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1.

INTRODUÇÃO

O período que vai de 440 á 404 a.c, ou seja, 36 anos é conhecido como o “século de
Péricles”. Péricles era um homem de caráter forte, sóbrio, incorruptível e reservado, que
governou Atenas por 36 anos, representava o partido popular e era um ardoroso defensor
da democracia escravista.
Péricles era dotado de magníficas qualidades de espírito e isso lhe dava grande
autoridade sobre os atenienses que o idolatravam. Buscou garantir os direitos dos pobres,
dando a eles a oportunidade de comparecer as assembléias e tribunais. Sua administração
deu a Atenas grande esplendor sendo seu século conhecido como “século de ouro”. Foi no
século de ouro que nasceram: o grande historiador Heródoto, o filósofo Sócrates, o trágico
Sófocles e outros.
O objetivo político de Péricles era fazer de Atenas uma democracia ideal em que
houvesse equilíbrio entre os interesses do Estado e dos cidadãos. O grande líder pereceu
durante a guerra de Atenas com Esparta, acometido por uma terrível epidemia.
Péricles sucumbiu, mas, porém o seu governo deixou um grande legado no
desenvolvimento do teatro, medicina, na técnica e na educação.

2. A TRAGÉDIA: como instituição social

A tragédia é a origem do teatro considerado como gênero poético nascido dos


cultos religiosos a Dionísio, encenado em dois espaços: o palco onde ficam os atores; e o
coro em qual se encontra as pessoas que não são pessoas profissionais. Os atores falam em
prosa representando os heróis e heroínas, já o coro cantam em versos, narram e comentam
o que se passa no palco.
A tragédia é dotada de grande riqueza cultural com três aspectos importantíssimos:
a tragédia como instituição social, ou seja, uma instituição social e democrática; por ser
representado nas festas cívicas de Atenas, coro ser compostas de cidadãos, financiado pelo
governo e por ser uma reflexão do surgimento da democracia.
É nas tragédias teatrais que as noções de público e privado, ou seja, o conflito entre
duas leis: a lei de família, esfera privada, e as exigências da cidade, esfera pública, serão
tematizados, a expressão encontra-se em Sófocles, na tragédia Antígona.
Estabelece-se o conflito entre Antígona e Creonte, onde Antígona representa à
família e Creonte a cidade. Polinice, irmão de Creonte, é acusado por ele de traição
politica, eles lutavam em partidos contrários. Como traidor político, a lei não dá o direito
ao funeral e a sepultura, Antígona se atormenta isto explica o porquê na religiosidade
aristocrática, um guerreiro que morre em combate está prometido à imortalidade, para isso
o corpo precisa estar inviolado.
Antígona enfrenta então Creonte e realiza o funeral e enterra o irmão, por isso é
condenado à morte.
Então a tragédia narra o conflito entre as leis escritas da cidade, ou seja, a
contradição entre o público e o privado.
2.1 O herói e a heroína
O herói e a heroína representados pelas figuras trágicas: pela dor, pelo conflito
entre sua vontade e seu destino, suas ignorâncias e o cumprimento daquilo que fora
guardado pelos deuses. Suas dores são exprimidas nos cantos do coro por serem
representantes da culpa e da maldição, sem ao menos ter o conhecimento da causa e por
esse fato causam sua própria desgraça e os de quem os rodeiam. O fato é que eles dispõem
de sinas e indícios que poderia os ajudar na compreensão de tal, no entanto não conseguem
percebê-los e compreendê-los, por isso não se sabe quando estão na ignorância, onde não
sabem a vontade dos deuses, e nem quando é a própria vontade.
Então o desafio do herói e da heroína era de conseguir cumprir seu destino através
de suas ações e este herói e heroína representada no teatro possibilita o questionamento
entre os cidadãos, levando os a pensarem sobre suas vontades e as dos deuses.

3. A TÉCNICA

Para desfazer o poderio das famílias aristocratas, Sólon um dos sete sábios da
Grécia antiga, estimulou o desenvolvimento e o enriquecimento dos artesãos, patrocinando
as técnicas isto é, a criação e fabricação de máquinas para auxiliar o trabalhador. Clístenes,
um político grego antigo, que levou adiante a obra de Sólon também seguiu essa linha para
implantação da democracia.
As artes, tragédias, a poesia, a escultura, a arquitetura só florescem por haver uma
valorização dos ofícios e artesãos. Ao valorizar as técnicas desfaz-se o mito de que as
técnicas eram dadas pelos deuses, portanto a democracia humaniza as técnicas.
Os atenienses encaram as artes e os ofícios em certos aspectos: A técnica como um
saber adquirido pela experiência e prática e realizado por habilidade. A finalidade prática
encontra-se no objeto fabricado. O técnico trabalha com certo objetivo dando-lhe uma
nova forma, que é usada em favor dos homens.
A técnica toma a força humana, a força animal, os instrumentos de fabricação e
utensílios fabricados a partir do modelo do corpo humano. Enquanto os técnicos conhecem
bem os princípios de sua arte, porém possui um aspecto teórico que é transmitido por
aprendizagem. Por exemplo: um construtor que conhece a natureza, as causas e as formas
da arte de construir ou um médico que conhece a natureza, as coisas e as formas da saúde.
É neste contexto de saber construir como arte e usar a construção para o trabalho
que entra os conceitos de Lógos, Tékhne e Metis.
Uma análise feita por Cornelius Castoriadis, mostra os significados dos verbos
Lógos e Tékhne e Metis.
Lógos, pode não somente significar pensar e dizer como também escolher, separar.
Essa grande variação de sentido refere-se no que é definido ou determinado e ao que pode
estar agrupado. Isso mostra que os pensadores tinham suas ideias conforme a divisão em
contrario de todas as coisas.
Tékhen significa reunir, juntar, construir... Ou melhor, dizendo , para construir é
preciso conhecer e saber diferenciar os elementos de cada coisa, a fim de reunir o que se
concorda e o que discorda. Com essas duas traduções pode se dizer que cada técnica se
torna somática e complementar uma a outra.
Para os gregos, não se separa técnica das ideias, ou seja, o saber do fazer. Nesse
aspecto a técnica é certa habilidade para manusear a máquina. Assim a téken é a relação
entre técnica e habilidade engenhosa enquanto métis é a qualidade atribuída à deusa Metis,
uma inteligência pratica, um dom ou talento para encontrar solução onde parece não haver
solução.
Sendo assim, um ser que é dotado do dom da métis “deusa” possui ponto de vista,
discernimento, astúcia para dominar e ludibriar, é capaz de imitar e dissimular tem grande
capacidade de aprender e fazer analogias, tomar decisões e um grande senso de
oportunidade. Como afirma Chaui (2002): “oportunidade ou ocasião ou momento
oportuno se diz em grego Kairós, o tempo, o instante extremamente rápido, fugido e
imprevisível, decisivo numa ação”, pág. 145.
Neste contexto, uma pessoa dotada de métis possui o engenho e arte.

4. A ARTE MÉDICA

Chaui relata que a mediana merece uma atenção redobrada por possuir uma estreita
relação com a filosofia e por uma concepção pratica de saúde e doença, que envolve a
ligação do homem com a natureza e sociedade.
Para a referida autora alguns estudos da cultura grega delegam a Alcmeão de
Crotona a origem da medicina atribuindo a ela valores democráticos. Alcmeão atribui
causa naturais as doenças, negando assim que elas provenham dos deuses. Sendo
provimentos de causas naturais às doenças são possíveis de seres trabalhados. Segundo
Chaui (2002): ”o médico que conhecer a capacidade as qualidades do corpo humano
poderá curar as doenças se compreender o momento oportuno para realizar as
intervenções ou o tratamento”.
Ainda segundo a autora a medicina exerce sua relação com a filosofia por
intermédio das ideias de phýsis, êidos e dýnamis.
4.1 A idéia da phýsis, êidos e dýnamis
Como descreve Chaui (2002): “de acordo com o Corpus Hippocraticos, há a phýsis
universal ou a natureza, entendida como natureza comum a todos os seres, e há a phýsis
individual, ou a natureza de cada coisa, isto é sua constituição própria”.
Sendo assim tanto a universal como a individual podem ser conhecidas,
determinadas e definidas. Não se pode conhecer algo sem conhecer sua natureza.
A filosofia ensina que a phýsis é um principio de ordenação e isso influência nas
ideias sobre a saúde, sendo assim um médico deve saber as desordem das doenças (o que
vem do corpo e o que é da origem do corpo).
Enfim isso dará o conhecimento entre o normal e o patológico.
Nas idéias de êidos e dýnamos o médico ao examinar um paciente, deverá
considerar três importantes aspectos: O ocasional, ou seja, a aparência do doente; o típico,
isto é, os sintomas; e o especifico ou a generalidade da doença. Em linhas gerais o médico
ao deparar com um estado visível do paciente deve em seguida fazer uma comparação com
outros pacientes procurando fazer uma correspondência entre elas e atribuir ao paciente
uma doença conhecida; Neste contexto o médico só define a doença após uma análise por
meio de exames.
O médico deve lidar com: a brevidade da vida a lentidão da arte, a rapidez que
passa o instante, a inconstância e a dificuldade de julgar corretamente o diagnostico e
prognostico e terminar e iniciar a cura.
De acordo com o historiador da medicina antiga Pedro Laín Entralgo, pontos do
caminho hipocrático são:
1) Observação atenta da realidade
Fazer observações entre o corpo sadio e os corpos doentes;
2) Converter os dados observados em sinais indicativos do estado do corpo que o
apresenta. Usando a experiência para conduzir os sinais probatórios que caracteriza uma
doença.
3) Usar a imaginação de maneira cautelosa e sóbria. Aprender a fazer analogias
entre o que observa e a realidade.
4) Fazer algum experimento analógico.
5) Obtêm-se o diagnóstico a partir da observação analógica imaginativa, raciocínio
e experimentos e esperar a natureza seguir seu curso, auxiliar com a dieta, intervir no
corpo do paciente são os três tipos de cura.
Na medicina antiga tinha-se a ideia de que a causa da doença seria necessária. E o
médico nada poderia fazer senão aliviar o paciente.
No contexto do desenvolvimento da democracia e medicina começou-se a indagar
de que o médico deveria intervir para a cura com remédios, cirurgia, punção ou sangria.
Para melhor compreender a concepção da nova medicina é importante rever a
relação de corpo e alma neste contexto. No tratado de ventos, águas e lugres é possível
compreender a maneira que a medicina antiga concebe o homem, saúde e doença. Sendo
assim o médico deverá considerar as estações do ano, a posição dos astros, dos lugares, a
qualidade das águas, terras, os costumes, a alimentação, o vestuário exercidos, físicos e
psíquicos, como também as instituições religiosa e politica de cada paciente para definir
quais doença este estava propícios.
Para a medicina corpo e alma se relaciona surgindo assim diferentes
temperamentos. Temperamentos determinados por diferente variantes. Chaui destaca que
estes podem ser determinados pelo estado de cada genitor no momento da concepção e
todas as outras questões já abordadas como as estações do ano, conjugação astral, etc.
A medicina hipocrática busca assim estabelecer uma relação entre as doenças e
definir quais doenças era propicio a cada grupo de individuo e estabelecer uma ligação
entre o psicológico e as doenças.

5. A NOVA ARETÉ

Não somente na técnica, teatro e medicina que o século de Péricles trouxe grandes
desenvolvimento, a Educação também mudou muito neste período.
Até então a educação como formação cultural completa era a realização, em cada
um da excelência das qualidades físicas e psíquicas para o cumprimento dos valores da
sociedade. Alcançar a areté ou excelência das qualidades, era possuir um corpo perfeito e
ter coragem como virtude.
A sociedade aristocrata visava a formação do guerreiro belo, bom e perfeito de
corpo e alma. Esse ideal aristocrático via como inferior o trabalho manual, legando este as
escravos, considerava o tempo dispensado ao trabalho como perda de tempo e de saúde dos
que o exerciam. O membro da nobreza, guerreiro, belo e bom devia ser ocioso. Ele deveria
ser educado até a maturidade, entrando assim no primeiro combate em uma guerra. Seu
valor era exibido nos torneios olímpicos, religiosos e na guerra.
Em Atenas, numa sociedade urbana e democrática, a excelência das qualidades
físicas e psíquicas (areté), já não fazia mais sentido. A cidade precisava acima de tudo, de
bons cidadãos e não somente de bons guerreiros formosos. A formação do cidadão para um
estado era a importância para uma nova areté. A virtude cívica, o respeito pelas leis era o
que mais importava nesse momento.
O principal instrumento para a realização da virtude cívica era a palavra, pois é com
ela que o cidadão participava na praça do mercado, se informa dos acontecimentos, ouve e
discute para formar sua própria opinião. O ideal agora é o bom orador.
Os atenienses não desprezavam os conhecimentos como os aristocratas, não fazem
do gosto pela beleza motivo de ostentação, como a aristocracia. Como julgam nocivos não
é participar das assembleias, não fala e não escutar, não debater as opiniões para ter
informações seguras no momento de decidir (votar). Sendo assim o próprio Péricles
afirma: “somos a escola de Hélade inteira”, fazendo dos atenienses os formadores de todos
os helenos.

6. CONCLUSÃO

Mediante o relatado por Marilene Chaui, somente foi possível o esplendor do


governo de Péricles, porque anteriormente havia na Grécia um novo alvorecer filosófico,
ou seja, uma nova forma de enxergar a formação de sociedade, o sistema de governo e
homem.
Péricles era o cidadão preparado para implantar a nova filosofia de governar e com
isso conseguiu ser amado e realizar grandes obras que ficaram para a história da
humanidade.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

• CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia. 2ª edição São Paulo.

Companhia das letras, 2002

• O período clássico na Grécia antiga. Disponível em

http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=27. Acesso dia 12 de março

de 2011.