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UFCD 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens

MANUAL DE FORMAÇÃO

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UFCD 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens

Introdução

A formação em ética e deontologia não é uma questão de moda. É uma questão de


prestígio e credibilidade de um grupo profissional. E, uma falta cometida por um,
repercute-se em todos. Por isso, deve-se dar a conhecer as regras deontológicas e
velar pelo seu respeito e pela elevada conduta ética de todos os colaboradores que
fazem parte de um determinado grupo profissional.
No final do módulo, os formandos deverão distinguir os conceitos de ética e
deontologia, identificar os deveres deontológicos, reconhecer e resolver dilemas éticos
correntes, reconhecer as suas próprias competências e funções, reconhecer as
competências éticas e deontológicas em relação aos seus colegas de trabalho, à
própria organização e ao público externo.
Este manual encontra-se direcionado para aqueles que futuramente pretendam exercer
atividade profissional relacionada com trabalho com crianças e jovens, que enfatiza os
conceitos de ética e moral e a sua diferença, assim como auxilia no conhecimento de
um profissional ético, as sua competências e funções, bem como compreender as
exigências éticas associadas à sua atividade.

Objetivos

 Reconhecer as exigências éticas associadas à atividade profissional no trabalho


com crianças e jovens.

 Identificar os fatores deontológicos associados à atividade profissional no


trabalho com crianças e jovens.

 Reconhecer as suas próprias competências e funções no trabalho com crianças


e jovens.

1- Ética e Deontologia profissional

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Moral

Moral é um conjunto de regras, valores e proibições vindos do exterior ao homem, ou


seja, impostos pela política, a religião, a filosofia, a ideologia, os costumes sociais, que
impõem ao homem que faça o bem, o justo nas suas esferas de atividade.
Moral é o conjunto de regras aplicadas no quotidiano e usadas continuamente por cada
cidadão. Essas regras orientam cada indivíduo, norteando as suas ações e os seus
julgamentos sobre o que é moral ou imoral, certo ou errado, bom ou mau.
Enquanto a ética implica sempre uma reflexão teórica sobre qualquer moral, uma
revisão racional e crítica sobre a validade da conduta humana (a ética faz com que os
valores provenham da própria deliberação do homem), a moral é a aceitação de regras
dadas.

Ética

A ética tem sido tradicionalmente analisada por filósofos desde o tempo dos gregos
clássicos. A palavra ética vem do grego éthos, que significa hábito ou costume,
aludindo, assim, aos comportamentos humanos. E êthos, modo de ser ou carácter.
É o domínio da filosofia responsável pela investigação dos princípios que orientam o
comportamento humano. Ou seja, que tem por objeto o juízo de apreciação que
distingue o bem e o mal, o comportamento correto e o incorreto.
Ética é uma reflexão humana sobre cada um dos nossos atos, e deve fazer parte do
nosso dia a dia, tanto como profissionais como seres humanos. A ética é uma postura
de vida relacionada com princípios gerais e universais presentes na consciência do
indivíduo. É a investigação geral sobre aquilo que é bom.
Ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na
sociedade.
A ética serve para que haja um equilíbrio e bom funcionamento social, possibilitando
que ninguém saia prejudicado. Neste sentido, a ética embora não possa ser confundida
com as leis, está relacionada com o sentimento de justiça social.
Os princípios éticos são diretrizes pelas quais o homem, enquanto ser racional e livre,
rege o seu comportamento. O que significa que a ética apresenta, em simultâneo, uma
dimensão teórica (estuda o "bem" e o "mal") e uma dimensão prática (diz respeito ao
que se deve fazer).
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Ajuda o indivíduo a explicar as razões das suas ações e a assumir as respetivas


consequências.
Ser Ético é agir de forma correta, praticar o bem sem prejudicar os outros. É ser
altruísta, é estar tranquilo com a consciência pessoal. "É cumprir com os valores da
sociedade em que vive, ou seja, onde mora, trabalha, estuda, etc."
Ética é tudo que envolve integridade, é ser honesto em qualquer situação, é ter
coragem para assumir os seus erros e decisões, ser tolerante e flexível, é ser humilde.
Todo ser ético reflete sobre suas ações, pensa se fez o bem ou o mal para o seu
próximo. Ser ético é ter a consciência "limpa".

Moral vs Ética – Diferenças e semelhanças

Moral é um conjunto de regras, valores e proibições vindos do exterior ao homem, ou


seja, impostos pela política, a religião, a filosofia, a ideologia, os costumes sociais, que
impõem ao homem que faça o bem, o justo nas suas esferas de atividade.
A Moral sempre existiu, pois todo ser humano possui uma consciência Moral que o leva
a distinguir o bem do mal. Surgindo realmente quando o homem passou a fazer parte
de sociedades primitivas, nas primeiras tribos.
Enquanto a ética implica sempre uma reflexão teórica sobre qualquer moral, uma
revisão racional e crítica sobre a validade da conduta humana (a ética faz com que os
valores provenham da própria deliberação do homem), a moral é a aceitação de regras
dadas. Em suma, a Ética teria surgido com Sócrates, pois se exige maior grau de
cultura. Ela investiga e explica as normas morais, pois leva o homem a agir não só por
tradição, educação ou hábito, mas principalmente por convicção e inteligência. Ou seja,
enquanto a Ética é teórica e reflexiva, a Moral é eminentemente prática. Uma completa
a outra.
A ética é uma análise crítica dessas regras

Ética profissional

É o conjunto de normas éticas que formam a consciência do profissional e representam


imperativos de sua conduta. Ter ética profissional é o indivíduo cumprir com todas as

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atividades de sua profissão, seguindo os princípios determinados pela sociedade e pelo
seu grupo de trabalho.
Em todas as profissões existe o cumprimento do dever logo, implicam uma ética, uma
vez que se relacionam, de uma forma ou de outra, com os seres humanos.
A ética de cada profissão depende dos deveres, ou da deontologia que cada
profissional aplica aos casos concretos qu se lhe apresentam.

Deontologia

Deriva do grego “deon” que se traduz por “o dever” e “logos” que quer dizer discurso ou
tratado. Emerge da necessidade de um grupo profissional de autorregular, mas a sua
aplicação traduz-se em regras estabelecidas num código e fiscalizadas por uma
instância superior (ordem profissional, associação, etc.).
O objetivo da deontologia é reger os comportamentos dos membros de uma profissão
para alcançar a excelência no trabalho, tendo em vista o reconhecimento pelos pares,
garantir a confiança do público e proteger a reputação da profissão. Trata-se do estudo
do conjunto dos deveres profissionais estabelecidos num código específico que, muitas
vezes, propõe sanções para os infratores. Melhor dizendo, é um conjunto de deveres,
princípios e normas reguladoras dos comportamentos exigíveis aos profissionais, ainda
que nem sempre estejam codificados numa regulamentação jurídica. Isto porque
alguns conjuntos de normas não têm uma função normativa mas, apenas reguladora
(como, por exemplo, as declarações de princípios e os enunciados de valores).
Neste sentido, a deontologia é uma disciplina da ética especialmente adaptada ao
exercício de uma profissão. Em regra, os códigos de deontologia têm por base grandes
declarações universais e esforçam-se por traduzir o sentimento ético expresso nestas,
adaptando-o às particularidades de cada profissão e de cada país. As regras
deontológicas são adotadas por organizações profissionais, que assume a função de
"legisladora" das normas e garante da sua aplicação.

Valores profissionais e códigos de ética e deontologia

As associações profissionais e algumas empresas de vários setores têm optado por


"formalizar" a ética, desenvolvendo códigos de conduta profissional - códigos de ética e
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códigos deontológicos. Os códigos de ética são um conjunto de regras que procuram


conferir uma identidade às profissões, orientando e controlando os comportamentos do
grupo a fim de manter a sua coesão e explicitam a forma como o grupo se compromete
a realizar os seus objetivos particulares de acordo com os princípios universais de
ética. Muitas vezes têm valor jurídico: são prescrições de cumprimento obrigatório para
os profissionais, sob pena de aplicação de sanções disciplinares. Têm, assim, como
finalidade principal constituir um guia para os comportamentos individuais no exercício
da profissão, evitando a ocorrência de problemas éticos.
Ao formalizar modelos de comportamento, clarificando os valores subjacentes ao
exercício da profissão, os códigos têm uma importante função sociológica, pois
conferem uma identidade aos membros de uma determinada profissão.
Por outro lado, levam os profissionais a desenvolver uma cultura comum de
responsabilidade em relação à sociedade e servem como fonte da avaliação pública de
uma profissão.
Assim, deontologia é a ética profissional ou moral profissional; conjuntos de obrigações
morais vinculadas a uma profissão; normas de conduta profissional

Em que consiste um código de ética?

Um código de ética é um acordo explícito entre os membros de um grupo social: uma


categoria profissional, um partido político, uma associação civil... O seu objetivo é
explicitar como aquele grupo social que o constitui, pensa e define sua própria
identidade política e social; e como aquele grupo social se compromete a realizar seus
objetivos particulares de um modo compatível com os princípios universais da ética.
Um código de ética começa pela definição dos princípios que o fundamentam e
articula-se em torno de dois eixos normativos: direitos e deveres.
Ao definir direitos, o código de ética cumpre a função de delimitar o perfil do seu grupo.
Ao definir deveres, abre o grupo à universalidade. Esta é a função principal de um
código de ética: a definição de deveres deve ser tal que, pelo seu cumprimento, cada
membro daquele grupo social realiza o ideal de ser humano.

Como deve ser formulado um código de ética?

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O processo de produção de um código de ética deve ser ele mesmo já um exercício de
ética. Caso contrário, nunca passará de um simples código moral defensivo de uma
corporação. A formulação de um código de ética deve, pois, envolver intencionalmente
todos os membros do grupo social que ele abrangerá e representará. Isso exige um
sistema ou processo de elaboração "de baixo para cima", do geral para o particular,
construindo-se consensos progressivos, de tal modo que o resultado final seja
reconhecido como representativo de todas as disposições morais e éticas do grupo.
Portanto, a elaboração de um código de ética realiza-se como um processo educativo
no interior do próprio grupo. E deve resultar num produto tal que cumpra, ele também,
uma função educativa e exemplar de cidadania diante dos demais grupos sociais e de
todos os cidadãos.

Quais são os limites de um código de ética?


Um código de ética não tem a força jurídica de uma lei universal. Mas deverá ter essa
força simbólica. Embora um código de ética possa prever sanções para os
incumprimentos dos seus dispositivos, estas sanções dependerão sempre da
existência de uma legislação, que lhe é juridicamente superior e, portanto, limitadora.
Por esta limitação, o código de ética é um instrumento frágil de regulação dos
comportamentos de seus membros. Essa regulação só será ética caso o código de
ética seja uma emanação da convicção íntima das pessoas envolvidas. Isso aumenta a
responsabilidade do processo de elaboração do código de ética, para que ele tenha a
força da legitimidade. Quanto mais democrático e participativo seja esse processo,
maiores as possibilidades de identificação dos membros do grupo com seu código de
ética e, em consequência, melhores as condições para a sua eficácia.

Características de um código de ética

Podendo ser definido como um documento escrito, formal que enuncia diversos
padrões morais tendo em vista orientar os comportamentos dos seus colaboradores,
carece de uma forma, que traduza de forma simples e eficaz os conceitos éticos de
cada profissão.

Assim sendo deverá possuir:


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 Especificidade

 Publicidade

 Clareza

 Revisão

 Obrigatoriedade

Especificidade diz respeito ao grau de pormenor, ser direto sobre o assunto a que se
refere para promover uma só interpretação.
Publicidade, deverá ser do conhecimento de todos quanto exercem a profissão visada
pelo código.
Clareza, de linguagem clara e de simples compreensão.
Revisão, ser revisto com a passagem do tempo e dos valores éticos da sociedade em
que se insere.
Obrigatoriedade, ser para todos os profissionais sem exceções de forma obrigatória e
se necessário com sansões coercivas se não aplicado.

Guia para uma decisão ética

O processo de decisão ética pode ser considerado uma ferramenta para qualquer
profissional que se prepare para exercer o seu julgamento face a um dilema ético e
pretenda tomar as melhores decisões possíveis. A tomada de decisão ética é uma
ferramenta muito útil quando as normas não regulam ou são insuficientes para resolver
uma dada situação e quando diferentes valores, por vezes contraditórios, devem ser
tidos em consideração.
A decisão ética tem lugar após um processo de reflexão que visa identificar os valores
em conflito para julgar os fins prosseguidos e a solução aplicável, permitindo
estabelecer se a ação a empreender permite alcançar a finalidade visada e,
simultaneamente, limitar as eventuais consequências negativas.
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Os profissionais devem possuir uma capacidade de raciocínio adequado à resolução
eficaz de situações que envolvem responsabilidades conflituantes. Numa decisão
estritamente técnica, decide-se o que se pode fazer; numa decisão ética, decide-se o
que se deve fazer, com base em normas profissionais e no raciocínio ético. O processo
decisório é basicamente o mesmo. É só mudar o pode para o deve e ponderar, além
dos aspetos técnicos, os aspetos relacionados com a responsabilidade para com as
pessoas, a sociedade e o ambiente.
A forma mais simples é identificar a ação ou decisão a tomar e articular todas as
dimensões da solução proposta. Depois, submeter esta solução a um "filtro ético", ou
seja, a um conjunto de princípios com os quais a solução se compara.
Por exemplo, o teste ético de Blanchard e Peale, citados por Mercier, consiste em
colocar as três questões seguintes para tomar uma decisão ética:

1) Isto é legal? Vai contra a lei ou a política da empresa?

2) Esta decisão é equilibrada? É válida tanto a curto como a longo prazo?

3) Ficarei orgulhoso com esta decisão?

Estas são apenas algumas pistas que podem ajudar cada um a escolher a forma mais
adequada ao seu sentido ético pessoal.

Valores fundamentais para uma decisão ética

 Ser honesto em qualquer situação

 Ter coragem para assumir as decisões

 Ser tolerante e flexível

 Ser íntegro

 Ser humilde
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O profissional ético é aquele que:

 Não protela tarefas, faz o seu trabalho, sem esperar que outro o faça.

 Admite quando não sabe realizar uma tarefa e assume a responsabilidade pelos
seus erros.

 Não fala sobre temas periféricos no ambiente de trabalho, nem fala com outras
pessoas sobre assuntos que estão abrangidos pelo sigilo profissional.

 Trata colegas, chefes, subordinados e clientes com respeito.

Qualidades importantes no exercício de uma profissão

 Responsabilidade

 Lealdade

 Iniciativa

 Honestidade

 Sigilo

 Competência

 Coragem

 Perseverança

 Compreensão

 Humildade

 Imparcialidade

 Otimismo

 Seguir um código de ética profissional

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Do Sigilo profissional

Trata de manter em segredo informação valiosa, cujo domínio de divulgação deva ser
fechado, ou seja, restrito a uma pessoa, a uma organização ou a um grupo, sobre a
qual o profissional responsável possui inteira responsabilidade, uma vez que a ele é
confiada a manipulação da informação.

A violação da confidencialidade é o desrespeito por uma determinada pessoa, é uma


irresponsabilidade do profissional, já que o seu papel é responsabilidade perante a
sociedade. Manter o sigilo profissional é ajudar o Cliente a manter a sua própria
integridade moral.

2-Dilemas éticos

Ao trabalhar com pessoas surgem conflitos éticos.   Os passos aconselhados a seguir


para resolver conflitos devem ser:

Deliberação
 A deliberação é um procedimento de diálogo, um método de trabalho quando se quer
abordar em grupo um conflito ético. Parte-se do pressuposto de que ninguém é
detentor da verdade moral e de uma vontade racional: cada um dá as suas razões e
está aberto a que os outros possam modificar o seu ponto de vista pessoal.  Algumas
condições para que se produza a deliberação:
 
•Boa vontade;
 
•Capacidade de dar razões;
 
•Respeitar os outros quando se discorda;
 
•Desejo de entendimento, cooperação e colaboração;
 
•Compromisso.
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 Atrás da atitude deliberativa está um modo de conceber o conflito ético não só como
dilema, mas também como problema. Quem vê nos conflitos somente dilemas, quando
dialoga arranca de um ponto de partida fixo (crenças, preferências…), considera as
questões éticas como algo que tem sempre de ter resposta e para as quais tem sempre
de haver uma solução apropriada, já que formula um dilema entre duas posições,
defendendo-se a que se julga mais correta. Em contrapartida, quem vê nos conflitos
éticos sobretudo problemas e não dilemas, situa-se de maneira aberta no debate ético,
considera que não tem a solução desde o início, que se pode mudar de ponto de vista,
que o ponto de chegada será decisões prudenciais e não certezas nem soluções
únicas (a ética não é matemática).

A persuasão
Frequentemente, é necessário recorrer à persuasão, particularmente perante as
negativas, principalmente quando a negativa tem repercussões indesejáveis sobre
terceiros ou graves consequências na saúde.
No entanto, é preciso atenção porque a persuasão tem uma relação próxima com a
manipulação. De preferência recomenda-se que evitem a tentativa de persuadir os
ajudados, dando maior importância aos processos de tomada de decisão autónomos
individuais.
Na relação entre o profissional e a pessoa/cliente, há situações em que podemos falar
claramente de persuasão. Está claro que, diante de um cliente que não quer lavar-se,
por exemplo, diante de uma pessoa que não quer abandonar atitudes antissociais, o
profissional terá de adotar estratégias de persuasão, mas com alguns critérios, entre os
quais os seguintes:

• A prudência e a humildade de quem não quer conduzir a vida dos outros nem se
considera dono da verdade;
• Acompanhamento na tomada de decisões responsáveis e saudáveis para si mesmo e
para os outros;
•Promoção do máximo de responsabilidade;

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•Facilitação para que as condutas sejam adotadas por razões que o ajudado encontre
dentro de si como válidas, ou descubra a sua validade, embora inicialmente venha de
fora;
 
O segredo está: - No peso dos argumentos em si - Na bondade da intenção - No modo
de induzir o outro (os meios utilizados) - Nos valores que orientam quem persuade - No
objetivo da persuasão, não centrado na lei nem na norma, mas na pessoa e as suas
possíveis repercussões sobre terceiros.
 Convém ter sempre em atenção que, a linha divisória entre a persuasão, a
manipulação e a coerção, é muito subtil. Existe coerção quando alguém, intencional e
efetivamente, influi noutra pessoa, ameaçando-a com danos indesejados e evitáveis
tão severos que a pessoa não pode resistir a não agir, a fim de evitá-los. A
manipulação, pelo contrário, consiste na influência intencional e efetiva de uma pessoa
por meios não coercivos, alterando as opções reais ao alcance de outra pessoa ou
alterando por meios não persuasivos a perceção dessas escolhas pela pessoa.
Finalmente, a persuasão é a influência intencional e conseguida de induzir uma pessoa
mediante procedimentos racionais, a aceitar livremente as crenças, atitudes, valores,
intenções ou ações defendidas pelo persuasor.  As pessoas persuasivas geram
confiança, segurança e são consideradas “credíveis” e “desinteressadas” e são, quase
sempre, pessoas assertivas, que sabe mover-se de maneira harmoniosa. Quanto às
mensagens  “persuasivas”, é preferível que sejam explicados os motivos que levam
aquela recomendação
.
Se prevemos oposição ao nosso conselho, tornar-nos-emos mais persuasivos se
começarmos com os argumentos que o apoiam para, no fim, introduzir a
recomendação. Não sendo este o caso, preferiremos iniciar sempre a nossa
intervenção diretamente pelas conclusões e, depois, argumentá-las de maneira
conveniente. Quando a opinião da criança é radicalmente diferente da nossa e não
conseguimos convencê-la, a nossa imagem sofrerá alguma desvalorização. A criança
não pode aguentar a contradição de nos julgarmos melhores que ele (ou mais bem
informados) e, ao mesmo tempo, pensarmos que é ele quem tem razão. Por
conseguinte, ele diminui essa contradição, desvalorizando a imagem que tinha de nós.

Carta de Princípios para Uma Ética Profissional,


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Perspetiva-se como expressão dos seus associados que a constituem como sua
referência ética.

Esta Carta

. afirma o profissionalismo, enquanto prática reflexiva, numa perspetiva ética;

. contribui para uma cultura de responsabilidade, a partir do interior do próprio grupo


profissional;

. consciencializa os profissionais de que o seu modo de agir tem necessariamente


consequências naqueles que encontra no decurso da sua prática profissional;

. apoia os profissionais na tomada de consciência da complexidade das situações com


que se deparam, avaliando-as e ponderando o que está em jogo, para que possam
decidir e agir de modo eticamente sustentado;

. promove uma procura ativa dos valores e princípios que estão na génese dos critérios
que sustentam as tomadas de decisão;

. constitui um instrumento que propicia a interrogação crítica das práticas, tendo em


vista o bem do outro, o bem comum;

. permite a cada profissional em função do seu contexto, um reequacionamento


permanente dos princípios nela enunciados, de modo que possa mobilizá-los ou
ampliá-los numa resposta ética.

Princípios

A APEI elege os seguintes princípios como referência ética:

. A Competência – enquanto saber integrado, cientificamente suportado e em


permanente reconstrução.

. A Responsabilidade – enquanto atitude dinâmica que permite dar resposta correta,


no sentido do bem do outro, e que exige uma mobilização pessoal atenta e solícita.

. A Integridade – enquanto conjunto de atributos pessoais que se revelam numa


conduta honesta, justa e coerente.

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. O Respeito – enquanto exigência subjetiva de reconhecer, defender e promover a
intrínseca e inalienável dignidade da pessoa.

2- Compromissos

O reconhecimento destes princípios implica a procura do sentido ético no agir pessoal


e profissional.

1. No compromisso com as crianças:

- Respeitar cada criança, independentemente da sua religião, género, etnia, cultura,


estrato social e situação específica do seu desenvolvimento, numa perspetiva de
inclusão e de igualdade de oportunidades, promovendo e divulgando os direitos
consignados na Convenção Internacional dos Direitos da Criança.

- Encarar as suas funções educativas de modo amplo e integrado, na atenção à criança


na sua globalidade e inserida no seu contexto.

- Responder com qualidade às necessidades educativas das crianças, promovendo


para isso todas as condições que estiverem ao seu alcance.

- Ter expectativas positivas em relação a cada criança, reconhecendo o seu potencial


de desenvolvimento e capacidade de aprendizagem.

- Cuidar da gestão da aproximação e da distância na relação educativa, no respeito


pela individualidade, sentimentos e potencialidades de cada criança e na promoção da
autonomia pessoal de cada uma.

- Promover a aprendizagem e a socialização numa vida de grupo cooperada,


estimulante, lúdica, situada na comunidade e aberta ao mundo.

- Garantir o sigilo profissional, respeitando a privacidade de cada criança.

- Proteger as crianças, contra abuso físico ou psicológico, mobilizando outros agentes


quando necessário.

- Garantir que os interesses das crianças estão acima de interesses pessoais e


institucionais.
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2. No compromisso com as famílias

- Respeitar as famílias e a sua estrutura, valorizando a sua competência educativa.

- Promover a participação e acolher os contributos das famílias, aceitando-as como


parceiras na ação educativa.

- Garantir a troca de informações entre a instituição e a família.

- Manter o sigilo relativamente às informações sobre a família, salvo exceções que


ponham em risco a integridade da criança.

- Disponibilizar-se para dar apoio e reunir com a família, no sentido de, em conjunto,
encontrar atitudes e práticas no que respeita à educação de cada criança.

- Assegurar uma isenção que impeça a utilização das famílias em favor de interesses
e/ou cumplicidades pessoais.

3. No Compromisso com a equipa de trabalho

- Respeitar os colegas de profissão e colaborar com todos os intervenientes na equipa


educativa, sem discriminações.

- Contribuir para o debate, a inovação e a procura de práticas de qualidade.

- Ser solidário nas decisões tomadas em conjunto e em situações problemáticas.

- Partilhar informações relevantes, dentro dos limites da confidencialidade.

- Apoiar os colegas no seu desenvolvimento profissional.

4. No Compromisso com a entidade empregadora

- Participar na construção da própria organização social em que está inserido(a)

- Colaborar com a entidade empregadora na prossecução da qualidade do serviço, do


bem-estar da criança e do respeito pelas leis.

- Cumprir com responsabilidade as funções que lhe estão atribuídas.

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- Respeitar as normas e regulamentos.

- Contribuir para o bom-nome e credibilidade da instituição.

- Tornar claro quando fala em nome do empregador ou no seu próprio nome.

5. No Compromisso com a comunidade

- Conhecer e respeitar as tradições e costumes da comunidade onde a instituição está


inserida.

- Estabelecer relações de cooperação com as diferentes entidades socioeducativas da


comunidade.

6. No Compromisso com a sociedade

- Assumir a sua condição de cidadã(o), agindo de modo informado, responsável e


coerente com o seu estatuto de profissional.

- Situar-se nas políticas públicas educativas, contribuindo para uma educação de


qualidade e para a promoção de práticas de equidade social.

- Implicar-se na valorização da função social e cultural dos profissionais de Educação


de Infância e na construção das condições estruturais que mais a dignifiquem.

- Re-equacionar a sua ação de acordo com os desafios emergentes, perspetivando-os


na ecologia da infância.

O compromisso nos domínios da atividade profissional acima enunciados é alicerçado


num modo de pensar e agir pessoal que leva a:

- Procurar uma atitude que tenha em conta valores claramente assumidos e uma
conduta que reúna atenção, respeito e confiança nos outros.

- Cuidar do seu bem-estar físico e psicológico de modo a responder adequadamente às


exigências da profissão.

- Assumir a profissão na procura de uma articulação dialógica entre o eu pessoal e o eu


profissional.

- Cuidar da sua formação contínua e estar disponível para adequar as suas práticas às
exigências de uma profissão que se quer socialmente útil e cientificamente qualificada.
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- Trabalhar em equipa, promovendo uma relação de confiança, de cooperação e uma


prática examinada.

3- Comportamentos e Atitudes

Relações interpessoais

Garantir que a relação privilegiada entre Educador/auxiliar e crianças/jovens não é


utilizada para qualquer fim partidário ou controle ideológico (ideais);

Manter relações profissionais com crianças/jovens;

Desenvolver/construir uma forma de relação positiva, balizada pelo bom senso e pelo
sentido da responsabilidade, pela educação e pelo reforço da sua auto-estima.

Resolução de conflitos

O conflito é algo inerente ao processo de aprendizagem e da própria vida, sem o qual


não nos desenvolveríamos. O conflito difere-se da violência e pode ser compreendido
como um processo envolvendo dilemas, desestabilização, testes e incertezas que todo
ser humano perpassa para evoluir. Ao invés de o professor gastar seu tempo e energia
tentando preveni-los, deve-se aproveitá-los como oportunidades para auxiliar as
crianças a reconhecerem os pontos de vista dos outros e aprenderem, aos poucos,
como buscar soluções aceitáveis para todas as partes envolvidas.

Existem formas construtivas e reflexivas de resolução, e que resultam num ambiente


cooperativo. Obviamente dependem da intervenção recorrente e formação moral do
cuidador.

Vejamos alguns exemplos a seguir.

Quando há situações de intrigas, podemos trabalhar as consequências desses atos


nas relações entre as pessoas ao pedir para que os envolvidos discorram sobre como
se sentiram.

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Se, já dominam a fala, propondo que sugiram resoluções, lembrando-se sempre de que
o importante não é a solução do conflito, mas o que se aprende no processo.

As situações de “mentira” tornam-se em oportunidades para refletir sobre a


necessidade da verdade.

Nas situações em que há agressões físicas ou verbais entre as crianças, podem ser
utilizadas para trabalhar o reconhecimento dos sentimentos e a resolução das
desavenças por meio do diálogo.

Uma manifestação da raiva é vantajosa para trabalharmos a expressão dos


sentimentos sem causar danos aos outros.

As situações de pequenos roubos ajudam para a criança ir aprendendo a não pegar o


que não lhe pertence sem autorização e perceber o significado do “emprestar“.

Situações de desrespeito e consequentemente, os sentimentos de mágoa ou raiva, são


experiências que podem demonstrar a importância de se tratar as pessoas com
respeito.

Por vezes, pode ser que não esteja adiantando a intervenção do cuidador/auxiliar,
porque as crianças estão bravas ou com raiva, nesse caso, ele pode pedir que elas se
separem até se sentirem mais calmas, podendo escutar e falar.

Conclusão:

Uma boa resolução atua sobre as causas de um conflito e não sobre as


consequências. Isso significa que o cuidador auxilia o autoconhecimento quando ajuda
as crianças a refletirem sobre seus sentimentos e tendências de reação. Muitas vezes
as intervenções descuidadas fazem apenas com que as crianças tentem esconder o
conflito, podendo este ser um contexto construtivo, mas também pode ser destrutivo
pois é a postura do professor que fará a grande diferença.

Bem-estar pessoal
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Atender aos problemas que afetam o bem-estar das crianças/jovens, tratando-os com
cuidado, dedicação e discrição;

Ética do cuidado

Para Noddings, raciocínio e julgamentos morais devem ser sempre instrumentos a


posteriori, sendo que o sentimento ou absorção – a que eu chamarei aqui de importar-
se com – é o sentido e fundamento essencial da relação de cuidado. Esse páthos em
que estão envolvidos o cuidador e o objeto do cuidado podemos, de modo
fenomenológico e, baseados na filosofia heideggeriana, chamar de Stimmung. Essa
tonalidade afetiva em que estão imersos os indivíduos da relação cuidadora é o clima
ou atmosfera principal na qual se movem os cuidadores em solicitude. Sua
característica essencial é o constante estado de disposição ou prontidão. Envolvidos
nesse sentimento de importar-se com ou, muitas vezes, reciprocidade, os cuidadores –
motivados por esse mesmo sentimento – se entregam ao cuidado genuíno.
(NODDINGS, 2003, p.20).

Ética do cuidado = Atitude de cuidado e atenção

Sigilo profissional

Algo que é confiado cuja preservação do silencio é obrigatória

Revelar o que se sabe, quando a respeito do conhecido, quem o confiou, pediu


reserva, é Quebra de Sigilo

Negligência e maus tratos

• Salvaguardar e promover os interesses e o bem-estar de todas as


crianças/jovens, protegendo-os de intimidações e de abusos físicos e psicológicos;

20
• Tomar todas as medidas para proteger as crianças/jovens de abusos sexuais;

• Comunicar às autoridades competentes (polícia, CPCJ- Comissão de Proteção


de crianças e jovens) ou à direção da escola

• Verificar a existência de maus tratos

• Falar primeiro com a criança/jovem e apoiá-la

• Conversar com a criança/jovem sem fazer perguntas diretas

O falar em primeiro lugar com os pais é considerado uma atitude incorreta, face ao
disposto na lei nº147/99, de 1 de Setembro, que a comunicação deve ser feita às
entidades policiais, às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens ou às autoridades
judiciais.

4- Compromisso com os Intervenientes

Compromisso com as crianças e jovens

- Respeitar cada criança, independentemente da sua religião, género, etnia, cultura,


estrato social e situação específica do seu desenvolvimento, numa perspetiva de
inclusão e de igualdade de oportunidades, promovendo e divulgando os direitos
consignados na Convenção Internacional dos Direitos da Criança.

- Encarar as suas funções educativas de modo amplo e integrado, na atenção à criança


na sua globalidade e inserida no seu contexto.

- Responder com qualidade às necessidades educativas das crianças, promovendo


para isso todas as condições que estiverem ao seu alcance.

- Ter expectativas positivas em relação a cada criança, reconhecendo o seu potencial


de desenvolvimento e capacidade de aprendizagem.

- Cuidar da gestão da aproximação e da distância na relação educativa, no respeito


pela individualidade, sentimentos e potencialidades de cada criança e na promoção da
autonomia pessoal de cada uma.
UFCD 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens

- Promover a aprendizagem e a socialização numa vida de grupo cooperada,


estimulante, lúdica, situada na comunidade e aberta ao mundo.

- Garantir o sigilo profissional, respeitando a privacidade de cada criança.

- Proteger as crianças, contra abuso físico ou psicológico, mobilizando outros agentes


quando necessário.

- Garantir que os interesses das crianças estão acima de interesses pessoais e


institucionais.

Compromisso com as famílias

- Respeitar as famílias e a sua estrutura, valorizando a sua competência educativa.

- Promover a participação e acolher os contributos das famílias, aceitando-as como


parceiras na ação educativa.

- Garantir a troca de informações entre a instituição e a família.

- Manter o sigilo relativamente às informações sobre a família, salvo exceções que


ponham em risco a integridade da criança.

- Disponibilizar-se para dar apoio e reunir com a família, no sentido de, em conjunto,
encontrar atitudes e práticas no que respeita à educação de cada criança.

- Assegurar uma isenção que impeça a utilização das famílias em favor de interesses
e/ou cumplicidades pessoais.

Compromisso com a equipa

- Respeitar os colegas de profissão e colaborar com todos os intervenientes na equipa


educativa, sem discriminações.

- Contribuir para o debate, a inovação e a procura de práticas de qualidade.

- Ser solidário nas decisões tomadas em conjunto e em situações problemáticas.

22
- Partilhar informações relevantes, dentro dos limites da confidencialidade.

- Apoiar os colegas no seu desenvolvimento profissional.

Compromisso com a entidade empregadora

- Participar na construção da própria organização social em que está inserido(a)

- Colaborar com a entidade empregadora na prossecução da qualidade do serviço, do


bem-estar da criança e do respeito pelas leis.

- Cumprir com responsabilidade as funções que lhe estão atribuídas.

- Respeitar as normas e regulamentos.

- Contribuir para o bom nome e credibilidade da instituição.

- Tornar claro quando fala em nome do empregador ou no seu próprio nome.

Compromisso com a comunidade e com a sociedade em geral

- Conhecer e respeitar as tradições e costumes da comunidade onde a instituição está


inserida.

- Estabelecer relações de cooperação com as diferentes entidades socioeducativas da


comunidade.

- Assumir a sua condição de cidadã(o), agindo de modo informado, responsável e


coerente com o seu estatuto de profissional.

- Situar-se nas políticas públicas educativas, contribuindo para uma educação de


qualidade e para a promoção de práticas de equidade social.

- Implicar-se na valorização da função social e cultural dos profissionais de Educação


de Infância e na construção das condições estruturais que mais a dignifiquem.

- Re-equacionar a sua ação de acordo com os desafios emergentes, perspetivando-os


na ecologia da infância.
UFCD 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens

5- Acompanhante de crianças e jovens – O profissional

O Perfil do/a cuidador de crianças e jovens

Cuidar, apoiar, vigiar e acompanhar crianças e jovens até aos 18 anos, colaborando na
execução de atividades lúdico-pedagógicas, de vida diária e de lazer, promovendo o
seu bem-estar e desenvolvimento integral, no respeito pelos princípios e deontologia
profissional.

Cuidar de crianças e jovens durante as suas atividades quotidianas e de tempos livres,


garantindo a sua segurança e bem-estar e promovendo o seu desenvolvimento
adequado.

Funções do/a cuidador/a de crianças e jovens

1. Auxiliar na realização de atividades e tarefas diárias a desenvolver com crianças


e jovens nos diferentes contextos de atuação.

2. Colaborar com o/a responsável pelas atividades lúdico-pedagógicas, na sua


execução, em função das temáticas e conteúdos a desenvolver.

3. Vigiar, acompanhar e apoiar crianças e jovens, no desenvolvimento e realização


de atividades programadas, garantindo e promovendo a sua segurança em todos os
momentos.

4. Organizar refeições, bem como apoiar crianças e jovens durante o período de


refeições.

5. Acompanhar e apoiar crianças e jovens nas atividades de higiene pessoal.

6. Assegurar as condições de higiene, segurança e organização do local onde as


crianças e jovens se encontram, bem como dos materiais utilizados.

24
7. Detetar e informar quem exerce as responsabilidades parentais, de eventuais
problemas de saúde e de desenvolvimento ou outros respeitantes ás rotinas diárias da
crianças e jovens.

8. Registar e reportar superiormente ocorrências.

Cuidador/a de crianças e jovens (Saber – Ser / Saber – Fazer)

1. Respeitar os aspetos éticos e deontológicos da profissão

2. Agir e fazer agir, em conformidade com as normas e procedimentos de segurança,


higiene, saúde e de proteção do ambiente

3. Demonstrar estabilidade emocional e autocontrolo

4. Demonstrar segurança e confiança

5. Revelar capacidade de observação

6. Revelar compreensão e sensibilidade

7. Comunicar de forma clara, precisa, persuasiva e assertiva

8. Estabelecer relações interpessoais empáticas

9. Trabalhar em equipa

10. Gerir conflitos

11. Adaptar-¬se à criança ou ao jovem e à sua família

12. Motivar as crianças e jovens para as atividades planeadas

Diferentes campos de atuação:

Cuidar de crianças em Atividades de Tempos Livres (ATL).

 Acompanhar e apoiar as crianças no desenvolvimento de atividades de


tempos livres, tendo em conta a idade das crianças e a programação
estabelecida;
UFCD 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens

 Preparar e dar as refeições ou auxiliar as crianças durante o período de


refeição;

 Ajudar as crianças nas suas tarefas de higiene pessoal e a vestirem-se;

 Acompanhar as crianças em deslocações e transporte para a realização de


atividades fora do espaço do ATL;

 Vigiar as crianças, garantindo e promovendo a sua segurança em todos os


momentos.

Cuidar de crianças no domicílio.

 Acompanhar e apoiar as crianças no desenvolvimento das atividades


quotidianas, tendo em conta a idade e as características das crianças;

 Preparar e dar as refeições ou auxiliar as crianças durante o período de


refeição, respeitando os seus horários e rotinas;

 Ajudar as crianças nas suas tarefas de higiene pessoal, respeitando os seus


horários e rotinas;

 Deitar as crianças e vigiá-las enquanto dormem;

 Acompanhar as crianças aos jardins, parques infantis e outros locais ao ar


livre;

 Vigiar as crianças, garantindo e promovendo a sua segurança em todos os


momentos.

Cuidar de crianças em creches, jardins de infância e estabelecimentos similares.

 Vigiar as crianças nas salas de aula, nos espaços de recreio, de repouso e


de refeições, garantindo e promovendo a sua segurança em todos os
momentos;

26
 Preparar e dar as refeições ou auxiliar as crianças durante o período de
refeição;

 Prestar cuidados de higiene pessoal às crianças e auxiliá-las nestas tarefas e


a vestirem-se, de acordo com a idade e estado de desenvolvimento da
criança;

 Acompanhar as crianças em passeios, excursões, visitas de estudo e outros


locais de desenvolvimento de atividades complementares.

Devemos ainda:

Assegurar as condições de higiene, segurança e organização do local onde as


crianças se encontram, bem como, dos brinquedos e outros materiais utilizados.

Informar os encarregados de educação e/ou o/a educador responsável pelas


crianças sobre eventuais problemas de saúde ou outros respeitantes às suas
rotinas diárias.

Exigências em relação a si próprio e às suas funções.

Eis as aptidões mais desejadas:

 Identificar problemas, encontrar soluções e tomar decisões de forma rápida e


eficaz.

 Responsabilidade na tomada de decisões e ações

 Respeito pela dignidade da pessoa humana - A relação entre o


PROFISSIONAL/UTENTE recai na forma como o profissional deve tratar o
utente, com respeito, como uma pessoa que tem o direito de tomar as suas
decisões de ser autodeterminado e que merece a defesa ou a confidencialidade
das suas informações.

 Valorização pessoal e profissional dos colegas - encorajar e contribuir de forma


ativa para a valorização pessoal e profissional dos colegas de trabalho,
UFCD 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens

prestando orientação, auxílio e conselho, sempre que pressinta abertura para tal
e esteja ao seu alcance fazê-lo.

 Consideração por sugestões, problemas e necessidades dos outros - Tomar em


consideração, sempre que seja devido e lhe incumba, ideias, sugestões,
problemas e necessidades dos outros.

 Exercício da liberdade com responsabilidade no trabalho - Promover o exercício


da liberdade com responsabilidade no trabalho, o desenvolvimento da
personalidade, a formação do carácter, o sentido da eficiência e da
autodisciplina, nas relações de trabalho.

 Uso correto de materiais e equipamentos

 Discernimento de julgamento em eventuais situações de conflito. O importante


em situações de conflito é manter a lucidez e a coerência, respeitando sempre o
diferente, sem, no entanto, imitá-lo ou agir de forma contraditória com tudo que
faz parte da essência individual de cada pessoa.

  Distanciamento e objetividade na análise são dois fatores importantes.

 Respeito e confiança – Privilegiar a clareza e a objetividade na comunicação, de


modo a preservar uma permanente relação de respeito e confiança mútuos entre
o trabalhador e a pessoa com quem contacta.

Não discriminação de idade, sexo, cor, raça, credo religioso, ascendência, entre outras,
no trabalho.

As exigências da acompanhante de crianças só são superadas pelo prazer e


responsabilidade de construir um ser humano. É no quotidiano dos gestos simples e
continuados que se pode fazer a diferença.

Para se ser um bom agente educativo não chega gostar de crianças é preciso gostar
do desenvolvimento. Só desta forma, aceitando que para haver um desenvolvimento
pleno e absoluto, vamos travar batalhas contra a inércia, vamos insistir nas regras que
constroem estrutura, vamos ficar do tamanho de cada criança e mostrar-lhes as
maravilhas do conhecimento.

28
6- Direitos da Criança: Convenção sobre os Direitos da Criança

A Convenção dos Direitos da Criança é o mais ratificado de todos os tratados sobre


direitos humanos. O seu esboço foi iniciado em 1979, no Ano Internacional da Criança,
por um grupo estabelecido pela Comissão dos Direitos Humanos. O tratado resultante
desta Convenção foi aceite por unanimidade e adotado pela Assembleia Geral das
Nações Unidas de 20 de Novembro de 1989, estando tudo pronto para a sua
assinatura a 26 de Janeiro de 1990.

Nesse dia, 61 nações assinaram este documento, mas só passados alguns meses,
após se ter efetuado o número de ratificações por Estados exigido pelos estatutos da
ONU, a Convenção teve força legal.

1.ºToda criança será beneficiada por estes direitos, sem nenhuma discriminação de
raça, cor, sexo, língua, religião, país de origem, classe social ou situação económica.
Toda e qualquer criança do mundo deve ter seus direitos respeitados!

2.ºTodas as crianças têm direito a proteção especial e a todas as facilidades e


oportunidades para se desenvolver plenamente, com liberdade e dignidade. As leis
deverão ter em conta os melhores interesses da criança.

3.ºDesde o dia em que nasce, toda a criança tem direito a um nome e uma
nacionalidade, ou seja, ser cidadão de um país.

4.ºAs crianças têm direito a crescer e criar-se com saúde. Para isso, as futuras mães
também têm direito a cuidados especiais, para que seus filhos possam nascer
saudáveis. Todas as crianças têm também direito a alimentação, habitação, recreação
e assistência médica.

5.ºCrianças com deficiência física ou mental devem receber educação e cuidados


especiais exigidos pela sua condição particular. Porque elas merecem respeito como
qualquer criança.

6.ºToda a criança deve crescer num ambiente de amor, segurança e compreensão. As


crianças devem ser criadas sob o cuidado dos pais, e as mais pequenas jamais
deverão separar-se da mãe, a menos que seja necessário (para bem da criança). O
UFCD 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens

governo e a sociedade têm a obrigação de fornecer cuidados especiais para as


crianças que não têm família nem dinheiro para viver decentemente.

7.ºToda a criança tem direito a receber educação primária gratuita, e também de


qualidade, para que possa ter oportunidades iguais para desenvolver as suas
habilidades. E como brincar também é uma boa maneira de aprender, as crianças
também têm todo o direito de brincar e de se divertir!

8.ºSeja numa emergência ou acidente, ou em qualquer outro caso, a criança deverá


ser a primeira a receber proteção e socorro dos adultos.

9.ºNenhuma criança deverá sofrer por negligência (maus cuidados ou falta deles) dos
responsáveis ou do governo, nem por crueldade e exploração. Não será nunca objeto
de tráfico (tirada dos pais e vendida e comprada por outras pessoas). Nenhuma criança
deverá trabalhar antes da idade mínima, nem deverá ser obrigada a fazer atividades
que prejudiquem sua saúde, educação e desenvolvimento.

10.º Direito a crescer dentro de um espírito de solidariedade, compreensão, amizade e


justiça entre os povos.

 Respeito pelo superior interesse da criança

Todas as decisões que digam respeito à criança devem ter plenamente em conta o seu
interesse superior. O Estado deve garantir à criança cuidados adequados quando os
pais, ou outras pessoas responsáveis por ela não tenham capacidade para o fazer.

 Dever de zelo

Dever de zelar, ou seja, de cuidar da pessoa, ter consideração pela pessoa

O zelo é o grau máximo de responsabilidade individual

O zelo exige o entusiasmo pela tarefa e este o uso de todas as forças energéticas do
ser, aplicadas no sentido de materializar, pelo trabalho, o amor que se tem por
trabalhar.

 Dever de transparência e informação á família


30
A importância da clareza e precisão das informações manifestadas por meio de
qualquer que seja o contacto estabelecido entre o cuidador e a família, de modo a
evitar quaisquer “falhas”.

 Respeito pelas diferenças religiosas, culturais e socioeconómicas da criança e


da sua família

Entender que, todas as pessoas, tem o seu valor, independentemente da sua religião,
da sua cultura ou da sua situação socioeconómica.

 Dever de colaboração com família na procura de soluções

Disponibilizar-se para dar apoio e reunir com a família, no sentido de, em conjunto,
encontrar atitudes e práticas no que respeita à educação de cada criança.

Sistema de proteção de crianças e jovens em risco

Nos termos da lei, os maus tratos têm duas formas de proteção, nomeadamente a
proteção tutelar, que protege a criança/jovem dessas situações, e a proteção penal,
que responsabiliza criminalmente o perpetrador dos abusos.

O sistema de intervenção/ proteção, e à luz da lei de proteção de crianças e jovens em


perigo (Lei 147/99) é constituído por diversas fases, sendo a primeira o momento da
suspeita ou deteção da situação de risco, passando depois por diferentes
procedimentos, podendo-se destacar alguns deles, como a sinalização, avaliação e
investigação, diagnóstico, medidas de promoção dos direitos e de proteção, e ainda a
fase da coordenação e acompanhamento do caso.

A suspeita de deteção, idealmente precoce, é muito importante na ajuda à criança ou


jovem que está a ser vítima de maus tratos, ou está em risco de o ser.

As situações de risco podem ser detetadas nos hospitais, centros de saúde, escolas,
em casa, ou noutros locais extrainstitucionais.

A sinalização, que é o ato de dar conhecimento de uma situação ou de uma suspeita


de maus tratos, pode ser feita por qualquer pessoa, incluindo a própria vítima.
Genericamente, e de acordo com a lei em vigor, a sinalização destes casos deve ser
UFCD 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens

feita às CPCJ, às entidades policiais ou ao Ministério Público junto do tribunal da


residência do menor.

O Superior interesse da criança

“O Superior Interesse da Criança na perspetiva do respeito pelos seus direitos

 “A criança gozará de proteção especial e deverão ser-lhe dadas oportunidades e


facilidades através da lei e outros meios para o seu desenvolvimento psíquico, mental,
espiritual e social num ambiente saudável e normal e em condições de liberdade e
dignidade. Na elaboração das leis com este propósito, o superior interesse da criança
constituirá a preocupação fundamental.”
Princípio 2º da Declaração dos Direitos da Criança de 1959

“Todas as decisões relativas a crianças, adotadas por instituições públicas ou privadas


de protcção social, por tribunais, autoridades administrativas, ou órgãos legislativos,
terão primacialmente em conta o interesse superior da criança.”
Artigo 3º da Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989
O Instituto de Apoio à Criança e um conjunto de personalidades levaram a cabo uma
reflexão sobre o conceito legal de interesse superior da criança, enquanto sujeito
autónomo de direitos.

A propósito de diversas e sucessivas decisões, quer administrativas, quer judiciais


tornadas públicas, a sociedade portuguesa tem sido confrontada com apreciações
divergentes sobre o conteúdo do conceito legal de “interesse superior da criança",
traduzidas em interpretações opostas dos preceitos legais, circunstâncias que não
favorecem, antes colidem com a necessidade de garantir a segurança jurídica, valor
essencial num Estado de Direito.

O princípio do “interesse superior da criança" é fundamental no sistema jurídico do


nosso País e consta dos textos convencionais mais relevantes sobre a criança,
considerada hoje sujeito de direito e de direitos, designadamente do artº 3º da

32
Convenção sobre os Direitos da Criança, que em 20 de Novembro de 2007 completou
18 anos.

A legislação nacional, os direitos e os conceitos de perigo e de superior interesse da


criança

Na busca da concretização do mencionado princípio, tem-se procurado enunciar o


conjunto de direitos da criança cuja violação ou desrespeito permite antever uma
situação de prejuízo ou perigo, por forma a ponderar se a sua verificação merece,
designadamente, a aplicação de medidas de proteção que afastem o perigo para a
saúde, segurança, formação moral ou educação da criança, sempre visando a
prossecução do seu desenvolvimento integral, bem jurídico garantido pelo artº 69º da
Constituição da República.

A consagração legal do direito da criança à preservação das suas ligações psicológicas


profundas, nomeadamente no que concerne à continuidade das relações afetivas
estruturantes e de seu interesse tem sido, há mais de duas décadas, reconhecida com
base na interpretação sistemática das normas vigentes.

O reconhecimento deste direito da criança resulta do aprofundamento dos


conhecimentos científicos, adquiridos a partir das evidências comprovadas por
especialistas da infância, designadamente nas áreas da Medicina, da Psicologia e das
Ciências Sociais, os quais asseguram que o respeito por esse direito é indispensável
para a saúde mental da criança e para o desenvolvimento harmonioso da sua
personalidade.
São as relações de afeto que garantem a segurança e os vínculos que medeiam a
organização de uma arquitetura neuronal e sináptica afim daquelas relações desde os
primeiros dias de vida.

Por isso, o meio mais seguro e eficaz de atingir o verdadeiro alcance do conceito legal
de superior interesse da criança, que, por natureza, será sempre algo indefinido, é
procurar enunciar um maior número de direitos da criança que sejam entendidos como
fundamentais para o seu desenvolvimento integral.

Daniel Sampaio, salientou recentemente que: “Em todos estes casos, a opinião da
criança ou do jovem é pouco ou nada solicitada, decidindo-se o seu destino sem os
UFCD 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens

ouvir.

Esta situação não pode manter-se e é urgente clarificar o conceito de “superior


interesse da criança", que toda a gente utiliza, mas que muitas vezes não põe em
prática: por isso, é preciso defini-lo na lei, garantindo os direitos da criança e a sua
opinião sobre o próprio futuro, em todas as situações em que este esteja em jogo.

Ouvir a criança ou o adolescente não pode, contudo, ser feito sem prudência: a opinião
dos mais novos é importante, mas não pode ser a única fonte para as decisões
judiciais (...)

 “Toda a criança precisa vitalmente de figuras parentais que a confortem, a estimulem e


a amem de um modo especial, sejam ou não os pais biológicos; um casal, se contiver
no seu cerne um projeto de promoção do bem-estar e do desenvolvimento de crianças,
se se sentir implicado e se preocupar em criar condições de crescimento e
amadurecimento para as gerações seguintes passa a ser uma família, ainda que possa
não ter filhos próprios. Ser família é sentir a capacidade de construir projetos sólidos de
futuro para as crianças e para os jovens”.

Maus tratos a crianças e jovens

A Lei 147/99 (n.º 2 do artigo 3.º) considera que uma criança ou o jovem está em perigo
quando, se encontra numa das seguintes situações:

• está abandonada ou vive entregue a si própria;

• sofre maus tratos físicos ou psíquicos ou é vítima de abusos sexuais;

• não recebe os cuidados ou a afeição adequada à sua idade e situação pessoal;

• é obrigada a atividade ou trabalhos excessivos ou inadequados à sua idade,


dignidade e situação pessoal ou prejudiciais à sua formação ou
desenvolvimento;

34
• está sujeita, de forma direta ou indireta, a comportamentos que afetem
gravemente a sua segurança ou o seu equilíbrio emocional;

• assume comportamentos ou se entrega a atividades ou consumos que afetem


gravemente a sua saúde, segurança, formação, educação ou desenvolvimento
sem que os pais, o representante legal, ou quem tenha a guarda de factos, se
lhes oponham de modo adequado a remover essa situação.

Os maus tratos em crianças e jovens constituem um grave problema social que resulta
de alguns fatores:

• as variações do conceito de maus tratos, nomeadamente ao nível de questões


culturais, socioeconómicas e relacionadas com a área profissional que aborda o
assunto;

• Problemas de precariedade socioeconómica, alcoolismo, baixa formação escolar


ou stress, que estão frequentemente associados aos maus tratos físicos, que
acabam por adquirir maior visibilidade relativamente a outras formas de
violência, como os maus tratos emocionais, mais característicos dos núcleos
socioeconomicamente favorecidos, em que a deteção do mau trato muitas vezes
é dificultada devido à maior quantidade de recursos que visam, em último caso,
a ocultação das situações;

Os maus tratos podem ser definidos como qualquer forma de tratamento físico e/ou
emocional, não acidental e inadequando, que resulta de disfunções e/ou carências
nas relações entre crianças e jovens no contexto de uma relação de
responsabilidade, confiança e/ou poder.

Podem manifestar-se através de comportamentos ativos (físicos, emocionais ou


sexuais) ou passivos (omissão ou negligência nos cuidados e/ou afetos):

• Privando a criança ou jovem dos seus direitos e liberdades, afetando a sua


saúde, desenvolvimento e dignidade.

• Esses comportamentos devem ser analisados tendo em conta a cultura e época


em que têm lugar, podendo observar-se em diferentes contextos,
nomeadamente o familiar, social e institucional.
UFCD 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens

As crianças e jovens podem então, ser maltratados por um ou ambos os pais, por
outros familiares ou cuidadores, por uma pessoa conhecida ou por um estranho,
sendo estes adultos ou jovens mais velhos

A negligência, é definida como sendo um comportamento regular relativamente aos


cuidados a ter com o menor, não lhe sendo proporcionadas as necessidades
básicas, em termos por exemplo de higiene, alimentação, segurança, educação,
saúde, afeto, estimulação e apoio.

Este tipo de mau trato pode ser voluntário ou involuntário.

Outro tipo de mau trato é o abuso sexual, que se traduz pelo envolvimento da
criança em práticas que têm como objetivo a gratificação ou satisfação sexual do
adulto ou jovem mais velho, numa posição de poder ou autoridade sobre aquele.

• O abuso sexual pode ser intra ou extrafamiliar (sendo o primeiro mais


frequente) e ocasional ou repetido, ao longo da infância.

O mau trato emocional, sendo este um ato intencional caracterizado pela ausência
ou inadequação, persistente ou significativa, ativa ou passiva, do suporte afetivo e
do reconhecimento das necessidades emocionais da criança ou jovem.

• Pode manifestar-se através de insultos verbais, humilhação, ridicularização,


desvalorização, hostilização, ameaças, indiferença, discriminação, rejeição,
abandono temporário, culpabilização, críticas, envolvimento em situações de
violência doméstica extrema ou repetida, entre outros.

• Este tipo de mau trato está associado a todas as outras situações de maus
tratos, devendo apenas ser considerado isoladamente quando constituir a única
forma de abuso.

Em síntese:

Considerando os princípios fundamentais proclamados na Declaração dos Direitos da


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Criança, na Convenção sobre os Direitos da Criança e na Constituição da República,
que reconhecem à Criança o direito a um integral e harmonioso desenvolvimento da
sua personalidade, em ambiente familiar, numa atmosfera de felicidade, amor e
compreensão.

Conscientes de que nos termos do artº 3º da Convenção, o "superior interesse da


criança" deve ser a consideração fundamental, sempre que uma decisão administrativa
ou judicial se revela necessária, no sentido de assegurar o bem-estar físico e psíquico
da criança.

Reconhecendo que a estruturação da personalidade do ser humano se baseia na


vinculação psicológica e nas relações profundas de afeto que se estabelecem nos
primeiros meses e nos primeiros anos de vida entre a criança e aqueles que dela
cuidaram, assumindo responsabilidades parentais e que são as suas figuras de
referência,

Considerando que, de acordo com os conhecimentos científicos atuais, a


descontinuidade das relações afetivas na criança conduz a sérios prejuízos no seu
desenvolvimento, provocando dor e sofrimento psíquico de grande dimensão,

Reconhecendo, com base nestes princípios, o direito da criança ao respeito pelas suas
ligações psicológicas profundas e pela preservação das relações afetivas gratificantes
e de seu interesse.

Considerando, por outro lado, que o reconhecimento do poder paternal como um direito
caracterizado como um poder funcional, a exercer no interesse primordial do filho, deve
conduzir simultaneamente à sua limitação, no caso de não exercício prolongado da
função parental.

Relembrando o direito da criança, com capacidade de revelar os seus sentimentos e a


sua vontade, à livre expressão do seu pensamento e à participação nas decisões que
lhe dizem respeito, consagrado nos artºs 12º e 13º da Convenção e no artº 3º ai. i) da
Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo, e já interpretado pelo Tribunal
Europeu dos Direitos Humanos.”
UFCD 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens

Em suma,

Vivemos num mundo complexo, global, tecnológico, intercultural. Numa sociedade


dominada pelas redes de informação e comunicação, onde a legitimidade decisória já
não vem da hierarquia mas do consenso, onde o desenvolvimento depende da
confiança e de valores como a cooperação e participação de todos, e, por isso,
necessitamos de valores e critérios de atuação universais.
Neste mundo, a prática de qualquer profissão é confiada a indivíduos qualificados, com
a responsabilidade de exercer os seus conhecimentos e capacidades para promover o
aumento do bem-estar e da qualidade de vida das pessoas. Mais do que
trabalhadores, os profissionais são cidadãos com um papel ativo na promoção de um
mundo melhor, capacitados para lidar com os novos problemas com que hoje somos
confrontados, designadamente problemas culturais, urbanos ou ecológicos.
Atualmente, temos uma maior consciência da nossa ligação com o mundo e do facto
de sermos todos responsáveis por ele. Por isso, ganhámos também uma maior
consciência da necessidade de um diálogo entre as várias profissões para harmonizar
as diversas abordagens sectoriais. E nisso a ética desempenha um papel fundamentaI.
Porque a construção de comunidades sustentáveis a nível social, cultural e físico,
depende da capacidade de pensar e dialogar sistemicamente. E a ética fornece esse
quadro de referência que nos permite conjugar esforços num mesmo sentido, tem uma
função unificadora porque torna claro que todos têm o direito e o dever de contribuir
para uma vida melhor.

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