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Leitura e escrita

Neste capítulo, vamos identificar as relações que os atos


de ler e escrever possuem. A leitura da qual trataremos é a aquela
que tem como meta adquirir novos conhecimentos nas diversas
áreas nas quais se busca aprimoramento. Podemos afirmar que
é uma leitura diferente da leitura fruitiva de um poema, de um
romance ou da leitura informativa de um periódico, para se saber
os acontecimentos do dia ou da semana.
Leitura e Escrita na Era Digital

Vamos abordar algumas estruturas textuais de grande utilização no


meio acadêmico: o resumo, o esquema, a resenha e o fichamento. De modo
geral, todos eles podem ser classificados como resumos, mas o objetivo de
cada um pode torná-los diferentes.
Enquanto o resumo procura destacar as ideias essenciais do texto, o
esquema trabalha somente com as palavras-chave e a resenha é usada para
apresentar e avaliar um determinado texto. Já o fichamento é um texto de
controle pessoal das leituras realizadas para futuras pesquisas a respeito dos
conceitos encontrados e produção de novos conhecimentos.

2.1 Como ler e escrever


O processo de leitura é um dos mais importantes a ser desenvolvido
com as pessoas e o seu ensino, bem como aprendizagem, exige um grande
cuidado daqueles que trabalham com ele.
Há vários tipos de leitura. Geraldi (1984) apresenta quatro tipos de
motivação para esta competência, que são a busca de informações, o estudo
de um determinado texto, um pretexto para fazer uma atividade indireta
(ou seja, exercícios de acentuação, análise literária, resumo ou fichamento) e
a leitura por fruição. Cada um dos tipos exige do leitor posturas diversas na
condução da própria leitura. Tais posturas devem ser muito bem compre-
endidas para que, ao final, o objetivo da leitura seja alcançado. Para isso, é
necessário ter à disposição um acervo diverso de textos que contemplem as
diferentes motivações.
O desenvolvimento do leitor depende de cinco capacidades cognitivas
que, segundo Bloom (apud FAULSTICH, 1987), independe da faixa etária
de quem lê.
1. Compreensão: é a primeira leitura, quando se identifica o tema, a
tese, busca-se o significado no dicionário para a palavra desconhe-
cida, ou seja, é a decodificação do texto.
2. Análise: é quando se busca compreender as ideias contidas em
cada segmento do texto, percebendo que o todo é composto de
partes que se relacionam entre si: os parágrafos nos textos, os capí-
tulos nos livros.

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Leitura e escrita

3. Síntese: é quando somos capazes de reconstituir o todo decom-


posto anteriormente atendo-nos às ideias essenciais, do ponto de
vista do original, nem nos importando com a sequência oferecida
pelo autor do texto.
4. Avaliação: é a capacidade de emitir um juízo de valor a respeito do
que o autor veicula no texto.
5. Aplicação: é o momento mais importante do ato de ler, pois, se
há compreensão, há assimilação e, portanto, as ideias, os concei-
tos poderão ser aplicados em situações semelhantes, ou para criar
novas ideias.
Estas capacidades fazem com que o leitor, ao ler, examine cuidadosa-
mente o real significado de cada palavra naquele contexto, encontre cada uma
das partes constitutivas do texto, observe as diversas escolhas lexicais, estrutu-
rais, argumentativas e estilísticas feitas pelo autor que tramou a teia do texto.
Com essa caminhada, ao ler, já se está fazendo o esboço do que será
escrito a respeito do texto. Pode-se dizer que, no momento da síntese,
da identificação das ideias essenciais do autor, constrói-se o resumo, no
momento da avaliação do que se leu, constrói-se a resenha e no momento
da aplicação, quando se vai utilizar as ideias assimiladas por meio da leitura
constrói-se o ensaio, o artigo, a palestra, etc. Deste modo, dependendo do
objetivo que a leitura tem para o leitor, ele pode projetar a construção de um
determinado gênero textual.
Há, portanto, uma relação estreita entre leitura e produção, desde que
se conheça a estrutura de cada um dos textos que se irá escrever.

2.2 Produção de texto como


resultado de leitura

2.2.1 Resumo
O resumo é um tipo de texto que consiste na redução fiel de outro texto,
mantendo suas ideias principais sem repetir os comentários, julgamentos e

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exemplos. A característica principal do resumo é não permitir o acréscimo


de novas ideias e avaliações a respeito do tema que está sendo lido. Logo, ao
condensar um texto, o leitor deve se ater às questões essenciais, apresentá-las
na mesma progressão em que aparecem no original e manter a correlação
entre cada uma das partes.
Segundo o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa (BECHARA, 2008),
há muitos sinônimos para a palavra “resumo”, tais como: compêndio, epí-
tome, resenha, esquema, sinopse, sumário, síntese. Apesar da semelhança no
quesito de condensamento, a estrutura de cada um é diferente.
Os mais utilizados no meio acadêmico são o resumo, o esquema, a
resenha e o fichamento, com intuito de assimilar informações e dominar
um instrumental teórico-metodológico para realizar as práticas de trabalho
intelectual, com o objetivo da produção de conhecimentos. Todos os qua-
tro tipos de textos procuram sintetizar, para registrar de uma forma concisa,
coerente e objetiva, o conhecimento adquirido pela leitura.
Como, então, fazer um resumo?
Inicia-se com a leitura atenta do texto, podendo-se usar como ajuda
a técnica de sublinhar as ideias essenciais e a técnica de esquematizar as
palavras-chave. Autores como Salomon (1999), Lakatos e Marconi (1991),
entre outros, sugerem alguns procedimentos para a atividade de sublinhar.
A técnica de sublinhar consiste em:
2 primeiramente, ler todo o texto;
2 a seguir, é necessário esclarecer dúvidas de vocabulário;
2 na sequência, reler o texto identificando as ideias principais e
sublinhando-as;
2 por fim, ler o que foi sublinhado, verificando se há sentido e, então,
reconstruir o texto, que se transformará no resumo, como veremos
no box a seguir. Porém, antes disso, é importante ressaltar que, uti-
lizando essa técnica, iremos construir um novo texto, e não efetuar
a cópia de pedaços do texto original. O resumo é um texto com
começo, meio e fim que transmite as ideias principais do texto lido.

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Leitura e escrita

Observe o exemplo de como sublinhar.

Quatro funções básicas têm sido convencionalmente atri-


buídas aos meios de comunicação de massa: informar, divertir,
persuadir e ensinar. A primeira diz respeito à difusão de notí-
cias, relatos, comentários etc. sobre a realidade, acompanhada, ou
não de interpretações ou explicações. A segunda função atende
à procura da distração, de evasão, de divertimento, por parte do
público. Uma terceira função é persuadir o indivíduo – conven-
cê-lo a adquirir certo produto, a votar em certo candidato, a se
comportar de acordo com os desejos do anunciante. A quarta
função – ensinar – é realizada de modo direto ou indireto, inten-
cional ou não, por meio de material que contribui para a forma-
ção do indivíduo ou para ampliar seu acervo de conhecimentos,
planos, destrezas, etc.
ANDRADE, M. M. de. Introdução à metodologia do trabalho científico:
elaboração de trabalho na graduação. São Paulo: Atlas, 1997. p. 38.

Após sublinhar, pode-se produzir o esquema que, além de resumir


o texto com palavras-chave, possibilita conduzir uma palestra ou uma
aula. É a espinha dorsal do texto. Se você é leitor, desconstrói o texto para
encontrar esta espinha dorsal; se você é o autor, ela é o ponto de partida
para produzi-lo.

Quatro funções básicas dos meios de comunicação de massa:


1. Informar – transmite a realidade.
2. Divertir – diverte o público.
3. Persuadir – convence o receptor a se comportar conforme os
desejos do locutor.
4. Ensinar – forma o indivíduo.

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Após sublinhar e produzir o esquema, é possível resumir o texto em


formato discursivo, mantendo as ideias principais do autor, como vemos no
modelo a seguir.

As funções básicas dos meios de comunicação de massa são qua-


tro. Informar, que fala sobre a propagação de notícias. Divertir, que
diz respeito à diversão das pessoas. Persuadir, que comenta sobre o
convencimento do interlocutor. Ensinar, que contribui para a forma-
ção do indivíduo e amplia conhecimentos.

De modo geral, costuma-se afirmar que um resumo deve se aproximar


de um terço do texto original.

2.2.2 Resenha crítica


De acordo com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT,
1990), a resenha crítica é o mesmo que o resumo crítico. Andrade (1997)
define a resenha como
[...] um tipo de resumo crítico mais abrangente, que permite
comentários e opiniões; um tipo de trabalho mais completo
que exige conhecimento do assunto, para estabelecer com-
paração com outras obras na mesma área e maturidade
intelectual para fazer avaliação e emitir juízos de valor
(ANDRADE, 1997, p. 61-67).

A resenha é um texto no qual leitor e autor têm objetivos que se aproxi-


mam: um busca e o outro fornece uma opinião crítica sobre um livro, filme,
peça teatral, enfim, todas as produções humanas.
Portanto, o resenhista apresenta, descreve e avalia uma obra a partir
de um ponto de vista que possui a respeito do assunto analisado, devendo
ser amplo e consistente. Na apresentação, identifica a obra em seus aspec-
tos de referência bibliográfica e sintetiza o assunto. Na descrição, faz o
resumo das ideais essenciais da obra. Por fim, na avaliação, o resenhista
destaca a contribuição do autor e da obra para produção de novos conhe-
cimentos na área em questão, caso seja de cunho científico, e a qualidade

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da escrita no que diz respeito à clareza na apresentação das ideias (ou a


riqueza estilística, caso seja literária. Além disso, o resenhista pode con-
frontar a obra resenhada com outras obras do mesmo tema para estabele-
cer ­comparações.
A estrutura da resenha, conforme sugerem Lakatos e Marconi (1991,
p. 245-246), apresenta-se assim:
2 referências – autor(es); título da obra; edição; local; editora e data
de publicação; número de páginas; preço;
2 credenciais do autor – informações gerais sobre o autor e sua qua-
lificação acadêmica, profissional ou especialização; títulos e cargos
exercidos; obras publicadas;
2 resumo da obra – resumo das ideias principais, descrição breve do
conteúdo dos capítulos ou partes da obra. Pensar: de que trata a
obra? O que diz? Qual sua característica principal? O autor apre-
senta ou não conclusão?
2 crítica do resenhista – como se situa o autor da obra em rela-
ção às escolas ou correntes científicas ou filosóficas e em relação
ao contexto social, econômico, político, histórico, etc.? Quanto
ao mérito da obra: qual a contribuição dada? As ideias são
originais, criativas? As abordagens do conhecimento são ino-
vadoras? Quanto ao estilo: é conciso, objetivo, claro, coerente,
preciso? A linguagem é correta? Quanto à forma: é lógica, sis-
tematizada? Utiliza recursos explicativos para elucidar o conte-
údo? Quanto a quem se destina a obra: grande público, especia-
listas, ­e studantes?
Evidentemente que, na avaliação de alguma obra, talvez não seja possí-
vel responder a todas essas questões. Elas servem como um roteiro para você
construir o seu parágrafo de avaliação da resenha.
Costuma-se dar um título à resenha, caso seja exigido. Também no pró-
prio título pode vir uma expressão que já denote a avaliação e que tenha
uma estreita relação com algum atributo mais destacado da obra, segundo
o resenhista.

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Observemos os exemplos a seguir.

Modelo de Resenha 1
[...] este é um conto que aborda um tema oculto da alma de todo
ser humano: a crueldade. Machado de Assis cria um cenário onde
o recém-formado médico Garcia conhece o espirituoso Fortunato,
dono de uma misteriosa compaixão pelos doentes e feridos, apesar de
ser muito frio, até mesmo com sua própria esposa.
Através de uma linguagem bastante acessível, que não encon­
tramos em muitas obras de Assis (*1), o texto mescla momentos de
narração – que é feita em terceira pessoa – com momentos de diálo-
gos diretos, que dão maior realidade à história.
Uma característica marcante é a tensão permanente que
ambienta cada episódio (*2). Desde as primeiras vezes em que
Garcia vê Fortunato – na Santa Casa, no teatro e quando o segue na
volta para casa, no mesmo dia – percebemos o ar de mistério que o
envolve.
Da mesma forma, quando ambos se conhecem devido ao caso
do ferido que Fortunato ajuda, a simpatia que Garcia adquire é exa-
tamente por causa de seu estranho comportamento, velando por dias
um pobre coitado que sequer conhece.
A história transcorre com Garcia e Fortunato tornando-se ami-
gos, a apresentação de Maria Luiza, esposa de Fortunato e ainda com
a abertura de uma casa de saúde em sociedade.
O clímax então acontece quando Maria Luiza e Garcia flagram
Fortunato torturando um pequeno rato, cortando-lhe pata por pata
com uma tesoura e levando-lhe ao fogo, sem deixar que morresse. É
assim que se percebe a causa secreta dos atos daquele homem: o sofri-
mento alheio lhe é prazeroso. Isso ocorre ainda quando sua esposa
morre por uma doença aguda e quando vê Garcia beijando o cadáver
daquela que amava secretamente. Fortunato aprecia até mesmo seu
próprio sofrimento.

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Leitura e escrita

É possível afirmar que este conto é um expoente máximo da téc-


nica de Machado de Assis, deixando o leitor impressionado com um
desfecho inesperado, mas que demonstra – de forma exponencial, é
verdade – a natureza cruel do ser humano. É uma obra excelente para
os que gostam dos textos de Assis, mas acham cansativa a linguagem
rebuscada usada em alguns deles (*3). [...]
GAZOLA, A. A. Resenha. Disponível em: <http://www.lendo.org/
wp-content/uploads/2007/06/a-causa-secreta-resenha.pdf>.
Acesso em: 22 nov. 2012.

No exemplo, o autor da resenha colocou críticas em três momentos


de sua análise (*1,*2 e *3, identificados em negrito). Ele não se estende na
apresentação de Machado de Assis, com base na suposição de que o autor é
conhecido por todos os leitores da resenha.

Modelo de Resenha 2
Resenha de Maria Auxiliadora Versiani Cunha,
citada por Eduardo Kenedy.

*1 (Apresentação)
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas.
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.

Psicanalista, fundador da Escola Ortogência de Chicago,


onde há mais de trinta anos lida com crianças perturbadas men-
talmente, Bruno Bettelheim revela em “A psicanálise dos contos
de fadas” os significados profundos das tramas e personagens das
histórias infantis. Mostra como esses significados vão agir direta-
mente sobre o inconsciente e pré-consciente da criança normal,
levando-a pouco a pouco a resolver seus conflitos.

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*2 (Resumo da obra)
Tais conflitos são universais, constituídos pelos dilemas eternos
que o homem enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional: a
conquista da independência em relação aos pais, a rivalidade fraterna,
a construção da identidade e da afirmação e a relação heterossexual
adulta. A dicotomização dos personagens em bons e maus, em boni-
tos e feios, facilita à criança a apreensão desses traços. Ela é levada a se
identificar com o herói bom; não por sua bondade, mas por ser ele a
própria personificação de sua problemática infantil.
Inspirada pelo herói, a criança vai ser conduzida a resolver sua
própria situação, sobrepondo-se ao medo que a inibe e enfrentando
os perigos e ameaças até alcançar o equilíbrio adulto. Assim, o efeito
terapêutico dos contos de fadas está em provocar a mobilização das
ansiedades básicas da criança, tais como o medo de abandono, o de
crescer, o de se lançar sozinha no mundo etc., para depois conduzi-la
à resolução dessas mesmas ansiedades. Bettelheim faz cuidadosa sele-
ção de contos clássicos, tratando-os na ordem aproximada do apare-
cimento na criança dos conflitos neles implícitos.
Dessa maneira, a luta do princípio de realidade contra o princípio
de prazer é vista em “Os três porquinhos”. O problema da rivalidade
entre irmãos, em “Cinderela”. O medo de ser abandonado, em “João e
Maria”. A resolução do complexo de Édipo, em “Branca de Neve”, em
“a Bela e a Fera” e em “João e o pé de feijão”.
Tais conflitos, afirma o autor, concernem unicamente o mundo
interno (ou psicológico) da criança. Não obstante, é apresentado ao
leitor como, ao ajudar uma criança a resolver esses problemas, os con-
tos reforçam sua personalidade, proporcionando maior capacidade de
adaptação ao mundo exterior.
Enquanto as histórias da moderna literatura infantil procu-
ram pintar a vida, ou “cor-de-rosa”, ou exageradamente “tecnológica”,
­Bettelheim demonstra como a mensagem dos contos de fadas é radi-
calmente outra, ensinando que, na vida real, é inevitável estar sempre
preparado para enfrentar dificuldades graves. Portanto, a criança é
levada a encontrar no conto a coragem e o otimismo necessários a

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atravessar e a vencer as numerosas crises de crescimento. A criança


chega à compreensão de que as histórias, embora irreais, não são falsas:
ocorrem não no plano do real, mas no plano das experiências inter-
nas de desenvolvimento pessoal. O autor ressalta que a finalidade dos
contos é de não deixar dúvidas quanto à necessidade de se suportar a
dor e de se correr riscos para se adquirir a própria identidade.
Os contos sugerem que, apesar de todas as ansiedades que acom-
panham tal processo, a criança pode ficar esperançosa quanto a um
final feliz.
*3 (Avaliação)
O grande interesse, a maior importância e a profunda origina-
lidade do tema são enriquecidos pela análise detalhada e sistemática
que Bettelheim faz do material dos contos, revelando segura compre-
ensão psicanalítica e clareza didática de suas conclusões. A psicanálise
dos contos de fadas é um excelente trabalho sobre a mente humana e
as intrincações de seu desenvolvimento.
Nos Estados Unidos, Bruno Bettelheim é lido por leigos e por espe-
cialistas e sua obra conta com ampla divulgação entre os estudiosos do
comportamento humano. No Brasil, não só os profissionais, como tam-
bém pais e educadores podem ficar satisfeitos por terem acesso a este
trabalho que virá, sem dúvida, constituir um marco no acervo de obras
que esclarecem a todos os que têm a difícil tarefa de orientar a infância.
Atualmente, quando tanto se fala em reformulação e renova-
ção da literatura infantojuvenil, o livro de Bruno Bettelheim se faz
indispensável no estabelecimento de um critério de avaliação do que
seja realmente literatura infantojuvenil, não mero e malsão aprovei-
tamento de uma “onda”.
*4 (Credenciais do autor da resenha)
Maria Auxiliadora Versiani Cunha. Psicóloga clínica no Rio de Janeiro.
Autora do livro Didática fundamentada na teoria de Piaget (Rio de
Janeiro, Forense-Universitária, 1976).
KENEDY, E. Resumo e resenha. Disponível em: <http://xa.yimg.com/
kq/groups/24179228/1848767481/name/Resumo+e+resenha.pdf>.
Acesso em: 31 jul. 2012.

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Nessa resenha, a autora, no item 1, apresentou o autor e a obra.


No item 2, a descreveu resumidamente; no item 3, a avaliou e, no item 4,
forneceu as credenciais.

2.2.3 Fichamento
O fichamento é o ato de registrar os estudos de um livro e/ou um texto.
O trabalho de fichamento possibilita ao estudante, além da facilidade na exe-
cução dos trabalhos acadêmicos, a assimilação do conhecimento. De acordo
com diversos autores, o fichamento deve apresentar a seguinte estrutura:
cabeçalho indicando o assunto, a referência completa da obra, isto é, a auto-
ria, o título, o local de publicação, a editora e o ano da publicação. Existem
três tipos básicos de fichamento: o fichamento bibliográfico, o fichamento
temático e o fichamento textual.
O fichamento bibliográfico, como o próprio nome esclarece, caracte-
riza-se como o resumo, resenha ou comentário no qual o autor registra a
ideia tratada no livro. É fundamental a referência completa da obra. Usa-se,
também, para coletânea de artigos ou capítulos de livros, preferencialmente
agrupando-se por área.

ANDRADE, M. M. de.; MEDEIROS, J. B. Comunicação em língua


portuguesa: para os cursos de jornalismo, propaganda e letras. 2. ed.
São Paulo: Atlas, 2000.
Esta obra tem como preocupação geral apresentar a estrutura
da língua portuguesa e oferecer noções de produção textual, especial-
mente voltados para os cursos superiores de jornalismo, publicidade
e propaganda e letras.

O fichamento temático tem como meta transcrever trechos lite-


rais da obra lida, podendo acrescentar algumas considerações do leitor.
Preferencialmente, deve-se colocar o título e subtítulos conforme a obra
original. As citações literais devem vir entre aspas e o número da página
entre parênteses.

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Leitura e escrita

Educação da mulher: a perpetuação da injustiça (p. 30-132).


S­ egundo capítulo.
TELES, M. A. de A. Breve história do feminismo no Brasil. São
Paulo: Brasiliense, 1993.
1. “uma das primeiras feministas do Brasil, Nísia Floresta Augusta
defendeu a abolição da escravatura, ao lado de propostas como a
educação e a emancipação da mulher e a instauração da Repú-
blica.” (p. 30).
2. “na justiça brasileira, é comum os assassinos de mulheres serem
absolvidos sob a defesa de honra.” (p. 132).
3. “a mulher buscou com todas as forças sua conquista no mundo
totalmente masculino.” (p. 43).

O fichamento textual capta a estrutura do texto, percorrendo a sequên-


-cia do pensamento do autor e destacando: ideias principais e secundárias;
argumentos, justificações, exemplos, fatos, etc., ligados às ideias princi-
pais. Traz, de forma racionalmente visualizável – em itens e, de preferên-
cia, incluindo esquemas, diagramas ou quadro sinóptico –, uma espécie de
“radiografia” do texto. A seguir, apresentamos uma ficha de leitura que tra-
balha os conceitos de signo e imagem, para exemplificação, retirada da obra
Como se faz uma tese, de Umberto Eco (2002), na qual você encontrará exem-
plos dos tipos de fichamento que estamos verificando.

Ficha de leitura
T. Simb
MARITAIN, Jacques.
Revue Thomiste, abril 1938, p. 299.
Na expectativa de uma pesquisa profunda sobre o tema
(da Idade Média até hoje), propõe-se chegar a uma teoria filosófica do
signo e a reflexões sobre o signo mágico.

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Leitura e Escrita na Era Digital

[insuportável como sempre: modernizar sem fazer filologia; não


se refere, por exemplo, a São Tomás, mas a João de São Tomás!].
Desenvolve a teoria deste último (ver minha ficha): “Signum est
id quod repraesentat aliud a se potentiae cognoscenti”. (Lóg II, p. 21, I).
Mas o signo não é sempre imagem e vice-versa (o filho é a ima-
gem e não signo do Pai, o grito é o signo e não imagem da dor).
Diz então Maritain que o símbolo é um signo-imagem: ­“quelque
chose de sensible signifiant un objet em raison d`une rélation
­presupposée d´analogie” (303).
Isto me deu a ideia de consultar ST. De ver. VIII, 5.
ECO, U. Como se faz uma tese. São Paulo: Perspectiva, 2002.
Grifos do autor.

Portanto, a leitura consciente seletiva e informativa é fundamental para


a pesquisa e produção textual. Como o universo acadêmico trabalha com o
registro, é preciso aliar a leitura e a escrita. É importante ressaltar que a con-
dição de produzir resumos deve ocorrer desde muito cedo na vida do estu-
dante, tal o seu papel de destaque para incorporar os conceitos estudados.

Da teoria para a prática


Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), os alunos
devem ler autonomamente diferentes textos dos diversos gêneros, desde os
anos iniciais, sabendo identificar aqueles que respondem às suas necessida-
des imediatas, e selecionar estratégias adequadas para abordá-los (BRASIL,
1997). É importante, ainda, compreender o sentido nas mensagens orais e
escritas de que é destinatário direto ou indireto, desenvolvendo sensibilidade
para reconhecer a intencionalidade implícita, especialmente nas mensagens
veiculadas pelos meios de comunicação.
Esses objetivos atingidos resultarão no desenvolvimento das capacida-
des leitoras dos alunos, que são avaliadas nos diferentes sistemas de avaliação

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Leitura e escrita

do ensino fundamental, como Exame Nacional do Ensino Médio (Enem),


Prova Brasil, Provinha Brasil e, também, no ensino superior, com o Exame
Nacional de Educação Superior (Enade). A seguir, são apresentadas algumas
questões destes exames para que se possa entender melhor o novo formato
de avaliação pela leitura e compreensão dos gêneros.

1. Prova Enade de Administração – 2009


Questão 4
Leia o trecho:
O movimento antiglobalização apresenta-se, na virada deste
novo milênio, como uma das principais novidades na arena política e
no cenário da sociedade civil, dada a sua forma de articulação/atua-
ção em redes com extensão global. Ele tem elaborado uma nova gra-
mática no repertório das demandas e dos conflitos sociais, trazendo
novamente as lutas sociais para o palco da cena pública, e a política
para a dimensão, tanto na forma de operar, nas ruas, como no con-
­teúdo do debate que trouxe à tona: o modo de vida capitalista oci-
dental moderno e seus efeitos destrutivos sobre a natureza (humana,
animal e vegetal) (GOHN, 2003).
É incorreto afirmar que o movimento antiglobalização referido
nesse trecho
a) cria uma rede de resistência, expressa em atos de desobe-
diência civil e propostas alternativas à forma atual da glo-
balização, considerada como o principal fator da exclusão
social existente.
b) defende um outro tipo de globalização, baseado na solida-
riedade e no respeito às culturas, voltado para um novo tipo
de modelo civilizatório, com desenvolvimento econômico,
mas também com justiça e igualdade social.
c) é composto por atores sociais tradicionais, veteranos nas
lutas políticas, acostumados com o repertório de protes-
tos políticos, envolvendo, especialmente, os trabalhado-
res sindicalizados e suas respectivas centrais sindicais.

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Leitura e Escrita na Era Digital

d) recusa as imposições de um mercado global, uno, voraz,


além de contestar os valores impulsionadores da sociedade
capitalista, alicerçada no lucro e no consumo de mercado-
rias supérfluas.
e) utiliza-se de mídias, tradicionais e novas, de modo relevante
para suas ações com o propósito de dar visibilidade e legi-
timidade mundiais ao divulgar a variedade de movimentos
de sua agenda.
ENADE 2009 – prova de Administração. Disponível em: <http://
public.inep.gov.br/enade2009/ADMINISTRACAO.pdf>.
Acesso em: 24 out. 2012.

2. Prova Enade de Letras – 2011


Questão 3 – formação geral

A cibercultura pode ser vista como herdeira legítima embora dis-


tante do projeto progressista dos filósofos do século XVII. De fato, ela
valoriza a participação das em comunidades de debate e argumenta-
ção. Na linha reta das morais da igualdade, ela incentiva uma forma
de reciprocidade essencial nas relações humanas. Desenvolveu-se a
partir de uma prática assídua de trocas de informações e conhecimen-
tos, coisa que os filósofos do Iluminismo viam como principal motor
do progresso. (...) A cibercultura não seria pós-moderna, mas estaria
inserida perfeitamente na continuidade dos ideais revolucionários
e republicanos de liberdade, igualdade e fraternidade. A diferença é
apenas que, na cibercultura, esses “valores” se encarnam em disposi-
tivos técnicos concretos. Na era das mídias eletrônicas, a igualdade
se concretiza na possibilidade de cada um transmitir a todos; a liber-
dade toma forma nos softwares de codificação e no acesso a múltiplas

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Leitura e escrita

comunidades virtuais, atravessando fronteiras, enquanto a fraterni-


dade finalmente, se traduzem interconexão mundial.
LEVY, P. Revolução virtual. Folha de S. Paulo. Caderno Mais,
16 ago. 1998, p. 3 (adaptado).
O desenvolvimento de redes de relacionamento por meio de
computadores e a expansão da Internet abriram novas perspectivas
para a cultura, a comunicação e a educação.
De acordo com as ideias do texto acima, a cibercultura:
a) representa uma modalidade de cultura pós-moderna de
liberdade de comunicação e ação.
b) constituiu negação dos valores progressistas defendidos
pelos filósofos do Iluminismo.
c) banalizou a ciência ao disseminar o conhecimento nas redes
sociais.
d) valorizou o isolamento dos indivíduos pela produção de
­softwares de codificação.
e) incorpora valores do Iluminismo ao favorecer o compar-
tilhamento de informações e conhecimentos.
ENADE 2011 – prova de Letras. Disponível em: <http://download.uol.
com.br/educacao/Enade2011/ENADE_2011_PROVA1_LETRAS.pdf>.
Acesso em: 24 out. 2012.

Questão 20 – específica
De ordinário, quando se diz que certo termo deve concordar
com outro, tem-se em vista a forma gramatical do termo de refe-
rência. Dúzia, povo, embora exprimam pluralidade e multidão de
seres, consideram-se, por causa da forma, como nomes no singular.
Há, contudo, condições em que se despreza o critério da forma e,

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Leitura e Escrita na Era Digital

atendendo apenas à ideia representada pela palavra, se faz a concor-


dância com aquilo que se tem em mente.
Consiste a sínese em fazer a concordância de uma palavra não
diretamente com outra palavra, mas com a ideia que esta última sugere.
SAID ALI, M. Gramática histórica da língua portuguesa. 7. ed.
Rio de Janeiro: Melhoramentos, 1971 (com adaptações).
A definição extraída de Said Ali, reproduzida acima, apresenta
uma figura de sintaxe, a sínese, identificada, na maioria das vezes, em
variantes mais populares da língua.
Assinale a opção que apresenta um exemplo desse tipo de fenô-
meno sintático.
a) A maioria dos porcos ainda estava sendo recolhidos
naquela hora.
b) Ao pobre homem mesquinho, basta-lhe um burrico e uma
cangalha.
c) Chegaram o pai, a irmã e o cunhado com uma pressa que
assustava.
d) Pretendia implantar um monopólio de café e tabaco na
região.
e) No fundo, a multidão se consolava. Para isso, pensavam
em nós mesmos.

3. Prova Enade de Pedagogia – 2011


Questão 2 – Formação geral
Exclusão digital é um conceito que diz respeito às extensas
camadas sociais que ficaram à margem do fenômeno da sociedade da
informação e da extensão das redes digitais. O problema da exclusão
digital se apresenta como um dos maiores desafios dos dias de hoje,

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Leitura e escrita

com implicações diretas e indiretas sobre os mais variados aspectos


da sociedade contemporânea.
Nessa nova sociedade, o conhecimento é essencial para aumen-
tar a produtividade e a competição global. É fundamental para a
invenção, para a inovação e para a geração de riqueza. As tecnologias
de informação e comunicação (TICs) proveem uma fundação para a
construção e aplicação do conhecimento nos setores públicos e priva-
dos. É nesse contexto que se aplica o termo exclusão digital, referente
à falta de acesso às vantagens e aos benefícios trazidos por essas novas
tecnologias, por motivos sociais, econômicos, políticos ou culturais.
Considerando as ideias do texto, avalie as afirmações a seguir:
I. Um mapeamento da exclusão digital no Brasil permite aos
gestores de políticas públicas escolher o público alvo de pos-
síveis ações de inclusão digital.
II. O uso das TICs pode cumprir um papel social, ao prover
informações àqueles que tiveram esse direito negado ou
negligenciado e, portanto, permitir maiores graus de mobi-
lidade social e econômica.
III. O direito à informação diferencia-se dos direitos sociais, uma
vez que estes estão focados nas relações entre os indivíduos e,
aquele, na relação entre o indivíduo e o conhecimento.
IV. O maior problema de acesso digital no Brasil está na defi-
citária tecnologia existente em território nacional, muito
aquém da disponível na maior parte dos países do pri-
meiro mundo.
É correto apenas o que se afirma em:
a) I e II
b) II e IV
c) III e IV
d) I, II e III
e) I, III e IV

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Leitura e Escrita na Era Digital

Com esses exemplos, fica evidente a necessidade do ensino para o


entendimento da estrutura formal e, ainda, dos objetivos de cada um dos
diferentes gêneros.

Síntese
Neste capítulo, discutimos a relação dos procedimentos de leitura e
escrita. Chegamos à conclusão de que as duas são interdependentes, ou seja,
uma boa leitura necessita de boas anotações escritas para auxiliar no domí-
nio do conhecimento que se busca.
Foram trabalhados quatro tipos de estruturas textuais de grande utili-
zação no meio acadêmico: o resumo, o esquema, a resenha e o fichamento.
De modo geral, todos podem ser classificados como resumos, cada um pos-
suindo seus próprios objetivos. Enquanto o resumo tem como meta desta-
car todas as ideias essenciais do texto, o esquema destaca somente as pala-
vras‑chave e a resenha é usada para apresentar e avaliar um determinado
texto. Já o fichamento é um texto de controle pessoal das leituras realizadas
para futuras pesquisas a respeito dos conceitos encontrados e para produção
de novos conhecimentos.
Em determinados momentos, é possível produzir um fichamento com-
pleto, no qual o leitor fará um resumo das ideias essenciais, colocará algu-
mas citações diretas e, ainda, deverá fazer uma análise pessoal dos conteúdos
estudados, no estilo de resenha.

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