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PROJETO ANIMAGU

UNIDADE I: LINGUAGEM JURÍDICA PROCESSUAL NO RITO DOS JUIZADOS ESPECIAIS


FEDERAIS

Procurador Federal Ismael Rolim Dreger

Sumário
INTRODUÇÃO: POR QUE “LINGUAGEM JURÍDICA PROCESSUAL” E “NO RITO DOS JUIZADOS
ESPECIAIS FEDERAIS”..................................................................................................................... 2
Como se organizam as leis?...................................................................................................... 4
MÓDULO I) O “QUADRO GERAL”: PARA UMA COMPREENSÃO BÁSICA DO FUNCIONAMENTO DE
UM PROCESSO NO RITO DOS JUIZADOS ESPECIAIS FEDERAIS E DA LINGUAGEM RESPECTIVA ... 7
1. Petição inicial (também chamada de “exordial”)................................................................ 7
2. Antecipação de tutela e medida cautelar ............................................................................ 8
3. Recurso de medida cautelar/antecipação de tutela ......................................................... 10
4. Citação do réu e intimações ............................................................................................... 11
5. Instrução do processo (provas) .......................................................................................... 12
6. Sentença e recursos contra essa ........................................................................................ 13
7. Recursos contra as decisões das Turmas Recursais .......................................................... 16
8. Trânsito em julgado ............................................................................................................ 18
9. Organização do processo - fase de execução .................................................................... 19
MÓDULO II) APROFUNDAMENTO E EXPOSIÇÃO CONCEITUAL ................................................... 21
1. Valor da causa e competência dos JEFs ............................................................................. 21
2. A expressão “liminar” ......................................................................................................... 21
3. Organização do processo – fase de conhecimento ........................................................... 21
4. Atos do juiz e recursos cabíveis ......................................................................................... 23
5. Litispendência x coisa julgada ............................................................................................ 26
6. Mandado de Segurança contra decisão judicial nos JEFs.................................................. 27
MÓDULO III) EXPOSIÇÃO DE CONTEÚDO AVANÇADO ................................................................ 34
1. Competência absoluta das Varas de Juizados Especiais Federais. ................................... 34
2. Recursos próprios dos JEFs (PRU, PNU e PUIL) e seu cabimento ...................................... 34
2.1. Descabimento de PRU ou PNU em matéria de fato ................................................... 36
2.2. Descabimento de PRU ou PNU em matéria processual ............................................. 37
2.3. Similitude fática do paradigma e cotejo analítico ...................................................... 38
3. Coisa julgada, litispendência e teoria da identidade de relação jurídica ......................... 40
ANEXOS – Detalhamento de algumas questões explicadas na parte 1, 2 ou 3. ......................... 44

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1. Recurso de medida cautelar e variações regionais ........................................................... 44
2. Recurso inominado contra sentença terminativa. ............................................................ 45
3. Impugnação de decisões na execução – divergências locais ............................................ 52
4. Mandado de segurança na fase de conhecimento............................................................ 57
CRÉDITOS DE IMAGENS: .............................................................................................................. 61

INTRODUÇÃO: POR QUE “LINGUAGEM JURÍDICA PROCESSUAL” E


“NO RITO DOS JUIZADOS ESPECIAIS FEDERAIS”

O presente módulo tem por objetivo familiarizar o aluno à linguagem


jurídica processual, nos aspectos essenciais para sua melhor compreensão
sobre o funcionamento dos processos judiciais. Busca-se uma abordagem
menos teórica, mais pragmática e consentânea com as necessidades do dia a
dia das atividades da Advocacia Pública Federal.

Não restam dúvidas de que a melhor forma de se aprender uma língua


é utilizando-a. Quando se pensa na compreensão de um idioma estrangeiro,
por exemplo, a experiência demonstra que nada é mais eficaz do que uma
imersão em um país falante do idioma estudado. Uma abordagem puramente
conceitual dos termos e expressões, sob essa óptica, não se mostra tão eficaz
quanto a compreensão do sentido e da extensão das palavras em cada contexto
de vida em que são realmente utilizadas.

Como os termos técnicos jurídico-processuais são uma espécie de


linguagem, com contextos e sentidos próprios e delimitados, que só são
compreendidos por quem é fluente nessa parte do nosso idioma, entende-se que
a forma mais eficiente de se transmitir tal conhecimento é abordá-lo, inicialmente,
dentro do fluxo do que seria um processo real, indicando o momento adequado
para utilização de cada expressão, para, somente após, partir-se para
exposições mais conceituais ou aprofundamentos. Por esse motivo, optou-se
pela exposição dos termos técnicos jurídico-processuais de forma dinâmica, ou
seja, no contexto dos Juizados Especiais Federais.

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A escolha do rito dos Juizados Especiais Federais, que é um
procedimento regulado por lei especial, em vez do rito ordinário, pode parecer,
em um primeiro momento, contra intuitiva. Essa opção, não ortodoxa, se deve à
maior simplicidade do rito dos Juizados Especiais Federais, o que o torna
mais propício a uma exposição introdutória dos termos básicos e dos
primeiros passos para a compreensão da linguagem jurídica processual. Essa
complexidade é incrementada quando se estuda o rito ordinário, possibilitando o
aproveitamento de vários dos conhecimentos básicos já abordados no estudo do
rito simplificado dos Juizados Especiais Federais.

Além disso, sabe-se que o maior volume de demandas ajuizadas na


Justiça Federal tramita sob o rito dos Juizados Especiais Federais, em
virtude da obrigatoriedade de sua observância em causas de valor inferior a 60
(sessenta) salários mínimos. A título exemplificativo, no mês de setembro de
2018, apurou-se a existência, só no Rio Grande do Sul, de aproximadamente
70.000 (sessenta mil) demandas ativas em primeira e segunda instâncias
apenas na matéria de benefícios previdenciários por incapacidade (auxílio-
doença, aposentadoria por invalidez e auxílio-acidente).

Importante referir, ainda, que a abordagem é feita “em camadas”


sucessivas de complexidade, de modo a atender às necessidades de vários
públicos. Nesse sentido, o primeiro material a ser estudado é o vídeo animado
que demonstra “o quadro geral”, a grande moldura do rito dos Juizados Especiais
Federais, em linguagem simples e acessível. Após, há vários vídeos curtos
explicando e aprofundando, de forma mais analítica, cada uma das partes do
referido “quadro geral”, acrescentando maiores detalhes, “cores” e “tons” à ideia
básica.

O presente material escrito é completar e segue a mesma lógica,


começando a abordagem do mais básico e geral para o mais aprofundado e
específico. No nível básico, são abordados os termos principais de forma
dinâmica, refletindo o fluxo real de tramitação de um processo judicial no âmbito
dos Juizados Especiais Federais (parte 1); no nível intermediário, há a exposição
dos termos relevantes de forma mais conceitual (parte 2); por fim, no nível
avançado, há um módulo mais voltado a alunos com formação jurídica, que

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aprofunda temas relevantes e utiliza, de forma mais fluente, a linguagem técnica
apropriada de modo mais próximo daquele em que a mesma é aplicada no dia a
dia dos tribunais (parte 3).

Importante referir que os conteúdos expostos no nível avançado, por


serem mais voltados a quem tem formação jurídica, não são obrigatórios para
fins de avaliação. Entretanto recomenda-se fortemente a sua leitura, inclusive
por quem não tem formação em direito, pois isso trará ao aluno, de qualquer
forma, maior riqueza de entendimento e de fluência na utilização e compreensão
da linguagem jurídica.

Antes de iniciar a “parte 1”, entretanto, é necessária uma pequena


exposição introdutória sobre como se organizam as leis. Assista ao primeiro
vídeo e leia o texto abaixo sobre o assunto.

Como se organizam as leis?


Uma parte importantíssima da linguagem jurídica em geral é aquela que
especifica as divisões existentes dentro de uma lei. A fim de esclarecermos essa
nomenclatura, selecionamos divisões da Constituição da República Federativa
do Brasil (abreviação: CRFB), também conhecida como Constituição Federal de
1988 (abreviação: CF/1988 ou CF/88 ou simplesmente CF): as grandes divisões
são os “TÍTULOS”, que se dividem em “CAPÍTULOS”, os quais se dividem em
“Seções”:

TÍTULO IV - DA ORGANIZAÇÃO DOS PODERES


CAPÍTULO III - DO PODER JUDICIÁRIO
Seção IV – Dos Tribunais Regionais Federais e dos Juízes
Federais
Seção V – Do Tribunal Superior do Trabalho, dos Tribunais
Regionais do Trabalho e dos Juízes do Trabalho
Seção VI – Dos Tribunais e Juízes Eleitorais
Seção VII – Dos Tribunais e Juízes Militares
Seção VIII – Dos Tribunais e Juízes dos estados

Eventualmente as “Seções” ainda podem ser divididas em


“Subseções”.

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É como se a Constituição inteira fosse um armário, dividido em gavetas
(Títulos), que contém separações (Capítulos), cada uma das quais contém
várias pastas (Seções). Dentro de cada pasta, há documentos (artigos -
“arts.”), os quais expressam a disposição legal, isso é, a regra ou o princípio
instituído pela lei.

Por sua vez, os artigos de lei se subdividem em:

- caput: que é a cabeça do dispositivo, trazendo a regra principal;

- incisos: que são utilizados para enumerar hipóteses do caput ou de um


parágrafo, em forma de lista;

- alíneas: que também servem para enumerar hipóteses, em forma de lista,


mas hipóteses de um inciso;

- parágrafos: que servem para explicar ou excepcionar a disposição contida


no caput, no inciso, na alínea ou em outro parágrafo.

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MÓDULO I) O “QUADRO GERAL”: PARA UMA COMPREENSÃO
BÁSICA DO FUNCIONAMENTO DE UM PROCESSO NO RITO DOS
JUIZADOS ESPECIAIS FEDERAIS E DA LINGUAGEM RESPECTIVA

1. Petição inicial (também chamada de “exordial”)

O processo se inicia por uma petição inicial, que é ajuizada pelo autor,
na qual ele pede aquilo a que entende que tem direito. Nessa peça, o autor
apresenta sua qualificação completa e a do réu (nome completo,
nacionalidade, estado civil, se vive em união estável, profissão, endereço, CPF
e RG), que são os dados necessários para identificação das partes e envio de
comunicações às mesmas; após, o autor expõe a sua versão dos fatos e os
fundamentos jurídicos daquilo que pretende, isso é, expõe de que forma
entende que o direito deve se aplicar aos fatos narrados. Por fim, o autor conclui
o seu raciocínio realizando um ou mais pedidos, que pretende sejam atendidos
pela Justiça. Esses pedidos devem ser decorrência natural de todo o raciocínio
exposto nas partes anteriores da petição inicial (fatos e fundamentos jurídicos),
ou seja, os pedidos devem decorrer da aplicação do direito aos fatos
narrados, conforme o raciocínio desenvolvido pelo autor. Há, assim, um
“fechamento” lógico da petição inicial.

Importante referir que, nesse contexto, autor, demandante ou


requerente é aquele que pede algo, e réu, demandado ou requerido é aquele
contra quem esse algo é pedido. Ou seja, em um processo judicial, alguém

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(autor, demandante ou requerente) pede algo contra alguém (réu, demandado
ou requerido). As pessoas envolvidas no conflito (“alguém” x “alguém”) são
chamadas de partes do processo, e o “algo” é o objeto.

Exemplos: se João pede a concessão de benefício previdenciário de


auxílio-doença contra o INSS, João (autor, demandante ou requerente) e o INSS
(réu, demandado ou requerido) são as partes do processo, e o benefício de
auxílio-doença é o objeto; se Maria, servidora pública federal, demanda contra a
União Federal pedindo a concessão de um adicional remuneratório, Maria
(autora, demandante ou requerente) e a União Federal (ré, demandada ou
requerida) são as partes do processo, e o pedido de adicional é o objeto.

É importante referir que, no rito dos Juizados Especiais Federais, as


partes podem atuar sem a representação de advogado em primeira instância,
mas, na segunda instância, a representação por advogado é necessária (arts. 1º
e 10 da Lei nº 10.259/01 c/c art. 41, §2º, da Lei nº 9.099/95). Obs.: “c/c” significa
“em conjunto com”.

Querendo ajuizar uma demanda sem advogado, basta que o autor


compareça à Secretaria Judiciária e peça para o servidor judicial reduzir a termo
o seu caso, valendo esse termo como petição inicial.

2. Antecipação de tutela e medida cautelar

Antecipação de tutela Medida cautelar

Logo após a petição inicial, é comum que o juiz avalie a possibilidade


de antecipar o direito que seria devido só na sentença, o que se chama de

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antecipação de tutela, vulgarmente também chamada de “liminar”, por se
tratar de uma decisão no início do processo. Na verdade, a expressão “liminar”
se refere ao momento em que a decisão é tomada (no início do processo),
podendo ser não apenas uma antecipação de tutela, mas também de uma
medida cautelar.

“Tutelar” significa “proteger”, assim o termo “tutela” significa


proteção. Normalmente, o direito só é protegido ao final do processo, contudo
isso pode demorar anos. Em razão disso, há hipóteses em que essa proteção
do direito pode ser antecipada. Daí o termo “antecipação de tutela”, no qual
se antecipa a proteção que a parte só teria no final do processo para um
momento anterior.

“Acautelar” significa “resguardar”, assim o termo “cautela” significa


uma medida que resguarda o direito, para que ele não pereça (isso é, não se
perca) até o final do processo, embora não entregue o objeto do direito ao autor
de forma antecipada.

Exemplo: imagine que o objeto da demanda seja uma porção de


espinafre, ou seja, duas pessoas (partes) estão discutindo quem tem direito a
comer o espinafre (objeto). Nesse caso, se o juiz congelar o alimento, para que
o mesmo não estrague até o final da discussão, isso será uma medida cautelar;
se, por outro lado, ele determinar a entrega provisória do espinafre a uma das
partes, por considerar que é urgente que a mesma coma, por estar fraca e
desnutrida, isso será uma antecipação de tutela. Nesse caso, se, ao final do
processo, o juiz considerar que, na verdade, quem tinha direito ao alimento era
a outra parte, o prejudicado terá direito a ser reparado por aquele que foi
beneficiado pela antecipação de tutela indevida, preferencialmente in natura
(compra e entrega de outro ramo de espinafre) ou, caso isso não seja possível,
in pecunia (pagamento do valor equivalente em dinheiro).

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3. Recurso de medida cautelar/antecipação de tutela

No rito dos JEFs, contra a decisão que defere ou indefere a antecipação


de tutela (ou medida cautelar), cabe recurso de medida cautelar (RMC), que é
direcionado às Turmas Recursais.

Quando uma parte interpõe RMC, a outra parte é intimada para


apresentar contrarrazões (que é a defesa contra o recurso) após o que o
mesmo é remetido às Turmas Recursais, onde três juízes federais proferem seus
votos, chegando a um acordo, por unanimidade ou por maioria de votos. A
decisão final da Turma é o acórdão, justamente em referência à ideia de
“acordo”.

Em relação à linguagem, o verbo correto a ser utilizado quando se fala


em recorrer é “interpor” recurso; em relação ao ato do juiz se manifestar, utiliza-
se o verbo “proferir” (sentença, voto, decisão).

Importante referir, por fim, que a lei não atribui um nome a esse
recurso, sendo que “recurso de medida cautelar” é a nomenclatura
utilizada na 4ª Região, na qual a interposição é facilitada pelo sistema de
processo eletrônico, bastando a elaboração da petição do recurso e a
movimentação direcionada à turma recursal. Contudo, como não há previsão
legal expressa regulando o tema, pode haver variações locais, sendo importante
que você verifique o procedimento que é adotado pela turma da localidade em
que você atua.

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4. Citação do réu e intimações

O próximo passo é a citação do réu. Citação é o ato pelo qual o réu é


convocado para integrar a relação processual, ou seja, é o momento no
qual ele passa a fazer parte do processo, tendo ciência desse e nele
podendo se defender. Conforme a lei dos Juizados Especiais Federais, a
citação não é para que o réu se defenda imediatamente, e sim para que
compareça à audiência de conciliação, onde se busca um acordo entre as
partes, antes da apresentação de contestação. A citação deve se realizar com
antecedência mínima de 30 dias da data da audiência (art. 9º da Lei nº
10.259/01).

Cabe referir que, na prática, essa audiência muitas vezes não é


realizada, citando-se o réu para contestar. Isso se dá especialmente nos
casos em que o réu é um ente público, não tendo autorização legal para conciliar
antes da produção das provas necessárias no processo. Nesse caso, realizar

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uma audiência de conciliação antes de produzir as provas seria perda de tempo,
razão pela qual se opta pela citação direta para apresentação de contestação.

É importante diferenciar a citação das intimações. Citação é o ato no


qual o réu é chamado no processo para se defender; intimações são as demais
comunicações do processo, isso é, são cientificações das partes ou mesmo
de terceiros, para que façam ou deixem de fazer alguma coisa, como se
manifestarem, prestarem uma informação no processo, terem conhecimento de
uma decisão e dessa recorrerem, se for o caso, etc.

5. Instrução do processo (provas)

Em seguida, apresentada a contestação, passamos à fase de instrução


do processo, que é a fase na qual todas as provas necessárias serão
trazidas aos autos, para que o juiz tenha condições de decidir. A expressão
“instruir um processo” significa produzir provas no processo. Os principais
exemplos são a prova pericial, a prova documental e a prova testemunhal.

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Na prova pericial, o juiz nomeia um especialista, para realizar uma
avaliação técnica, como perícias médicas, de engenharia, de ambiente do
trabalho, etc.

A prova documental consiste na juntada de documentos no processo.


Em regra, todos os documentos necessários já devem ser juntados com a
petição inicial e com a contestação, não se aguardando a fase instrutória.
Contudo, é comum que se juntem aos autos documentos importantes também
durante a fase instrutória, seja para contrapor uma prova produzida ou um
argumento, ou, ainda, para esclarecer alguma situação pertinente no processo.

A prova testemunhal é a oitiva de testemunhas em audiência, na qual


o juiz e os advogados das partes fazem-lhe perguntas pertinentes sobre os fatos
que envolvem a demanda. O termo “oitiva” se refere ao verbo “ouvir”, ou seja, “a
oitiva de testemunhas” significa que as testemunhas são ouvidas.

Encerrada a instrução do processo, passa-se à fase decisória, na qual


o juiz profere sentença, que é a decisão que põe fim à discussão.

6. Sentença e recursos contra essa

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Encerrada a instrução do processo, passa-se à fase decisória, onde o
juiz profere a sentença, que é a decisão que põe fim à discussão. Contra essa
decisão, no rito dos JEFs, cabe recurso inominado, que é direcionado às
Turmas Recursais.

Contra a sentença, também cabem embargos de declaração (ou


embargos declaratórios), os quais são direcionados ao próprio juiz que proferiu
a decisão, tendo por objetivo esclarecê-la, eliminar algum vício que dificulte sua
compreensão. Embargos de declaração cabem contra qualquer decisão que
seja omissa, contraditória, obscura ou que contenha um erro material (por
exemplo, um erro de digitação). Como o próprio nome sugere, trata-se de
embargar a “declaração”, não a decisão em si, ou seja, o que se discute são
aspectos que dificultam o entendimento do que foi decidido, não a correção da
decisão em si.

Opostos os embargos de declaração contra uma decisão, a outra parte


é intimada para apresentar contrarrazões (quando houver possibilidade de o juiz
mudar a decisão) e, em seguida, o próprio juiz decide. A decisão dos
embargos é como se fosse uma emenda à sentença, ou seja, quando o juiz
acolhe os embargos, ele corrige a sentença, esclarecendo um ponto obscuro,
eliminando uma contradição, manifestando-se sobre um ponto antes omitido ou
retificando um erro material, tornando, assim, a sentença mais coerente, clara e
compreensível. Dessa forma, a decisão dos embargos passa a integrar a
sentença, como se fosse parte dela. Por isso, contra a decisão dos
embargos de declaração, cabe a interposição de recurso inominado
(mesmo recurso cabível contra a sentença).

O verbo utilizado para referir-se à apresentação de embargos por uma


das partes é “opor” (diferentemente dos demais recursos, em que se usa o verbo
interpor). Ou seja, o autor ou o réu “opõem” embargos de declaração “contra” a
decisão. O substantivo correspondente é “oposição” de embargos.

Uma parte interpondo recurso inominado contra a sentença ou a


decisão dos embargos, a outra parte é intimada para apresentar contrarrazões,
e esse recurso sobe para as Turmas Recursais, nas quais será proferido um

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acórdão, com votos, nos mesmos termos já explicados. Esse acórdão pode
decidir que o recurso seja conhecido ou não conhecido, o que significa que o
recurso foi julgado no mérito ou não, e, sendo julgado no mérito (conhecido), ele
pode ser provido ou desprovido.

O termo “mérito” refere-se, justamente, à discussão travada entre as


partes, ou seja, quando o juiz decide o mérito de algo, ele dá razão a uma das
partes, encerrando o conflito. Isso pode ocorrer tanto em uma decisão final
(sentença ou acórdão), como em decisões no curso do processo, resolvendo
questões pontuais que surgiram durante o seu andamento.

A expressão “conhecer”, não apenas no contexto recursal, mas em geral,


se refere ao preenchimento ou não dos requisitos para que o juiz entre no mérito
de uma questão, ou seja, diga quem tem razão naquele ponto. Não preenchidos
os requisitos necessários, o juiz sequer julga o mérito da questão (ou seja, ele
“não conhece” da questão).

No contexto recursal, “prover o recurso” significa acolher o mesmo,


dando razão, no mérito do recurso, a quem recorreu. Assim, “recurso provido”
é um recurso que foi conhecido e acolhido no mérito, e “recurso
desprovido” é um recurso que foi conhecido, mas não foi acolhido no
mérito.

É importante referir que, se for identificada alguma nulidade (ou seja,


algum procedimento contrário à lei, que acarrete prejuízo a uma das partes), o
recurso será conhecido e provido para anular a sentença (e outros atos
processuais que sejam nulos). Quando isso acontece, é como se a sentença
nunca tivesse sido proferida no processo, ou seja, o processo volta para a
primeira instância, e reinicia no momento anterior ao último ato anulado. Por
exemplo, se foi indeferida a realização de uma perícia que era necessária no
caso concreto, a Turma Recursal anula a sentença e determina o retorno dos
autos, para a realização dessa perícia, após a qual será proferida nova sentença
(e contra a qual, novamente, caberá recurso inominado ou embargos de
declaração).

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Em relação à linguagem, em geral, as partes em um recurso são o
“recorrente” (quem recorreu) e o “recorrido” (a outra parte, contra quem o recurso
foi interposto); nos embargos declaratórios, utilizam-se os termos
especificamente os termos “embargante” (quem opôs os embargos) e
“embargado” (a outra parte, contra quem os embargos foram opostos).

7. Recursos contra as decisões das Turmas Recursais

Contra a decisão da Turma Recursal, é possível a oposição de


embargos de declaração (pois, como já explicado, esses cabem contra
qualquer decisão que seja contraditória, obscura, omissa ou contenha erro
material).

Também é possível a interposição de PRU (pedido regional de


uniformização de jurisprudência) ou PNU (pedido nacional de uniformização de
jurisprudência). Imagine, por exemplo, que a Turma Recursal do Rio Grande do
Sul (TR/RS) interprete a lei de forma diferente da Turma Recursal de Santa
Catarina (TR/SC). Como a lei é uma só, é necessário haver algum
mecanismo de uniformização dessa interpretação. O mesmo vale quando a
divergência for entre turmas de diferentes regiões do país, como a TR/RS e a
TR/RJ (Turma Recursal do Rio de Janeiro). Assim, caberá PRU, se houver
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divergência jurisprudencial entre turmas da mesma região (como, no
exemplo, TR/RS x TR/SC), e PNU, se a divergência for entre turmas de
regiões diferentes (como TR/RS x TR/RJ).

Outra hipótese de cabimento do PNU é quando a decisão da turma


recursal contrariar súmula ou jurisprudência dominante do Superior
Tribunal de Justiça (STJ). Importante referir que, contra a decisão da turma
recursal (2ª instância), não cabe nenhum recurso diretamente para o STJ (o
recurso especial, existente no rito ordinário, não é cabível nos Juizados
Especiais Federais).

Se, contudo, a discussão envolver matéria de interpretação


constitucional, o recurso deverá ser direcionado ao Supremo Tribunal Federal
(STF), que é o guardião da Constituição e, portanto, deverá ter a última palavra
sobre como interpretá-la. Dessa forma, se a decisão da Turma Recursal
envolver questão constitucional, caberá a interposição de recurso
extraordinário (RE) direcionado ao STF.

É importante referir que há uma grande barreira à subida desses


recursos (PRU, PNU e RE). Interposto o recurso, a outra parte é intimada para
apresentar contrarrazões e, encerrado o prazo para tanto, é feito o juízo de
admissibilidade, pela Presidência ou Vice-presidência da Turma Recursal
de origem (a que proferiu a decisão recorrida). No juízo de admissibilidade,
verifica-se se o recurso preenche certos requisitos estritos, hipótese em que
ele será “admitido”, ou, caso não atenda a esses requisitos, o mesmo será “não
admitido”.

O recurso admitido é remetido (enviado) ao órgão competente, para que


seja julgado (PRU vai para a TRU; PNU vai para a TNU; RE vai para o STF). O
recurso não admitido fica retido na Turma Recursal de origem, não subindo.

Quando um recurso é barrado no juízo de admissibilidade, é possível


fazer com que ele suba através de agravo. Apresentado o agravo, a outra parte
é intimada para apresentar contrarrazões e, em seguida, o agravo sobe para a
TRU, TNU ou STF, conforme o recurso que tenha sido antes barrado (PRU, PNU

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ou RE, respectivamente). Há certas hipóteses, contudo, em que o agravo contra
a inadmissão de PRU ou PNU é julgado pela própria turma recursal de origem,
não subindo1. Contudo, para os fins desse curso, basta lembrar que o
agravo é o recurso que tem por objetivo a fazer subir o PRU, PNU ou RE
que não foi admitido pela Presidência ou Vice-presidência da turma
recursal.

8. Trânsito em julgado

Após encerradas todas as decisões possíveis, e não cabendo mais


nenhum recurso, se diz que a decisão transita em julgado, ou seja, o
processo termina e a decisão se torna definitiva. A partir daí, realmente o
processo está encerrado e não cabe mais nenhuma discussão sobre quem tem
direito ou quem tem razão.

1
Vide Resolução CJF nº 393/2016 (art. 3º, §§7º e 8º): agravo contra decisão da turma recursal
que não admite PRU ou PNU, com fundamento em súmula da TRU ou da TNU, respectivamente,
ou que não admite PRU ou PNU com base em julgamento do Supremo Tribunal Federal em
repercussão geral. Nesses casos, o agravo é julgado pela própria turma de origem, em decisão
irrecorrível.

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Também não é possível o ajuizamento de outra ação idêntica, pois há a
barreira da coisa julgada, que impede a rediscussão daquilo o que já foi
decidido, ainda que com novos argumentos ou fundamentos.

Também é possível que o processo transite em julgado na primeira


instância, se ninguém recorrer contra a sentença no prazo legal.

9. Organização do processo - fase de execução

Tendo a decisão do processo transitado em julgado e havendo


condenação, se inicia a fase de execução da sentença, que tem por objetivo,
justamente, executar aquilo que foi decidido, cobrando da parte perdedora
o cumprimento das obrigações reconhecidas.

Nessa fase de execução, eventualmente ocorre de ser proferida uma


decisão judicial que não tenha fundamento jurídico, que seja teratológica.
“Teratológica” significa uma decisão absurda, monstruosa, uma decisão sem
fundamento nenhum. Sendo uma decisão completamente sem fundamento,
absurda, teratológica, é cabível a impetração de mandado de segurança, que
não é um recurso, mas sim uma ação. Como o mandado de segurança não é
um recurso, a outra parte será citada para contestar, pois se trata de uma
ação própria. Esse mandado de segurança irá para as Turmas Recursais, que
proferirão acórdão.

Cabe referir que, eventualmente, antes da sentença também pode haver


uma decisão teratológica, e, se isso ocorrer, também caberá mandado de

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segurança contra essa decisão (embora seja mais comum o cabimento do
mandado de segurança na fase de execução).

Por fim, são realizados os cálculos do valor devido, os quais devem ser
realizados pela Contadoria Judicial, conforme previsto no art. 52, II, da Lei nº
9.099/95, aplicável subsidiariamente por força do art. 1º, caput, da Lei nº
10.259/01:

Art. 52. A execução da sentença processar-se-á no próprio


Juizado, aplicando-se, no que couber, o disposto no Código de
Processo Civil, com as seguintes alterações:

(...)
II - os cálculos de conversão de índices, de honorários, de juros
e de outras parcelas serão efetuados por servidor judicial;

As partes, então, são intimadas dos cálculos, podendo impugná-los. Se


não houver impugnação, ou após o juiz decidir sobre a impugnação, o valor
considerado devido será pago pela Fazenda Pública por RPV (requisição de
pequeno valor) ou precatório: RPV se o valor for menor de 60 salários-
mínimos; precatório, se for maior do que 60 salários-mínimos.

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MÓDULO II) APROFUNDAMENTO E EXPOSIÇÃO CONCEITUAL

1. Valor da causa e competência dos JEFs

Ao final de qualquer petição inicial, é necessário indicar o valor da


causa, que tem regras próprias para sua fixação, mas que, como regra geral,
corresponde ao proveito econômico pretendido pelo autor. Ou seja, o valor
da causa, em geral, corresponde ao quanto vale o direito que está sendo
postulado pelo autor, sendo importantíssimo, pois é ele que define se o
procedimento aplicável é o dos Juizados Especiais Federais ou o
procedimento ordinário (do Código de Processo Civil).

As causas de valor inferior a 60 (sessenta) salários mínimos, são


julgadas por Varas de Juizados Especiais Federais; as de valor superior, por
Varas Federais comuns (utilizando o procedimento ordinário, do Código de
Processo Civil). O rito dos Juizados Especiais Federais é obrigatório nas
causas de valor até 60 salários-mínimos.

2. A expressão “liminar”

A expressão “liminar” é derivada do latim in limine litis, que significa no


começo da lide. Ou seja, liminar é qualquer decisão que seja proferida no início
do processo.

3. Organização do processo – fase de conhecimento

21
É possível dividir o processo em várias fases, isso é, vários momentos
distintos, com objetivos parciais diferentes. A função dessas divisões é perceber
como o processo se encadeia, passando por vários momentos, em direção a
uma decisão final de mérito, ou seja ao momento em que o juiz dá razão a
uma das partes. Essa atividade, como um todo é denominada fase de
conhecimento, que é a fase que tem por objetivo, justamente, realizar todas as
atividades necessárias para que o juiz possa julgar o processo ao final, atribuindo
razão a uma das partes.

A fase de conhecimento se subdivide em várias fases (isso é, em vários


momentos, com finalidades distintas):

- Fase postulatória: o processo se inicia com a petição inicial e, após,


havendo ou não liminar, o réu é citado no processo, tendo a oportunidade de se
defender. Nesse momento, já está definida a lide, isso é, o conflito existente
entre as partes e os principais argumentos de cada uma delas. É sobre os
pontos controvertidos (os fatos sobre os quais há controvérsia, ou seja, sobre os
quais as partes discordam) é que serão, posteriormente, produzidas as provas
na fase instrutória. O Objetivo da fase postulatória, portanto, é definirem-se
os contornos da lide, com a versão dos fatos sustentada por cada uma das
partes e os argumentos jurídicos que entendem serem aplicáveis no caso.

- Fase de saneamento: a fase de saneamento é aquela em que o juiz


coloca em ordem o processo, verificando se o mesmo atende aos
requisitos necessários para sua continuidade, delimitando as questões de
fato sobre as quais há divergência entre as partes (que serão objeto da fase
instrutória) e estabelecendo as questões de direito relevantes para a
posterior decisão de mérito. Não se trata de uma fase bem definida no tempo,
sendo que a mesma deveria se encerrar por uma decisão saneadora do juiz,
abrangendo os seguintes pontos (art. 357 do Código de Processo Civil – CPC):
Art. 357. Não ocorrendo nenhuma das hipóteses deste Capítulo, deverá o juiz,
em decisão de saneamento e de organização do processo: I - resolver as
questões processuais pendentes, se houver; II - delimitar as questões de fato
sobre as quais recairá a atividade probatória, especificando os meios de prova
admitidos; III - definir a distribuição do ônus da prova, observado o art. 373; IV -

22
delimitar as questões de direito relevantes para a decisão do mérito; V - designar,
se necessário, audiência de instrução e julgamento.

Em suma, o juiz deveria verificar a regularidade do processo e definir os


pontos controvertidos estabelecendo, assim, o foco sobre o qual estarão
centradas as fases subsequentes (a fase instrutória e a fase decisória). Nos
JEFs, contudo, raramente se vê esse tipo de decisão, devido aos princípios da
celeridade, informalidade e simplicidade, que permeiam esse procedimento.

- Fase instrutória: “instruir o processo” significa produzir no processo


as provas necessárias à demonstração dos fatos alegados, seja juntando
documentos, pedindo a oitiva de testemunhas, a realização de perícia, etc. Fase
instrutória, portanto, é a fase de produção de provas no processo. Essa
fase nem sempre é necessária, sendo possível que o juiz pule diretamente da
fase postulatória ou de saneamento para a fase decisória, quando, por exemplo,
a discussão for só de direito (não envolver a prova de fatos) ou quando os fatos
já estiverem suficientemente comprovados.

- Fase decisória: é o momento de decisão, em que o juiz profere a


sentença.

4. Atos do juiz e recursos cabíveis

É importante diferenciar entre os vários tipos de atos do juiz, que


podemos encontrar no curso de um processo. São eles: a) sentença; b) decisão
interlocutória; c) despacho; d) ato ordinatório.

a) O mais importante dos atos do juiz é a sentença, que é a decisão final


do processo. A sentença é o ato do juiz que põe fim à fase de conhecimento
do processo, diferenciando-se, assim, das demais decisões, que são proferidas
no curso da fase de conhecimento e de execução. Essa decisão pode ser de
mérito (aquela que atribui razão a uma das partes, acolhendo ou rejeitando o
pedido da petição inicial) ou sem resolução de mérito (chamada de “sentença
terminativa”, a qual não soluciona a lide, ou seja, não chega a entrar no mérito
de quem tem ou não razão no conflito existente entre as partes). No rito dos
JEFs, o recurso contra a sentença é o recurso inominado. Curiosamente, o
23
nome “recurso inominado” significa “recurso sem nome”, o que decorre do fato
de a lei ter previsto o cabimento desse recurso, sem lhe dar expressamente um
nome (art. 41, caput da Lei nº 9.099/95). Assim, acabou-se apelidando esse
recurso de “recurso inominado”.

Entretanto, quando se trata de sentença terminativa (isso é, aquela


que extingue o processo sem resolver o mérito), não é pacífico o cabimento
do recurso inominado, havendo variações no entendimento conforme a
localidade em que se está atuando. Na 4ª Região, o recurso inominado contra
sentença terminativa é aceito, reconhecendo-se em regra seu cabimento, de
forma expressa ou tácita. Contudo em outras localidades se entende que
não cabe recurso inominado contra sentença terminativa. Assim, é
importante você verificar qual é o entendimento local e atuar conforme o mesmo.

A execução também pode ser encerrada por uma sentença, a qual


reconhece que a obrigação foi totalmente satisfeita, declarando extintas a
execução e a obrigação reconhecida na fase de conhecimento. Mas isso é
bastante raro no rito dos JEFs, no qual, normalmente o juiz simplesmente manda
arquivar o processo após cumprida a obrigação.

b) As questões que surgem durante o processo, que precisam ser


decididas, seja na fase de conhecimento, seja na de execução, são resolvidas
pelo juiz por meio de decisão interlocutória, na qual o juiz defere ou indefere
algum pedido ou providência. Por exemplo, se a parte requer a produção de
uma prova testemunhal, o juiz apreciará se essa é cabível ou não por meio de
decisão interlocutória, deferindo ou indeferido esse requerimento. Ou, então, se
a parte pede a concessão de antecipação de tutela ou de uma medida cautelar,
o juiz deferirá ou indeferirá esse pedido por meio de decisão interlocutória.

A diferença central entre a decisão interlocutória e a sentença é que


esta põe fim à fase de conhecimento ou de execução do processo, ao
passo que aquela apenas decide uma questão no curso do seu andamento.

No rito dos JEFs, as decisões interlocutórias são, em regra,


irrecorríveis. A única hipótese de recurso contra decisão interlocutória nos JEFs

24
é o RMC (recurso de medida cautelar) contra a decisão que defere ou
indefere medida cautelar ou antecipação de tutela (arts. 4º e 5º da Lei nº
10.259/01), já abordado acima.

c) Entretanto, nem todos os pronunciamentos do juiz são decisões,


havendo também os simples despachos. Os despachos são meras
determinações de andamento do processo, impulsionando-o para frente,
sem, contudo, deferir ou indeferir alguma providência. Por exemplo, após o
autor ajuizar a petição inicial, o juiz profere o despacho citatório (“cite-se”),
determinando a citação do réu para se defender. Ou o despacho para produção
de outras provas (“Intimem-se as partes para que manifestem se têm interesse
na produção de outras provas. Nada sendo requerido, voltem conclusos para
sentença”).

Como os despachos não têm “carga decisória” (isso é, não deferem nem
indeferem coisa alguma, tampouco prejudicam as partes), os mesmos são
irrecorríveis.

d) Como referido, os despachos não têm carga decisória (não deferem


ou indeferem coisa alguma, tampouco prejudicam qualquer das partes, apenas
impulsionam o processo para frente). Por isso, é possível a delegação desses
atos, pelo juiz aos servidores da Secretaria Judiciária/Cartório, o que
normalmente é feito por meio de Portaria, prevendo os casos em que o próprio
servidor impulsionará o processo, independentemente de despacho assinado
pelo juiz. Esse impulso realizado pelos servidores da Secretaria
Judiciária/Cartório se chama ato ordinatório. Da mesma forma que não cabe
recurso contra despacho, também não cabe contra ato ordinatório.

OBS.: a expressão “fazer o processo concluso” significa remetê-lo ao


juiz, para análise. Na época dos processos físicos, o processo estava concluso
quando estava no Gabinete do juiz, esperando que o mesmo o analisasse (o
que, hoje, é feito de maneira eletrônica).

25
5. Litispendência x coisa julgada

Como já referido, quando contra a decisão final de mérito da causa


não cabe mais nenhum recurso, seja porque todos foram esgotados, seja
porque transcorreu o prazo legal sem a sua interposição, se diz que a decisão
transitou em julgado. O termo “preclusão” significa a perda da faculdade de
praticar um ato processual; se ninguém interpuser recurso no prazo legal,
ocorrerá “preclusão temporal”, isso é, o decurso do prazo legal acarretará a
perda da possibilidade de apresentação de recurso, transitando em julgado a
decisão. Se diz que trânsito em julgado é a preclusão máxima, pois, a partir
de sua ocorrência, a decisão se torna definitiva, não cabendo mais nenhuma
discussão sobre o mérito da demanda.

A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (Lei nº 4.657/42)


define “coisa julgada” da seguinte forma:

Art. 6º A Lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o


ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada.
(...)
§3º Chama-se coisa julgada ou caso julgado a decisão
judicial de que já não caiba recurso.

A coisa julgada impede o ajuizamento de causa idêntica. Mas o que


ocorre se é ajuizada uma demanda idêntica a outra que ainda está em
andamento, que não foi encerrada e que, por consequência, ainda não teve
decisão ou na qual a decisão ainda não transitou em julgado?

Nesse caso está-se diante do fenômeno da litispendência, a qual se


verifica quando há o ajuizamento de demanda idêntica a outra que ainda está
tramitando (isso é, ainda está em andamento). Sobre o tema, dispõe o Código
de Processo Civil (CPC):

Art. 337. (...)


§ 1o Verifica-se a litispendência ou a coisa julgada quando se
reproduz ação anteriormente ajuizada.
§ 2o Uma ação é idêntica a outra quando possui as mesmas
partes, a mesma causa de pedir e o mesmo pedido.

26
§ 3o Há litispendência quando se repete ação que está em
curso.
§ 4o Há coisa julgada quando se repete ação que já foi
decidida por decisão transitada em julgado.

Importante esclarecer, nesse contexto, o que significa ação idêntica.


Conforme o §2º do art. 337 transcrito acima, para uma ação ser considerada
idêntica é necessário verificar-se a tríplice identidade: o autor e o réu são os
mesmos (mesmas partes), os fatos narrados e os fundamentos jurídicos
são os mesmos (causa de pedir) e o objeto é o mesmo (pedido). Essa é a
compreensão clássica, contudo, há uma teoria moderna que diz que essa
correspondência não precisa ser absoluta, bastando que o conflito social seja o
mesmo, para que haja identidade de ações. Essa teoria será abordada na parte
3 desse material.

6. Mandado de Segurança contra decisão judicial nos JEFs

Mandado de segurança é um remédio constitucional, isso é, uma ação


prevista na Constituição da República Federativa do Brasil (CRFB ou,
simplesmente, CF), destinada a proteger os direitos fundamentais do cidadão
contra atos arbitrários do Estado. O art. 5º, LXIX, da CRFB e o art. 1º da Lei nº
12.016/09 (Lei do Mandado de Segurança – LMS):

“art. 5º, LXIX - conceder-se-á mandado de segurança para


proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas
corpus ou habeas data, quando o responsável pela
ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública ou
agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do
Poder Público”;
Lei 12.016/09, Art. 1º Conceder-se-á mandado de segurança
para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas
corpus ou habeas data, sempre que, ilegalmente ou com
abuso de poder, qualquer pessoa física ou jurídica sofrer
violação ou houver justo receio de sofrê-la por parte de
autoridade, seja de que categoria for e sejam quais forem as
funções que exerça.

27
“Impetrar” é o verbo que se utiliza ao se referir ao ajuizamento de um
mandado de segurança. Dessa forma, “impetrar mandado de segurança”
significa ajuizá-lo, protocolando a sua petição inicial.

Tem-se direito líquido e certo quando os fatos da causa não


dependem de produção de provas no processo, ou seja, é aquele direito que
se ampara em fatos já comprovados por prova documental pré-constituída,
ou seja, prova documental constituída antes do processo. Isso porque, no
mandado de segurança, não se admite instrução (produção de provas, como a
oitiva de testemunhas, realização de perícias, etc.). Em suma, para caber
mandado de segurança, os fatos já devem estar comprovados de antemão (a
expressão “direito líquido e certo”, portanto, se refere aos fatos da causa, não
propriamente ao direito; a interpretação do direito pode ser discutível e sujeita a
interpretações diversas e, ainda assim, caberá mandado de segurança).

Além disso, trata-se de ação contra o ato de autoridade pública (ou de


quem esteja exercendo atribuição pública), o que, de forma mais usual, se
verifica em relação a atos de autoridade do Poder Executivo.

Muito se discutiu, por isso, sobre a possibilidade de impetração de


mandado de segurança contra atos judiciais, uma vez que esses podem ser
impugnados pelos recursos cabíveis, aptos a suspenderem a decisão, no curso
do processo judicial e, após o esgotamento dos recursos, se tornam definitivos,
ficando protegidos pela coisa julgada. Além disso, é da natureza da atividade
jurisdicional a existência de interpretações diferentes sobre a aplicação da lei,
não sendo possível, pela simples divergência de interpretações, se concluir que
uma decisão judicial seja ilegal. A ilegalidade ou abuso de poder somente
estarão configurados se a decisão for teratológica, isso é, completamente
absurda, frontalmente ilegal. Nesse sentido, diz-se que o mandado de
segurança não é substitutivo de recurso, pois cabe apenas em hipóteses
excepcionais.

28
A expressão “teratológica” vem de “Teratologia”, que é a parte da
medicina que se ocupa do estudo das malformações e das monstruosidades.
“Terato” significa “monstro” e “logia” significa estudo.

Nessa linha, a conclusão é, justamente, de que cabe mandado de


segurança contra decisão teratológica do Poder Judiciário, quando a
legislação processual não previr nenhum recurso cabível que possa
suspender a decisão, e essa não estiver transitada em julgado. Veja-se o
que dispõe a LMS (Lei nº 12.016/09):

Art. 5o Não se concederá mandado de segurança quando se


tratar:
I – (...)
II - de decisão judicial da qual caiba recurso com efeito
suspensivo;
III - de decisão judicial transitada em julgado.

Como visto, no procedimento dos Juizados Especiais Federais, a única


decisão interlocutória contra a qual cabe recurso é a que defere ou indefere a
antecipação de tutela ou a medida cautelar, contra a qual cabe RMC (recurso de
medida cautelar).

29
Todas as demais decisões interlocutórias são irrecorríveis, razão
pela qual, se forem teratológicas, contra elas caberá mandado de
segurança, conforme ilustrado acima.

Contudo, o entendimento sobre o que é teratológico ou não é mais


flexível no caso de impetração de mandado de segurança na fase de
execução.

Isso porque todas as decisões proferidas na fase de conhecimento


podem ser atacadas no momento do recurso contra a sentença, por
exemplo: se o juiz indeferiu a realização de uma prova indispensável, quando,
em momento posterior, ele proferir sentença, será possível a interposição de
recurso inominado alegando a nulidade do processo por cerceamento de defesa,

30
em virtude de o juiz haver, na fase instrutória, indeferido a produção de uma
prova considerada essencial. Isso se denomina preclusão elástica, que é a
característica de essas decisões somente precluírem junto com a sentença e
não de forma imediata.

O termo “preclusão” da decisão significa que a decisão não é mais


atacável, ou seja, se tornou definitiva dentro do processo. A coisa julgada é a
preclusão máxima.

Dessa forma, a impetração de mandado de segurança contra decisão


na fase de conhecimento é raríssima, somente cabível quando a decisão for
absolutamente ilegal e não houver possibilidade de se aguardar momento
posterior para atacá-la. Caso contrário, a decisão interlocutória na fase de
conhecimento será recorrível apenas junto com a sentença. Nesse sentido:

“Trata-se de mandado de segurança proposto pela parte


autora contra despacho que julgou improcedente o pedido
de complementação de perícia judicial.
A parte autora pleiteia a CONCESSÃO DA SEGURANÇA para
que o Perito Judicial nos autos do processo de nº 5010390-
90.2018.4.04.7201 seja intimado a responder os quesitos da
Impetrante que consta da exordial que instaurou o feito em
questão, de maneira a corrigir grave cerceamento de defesa, em
respeito ao devido processo legal e a ampla defesa.

31
Não foi veiculado pedido de medida liminar.

Prossigo para decidir.


O ato ora impetrado (despacho judicial) foi exarado nos
seguintes termos (DESPADEC1, evento 38, autos originários):
Indefiro o pedido formulado pela parte autora para que o
médico perito responda os quesitos apresentados por
petição, uma vez que as considerações do médico perito
são conclusivas e suficientes para a análise do mérito
desta ação.
Ademais, o médico perito utilizou o laudo eletrônico
recomendado pelo TRF da 4ª Região e somente deverá
responder os quesitos nele cadastrados, conforme
determinação do despacho do evento nº 03 (...apresentar
quesitos, os quais somente serão aceitos se incluídos
diretamente no laudo eletrônico, mediante acesso ao
processo eletrônico respectivo (“Ações” > “Quesitos do
Juízo” > "Selecionar a Parte"))..
Ciência à parte autora.
Após, registrem-se os autos para sentença.
Não merece trânsito o presenta Mandado de Segurança,
uma vez que manejado em face
de decisão interlocutória que, no microssistema dos
Juizados Especiais Federais, é irrecorrível.
Nessa senda, para que não se utilize
o Mandado de Segurança como sucedâneo recursal,
apenas se admite o seu conhecimento na hipótese de ficar
demonstrado que o ato, além de trazer prejuízo manifesto à
parte, se revista de flagrante ilegalidade, teratologia ou
abuso de poder.
Não é o caso da decisão ora guerreada, que é claramente
dotada de razoabilidade, tendo sido explicitamente apontados à
parte autora os parâmetros do rito processual acerca
da apresentação e posterior exame de quesitos
complementares (item 4, 'c', DESPADEC1, evento 3),
circunstância que restou inobservada pela ora Impetrante.
Ademais, através de um exame preliminar, observo que o laudo
judicial ora questionado encontra-se regularmente
fundamentado, inexistindo qualquer mácula que justifique a
ingerência na fase instrutória ora pleiteada.

32
Portanto, não há como imputar ao despacho ora
questionado, a característica de absurdo ou teratológico,
hipótese em que se poderia conhecer
do mandado de segurança contra ato judicial irrecorrível.
Caso contrário, esta ação, na prática, equivaleria ao recurso
que o legislador não quis criar (art. 5º da Lei nº 10.259/2001).
Neste sentido, extraio o seguinte excerto do voto proferido pelo
Juiz Edvaldo Mendes da Silva, proferido na sessão de 06-03-
2013 da 1ª Turma Recursal de Santa Catarina, no
mandado de segurança TR nº 5019583-45.2012.404.7200/SC:
O ato impugnado é de natureza judicial, isto é, emanado
de poder especialmente designado para interpretar e
aplicar a lei. Portanto, a noção de "ilegalidade" ou de
"abuso de poder" não se confunde com a simples
discordância. Fosse assim,
o mandado de segurança estaria reduzido a mero recurso.
No âmbito dos Juizados Especiais, o uso
do mandado de segurança como sucedâneo de recurso
afronta o artigo 5º da Lei n. 10.259/2001 e contraria a
própria finalidade desta jurisdição especial. Por fim, o
próprio direito líquido e certo se apresenta controvertido,
uma vez que desafia decisão judicial que nada tem de
teratológica nem de absurda mas, ao contrário, resulta de
interpretação aceitável da lei e decorre do livre
convencimento do magistrado. Em suma: não há direito
líquido e certo a uma decisão judicial favorável e, o fato de
ser a decisão irrecorrível, não enseja, por si só,
o mandado de segurança.
Por fim, registro que, a possibilidade de rediscutir a
matéria em sede de recurso inominado afasta
qualquer alegação de manifesto prejuízo à parte.
Dessa feita, diante da ausência dos pressupostos legais,
não é de ser conhecido o
presente Mandado de Segurança.

Sem honorários advocatícios, nos termos do artigo 25 da


Lei 12.016/09, bem como com fundamento na Súmula
105/STJ: "Na ação de mandado de segurança não se
admite condenação em honorários advocatícios".
Ante o exposto voto por NÃO CONHECER
DO MANDADO DE SEGURANÇA.”. (MANDADO DE
SEGURANÇA nº 5021808-28.2018.4.04.7200, SEGUNDA

33
TURMA RECURSAL DE SC, Relator HENRIQUE LUIZ
HARTMANN, julgado em 20/03/2019)

MÓDULO III) EXPOSIÇÃO DE CONTEÚDO AVANÇADO

1. Competência absoluta das Varas de Juizados Especiais Federais.

A competência dos Juizados Especiais Federais, nas causas de valor


inferior a 60 (sessenta) salários mínimos, é absoluta (não é relativa), o que
significa que é obrigatório o ajuizamento no Juizado Especial Federal, não sendo
possível ajuizar a demanda em uma Vara Federal comum.

Lei 10.259/01, art. 3º. (...).


§ 3º No foro onde estiver instalada Vara do Juizado Especial, a
sua competência é absoluta.

Dessa forma, uma demanda ajuizada na Justiça Federal, de valor inferior


a 60 (sessenta) salários mínimos obrigatoriamente tramitará pelo procedimento
dos Juizados Especiais Federais.

2. Recursos próprios dos JEFs (PRU, PNU e PUIL) e seu cabimento

34
O Pedido Regional de Uniformização de Jurisprudência (PRU) e o
Pedido Nacional de Uniformização de Jurisprudência (PNU) são recursos
próprios do procedimento dos Juizados Especiais Federais, tendo previsão na
lei 10.259/09:

“Art. 14. Caberá pedido de uniformização de interpretação de lei


federal quando houver divergência entre decisões sobre
questões de direito material proferidas por Turmas Recursais na
interpretação da lei.”
“§1º O pedido fundado em divergência entre Turmas da
mesma Região será julgado em reunião conjunta das Turmas
em conflito, sob a presidência do Juiz Coordenador.” (PRU)
“§2º O pedido fundado em divergência entre decisões de
turmas de diferentes regiões ou da proferida em
contrariedade a súmula ou jurisprudência dominante do
STJ será julgado por Turma de Uniformização, integrada por
juízes de Turmas Recursais, sob a presidência do Coordenador
da Justiça Federal.” (PNU)

Como se observa a partir do texto legal, o objetivo desses recursos é


exclusivamente solucionar divergência jurisprudencial, razão pela qual é
necessário sempre que haja um paradigma, ou seja, uma decisão de outra
Turma Recursal, que tenha atribuído interpretação diferente a caso
35
semelhante ao que está sendo julgado. Nisso, há uma diferença substancial
em relação ao rito ordinário (procedimento do Código de Processo Civil, para
causas de valor superior a 60 salários mínimos), no qual cabe recurso especial
para o STJ com fundamento exclusivamente na má interpretação da lei,
independentemente de paradigma (art. 105, III, “a”, da CRFB), situação que não
existe nos Juizados Especiais Federais.

Dessa forma, tratando-se de interpretação de lei, somente é possível


fazer o caso “subir” para além da Turma Recursal (isso é, para a TRU ou
TNU) se houver paradigma de outra Turma Recursal, dando interpretação
diferente à lei, ou seja, se houver divergência jurisprudencial. Se esse paradigma
for de Turma Recursal mesma Região (por exemplo, RS x SC), caberá PRU
(que será julgado pela Turma Regional de Uniformização – TRU); se, por outro
lado, a divergência for entre turmas de diferentes Regiões (por exemplo, PR x
SP), caberá PNU (que será julgado pela Turma Nacional de Uniformização de
Jurisprudência – TNU).

Existe, ainda, o Pedido de Uniformização de Interpretação de Lei


para o STJ (PUIL) contra decisões da TNU que contrariem súmula ou
jurisprudência dominante do STJ. Veja-se:

§4º Quando a orientação acolhida pela Turma de


Uniformização, em questões de direito material, contrariar
súmula ou jurisprudência dominante no Superior Tribunal de
Justiça -STJ, a parte interessada poderá provocar a
manifestação deste, que dirimirá a divergência. (PUIL – pedido
de Uniformização para o STJ)

2.1. Descabimento de PRU ou PNU em matéria de fato

O PNU e o PRU são recursos que têm por objetivo sanar divergência
jurisprudencial sobre a aplicação da lei em casos semelhantes, ou seja, pacificar
a correta interpretação da lei, evitando que essa seja interpretada de forma
diversa em casos idênticos. Por isso se diz que são recursos que tratam de
matéria de direito, ou seja, matéria de interpretação das normas jurídicas
aplicáveis a certo tipo de caso.

36
Quando se diz que não cabe PRU ou PNU em matéria de fato, o que
se está afirmando é que não cabe a interposição desses recursos para
simples reexame de prova, ou seja, para revisar a conclusão da Turma
Recursal sobre como os fatos ocorreram. Na interposição do PRU ou PNU, a
matéria fática (isso é, a versão dos fatos acolhida) já está definida e o que se
discute é como aplicar corretamente a lei a esses fatos.

Esse mesmo entendimento, aliás, se aplica também ao recurso


extraordinário (RE), que é direcionado ao Supremo Tribunal Federal quando há
alegação de interpretação ou aplicação equivocada da Constituição (e, no RE,
não há exigência de paradigma, basta alegação de má interpretação do texto da
Constituição – art. 102, III, “a”, da CRFB). É também inadmissível o RE para
reanálise de matéria fática.

Veja-se o que dizem as Súmulas da TNU e do STF sobre o assunto:

TNU, Súmula nº 42. Não se conhece de incidente de


uniformização que implique reexame de matéria de fato.
STF, Súmula nº 279. Para simples reexame de prova não cabe
recurso extraordinário.

O termo “súmula” se refere a enunciados que são elaborados pelos


tribunais e turmas recursais, os quais resumem um entendimento pacífico (isto
é, sobre o qual não há divergência) naquele órgão jurisdicional.

2.2. Descabimento de PRU ou PNU em matéria processual

Matéria processual é aquela ligada ao andamento do processo, não ao


direito material (que é o objeto da demanda, o direito da parte discutido cuja
proteção se busca através do processo). Ao tratar sobre o pedido de
uniformização (seja o PRU ou o PNU), o caput do art. 14 da Lei nº
10.259/01, restringiu as discussões possíveis, referindo apenas caber esses
recursos para discutir questões de direito material (excluindo, assim, as
discussões processuais):

Art. 14. Caberá pedido de uniformização de interpretação de lei


federal quando houver divergência entre decisões sobre

37
questões de direito material proferidas por Turmas Recursais
na interpretação da lei.

Nesse sentido é o entendimento sumulado da TNU e da TRU da 4ª


Região, in verbis:

TNU, Súmula nº 43. "Não cabe incidente de uniformização que


verse sobre matéria processual".
TRU-4ª Região, Súmula nº 01. "Não caberá pedido de
uniformização de interpretação de lei federal quando a
divergência versar sobre questões de direito processual".

Um dos exemplos mais drásticos da importância e da gravidade dessa


restrição é a impossibilidade de se discutir, em nível regional ou nacional, a
interpretação sobre o que caracteriza ou não coisa julgada, ou seja, sobre a
interpretação acerca a incidência da coisa julgada a certa situação fática, como
nos precedentes abaixo:

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO EM INCIDENTE NACIONAL


DE UNIFORMIZAÇÃO DE JURISPRUDÊNCIA. COISA
JULGADA. DIMENSIONAMENTO DOS EFEITOS. MATÉRIA
PROCESSUAL. INCIDENTE NÃO CONHECIDO POR
INCIDÊNCIA DA SÚMULA Nº 43. OPOSIÇÃO DE EMBARGOS
QUE EM VERDADE PRETENDEM NOVO JULGAMENTO DA
MATÉRIA. REJEIÇÃO. (Pedido de Uniformização de
Interpretação de Lei (Turma) 5002476-87.2014.4.04.7112,
JOSÉ FRANCISCO ANDREOTTI SPIZZIRRI - TURMA
NACIONAL DE UNIFORMIZAÇÃO.)
PEDIDO DE UNIFORMIZAÇÃO SUSCITADO PELA UNIÃO.
DISCUSSÃO A RESPEITO DA COISA JULGADA. MATÉRIA
DE ÍNDOLE PROCESSUAL. SÚMULA 43/TNU. INCIDENTE
NÃO CONHECIDO. (Pedido de Uniformização de Interpretação
de Lei (Turma) 0500006-13.2017.4.05.9850, SERGIO DE
ABREU BRITO - TURMA NACIONAL DE UNIFORMIZAÇÃO.)

2.3. Similitude fática do paradigma e cotejo analítico

Como referido, a interposição de PRU ou PNU depende de paradigma.


Esse paradigma deve trazer caso semelhante, tanto nos aspectos fáticos,
quanto jurídicos, ao caso em discussão, sob pena de não ser possível a

38
comparação entre ambos e a identificação da forma como divergiram na
aplicação do direito a situações muito semelhantes. Daí se diz que o acórdão
recorrido deve ter similitude fática e jurídica com o acórdão utilizado como
paradigma.

TNU, QUESTÃO DE ORDEM Nº 22. É possível o não-


conhecimento do pedido de uniformização por decisão
monocrática quando o acórdão recorrido não guarda
similitude fática e jurídica com o acórdão paradigma.
(Aprovada na 8ª Sessão Ordinária da Turma Nacional de
Uniformização, do dia 16.10.2006).

A fim de demonstrar essa similitude fática e jurídica, permitindo a sua


fácil constatação, no PRU ou PNU, deve-se, necessariamente fazer o cotejo
analítico, que é o batimento das questões fáticas e jurídicas tratadas em
um e outro, comparando-os. Somente mencionar os precedentes e colar as
ementas (ementa = resumo do julgamento) não é suficiente, sendo necessária a
realização de uma comparação analítica entre o caso recorrido e o acórdão
paradigma (isso é, o cotejo analítico). Veja-se como a questão é abordada pela
TNU:

(...) 4.1. A petição do incidente de uniformização deve conter


obrigatoriamente a demonstração do dissídio, com a
realização de cotejo analítico em duas etapas: primeiro, pela
comparação entre as questões de fato tratadas no acórdão
impugnado e no paradigma, com reprodução dos
fundamentos de ambos; depois, pelo confronto das teses
jurídicas em conflito, evidenciando a diversidade de
interpretações para a mesma questão de direito. 4.2. No caso
dos autos, a recorrente limitou-se a transcrever ementas de
diversos julgados, oriundos da Turma Regional e Turma
Recursal de Mato Grosso e do Superior Tribunal de Justiça, não
demonstrando a similitude fático-jurídica entre os julgados
paradigmas e o acórdão recorrido. (...). (...). (PEDILEF
200638007233053, JUÍZA FEDERAL ANA BEATRIZ VIEIRA DA
LUZ PALUMBO, TNU, DOU 24/10/2014 PÁGINAS 126/240.).

Por fim, há situações em que, além de demonstrar a similitude fática


através do cotejo analítico, é necessário juntar cópia do acórdão paradigma

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para conferência, o que ocorre quando se tratar de divergência entre turmas
de diferentes regiões:

TNU, QUESTÃO DE ORDEM Nº 03. A cópia do acórdão


paradigma somente é obrigatória quando se tratar de
divergência entre turmas recursais de diferentes regiões,
sendo exigida, no caso de julgado obtido por meio da internet, a
indicação da fonte que permita a aferição de sua autenticidade.

3. Coisa julgada, litispendência e teoria da identidade de relação jurídica

Insta frisar, conforme leciona Alexandre Freitas Câmara, que a teoria


das três identidades não é capaz de explicar todas as hipóteses, servindo, tão
somente, como regra geral. Há casos em que se deve aplicar a 'teoria da
identidade da relação jurídica', segundo a qual o novo processo deve ser
extinto quando a res in iudicium deducta for idêntica à que se deduziu no
processo primitivo, ainda que haja diferença entre alguns dos elementos
identificadores da demanda (Lições de Direito Processual Civil, Rio de Janeiro,
Lumen Juris, 2005, p. 474). (grifei).

Nesse sentido, há precedente da PRIMEIRA SEÇÃO do Colendo


Superior Tribunal de Justiça, no qual foi consignado que o “(...) fenômeno da
litispendência se caracteriza quando há identidade jurídica, ou seja, quando as
ações intentadas objetivam, ao final, o mesmo resultado, ainda que o polo
passivo seja constituído de pessoas distintas (...)”(AgRg no MS 20.548/DF, Rel.
Ministro Og Fernandes, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 10/06/2015, DJe
18/06/2015).

Resta clara, assim, a necessidade de diferenciar-se entre duas teorias,


ambas acolhidas pelo Código de Processo Civil: 1) a teoria da tríplice
identidade (art. 337, §2º, do CPC/2015, que funciona como regra geral; 2) a
teoria da identidade da relação jurídica, segundo a qual há repetição de ações
quando a res in iudicium deducta (isto é, a coisa deduzida em juízo) é a mesma,
ainda que haja diferença entre algum dos elementos identificadores da demanda
(partes, causa de pedir e pedido) – art. 505, caput e art. 508 do CPC, in verbis:

40
Art. 505. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já
decididas relativas à mesma lide, salvo:
I - se, tratando-se de relação jurídica de trato continuado,
sobreveio modificação no estado de fato ou de direito, caso
em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na
sentença;
II - nos demais casos prescritos em lei.
Art. 508. Transitada em julgado a decisão de mérito,
considerar-se-ão deduzidas e repelidas todas as alegações
e as defesas que a parte poderia opor tanto ao acolhimento
quanto à rejeição do pedido. (grifei).

Importante destacar que essa interpretação do ordenamento jurídico é a


que melhor se coaduna com a função de pacificação social da Jurisdição,
impedindo a eternização de conflitos sociais e fortalecendo a segurança
jurídica (art. 5º, XXXVI, da CRFB e art. 5º da LINDB). Também adotando esse
entendimento:

PROCESSUAL CIVIL E CONSTITUCIONAL. SERVIDOR


PÚBLICO. INATIVO SOB A ÉGIDE DA CLT.
RESTABELECIMENTO DE COMPLEMENTAÇÃO SUPRIMIDA.
OFENSA À COISA JULGADA. TEORIA DA IDENTIDADE DA
RELAÇÃO JURÍDICA. 1. O autor ajuizou perante a Justiça
Federal, Seção Judiciária de Mato Grosso, mandado de
segurança pleiteando anulação de ato que suprimiu
complementação de remuneração que vinha sendo paga em sua
inatividade. A segurança foi denegada com exame de mérito,
considerando-se o ato legal, estabelecendo também o
contraditório e a ampla defesa, de forma que produziu coisa
julgada material sobre o tema. 2. Em conformidade com o
sistema processual civil brasileiro, duas teorias informam a
coisa julgada: a teoria da tríplice identidade (artigo 301,
parágrafo segundo do CPC) e a teoria da relação jurídica
(artigo 471, caput e 474 do CPC). Pela primeira, a coisa
julgada, como regra geral, só promove a idêntica à que
levou à instauração do primeiro processo (mesmas partes,
mesma causa de pedir e mesmo pedido). Pela segunda, "o
novo processo deve ser extinto quando a res in iudicium
deducta for idêntica à que se deduziu no processo primitivo,
ainda que haja diferença entre alguns dos elementos
identificadores da demanda" - causa de pedir e pedido.

41
(TRF-1, AMS 00050195220014013600, 2ª Turma Suplementar,
Rel. Juíza Federal Rosimayre Gonçalves de Carvalho, d.j.
14/12/2011). (grifei).
“PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. APELAÇÃO. IMPOSTO
DE RENDA. PESSOA FÍSICA. ELEMENTOS
IDENTIFICADORES DA AÇÃO. TEORIA DA IDENTIDADE DA
RELAÇÃO JURÍDICA. MANDADO DE SEGURANÇA.
LITISPENDÊNCIA. OCORRÊNCIA. 1. A existência de coisa
julgada constituída em um processo judicial implica a extinção
de outro processo quando se tratar de demanda idêntica àquela
julgada primeiramente. E conforme preceitua o artigo 301, § 2º,
do CPC, as demandas judiciais são consideradas idênticas
quando possuem as mesmas partes, causa de pedir e pedido. 2.
A litispendência caracteriza-se na hipótese de repetição de ação
anteriormente ajuizada e que ainda esteja em curso. Está
presente a congruência exata dos elementos identificadores da
ação, já que estão litigando no presente feito e integram a
relação jurídica processual da ação ajuizada anteriormente, em
curso, as mesmas partes, sendo idênticos os pedidos mediato e
imediato, tendo por suporte a mesma causa de pedir. Com
efeito, está consubstanciada a litispendência. 3. Embora as
demandas não tenham exatamente as mesmas pessoas
figurando no polo passivo, não se pode afastar, no caso em tela,
a coisa julgada apenas em razão da diversidade do polo passivo.
Isso porque a teoria da tríplice identidade (mesmas partes,
mesma causa de pedir e mesmo pedido) atua apenas como
regra geral, não sendo suficiente para explicar todas as
situações. Em algumas hipóteses, para a caracterização da
coisa julgada, deve-se analisar se a questão debatida em um
processo é a mesma, ainda que alguns elementos
identificadores da ação sejam distintos. Trata-se de
aplicação da "teoria da identidade da relação jurídica". 4.
Sentença reformada para extinguir o feito, sem julgamento do
mérito.” (TRF-2, AC 201351011345619, Quarta Turma
Especializada, Rel. Des. Federal Luiz Antônio Soares, d.j.
29/10/2014).

Por fim, vale referir que a eficácia preclusiva da coisa julgada veda a
revisão, reinterpretação e/ou nova valoração do que foi decidido na anterior
demanda:

42
“(...). Denota-se da petição inicial e da sentença proferida no
processo n.º 0002811-85.2008.4.03.6319 (cópias anexadas em
20.01.2015, arquivos Inicial proc. 2008.2811-0.pdf e Sentença
proc 2008.2811-0.doc), que o pedido de cômputo dos períodos
rurais de 1966 a 1971 e 1972 a 1975, compôs o objeto daquela
demanda, e, ao contrário do que sustenta a parte autora, teve
seu mérito devidamente apreciado pelo Juízo competente, que
decidiu por não reconhecê-los para fins previdenciários.
Qualquer inconformismo contra o teor da sentença proferida no
processo n.º 0002811-85.2008.4.03.6319 deveria ser
manifestado naqueles autos, pelas vias recursais próprias, nos
prazos previstos na lei processual. No entanto, nenhum recurso
foi interposto contra aquele Julgado, cujo trânsito em julgado foi
certificado em 17.12.2008, conforme constatado em consulta
efetuada no Sistema Processual dos Juizados Especiais
Federais. É evidente que a parte autora, ao propor a presente
ação (ajuizada pouco mais de dois meses após o trânsito em
julgado do primeiro processo), pretende obter a reforma de
provimento judicial que já transitou em julgado, o que é vedado
pela lei processual civil. Na lição de Luiz Guilherme Marinoni
e Daniel Mitidiero A coisa julgada tem eficácia positiva,
negativa e preclusiva. A coisa julgada pode servir como
ponto de apoio para que a parte interessada deduza outra
pretensão em juízo, sendo essa sua eficácia positiva. Nesse
caso, o segundo juízo não poderá dissentir daquilo sobre o
qual se formou a coisa julgada. A eficácia negativa da coisa
julgada consiste no veto a que outros juízos examinem
aquilo que já foi decidido com força de coisa julgada. A
alegação de existência de coisa julgada leva à extinção do
processo sem resolução do mérito (art. 267, V, CPC). A
eficácia preclusiva da coisa julgada consiste em tornar
irrelevante, para efeitos de controverter as questões
decididas com força de coisa julgada, eventuais alegações
e defesas que poderiam ter sido formuladas em juízo, mas
não o foram (art. 474, CPC). (Código de Processo Civil
Comentado, 2ª ed., RT, pág. 446/447). Aplicando-se a teoria ao
caso concreto, a eficácia preclusiva da coisa julgada veda a
revisão, reinterpretação e/ou valoração do dispositivo da
sentença proferida nos autos na ação 0002811-
85.2008.4.03.6319. Assim, constato a existência de coisa
julgada material, a ensejar a aplicação do artigo 267, inciso
V, do Código de Processo Civil. (...) (8ª TR/SP, Recurso

43
inominado 00022919120094036319, Rel. Juiz Federal Márcio
Rached Millani, d.j., 23/02/2015).

ANEXOS – Detalhamento de algumas questões explicadas na parte


1, 2 ou 3.

1. Recurso de medida cautelar e variações regionais

Já referimos que a lei não atribui um nome ao recurso contra a


concessão de medida cautelar ou antecipação de tutela, sendo que
“recurso de medida cautelar” é a nomenclatura utilizada na 4ª Região, na
qual a interposição é facilitada pelo sistema de processo eletrônico, bastando a
elaboração da petição do recurso e a movimentação direcionada à turma
recursal. Como o processo é eletrônico na 4ª Região, a própria turma analisa os
autos e toda a documentação, não havendo necessidade de juntar nenhum
documento com esse recurso.

Contudo, como não há previsão legal expressa regulando o tema, pode


haver variações locais, sendo importante verificar o procedimento que é
adotado pela turma da localidade em que se está atuando. Por exemplo, o
Regimento Interno das Turmas Recursais de Pernambuco prevê o
cabimento do recurso de agravo de instrumento no prazo de 15 (quinze) dias
contra a decisão que defere ou indefere medidas cautelares ou antecipação de
tutela:

Art. 34. Das decisões que deferirem ou indeferirem medidas


cautelares ou antecipatórias de tutela, caberá agravo de
instrumento no prazo de 15 (quinze) dias, não sendo cabível tal
recurso para outras hipóteses não previstas neste dispositivo.
Parágrafo único. A parte contrária será intimada para
contrarrazoar em igual prazo.

Agravo de instrumento é recurso previsto no Código de Processo


Civil, que é interposto diretamente na segunda instância (no caso, na turma
recursal) e deve vir acompanhado dos seguintes documentos (art. 1.017 do
CPC):

44
I - obrigatoriamente, com cópias da petição inicial, da
contestação, da petição que ensejou a decisão agravada, da
própria decisão agravada, da certidão da respectiva
intimação ou outro documento oficial que comprove a
tempestividade e das procurações outorgadas aos advogados
do agravante e do agravado;
II - com declaração de inexistência de qualquer dos documentos
referidos no inciso I, feita pelo advogado do agravante, sob pena
de sua responsabilidade pessoal;
III - facultativamente, com outras peças que o agravante
reputar úteis.

Se os autos forem físicos, aquele que interpôs o agravo deve comunicar


o juízo de primeira instância, no prazo de 3 (três) dias a contar da interposição,
juntando cópia da petição do agravo de instrumento, comprovante de sua
interposição e relação dos documentos que instruíram o recurso (art. 1.018
do CPC). Se não o fizer e a outra parte arguir isso, o agravo não será conhecido.
Isso se dá porque o juiz pode, ao saber da interposição, reconsiderar sua
decisão. Contudo essa providência é facultativa se o processo for eletrônico
(porque os documentos estão disponíveis facilmente para consulta).

2. Recurso inominado contra sentença terminativa.

Na 4ª Região, tem-se aceitado a interposição de recurso inominado


contra sentença terminativa, o que acarreta o não cabimento de mandado de
segurança. Cita-se, exemplificativamente:

Trata-se de mandado de segurança impetrado pela parte


autora contra decisão terminativa que, reconhecendo a
incompetência federal para a demanda, extinguiu o processo e
determinou sua redistribuição à Justiça Estadual, sem apreciar
o mérito da causa.
Em última análise, o impetrante pretende ver reconhecido como
direito líquido e certo o processamento de sua demanda na
Justiça Federal e, para isso, argumenta que a situação de fato
narrada nos autos não se enquadra na que está descrita na
decisão terminativa ora impugnada. Mais especificamente,
sustenta que o titular da conta de FGTS cujo saldo pretende

45
levantar está vivo, de modo que não seria aplicável ao caso a
súmula 161 do STJ, como entendeu o Juízo de primeiro grau.
Liminarmente, pugna que o processo subjacente seja suspenso
até o julgamento final deste mandamus.
A decisão que extingue o processo federal em relação a todas
as partes e, sem resolução do mérito, declina da competência
em favor da Justiça Estadual tem natureza terminativa e pode
ser atacada pelo recurso previsto no art. 41 da Lei 9.099/1995,
ao qual é possível, inclusive, atribuir-se efeito suspensivo (art.
43). Confira-se:
PROCESSUAL - MANDADO DE SEGURANÇA - DECISÃO
QUE DECLARA EXTINTO O PROCESSO - NATUREZA
JURÍDICA - RECURSO ESPECIAL - RETENÇÃO (CPC - ART.
542) - INOCORRÊNCIA.
A decisão que extingue o processo, por ser terminativa do
processo não é interlocutória, constituindo sentença. O Recurso
Especial manejado contra ela não deve permanecer retido, por
efeito do Art. 542, § 3º.
(STJ, Corte Especial, MS 6.909, Rel. Min. Humberto Gomes de
Barros, j. 06.6.2001, DJ 22.10.2001, p. 259)
De fato, a incompetência para a causa é uma das hipóteses
expressamente consignadas na Lei 9.099 para a extinção do
processo, sem resolução do mérito, conforme se vê no art. 51
daquele diploma legal:
Art. 51. Extingue-se o processo, além dos casos previstos em
lei:
III - quando for reconhecida a incompetência territorial.
Ora, tanto reconhecendo a incompetência absoluta como
declarando a incompetência relativa, a decisão que extingue o
processo com tal fundamento tem natureza de
sentença sem resolução do mérito e, por conseguinte, pode ser
atacada na via recursal.
Tenho, pois, como aplicável ao caso o disposto no art. 5º da Lei
12.016/2009 e na súmula 627 do STF, que assim dispõem:
Art. 5º - Não se concederá mandado de segurança quando se
tratar:
II - de decisão judicial da qual caiba recurso com efeito
suspensivo;

46
Súmula 267 do STF:
Não cabe mandado de segurança contra ato judicial passível de
recurso ou correição.
Em outras palavras, cabe afirmar que o mandado de
segurança não pode ser manejado como sucedâneo ou
substituto recursal, isto é, em lugar do recurso cabível na
espécie, tenha ele sido interposto ou não.
Em face dessas considerações, entendo que, por não ser caso
de mandado, deve ser desde logo indeferida a inicial, nos
termos do art. 10 da Lei 12.016/2009.
Sem condenação em honorários, nos termos do art. 25 da Lei
12.016/2009, c/c súmulas 512 do STF e 105 do STJ.

Ante o exposto, voto por indeferir desde logo a inicial do


mandado de segurança, nos termos do art. 10 da Lei
12.016/2009. (5053030-28.2015.4.04.7100, QUINTA
TURMA RECURSAL DO RS, Relator GIOVANI BIGOLIN,
julgado em 06/10/2015)

Adotando o mesmo entendimento, a Quinta Turma Recursal do Rio


Grande do Sul concedeu mandado de segurança contra decisão de primeira
instância que não recebeu recurso inominado interposto contra sentença
terminativa (5060657-49.2016.4.04.7100, QUINTA TURMA RECURSAL DO RS,
Relatora JOANE UNFER CALDERARO, julgado em 26/01/2017).

Na mesma linha, há vários acórdãos na 4ª Região reconhecendo


expressa ou tacitamente o cabimento do recurso inominado contra sentença
terminativa (5003353-58.2018.4.04.7121, PRIMEIRA TURMA RECURSAL DO
RS, Relator FERNANDO ZANDONÁ, julgado em 23/01/2019; 5060322-
59.2018.4.04.7100, QUINTA TURMA RECURSAL DO RS, Relator GIOVANI
BIGOLIN, julgado em 22/11/2018; 5046915-20.2017.4.04.7100, QUINTA
TURMA RECURSAL DO RS, Relator GIOVANI BIGOLIN, julgado em 17/12/2018;
5005282-14.2017.4.04.7105, PRIMEIRA TURMA RECURSAL DO RS, Relator

47
FERNANDO ZANDONÁ, julgado em 14/11/2018; 5029603-74.2016.4.04.7000,
PRIMEIRA TURMA RECURSAL DO PR, Relator GERSON LUIZ ROCHA, julgado em
06/06/2018; 5014204-84.2016.4.04.7200, TERCEIRA TURMA RECURSAL DE SC,
Relator ANTONIO FERNANDO SCHENKEL DO AMARAL E SILVA, julgado em
20/09/2017; 5015041-42.2016.4.04.7200, TERCEIRA TURMA RECURSAL DE SC,
Relator GILSON JACOBSEN, julgado em 24/10/2017).

No mesmo sentido, exemplificativamente, cita-se a súmula 20 da TRU


da 3ª Região, o Regimento Interno da Turma Recursal de Pernambuco e o
Enunciado FONAJEF nº 144

TRU – 3ª Região. SÚMULA Nº 20 - " Não cabe mandado de


segurança no âmbito dos juizados especiais federais. Das
decisões que põem fim ao processo, não cobertas pela
coisa julgada, cabe recurso inominado." (Origem: processo
0000146-33.2015.4.03.9300; processo 0000635-
67.2015.4.03.9301)
Regimento interno TR/PE. Art. 35. Da sentença definitiva,
incluída a sentença de extinção sem julgamento do mérito à
qual se impute a negativa de prestação jurisdicional, caberá
recurso inominado no prazo de 10 (dez) dias.

FONAJEF, Enunciado nº 144. É cabível recurso inominado


contra sentença terminativa se a extinção do processo obstar
que o autor intente de novo a ação ou quando importe
negativa de jurisdição (Aprovado no XI FONAJEF).

No recurso nº 0503409-79.2016.4.05.8312, a 3ª Turma Recursal dos


JEFs de Pernambuco fez distinção entre sentenças terminativas que impedem o
novo ajuizamento da mesma ação e aquelas que não impedem, entendendo que
cabe recurso inominado apenas no primeiro caso:

PROCESSO CIVIL. RECURSO INOMINADO INTERPOSTO


CONTRA SENTENÇA TERMINATIVA. JUIZADOS ESPECIAIS
FEDERAIS. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL

48
NÃO CONFIGURADA. RECURSO DO AUTOR NÃO
CONHECIDO.
Trata-se de recurso inominado interposto pela parte autora
contra sentença que extinguiu o processo, sem resolução do
mérito, em face da ausência de documento necessário ao
desenvolvimento válido e regular do processo.
O art. 5º. da Lei nº. 10.259/2001 dispõe que "somente será
admitido recurso de sentença definitiva".
Contudo, em se tratando de sentenças terminativas com
caráter definitivo, admite-se o conhecimento do recurso.
Isso porque o seu não conhecimento implicaria denegação
de prestação jurisdicional, tornando algumas decisões
irrecorríveis. Esse caráter definitivo encontra-se presente
nas sentenças que impedem um novo ajuizamento da
causa, como ocorre nos casos de reconhecimento da coisa
julgada, perempção e litispendência, por exemplo. Os casos
de extinção do processo por falta de documentos, inépcia,
ausência de pressupostos processuais, dentre outros,
tornam incabíveis a via recursal, por haver a possibilidade
de ajuizar-se de uma nova ação.
Não assiste razão ao recorrente. No caso, o juiz a quo prolatou
sentença terminativa, calcada na ausência de documento
essencial ao deslinde da causa. Tal situação, todavia, não
implica negativa de prestação jurisdicional, pois a parte autora
poderá ajuizar novamente a mesma demanda após regularizar
a documentação necessária ao processamento do feito.
Recurso inominado não conhecido. (Processo nº 0503409-
79.2016.4.05.8312, a 3ª Turma Recursal - JEF/PE, j.
10/04/2017)

Não aceitando recurso inominado contra sentença terminativa, citam-se,


ainda, precedentes de Rio Grande do Norte, Ceará e Minas Gerais:

PROCESSO CIVIL. AUTORA COM DOMICÍLIO EM OUTRO


ESTADO. SENTENÇA TERMINATIVA DO PROCESSO SEM
RESOLUÇÃO DO MÉRITO. RECURSO INOMINADO.
INADMISSIBILIDADE. NÃO CONHECIMENTO. - Recorre a
parte autora da sentença que extinguiu o processo, sem
resolução do mérito, por ela ter domicílio no Município de Macaé-
RJ. - O artigo 5º da Lei 10.259/01 disciplina a possibilidade
recursal no âmbito dos Juizados Especiais Federais,

49
restringindo-a, ressalvadas as hipóteses do artigo 4º
(deferimento de medidas cautelares), aos casos de sentença
definitiva. - Esta Turma Recursal emitiu o Enunciado nº 07, com
o seguinte teor: “ Não cabe recurso de sentença que não aprecia
o mérito em sede de Juizado Especial Federal (artigo 5º da Lei
10.259/2001), salvo excepcionalmente quando o seu não
conhecimento acarretar negativa de jurisdição. (aprovada na
sessão de 19 de setembro de 2008). ” - Como a autora pode
ajuizar a demanda no Juízo Federal com jurisdição no local do
seu domicílio, não há negativa da jurisdição, não sendo,
portanto, cabível o presente mandamus. - Recurso da autora
não conhecido. (Processo nº 0500150-27.2011.4.05.9840,
Terceira Turma – JEF/RN, j. 24/02/2012)

O art. 4º, c/c o art. 5º, da Lei nº. 10.259/2001, prevêem


expressamente os casos de admissibilidade de recursos nos
Juizados Especiais Federais, in verbis: Art. 4º O Juiz poderá, de
ofício ou a requerimento das partes, deferir medidas cautelares
no curso do processo, para evitar dano de difícil reparação. Art.
5º Exceto nos casos do artigo 4º, somente será admitido recurso
de sentença definitiva. O juízo de admissibilidade recursal é
pressuposto de validade do processo, podendo, portanto, ser
apreciado pelo juízo a qualquer tempo. In casu, verifico que o
autor interpôs recurso inominado, em face de sentença
terminativa, o que não é permitido pelo sistema processual
vigente, no que pertine ao regramento dos Juizados
Especiais. Percebe-se, assim, que o recurso inominado
manejado pela autora não se amolda nas hipóteses
previstas na Lei dos Juizados Especiais Federais. À luz do
exposto, inadmito o recurso, e determino a certificação do
trânsito em julgado da presente demanda. (Processo nº
0518516-96.2011.4.05.8100, Segunda Turma Recursal/CE, j.
08/10/2014).
APOSENTADORIA POR IDADE. SENTENÇA TERMINATIVA.
AUSÊNCIA DE INÍCIO DE PROVA MATERIAL. RECURSO
INOMINADO. INVIABILIDADE. 1. Insurge-se o recorrente
contra sentença que extinguiu o feito sem resolução do
mérito ante a ausência de início de prova material da
condição de segurado especial. 2. Ausente o início de prova
material e a oitiva de testemunhas, aplica-se o disposto em
jurisprudência do STJ: "DIREITO PREVIDENCIÁRIO.
RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA
CONTROVÉRSIA. ART. 543-C DO CPC. RESOLUÇÃO No.
8/STJ. APOSENTADORIA POR IDADE RURAL. AUSÊNCIA DE

50
PROVA MATERIAL APTA A COMPROVAR O EXERCÍCIO DA
ATIVIDADE RURAL. CARÊNCIA DE PRESSUPOSTO DE
CONSTITUIÇÃO E DESENVOLVIMENTO VÁLIDO DO
PROCESSO. EXTINÇÃO DO FEITO SEM JULGAMENTO DO
MÉRITO, DE MODO QUE A AÇÃO PODE SER REPROPOSTA,
DISPONDO A PARTE DOS ELEMENTOS NECESSÁRIOS
PARA COMPROVAR O SEU DIREITO. RECURSO ESPECIAL
DO INSS DESPROVIDO. 1. Tradicionalmente, o Direito
Previdenciário se vale da processualística civil para regular os
seus procedimentos, entretanto, não se deve perder de vista as
peculiaridades das demandas previdenciárias, que justificam a
flexibilização da rígida metodologia civilista, levando-se em
conta os cânones constitucionais atinentes à Seguridade Social,
que tem como base o contexto social adverso em que se
inserem os que buscam judicialmente os benefícios
previdenciários. 2. As normas previdenciárias devem ser
interpretadas de modo a favorecer os valores morais da
Constituição Federal/1988, que prima pela proteção do
Trabalhador Segurado da Previdência Social, motivo pelo qual
os pleitos previdenciários devem ser julgados no sentido de
amparar a parte hipossuficiente e que, por esse motivo, possui
proteção legal que lhe garante a flexibilização dos rígidos
institutos processuais. Assim, deve-se procurar encontrar na
hermenêutica previdenciária a solução que mais se aproxime do
caráter social da Carta Magna, a fim de que as normas
processuais não venham a obstar a concretude do direito
fundamental à prestação previdenciária a que faz jus o
segurado. 3. Assim como ocorre no Direito Sancionador, em que
se afastam as regras da processualística civil em razão do
especial garantismo conferido por suas normas ao indivíduo,
deve-se dar prioridade ao princípio da busca da verdade real,
diante do interesse social que envolve essas demandas. 4. A
concessão de benefício devido ao trabalhador rural configura
direito subjetivo individual garantido constitucionalmente, tendo
a CF/88 dado primazia à função social do RGPS ao erigir como
direito fundamental de segunda geração o acesso à Previdência
do Regime Geral; sendo certo que o trabalhador rural, durante o
período de transição, encontra-se constitucionalmente
dispensado do recolhimento das contribuições, visando à
universalidade da cobertura previdenciária e a inclusão de
contingentes desassistidos por meio de distribuição de renda
pela via da assistência social. 5. A ausência de conteúdo
probatório eficaz a instruir a inicial, conforme determina o art.

51
283 do CPC, implica a carência de pressuposto de constituição
e desenvolvimento válido do processo, impondo a sua extinção
sem o julgamento do mérito (art. 267, IV do CPC) e a
consequente possibilidade de o autor intentar novamente a ação
(art. 268 do CPC), caso reúna os elementos necessários à tal
iniciativa. 6. Recurso Especial do INSS desprovido." (STJ -
REsp: 1352721 SP 2012/0234217-1, Relator: Ministro
NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, Data de Julgamento:
16/12/2015, CE - CORTE ESPECIAL, Data de Publicação: DJe
28/04/2016) 3. O recurso não deve ser conhecido, porque
incabível. Prevê o art. 5º da Lei n. 10.259/01 que, "somente
será admitido recurso de sentença definitiva". Uma vez que
a sentença que extinguiu o processo é terminativa, porque
não houve apreciação do mérito, o inconformismo recursal
é inadequado. 4. Ante o exposto, não conheço do recurso.
5. Sem custas. Recorrente vencido(a) condenado(a) ao
pagamento de custas e honorários advocatícios, estes fixados
no percentual de 10% (dez por cento) sobre o valor atualizado
dado à causa, ficando, todavia, suspensa a exigibilidade de tais
verbas em razão da gratuidade judiciária concedida. (AGREXT
0007162-47.2016.4.01.3904, ILAN PRESSER, TRF1 - TURMA
RECURSAL DE JUIZ DE FORA - MG, Diário Eletrônico
Publicação 04/10/2017.)

Em relação à última decisão, da Turma Recursal de Juiz de Fora/MG,


apesar do entendimento nela exposto, há súmula das Turmas Recursais de
Minas Gerais em sentido inverso:

Turmas Recursais de Minas Gerais, Súmula 42. Não cabe


mandado de segurança contra sentença que extingue o
processo sem resolução de mérito, podendo tal decisão ser
impugnada por recurso inominado.

Percebe-se, assim, que se trata de questão controvertida, comportando


variações locais.

3. Impugnação de decisões na execução – divergências locais

As turmas recursais do Rio Grande do Sul aceitam a impetração


de mandado de segurança como meio adequado de impugnação das decisões
na fase de execução, desde que configurada a ilegalidade ou o abuso de

52
poder (decisões teratológicas). Veja-se, por exemplo, o seguinte precedente,
rejeitando o cabimento de recurso inominado (por instrumento) contra
decisão da fase executiva:

Trata-se de mandado de segurança impetrado pela parte autora


do processo nº 50025398720154047109
contra decisão proferida na fase de execução daqueles autos,
a qual não recebeu o recurso inominado na forma de
instrumento (75-RecIno1) por entendê-lo incabível após o
trânsito em julgado (78-DESPADEC1).
A impetrante requer a concessão da segurança, para que seja
reconhecida a ilegalidade da decisão do MM. Juízo Impetrado e
cassada a decisão que deixou de receber o Recurso
Inominado na Forma de Instrumento interposto pela
Impetrante, proferida no Evento 78 nos autos do processo n°
5002539-87.2015.4.04.7109, determinando-se o recebimento
do recurso e o seu regular processamento e julgamento pelo
juízo competente. Sucessivamente, requer a reforma
da decisão do ev. 72, com o deferimento do benefício da
gratuidade judiciária à Impugnante, com efeito ex tunc, e
consequente inexigibilidade do pagamento dos honorários
advocatícios ao procurador da Agravada, com a restituição do
valor bloqueado de R$ 486,07 (Evento 89).
Citado, o litisconsorte passivo silenciou.
O MPF manifestou-se pelo regular prosseguimento (ev. 20).
É o relatório. Passo a decidir.
Da admissibilidade recursal

Consoante art. 1º da Lei 12.016/2009:


"Art. 1º Conceder-se-á mandado de segurança para
proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas
corpus ou habeas data, sempre que, ilegalmente ou com
abuso de poder, qualquer pessoa física ou jurídica sofrer
violação ou houver justo receio de sofrê-la por parte de
autoridade, seja de que categoria for e sejam quais forem
as funções que exerça".
E o art. 5º da referida Lei dispõe que:

"Art. 5º Não se concederá mandado de segurança quando


se tratar:

53
(...)
II - de decisão judicial da qual caiba recurso com efeito
suspensivo;"
Não obstante, a Lei dos Juizados Especiais previu
expressamente a irrecorribilidade das decisões
interlocutórias como forma de agilizar a tramitação dos
feitos de sua competência. Excepcionalmente,
o mandado de segurança tem sido admitido
contra decisão proferida em fase de execução de sentença,
desde que caracterizada violação a direito líquido e certo. A
premissa é a de que o mandado de segurança não se presta
a instrumento recursal, não podendo ser utilizado como
esse sucedâneo quando a lei vede a interposição de
recursos em relação às decisões proferidas no curso do
processo.
(...)
O julgador a quo inadmitiu o recurso interposto , nos
seguintes termos:
O autor apresentou recurso inominado
contra decisão interlocutória proferida nestes autos.
O encaminhamento pretendido não pode vingar,
consoante textos normativos a seguir:

Lei 10.259/01.
Art. 4o O Juiz poderá, de ofício ou a requerimento das
partes, deferir medidas cautelares no curso do
processo, para evitar dano de difícil reparação.
Art. 5o Exceto nos casos do art. 4o, somente será
admitido recurso de sentença definitiva.(GRIFEI).
Enunciado FONAJEF 108 .
Não cabe recurso para impugnar decisões que
apreciem questões ocorridas após o trânsito em
julgado.
À vista do exposto, deixo de receber a peça recursal
(evento 75) por entendê-la incabível neste momento
processual.
Não obstante, mantenho a decisão proferida no evento 72,
pelos próprios fundamentos e indefiro o pedido de
reconsideração (evento 76).

54
Com efeito, o recurso interposto pela parte autora contra
a decisão interlocutória proferida na fase de execução, não
merece ser admitido, por absoluta ausência de previsão
legal.” (MANDADO DE SEGURANÇA nº 5066521-
97.2018.4.04.7100, QUINTA TURMA RECURSAL DO RS,
Relatora JOANE UNFER CALDERARO, julgado em
28/02/2019).

FONAJEF (Fórum Nacional de Juizados Especiais Federais) é um


fórum de discussão que tem por objetivo tratar temas relacionados aos
Juizados Especiais Federais. As respectivas conclusões são expressas em
forma de enunciados e, embora não vinculem de modo algum, costumam ser
levados em consideração nas decisões judiciais, como balizadores. Como
referido no precedente acima, há enunciado do FONAJEF no sentido de que
não cabe nenhum recurso contra decisões na fase de execução:

FONAJEF Enunciado nº 108. Não cabe recurso para impugnar


decisões que apreciem questões ocorridas após o trânsito em
julgado.

Daí se aceitar, no Rio Grande do Sul, a possibilidade de impetração de


mandado de segurança se a decisão for teratológica (se houvesse recurso com
possibilidade de suspender a decisão, não caberia mandado de segurança – art.
5º, II, da Lei nº 12.016/09 – abordado na parte 2 desse curso).

Entretanto, não se trata de questão pacífica em âmbito nacional. Por


exemplo, a 2ª Turma Recursal de São Paulo decidiu, com base na já citada
súmula 20 da TRU-3ª Região, que cabe recurso inominado contra a decisão
que põe fim à execução, razão pela qual o mandado de segurança seria
inadmissível:

“(...)

- As Turmas Recursais do Juizado Especial Federal da Terceira


Região adotam idêntica interpretação. No enunciado da Súmula
nº 20 da Turma Regional de Uniformização dos Juizados
Especiais Federais da 3ª Região, foi resumida a
interpretação das respectivas Turmas Recursais de que
“Não cabe mandado de segurança no âmbito dos juizados

55
especiais federais. Das decisões que põem fim ao processo,
não cobertas pela coisa julgada, cabe recurso inominado”.
- Finalmente, cumpre salientar que a questão relativa à
necessidade de sobrestamento da execução nos autos
principais (autos nº 0003553-19.2008.4.03.6317) não está
preclusa. Ainda é possível, neles próprios, a interposição de
novo recurso inominado pela parte autora, inclusive com pedido
de antecipação da tutela recursal, versando a questão da
necessidade de sobrestamento da execução. A decisão
impetrada e a proferida em seguida a ela em resolução de
embargos de declaração implicaram a extinção da execução,
ao determinar (antes do trânsito em julgado do recurso
inominado nos autos nº 0000795-87.2018.4.03.9301, em que
pende juízo de admissibilidade de pedido de uniformização de
interpretação de lei federal), que se oficiasse “ao INSS para
implantação do benefício concedido judicialmente e
cessação do benefício concedido administrativamente, NB
175.694.589-4”. Cabe à parte autora interpor o recurso
inominado adequado, nos próprios autos nº 0003553-
19.2008.4.03.6317, permitindo a subida deles e a devolução, a
esta Turma Recursal, da questão sobre a necessidade de
sobrestamento da execução, com possibilidade de antecipação
da tutela recursal.
- Nego seguimento ao mandado de segurança, extinguindo-o
sem resolução do mérito, por falta de interesse processual, em
razão da inadequação da via eleita, nos termos do artigo 485,
incisos I e VI, do Código de Processo Civil. Sem condenação em
custas e honorários, nos termos do artigo 25 da Lei 12.016/2009.
(MANDADO DE SEGURANÇA/SP nº 0001857-
65.2018.4.03.9301, 2ª Turma Recursal de São Paulo, Tel. Juiz
Federal Clécio Braschi, d.j. 19/02/2019).

Há decisões, também, admitindo agravo de instrumento contra decisão na fase


de execução, de forma tácita – por diretamente no mérito do recurso (nº 0500125-
71.2017.4.05.9850, Primeira Turma Recursal JEF/SE, j. 29/11/2017; 0500057-
24.2017.4.05.9850, Primeira Turma Recursal JEF/SE, j. 30/08/2017; 0500091-
89.2017.4.05.9820, Primeira Turma Recursal JEF/PB, j. 28/07/2017; 0500080-
60.2017.4.05.9820, Segunda Turma Recursal JEF/PB, j. 22/11/2017; 0500011-
03.2014.4.05.9830, Terceira Turma Recursal JEF/PE, j. 27/04/2015).

56
4. Mandado de segurança na fase de conhecimento

Como já referido, é incabível, em regra, mandado de segurança na fase de


conhecimento, pois a lei previu que somente cabe recurso contra a sentença
definitiva e contra as medidas cautelares – estendendo-se essa possibilidade
interpretativamente também à antecipação de tutela - (arts. 4º e 5º da Lei nº
10.259/01), sendo, portanto, irrecorríveis as decisões interlocutórias. Não se
pode, por isso, utilizar o mandado de segurança como sucedâneo recursal,
isto é, como substitutivo do recurso que foi propositadamente excluído pela lei,
a qual assim dispôs para imprimir maior celeridade e simplicidade ao rito dos
Juizados Especiais Federais.

O Supremo Tribunal Federal já se manifestou no sentido da


constitucionalidade da previsão de decisões irrecorríveis, validando a
irrecorribilidade das decisões interlocutórias no rito dos Juizados Especiais
Civeis Estaduais (Lei nº 9.099/95), entendendo não ser cabível a impetração do
mandado de segurança:

EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO


EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. RECURSO QUE NÃO
ATACA O FUNDAMENTO DA DECISÃO AGRAVADA.
DECISÃO INTERLOCUTÓRIA. JUIZADOS ESPECIAIS.
MANDADO DE SEGURANÇA. DESCABIMENTO. A petição de
agravo regimental não impugnou o fundamento da decisão ora
agravada. Nesse caso, é inadmissível o agravo, conforme
orientação do Supremo Tribunal Federal. Precedente. Ademais,
o Supremo Tribunal Federal, após reconhecer a
repercussão geral da matéria, decidiu pelo não cabimento
de mandado de segurança das decisões interlocutórias
exaradas em processos dos juizados especiais (RE 576.847,
Rel. Min. Eros Grau). Agravo regimental a que se nega
provimento. (ARE 703840 AgR, Relator(a): Min. ROBERTO
BARROSO, Primeira Turma, julgado em 25/03/2014,
ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-075 DIVULG 15-04-2014
PUBLIC 22-04-2014)

EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. PROCESSO CIVIL.


REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA. MANDADO DE
SEGURANÇA. CABIMENTO. DECISÃO LIMINAR NOS
JUIZADOS ESPECIAIS. LEI N. 9.099/95. ART. 5º, LV DA

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CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL
DA AMPLA DEFESA. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO. 1. Não cabe
mandado de segurança das decisões interlocutórias
exaradas em processos submetidos ao rito da Lei n.
9.099/95. 2. A Lei n. 9.099/95 está voltada à promoção de
celeridade no processamento e julgamento de causas cíveis
de complexidade menor. Daí ter consagrado a regra da
irrecorribilidade das decisões interlocutórias, inarredável. 3.
Não cabe, nos casos por ela abrangidos, aplicação subsidiária
do Código de Processo Civil, sob a forma do agravo de
instrumento, ou o uso do instituto do mandado de segurança. 4.
Não há afronta ao princípio constitucional da ampla defesa
(art. 5º, LV da CB), vez que decisões interlocutórias podem
ser impugnadas quando da interposição de recurso
inominado. Recurso extraordinário a que se nega
provimento. (RE 576847, Relator(a): Min. EROS GRAU,
Tribunal Pleno, julgado em 20/05/2009, REPERCUSSÃO
GERAL - MÉRITO DJe-148 DIVULG 06-08-2009 PUBLIC 07-08-
2009 RTJ VOL-00211-01 PP-00558 EMENT VOL-02368-10 PP-
02068 LEXSTF v. 31, n. 368, 2009, p. 310-314)

Como se percebe, os principais fundamentos são a escolha legislativa


em prol da celeridade e a possibilidade de exercer o direito à ampla defesa
em momento posterior, interpondo recurso inominado contra a sentença,
que pode abranger todos os pontos relevantes.

Não obstante, entendemos que essa linha argumentativa não esgota todos
os aspectos da questão, uma vez que há possibilidade de uma decisão ser
tão gravosa que não é possível esperar a prolação de sentença para atacá-
la, fazendo-se urgente a impugnação da mesma em instância superior.

Além disso, é importante referir que a decisão acima se deu no contexto do


rito dos Juizados Especiais Cíveis Estaduais (Lei nº 9.099/95), não no rito dos
Juizados Especiais Federais (Lei nº 10.259/01). É certo que a lei nº 9.099/95 tem
aplicação subsidiária ao rito dos JEFs, o que atrairia a aplicação do referido
precedente, contudo há uma distinção na própria linha argumentativa do
Relator do precedente do Supremo Tribunal Federal, uma vez que seu voto
refere que “a opção pelo rito sumaríssimo é faculdade das partes, com as
vantagens e limitações que a sua escolha acarreta”.

58
Ora, o rito da Lei nº 9.099/95 é facultativo, cabendo à parte autora optar
pelos Juizados Especiais Cíveis Estaduais ou pelo procedimento ordinário
(Código de Processo Civil), nas causas de valor inferior a 40 (quarenta) salários
mínimos (art. 3º, I da Lei nº 9.099/95); por outro lado, o rito dos Juizados
Especiais Federais é obrigatório (art. 3º, §3º, da Lei nº 10.259/01 –
competência absoluta). Dessa forma, resta duvidosa tamanha restrição que
exclua qualquer possibilidade, parecendo possível a aceitação do mandado de
segurança, mesmo na fase de conhecimento, em situações excepcionalíssimas
nas quais a violação do direito não possa ser adequadamente sanada em
posterior impugnação em recurso inominado contra a sentença.

A título exemplificativo de situação excepcional que comporta impetração


na fase de conhecimento, a TRU – 4ª Região deu provimento a vários Pedidos
Regionais de Uniformização em mandados de segurança denegados, em que a
questão discutida era a necessidade de citação do réu antes da suspensão
do processo, em causa envolvendo matéria com suspensão determinada
pelo STJ. Em suma, as decisões de primeira instância suspenderam os
processos antes da citação, acarretando prejuízo irreparável à parte autora,
por retardar a constituição em mora do réu e o início da fluência dos juros
moratórios, que só ocorrem com a citação (fato que não teria como ser
revertido posteriormente). Veja-se:

INCIDENTE DE UNIFORMIZAÇÃO REGIONAL. MANDADO DE


SEGURANÇA. INDEFERIMENTO INICIAL. ANÁLISE DO
MÉRITO DO 'WRIT'. QUESTÃO DE DIREITO MATERIAL.
CONHECIMENTO. FGTS. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA.
RECURSO ESPECIAL Nº 1.381.683. SUSPENSÃO ANTES DA
CITAÇÃO. PREJUÍZO À PARTE. 1. Embora conste no
dispositivo do acórdão recorrido o indeferimento da inicial, houve
a análise do mandado de segurança em seu mérito, razão pela
qual, para efeito de uniformização, não se trata de discussão de
índole processual, mas sim material, o que justifica o
conhecimento do incidente. 2. Nas ações em que se discute a
atualização monetária das contas de FGTS, atingidas pela
ordem de sobrestamento determinada pelo STJ no RE nº
1.381.683, afetado sob o rito dos recursos repetitivos, a
suspensão do processo deve ocorrer após a citação e
transcurso do prazo respectivo de defesa. 3. Provimento do

59
incidente. ( 5003581-33.2017.4.04.7100, TURMA REGIONAL
DE UNIFORMIZAÇÃO DA 4ª REGIÃO, Relator GERSON LUIZ
ROCHA, juntado aos autos em 28/08/2017). 2

Por todos esses motivos, mantivemos a menção à possibilidade de


mandado de segurança no fluxo também na fase de conhecimento, embora
colocando-o com maior destaque na fase de execução, onde seu cabimento é
mais elástico.

2
Em sentido idêntico: nº 5018052-54.2017.4.04.7100, TRU- 4ª Região, Relator NICOLAU
KONKEL JÚNIOR, juntado aos autos em 23/10/2017; 5018101-95.2017.4.04.7100, TRU- 4ª
Região, Relator NICOLAU KONKEL JÚNIOR, juntado aos autos em 23/10/2017; 5022045-
08.2017.4.04.7100, TRU- 4ª Região, Relator NICOLAU KONKEL JÚNIOR, juntado aos autos em
23/10/2017; 5023934-94.2017.4.04.7100, TRU- 4ª Região, Relator para Acórdão NICOLAU
KONKEL JÚNIOR, juntado aos autos em 23/10/2017; 5082798-62.2016.4.04.7100, TRU- 4ª
Região, Relator ANDREI PITTEN VELLOSO, juntado aos autos em 23/10/2017; 5022000-
04.2017.4.04.7100, TRU- 4ª Região, Relator GERSON LUIZ ROCHA, juntado aos autos em
01/12/2017; 5005819-25.2017.4.04.7100, TRU- 4ª Região, Relator ANTONIO FERNANDO
SCHENKEL DO AMARAL E SILVA, juntado aos autos em 27/04/2018; 5022010-
48.2017.4.04.7100, TRU- 4ª Região, Relator GILSON JACOBSEN, juntado aos autos em
29/06/2018; 5022032-09.2017.4.04.7100, TRU- 4ª Região, Relator GILSON JACOBSEN, juntado
aos autos em 29/06/2018; 5029587-77.2017.4.04.7100, TRU- 4ª Região, Relator GILSON
JACOBSEN, juntado aos autos em 29/06/2018; 5032841-58.2017.4.04.7100, TRU- 4ª Região,
Relator GILSON JACOBSEN, juntado aos autos em 29/06/2018; 5032846-80.2017.4.04.7100,
TRU- 4ª Região, Relator GILSON JACOBSEN, juntado aos autos em 29/06/2018; 5032857-
12.2017.4.04.7100, TRU- 4ª Região, Relator GILSON JACOBSEN, juntado aos autos em
29/06/2018; 5049861-62.2017.4.04.7100, TRU- 4ª Região, Relator GILSON JACOBSEN, juntado
aos autos em 29/06/2018.

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CRÉDITOS DE IMAGENS:
- Popeye-comendo-espinafre, Jean Pierre Gallot,
https://www.flickr.com/photos/jean_pierre_gallot_69009/8138274071, não alterada.

- Eleições 2014 – Voto em trânsito no IESB, Asa Sul, Brasília, Marri Nogueira/Agência Senado,
https://www.flickr.com/photos/49143546@N06/15263106629, não alterada;

- Game over Mario, www.inkmedia.eu, não alterada;

- Saltando do muro, Kaouê Guimarães,


https://www.flickr.com/photos/marcogomes/122704612, alterada;

- Poliana, Kaouê Guimarães,


https://www.flickr.com/photos/marcogomes/122704582/in/photostream/, alterada;

- Romans Roman Fight Gladiator Roman History, https://www.maxpixel.net/Romans-Roman-


Fight-Gladiator-Roman-History-971263, alterada;

- Cerberus, the three-headed dog of Hades, by Giuseppe Canino,


https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Canino.png, não alterada.

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