].'o sal, cuja importância paÍa as sociedades africanas da Idade Os contornos dos subgrupos etnolinguísticos Mbundu do século
do Ferro apenas paÍece ter sido superada pela do próprio ferro,ro vinha quer dezasseis são ainda menos visíveis do que a natureza das antigas acti-
) do mar quer das salinas de terrenos pantanosos pelo interior. vidades comerciais no vale do Kwanza. A apreciação de Murdock, feita
) "spalhadas
uma das fontes de sal mariúo, as lagoas do cacuaco imediatamente a nos finais da década de 50, de que os Mbundu se encontravam "entre os
nordeste da Ilha de Luanda, estava bem desenvolvida no século dezasseis,
) [povos] menos adequadamente descritos em todo o continente africano"r'
mas incluía-se na área de suserania do Kongo e as provas disponÍveis mantém-se verdadeira hoje, no que respeita às actuais caraçterísticas do
não
) permitem saber se a sua produção ia para norte, para o Kongo, ou paÍa povo, mas aplica-se com especial ênfase igualmente aos séculos mais
) leste subindo o Bengo/Ì.{zenza, prÍa os Mbundu.r o mais prõável era
o recuados, uma vez que os estreitos contactos de alguns Mbundu com
abastecimento de sal dos Mbundu vir do sul do Kwanza, na Kisama; observadores letrados desde antes de 1600 não conseguiram, de um modo
) os
primeiros Portugueses que por ali viajaram relataram que os Mbundu geral, produzir dados etnográficos significativos. A despeito de esforços
) comerciavam este sal através de uma grande extensão do interior.!2 o sal intermitentes de etnógrafos amadores e profissionais portugueses, durante
) vinha também de pântanos localizados algures mais a leste no Libolo, e os últimos três séculos,r'permanecem a um nível lamentavelmente baixo,
ainda nos finais do século dezoito os Mbundu usavam este sal como meio quer os estudos linguísticos sobre a sua língua, o Kimbundu, quer a
I
de troca nas duas mÍìrgens do Kwanza.É A Baixa de cassanje incluía pesqúsa sobre a cultura material dos Mbundu e a informação sobre as suas
dois
I importantes centros de produção de sal. o Lutoa, um afluente do médio instituições sociais e políticas. Em consequência disso, nem as fronteiras
I Lui, fornecia sal para muitos dos Mbundu orientais e para os externas dos Mbundu nem as variações dentro da fuea Mbundu são bem
cokwe/Lwena a sudeste; o rio Kihongrva, um afluente do Luhanda, ali- conhecidas. O meu trabalho de campo clarificou alguns aspectos da
I

etnografia dos Mbundu, especial.mente do povo que vive na parte sul da


Testemuúo de Mwa Ndonje.
Pró,ximo da nascente do rio Kuvo-(a moderna vila de Teixeira da silva
Baixa de Cassanje, e sugeriu a necessidade de grandes revisões na atitude
cial.de Bailundo após a independência do país _ NTllããt"ìì [que rccuperou o nome ofi- convencional em relação a muitos dos restantes aspectos.
da docurso.up";ãiàõi{*ãiu junto ao Ànduro; oã,,iau.
p.300.
Ã";Ï#:flì:ïfif ffiï:i iìtsËï A maioria dos esquemas de classificação etnográfica limitam-se a
P.i.* vt. Fagan(1969) sublinha a pÍ€coc€ importância do sal e do feno na Rodésia. À luz dos
distinguir todo o conjunto de povos Mbundu das igualmente grandes
dados apresenrados
hipótese aos Mbundu.
nos capítulos sübsequentej àã pre-sente estuao, pu,õ; jüü;;;;;ü;*t"
o aparecimento de uma rota comerciar srrbindo. o rio Bengo, baseada na exportação de escravos r' Miller (1973a) fornece provas desta rota comercial.
ú No geral, veja David Birmingham (1970) e Jan Vansina (1962c).
ffi 3lnft ?lï,lnff ïÍ"'Â""i:'Jlïiïï,Hï:"5ili"f,i,*'i,ï',"r1íìï;'ïãË"ïïËiïa' ú Murdock (1959), p. 292.
António Mendes oara o padre Ger-al, 9_de Maio_de 1563 (B.N.R.:tj, 1-5,
*tiT M, ser. z, >dm, nãs.Ì?ft0'(úò;,^ì4-27. Ant6nio i, 38); nrá.io (rg5z-i l), '? Os primeiros dados etnográficos registados sobre os Mbundu apaÍ€cem na correspondência dos
Leite de Maealhães (1934).
Missionários Jesuítas que foram para Angola na década de 1560; ver Gastão Sousa Dias
^tr;l?lllZ
(rvzí+r' mapa e p')' deu a locarização exacta como póximo de Ndemba,
cerca de 40 km ,íaã"s. As descrições etnográficas modernas ainda se apoiam basicamente em compilações feitas no sécu-
da Muxim4 poi estrada. "
R. J. da Cunha Manos (1963), p. 312.
lo dezanove, comoJosé Joaquim Lopes de Lima (1846) e na de José de Oliveira.Ferreira Diniz
(1918).
38 ocENÁRro
susur'rsÕEs BrNornrcúsrrcAs r{o sÉcut.o DEzAssHs gg
categorias dos Kongo rio norte, dos cokwe/Lwena no leste, e vários
gupos de ovimbundu a sul. Estas distinções assentam basicamentp em da Kisama falavam uma variante de.umbundu,a antes de epidemias da
doença do sono, no iníco do nosso século, tprem reduzido drasticamentp a
diferengas linguísticas, ufna vez que os ringuistas têm podido identificar o
população original da Kisama ã e, provavelmenüe, terem contibuído para
Kikongo, o Kicokwe e o umbundu como línguas diferenciadas do
a mudança lingústica através do repovoamento por populagões que falam
Kimbundu, embora o Kimbundu e o Kikongo paÍeçaÍn estar mais esüeita-
Kimbundu. Embora grandemente perturbadas por violentas mudanças
mente relacionados do que qualquer das óutrasJí Línguas que revelam
políticas durante o século dezassete, as fronteiras sul dos Mbundu não pare.
características quer do Kikongo quer do Kimbundu (como as dos Hungu,
cem üer-se deslocado. As mudanças no norte, causadas pela expansão para
Ndembu e soso) apagani a hipotética.liúa divisória entre estes dois gru-
pos.re Da mesma forma, ôs dialectos Kimbundu que apresentam
sul do reino do Kongo, parecem ter terminado no século dezasseis e,
uma simi- provavelmente, contribuíram paÍa a formação de grupos que actualmenüe
lar natureza de transição (Xinje e Minungo) podem còuú o fosso enfe os
são de transição, como os Ndembu e os Hungu.x
Mbundu orientais e os seus viziúos cokwe/Lwena.a uma ausência quase
Mudanças de maior amplitude paÍecem ter afectado as subdivisões
total de informação concreta sobre os dialectos Kimbundu faJados a sul do
inüernas dos Mbundu: a sua tradição etiológica, a qual podemos deduzir que
Kwanza obscurece a natüteza, da fronteira ringuística nessa zona, mas há
reflecte mais as divisões históricas do que as divisões modernas no seio do
algumas indicações de que ela se situa próximo do rio Longa, uma vez que
grupo, não corresponde bem à presente dlstribuição de dialectos
a varianüe de Kimbundu falada no Libolo se torna ininteligível a sul dessa e
liúagens.27 No geral, as diüsões no seio dos Mbundu eram maiores do que
liúa.2r Portanto, de acordo com provas linguísticas modÃas, os falantes
são hoje. Em termos lingústicos, por exemplo, dois dialectos de origem
de Kimbundu da zona ocidental vivem, sensivelmente, entre o rio Longa a
recente, uÍn na zona oriental e outro na região ocidental, incorporaram um
sul e o Bengo/Ì.[zenza a norte; para leste, os seus limites vão aproximada-
certo nrímero de palavras porfliguesas e tendem a substituir alguns dos
mente do rio Lúando no sul, até ao curso inferior do KarnLo, no norte.
dialectos mais antigos. centrada em Luanda, a variante ocidentalresultou
Apenas a oeste estas fronteiras extemas parecem ter-se alüerado
da concentração, na cidade, dos Mbundu e douEos africanos de todas as
significativamente desde o século dezasseis, estendendo-se a língua Ki-
partes de Angola. Começaram a identificar-se a si próprios como "Akwa-
mbundu actualmente até ao oceano Atlântico, a sul do rio Bengo, pio*i.o
luanda' ou "Ambundu" para se distinguirem, a eles e à sua língua, dos seus
da cidade de Luanda e também para a região da Kisama, p*u ú do rio
paÍentes rurais.a o dialecto pan-Kimbundu da zona oriental, coúecido por
Kwanza.n vários testemuúos sugerem que esta evolução é relativamente
Ambaquista, teve a sua origem no crescimento de uma comunidade Luso-
recente, poisjunto a Luanda viviam durante o século dezasseis falantes de
-Mbundu de comerciantes, junto ao presídio pornrguês de Ambaca, no
Kikongo; a língua da região terá mudado a partir do momento em que os
médio Lukala, durante os séculos dezassete e dezoito; o seu dialecto, com
(l
Europeus começÍuam a frazeÍ um grande número de escravos falanles de
Kimbundu para a planície costeira durante o século dezassete e seguintes.a
influências de Português, espalhou-se como língua cornercial através de 1f
Ainda numa data tão recente como os finais do século dezoito os hãbitantes
grande.parte da ârea oriental Mbundu durante ò século XIX. Ambos estes (f
dialectos seryem agora como linguae francae Kimbundu e em 1969-70
tiúa começado a emergir um estilo de vida pan-Mbundu, com uma com- rt
'' Ma\om Guthrie (1967); o Kikongo corresponde à sua Zona H, Grupo l; o Kimbundu estánazona
H, Grupo 2. As línguas Umbunãu estão'naZona R, Grupo l: iokwenwina
ponenüe pseudo-portuguesa, como resultado das experiências compar- (l
Zonu f-.
No seü mars rccente Compatative Bantu (1967-72\,
l:i:,:lt]:3!i._ï."-ad€proupara
n, "rúì"
Grithrie refere as suas incertezas sobre a
os subgn:pos da tíngua Kimbundu. À luz dos meus dados, puae
tilhadas nas cidades de Luanda e Malanje, do recrutamento obrigatório de
jovens de cada canto da região Mbundu para as forças armadas, e da
(l
JusurrcaÍ-se a sua precaução.
ro Guy Atkins (1954, 1955). difusão da educação letrada. O sentimento de uma identidade comum rl
,CS+ Ug* na comparação de léxicos básicos de- 200 palavras (D.H. Hymes ( 1960)) dos Mbangala, (t
20

Xinje, Minungo, Cokúe (ocidentais), Songo e Mborido.


2l Bernardo Maria de Cannecattim (1854), p.XV.
fj{o.9oúe99 glalquer lista de palavras Kisama regisrada anües do século vinte; veja Mattenkjodr
(.1944, pp. 106-7, para os anos 201. Um curto vocaËulário de
i2 patavras tincfúina,jã.rïiÀãosl
Heintze. (1970), p..170. Birmingham (1966), p. 145, implicitamenüe conflrma.que esta mudança (l
gonfcida. sobre as línguas do r.iqoro ('r.iuoró,ìSãrrr,-N""" linqú.stica provavelmente comelgy um tanto mais cedo,-uma vez que ele faz no'tar que u risún
í^1jl:..il,l.t':!ãg
f:"F-1",tiy."lft1'
em
ii!à'iìa",
Amboim,.Quibala, e Gango"); Leite de Magalhães (1924), pp. 55-7 (reimpresso
Josó rubelro da Cruz (1940), pp. 166-?). para a fronteirilin-g-uística aóióirgo
se tiúa tornado um local de refúgio.Lar.9.-escravos (presumivelmerite falantes de Kiinbundu) que
fugiam de Luanda nos Íinais do sec. XVII.
(l
ao Àfiõ [ó"g",
l:":_l:yg"
as lontes em que{.LTt],y,226.e
Aitónio Miianda Magalhães
baseou as suas conclusões.
trszïp. ii R.-áfi"-;#;;pãh.. Para oreino do_Kongg, sobre-o qual nãopretendo aqui debruçar-me, veja Vansina (1966a), pp. 3g-
40. e Georges Balandier (1969), capítulo I
(t
27

ll
Ver José Redinha ( l96t).
Miller (1972b).
Analisado na miúa dissertação (não publicada) "Kings and Kinsmen', (1972), capírulo ltr.
o mais exaustivo estudo sociológico da população africana de Luanda é, de longe, Ramiro Ladeiro
(l
Monteiro (1973).
(l
It
\l
42 ocENÁRro
ASPECTOS DA ESTRUTI.JRA SOCIAL MBI.]NDU 43

devem ter abandonado a área do Kwango e deslocaram-se para as suÍìs zonas que cada povoado se cenüava, de forma ideal, num grupo de homens adul-
actuais de fixação na província zairense de Bandundu.v A incipiente cli- tos pertencentes a unÌ rínico grupo de fiüação, ou ngundu (pl. jinguüu\
vagem ente Libolo e Hako tornou-se mais acentuada, e apenas os Songo Pelo facto de os Mbundu serem matilineares, o núcleo de homens adultos
peÍmaneceÍam relaúvamente pouco afectados pela mudança. Uma grande de uma aldeia plenamente desenvolvida tendia a ser composto por um
quantidade de gente de todas as partes dos tenitórios Mbundu foi levada grupo senior de irmãos e uma geração intermédia composüa pelos scug
para Luanda, como escravos e empregados de uma comunidade portuguesa sobrinhos, isto é, os filhos das suas irmãs. As mulheres a0qtlf1g:Jk!:_
em crescimento; ali, eles aglutinar,Ìm-se no gnrpo agora coúecido como centes a outras liúagens, viviam ali como esfrSlf-q-ffiilosãõïm;
, n
.@:g_du.Edg-la
e a ge-raçao.aaip jwem gèralúénb incluÍa os fittro-õ c (
"Ambundu" ou "Luandas".s f ,,+- ' ,"r{n
0i Ç)
filhas destes cas.ltgrcqlosrlLug-gr.3n{|lg$_b.L9s dos jj"ry"guryl"t4..das suas mãpsr
t
Anólise d.e alguns aspectos da estrutura social Mbundu
'' ..ïl^ Ì' '- ffiõíããd*tie uãoEãdo p"qt"r.portanô, ôõ-ifucËò tintrãgãio da aliËí;
Uma das maneiras úteis de descrever a sociedade Mbundu será con-, ,.. . r+hi,1' As mulheres üúvas ou divorciadas, Íúãs dos homens da geração mais {
siderando
ando as muitas e diversas instituições que ela inclui. Uma vez queï* queï* .
' ,

p^,rr,r i velha mútas'vezes voltavÍLm püa residir com os seus innãos, Este padrão
de residência tinha o efeito de.reforçar a identidade linhageira da aldeia, ao
quase.. todos
tnr{nc os
nc Mbundu
MhrrnÍfir ca esforçavam
se ccfnraqrrah h^r participar
por na*lai*o- naa actividades
nas ^^+i.,iì^l^^ ,r^ 1.: ï!
de iy\ i" . i.r.
.reunir num rinico local os seus nais velhos membros vivos. Os membros
tantas destas instituições
instituicões quantas
ouantas lhes era possível
nossível e rìmâ vêz írrìê
uma vez que as pes-
âa nês- 1,7
-
ça
.r "IÌ

soas por vezes descobriam que as suas funções se sobrepunham e Jijuniores das--!t4!4ggqç.Ìúbundu, as jovens casadas e os seus ÍilhõilviViam t
entravam em conflito, a pluralidade de organizações concedia à maioria .!$fl"úg
'Úniíïez aldeias vizinhas com os parentes dos séüs maridos e pais. í\
das pessoas uma ofortunidade para jogÍìr uma instituição contra a outra, [üe raramente diitiúâm posições de responsabiüdadp no seio da (
com vista afazet avançar os seus próprios interesses. Embora nada neste linhagem e não co.mpartilhavam diïectalnente da herança, a sua ausência da
aspecto distinga a sociedade Mbundu de qualquer outro sistema social aldeia não prejudicava a concentração das actividades da liúagem na
no mundo, quero introduzir esta ideia explicitamente no início, porque o aldeia nem a forte solidariedade do grupo de filiação. (
potencial de conflito inerehte à presença de múltiplas instituições jogou As aldeias-linhagem dos Mbundu tiúarn, cada uma, as suas próprias
um papel chave na história política dos Mbundu. Chegar a compreender tenas (r*i) nas quais os membros do ngund.u colectivamente conholavam (
o modelo do desenvolvirnento político Mbundu, nestes termos, não o ÍÌcesso ao solo para a agricultura, aos rios para a pesca, e aos'prados c (
exige uma etnografia abrangente, a qual seria de qualquer modo impos- bosques pÍua a caça e a colecta de frutos, bagas e nozes, que cresciam ali
sível de redigir, dada a insuficiência de dados. Mas é possível espontaneamente. ,A medida que as_ colh.gitqs- pÊgg1,ygg1 a fertilidq$-e do t
e
necessário esboçar o bastante da estrutura social Mbundu para, por um solo e se tornava necessário abrir novos campos algures, os agricultores (

lado, indicar a característica tensão (que se encontra em muitas ffi oe"rántôs ém-tantoíânõs, as"liüãs parôelâõ pâia (
sociqdades matrilineares) entre o princípio de considerar a descendência ;'ú-.1üãe'--qà-i--tes-q'-:qtI$?g.9e,,99g -si!19lq11!:ã*41tivo itin{igúie,
q
e herança através das mulheres e o facto de deixar a maior parte das Uma linhagem podia convidar estranhos para viver com ela e partilhar os
formas de.autoridade nas mãos dos homens; e para, por outro lado, seus recursos, mas tais homens sempre permaneceriam como convidados I

sugerir a importância de instituições transversais s que uniram os Mbun- e não podiam transmitir aos sobriúos os seus privilégios pessoais.
(
du através das fronteiras sociais erguidas pelos grupos de filiação matri- A linhagem autorizava e dirigia as caçadas comunitárias com queimadas,
que tinham lugar no fim de cada estação seca. As principqrq !4iq49s dg (
linear dominantes.
No século dezasseis, os Mbundu eram agricultores que viviam con- ggonómica entre os Mbqndu lendiam poi: l coincidir.com os r
-c99p_e--{?gi9
cenEados em aldeias, pelo menos desde a innodução da agricultur4 numa fi.!!fuo, tal como acontecia com as unidades de residência.
-g1gpg! ._d!- (
época descoúecida do passadd obscuro. A aldeia exprimia geografica- n|s'ji;B;:"d;'õõíècúvos permaneciam estáveis através dos tempos, cada
mente a dimensão residencial da estrutura linhageira dos Mbundu, uma vez ïinãëiês aúõõãdõãõsèu Èióprio e 4ip-r.v-.
-* t

v
C;ttt"af,plr"q"_im ggyj3ry:gg um lugar para ouü-9:.tltlp_padrão {
r5
Para os Pende, Vansina (1966a), pp. 95-7, e as fontes citadas.
comuãffi ieãffi íg_r?g!trCil-è1.a*riltiSsÀôb-rixliãsiteüna'iinhãÉèm
Í
Estes nomes aparecem em Redinha (1961).
pìssffi õ@nÌpggüdgsôçõtigJ*qf (
Tanto esta ideia como o termo_ respectivo recebeÌam tratamento sistemático no estimulante capítu-
lo.de Horton (1971). ["instituições transversais" traduz "cross-cuning insútutions", ou seia, iìsti- -tësõ6 resiõiftlp, naq4ld9ia$'liúagpns "i*iónle-oo-sêìri,jójlrios-p9€*p__?Fn-
doç.seus (
tuições que atravessam os váriosplanos da estratificação social, liganão indivíduos peften;en6s a
maridgp,94d,p-educem-a$-çg--
grupos sociais diferenres, etc.(N.T, )ì ançad d4 ünhagem. Geralmente, as raparigas nasciam na aldeia da liglrggenl
(

I'

1!
I
D 44 ocENÁRro ASPECTOS DA ESTRUTURA SOCIAL MBTJNDU 45
I
I ngundu. Assim, as linhagens podiam sobreviver indefinidamente, mesmo
que o infortúnio reduzisse o número doq seus membros vivos de forma tão
I ' drástica que os poucos sobreviventes se dispersassem para ir viver com
I ouftos parentes. Nesse caso, a identidade formal do ngundu podia ainda
mariter-se, conservando-se viva como uma referência na memória dos
) grupos a ele aparentados, mesmo se já não tinha membros vivos.
t Os rapazes, por outo lado, regressavam à aldeia do seu próprio ngundu A capacidade dos Mbundu para preservarem esta espécie de ngundu
t múto mais cedo do que as suas irmãs. Também eles cresciam ente os
pSrentqs do sgF pli ma:, pouco depois da pübeiãade,ìenaiam u u.-l.g1r
SÈS;_
abstacto sem membros vivos, tinha uma explicação no seu sistema
cosmológico. Os Mbundu, em comum com os Cokwe, os Lunda, os
I tgq1"9"ntç"par"a..o'Fe_ú-Bõffiãffi3Êilgm-rescõ, ía ãldeia aoJ-iríiaóJ"àï Ndcmbu, os Bemba, e oufros que viviam mais para leste, concebiam a sua
t *1ll1g:93ggpggglpglep-p4g o resto da tidãõmo'paÍre dô núcleo de
59f gryI&ffit$_-çgffi,*g"Ãd'iüariêspõsâsefrtïiãS,todosmembiôJ"
sociedade como um conjunto de funções com designações específicas,
estatutos sociais personificados, associados a direitos e obrigações bem
) de ounosjrngundu,viviamcomeles durante os seus anos de maturidade mas determinados, que certos indivíduos vivos podiam transitoriamente
I iam partindo, à medida qup Íls mulheres envelheciam, as filhas casavam e os
filhos partiam para se junfarem aos tios. Do ponto de vista dos grupos de
assumil, com exclusão de qualquer outra pessoa.3' Tradicionalmente, os
) Mbundu descreviam a relação entre cada posição titular e as outras
filiação, o movimento constante de gente dentro destes padrões significava posições titulares usando a linguagem do parentesco - "pai-filho",
que os membros de cada liúagem nasciam e cresciarÍì longe da aldeia da
"tio-sobrinho", "irmão-irmão" etc. - e consideravam imutáveis todas estas
'I sua própria liúagem, mas voltavam a ela quando eram mais velhos, os ligações entre as funções existentes.* * Na África Central, este aspecto da
var6es um tanto mais cedo do que as múheres.
rede de posições titulares daí resultante tem sido chamado "parentesco
I Se bem que, colectiivamente, os grupos de filiação dos Mbundu perpétuo", por causa dos termos do parentesco usados para descrever a
) tendessem para o tipo de estrutura que acabámos de esboçar, cada ngundu
estrutura social e a permanência das relações entre os seus elementos.
individualmente pàssava por uma série de fases, bastante previsíveis.
l Tipicamente, uma ünhâgetn em fase de maturidade tinha um único homem
Os indivíduos, portanto, poderão tomar posse de uma ou mais destas
posições titulares permanentes ou, como dizem os Mbundu, "entrar"
t mais velho na sua geração mais idosa, com um certo número de sobrinhos (kuhinga) no título, mantê-lo por algum tempo e depois legá-lo a um
de meia idade (behwa, sing. rnwehwa, "filhos da irmã") que geralmente
) estavaÍn encarregados de dirigir Õs assuntos da linhagem.
sucessor. Cada posição dessas teve, ao longo dos tempos, um certo número
$_ggs_ glo que de diferentes ocupantes, todos eles tendo tomado para si próprios o nome
) um entre estes sobriúos aspirasse a dirigir o seu próprio ngundu, a morté
da posição, tratando os detentores de outras posições "irmãs" e
) aparentadas como se fossem biologicamente irmãos e parentes, e
ou cada conjunto de irmãos de uma mesma mãe dento do grupo de exercendo os direitos e deveres que competem a tal posição. Daí a desig-
)
lg-_bggb_oç; -deixava _dç se bentfu constrangido a manter a unidade imposta nação "sucessão na posição" ou "sucessão no título" f"positional succes-
) pela presença do mais-velho e partia com as suas esposas, as crianças slon"] usada para indicar a dimensão temporal do sistema no qual os
) peÍlqgn4! e gs filhos varões das irmãs, a fim de estabelecer um novo e
- herdeiros sucedem aos seus antecessores nas respectivas funções titulares.
) -i$gptl.q*9ry91gundu. Os novos grupos podiam dividir as terras anterior- Nestesistemadeparentescopeqp3|qo*,ç.4ç*s-US-ejsggn1ppSlEp-ltlf .
menüe possuídas em ôomum, ou alguns dos novosjln gundu podiam ir para
lar,aìJrEãÃï,i,rümAt;õ;G"dat;-4eïô:;st.ti"r-J*t"olygsps
) outros locais fixar-se como convidados nas terras de linhagens com o.s-eu rç$pectivo título, as quqrs exis-liam
aparentadas. Este tipo de cisão da linhagem gerava, constantemente, novos
T3,s"litn".çm..ppsições
'independenLe_ryrgn!ç.
) gç.qpanlgs vivos, As genealogias perpétuas
d-q-s qep.-s
grupos de filiação mas raramente eliminava as velhas linhagens como
dêscievìan âs relações formais entre os nóúes dentro das linhagens, e um
I grupos formais,* uma vez que um dos sobrinhos tradicionalmente
) assumia a posição do tio falecido e preservava a identidade do antigo r? Ian Cunnison ( 1956). Se bem que estas ideias sejam conhecidas noutros lugares, sobretudo como
* técnicas políticas, elas estão presentes em qualquer área da estrutura social dos Mbundu.
T Em Inglês, "corporate groups" - nas sociedades sem regras escritas, os grupos que têm ,'oersonali_ *+
dade.moral" no sentido jurÍdico (por oposição a outias colectividadãs que ião têm nem con- Escolheu-se "posição titular" para traduzir "named position", para indicar que se trata de uma com-
ponente dumá estrutura hierárquica, com nome próprio, hereditário, correspondendo a um deter-
tinuidade no tempo nem capacidade para exercer direitos). (N.T.)
ì minado título, indicador de funções específicas. (N.T.)

Ì
O CENÁRIO I
ngundu era constituído por um conjunto de posições
aparentadas. os descendentes matrilineares dos
estreitamente
u.upant", do conjunto de
subordinado,,,;":ïï*iïï iï;,",,,n,no,,ï II
ngundu inüernas
(as quais
nomes continuavam.responsáveis por fornecer, perpefuamente,
vivos para essas posições. portantò, os Mbunduiazìam
oËupantes
eram também
das iencalqlg
biológicas dos membros das ünhagens, relativamente pouco I diferentes
iriportantor o
a-gignçao-enqe q
,eltrutury f_orytal-d*e-.guì r gundy,oq o! nqmel que_o constituíq4r-e-.as pes_
que apenas mostravam laços biológicos
e não oi sociais).I tembe o
i

"19.1!.tl-e,Jeltporariamente
preenchiam essas pòíiçoes, e era nèiià,"nioo
que as linhagens ãparentadas podiam .onr.ry*
makota concediam aos membros do grupo de parentesco o
o
donar seu ngundu ancestral para
estabel""", nouo, $upos
I
direito dc aban.

"vaziasl', qqando não havia enre os parenies vivóJ qú"rn


posiçOes*,4o ngg-@!_.
u, p*r".." o"u-
_- dentes; quando assim faziam, eres concediam um nono ão,n" I indopcn.
ao paruntc
*!ï. rtgg,lgnteBgrrtg,.,ejrì-quaÌquer-momento da tuu'tirtoriu. u, rinrrug.n,
que ficava como chefe da nova linhagem. Este nome
num nome próprio
título conslltlr
ou I
apresenüararn-alguns dos seus nomes por preencher,
ou então,
ngmes do rlgundu podia ficar vago se a tiúa "*
ro"lu"-
distinto,
lembahierarquicamente superior e a nova linhagem, através I
seguindo-se como sobrenome
o título do

99+TP1glï$9,
cra respgpsável por ele se extinguisse.
a"ãLrc"aen_ seu chefe, seria assim identificada como descendánte do t do nomo do
velho ngundui so,
Dentro de cada ngundu, alguns nomes conferiam
aos seus portadores
por exemplo, o ngundu de
Múaxi
criação de um novo
I I
na pakasa se dividisse, deveiia lovar
responsabilidades especiais para o bem-estar $upo de fiüação chamado Nzenza yaMaha,ri, e cada
do grupo. EstËs deveres ,a
esüavam associados às posições hierarquicamente linhagem teria chefes com os mesmos nomes.@_
genealogia do ngundu,posições às quaiJos
mente como os "tios" da linhagem (maremba, sing.
mais importantes na
Mbundu se referi'am simples_
b.!gg:", :g* 11-qlg!gygç3g. dos velhos tlur6i' l"rar, ut a"ãOoìlõa,-
4tif !g_@_$eess_ãe_!a!_.ps!rpec-par4gqdtÀzggepgf ggllsd,C,jí'@ja
I
remba). os membros
ggç ente si toao J ãï j*ã &isiffis, {
da linhagem atribuíam ao primeiro detentor de
um destes ;ítulos wrlndu -lelacionav am ausvér
a sua separação dos outro_s grupos de filiação
seniores
4olt ggt or g-4Ëlg9 p-rft ió.. "."a" {
*'
mente, acreditavam que fora ele quem guiara os
actuais. o
com ela aparentados e, gerar-
antepásôados até às tenas
nome colectivo do ngunduãerivava destã títuro,
-\É"' Estes grupos de Íiliação constituem, provavelmente,
mais antigas insriruições sobrevivenües
algumas dal
4q -9..{gqÍÌieaçõ-o_ sogld.l{lg$U e
I
ngundu, e esperava-se daquele que o assumia que
o remba dya podem-tïataf'dà introdüçâo ôâ'âgiiõúiiüa e da fixação dos {
ritos que, como acreditavam, asseguravam cohãitas
realizasse muitos oos
abundantes, taziam
chuvas copiosas, atraíam caça com fartura e garantiam
dos Mbundu em aldeias-linhagens peÍïnanentes. Na ausência
estudos arqueológicos, esta hipótese só pode ser verificada
anrepassador
de àgorocor I
a fertilidade das demonstrações do tipo t'hipótese períodó-área" que postula gue
anavés dc {
mulheres da linhagem
ocupantes
püa que elas pudeisem produzir os futuros
dos nomes da rinhagem. o remba dya ngindu
maior distribuição espacial geralmente significa maioi duração
"umt
no t!ÍÍr. I
mediário entre os membros. vivos da linhagem e os
servia de inter-
ocupantes já farecidos
po".il De acordo com isto, a generalizada distribuição de linhàgens
como rl
as dos Mbundu, e dos sírrbolos a elas associados, demonstrariam
dessas mesmas posições titulares, os aniepassado,
representavam a dimensão espiritual de cada
qu" colËctivamente grande anúguidade. Ao incluirem geqealogias que os ligam
a gut
a povos quo
rl
título. Ele era também o
mediador entre os membros do ngundue os espíritos lif:E_b-e-n O$taatqç, co-r;rg_ 9.s únda do Katangã, as traúções áo, lfOün.
rf
das terras e das águas
que eles possúam. Era em torno da sua posição
que girava a vida sociar e $1n*u_",T
gry deslaque.a amptidi4e o9 gis1em,a
1iryc9 de liúagehs ilo QErff rf
ritual da liúagem. os ocupantes de um número variável
de ouEas
-"rgrjlo paÍre lntegmnte. Esrruhffas de liúagèìs úúto semelh:Àl,itoo rf
posições seniores agiam como conselheiros Fü'ecem éiisiir a sul da'floresta equarorial muitõ para r"rt", utingiiao ã,
do le:mba àyo nguoau Grandes Lagos. o remba dya ngundu dos Mbundu, tal como os r,l
uslram a designação de makota (sing. kota ou dikota,literámenïe " sous
"mais equivalentes por toda a região das savanas meridionais, por
velho").-se_as suas responsabilidadesÈvidentes
eram um tanto menores do
Qle as do lemba dya ngundu, as suas funções políticas e sociais menos
' usava um pó branco sagrado chamado pemba para assegurar
exemplo,
'l
visíveis, como conselheiros e juízes, iulu", maiores.
das mulheres da sua linhager-n. Aos homens do ngunduele fornecia
a fertilidado
um pó
tf
"r*e dos dignitárior'du, linhagens
Esta breve descrição da estrutura
, vermelho chamado takula, igualmente muitó difundido.e A sua
estava estreitamente associada à mulernba, árvore que os Mbundu
autoridado rf
Mbundu conduz a uma explicação mais aprofunúda sempt! 1l
das genealogias de
liúagem, analisadas como fontes históriìas no capítulo- -nomes
incluídos nestas genealogias eram os nomes dos'marimba
I. os "
"-.* (p.
cial"
arrr;
169).
o autoÍ acrescenta que "nem sempre é esse o cÍlso; portãnto, a prova
é Bpcnar pü. (l
de cada ngun-
du. No contexto das genealogias, o lemba representava
todos os nomes
3e obtem-se reduzindo a pó
p..117-
a madeira do pterocarpus tinctorius, segundo w. D. Hambly (1934), tl
rf
'l
IT
D
D 48 OCENÁRIo
I plantavam em funte da suh residência, na aldeia.{ As exactas conotações
ASPECTOS DA ESTRUTURA SOCIAL MBI.JNDU

-se qüe uma certa variedade de alianças matrimoniais unia as linhagens


49

D simbólicas da mulemba, no contexto Mbundu, continuam duvidosãs;nt Mbundu umas às ouüas. Não possuo quase neúuns dados para sugerir o
I porém, paÍa agÍicultores iünerantes que deslocavam as suas aldeias ao fim tipo ou o âmbito destas combinaçoes, muito menos paÍa o;éculo dezas-
I de poucos anos, assumia àlgum significado o facto prático d.e os ramos
desta árvore criarem raízes quando fixados ao solo e crescerem rapida-
seis, mas os que-teúo indicam que regÍas de casamento preferencial,

t mente (para além dos seüs possfueis significados simbóücos). O lemba


capazes de produzirem pares permanentes de jingundu para troca de
esposas, tendiam a ocoÍrer mais vulgarmente enfie aqueles Mbundu que
I dya ngundu e os makota valorizavam a ampla sombra que a árvore forne- não dispunham das extensas genealogias de tipo segmentar como as dos

I cia para as suas deliberações.n2


Os jingundz inspiravam à maioria dos Mbundu uma profunda
Songo. A genealogia de linhagem mais abrangente dos Songo parece ter
organizado as relações inter-linhagens sem necessidade dos laços
I lealdade. Em muitos aspectos, o ngundu representava a instituição fun- adicionais fornecidos por regras de casamento preferencial ou obrigatório
t damental nas suas vidas, pois desempenhava funções cruciais da
linhagem: providenciando o acesso à terra, uma vez que todas as terras
nitidamente desenvolvidas. Portanto, é impossível dizer muito acerca das
alianças de afinidade como meio de estruturar relações entre os grupos de
D aráveis se encontravam no tenitório duma ou doutra liúagem; forçando filiação; apenas se pode dizer que a sua importância deve ter variado na
] a chuva a cair na época própria e em quantidade suficiente; sendo razão inversa da abrangência dos diferentes conjuntos de genealogias de
intermedifuio entre os vivos e os mortos; e definindo o lugar de cada üúagens.s
) indivíduo na sociedade ÌvÍbundu. Os Mbundu apenas aceitavam como Do ponto de vista de um indivíduo Mbundu, as relações formais entre
I seres humanos seus semelhantes as pessoas que tinham alguma posição os jingundu como colectiv.idades, quer sejam laços genealógicos resul-
l no seu sistema de linhagens, quer como detentores de um dos nomes dos
ngundu, quer como dependentes formalmente de algum grupo de filiação
tantes de cisões de linhagens, quer sejam laços de afinidade criados pelo

I ("escravos", "penhores" etc.).4t Em teorip, não pertencer a um ngundu


cásamento, nem sempre fornecem uma rede viável através da qual ele
possair em busca de oportunidades em áreas às quais não se estende essa
t excluía uma pessoa do direito de apelar ao apoio dos seus parentes, rede de parentes consanguíneos ou por afïnidade. Os laços de parentesco
I impedia-a de casar ou de cultivar alimentos, negava-lhe conforto espiri-
tual; na prática, muitas vezes erâ equivalente a escolher entre uma
pessoal decorrentes das relações do seu grupo podiam ser manipulados,

t moúe certa ou uma subordinação abjecta aos desejos de um senhor com


dentro de certos limites, para produzir pressões variáveis dentro da estru-
tura, mas não reflectiam necessariamente os interesses pessoais que um
I lugar na estrutura da linhagem. Por todas estas rzvões, os Mbundu
davam às suas linhagens grande importância e é evidente que consegui-
homem podia partilhar com não-parentes que, por exemplo, estivessem
envolvidos na mesma actividade económica que ele. A soqigdg4qlbun-
) ram preservar a sua estrutura básica sem grandes mudanças através de du contiúa vários ourros ripos de instituiçóes que ,".púOiu* ï tuit
) vários séculos.e ïËcèibiãaciês piáticas, uo p..rrriti, unir pessoás, atravessanão as frontJ'as
Se um indivíduo apenas podia sobreviver na sociedade Mbundu -lèaldade'dá
) aõôïais-rsüiiíãtpefã ãàeigáriâ maioiiã-&ií MuünOú ãã- suas
com o escudo protector fornecido pelo seu ngundu, a linhagem como linhagens. Em termos estruturais. tais instiruições cortam através da estru;
) grupo apenas podia sobreviver através de estreita cooperação com os seus rura liúageira que domina a sociedade. Se as classificarmos segundo a sua
) vizinhos. A regra da exogamia linhageira forçava os membros da duração e a especialização dos seus objectivos, estâs instituiçõãs"transver-
linhagem a casÍìr fora dos limites do seu grupo de filiação, e pode deduzir- ìáiS iafrì dêsde acordos bastante fnfonn4r-s. g-g{ fr,o--c., gnÌrg.esfranhos que se
t vi_am lgçados na prossecução comum de ob_j991fyo9 {9 âmlito limitado,
) Ficus psilopoga; Chatelain (189a), p. 267,n. 17l. até viírios tipos de_ sociedades sec(etas institucionalizadas e de grande
A mesma árvcire tem um papel proeminente no complexo sistema simbólico dos Ndembu da Zâm-
I bia, por exemplo; Turner (1967), passin. "4pggçS. Evidentemente que é impossível reconstituir qualquer das insti-
_Calunga,_ I Our. 1969; cf. Otto Schütt (1831), pp.
Testemünho de.Sousa g4-5. É também muito tuições mais efémeras do passado remoto, mas as comparações entre insti-
I lmgfa. a 1o19-!e distribuição da mulemba como um símbolo da áutòiidade da linhagem; José
Redinha (19ó3), p. 72. tuições dos Mbundu modernos com organizações similares existentes
) 41
Joseph C. Miller (1977).
Esta é, evidentemente, a,hipótese crucial para toda a análise que se segue. Na ausência de dados ar A recolha
I completos para o século dezassete, tal-suposição deve afoiar-se,-po,
tiagmentares qu9
u. lado, nos dados
de informação fidedigna sobre a prática social dos Mbundu, posta em confronto com a
teoria social, foi impedida por limitações de tempo e do campo de acção da minha pesquisa em
s.u_a
!ep9s para sugeú que nada de imponante mudou e, por outro.lado, em aÍgu_ Africa. De qualquer modo, na Angola moderna, essas prática! alterarâm-se nitidarirente, e em
mentos do tipo da hipótese "relação período-área de e-xpansão',.
I grande escala, sob o impacto da guena e da urbanização.

I
50 ocENÁRIo
AspEcros DA ESTRUTURA socIAL MBLTNDU Sl
entre outros povos, com eles relacionados,
dão uma boa ideia das carac_ genealogias das linhagens. Eles constituíam uma espécie de incipiontc
terísticas gerais que teriam aquelas que
deverão ter existido há muito classe de idade, temporariamente unida peras experiências partilhadas
tempo. no
*- v;/ profissionais especiarizados de vários tipos
acampamento da circuncisão, e conservavam certos laços àurante toda
a
adivinhos e os curanãeiros -
especialmente os vida. A cerimónia, àparte a sua função educativa e o seu carâcts de con-
lngongì, il. jingaiga, ou-iíÃiàa".prural firmação dos rapazes Mbundu como homens Mbundu, tarnbém fornecia
- yimbanda) - manttnham,retaçOes infàrmais
mas intensas uns com os ligações transversais entre os jovens do sexo masculino que residiam no
ou'os, independentemente das suas filiações
de rinhagem. Esúe género de mTmg os seus pais. euando esres jovens dispeisavam após as
solidariedade profi ssional.permitia, -aos localco.l
praticantes destas artes mais bem cenmómas de iniciação, paÍa se irem juntar aos irmãos das suas mães
sucedidos, viajar para muito longe
g receber da esfera d"
boas-vindas respeitosas dos colegas
;;g*p"
i;"parnt"r"o nouLas aldeias, talvez distantes, criavam uma teia associativa que acaba-
rò'"ai, J"spectivos va por se estender por uma vasta área. os que se fonnavaur noi mesmos
pàrentes, onde quer que fossem.
Mesmo uma rede infonnar de interesses " acampamentos de circuncisão recebiam nomes especiais da circuncisão,
profissionais recíprocos, como esta,
fornecia a cada Mbundu uma rede que indicavam as suas ligações uns aos outros, de um modo análogo
supra-linhageira de contactos e servia -"1'iJn'riu*"nr", aos
p*u o_.Jri" nomes e genealogias pennanentes dos jingundu.
competências e coúecimentos através oa socieoaae.
os adivinhos favoreciam os filhos em de*imento Ã; õ" parece, uma associação de mestres caçadores (ltibinda, singular kibinda)
como herdeiros do seu estatuto profissional
dos'sobrinhos, fornecia um bom exemplo de como estas associações óriavam laços
.";;;;;dã; d"_*_ pessoais, que uniam pessoas fora das estruturas do parentesco. Dada
a
",
H#iìrt#Xtendência
dominanre, que enfatiza"u u ;"";; "L.ao srupo permanência da associação kibinda e a sua estreita conexão com algumas
das posteriores formas de autoridade políúca entre os Mbundu, n"te u
Mais estruturados, embora também mais
efémeros, erain os curtos pena nma descrição mais exaustiva que noutros casos. o kibindanão era
de cura e os movimentos para erradicação
de feitiçaria.{7 Estes forneciam apenas um caçador especializado no uso do arco, fleshas e ztgaia,u,sados
meios institucionais u, pãrrou, podiam, temporariamente,
.ne,log,Cuais para mataÍ hipopótamos, leões, leopardos, javalis, grandes anúopes,
abandonar a sua lealdade básica p-u os respectivo s ngundua favor pacaças e jacarés; acreditava-se que era também rrm especialista
de laços com não-parentes, laçós que "o*
se baseavam quer numa aflição conhecedor das artes mágicas que lhe permitiam tornar-se inviiÍvel,para
comum a propósito duma doença, quer
num esforço cãmuÀ a sua presa, voar pelos aÍes, ou manejar annas enfeitiçadas què nunca
nar os feiticeiros do seu seio. Entre fara
os Mbundu, era característico "timi- falhavam o alvo. Fossem quais fossem os métodos pelos quais o
rituais envolverem técnicas de possessão destes libinda
pelos espíritor, o'nu noçao qu" perseguia e matava a sua presa, ele desempenhava várias funções essen-
se relaciona muito de perto com
a teoriaìa sucessão ,i*_ pÃi'io* ciais para o bem-estar do ngundu. Tiúa a responsabilidade de entrar na
lares' em que o ocupante de um nome "", a identifi-
buscava, ritualmente, floresta em busca de certos animais, que se acreditava serem necessários
cação com a essência espiritual da sua posição
comunicação com arguns ou todos os
,irf* po, n,"io, u para adivinhar as intenções dos espíritos da linhagem, ou para augurar o
", "rJ. ertu,
seus anteriores-o"up-t"*. sucesso de algum empreendimento previsto. se o kibinda caçava bem; os
técnicas actuavam cruzando as fronteiras
das linhagen, úituã, pÍ*a a membros da linhagem podiarn ficar descansados quanto à hannonia das
estrutura sociar Mbundu, consequências
muito diferlntep"oe ounas tecni- suas relações com o mundo espiritual; mas se não aparecesse qualquer
cas mediúnicas (o kuxingilisa, ver
adiante) que funcióiravam exclusiva_ caça, tomariam esta má sorte como sinal de que deveriam descobrir a
mente no seio das rinhagens e tendiam
a refoiçar u ,orio-i"auJ" de cada fonte do evidente desagrado sobrenatural. Desta e doutras formas, as
grupo de filiação.
actividades dos mestres caçadores yibinda reforçavam a integridade dos
Os grupos de viziúos Mbundu organizavam,
regularmente, acam- grupos de filiação Mbundu.
pamentos de circuncisão nos quais
os jou"n, de uma locaridade eram Porém, um outro aspecto da associação dos kibinda unia todos os
colocados .todos juntos, independentemente
das suas posições nas caçadores profissionais Mbundu uns aos outros, independentemente do
seu estatuto de linhagem. Um aspirante a caçador (mona a yanga, otJ
dá um cerro número de poÌmenorcs
'': Neste
lrï""Ëïllttrà"iíJi#rp;iiJJ;1ïïieÌ.re3-200, que "filho do kibinda", que também era coúecido como yanga) podia iornar- (
ponto apoio-me uasrcanente
ba
.
na terminologia
e nos conceitos de Victor Tumer (19ó8) -se aprendiz de qualquer mestre para ser treinado nas artes do caçador
vi"ri"ïìïõzrï.-ruw e Jan
profissional. A relação entÍe mona e mestre era vista como análoga à t

I
ìr
o crNÁRro
ASPECTOS DA ESTRUTI.JRA SOCIAL MBI]NDU 53
relação entre pai e filho, iou seja, cmzava os laços.
matrilaterais entre tio e
sobriúo (rnwehwa): for ocasião da .morte de um kibinda famoso, pemba, tal como os adiviúos trabalhavam por intermédio de
uma varie-
reuniam.se os yibinda e bana a yanga, de longe da$ede objectos físicos aos quais atribuíam poderes especiais, e o meste
e de perto, fara partici
par nas cerimónias, que culminavani, com a extracção caçador kibinda alcançava os seus êxitos através da posse do dente do
de .m dente do seu
maxilar do caçador fglecido e_ uma caçada comunitária. mestre ou pela manipulação de figuriúas talhadas na madeira, cornos
os ìuç"r qu" ou
yibinda, que se reconheciam enne si por sinais plantas. Todos estes objectos mediadores serviam também como
ïy* osmuito ,..r",oi .rr"n.
para alérn dos limites do parentesco e mesmo
distin-
tivos visíveis da função, como insígnias do estatuto especial concedido
$T-r" da etnici- ao
!aCe, nga incluir igualmente os Songo, pende, Imbangala, Cokwe detentor do nome ou útulo ao qual pertenciam.
e
Lunda. Dizia-se que encontrar um outro kibinda A noção de autoridade visra como o acesso a forças espirituais, obti-
na floresta era como
do'afravés da posse
:l:9n-tr* um paÍente, e o estatuto de mestre caçador obrigava um
kibinda a tornar extensivos aos seus coregas todos os
,de objectos especiais, signifitava lue qualquer
Mbundu que controlasse uma insígnia de autoriãade podia deleg* u,nu
benefícioã que ele
retirava do seu próprio ngundu! gsà fortes laços porção do seu poder, simplesmente concedendo a ouhem uma parte
faciliiavam os desse
movimentos dos caçadores, que penetravam muital objecto. Este é o tipo de lógica subjacente às cerimónias que assinalavam
vezes em regiões
desconhecidas quando perseguìanr-caça grossa, a cisão das liúagens; o fundador do novo ngundu, usualriente,
e forneciam um mecanis- tirava um
mo-potente de integração da sociedade Mbundu, para ramo da mulemba da linhagem donde saía e, onde quer que fosse fixar
lá da rede consti- a
tuída pela estrutura das linhagens. sua nova aldeia, plantava.o, implantando com ele a essêniia espirirual
do
Por fim, algumas indicações sobre as ideias dos grupo de filiação, bem como a autoridade do remba. os ìaçadores
Mbundu a respeito da
natureza da autoridade podem ajudar a preparÍ*
o terreno para a análise dos iniciavam os aspirantes no estatuto de kibindadando-lhes amúteto, que se
primórdios da história política dos Mbundu, que presumia darem acesso aos mesmos poderes mágicos a que o mestreãevia

unr'isuãffi
viú a seguir. os Mbundu
o seu próprio sucesso. os adivinhos transmitiam as suas competências não
só.aEavés da instrução, mas também através da entrega ãu venda de
objectos que davam aos seus herdeiros e clientes u,n á"".ro, mais ou
"::-'ffff:.ïÌl9Tl.!$l"S.l.e*qçequsdetenioresvJüoó:'ÂâüË;ïA;d;ïüé
s€ baseava na capacidade de invocar a aprovação-sobrenaturar, menos limitado, aos mesmos segredos de que eles eram detentores.
A um
não era
merente aos Seres humanos, mas sim aos símbol,os nível mais efémêro, o lemba dya ngundu podia indicar agentes que eram
de autoridade associa_
do:..ugr t{núos. Algumas vezes, os Mbundu expressavam empossados para agir em seu nome, dando-lhes simplesmente um
subliúando a íntima conexão enüe um re?resentanüe
.*ü n"iu lo material da sua autoridade.
símbo-
vivo, sem qualquer
poder em si próprio, e os detentores do tíúrojá
falecidos, ,* pi"o"""r- -Y A formação dos primeiros -e-pça-dp; Mbundu ocorreu num contexto
sores, os quais "eram", colectivamente, a social não muito diferente daquele que acàbámos de descrever: linha-
autoridade contida ,i"aau ,u"
posição. os nomes implicavam diferentes graus gens matrilineares, fortes e independentes, que tendiam a
de autoridade a"r",up", monopolizar as
os nomes mais influentes nas vidas da maioria lealdades da maioria dos indivíduos. A
das pessoas, antes do" coesão e autonomia das
aparecimento dos esüados, erÍìm os títulos quem linhagens diminuía a importância de instituições que atravessavam
a incümuia a responsa- as
bilidade pelo bem-esg d* liúagens, os ntalemba fronteiras sociais erguidas pela regra da descendência unilinear, mas um
dya ngundi e os
-uaiïinrro.,
makota. Profissionais de grande reputação certo número dessas instituições esbatia as linhas que separavÍìm os
.o.o .uçuáãr"r,
mediums e outros do gépero, exerciam basicamente paÍentes dos não-parentes. Destas, a mais durável e géneralizada
a sua autoridade sobre parece
animais, oráculos ou forças espirituais, e não
sobre as pessoas. ter sido a associação dos caçadorès kibinda.Ip_g"1!$ggn_qgqg!-lgg_
O detentor de um nome poderoso geralmen" ,i"fr" instituições permitiam aos homens contornarïriFõëã-arËì*ô d.
às forças
espirituais que lhe estavam subjacenles através "."*ode algum
da posse filiação baseados na sucessão das posições titulares . no
i.Ënt"..o
o!j99to' o qual se acreditava quá servia de mediador
enüe o mundo .-peì{LéqPo'-ejas--amplreyam a escala da interacção entre os il4bundu e
visível dos vivos e o mundo invisível oo sourenaturat.^õ-u*ï) forneciam à9_ pgsgoas opor.tunidades Ëara*õôópË;àém " nõ- seniiõõ dè'
ngundu, por exemplo, era impotenüe sem a
ar"
árvore objectivos qu-e á çst'uÍurá da ünhug'n nao rrres jenáitia .;i;gtrÀ.Ji
,uu
*
^"trìU"--r"rárïu da que algumas destas instituições manifestavam tenoenciálaraje_qqu-
Testemunhos de Alexandre vaz e Ngonga a Mbande,
23 Set. 1g6g; sousa calunga, 2 .ut. 1g6g. no tempo, èlas assemelhavam-se a "instituições de tipo Ërtuá;q\r,"
":ar
$":lf"n-e*n!"?-Y*L$$9çl _p-gll.ltçq.ll, A parte restante desìe üvro exami-
54 ocENÁRro

na as vias pelas quais oç Mbundu, através da distribuição de sírnbolos de


autoridade e da delegação da autoridade, transformaram instituições
politica:nente tão incipientes como estas em várias estruttúas políticas, CAPÍTULO trI
as quais no início dg século dezassete se assemelhavam muito a
"estadoô", Origens Endógenas

Contam os Mbundu que o mundo começou quando Ngola Ineno


chegou de tenas longínquas do nordeste e se estabeleceu onde os Mbundu
hoje vivem. Ngola procriou uma filha, Samba, e Samba por sua vez deu à
luz Kurinje kwa Sanrba e Kiluanje kya Samba. Kurinje kwa Sanrba
(deixando momentaneamente de lado os descendentes de Kiluanje kya
Samba) foi o progenitor de Mbulu wa Kurinje e Mbulu wa Kurinje gerou
Zundu dya Mbulu, Kongo dya Mbulu, Mumbanda a,Mbulu, Matamba a
Mbulu, Kajinga ka Mbulu, Mbumba a Mbulu, e talvez Kavunje ka Mbulu,
os fundadores dos Ndongo, dos Hungu, dos Pende, dos Lenge, dos Mbon-
do e Imbangala, dos Songo e dos Libolo, respecúvamente. O mundo, ainda
de acordo com os Mbundu, começou quando os antepassados desses mes-
mos actuais subgrupos etnolinguísticos vieram com malunga do mar e
pararam quando chegarain às colinas e vales onde hoje se podem encon-
ftaÍ os seus descendentes. Outros acrescentam que o mundo pode ter
começado com Adão e Eva, duas pessoas que viveram múto longe dali e
tiveram muitos descendentes. Entre eles havia Caim, o pai de todos os
povos negros.
Para a maioria dos Europeus, por outro lado, as origens do mundo são
demasiado remotas para esüarem associadas à formação dos Mbundu, e é
mais fácil acreditar que diversas populações locais tabalhando a pe{ra e
o ferro, conhecidas apenas pelos artefactos que deixaram em locais de
acampamento há muito abandonados, ocuparam durante muitos séculos o
noroeste de Angola. Não menos conEaditoriamente do que as histórias
antagónicas de Ngola Inene e dos malunga vindos do mar, a língua bantu
que os Mbundu actualmente falam associa-os a povos que hoje em dia
vivem muito distantes para noroeste, na modema Nigéria. Em face dos
factos arqueológicos e linguísücos, será que a tradição acerça de Ngola
Inene e dos malunga revela alguma coisa sobre a história dos Mbundu, e
o quê, que não seja uma mera lenda? A resposta mais plausível é que as
nadições não se referem às origens do povo mas sim, tal como a adaptação
Mbundu da história de Caim e Abel, indicam o aparecimento de novos
modos de organização política e são, portanto, pertinentes parc a
quest?Ío de como os grupos de filiação Mbundu pela primeira vez se
organizaram segundo padrões diferentes dos decorrentes da cisão das
linhagens.
)
) 56 ORIGENS ENDÓCENAS
oRIcENs sNDóceÌ.Ìns
)
Para os Mbundu, as tradições de Ngola Inene e dos marungaperteu- com razoável certeza que uma forma de mudança na sua sociedade, antes
) cem claramente a um "tempo histórico" e não aos anteriores'períodos
de 1600, consistia em inovações frequentes e em pequena escala na orga-
I 'imíticos" e "proto-históricos-", que se encontram na oralidade de muitos
nização social, com ideias que constantemente apareciam e brilhavam
povos africanos.t Muitas sociedades sem escrita concebem o seu passado
) fugazmente, dentro dos limites de um único grupo de filiação ou confi-
remoto em três etapas, evoluindo desde uma época míticu, Ë- qu"
nadas a algumas linhagens, antes de se extinguirem e deixarem
) monsfos de pernas para o ar vagueavÍrm pelo mundo, passando por uma
inalteradas, em grande medida, as instituições sociais pan-Mbundu. Novas
idade de transição de super-homens, até um período totalmente
I histórico crenças religiosas, por exemplo, assim se espalharam e se desvaneceraÍn;
povoado por seres humanos não muito diferentes dos homens
modernos.2 chefes de liúagem inventaram e testaram novas técnicas mágicas que,
)
os Mbündu não fazem neúuma tentaüva para relacionar quaisquer esperavam eles, lhes trariam chuvas abundantes ou numerosos sobriúos.
) filosóficas que possam ter acerca da òriaçao do mundo com as
:renças Por todo o lado os homens estabeleciam acordos formais mas temporários
descrições, relativamente fáceis de entelder, sobre ó processo de formação
) com os seus viziúos ou gente conhecida, fabricando e exibindo símbolos
das suas estruturas políticas e sociais. É evidente quà que, Ngola
Inene e visíveis das suas inüenções: um amuleto, chapéus, peles, braceletes,
I a sua progenitura, quer o povo que trouxe os malunga-do mú são
vistos pedaços de ferro, figuriúas talhadas em madeira, bengalas, sinetas, gon-
)' pelos Mbundu como muito iguais aos próprios Mbundu.
Mesmo se arguns gos, e uma variedade de outras insígnias.
destes protodpicos humanos sabiam usar magias poderosas,
)
neúum ãeles A maior parte de tais inovações falhou, pois a disparidade entre as
camiúava de cabeça para baixo, tal como sã de antepassados mais elevadas expectativas que criavam e a inadequaçãb dos meios disponÍveis
rníticos de ouüas sociedades, nem de qualquer"ontaoutro modo davam sinais as condenava a falhaf e, por isso, a grande maioria não teve qualquer
da sua não-humanidade com comportamentos gÍotescos ou chocantes.
efeito duradouro sobre a sociedade Mbundu, excepto no que toca a algum
As suas qualidades, essencialmente humanas, sugerem que eres represen-
resíduo de menor importância, sob a forma de um obscuro amuleto no
tam acontecimentos históricos autênticos e não-corresiondem apenas
à arsenal mágico de algum dignitário.de liúagem, ou de um novo penacho
afirmação da cosmolog-ia Mbundu actual posta numa
lìnguagem mítica. no barrete de um titular. Essas estrÍo pÍra sempre perdidas para a história.
As idades míticas e heróicas do passado, geìalmente, imprìcari aescriçoes
Contudo, algumas inovações permaneceram e tornaÍam-se parte integrante
da formação de estnrturas sociais do presãnte mediante à apresentaçaã
do da estrutura social Mbundu, fornecendo novas ligações enffe as pessoas,
contraste entre um primeiro período de caos e a emergência da
ordenada ali onde não as havia anteriormente, reforçando a autoridade de certos
organização social modema.3 A humanidade essenciJ de Ngola Inene e dignitários a expensas de outros e, cumulativamente, impelindo os Mbun-
dos que trouxeram os malunga,se assim é para os Mbundu,
silnifica, poiq du afravés de uma sequência de desenvolvimentos históricos que, vistos
que os Mbundu acreditam que o esboço das suas instituiioes
sociais em retrospectiva, parecem possuir uma estrutufa identificável, para
actuais estava já presente na época em que as suas tradiçoós históricas
definir um padrão que se repste. Portanto, estabelecer os primórdios da
começam.
história políúca dos Mbundu consiste em identificar e colocar pela respec,
Mesmo se a escassez de informação sobre as mais antigas etapas
da tiva ordem cronológica as mais importantes e inovadoras iécnicas de orga-
história política dos Mbuüdu deixa uma maÍgem de conjecõ'a
em qua- nização social, aquelas que afectaram de modo permanente a estrutuÍa
quer interpretação que se faça deste período, determinadas
continuidades social Mbundu e encorajaram, desse modo, a conservação dos sÍmbolos
na estrutura da sua sociedade permitem ao historiador, pelo menos,
físicos correspondentes, como fragmentos de provas vindos do passado.
delingar as áreas em que são possíveis reconstruções fiáveis à recoúecer
Thdo o resto teú de continuar desconhecido.
aquelas paÍtes do passado dos Mbundu. que pennanecem
na penumbra ou A mulúplicidade de símbolos actualmente em uso entre os Mbundu
completamente descoúecidas. usando' dadoì ehográficos recolhidos
dos mostra que sucessivas gerações de dignitários incorporaram novas in-
Mbundri e dos seus viziúos durante os últimos cem anos, pode afirmar-se
sígnias, de forma eclética, sem abandonarem os mais antigos símbolos de
autoridade dos seus antepassados, mesmo depois de a sua fé no poder das
aryi a terminologia de E. V. Thomas e D. Sapir (19ó7).
I] lmqrego
FÍank E. e Fritzic P. Manuer (1972), pp. g4-90, ilustram esìa antigas relíquias ter começado a desaparecer, Sem dúvida, o significado
sequência na mitorogia grega.
' Lq*p ser apreciadas análiscs como-as de John Middleton
(1970)' sem condenar todas &s tadições AS6S), pp. fA_Z+] oís?iad._
-,auüoJìí"ãiàgi"o.,'
exacto e o uso de cada insígnia foi variando ao longo do tempo. Por exem-
tristoã"as ao rular iúgin'driïae
(Beidelman, p. 96).
a Um ponto mencionado.porJack Goody (1971).
d
58 oRIcENs ENDócENAS A VINDA DO LUNGA 59
T
plo, muitos dos actuais símbolos de autoridade de menor importância gfande número de símbolos e técnicas organizativas a eles associadol nãO é
peÍmanecem como pálidos resíduos de objectos cuja reputação em tempos
ãonseguiram difundir-se, ou úveram apenas uma importâncig EmPgflítlq Ë
-cle
inspirou verdadeiro terror aos corações {e todos os Mbundu. Os titulares
acumulavarh conjuntos completos de tais símbolos, acrescentando-os às
antes serem abandonados a favor de ideias mais novas' maig raüf'
fatórias ou mais oportunas. O processo de contínua invengão, difUrãO'
.I
suas colecções à medida que reivindicavam novos poderes para si alteração e desaparecimento de movimentos reügiosos enfie um
povo do â
século vinte que dispõe de instituições sociais similares, como oil{
próprios, em resposta aos tempos de mudança, em certa medida do mesmo
Ë
modo que a legislação ocidental assenta num espesso sedimento de
regulamentações que reflectem as circunstâncias dos tempos passados.
descrito para os Kuba da província zairense de Kasai com pornÌonolEl
F
O observador externo deve, pois, interpretar a panóplia de objectos asso-
ciados aos actuais titulares Mbundu como um registo de técnicas de
fascinantès,t não pode diferir signiÍicativamente da atitude de eXpcrimcn'
tação social e religiosa que deve ter animado os Mbundu há mútas contl'
nas de anos atrás,ãtitudó que ainda hoje os moüv4 apesAr dos embrutôC6'
F
;
governação tentadas no passado.
As radições orais Mbundu, descrevendo as suas "origens" em termos
dores efeitos da dominaçío colonial sobre as mutáveis instituições socirlr
africanas. Movimentos deste género podem fornecer a chave
p8ra o I
de Ngola Inene e dos malunga. explicam a proveniência e significado de
dois importantes símbolos deste tipo. Elas são, portanto, o registo
aparecimento de estados enEe os Mbundu.
uma vez que os registos disponíveis apenas mostram uma fracção
d
í
consciente do desenvolvimento político, o qual, embora expresso na
linguagem personalizada de fundadores humanos, pretende ser a expli-
cação de duas das numerosas insígnias de autoridade que se enconEam nas
das instituições iociais e políticas que os Mbundu experimentaram' S
sente anfliJe ümita-se a duas evoluções que os Mbundu recordam
plç'
como 8l
básicasilngun'
lr
mais fundanentais desde a aglutinação das matrilinhagens
Çr
mãos de actuais chefes de linhagem e detentores de útulos políticos. É por
causa disto que as linhagens cujos chefes hoje em dia são responsáveis por
uma insígnia de autoridade chamada lunga (plural malunga) nÍurÍìm as
du e asua aceitação das árvores mulemba e dos chefes de linhagem a olar
associados (os ntnlemba dya ngundu). Ambas essas insígnias, o
lunga o o d
ngol.a, em épocas diferentes, paÍecem ter apoiado dois moVimentos COn'
Ë
radições acerca de antepassados que vieram do mar. As histórias de Ngola trLtantes qui estão subjacentes à história política dos Mbundu: tendênciar
é
Inene explicam a relíquia central e sagrada de grupos de filiação que
atribuem os poderes do seu chefe a um pequeno pedaço de ferro chamado
pafa o púcúarismo ã-localismo centrado nas linhagens' e as tentativa!
ãportur, de transcender o úvçl da organização linhageira afiavés do dcson' a
ngola (phxal, jingola). E as adaptações Mbundu dos mitos.de origem
bíblicos, coincidindo com o padrão de explicação das "origens" em termos
volvimento de estruturas políticas centralizadas e a uma escala maiOr. 6
de dispositivos protectores encarados pela liúagem como fundamentais, A vinda dolunga
Ja
tendem a aparecer em aldeias situadas nas propriedades de uma Missão ou As liúagens Mbundu que vivem ou p* média e norte do rio Lui é
naquelas que contam com uma substancial proporção de cristãos entre os
seus membros.
venerÍrm umúspécie de insígnia de linhagem chamada lunga,
uma rclí'
quia sagrada qoe us.om" formas físicas variadas mas, geralmente, tomou
d
Não é seleccionando como definitiva uma única "origem" Mbundu u-for-ã de uma figurinha humana talhada em madeira. Estes mglunga, Ç
que be resolvem as aparentes contradições encontradas nos múltiplos que eles iden'
explicam os Mbundu, vieram originariamente de'Kalunga" é
mitos acerca de Adão eBva, malunga, Ngola Inene e oufios. Eles resultam tificamcomo''agrandeágla',,semqualquernoçãoclaradeondesc
de uma longa e complicada história, na qual um certo número de diferentes localiza esta fonte aquática. Pelo facto de quase todos os observadoreg
Çr
princípios de organização social e política teve diferentes efeitos nas
actuais linhagens Mbundu. Os dados disponíveis, por complexos que
europeus terem interpretado a palavra como referindo-se ao
Oceano AtlâÍt' F
tico, ou aos "grandei lagos" de África, os Mbundu, hoje em dia, dão
tam-
é
sejam, ainda representam apenas uma pequena parte da história total:
representam aqueles insígnias de autoridade e tradições a elas associadas
bém esse significado ao nome "Kalunga" e acreditam
sados que, há muito tempo atrás, trouxeram
que os seus
os primeiros malunga
antepas'
j
que sobreviveram à passagem dos anos, para perrnanecerem como símbo-
los respeitados no presente. Presumivelmente, são as que conseguiram
paÍtiram da ilha de Luanda, onde os Portugueses tiveram um centro
ó
obviamente, não há
F
administrativo durante aproximadamente 400 anos. ;
mais ampla difusão e Íbrneceram vantagens suficientes ao povo que as
adoptou para serem integradas no seio da sua estrutura linhageira. Se bem 5 Vansina(l97la). ]
clue tais símbolos devam ter sido "os mais importantes", neste sentido, um * Um exemplojá publicado deste tipo de tradição aparece em Haveaux
(1954)'
Ç
J
ll I t.,
t-
)
I 60 oRTcENsENDócElrAs A V[\DA DO LUNGA 6l
)
neúum facto em que se possa basear esta afimação. Na actualidade, ciados a formas muito antigas de autoridade, desde os Kuba
Que rtizsrn qr.
os
malunga têm uma associação com a õhuva e com a água, "Keloong" (Kalunga) vem de tempos muito antigos,r passanão pelos Luba
ïtr€ita
"habitüldo" em rios e ragps e ajudanão os seus guardiães a atrair onde as tradições reftatam Kalala Ilunga como o antepassado fundador que
as chu-
vas. Eles estão tambémrefacionados com o.o."iro Eouxe uma nova ordem política sob a forma do "segundo império Lubã",,
oa agricultura e,?or-
!mto' co$ a própria vi.rh, na visão do mundo do caniponês Mbundu.
até ap extremo sul do lago Malawi onde as nadições ieferem "Kalonga"
os antepassados que primeiro chegaram cop r;s maiungàroram chegando guase no início da história política com novas instituições trazi-
Kajinga
ka Mbulu, que fundou os Mbondõ, Matamba a tvtuutu] an"p*ì"dã das do Katanga.l. Mais perto dos Mbundu, os povos yaka, que vivem ime-
Jã,
Lenge, Mumbanda a.Mbulu, mãe de todos os pende, diaüamente ajuzante dos Mbundu orientais, no rio Kwango, incluem deter-
ttongo aya Mbulu
donde nasceram os Hungu, e Zundu dya Mbulu, a grande minados "clãs" Kalunga muito'antigos, e os cokwe, para leste do Kwango,'
un"tepasruau Cos
Ndongo, e talvez outros actualmente ásquecidos. üm ouservaao, recoúecem um Kalunga como um dos "pais" fundadores das suas
u*,",no
poderia também notar que os marungatinham liúagens:tr Denffo do tenitório Mbundu, os malunga sobròvivern como
alguma coisa a ver com uma
p.nmilvt organização ãas ünhageni tntuunàu nos subgrupos insígnias de linhagem dominantes fundamentalmente enüe as residuais
etnoringuís-
ticos hoje reconhecidos. populações Pende, os Hari e os Paka do baixo Lui, os quais parecem ter
várias caracterÍsticas dos mnrunga sugerem que estes se escapado à incorporação em qualquer dos reinos que suplantaram os lunga
difundiram
enffe as ü4hagens Mbundu num pedoão,"üto,àãio. em muitas ouFas regiões. Provas deste tipo são demasiado fragmentárias
Í ;;;*; .*"-
claeão .gT . água e com a_terra, unn vez que as tintragens para poderem sugeú um ponto de origem para os lungiz;tz mai o próprio
cám--oturgo
são também os gÍupos de filiação que posjue. carácter vago dos dados testemuúa a sua grande antiguidade, uma vez
. t"rri .pont"
conexão com o mais antigo dos estatos significativos
p* o*u
que as evoluções políticas subsequentes intervieram para obscurecer a sua
naïctuallestutura
social e política dos Mbuüdu. o agrupameãto dos Mbundu, história na maior parte das regiões.r3
de um modo
geral, em Ndongo, Lenge; pende, et", As modernas características do lunga, onde ele sobreviveu sem
ie eshva prcsente pelo.menos no
final do século dezasseis, quando as primeira. fonrcí-Aocuir;;; mudanças significativas, sugerem alguma coisa sobre o modo como os
recolheram alguns desteç nomes. os Mbundu, expressament., antigos chefes de liúagem Mbundu assimilaram os lungaàs suas posições
p*itrru,o u
opinião de que os seúores da tena são os grupoide par"nt"scó nos grupos de filiação e modificaram as suas alianças linhagôiras em
mais anti-
gos nos seus territórios. As tnhagens detõntõras função destas insígnias de autoridade. Em contraste com a árvoie mulem-
di lurgo, ali onde elas
sobrevivem, governam o uso da tãrra, autorizando mudingas àa dos Mbundu, a qual representava uma estrutura de linhagem puramente
de residên-
cia, seleccionando os sítios para novas aldeias, localizando baseada no parentesco, não diferente do clássico sistema ae ü*àgens seg-
a águaatravés
de técnicas divinatórias baseadas na manipulação mentares,r' o lunga trouxe para a vida dos Mbundu uma forma de autori-
do objecto físico lunga,
assim como invocando as chuvas no fim ãe cada estação dade baseada no território, uma vez que o detentor do lunga reclamava
seca.r o runga,
em alguns casos, veio a ser assimilado ao complexo de autoridade sobre qualquer um que vivesse num domínio teÍïitorialmente
símbolos centrados
na árvore mulemba e nos remba dya ngundu,jà que
o guardião trurnano ao
Iunga üsfrbui a pernha da liúagem ás mutherós ao grupo 3
Jan Vansina, informação pessoal.
de parentesco
e desempenha outras funções normalmente associadas com estes t E. Verhulpen (1936), pp. 90 e segs.
HârÍy W. Langworthy (1971),
dignitários. A identidade feminina dos antepassados que lt
trouxeram os M. Plancquaert (1971). Para os Cokwe, Redinha (195g).
malunga reforça a sua ligação às linhagens, pois os l7
(s.d.), p. l,.verificou que os modernos pende se lembravam de um ,'reino,,chamado
Mbundu concebem os ,vr'auters.(?)
Ãarunga oaseaoo na lnsignla lunga, na sua terÍa natal entre os Mbundu.
seus grupos de filição como femininos, em conffaste
com a maioria das IJ
Na maioria das fontes secundárias, reina a confusão acerca do significado do radical -luzec
e do
instituições extra-linhageiras que eles consideram',masculinas,,. chamado "deus supremo" Kalunga. A pesquisa rutura poaerÀ reifrterp;t r;;-Àõ; ;;ã-";-.
uma ÌoÍrna aÍcarca de autondade po-lÍúca e_ reavaliaÍ as suas alegadas ,'origens"
A impressão de grande antiguidade é_nos dada; também, pela uma simples associação enúe-est forma de auroridade e a Águã. ',Ka-,' aËarece
nã ocerão como
rrcqueniemente
extensãó da distribuição, nos tempos modernos, de bantu. (ctasse 12) denotando um ramanho não habitual, seja'grande ou pequeno,
antepassados e iunda- ."_?T-:"_p-1t*"
ransÌoÍïna-se e.speclticamente em preÍixo em palavras referentes a sÍmbolos ãe autoridaàe,'prcfixo
e
dores de Estados com nomes basiados no radicar -funja. como "anrepasiados fundàores" e, sirnultaneamente, repÍ€senta os priircÍpios
Estes pÀona- :ïjr^f_ïyl11a
aDstractos da própna auroridade (por ex.: Karunga, Kanuma e Kaiinea üo
gens apÍ'ecem numa rarga faixa através das *t"purràdói iun-
savanas meridionais, asso- oaoores oe estados que tem o lunga, o numa, e o kijinga como insígnlaJda
autoridaãe central),
X-!y::^f:!":9: lq",g". visra, enre os Mbundu, como o símbolo do ,'Tipo I _ sistema
' Testemunho de Kimbwete. lrnnageúo segmenttr'de Horron (1971, pp. g4_93).
il
o NGqLA coMO uM sÍnau<-lLt-t Dtr, LtNuAollM fì.l
ffili
62 oRIGENSeNnÓceNes
ffiii do. Mas as qualidades essencialmente estáticas dos malunga, fïxado$ a unr
[1 definido, independentemente da sua relação com ele ou com a sua
local pela sua associação a determinadas massas de água, davam à hierur-
fii linhagem. De acordo com a análise feita por Horton sobre as condições
quia uma igidez e artificialidade que impediam as linhagens de consti-
ecológicas e demográficas que favorecem determinados tipos de organiza-

surgir quan-
tuirem novas alianças, fosse em resposta a mudanças nas condições
ção social e política, esta espécie de territorialidade'5 tende a
ml{

eõonó'micas, ou à ascensão de um líder particularmente capaz, ou ao con-


ili do grupos "estrangeiros" barram o camiúo dos grupos de parentesco nos
ïÍonfo Com uma ameaça militar externa que requeresse reorganização e
il extremos de um sistema liúageiro segmentff em expansão.r6 Seria exces-
cenfialização para a defesa. Os malungaJorneceram uma resposta parçial
I
sivamente especulativo explicar o aparecimento, na bacia do Kwango, da
i às necessidades dos Mbundu, quanto a instituições que atravessassem as
autoridade baseada no lunga, pela aplicação desta hipótese a vagas noções
genealogias de linhagem que constituíam a base da sua sociedade,,mas
de movimentos populacionais e num período tão arcaico da história dos
isso não satisfazia a necessidade de flexibilidade, o que levou, por fim,
l
Mbundu,l? mas a natureza da estrutura associada aos lunga parece clara-
muitos Mbundu a substituíJos por outro método de unir os grupos de
ç9gJyc!--::yi-q] ryry 9"{qglggg ri9-9u }ag-o, sob os cuidados dum fiüação dentro de novos e mais vastos agregados.
:, , !:. ; .
i

trl gg3!g!1i9 güi ú1-g_úUig3 i.qr'iÈI o-.9i_9ry49 da comunic aç ão com a9


" '\.:ì
ilr
forçts espffuuais de que ele estava invrstido, segundo se acreditava. Este í I .

gu;diãó oo luìga èxercia os poderes de conceder o acesso à tena às


O ngola como um símbolo de linhagem '
í
ll --*ìh- O princípio de autoridadeque forneceu maior flexibilidade à maio-
l. Íinhqggnq foraste-iraq quç nãp tinham-podido encontrff um território vago
ria dos Mbundu veio com a difusão de pequenos pedaços de ferro conhe-
,'t paráG estabelecerem. Ele controlava a fertilidade dos campos e as chuvas
cidos por jingola. Esta insígnia chegou até aos Mbundu muito mais
gg"-gi-g"-ii"'baóia hidrográfica dg qualqugr ribeiro. ou rio ocupado pelo recentemente do que o lunga e ainda é venerada pela maioria das liúa-
ïl
il íeu t"i.,sa," é os güardiães dós malunga dos principais cursos deágua
que gens como o seu símbolo fundamental. Em consequência, sobreviveram

.-rgivi_ndicavam uma vaga superioridade sobre os malunga e populações
muito mais ponnenores acerca da sua oriiem e função na história políÍica
li
viviam nos afluentes. ô controlo que os guardiães dos malunga exerciam
dos Mbundu. Originalmente, era um objecto de ferro de uma forma bem
t Jbre â-ièr,Ìãã â õhúva dava-lhes um !!yt9-B!9,i-o-$9-pr"99são para exigirem
definida, um martelo, um sino, uma enxada ou uma faca. A sua im-
o respeito e, provavelmente, o tributo dos agricultores locais qúe deles portância declinou nos tempos reoentes, paralelamente à dos malunga, à
tl dependiaqr pÍìra assegurar colheitas convenientes. Eles podiam, também,
medida que estados mais recentes, incluindo a administração portuguesa,
i-poi uma subserviência sem reservas aos forasteiros que lhes deviam o fizeram os seus alegados poderes parecerem menos eficazes; actualmente,
r seu direito de ocupação da terra.
as linhagens aceitam comrr seu ngolaprattcanente qualquer deformado ou
. Para além de chamar a atenção para as potencialidades do lungano
rii
femrgento pedaço de metal. Tal como os malunga, o ngola começou po'r
estabelecimento de uma incipiente hierarqúa de liúagens no interior de
l{f' ser incorporado nos grupos de filiação e tendia a reforçar a sua inde-
\ um dado território, nada indica como a política deve realmente teÍ fun- pendência, sem que houvesse uma significativa centrúzaçáo da autori-
til cionado sob estas insígnias. Presümivelmente, então como agora, o con-
dade acima do úvel da liúagem. Essencialmente, o ngola fornecia mais
Eolo dos malunga deve ter passado por via mâtrilinear, dentro dos gfupos
uma forma de construir laços não hierarquizados entre linhagens Mbundu.
de filiação. Nessa medida, os malunga reforçavam a solidariedade do r Quando uma linhagemÌvÍbundu recebia tmngola, nomeava para ele
ffi, ngundu como instituição social básica na vida dos Mbundu. Inicialmente,
um guardião, na crença de que, tal como os seus ouEos símbdlos de auto-
pelo menos, os malunga não precisavam de ter introduzido um grau signi-
ridade, aquele lhe dava acesso a especiais forgas espirituais úteis na regu-
hcativo de centralização, para além da formal restruturação de partes da
lação dos assuntos dos homens. Eles atribuiram ao ngota algmas das
hìerarquia linhageira com base na hidrografia. Portanto, eles devem ter
mesmas funções outrora desempenhadas poÍ relíquias e insígnias obsole-
ligado entre si, pela primeira vez, linhagens que não estavam ligadas pelas
tãí e, finalmente, adoptarÍrm-no como a mais importanúe insígnia da
gènealogias dos grupos de filiação que a cisão das linhagens ia produzin-
U4fuigeÍn. Tal como outros objectos associados à árvore mulemba, ele era
o mediador enfte os membros vivos e mortos da linhagem. Ele ajudava o
,' segundo Horton "Tipo 2 - comunidade dispersa, territoúalmente definida" I 97 I , pp. 93-7).
(
seu guardião a resolver disputas, pela prática da adivinhação para sêber da
'ó Marshall D. Sahlins (1961).
,t Uma das possibilidades pode ser a interacção de Ìinhagens Kongo. enl.expansõo para sul, com justeza da causa de cada paÍte em litígio, e dava-lhe apoio na tomada de
fi"ttãg"Ã'lúu"nou mou"ildo-s. para norte, á partir do centro do sfstema linhageiro segmentar dos decisões referehtes ao bem-estar dos seus parentes. As linhagens Mbundu
Songo.
& ORIGENS EÌ.IDÓGENAS I
O NGOIA COMO UM Sh4BOLO DE LINHACEM 65

gg:L9fç1g9a1dj{es-dongotaao.e;!4!ttgdeimportqltdsgqlÍános
;tios" ío'ãità1, ,,,
i, coügações de linhagens nas quais.4,çtipt!el{Ì 4 pglição principal. O ngola
da ïtragëm;ìfam4ãõï ,natemUq díà nso;,k
1os qggIlryrtan!9: Jg-go!g!"t"t- p3Í4-o lçardenalLeni-o-
?d?utog:{eq BúE-s.-4t -"uris.?s9çligç.go-'àà a.sr-p.*uaa!.p,,ç 1 i
" ,.,^N i,- -449. Udlu-g,glt* 9P-
aei.xoú at!;..,,-ym.ba dya nsurâu up"nurïioÃ,
*P^:*)r**:y:1to
ãí õuri-gaçoes, mènos riundanas, ãe distribuir ;;;;; àr:ÃË, ;; 'l i' Todas as provas apontam para as regiões planálticas próximas
^ das nascentès do rio Lukala como a origem aproximada do ngola que pro-
grupo de parentesco, enqpanto os malemba dyangotase tornavaÍi o, af""- i ,, duziu estas mudanças na natureza da estrutura social dos Mbundu. O povo
tivos chefes da liúagern e os dignitários poríúcos dominanres do grupo.
! que frouxe os jingola para os Mbundu é recordado como "Samba", obvia-
Através do aumento da mobilidade física e social oa, túu!"nri
mente o "Samba a Ngola" da lenda etiológica do ngola.ts Embora os
Mbundu, o ngola resolveu o problema da sua rigidez e inflexibilidade
Samba originais tenham actualmente desaparecido como grupo étnico
estruturais, que haviam permanecido mesmo depois da difusão do lunga.
identificável, os seus herdeiros actuam ainda como guardiães destes sím-
Ljh*gf al li*3.g--:l: dâs suas amanas a um único p_-edaço de chão e
-omeceuumsíni6õl'óq_-_"-ïHè-úffi bolos na maioria das liúagens Mbundu. Matamba, g norye kikgn*qg
f $o
ffi :$q_rïelÇg^_Sp_Çe..Baggpqgerii-ôe- século dezasseis paÍa a antiga província situada neste mesmo planalto,
_áõsragregarcfi-rur *o a árvore mulìiíì snaohzaraa integridaffi;' ieíúfrõâ a ôii$em quef õciÉ Samba quer do ngola, uma vez que a fo-rma !
'À;iuiiõ-dë"paièntesco, as suas raízes
tinham representado o vínculo de cada
ngundu ao solo onde a árvore crescia. A identificação dos malunga com
p9-*g.:gf-{S.}91er ]l{glg1pgl! el? a mesma palavra do termo Ki4!ol-t-
detenninados rios e lagos tinria também associado ã uÀ-"rií-"rpi.i*"r
dtt""'lS4$!e". As variações fonéticas que distinguem o Kimbundu do
Kikongo mostram que a forma original do nome tinha rs- como consoante
de cada ngundu às terrasr por ele ocupadas sob a direcção do guaráiao
do inicial.'e Uma vez que a língua Kimbundu não tem a consoante inicial
lunga. Estas características dos sistemas políücos iniciais tintiam tendên-
/s-,r os Mbundu evidentemente deixaram cair o Í-, na sua pronúncia da
palavra, e dizem "Samba" em vez de "Tsamba". A interpretação pornr-
guesa da mesma palavra deixou cair o -s- do Kikongo original, uma vez
que ós Portugueses também não têm um ts- inicial, e -tamba tomou-se a
designação padrão para esta região em todas as fontes escritas. A adição
do prefixo bantu de plural ma-, que é comum para designar grupos
étnicos,2r completou a transformação de Tsamba em Matamba e prova,
pois, a exacta correspondência entre as duas palavras.
A localização dos chefes que detêm os títulos Samba mais antigos,
o áúúento de mobilidâde física foi, piovâvêlmente, acompánhado
pelo aumento dos índices de cisão das linhagens, uma vez que nas genealogias históricas dos Mbundu, confirma'a sua origem na área
as técnicas agora conhecida como Matamba. A mais antiga posição Samba recordada
de divisão dos jingola forneciam meios fáceis de iegitimar a criação de
entre os Mbundu, a que é chamada Kiluanje kya Samba, pertencia a
novos grulos. De acordo com padrões estabelecidos de divisão da
áutori- linhagens que viviam no médio.Lukala, imediatamente a sul da antiga
dade, os üomens mais jovens que queriam escapar ao domínio
dos seus Matamba.22 Um certo número de outros títulos políticos, menos impor-
paÍentes mais velhos, requeriam simplesmente um,novo ngola
dequalquer tantes em períodos posteriores mas igualmente antigos, preservarÍrm o
linhagem que desejasse apadrinhá-los, em troca do seu acordo em
dar ao
protector apoio na gueÍïa ou noutros empreendimentos. Assim, Embora outros autores não tenham destacado o papeÌ dos Samba na história dos Mbundu, o nome
os tem aparecido em relatos escritos de outras tradições Mbundu. Veja em Vy'auters (?) (s.d.), pp. a-5,
sobriúos podiam abandonar as aldeias dos seus tios e estabelecer novos uma nota segundo a qual as liúagens Pende (ele chamou-lhes "clãs") reclamam descender de um
segmentos de liúagem sob seu próprio confolo, com base no poder "Gangila Samba" (Kanjila (ka) Samba? o "grande pássaro dos Samba"). Atkins (1955), p. 344,
de verificou que os Holo (antigos Pende junto do médio Kwango) se lembravam de uma mulher anti-
jingola derivados de grupos de filiação com os quais não ga coúecida por Samba.
estavam l9
A pronúncia actual em certas regiões do Zaire preservou a forma original da palavra; ver
aparentados. {s liúag9ns*pgdiam_qUghf-ef. d:.gnç_ls eiistentes, baseadas PlancquaeÍ (1971), p.13, onde ele dá o nome de Tsaam e Tsamba.
^---r---!- ,-r 70
Veja Atkins (1955), p. 328, que dá Tsotso como a forma usada na Matamba para o nome que os
lalgq qgç falantes de Kimbundu pronunciam "Soso".
iéIãçóei'iiud nao enôontravam ex: Masongo, Múolo, Mahungu. Estes desvios fonéticos explicam porque é que o nome próprio
Kimbundu "Matamba", como em Matamba a Mbulu, não tem relação com o reino da Matamba; a
mais ricas ou mais forma em Kimbundu paÍa o nome do reino seria Masamba.
Lopes de Lima (1846), III: l3l-2.
66 ORIGENS ENDÓGENAS O NGOIA COMO IJM SÍVüOLO DE LINHAGEM 61

nome de Samba na fuea do alto Lukala, até ao século dezanove.ã Uma das corte do Kongo ,tçntou, evidentemente, distinguir os povos doe $ur
irnportantes e antigas divisões nas genealogias políticas dos títulos Samba governantes, aúavés do uso cuidadoso de "de" e "e", mas não conscgtlu
subdividiu-os em dois grupos principais num local próximo da Matamba üansmitiÍ a importância de tal disúnção à maioria dos leitores eurqpêUt,
.Ng.ola-Mueu{"
chamado Kambo ka Mana, no curso médio do rio Karnbo.u Tradições dos "Musg4l" dq UglggUa-egt99e.-sgf s ILelTg mus ur i (ou )
Nkanu e dos Soso, vizinhos das linhagens Samba qúe actualmente vivem mencionado mais de cfr anos*depõiil ;as traAÇtíes oiaiúó-q M.Fodu-dp
no Zaíre, dão como origem destes Samba as nascentes do Kwilu, um rio rei fur&dar-da-ngola'
que coÍre para norte em direcção ao Kwango, a partir da antiga província
Ã*com"cioe--*!giaÍelr-'eq.9-]ll.n--g3y1:1lo-jpg9"p1{e-rd-e$Ë&g[aMaknba
L.
da Matamba.È como a terra.natal dos Samba.
Provas dgguúgnt{s, tlllojlo: I!oJg,o_çg!no-4._o_s.IÁb_UUdu,.confirnam* -**li*trãeËs=NiËffidìtrïô
--
século dezassete associavam os Sarnba r
"

ii ,ainda m4s as origens dos Samba na Mataúba. Os lyt!q!4U_qg_slcu!g_ uma sofisticada tecnologia do ferro e podem, portanto, sugeú uma dag
dezassete descendentes dos Samba davam aoj **s_"goJru!gp-"gIigl!gj_ razões pelas quais o ngola se difundiu rapidamente entre as suas linhagcna,
",.f" p,;úõ rnai;
"cedo, em 1535, o rei do Kongo, Afonso ü,paÍÀ1tffi,.,.1u-
I, identificara-sej a si próprio na
O lendário rei fundador dos Samba, "Ngola-Musuri", trouxe a com'
petência técnica no trabalho dq feno que permitiu aos Mbundu fazer pola
sua coÍrespondência oficial como "senhor dos Ambüdos, e d'Amgolla, da primeira vez machados, machadinhas, facas e pontas de flecha.Ú
Quisyma, e Musuru, de Matamba, e Muyllu, de Musucu, e dos Amzicos e As tradições de grupos modernos vivendo noZaíre c6ncordam em ÍefrAtAÍ
da cõquista de Pamzualübu..."." Se bem que as inegularidades estilísticas os Samúa como excelentes ferreiros, que há muito tempo introduairam
do Português escrito do século dezasseis possam permitir combinar esta novos métodos de trabalho do ferro a leste do rio Kwango.'A confirm4r
sequência de nomes próprios de várias maneiras, sem violar as pouco a ligação entre os Samba e novas técnicas metalúrgicas, está o facto de os
rígidas regras gramaticais daquele tempo, a maioria dos estudiosos jingola. que eles difundiram entre os Mbundu sempre terem tomado &
traduziu os elementos da série como termos paralelos e indeperidentes: forma de objectos fabricados em ferro. Isto contrastava fortemente com qg
"Senhor dos Mbundu, do Ngola (i.é, um rei dos Mbundu) da Kisama anteriores insígnias de autoridade que incluíam uma variedade de objectoe
(a região a sul do Kwanza), de Musuru (não identificado), da Matamba não metálicos: figurinhas talhadas em madeira, toucados, penachos,
(a província), de Mwilu (não identificado), de Musuku (uma região a leste esteirasetc.Ar!gsíg!3j-tr-glgeg!91o9$qmtq:simbgf izava1n,3prg4gtg'
do Kongo)..." etc. mente,ut"õggg@*qí9g:3p.S1"qg-ç"rygep-bem-vi1$gse3eg.o-s
Surgirá qlqa Lnte_rpftaçig_"di{erentej.
qaii_,9};1ç"e"_q-9-s-Le-*tÍgt9_ qq _"

,i.ú
(,4 reagrupaÍïnos os seus elementos com base na distinção implícita4q qSqdq_ *Mbundu.
,õï jingola, provavelmente, chegaram como uma nova forma de
- ,#*.-':
"e" @gação. Com grafias modernas, a passagem pacificamentê de liúagem para linhagem'
,tVo símbolo linhageiro difundido
sem aquelas ondas de conquistadores migrantes brandindo machados,
-affi Xl -g Ëi;â;*À[atam6eïe Ìfâõïd ïõiÌësfoS põ-üõIviziúos,
facas e pontas de flecha, que dominaram algumas descrigões destes acon-
locais terá
*.-.factõ,'
De õ rel óio Kongo tinhá-dádõ
_;-*_*, õs tecimentos feitas pelos Europeus. Uma variedade de condições
tt' mas taËb-ffi õç ïíffiIô-S"üÕSteüS" governantes" com vi$ta à sua localizAçLq predisposto muitos jdngundu aadopíar voluntariamente os jingol,a. Podiam
ì
l, fl-Ug,t-frf"q*frt úr* o ngola paru reafirrnar a sua autonomia em oposição às pressões
Í',t"
t
è passando pelos S.gkrL-4_lg!lg:_g( uolfyg nllgrg51g. Um escriba na impostas por forasteiros, tais como os chefes detentores de lunga associ+
dos aos rios principais. Os poderes atribuídos ao ngola permitiam a cada
" Veja, por ex., o mapa de Chateiain (1894). O uso de Samba como um apelido indica descendência ngund.u ignorar governantes externos existentes, colocando o ngola em
directa do povo Samba. Os títulos Samba ocupavám posições subordinadas nos estados Ìüembu
(provavelmente mais taÍdios)t veja Matos (1963), p. 321. rubrtitoiçao de qualquer insígnia de autoridade subordinada que estes
2'
It
Testemunho de Sousa Calunga, 29 Set. 1969. tivessern nessa altura. As linhagens preferiam o ngola a outros símbolos
Plancquaert (1971). Este rio não deve ser confundido com ouho (e mais coúecido) Kwilu que
corre a leste do Kwango. porque eram oS seus maiS-ve$os, em Yez de foraSteiros, quem nomeava OS
^.'") Cav szzi ( I 965), I: 253', cf . J. Pereira do Nascimento ( 1903), p. 5 1. representantes que preenchiam a função de lernba dya ngola' Estes titu-
" Carta de el-Rei do Congo a Paulo III, 2l Fev. 1535 (A.N.T.T., C.C., I-3-6 e I-48-45); pubücada em
Brásio (1952-71), II: 38-40.
rr Estô interpretação presume que "Quisyma" envolve uma excentricidade ortográÍica que também se xe lbid.
cncontro um século mais tarde em Cavazzi (1965), I: 253. Plancquaert (1971).
'n

ti
68 oRIoEÌ.ts ENDóoENAs O NGOLACOMO UM SÍMBOLO DE LINHACEM 69

lattc, ao pâ$aÍem pcla iniciação a essa posição, teoricamente adquiriam o embora os Mbundu ainda hçsitem em tocaÍ num camaleão, eles já não
ogtatuto dc um "Samba" vindo de fora, mesmo tendo nascido no local, e associam esta proibição, explicitamente, à ascendência Samba' Parecem
assim tinhün o prestÍgio e a neutralidade, nos assuntos liúageiros, que ter perdido de vista a origem de tal ideia, uma vez que originalmente ela
lhos pcrmitiam actuar como árbitros nas disputas entre as liúagens; servia para distinguir as linhagens que possuíam o ngola daquelas que não
aesumindo esta função, eles substituíam os conselhos de linhagem, o tinham. Uma vez adoptaão unifoi*"-"nte o ngola por todas as
os teis-Iunga, os chefes de grupos de filiação com posições seniores nas liúagens Mbundu, o evitamento do camaleão perdeu a sua função distin.
gonealogias perpétuas, e outros. As poderosas sanções sobrenaturais tiva e os Mbundu esquecerÍÌm a sua associação com os Samba. Todos os
afibuídas ao ngola permitiam a uma linhagem detentora desta insígnia membros de pleno direito dos grupos de filiação dos Mbundu se conside-
ignorar, se quisesse, outros grupos de filiação e dignitários de quem ram hoje a si próprios "Samba" e o evitamento do camaleão persiste
anteriormente tinha dependido. A..L"::pÉyi9gg9_d4.*lfnbegç{rt*-llgqqg_Jt apenas como um vestígio que hoje em dia faz a distinção entre os naturais
forasteiros da terra e os escravos de origem não-Mbundu.32
Nenhuma pessoa elegível para preencher uni cargo relacionado com
através da inic: .osl{Sgndu locais que o_adop uma liúagem detentora de ngola podia comer a caÍne do golungo.s
ps-bç-ggg$ps-tsnalésiçamsb-asssff das. O ngola acabou por exercer uma influência tão fundamental nas crenças
Se bem que o ngola, que de início não exigia lealdades liúageiras dos Mbundu que eles alargaram esta proibição a toda e qualquer posição
mais exclusivas do que qualquer outro símbolo de autoridade, possa ter titular e fizeram dela uma marca distintiva da'plena pertença à liúagem.
coexistido durante algum tempo com insígnias rnais antigas, as suas van- Os Mbundu explicam este costume fazendo notar uma imaginária
tagens pouco a pouco fizeram dele a forma predominante de poder políti- semelhança das pintas brancas no dorso deste antflope com as chagas da
co entre os Mbundu. No final, produziu uma revolução nas relações entre lepra e argumentando que podem contrair lepra se comerem a carne do
as linhagens que ultrapassou largamente as mudanças internas operadas golungo. Uma vez que eles sabem que os escrâvos e outros não-Mbundu,
por ele na estrutura de cada grupo de filiação. À medida qve o ngola cres- que não se reclamam da ancestralidade Samba, comem o golungo sem
cia em prestígio, reagrupava as liúagens Mbundu em unidades completa- receio de infecção, é evidente que a proibição tem um valor basicamente
mente novas, baseadas na distribuição dos jingola em vez dos antigos simbólico, relacionando-os com os ngola e os Samba.
laços da cisão liúageira ou da contiguidade geográfica. Cada ngola car- As formas como oufios símbolos, ainda em uso entre diversos
regava consigo um nome perpétuo o qual, simultaneamente, designava o agrupamentos de linhagens Mbundu, também afectaram os modelos de
próprio objecto, as forças espirituais por ele representadas e o seu lemba autoridade e aliança, não se esgotam nesta descrição do modo como o
ou guardião. 9:N:y?g-4yglApQ :q$-o_ry-l podiam concede,r a ourras ngola sewiu para glygr-prollerrlË num período em que a organização
lrtlrqgg1: .{glog:tiS*lú"{ mas iúuoioriados, çontemplando-as com social dos Mbundú dependia principalmente das linhagens e dos malunga.
porçoea iiqusi-ú.ó.pjlgl* ip$e!g,._VpL.,l,o:u- e pennanente rehfâô,
-,{Qs
termos de
- -
Mas estes dois lunga e ngola ilustram alguns dos princípios que
como todas as outras, ügava os títulos regeram a origem e difusão de tais símbolos. Cada um deles vinha
associado a determinados poderes, expressos em termos de forças ,.
sobrenaturais escondendo-se algures para lá do próprio objecto físico em/
si, q-{pya gg-q seus possuidores uma forma de -?}tqqde4ç que as liúagems r

u..i-ii*m,-Sg.iii-1&gi-q5-e-.alfUiüg_ {ã- *ã soctedade basicamé.nte I


õffintada;útunç49,ôõ:iüËqiõúô:' Ëias-õoÍifèiïàni o cuidado destes
crenças devem ter chegado até aos Mbundu a partir dos Samba. Um des- símbolos a determinadas funções titulares permanentes, tal como sempre
ses costumes proibia qualquer contacto com o camaleão. A mesma práti-
tinham dado aos malemba poderes especializados similares e, muitas
ca de evitamento distingue os grupos Samba doZafte, actualmente viven-
do na margem direita do Kwango, dos seus viziúos não-Samba.3'Muito t2
O receio do camaleão não é raro noutros locais da África Central; os Luba, entre outros,
evitam-no cuidadosamente. Veja por ex. Verhulpen ( 193ó), p. 70.
n /àrd facto de os Ko-ngo teÍem igr'FJmente esta proibição pode confirmar os laços entre os Samba
Um antílope com manchas brancas no dorso chamado ngulungu -em Kimbundui John.Charles.
-O
e a Matamba. região fronteiriça do Kongo.
Baron Staiham (1922\, p.281, e Gladwyn M. Childs (1949), p. 43, consideram a espécie como
lraEelaphut scriptus.
ORIGENS ENDÓCENAS
ESTADOS INCIPIENTES BASEADOS NO IUNCÁ

vezes, limitaram-se a condensar numa única posição de liúagem os


poderes do guardião do lunga e, por vezés, mesmo os dos malemba dya
ngola.Pgrtanto.adifusíodoSwtha,glt-p_fu golq-S.gìàcqg-o-Ltgb.úg-ggf-A
diminui! a impq{â{ì9ia_-{+s__-l$hegglrt _g_olt}g_ iqqgÍyiçõe!_,básig_as da '
sojlgqadg N!qg4g. Se bem que o lunga contivesse'.üm êËneriiõ"dd* rÒ.*lò',
territorialidade, inicialmente ele não implicou qualquer significativa
centralização do poder nem aumento na escala da organização social.
o ngola representou um regresso, da autoridade territorialmente definida "$iì-.* I rp 2p 3p 4p lp lnì

ta
aos laços que uniam grupos de filiação sem ter em conta a distância física
KAYONGO KA
KUPAPA'
(BUTATU)
(pre-XVlth)

Pakasa ?
Se bem que, no início, a adopção do lungateúa levado apenas a um Kabatukila
realiúamento parcial e não hierárquico das relações entre linhageng
Mbundu, alguns detentores de lunga levaram as suas posições a
organizar-se em algo que os Mbundu recordam como múto semelhante a Mape II. Autoridades lunga na Baixa de Cassanje
"estado". os dados disponíveis indicam que estes atingiram o ponto mais (Sec. XVI e mais cedo)
alto do seu desenvolvimento entre as linhagens que se considera terem
sido Pende, habitando o planalto de Luanda, para leste da actual vila de
Lucala até à escarpa da Baixa de cassanje. Eles ocupavam também as
terras de depressão da Baixa, a leste do rio Kambo.v os descendentes comerciais que canalizavam o sal do Luhanda para grande parte da zona
destas linhagens conservaram alguns malunga outrora pertencentes a reis setentrional da Baixa de Cassanje. Estes reis entraram" em declínio em
de bastante notoriedade. consequênçia dos reveses sofridos durante os primeiros anos do çéculo
'
Um dos mais poderosos reis lunga dos Pende foi Butatu a Kuhongo dezasseis, às mãos de governantes do estado da Matamba em expansão.s
kwa Wutu wa Nyama. As tradições actualmente relembram apenas o ítu- Embora o título de Butatu tenha progressivamente diminuído de importân-
lo deste rèi, provavelmente porque a sua autoridade declinou muito antes cia depois de o seu reino se ter desfeito, não desapareceu totalmente.
da formação das actuais genealogias perpétuas, no século dezassete. A posição passou para a linhagem de um titular Pende chamado Kanje que
No auge da influência dos reis que deúnham este título, "Butatu" gover- vivia distante, a sudeste, e esta linhagem preservou o nome de Butatu
nava todas as terras para além do rio Kambo, provavelmente com base como um título subsidiário do seu próprio chefe até aos nossos dias,tr
num lunga habitando o rio Luhanda ou Lui. Uma fonte de poder mais O caso de Butatu fornece um bom exemplo de como os antigos títulos e
concreta deve ter residido no seu controlo sobre as salinas ao longo do símbolos sobreviveram, sob formas modificadas, fornecendo-nos no
baixo Luhanda. A posse destes valiosos recursos económicos permitia aos presente provas sobre o passado.
reis que usavam este título estender a sua autoridade ao longo das rotas
Cavazzi (1965), I: 22, mencionou um "Batuta" como vítima da expansão do reino da Matamba. As
versões impressas dos manuscritos deste período vulgarmente confundiam as letras fechadas'a'e
'' Vários testemunhos de Sousa calunga. o testemunho dos pende, reproduzido em Haveaux ( I 954), 'o' com o 'u' aberto.
tem s€ralmente.sido interprerado como indicação de que os pende viviam próximo da baía de
Testemunhos de Sokolal Kasanje ka Nzaje; Domingos Vazi Sousa Calunga, l6 Jun. 1969; mapas
Luanda nos finais do século dezasseis. Já foram apresentadas provas suficienles do conrrário. tor-
nando desnecessário fornecer uma refutação formãÌ desse ponto. de Schüu(1881) e H.Capello e R.lvens (1882), II. Todos concordam em que Kanje nos finais do
século dezanove vivia na margem oeste do rio Lui, próximo do monte Mbango (ver Mapa II).
72 ORIGENS ENDóGENAS REINOS BASEADOS NO NCOI,{ 73

A figura de um oufo remoto reilunga, Kayongo ka Kupapa, emerge A constante ascensão e queda de governantes' que maÍcou a história
das brumas das tradições tremanescentes dos Pende como sendo o antigo de Yongo e dos vales do médio Lui e do rio Luhanda, não aconteceu na
governante de Yongo, a região entre os rios Lui e Kwango a norte do parte sul da Baixa de Cassanje.' Aí, uma série estável de rcis lunga
actual posto administrativo de longo. Umavez que, muitas vezes, os títu- governou tenitórios relativamente inalteráveis. Kangongo ka Pango con-
los políticos Mbundu subordinados toÍnavam para seu sobrenome o nome trolava as mais altas elevações da região Kembo no extremo sul da Baixa'
próprio do seu chefe hierárquico, o título alternativo destes reis, Kayongo próximo da entrada do rio Kwango no vale.s Um oufro, Uxi wa Nzumbi,
ka Butatu,3? indica que os homens que detêm esta posição pagavam outro- governava as colinas arÌorizadas que se inclinavam para leste, a partiÍ da
ra tributo ao Butatu a Kuhongo kwa Wutu wa Nyama. Kayongo ka Butatu região de Xá-Muteba em direcção ao vale do Kwango'6 Koko na Mumbi
(ou Kupapa) aparentemente separou-se de Butatu a Kuhongo kwa Wutu úúa o controlo sobÍe as planícies da bacia do rio Lutoa e explorava as
wa Nyama quando o reino govemado pelo título senior entrou em declínio. valiosas salinas que ali se localizavam.4?
O sobrenome Kupapa pode ter sido adquirido naquela altura, de uma
origem descoúecida, ou pode ter sido um útulo que peÍtencesse já àque- Reinos baseados no ngola
les governantes antes de eles'se tornaÍem súbditos do grande Butatu.s Algumas linhagens Mbundu fransformaram o ngola, de insígnia de
Outros çeis lunga dos Pende govemaram a parte sul da Baixa de linhagem, no fundamento de um novo tipo de estrutura política, tal como
Cassanje sob títulos de um género conhecido como yilamáa (singular, oufras tinham, anteriormente, realizado idêntica transformação no lunga.
kilamba).e Titulares chamados Múaxi na Pakasa confiolavam a região Na época em que os primeiÍos Portugueses chegaÍam a Angola, no século
onde o rio Lui vira para leste, abaixo do vale chamado Baixa de Kafuxi. dezasseis, os Mbundu do oeste ainda eram governados pelo mais poderoso
A sua influência estendia.se para norte até aos pântanos salgados do rio dos reis que baseavam a sua autoridade no ngoln; por isso, dispomo's de
Lúanda.{ Os titulares de Múaxi na Pakasa concederam aos seus vizi- mais informação para esclarecer a história destes estados do que para
úos do sul pelo menos um título lunga slbotünado, e Nzenza ya Múaxi aqueles que se basèavam no lunga. O mais bém sucedido dos reinos ngola
tornou-se o governante das terras planas ao longo do curso superior do rio atingiu um certo grau de centralização, tiúa uma hieraÍquia com diversos
Lui.at Um outro títuIo, Swaswa dya Swali, controlava as colinas forte- níveis e expandiu-se numa dimensão maior do que qualquer um dos seus /\
/
mente arborizadas entre o Lui e o monte Mbango.a2 lJm rci lunga predecessores. A determinação dos seìrs reis apoiava-se em exércitos
conhecido por Kikungo kya Njinje dominava os Pende da bacia do rio ãup-". de derotar as forçai militares europeias e que lhes permitiram,r
Moa, na margem sul do h,ui. Numa época descoúecida, provavëlmente talvezpelaprimeira vez, estabelecer um efectivo conholo sobre os aÍisun- Í
depois do declínio de Butatu, Kikungo kya Njinje expandiu temporaria- tos de muitas linhagens. Ao criareln fqs!-tU!ç9ps19!Í!rc4! ç-g!q1!gadas e
mente a sua autoridade para norte, para Yongo.6 hierarqgizalas*ço-m--b.aqeìõ-z-f-o/a,qt-ç-s-Éúisl*iuy-çf iép-g*liellÍiledo
>-
t
affiúA de uma insígnia que- inicialment€,"Çhçgarg--aos-UDundu como
A forma modema do.lome,àparccc gomg $aygngo ka Kutatu; o sobrenome
n
provavelmente uma distorção do ítúo arcaicd Butatu.
repr€senta
ffi üãá-le*-Oç,idei-as.çs-!qlb-plqsaPsorvidospelo
I(upapa e 08 útulos da maioria dos outros reis lznga dos Pende parecem ter sido nomes de louvor. s-istema-liúsgeuedos..Mb-undu."
O rcmrc htpapa, por exemplo, pode ser uma palavra arcaica do Itimbundu que tem a ver com fazer
um núdo de estalidos, como os çstalidos do fogo. António de Assis Júnior
-(n.d.),
p. 221, apresen- Conúnuamos a poder apenas especular sobre como os primeiros reis
ta derivaçõcs veÍbais aparentadas, como kupapajana, kupapana, e kupapanesa, todas relacirmadas ngolafransfonnÍÌram a sua autoridade, de alianças de liúagens essencial-
com provocar estalidos.
Informantes Imbangalq na 4écada de 1850, descrevem-nos como yilamba; Francisco de salles As tradições que sobrcviveram, fragmentadas, apenas descrevem a situaçÃo polÍtica no momento
-parafraseou
Ferreir.a (l85rt-8r, p. 29. Henrique de Carvalho (1898), p. 15, Salles Ferrcira. que ie deo'a conqústa de KasanJe pelos Imbângala. Pon&nto, podem dar uma falsa imagem de
A antiguidade_destes útulos era evidente pelo facto de os Portujgueses do século dezassete "m
estã6ilidade nesta paÍte da Baixa de cassanje.
coúegcrem a Baixa de Cassanje como a "Kina kya Kilamba"; Èl'na désignava qualquer depressão
O nome deste rei linga rcfere-se, aparentemente, a um bastão de função dado a um emissário- dum
no solo, como uma caverna ou um túmulo, ver Assis Jr. (s.d.), p. l3l. Auiorci mais-tardios clrcfe; kangongo é uõt pau com deienhos entalhados, enquanto pdnSo (ou pangu) significa "notí-
atribuiram ao termo um ou outro sentido mais lato: chatelain tig9+1, p. g, L€ite de Masalh:ies
cias", de acordo com Assis Jr. (s.d.), pp. 96,332.
ç924), p:73. O termo érdoptado aqui por conveniência, com vista a diStinguir estes govelrnantes De acordo com Assis Jr. (s.d.) p. 374, uxi refere-se a um vendedor de me[; no contexto aqui
doutros tiposde chefes. Para o uso do tèrmo no século dezassete, ver adianté p.215, í. l2O.
descrito, o significado é obsçuro. Um nzumbi é um espírito ancestral.
Tcstemuúo de Sousa Calunga, 22lt:/.. 1969,
Os títulos de Koko na Mumbi referiam-se à sua reputaçõo como a única pessoa que conhecia o
Testemuúo de Alexandre Vaz, 3 I Jul. 1969, mahaxi são jonos de sangue e, por extensão, várias
segrcdo que permitia trepar até ao cimo de Kasala, uma escarpa venical de trezentos.metros de
doenças graves que se acredita sercm causadas por excesJo de sangue;l,ssis jr. (s.d.), p. 27 1.
alt-ura, qui fièava acimaãas suas teÍras e onde inúmeras cegonhas faziam ninho. A palavra /<oko
refere-sè a uma espécie de planta trepadeira (den'is nohilis\ e mumbi é uma cegonha em
a2
A swaswa é uma espécie de árvore não identificada; Assis Jr. (s.d.), p. 358.
o Testemuúos de Sousa Calunga,24 Jul. e 29 Set. 1969. Este título, ao contrário de outros, é com- Kimbundu; Assis Jr. 1s.d.1 p. i5a, RoOrilues Neves ( I 854), p. 35; testemunho de Sousa Calunga
posto por nomes próprios. O njinje é um pequeno gato selvagem. l0 Set. 1969.
74 opJGENSENDócENAs REINOS BASEADOS NOTVGOIá 75

mente igualitárias, em alguma coisa que era claramente um reino; a menos esú numa posição subordinada, no original estado do kiluanje lqa samba,
que consideremos que as tradições orais dos Mbundu do século dezassete Os reis empossados no útulo ngola a kiluanje eclipsaram depois os detcn-
fornecem informação significativa quando descrevem o primeiro grande tores do útulo senior, nos primórdios do século dezasseis, continuando
"Ngola" como aquele que trouxe "machados, machadinhos, facas e setas, assim o movimento para sul que úúa começado com a deslocação da
coisas que ajudavam os pretos na caça e na guerra".d A predominância dos Matamba pma kiluanje lqa samba. A ngola a kiluanje estabeleceu as suas
fundadores reis-ferreiros, nas tradições orais dos estados por toda a África, capitais entre o baixo Lukala e o Kwanza, próximo das montanhas quc
torna altamente suspeita a imagem de conquistadores brandindo o ferro, ümitam a oeste o planalto de Luanda.
que criam estados em virnrde da superioridade do seu arnÌamento e da sua Uma tradição narratiya'do século dezassete descreveu a ascensão do
técnica. O cepticismo a esse respeito parece especialmente adequado se ngola a kilunnje em termos que corïespondem à sequência evidenciada
tivermos em conta os serviços que tais conquistadores utilizadores do ferro pelas modtirnas genealogias. Apesar de alguma confusão da parte do mis-
prestaram ao "mito hamítico" e a outras duvidosas teorias da formação do sioniário que registou esta tradição, ficou claro que o grande "Ngola
Estado por conquista. No caso dos reis ngola, nenhuns dados etnográficos Musuri' (equivalente a Ngola Inene), na Matarnba, se tinha deixado
conhecidos sugerem um.influxo massivo de forasteiros conqústadores, vencer por linhagens que pertenciam ao subgrupo dos Mbundu que vivia
quer durante a inicial difusão do ngola como um símbolo de linhagem, no alto Lukala. De acordo com a narrativa, Musuri, rci na Matamb4 casou
quer durante a posterior expansão dos estados ngola. Pelo contrário, um ou com nma mulher conhecida apenas por um título, ngana inene ou grandÊ
ouüo dos dignitários das linhagens Mbundu locais, detentores do ngola, senhor. Esta "esposa", eue evidentemente não passa de uma referência
deve ter estendido a sua autoridade sobre as linhagens vizinhas em virtude distorcida a algum outro título honorífico pertencente a Musuri, deu à luz
de novos útulos ngola subordinados, mais do que através do relaciona- três filhas, "Zunda dya Ngola", "Ti.rmba dya Ngola" e uma terceira cujo
mento coordenado de liúagens aliadas. nome o missionário não se interessou em registar. Um escravo do grando
Na genealogia etiológica básica Mbundu do "Ngola Inene" detectam- rei-ferreiro arquitectou a morte do seu senhor e o título real passou para a
-se as principais liúas de evolução destes novos governantes. O "Ngola filha "Zunda dya Ngola". A outra filha, "Ttrmba dya Ngola'!, casou com
Inene", ou seja, o "grande ngola" representa o princípio abstracto da orga- um homem chamado Ngola a Kiluanje kya Samba ("Angola Chiluuangi
ntzaçáo política baseada no ngola e pode ser conespondente ao período Quiasamba") e acabou poÍ entraÍ em conflito com a sua irrrã. Depois de
antes de o ngola se ter tornado um símbolo político imporlante entre os uma conveniente série de actos fraiçoeiÍos, "Tbmba" e o seu marido
Mbundu. "Samba a Ngola", a quem a genealogia retrata como a "fi.lha" de derrotaram "Zumba" pela força de um poder militar superioç e Ngola a
"Ngola Inene", representa o povo da Samba da Matamba que os Mbundu Kiluanje passou a ser o primeiro grande rei conqústador dos Mbundu.
associam ao ngola nesse período. O resto desta genealogia, como a rnaio- "Das suas numerosÍls concubinas, teve muitíssimos descendentes, que
ria das genealogias políticas Mbundu, descreve a génese de uma hierar- foram os chefes das mais importantes famflias do reino".s
quia de ítulos políticos composta por sucessivas gerações de títulos Em conformidade com os cânones das actuais genealogias perpétuas
"filhos" criados por detentores de títulos em posições imêdiatamente supe- dos Mbundu, esta tradição mostxava os pares de linhagens e títulos a elas
riores, ou de "pai". Assim, o primeiro título político ngola de que há associados, que dominaram os reinos ngola dos séculos quinze e dezas-
memória entre os Mbundu foi o kiluanje lqa samba de que eram deten- seis. "Ngola Musuri" representava os reis ngola na Matamba. O nome de
toras as linhagens que viviam não múto longe da origem do ngola na "Zunda dya Ngola" foi alterado em relação à sua forma própria, que
Matamba. O significado do título kiluanje, "conqústador",ae parece indicar apíìrece nas modernas genealogias etiológicas como zundu dya mbulu, a
que os Mbundu encar m este título como a ponta de lança do avanço das fim de o fazer corresponder à regra segundo a qual um título "filha" toma
instituições políticas Samba no território dos Mbundu. para seu sobrenome o primeiro nome da posição "pai" (neste caso, Ngola).
O ngola recebeu o reconhecido mérito entre os Mbundu com a ascen- Zundu dya Mbulu (Ngola) foi a lendária antepassada do subgrupo dos
são de uma segunda posição chamada ngola a kiluanje. O seu estatuto na Mbundu chamado Ndongo, precisamente as linhagens que viviam no
genealogia como "filho" de Kiluanje kya Samba implica que a sua origem médio Lukala onde vivia o kiluanje kya samba (mencionado na tradição
apenas implicitamente, através do aparecimento do seu título como um
" Cavazzi (1965), I 2s3.
'" Assis Jr. (s.d.) a' Cavazzi (19ó5), I:253-5.
f
t 76 oRTcENsENDócENAs
REINOS BASEADOS NO NCOLA 77
l sobrenome para Ngola a Kiluanje kya Samba). portanto a tradição
circulavam no reino como uma espécie de "moeda" na esfera de üocas de
I estabelece qup as liúagens do alto Lukala (leia-se ,'o kiluanje lqa presúgio.tr Mesmo mais tarde, em 1798, sucossores dos governantes da
I samba") edificaram um reino com base nos poderes que elas obtiveram do
grande ngola da Matamba.
Kisama ainda enviavam tributo aos herdeiros dos anúgos ngola a kiluanje
que, nessa data, se úúam deslocado para o rio Wamba e usavam os tÍtu-
I Uma vez que o missionário que registou a tradição confessou a sua los portugueses de "reis jingas".52
] confusão a respeito dos nomes correctos das fiês "filhas" de "Ngola-
Musuri", não há razío para supor que ele teúa registado correctamente
) Mapn III. Subgrupos e instituições polÍticas Mbundu
"T[mba dya Ngola". O nome "Tbmba" não aparece em neúuma variante
anteriores ao século dezassete
l moderna das tradições dos Mbundu e, neste caso, foi provavelmente inüo-
duzido a partiÍ das histórias de povos que viviarn a leste do Kwango, onde
ì esse nome figura acnralurente como uma antepassada dos Cokwe. Muito
) provavelmenüe, "Tbmbaf' tomou o lugar de Matamba a Mbulu, o ante-
l passado etiológico do povo lrnge do baixo Lukala. pela regra segundo a

I qual os casamentos nesras genealogias significam que uma liúagem ou


grupo de linhagens reivindica um título, o casaÍnento de "Tumba a Ngola"
) (leia-se "Matamba a Mbulu" ou o povo Lenge) com Ngola a Kiluanje e a
sua vitória final sobre ps Ndongo do Lukala setentrional, descreve as
) batalhas nas quais os Mbundu do sul arrancaram a liderança akiluanje r<ya
, sarnba e edificaram, com base no ngola, um novo centro de poder políti-
t co no baixo Lukala.
Segundo sugere a tradição, as capitais do estado de ngola a kiluanje
) ficam na província Irnge e, provavelmente, factores económicos con-
) tribuiram para a expansão do poder destes reis, tal como as salinas do Lui
I tiúam constituído um suporte para alguns dos reinos baseados no lunga,
I na Baixa de cassanje. A região dos Lenge inclúa as minas de ferro do vale
do rio Nzongeji e, aparentemente, as apuradas técnicas metalúrgicas
) conhecidas dos samba fizeram destas reservas de minério uma valiosa e
estratégica presa. os ngola a kiluanje não só instalaram âs suas capitais
) muito próximas das minas, como também mais tarde resistiram tenaz-
t mente a todos os avanços portugueses em direcção a esta área, enquanto
I mostravàm relativamente pouca preocupação com a penetração dos por-
tugueses nouhos lugares dos seus domínios. A especial sensibilidade dos
) reis à ameaça de perda desta região pode ter resultado do desejo de prote-
Uma vez fìrmemente'controlados os recursos económicos do reino,
os reis que detinham o título de ngola a kiluanje estenderam a sua influên-
) ger as suas capitais, como os atacantes portugueses deduziram, mas a sua
cia para as linhagens que viviam distantes, através da distribuição de títu-
dependência do controlo dos depósitos de minério de ferro poderá também
) ter influenciado as suas tácticas. um eixo económico de segundo plano no
los de nobreza subordinados, derivados do seu ngola. Num aperfeiçoa-
) mento da clássica técnica dos Mbundu, de associar linhagens pela
reino dependia da posse das minas de sal de Ndemba, a sul do Kwanza, na
atribuição de uma nova posição perpétua, eles concederam títulos "filhos",
) Kisama. Ao que parece, foi bastante cedo na história do reino que os ngola
com sobrenome de -a ngola, a muitos grupos de filiação. Sempre que pos-
a kiluanje estabeleceram a sua hegemonia sobre as autoridades políticas
) locais próximas destas minas pois, por volta da década de 1560, eles
sível, tomavam para si uma esposa dessa liúagem e concediam o tÍtulo

) tinham imposto um tributo em sal que os titulares da Kisama enviavam


'' AntónioMendesparaoPadreCeral,Lisboa,9deMaiodel563; Brásio(1952-7lt,ll: 495-í12,
) para a corte, estabelecida próximo do Nzongeji. Blocos deste sal " "Notícias do paiz..." (1844), pp.123-4.

)
78 ORIGENSENDÓGENAS REINOS BASEADOS NO NGOI.A 79

original a um filho biológico nascido desse casamento; confiavam nele, e Recoúecer que "Ngola Inene" era uma ideia e não uma pessoa, o quc
mais tarde nos seus sucessores, para representar os interesses reais perante os nomes dos seus "descendentes", Kiluanje kya Samba e Ngola a Klluan.
os seus parentes e linhagens correlacionadas. Um dos missioniários que je, representavam títulos perpétuos e não indivíduos governantes, faz rccuar
visitou a corte de ngola a kiluanje na década de 1560 forneceu-nos a con- as datas dos primórdios da história dos estados Samba para, pelo menog, o
firmação, como testemunha ocular, para a tradição do século dezassete em século quinze. A data do início do século dezasseis para a emergência do
que se afirma que o rei tinha "das suas numerosas concubinas, ngola a kiluanje continua a ser aceitável, com base no registo quasc
(...) muitíssimos descendentes, que foram os chefes das mais importantes contemporâneo fomecido pelos Jesuítas na década de 1560. hovavel-
famílias do reino"; ele relatou que o governante dos anos 1560 mantinha mente, o kilunnje lcya.samba precedeu o ngola a kiluanje em muito mais do
na sua corte mais de 400 esposas.ss Tendo em conta a óbvia má tradução que uma única geração biológica, que estaria implícita se interpretásseúos
dos termos em Kimbundu "esposa" (traduzido por "concubina") e a genealogia como se se tratasse de uma linhagem humana; neúuns dados,

liúagem (traduzido por "família") na versão escrita da tradição do século de meu conhecimento, sugerem uma data mais definitiva para a ascensão
dezassete, a tradição original teria claramente. consistido numa genealogia desta posição política. Uma vez que o ngola começou por se difundir como
política clássica que moshava os laços entre títulos políticos subordinados uma insígnia de linhagem num período ainda muito mais remoto, gle
("descendentes") e as linhagens ("concubinas") que os detiúam. poderia ter chegado aÉ aos Mbundu como parte da geral difusão para sul
Apoiando-se nestas bases económicas e neòtes disposiüvos estruturais, da influência e estruturas políticas do Kongo, ainda no século treze ou
os reis ngola a kiluanje começarÍÌm cerca de 1510 a estender a sua influência catorze.
em todas as direcções a partir do baixo Lukala. A prova para a datação desta Da rede de títulos criados pelo ngola a kiluanje do século dezasseis,
evolução vem de Jesútas que os visitaram durante a década de 1560 e calcu- as genealogias políticas modernas preservaÍam o suficiente para permitir
laram que um "Ngola lnene" tinha começado a subjugar os muitos pequenos traçar os limites dessa expansão, qüe estendeu a sua influência a todas as
estados que tiúam precedido o reino cerca de cinquenta anos antes.s Não há regiões Mbundu e mesmo para além delas. Um Ndambi a Ngola e um
razão que nos impeça de fazer corresponder o "Ngola lnene", por eles men- Kangunzu ka Ngola, inferindo-se da inclusão de "ngola" como segundô
cionado, ao primeiro dos reis ngola a kilunnje, emvez de o fazer colrespon- termo nos seus nomes que ambos são evidentemente títulos concedidos
der ao kilunnje lcya samba ou ao "Ngola-Musuri" da Matamba. Os mis- directamente por portadores do Íítulorngola a kiluanje, tornaraú-se
sionários confundiram o princípio político do ngola ("Ngola Inene" é a posições importantes no planalto da Matamba, a norte do centro do reino.
habitual frase dos Mbundu) com os primeiros detentores da posição ngola a O, estabelecimento destes útulos e, sem dúvida, também de outros, deve
kilunnje. O erro pode expücar-se pelo costume dos Mbundu de se refeúem ter-se segúdo à denota do povo da Matamba nas guerras enffe os Mbundu
ao principal detentor de um título político de cada subgrupo Mbundu pelo do norte ("Zundu dya Ngola") e as linhagens do centro ("Tümba dya
noSne da sua antepassada simbólica. Kilamba kya Ndungu, por exemplo, um Ngola"), guenas descritas nas tradições dos Mbundu do século dezasseüe.
dos mais poderosos titulares Pende, é mútas vezes chamado "Mumbanda a Ouftos útulos, Kalunga ka Ngola, Múi wa Ngola, e Nzungi a Ngola entre
Mbulu", a lendária fundadora do povo Pende. No caso dengola a kiluanieno oufros, colocaram as linhagens do planalto cenüal dos Mbundu, junto aos
século dezasseis, os Mbundu devem ter louvado o rei perante os visitanües rios \Íukari, Luxirtrbi e T[mba, sob o domínio do ngola a kiluanje.st
europeus como "Ngola Inene", o fundador do povo Samba. Uma tal A concessão de outros útulos ngola a oeste do alto Lui, estendeu a influên-
convenção terá simplesmente reflectido a predominância política do ngola a cia dos reis do centro para leste, entre as üúagens Pende que.viviam na
kiluanje à data em que os Jesútas recolheram a informação. Baixa de Cassanje. A expansão para norte e pÍìra leste dependeu, na sua
maior parte, da incorporação de títulos políticos não relacionados entre si,
']Í António Mendes para o Padre Geral, Lisboa, 9 de Maio de 1563; Brásio (1952-71),Ill.495-512.
talvez os de estruturas políticas independentes que teriam precedido o
Pe. Pero Rodri g:ues et al., "Historia da residencia dos Padres da Companhia de Jesus em Angola_e
cousas tocanteó ao reino e conquista", I de Maio de 1594, Arquivo Romano da Companhia de aparecimento do ngola naquelas regiões. Um casamento enf;e o ngola a
Jesus, Lus., 106, fols. 29-39; publicado pelo Pe. Francisco Rodrigues (193ó), e Brásio (1952-71),
IV: 546-81. Também Antóniõ Mendes para o Padre Geral, Lisboa, 9 de Maio de l5ó3; Brásio iituanie e uma linhagem coúecida como Mbekesa a Lukunga estenOìu a
(1952-7 l), II: 5 12. Alusões em documentos do Kongo parecem apoiar esta data. Em l5 l2 o rei do autoridade desses reis para a margem norte do médio Kwanza.s6 Mais para
Kongo (Afonso I) reivindicava ainda a sua autoridade sobre os "Ambundos" a sul, mas cerca de
1520=os Portugueses estavam a preparar uma expedição para ir visitar o "rey d'Amgola", obvia-
mente o ngolaT kiluanje. O emissário dos Portugueses que, por fim, atingiu a capital do rei Mbun- 55 Testemunhos de Sousa Calunga,2l Ago. 1969 e 30 Set. 1969; também Dominios Vaz.
du encontiou um monarca suficientemente poderoso e arrogante paÍa o manter como seu pri- 56 Testemunho dc Sousa Calunga,
sionciro até 1526. Ver Birmingham (1966), pp. 28-30, e os documentos citados. 2l Ago. 1969.
80 ORIOENS ENDÓCENAS REINOS BASEADOS NO NCOI'{ 8I

oooto, o ngol,a a kiluanjë absoileu um grupo de tÍtulos, na região dos Foram vários os títulos que transportarÍrm a autoridade do ngola a kilu-
hngo, cuJo sobrcnomc eÍa -a keta, A existência de diversas posições com anje pwao sul do Kwanza numa fase inicial da história do reino, mas esses
o mãsmo sobrenome indica que um reino pouco coúecido mas muito nobres tiúam tendência para romper com o controlo exercido pelo poder
antigo tiúa-se desenvolvido naquela área antes da expansão do ngola a real cenfral, logo que peneffavam para além da área da cultura Mbundu. De
kllwrfe. No inÍcio do sóculo dezassete, todas estas posições se tiúam acordo com os anciãos do reino da Kibala, no planalto dos Ovimbundu para
tornado representanües locais dos reis ngola, incluindo a mais poderosa 1á do rio Longa, os quais são descendentes de alguns dos portadores de títu-

dentre elas, os detentores do título ngoleme a keta na região Ilamba, a los ngola que mais longe foram nesta diáspora, vários títulos teriam
oesto do rio Lukala.sT Os,keta originais tinham provavelmente baseado o atravessado o Kwanza quase ao mesmo tempo; estes incluíam posições que
não eram ngola, como Kiteke kya Bengela, Kafuxi ka Mbari, Mbumba a
seu estado no conüolo dos depósitos de minério de ferro localizados nas
Mbundo e Mbumba a Kavenge, além da posição Ngama a Ngola, que cor-
montanhas ali existentes.f Estes reis keta nunca chegaram, apaÍentemente,
respondia mais ao padrão habitual. Os titulares do kafuxi lca mbari deslo-
a desenvolver plenamente o potencial das minas, talvez porque a sua câram-se para sudoeste até que o título finalmente se deteve entre os povos
limitada üecnologia metalúgica os impedia de fazer uma utilização militar não Mbundu, junto às minas de sal da Kisama. Os outros fixaram-se em
do minério tiio efectiva como fizeram os Samba sob o domínio do ngola a ambas as margens do rio Ngango, com Ngama a Ngola e Mbumba a
kiluanje. A sua falta de habilidade para fabricar annas tê-los-à deixado Kavenge movendo-se ao longo da margem esquerda, no Hako, e Kiteke kya
wlneráveis perante os forasteiros, mais bem armados. Bengela indo mais para sul, para o planalto, onde se estabeleceram como
governantes do povo "Marimba", a sul do rio Longa.s'Alguns títulos isola-
Mapn IV. Expansão do Ngola a Kiluanje (antes de 1560) dos, descendentes do ngola a kiluanje, podem ter peneffado mais para sul,
chegando aos Hanya que viviam nas montaúas acima do que foi depois a
cidade portuguesa de Benguela; os seus descendentes actuais ainda atribuem
a sua origem ao "grande Ngola do norte".e Todos estes titulares do sul
fizeram a secessão em relação ao ngola a kiluanje e tornaram-se politica-
mente independentes, à medida que as pessoas que controlavam as posições
se adaptavam às culturas locais, às quais faltava a sensibilidade dos
Mbundu relativamente às subtilezas do parentesco perpétuo e da sucessão
nas posições titulares.
Uma breve história, do século dezassete, apresentando a lista dos
primeiros detentores do título ngola a kiluanje, fornece-nos uns fugidios vis-
lumbres da história política interna do reino. A sua estrutura básica, uma
aliança de liúagens ligadas por "casamentos" fictícios a um único título
dominante, significava que os grupos de filiação na posse das posições
subordinadas mais poderosas do estado lutavam entre si pelo controlo do
título real. As versões escritas desta tradição, distorcidas como habitual-
mente, tomaram a forma de uma lista de reis:ul

Brandão (1904), pp. 71, 407-8. A notâ de Brandão de que os Kisama reconheciam como seu
Ngoleme a Keta tornou-se mais tarde um destacado inimigo dos Portugueses. Detinha certa senhor o kiluanje kya samba e não o ngola a kíluanje stgete que esta fÀse de expansão deve ter
procminência quando Paulo Dias de Novaes chegou pela priúeira vez, na ãécada de 1560, e era precedido a ascensão deste último títl|o ngola. Embora provavelmente seja impossível chegar a
ainda um qoder de primeiro plano quando ern 1575 cliegou a Angola a segunda expedição estabelecer uma data exacta para estes acontecimentos, é bastante prováveÌ que estes títulos se
ponuguesa. Veja "carta de Paulo Dias de Novaes a el-Rei, 3 de Julho dè l5B2'(8.M., Add. MSS. teúam difundido para sul muito antes da chegada dos Portugueses, contrariamente aos ingénuos
20,786, fols. 182-183v); Búsio (1952-71), IV: 341-5. Um Ngoleme posterior ainda possuía força cálculos cronoiógicos de Brandão que argumentou que as posições em causa eram de dignitários
slficiente, eq-ló44, paÍa derrotaÍ o exército ponuguês, maJacaboü por sucumbirìos finais áa ngola que fugiam diante das forças militares portuguesas em 1582. A presença de Ngama a Ngola
j644; Cadornega (19&-2),
!é9q{a,{e ló50 quardo os Europeus se desforraram da sua vitória de no Libolo foi documentada na década de 1650; Cavazzi (19ó5), I: 28.
I: 349-55 e II: l4l-9. Alfred Hauenstein ( 1967b), pp. 229 segs. e ( 1960), p.222. A, suposição de Hauenstein de que estes
Os documento do século dezassete geralmente soletram o nome "Caita" ou "Gaeta". G. Weeckx chefes ngola se deslocaram para sul após o fantoche ngola a kiluanje ter sido derrotado em 1671,
(19!Z!p, l5l, identificava Ketâ com Musuri e Mbumba a Mbulu, confirmando implicitamente a em Pungo Andongo, não se baseia em qualquer prova. E muito mais plausível que este título cor-
antiguidade do título. Sousa Calunga, testemunhos de I I e 30 Set. 1969, fomeceu geirealogias para responda ao peíodo expansionista do estado do que aos seus últimos suspiros.
os tÍtulos deste estado e acrescentou que ngola a kiluanje mais tarde desposou mulheres ddstas
Cavazzi (1965), l:256-7. As fontes contemporâneas habitualmente confundiam os títulos dos
linhagens (isto é, integrou-as). governantes com os nomes dos seus detentores.
82 ORIGENS ENDÓGENAS
REINoS BASEADoS No Ncol"A 83
l. Ngola a Krluanje:
2, Ndambi a Ngola; Ao mesmo tempo, é óbvio que o ndambi a ngola hesitou em tratâf Oã
seus convidados de forma demasiado rude. A sua consequente incapml.
3, Ngola a Kiluanje:
4. Jinga a Ngola a Kilombo kya Kasenda (um usurpador); dade em conciliar as contraditórias opiniões existentes na corte sobrc a
5. Mbande a Ngola. melhor forma de lidar com a presença deles, conduziu a polÍtlcao
vacilantes que manúveram cativos na capital, durante a maior parto
o missionário que registou estes "nomes" confundiu o título da da década, o líder da expedição, Paulo Dias de Novaes, e os sgus cotn.
posição, ngola a kiluanje (números I e 3), com os nomes dos títulos panheiros Jesuítas.n
subordinados se revezavam no controlo da realeza (números 2, 4 e 5). Durante as décadas de 1570, 1580 ou 1590, o poder parece ter pagi&-
uma comparação desta lista real com as genealogias políticas modemas do das linhagens que estavam por detrás do ndambi a ngola para outroc
grupos de filiação que controlavam um outro título político, recordado nao
do estado do ngola a kiluanje mostra que a sucessão do presumível ngola
a kiluanje original para o ndambi a ngola assinalou a passagem do poder tradições como um "usurpador". Uma vez que neste período os Portuguo.
ses estiveram em grande medida confinados a uma posição avançad8 à
das linhagens que detinham o título senior para aquelas que detinham a
posição subordinada ndambi a ngola. Geograficamente, houve um movi- beira-mar, que tiúam estabelecido em Luanda em 1575, e ao vale do
mento, a partir das linhagens fundadoras no baixo Lukala, de retorno às baixo Kwanza, as fontes escritas quase nada acrescentam à história inter.
linhagens do norte que viviam não longe da área da Matamba onde os na do reino de ngola a kiluanje. O intruso, chamado "Jinga a Ngola a
Samba tinham a sua origem. o seu acesso ao poder marcou um ressurgi- Kilombo kya Kasenda" pode ser, provavelmente, identificado através das
mento dos samba setentrionais sobre os seus paÍentes db sul, que tinham modernas genealogias dos Mbundu. Certas linhagens Pende do vale do
feito a secessão para elevar o ngola a kiluanje ao seu estatuto indepen- Lui, num dos antigos reinos lunga, o de Swaswa dya Swali, tinham criado
dente. A tomada do poder pelo ndambi a ngola deve ter ocorrido durante um pequeno estado subsidiário no qual o título central usava o nomo
Kasenda ka Swaswa (dya Swali). "Jinga a Ngola a Kilombo kya Kasenda"
a década de 1540, quando o ocupante da posição meridional do ngola a
kiluanje tentou entrar em contacto com o rei português.ó2 o desejo de deve portanto ter sido um título ngola, o jinga a ngola, que pertencia à
contactar os Europeus poderá ter decorrido de pressões que este rei Samba
linhagem Pende de Kilombo kya Kasenda (ka Swaswa dya Swali),
do sul estivesse a sofrer por parte dos seus parentes setentrionais da As genealogias perpétuas. do médio Lui sugerem que linhagens rela.
Matamba. cionadas com Swaswa dya Swali se encontravam entre as mais poderosas
linhagens na Baixa de Cassanje, muito poucos anos mais tarde, durantc as
A hipótese de que esra iniciariva diplomática da década de 1540
décadas de 7620 a 1640. A sua proeminência neste último período podo
tenha vindo de um rei que se achava numa posição defensiva contra deten-
tores de uma posição "filho" subordinada, o ndambi a ngola, explica o muito bem ter derivado de um período de controlo sobre o ngola a
comportamento do rei que lhe sucedeu, do norte. Este recebeu de modo kiluanje durante o final do século dezasseis. Eles poderão ter, original-
mente, obtido o título ngola em consequência da sua proximidade das
hostil os missioniírios que a coroa portuguesa finalmente enviou aos
Mbundu, vinte anos mais tarde, na década de 1560. o rei que esses Jesuí- salinas do Luhanda, em tempos controladas pelo rci lunga Butatu.
tas encontraram apresentou-se a si mesmo como "Ndambi a Ngola", um
A oscilação no equilíbrio político interno do estado do ngola a kiluanje a
'filho" do ngola a kiluanje que os tinha mandado chamar duas décadas favor da Baixa de Cassanje pode ter coincidido com a difusão dos tÍtulos
ngola pnaos Pende do médio Lui.6
antes, e tornou claro que ele, ao contriírio do seu "pai", considerava os
O acesso ao poder de "Mbande a Ngola", o título seguinte na lista de
Europeus uma ameaça. A sua hostilidade em relação aos estrangeiros pode
ter nascido do receio de que eles pudessem descobrir a mudança nas reis do século dezassete, representou a transferência do poder polÍtico
linhagens que conrrolavam o título; a localização da capital entre as
linhagens do sul. longe do seu próprio grupo de parentesco, tê-lo-ia tor- mente aos Europeus teúam mudado em consequência das histórias que até eles chegaram a putlt
do Kongo, onde os Portugueses Íesidentes na coÍte do mani Kongo estavam a perder a poolçüo
nado l'ulnerárel a uma tentatila de restauração do anterior regime.u. preferencial de que tiúam gozado durante os anos anteriores. A sua capacidade de perturbar e
política intema daquele gstado estava a tomÍu-se cada vez mais evidente.
."*'r", *te \ r(ì Pxdr!' Geral. Lirhou. 9 de Muio tie I56.t: Brásio (1952-71), II: 497. Eu con- A documentação sobre a visita de Dias de Novaes e dos Jesuítas à corte do ngola a kiluanJc na
eo1l1y 91111 a an.ilr'c upre:cnrJdd por Brlrninehurn ( ì966). p. -ì-+. década de 1560 foi pubücada nos ÁÁ, série 2, XVE rf 67-70 (1960), 8-32; essas cartas aparocom
' !:\idL'nrcÌÌÌcnre. como uhernatr\iì a c\la hipótese. pode ser que as atitudes dos Mbundu relativa- também em Brásio (1952-'11), tr e [V, e em Sousa Dias (1934).
Cf. Muhi wa Ngola, etc, p. 79.
84 ORIGENS ENDÓGENAS REINOS BASEADOS NO NGOI,A 85

êfectivo para uma terceira linhagem ou grupo de linhagens. Também estes Ftc. IV, Inter-relações dos tÍtulos Ngola
grupos de filiação viviam na Baixa de Cassanje, um tanto a oeste de
Swaswa dya Swali, na bacia do rio Kambo. O posterior ngola a kiluanje
Ngola Inene / Ngola Musuri
evocava o mbande a ngola como um rei legítimo, em contraste com o I

usurpador "Jinga a Ngola a Kilombo kya Kasenda", mas a aparente kiluanje lqa samba
descontinuidade em terrnos de legitimidade escondia uma continuidade
subjacente, em termos das linhagens que controlavam a posição, como é ngola a kiluanje
indicado pelo facto de o poder ter permanecido no leste, na Baixa de
Cassanje. O detentor do título mbande a ngola que reivindicava o título
ngola a kiluanje tinha sido um "filho" do usurpador "Jinga a Ngola a jinga a ngola
ndambí a ngola mbande a ngola
Kilombo kya Kasenda". IJma vez que as fontes para esta tradição (regis-
I

tada na década de 1650) poderiam ter relembrado estes acontecimentos a nzinga a mbande (?)
partir de memória viva (não mais de sessenta a oitenta anos mais cedo),
(Rainha Nzinga)
elas referiam-se, provavelmente, a um filho biológico do intruso que foi
detentor do jinga a ngola, e não a um título dele derivado. Este jinga a
ngola, com toda a evidência, tiúa casado com uma mulher de uma
linhagem que possuía a legítima posição ngola do mbande a ngola e,
depois, teria manobrado para colocar o seu verdadeiro filho no título em Qunono 1

que ele seria plenamente empossado, denho das regras da sucessão matri- tr-:
, ì,1, ' Cronologia do Ngola a Kiluanje
linear. A entrada do filho, cujo nome pessoal obviamente não ficou regis-
iflt
tado, manteve a linhagem do pai (Kilombo kya Kasenda) em posição de
ekercer um forte papel nos assuntos do reino. Embora não haja provas para \/ ., ,"
'. .. ''' Governante(s) Localização Datas
a data de ascensão ao poder do primeiro mbande a ngola, o ngola a
1., 'Ngola Inene'/'Ngola Musuri' Matamba ?
kiluanje que moÍïeu em 1617 era provavelmente desta linha$em, e o rei
que morreu em 1624 de certeza usava este título.66 -, ' ngolaakiluanje
-r' , ,;
kiluanje lqa samba Alto Lukala (sec. quinze)

As derrotas causadas pelos exércitos portugueses interromperam /'r Médio Lukala c.151O-déc.1540
ì (, ,
Ì
I
ndambi a ngola Matamba c. déc. 1 550-déc. 1 560
os processos políticos autónomos do estado do ngola a kiluanje ti jinga a ngola (usurp.)
i Baixa de Cassanje c.déc.1570-déc.1590?
durante a década de 1620. Os Portugueses, vitoriosos, transferiram o
mbanle a ngola Baixa de Cassanje c.déc,1600-1624
título central para outro grupo de linhagens, detentoras do hari a I

tufr a kíluanie (fantoche) Pungo Andongo 1624-t671


kiluanje', uma posição ngola seniotr numa linha colateral, uma posição * I
INzinga Baixa de Cassanje déc.1620-presente
"irmão" do ngola a kiluanje e um descendente directo do velho título
kiluanje kya samba, Se bem que, tecnicamente falando, o hari a * governantes dos estados sucessores distintos ('Hari" e "Matamba")
kiluanje tivesse legitimidade ou mesmo senioridade, nunca os deten-
tores dessa posição, aparentemente, tinham exercido muita influência
nos assuntos do reino, e os Mbundu nunca os reconheceram como
Até àquela altura, a política no reino do ngola a kiluanje tinha
herdeiros do mbande a ngola. O título não aparece de forma nenhuma
girado à volta da concorrência entre linhagens ou coligações de linhagens
nas modernas genealogias políticas, e o reino de harí a kiluanje
! que se baseavam em agrupamentos de linhagens anteriores ao ngola,
pertence mais à história da conquista portuguesa do que ao estudo da :
Cada um desses grupos tinha tentado colocar na posição central do ngola
formação do estado no contexto das linhagens Mbundu.
a kiluanje os membros da sua própria linhagem, detentores dos títulos
seniores do estado. Os reis, no poder central, presumivelmente tentavam
' BilPg D. Slmão de Mascarenhas a el-Rei,2 de Março de 1624 {A.H.U., Angola, cx.l); Brásio
quebrar a solidariedade destes grupos de linhagens através da colocação dc
(1952-71), VII: 199-203.
Itó ORIGENS ENDÓGENAS
-'--'ì i
t-lt CONCLUSÕES 87
posições ngola subordinadas naquelas linhagens que mais provavelmente
se manteriam leais à realeza central. Embora os portadores do ngola a sucessão nas posições titulares em preservar os laços históricos entre gru-
kiluanje tenham crescido em poder através do controlo que exerciam sobre pos de parentesco. uma vez que os Mbundu não tinham a liberdadJ
do
a região rica em ferro próxima do rio Nzongeji e, ao que parece, tenham alterar as suas genealogias de linhagem para reflectir condições sociais
e
mantido as suas capitais nessa região, os homens que exerceram tal autori- políticas em mudança, como noutros lugares frzeram socieãades estrutu-
dade vieram de uma grande variedade de linhagens localizadas noutros radas de modo semelhante,ó7 eles tiveram de dispor de outros canais
lugares do reino. No geral, as linhagens localizadas no norte e no leste sociais através dos quais os homens pudessem concretizar ambições pes-
parecem ter dominado através da posse de títulos seniores do estado, soais ou responder a circunstâncias que não eram abrangidas peloà padrões
como
o ndambi a ngola e o mbande a ngola. do parentesco. Embora as tradições não indiquem as condições exactas
os detentores de tífulos pré-ngola no sul e oeste nunca conseguiram que incitaram certas liúagens a adoptar novos símbolos e a r;sffuturar
as
adquirir grande influência no centro do reino, embora alguns ietes suas relações com outros grupos de filiação, numerosas linhagens clara-
nomeadamente Ngoleme a Keta, Kafuxi ka Mbari, e Kiteke kya Bengela
- mente fizeram tais ajustamentos, repetidamente, ao longo da súa história.
- se tenham tornado senhores regionais poderosos por sua própria conta. os malunga e jingola dos primeiros tempos fomecem ãxemplos de reor-
os titulares do longínquo sul tendiam a fazer a secessão, especialmente ganizações deste tipo, não centralizadas e basicamente não hierfuquicas.
quando se fixavam entre populações não-Mbundu, onde o ngota exercia contudo, uma vez difundido entre as riúagens Mbundu um novo
uma atracção menor do que a que exercia mais próximo das suas origens, símbolo de autoridade, com frequência indivíduós detentores de certos
na Matamba. o recuo dos herdeiros do ngola a kiluanje para a Baixa de títulos foram capazes de expandir as suas esferas pessoais de influência
cassanje, depois de os Portugueses terem derrotado o rrino principal na para além dos limites das suas liúagens, para reivindicar um certo grau
de
década de 1620, representou portanto uma retirada da capital è.m direcção autoridade sobre pessoas que não estavam com eles relacionadas. No caso
às liúagens que tinham detido a autoridade efectiva dõsde a década de dos reis malunga da Baixa de cassanje, o conftolo sobre uma extensa rede
1560. Esta hipótese explica arazão da sobrevivência do estado sucessor de comércio do sal, a partir das sarinas localizadas no interior dos seus
"Jinga", na Baixa de cassanje, durante os séculos dezoito e dezanove. territórios, parece explicar a ascensão das dinastias Butatu e, mais tarde,
o fantoche hari a kiluanje, que pennaneceu no planalto, representava um da de swaswa dya swali. Factores de idêntica natureza económica oare-
conjunto inteiramente diferente de linhagens, sendo olh4do pelos Mbundu cem_e_s-tarsújâcentes ao c.escir"ento ao ;
kiúà;j>, vmtvê;quã
corno um estado à parte, que existia apenas por vontade dos portugueses e l31te qlojgg.9p" lte-q ggy"-egry{_€-s.,9-erivavq do. s-ç-g d-omí.rrio sobre ãp minas
'ïrão tinha qualquer legitimidade em termos tradicionais.
mHn -f!ongË;i-
ias salinas da Kisama,
à gipansão @terr".i.npippnuva claramegtq para
e. a evolução política inte-rna posterior iòvetou a
Conclusões
ióiôâ
ory
lnrrrugn s cLe nolÇç sse, *qs-púximas à;r-ddãd ;-" * ;;Lõ;;
. os rcis lunga da Baixa de cassanje e o reino do ngora a kiluanje lubgaqg-Fosse qual fosse a importância das causas económicas no cresci-
foram apenas os dois mais bem conhecidos exemplos de uma categoria mento e expansão dos mais antigos reinos Mbundu, estes elementos
muiüo mais ampla de antigos estados Mbundu que nasceram de raízes inevitavelmente atraem a atenção dos historiadores, pois as provas da sua
inteiramente locais. Embora muitas das outras antigas estruturas similares presença sobrevivem, à vista de todos, nas salinas existentes e nos
a estados que surgiram entre os Mbundu, como os reis keta dos Lenge, abandonados pedaços de ferro. o que se perdeu para a História, em todos
tenham ficado quase completamente fora do registo histórico, todas elas estes casos, foi o papel do génio humano individual, a intervenção do
devem ser analisadas, inteiramente, em termos das crenças locais dos acaso, e a maior parte das intricadas manobras políticas que também
Mbundu a respeito da autoridade, da distribuição de objectos simbólicos devem ter contribuído para o desenvolvimento destes estados.
para conferir autoridade sobre as pessoas, e das crenças no parentesco per- o modelo generalizado da formação endógena dos estados Mbundu
pétuo e na sucessão nas posições titulares. As provas, que mutuamente se assume como seu ponto de partida a afirmação de que, entre os grupos de
conoboram, das fontes documentais e das tradições orais, sugerem que as filiação Mbundu, apareceram constantemente novas instituições transver-
técnicas usadas pelos Mbundu na edificação do Estado erÍÌm um pr-oduto sais. A força dos grupos de parentesco era, em muitos casos, suficiente
de uma estrutura linhageira fundamentalmente inflexível, iornada para converter os símbolos destes movimentos em insígnias da estrutura
particularmente rígida pela capacidade do parentesco perpétuo e da
ot Um caso clásssico são os Tiv da Nigéria; paul e Laura Bohannon ( 1953).
88 oRTcENSENDóoENAS

liúagoira, como inicialmente ocorreu, quer com os malungaquer com os


jlngola. Entre os incontáveis anónimos detentores de aisociados a
{ítulos
estcs símbolos, alguns talentosos ou afortunados individuos conseguiram,
. CAPÍTULO IV
:
de tempos a tempos, converter em efectivo poder político o controlo que
tinham sobre algum recurso económico valioso. os seus estados tomaram Novas Ideias Vindas do Sul
a forma de coligações de linhagens, mais ou menos exüensivas, baseadas
na concessão a ouhos grupos de filiação de útulos políúcos subordinados
ao que eles próprios detinham. Alguns destes estados iam crescendo A particular incidência do capítulo precedente nos métodos endó-
precisamente quando outros entravam em declínio, através de todo o genos usados pelos Mbundu na edificação de estados, que levaram à
período anterior a 1600. Os reis lungaiam muito bem, na sua história, expansão do ngola a kiluanje no século dezasseis, excluíu qualquer men-
antes de os detentores do ngola atingirem o seu auge, nos meados do sécu- ção a um importante reino da mesma época chamado Libolo. O Libolo,
lo dezasseis. o estado do ngola a kiluanje eclipsorr todos os reis runga que cujo centro se encontrava entre os Mbundu ao sul do rio Kwanza, exige
o antecederamììãxeépíãõ dos mais-rãmotòs, útes de, rambém um tratamento separado porque os seus reis recorreru[n, como meio de
i".
"ï", reorganizar as linhagens Mbundu num reino, a instituições políticas
.subjugado por fo.r.4s_tçir.os- os l4b3rng_ala_e .os pgrnrgueses que, nas
primeiras {ég_adas .do--século dezassete, intróduziram novas estruturas inteiramente diferentes dos títulos perpétuos e dos grupos de filiação
políticas de um tipo fundamentalmente diferente. correspondentes, usados pelo estado Mbundu no norte. Se bem que as
origens do Libolo até agora permaneçam ainda mais obscuras do que as do
Iunga e do ngola, a sua principal técnica de cirganização, um título chama-
do vunga, deixou provas claras de que veio de regiões exteriores àzona
dos Mbundu, onde a sucessão nas posições titulares e o parentesco
perpétuo reinavam incontestavelmente. O vunga envolvia uma concepção
de autoridade que era estruturalmente oposta aos títulos hereditários
concedidos às linhagens pelos reis lunga e pelo ngola a kiluanje, pois
introduzia pela primeira vez um tipo de posição que peÍmanecia fora do
controlo dos grupos de filiação.

O kulembe
Embora os vunga tivessem chegado até aos Mbundu por intermédio
do sistema político do Libolo, esses títulos tinham tido a sua origem num
estado mais remoto conhecido apenas pelo título, kulembe, de uma obscu-
ra linha de reis que reivindicava autoridade sobre partes do planalto de
Benguela, viírios séculos antes de os actuais reinos Ovimbundu se terem
formado nessa região. A capital destes governantes ficava algures próxi-
mo das nascentes dos três principais rios que correm na parte noroeste do
planalto de Benguela, o Longa, o Kuvo e o Ngango.r Fontes documentais
e orais coincidem em situar a ascensão do kulembe numa data muito ante-

' Na década de 1850, reis usando o título de Kulembe kwa Mbandi ainda preservavam este nome,
vivendo no "Selles", que corresponde genericamente à área do planalto precisamente a oeste das
nascentes do rio Kuvo. Ver László Magyar (1859) p. 379. Uma área coúecida por "Lulembe"
ainda existia algures no planalto a sul do Kwanza nos finais do século dezassete; Cadomega
(194U2\,IIl:.249. O prefixo para o radical -lembe vanava consideravelmente nas fontes escritas
deste período.
90 NoVAs IDEIAS VINDAS Do sUL EXPANSÃODOLIBOLO 91

rior a meados do século dezasseis.2 Foi, portanto, um dos mais antigos dos reis cenfrais. Embora, támbém neste caso, uma ausência quase total dC
reinos do planalto de Benguela de que ainda sobrevivem vesúgios com- dados históricos sobre o Libolo impeça uma poÍmenorizada reconstituigão
provativos. Não obstante isso, o significado do estado kulembe escapou à da ascensão do reino, ele foi um dos mais antigos dos grandes estadog quc
maioria dos historiadores, que descreveram a ârea ao sul do Kwanza surgiram entre povos de língua kimbundu, sendo provavelmente contom-
referindo-se quase exclusivamente aos estados ovimbundu mais recentes, porâneo dos reis lunga dos Pende e, certarnente, sendo mais antigo do quo
o desinteresse pelo kulembe resultou, provavelmente, do facto de as o ngoLa a kiluanje. E evidente que floresceu bastante antes de meadoe do
tradições dos posteriores estados dos ovimbudu, tar como as dos Mbundu, século dezasseis, quando os documentos, implicitamente, revelam que elo
ü datarem da formação destas entidades poríticas (finais do século dezassete, já tinha entrado em declínio e tinha sido substituído pelo ngola a kiluanJe
aproximadamente) e terem eliminado praticamente todos os traços de por toda a paÍte, a norte do Kwanza.
tr peúodos históricos mais antigos.3 Fora da area dos Ovimbundu, porém, as
i* genealogias perpétuas dos Mbundu preservrìram a memória do título
kulembe como o progenitor de uma série de títulos políticos derivados que, Mnpn V. Kulembe e Liholo (c. secs. XV-XVI?)
finalmente, levou à subsequente dinastia dos reis Mbondo.a As estuturas
políticas e sociais destes estados pré-ovimbundu continuíÌm a ser demasi-
ado mal conhecidas para justificar especulações, a não ser o facto de o
kulembe, aparentemente, se ter situado entre os mais importantes dos
primitivos e$tados no planalto de Benguela.5

Expansão do Libolo
As instituições políticas específicas que originalmente emanaram do
kulembe atingiram os Mbundu indirectamente, através de uma dinastia
intermediária de reis que usavam o título de hango. Estes governantes eri-
giram um outro reino, agora conhecido por Libolo,6 localizado algures a \:-í-r&r t
norte do kulembe, entre os Mbundu que viviam junto ao Ngango, aÍluente
'i da margem sul do Kwanza. Em parte, os hango ampliaram o seu controlo
I concedendo às linhagens títulos perpétuos subordinados, tal como frzeranr
I
os ngola a kiluanje, mas eles apoiaram-se também num tipo de posições
1

temporiírias que permitia ter uma maior concentração de poder nas mãos

'? Testemunho de Alexandre Vaz, 3 1 Jul. 19691 a data é deduzida da posição do título tule mbe numa
genealogiaque inclui nomes perpétuos mais tardios, os quais, segui:do ós documentos, ie lornaram
poderosos. bastanre tempo antes de 1600. E.G. Ravenstein (ts-0t), p. g5 (onde o nômeãparece
escrito "Elembe"\, e Cav azzi ( I 965), I: I 88-90.
ì O melhor resumo da história dos estados mais tardios dos Ovimbundu encontra,se em Childs
(1949) pp. 164-9a Há neces<idade urgente de novos trabalhos de campo sobre estôs ,eúo, o,
seus sucessores. Uma direcção óbvia para a qual tais estudos se devem ôrientar é pÍua os constru- "
tores das numerosas construções em pedra, iujas ruínas se dispersam, actualmenie, peló ptanalto
de Benguela.
n Este exempÌo de tÍadições remânescentes, sobrevivendo fora da sua área de origem, é similar As genealogias perpétuas dos Mbondo identificam Hango dya
a outros exemplos de tradições que já não existem entre os Imbangala mas ainda es-tão vivas entre Kulembe, o rei do Libolo, como um "filho" do kulembe, Embora estas
os cokwe, Songo e Ovimbundu; os capítulos seguintes fornecem èxemplos disso.
' Paraalém da posição do kulembe nas genealogias perpétuas, a maior parte das fontes documentais nadições indiquem com rigor a derivação da autoridade reivindicada pelo
clo século dezassete contém referênciàs ao kúlembe òomo um "granãe e poderoso rei". Á forma
vngl destas referências conÍirma a impressão de que por esta altúa
hango, elas não descrevem o processo histórico pelo qual os reis do Libo-
ia o relno tinha declinado.
' Os lntigos Mbuldu provavelmente usavam o nome Libolo apenas para as regiões ao sul do Kwan- lo cresceram em poder e, finalmente, fizeram recoúecer a sua inde-
zt ondc.os rcis hango tinham as suas capitais. Os reinos Mbúndu gèralmenúomavam o nome dos pendência em relação ao mais antigo estado, a sul. Os predecessores dos
títulon doc seue rcis, rlcste caso os frangb. contudo, Libolo é o noïe hoje em dia uiido petos his-
torisdorcB tradicionais Mbundu. reishango devem ter existido entre os Mbundu meridionais durante algum
I i

I 92 NOVAS IDEIAS VINDAS DO SUL


nxpnNsÃcl Do LtBoLo
I tempo, provavelmente sob um outro nome, antes de terem obtido um títu-
I lo "filho" do' kulembe, seja qual for a época em que a influência do reino
estava havia algum tempo, embora a sua presença não tenha sido regista-
da mais cedo.ro Um outro titular cuja capital ocupava üma das ilhas no
I mais antigo teúa penetrado na região do alto Ngango. Como hipótese
alternativa, os kulembe podem ter começado por afirmar a sua autoridade
curso superior do Kwanza, Mbola na Kasaxe, aparentemente servia de
I sobre as linhagens Mbundu do sul, impondo simultaneamente um gover-
guardião das fronteiras do sudeste do Libolo,tr A fronteira nordeste do

I nador provincial para as governÍu, com o título de hango. Seja qual for a
Libolo, da qual voltarei
de Cassanje.
a falar, corria ao longo da escarpa acima da'Baixa

I origem destes reis, a história do Libolo só aparece de modo nítido depois


de os hango terem prosperado durante algum tempo e difundido a sua
As províncias centrais do reino do Libolo, durante os seus períodos
t autoridade para os Mbundu que viviam a norte do Kwanza. No seu auge,
mais prósperos, situavam-se no vale do rio Ngango. O nome português

t o reino estendia-se para nordeste até aos Pende, que viviam nas terras alüas
posteriormente dado a esta área, "Hako", identifica-a como a sede dos reis
hango, uma vez que o topónimo europeu provavelmente representava uma
I das nascentes do rio Kambo, acima da Baixa de cassanje. As suas provín-
cias orientais incluíam os songo, que habitavam a norte do rio Luhando.
comrptela europeia do título em Kimbundu." As genealogias perpétuas

I A fronteira meridional do Libolo com o reino do kulembe mantém-se inde-


mostram uma concentração de títulos derivados do hango na região de
Hako, incluindo o kaza ka hango, uma posição cujos representantes se
t' terminada por falta de provas.
As localizações de um certo número de títulos políticos existentes no
tornaram famosos na década de 1620 como aliados da rainha dos Mbundu,
I século dezassete, com o sobrenome "hango", estabelecem as antigas fron-
Nzinga, nas suas batalhas contra o avanço da ocupação militar portugüe-
sa. A exacta localização das capitais destes reis não foi encontrada nem,
I teiras do Libolo, no noroeste, ao longo do baixo Lukala e para além dele.
Ainda em 1592 dignitários subordinados ao ngola a kiluanje, intitulados
que eu saiba, sistematicamente procurada.
a Kakulu ka Hango, govemavam aregião de Museke e Ilamba ao longo do
As fronteiras setentrionais do Libolo contrairam-se sob a pressão da

t curso inferior do rio Lukalp.t Se bem que, por essa altura, eles se tivessem
expansão do reino do ngola a kiluanje ao longo do século dezasseis.
Os títulos Lenge, como o de Kakulu ka Hango, foram perdidos quando se
I tornado governadores provinciais do reino do ngora, os seus títulos
revelavam que originalmente haviam sido postos avançados do Libolo e
tornararn dignitários subordinados dos reis Samba; para além disso, outras
I tiúam sobrevividó ao declínio do Libolo para serem incorporados, antigas posições titulares pertencentes ao Libolo, como o Lukunga,

I seguindo o padrão típico dos Mbundu, Çomo componentes das uit utorus
enviaram mulheres para desposarem o ngola a kiluanje e receberam, em
troca, posições ngola subordinadas, tornando-se agentes dos governantes
t políticas mais tardias. outras posições hango dispersas nesta área fornece-
ram provas de ur4 antèrior controlo por parte do Libolo: Kiluanje kya
centrais. A expansão para sul de portadores de títulos ngola, como o
t Hango vivia na área de Lrlkamba no médio Lukala, e Ngungu ya Mbuku
Kiteke kya Bengela, o Ngama a Ngola, e outros, expulsou os reis hango
das suas províncias de origem no Hako. Apenas uns poucos útulos hango
ì wa Hango detinha o poder na margem norte do Kwanza imediatamente
ali sobreviveram, como dignitários menores nas cortes dos novos repre-
I abaixo das quedas, em Kambambe.s
Nos restantes locais, apenas alguns títulos hereditários originrários do
sentantes do grande ngola do Ndongo.t3 Cerca de 1600, apenas a provín-
cia do extremo sudoeste do grande Libolo, a ârea mais próxima da
I Libolo aparecem nas fontes escritas ou nas tadições orais. Lukunga, uma
Kisama, permanecia como o últirno refúgio dos seus reis outrora
posição identificada como subordinada do hango,governavâ a área a norte
ì da confluência do Kwije e do Kwanza.e Lungu dya Hango vivia em Amba-
poderosos. Alguns rcis hango mantiveram-se como govemantes locais
I ka durante a última metade do século dezassete e, provavelmente, já ali
menores neste estado residual, na maÍgem sul do Kwanza, pelo menos até
ao fim do século dezassete.ra
ì ' c.d"-rg" (1r19-zi, m, 1.Jt5,240,nos Íinais do século dezassete, situava Kakulu ka Hango na
margem sú do Kwanza, próximo daMuxi_ma, para onde provavelmente teria iao fugiao ãã1vanço
ì clos Portugueses; por esse tempo, Sala a Hango permanecia na llamba
Cadornega (19 40-2), lll:. 244.
Vários testemunhos de Sousa Calunga.
' poni..1e91-dg_A!ryy 9 Brito '.\9llaga9 breve das_cousas, que se contem neste tratado dangola e
ì ú,
fry-zil" (n f.1., MS. 294); publicad-o in Alfredo de Albuqui:rque Felner (1931), e ú, nã ZS_Z
Cf. nota 6, p. 90 a propósito da tendência dos Mbundu para designarem as regiões a partir da
designação dos funcionários políticos, por exemplo Hango/Hako. As inegularidades, já de-
(1937),249-90 também exèeftos in_ Brásio (1952-it), rvi srâ-+s. Àtàú úãs;".u ,i*au roi monstradas, nas grafias usadas no século dezassete para as palavras em Kimbundu ("Hango" em
ì ,g1ig"lyltqU."
(l94tJ'2)
Q]',iloange. quiambo',, e "Guirgu ambo cambo',; u .õlnparáçao .-o. õuão-rgu
especial) e desvios de pronúncia similares que ocorrem com outras palavras, estabelecem a identi-

t não deixa dúvidas de que todas estas formas de soletrar reprcseritavim "Hango".
dade entre "Hango" e "Hako".
' Testemuúo de sousa calune-a,5ambo ka Kikasa; de Lukunga disse-se que tiúa sidà'um',tora',
Brandão (1904), p. 137, refere um mukila a hango numa posição dessas no final do século
do lango, ou seja, um título-de liúagem pertencente a um gírpo ae rrtiiçao coì ãireitoã epger
t rEpresentântes seus para o tltttlo rcal hango. dezanove.
Cadornega (1940-2), III: 240, registou a presença de titulares deste nome.

ì
94 NoVAS IDEIAS VINDAS Do SUL EXPANSAO DO LIBOLO 95

Os hango do Libolo conseguiram dominar uma área mais vasta do que Os mavunga dos Mbondo e Imbangala irnpunham aos seus titularoc o
quaisquer anteriores reis Mbundu (antes do ngola a kiluanje)pela concessão desempeúo de deveres especializados em apoio ao,rei e à sua cortc.lAlgung
de um título político de nomeação, chamado vunga (plural mavunga). deüentores de útulos vunga,por exemplo, enúavam suprimenüos alimentarcg
Ao contrário dos títulos hereditiírios perpétuos dos Mbundu, o vunga üs- para a capital real; ouhos mantinham forças armadas prontas a defender o rei
puúa apenas de autoridade temporária delegada pelo rei naquele que conta invasores extemos. .ounos aind4 deviam manter em boas condições
designava para tal função. Ao que parece, apenas na sua província de origèm
os caminhos e atalhos que atavessavam determinado território. cada dotcn-
do Hako e enüe as liúagens trnge do noroeste os reis do Libolo tor dovunga cumpriaa sua obrigação para com o rei exfaindo a força de ta-
governaram aüavés das posições titulares perpétuas, clássicas dos Mbundu.
balho e a riqueza do povo que vivia na âtea que lhe estava anibúda.
Em todos os restarÌtes locais, paralá,dos limites do tenitório de origem onde
As exigências feitas pelos titulares vwtga criavamtensões que os separavam
o controlo era relativamente fácil, os h.ango exerciam o seu poder aEavés de
das linhagens e, os colocavarn em oposição aos interesses autonoÍnistas
govemadores provinciais deüentores de mavunga. os reis hango conceüatrr
daquelas. Portanto, eles dependiam exclusivamente do rei pam manter a sua
estes útulos por sua própria iniciativa, geralmente atavés da apresentação
autoridade e tinham poucas hipóteses de sublevar os grupos de parentesco
de determinado símbolo que indicava o mandato de quem o recebia, e estas
locais numa rebeüão conta o lango. os títúos mírvmgaproduziram assim
nomeações duravam apenas até serem revogadas ou até à morte do indiví-
uma estrutura de estado relativamente cenftalizad4 estrutura que ficava fora
duo detentor do ítuIo. Nessa alnrra, a insígnia da nomeação voltava para o
do alcance das irreqúetas liúagens dos Mbundu e que ajudou os reis hango
seu seúor em vez de ficar com os herdeiros.
a expandirem-se para norte e para sul do Kwanza.
Uma vez que os titulares do vunga não podiam legar as suas posições
aos respectivos paÍentes, os mavunga não se tornaram títulos passíveis de
A história da província do Libolo do ndala (kisra) (que seria mais tarde
o reino Mbondo) oferece a melhor prova, até à data, da natureza do domÍnio
serem herdados e confrolados pelas linhagens, como acontecia com as
posições perpétuas dos Mbundu. Os esforços dos reis lunga pwa engir do hango enffe os Mbundu setentrionais. Fornece poÍmenores sobre os
grandes estados centralizados tiúam sido obstruídos pela tendência nomes e funções de alguns mÍNunga e mosta como, quando declinou o
das liúagens individuais para conquistarem o controro sobre os útulos per- poder cenüal dos reis hango,os útulos de govemadores atribúdos pelo Libo
pétuos; quanto ao reino do ngola a kiluanje, sofria constantes querelas enfte lo perderam a sua independência face ao contolo das liúagens e se tornaÍarn
as liúagens que o integravam. Mas, uma vez que os reis hango podiam pouco mais do que útulos linhageiros. Outora, as linhagens da zona que veio
nomear homens que deviam as suas posições apenas e unicàmente ao a ser a província ndal"a do Libolo tinham feito parte da popúação pende,
governante central e cuja lealdade seria exclusivamente para com ele, relaüvamente indiferenciada, que se estendia do Kwango para oesüe, até ao
neúuma instabilidade desse tipo limitaria a expansão de um estado basea- curso médio do rio Lukala. os Pende das terras altas a leste do rio Luxindo e
do nos nwvunga. O vunga permitia ao hango vencer uma ouffa desvantagem a norte do rio Kwije 1ó adquiriram uma identidade distinúa, como Mbondo,
que havia pernrbado consüantemente os reis detentores dos malunga. A rígi- quando osreis hnngo os integraram no reino do Libolo sob a autoridade imç-
da correspondência enfte as posições lunga e a hidrografia do terãtório nao diata de um titular vunga chantado ndala, uma espécie de serpente altamente
davam qualquer flexibilidade a esses ítulos como meios de expansão, ao venenosa que se enconffa por toda a parte nas regiões meridionais de Ango
passo que os reis do Libolo, pelo contário, poiliam nomeaÍ tantos porta- 1a.17 A prevalência de posições similares n^dala ao sul do Kwanza permite
dores de vunga quantos achassem necessários e podiam colocá-los em qual- relacionar a origem do ndaln dos Mbondo com o planalto de Benguela, para
quer momento e lugar que desejassem. lá do Libolo, talvez no próprio kulembe. Por todo o restante planalto, os
A nafueza das nadições orais dos Mbundu levou-as a excluir qualquer Ovimbundu, os actuais descendentes do antigo povo do kulembe,encÍÌram a
informação directa sobre o modo como as posições nrcwunga funcionavam cobra ndala com gmnde temor supersticioso, descrevendo-a como uma
no século dezasseis. As genealogias perpétuas apenas preservarÍÌm o serpente mágica que moraria nas alturas, nas escarpas inacessíveis das mon-
registo dos títulos de linhagem hereditários e, visto que os mrwunga não se tanhas, e poderia voar misteriosamente pelos ares. Os modernos Ovimbundu
encaixavam em quaisquer das limitadas categorias de informação preserva- sugerem, indirectamente, que o ndala é uma das mais antigas representações
da, neúuma recolha destes ítulos podia sobreviver. Contudo, testemuúos
indirectos derivados dos mavunga concedidos muito mais tarde pelos Testemunhos de Alexandre Vaz, Domingos Yaz,26 Jun. 1969; Alexandre Vaz, 30 Jul, 1969;
1 Alexandre Vaz, Domingos Vaz, Ngonga a Mbande.
hcrdeiros políticos dos hango, os reis Imbangala e Mbondo, permitem um Testemuúo de Kasanje ka Nzaje.
csboço das funções e significados dos antigos títulos do Libolo. Ver Statham (1922),p,280, que indica a espécie como Dendraspis anguisücep.

l
I
f 96 NovAs rDErAs vrNDAs Do srJL
I expeNsÃo Do LrBoLo

I de autoridade polÍtica deles,conhecida, pois algumas vezes associam-no com


a áryore mulemba e contam que o grande ndala se escapou (i.é, declinou para
Mbulu, por paÍte de informantes modemos, indica que o úrulo dele se origi.
nou numa época anterior à criação do mais recente estado Mbondo e das
) uma posição insignificante) com a chegada das actuais autoridades políúcas ftadições a ele associadas. Daí resulta que os historiadores tadicionais
I cujo poder assenta noutas bases.lt
A localização da capital do ndala dos Mbondo e a configuração do seu
Mbondo não teúam meios de o situaÍ com segurança na esfutura estabele-
I domínio sugerem, na ausêhcia de melhores informações, o papel que eles
cida por genealogias mais recentes e, consequentemente, enEem em desacor-
do acerca da sua t'verdade:ira!' posição, dando-lhe uma variedade de nomes
I desempeúarÍÌm no mais vasto reino do Libolo. A capital do ndala ocupa-
va uma posição quase inacessível e facilmente defensá.vel, na crista da
que reflectem as suÍrs simpatias a respeito da localização mais conveniente.
) A sua origem como vunga, útulo de nomeação, e não como uma posição
escarpa de Katanya, de 450 metros de altitude.P Os limites leste e norte da
I autoridade do ndala dos Mbondo situam-se imediatamente para lá do sopé
titular peÍpétu4 teria produzido o mesmo efeito. Se tais argumentos, apoia-
dos na natureza dos dados, permitem determinar que o ndala veio para os
I destas escarpas e faziam fronteira com as terras dos reis lunga dos Pende,
que viviam na Baixa de Cassanje. A parte principal do reino Mbondo esten-
Mbondo num tempo muito remoto, a hipótese de que se teúa originado
I dia-se para sudoeste da capital, através de savanas fortemente arborizadas,
como um vunga do Libolo explicaria a sua presença quando, mais tarde, os
Mbondo adoptaram Kajinga ka Mbulu como sua lendária progenitora.
) em direcção ao Libolo. A partir do seu seguro reduto, muito acima das ter- A ocorrência do nome "Hengo" em duas das variútes do nome do
ras circundantes, o ndala de facto guardava a fronteira nordeste do Libolo.r
) Não se conhece a identidade da ameaça que terá levado os reis do Libolo a
marido de Kajinga ka Mbulu estabelece, quase com ceÍteza, a conexão
entre o ndala dos Mbondo e os reis hango do Libolo. pelo menos quatro
) colocar o ndala naquela posição, mas Butatu a Kuhonga kwa Vy'utu wa outras posições aparentadas, cujos nomes as identificam como sendo
t Nyama, o poderoso rei Pende daquele período, é um candidato plausível.
Uma roüa comercial muito antiga, saindo do Kwanza através dos Mbondo
derivadas do Libolo, sobreviveram entre as'liúagens no centro do reino
) dos Mbondo: Kyango kya Hango, Kongo dya Hango, Kikango kya Hango
para os depósitos de sa,l 4o rio Luhanda, na Baixa de Cassanje, deve ter
e Kabele ka Hango.22 Estas posições dos títúos nas genealogias perpétuas
) aEaído a atenção dos reis hango para aquela direcção. revelam as mesmas ambiguidades que rodeiam a do ndala, sugerindo
A origem do actual dtulo de chefia dos Mbondo, contemporaneamente
) assim que os historiadores tradicionais Mbondo também aqui tropeçaram
charnado ndala kisua, está rodeada de uma certa imprecisão nas genealogias na incompatibilidade entre os títulos vunga e as genealogias baseadas nas
) perpétuas. Paradoxalmentç, esta incerteza identifica-o como rÌm vunga e,
posições hereditárias dos Mbundu.
) simultaneamente, confirma a sua grande anúgr,ridade. A maioria das geneale
um conjunto de episódios narrativos dos Mbondo enfatiza, implicita-
gias modernas dos Mbundu descreve metaforicamente a fundação do reino
) mente, a conexão do estado Mbondo com o Libolo, ao afirmar que Kajin-
Mbondo como a chegada de Kajinga ka Mbúu, uma lendária antepassada ga ka Mbulu veio de algures a sul do Kwanza. As suas alegadas origens
) fundadora das liúagens Mbondo. Kajinga ka Mbulu, de acordo com as nar- meridionais assumem neste caso um significado ainda maior porque este
) rativas que acompanham as genealogias, fixou-se numa região chamada tema contradiz a habitual insistência, que se encontra generalizada enffe os
Lambo, nas terras altas próximas das nascentes do rio Kambo. Aí ela "casou-
) Mbundu, de que Kajinga ka Mbulu veio "do mar", juntamente com as
se" com um homem coúecido por urna grande variedade de nomes: Ndala a
outras antepassadas dos principais subgrupos etnolinguísticos. Interpretada
) Kikasa, Kikasa kya Ndala, Kikasa kya Kikululu kya Hango, Kikasa kya com cuidado, a tadição também justifica a presença de certos dignitários
Hango, ou Ndala Kisua.2l A incerteza sobre o nome do marido de Kajinga ka
) Mbondo não pertencentes às linhagens e ligados à corte do ndara kisuet,
I Os_ Mbundu referem-se explicitamente às origens não endógenas deste título quando dizem que as os títulos destes dignitários podem ser identificados, de forma indepen-
palawas,que o compõem implicam uma "linguagem diferente" (o que eles não aplicam a nâo ser dente, como tendo originariÍìmente pertencido a populações que vivem uo
I de uma forma simbólica); testemunho de Kingwángwa kya Mbaxi. Para dados sobre o ndala entre
os Ovimbundu ver A. Hauenstein (1960, pp. 224,231 1964, p. 930; 1967a,p.921).
I
TestemuúosdeSorrsaCalunga,2l e22lul. 1969;confìrmadoparaofinaldoséculodezanovepor
Capello e lvens (1882), II: 15. Calunga, 29 e 30 Set. 1969; Kingwangwa kya Mbaxi; Kimbwete; Múaxi; Kablri kl KqJinge:
20
Tanto os Mbundu como os Ovimbundu viam a variedade mágica da serpenre como um guardião Apolo de Maros, 8 Jul. 1969.
I
sobrenatural; Pe. Albino Alves (1951), L:812;Cavazzi (1965), I: 210. " Testemunhos de Sousa Calunga, 30 set. 1969; Mahaxi; Kimbwetei Kingwlngwu kyn Mbsxi, A
2t
Kajinga ka Mbulu não deverá ser confundida com a rainha Nzinga dos Mbundu, de nome elisão,.feita_pelos Mbondo. da panícula de Ìigação no sobrenome Kynngõ Kyri"ngo, Éongo Dyo'r
go, Kabele Kan_g_o, etc. pode ter resultado da éoinbinaçao de um sobienõmc .iuc ìa,t t.mìuÀlluur
semelhante, a quem os Portugueses chamaram geralmente "Jinga". O nome do posterior estado
"Jinga" deriva da raiúa "Jinga" e também não tem qualquer associação com Kajinga. Para os significado em Kimbundu (por ex.. hango) com nomei próprios corrcnrer crri Kirrrhunrlu, ìàvair,l,r
nomes, ver testemunhos do grupo Mbondo; Sokola; Alexandre Vaz, 30 Jul. de 1969; Sousa os lalantes a combintrem-no com a precedente partÍcula dc IigaçÀo. Sc lnlrnr lirr, rcrô rnrlr urtrn
prova em apoio das origens meridionais, provavèlmcntc nito Klnibundu, do 1ítrrlo rlrr reh hnllgrr,
98 NOVAS IDEIAS vINDAs Do sUL EXPANSÃODoLIBoLo 99

sul do Kwanza. O conteúdo literal da tradição obviamente não tem qual- culpa lançando ao rio Kori 4 um preparado mágico feito de uma misnra dc
quer significado histórico, uma vez que Kajinga ka Mbulu era uma ovos, óleo de palma e uxila-D Kajinga assim fez e, quase imediatamentc,
representação puramente metafórica de um grupo de linhagens e nunca ficou gúvida; ao todo, ela deu à luz cinco filhos, Kikato kya (ajinga, Kiggl
poderia ter "vindo" de lado algum, da forma como a tradição descreve a sua kya Kajinga, Nyange a Kajinga, Yivo ya Kajinga, e Mupolo wa lkjinga,
viagem. Depois, viajou com o mmido e os filhos para norte; para Kabatukila" ondË
Uma vez que a tradição necessita uma crítica pormenorizada, se fixaram próximo das escarpas que rodeiarn a Baixa de Kafirxi, um vale
começarei por parafrasear a versão da narraüva que está registada.s Kajin- nos limites da Baixa de Cassanje.
ga ka Mbulu vivia outrora próximo de Luanda,z com Ngola a Kiluanje. A interpretação desta narrativa que se segue, elucida os modos pelos
Quando os Portugueses aí chegaram, Kajinga ka Mbulu e Ngola a Kiluanje quais ela, repetidamente, indica as origens meridionais dos modernos títu-
começarÍìm por combater juntos contra os invasores europeus mas, por fim, los cujos nomes aparecem como personagens na narrativa. Os primeiros
foram obrigados a fugir. Ngola a Kiluanje seguiu para nordeste, onde se dois episódios, os que descrevem a estadia de Kajinga ka Mbulu com
fixou junto ao rio Wamba. Kajinga ka Mbulu fugiu na direcção oposta, Ngola a Kiluanje em Luanda e a retirada de Ngola a Kiluanje em direcgão
atravessando o rio Kwanza, para o "Bailundo".a Embora o Kwanza repre- a Wamba, são modos convencionais de começar a maioria das recitações
sentasse um sério obstáculo à fuga de Kajinga, ela conseguiu atavessá-lo da história dos Mbundu e são pouco mais significativas, historicamente,
com a ajuda de Katumbi ka Ngola a Nzenza, um chefe que coúecia apeffe- do que o i'era uma vez..." com que se dá início às histórias em Português.
chos mágicos capazes de fansportar as pessoas pualá do rio. Ele colocou Se bem que nunca tenha vivido em Luanda nenhuma rainha Kajinga ka
Kajinga num grande baú, ou caixa, que flutuou e cruzou o rio como um Mbulu, os modemos historiadores tradicionais Mbondo colocam-na aí,
barco. Katumbi ka Ngola a Nzenza, porém, tinha enganado Kajinga, porque por tradição, paÍa estabelecer a sua igualdade em relação ao Ngola a
pretendia capturá-la e matá-la quando ela desembarcasse na outa margem. Kiluanje, que é entre os Mbundu a peúà de toque da grandeza histórica.
Quando ela chegou sã e salva à margem sul do rio, ele tentou prendê-la no A referência à chegada dos Portugueses explica, normalmente, tanto a
interior da caixa sentando-se sobre a tampa do baú. Kajinga, bem eqúpada actual localização do ngola a kiluanje no rio lVamba, uma nítida interpo-
com a forte magia que ela própria possúa, conseguiu escapaÍ-se da caixa e lação que vai muito para além da linha principal da narrativa, como a paÍ-
assassinou Katumbi ka Ngola a Nzenza. Cortou o corpo em pedaços e fez, üda de Kajinga do seu "lar ancestral". Estes episódios não têm qualquer
com a pele dele, uma corda, um tambor, uma marimba, e uma corda de arco, imFortância do ponto de vista histórico.
o que lhe permitiu controlar os poderes mágicos do seu inimigo.. O episódio seguinte, porrrenorizando o encontro de Kajinga com
Kajinga ka Mbulu retomou, então, a fuga dos Portugueses que conti- Katumbi ka Ngola aNzerz4 inclui os primeiros dados históricos na nar-
nuavam a perseguiJa. Para evitar que os seus inimigos os pudessem cap- rativa, umavez que serve para explicar alguns sÍmbolos de autoridade pos-
furar, o seu feiticeiro, Muta a Kalombo,ã caus4va inundações em cada rio suídos por reis Mbondo subsequentes, particularrrente um tanboç uma
dèpois de eles o atavessarem. Por fi.m, ela apaixongu-se por um homem corda fina, e uma corda de arco, que se dizia serem feitos de pele humana,
chamado Kima a Pata. Eles casarÍÌm, mas o casÍÌmento não gerou filhos, até assim como uma marimba. A imagem de um rei em dificuldades para
que, depois de alguns anos, Kajinga consultou um adiviúo aceÍcada sua atravessar um rio é um lugar-comum que aparece frequentemente em
esterilidade. Ele afibúu o problema a qualquer transgressão, não especifi- episódios das narrativas Mbundu paÍa explicar uma inovação na estrutua
cada" comeúda duranüe a fuga dos Portugueses, quando ela afiavessara o rio poÍtica ou social. O rio representa um obstáculo que o governante deve
Kazanga sem permissão.21 O adivinho aconselhou Kajinga a expiar a sua superaÍ pela introdugão de algumas mudanças drásticas nos rituais e sím-
bolos relacionados eom a sua posição. Neste caso, o Kwanza constitui uma
Testemuúo de Fernando Comba, reproduzido em Salazar (n.d.), tr: 1210-1.
Um anacronismo: a capital administrativa portuguesa no litoral é mais tardia.
metáfora efrcaz pan dificuldades históricas específicas não registadas na
Um anacronismo: os Mbundu actualmente usam este termo paÍa designar todos os estados dos tradição, uma vez que todos os Mbundu estavam familiarizados com os
Ovimbundu no planalto de Benguela. Neúum estado do MbaiÌundo exiitia na época em que estes
acontecimentos alegadamente ocoÍreram.
obstácúos da travessia deste largo curso de água.

O significado de l<alombo emY;tmbundu é "esterilidade"; Assis Jr. (n.d.), p. 87.

O nome "Kazanga" permite eom quase toda a certeza datar e localizar esta narrativa, pois era um Provavelmente o "Guri", um pequeno cuÍso de água próximo da embocadura do rio Luhando; ver
nome arcaico dado às terras planálticas a sul do Libolo, mais tarde conhecidas como Mbailundo; mapa VI. No mapa de Anton E. Lux (18E0) aparece como "vila". Cf. Petermanns Geographische
A.V.Rodrigues.(1968), p.183, indirectâÍnente sugere que o nome provavelmente é anterioÍ ao Mittheilungen, II (1856), Tafel 17.
movimcnto do tÍtulo kiteke l<ya bengela para a Kibala, nò século dezasseis (?). Palavra não identificada.
100 NOVAS IDEIAS VINDAS DO SUL
EXPANSÃo Do LIBoLo 101
A alegada locúzaÇão de Katumbi ka Ngola a Nzenza'no baixo
o restante deste episódio consiste numa série de imagens que é
Kwanza, próximo de l-uFnda, deriva de dois tipos de factores, alguns lulgar encon-
tarmos nos episódios das narraüvas Mbundü. o lugar-comum que descreve o
históricos e outros nãehi[tóricos. o cenário, estereotipado e não.históri-
uso de poderes mágicos para aumentaÍ o caudal do rio e assim impedir o
co, da paÍte inicial da nafrativa, localizado em Luanda, obriga o histori-
avanço dos. inimigos perseguidores aparece, frequentemente, noutras
ador Mbondo a levar Kqiinga a atravessar aquele rio a fim de a colocar nas
tadições; tais palawas mágicas constiúúam uma capacidade essencial atibuí-
regiões a sul, onde se deüerá passar o resto da história. De certo modo, a
da a alguns reis e estavam esfteitamente associadas às técnicas de fazer chover.
fravessia do Kwanza por Kajinga não é rnais do que um artifício ficcional
utilizado para relacionar duas partes diferentes do enredo-do historiador Q aparecimento de Muta a Kalombo neste ponto dà nanativa explica como
Kajinga teria conseguido escapar do exército pornrguês que lhe seguia no
, fiadicional, uma localização determinada mais pela lógiqa da narrativa do
encalço, um feito considerado (pelo menos neste último século, ente os
que pelo facto histórico. Na realidade, contudo, provavelmente Katumbi
Mbondo) muito difícil de conseguir, senão impossível.
ka Ngola a Nzenza vivia de facto imediatamente a sul do Kwanza, pois
Kima a Pata,s o "marido" de Kajinga na narrativa, era um únrlo que per-
fontes documentais localibam um dito "Jaga" Nzenza a Ngombe no Libo-
tencia ao grupo linhageiro Swela, o qual habita, nos nossos dias, ambas as
lo numa ópoca tão tardia como o início do século dezassetã.* os símbolos
margens do rio Kwanza acima da sua confluência com o Lúando. Esta área
de autoridade mencionados neste ponto da narrativa, o cordão, o tambor,
a de origem, no limite da província cental do antigo Libolo, o Hako, coincide
corda de arco, e a marimba, foram associados aos reis "Jaga" por toda a
parte em Angola. A presença do nome Nzenza em ambos os títulos e a
ç66 4loçalização do rio Kori, mencionado na narrativ4 no sentido de identi-
ficar o kima como uma posição do Libolo. Os Mbondo modemos citam os
coincidência dos símbolos "Jaga" relacionam, com probabilidade, o
Swela apenas como convenientes substitutos dos Libolo, os verdadeiros
Katumbi ka Ngola a Nzenza desà tradiçao com o Nzenia a Ngomue aos
criadorés do útuIo, uma vez que eles esqueceram a antiga filiação daquela
documentos. o episódio de Katumbi ka Ngola a Nzenza repreõnta o pri-
posição e invocam osswela porque estas são as únicas linhagens actuais dos
meiro elemento histórico na viagem imaginária de Kajinga ka Mbulu e
Mbundu com útulos cuja ancesúalidade remete para o sul, ou seja, para o
explica a razão de ser das insígnias de poder do Libolo, adquiridos pelo
"Bailundo". De facto, os swela adquiúam os seus actuais títulos ovimbundu
ndala kisun muito antes da elúoração dãs tradições actuais.ri
apenas no século dezoito; múto tempo depois dos acontecimentos descritos
- o historiador Mbondo introduziu Muta a Kalombo na narrativa da
nesta tradição. A referência a Kima a Pata, portanto, vem de um período múto
viagem de Kajinga ka Mbulu porque o título que lhe serviu de protótipo,
mais remoto, em que os swela tinham útulos Libolo, e assim reitera a cone-
\tuta a kalombo, teve a sua origem num título vunga do Libolà a quem xão de Kajinga com o Libolo mesmo se os modernos historiadores tadi-
foi confiado o controlo de certos poderes sobrenaturais. Dignitiírios
cionais Mbondo já não recoúecem o verdadeiro significado do título.
nomeados, portadores deste ítulo, actuam hoje em dia como ' O "casamento" entre Kajinga e Kima a paÍa, descrito no episódio
"onúlh.iro,
e especialistas do sobrenatural nas cortes do principais tifulaÍes Mbondo.i, seguinte, é uma imaginativa descrição da união do úhrlo kima a pata com as
Bispo p. simão'Mascareúas a el-!.ei,2 Mar. r624;Brásio (1952-71), vII: linhagens representadas pela figura de Kajinga. A imagem de um "casamen-
199-203. Ver também
Elias Alexandre da Silva conea (1937), I: zls, Jlôã"õ*rà, Feo cúdoso á"
cãaio sï;* to" está em concordância com o generalizado modelo de emparelhamentos
Tones (1825), p. 164. "
Foi a- localização doep.isódio a sul do Kwanza que levou o historiador tírulo-linhagem, nas genealogias perpétuas. Metaforicamente, representa a
tradicional Mbondo a incluir
de Kakxmbi ka Ngora a Nzenza nesta narrariva. A narrativa fome"" um bo,n incorporação de um rítulo Libolo por pârte dos gmpos de filiação Mbondo
1l\slona do
T9d_9:o.qor ybondo.reorganizaÍam fragmentos muito mais antigos de tradições para"*"Àoià
or fã1"r".
a€equÍu-se â estrutura do novo musendo, desenvolvido no séculoãezassete.
Üma^viaeem hctÍcia
residentes no Lambo.
d-a fundadora simbólica segundo as novas radições, tiijmÁ"
lã úïüì"ilïï.r'iã'"ïilriìà
roÍÌna aventÌfosa atÌavés de todas as regiõe-s-onde se originaram as formas mais a. Estes acontecimentos provavelmente tiveram lugar entre os Mbondo, e
antigas de auìori_
dade Mbondo; poÍrÍrnto, reva:a parâ suúo Kwanzi, p.iãiiuoro. Devido não algures mais para sul, uma vez que sÍmbolos e ideias políticas como o
ao ra"to'ã" u Ãtrurura
oasrca oa naraüva ser uma viagem que_ se presume (falsamente) que
teve o seu início em Luanda kimnviajavanmais facilmente, por difusão, do que as linhagens se poderiam
e g-seu terrno emLambo'-é a.geógrafiu 1. nâ. úrnu i"que-*ìããL acontecimentos
reais) ò que deter-
Tl1 1-o.o"n' pera quar ela. KaJlnga é apresentâda obtendo os símbolos em causa. De ácorào com a deslocm, por migração. O útulo de kima a pata unda sobrevive nos Mbondo
q::gitllf-"ljl9m.plo, necessariamente teria atingido Katumbi ka Ngola a Nzenza anies de
chegar ao rio Kuri. A narrativa, de facto, não fomece qüalquer b_ase para
aúii-ãìãi.
*'- '.--"'r-'-' pËã1""r
os diferentes símbtrlos e tÍrulos chegaÍam, na reataaaè, atË ao, rrlúó"àã.- :
Testemunho de Sousa carunga, r6Jun. 1969. chatelain (1g49), p. 11, riúa kib.inda. Análises linguísticas apresentadas em vários outros locais mostram que a raiz -lombo
Muta a Kalombo como unicamente pode ser associada com línguas umbundu, reforçando assim a hip'ótese das origens
um."demónio" na.mitorogiaïos Mb-undu, qú"r ;;';Ji;-éà;;;# d"^fË.*,ììlJá"ïïi-a" meridionais paÍa este título.
"
Manos.(i963), p. 337, ãisse queele era o,,deus da caça..
l.I:::,,"^',:T:-d:l::-:--"':jT*r.
A capacloaoe oe controlaÍ os nos era especialmente atribuída à clasìe dos " Kimaaparecenasgenealogiascomváriossobrenomes. Okinnêumaespéciedebabuínocstrcitâ-
caçadores profrssionais
mente associado a certas posições políticas.
IO2 NoVAS IDEIAS VINDAS DO SIJL ncnNsÃo Do LIBoLo 103

como resíduo do período do domÍnio do Libolo, quando portadores deste Os títulos de várias posições na corte dos Mbondo confirmam esta
Itulo, provavelmente subordinados aos ndala, viviam na área de Kabatukila. interpretação da úadição, uma vez que mostram claras afinidades lin"
A esterilidade de Kajinga represent& metaforicamente, o facto de os Mbundu güísticas com títulos conhecidos, noutros locais, apenas a sul do Kwanza.
considerarem as mais antigas insígnias de autoridade como sendo, de alguma Nas capitais da maioria dos outros reis Mbundu, as posições equivalentes
form4 inadequadas para assegurar a sua prosperidade. As circunstâncias àquelas utilizam nomes diferentes. Os três títulos mais importantes na
históricas poderão üer envolvido quase todo o tipo de infortúnios: doenças, corte dos Mbondo, todos eles nuvunga, usÍÌm os nomes de balanga
falta de chuvas, ou a incapacidade de reunir forças armadas suficientes para (ou palanga), kasanje e kituxi.3s Pelo menos desde o século dezasseis, os
repelir algum invasoç mas a tadição, como é típico, não fomece quaisquer dignitários dos Mbundu setentrionais que desempenham as mesmas
pistas sobre a natureza das dificuldades históricas. A incapacidade de Kajinga funções têm sido chamados tandala, ngola a mbole e muzumbo.%
para gerar filhos indica, portanto, que as linhagens lvt-bondo deram as Dos termos unicamente Mbondo, balanga com certeza vem directamente
boas-vindas ao novo sistema político tazido pelo ndaln e pelo kima a pata. de fontes na região do planalto de Be4guela; o termo não existe em
t
Esta ideia confrasta com ouEos episódios nesta úadição nouúas narrativas, Kimbundu mas no Umbundu moderno refere-se a um dignitário da corte
nos quais se explica a intodução'de novos sÍmbolos políticos em úermos de com os mesmos deveres que essa posição tem nos Mbondo.3t
conflito, o que sugere a necessidade de explicar porque ó que os Mbondo não Apesar da grande confusão, nas fontes europeias, sobre o significado
resistiram à imposição do domínio do Libolo. Nenhuns dados, por mim do termo kasanje (que aparece como o nome do mais tardio reino Imban-
coúecidos, permitem resolver este quebra-cabeças. gala na Baixa de Cassanje, como o título dos seus reis, e como o nome das
A imagem de um acto mágico especial que envolve ofertas aos espíri- regiões por onde.se estendia o seu domínio), é evidente que teve a sua
tos da água s alude, metaforicamente, aos poderes sobrenaturais que os origem num cargo de nomeação vunga, algures a sul do Kwanza,
Mbondo atribuíam aos seus reis vunga. Eles viam estes poderes como cru- provavelmente nos reinos do kulembe ou do Libolo. Por toda a região de
ciais para a prosperidade dos Mbondo e de grande ajuda na difusão dos língua Umbundu, os reis nomeavam dignitários vunga com este título, ao
símbolos de autoridade do Libolo enfe as linhagens vizinhas. A união do passo que os Mbundu e os seus vizinhos do norte, aparentemente, não têm
kima com as linhagens Mbondo provou ser "fértil", na medida em que tal termo. O reino dos Ovimbundu do Wambu incluía um "subchefe"
levou à criação de pelo menos cinco (mas provavelmente mais) títulos chamado kasanje,n O título apaÍeceu de novo na margem sul do Kwanza
subordinados, os 'tfilhos" nomeados na narrativa. Estas novas posições, quando os Portugueses enconffaram um chefe coúecido por Kasanje
quase de cetteza, usÍtram outrora "Kima" como sobrenome para indicar as ka Yela, próximo da Baía de Quicombo, durante a década de 1640;
fontes da sua legitimidade, no Libolo; mas o posterior declínio dos reis a região era por essa altura habitada por falantes de Umbundu.e
hango permitiu aos Mbondo modificar os sobrenomes a fim de indicar uma O Ítulo, habitualmente escrito como Mbola na Kasaxe, o nobre do Libolo
associação mais autónoma com Kajinga. De uma forma similar às óbvias que ocupava as ilhas do alto Kwanza, deve ter sido mbole na l<asanie antss
mudanças de sobrenome sofridas por alguns dos títulos lunga dos Yongo, de ter sido distorcido pela língua portuguesa dos doiumentos, por
esta táctica fornecia uma fonte de legitimidade local, embora falsificada; uma transcrição pouco rigorosa.{ O termo l<asanje sigtttficava, origina-
para titulÍÌres que tinham perdido o seu protector esüangeiro. Se bem que riamente, qualquer tipo de guardião, estando implícito que este dignitário
estas posições possam em tempos ter sido importantes elementos na estru-
tura do estado do Libolo, tornaram-se obsoletas quando os Mbondo con- 35
Testemunhos de Sousa Calunga, 16 Jun. 1969: Kasanje ka Nzaje; Kasanje ka Nzaje' Kitubiko, e
Nzaje. Ver também Salazar (n.d.), tr: 102.
seguiram ver-se livres do domínio dos hango, e sobreviveram até ao pre- 3ó
Para tandala è ngola a mbole, ver Rodrigues (1936).
sente com funções muitíssimo diminuídas. A narrativa da deslocação de 3?
Alves (1951), II: lM5.
Kajinga de Luanda para os Mbondo, interpretada de acordo com as regÍas
t8
Gladwyn Munay Childs (1964), p. 37ó. A referência deveria ser a de um digniúrio-de gomeagão'
não uní "subcheie" propriàmente ãito, e representaria um título de origem pré-Ovimbundu, em vez
que regem as tradições orais dos Mbundu, apontam assim repetidamente de ser uma prova dà pãssagem posterior dos Imbangala, como Childs sugere.
para o sul, ou seja o Libolo, como a fonte dos mais antigos títulos políticos Carta de António Teixeira de Mendonça, 14 Set. 1645 (A.H'U', Angola, cx. 3' cap. 8)'
o terÍno mbole no contexto de um título político de um dignitário Mbundu, o ngop a rybole.
Mbondo conhecidos. vìviam em redor de Mbola na Kasaxe falavam Kimbundu e teriam utilizado este
Os Songo que ^paÍece
termo pía ê..e cargo. o nome kasanje veio de falantds de umbundu, através do domínio do Libo-
lo na règião. Porquã o rermo I asanje-náo signihcava nada em Kimbundu (de facto, tinha um senti-
" Mulungu'l A tÍsdição não os identifica, mas novos governantes do sul teriam, logicamente, do pejoiativo), esìe chefe adquiriu-um títulõ duplo que. incorporâva um elemento de cada uma das
rculirsdo ccrimónios propiciatórias aos espíritos dos antigos Pende, senhores da terra. línluãs. Assim ele tornou-se ingola a\ mbole (em Kimbundu) e (na) kasanie (em Umbundu)'
I
f 104 NOVAS IDEIAS VINDAS DO SI,JL
EXPANSAO DO LIBOLO 105
I não tlnha quaisquer poperes autónomos limitando-se unicamente a
admi- políticas. Finalmente, o próprio título ndala kisua pode apoiar a hipótese
I nisfrar as forças inerentes a objectos pertencentes a outos. os Imbangala
afravés da evidência linguística que nos oferece. Uma vez que a palavra
I ainda usavam a pal4vra com este signiÍicado no século dezanove, para
designar um adivinho,q o .lmsanje ka mbambo. o seu nome, traduiido
ndnlaidennfrca uma cobra venenosa, tanto em Kimbundu como em Umbun-

I literalmente, significava "o guardião do mbambo',, o cesto dos objectos


de
du, este termo não ajuda a estabelecer a origem do título, Mas a palavrakisua
fornece uma etimologia histórica em Umbundu, mas não em Kimbundu, o
I adiviúação.al A palalvra também aparecia em kasanje ka ngongo, que parece identificar o Libolo como o original suserano do estado dos
t designando o guardião do gongo em fórma de duplo sino pertencJnte
rei de Kasanje.a,
ao Mbondo. A forma kisua não aparece em neúuma das línguas modernas, mas
no século dezassete a palavra tiúa o seu reflexo na forma,tlsuba ou kisuva,6
) A palavra kituxi rrão aparece no Kimbundu padrão, mas a ruz -tusi que é comprovadamente uma palavra do Kimbundu ocidental, que significa
I em umbundu (equivalente a -tuxi em Kimbundu) significa um insulto
injúria no sentido muito específico de uma ofensa=que permite à parre
ou "aqúlo que sobra ou alguma coisa deixada para mais tards".r O título com-
pleto do rei Mbondo, ndala kisua, designaria portanto "o ndnla que sobrou"
) reclamar uma reparação através do tribunar do chefe.* o prefixo
lnjuriada ou"o ndala que ficou para depois", ou paÍa ffás,.enÍe os Mbundu do século
) kj- Kimbundu pode indicar a pessoa responsável pelo objecto à"notu-
do "^
dezassete que recordavam o declínio do Libolo.
pela raiz lexical que se segue ao prefixo.s O küuxi dos Mpondo,
) facto, escuta os casos trz\zidos perante os titulares nobres;, a raiz'umbundu
de Noufto local, o domínio dos Songo pelos reis hango estendeu-se apenas
para as linhagens setentrionais deste grupo, mas durou o tempo suficiente pam
) -tusi e o prefixo kirnbundu /çi- õombinam-se para indicar exactamente
esta deixar marcas que ainda distinguem estes jingundu, chamados Kirima, dos
função na forma "kimbundizada", kituxi. os Mbondo também têm
) um dig- seus parentes do sul, os Songo propriamente ditos. O subgrupo Kirima vive a
nitário chamado lumbo, um título igual ao de um títulp vunga do século
I dezassete trazido do Libolo ou do kulemàe.c Estes tírulos'úbondo
pos-
oeste do alto Lui e a norte do rio Lúando, até ao distante Kwije, grosso modo
dentro das fronteiras da extensão máxima do domínio do Libolo. O grupo
) suem traços característicos dos originus mavunga, pois são cargos
de maior, do sul, os Songo propriamente ditos, vive ao longo do rio Lúando e a
nomeação e os homens que os detêm servem apenas em conformidade
I com a vontade do seu rei.
leste do Kwango.4 A distinção entre Songo e Kirima tinha múto maior
signiÍicado no século dezassete do que as poucas e subtis diferenças dialectais
) Dois poÍmenores finais completam a sucessão de provas que rela- que hoje em dia se podem obpervar. As mais antigas referências dopumentais
) cionam o ndala kisua dos Mbondo com o antigo reino do iluoto.
os noures à região faziarr, de acordo com isso, a diferença ente as suas duas partes,
Mbondo são os únicos, enhE os seus viziúos Mbundu, que não podcm
t como "Baixa" ou "Pequena" Ganguella e "Alla" ou "Grande" Ganguella.a'
comer a came do boi. Uma vez que, e.m Angola, apenas os povos que
vivem O nome veio dos Mbundl ocidentais que usavirm o termo ngangela pua
) ao sul do Kwanza [açam esta espécie de ligação enme a
suu iobreru e o gado, desigrrar todos os povos que habitavam a leste do Ndongo e, embora o teÍïno,
a.exüensão de tal costume aos Mbondo aponta, uma vez
) mais, para o Libolo tal como os Mbundu o empregavam, não indicasse neúuma região geográfi-
e o kulembe (cuja "esposa", Mbumba ya Nyasi, tomava banhos de sol
ca específica, os Portugueses geralmente aplicavam-no apenas para distinguir
) sobre uma pele de boi, segundo foi dito) como o berço das suas
instituições as duas regiões "Ganguellas" dos Songo. A Pequena Ganguella ficava a
)
.r nort€ e correspondia à iárea Írctualmente habitada pelos Kirima; a Grande
Capello e Jvens ügg2). I: 3g4, e o deseúo em face. Os Imb,lgala
) gn{a ugam o termo paÍa Ganguella eram os Songo propriaÍnente ditos. Uma vez que os reis lwngo
designar um dos seus especialistas a"
A palawa kasanje tambéin aparece em referêniià
tJ"À"rr. a""npor"-ã" ü"t"r, oôït.rsos.
"aiuinhuçãol
a outraiãspecies ae!r*aìã"r. sãËil
õãsrl, tinham governado os Kirima do norte durante o século dezasseis, mas não
) mapa, observou com orecisão que.o exacto .igoit"uaõ ãa parawa ""
Ì<asanje era,'guardião,,; ere
traduziu.-a por. verwaÌter, uma'palavra i.a"- ,ãããà aio.oìï*g;.,or".,
tiúam conqústado os Songo do sul, foi provavelmente a herança da sobera-
responsáveis de propriedades, tutãrias de "úã-;ãilà tãão. Ë"a.
)
'n"nor"""i",
nia do übolo a responsável pela distinção feita não muito depois, no século
lar propriedades que pertencem a outros. "Á*"àïi-ï"i*,Ëï5"*"*
) '1 Salles Ferreira (1854-8). dezassete, enfre estes dois grupos de linhagens Songo.
a3' Alves (1951),

I
* Héli Chatelain tr:(1888-9),
1576.
pp. 120-1.
a5 Testemuúo de
Kasanje ka Nzaje; cf. Cavazzi (r96s),I: 192. se bem que os dicionários
modernos Balúasar Rebello de Aragão, "Rellação"; Brásio (1952-71), Yl 332-43: também em Luciano
torneçam pouca ajuda para localizar as origens de oútros tttutos Cordeiro (1881), Itr: 15. Os enos acumulados de escribas e editores levaram a palavra a apaÍecer
I nauonão oest" Ipã]"ì'"áË q"" :a
descrevemos demonstrm convincentemeãte a tigação a"r nesta fonte como "chicova".
úà"aïiãà'ïiïí"ìË1,Ë",irì,"i," o.
Kisua kva Njinie; sousa calunga, 16 Jun. e s ilï. iõãs;ì"kã;;
Nz.je, Kitubiko e Nzaie: tamÈm sarazar tn.o.l, n:-úi,^aa
K;-j; -k""ïï;":"ïiiú" r." Assis Jr. (s.d.), p. 143.
lwamba, e ndala a malíin_
nir,líü*i.riïìlsï,'à";tu^ui, Testemuúo de Sousa Calunga, 21 Ago. 1969.
: Por exemplo, Cavazzi (1965\, l: 214.
106 NovAs rDErAs vINDAs Do sut. os MBoNDo Dspors oo ppclhrto Do LIBoLo 107

Os Mbondo depois do declínio do Libolo



À medida que o ngolq a kiluanje se expandia para sudeste durante o L

século dezasseis, os Mbondo fïcavam isolados do Libolo, deixando pela Ec


-aF
primeira vez a provín cia do,tndalaliwe para se desenvolver de acordo com (ttX
condições políticas e'sociaip locais. -à
Oo
A história subsequente deste Estado ilustra como as linhagens tr€
Mbundu da região de Lambo, correspondendo em linhas gerais às terras tcr
altas do promontório que se projecta para nordeste na direcção da Baixa .HO
de Cassanje, se aproveitaram do relaxamento da autoridade do hango
Ë9"
.o
paÍa converter os mavunga originários do Libolo em títulos de liúagem >2
4O
hereditários, muito semelhantes às suas próprias posições perpétuas com ÂìË
os respectivos nomes. Uma vez que nenhuma liúagem, por si só, conse-
guiu reivindicar para si o título cenffal de ndala kisua; os grupos de
filiagão Mbondo acabaram por estabelecer uma forma de sucessão rotati-
va, na qual diferentes grupos de jingundu partilhavam, sucessivamente, o
exercício do poder.
Por razões já indicadas, a propósito da minha argumentação sobre as
origens no Libolo do título ndala, as genealogias que se referem à for-
mação do reino Mbondo contêm muitíssimas ambiguidades, mas algumas
passagens nas tradições parecem oferecqr a esperança de uma razoâvel
interpretação histórica. A maior parte das variações nos útulos resulta do
facto de eles terem sido em tempos mavunga e, portanto, não terem uma
posição "pai" capaz de fixá-los com segurança em relação aos outros títu-
los, nas genealogias perpétuas. Os termos que compõem a priúeira parte
Ési
i es,
dos nomes, que derivam da sua original importância como mavunga, \:o /
variam menos do que os sobrenomes e, de facto, revelam que dependem
de quatro posições identificáveis, as quais maÍcÍÌm quatro fases na história
remota dos Mbondo: Kajinga, Kikasa, Kima, e Kingwangwa. I
I
Kajinga representa, claramente, as linhagens locais e afirma-se numa
oposição implícita aos outros títulos na genealogia, sendo quase todos eles
I
I
3!
ct
títulos políticos, a maioria mavunga do Libolo. Os Mbondo reconheciam
várias subdivisões dentro do grando grupo dos jingundu que, alegada-
mente, descendiam de Kajinga: Ndala a Kajinga, Nyange a Kajinga,
I
:
I
="{z t,
À?
t
ËËg
Mupolo wa Kajinga, Mbamba a Kajinga, Zombo dya Kajinga, Kabari ka I
Kajinga, e sem dúvida ainda outros.s A localização das terras destes agru- T
./ ,r-ol

pamentos de linhagens, os quais representam provavelmente as mais anti I 9e


I
gas subdivisões de que há memória na região, é desconhecida, excepto no I
que diz respeito às de Kabari ka Kajinga e Zombo dya Kajinga que ocu-
pavam domínios a oeste e a leste do médio Lui, respectivamente.

'" Compure com us linhugens cujos nomes são apresentados como de descend€ntes de Kajinga ne
lrrdiçilo nurÍ&tivâ, p. 99.
I
t 108 NovAs rDErAs vrNDAs Do sut-
LrBoLo
I os-restantes parecem ter vivido nas-terras
os MBeNDo Dppots no oscLÍNro Do 109

I de Lambo. As conexões históricas ente


ser detectadas, uma vez que oqMbondo
altas algures nas proximidades
estes grupos também não podem
de Lambo. Eles governaram até à década de 1640, quando uma posição
lfilho't, o kingwangwa tqta kima, substituÍu o seu "progenitor" como títu-
D não têírJJ;;;ãü;ì"r."n_ lo dominante entre os Mbondo, conjuntamente com 4 ascensão do novo
t tar coerenre e articulada, ãomo no caso
pos de uma descendência directa de
dos Songo;
"
uËilã;?rr",
Kajinga;r;""à;:-r;ãju-àu,
g*- reino de Kasanje que, por essa altura, estava em forrnação na Baixa.u
I boa dose de compressão das genealogias.
u_u A conversão do ndala kisuct que, de um vunga nomeado por um
hango, passou para um título sob controlo de um número reduzido de li-
I A segunda fase da evorução politi.u dos Mbondo
genealogias descrevem como um
veio com o que as nhagens centrais dos Mbondo, permitiu o reaparecimento, entre os Mbon-
I "casamento" entre
Kikasa, cujo títuro parece ter estado associado
Kajinga úkuru.rt
a títulos de" linhagem
do, da velha tendência dos Mbundu para a fragmentação política, Algumas

I apelidados mwinga ou Kyango a Mbaxi


um antigo rei lunga dos.p.ende,
a Kitata kya Mukombi,ìera sido
das liúagens Mbondo mais a leste, conhecidas como Zombo dya Kajin-
ga, ïrzeram a secessão com a autoridade do ndala kisua durante o perÍodo
I de Lambo' o "casamento" entreTl-"-.
du expansão do Libolo para a região
Kikasa e ifujinga rep*"niu'uÃ|eriooo
no qual o reino Mbondo estava iilorescente, independente da influência do
I remoto, em que os portadores do títuro kikasa-
entre as linhagens naquela ârea, e não
detirúr"i" agr-"l"iuência
Libolo. Na região de Yongo, entre o Lui e o Kwango, eles estruturaÍam
uma rede de títulos de linhagens, distinta e bastante extensa. Mais uma
) "casamento" ente Kajinga e Kima pata.
afecta o significaão do
fosterior vez, as genealogias mostram esta evolução como um "casamento", desta
I a
De facto, Kima é o que apárece logo a seguir,
na maior parte das ge_
feita entre as linhagens de Zombo dya Kajinga e o antigo rei lunga dos
I n9a]osias Mbondo e prenuncia o adveú
da soberania do Libolo. Ele usa
vários sobrenomes diferentes, uma variabilidade
Pende naquela região, Kayongo ka Kupapa. É evidente que portadores de
títulos de linhagem derivados de Zombo dya Kajinga subjugaram os reis
I origem provável do útulo no Libolo, como
que erd O" pr.uãr, OuOu u
kima i pata.iO tìtúo vunga do
lunga, já, que o Ítulo de Kayongo ka Kupapa entrou em declínio e os títu-
I ndala não aparece' de maneira nenhuma,
nas genealogias tvtuonaoïas,
em seu lugar, o kima a pataperman".".orno-,'ir;;;;il;';";tolo
los derivados de Zombo dya Kajinga ramificaram-se, através de Ndungu
yaZombo, na geração seguinte, para cinco ou seis posições nd nível que
) Libolo' o kima poderia ter àdquirido .ro p"riião pelo imediatamente lhe sucedeu. Kilamba kya Ndungu tornou-sç o mais impor-
I . tivessedecaído para o estatuto dè umu posição ünhageira
ilË.;Ëir, ,uro tante dentre estes, nos finais do século dezasseis, de tal forma que, cefca
hereditária quan_ de 1600, toda a Baixa de Cassanje era conhecida como o kina (depressão,
) do os Mbondo se liúaram do domínio áo
Libolõ; n"r.u uft*u, u, fi cova) lqta kilamba. As linhagens de Zombo dya Kajinga nunca perderam
úagens detentoras do kima terão fornecido os
I posição do ndala kisua, aparentemente
arravés oa
.atur"i,-i"r-'p*u u completamente o contacto com o reino Mbondo original, nas terras altaç,
i"ita oL u,n como é indicado pelas genealogias, através de um certo número de "casa-
) determinado número de grupos de filiação
Mbondo "ìe4ao
que, em ."";;";;:
escolhiam os Íepresentanres paÍa o títuio mentos" entre os antigos mavunga do Libolo (tais como Kikululu kya
ì asserção vem da idenúficação quase
cenraJi ü;; iã.à Hango e mesmo o kima a pata) e as linhagens Mbondo de além-Lui.
unânime do kima.como um ,,fiIho,, "r,u
ì quer de Kajinga ka Mbulu quer, dependendo O desenvolvimento desse estado Mbondo subsidiário, o de Kilamba
aa variante ,-ío-íiür'o; e
kya Ndungu, apresentou a maioria das características clássicas da for-
I dente que os historiadores fradicionais Mbundu "u,
vacilam entre as duas mais mação do Estado entre os Mbundu. Fez uso da habitual rede Mbundü de
antigas figuras como progenitores do vunga
ì conhecimenro das suas verdadeiras
Kima, por rata o" Lmo. títulos perpétuos, em vez de desenvolver o potencial dos mavunga segun-
u ui":qu. i naou-it xuol
ì nunca- ".ig*rlú,o
ficou na posse de uma única iiohug"rn, nao pode up*à ou,
do o modelo do Libolo. Absorveu tambéú títulos mais antigos presentes
genealogias de nomes permanentes na região, neste caso os reis lunga dos Pende, dando às posições antigas
ì ocasionarmente, como uma
interpolação. Os titulares do kima a "*."ptJ novos apelidos que indicavam a sua incorporação no novo estado. Foi
ì pata,'"p*""*."*;;;* ;",*" desta forma, por exemplo, que o sacerdote lungaMahaxi na pakasa, um
linhalem nãô identificada, gozavam a"
uuiãg"ns estratégicas através da
ì ocupação deum tocal chamado Kabatukita, dos antigos títulos próximos das salinas do Luhanda, se tornou Mahaxi n
onã" uru
fornece o único acesso à Baixa o" ";;"i;;;*h"r" Múongi, a partir de Mahongi a Ndungu yaZombo dya Kajinga, um dos
) cu*anj" a partir das terras altas a sul
títulos "iÍmãs" de Kilamba a Ndungu. Se a incorporação de Múaxi indi-
I t Testemuúo de Kingwangwa kya Mbaxi. 53 Testemunhos d-o.grupo-Mbondo;
'lêstemuúo Alexandre Vaz, 30 JuÌ. 1969; Kimbwetc; Kingwnngwa kya
'r de Kisua kya Njinje, Kambo ka Kikasa,
) Sousa Calunga. !t!qra;^S,gsa Calunga, 22 Jut.,29 e 30 Set.. 1969; Múaxi; Kabari ka Kajingn; Apìrlo .tã Mnr,ir,
8 Jul. I969.

)
110 NOVAS IDEIAS VINDAS DO SUL os MBoNDo DEpoIs oo oecI.hüo Do LIBoLo tll
e se moveu para o vale do rio Kambo, a norte da capital Mbondo. O perÍo'
do em que o reino do ngol.a a kiluanie esteve dominado pelas liúagens de
Jinga a Ngola e Mbande a Ngola (década de 1570 década de 16?0?) -
reduziu o estado Mbondo às suas linhagens nucleares, acima da escaÍpa
próxima de Lambo.s
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Mepr, Vtr. Expansão do reino Mbondo do ndala kisua


e estados subsidiários (c. século dezasseis?)

cou um movimento em direcção às salinas, o reino de Kilamba a Ndungu


também correspondeu ao modelo já comprovado, de estados que tendiam
,a concentrar-se próximo de recursos económicos valiosos.
A história do original estado Mbondo do ndala kisua apresenta carac-
terísticas bastantes diversas das dos outros antigos reinos Mbundu aqui
considerados. Ao contrário das origens essencialmente locais dos estados
baseados no ngola e no lunga, ele foi gerado pela implantação de um ítu-
lo vunga vindo de fora, omanando do sul do Kwanza. Sobreviveu ao
declínio do seu patrono original, os reis hango do Libolo, mas apenas pÍua
se tornaÍ um ítulo local reivindicado pelas liúagens Pende da região de
Lambo. Aí, ele prosperou num período em que outros dçtentores de ítu-
los do Libolo recuavam perante o avanço do ngola a kiluanje ou, como na
região Leng-e, se tornavaÍn parcelas subordinadas do reino do ngola.
A localização do ndala kisua, eminacessíveis picos montaúosos ao longo
da escarpa que bordeja a Baixa de Cassanje, deve ter fornecido a estes reis
uma posição defensiva inexpugnável mesmo para os exércitos do ngola a
kiluanje. À medida que o estado Mbondo se expandia, afastava-se do
grande reino Mbundu ocidental e, talvez por mera coincidência, aproxi-
mava-se das salinas que tinham desempeúado um papel tão proeminente
na história política e económica mais remota da Baixa de Cassanje.
Ele soÍïeu os seus primeiros reveses quando o ngola a kiluanje se e O trabalho de Karl Hiifer sobre esta região, referido na edigão inglesa, nunca foi terminado, devl'
cxpandiu para sul do ndala kisua, em direcção ao curso superior do rio Lui do ao falecimento do seu autor. (N.T.)
I
t
t pRÌMóRDros pn msrónn polfncn soNco 113

D Pende tiúam coúecido vários estados baseados no runga, o Libolo uma


CAPÍTI.JLO V dinastia de reis hango, os Lenge um obscuro estado baseado no tera e os
) Mbondo o seu ndala kisua. A razáo para a anómara história política dos
I O Problema da Formação do Estado songo deriva, em parte, do facto de os seus grupos de filiação, caso único
I entre as Linhagens Sêgmentares, entre os Mbundu, pertencerem ao sistema em expansão daJünhagens seg-i
rnentares que, pelo século dezasseis, ia desde o Kwanza, onde os songo
I a Leste dos Mbúndu
formavam o seu limite oeste, até pelo menos aos Lunda setentrionais do
t Katanga, a leste. obviamente, apenas podemos imaginar até que ponto os

I A ausência
de reinos grandes e estáveis é a característica mais
saliente da história política dãs áreas a leste
Songo do século dezasseis ainda se assemelhavam ao tipo ideat ãe estru-
tura social segmentar, na qual os laços genealógicos gerados pela cisão das
oo, rraúunau. È,n
) com as regiões a oeste, onde a história política dos
Mbundu está "-onour,"
liúagens coincidiam com a distribuição espacial dos grupos de filiação.
marcada Porém, a falta de notoriedade das estruturas políticas na ârea sugere que,
) por vastos e duradouros estados, o mesmo
sucedendo com a dos ovi-
mbundu a sul e a doì Konso,a-lorte, até ali, pouco tiúa perturbado o ffanquilo funcionamento de um sistema
) tinham emergido cerca de- 1600 mas ""q""r"
rããii"ãi,ãï'ffir"iro, descentralizado que podia ainda, de forma eficiente, repartir recursos
n"iúu* tinha crescido muito e a
) maioria deles tinha-se desintegrado pouco tempo
depois da sua fundaÇão.r
escassos (principalmente a terra) e mobilizar para a defesa um número
uma história como essa, de estruturas polítiôas suficiente de homens.
) . ã"-pàqo"nu uma genealogia segmentar abrangente articulava as relações enffe os
liúagens"r?..ru,
escala, explica porque é que as modernas
songo cot'i" a"te.
) numerosos útulos antigos,rnas não concedem-a " jingundu dos Songo e, também, entre os Songo e os Cokwellwena e
neúuãr oetes o grau de
) centralização ou extensão geográÍica comparável Lunda. No seu topo, encontrava-se o nome de Mbumba a Mbulu, uma
ao do mani Koïgo no
Kongo, ae do ngola a kiluanje ent e os Mbundu, figura simbóüca largamente coúecida na África central ocidental, mas de
) ou ao katìmu, n"ir*ur-
to de Benguela. o tema principal deste capítulo significado histórico incerto. As três principais subdivisões na genealogia
será a in"ufulìãua"
) generalizada dos detentores de títulos
em unir estas li,úagen, p*u formar
aparecem na sua primeira geração de descendência, em que Tembo a
estados viáveis. A linha principar da narativa Mbumba surge como a antepassada das linhagens dos songo e cokwe,
) u"o,,'punrrïu, ã;;;*."p_
ções que confirmam aÍegr*,o estado Lunda do mwita yamvono T[mba a Mbumba como a fundadora de um antigo conjunto de títulos
) rà,uogu políticos cokwe, e Ngamba a Mbumba como o progenitor dos mais anti-
e as hordas de gente rideradas por detentores ,
dum títutó chamado H"g;7;,
) que começafam a sua história na Lunda mas gos títulos recordados no coração das tenas Lunda, próximo do rio
acabaram por atacar violen_
tamçnte a própria existência das linhagens Mbunáu, Kalanyi no Katanga.3
) próximo das Na parte songo desta genealogia coordenada, os nomes referem-se
nascentes do Kwango..por ,oda a parte, excãpto
nestes dois cãsos, a escala
) política pouco se ampliou no períòdo anterior quase exclusivamente a relações entre grupos de filiação, mas mesmo as
a 1600.
) versões incompletas das genealogias que eu registei de Imbangala de
Os primórdios da história política dos Songo ascendência Songo sugerem, indirectamente, a presença de um cónjunto
)
subgrupos etnolingústicú de nomes extra-linhageiros, que se diz serem homens que "casaram" com
.^^^l:r:$/os
como os únicos que não tiveram
dos Mbundu, os Songo des_
Tembo a Mbumba, a mulher ancestral fundadora das linhagens. De acor-
I
'ucÍÌm-se qualquer reino forte.2 cãrca oe
1550, aproximadamente, oi Ndongo tintramïoo do com a característica linguagem das genealogias perpéruas dos Mbundu,
I o seu ngora a krfuìnie, os
os "maridos" de Tembo a Mbumba representam as autoridades políticas
I
ffi::T.:]j:ry1".1::]ageneraIização,ochamadoimpérioLunda.provavelmentenão
emeÍsru como um estado foÍemente.õentrarizado
ant"s ã"ffi'àã;ffiá"ilïs'"",;,";;'.';;"
altura, a centralizacão efecriva estenaiu-r"
u un,u ãJá'ãu-,ï*ro"nt. pe{luena, de modo
algum a""r.,
tota-
' T.d;;t*,"munhos Imbangala.9g9 se referem ao período etiorógico da história Mbundu são
lidade da região hãbitualmente mosnata nos concordantes-. Mesquitela Lima (1971), p. 43, apresenta_um NgãmbeNgõmú a
Àãpã-ià.ãï 91n,69 r-unda,,. sem qu.r"-. õuüçri ào
as conclusões deste caDíturo, a."o úr"iqu"'u',ãnïï'ãÀr" -r""ip-
apora as daras sugeridas em verìur
genealogia dos Lunda. Tembo e_ Tumba aparecà em diversas"tradúõd-õ;i"; áã sécul<r
, Í?13Ì,n^9r"]:!ï.";.*.re""úãã-",tããã
A rurona oos songo é a menos.coúecida.detodas
ã;'ï,,;,;';;,".compreraÍnenre rormado. dezanove' por vezes "caiqdo dos céus".como os arquétipos dos seres rtomàhãr no uniuirücoti*ll
::^9.:rlf os Cokwe reivindicam Tembõ coino uma antepassada da linhagim, cnqunn_
notas esparsas deixadas oor üajantes ao século
as dos Mbundu setentrionais. para além de
algumas to que-os B1o. 3u:
songo tenram distinguir-se a si próprios dos cokwe usanão Tembo e Turãba, vor Hcr-
lhães (t9a8)' p. 38. Esne'remosilue as recentes
ããanJvi ;ú.""-f;il J Ài;JËËi"iaËïË
rrr"g"- (le3s). pp._ 139-I40;.Foniecâ Cardoso (1919), pp. ra_io; É Ciüi,icÌrsìb:iij,
racunas do nosso coúecimento sobre
inuesãluçêã" ru Htir.;;;"ü;-Ëffi;r-irg**
impon"nt""Ëãiïü;r-il;;Ëõâ
TrT-B."9ll*"
p.p. //-E ( o_grupo [Cokwe] é formado dg clãs que recoúecem õomo sua antcpassa<ta n mulhói
".tu ffiffir'iï".,ï Tembo...'). crine-Mavar (r9i3), p.72, refere TtÀba, Tembo e samba u
funii àËiónien r"un,ra,
II4 oPROBLEMADAFORMAçÃODOESTADO INsrïTtrIçoEs cENTRALZADAs ENTRE os LLTNDA 115

que emergiram, de tempos a tempos, enüe vários segmentos dos iingundu centralizadas e conduzindo à emergpncia do mwata yamvo, nos finais do
Songo. Embora cada um dos nomes represente alguma forma de poder século dezassete. Ao longo deste percurso, algumas linhagens Lunda
político (uma lista não exaustiva inclui personagens como Kalulu ka opuseram-se a tais mudanças e acabaram por afastar-se do centro do esta-
Wambwa, Mukoso, Mwili, e Kunga dya Palangaa), os limitados dados de do Lunda. Nesse processo, elas difundiram um certo número de"títulos
que dispomos sobre a história dos Songo não permitem identificar a maio- políticos e símbolos de autoridade Lunda, os quais se tornaram posições
ria destes incipientes reis e, muito menos, determinar a sua exacta locali- cenfrais e símbolos de chefia da maioria dos reinos Mbundu depois de
zação ou colocá-los numa sequência cronológica conecta. meados do século dezassete.
Conrudo, parece claro que a maioria destes títulos tiveram origem Uma vez que estas conclusões derivam de uma análise da história dos
fora da região ocupada pelas linhagens segmentares e foram alterados à I unda que se afasta da interpretação convencional de algurnas fadições
medida que se incorporavam como posições titulares permanentes ligadas bastante bem coúecidas, desejo fazer preceder os meus próprios comen-
a linhagens, em certa medida tal como os Mbondo converteram os tários de uma revisão da informação anteriormente dispoúvel sobre os
nwvunga do Libolo. Os Songo modernos localizam as origens destas posi- períodos mais antigos da história política I unda. As radições orais publi-
ções políticas a sudoeste, onde as dinastias do kulembe e dos reis hango, cadas, sobre as mais antigas fases da formação do estado Lunda, provêm
documentadas por fontes independentes, fornecem antecedentes prováveis de uma ampla variedade de fontes - na sua rnaior parte Lunda, Cokwe, e
para autoridades políúcas deste tipo. Dos nomes registados, apenas o de Pende - e, portanto, dão-nos a oportunidade de fazq comparações entre
Kunga dya Palanga pgde ser provisoriamente identificado: o seu útulo elas, comparáções essas que permitem indicar os modos como o meio que
poOe Oatar do sécúlo dezasseis,-ou ainda antes, quando uma das principais rodeou a transmissão de cada fadição afectou o seu oonteúdo e estrutura.?
figuras no Mbailundo usava o título de "kungo".s Alguns destes títulos Contudo, elas têm sido interpretadas, geralmênte, sem uma adequada
ainda exisúam nos finais do século dezanove, quando os Songo relataram atenção às instituições políticas e sociais dos povos que as relatam.
a certos viajantes que um rei chamado Kunga dya Palanga detinha alguma Evoluções políticas relativamente recentes (ou seja, desde 1650) na
forma de autoridade sobre o povo que vivia a norte do rio Luhando e a Lunda, por exemplo, afectaram claramente a forma como os Lunda do
leste do rio Kwanza.6 Em geral, contudo, poucos dos antigos reis Songo século ã"r*ou" i do sécrrlo vinte rememoram acontecimentos muito
conseguiram venceÍ a resistência das liúagens e impor um poder político remotos que, ao que parece, ocorreram num contexto que diferia, em
centralizado. O grande número de títulos recordados como "maridos" de mútos aspectos, das condições políticas e sociais actuais.
Tembo a Mbumba e as discrepâncias das suas posições na genealogia Outras tradições, encontradas fora da região central dos Lunda, tais
sugerem que eles não exerceram por muito tempo um verdadeiro poder e como ÍÌs dos Imbangala (cujos reis sQ reclamam descendentes de prede-
não estenderam muito longe a sua influência. cessores que deixaram a Lunda antes das mudanças que, mais tarde, altbra-
ram o conteúdo'das narrativas Lunda), podern preservar uma perspectiva
Creìcimento de instituições centralizad.as entre os Lunda arcaica qqe já nãg se enconfra presente na terra natal dos Lunda. De modo
Para encontrar uma imposição de títulos políticos alienígenas sobre idêntico, as modernas estruturas sociais dos Cokwe assemelhatn-se mais
linhagens segmentares, similar à que ocorreu com Mbümba a Mbulu, às antigas instituições Lunda do que as actuais condições no povo mais
é necessário deixar os Mbundu e partir para longe, até aos Lunda setentri- próximo do rio Kalanyi; as tradições dos Cokwe podem, portanto, ser mais
onais do Katanga, onde tiveram início desenvolvimentos políticos que ricas de informação sobre as fases mais antigas da história Lunda do que
mais tarde afectaram os Songo e, finalmente, aúngiram todos os Mbundu.
Os primórdios da história Lunda devem ser analisados tendo como pano ' O r4elhor registo das tradigões dos Lunda setentrionais ainda é o relato de Henrique Augusto Dias
a" d*uufftoifSS0a), o maìs antigo que foi registado e o qle inclui mais pormenores sobre aconte-
de fundo as liúagens matrilineares fortemente segmbntares, e devem ser ãi-"otoiaã irúodô mais remotõ. úctor W.-Turner (1955) traduziu partes do texto deCarvalho
nra inslês. Àssemelha-se múto a um texto Cokwe (talvez contamiìado com interpolações {a
vistos como um movimento gradual, através de muitos estágios de !íiõa. ã" É"úque de Carvalho) reproduzido em Lima (1971), pp. 42-51 (?).-As extraordinárias
evolução política caracterizados por estruturas progressivamente mais ii-.iii-tìGr texto de Limá e õ de Henrique de Carvalho põdem, contudo, explicar-se pelo
""trio de Henrique de Carvalho ter vindo em grande parte.de chetes Lunda cuJos
facto de à informação
anteoassados tiúú. por muito iempo, vivido entre os Cokwe, e foram os descendentes desteg gue '
' Testemuúos de Alexandre Vaz, 30 e 31 Jul. 1969; Sousa Calungê, 29 e 30 Set. 1969; Domingos Vaz' ãuir"tutA" uofúrto á tont"t u ."rttã versão dessa hadição a Lima. Ver também os relatos de llon
' A.V. Roúigues (1968), p. 183. Palanga é também um título encontrado com muita frequência na O"vriõiitSi3), M. van den Byvang (1937), e Daniel Iiiebuyck (1957) para relaros mais tardios e
Árca Libolo/ÌvÍbailundo. menos completos. Crine-Mavar ( 1973) dá uma versão recente e relatrvamente tndependenle' a
pÍìÍ-
. Lux (1880), p.96. ú de fontes Lunda próximas da moderna corte real.
ì'l
116 LUNDA ll7
ì' opRoBLEMADAFoRMAçÃoDoEsrADo INSTITUIçÔES CENTRALTZADAS ENTRE OS

I, os relatos dos próprios Lunda. Pretendo reinterpretar a história antiga dos Vários úpos de provas sugerem que os antigos Lunda tinham
I Lunda incorporando na afiálise novas tradições, provavelmente mais anti- liúagens de tipo segmentar similares às dos modernos Songo. Os títulos
gas, que se encontram entre os Inlbangala, oferecendo algumas sugestões Lunda aparecem nâ secção das genealogias perpétuas encabeçada por
ì sobre o sistema social no qual teve lugar a evolução política dos Lunda, e Mbumba a Mbulu. uma vez que esta genealogia contém apenas nomes que
ì aplicando às tradições bein conhecidas as técnicas críticas desenvolvidas se referem a matrilinhagens, e/ou aos títulos políticos perpétuos associados

) no manejo das narrativas e genealogias dos Mbundu, analisadas nos capí- a estes grupos de filiação, o hábito de os Mbundu colocarem aí os Lunda
tulos anteriores. Esta abordagem parece justificar-se, uma vez que as nar- indica qUe eles tiveram oufrora matriliúagens organizadas, pelo menos
I rativas dos Lunda se enquadram, claramente, na estrutura das genealogias parcialmente, na base de oposição segmentar. Uma recente pesquisa entre
) e episódios narativos que se encontram naS tradições dos Mbundu' ãs Sala Mpasu, vizinhos setentrionais dos Lunda no Katanga, sugere que
Além do mais, uma vezique sabemos que os Lunda têm sucessão nas também eles em tempos tiveram matrilinhagens, embora hoje em dia as
I posições titulares e paÍentesco perpétuo, paÍece justificável lidar com as tenham abandonado, preferindo outros tipos de insútuições sociais.rs Algu-
) suas radições como se elas possússem características similares às dos mas das tradições dos cokwe pretendem dar uma descrição das condições
) Mbundu.s Mais concretamente, considero qut-todos os nomes nas de vida entre os antigos Lunda em teÍmos que mencionam, explicitamente,
a genealogias se referem a útulos perpétuos e que as partes narrativas das caracterísúcas essenciais de um sistema de üúagens segmentares: um
t radições podem separar-se umas das outras e descrevêm acontecimentos certo número de "chefes" (i.e., chefes de liúagem) relativamente indepen-
I históricos em termos metafóricos e não em termos literais. dentes, que ocupavam distintos pequenos territórios e que, em caso de
necessidáde, se uniam sob um único "chefe".l4 Portanto' a história política
I As tradições dão-nos todas as possíveis indicações de que os antigos
Lunda tinham instituições sociais muito semelhantes às matrilinhagens antiga dos Lunda processou-se tendo como pano de fundo linhagens e seg-
I segmentares actuais dos Songo e dos Cokwe.e Apesar de parecer que as mentos de liúagens que ocupavam uma área relativamente pequena junto
I instituições sociais dos Lunda setentrionais se modificaram muito mais em
séculos recentes do que aconteceu com as dos Mbundu,'o as práticas da
ao rio Kalanyi, cada uma delas vivendo no seu pequeno domínio (chama-
do mpat). O aspecto segmentar da estrutura liúageira teria restringido a
t sucessão nas posições titulares e do parentesco perpétuo vêm de um perío- formàção de instituições políticas fortemente cenEalizadas, em certa medi-
a do muito remoto da sua história.l' Fragmentos das genealogias perpétuas da tal como instituições similares impediram a ascensão de reis ente os
Songo. Por essa época, o "reino" Lunda, longe de se assemelhar a pos-
I dos Mbundu que datam do século catorze ou quinze, por exemplo, esten-
dem-se aos Lunda e, uma vez que estas genealogias incluem apenas títu- teriores estados da África Central ou às suas fases imperiais subsequentes,
I los de tipo permanente, a sucessão nas posições titulares e o parentesco era pouco mais do que um conjunto de aldeias baseadas nas linhagens.
I perpétuo devem ter existido na Lunda, naquela época. A vasta distribuição
àesias práticas, numa larga faixa que atraves'sa a África central mas tem
Um conjunto de posições titularrs perpétuas, chamadas tubungu (sin-
gular kabungz) fornecia a unidade subjacente às linhagens Lunda no
I como centro a área Lunda, também sugere que estas instituições devem ter katanyi. Além disso, um outro conjunto de títulos políticos parece ter exis-
e feito parte da vida dos T.unda há muito tempo atrás.l2 tido nos mais remotos tempos de que há memória.ls Não estão claros nem
t Frru.os7a'pp.65-6,feznotaresteaspectodastrapiçõesmasnãoresolveuoproblemadas
implicações desse facto paÍa o perÍodo antenor ao mwai4 yamvo (c, 17C0)-
o exacto relacionamento entre estas posições nem a sua origem, mas a com-
paração de genealogias referentes a este período (aproximadamente o sécu-
n e Uma surpreendente escâssez de dados etnográficos fiáveis impede o progresso da reconstrução da io quinze, mas impossível de datar tó) revela a existência de um único títu-
t história iocial dos Lunda pâÍa um tempo tão remoto. Os mais importantes materiais pubücados
sobre os Lunda aparecem em Femand Crine (1963), Crine-Mavar (1963, 1968, 1973), e Biebuyck
(1957). A informação sobre grupos com eles relacioriados e os limitados dados disponíveis nos oeste, através dos cokwe e dos Lunda setehtrionais, até aos povos do Luapula e aos Bembe, no
leste;.Cunnison (1956). Crine (1963), pp. 158' 162-3' assume.que o,paÍ-entesco p^erpétuo e a
f, ro
relatos dos viajantes permitem traçar algumas conclusões com bastante certeza.
Crine-Mavar por diversas vezes afirmou que os Lunda modemos são bilaterais sem linhagens iu""irao nú'porições íitulares sào muitôãntigos. Ver também Biebuyck (19_57),_p. 794, que con-
"lói
t fortes (1963, pp. 158, 165-6, e 1973, p. 69). Mas continua por esclarecer se todos os Lunda, ou
apenÍrs os detèntores de títulos políticos, são hoje "bilaterais" e em que contexto a descendência
i11fr;il;
tubungu).
a"rt. tipo ligam as mais aãtigas das sobreviventes posições Lunda (os chefes
13 Estou gÍâto.ao Professot Wiltiam Pruitt do Kalamazoo College por ter Senerosamente partilhado
n '!
bilateral vigora.
Esta interpretação discorda em particular da de Duysters (1958), p. 82, que afirma que os comigõ alguns dos resultados da sua pesquisa, não publicada, sobre este aspepto'
ro Lima confìrmá-lo (rvlJ,,'
parece çonlma-ru pp' uu-
(1973)' PP. 66-74
I-ima (tSZl), p. 43. 0
(1971), p.43. Crine-Mavar paÍece
trabalho de urrne-MavÍu
O recente trabalÌìo
rt personagens nai tradições Lunda eram pessoas e não títulos perpétuos. Uma vez que qualquer
Imbangala exprimiria a mesma opinião se lhe perguntassem dircctamente sobre a distinção entre '5 Tal como no caso dos Mbundu,
c^-^^ã^ r^ ÈstaOó.;a
o mais antigo período recordado da história dos Lunda capta o
t"i-ã^:6 a. *Ài^,1^-^'-i.x^
nomes e títuloi em Kasanje, Duysters pode ter chegado às suas erróneas conclusões através de uma pr*ãri;aliì"ã"çãíao úeio do"caìÌrinho. Nãn
Não fpmôs
temos a meis
mais neouena
pequena ideia dus
das fasos
n confiança acrítica nas observações doi seus informantes.
12 A sucessão nas posições titulares e o parentesco perpétuo encon[am-se hoje desde os Mbundu, no
iue terão ocorr.ido antes disso.

t '6 Miller (19721).

n
I 18 orRoBLEMA DA FoRMAÇÃoDoEsrADo rNsïTrurçÕEs CENTRALZADAS ENTRE OS LUNDA 119

lo senior, que os Lunda colocavam açima de várias posições coÍn ele rela- pela descendência patrilinear, nos útulos políücos. A tradição Pende, po3
cionadas mas subordinadas, Este conjunto de títulos políticos Lunda girava outro lado, ignora a tendência Lunda para encontrar a legitimidade polÍti-
em torno de um personagem chamado, conforme o caso, Kunda a Ngamba, ca aüavés da liúa masculina e é evidente que tenta descrever Kinguri e
Konde a Matita ou, às vezes, Yala Mwaku; em qualquer dos casos, a Lueji como sobriúos de Yala Mwaku e, portanto, como seus legítimoe
posição é retratada como o progenitor de outras posições como o kinguri, herdeiïos, de acordo com as suas próprias regras de descendência maüi-
kinyama, e lueji. A incerteza sobre o nome coÍïecto a atribut à posição linear. Colocando Konde Matita como o laço feminino entre Yala Mwaku
hierarquicamente superior indica, provavelmente, que o título üúa entra- e Kinguri, a tradição cumpre esse prcpósito.a Se podemos extrair alguma
do em declínio na época em que as tradições tomaram a sua forma actual, conclusão a partir destes dados tão díspares, então a forma yala mwaku
de modo que a sua exacta identidade já não interessava àqueles que preser- reprêsenta provavelmenie o título potítlco (masculino) Luba e o nomc
vavam as tadições. Como é mosüado na narrativa que se segue, parece ter Kunda (ou Konde) representa a liúagem Lunda que detiúa essa posigão.
sido esse o caso. A maioria dos historiadores tadicionais Imbangala, que Um "casamento" entre eles, do tipo que aparece em várias das tradições,
usa o nome da posição senior apenas como o patronímico (ou mahoními- representaria a àcgitação Lunda de uma forma de autoridade política Luba
co) do título kingurí posteriormente usado pelos reis de Kasanje, concorda muito antiga (e de outro modo não identificada).
que o nome devia ser Kunda.r? Outros Imbangala apresentarn Kunda como Outros pormenores das üadições reforçam a impressão de que o ygla
"Konde" e tornam feminina essa posição, como a "mãe" de Kinguri.rt mwaku üeve a sua origem num conjunto de instituições políticas Luba, ae
Os que fazem do kingarÍ um descendente duma mulher, "Konde", indicam quais se difundiram enfte os Lunda e os Cokwe algum tempo antes do perÍo-
como sua origem patema Yala Mwaku, ou Mutombo Mukulu.le Tais refe- do em que se podem claramente divisar as estereotipadas tadilões Lunda,
rências a este último título, que era uma posição política importante entre Para além da vaga associação de Yala Mwaku com Mutombo Mukulu, ou-
os Luba Kanyok ou Kalundwe, que viviam a nordeste dos Lunda, mostra a tas genealogias mosüam um casan€nto enfre Walunda wa Nyama, um
conexão da posição senior dos Lunda com os Estados muito antigos que se nome feminino representando um agrupamento de linhagens Cokwe/Lwona
sabe terem existido entre os Luba. descendente de Tirmba a Mburnba, e um masculino, Mangandd a Kambam-
As fontes T unda, contribuindo pouco para clarificar a situação, ba a Musopo wa Nyama. O útulo masculino (presumivelmente político) ora
retratam Konde de formas variadas, ou como a esposa de Yala Mwaku, ou também de origem Luba. Por sua vez, um "filho'l deste casamento, I(ata ka
como uma filha/o (ou neta/o) de Yala Mwaku, ou como sua irmã. O histo- Walunda ou Kata ka Manganda, casou com Kunda para geraÍ Kinguri o
riador ofìcial da corte Lunda nos anos 20 apresentava Mwaku como o Lueji. Este.casaÍnento desempenha assim a mesma função do casamento dc
chefe tubungu mais importante, que teve um fìlho Yala Mwaku, por sua Yala Mwalin.noufias gerìealogias, a de fazer derivar os principais ltulos
vez progenitor de Sakalende (varão) e Konde (varão). Konde foi, depois, Lunda de uma união entre Luba (título político) e Lunda Qinhagem) - è con-
o pai de Kinguri, Kinyama e Lueji.'10 Os informantes Lunda do século firma os antecedentes Luba para os títulos políticos Lunda. Esta interprc-
dezanove concordavam com os Imbangala na identificação de Yala tâção permitfuá reconciliar todas as versões coúecidas da genealogia, tânto
Mwaku como o pai e Konde como a mãe de Kinguri, Lueji e Kinyama.rr Imbangala como Lund4 ao considerar a hipóúese de uma origem Luba pua
Os Pende representavam Yala Mwaku e Konde Matita (mulher) corno o mais antigo útulo senior Lunda recordado.z
irmão e irmã e acrescentavam um não identificado "Kawla" como o Apesar de âs tradições mostraÍem que o yala mwaku gozava de um
esposo de Konde Matita e pai de Kinguri.z No geral, as versões Lunda que estatuto socialformalmente superior em relação às posições oontroladag
dão Konde como varão parecem reflectir a moderna preferência dos Lunda sobre o lugar de Matita na genealogia. Cf. BieQuyck (1957), pp. 801-3, que,inclúu o nomc do um
Matita nasua genealogia, mútíssimo esquem6tic4r.
O mesmo fazem os !9ngo; Magalhães (19a8), p. 35. Max Buchner (1883), pp. 57-8, também apre- Uma ouEa.genealrcgra @iebuyck (1957), pp. 801-3) mosEa um exemplo exEemo do modo como
senta o_so_lrenome Kulda para Kinguri. O "Kinguri kya Bangela" de Schún (1881, p. ó0), ou os lnesmos nomes mudam de posição relativaruente.uns aos ouüos pàa se ajustarcm às intongõcr
"Bangala Kinguri" (p. 70), refere-se a um título diferente, o kinguri lcya bangela, uma posição que da pessoa que recita.a genealogia; nesrc caso, quaEò consercutivos empsÍ€lharnÊnlos de irmlor o
spaÍeceu no século dezoito e não tem relação coúecida com aposiçâo kinguri dos Lúnda. irmãs em "casameltos'! envolvendo Yala Mwaku, Konde, Matit4 etc., são utilizados para rcduzlr
esta paÍte da história Lunda a um peíodo mítico, antes de o tempo e as liúagens se tornaÍcm paÍt!
Tcstcmunhos de Mwanya a Xiba, 14 Jun. 1969; Sousa Calunga, 16 Jun. 1969; Apolo de Matos, 18
do mundo. A radiçio dos Cokwe relatada em Lirna revela a mesma caracteútica (1971, p. 43),
Jun. l9ó9.
'lbrlcmunhos de Apolo de Matos, l8 Jun. 1969 e 8 Jul. 1969; e também Lima ( l97I), p. 43. As tradiçõçs dos Cbkwç também contêm vesúgios de uma antiga difusão de títulos dos Luba ontro
nt
as matriliúagens descendentes de Mbumba a Mbulu; alguns Cokwe do scc. XD( atibúam ar orl"
Duystcrr ( 1958), pp, 76, 79, 81. gens destes nomes diÌectamente a Kasongo Nyembo, o mais poderoso estado Luba desse pcrÍodo;
tl llcnriquc rlc (-'urvalho (1890a), p.60, Grevisse (1946-7), p. 58. Haveaux (1954), pp.28-9, observa que os Pende dc, K&sai concordam
llnvcuux (1954), p. 21. Chinyanta Nankula (1961), p. 1; concordou com os informantes Pende que os títulos Luba desempeúaram um papel nos primórdios da história dos Cokwe.
120 O PROBLEMA DA FOPô'AÇÃO DO ESTADO D,rsrrrurçÕEs CENTRALZADAS ENTRE os LUNDA t2r
por outras linhagens Lunpa, elas pouco revelam acerca das relações -8ò
históricas entre estes títukis. Podemos supor que, de qualquer modo, os
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detentores do título yala nwaku exerciam pouco mais do que um domí- 4
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nio ritual sobre as outras linhagens Lunda, uma vez que mais tarde ele é
recordado como "primeiro entre iguais". O verdadeiro poder político
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dependia dos recursos económicos e dos recursos em força de trabalho :s ì;
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controlados pelas linhagens, e não há qualquer razão para supor que
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estes correspondessem, em todos os tempos, à hierarquia formal do d i9
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parentesco indicada na genealogia.2s Uma vez que a genealogia não Êe

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podia ser alterada para reflectir as mudanças no equilíbrio políticd Êàõ
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histórico, deve por vezes ter perdido a sua utilidade como meio de estru- e rÉ
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turar as relações entre as linhagens. Nessas circunstâncias, tornava-se o I - üÉ

desejável adoptar um novo sistema político mais em consonância com as



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realidades políticas, ou então abolir o título hierarquicamente superior,


que mantinha todas as outras posições numa falsa subordinação em
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relação a si. rg Ê ,
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Porque as tradições nada preservaram acerca das realidades históricas ã0 M ÊãÊs-
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que se encontram por detás das genealogias formais, apenas nos é pos-
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sível especular sobre as circunstâncias que poderiam ter provocado uma (Ë
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tal restrutuÍação das relações entre os títulos políticos Lunda. Apesar de € írÌ
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tudo, ocorreu de facto um realinhamento. Os nomes de muitos títulos que
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tomaram parte nesta revolução desapareceram, provavelmente, devido aos
.efeitos das rnudanças ocorridas nos Lunda ainda mais tarde, mas os nomes
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t*geõ 'p ËÈÈ
ËïsÊH ãsi ?
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dos títulos de três posições subordinadas ao yala mwaku sobreviveram: o ËãUËR, 'l
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kinguri,ú o lueji, e o kinyama,21 O seu posterior signiÍicado como posições
€HEÊÊ d 4P!. { 'ão9^

centrais entre os Cokwe, na Lunda, e em Kasanje, fez com que eles apare-
cessem em quase todas as variantes da lista dos antigos titulares da Lunda. EãËtË Ë :ãã EË
E€.iig : EEìr$ (, v
r
Algumas versões da genealogia incluem várias outras posições classifi-
cadas como irmãos geÍmanos do kinguri e subordinadas do yala mwaku.
Uma história Imbangala pouco frequente cita vagamente um Maweje que,
ãEËãã 9BÊãË
[g!gg
is #gãi ì ,Ë
diz-se, deixou a Lunda ainda antes do kinguri. Os Imbangala nada sabem
sobre a história subsequente de Maweje, excspto que ele alegadamente EEËEË Ë ãËFcË
abriu a rota para oeste, mais tarde seguida pelo kinguri e outros títulos

o poder e a senioridadç ÍaÍaúente coincidiam, em estados mais tardios como o de Kasanie ou o


dos Bemba, onde sistemas de títulos igualmente estáveis impediam a alteração das gene'alogias ãËËËËãËãËãã
para reflectirem as mudanças das circunstâncias históricas. Vèr a este respeitó a bem ãocumenta-
da argumentação em Andrew Roberts (1974). TiFËâ
-dËeE$ Ë sËEË3
6 O significado deste dtulo não está esclarecido. ã ãËEËe
A palavra nyama, que signiÍica came ou caça em Kirnbundu e em mútas línguas Bantu, aparece
com certa fr_equência como título no lado materno, ou da liúagem, das antigaígenealogias Lunda
ËgËËE Ë eiïË€
(e Luba?), (ex: Kinyama, Walunda wa Nyama etc.). Rodrigueï Neves (lg5?), õ. gO. aã,'Nvu-a',
€ËHÊg Ë $ïËËE
como o nome do "país" onde Kinguri tiúa vivido na Lúda, confundindo uma desisnaéao de
linhagem co-m um "país" ou região, uma vez que as tradições dos Mbundu não fazem umidisi.Ìnção
><o>F ri Ë6Faã
ru:É a E[z
nítida entre linhagens e territórios, que têm úuitas vezes o mesmo nome.
99 dâ ;
i

=Sr
122 oPRoBLEMADAFoRMAçÃoDoESTADo
INSÏTNNçÕES CENTRALTZADAS ENTRE OS LUNDA I23

Lunda., os Imbangala recordam também um "irmão" de Kirtguri chama- Embora a história, tal como foi registada no século dezapovç, gg1-
do Munjumbo que também deixou a Lunda a caminho do oeú.r'Ouftos,
tinuasse a partir deste ponto directamente para o relato de ouFog l0dtltl-
acrescentam um Kayungo ou Kalungo, Kasongo e Iyala, ao clássico trio
cimentos, o que aqui citei da tradigão formava originalmente um cplúdlo
de Kinguri, Lueji (ou Naweje, como os Imbangala lhe chamam) e narrativo disünto, relacionado còm uma única série de acontccimontor
Kinyama.s o restante da liista varia, porque os'historiadores tradicionais já
históricos. Se interpretarmos os personagens neste episódio como'tÍtulol
não necessitzlm de mencionar todas essas posiçòes para justificar estados
perpétuos, significa que os portadores dos tínrlos kingurì e kinyarna, ou at
que lhes eram familiares durante e após os finais do século dezanove,
suas linhagens, se envolveram em hostilidades contra o yal.a mwahtrott a
quando foram registadas todas as tradições que conhecemos. provavel-
sua liúagem, e tentaÍam em determina4o momento usurpaÍ a autori-
mente, todas as modemas listas dessas posições incluem apenas uma
dadade daquela posição senior. O vinho de palma, pelo qual lutaram
fracção dos títulos originais.
Kinguri, Kinyama e Yala Mwaku, apresenta-se como Ìtma nletáfora PaÍE
um conjunto de episódios narrativos Lunda revela que oconeu runa os aspectos históricos verdadeiros, mas não claramente expreqsoS, quÊ
mudança de um sistema político não hierarquizado, chefiado plo yala
levaram os titulares juniores a eliminà a posição gue lhes era hierarquica.
mwaku, para urn Estado mais cenüalizado chefiado pot t"pt"sent ot"s du
mente superior. No seu nodo característico, a tradição nada revela sobÍ€ a
posição lueji. De acordo com as radições que descrevem esta ruptura na
naf'Jtez,ada disputa histórica, excepto para indicar que se relacionava com
genealogia perpétua,3' certo dia, Kinguri e Kinyama, os filhos de yala
a autoridade política, através do simbolismo do viúo de palma quo oÉ
Mwaku, o rei Lunda, voltaram a casa ao cair da noite, depoió de terem.pas-
Lunda associÍrm aos varões e ao poder político.32 Os nomes {o(s) compr.
sado a tarde a beber viúo de palrna. Enconüaram o pai no pátio da sua
úeiro(s) de Kinguri nest€ empreendimento, os quais variam em difcrontoe
residência, ocupado a tecer uma esüeira das que se usam para dormir. A seu
versões da narrativa, representam as linhagens'que se aliaram ao klngurl
lado estavaum pote com água, no qual ele mergulhava as fibras deráfiapara
n:ts suas guenas confia. o yala mwaku. As variantes mais correntÊ8 da
as tomar flexíveis e prontas para serem tecidas. Kinguri e Kinyama, em
üadição identificam os principais aliados do kinguri como a linhagcm quc
parte devido à embriaguês, confundiram a âguaturva com viúo de palma q
controlava o útulo kinyama; outras versões afirmam que um tÍtulo
exigiram que o velho lhes desse de beber. euando yala Mwaku negoq que
conhecido como yala também apoiou o assalto de kinguri ao podor.ü
o pote conüvesse vinho de palma, eles zangaram-se e bateram-he úolenta-
As variações confirmam simplesmente que as tradições proservaÍün,
mente. Lueji, a irmã, chegou mesmo a tempo de escutar os últimos desejos
provavelmente, uma lista incompleta dos gnipos que ïealmente so
do seu pai, antes de ele morrer. Yala Mwaku deixou o seu título em herança
envolveram na disputa.
à filha Lueji como recompensa pela sua fideüdade e castigou Kinguri e A morte de Yala Mwaku arrastou as velhas estrunrras políticas Lunda
Kinyama pela desobediência, ignorando os direitos deles a essa posição.
de um período de relativa estabilidade paÍa uma fase de transiçãò carac-
tenzadapor guènas intestinas. Podemos presumir que o kinguri e os sous
Testemunhos de Sousa calunga, l6 Jun.. 9 Jul. l9ó9. o informante pode ter confundido o nome
de um "deus_superior" que se encontÍa a leste dos Lunda (Mawese oü Maweje.y com um dos títu_
aliados eliminaÍam por fim a posição do yala mwaku da genealogia por-
los tubungu, Pra Maweje, ver H_ermann Baumann (1936), p. 39. o nome encáúça genóat,ogi"s pétua dos Lunda, após lutas de intensidade e duração indeterminadac
Lunda regisradas ente os reinos Lunda do centro e leste; cirinyanta Nanl-ula 0961),"rD:l: tamúm
Bieb_uyck (1957), pp. 801-3. Nesre caso, pode represenrar uma confusa recohì oe ántgai innuen- (embora a escala do conflito não possa ter sido grande, considerando
cias Luba que se difundiram para sudoesie da Lúnda, em direcção aos Cokwe padrões posteriores). A "morte" do yala mwaku,.nalinguagem dos episó'
Este útulo tem uma história muito complexa, mas as suas origens situam-se claramente na Lunda;
I
ver testemunhos de sousa calunga, 2il Set., out. 1969; bomingos vaz. os cokwe também dios narrativos,,não se refere ao assassínio da pessoa que detem o tÍtulo,
relembram um título com este nome que se moveu com o kinguri
Lima (1971), p.46.
fara oeste, a partir da Lunda; embora isto possa ter ocorrido uma-ou mais vezes. A "morte" de uma
Testemunho de.Apolo-de_Matos, l8 Jun. 1969. Iyata conesponde aos yala mencionados pelos posição numa genealogia constituída por títtrlos permanentes com desig-
Lunda no final do século dezanove;_Henrique de cárvalho 1lggoa), p. 60. As duas mais longa's lis-
tas de irmãos ggrmanqs (ambas dos Lunda) incluem Ndonje que apaiece como um título Luãda em
nação própria, significa que os seus inimigos lhe destruiram as insígnias
posteriores tradições Imbangala; Biebuyck (1957), pp. 8Ol-j; Criìe-Mavar (1973), p.71, concor_ de autoridade e, ritualmente, o eliminÍÌram da estrutura política à qual
da com isso e acrescenta outros.
O relato de Henrique de Carvalho é, de entre as versões publicadas da nadição, a única cue ultra- tinha pertencido. As tradições dos Imbangala mencionam vários casos
plssa uma apresenração- muiro esquemática.dos episódioi narrativos; a paráfrase que aqui se ap..- posteriores, nos quais os oponentes usaram tais métodos para abolir certos
sentt é retiruda de (I 890a), pp. 59-75. Henrique dè Carvalho escreveu aìua versão da hístória num
cstilo que obscureceu a estÍutura original dás tradições Lunda, feita em terrnos de senealósias e
cpi.ródios.ntrrativos. A anáÌise seguinte renta reintroduzir estas divisões e fazer Oestícar o ifirin-
r:lrlo hislórico da estnrtura originá1. "D C".""t""çã. pessoal de Jan Vansina,
Testemunho de Apolo de Matos.
I
I 124 opRoBLEMADAFoRMAÇÃoDoEsrADo INsrrnnÇÕEs cENTRALIZADAs ENTRE os LUNDA 125

I útulos entre os Mbundu, e as tradições de arguns dos grupos mais orien- episódio narrativo independente esboça, resumidamente, a formação e
I tais da África cenftal, que têm sucessão nas pósições titútares e parentesco estrutura deste estado sucessor. Lueji era ainda uma criança quando Yala
I perpétuo, revelam a mesma coisa.a
A "morte"do yala mwaku libertou as outras liúagens Lunda para
Mwaku morreu, nas palavras da tradição, e apenas podia governÍÌÍ com o
conselho dos mais velhos e mais sábios tubungu, chefes das linhagens.
I estabelecerem um novo equilíbrio políüco, já não condicionado pela Eles concederam-lhe uma forma de supremacia ritual e permitiram-lhe a
I hierarquia do parentesco pelpétuo que anteriormente as tiúa amarrado a
uma subordinação colectiva. A abolição de um útulo menos dominante
posse, no sentido estritamente legal, das terras Lunda, mas erÍtm os
guardiães tubungu que controlavam o lukano, o bracelete que incarnava a
D causaria mudanças relativamente menos importantes no estatuto de umas suprema autoridade política dos Lunda. Os guardiães tubungu transfeúam
I quantas linhagens dos Lunda. contudo, a eliminação do yala mwaku as suas residências dos seus próprios territórios paÍa os domínios originais
I significava algo bastante diferente, uma vez que os outos ututos depen-
diam dele para a sua legitimação e protecção sobrenatural. Deve ter-se
do lueji naquela época, criando assim a primeira cidade capital pan-Lunda.
Os tubungu excluiram da nova confederação as linhagens do kinguri e do
D seguido um período de instabilidade (que o plácido estilo da narração kinyama (oa yala), presumivelmente, pela sua fracassada tentativa de
I esconde) pois cada linhagem Lunda competia com as demais pela Íìrïancar do lueji o controlo do luknno.x Provavelmente, o reino manteve
I supremacia, num ambiente político modificado.s Se o yala mwaku tiver
tido qualquer conexão directa com/ os Luba, como ulgu*u, tradições
esta forma durante algumas décadas, pelo menos, uma vez que as tradições
afirmam claramente que diversos chefes tubungu se revezÍÌram,
t indicam, o seu demrbe poderá também ter representado uma rebelião de preenchendo as funções na corte durante esse período.37Assim, se bem que
t liúagens Lunda contra a presença de títulos políticos Luba.
A partir das tradições, podemos supor que linhagens conduzidas pelo
o tueji úvesse derrotado o kinguri e o kinyama, os vitoriosos titulares ti-
I kinguri lutaram pela preponderância, durante o período de instqbilidade e
úam ganho à custa da sua própria independência. Os chefes de linhagem
tubungu ganharam direito afazet ouvir a sua voz nos assuntos do novo
I que a liúagem do título lueji liderou a oposiçáo àquelas. uma vez que, reino, como recompensa pelo seu apoio durante as guerras. A ameaça do
I como estabelece a narrativa;
[,ueji se tornou a herdeira do poder real de
Yala Mwaku, a posição luei,i deve ter construído, por fimf uma aliança
kinguri tinha forçado os Lundaa desenvolverem uma nova estrutura políti-
ca, com um mais elevado grau de centralização do que os seus prèdecesso-
I srficientemente forte para derrotar kinguri e kinyàma e, portanto, paÍa rès, mas nessa estrutura os detentores do útulo político cental tinham de
t reivindipar o estatuto dominante anteriormente concedido aà yah mnaku.
o erro de identiÍicação que Kinguri e Kinyama frzeram,confundindo água
submeter-se a um colectivo de conselheiros saídos das linhagens Lunda.

I turva com viúo de palma, no episódio narrativo, subüúa'metaforica-


Vários pormenores mencionados nos primeiros episódios narrativos,
os quais se apresentam como possivelmente históricos, já que contrastam
I mente a ironia da sua derrota; eles üúam perseguido uma miragem, aca- com as condições existentes no momento em que a tradição foi registada,
I bando por perder a batalha com lueji, a despeito de terem sido os
lrimeiros
a desaÍiar o yala mwaku. Ap tradições, evidentemente, não indicam por
apontam para a conclusão que o Yala Mwaku "morreu" muito mais cedo
do que os finais do século dezasseis, data geralmente assumida como
I quanto lempo estas luüas coirtinuaram. um vez que os personagens na nar- sendo a dos primeiros passos da história política Lunda.s Indicações sub-
I rativa represeníam posições políúcas p"r-*"nl"r, -úto, ano-s podem ter
decorrido entre o ahque violento de um detentor do títuIo
-kingurt tis a úvel da tecnologia, por exemplo, indicam repetidamente que estes
I posição do yala mwaku e as derrotas posteriores que atingiram o. ."u,
à desenvolvimentos tiveram lugar antes de os Lunda terem adquirido ferro
de uma qualidade suficiente para fabricar armas de lâmina larga. Por essa
t sucessoresino mesmo título. altufa, a:cultura dos Lunda destacava mais a pesca do que'a caça, e os
) o ataque do kinguri ao'yala mwaku tinha iniciado mudanças políti- caçadores Lunda capturavam a caga apenas por meio de armadilhas de
cas fundarpentais nas estruturas políticas Lunda, que culminaram num
I novo e rnals centralizado estado, dominado pela poiiçao heji. ÍJm orto
Í Henrique de Carvalho (1890a), p. ó4.
a1
Haveaux (195a), p. 4; também Henrique de Carvalho (1890a), p. 64. Compare esta vaga referên-
] cia com o governõ interino dos makon Lunda no kilombo dos Imbangala (c.1560-1610); o peío-
r M.c. ltarniick (1963), p. 3S9.
do de govelrno interino, que recebeu nas tradições um tratamento igualmente sumário, durou-pclo
menos-cinquenta anos: ier atrás, Cap. I, n.46. A tradição dos Cókwe, citada por Lima (1971),
) !5 tradiçpes dos Imbang-ala obscurccem todos os intenegnos e peíodos de instabilidade poÌítica. p. 44, assinaÌa explicitamente que "algum tempo passou" durante este período.
{s
A plova qe. que uma tal Íase_ocorreu vein, no presente caso, da dlescontinuidade tógica na iinha da Para o debate sobre esta data, ver Jan Vansina (1963a), David Birmingham (19ó5), Jan Vunsinu
I *ros derentores de uÀ triúã, õ r-t,,,. ,f,iãìiiã,i" p"ro, (1966b), e o meu resumo em (1972a), pp. 549-51. Vellut (1972), pp. 65-9, contém novas infor'
ã:Ëiïr#jt}:.trXffr::,,1xïjï""* " mações.
)
)
126 o PROBLEMA DA FoRMAÇÃo Do EsrADo rNSTrrurçÕES CENTRALZADAS ENTRE OS LUNDA 127

madeira, em vez de flechas ou zagaias com pontas de ferro.v Foi afirma- caçadores profissionais que até àquela data não existia entre os Lundr.{
do que o título do yala mwaku significava "atirador de rochas",{ um nome De acondo com os Cokwe, a principal insígnia da autoridade de Ciblndr
de louvor que sugere talvez um período anterioi à introdução do arma- Ilunga'era uma adaga mágica, o kapolalo; ele chegou também com atlol
mento de ferro. Kinguri e o seu irmão abateram violentamente o pai com especiais, yitumbo 6 (sing. kitumbo) e a machadinha cimbwiya quo alnda
uma moca de madeira em vez da tradicional pohue, a faca de ferro que se se mantém como um importante sírnbolo do podep políüco ento gl
tornou mais tarde a uìrma característica dos Lunda.at Cokwe.tr O facto de a maioria destas.rinovações, correspondentes tqmbém
O episódio seguinte, na narrativa Lunda, pega no tema da renovada a sÍmbolosda'associação de caçadored kibindn, envolverem técnicas apor.
influência Luba sobre o estado Lunda do lueji. A tradição relata que, um feiçoadas de metalurgia do ferro sugere que, tal como com os jingola doa
dia, Lueji foi até ao rio Kalanyi onde enconhou um grupo de caçadores Samba entre os Mbundu, ocoÍreu uma mudança tecnológica. Contudo, oc
acampados na floresta. Tiúam viajado até ali sob a liderança de um nobre avanços na metalurgia do ferro não implicam que tivesse tido lugar uma
Luba, mais tarde conhecido dos Lunda e dos Cokwe como Cibinda conqústa militar massiva Luba, uma vez que os Lunda tinham boas razõog
Ilunga. Reparando que Cibinda Ilunga e os seus companheiros tinham para adoptff voluntariamente as ideias e instituições dos Luba.
falta de sal para a caÍne dos animais que haviam abatido, Lueji ofereceu- As razões que levaram o povo do tueji a apropriar-se destes novog
se para lhes arranjar todo o sal de que porventura necessitassem. Após uma princípios de organização política resi{em nas relações,,{ensas enüo &0
prolongada conversa nas margens do rio, ela convidou Cibinda Ilunga a linhagens Lunda. A laeji tinha governado à cabeça de uma confederação
peÍmanecer no seu reino. Eles acabaram por se apaixonar e decidiram pouco rígida que se originara como uma aliança defensiva contrao kingurl
casar, recebendo cada um a permissão dos conselheiros dos respectivos e o kinyama. Estes tinham, evid€ntemente, peÍmanegido não muito longo
reinos. Depois do casamento, Lueji deu a Cibinda Ilunga o seu lukano, a das franjas do estado Lunda, onde constituíarn uma contíüua ameaça pare
insígnia da autoridade real dos Lunda, que lhe permitia governar os Lünda as linhagens que tiúam apoiado o lueji.{ Incapazes de destruirçm
em seu lugil. sozinhas o kinguü, para afastar de vez o inimigo estas tiveram de procu.
O "casamento" de Cibinda Ilunga e Lueji iniciou um novo estágio no rar novos e mais poderosos apetrechos mágicos, técnicas organizativas o
desenvolvimento de insútuições políticas centralizadas na Lunda. Úniu a aÍmas. A figura de Cibinda Ilunga simboliza a chegada de todas estag
autoridade política dos Luba (representada como masculina) com as coisas. O perigo do kinguri acdbou por forgar a confederação Lunda do
liúagens detentoras do título lueji (representado como feminino) de acor- lueji a oferecer o seu lukano ao detentor do principal útulo Luba, a fim dc
do com um padrão que já nos é familiar, das tradições dos Mbundu. consoüdar, sob urna nova liderança, a unidade capaz de protegêJas contra
A transferência do luleono confirmou, explicitamente, que os Lunda adop- uma renovada guerra civil, do tipo da que tinha ocorrido durante,o prece-
taram alguma nova forma de autoridade política Luba. A carne (masculi- dente peíodo de instabilidade. A aceitação pelos Lunda das inovações'
no) e o sal (feminino), que Lueji e Cibinda Ilunga hocaram enEe si, representadas por Cibinda Ilunga, com ou sem intervenção militar diÍecta
reiteram a complementaridade entre'os caçadores e os Lunda e sublinham por parte de exércitos Luba, assinala assim uma mudança importante nag
a naturalidade com que os Lunda do século dezanove.encaravÍrm a associ- atitudes dos Lunda; eles começaram a abandonar a orgulhosa independên-
ação entre os dirigentes "luba-izados" e as liúagens Lunda.a2 cia que anteriormente tiúa caracterizado as relações eútre as linhagens e
Ao mesmo tempo, novas ideias e instituições dos Luba se difundiam começaram a avançar no sentido das instituições sociais e políticas mais
entre os Lunda. Técnicas mais avançadas de metalurgia do ferro podem ter centralizadas do posterior império Lunda.
chegado associadas à sociedade de caçadores kibinda, anteriormente igno-
rada,s Cibinda Ilunga representa, nitidamente, a sociedade kibinda de Os Lunda meridionais.(os Ndembu do noroeste da Zâmbia) afirmam que a associação ftibinda (úI
çharnadawubinila, um culto de caçadores de arco) veio dos herdeiros de Cibinda Ilunga na Lunda,
os nwata yamvo; Turner (1967), p. 280. A experiência dos Ndembu, que subsequentementc adop-
taÍam um outÍo culw de caça (wunyanga), sugere que podem ter existido várias ddstas associaçõor
Henrique de Carvalho (1890a), pp. 60,61; tambem Lima (1971), p. zl4.
em diferentes peúodos do passado da Africa Central e, portanto, a intÍodução desta veÍsão do culto
Ndo me foi possível.vèrificar atraduçãoque Henrique de Carvalho deu desse nome. De qualquer entre os Lunda não exclú a possibilidade de uma instituição similar ter estado presente entÍc og
maneira, o significado que lhe é dado pelos Lunda é mais importante do que uma traduçdo ütèral Mbundu em tempos tão ou mais antigos do que esses. Cf. no Cap. II, pp. 50-2:
das pulavras.
Os yitumbo são uma categoria de amuletos ou medicamentos feitos de substâncias vegetais que sc
llcnrique de Carvalho (1890a), p. 67. encontram nas matas frequentadas pelos mestres caçadores kibindalLima(1971), pp. 79,303, Cf.
Sobre o simbolismo de caçadores como reis fundadores, ver Boston (1964) e Lucas (1971). Boston (19ó4), p. 124.
lldouurtl N Dua ( I 97 t, p. 39), em entrevist a (23 Jan. 197 I ) com Muhunga Ambroise, confirma de Lima (1971), p. 45.
lìrrnur cxplÍcitu quc Cibindu llunga era também ferreiro. Para uma úrmação explícita dos Cokwe a este respeito, ver Lima (1971), p. 46.
I
t 128 opRoBLEMADAFoRMAÇÃoDoEsrADo n nmusÃo DE TÍTULos polÍrrcos LUNDA 129
I A difusão de títulos políticos Lunda para o ocidente chefes tubungu liderados pelo título lueji, para um estado muito mais
I As consequências desta mudança fundamental na vida social e polí- centralizado sob o comando dd um novo tÍtulo Luba, o mwata yamvo. As
I tica Lunda afectaram a mator parte do resto da África central ocidental.
A aceitação das instituições políticas centralizadas dos Luba provocou uma
genealogias Lunda mostram a posição do mwata yamvo como um descen-

I gmigração de liúagens Lurida e uma difusão de ítulos Lunda que, numa


dente de um "casamento" entre uma mulher chamada Luhasa Kamonga e
Cibinda llunga.ae Ee acordo com as regras das genealogias perpétuas, isto
I fase inicial, se estenderam para oeste até aos cokwe e para sul até aos significava qae o mwata yamvo era originalmente uma posição Luba su-
Lwena e, mais tarde, se espalharam para os Mbundu e os ovimbundu.
) Movimentos relacionados com estes factos atingiram ainda mais tarde os
bordinada a uma outa, de que era detentora uma linhagem conhecida

I Ndembu, junto às nascentes do zarrrbeze. bem como os povos vivendo a


como Luhasa Kamonga. Por razões históricas desconhecidas, este título
tomou-se o título mais poderoso enEe as liúagens centrais Lunda e os
I leste, até ao Lualaba.{ com os portadores de útulos q,r" r. moverzrm para
oeste, principalmente o kinguri, seguiu a associação de caçadores kibinda
tubungu foram reduzidos ao seu estatuto actual de conselheiros do título
ì e real central. A posição do lueji conservou um estatuto distinto do dos
diversos novos amuletos dd guena que cibinda Ilunga tiúa üazido da tubungu, mas apenas como um título secundário de uma nova posição
ì Luba para a Lunda. Dada a propensão das tradições histõricas para persona- Luba, o swana mulunda;o novo nome veio-lhe com a sua incorporação no
ì lizarem processos históricos abstractos, é provável qo" o
-oui.ento deva estado do mwata yamvo e reflectia as.suas reduzidas responsabilidades em
ser visto, em paÍte, como uÍrna difusão de títuloò e àp"nas em parte como comparação com a primazia de que desfrutara anteriormente. A posição
) uma migração de indivíduos (que é como até agoÍa tem sido asiumida). yala mwaku foi igualmente ressuscitada, também com um novo nome, o
) As razões históricas - que são distintas do enredo não histórico das xakala. Não podemos calcular o espaço de tempo que transcorreu en-
narrativas metafóricas - que provocarÍÌm a primeira expansão dos títulos quanto estas mudanças tiveram lugar, embora dois séculos ou mais não
) políticos Lunda, parecem relacionadas com a importaçãã de novos símbo- devam ficar múto longe da realidade.so
) los de autoridade dos Luba, com efeito, os novos apetrechos mágicos e As circunstâncias que levaram os detentores do útulo kinguri a aban-
) títulos substituiram o codunto de posições anteriorrnente dominantes, donar a Lunda podem ser observadas em episódios narrativos dos Imban-
onde se incluíam o lueji, o kingurt e o kinyama. À medida que os velhos gala, os quais sugerem que as linhagens por detrás do título se viram sub-
) títulos foram perdendo a sua preponderância, alguns p"r-in"""ru- nu, jugadas pelos poderes mágicos Luba e peÍmanecerÍrm ali apenas até terem
t mãos de grupos de filiação iiunda mas adquiriram nonó* norrr"r, de modo adquirido pelo menos alguns dos poderes sobrenaturais do Cibinda llun-
similar ao que aconteceu quando novas tècnicas de organização porítica ga.s'Naweje, como os Imbúgala chamam a Lueji, tinha tomado o contro-
! alteraram os útulos dos anúgos reis lunga dos pende e aígumas das lo do reino da Lunda, mas governava apenas como regente no lugar de
) posições hango entre os Mbondo. Alguns dos outros títulos Lu-nda,
tendo Kinguri, que era ainda de menor idade e não estava preparado para assumir
) pérdi$o o seu valor aos olhos das linhagens nucleares Lunda, foram os poderes reais que de direito lhe pertenciam.s2 Um dia, quando Kinguri
impingidos ou passados, de algum outro modo, para as linhagens
) segmentares que viviam no oeste, onde nunca existira qualquer tipo de Lúasa Kamonga é habitualmente descrita como uma das "aias" de Lueji. Eu não sou capaz de inter-
p3larÌ. eln tegngs Lunda, o significado desta óbvia má trâdução. Descrições do mwata jamvo como
) autoridade política com prestígio semelhante. Apenas núm rinico .ãro
o do kinguri -,existem provas claras de um movimento de populações, e
- 'Frlho" da própria Lueji vêm apenas de fontes que não são Lunda e, provavelmente, nãó sÂo de con-
frança. A distinção enue radições Lunda e não-Lunda, sobretudo cokwe, permite explicar melhor as
I diferentes descrições da origem do títrlo mwata yatnvo do que a distinçâo, em grúde medida cir-
esta particular ocorrência produziu fevoluções políticàs da maior cunsEncial, entÍe hadições do século dezmove e tradições do século vinte, assinalada por Vellut
I (1972\ p.66. Acontece que a maioria das radições do século dezanove registadas por Euròpeus vie-
importância, as quais afectaram todas as linhagens quô viviam ao longo de râm de fontes Cokwe. Há abundantes dados comparativos que estabelecém a nat^ureza suipeita de
I uma rota que levava desde a Lunda até aos songo, através dos cokwe. laços genealógicos pai-filho, especialmente quandô fontes de'fora tentam descrever mudançaì polÍti-
cas internas ocorridas nourros contextos políticos; David Henige (l9l.l; 19j4, pp.7l-94),'
o destino do título lueji na Lunda ilustra o processo de mudança de O^laPso de_tempo aqui estabelecido deriva dos cálculos apresentados em Miller (1972a) e Vellut
nome e de subordinação enfre os mais antigos útulos Lunda que per_ (1972't, p. 69. Esta questão foi tamMm demonstrada pelos informantes Lunda de Henrique de Car-
valho (1890a), pp.76-7. Alguns informantes Lunda'do século dezanove conraram a Ffenrioue de
manecerÍÌm no seio das linhagens das margens do Kalanyi. o estado carvalho, especificamenre, que os Luba tinham chegado muiro tempo depois das primeiraj lutas
Lunda transitou de uma federação relativamente frouxa, constituída por eÍteluejiekinguri. HenriquedeCarvalhodeuestainformaçãonuniacaria(1886,'p. 135)aqual
parece apresentaÍ uma versão da tradição mais aproximada da forma oral original do que a verìão
retrabalhada publicada em ( I 890a).
a O relato seguinte é baseado nos testemunhos de Sousa Calunga, 2l !u1,,2 Out. 1969.
Para um resumo, Vánsina (1966a), pp. g4-97. As fases mais tardias dessa 52
A ênfase dos Imbangala.neste ponto dispensa quaisquer comentários especiais, dada a evidente
exDansão não são
analisadas aqui, uma vez que não tiueìàm qualquii ' rntençao de se auto-valonzarem.
"i.liíairõL'..ürË;-NÃ5-";âí:*"
r30 o PROBLEMA DA FORMAçÃO DO ESTADO A DIFUsÃo oB rÍrulos polÍrtcos LUNDA l3l
e Naweje caminhavam ao longo do rio Lukongolo 53 na Lunda, Kinguri Lukokexa aceitou o acordo e revelou os seus amuletos a Kinguri.
deixou a irmã sozinha por momentos, enquanto foi para a mata procurar
Estes incluíam alguma coisa chamada nzungu, feita da árvore mbamba s
alguns homens que estavam a produzir maluvo, algures perto dali.s Não
que cresce nas floresta-galeria ao longo dos rios. O nzungu não só permi-
muito tempo depois de ele a ter deixado, um caçador chamado Lukokexa
tia a Lukokexa realizar os feitos que ele usara para assustar Kinguri, como
apareceu e falou com Naweje, oferecendo-lhe de presente a cauda de um
também apartava as águas dos rios e adiviúava a presença de cobras e as
elefante que ele tinha morto.ss Naweje aceitou e, em troca, deu ao caçador
matava em seguida. Lukokexa deu também a Kinguri um arco mágico que
alguma comida, a qual este aceitou alegremente, uma vez que ele e os seus
permitia ao seu proprietário abater mesmo os mais perigosos animais da
homens tinham passado a noite anterior na mata sem nada pÍìra comer.
floresta. Equipado com estas Íìrmas, Kinguri deixou a Lunda e iniciou a
Kinguri, afastado no mato à procura dos homens que faziam o malu-
sua viagem para oeste.
vo, sentiu subitamente o coração começar a pulsar com força. Esta ftadição knbangala pode ser conciüada com as narrativas dos
Recoúecendo nisso um sinal de que alguma coisa indesejável tinha acon-
Lunda e Cokwe sobre a partida de Kinguri da Lunda se reconhecermos que
tecido em casd, regressou imediatamente e encontrou Naweje na residên-
Lúokexa desempeúa o papel do designado Cibinda Ilunga nas outas
cia dela, comendo com Lukokexa. os requisitos da posição de Naweje
histórias. Ambos são os "pais" do mwatayarnvo e representâÍn as instituições
proibiam a presença de homens na sua residência e os seus makota (guar-
Luba adoptadas pelo lueji. Os Imbangala usÍÌm o nome Lukokexa em vez de
diães) geralmente mantiúam-na isolada de todos os homens, com excep-
Cibinda Ilunga (do qual nunca ouviram falar), uma vez que os seus episódios
ção de Kinguri. uma vez que a presença de Lukokexa na casa violava esta narrativos vêm de um período que ocoÍre algum tempo depois dos originais
lei, Kinguri ficou desconfiado com o estrangeiro e inquiriu sobre a sua
útulos Luba terem começado a perder o seu significado relativament€ aí)
identidade. Naweje explicou o que se tiúa passado e mostrou a Kinguri a
mwata yarnvo. TaI como a antiga posiçáo lueji se tinha tomado swarut mulun-
cauda de elefante. Kinguri imediatamente reconheceu uma outra trans-
da à meüda que as estruturas políticas Lunda evoluiram, o Cibinda Ilunga
gressão dos costumes dos Lunda, uma vez que apenas chefes políticos
tinha perdido o seu nome original e tinha-se tomado o lukonkcxn. O
devidamente entronizados podiam possuir caudas de elefante, que rece-
lukonlrzxn acabou por representar a "mãe" do título mwata yarnvo, assim
biam como tributo dos seus súbditos. Naweje, como regente, não tiúa
como o swetutmulundaprmaneceu como "mãe" simbólica do povo Lunda.e
qualquer direito de receber presentes que deviarn ter sido para Kinguri.
As duas "mães", swarut muhnda e lulconl<cxa, substituiram Lueji e Cibinda
Kinguri ameaçou Lúokexa e ordenou-lhe que saisse dali i6.61uo-
Ilunga como encamações metafóricas do par de princípios fundarnentais do
menüe. Quando o caçador se Íecusou a partir, Kinguri atacou-o com uma faca
estado Lunda posterior, respectivamente as linhagens Lunda e as autoridades
mágica (mwela) que tinha herdado de seu pai.tr A cabeça do caçador vomitou
políticas Luba.o O lulçonlçeta. embora originariarnente masculino, tornou-se
fogo quando Kingun se aproximou, e entÍlo este fez meia vorüa e fugiu cheio
feminino para contrastar com a posição mascúina do mwatayarnvolr
de medo. Regressou mais tarde, numa outa tentativa de úater o usurpador,
. A paixão de Kinguri pelo vinho de palma repete-se nesta versão da
r{tas desta vez a boca do caçador üansformou-se nas presas e mandíbutas de
tradição, indicando o significado essencialmente político do episódio.
um perigoso felino selvagem.e Kinguri compreendeu entlio que o sdl inimigo
Lukokexa começou por aparecer quando Kinguri deixou Naweje para
possúa forças sobrenaturais múto mais poderosas do qqe as suas. lricial-
procurar maluvo nas matas. Uma vez que tanto os Lunda como os
mente, ele resolveu roubar os talismãs que tornavaÍn Lukokexa tão forte, mas
Imbangala associam o maluvo aos homens e, portanto, à autoridade políti-
descobriu que não conseguia e concordou em abandonar a Lunda se, antes, o
ca, esta parte da história,refere-se, apaxentemente, ao período.em que o
caçador lhe ensinasse os seus segredos mágicos.
kingurt abandonou a federação dos chefes tubungu chefiada pelo lueii,

Um amuleto especíÍico, não identifrcado . A ârvorc nbamba (imperata cylíndrica Var Thumbergü)
!,io_não_identificado, mas possivelmente uma indirecta,refer€ncia aos antecedentes Luba da é considerada de valor pela sua utilidade na preparaçõo dos remédios yitumbo do caçaóor kibinfuj;
hlstôna Lunda, u.ry v.ea qu9 o nome contém o prefixo Ju-, vulgaÍmente usado para nomes de rios, -
e o tÍtulo do fundadoido primeiro império Lubà lver Vansina(1966a), p. ?l).' Lima (1971), p. 303.
I Vinho de palma fermentado, tombe na Lunda. Biebuyck (1957), pp. ?91,802. A proníncialukonkexaé dos Lunda (e aqui-usada-quando merefiro
tt As cerdas da cauda de elefante eram amuletos poderosos, ao títrilo Lunda) ãó passo que Lúokexa é mais próximo da pronúncia dos Imbangala (e é qqui
usado quando pretendo referir a meúfora Imbangaìa)
Este é.um pormeror.anacrónico, dos que são característicos nas tradições dos Imbangala; os Lunda & Esta hipótese explica a confusão que Schütt fez de Lúokexa com Lrreji (1881), pp. 82-3; também
naquela época não iinham o mwela.
'
van den Byvang(1937), p. 43. Esta confusão reaparece em Vellut (1972), p. 66.
um leÀo_ou.um leopardo; o.informante não foi claro neste ponto, provavelmente porque o por-
mcnor não altera o significado da metáfora.
6t
Os Imbangala têm uma posição iguàlmente masculina (o ndala lundumbu) que eles vêem como
"mãe' do seu principal título político, o kínguri de Kasanje.
T
I 132 opRoBLEMADAFoRMAÇÃoDoEsrADo
t reprcsentado aqui por Naweje, e procurou
A DFUsÃo ns rfrulos polfncos LUNDA 133

I polÍticas independentls.
noutros lugares forças mágicas
lste poÍmenor da história,-uirto pËio üào oo
segundo acreditavam, precisavam de poderes mágicos especiais que os

I kinguri, confirma as descrlçõei qu. o, Lunda fazem dos acontecimentos


na corte do rueji durante p período de hostilidades
ajudassem a perseguir a caça grossa atavés de tõnitórios que não lhes
eram familiares. caçadores não especializados, que não goruis"rn da pro-
I federação central Lunda- A ielação de Naweje
entre o iirguri
com Lúoke*u,l-úrrou, "
u
tecção destes amuletos especiais, não empreenderiam tãõ perigosas aven-
I directamenre, de Kinguri t$
nroõuraoo ajuda externu lu rou á"p"nãcn"i"
do. vinho de palma) e coúrma o qu"
turas. Em particular, o seu medo de que as serpentes encarnassem seres
sobrenaturais potencialmente hostisú implicava que os caçadores, que
D ,.-rogere nas narrativas Lunda, ou
seja, que o lueji se aliou aos Luba coo,o ,"rlortu deviam pÍìss:' dias e semanas caminhando atravéi da espesia vegetação
I ameaça que o kinguri reprêsentava
directa u aguã tipo o"
rasteira, buscassem protecção mágica contra elas. O nzurl, do Lukokexa
I A oferta feita por l-ukokexa, da cauda de elefante,
significa a
-a7-knguri,
desempeúou esta função pÍua o kinguri, cujo título Lunaa não incluía

I adopção pero rueji das instit'ições políticas


dentro do quadro do sistema estatal Lunda
Luba em oporiçá
qualquer amuleto de potência similar.6 O nzungu possibilitou ao kinguri
empreender a sua viagem através do mato infestado de cobras.
I Lunda acpditam que os pêlos da cauda de
entiio existente, u,ou u", que os
elefants porru"_lo*nr",
forças mágicas. A aceitação da cauda de elefanre
Tâmbém acrediüavam que os rios apresentavam sérias dificuldades
para quem quer que viajasse em regiões estranhas, e a capacidade
) recíproca oferta de comidá a Lukokexa rii"ram nd ú;;;j;." u ,uu do
nzungu para lhes secar as águas teve vantagens óbvias pÍrra o kinguri
I Luba com as linhagens Lunda. As tradições
a união do poder político
Imbangala ururri'uin'Jg",o o" durante a sua viagem.e ouüas técnicas mágicas, p"rt"n."nt", ao caçador
l uma oferta de comida no lragar da imagern
correspondente (sal e carne) nas
tradições Lunda, uma vez que esta era uman,"táioru
profissional kibinda, protegiam contra perigos que o kinguri poderia
enconhar em florestas onde seres espirituais escondidos nos corpos de
I de Kasanje, em muitos outros contextos. "o*on'
nu, iluOç0".
animais selvagens faziam emboscadas aos viajantes desprevenidos.
l A luta simbólica enne Lukokexa e Kinguri descreve
naturais com as quais ambos os lados comúateram
as armas sobre-
os Imbangalafaziam uma clara distinção ente as criaüuras naturais que
normalmente ali enconftavam e os seres sobrenaturais que, sob a forma de
) políticas
durante u, *-ouru,
e os confrontos armados, históricos, que devem feras, eram enviados pelos feiúceires para atingir u, ,uuì vítimas. Animais
ter pontuado o
) conflito antes de o kinguri finalmente desistir normais deixavam-se vencer por uma honesta perseguição com fogo e
e abandonar a Lunda.
t A história implica, niti_da{erye, que o kinguri só partiu armadilhas è podiam ser mortos com zagaia, porrinho óu flechas. As feras
depois de a supe_
rioridade das instituições Luba se ter toriado sobrenaturais, porém, apenas sucumbiam às complicadas precauções
) dernasiado ?üuiu p*. ,". e
ignorada. A magia de Lúokexa corresponde especiais apetrechos mágicos dos caçadores profissionais. uma u", qu"
ao que n* ,ugãrm u, o,
) tradições Lunda e cokwe sobre o facto de dois tipos de animais tiúam aparência exactamente igual, o kibinda rara-
cibinda ttunga t", inõoouriao
novas Íìnnas' apetrechos mágicos e técnicas mente podia determinar com antecedêlcia com que tipo se confrontava
) organizatiias superiores ao e,
equipamento rudimentar das liúagens segmentares portanto, ia sempre para as *utur pi"p-ado para id* .o.
Lunda. os frustrados quarquer
I
ataques de Kinguri a Lukokexa põem em
õ"nu u insuficiência ão, poa".r, desses tipos. os viajantes também tinham de ãstar atentos a possíveis
dos úefes Lunda quando comparados com os dos Luba. perigos dos animais sobrenaturais, uma vez que os espíritos tËndiam
I
tl,i, iiiniuri, a"
seguir trilhos humanos aüâvés do mato. os viajantes levavam vários
a
lorfo _com os Imbangala, não partiu antes de aprender alguns dos segre_
dos de Lukokexa. uma vez que deve ter amuletes para sua protecção, enquanto os yibinda geralmente usavÍrm
inovações adoptadas pelos Lunda centrais
levadó algum ;õ;
urJqu" u,
arcos especiais capazes de abater os inimigos, tanto naturais como sobre-
se difundissem enhe os
seus
inimigos nas franjas do reino, o conhecimento naturais. Lúokexa ofereceu a Kinguri um aÍco mágico desse tipo, que
de Kinguri aos jÀa"r.,
mágicos de Lukokexa confirma outras indicações
de que argum tempo
passou entre a introdução das técnicas um exemplo é a cobra chamada kindatandara-p,ros Mbundu, mencionada em reração
Luba e á partida â, *iriri.' primórdiosda história do estado Mbondo, p. ei acima. oiimbangara, p".
com os

. .O: segredos mágicos


do rol de aptidões
que Kinguri aprendeu com Lukokexa
vieram capim numa vasta clareira ao redor ds suas èasas paru
das suas residências.
--úi* co6ras (ã os"i;r;r"l-ü;;;. "
espíritos) afallados
sobrenaturair qu" o, imbangara atribuem
ao mestre ól
Todos os Imbangala concordam que o Kinguri, ao contrário de Lukokexa,
caçador kibinda. Na sua opinião, o facto "caçador" (ou se]a, kibinda\.
não era basicamente um
de King-uri O.lo.r" ã"rr*
a Lunda para"r,*
talismãs explica como ele pôde deixar compare a história da aavessia do Kwanza por Kajinga e a capacidade de
uugu"* uauuã. ou, provocar a enchen.e da corrente para travar oi perseluiãores de
Muta a Kalombo de
kajinga. rÃu*^ ã ã.ìàì"ïiiãà o.
tenas selvagens que ficavam para oeste. Os d^
ìaçaOoie, pronrrion^ir, T-*T águas se enconrre_poi quase toda a
iarte ïo ru"aó."
rcura rmportãncra à sua lunção específica no simbolismo dos Mbundu_
;;;;; ãiìiriïJi.áË'"a"
"ãrplïüJ"
134 o nRoBLEúA DA FoRMAÇÃoDoFSTADo
ESTADOS COKWE BASEADOS NO KIIVCUÀ/ I35

protegia o seu proprietiírio tanto dos animais como dos seres humanos (e mais tarde se tornaÍam osmakota ?0
que actuavam como guardiães dessa
hostis.ú' Embora os Imbangala reconheçam que o povo acfual perdeu a
posição em Kasanje) vieram de duas liúagens aparentemente rela-
técnica de fabricar estes a]rcos, mantêm a sua fó na possibilidade de
cionadas uma com a outra mas não ligadas a Njimba na Kakundo.
voltarem um dia a descobrir'o segredo.
Posições chamadas Kinzunzu kya Malemba e dois títulos "sobrinhos",
Outros símbolos de autoridade, todos de origem Lunda, difundiram-
Mbongo wa Imbe e Kalanda ka Imbe, ambos "filhos" de uma irmã chama-
-se igualmente da Lunda para oeste, acompanhando o kinguri. A posterior
da Imbe ya Malemba, derivam da linhagem (liúagens?) de Kandama.ka
presença de quatro insígnias dos tubungu em Kasanje deixa poucas dúvi-
Kikongwa e Kanduma ka Kikongwa.Tt O lar ancestral deste grupo fica
das de que elas teúam chegado até aos Mbundu através da movimentação
próximo do rio Lukongolo, que se diz ser um rio algures na Lunda.z
do kinguri a partir da Lunda. Incluíam os braceletes tuzekele
A outra linhagem, Kandama ka Hite, contribuíu para as posições de Mwa
(sing. kazekele), pequenas argolas de metal que significavam autoridade
Cangombe, Kangengo, Ndonga, Kibondo kya Wulu, e Kambwizo.ã
liúageira nos Lunda mas autoridade política em Kasanje,fi o sino duplo Os historiadores tradicionais Imbangal4 que preferem subliúar a
sem badalo lubembe,6' o tambor falante mondo, e o tambor ngona ya
unidade dos makon com o kinguri em vez de destacar o que os dividia,
mukamba.$ Alguns outros símbolos, enconüados simultaneamente na
declaram que todos os dtulos Lunda vieram de uma única "famflia", a de
Lunda e em Kasanje, tais como o uso da pele de leopardo exclusivamente
Lucaze naMwazaz4Jluma figura feminina nas genealogias segnentares
pelos chefes políticos, aparecem de modo demasiado generalizado na
que simhliza um vasto conjunto de liúagens rnatrilineaxes Lunda que exis-
África Cenfral para nos permitir determinar as exactas origens, quando
tiram em algum momento no passado,tr Como antepassado materno das
temos de optar entre grupos tão estreitamente relacionados como os
liúagens que conEolav4mos tubungn Lunda o grupo Lucaz'e na Mwazaza
Mbundu, Luba e Lunda.
inclúa cada uma das linhagens particulaÍes mencionadÍN por outros histo-
Se bem que apenas o kinguri tenha deixado
Lunda com todo o com-
a
riadores úadicionais, nomeadamente a do kinguri e dos seus companheiros.
plemento de técnicas mágicas Luba, um certo número de outras posições
Uma vez que os Imbangala se referem muitas vezes às unidades compo-
titulares se deslocaram para oeste nessa mesma época. Devemos dar algu-
nentes de urn grupo pelo seu nome colectivo mais genérico, as duas versões
ma atenção às suas origens, pois as divisões que datam de antes da parti-
da genealogia não são verdadeiramente discrepan0es uma da ouEa, nÌas
da influenciaram mais tarde fragmentações dentro do original grupo de
mosuam apenas ligeiras diferenças no que cada uma prefere sublinhaÍ.
títulos e levaram à criação de vários estados dos Mbundu e dos Cokwe.
Provavelmente, as modemas tradições preservam apenas os nomes
A maioria dos titulares Lunda que acompanhoa o kinguri pertencia a
de uma modesta percentagem de todos os títulos e liúagens que deixaram
liúagens diferentes da do seu líder. O nome da linhagem do kinguri, de
a Lunda no tempo do kinguri. Há ainda ouüas dificuldades na iden-
acordo com genealogias oficiais dos Imbangala, era Njimba na Kâkundo,
tificação da composição exacta da facção que deixou a Lunda, dificul-
um nome que também se refere às terras onde o povo do kinguri tinha vivi- t6 que üem
dades resultantes da acção do assim chamado efeito "pára-raios"
do (o seu mpat).$ As posições ütulares que acompanharam o kinguri
r O rcrmo Lunda conpspot&nte ékarula (pl. ,uruta); HenÍique de Carvalho (1890a)' p.70'
6 Este arco reaparece (nas mãos do sucessor de Kinguri, Kulaxingo) nas Fadições posteriores Imban-
1t
Tanbém coúecida pelo útulo da posição principal na ünhagem Kinzunzu kya Malemba a Kawanga'
gala, que vêm de fontes independentes não Lunda, ver adiante p. 191. n Uma variante aprcsênta "Mukongolo" oomo o nome da liúagem d€ todos os Lunda que úeram
6 Distintodolul<nno,obraceletefeitodetendõeshumanosquepertenciaunical:rrentaaomwatayamvo. com o *izguri;-tcstgmunho de Sõusa Calunga, 22 Jul. 1969..Isto paÍ€c€ ser confrrsão ent€ um
61 O lubembe é definitivamente Luba na sua origem, mas também esú associado aos fiibuttguLvnda toúnimo úraOo Ao nome do rio e o título dC linhagem. Esta é uma práüca comum. Neúum dos
comunicação pessoal de Jan Vansina. O seu aparecimento em Kasanje empresta maior apoio ao argu- no'nps foi identificado. Se, porém, eles consistem na raiz -lcongolo pt*edida por pretxos lu- (dado
mento de que algum tempo decorreu após a chegada dos Luba e antes da puada do kingui, à maior parte dos rios na üunda) ou mu- (um prcfixo de lugar comum nas lÍnguas bantu); o nomc
s pode taribém neste caso refeú-se às origens Luba destes títulos; cf. arás' p. 130' n. 53.
Duysters(1957),p.8l,apresentaalistadasinsígniasdoschefesnbungu.Paraasuaocorrênciaentre
os Imbangala, ver testemuúo de Alexandre Vaz e Ngonga a Mbande sobre a pele de leopardo (ciàa Testemunho de Sousa Calungc 9 Jul., 29 Set' e I Out. 1969. Esta listâ -qão colls€8uc expücar a
ca kulwarna)i vários testemuúos sobre os tuzekele, especialmente Mwanya a Xiba, 14 Jun. 1969; o razão da eústência de mais uú [otu, Kúete, que mais tarde apareceu em Kasanje e aparcnt€mento
lubembe j6nío aparece em Kasanje, mas Cavazzi (1965), I: 162,201, menciona-o no século dezassete pertencia a Kandama ka Hite.
(chamandoìhe "longa"); para o mondo, testemunho de Apolo de Matos, 5 Out. 1969, e Henrique de Testemuúos de Alexandre Vaz, Domingos Vaz.
Carvalho (1890a), p. 501; testemunhos de Ngonga a Mbande, 26 Jun. 1969, Sousa Calunge, ll Set. 15
Cf. Biebuyck (1957), p. 815, que apÍesenta Mwazaza Mutombo como um dos.tr€s principais
I 9ó9, c Mwanya a Xiba, 14 Jun. 1969, pala o ngoma ya mukamba. grupos Luída {ue diípónaraú. Á,Íwaiaza poae tamuem aPaÍscer como "Mwasanza", um útulo dos
* Testemunhos de Sousa Calunga, 29 Set., I Out, 1969; compare-se com as tradigões Lunda que especi- ÓoËwe ou doslundrmeridionais. O povó Lucaze vive a sul do rio Lungwebungu, no sudesrc dc
lìcam apcnas que o tirrgrrri paíiu com membros da sua própria "fanúia"; Henrique de Carvalho Àngola. Ambos os nonres, Lucaze e-Mwazaza, apontam para as conexões enEe este grupo dc
( I 8900), p, 76, O nome da linhagem do kinguri aparcntemente já não inteÍessa aos Lunda; isso não linhagens e os Lwena/Cokwe. Ver Mapa l.
rcrú surprcendenlc sc elcs parliram tão cedo como as tradições prêssupõem e se as matriliúagens se Da tcndência de os rcis fundadores rccebercm os louros pelos feitos dos seus sucessores; Vansina
tomutnÌn mlis turdc nrenos imponantes do que eram na época em que eles partiram. ( r96s).
a
a 136 o PROBLEMA DA FORMAçÃO DO ESTADO
EsrADos coKvvE BASEADoS No K/N6uRl 137
a lcvado os historiadores tradicionais posteriores a alargar o grupo original
a muito para além das suas dimensões históricas, acrescentando-lhe útulos
do o título para si próprios à medida que este atingia novas regiões. Se,
como parece provável, as liúagens segmentares em expansão de Mbum-
I de origem inteiramente difelente. Algumas narrativas recentes, por exem-
ba a Mbulu estavam a atingir os limites da terra vaga disponível naquela
I plo, afirmam que a maiorip dos títulos políticos de maior categoria no
século dezanove, entre os rios Kasai e Kwango, partiram da Lunãa junta-
época, o concomitante e endémico conflito pelos escassos territórios pode

t mente com o kinguri. os cokwe do Katanga do sudoeste incluem na sua


ter levado as linhagens a dar as boas-vindas aos portadores de um título
prestigiado, fazendo deles árbitros nos seus contínuos conflitos.m
I lista Katende, Saluseke, Kandata, Kanyika ka Tembo, Cisenge, Ndumba,
Todavia, o útulo kinguri não podia peÍmanecer num único lugar,
I Mbumba, Kapenda, Kasanje e Kaita.t Alguns destes nome. p".t"n"". u.
antigos títulos cokwe mas a maioria refere-se a títulos que chàgaram pos-
porque técnicas políticas ainda mais eficazes, baseadas nos títulos Luba

I teriormente e que, em perÍodo recente, se tornaram impàrtantes na r"gião


onde a nadição foi contadà (Katende e Saluseke). o conjunto conven-
adoptados pelos Lunda nucleares, se estavam a mover para fora da região
do Kalanyi, seguindo o kinguri de muito perto. À medida que avançava a
D cional dos principais reis cokwe (Ndumba, Mbumba, Kanyika e Kandala)
onda das instituições Luba, atingindo cada uma das áreas onde o kinguri
I aparece em companhia do título de um recém-chegado do século dezanove
se estabelecera, este útulo desviava-se para mais longe para oeste e sul,
fixava-se por curto espaço de tempo como um rei efémero entre um nevo
l' (cisenge) e de alguns dos,ouEos títulos Lunda da região do Kwango
grupo de liúagens segmentares e, depois, movia-se de novo quando a
I (Kapenda ka Mulemba dos Xinje e Kasanje dos Imbangala). uma lista
Imbangala dos cornpanheiros de Kinguri, publicada no sèculo dezanove,
onda seguinte de inovações políticas Luba voltava a apanhá-lo. Por fim,

I mostra a mesma tendência; acrescenta os nomes de vários chefes songo


estes repetidos confrontos, talvez precipitados em alguns lugares pela
relutância local em aceitar qualquer autoridade política, levaram à criação
I posteriores, de várias posições subordinadas existentes em Kasanje, e
alguns (mas não todos) dos verdadeiros mal<otal-unda.fr
de um cordão de estados cenüados no kinguri, ao longo de uma linha que

I se estendia do Kalanyi, através do território Cokwe, em direcção às

I Estados Colcwe baseados no kinguri


o povo que detinha a posição kinguri moveu-se da Lunda para oeste
nascentes do Kwango e às fronteiras dos Mbundu.
Apesar das reservas em geral colocadas pelas tradições neste nível de
D análise, um ceúo número de pormenores nos episódios narrativos ajusta-
rnuito lentamente, aparentemente estabelecendo-se repetidas vezes, à
I medida que tentava evitar a ârea de linhagens sob influência das ins-
se a esta interpretação. Os Lunda recordavam, mais tarde, que o grupo do
kinguri se tinha deslocado muito lentamente e que levou muitos anos até
I tituições políticas Luba, em expansão. o título kinyama, que parece ter
partido mais ou menos na mesma altura, deslocou-se núma direcçao
que ele passasse para lá dos Cokwe. As téQnicas mágicas adquirirlas aos
I d,iferente e acabou por se deter enfe os Lwena do alto Zambeze. os novos
Luba forneceram a chave do seu sucesso na travessia de territórios que não
lhes eram familiares. Eles caçavÍÌm usando, em paÍte, as pequenas armadi-
) acontecimentos históricos que originaram o movimento do kinguri,oculto
lhas de laço e as grandes armadilhas ffadicionais dos Lunda, mas também
l nas radições sob a imagem de uma "viagem",D deram continuidade às
forças, fossem quais fossem, que inicialmente tiúam expulsado o título
usavam os arCos e flechas que Kinguri obtivera de Cibinda llun-
gallukokexa. Uma adaga enfeitiçada chamada mukwale, em particular,
I kinguri da federação das liúagens Lunda lideradas peloiueji. os grupos
ajudava-os a abú camiúo contra qualquer um que se opusesse à sua
) de filiação que controlavam o kingurt afastaram-se do contacto õ- o,
chegada.tr O poder das novas armas do kinguri e "da sua forte magia Luba
Lunda do Kalanyi, recentemente centralizados, e penetraram em áreas
) causou uma impressão duradoura nos povos que viviarn a oeste do Kasai,
onde as liúagens que se organizavam de acordo com as instituições seg-
onde os Cokwe de finais do século dezanove ainda recordavam o kinguri
I mentaÍes dos cokwe e dos songo de bom gÍado adoptaxam o kinguri é õs
poderes mágicos a ele assooiados. É impossível dizer se o títulõ kinguri
) Nesta hipótese, o pano de fundo das estruturas sociais dos Cokwe/Lwena é posto cm confronto
pennaneceu nas mão dos descendentes biológicos dos Lunda que com urna explicação modelo (Vansina, 1966a, pp. 85-6). Algumas prova! sugcÍrom quo a "fron-
) teira" das liúagens se deve ter encerrado por esta altura. As revoluçõcs quc tinham lugar na Lunda
deixaram o rio Kalanyi, ou se empreendedores grupos locais foram toman- podiam ter resultado do contacto com os estados Luba a noÍdeste e, por osta altura (c, úculo quin-
) ze?), certamente os Kongo se conftontaraÍn, a sudoeste, com a oposição do *r.lcrrlàc dou dos èsta-
dos do Libolo.
Byvang (1937), pp. 426-7,n.I(h), 432 n. e 435. Cf. Lima (197 t), p. a6. Henrique de Carvalho (1890a), p. 7'l.Lima (1971), p.48, tam