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GB Gregio. VIII CIH.

2957 - 2963

A REVOLUÇÃO MODERNISTA NAS ARTES E NO CINEMA


MODERNO BRASILEIRO
Doi: 10.4025/8cih.pphuem.4059

Gustavo Batista Gregio, UEM

Resumo

O Modernismo se caracterizou como um importante movimento


de ruptura nas manifestações artísticas no início do século XX no Brasil.
Influenciado pelos movimentos de vanguardas da Europa, como o cubismo,
expressionismo, futurismo, por exemplo. Transformou as linguagens
artísticas, tanto literárias, como imagéticas. Modificando o olhar dos artistas
e intelectuais acerca da realidade sociocultural do país. Revelando a
necessidade de renovação e abrindo caminho para novos estilos e técnicas,
como para novas temáticas e enfoques. A produção modernista rompeu
com os patrões de representação tradicional e com os modelos normativos
e conservadores da academia. Os modernistas ao revolucionarem a
produção cultural no Brasil tornaram-se fonte de inspiração para o
Palavras Chave:
surgimento de novos movimentos. É possível evidenciar que a produção
Modernismo; Artes;
cinematográfica com o surgimento do cinema moderno, representado pelo
Cinema Moderno;
movimento do Cinema Novo, se orientou em preceitos dos modernistas
História.
para romperem com os modelos e padrões da produção fílmica, buscando
representar novas temáticas, voltadas, sobretudo, a questões nacionais e
populares, explorando novas formas de narrativa e de estética. Nesse
sentido, o objetivo central do trabalho é demonstrar como o Modernismo
renovou as produções artísticas no Brasil na década de 1920 e qual seu
diálogo com a produção cinematográfica do Cinema Novo na década de
1960. Para tanto, é necessário ressaltar que o Modernismo e a Semana de
Arte Moderna de 1922, como o cinema moderno, surgiram como
movimentos de reinvindicação de uma produção nacional em pleno cenário
de dependência cultural.
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contradições do movimento é que para


O modernismo nas manifestações
romper com os códigos estrangeiros
artísticas dominantes, eles também buscaram na
Europa, novas e modernas técnicas de
O Movimento Modernista surgiu
produção, pois naquele contexto
no início do século XX no Brasil, em meio
histórico, o Brasil simplesmente não
a uma grande dependência cultural que o
oferecia as condições necessárias de
país trazia dos modelos advindos dos
renovação, com princípios arcaicos
países europeus desde sua colonização.
dominando desde a sociedade, até as artes
Embora, tenha adquirido sua
em todos os níveis.
independência política da coroa
portuguesa em 1822, permaneceu Incumbiu aos filhos da
culturalmente dependente, seguindo aristocracia rural e da burguesia urbana,
modelos estrangeiros, principalmente de que estavam acostumados a estudarem na
Portugal, até o início do século XX. Toda Europa criarem essa renovação. Nesse
essa estrutura de dependência cultural sentido, o Modernismo foi na
ocorreu a partir do processo de formação compreensão de Johnson (1982), uma
do Brasil, que foi dominado revolta aristocrática inicialmente baseada
economicamente e politicamente por na técnica literária moderna trazida da
nações europeias durante séculos. Europa por jovens artistas ligados a esses
segmentos sociais.
Foi contra esses paradigmas que
tanto o Modernismo e a Semana de Arte Na literatura, Mário de Andrade
Moderna de 1922, como o cinema e Oswald de Andrade são considerado os
moderno, surgiram. Ambos se pioneiros do modernismo no país. Mário
estruturaram como fortes movimentos de de Andrade elaborou inúmeras reflexões e
reinvindicação de uma cultura e identidade críticas, as quais atacavam e questionavam
nacional. principalmente os poetas inseridos no
movimento parnasiano, considerados
Desde as décadas finais do
ultrapassados pelo movimento. Nas artes
século XIX, até aproximadamente o ano
plásticas, Anita Malfatti, Di Cavalcanti,
de 1920, que a literatura brasileira era
Victor Brecheret, Antonio Gomide,
influenciada diretamente pelos discursos
Vicente do Rego Monteiro, Ismael Nery,
acadêmicos importados da Europa. A
Lasar Segall e Flávio de Carvalho foram
literatura foi oficializada e codificada de
alguns dos artistas que constituíram o
acordo com normas que refletiam a
primeiro grupo da mostra que reuniu
arcaica estrutura de classes da sociedade
obras do Modernismo no Brasil.
brasileira, sendo privilégio da elite
intelectual aristocrática. Segall foi o primeiro pintor na
cidade de São Paulo a expor pinturas
A forma poética metrificada era
expressionistas no ano de 1913. No
extremamente valorizada, tornando a
entanto, a artista que gerou maior
poesia estática em termos de conteúdo.
polêmica no meio artístico e intelectual foi
Johnson (1982) explica que o impulso
a paulista Anita Malfatti, por apresentar
inicial do movimento foi de reação contra
uma postura estética que superava as
essa estrutura estética, especialmente
características formais da arte acadêmica,
contra "a linguagem bacharelesca, artificial
influenciada principalmente pelo cubismo,
e idealizante" do parnasianismo. Numa
expressionismo e pós-impressionismo,
tentativa de romper com esses modelos,
despertou a fúria dos críticos.
os modernistas usaram o blague, as sátiras
e outras formas de humor. Em outras Malfatti apresentou duas
palavras, eles carnavalizaram a literatura. exposições individuais, uma no ano de
1914, ao voltar da Europa, onde estudou
No entanto, uma das ironias e
na Escola de Belas Artes de Berlim, sob a

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influência do expressionismo alemão, Para os intelectuais e artistas


exibindo suas obras na Casa Mappin ligados ao movimento, era preciso
Stores de São Paulo. Contudo, esta repensar a história, a produção artística e
exposição causou pouco impacto nos literária no país, construindo,
círculos artísticos brasileiros. especialmente, uma visão e uma
linguagem deslocada das representações
Sua segunda exposição em 1917,
clássicas e descolonizada da linguagem
onde apresentou O Homem Amarelo, a
Estudante Russa, A Mulher de Cabelos Verdes, portuguesa.
A Índia, A Boba, O Japonês, entre outras, Os membros do movimento se
causou um pequeno escândalo, orientavam por caminhos e experiências
principalmente devido à publicação do diversas, passando pelo impressionismo,
artigo de Monteiro Lobato, A Propósito da expressionismo, cubismo, simbolismo,
Exposição Malfatti, em 20 de dezembro de surrealismo, entre outras vanguardas. Di
1917. Lobato atacava severamente a Cavalcanti e Tarsila do Amaral, por
artista, desqualificando sua produção. Tais exemplo, são alguns dos artistas plásticos
declarações motivaram Oswald de que tiveram uma busca incessante pelo
Andrade e inúmeros artistas a saírem em moderno.
sua defesa. Após 1922, os modernistas
Na perspectiva de Lobato, buscavam efetivamente criar uma arte e
existiam duas espécies de artistas, os uma cultura nacional, em uma constante
grandes gênios e mestres que ao busca pela brasilidade. Vários manifestos
observarem determinado contexto faziam foram criados, entre eles o Manifesto
arte pura, como Praxíteles na Grécia, Antropofágico escrito por Oswald de
Rafael na Itália, Rembrandt na Holanda Andrade, que deu origem ao movimento
entre outros. E a outra espécie, da qual Antropofágico. Que tinha por objetivo
Malfatti fazia parte. teórico a deglutição da cultura do outro
externo, como a europeia e, do outro
A outra espécie é formada pelos que interno, a cultura dos ameríndios, dos
vêem anormalmente a natureza, e afrodescendentes, dos descentes
interpretam-na à luz de teorias
efêmeras, sob a sugestão estrábica
europeus, orientais, ou seja, alegavam que
de escolas rebeldes, surgidas cá e lá não se deve negar a cultura estrangeira,
como furúnculos da cultura mas ela não deve ser imitada.
excessiva. São produtos de cansaço Embora, o movimento não
e do sadismo de todos os períodos tivesse um efeito político real, era o
de decadência: são frutos de fins de
precursor de um estado de espírito
estação, bichados ao nascedouro.
Estrelas cadentes, brilham um
nacional. Mário de Andrade reconheceu a
instante, as mais das vezes com a luz influência dos modelos europeus e o fato
de escândalo, e somem-se logo nas de o espírito modernista ter sido
trevas do esquecimento (LOBATO, importado diretamente da Europa.
1917, p. 04). Contudo, o modernismo deve ser
encarado como "uma ruptura, um
Porém, o ato de maior confronto abandono de princípios e de técnicas
e escândalo gerado pelo movimento consequentes, sendo uma revolta contra o
eclodiu na noite de 13 de fevereiro de que era a inteligência nacional”
1922, no Teatro Municipal de São Paulo. (JOHNSON, 1982, p. 54).
Quando foi inaugurada a Semana de Arte
Moderna, em uma atmosfera de Modernismo no cinema
irreverência e inquietação, a Semana
destacou, sobretudo, o lado provocador e Mais de três décadas separam o
rebelde dos modernistas. modernismo da produção cinematográfica

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moderna. Cabe ressaltar, que no contexto explorando novas formas de narrativa e de


histórico em que eclodiram os estética. O movimento foi fundado por
modernistas, o cinema no Brasil ainda era jovens intelectuais que se conheceram em
uma atividade iniciante, sem uma tradição cineclubes e na cinemateca do Museu de
ou padrões dominantes ao qual romper, Arte Moderna do Rio de Janeiro. Tinham
ficando de fora dos preceitos do como característica inicial, uma produção
movimento. voltada para películas independentes e de
baixo custo e o interesse pela contribuição
Historicamente, o cinema
que o cinema poderia oferecer ao
moderno surgiu em um contexto em que
desenvolvimento do Brasil. Através da
o mercado interno era dominado por
adoção de temas nacionais, buscavam
filmes estrangeiros, principalmente de
construir uma visão engajada da realidade,
películas hollywoodianos. Assim como o
criando uma linguagem cinematográfica
modernismo, o Cinema Novo também
descolonizada da produção
revela sua preocupação em combater
hollywoodiana.
diretamente à dominação da cultura
nacional por modelos estrangeiros, que O cinema novo foi popular no
resultava na alienação do povo brasileiro a sentido de haver tomado como seu
sua própria realidade. assunto principal os problemas do
povo brasileiro, o que significava,
Ambos os movimentos foram inicialmente, os setores
reações contra o código dominante marginalizados da sociedade,
nas suas respectivas áreas de favelados, pescadores pobres e
significação [...] Os dois campesinos que viviam na miséria
movimentos baseavam-se na do nordeste brasileiro (JOHNSON,
tentativa de descolonização da 1982, p. 77).
cultura brasileira através da adoção
de uma posição de nacionalismo A partir dessa produção
crítico. Os cinemanovistas independente, os cinemanovistas
reconhecem a importância do buscavam romper com o tipo de produção
modernismo para o existente no país. Uma produção
desenvolvimento de tal posição desligada, no sentido crítico da realidade
(JOHNSON, 1982, p. 89). brasileira. Preocupada principalmente
A conjuntura de formação do com a comercialização de filmes baseada
cinema moderna é marcada pela expansão na “imitação” dos modelos de Hollywood.
econômica baseada no investimento de Os cineastas e diretores
capital estrangeiro influenciado pela membros do movimento viram uma nova
ideologia do ISEB (Instituto Superior de possibilidade de fazer cinema e um novo
Estudos Brasileiro), pela agitação política meio de contribuir para a resolução de
(apesar de certa estabilidade relativa à alguns dos problemas enfrentados pelo
administração do presidente Juscelino subdesenvolvimento do país. Em outras
Kubitschek), por sentimentos palavras, viram o cinema como um
nacionalistas extremos e por uma mecanismo de engajamento político e
crescente polarização de forças políticas. social. O impulso inicial do movimento,
As produções fílmicas modernas em contraste com a produção da época,
buscavam representar temáticas voltadas a era retratar e registrar criticamente a
questões nacionais e populares, realidade nacional. A doação da politique des
auteurs1 e do Neorrealismo italiano2 foi crucial

cinema da revista Cahiers du Cinéma. Tendo como


1 Politique des auteurs foi um movimento
principal representante François Truffaut.
cinematográfico teórico crítico desenvolvido na
década de 1950, na França, por jovens teóricos do 2O movimento surgiu na Itália logo após o final
da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Ao

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para o desenvolvimento do grupo, pois lhe dos principais desafios enfrentados por
deram a liberdade de fazer filmes como estes movimentos, em especial, pelo
pensavam que deveriam ser feitos. cinema, foi à dificuldade de romper a
natureza homogênea da relação
O cinema novo descreveu, artista/espectador e alcançar, desse modo,
poetizou, discursou, exercitou os os segmentos mais populares.
temas da fome: personagens
comendo terra, personagens Os artistas deveriam assumir o
comendo raízes, personagens compromisso do lado moderno do
roubando para comer, personagens cinema que seria a possibilidade de
matando para comer, personagens se comunicar com a massa e esta
feios, sujos, descarnados, morando posição implicaria ao mesmo tempo
em casas sujas, feias, escuras levar em conta todos os valores
(MARTINS, 2004, p. 01). culturais, sociais e políticos que
Foi a partir da passam ser transmitidos por esta
forma de comunicação (MARTINS,
representação da miséria que o 2004, p. 04).
movimento encontrou sua grandeza,
conseguindo comunicar ao mundo às Entretanto, com o golpe militar
mazelas que assolavam o Brasil. A que depôs João Goulart em abril de 1964,
despeito dessa celeuma, podemos os rumos da produção cultural são
esclarecer que diferente do movimento alterados. A repressão e o controle
modernista que evoluiu durante sua autoritário do Estado retirou a liberdade
trajetória para uma posição de de produção, desarraigando a democracia
nacionalismo cultural. Os cinemanovistas do país. Compete destacar que na área
vão assumir tal posicionalmente como um econômico também iniciou-se um
primeiro passo necessário à processo de modernização, com a
descolonização da produção fílmica. Os abertura dos mercados nacionais aos
cinemanovistas, distintamente da fase investimentos e produtos estrangeiros,
inicial da produção modernista, basearam- bem como, a expansão da indústria e do
se na consciência do subdesenvolvimento mercado cultural.
nacional, adotando elementos da realidade Assim, os anos de 1960
e da cultura popular como parte marcaram profundas transformações
primordial da representação em suas
políticas, sociais e culturais no país. O
narrativas audiovisuais. golpe militar encerrou inúmeras revoltas
Ao assumirem tal advindas de setores, movimentos e de
posicionamento, estavam adquirindo intelectuais insatisfeitos com a realidade
consciência crítica da real situação do país, sociopolítica nacional.
numa tentativa conjunta, tanto de
representar tais dilemas, como de buscar A censura manifestou-se após 1965
por possíveis soluções. Essa produção e, a partir de então, filmes sofreram
mutilações parciais ou suspensões;
engajada foi desenvolvida principalmente grupos de extrema direita invadiram
por membros da classe média e média-alta, teatros, onde peças e musicais
envolvidos nos movimentos "populares" estavam sendo encenados, com o
de teatro, música popular e cinema. Um intento de espancar o público e os

contrário das produções fílmicas da época, o nos anos 60 com o fenômeno dos “Cinemas
neorrealismo buscou representar em suas Novos”, na Itália, na Espanha, na França, no
narrativas a realidade social de sua época. Brasil e em muitos outros países. E acima de tudo
Estudiosos afirmam que o filme Roma, città aperta virou um dos modelos de diálogo, aproximação,
(ROSSELLINI, 1945), foi à primeira obra do contestação dentro da cinematografia mundial
movimento. “O neorrealismo é a ruptura mais depois da Segunda Guerra Mundial”
importante que aconteceu dentro do cinema no (HIDALGO, 2016, p. 21).
século XX, e preparou o terreno para o que viria

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atores, diretores, iluminadores, música popular e o teatro daquele período.


entre outros profissionais;
(PELEGRINI, 2015, p. 69). O diálogo com o modernismo
não se fez apenas presente nas adaptações
Politicamente, o Ato fílmicas, como em Vidas Secas (Santos,
Institucional n° 5 (AI-5) promulgado pelo 1963), Porto das Caixas (Saraceni, 1963), O
Estado militar em dezembro de 1968, padre e a moça (Andrade, 1965), Menino de
endureceu o regime, contribuindo para o Engenho (Lima Jr. 1965), A hora e a vez de
aumento das ações repressoras e de Augusto Matraga (Santos, 1965), Macunaíma
censura do Estado, “legitimando” a (Andrade, 1969), entre outros. O
tortura, os assassinatos e as perseguições modernismo expressou uma conexão
tanto de civis, como de artistas e profunda, que fez do Cinema Novo, no
intelectuais de esquerda. Gregio (2014) próprio impulso de sua militância política,
destaca que tais ações eram justificadas trazer para o debate certos temas de uma
pelo governo visto a necessidade de se ciência social brasileira, ligados a questões
restabelecer a ordem democrática no país. da identidade e às interpretações
Além de tais medidas, o Ato conferiu ao conflitantes do Brasil em sua formação
Presidente o poder de decretar o estado de social.
sítio, como também, o confisco de bens de
Intelectuais como Glauber
indivíduos e a suspensão do habeas corpus
em caso de crime político, crime contra a Rocha, Ruy Guerra e Joaquim Pedro de
Andrade tiveram grande importância na
segurança nacional, a ordem econômica e
social. O AI-5 também passou a consolidação do movimento. Sendo que
esse último adaptou e dirigiu o filme
estabelecer censuras aos meios de
Macunaíma (1969), o qual é considerado a
comunicação.
grande obra audiovisual modernista,
Apesar dos anos sessenta terem responsável pelo apogeu do movimento,
se tornado um contexto extremamente tido como o primeiro filme genuinamente
desfavorável para produzir obras de popular do Cinema Novo.
cunho nacionalista e popular, os
Se o modernismo surgiu na
cinemanovistas, assim como outros
artistas, tentaram continuar produzindo. década de 1920 rompendo com os
padrões e normas das artes tradicionais,
No entanto, numa tentativa de driblar os
questionando o colonialismo da cultura
mecanismos de censura e de repressão,
brasileira e evoluindo inicialmente de um
passaram a desenvolver suas obras a partir
de metáforas. Incorporando fábulas e movimento baseado essencialmente no
irracional, em oposição à racionalidade da
alegorias, deixando de lado uma
representação que dialogasse de forma poesia parnasiana, para o racional, o
neorrealismo dos anos 1930. O Cinema
mais próxima da realidade. Nos anos finais
de 1960, o cinema, como também, o teatro Novo caminhou em direção oposta.
Começou com uma "vocação realista"
e a música, redescobriram no
frustrada, por circunstâncias que estavam
Tropicalismo as reflexões produzidas pelo
fora do controle dos cineastas e que mais
movimento Modernista e pelo movimento
Antropofágico, ao reivindicavam uma tarde, transformou-se em um registro
alegórica, às vezes hermética, chamada
cultura autenticamente nacional.
segundo Carlos Diegues de "estética do
O Cinema Novo ao conduzir silêncio".
suas produções a partir dessa nova
estética, alteraram substancialmente o Nós fizemos uma espécie de cinema
estatuto do cineasta no interior da cultura de silêncio, uma espécie de estética
nacional, promovendo um diálogo de de silêncio, mas nós não
pensávamos que isso funcionasse
maior profundidade com o Modernismo,
como álibi. Nós transformamos
e com os movimentos que marcaram a isso em linguagem, uma linguagem

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alegórica, fabulesca, fantasia. Eu europeus ou estadunidenses. Preocupados


acho, por exemplo, sem falsa não apenas com uma renovação estética e
modéstia nenhuma, que nós fomos o desejo de romper com a dominação
no cinema novo brasileiro os estrangeira, mas, sobretudo, com a busca
precursores desse realismo mágico em representar a cultura popular, o povo
que tanto falam hoje na literatura
latino-americana e que realmente é
brasileiro, com suas mazelas e
muito importante. Já está no cinema peculiaridades. O modernismo buscou
novo há muito tempo, e este inspiração nos modelos vanguardistas
realismo mágico também fez parte para criar uma nova representação na
dessa estética do cinema novo literatura como nas artes plásticas, e por
(DIEGUES, 1976)3. sua vez, o cinema voltou-se as
modernistas para criar um novo retrato
Johnson (1982) enfatiza que essa moderno do Brasil, também no cinema.
posição foi, em certo sentido, uma
radicalização do desejo de criar uma Referências
linguagem cinematográfica descolonizada,
bem como, um escape agressivo às GREGIO, Gustavo Batista. A Comédia em
frustrações causadas pelo sistema político tempos de Dramas: A produção do riso no
repressivo e ditatorial. Em sua nova cinema brasileiro (1970-1980). Maringá, 2014.
posição "mágica", os cineastas se voltaram Dissertação (Mestrado em História) -
Universidade Estadual de Maringá, 2014.
ao Modernismo para obter uma saída.
Esteticamente, Macunaíma é o exemplo HIDALGO, João Eduardo. O neorrealismo
cinematográfico italiano. Revista Unesp
principal, porém não o único, da adoção Ciência, n. 80, 2016.
da antropofagia como resposta aos
problemas enfrentados no final da década JOHNSON, Randal. Literatura e Cinema.
Macunaíma: do modernismo na literatura ao
de 1960 no Brasil. cinema novo. São Paulo: T. A. Queiroz, 1982.
Os cinemanovistas, assim como _________________. Ascensão e queda do
os modernistas, ao adquirirem consciência cinema brasileiro, 1960-1990. Dossiê Cinema
crítica acerca da realidade sociocultural do Brasileiro. São Paulo: Revista USP, n. 19, p. 31-
país romperam com paradigmas e criaram 49, 1993.
uma linguagem única e complexa da LOBATO, Monteiro. A Propósito da Exposição
cultura popular e do nacionalismo, Malfatti. In. O Estado de São Paulo,
conseguindo articular modernização com 22/12/1917.
revolução. MARTINS, Ana Lúcia Lucas. Joaquim Pedro de
Andrade, Macunaíma e a Indústria Cultural.
É possível concluir que ambos os Achegas, Revista de Ciência Política, n. 15, 2004.
movimentos buscaram pelo que era PELEGRINI, Sandra de C. A. Autoritarismo
verdadeiramente nacional, na tentativa de versus liberdade de expressão: o teatro brasileiro
criar uma linguagem genuinamente dribla a censura com perspicácia. Revista
brasileira, se diferenciando dos modelos Antíteses, v. 8, n. 15, p. 67-90, 2015.

3Entrevista concedida a TV Cultura no ano de


1976.

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