Você está na página 1de 9

A anti-política bolsonarista e a devastação

brasileira à luz da psicanálise1

Luciano Elia2

O mandante totalitário, cujo maior instrumento de domínio é a tortura,


precisa de uma base de poder: a polícia secreta e sua rede de informantes

Hanna Arendt

Boa noite a todos e todas. Uma honra participar deste Seminário de Formação
Política do meu Partido, o Partido dos Trabalhadores, o grande, sofrido e
guerreiro PT, mais ainda através do Mandato do Vereador Reimont, do qual
tenho a sorte de ser um militante próximo já há algum tempo, e da Tribo Rio.
Essa honra é maior ainda porque minha própria formação não é política, mas
psicanalítica, e meu engajamento na política é o de um leigo militante, e, ainda
assim, estou aqui, convidado a fazer uma modalidade de palestra em um
Seminário de Formação Política. Generosidade de meus companheiros de
partido, à qual vou tentar corresponder minimamente para estar pelo menos o
mais próximo possível da altura da tarefa.

Que a epígrafe, uma frase de Hanna Arendt, não faça pensar que seguirei seu
pensamento aqui. Pelo contrário, não sigo seu pensamento, o que adiante ficará
mais claro. Por ora, direi que a epígrafe é ótima, pois retrata, de cara, a cara do
Brasil de hoje: um mandante que, por mais totalitário que seja, e que tem na
tortura seu maior instrumento de poder, não prescinde de uma base, polícia
secreta e rede de informantes. Esse é o esquema de fundo da política
bolsonarista, que pretendo aqui analisar, com base no meu maior recurso, a
psicanálise.

1
Intervenção no Seminário de Formação Política do Partido dos Trabalhadores (PT) – Mandato do Vereador
Reimont Otoni, ocorrida no dia 9 de junho de 2021 por plataforma digital.
2
Psicanalista e ativista de Direitos Humanos, membro do Laço Analítico/Escola de Psicanálise e professor titular
de Psicanálise e docente do Programa Mestrado Profissional em Psicanálise e Políticas Públicas da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
1
Começo pelo próprio problema formulado no título que propus: a “anti-política”
bolsonarista, expressão que afirma que o que faz o atual governo brasileiro não é
uma política, mas uma anti-política. Em que medida e em que sentido seria
sustentável dizer que o que o governo Bolsonaro faz não é, a rigor, uma política?

Estaríamos, nesta afirmação, adotando a concepção de Hanna Arendt3, que


concebe a ação política como sinônimo de liberdade, como ação de consenso,
ação em comum acordo, ação em conjunto, reflexo da condição plural do
homem e fim em si mesma e opõe-se à política como ato de força, como
violência, disputa, dominação e hegemonia, relação interna entre opressores e
oprimidos? Arendt chega a interrogar se as ações do poder totalitário não seriam
ações não-políticas, até mesmo antipolíticas, se não haveria até mesmo
contradição no próprio termo “política totalitária”. Ela vê na noção de política
como ato estrutural de violência o risco de um cisão, própria às posições
liberais, entre liberdade (entendida como liberalismo) e política, gerando a
conhecida aversão à política e aos políticos – que verificamos no Brasil atual –
como obstáculos ao exercício da liberdade humana. Justamente para se
contrapor a isso, ela defende a política como ato de liberdade coletiva, em
frontal oposição ao liberalismo individualista burguês.

Ao afirmar a política como ação de liberdade, que se afirma por si mesma e não
visa a produzir nenhum objeto que a ultrapasse, Arendt a distingue do trabalho e
da obra, que visariam objetos para além de seu próprio ato. Ela afasta, assim, a
ação política do concreto, do real, do i-mundo, em oposição à posição hegeliana,
que afirma o real concreto como único existente capaz de promover sua própria
superação, nada havendo fora dele senão as abstrações e “oposições
complementares”, sempre falseadoras do real, como “público x privado”,
“trabalho braçal x trabalho intelectual”, entre outras. Pareceria, portanto, que ao
propor que a ação bolsonarista não seria verdadeiramente uma política, eu
estaria seguindo as concepções arendtianas. Senão, vejamos.

Em primeiro lugar, a dimensão de violência associada ao ato político não


conduz necessariamente ao totalitarismo ou ao fascismo. Por outro lado,
despojar a ação política da dimensão da violência é, em certa medida, idealizá-
la, romantizá-la, e até mesmo incorrer em perigoso grau de abstração, de
afastamento do real concreto, o que, indefectivelmente caracteriza o pensamento
burguês, que não é um pensamento crítico precisamente porque seu maior

3
Arendt, H. - O Que é Política? Trad. Reinaldo Guarany. 6.ed. Rio de Janeiro: Bertrand, Brasil, 2006.
2
compromisso é com a preservação de interesses de capital e não com o exercício
crítico do intelecto.

Sabemos que a tradição do pensamento marxista, do próprio Marx a Lênin e a


Gramsci4, por exemplo, propõe uma concepção de política como luta de poder,
violência, disputa. Na perspectiva marxiana, essa luta política é considerada uma
etapa a ser superada na construção da sociedade comunista, que Lenin
denominará de “mundo da administração”, expressão hoje nada interessante (em
função da apropriação capitalista do conceito de administração, transmutado em
gestão no neoliberalismo) mas que, no contexto discursivo marxista-leninista,
designava a distribuição equânime da riqueza produzida pela sociedade entre
todos os seus integrantes, de quem, assim, não mais se exigira a luta política,
tornada desnecessária pelo modo comunista de relações sociais e econômicas e a
quem se poderia enfim permitir o usufruto da riqueza e da produção humanas.
Talvez haja nessa utopia alguma idealização, não a mesma que se pode apontar
em Hanna Arendt, e certamente nenhuma abstração, posto que a sociedade
“pós” classes de Marx é fruto de um processo rigorosamente materialista,
histórico e dialético, ainda que possa comportar algum grau de idealização.

Sustentamos, assim, que a política é uma dimensão essencial da vida social, e


que ela comporta estruturalmente a dimensão da violência, da luta, sem com isso
caminhar para alguma forma de totalitarismo ou de fascismo.

Antes, ainda, de considerarmos o governo Bolsonaro e sua condição política ou


anti-política, vamos nos referir a um interessantíssimo livro de Domenico
Losurdo, este mesmo de que o jovem historiador e militante do Partido
Comunista Brasileiro Jones Manoel se serviu para convencer Caetano Veloso a
abandonar o liberalismo5, chamado A hipocondria da antipolítica, original
italiano de 20016, e que teve sua edição brasileira publicada em 2014 pela
Revan7.

Neste livro, Losurdo empreende uma extensa e rigorosa análise do pensamento


hegeliano, sua atualidade (Hegel ontem e hoje, está no subtítulo original),
estabelece uma continuidade e não uma ruptura entre Hegel e Marx, e sobretudo
faz de Hegel um dos maiores críticos da “anti-política”. Losurdo demonstra
4
Cf., a esse respeito: Marx, K. – A guerra civil na França (1871), São Paulo, Boitempo Editorial, 2011; Lênin, V. –
O estado e a revolução, São Paulo, Editora Expressão Popular, 2010 e Gramsci dans le texte, Paris, Editions
Sociales, 1975.
5
Losurdo, D. – A contra-história do liberalismo (2005), São Paulo, Idéias & Letras, 2020.
6
Domenico Losurdo, L'ipocondria dell'impolitico. La critica di Hegel ieri e ogg, Milella, Lecce, 2001
7
Losurdo, D. – A hipocondria da anti-política – história e atualidade na análise de Hegel, Rio de Janeiro, Editora
Revan, 2014.
3
claramente que Hegel rechaça toda tentativa idealista do pensamento de afastar-
se do real, do concreto, que ele chega inclusive a identificar ao próprio conceito.

O termo “hipocondria” exprime a busca algo delirante de uma “fábula de vida


interior mais elevada e nobre, situando-se acima do dado e do real para alcançar
um mundo diferente, espiritual e maravilhoso”8. Essa busca do elevado e nobre
abomina a política, vista como baixa, rasteira, mundana, voltada para interesses
mesquinhos e degradantes. Não se concebe a política como possibilidade de
transformação do mundo por dentro do próprio mundo, e, pelo contrário, foge-se
do mundo e do real. Hegel, pelo contrário, sustenta a exigência de que a política
esteja imiscuída no i-mundo, o mundo real, o mundo das impurezas, do que há,
mais do que deveria haver segundo alguma forma de fantasia idealista ou
irrealista.

Cabe aqui fazer uma articulação da hipocondria da anti-política em Losurdo e a


hipocondria na psicanálise. Freud concebe as neuroses e psicoses como
estruturas históricas, inconscientes, que tem um momento infantil e um
momento de revisitação na vida pós-infantil, adulta, por exemplo. Mas ele
identifica situações de perturbação psíquica que chama de “atuais”, anti-
históricas, e que ele logo percebe que não constituem verdadeiros quadros
clínicos, mas substratos sobre os quais os quadros se constroem. Pois bem, a
hipocondria é um desses substratos, que Freud associa com quadros psicóticos, e
que justamente se caracterizam pelo investimento de uma libido não sexualizada
nos órgãos do corpo (criando o delírio de doenças que não existem na realidade
orgânica).

Neste ponto a hipocondria freudiana encontra a hipocondria anti-política de


Losurdo: uma é anti-sexual, interior e delirante, a outra é anti-política, espiritual
e idealista. A sexualidade em Freud é o campo da política, proposta que
retomaremos no final desta exposição. E o rechaço à política é correlato e
companheiro do rechaço à sexualidade. “A sociedade – diz Freud – está
disposta a tomar qualquer substância que lhe seja apresentada como antídoto
contra a dominância da temida sexualidade”9. O que vemos hoje no
bolsonarismo?

Para ilustrar isso, Losurdo cita os “decepcionados” que acabam por desacreditar
a política como efeito do ressentimento causado por suas decepções. Vale a pena
citar algumas frases, uma de Fichte, decepcionado com os desdobramentos da
8
Ibidem.
9
Freud, S. – A questão da análise leiga
4
Revolução Francesa: “Esse mundo não é minha pátria e nada do que ele está em
condições de me oferecer pode me satisfazer”10. Ou ainda a de Schopenhauer no
mesmo período: “Eu me sentiria degradado se devesse seriamente dirigir a
aplicação de minhas forças espirituais para uma esfera a meus olhos tão
medíocre e limitada como são as circunstâncias de cada dia de um determinado
tempo ou país”11.

Frases como estas, de grandes pensadores, apenas formulam, de modo


elaborado, o que dizem outras, mais vulgares, que recolhemos da boca de muitos
brasileiros hoje. Mas não devemos nos contentar em ver isso no horror que
muitos de nós sente pelo atual governo. Na verdade, decepções desse tipo
sobrevieram com as armadilhas e astúcias da elite, da mídia ampla e oficial, da
imoralidade do judiciário lavajato e da extrema direita brasileira, que, unidas,
orquestraram o enxovalhamento dos governos petistas, de Lula e de Dilma, os
presidentes que mais fizeram pelo Brasil e seu povo, seja qual for a magnitude
do que não fizeram ou as possíveis críticas ao modo como fizeram: o fato é que
fizeram, nos 14 anos em que ocuparam o governo, muito mais do que os 110
anos de República que os precederam. Tivemos a legião dos “traídos” por Lula
engrossando o coro dos descontentes com a política e com os políticos, os
hipocondríacos da anti-política. Foram decisivos na eleição de Bolsonaro, por
quem agora se dizem decepcionados e traídos.

É inegável que existe uma política nesse governo, e subestimá-la seria uma
imperdoável ingenuidade. Para combater algo, é preciso reconhecê-lo, constatar
sua força, seu poder e portanto sua política. Então, há uma política bolsonarista,
uma política fascista, uma política da morte, de devastação da nação brasileira,
seus recursos econômicos, minerais, industriais, ambientais, seu poder de
barganha internacional, sua altivez diante do mundo. Uma política de incentivo
à violência do próprio cidadão, de violência policial e bandida contra pobres,
negros, indígenas e outros segmentos da população mais vulnerável. Uma
política homofóbica, misógina, racista e machista.

A devastação brasileira, expressão que também se encontra em nosso título,


começa por desfazer a metáfora que ela escreve: a devastação é também física,
da Floresta Amazônica, e se generaliza em outros campos geográficos e
geológicos, como o Aquífero Guarani, o Pré-sal, as bacias de petróleo que
estavam em vias de catapultar o Brasil dos bons tempos do BRICS para o
mundo das grandes nações quando o aborto político se deu, o próprio BRICS,
10
Fichte apud Losurdo, op. cit., p.
11
Shoppenhauer apud Losurdo, p.
5
que teria um Banco sediado em São Paulo e não em New York, e passa à
cultura, terra arrasada na Ancine, no audiovisual, em todas as formas da arte,
destruindo a Universidade pública, o setor da Ciência e Tecnologia, os
currículos escolares mais instigantes e críticos. A devastação só não exterminou
o SUS porque a pandemia da COVID-19 impôs o socorro providencial da rede
pública deste maltratado melhor sistema de saúde do mundo. Mas se o SUS vem
salvando vidas, não faz milagres, e não pôde deter a fome de extermínio e morte
do governo da Grande Besta.

E para radicalizar esse retrato medonho da política bolsonarista, vamos citar a


corajosa pesquisa de cientistas da área do Direito à Saúde da Faculdade de
Saúde Pública da USP, aos quais temos nos associado em nosso próprio
programa de Pós-graduação em Psicanálise e Políticas Públicas da UERJ, que
tem dados capazes de comprovar de forma rigorosa que todas as ações,
portarias, falas, medidas, decisões enfim do governo Bolsonaro em relação à
COVID-19 tem a intencionalidade de produzir o resultado que está produzindo,
ou seja, a morte de meio milhão de brasileiros – por enquanto. Não se trata de
lambança, de incompetência, de ignorância (muito embora esses atributos lhe
convenham), de mero negacionismo, recusa do real, mas de uma ação
intencional de produzir morte na população. Nesta semana (segunda-feira,
anteontem), os pesquisadores publicaram um extenso Relatório de 200 páginas
contendo seus resultados12. Como recusar a tudo isso a dimensão e o atributo de
“uma política”? Mas então, por que formular, no título, “a anti-política
bolsonarista”?

Vamos à resposta a esta pergunta: Em que Bolsonaro é uma anti-política?


Certamente não é no sentido hipocondríaco que nos apresenta Losurdo, não é
por decepção com a mundanidade da política, por anseio idealista ou elevação
espiritual. Pelo contrário, podemos dizer que o governo Bolsonaro é imundo,
prenhe de imundícies, não no sentido de se ater ao real, ao concreto, ao i-mundo
de Hegel, até porque é um governo que tem como premissas a ignorância e o
ódio, duas das três paixões do ser, segundo Lacan (a terceira é o amor, excluída
do registro bolsonarista), o que levou um de nossos colegas, o psicanalista
12
Ventura, D. e Aith, F. – A Linha do tempo da estratégia federal de disseminação da COVID-19, estudo
elaborado no âmbito do Projeto de Pesquisa “Mapeamento e análise das normas jurídicas de resposta à Covid-
19 no Brasil”, do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (CEPEDISA) da Faculdade de Saúde Pública
(FSP) da Universidade de São Paulo (USP), atualizado mediante solicitação da Comissão parlamentar de
Inquérito (CPI) criada pelos requerimentos do Senado Federal 1371 e 1372, de 2021, por meio do Ofício
57/2021-CPIPANDEMIA. Localização pelo link:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2021/06/disseminacao-da-covid-19-no-brasil-se-
deu-por-empenho-e-eficiencia-do-governo-bolsonaro-diz-estudo-da-usp-enviado-a-cpi-da-covid.shtml

6
Antonio Quinet, a propor o termo ignoródio para etiquetar o bolsonarismo com
essas duas paixões do ser, de que o ser, portanto, padece. O governo recusa o
pensamento, a inteligência, o saber, a ciência, começando por afirmar que a
Terra é plana. Mas que plano há nisso? Não existe qualquer relação entre este
governo, o real concreto hegeliano e a verdade. E há todas as formas de
ilegalidade, crime, transgressão.

Tampouco há uma ideologia, a rigor. O que se chama, gentil e impropriamente,


de “núcleo ideológico” do governo, é justamente o núcleo duro do preconceito,
da irracionalidade, da ausência radical de qualquer ideia ou ideologia. Freud
concebeu um juízo muito primário, isto é, um juízo próprio ao início da
constituição de um sujeito humano, um modo lógico de operar com o real que,
entregue a si mesmo, jamais chegaria a constituir um sujeito, exigindo um
segundo juízo para que o sujeito se constitua. Chama-se “juízo de atribuição”, e
consiste em que o eu primitivo deva incorporar a si algo que considera bom
(“isto deverá estar dentro do eu”) e cuspir o que é mau (“isto deverá ficar fora do
eu”). A qualidade de bom e mau não chega a comportar a valoração ideológica.
Aplicando esse juízo ao modo bolsonarista de operar, podemos dizer que “os
militares” devem estar dentro – militar é bom – e “os que pensam” devem estar
fora – pensamento é mau, os que pensam são “comunistas”: defendem direitos
humanos, sociais, defendem a educação pública, a saúde pública, as mulheres, o
aborto, a diversidade sexual, o direito dos negros, dos gays, dos trans, dos
índios, dos usuários de drogas, dos loucos, querem preservar o ambiente e os
recursos minerais do Brasil, enfim, tudo isso é etiquetado como “ os
comunistas” com os quais é preciso acabar. Os militares e os fanáticos devem
ser trazidos para dentro do “eu-governo”. Mas observem: nem mesmo aquilo
que, no mundo militar, é sua estrutura simbólica, seu registro legal, seu estatuto
de lei, nem isso é respeitado, como se viu na semana passada com a absolvição
do ex-ministro Pazuello, não porque criminosamente conduziu a política da
morte pela COVID, mas porque desrespeitou o próprio estatuto de regras
militares. Ou seja, nem mesmo um fiapo de ideologia militar consistente se
sustenta.

Uma outra observação que faz Losurdo no livro acima citado é que, na gangorra
do sobe e desce da política, o contraponto é a religião: quanto mais se cultua e
valoriza a ação política, menos a religião ocupa espaço social, e, inversamente,
quanto mais se enxovalha e desconsidera a política, mais força ganha a religião
na sociedade. A sustentação “religiosa” do governo Bolsonaro (entre aspas,
porque até mesmo a religião em questão aqui é depreciada em seu estatuto
7
propriamente religioso e dogmático) é mais um atestado de seu caráter
eminentemente anti-político.

A prática bolsonarista, que justamente não chega a ser uma práxis, nem se
relaciona com o real social concreto nem se expõe ao embate histórico e
dialético de um verdadeiro jogo de poder, jogo de regras e de ética relativa, mas
ainda assim jogo que faz valer suas regras. O jogo, no caso da anti-política
bolsonarista, é um jogo sujo, imundo e desregrado. A escória do jogo político.

Um último comentário acerca dessa política da anti-política, à luz da psicanálise.


Em nosso campo, temos um tipo de funcionamento peculiar do sujeito que se
denomina perversão. Em geral se confunde perversão com perversidade, isto é,
com crueldade. Mas não é nesse sentido que convém entender e tomar esta
categoria conceitual. Antes de prosseguir, devo dizer que não aprovo a ideia de
fazer diagnósticos dessas criaturas que exercem poderes executivos, legislativos
ou judiciários, isto é, que ocupam postos na esfera pública, ainda que em sentido
anti-público, contra o público e a sociedade. Alguns psicanalistas, inclusive
midiáticos, comprzem-se em fazer isso, e eu considero que, além de uma
impropriedade conceitual, metodológica e ética (posto que só se pode dizer
alguma coisa sobre um sujeito na psicanálise se este sujeito estiver no campo de
nossa experiência como psicanalista, e justamente neste caso nada dizemos
senão a ele mesmo), esta prática é um desserviço também à política, pois
despolitiza a questão e a discussão. Não estarei, portanto, dizendo algo sobre a
perversão de quem quer que seja, Bolsonaro ou outro personagem deste
medonho e tétrico circo, pesadelo que não acaba mais, mas da estrutura de sua
anti-política.

A perversão se caracteriza justamente por um desmentido do que se sabe, algo


que se enuncia como: “eu sei, mas mesmo assim vou agir como se não soubesse,
pois sou uma fruta cortada em duas metades e em um delas eu desminto o que
eu sei na outra”. Toda a anti-política bolsonarista traz essa marca: sabe-se que a
Terra é redonda, mas em outra metade se afirma que ela é plana, sabe-se que a
cloroquina não previne nem remedeia a COVID mas..., sabia-se que Lula não
era ladrão mas se promove sua prisão para ganhar a eleição, enfim, isso vai
longe.

Além disso tudo, a perversão, por mais que pareça maliciosa, erótica, afeita a
um gozo sexual “safado”, ela é rígida e fria como um corpo de manequim de
resina, e aspira a uma espécie de pureza anti-sexual. A teoria da sexualidade de
Freud tem aqui uma dimensão eminentemente política: a afirmação da pulsão
8
sexual, sua dialética com o que Freud finalmente pôde conceituar como pulsão
de morte, móbil de toda transformação e subversão do conservadorismo, não
movem indivíduos isolados, que Lacan chama de isolats, mas laços sociais
vivos, desejantes, amplos e democráticos. Por isso Lacan chegou a dizer o
seguinte: “o inconsciente é a política”.

Na modalidade perversa da prática bolsonarista, não há nem desejo, nem


inconsciente, nem sintoma, mas pura cultura da morte, pura política da morte, e
da morte... da política.



Você também pode gostar