Você está na página 1de 8

Como fazer seu parlatório

Por Caio Caesar Dib, ou Caio, ou Dib e respectivas variações. Turma XI-187.

1. Introdução: o que é um parlatório?

Parlatório1 é uma discussão promovida pela Academia de Letras a


respeito de um tópico literário — em geral, um autor ou texto específico. É
organizado por uma ou mais pessoas que, já portando algum conhecimento
sobre o tópico, propõem-se a apresentá-lo a quem estiver interessado. O
típico é que a organização também medeie 2 a discussão, mas não há um
modelo fechado.
Tampouco há regra de frequência dos encontros: são uma atividade
que deve ser promovida de forma espontânea, e que é sempre bem-vinda à
entidade. Contudo, tão importante quanto a espontaneidade é que seja
planejado devidamente e marcado com antecedência: não é mais importante
que qualquer outra atividade, por isso não deve usar do espontâneo como
desculpa para comprometer outras coisas já inseridas no cronograma (como
um encontro de discussão literária, outro parlatório ou uma reunião, a não
ser que seja conversado); além disso, é um processo trabalhoso que requer
pesquisa, escolha do formato e dos textos e divulgação. Não tenho a intenção
de desestimular parlantes em potencial, pelo contrário; por outro lado,
também não tenho a intenção de mentir.

Não é necessário integrar a Academia para organizar um parlatório:


quaisquer membros da comunidade acadêmica (antigos alunos e convidados
podem fazê-lo, por exemplo; não há uma lista fechada). É importante tornar
convidativo o espaço para todos que possam se interessar. O habitual é que
ocorra na Sala Lygia Fagundes Telles da faculdade (doravante salinha).

1 É importante esclarecer que não é um nome técnico, mas a maneira que a ALz escolheu de nomear os
encontros
2 Que palavra horrível
Breve FAQ (em construção, mandem sugestões):

• O que difere um parlatório de outras reuniões em que as pessoas


discutem um texto?
O parlatório conta com uma figura mediadora, que (em geral)
possui um maior conhecimento no tópico e pretende compartilhar sua
experiência com outros. Mesmo que ambos tenham a pretensão de
horizontalidade, é implícito no parlatório que parlantes conduzam a
discussão de alguma maneira e possam trazer referências ou sugestões de
leitura, por exemplo. Sempre há nas discussões literárias alguém que sabe
mais de um determinado tema, mas nelas não existe essa premissa.
Ainda, o parlatório possui um “tema” que não é, necessariamente, um
texto. Seja um autor, um livro/projeto literário, movimento ou uma corrente
literária, crítica literária, uma banda musical, um compositor clássico, filmes,
série da Netflix etc.

2. Como organizar um parlatório?

2.1 Tema

A pergunta mais fundamental (por óbvio) é: sobre o que você quer


falar? Não posso dar muitas dicas a respeito do tema, porque afinal é de onde
surge a vontade de organizar um parlatório. Contudo, recomendo considerar
os fatores do seu tema, para não inviabilizem um bom parlatório. O
encontro costuma durar cerca de duas horas. É possível tratar dele
(razoavelmente) nesse espaço de tempo? O meu tema é relativamente
acessível às pessoas que comparecerão? 3 Eu tenho uma boa bagagem desse
tema para dividir com a audiência? (conhecimento acadêmico, sentimentos,
episódios de vida, epifanias, filosofia de banheiro etc). A razão disso é eu
presumir que o que motiva um parlatório é esse desejo de dividir, e um tema
mal escolhido pode comprometer esse desejo — por mais que ele toque a sua
alma de um jeito sem igual.

3 Refiro-me aqui a uma “média” da audiência, das pessoas que parecem interessadas. O público na são
frão é sempre obscuramente volátil
Nessa seção darei como exemplo o processo de um parlatório que
organizei (o único até o presente momento, aliás). Escolhi um dos meus
escritores preferidos, o modernista japonês Ryuunosuke Akutagawa.

Muito maroto esse olhar

É um escritor pouco conhecido no Brasil diretamente, mas cuja obra


influenciou outras manifestações artísticas mais conhecidas (filmes do
Kurosawa, a literatura do Murakami etc).

2.2 Preparação e abordagem

Essa é a parte que considero a mais difícil de todo o processo. Juntei


ambos aspectos porque acredito não ser muito claro qual deles antecede o
outro. A começar pela escolha do material. É a partir de como foi seu
contato com tema que escolherá como abordá-lo. É importante admitir que,
seja qual for, o tópico será multifacetado. Claro que é possível trabalhar com
um tópico de maneira abrangente, mas visualize-o como um cubo: é
impossível enxergar mais de três faces de um cubo ao mesmo tempo. Quais
lados quer mostrar aos colegas?
A partir disso, pode-se traçar alguns materiais que ilustram essas
facetas. Eles serão uma boa orientação para o seu trabalho e um teasing para
você de qual será o resultado final. Sugiro que varie no tipo de mídia (textos,
música, filmes, artigos, entrevistas, etc) para que não se prenda a um único
formato de apresentação. Ainda, que a depender da extensão da sua
pesquisa, busque maneiras variadas de consultar esse conhecimento. Visite o
cinema, shows, bibliotecas etc. Se quiser fazer nada disso, tudo bem
também. Nada impede que um parlatório seja apenas o compartilhamento
das suas reflexões. Em verdade, é essa a essência dele. A questão é como e o
que você deseja compartilhar. O processo dependerá disso.
Quando escolhi o Akutagawa como estrela, achei muito difícil
escolher uma abordagem. É por isso que procrastinei o parlatório por cerca
de cinco meses. Eu gostei muito do resultado, mas cinco meses é um período
bastante longo. Quanto maior o tempo de dedicação, mais completo será o
seu parlatório. Contudo, também pode significar o sacrifício de um outro
parlatório que tenha em mente.

Akutagawa produziu vários tipos literários: poesias, ensaios, contos,


uma novela inacabada… Mas trabalhei apenas com os contos. Era o material
disponível e que definiu sua obra. Em seguida, assisti ao filme Rashomon do
Kurosawa, que foi inspirado por dois de seus contos 4. O aspecto que mais me
marcou dos textos foi como o contraste entre antigo e novo, Japão e
Ocidente, idealismo estético e realismo etc. Busquei alguns artigos
acadêmicos no JStor para dar liga na massa do bolo e a pesquisa ficou mais
ou menos assim:

4 Rashomon, de Akira Kurosawa, baseou-se nos contos Rashomon e No Matagal


A Passatempo na arte acima representa a larica da madrugada, quando se gasta o tempo anteriormente
dedicado a um date com a cama com coisas muito mais interessantes. É o triunfo da arte.
Essa quantidade de pesquisa é absolutamente desnecessária. O processo foi
muito interessante para mim, porque os temas do parlatório e meus
interesses acadêmicos se cruzam. Se quiser fazer o mesmo, dou meu total
apoio. Mas pelo-amor-de-todo-o-panteão não pense que parlatórios não
necessariamente assim.

Como queria que os participantes presenciassem aquilo de que eu


falava, separei alguns textos que enviaria futuramente, pelo evento do
Facebook como leitura prévia. Coloquei-os em uma pasta no Google Drive.

Não é necessário disponibilizar textos ou quaisquer outras mídias (vídeo no


YouTube, link pirata para o filme); todavia é altamente recomendado,
especialmente se seu tema não é dos mais conhecidos. Se não tiver como
disponibilizar, mande ao menos referências. Duvido que alguém buscará
algo na biblioteca para o encontro, mas seu trabalho será mínimo.

De qualquer maneira, sugiro que os textos sejam curtos 5; acessíveis; e


que neles seja possível identificar a abordagem utilizada. Selecionei os três
textos (um como “obrigatório”, os outros como complementares) tendo em
vista estes quesitos. É importante pensar que você quer que leiam os textos.
Algo muito grande ou muito complexo pode intimidar participantes, que
chegarão ainda mais crus.
5 Diria algo entre 10 e 30 páginas, a depender da densidade e da antecedência com que é marcado o
encontro
Quando as pessoas possuem algum contato com a obra, tudo flui muito
melhor; é possível discutir a obra em si, refletir sobre trechos etc. E faz parte
do seu compromisso consigo mesmo: se é para fazer algo por vontade
própria, faça de coração e respeite o tempo perdido. Além de que quando o
autor é meio obscuro (como no caso exemplo), quando as pessoas chegam
cruas seu parlatório se transforma numa aula. Isso acaba com o charme do
encontro.

2.3 Escolhendo uma data

Quando fazer seu parlatório é em primeiro momento uma questão


difícil. Acredito que os melhores horários são o fim da manhã (10-11h) e o
início da noite (18-19h), porque não comprometem tanto o horário das
pessoas interessadas. Não recomendo a sexta-feira, porque muitos retornam
à cidade onde vive a família. À parte isso, atente-se para as datas em que
ocorrem eventos, festas e mesmo a própria reunião da Academia de Letras;
ainda, para a rotina das pessoas que parecem interessadas.

É importante marcar com ao menos um mês de antecedência, para que


você e as pessoas tenham como se programar para o encontro.

Pessoalmente, marquei com um mês de antecedência quando já


concluíra o conteúdo per se. Mas isso é algo que depende da complexidade
de sua abordagem. Se na faculdade fazemos tantos seminários na véspera, é
plenamente possível preparar todo o material em um mês.

3. Divulgação

A propaganda é a alma do negócio. Sem uma divulgação eficiente,


ninguém saberá da existência de todo seu trabalho, do autor obscuro que
tanto queria apresentar ou da nova teoria sobre elementos interpretativos
que surgiu em algum rincão do Leste Europeu.
Enquanto escrevo este guia, o meio de comunicação mais presente é o
Facebook. Sugiro, portanto, criar um evento no face. Pense em uma imagem
representativa ou instigante e num nome representativo e digno de
bestseller.

Meu marketing quedou mais ou menos assim:

Escolhi o subtítulo a estética da encruzilhada porque a obra dele é


marcada por elementos aparentemente antitéticos que interagem entre si. O
estética enfatiza uma qualidade do autor, conhecido pela intensa dedicação à
estética de sua escrita. Mas o fundamental é ser instigante e sonoro, sua
propriedade como publicidade.

A partir daí, por meio de meu perfil e de Wallace O’Brian divulgamos


o evento. Divulguei em grupos de WhatsApp, nos grupos de estudo, na ALz,
entre amigos… Fiz com que o maior número possível de pessoas estivesse
ciente do evento. Não posso sequestrá-los do estágio, infelizmente. Como as
pessoas são ocupadas, promova a guerra total.

Ao mesmo tempo, não se culpe se seu parlatório estiver vazio. Essa


parte nunca depende exclusivamente de você.
4. Conclusão (ou não)

Não se intimide pelo processo de organizar seu parlatório. Este guia


pretende servir de referência, e nada mais. O processo não difere muito da
organização de outros eventos — não é fácil, apesar parecer muito mais
complexo que a realidade.

Desejo muito sucesso com seu parlatório. Além disso, pense como é
uma contribuição importante para o vigor da Academia de Letras e para
você.

PS: caso queira agradecer, sinta-se livre para me chamar para um


uísque ou algum lugar bacana.

Abraços,

Caio, ou Dib e/ou suas variações dialetais

Você também pode gostar