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UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ

PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA JUNGUIANA


DISCIPLINA: “ALQUIMIA EM PSICOLOGIA ANALÍTICA”
PROFESSOR: JORGE LUIZ DE OLIVEIRA BRAGA

KARLA PUSTILNICK

ALQUIMIA E PSICOLOGIA ANALÍTICA – Uma análise sobre


a natureza e a necessidade de articulação entre alquimia
e a Teoria de Carl Gustav Jung.

RIO DE JANEIRO – RJ
2020
RESUMO

Trabalho de conclusão da disciplina “Alquimia em Psicologia


Analítica”, do Curso de pós-graduação em Psicologia Analítica Junguiana.
Este trabalho consiste de uma reflexão pessoal sobre:
• o Objetivo Geral desta disciplina, em que o autor discorre sobre a
natureza e a necessidade de articulação entre Alquimia e a Teoria de
Carl Gustav Jung;
• e um dos Objetivos Específicos que, na opinião do autor, melhor
represente essa articulação; incluindo o que o autor viu, ouviu e
sentiu com Alquimia que o ajudou a compreender o modelo proposto
por Jung.
REFLEXÃO PESSOAL SOBRE OBJETIVO GERAL

O objetivo geral da disciplina Alquimia em Psicologia Analítica:


• apreender as razões que levaram C. G. Jung e seus seguidores
a se apropriar das imagens, símbolos e representações
inerentes a Alquimia para expressar alguns dos mais
relevantes aspectos da concepção de psique, processo de
individuação e o trabalho analítico.

A alquimia parece ter ocupado lugar de destaque na vida de Jung,


seja pela quantidade seja pela importância dos escritos que ele dedicou a
este tema.
Jung descobriu a alquimia de forma absolutamente empírica, quando
observou que nos sonhos de seus pacientes apareciam regularmente
certos simbolismos que não compreendia. Entretanto, num determinado
momento, observando velhos textos sobre alquimia, Jung observou uma
relação e um paralelismo surpreendente com o material com o qual
trabalhava. A partir daí, mediante a observação de sonhos, visões,
alucinações e outras manifestações, passou-se a considerar de maneira
utilizável os fenômenos do inconsciente (VON FRANZ, 1998).
Embora Jung tenha feito inicialmente o uso dos simbolismos
alquímicos para a interpretação de sonhos de seus pacientes, a teoria da
alquimia se tornou fundamental em sua abordagem psicológica, sendo
importante para a formulação de conceitos como o Self, processo de
individuação, sincronicidade e inconsciente coletivo. Teria sido a partir de
1929, através do contato com o texto de alquimia chinesa “O Segredo da
Flor de Ouro” que Jung teria se interessado, de fato, pelo tema. Além das
contribuições da alquimia para a estruturação da psicologia analítica, Jung
também buscou, através de sua psicologia, fundamentar a origem das
alegorias alquímicas assim como a sua teoria.
Os ensinamentos práticos e teóricos apresentados pela alquimia
dizem respeito à transformação, aperfeiçoamento e transmutação da
matéria, representada na transmutação de metais simples em ouro, e na
elaboração do elixir da longa vida, considerada a substância curativa de
todos os males, responsável pela conquista da vida eterna. Chegar à
pedra filosofal seria a meta, o objetivo do opus alquímico.
Compreendo os relatos dos processos alquímicos aos quais se
submeteria a matéria prima a ser transformada como sendo, eles
mesmos, uma metáfora já que não seria absolutamente seguro ao
alquimista controlar tais processos nem prever o resultado final de seus
experimentos. A metáfora alquímica junguiana parece ser o resultado de
um processo metafórico que constitui o processo alquímico em si mesmo.
Entendo que Jung se aprofundou na simbologia alquímica, tentando
mostrar o significado oculto dos símbolos e sua importância no processo
de realização do si-mesmo, da essência do ser, isto é, no processo de
individuação. A visão larga, profunda e aberta de Jung ao aplicar
elementos da alquimia ao processo de individuação representam a busca
da perfeita realização da pessoa humana, onde a metáfora alquímica age
de modo a iluminar o processo de integração psíquica.

A denominação “processo de individuação” seria uma referência de


Jung à tendência subjacente a toda a atividade psíquica de mover-se para
a totalidade e equilíbrio. Meu entendimento é que, para Jung o opus
alquímico e o processo de individuação eram fenômenos similares ou
nascidos do mesmo princípio. Dessa forma, a alquimia se tornou uma
metáfora para a compreensão dos processos dinâmicos psicológicos.
A alquimia apresenta-se como base bastante forte na psicologia
analítica, onde se observa a importância dos símbolos, das metáforas, da
linguagem ligada às imagens. A linguagem alquímica em si parece ser
terapêutica.
REFLEXÃO PESSOAL SOBRE UM DOS OBJETIVOS ESPECÍFICOS

O objetivo específico da disciplina Alquimia em Psicologia Analítica


escolhido para minha reflexão:
• apresentar os fundamentos, analogias e relações entre concepções
da Alquimia e da Psicologia de C. G. Jung.

A questão central da psicologia analítica é a integração dos opostos,


o que é observado de forma ampla na natureza em diversos níveis. O que
está representado para Von Franz (VON FRANZ, 1998) entre o princípio da
consciência e a natureza, isto é, entre o consciente e o inconsciente, o
desconhecido. A Doutrina dos Opostos na alquimia define a natureza dual
da substância, identificando os elementos que, como símbolos / metáforas
constituem sua estrutura natural, onde psique e matéria estão em um. A
alquimia se apresenta por meio de imagens, assim como o inconsciente.
Quando nos aproximamos da imagem, ela nos diz muito mais do que as
palavras e a alquimia fala por meio das imagens.

A alquimia é um espelho da imensa metáfora que é a vida. Em uma


discussão analítica há sempre quatro elementos, dois no nível consciente
e dois no inconsciente. Toda asserção consciente se configura
imediatamente em seu oposto ou seja, a negação. Podemos observar que
o caminho da superação dos opostos, através da união entre os elementos
yin e yang, foi traduzido por Jung como a necessidade de integração entre
os aspectos conscientes e inconscientes da psique. Ao longo do tempo
Jung examinou com mais profundidade a união dos pares de opostos na
alquimia - Sol e Luna, Rex e Regina e Adão e Eva - destacando também o
seu significado espiritual e psicológico.

A alquimia é a arte da transformação. Ela aspira chegar na essência


das coisas elevando a matéria num nível superior de manifestação, onde
um estágio complementa outro. O processo alquímico inicia com a
observação da Natureza e em como ela se autorregula. Psique e matéria
ocupam o mesmo lugar no espaço. Cada um dos elementos envolvidos
coloca em movimento toda a energia, tudo que existe. E uma vez ocorrida
a transformação não se volta mais ao que se era antes.

A ideia clássica da circulatio, de mover-se através dos quatro


elementos, de repetir novamente o processo, mas sempre em outro nível
é a ideia clássica de rodear o Si mesmo através dos diferentes elementos
e das diferentes formas; é, entre outras coisas, a circumambulatio, o
processo de individuação através das quatro funções e de diferentes fases
da vida. Tanto mais o indivíduo trabalha internamente ou seja, circula em
torno do si-mesmo olhando-se por diferentes ângulos, mais ele entra em
contato com sua parte criativa e maiores as possibilidade dele vencer suas
barreiras e integrar conteúdos inconscientes afim de desenvolver o
autoconhecimento. A ação baseada na vontade, com a participação ativa
do indivíduo é indispensável e fundamental para o sucesso do processo de
individuação. Muitos autores em diferentes obras relacionadas à psicologia
analítica, usam a metáfora alquímica, entretanto, persiste o mistério da
opus magnum até que se tenha alcançado o lápis, a pedra filosofal, a
individuação.

Os reinos vegetal, mineral, animal e humano estão interligados. Os


elementos químicos são as matérias básicas que organizam a árvore da
vida. A própria vida em cada ser.

O ouro seria uma metáfora, onde o alquimista depositaria a crença


de que tudo tem uma essência que deve ser revelada, fazendo surgir o
mais puro do ser, o seu ouro. Caberia, então, ao alquimista acelerar esse
processo natural através do fogo, utilizando-se dele para conseguir trazer
à tona esse ouro. Tal processo de desenvolvimento levaria muito tempo se
acontecesse no tempo e na sua forma natural; porém, com o trabalho do
alquimista, acelerando os acontecimentos, seria materializado muito mais
rapidamente. Poderíamos então, traçar um paralelo entre a energia
referida e a energia psíquica.
Quatro elementos atuam de maneira fundamental no processo:

1. água: sentimento. Relativo à vida emocional, aos afetos, ao


inconsciente, ao que é fluido;

2. terra: sensação. Relativo à realidade, ao concreto. É o mundo


terreno, a criatividade, a fertilidade;

3. ar: pensamento. Relacionado com o mundo das ideias, com o


conhecimento. É a consciência, a inteligência na sua mais alta
forma, a sabedoria;

4. fogo: intuição. É a chama que nos anima. É o calor que aquece, mas
que em excesso pode queimar.

Esses elementos precisam estar em equilíbrio. Quanto maior o


equilíbrio entre os elementos, mais próximo de se atingir a quintessência
se está.

A quintessência, ou o quinto elemento não se trata de um elemento


em si, como os citados acima, mas sim da reunião (não por soma) deles
nas suas potencialidades máximas numa outra forma, isto é, algo
diferente, um algo novo. Assim sendo, a quintessência é uma vivência,
uma experiência.

A transmutação ocorreria quando todos os elementos tivessem


alcançado o estado de equilíbrio. Processo que se dá através das
operações alquímicas:

• SOLUTIO – considerado um dos principais processos


alquímicos. Um agente da SOLUTIO é o si mesmo, é a
essência, e é o confronto do eu com o inconsciente. Esta
operação acontece através do elemento água que vai dissolver
os aspectos psíquicos que estão estagnados, as estruturas que
precisam ser transformadas, que precisam ser mudadas;

• CALCINATO - operação alquímica de transformação através do


fogo como agente purificador;

• SUBLIMATIO – se dá pela ação do ar, através de respiração


num distanciamento das emoções. Separação do puro e do
impuro, com a extração do que é espiritual. Escada da
ascensão no mundo das ideias.

• COAGULATIO – concretização. Relativo ao conseguir, depois de


trabalhar todas as questões, coagular, concretizar, trazer para
o visível. Aqui, se observa, de fato, a transformação do
indivíduo;

• MORTIFICATIO ou PUTREFATIO - operação alquímica de grande


transformação, em que se vive de forma dolorosa uma perda,
uma morte simbólica. Observado quando é preciso que se abra
mão de alguma coisa importante na vida, que precisa ser
entregue como sagrada, num entregar algo para que aquilo
morra e para que possa surgir o novo. É uma fase bastante
dolorosa, difícil, onde a pessoa compreende que precisa
entregar para realmente poder mudar;

• SEPARATIO - operação de separação, de discriminação, de


percepção do que é bom e do que é ruim, o que vale a pena e
o que não vale;

• CONIUNCTIO – integração. A integração dos opostos, do sol e


da lua, do positivo e do negativo, do bem e do mal, da luz e a
sombra internas.

Cada uma da operações alquímicas ocorre dentro de certas fases e


podemos observar as analogias entre as fases do processo alquímico e as
experiências psíquicas:

• NIGREDO - está relacionada ao escuro, ao pesado, ao difícil, a


tudo aquilo que precisa ser limpo, ser purificado. A fase da
NIGREDO poder ser observada em momentos de muita dor,
em que o indivíduo se encontra em sofrimento;

• ALBEDO - é o processo de purificação quando já ocorreu a


lavagem dos metais. Aquilo que não serve foi embora com o
que vinha, tudo junto. Analogamente, na ALBEDO, o indivíduo
teria maior consciência, seria capaz de se afastar um pouco
daquilo que estava muito contaminado e trazendo sofrimento;

• CITRINITA – fase do "amarelamento" onde já seria possível


entrar em contato com as emoções;

• RUBEDO - seria a meta, a transformação em ouro, onde as


emoções vêm com maior intensidade, com maior vontade de
realização.

Durante o decorrer da vida as operações e fases alquímicas vão


acontecendo de forma ininterrupta. Quanto mais operações ocorrem tanto
mais transformações se processam. É a partir do processo de individuação
que é possível compreender a presença difusa dos recursos ao simbolismo
alquímico nos escritos de Jung.

"O encontro de duas personalidades é semelhante à mistura de duas


diferentes substâncias químicas: uma ligação pode a ambas transformar."
Carl Gustav Jung
BIBLIOGRAFIA

VON FRANZ, M. L. Alquimia. Introdução ao Simbolismo e à Psicologia.


São Paulo, Editora Cultrix, 1998.
_____. Psicologia e Alquimia. 3ª ed. Obras Completas de C.G. Jung.
Vol. XIII. Trad. Dora M. R. F. da Silva & Maria L. Appy. Petrópolis: Vozes,
2007.

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