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Direitos de Autor na Rede e-U

Nuno Miguel Neves, nuno.neves@fccn.pt


Grupo 4 de Conteúdos da Rede e-U
Alexandre Alves, aalves@uevora.pt
Ana Casaca, acasaca@iric.up.pt
Dina Chaves, dcc@madanparque.pt
Marco Sousa, msousa@tecminho.pt
Ricardo Aguilar, jaguilar@ipn.pt
Rita Morais, amorais@adm.ua.pt

Fundação para a Computação Cientifica Nacional


Av. do Brasil 101, P – 1700-066 Lisboa

RESUMO

Um manual orientador de condutas e procedimentos de todos aqueles que gravitam em


torno da universidade como pólo gerador e difusor de conhecimento, quanto ao direito
de autor em geral e ao ensino por intermédio do e-learning em particular, procura, para
lograr cabalmente a sua missão, informar a um passo, alertar e despertar “as
consciências adormecidas” a outro passo, e fomentar algumas boas práticas nesta
matéria. Em ambiente universitário, a difusão livre do conhecimento, a facilidade de
troca de experiências e ideias não se coaduna com um sistema pesado, burocrático e
procedimental.
A expansão do e-learning num mundo global poderá assumir, a breve trecho, uma
relevantíssima fonte de recursos para as universidades. Mas tal implicará, da parte
destas, uma abordagem profissional em todas as suas dimensões, pelo que também os
aspectos conexos com o direito de autor não podem ser negligenciados.
Estas novas dimensões e formas de ensino “fora da sala de aula” possibilitadas pela
Internet exigem aos corpos decisores das universidades e igualmente aos seus
colaboradores, na veste de autores, uma clara consciência de que podem, a todo o
momento e sem que disso tenham clara consciência, a violar direitos de terceiros e a
ver, do mesmo passo, direitos seus a serem igualmente vilipendiados.

Palavras-chave: Direitos de Autor, Obra, Titularidade, Registo, Protecção de dados,


Direito, Legal, Disposições Legais
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Índice

Parte A
A obra
I - Definição
I - Classificações de obra

Parte B
Titularidade e formalidades registais
I - Titularidade
1.Regra geral
2. Excepções
3. A Titularidade dos Direitos de Autor nas Instituições de Ensino
Superior
II – Desnecessidade de registo
1. Reconhecimento do Direito de Autor
2. Efeitos do depósito/registo
3. Obrigatoriedade de registo
4. Formalização do registo
5. Âmbito de protecção
III – Depósito Legal
1. Enquadramento legal
2. Obrigatoriedade/Não Obrigatoriedade de Depósito Legal
3. Formalização do depósito legal
4. Menções obrigatórias nos exemplares
5. Sanções pela não realização do depósito legal

Parte C
Duração, direitos transmitidos e utilizações livres das obras
1. A duração do direito
2. Os direitos transmitidos
3. A utilização da obra. As utilizações livres

Parte D
Os programas de computador e as bases de dados
I - Os programas de computador
1. Nota introdutória
2. Disposições legais

II – Bases de dados
1. Nota introdutória
2. Disposições legais

Parte E
Fluxogramas Gerais

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PARTE A – A OBRA

I - DEFINIÇÃO DE OBRA

Luiz Francisco Rebello, em «Introdução ao Direito de Autor – Vol. 1», define os


Direitos de Autor como“ o conjunto de poderes, faculdades e prerrogativas, de carácter
patrimonial e pessoal, que a lei confere ao autor de uma obra literária ou artística, pelo
simples facto da sua criação exteriorizada, a fim de, livre e exclusivamente utilizar e
explorar ou autorizar que terceiros utilizem e explorem essa obra, dentro do respeito
pela sua paternidade e integridade, e de extrair vantagens económicas dessa utilização e
exploração».

Podemos, portanto, extrair desta definição que os Direitos de Autor visam a garantia das
vantagens patrimoniais (económicas) resultantes da exploração da obra; a fruição da
vertente moral do direito (independente e complementar do direito patrimonial);
assegurar ao autor da obra as vantagens advenientes da sua utilização e exploração e
garantir o respeito pela paternidade e integridade da obra.

Por obra no sentido lato entende-se o objecto do direito de autor – este só surge quando
a obra toma forma, quando é exteriorizada, isto porque as ideias de per si não são
protegidas (conferir1º/2 CDADC).

Segundo o mesmo código, «a obra é independente da sua divulgação, publicação,


utilização ou exploração» (1º/3 CDADC). Sendo um bem jurídico, a obra é algo
incorpóreo que pode ser objecto de direitos, um bem imaterial que pode ser utilizado e
fruído no espaço e no tempo por um número indeterminado de pessoas sem que se
deteriore ou extinga.
São objectos de protecção por direito de autor todas as criações intelectuais que sejam
concretizadas em obras literárias, científicas, artísticas, como por exemplo:

• Programa de computador
• Base de dados
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• Drama
• Sinfonia
• Livro de culinária
• Quadro
• Slogan publicitário (cruzamento com a P. Industrial, possível registo de
marca)
• Maquete de arquitectura
• Desenho publicitário
• Página web
• A presente apresentação
É de salientar que as ideias não são susceptíveis de protecção por Direito de Autor.

II - CLASSIFICAÇÃO DE OBRAS

Podemos classificar uma obra como original/derivada, singular/plural, colectiva/em


colaboração e compósita.

- A obra original é aquela que é uma criação nova em absoluto, abrangendo todas as
criações dos domínios literário, artístico ou científico, qualquer que seja o género, forma
de expressão, mérito, modo de comunicação ou objectivo.

- A obra derivada pressupõe uma obra anterior da qual toma o motivo inspirador, mas
não se dispensa alguma criatividade. São exemplos as traduções ou transposições de um
género para outro. Para ser considerada uma obra derivada não é exigida a novidade
mas apenas a diferença da obra de que procede ou deriva.

- A obra singular é fruto dum esforço individual, enquanto que a obra plural nasce da
conjugação de esforços de vários indivíduos, podendo ser uma obra colectiva ou uma
obra em colaboração.

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- Uma obra colectiva é organizada e dirigida por iniciativa de uma pessoa (singular ou
colectiva) e divulgada ou publicada em seu nome (ex: Jornal). A iniciativa de criação de
uma obra colectiva, por regra, advém de uma entidade empresarial.

- Uma obra em colaboração é a uma obra para cuja realização contribuíram várias
pessoas, quer possa ou não discriminar-se o contributo individual de cada uma (ex:
Livro científico). Neste caso é usualmente um núcleo de pessoas quem toma a iniciativa
de criação.

- Por fim temos a obra compósita, aquela em que se incorpora total ou parcialmente
uma obra preexistente de outro autor sem a colaboração deste, mas com a sua
autorização quando necessária (conferir 20º CDADC). Inserem-se nesta classificação as
bases de dados. Uma obra compósita pode ser colectiva ou em colaboração ou até
mesmo uma obra singular.

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PARTE B

I – TITULARIDADE

1. REGRA GERAL

O Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC)1 prevê expressamente


no artigo 11.º que o direito de autor pertence ao criador intelectual da obra, salvo
disposição expressa em contrário.

Luiz Francisco de Rebello refere que:

[o t]itular do direito de autor sobre uma obra é, em princípio, e antes de mais ninguém,
o seu próprio criador, a pessoa de cujo esforço intelectual e engenho a obra nasceu e
de cujo espírito ela é o reflexo. Autor significa, etimologicamente, o que cria; daí que
seja ele, pela ordem natural das coisas, o titular originário do direito sobre a sua
criação2.

O autor da obra tem o direito de fruir e utilizar a obra no todo ou em parte, podendo
publicá-la, divulgá-la e explorá-la economicamente por qualquer meio, nos termos da
lei (cfr. artigo 67.º do CDADC). É conferido ao criador intelectual uma dupla faculdade:
a possibilidade de autorizar a divulgação da obra (direito positivo) e o poder de proibir a
utilização da obra (direito negativo).

Incumbe, portanto, aos criadores intelectuais a faculdade de definir o modo de utilização


da criação e a avaliação da viabilidade da publicação e das condições em que pretendem
publicitar as obras.

1
Cfr. disciplinado pelo Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de Março, com as alterações da Lei n.º 114/91, de 3 de
Setembro, do Decreto-Lei n.º 332/97, de 27 de Novembro, do Decreto-Lei n.º 334/97, de 27 de Novembro, do
Decreto-Lei n.º 62/98, de 1 de Setembro e da Lei n.º 50/2004, de 24 de Agosto.
2
Obra citada Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, REBELLO, Luiz Francisco, Âncora Editora, 2002,
pág. 52.
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O direito de autor é, portanto, atribuído, ao criador intelectual da obra, salvo casos
excepcionais, que se analisarão no ponto seguinte (vide 2. Excepções).

2. EXCEPÇÕES

As excepções seguidamente referenciadas cingem-se exclusivamente aos direitos de


carácter patrimonial, uma vez que os direitos de carácter pessoal são insusceptíveis de
transmissão (excepto no caso de sucessão por morte do autor - vide ponto 2.2. Sucessão
por Morte do Autor).

Neste sentido determina-se que [o direito moral] é inalienável, irrenunciável e


imprescritível, perpetuando-se, após a morte do autor (cfr. n.º 2 do artigo 56.º do
CDADC) e que [n]ão podem ser objecto de transmissão nem oneração, voluntárias ou
forçadas, os poderes concedidos para tutela dos direitos morais, nem quaisquer outros
excluídos por lei (cfr. artigo 42.º do CDADC).

2.1. Transmissão

Os direitos de carácter patrimonial podem ser transmitidos pelo criador intelectual a


favor de terceiro. Tal significa que o titular originário, isto é o autor, o criador
intelectual da obra, bem como os seus sucessores podem autorizar a utilização da obra
por terceiro e/ ou ceder ou onerar total ou parcialmente, o conteúdo patrimonial do
direito de autor sobre a obra (cfr. artigo 40.º do CDADC).

Esta transmissão deverá ser reduzida a escrito e especificar a forma autorizada de


divulgação, publicação e utilização e as condições de tempo, lugar e custo (cfr. n.ºs 2 e 3
do artigo 41.º do CDADC). A autorização presume-se onerosa e não exclusiva (cfr. n.º 2
do artigo 41.º do CDADC).

A transmissão do conteúdo patrimonial do direito de autor pode ser total ou parcial. A


transmissão total e definitiva, consagrada no artigo 44.º do CDADC, só pode ser
realizada por escritura pública, devendo-se identificar a obra e o respectivo valor. A
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transmissão parcial, prevista no artigo 43.º do CDADC, cinge-se apenas aos modos de
utilização designado no acto de transferência e deve ser formalizada em documento
escrito, com a indicação realizada pelo signatário, do número, data e entidade emitente
do respectivo bilhete de identidade ou documento equivalente3. Neste documento
deverão, também, ser mencionadas as condições de exercício (tempo, lugar e custo) do
direito de autor e as faculdades abrangidas pela transmissão.

2.2. Sucessão por Morte do Autor

Os direitos de autor podem, também, ser transmitidos por morte do autor, sucessão
mortis causa, aos sucessores do criador intelectual, os quais adquirem, após a morte do
autor, os direitos que competiriam a este.

Assim, e até à obra cair no domínio público (isto é, em regra geral, setenta anos após a
morte do criador intelectual4), o exercício do direito de autor pertence aos respectivos
sucessores, competindo também a estes decidir relativamente à publicitação de obras
póstumas (vide artigos 57.º n.º 1 e 70.º do CDADC).

Considera-se obra póstuma a que só depois da morte do autor é publicada, bem como a
que, tendo sido dada a conhecer por via exclusivamente oral em vida do autor, não foi
contudo fixada em qualquer suporte dotado de carácter estável e duradouro5.

2.3. Obras feitas por encomenda ou por conta de outrem

3
Cfr. artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 250/96, de 24 de Dezembro.
4
O artigo 38.º CDADC determina que [a] obra cai no domínio público quando tiverem decorrido os prazos de
protecção estabelecidos neste diploma. A regra geral está prevista no artigo 31.º do CDADC, o qual dispõe que [o]
direito de autor caduca, na falta de disposição especial, 70 anos após a morte do criador intelectual, mesmo que a
obra só tenha sido publicada ou divulgada postumamente. Existem, porém, casos especiais consagrados nos artigos
32.º (Obra feita em colaboração e obra colectiva), 33.º (Obra anónima e equiparada), 34.º (Obra cinematográfica ou
áudio-visual), 35.º (Obra publicada ou divulgada em partes), 36.º (Programa de Computador) e 37.º (Obra
estrangeira) do CDADC.
5
Vide E. POUILLET, in Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, REBELLO, Luiz Francisco, Âncora
Editora, 2002, pág. 118.
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Consideram-se obras feitas por encomenda ou por conta de outrem as realizadas durante
a execução de dever funcional ou em virtude de cumprimento de contrato de trabalho.

A titularidade do direito de autor nestes casos estabelece-se em consonância com aquilo


que for acordado por ambas as partes (cfr. artigo 14.º n.º 1 do CDADC). Não é, porém,
exigível que este acordo seja reduzido a escrito (cfr. artigo 219.º do Código Civil).

Na falta de convenção presume-se que o titular é, obviamente, o criador intelectual6 (cfr.


artigo 14.º n.º 2 do CDADC). Esta presunção é iurus et de iure, isto é não admite prova
em contrário.

No entanto, caso o nome do criador da obra não esteja identificado expressamente nesta
ou não constar no local usual presume-se que o direito de autor pertence à entidade por
conta de quem a obra é realizada (cfr. artigo 14.º n.º 2 do CDADC).

Nos casos em que se determina que a titularidade pertence àquele para quem a obra é
realizada, o criador intelectual poderá exigir não só uma remuneração ajustada à
actividade criativa, mas também uma remuneração especial que compense
adequadamente o criador intelectual pelas situações que ultrapassem os limites
inicialmente fixados relativamente à criação e à utilização da obra (cfr. artigo 14.º n.º 4
do CDADC).

2.4. Obras Colectivas

Outra excepção é a das obras colectivas. São englobadas neste conceito as obras
realizadas por diversas pessoas organizada[s] por iniciativa de entidade singular ou
colectiva e divulgada ou publicada em seu nome (cfr. artigo 16.º n.º 1 alínea b) do

6
Contrariamente, no caso das obras fotográficas presume-se no artigo 165.º n.º 2 do CDADC que o direito de autor
pertence à entidade patronal ou à pessoa que encomendou a fotografia. Esta presunção é iuris tantum, admitindo,
portanto, prova em contrário.
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CDADC). Os jornais e as publicações periódicas, cujo regime estipula-se no artigo
173.º e seguintes do CDADC, são exemplos concretos de obras colectivas.

Nestes casos a titularidade do direito de autor é atribuída à entidade que tenha dirigido a
respectiva criação e procedido à respectiva organização da obra, sendo publicada e
divulgada no nome desta entidade (cfr. artigo 19.º do CDADC).

Contudo, se a produção pessoal dos colaboradores for facilmente identificável aplicar-


se-á o disposto para a obra elaborada em colaboração, isto é o direito de autor pertence a
todos os que nela tiverem colaborado (vide item 2.5. Obras Realizadas em
Colaboração).

2.5. Obras Realizadas em Colaboração

As obras feitas em colaboração consistem também em obras criadas por uma


pluralidade de pessoas, mas cuja divulgação é realizada em nome dos colaboradores ou
de algum deles, quer possam discriminar-se quer não os contributos individuais (cfr.
artigo 16.º n.º 1 alínea a) do CDADC).

O direito de autor no caso de obras executadas em colaboração pertence a todos os que


nela tiverem colaborado, aplicando-se neste caso as regras da compropriedade,
consagradas nos artigos 1403.º e seguintes do Código Civil.

Assim, considera-se de igual valor as partes dos autores envolvidos na obra feita em
colaboração, salvo disposição escrita em contrário (vide artigo 17.º n.º 2 do CDADC).

Qualquer um dos autores da obra realizada em colaboração pode requer a publicação, a


exploração ou a alteração da obra desenvolvida conjuntamente e ocorrendo eventual
discordância recorrer-se-á à boa fé para dirimir o respectivo litígio (cfr. artigo 18.º n.º 1
do CDADC).

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Os autores podem, ainda, exercer individualmente os respectivos direitos referentes à
contribuição pessoal, no caso desta puder ser diferenciada (cfr. artigo 18.º n.º 2 do
CDADC).

Não se incluem, todavia, no conceito de colaboradores os indivíduos que (meramente)


auxiliarem no domínio da produção, divulgação, ou publicação da obra,
independentemente do meio utilizado.

Ressalve-se, porém, que, se a obra realizada em colaboração for publicada ou divulgada


apenas com a menção de autoria de alguns dos autores, presume-se que os restantes
procederam à respectiva cedência de direitos em favor dos autores designados na obra.

2.6. Programas de Computador

O caso específico dos programas de computador deve também ser aflorado. O Decreto-
Lei n.º 252/94, de 20 de Outubro, prevê no número 1 do artigo 3.º que também são
aplicáveis as regras sobre titularidade do direito de autor para os programas de
computador.
Determina-se, todavia, no n.º 2 do supra-referenciado normativo, que [o] programa
elaborado no âmbito de uma empresa presume-se obra colectiva.

Significará isto que, ao se considerar o programa de computador realizado numa


empresa como obra colectiva, dever-se-á aplicar o respectivo regime (vide supra 2.4.
Obras Colectivas), o qual determina que o direito de autor é titulado pela entidade que
tenha dirigido a respectiva criação e procedido à respectiva organização da obra.

Tal não invalida que caso a criação pessoal dos envolvidos seja facilmente distinguível
se adopte o regime das obras realizadas em colaboração, que prevê que o direito de
autor pertence a todos os que nela tiverem colaborado (vide supra 2.5. Obras Realizadas
em Colaboração).

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Por fim, refira-se, ainda, que o n.º 3 do artigo 3.º do diploma supra-mencionado, o
Decreto-Lei n.º 252/94, de 20 de Outubro, prevê que os direitos inerentes à criação dos
programas de computador pertencem ao destinatário do programa, quando for criado
por um empregado no exercício das suas funções, ou segundo instruções da entidade
patronal, ou por encomenda, salvo disposição em contrário ou se outra coisa resultar das
finalidades do contrato.

3. A TITULARIDADE DOS DIREITOS DE AUTOR NAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR

De seguida analisar-se-á a titularidade dos direitos de autor das obras criadas no seio das
academias, equacionando-se diferentes cenários.

3.1. As Obras criadas pelos Docentes e não Docentes

Os Docentes e os Não Docentes desenvolvem o respectivo trabalho no âmbito de um


contrato de trabalho; pelo que as obras realizadas neste domínio consideram-se obras
feitas por encomenda ou por conta de outrem, uma vez que aqui se incluem as obras
realizadas durante a execução de dever funcional ou em virtude de cumprimento de
contrato de trabalho.

Tal significará que será aplicável o acordado por ambas as partes relativamente à
titularidade dos direitos de autor, aquando da celebração dos contratos de trabalho. Se
estes não disciplinarem esta matéria presume-se que o titular é, obviamente, o criador
intelectual.

Nestes casos é também aplicável o disposto no número 3 do artigo 14.º do CDADC, o


qual determina que presume-se que o direito de autor pertence à entidade por conta de
quem a obra é realizada, na eventualidade do nome do criador da obra não estar
identificado expressamente nesta ou não constar do local próprio.

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No caso dos trabalhos serem desenvolvidos por diversos docentes e/ou não docentes, ou
eventualmente por alunos, é aplicável o regime das obras realizadas em colaboração
(vide supra 2.5. Obras Realizadas em Colaboração), o qual determina que o direito de
autor é titulado por todos os que nela tiverem participado.

3.2. As Obras criadas pelos Alunos

A titularidade das obras criadas pelos alunos no decurso dos seus estudos, de graduação
e de pós-graduação, é afecta aos próprios, atendendo a que neste caso é aplicável a regra
geral, a qual consagra que o direito de autor pertence ao criador intelectual da obra,
salvo disposição expressa em contrário.

Os alunos detêm, portanto, os direitos de autor inerentes à criação dos respectivos


trabalhos (teses, dissertações e/ou outros), já que estes elaboraram o conteúdo criativo
das referenciadas obras, sendo, portanto, os respectivos criadores intelectuais.

Não será, contudo, assim no caso de haver disposição em contrário, o que


eventualmente poderá ocorrer se as instituições de ensino superior determinarem de
modo diverso em sede regulamentar própria.

Reitere-se, porém, que esta inversão da titularidade limitar-se-á apenas (e só) ao


conteúdo patrimonial dos direitos de autor e jamais aos direitos morais, os quais, como
foi supra-mencionado, não podem ser objecto de transmissão nem de oneração.

Também no caso de obras desenvolvidas por diversos alunos e/ou com a intervenção de
alguns docentes/não docentes da instituição de ensino será também aplicável o regime
das obras realizadas em colaboração (vide supra 2.5. Obras Realizadas em
Colaboração), isto é o direito de autor é titulado por todos os que nela tiverem
cooperado.

3.3. As Obras criadas pelos Bolseiros de Investigação

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No âmbito deste assunto é obrigatório analisar-se o regime geral aplicável às obras
criadas no âmbito de bolsas de investigação financiadas, designadamente pelas próprias
instituições de ensino ou pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).

As obras subsidiadas ou financiadas por qualquer meio não conferem ao investidor o


direito de autor ou qualquer outro direito inerente7. As partes podem, porém, acordar o
contrário, por convenção escrita.

O Estatuto do Bolseiro de Investigação (aprovado pela Lei n.º 40/2004, de 18 de Agosto


de 2004 que revogou o Decreto-Lei n.º 123/99, de 20 de Abril) não regulamentou esta
matéria. Dever-se-á, porém, analisar os regulamentos das entidades financiadoras e,
caso a caso, os termos de aceitação e/ou contratos de bolsa celebrados entre a entidade
financiadora e o bolseiro de modo a comprovar a inexistência de convenção em
contrário.

No caso de não ter sido inclusa cláusula acerca desta matéria considerar-se-á que o
direito de autor pertence incontestavelmente ao criador intelectual, isto é ao bolseiro.
Caso contrário será aplicável o especialmente disposto in casu.

3.4. As Obras criadas para Entidades Externas, no âmbito de uma relação contratual

As instituições de ensino superior desenvolvem a criação de inúmeras obras de acordo


com solicitações de entidades externas, designadamente empresas, institutos públicos e
outros.

Neste caso é aplicável o regime geral supra-exposto a propósito das obras feitas por
encomenda ou por conta de outrem (vide supra 2.3. Obras feitas por encomenda ou por
conta de outrem), o qual consagra que a titularidade do direito de autor estabelece-se em
consonância com o acordado por ambas as partes.

7
Vide o artigo 13.º do CDADC, cujo teor prevê que [a]quele que subsidie ou financie por qualquer forma, total ou
parcialmente, a preparação, conclusão, publicação ou divulgação de uma obra não adquire por esse facto sobre
esta, salvo convenção escrita em contrário, qualquer dos poderes incluídos no direito de autor.
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A titularidade dos direitos de autor será, então, convencionada entre as partes
envolvidas, que, após ponderarem as diferentes condições em que a obra é criada,
estipulam o regime aplicável. Todavia, na eventualidade desta matéria não ter sido
determinada previamente, presume-se que o titular é o criador intelectual.

Refira-se, finalmente, que se a obra não contiver o nome do criador da obra,


expressamente ou no sítio habitual, presume-se que o direito de autor pertence à
entidade por conta de quem a obra é realizada.

II – (DES)NECESSIDADE DE REGISTO

1. RECONHECIMENTO DO DIREITO DE AUTOR

O direito de autor e os direitos deste derivados – os designados direitos conexos –


adquirem-se independentemente de registo. Neste sentido, dispõe o artigo 12.º do
CDADC, o qual refere que [o] direito de autor é reconhecido independentemente de
registo, depósito ou qualquer outra formalidade; bem como o artigo 213.º do CDADC
em que se consagra que [o] direito de autor e os direitos deste derivados adquirem-se
independentemente de registo.

Pode-se, assim, referir que o direito de autor nasce com a criação da própria obra e,
nesse sentido, não é necessário ao seu titular praticar qualquer acto administrativo
formal para que veja reconhecidos e legitimados os seus direitos de autor.

Sendo certo que o mérito da obra é irrelevante para efeitos de protecção; isto é, a tutela
de protecção da obra é independente da respectiva qualidade. A obra protegida não tem
de ser guarnecida por um elevado nível de excelência.

Importa referir que o registo ou depósito são algumas das formalidades que podem
legalmente ser exigidas; contudo, como já referido, a regra é a de que a atribuição do
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direito de autor se faz com a mera criação da obra, pelo que, nestes casos, o autor
poderá fazer o depósito, mas apenas com intuitos probatórios e/ou publicitários.

Como refere José de Oliveira Ascensão8 [c]ertas situações que se situam já na periferia
ou certos efeitos que não sejam já a atribuição do direito podem ser sujeitos a um
registo constitutivo (são os casos referidos infra no ponto 3). Nestes casos, exige-se a
realização do registo como formalidade indispensável para a validade do acto e para a
efectividade da sua protecção legal. Daí se poder referir que nestas situações será
adequado falar em registo e nas demais – que são a regra – em depósito.

Assim, a formalidade legal do registo assume natureza constitutiva, ao passo que nos
casos de depósito tem apenas natureza declarativa, portanto, sem qualquer efeito
substantivo.

2. EFEITOS DO DEPÓSITO/ REGISTO

Apesar do depósito/registo não ter natureza constitutiva, a sua realização constitui um


importante elemento de prova da autoria do seu titular, o qual se poderá revelar
extremamente eficaz perante terceiros. Com efeito, verificando-se uma situação de
disputa entre dois ou mais autores sobre a autoria de uma obra, a ausência de um
depósito pode tornar a prova da autoria e originalidade de uma obra bastante difícil para
o seu titular.

Em suma: o registo é facultativo, e é presuntivo, isto é, não constitutivo de direitos, com


excepção dos casos legalmente previstos no CDADC. Trata-se, como é evidente, de
uma mera presunção tantum iuris, elidível portanto.

3. OBRIGATORIEDADE DE REGISTO

8
Obra citada Direito Civil – Direito de Autor e Direitos Conexos, Coimbra: Coimbra Editora, 1992.
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Existem determinados actos cuja validade depende de registo, nomeadamente em
termos de efectividade da protecção legal; assumindo o registo neste caso natureza
constitutiva. São os actos previstos no artigo 214.º do CDADC, a saber:

Do título de obra não publicada (só poderá efectuar-se conjuntamente com a obra);
Do título dos jornais e outras publicações periódicas (este registo efectua-se no ICS –
Instituto da Comunicação Social).

Nos termos do disposto no artigo 215.º do CDADC, são objecto de registo obrigatório:
- Os factos que importem constituição, transmissão, oneração, alienação, modificação
ou extinção do direito de autor;
- O nome literário ou artístico;
- O título de obra ainda não publicada;
- A penhora e o arresto sobre o direito de autor;
- O mandato nos termos do artigo 74.º (o autor deverá outorgar, a favor do seu
representante, documento comprovativo da representação).

São igualmente objecto de registo:


- As acções que tenham por fim principal ou acessório a constituição, o
reconhecimento, a modificação ou a extinção do direito de autor;
- As acções que tenham por fim principal ou acessório a reforma, a declaração de
nulidade ou a anulação de um registo ou do seu cancelamento;
- As respectivas decisões finais, logo que transitem em julgado.

4. FORMALIZAÇÃO DO REGISTO

4.1. Entidade Competente

A Inspecção Geral das Actividades Culturais (IGAC) é o organismo do Ministério da


Cultura, de acordo com o Decreto-Lei n.º 80/97, de 08 de Abril, a quem cabe assegurar

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o cumprimento da legislação sobre direito de autor e direitos conexos, em território
nacional, bem como a recepção e processamento dos pedidos de registo ou depósito.

4.2. Documentos a apresentar

É exigida a apresentação dos seguintes documentos:


- Requerimento modelo 71 da IGAC;
- Dois exemplares da(s) obras(s);
- Escritura pública, quando haja transmissão total e definitiva do conteúdo patrimonial
do Direito de Autor (artigo 44.º do CDADC);
- Procuração, quando o requerimento seja assinado por representante do autor (artigo
74.º do CDADC);
- Autorização escrita dos co-autores não mencionados no respectivo requerimento de
registo.

Pelo registo são devidos emolumentos, conforme tabela disponível na página


electrónica da IGAC: http://www.igac.pt

5. ÂMBITO DE PROTECÇÃO

De referir ainda que o registo/ depósito previstos no CDADC é de âmbito nacional; no


entanto, em virtude de acordos internacionais de que Portugal faz parte (em especial a
Convenção de Berna e a Convenção Universal sobre Direito de Autor), o direito de
autor é reconhecido em todos os países da União Europeia e num considerável número
de países dos restantes continentes, pelo que tem uma protecção praticamente a nível
mundial.

Não obstante, e como refere Luiz Francisco de Rebello9, importa ter em atenção que a
Convenção Universal sobre Direito de Autor, prevê no seu artigo III, a possibilidade dos

9
Obra citada Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, Lisboa : Âncora Editora, 2002, pág. 53.

18

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Estados contratantes exigirem como condição para a protecção dos direitos de autor o
cumprimento de formalidades, entre as quais o depósito e o registo da obra, mas refere
que essas exigências se devem considerar satisfeitas se, desde a primeira publicação
(…) todos os seus exemplares publicados com a autorização do autor (…) tiverem o
símbolo C acompanhado do nome do titular do direito de autor e da indicação do ano
da sua primeira publicação.

III – DEPÓSITO LEGAL

1. ENQUADRAMENTO LEGAL

O Depósito Legal é um serviço administrado pela Biblioteca Nacional que, na sua


qualidade de organismo encarregue de reunir as publicações que fazem parte do
património cultural e científico de Portugal, visa tornar acessíveis essas publicações,
pretendendo também a defesa e preservação dos valores da língua e cultura portuguesas.

As regras e procedimentos relativos ao Depósito Legal encontram-se previstas no


Decreto-Lei n.º 74/82, de 3 de Março, e no Decreto-Lei n.º 362/86, de 28 de Outubro.

O Depósito Legal é obrigatório para determinadas obras e tem por finalidade a


construção e incremento de um espólio bibliográfico português.

2. OBRIGATORIEDADE/NÃO OBRIGATORIEDADE DE DEPÓSITO LEGAL

Nos termos dos artigos 1.º e 4.º do Decreto-Lei n.º 74/82, de 3 de Março, o Depósito
Legal é obrigatório para todas as obras impressas ou publicadas em qualquer ponto do
País, seja qual for a sua natureza e o seu sistema de reprodução, nomeadamente:

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Livros, brochuras, revistas, jornais e outras publicações periódicas, separatas, atlas e
cartas geográficas, mapas, quadros didácticos, gráficos estatísticos, plantas, planos,
obras musicais impressas, programas de espectáculos, catálogos de exposições, bilhetes
– postais ilustrados, selos, estampas, cartazes, gravuras, fonogramas e videogramas,
obras cinematográficas, microformas e outras reproduções fotográficas;
Teses de mestrado e doutoramento, trabalhos de síntese, estudos e dissertações e outros
trabalhos relativos às carreiras docentes do ensino universitário e do ensino superior
politécnico estão abrangidas pela obrigatoriedade de Depósito Legal (Decreto Lei n.º
362/86, de 28 de Outubro).

As obras que não estão sujeitas a Depósito Legal obrigatório vêm referidas no n.º 3 do
artigo 4.º do supra referido diploma legal e são as seguintes:

os cartões de visita, as cartas e sobrescritos timbrados, as facturas comerciais, os títulos


de valores financeiros, as etiquetas, os rótulos, os calendários, os álbuns para colorir, os
cupões e outros equivalentes, os modelos de impressos comerciais e outros similares.

3. FORMALIZAÇÃO DO DEPÓSITO LEGAL

3.1. Quem o efectua

O Depósito Legal deve ser efectuado pelos proprietários, gerentes ou equivalentes de


tipografias, oficinas ou fábricas.

3.2. Números de Exemplares

Devem ser entregues no Serviço do Depósito Legal da Biblioteca Nacional os


exemplares legalmente exigidos, designadamente:

Por cada publicação impressa devem ser depositados 11 exemplares;


Para teses de mestrado e doutoramento deve ser depositado 1 único exemplar;
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Os quadros didácticos, gráficos estatísticos, plantas, planos, obras musicais, impressos,
catálogos de exposições, programas de espectáculos, bilhetes - postais ilustrados, selos,
estampas, cartazes, gravuras, fonogramas e videogramas, obras cinematográficas,
tiragens especiais até 100 exemplares, edições de luxo até 300 exemplares e
reimpressões de obras publicadas há menos de um 1 ano, apenas se exige 1 exemplar ou
cópia.

4. MENÇÕES OBRIGATÓRIAS NOS EXEMPLARES

Devem figurar obrigatoriamente em todos os exemplares de uma obra sujeita a Depósito


Legal as menções seguintes:
- Nome e endereço do Impressor ou do Editor;
- País de impressão em caso de impressão no estrangeiro;
- As palavras "Depósito Legal" seguidas do número de registo e ano de publicação;
- Indicação de reedição, reimpressão ou nova tiragem.

5. SANÇÕES PELA NÃO REALIZAÇÃO DO DEPÓSITO LEGAL

A atribuição do número de registo de Depósito Legal é gratuita.


A não realização do Depósito Legal, quando exigida, faz incorrer o infractor na prática
de uma transgressão, a que corresponderá uma multa correspondente a 30% do valor do
trabalho realizado; em caso de reincidência, a multa será duplicada.

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PARTE C

DURAÇÃO, DIREITOS TRANSMITIDOS E UTILIZAÇÕES LIVRES DAS OBRAS

1. A DURAÇÃO DO DIREITO

Segundo o disposto no artigo 31º do CDADC, o direito de autor caduca 70 anos após a
morte do criador intelectual.
De acordo com a própria natureza do direito de autor, a protecção inicia-se com a
exteriorização da obra. Torna-se assim importante, também para esta situação, a
colocação da data de conclusão da obra em todos os seus suportes ou exemplares, de
modo a serem afastadas todas as dúvidas quanto aos prazos a respeitar.
Nos casos de obras realizadas em colaboração (artigos 16º e 17º do CDADC), o direito
caduca 70 anos após a morte do autor-colaborador que tiver falecido em último lugar
(artigo 32º-1 do CDADC).
No que tange às obras colectivas ou originariamente atribuídas a pessoa colectiva, a
caducidade do direito ocorre 70 anos após a primeira publicação ou divulgação lícitas
(artigo 32º-2 do CDADC).
Os mesmos prazos são aplicáveis aos programas de computador (artigo 36º do CDADC) e
às bases de dados (artigo 6º do Decreto-Lei nº 122/2000 de 4 de Julho).
Segundo o artigo 38º do CDADC, a obra cai no domínio público com a caducidade dos
prazos de duração do direito, ou seja, poderá a mesma ser livremente e gratuitamente
explorada, cessando desta sorte o direito exclusivo de exploração económica que era
prerrogativa soberana do autor ou do titular dos direitos.
Como já foi amplamente destacado, os direitos morais são imprescritíveis, não cessando
por isso no momento acima referido, mantendo-se plenamente em vigor.

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2. OS DIREITOS TRANSMITIDOS

Atendendo à análise já empreendida sobre o conceito de obra, suas classificações e


titularidade do direito de autor, cabe, neste particular, discorrer sobre os aspectos conexos
com a transmissão do direito10. Ou mais rigorosamente, com os poderes de disposição de
que o titular do direito de autor – o criador intelectual ou, nos casos de obras criadas por
encomenda ou por conta de outrem, aquele a quem a Lei atribui essa titularidade – pode
exercer em relação à sua obra.
Como sabemos, o direito de autor assume duas dimensões: moral ou pessoal e patrimonial
(artigo 9º-1 do CDADC).
No que tange à primeira, e no que por ora nos ocupa, a dimensão moral ou pessoal do
direito de autor confere a este o poder de dar a conhecer a sua obra ou ao invés, retirá-la de
circulação, de pugnar pela sua integridade e reivindicar a paternidade da mesma. Tal
dimensão moral é inalienável, irrenunciável e imprescritível (art. 56º-2 CDADC). Logo, à
partida, excluída das nossas preocupações actuais11.
Quanto à dimensão patrimonial, traduz-se na faculdade de o autor, de per si ou autorizando
terceiros, fruir e utilizar a obra ou a explorá-la economicamente, fixando o autor as
condições dessa exploração (ou pelo menos, tendo o poder de o fazer), como decorre da
conjugação do disposto nos artigos 9º-2, 67º e 68º do Código do Direito de Autor e dos
Direitos Conexos (CDADC).
É, assim, a respeito desta dimensão patrimonial que se coloca a questão da transmissão do
direito. O artigo 42º do CDADC, a contrario sensu, reforça esta ideia, ao estatuir que “não
podem ser objecto de transmissão nem oneração... os poderes conferidos para tutela dos
direitos morais...”.
Em tese geral, o artigo 40º do CDADC ajuda-nos a fixar o âmbito desta eventual
disponibilização da vertente patrimonial do direito de autor, ao afirmar que

“O titular originário, bem como os seus sucessores ou transmissários, podem:


10
Com Rebello, Luiz Francisco, in “Introdução ao Direito de Autor – Vol. 1”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1994 e
“Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos Anotado”, Edições Âncora, Lisboa, 1998.
11
A v. Infra.
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Autorizar a utilização da obra por terceiro;
Transmitir ou onerar, no todo ou em parte, o conteúdo patrimonial do direito de autor
sobre essa obra.”

Como traço geral a respeito deste âmbito dispositivo, quanto à simples autorização e à
transmissão não definitiva, afirme-se que a raiz da titularidade do direito de autor radica no
criador intelectual (artigo 41º-1 do CDADC), sendo concedido a um terceiro o mero
exercício do direito (e apenas quanto à vertente patrimonial).
Já quanto à transmissão definitiva ou alienação, a titularidade do direito transfere-se para o
adquirente, como se tratasse de um qualquer contrato de compra e venda.
Deste artigo decorrem desde logo dois tipos de disposição sobre os direitos: a simples
autorização – alínea a) – e a transmissão parcial ou total – alínea b).
Pela primeira, modalidade aliás mais frequente, o autor autoriza um terceiro a utilizar e
explorar a obra de acordo com as condições, limites e finalidades por si fixados, por escrito
(artigo 41º-2 do CDADC), estando à partida inclusivamente vedado ao terceiro autorizado a
extensão de autorização a outrem sem a anuência do autor.
Exemplos desta simples autorização são encontrados, por exemplo, no clássico
contrato de edição, regulado nos artigos 83º e seguintes do CDADC e no caso de um
docente autorizar a inclusão, mediante contrato escrito e fixação das condições
concretas da sua utilização, de um paper da sua autoria num repositório online
integrado numa solução de e-learning da sua Universidade.
Esta autorização terá que assumir a forma escrita, tendo esta última força de prova quanto
aos termos da autorização, pelo que na sua falta, caberá ao usuário provar que estava
autorizado a usar e explorar a dita obra.
Presume-se, ao abrigo do disposto nos artigos 41º-2 e 67º-2 do CDADC que a autorização
assume carácter oneroso, atendendo a que “a garantia das vantagens patrimoniais
resultantes da exploração (da obra) constituti, do ponto de vista económico, o objecto
fundamental da protecção legal” (artigo 67º-2 do CDADC).

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Afirme-se12 que “...o uso privado e destituído de fins lucrativos escapa ao direito de
autor...”, daqui inferindo-se a necessidade sentida pelo legislador de garantir como domínio
soberano do autor (ou do titular do direito) os seus poderes de disposição, quanto à sua
obra, nas dimensões de autorização, transmissão, alienação e oneração, quanto à sua
vertente patrimonial.
Por outro lado, o mesmo artigo 41º-2 do CDADC fixa a presunção do carácter não
exclusivo destas autorizações outorgadas pelo autor a um terceiro.
Assim sendo, constituirá um exemplo de boa prática a seguir pelas universidades a
negociação e fixação concreta e por escrito das autorizações a obter junto dos
docentes, investigadores ou colaboradores a qualquer título da instituição para a
inclusão das suas obras em plataformas de e-learning, afastando desta forma as
presunções apresentadas e acautelando a prévia celebração, pelos autores, de
contratos exclusivos de edição com entidades terceiras, prejudiciais à inclusão desses
conteúdos (obras) futuramente, numa plataforma de e-learning.
Tudo isto sem embargo da previsão, nos regulamentos internos de propriedade
intelectual das universidades, de disposições remissivas para a celebração deste tipo
de contrato.
No particular da transmissão ou oneração, parcial ou total, ínscia na alínea b) do artigo 40º
do CDADC, ela pode assumir carácter parcial (privativa a certas formas de utilização da
obra13), temporário, total ou definitivo. Trata-se aqui obviamente da transferência da
titularidade do direito, na sua vertente patrimonial, para outrem.
A regra quanto à transmissão é a da obrigatoriedade de forma escrita (artigo 43º do
CDADC), formalidade acrescida com a exigência de escritura pública (artigo 44º do
CDADC) para a transmissão total e definitiva do direito.
Este contrato de transmissão deve conter, além da identificação da obra transmitida, “...as
faculdades que são objecto de disposição e as condições de exercício, designadamente
quanto ao tempo e quanto ao lugar e, se o negócio for oneroso, quanto ao preço.” – artigo
43º-3 do CDADC.

12
Com Rebello, Luiz Francisco, in ob. cit. pág. 154.
13
V. infra capítulo sobre formas de utilização das obras.
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Sublinhe-se novamente a importância do acompanhamento permanente, a realizar
pelas estruturas competentes na orgânica interna da universidade, de todas as
operações de cessão de direitos de autor, atentos os formalismos indispensáveis à sua
transmissão.
Por outro lado, é notória a necessidade de sensibilização de todos os colaboradores da
universidade, a qualquer título, para as questões aqui evidenciadas e para o
cumprimento da política de propriedade intelectual vigente internamente.
Uma breve referência à possibilidade de oneração do direito de autor.
O direito de autor, pelo menos quanto à sua vertente patrimonial, pode ser objecto de
usufruto (artigo 45º do CDADC), dado em penhor (artigo 46º do CDADC) e
inclusivamente ser objecto de penhora ou arresto (artigo 47º do CDADC).
Quanto às exigências de forma colocadas, afiguram-se semelhantes às que sumariamente
elencámos para a transmissão do direito.

4. A UTILIZAÇÃO DA OBRA. AS UTILIZAÇÕES LIVRES

4.1. A utilização da obra

“O autor tem o direito exclusivo de fruir e utilizar a obra, no todo ou em parte, no que se
compreendem, nomeadamente, as faculdades de a divulgar, publicar e explorar
economicamente por qualquer forma, directa ou indirectamente, nos limites da lei.”
(Artigo 67º-1 do CDADC)

O artigo citado não pode deixar de ser conjugado com o carácter comunicacional implícito
da obra, de criação visando o conhecimento e fruição públicos. Uma obra exterioriza-se,
regra geral, para “chegar junto do público”, entendendo-se este da forma mais lata possível,
assim como as formas empregadas para esse fim.

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Não esqueçamos todavia que a fruição da obra, sem embargo das condições concretas
fixadas pelo titular dos direitos, nunca pode ferir o núcleo irrenunciável dos direitos morais
do seu criador intelectual (nas dimensões de paternidade, genuinidade e integridade).
Refira-se a propósito o esforço necessário de conscencialização de todos os
colaboradores da universidade para o respeito dos direitos morais dos autores,
dimensão estruturante deste direito.
Recorde-se que “a garantia das vantagens patrimoniais resultantes da exploração (da
obra) constituti, do ponto de vista económico, o objecto fundamental da protecção legal”
(artigo 67º-2 do CDADC), tutelando a lei, desta sorte, a posição do autor no sentido deste
utilizar a obra, da forma que entender, e dela poder retirar benefícios económicos.
Em tese geral, pode mesmo afirmar-se o direito do autor ser compensado economicamente
sempre que a obra seja utilizada, ainda que dessa utilização não derive qualquer benefício
económico14.
Assim sendo, poderá fazê-lo directamente, explorando a obra, “...segundo a sua espécie e
natureza, por qualquer dos modos actualmente conhecidos ou que de futuro o venham a
ser” (artigo 68º-1 do CDADC) ou indirectamente, habilitando um terceiro a fazê-lo15.
Este quadro típico de soberania do autor sobre a sua obra é temperado pelo elenco fixado
pela lei, de utilizações livres (artigo 75º do CDADC, com as alterações introduzidas pela
Lei nº 50/2004 de 24 de Agosto), determinadas, na expressão lapidar de Luiz Francisco
Rebello16, “...pela necessidade de encontrar um equilíbrio entre os direitos de autor e as
exigências de conhecimento e informação da sociedade”, das quais curaremos
telegraficamente neste capítulo.
A doutrina mobiliza, a propósito do elenco das formas ou modalidades de utilização da
obra, o conceito geral de “comunicação pública”, assim procurando circunscrever todos os
expedientes mediante os quais uma obra pode ser levada ao conhecimento do público, seja
por meios humanos, técnicos, mecânicos ou telemáticos.
A Lei nº 50/2004 de 24 de Agosto consagrou novas modalidades de utilização da obra,
enriquecendo o elenco, meramente exemplificativo e em constante evolução, do artigo 68º
14
Exceptuando-se os casos das utilizações livres e uso privado, a explorar sucintamente infra.
15
De acordo com as formas de transmissão que vimos supra e atendendo às suas disposições típicas.
16
In ob. cit., pág. 154.
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do CDADC, nomeadamente quanto ao conjunto de utilizações em relação às quais assiste
“...ao autor, entre outros, o direito exclusivo de [as] fazer ou autorizar, por si ou pelos
seus representantes”, assim reforçando o carácter exclusivo do direito do autor autorizar –
e dos termos concretos dessa autorização, acrescente-se – a utilização da sua obra17.
Numa leitura actualizada do citado preceito legal, encontramos dois grandes grupos de
formas de utilização: a representação e a reprodução.
A primeira, menos importante para o objecto deste estudo, é definida e regulada pelos
artigos 107º e seguintes do CDADC como a “...exibição perante espectadores de uma obra
dramática, dramático-musical, coreográfica, pantomímica ou outra de natureza análoga,
por meio de ficção dramática, canto, dança, música ou outros processos adequados,
separadamente ou combinados entre si.”
São dela exemplo as situações descritas nas alíneas b) – representação em público, c) –
exibição cinematográfica, e) – difusão por televisão ou rádio e l) – construção de obra de
arquitectura segundo o projecto (nova ordenação derivada da Lei nº 50/2004 de 24 de
Agosto).
A reprodução consiste na multiplicação de exemplares ou suportes da obra destinados à sua
difusão junto do público.
São exemplos de reprodução as alíneas a) – publicação pela imprensa ou outro meio de
reprodução gráfica, d) – gravação em aparelho electrónico, i) – reprodução, directa ou
indirecta, temporária ou permanente, por quaisquer meios e sob qualquer forma, no todo ou
em parte (com a nova redacção conferida pela Lei nº 50/2004 de 24 de Agosto).
Podemos ainda perspectivar o cruzamento destas duas formas de utilização, pensando
na reunião, sob a forma numérica (multimedia), de obras dos géneros mais diversos,
por exemplo literárias, musicais e cinematográficas, numa plataforma de e-learning,
sendo hoje em dia cada vez mais frequente esta “mistura” de géneros, atenta a
evolução da técnica e da transmissão de conteúdos.
Qualquer autorização conferida pelo autor para um terceiro utilizar a obra deverá
especificar a forma ou formas concretas de utilização autorizadas, ficando a contrario
excluídas todas aquelas que o autor não conceder, de acordo com os artigos 68º-3 e 4 e 41º-
17
Exceptuado o caso da concessão de licenças obrigatórias.
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3 do CDADC, num quadro amplo de liberdade contratual que assiste ao autor neste
particular, que lhe permite, por exemplo, autorizar “A” a editar em língua portuguesa um
texto da sua autoria – artigo 68º/2-a); e conceder a “B” o privilégio de colocar a mesma
obra à disposição do público, sem fio, por forma a torná-la acessível a qualquer pessoa a
partir do local e no momento por ela escolhido – artigo 68º/2-j), com a nova redacção da
Lei nº 50/2004 de 24 de Agosto.
Exemplo prático: a autorização dada por um docente à sua universidade para
publicar em edição própria um texto académico da sua autoria NÃO COMPREENDE
a autorização da universidade integrar esse mesmo texto numa plataforma de e-
learning. Esta é uma utilização claramente distinta da primeira, que tem de ser
igualmente autorizada pelo autor.

4.2. As utilizações livres e o uso privado

Todo o quadro acima exposto sofre algumas distorções importantes no particular das
utilizações livres das obras, que podem ser licitamente feitas por terceiro, não carecendo de
autorização do autor nem sequer do seu conhecimento prévio.
Naturalmente, e atento o já avançado supra no capítulo dedicado à duração do direito de
autor, não se trata neste caso de utilização de obras já caídas no domínio público, para as
quais se verifica a desnecessidade de autorização do autor, mas sim aquelas obras em
relação às quais verificaríamos uma situação de utilização ilícita pelo terceiro caso o autor
nela não consentisse.
As categorias típicas de utilização para além da soberania do autor ou do titular dos direitos
são as utilizações livres, elencadas taxativamente no artigo 75º-2 do CDADC (com a
redacção actualizada e ampliada pela Lei nº 50/2004 de 24 de Agosto) e as licenças
obrigatórias, legais ou compulsivas. No primeiro caso, a lei isenta de autorização do autor a
utilização da obra, no segundo a lei concede tal autorização, sub-rogando-se na posição do
titular dos direitos.
No particular das utilizações livres, temos que a sua existência prende-se com finalidades
didácticas e informativas lato sensu, onde ressalta clara a preocupação do legislador em
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assegurar a normal fluidez da informação e do conhecimento, maxime científico e a
liberdade de crítica e discussão de opinião.
Do extenso elenco do artigo 75º-2 do CDADC, atentemos nas seguintes situações de
utilização lícita de uma obra, sem necessidade de consentimento do autor:

Alínea a): “...reprodução de obra, para fins exclusivamente privados, em papel ou suporte
similar... realizada por pessoa singular para uso privado e sem fins comerciais directos ou
indirectos” – o uso estritamente privado de uma obra;
Alínea e): “... reprodução, no todo ou em parte, de uma obra que tenha sido previamente
tornada acessível ao público, desde que tal reprodução seja realizada por uma biblioteca
pública, ..., centro de documentação não comercial ou uma instituição científica ou de
ensino, e que essa reprodução e o respectivo número de exemplares se não destinem ao
público, se limitem às necessidades das actividades próprias dessas instituições e não
tenham por objectivo a obtenção de uma vantagem económica ou comercial, directa ou
indirecta...” – finalidades de interesse público na disseminação do conhecimento;

Alínea f): “A reprodução, distribuição e disponibilização pública, para fins de ensino e


educação, de partes de uma obra publicada, contanto que se destinem exclusivamente aos
objectivos do ensino nesses estabelecimentos e não tenham por objectivo a obtenção de
uma vantagem económica ou comercial, directa ou indirecta” – finalidades de interesse
público na disseminação do conhecimento, fluência da informação e estímulo à
investigação científica;

Alínea g): “A inserção de citações ou resumos de obras alheias, quaisquer que sejam o seu
género e natureza, em apoio das próprias doutrinas ou com fins de crítica, discussão ou
ensino, e na medida justificada pelo objectivo a atingir” – direito de citação;

Alínea o): “A comunicação ou colocação à disposição do público, para efeitos de


investigação ou estudos pessoais, a membros individuais do público por terminais
destinados para o efeito nas instalações de bibliotecas, ... e escolas, de obras protegidas
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não sujeitas a condições de compra e licenciamento, e que integrem as suas colecções ou
acervos de bens” – finalidades de interesse público na disseminação do conhecimento;

Alínea r): “A inclusão episódica de uma obra ou outro material protegido noutro
material” – inclusão pontual e isolada, sem potencial danoso.

Todas as utilizações livres previstas no artigo 75º do CDADC, nas alíneas a) a t), obedecem
a um conjunto de condições, a saber:
Não podem prejudicar “a exploração normal da obra, nem causar prejuízo injustificado
aos interesses legítimos do autor” (artigo 75º-4 do CDADC);
A utilização deve ser acompanhada da indicação, sempre que possível, do nome do autor,
editor, título da obra e outros elementos identificativos (artigo 76º/1-a) do CDADC);
Nos casos das alíneas a) e e) do artigo 75º-2 do CDADC (acima transcritas), deve ser paga
uma remuneração equitativa a atribuir ao autor e, no âmbito analógico, ao editor, pela
entidade que tiver procedido à reprodução;
As obras reproduzidas ou citadas, nos casos das alíneas b), d), e), f), g) e h) do artigo 75º-2
do CDADC “...não se devem confundir com a obra de quem as utilize, nem a reprodução
ou citação podem ser tão extensas que prejudiquem o interesse por aquelas obras” (artigo
76º-2 do CDADC).

Do elenco agora apresentado ressaltam desde logo dois tipos de situações possíveis no
âmbito do e-learning:
Por um lado, o problema da inclusão numa plataforma, de conteúdos de terceiros, ao
abrigo do regime excepcional de utilização livre de obras previsto nas alíneas do
artigo 75º do CDADC.
Por outro lado, perspectivando o próprio repositório de dados on-line, criado pela
universidade, como uma base de dados, logo uma obra sujeita ao regime do direito
autoral, hipotizando a situação dessa base de dados (obra) ser utilizada por uma outra
universidade ao abrigo do mesmo regime excepcional de utilizações livres, alegando o
seu uso interno, para finalidades de ensino (alínea f) do artigo 75º do CDADC).
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PARTE D

I – Programas de Computador

1. NOTA INTRODUTÓRIA

As recomendações em seguida apresentadas estão baseadas em:


- Lei de protecção jurídica dos programas de computador (Decreto-Lei nº 252/94, de 20 de
Outubro), diploma que fez a transposição da Directiva nº 91/250/CEE, do Conselho de 14
de Maio que visa conferir adequada protecção legal aos programas de computador na
Comunidade Europeia;
- Código dos Direitos de Autor e Direitos Conexos (CDADC).
Como nota adicional, salienta-se que embora não tenha sido utilizada informação da lei da
criminalidade informática que tipifica como crime um conjunto de factos, esta deve ser
também considerada no conjunto de legislação existente em Portugal sobre protecção
jurídica do software.

2. DISPOSIÇÕES LEGAIS

Um programa de computador pode ser protegido de forma análoga às obras literárias desde
que tenha carácter criativo18 sendo indiferente o mérito da obra. A protecção conferida
incide sobre a expressão do programa de computador, sob qualquer forma19 e a tutela não
prejudica a liberdade das ideias que estão na base de qualquer elemento do programa, como
a lógica, algoritmos ou linguagem de programação20.

18
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 1º/ponto 2
19
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 2º/ponto 1
20
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 2º/ponto 2

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Todas as disposições legais sobre a autoria e titularidade são remetidas para o CDADC21.
Desta forma, a regra geral determina que o direito de autor pertence ao criador intelectual22.
Nos casos em que o software seja desenvolvido no âmbito de realação laboral numa
empresa, presume-se obra colectiva23. Como foi já referido anteriormente, o direito de autor
sobre obra colectiva é atribuído à entidade singular ou colectiva que tiver organizado e
dirigido a sua criação24, salvo convenção contratual em contrário. Convém alertar que os
direitos do empregador (trabalho no âmbito de empresa) não invalidam o direito a
remuneração especial25 para o criador26 se forem ultrapassadas as expectativas iniciais de
exploração da obra (criação de um blockbuster). Em relação às situações em que um
programa de computador for criado por empregado no exercício das suas funções ou
segundo instruções emanadas do dador de trabalho, é pertença do destinatário do programa
os direitos relativos do mesmo (salvo estipulação em contrário)27. Convém salientar que
esta regra se sobrepõe ao Artigo 13º (obra subsidiada) do CDADC que consagra como
princípio geral a manutenção de todos os poderes inerentes ao direito autor ao criador de
uma obra mesmo nas situações em que a mesma foi financiada por terceiros.
Como nota adicional é importante realçar que é possível introduzir modificações28 na obra
(software). O empregador, aquele que encomendou o programa ou mesmo um cliente final
podem introduzir-lhe modificações sem autorização do criador, salvo convenção em
contrário29.
Em determinadas situações os programas de computador podem ser desenvolvidos em
colaboração entre vários autores considerando-se neste caso a obra feita em colaboração30.
O direito de autor de obra neste caso pertence a todos os que nela tiverem colaborado
(aplicação das regras da compropriedade)31.

21
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 3º/ponto 1
22
CDADC – artigo 11º
23
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 3º/ponto 2 e 3
24
CDADC – artigo 19º
25
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 3º/ponto 4
26
CDADC – artigo 14º/4 a) e b)
27
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 3º/ponto 3
28
Não aplicação ao software do artigo 15º/2 do CDADC
29
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 3º/ponto 5
30
CDADC – artigo 17º
31
CDADC - artigo 17º/1
34

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Em relação à duração do direito mantém-se a caducidade de 70 anos após a morte do autor
e demais regras32.
Os direitos do titular do programa33 resumem-se a fazer ou autorizar a reprodução do
programa, proceder a qualquer transformação do mesmo e a reprodução de programa
derivado. No caso dos direitos do utilizador34 é importante esclarecer que o mesmo tem
direito a realizar cópia de apoio do programa, observar, estudar e ensaiar o funcionamento
do programa.
Existe uma questão importante que a Lei de protecção jurídica dos programas de
computador prevê: caso especial da descompilação35 (reverse engineering). É possível
descompilar partes de um programa desde que esta operação seja necessária para garantir
interoperabilidade desse programa de computador com outros programas36. Assim o titular
da licença de utilização tem legitimidade para realizar a descompilação caso as informações
obtidas através desta operação não estejam já fácil e rapidamente disponíveis37 e que a
descompilação seja realizada em certas partes do programa de origem necessárias à
interoperabilidade38. Convém realçar que novos programas criados com informação obtida
através desta operação não podem ser substancialmente semelhantes, na sua expressão, ao
programa originário39.

32
Decreto Lei n.º 334/97 de 27 de Novembro.
33
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 5º
34
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 6º
35
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 7º
36
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 7º/1
37
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 7º/2
38
Directiva nº 91/250/CEE – artigo 6º/1
39
Decreto Lei n.º 252/94 - artigo 7º/5
35

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II – Bases de Dados

1. NOTA INTRODUTÓRIA

As recomendações em seguida apresentadas estão baseadas no Decreto-Lei nº 122/2000 de


4 de Julho que fez a transposição da Directiva nº 96/9/CE de 11 de Março

2. DISPOSIÇÕES LEGAIS

As bases de dados podem ser protegidas por direito de autor desde que pela selecção ou
disposição dos seus conteúdos, constituam criações intelectuais40. O critério relevante para
determinar se a base de dados é susceptível de protecção pelo direito de autor deve basear
unicamente na originalidade da Obra e não deverão intervir critérios estéticos ou
qualitativos41.
Uma base de dados pode ser definida como42 uma colectânea (compilação) de obras, dados
ou outros elementos independentes, dispostos de modo sistemático ou metódico e
susceptíveis de acesso individual por meios electrónicos ou outros.
Um caso particular são as bases de dados multimédia que devem incluir “quaisquer
recolhas de obras literárias, artísticas, musicais ou outras, ou quaisquer outros materiais,
como textos, sons, imagens, números, factos e dados”43. Convém neste ponto salientar que
é necessária autorização dos autores das obras originárias para a sua integração ou inclusão
numa base de dados. Nestes casos ou em situações que as bases de dados contenham
conteúdos de livre de utilização, o criador fica protegido quanto à forma de tratamento que
lhes deu (modo de apresentação; capacidades de busca e outputs fornecidos etc.).

40
Decreto Lei n.º 122/2000 - artigo 4º/1
41
Directiva 96/9/CE – Considerando nº 16
42
Decreto Lei n.º 122/2000 - artigo 1º/2
43
Directiva 96/9/CE – Considerando nº 17
36

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Todas as disposições legais sobre a autoria e titularidade são remetidas para CDADC44;45.
Novamente, no caso das bases de dados em que a titularidade das mesmas resida no
empregador, é possível introduzir modificações46 à base de dados original. Em relação à
duração do direito mantém-se a caducidade de 70 anos após a morte do autor e demais
regras47.
Os direitos do titular da base de dados48 permitem ao mesmo efectuar ou autorizar a
reprodução permanente ou transitória de toda ou parte da base de dados, a tradução,
adaptação, transformação ou modificação da base de dados, a sua distribuição original ou
de cópias, a sua comunicação pública ou exposição. Complementarmente, existe o direito
moral do criador intelectual (se for individualizável) de ser reconhecido como tal e de ter o
seu nome mencionado na base49.
Por sua vez os direitos do utilizador legítimo50 prevêem que este possa extrair e/ou
reutilizar partes não substanciais do respectivo conteúdo. No entanto, este direito não pode
colidir com a exploração normal dessa base ou lesar injustificadamente os legítimos
interesses do fabricante nem prejudicar o titular de um direito de autor ou de um direito
conexo sobre obras ou prestações contidas nessa base de dados51.
No entanto, os direitos do titular da base de dados podem ser restringidos, pois existem
determinados actos considerados livres que dão direitos acrescidos ao utente,
nomeadamente52:
A reprodução para fins privados de uma base de dados não electrónica;
As utilizações feitas com fins didácticos ou científicos, desde que se indique a fonte e sem
objectivos comerciais;
As utilizações para fins de segurança pública ou para efeitos de processo administrativo ou
judicial;

44
Decreto Lei n.º 122/2000 - artigo 5º/ponto 1
45
Ver explicação mais pormenorizada na se
46
Não aplicação ao software do artigo 15º/2 do CDADC
47
Decreto Lei n.º 334/97 de 27 de Novembro.
48
Directiva 96/9/CE – artigo nº 5
49
Decreto Lei n.º 122/2000 - artigo 8º/2
50
Directiva 96/9/CE – artigo nº 8/ ponto 1
51
Directiva 96/9/CE – artigo nº 8/ ponto 2 e 3
52
Decreto Lei n.º 122/2000 - artigo 10º/ponto 1 e 2
37

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As restantes utilizações livres previstas no direito de autor nacional, nomeadamente as
constantes do artigo 75.º (utilizações da obra lícitas sem consentimento do autor) do Código
de Direito de Autor e dos Direitos Conexos, sempre que se mostrem compatíveis.
Em relação ao acto considerado livre no enquadramento da alínea b), convém ressalvar que
esta disposição poderá originar problemas, nomeadamente em situações onde outra
instituição (por exemplo instituições de ensino superior ou mesmo instituições sem fins
lucrativos) sem direitos sobre uma base de dados com potencial didáctico, possa utilizá-la
sem autorização do titular da mesma, alegando fins didácticos/formativos ao abrigo desta
alínea.

Fluxogramas:

Objectivo: Protecção e valorização das obras criadas dentro das Universidades em


conformidade com os normativos legais vigentes.
Procedimento:
¾ Incluir em todas as publicações:
- A menção de Copyright (©) ou “Direitos reservados”;
- Nome do titular dos direitos de exploração da obra (vertente
patrimonial do direito de autor);
- Nome do Autor (criador intelectual) da obra;
- Ano da Divulgação;
- Local da divulgação.
¾ Depósito das obras junto das instituições acreditadas para esse efeito.

A título de exemplo:
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Objectivo: Utilização de obras de terceiros para fins pedagógicos ou de investigação.
Procedimento:
¾ Obtenção junto dos titulares dos direitos de exploração das autorizações ou licenças
necessárias à dita reprodução, nomeadamente acordos escritos ou declarações de
conformidade com regulamentos internos de propriedade intelectual;
¾ Poderá utilizar-se excertos de obras de terceiros sem autorização desde que ao
abrigo do direito de citação ou de qualquer outra utilização livre. Apenas é
permitida a reprodução total de obras de arte ou de fotografias.
¾ É sempre necessário indicar o nome do autor da obra.

Objectivo: Protecção de conteúdos das páginas de internet.


Procedimento:
¾ Verificar se a página cumpre os seguintes requisitos: Nome da Universidade,
Morada, Endereço de correio electrónico, dados relativos ao nome de domínio, e o
NIF.
¾ Criação de mecanismos de informação sobre o uso correcto dos conteúdos e
eventual utilização indevida dos mesmos;
¾ Advertência de que todos os conteúdos disponibilizados se encontram protegidos
por Direitos de Propriedade Intelectual.

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