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FILOSOFIA

DA CIÊNCIA DE 1

TI-IOAS THOMAS KUHN


A _|_5sTRuTuRA DAs
REvoLuçoEs c|ENTí|=|cAs
KUHN CONCEITOS
DE RACIONALIDADE
CIENTÍFICA

DANIEL
LÀSKOWS KI
TOZZINI 4%;
Figura 1.1 ~ Thomas S. Kuhn.

Thomas Samuel Kuhn, físico de formação, teve as suas principais


fitulações acadêmicas obtidas pela Universidade de Harvard. Suas ideias
passaram por três etapas embrionárias. A primeira foi ao lecionar um
curso de física em 1952 para não cientistas. Devido a isso, ele começou
a se dedicar aos estudos de história da ciência. Nesse momento, com o
intuito de passar aos alunos uma visão de como as teorias científicas sur-
SAO PAULO
giram no passado, suas concepções básicas sobre a natureza da ciência
SALTA - 2014

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1” *filllinfäwiliiza da Cie'c a ce Thomas Kuhn ~ Tozzíni
Thomas Kuhn: A Estrutura das Revoluções Científicas 'll

edeseu sucesso começaram a mudar. A análise de textos históricos não


mndizia com o que foi aprendido por ele em sua educação de cientis- Para fins introdutórios, será esboçada a concepção da dinâmica
1a.' A segunda foi quando foi convidado a passar um ano, 1958-1959, da ciência defendida por Thomas Kuhn em sua principal obra, A
perante uma comunidade predominante de cientistas sociais, no Center estrutura das revoluções científicas, publicada em 1962. No inicio de
ƒ:›rAdvanced Studies in the Behavioral Sciences. Foi nesse período que ele seu tratado, o autor comenta que as questões de filosofia da ciencia,
chegou a um de seus principais conceitos, o assim chamado paradigma. tai como vinham sendo analisadas até então, não levavam em consi-
O número de desacordos expressos entre os cientistas sociais no que se deração seu aspecto histórico. Para ele, conceitos empregados como
refere à natureza dos métodos e dos problemas cientificos evocaram- fundamentais por gerações de filósofos nao poderiam ser sustentados
lhe controvérsias sobre o fundamento de diferentes ciências. Além após serem submetidos a uma análise historiográfica.
disso, leituras de autores como Alexandre Koyré, Ludwik Fleck, Jean O livro A estrutura das revoluções cientificas, de Thomas Kuhn,
Piaget, W. Quine e o contato com experiências psicológicas dirigidas versa sobre o seguinte tema:
pelo Instituto Hanover moldaram sua maneira de conceber a ciência.
A estrutura das revoluções cientificas ainda foi inicialmente preparada
para ser um volume da Encyclopedia of Unified Science, mas devido ao A ESTRUTURA DAS Rnvotuçöizs ÇIENTÍFICAS
tamanho da obra, o volume foi transformado em um livro.

Como mudar o paradigma econômico e evitar o I Aforça do otimismo para mudar 0 que permite que se Os episódios nos quais ocorre Relativos a CIEHCIH
precipício?
paradigmas ¿ sustentam e se a alteração (giro, mudança)
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mantenham sólidos de compromissos
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Pecuária começa a mudar paradigmas com Figura 1.3 - Objetivo do livro A estrutura das revoluções cientificas.
.Wi z... . medidas sustentáveis
Sustentabilidade requer rw im..
'‹ mudança de paradigma, afirma .. Il zh... . -.› ra xi A história da ciência, para Kuhn, tem o seguinte percurso: ativi-
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dades desorganizadas (ciência pré-paradigmática), ciência normal,
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época de crise, ciência extraordinária, revolução científica e, por fim,
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um novo periodo de ciência normal e o consequente reinício cíclico
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do mesmo percurso.
Após o lançamento do livro A estrutura das revoluções científicas, Thomas Kuhn
se tornou o responsável pela popularização de expressões como “precisamos
mudar o paradigma”, “ quebra de paradigma”, ” em busca de um paradigma",
"é preciso encontrar um paradigma” etc. Várias áreas do conhecimento e o
senso comum abson/eram o termo paradigma e passaram a utilizá-lo em diversos
contextos e com significados diferentes do proposto pelo autor.

Figura 1.2 - Kuhn e a proliferação dos paradigmas.

1 Nesta época, já é possível iclentificar as ideias principais de Kuhn de forma embno- '
nária em sua obra de história, The Copemican Revolution: Pianetary Astronomy in the
Development of Western Thought, de 1957.
l2 Filosofia da Ciência de Thomas Kuhn I Tozzini
Thomas Kuhn: A Estrutura das Revoluções Científicas 13

Primeira possibilidade de representação Segunda possibilidade de representação


No seu uso comum, paradigma significa modelo ou padrão e funciona ao
Periodo de Crise
permitir a reprodução de modelos:

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B Atividade Pré- ciencia Feriado de
Pzfadigmézrea Nzzzmzl crise

Atividade Pré~ Ciência Ciência


Paradigmática Normal Extraordinária

Reveluçae ciencia
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Revolução Científica É ~.fz:~:.::V fiz ,: .z. _. . -r z' » ¬ ¬ ~.~er'-:«.=-;¬~f~f:: -. -


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A atividade científica possui as seguintes fases: am 3

1) Ciência pré-paradigmática: atividades desorganizadas. f-,âzz-1;f›à.,1f;;zzz 5 r z ~~


= l ,ff-amas = 1
2) Ciência normal: posse de um paradigma, resolução de enigmas ou quebra-
cabeças (problemas que seguem regras e possuem soluções asseguradas). am ais

3) Periodo de crise: insegurança psicológica na capacidade do paradigma IU 3.


resolver problemas.
4) Ciência extraordinária: surge um novo paradigma e começa uma disputa
Na ciência, paradigma possui um significado mais amplo. Pode-se compreende-Io
entre eles. O paradigma vigente pode ou não ser substituido.
como o conjunto de crenças, compromissos, regras e valores compartilhados por
5) Revolução científica: o paradigma vigente é substituído por outro e, porfim, uma comunidade de cientistas.
um novo período de ciência normal e o consequente reinício cíclico do mesmo
percurso se reinicia.
Figura 1.5 - Definição de paradigma.

Figura 1.4 - A estrutura das revoluções cientificas.


Os cientistas adeptos de determinada tradição da ciência nor-
mal têm como atividade regular -isto é, normal ou ordinária - a
Na ciência normal, a atividade exercida pelo cientista está di-
resolução de enigmas ou quebra-cabeças. Nessa atividade, eles
rigida para a articulação dos fenômenos e teorias fornecidos por
se detêm em problemas com soluções asseguradas, problemas
um paradigma. Esse paradigma é, basicamente, um conjunto de
cujas respostas somente a falta de criatividade pode impedi-los
suposições teóricas e realizações exemplares que guiam a atividade
de encontrar.
científica, impondo-lhe modelos, padrões e limites. A educação de
um cientista normal é desenvolvida principalmente com base em Um problema, para ser considerado um genuíno quebra-cabeça,
manuais. A rigidez de suas crenças é comparável, dentre os em- deve limitar-se à natureza de soluções aceitáveis e aos métodos para
preendimentos teóricos, talvez, somente à teologia. Desse modo, obtê-las. Uma tentativa frustrada na execução desse tipo de solução
o aprendizado de um cientista é fruto de uma educação destinada raramente recai sobre o paradigma, sendo considerado, em geral,
a preservar e disseminar a autoridade de um corpo já articulado como um fracasso pessoal do cientista, que foi incapaz de resolver 0
problema em questão.
de problemas, dados e teorias. O baixo anseio dos cientistas para
produzir novidades e a incapacidade de propor novas abordagens
para antigos problemas são indicadores muito mais do êxito do que
do fracasso educacional.

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'lê Filosofia da Ciência de Thomas Kuhn T . . Thomas Kuhn: A Estrutura das Revoluções Científicas 'i 5
” Qzzifll

l na possibilidade de se instaurar uma crise no paradigma vigente que


i a anomalia, ou as falhas consecutivas em testes, pode afetar a teoria
vigente. Resultados negativos por si sós não são suficientes para garan-
tir que um paradigma seja substituído por outro. É importante frisar
também que, embora um estado de crise seja 0 preludio usual a uma
revolução, ele não é uma condição necessária para que ela ocorra. Mais
importante do que isto é a existência de uma anomalia considerada
significativa pelos cientistas.

Anomalias são comportamentos


inesperados da natureza. São pro-
A atividade re gular dos cientistas
' - em é oca ~ _. . blemas científicos que não podem
e a resolução de Quebra-cabeças ou enigmas gl? noilmahdade (ciencia normal) ser resolvidos com a utilização das
. ao c - ~
pmblemas °°"“ 5°lUÇÕ€S ããâeguradas ' Cientistas sabeínma gs regras
assim porque são regras e crenças vigentes.
¡e5o|Vê_¡OS e sabem a quais seguir para
_ , _ que resultados ele d ~ _ Na ciência normal sempre há
impericia de resolvê-los recai sobre a comp;/§r:2_Ci§>9ãÍ A incapacidade ou 3 anomalias. Anomalias considera-
.
paradigma (que estabelece as regras do jogo) ia O Cientista'' e nao~ sobre O
das importantes só podem pôr
em questão o paradigma vigente
quando persistem por muito
Figura ló _ Quebrafabeças ou Enigmas científicos tempo.

Frequentemente , n essas atividades ' ' os cientistas d


comportamentos da natureza que nao “ se, encaixam - nas eparam ' com ~ Figura 1.7 - Anomalias.
oferegídas pelo paradi gma em v1. . especificaçoes
~
dos de anomalias. Os cientistas gi; Esses comportamentos Sao chame* Um estado de crise pode acabar de três maneiras: o problema
_ , P0 ezes, tentam trabalhar o paradigma
com o intuito de , com pe quenas modificaçoes, - - adequarem-no à nani- pode ser solucionado pelo paradigma vigente; pode ser posto de
reza. Em alguns casos as ano malias ' " ' N lado, para uma tentativa de resolução futura, quando e se houver,
Apesar de existirem casos em que rešílniíãlqlëcionadasl em outros, nao.
› . por exemplo, instrumentos mais elaborados; ou pode fazer emer-
ser asslmilada pela atividade normal ' H anoma~ ia não cons egue . gir um novo candidato a paradigma. Neste último caso, inicia-se a
ocorra para que o paradigma ou a Íe0;`Í?:;:S Vezfçls niao basta que ism atividade de ciência extraordinária e, com isso, uma batalha para
. m re ra Os Qua d -
mllflda, a anomalia é asso clada ' a uma descoberta - C ' H - O 8551'
- habilitar-se à posição de um novo paradigma.
tOn›1a_Se capaz de ex . , la o
phcar um ntunero maior de fen ^ Om e › Clentlsta -
conhecidos, visto que muitas ' vezes re omenos previamente
' - ~ de 1 Na disputa entre duas concepções teóricas rivais, cada grupo
quer a substituiçao
utiliza os seus próprios recursos metodológicos e conceituais para
crença °u . 31811111 Procedimento . Somente quando a anomalia - a guma '
por muito tempo, gerando um alt , Persiste argumentar a favor de sua própria concepção. Esse fato torna o debate
_ 0 grau de inseguran a n ' '
profissionais dos cientistas ~ Ç as atmdades entre paradigmas comparável a um diálogo de surdos,2 pois, segundo
- .
JP0Cl€m~Se verificar conse uên ` dano
para o paradigma vigente Além d' q mas sas Kuhn, dois paradigmas rivais são incompatíveis e incomensuráveis. _O
' 15S°› 3P€Sar de não ser
em profundidade
_ por Kuhn pressoes
7
“ sociais - ~ tambem , Qd em 'nfltratadas.
0 Surglmemo de uma crise num _ P emi uenciar 2 Esta expressão, no original em inglês, não é tão problemática quanto sua tradução em
paradigma. Se do K hn ^ Diz~ Kuhn: ~~ they will° znevitably
analogia para 0 portugues. ' ' talk through each o ihe r” ( KUHN,
das regras existent
es e' o preludio
z .
para a busca de novas regras. E,f entao,
glln u
~
J O fracasso
1996, p. 109). Literalmente: “eles falarão inevitavelmente um através do outro".
'Í Ó Filosofia da Ciência de Thomas Kuhn - Tozzini Thomas Kuhn: A Estrutura das Revoluções Científicas 17

resultado é uma comunicação falha entre partidários de paradigmas


° A estrutura das revoluções científicas, 1962 (livro predominantemente sobre
rivais. Por isso, para que um paradigma seja aceito em lugar de outro, filosofia da ciência)
em geral, deve ocorrer uma combinação de diversos fatores, tais como: 0 A crítica e o desenvolvimento do conhecimento, realizado em 1965 e pu-
resolver os problemas que precipitam a crise do antigo paradigma; blicado em 1970 (artigos dele e de outros filósofos predominantemente sobre
possuir maior precisão quantitativa; predizer novos fenômenos, ao filosofia da ciência)
lado de outros fatores de natureza social e comunitária, tais como ~ A tensão essencial, 1977 (coletânea de artigos predominantemente sobre
possuir maior poder de persuasão e de influenciar os compromissos história da ciência e filosofia da ciência)
da comunidade científica que promove um novo paradigma; criar 0 Black-body theoiy and the quantum discontinuiti/(livro predominantemente
sobre história da ciência)
teorias com maior valor estético, entre outros. Com isso, fica claro
0 O caminho desde a estrutura (coletânea de artigos predominantemente
que na Estrutura das revoluções cientificas 0 teste de teorias é somente sobre filosofia da linguagem e filosofia da ciência)
um entre o grande número de fatores que conduzem à substituição
de um sistema de teorias. Percebe-se que o único livro predominantemente sobre filosofia lançado por
Thomas Kuhn é a Estrutura das revoluções científicas. Os demais que tratam de
Segundo Kuhn, a ciência, apesar de aparentar ser um empreendi- filosofia são coletâneas de artigos ou artigos. Boa parte disto se deve ao fato de
mento cumulativo e estar em constante progresso, não está caminhando Kuhn ter passado quase toda a sua vida tendo que oferecer explicações sobre
em direção a um único fim e aproximando-se cada vez mais da verdade. suas ambiguidades e ideias presentes na Estrutura. No final de sua vida, Kuhn
estava escrevendo outro livro de filosofia, mas ele faleceu antes de publicá-lo.
O progresso, nesses termos cumulativos e lineares, acontece somente
durante os períodos de ciência normal, dentro de um paradigma em
vigor. Ao ser aceito pela comunidade após uma revolução, um novo Figura 1.8 - Principais publicações de Thomas Kuhn - ordem cronológica.
paradigma, em geral, é capaz de explicar alguns problemas extraor-
dinários e grande parte daqueles problemas que o anterior explicava.
Mas, com frequência, muitos problemas antes considerados relevantes
são abandonados.

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1957 1951 1962 1965 (1970) 1977 1987 2000
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As principais publicações de Thomas Kuhn são:


v A revolução copernicana, 1957 (livro predominantemente sobre história
da ciência)
~ A função do dogma na investigação cíentífica, 1961 (artigo predominante-
mente sobre filosofia da ciência)

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