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SISTEMAS OU COMPONENTES DA LINGUAGEM

Falaremos agora dos quatro sistemas ou componentes que envolvem o


processo de aquisição da linguagem:
• O pragmático, que se refere ao uso comunicativo da linguagem num
contexto social;
• O fonológico, envolvendo a percepção e a produção de sons para
formar palavras;
• O semântico, respeitando as palavras e seu significado; e
• O gramatical, compreendendo as regras sintáticas e morfológicas para
combinar palavras em frases compreensíveis.
Law (2001, p. 2), entre outros autores, acrescenta a esses componentes a
prosódia e a morfologia, porém, a morfologia estaria dentro do sistema gramatical.

Pragmática

Acosta et al. (2003, p. 33-36) cita que o estudo do funcionamento da


linguagem em contexto social, situacional e comunicativo é a pragmática, ou seja, a
pragmática “trata do conjunto de regras que explicam ou regulam o uso intencional
da linguagem...” e na “linguagem infantil, o estudo da pragmático se encontra, pelo
menos em dois aspectos: funções comunicativas e conversação.” Bishop e Mogford
(2002) complementam que pragmática poderia ser definida “...como a correta
utilização da Língua em diferentes contextos.” A intencionalidade, o uso da
linguagem – pragmática – “ocupa-se das intenções comunicativas do falante e da
utilização que faz da linguagem para realizar essas intenções.”
Ao estudo dos usos e funções linguísticas: ocupa-se também dos aspectos
formais que definem os ajustes motivados pelo contexto de comunicação e das
variações que implicam o uso da linguagem em função das características do
interlocutor e da situação. (BISHOP; MOGFORD, 2002).
Avaliar a pragmática é avaliar as funções comunicativas da criança.
Acosta et al. (2003, p. 36) afirma que “as funções comunicativas são unidades
abstratas e amplas que refletem a intencionalidade comunicativa do falante.” Várias

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classificações sobre a aquisição de funções comunicativas foram realizadas, porém,
a mais conhecida e utilizada é a de Halliday (1975) adotada por Acosta et al. (2003)
e Zorzi e Hage (2004). Distribui as funções em três fases que veremos a seguir.
Fase I (10-18 meses): segundo os autores, nesta fase podem ser distinguidas
até sete funções distintas:
· Instrumental: quando a criança utiliza a linguagem como meio para que o
que ela quer se realize; utiliza a linguagem para satisfazer suas necessidades
materiais. Exemplo de quando a criança quer algum objeto;
• Reguladora/regulatória1: a linguagem é utilizada como instrumento de
controle, para modificar ou regular o comportamento dos outros; a linguagem é
dirigida para alguém em particular, como se a criança estivesse pedindo alguma
coisa por meio de alguns sons e gestos, exemplo: “vamos passear”;
• Interativa/interacional2: a linguagem é usada como meio para
relacionar- se, interagir com os demais. Expressões e gestos que são utilizados
geralmente representam cumprimentos “oi”, “tchau”;
• Pessoal: uso da linguagem para manifestar individualidade, sentimentos
pessoais em relação às pessoas ou ao ambiente. Vocalizações ou gestos que
representam prazer, interesse, contrariedade, retraimento, etc.;
• Heurística3: esta função é utilizada para investigar, explorar o ambiente,
tentando descobrir as coisas, nomes, objetos. Nesta fase a criança começa a usar
expressões muito próximas do padrão do adulto;
• Imaginativa: uso da linguagem de forma lúdica; a criança cria um
mundo próprio. Para Zorzi e Hage (2004, p. 19) essa função “é identificada quando
observamos uma criança, por exemplo, emitindo sequências de sons que parece
representar um ‘falar consigo mesma’...”. No início utiliza apenas sons que aos
poucos vai se constituindo de pequenos relatos de estórias ou fantasias;
• Ritual: para Acosta et al. (2003, p. 37) é a “linguagem das boas
maneiras.”

Fase II (18-24 meses): inicia o desenvolvimento da estrutura gramatical e do


diálogo. É um período de transição em que se observam três funções principais:
Pragmática: “linguagem como ação” – vem das funções instrumental e

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reguladora; a linguagem serve para participar, interferir nas situações, facilita o
desenvolvimento da sintaxe;
Matética: “linguagem como aprendizagem – vem das funções pessoal e
heurística. Para Zorzi e Hage (2004, p. 20).

Serve para codificar a experiência da criança como observadora dos objetos,


pessoas e ações que vê no mundo, contribuindo no aprendizado dela em relação ao
seu ambiente. Facilita o desenvolvimento do vocabulário.

• Informativa: a criança faz uso da linguagem para transmitir uma


informação; se expressa por meio de frases.

Fase III (a partir dos 24 meses): a fala da criança passa a ser plurifuncional
(uma frase pode ter mais de uma função), uso do sistema de fala do adulto. Nesta
fase observam-se duas funções básicas, podendo se manifestar uma terceira
função.
• Ideacional: vem da função matética da fase anterior, a linguagem é
usada como meio para falar sobre o mundo real;
• Interpessoal: a linguagem é utilizada como meio para participar da
situação de fala, vem da função pragmática;
• Textual: para Acosta et al. (2003, p. 38), nesta fase “os significados são
codificados em palavras e frases...”.

Neste estágio, é observado o início do desenvolvimento da estrutura


gramatical e do diálogo.

Em relação à conversação, Acosta et al. (2003, p. 39) afirma que: Pode ser
entendida como uma sequência de atos de falta ou como o resultado do intercâmbio
comunicativo, entre dois ou mais interlocutores, inscrita num contexto social e
executada aplicando certas habilidades específicas, isto é, a competência
comunicativa.
Três aspectos estão estreitamente relacionados:

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✓ Organização formal das conversações: respeito aos turnos
comunicativos, a criança deve aprender o papel de emissor e ouvinte;
✓ Desenvolvimento da capacidade para manter o significado:
manutenção do tema da conversa;
✓ Capacidade da criança para se adaptar aos participantes, papéis e
situações: os interlocutores devem se adaptar tanto ao ponto de vista
de quem está falando como às exigências da situação.

Para funcionar como comunicadora, a criança deve dominar os recursos


dêiticos.

Fonologia

Para Mota (2004, p. 786) “a fonologia é a parte da linguagem que se refere ao


modo como os sons se organizam e funcionam nas diferentes línguas.” Bishop e
Mogford (2002) complementam que fonologia “É o estudo dos padrões sonoros da
Língua, deve ser diferenciada da fonética, que se preocupa com a especificação
articulatória e acústica dos sons da fala.”
Se a criança apresenta uma alteração que envolve aspectos fonológicos (a
organização do sistema de sons), é uma alteração na linguagem. As alterações
fonológicas são chamadas de desvio fonológico evolutivo, distúrbio fonológico e
transtorno fonológico. O desenvolvimento do inventário fonético e as regras
fonológicas – aquisição do sistema fonológico – ocorrem até os sete anos, de
maneira gradativa e contínua (WERTZNER, 2004).
Ingram citado por Acosta et al. (2003, p. 57) afirma que: A criança, diante da
tarefa de adquirir os sons do sistema adulto cria determinadas estruturas
(intervenção da função assimilativa). À medida que conhece melhor o sistema, vai
modificando-as (função acomodativa) com a finalidade de que se pareçam mais com
o sistema adulto apresentado. A princípio, a criança pode dar estruturas novas às
palavras mediante o padrão básico CV (consoante, vogal); todas as novas palavras
serão assimiladas a esse padrão, e, à medida que for progredindo na aprendizagem
de palavras adultas, pode modificar o padrão anterior e adquirir outro novo, como o
CVC (consoante, vogal, consoante), para acomodar-se a essas novas palavras.

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Com o tempo, a criança vai estruturando e consolidando seu próprio sistema
fonológico, com o objetivo de chegar ao modelo do adulto.
A maioria dos autores que estudam o desenvolvimento fonológico admite a
“hipótese da continuidade entre o período do balbucio e o da fala com significado.”
(ACOSTA et al., 2003, p. 63). Este processo começaria desde o nascimento e
continua progressiva e gradualmente até aproximadamente a idade de quatro anos,
nesta idade a maioria dos sons surgem discriminados em palavras simples.
Conforme podemos observar no quadro abaixo, é esperado aos quatros anos,
com a supressão da maioria dos processos de simplificação da fala, a aquisição da
maioria dos sons da sua língua e do sistema fonológico de contraste. Entre quatro e
sete anos, a criança domina os sons mais difíceis, e a partir dos sete produz um
desenvolvimento das habilidades morfofonemáticas e das envolvidas na
aprendizagem da leitura e escrita.
TABELA

ETAPAS FONOLÓGICAS
1) Vocalização pré-linguística e percepção (0-1).
2) Fonologia das primeiras 50 palavras (1-1,6).
3) Fonologia de morfemas simples – expansão do repertório de sons da fala.
Processos fonológicos que determinam produções incorretas. Estas
predominam até os quatro anos, idade em que a maioria das palavras simples
são corretas.
4) Culminação do repertório fonético. Aquisição de sons
problemáticos ao nível produtivo aos sete anos. Produções corretas
de palavras simples. Começo do uso de palavras mais longas.
5) Desenvolvimento morfofonemático. Aprendizagem de uma estrutura
derivacional mais elaborada. Aquisição das regras morfofonemáticas da
linguagem.
6) Habilidade para soletrar.
FONTE: Ingram apud Acosta et al. (2003, p. 65).
Nos aspectos do desenvolvimento fonológico, é importante observar o
domínio dos fonemas, domínio dos encontros consonantais e produtividade dos

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processos fonológicos de acordo com a idade (dados colhidos por
WERTZNER,1992).

FIGURA - PRODUTIVIDADE DOS PROCESSOS FONOLÓGICOS

FONTE: Wertzner (2000, p. 15).

DOMÍNIO DOS FONEMAS

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FONTE: Wertzner (2000, p. 15).

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DOMÍNIO DOS ENCONTROS CONSONANTAIS

FONTE: Wertzner (2000, p. 15).

Semântica

O ramo da linguística que se ocupa com o estudo do significado da linguagem


é a semântica (BISHOP E MOGFORD, 2002). Acosta et al. (2003, p. 87) apresentam
a semântica como sendo “a dimensão que abrange o conteúdo da linguagem e
representa o estudo do significado das palavras e combinações de palavras”. O
estudo, a análise e a avaliação da semântica devem ser abordados a partir da
compreensão e a produção – vocabulário expressivo e compreensivo.
Os autores salientam que em relação à compreensão, a semântica está
relacionada a conhecer e reconhecer palavras, frases, evocação dos objetos, atos e
relações que representam.
Já no plano da produção, o conteúdo da linguagem é expresso mediante
elementos formais: seleção de palavras adequadas para referir-se a pessoas,

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animais, objetos e ações, entonação pertinente e organização adequada dos
elementos na frase para expressar ideias, conceitos, sentimentos, sensações, etc.
(ACOSTA et al., 2003, p. 90-91).
Padrões evolutivos do desenvolvimento semântico são difíceis de serem
apresentados, pois, sua evolução depende de tal número de variáveis que não
permitem estabelecer um desenvolvimento típico para cada idade, porém, os autores
apresentam algumas características cronológicas destacadas por alguns autores,
trago aqui o apresentado por Monfort e Juárez (1989) em relação ao nível de
compreensão:

TABELA

IDADE O QUE É ESPERADO QUANTO AO NÍVEL


DE COMPREENSÃO
12 meses A criança entende mais ou menos três
palavras diferentes.
12 e 18/20 meses Há um registro mais lento e a quantidade
anterior aumenta até vinte palavras.

24 meses O aumento é muito mais rápido e a criança


costuma entender mais de cem palavras.
36 meses A cada dia surgem palavras novas,
coincidindo com maior uso da linguagem.
Quatro anos O crescimento se acentua, a criança
começa a brincar com a linguagem e
formula numerosas perguntas, incorpora
novos traços de significado às primeiras
palavras conhecidas.
Cinco anos A média de palavras compreendidas oscila
entre 2.000 e 2.200.
Seis anos Compreende em média 3.000 palavras.
FONTE: Acosta et al. (2003, p. 97).

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Em relação à produção, Rondal (1980) apud Acosta et al. (2003, p. 97-98),
afirma que “embora seja difícil avaliar o número de palavras diferentes que as
crianças podem produzir, estima-se que o vocabulário de produção representa a
metade aproximadamente do vocabulário compreensivo”, ou seja, se a criança
compreende cerca de 3.000 palavras aos seis anos, sua produção é de
aproximadamente 1.500 palavras.
Entre oito e onze anos, um pensamento mais concreto e reversível, permite
usar conceitos verbais fora do seu contexto concreto, realizar classificações ou
categorizações de palavras. Aos nove, são observadas habilidades para recordar e
recontar adivinhações, porém, sua compreensão ainda não é adequada e
nãoconsegue ver o que é engraçado nelas. A partir dos onze anos, com um
pensamento mais lógico, mais formal imaginativo, desenvolvem-se significados mais
figurativos, utilizando as palavras com sentido mais metafórico.

Gramática

Conhecer a organização formal de sua Língua é o estudo morfossintático – a


gramática. O termo refere-se aos conceitos de morfologia e de sintaxe. A morfologia
refere-se “ao estudo da estrutura interna das palavras e sua decomposição em
unidades menores com significado” os morfemas; já a sintaxe “preocupa-se com as
regras para descrição das formas pelas quais diferentes partes do discurso podem
ser legitimamente combinadas para formar frases em uma Língua.” Conforme a
criança vai se desenvolvendo, a complexidade gramatical do seu discurso aumenta:
observa-se um aumento na utilização de morfemas gramaticais, aumento no
tamanho médio da frase, o número de elementos numa oração aumenta de um
(substantivo) para dois (substantivo+verbo), para três (verbo+objeto+advérbio), e
assim sucessivamente (BISHOP E MOGFORD, 2002, p. 8-10). A utilização de
orações coordenadas e subordinadas ocorre por volta dos quatro anos na maioria
das crianças.
Em relação ao desenvolvimento morfossintático, Acosta et al. (2003, p. 77)
destaca a caracterização apresentada por Del Río e Vilaseca em 1989, distinguindo
quatro etapas de desenvolvimento: pré-linguagem, primeiro desenvolvimento
sintático, expansão gramatical e últimas aquisições. Serão detalhadas no quadro

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abaixo:

TABELA
ETAPAS O QUE É ESPERADO

Pré-linguagem 0-6m – são observadas vocalizações não linguísticas biologicamente


condicionadas;
6-9m – as vocalizações começam a adquirir algumas características da
linguagem propriamente dita, aparecendo entonação, ritmo, tom, etc.;
9-10m – fase da pré-conversação – observa-se que a criança vocaliza mais
durante intervalos deixados pelo adulto, ao mesmo tempo em que tenta
espaçar e encurtar suas vocalizações para dar lugar a alguma resposta ao
adulto;
11-12m – compreendem algumas palavras familiares, vocalizações mais
precisas e controladas quanto à altura tonal e intensidade, agrupa sons e
sílabas repetidas à
vontade.

Primeiro 12-18m – surgem primeiras palavras funcionais, cresce o nível de


desenvolvimento compreensão e produção de palavras;
sintático 18-24m – surgem enunciados de dois elementos;
24-30m – período da “fala telegráfica”, pois não apresenta artigos,
preposições, flexões de gênero, etc. Exemplo: “nenê come pão”.
Expansão gramatical 30-36m – a estrutura das frases vai se tornando mais complexa, podendo
chegar até quatro elementos. Aparecem as flexões de gênero e número,
pronomes de primeira, segunda e terceira pessoa, artigos definidos o e a,
os advérbios de lugar também aparecem;
36-42m – a criança aprende a estrutura das emissões complexas de mais
de uma oração com o uso frequente da conjunção e. Uso praticamente
correto dos auxiliares ser e ter permite que a criança use o passado
comporta (“a boneca tinha comido”);
42-54m – as estruturas gramaticais vão sendo complementadas com o
uso do sistema pronominal, pronomes possessivos, verbos auxiliares, etc.
54m – as estruturas sintáticas mais complexas são aprendidas pela
criança, uso da voz passiva e as conexões adverbiais continuam se
aperfeiçoando.
Últimas aquisições

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Prosódia

Para Law (2001, p. 2), a prosódia “É a forma pela qual o significado é


transmitido por entonação e ênfase.” Ou seja, quando falamos temos uma curva
melódica, para enfatizar ou não as palavras. É a prosódia que dá vida as palavras.
Aqui observamos os aspectos emocionais da fala que envolvem: expressão facial,
gestos, entonação da voz.
Entender estes sistemas é importante no processo de avaliação e
identificação das alterações, pois, para cada sistema desses, é necessária uma
avaliação diferenciada bem como o diagnóstico e o prognóstico será diferente. No
Módulo III, sobre avaliação, veremos isto com mais detalhes.

ALTERAÇÕES DA LINGUAGEM

Verificamos até aqui o processo de normalidade na aquisição e


desenvolvimento da linguagem. Entender este processo é importante, pois, quando
a criança não caminha de acordo com o que é esperado, alterações na linguagem
podem ocorrer. O fonoaudiólogo é o profissional indicado para diagnosticar e atuar
na prevenção, estimulação e reabilitação destas alterações. Lahey (1990) e Reed
(1994) apud Befi-Lopes (2003, p. 19) afirmam que: Este processo de identificação da
alteração é caracterizado por certa controvérsia entre os profissionais envolvidos,
em decorrência de dois fatores principais:
1) os conceitos de linguagem e de desordem da linguagem não são bem
estabelecidos;
2) em decorrência da grande variação individual no desenvolvimento da
linguagem, torna-se difícil estabelecer quando um determinado padrão deve ser
consideração como variação normal do processo ou como patológico.
Ou seja, o diagnóstico das alterações de linguagem não é um processo fácil,
pois muitas variações ocorrem no desenvolvimento e na literatura que fala sobre
linguagem. Porém, o mais importante é verificar como está a criança que estamos
avaliando, o ambiente que ela vive, a estimulação ou falta de estimulação que ela
tem e verificar realmente como está a aquisição e desenvolvimento de sua
linguagem; com isto em mente, teremos um bom diagnóstico, orientações e

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reabilitação. Quando a criança apresenta déficit quanto ao significado das palavras,
das regras e da estrutura gramatical e/ou inadequação da linguagem no uso
sociofuncional, pode-se pensar em alteração da linguagem (RICE, 1997 apud BEFI-
LOPES, 2003). Esta alteração pode ser representada por um retardo ou um
distúrbio.
A discussão entre a nomenclatura das alterações da linguagem é grande.

Procurando no dicionário (MICHAELIS, 2008) o conceito de cada palavra


verificamos que:

1-DISTÚRBIO: perturbação, agitação, desordem;


2-DESORDEM: falta de ordem, confusão, irregularidade, desalinho;
3-IMPEDIMENTO: ato ou efeito de impedir, aquilo que impede, estorvo,
obstáculo;
4-RETARDO: atraso, demora, menos rápido;
5-ATRASO: ação ou efeito de atrasar, demora, retardamento.

Poderíamos colocá-las em grupos:


1) Desordem/distúrbio: quando ocorre uma irregularidade na aquisição ou

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desenvolvimento da linguagem;
2) Retardo/atraso: ocorre algo que faz com que a
aquisição/ desenvolvimento de linguagem seja mais lento, ocorra uma
demora;
3) Impedimento: ocorre algo que impede a aquisição/desenvolvimento da
linguagem.

Para o nosso entendimento, o que temos de perceber é SE e QUANDO


ocorreu um impedimento que impossibilitou a criança de adquirir a linguagem ou SE
e QUANDO ocorreu algo que atrasou/retardou esta aquisição, verificando também
se a alteração da linguagem vem sozinha ou acompanhada de outros transtornos
cognitivos ou motores, por exemplo. Tentar sempre colocar a linha que está
utilizando, ou seja, qual o autor que está seguindo, ou utilizar a nomenclatura do CID
10 (Classificação Internacional de Doenças <www.datasus.gov.br/cid10>), que no
item F80 traz a classificação dos transtornos do desenvolvimento da fala e da
linguagem:
Transtornos nos quais as modalidades normais de aquisição da linguagem
estão comprometidos desde os primeiros estágios do desenvolvimento. Não são
diretamente atribuíveis a anomalias neurológicas, anomalias anatômicas do aparelho
fonador, comprometimentos sensoriais, retardo mental ou a fatores ambientais. Os
transtornos específicos do desenvolvimento da fala e da linguagem se acompanham
com frequência de problemas associados, tais como dificuldades da leitura e da
soletração, perturbação das relações interpessoais, transtornos emocionais e
transtornos comportamentais.

F80.0 Transtorno específico da articulação da fala


Transtorno específico do desenvolvimento na qual a utilização dos fonemas
pela criança é inferior ao nível correspondente a sua idade mental, mas no qual o
nível de aptidão linguística é normal.
• Dislalia;
• Lalação. Transtorno (do):
• Desenvolvimento (da):
• Articulação (da fala);

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• Fonológico;
• Funcional de articulação.
Exclui:
Comprometimento da articulação (da fala) (associada) (devida a) (um) (uma):
• Afasia SOE (R47.0);
• Apraxia (R48.2);
• Perda de audição (H90-H91);
• Retardo mental (F70-F79).
• Transtorno do desenvolvimento da linguagem:
▪ Expressivo (F80.1)
▪ Receptivo (F80.2)

F80.1 Transtorno expressivo de linguagem


Transtorno específico do desenvolvimento no qual as capacidades da criança
de utilizar a linguagem oral são nitidamente inferiores ao nível correspondente a sua
idade mental, mas no qual a compreensão da linguagem se situa nos limites
normais. O transtorno pode se acompanhar de uma perturbação da articulação.
Disfasia ou afasia de desenvolvimento do tipo expressivo.
Exclui:

Afasia adquirida com epilepsia [Landau-Kleffner] (F80.3) Disfasia ou afasia


(de):
• SOE (R47.0);
• Desenvolvimento do tipo receptivo (F80.2). Mutismo eletivo (F94.0);
Retardo mental (F70-F79);
Transtorno global do desenvolvimento (F84.-).

F80.2 Transtorno receptivo da linguagem


Transtorno específico do desenvolvimento no qual a capacidade de
compreensão da linguagem pela criança está abaixo do nível correspondente a sua
idade mental. Em quase todos os casos, a linguagem expressiva estará também
marcadamente prejudicada e são comuns anormalidades na articulação.
Agnosia auditiva congênita; Surdez verbal.
Transtorno de desenvolvimento (do tipo):

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• Afasia de Wernicke;
• Afasia ou disfasia de compreensão (receptiva).
Exclui:
Afasia adquirida com epilepsia [Landau-Kleffner] (F80.3); Autismo (F84.0-
F84.1);
Disfasia e afasia:
• SOE (R47.0);
• do desenvolvimento, tipo expressivo (F80.1); Mutismo eletivo (F94.0);
Retardo (de):
• Aquisição de linguagem devido à surdez (H90-H91);
• Mental (F70-F79).
Transtorno global do desenvolvimento (F84.-).

F80.3 Afasia adquirida com epilepsia [síndrome de Landau-Kleffner]


Transtorno no qual a criança, tendo feito anteriormente progresso normal no
desenvolvimento da linguagem, perde tanto a habilidade de linguagem receptiva
quanto expressiva, mas mantém uma inteligência normal; a ocorrência do transtorno
é acompanhada de anormalidades paroxísticas no EEG, e na maioria dos casos há
também convulsões epilépticas. Usualmente o início se dá entre os três e os sete
anos, sendo que as habilidades são perdidas no espaço de dias ou de semanas. A
associação temporal entre o início das convulsões e a perda de linguagem é variável
com uma precedendo a outra (ou inversamente) por alguns meses a dois anos. Tem
sido sugerido como possível causa deste transtorno um processo inflamatório
encefalítico. Cerca de dois terços dos pacientes permanecem com um déficit mais
ou menos grave da linguagem receptiva.
Exclui:
Afasia (devida a):
• SOE (R47.0) (afasia e disfasia);
• Autismo (F84.0-F84.1);
• Transtornos desintegrativos da infância (F84.2-F84.3).
F80.8 Outros transtornos de desenvolvimento da fala ou da linguagem:
Balbucio.

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F80.9 Transtorno não especificado do desenvolvimento da fala ou da
linguagem:
Transtorno de linguagem SOE.
FONTE:<http://www.datasus.gov.br/cid10/v2008/webhelp/f80_f89.htm>.

ALTERAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO DA
LINGUAGEM/IMPEDIMENTOS ESPECÍFICOS DA LINGUAGEM/DISTÚRBIO
ESPECÍFICO DE LINGUAGEM

Befi-Lopes (2003) cita que muitos autores estão utilizando o termo


Impedimentos Específicos da Linguagem (Specific language impairments – SLI) para
crianças cujas dificuldades são específicas dos aspectos linguísticos, ou seja,
quando a criança não apresenta outras alterações. Hage e Guerreiro (2004)
nomeiam como Distúrbio Específico de Linguagem (DEL).
Este diagnóstico é sugerido quando a criança apresenta alterações somente de
linguagem, com déficit de pelos menos 12 meses, em testes formais e padronizados de
linguagem, em relação a outras crianças da mesma idade cronológica ou mental, que não
podem ser atribuídas à:
• Perda auditiva superior a 25dB;
• Impedimentos no desenvolvimento cognitivo;
• Impedimentos no desenvolvimento motor da fala;
• Déficit de atenção e hiperatividade;
• Transtornos invasivos do desenvolvimento;
• Distúrbios psicóticos;
• Insultos cerebrais adquiridos;
• Interação social restrita;
• Distúrbios de comportamentos e emocionais significativos.

Os fatores apresentados anteriormente são considerados critérios de


exclusão dos impedimentos específicos de linguagem, já um baixo desempenho nos
testes formais e padronizados de linguagem representariam critérios de inclusão
(BEFI-LOPES, 2003; HAGE E GUERREIRO, 2004).
O SLI ou DEL ainda tem outras denominações: afasia desenvolvimental,

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afasia congênita, disfasia, transtorno da linguagem expressiva, transtorno misto da
linguagem receptivo-expressiva, distúrbio disnômico, distúrbio grave da expressão
verbal, distúrbio da percepção auditiva entre outros. Para Hage e Guerreiro, essa
variedade decorre das dificuldades de se caracterizar (e entender!)
alterações numa linguagem em construção, como é o caso da linguagem da
criança em idade pré-escolar, ou ainda por se ter como referência alterações de
linguagem em adultos. (2004, p. 977).
Em relação aos impedimentos, ainda existe entre os autores, uma
diferenciação ou não entre retardos e desordens ou distúrbios de linguagem.
Befi-Lopes (2003, p. 24) afirma que o termo retardo de linguagem “implica que
comportamentos específicos da linguagem surgem ou se desenvolvem de forma
lenta, mas que a criança adquire os comportamentos na mesma sequência
observada no desenvolvimento normal, e que o grau de retardo é basicamente o
mesmo para todos os fatores e aspectos da linguagem.” Já o termo desordem ou
distúrbio de linguagem “implica o desvio do padrão usual de aquisição de um ou
mais aspectos da linguagem (por exemplo, semântica e sintaxe), em graus variados;
em decorrência dessa assincronia no padrão de aquisição, a sequência normal do
desenvolvimento é rompida.”
No quadro a seguir, apresentamos as diferenças entre retardo e distúrbio,
segundo autores citados por Befi-Lopes (2003), Law (2001) e (Hage e Guerreiro,
2004):

RETARDO DISTÚRBIO
Caracterizado por um atraso generalizado Ocorre o desvio no desenvolvimento,
na aquisição ou expressão de TODOS os apresentado uma assincronia na aquisição
componentes da linguagem, porém, estas dos componentes da linguagem, ou déficit
crianças acompanham a mesma sequência específicos em um aspecto linguístico e/ou a
do desenvolvimento normal, ao se união de componentes com
desenvolverem (REED, 1994 apud BEFI- desenvolvimento normal e com atraso na
LOPES, 2003). aquisição (REED, 1994 apud BEFI-LOPES,
2003).

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Desenvolveu a linguagem normalmente, Padrão no desenvolvimento da linguagem
porém em proporção menor do que outras sofre algum distúrbio (LAW, 2001).
crianças (LAW, 2001).

O prognóstico é considerado Seu prognóstico é ruim.


bom.

O grau do retardo é geralmente igual para No distúrbio ocorre um desvio no


todos os fatores e aspectos da linguagem, desenvolvimento normal da linguagem de
a criança aprende, porém mais lentamente um ou mais aspectos da linguagem
que as outras (LEONARD, 1972, 1979; (LEONARD, 1972, 1979; CURTISS et al., 1992;
CURTISS et al., 1992; REED, 1994 apud REED, 1994 apud BEFI-LOPES, 2003).
BEFI-LOPES,
2003).
A defasagem que a criança apresenta No distúrbio a alteração é sempre
respeita as etapas habituais do importante e durável nas capacidades
desenvolvimento e diminui com o tempo, linguísticas, com repercussões na
com ou sem intervenção. As manifestações aprendizagem da escrita. A evolução
clínicas não são persistentes. O aspecto da linguagem é lenta, inteligibilidade
fonológico geralmente está afetado, a demora a melhorar, o vocabulário é limitado,
sintaxe apresenta-se de forma primitiva, os enunciados permanecem simples,
telegráfica, sem alterações na ordem das discurso narrativo é fraco de recursos
palavras, vocabulário restrito (HAGE E linguísticos. Uma das marcas do distúrbio é
GUERREIRO, 2004). a persistência das alterações e a presença
de características linguísticas que não são
observadas no desenvolvimento normal de
linguagem (HAGE e GUERREIRO, 2004).
Pode existir maturidade cerebral tardia ou Alteração na sincronia do desenvolvimento
exposição à linguagem inadequada (ou dos diversos subsistemas da linguagem
ambos) em decorrência de um entorno (FERNANDES, 2003a).
linguístico ineficaz ou perdas auditivas
moderadas causadas por otites
recidivantes (RAPIN et al., apud HAGE e
GUERREIRO, 2004).
Existe apenas um atraso no
desenvolvimento (FERNANDES,
2003a).

Fatores causais

Pouco se sabe, ainda, sobre as causas desses impedimentos/distúrbios.

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19
Porém, alguns fatores são comuns: comprometimento cognitivo, principalmente no
que se refere ao pensamento simbólico e representativo, dificuldades em relação à
percepção auditiva, principalmente com a memória sequencial. Hage e Guerreiro
(2004, p. 984) citam que “Intercorrências pré-natais e fatores genéticos podem estar
envolvidos na patogênese de algumas malformações do desenvolvimento cortical
que cursam com DEL”. E [...] dada à natureza complexa do sistema nervoso e das
funções que nele se assentam, o DEL tem natureza multifatorial, na qual eventos
pré-natais interagem com predisposição genética durante um período do
desenvolvimento cortical.”
Law (2001) também traz a preocupação com a defasagem de
desenvolvimento neurológico e maturacional apresentada por crianças com
deficiência de linguagem. O mesmo autor cita que fatores ambientais e sociais
podem trazer consequências gerais nocivas para a linguagem. Pesquisas sobre
ambiente físico, conservantes e aditivos alimentares, poluição, aspectos sociais
(classe social, ambiente familiar) foram realizadas, e alguns autores sugerem que
esses fatores podem interferir na aquisição e desenvolvimento da linguagem.

Incidência

Achados neurológicos por neuroimagem comprovam maior incidência no sexo


masculino e a ocorrência deste quadro em famílias (HAGE e GUERREIRO, 2004).
Law (2001) afirma que o número de meninos em relação às meninas com alterações
de linguagem é bastante consistente; dois e três meninos para cada menina.

Características

As crianças com impedimentos/distúrbios específicos de linguagem podem


apresentar segundo Befi-Lopes (2003):
• Alterações fonológicas, apresentando discurso ininteligível;
• Demonstram alterações nos aspectos morfológicos e sintáticos– menor
complexidade das sentenças, uso limitado de subordinação, omissão ou uso
inadequado de elementos gramaticais como artigos, pronomes e plural;
• Déficit no uso da linguagem como menor intenção comunicativa e maior

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uso do meio comunicativo não verbal;
• Apresentam um atraso, geralmente de um ano, no aparecimento das
primeiras palavras e falham na grande expansão vocabular que geralmente ocorre
entre 18 e 24 meses;
• Demonstram dificuldades em adquirir determinados conceitos,
principalmente aqueles relacionados a conceitos abstratos e figurativos;
• Apresentam dificuldade em combinar o significado das palavras para
formar sentenças.
Complementa Hage e Guerreiro (2004) que crianças com alteração na
linguagem podem apresentar:
• Limitações em sua capacidade para discriminar e classificar com rapidez
estímulos auditivos verbais;
• Dificuldades em processar palavras com baixa relevância fonética;
• Limitações na memória de curto prazo;
• Limitações no processamento fonológico;
• Na maioria das vezes tardam a falar.
Zorzi (1999, p. 44-45) cita outras características que podem ser encontradas
nas crianças com alteração de linguagem:

• O desenvolvimento geral deve seguir sem problemas significativos, ficando


as restrições mais no plano da linguagem e da interação social;
• A linguagem tende a ser menos desenvolvida que as demais condutas
representativas (brinquedo simbólico e imitação diferida);
• A comunicação verbal pode estar presente, porém, não ultrapassa as
fases mais elementares, com tendência a uso pouco sistemático: em geral, são
pouco expressivos verbalmente;
• Utiliza outros recursos comunicativos não verbais;
• Utilizam com frequência adultos como intermediários para a interação;
• Apresenta dificuldades na produção dos sons da fala, porém não
apresentam dificuldades na motricidade orofacial ou alterações neurológicas;
• Relação adulto/criança, com frequência, caracterizada por padrões pouco
eficazes para facilitar o desenvolvimento da comunicação;
• Podem apresentar baixo nível de interesse ou de respostas à linguagem

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dos outros, sendo pouco interativas;
• Com muita frequência, a linguagem destas crianças tende a evoluir de
modo favorável, em razão das novas experiências interativas e de uso da
comunicação que elas podem ter.

Hipóteses sobre ocorrência das alterações da linguagem

Befi-Lopes (2003) cita que para tentar explicar o como e porque ocorrem as
alterações da linguagem, muitas pesquisas foram e são realizadas. Os autores
levantam várias hipóteses para explicar. Veremos, a seguir, algumas dessas
hipóteses:

Bishop (1992): para este autor algumas hipóteses podem estar relacionadas
ao déficit linguístico, como:
1) Alteração nos mecanismos expressivos:
Aqui a competência linguística da criança encontra-se intacta, mas esta
apresenta dificuldades em transformar a informação num sinal de fala. Neste caso,
as dificuldades na recepção da informação seriam consequências dos déficits
envolvidos na expressão da linguagem.
A criança poderia apresentar: Imaturidade nas habilidades motoras que
dificultassem a programação da sequência dos movimentos motores da articulação,
ou simplificação da representação fonológica das palavras durante a articulação, ou
dificuldade na segmentação fonêmica da fala, ou dificuldade no acesso para a
recuperação lexical, ou ainda redução da capacidade de armazenamento da
memória de trabalho. (BEFI-LOPES, 2003, p. 26).
2) Consequências de alterações perceptuais auditivas: as crianças com
alterações de linguagem não conseguem discriminar o estímulo sonoro
adequadamente, provavelmente, como consequência de desordem na percepção
auditiva;
3) Consequências de alterações nos mecanismos de interpretação
linguística: ou seja, “a alteração de linguagem ocorreria por déficit nos mecanismos
neurológicos inatos especializados no processamento linguístico.” (BEFI-LOPES,
2003, p. 26).

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22
4) Dificuldades de aprendizado ou de déficit de memória: o processamento

GRUPO I – RETARDO DE LINGUAGEM FAZENDO PARTE DE ATRASO


GLOBAL DO DESENVOLVIMENTO

da informação da memória verbal tem uma limitação.


Outros autores como Befi-Lopes, Takiuchi e Araújo (2000a e b) apud Befi-
Lopes (2003, p. 27) sugerem que a “alteração de linguagem está relacionada à
maior dificuldade no aprendizado das formas verbais do que na capacidade de
conceitualização do significado do referente.” Assim, as estratégias de aprendizado
da criança seriam anormais com déficit relacionados às operações cognitivas.
Apresentamos, aqui, para conhecimento e reflexão, a proposta de
classificação das alterações de linguagem utilizada por Zorzi. Autor de vários livros
na área de linguagem, especialista nesta área, conhecido por muitos fonoaudiólogos
brasileiros, inspira-se na teoria piagetiana de desenvolvimento, concebendo a
linguagem como uma das manifestações da conduta simbólica, portanto, todo seu
arsenal teórico é baseado na abordagem piagetiana. Em relação à classificação dos
retardos de aquisição da linguagem, afirma que pode ser feita “tomando-se como
referência as dificuldades encontradas e sua abrangência.” (ZORZI, 1999, p. 69).
Prosseguindo, o autor divide os retardos em dois grandes grupos, levando “em conta
a existência de dificuldades específicas quanto à aquisição da linguagem, ou
dificuldades globais de desenvolvimento e se aplica a crianças que não adquiriram
linguagem na idade esperada”. A seguir transcrevemos os grupos, conforme capítulo
11 (p. 69-73) do livro A intervenção fonoaudiológica nas alterações da linguagem
infantil.

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Subgrupo A: crianças apresentando ausência de condutas simbólicas, com
comportamentos organizados ao nível sensório-motor.
Nos esquemas de interação com os objetos observa-se:
• Modo de manipulação de objetos tipicamente sensório-motor;
• Ausência de condutas simbólicas;
• Conjunto de ações pouco evoluídas, tendendo à repetição sem
variação;
• Poucas formas de explorar e manipular os objetos;
• Dificuldades de atenção e tempo de concentração reduzidos;
• Ausência de atividade construtiva elaborada;
• Ausência de brincadeira de conteúdo simbólico.
Em relação à imitação observa-se:
• Dificuldades maiores, em geral, para imitar sons e movimentos não
visíveis no próprio corpo;
• Não conseguem imitar modelos ausentes.

Em relação às habilidades interativas/sociais, observa-se que:


• As crianças com atrasos mais importantes podem não apresentar,
ainda, comportamentos intencionais para garantir a interação;
• Quando presentes, a função dos comportamentos comunicativos
tende a ser predominantemente regulatória;
• Apresenta dificuldades para manter atenção conjunta.

Em relação aos graus de desenvolvimento da comunicação, observa-se que:


• As crianças com atrasos mais acentuados podem ainda não estar
apresentando comportamentos comunicativos intencionais – níveis I e II;
• Não fazem uso de comunicação linguística;
• Não apresentam formas de comunicação simbólica não verbais;

• Podem apresentar comportamentos comunicativos típicos dos níveis III e


• Os recursos expressivos empregados na comunicação podem estar
limitados a gestos e vocalizações não simbólicos.

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Em relação às atitudes comunicativas dos pais, o autor afirma que de forma
geral, tendem a ser diretivas e pouco adequadas.

Subgrupo B: são as crianças com atraso global do desenvolvimento e que já


apresentam algum grau de simbolismo em suas condutas que, apesar de presentes,
estão defasadas em relação ao esperado para a idade.
Em relação aos esquemas de interação com os objetos, pode-se observar
que:
• A criança manipula os objetos, alternando entre formas sensório-
motoras
e simbólicas, tendendo a um predomínio da exploração sensório-motora;
• Atribuem significados práticas, convencionais e simbólicos aos objetos;
• O brinquedo simbólico está presente, com graus variáveis de
simbolismo podendo ser constatados;
• Manipulação dos objetos tende a ser breve e superficial;
• Tempo de atenção curto;
• Tendem a desistir com facilidade quando surge algum obstáculo na
manipulação;
• Atividade construtiva pouco desenvolvida.

Em relação à imitação, observa-se que:


• A criança apresenta dificuldades para imitar sons em geral e
movimentos não visíveis no próprio corpo;
• A imitação de modelos ausentes ocorrendo de forma elementar, pouco
precisa, apresenta maior facilidade para imitar ações sobre objetos.

Em relação às habilidades interativas/sociais, observa-se que as crianças:

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GRUPO II – RETARDO SIMPLES DE LINGUAGEM
Zorzi (1999) salienta que é comum encontrar crianças com “dificuldades
ou impedimentos mais acentuados no que diz respeito à aquisição da
linguagem. O problema configura-se como mais específico, sendo que outros
aspectos do desenvolvimento estão menos comprometidos, ou seja, estão
evoluindo dentro dos limites do que é considerado normalidade.”
Crianças com deficiência auditiva têm um impedimento físico – escutar
– com isso podem apresentar um comprometimento quanto ao domínio da
linguagem, porém, crianças sem distúrbios da audição podem também
apresentar tal tipo de defasagem, que seria um retardo específico, ou simples,
de linguagem. Estas crianças não apresentam uma adequada evolução da
linguagem em relação ao desenvolvimento de condutas simbólicas
(brinquedo de faz de conta, imitação diferida).
Para o autor, situações ou ambientes desfavoráveis para o
desenvolvimento da linguagem pode contribuir para o aparecimento do
retardo simples de linguagem.
Crianças com retardo simples de linguagem apresentam as
características gerais abaixo:
Em relação aos esquemas de interação com os objetos pode-se
observar que:
• O desenvolvimento sensório-motor não apresenta alterações;
• As habilidades para jogos de construção podem estar bem
desenvolvidas.
• O brinquedo simbólico revela que a criança tem capacidade para
lidar com símbolos; que consegue representar conhecimentos e experiências
por meio de brinquedos e gestos, o mesmo não acontecendo com a
linguagem;
• Significados convencionais e simbólicos são atribuídos aos
objetos;
• As crianças tendem a apresentar formas variadas de manipulação
dos objetos e tempo mais prolongado de exploração.

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Em relação à imitação, observa-se que a criança:
• Não apresenta dificuldades para reproduzir movimentos não
visíveis no próprio corpo;

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FONTE: ZORZI, 1999.

• Não tem dificuldades pra reproduzir ações realizadas com objetos;


• Não apresenta problemas para imitar modelos ausentes;
• Tende a apresentar maior dificuldade, ou até mesmo desinteresse,
na imitação de sons e palavras.

Em relação às habilidades interativas/sociais, observa-se que:


• Algumas crianças podem apresentar dificuldades para
organizar comportamentos comunicativos intencionais;
• Algumas crianças tendem a atuar diretamente sobre o meio,
buscando a interação com os outros de modo sistemático;
• A função dos comportamentos comunicativos tende a ser
principalmente regulatória;
• Tendem a apresentar pouca habilidade em garantir a atenção
conjunta e desenvolver atividades com outros.

Em relação aos graus de desenvolvimento da comunicação, pode-se


observar que as crianças:
• Podem apresentar algum domínio de linguagem, estando, porém,
defasados em relação ao esperado para a idade cronológica;
• Podem apresentar formas de comunicação simbólica não verbais
– gestos simbólicos;
• Podem empregar formas de comunicação vocais e gestuais não
simbólicas;
• Apesar de já apresentarem uma capacidade para lidar com
símbolos, a comunicação pode estar limitada a formas não simbólicas como as
encontradas nos níveis III e IV da comunicação pré-linguística.
Em relação às atitudes comunicativas dos pais, tendem a ser
diretivas e pouco adequadas às características das crianças.

SUBCLASSIFICAÇÃO DO DISTÚRBIO ESPECÍFICO DE LINGUAGEM


Hage e Guerreiro (2004) afirmam que os estudos sobre uma
subclassificação dos distúrbios específicos de linguagem é antigo. Em 1953 já
se propunha uma subdivisão entre expressivo e receptivo. Também no CID-10
existe esta subdivisão em expressivo, receptivo e misto.
Vamos apresentar aqui a proposta que Hage e Guerreiro (2004, p. 981)
trazem, baseado nos dados de Rapin e Allen considerando os aspectos
linguísticos: fonológico, morfossintático, semântico-lexical e pragmático:
• Distúrbio da programação fonológica: a criança apresenta uma
compreensão normal ou próxima do normal; aquisição da fala é normal ou
levemente atrasada; apresenta uma estrutura dos enunciados compatível com
a idade cronológica; em razão das alterações fonológicas a fala é ininteligível,
porém é fluente;
• Dispraxia verbal: pode-se observar que a criança apresenta
compreensão normal ou próxima do normal; observa-se atraso no
aparecimento da linguagem oral; fluência pode estar prejudicada, com graves
problemas de organização dos sons articulados; a criança produz enunciados
somente de uma ou duas palavras;
• Distúrbio fonológico-sintático: se o enunciado é longo ou
emitido rápido, a compreensão por parte da criança com esta alteração pode
estar prejudicada; atraso no aparecimento da linguagem oral; apresenta
alteração da morfossintaxe com frases simples, telegráficas, erros de
flexionamento verbal e nominal e na organização sequencial das palavras na
frase; a fluência é prejudicada pelas dificuldades de organização sintática;
apresenta diversas alterações fonológicas;
• Agnosia auditivo-verbal: a criança apresenta ou ausência da
linguagem oral ou ela está gravemente afetada; a compreensão para gestos é
normal; a fala está ausente ou fica restrita a palavras isoladas; apresenta a
articulação das palavras muito alterada;
• Distúrbio léxico-sintático: pode-se observar que a
criança apresenta dificuldades de evocação e fixação do léxico; usa
constantemente perífrases e dêiticos; as alterações fonológicas podem
ocorrer, porém não chegam a prejudicar sensivelmente a inteligibilidade
de fala; em razão das dificuldades de evocação lexical, a fluência pode
estar comprometida; dificuldades na compreensão de frases, já a
compreensão de palavras isoladas pode estar normal; apresenta
dificuldades em manter a sequência dos elementos numa frase ou de
usar palavras com sentido gramatical; em relação à aquisição da
linguagem oral, pode ser normal ou atrasado.
• Distúrbio semântico-pragmático: em relação ao surgimento da
fala pode estar normal, observa-se que enunciados e articulação podem
desenvolver-se normalmente ou com pequenas dificuldades; apresenta fala
fluente, pode ocorrer repetição/emissão de frases complexas memorizadas; as
dificuldades ocorrem no aspecto pragmático da linguagem com inadaptação da
linguagem ao contexto, coerência temática instável, ecolalia; quando o
enunciado é longo, apresenta dificuldades de compreensão, entende
literalmente o significado da palavra.
REFERÊNCIAS

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Artes Médicas, 1982.
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