Você está na página 1de 16

Guia prático de avaliação participativa

da qualidade do solo em Sistema de


Plantio Direto de Hortaliças
(SPDH)

UFSC
Equipe de Coordenação

Jucinei José Comin - Engenheiro agrônomo, Dr., CCA / UFSC / Florianópolis, SC.
Jamil Abdalla Fayad - Engenheiro agrônomo, M.Sc., Autônomo / Florianópolis, SC.
Claudinei Kurtz - Engenheiro agrônomo, Dr., EPAGRI, Ituporanga, SC.
Álvaro Luiz Mafra - Engenheiro agrônomo, Dr., CAV / UDESC / Lages, SC.
Pierre Curmi - Engenheiro agrônomo, Dr., AgroSup Dijon / França.

Equipe de Geração e Adaptação de Conhecimentos

Arcângelo Loss - Engenheiro agrônomo, Dr., CCA / UFSC / Florianópolis, SC.


Carlos Allberto Koerich - Técnico Agrícola, Epagri / Angelina, SC.
Claudinei Kurtz - Engenheiro agrônomo, Dr., Epagri / EEItuporanga, SC.
Cledimar Rogério Lourenzi - Engenheiro agrônomo, Dr., CCA / UFSC / Florianópolis, SC.
Darlan Rodrigo Marchesi - Engenheiro agrônomo, M.Sc., Epagri / Criciúma, SC.
Édio Zunino Sgrott - Engenheiro agrônomo, Epagri / Ituporanga, SC.
Gustavo Brunetto - Engenheiro agrônomo, Dr., CCR / UFSM / Santa Maria, RS.
Ildegardis Bertol - Engenheiro agrônomo, Dr., CAV / UDESC / Lages, SC.
Leandro do Prado Wildner - Engenheiro agrônomo, M.Sc., Epagri / CEPAF / Chapecó, SC.
Marcelo Zanella - Engenheiro agrônomo, Epagri / GRF, Florianópolis, SC.
Paulo Emilio Lovato - Engenheiro agrônomo, Dr., CCA / UFSC / Florianópolis, SC.
Paulo Francisco da Silva - Engenheiro agrônomo, M. Sc. Epagri / Florianópolis, SC.
Vilmar Müller Júnior - Engenheiro agrônomo, Mestrando, CCA / UFSC / Florianópolis, SC.

Ano: 2016
Tiragem 1000 exemplares

Material elaborado com recursos da Chamada MCTI/MAPA/MDA/MEC/MPA/CNPq


Nº 81/2013, Projeto “Consolidação e Formalização do Núcleo de Ensino, Pesquisa e
Extensão em Agroecologia – NEPEA-SC”
O SPDH COMO PROMOTOR DE • O revolvimento do solo restrito às linhas ou
QUALIDADE DO SOLO berços de semeadura e plantio;
• O manejo dos adubos verdes espontâneos
Solos tropicais e subtropicais, por conta do de forma que possam melhorar o sistema, com
material de origem e de seus processos de formação, plantas mais adaptadas às condições locais e sem
muitas vezes apresentam problemas com acidez, prejudicar a produção da cultura econômica,
toxidez por alumínio, baixo teor de matéria orgânica, evoluindo para o plantio direto no verde
deciência e, ou, indisponibilidade de nutrientes, (estratégia eciente para eliminar o uso dos
risco de estresse hídrico em diferentes graus e alta herbicidas).
suscetibilidade à erosão. Ademais, o uso de práticas
de manejo inadequadas tem acentuado o grau dessas
limitações
A ocorrência de grandes áreas de solo CONTEXTUALIZANDO A QUALIDADE
degradado por processos físicos, químicos e DO SOLO
biológicos, e a constatação da importância do solo
para a manutenção da qualidade do ambiente têm Existem diversos conceitos de qualidade do
despertado o interesse e a necessidade de avaliar a solo, mas, de forma simplicada, será assumido
sua qualidade. Vem daí a necessidade de se dispor de neste guia que um solo que tem qualidade é aquele
sistemas de manejo que promovam o equilíbrio entre que desempenha suas funções na natureza, que são:
a qualidade do solo e as necessidades das culturas meio para o crescimento das plantas; regulação do
agrícolas. O solo deve ser manejado de forma que a uxo de água no ambiente; promoção da ciclagem de
produtividade seja sustentada por um longo tempo e nutrientes; resiliência ou capacidade de agir como
de forma constante, ao invés da simples busca pela tampão ambiental, interferindo na formação,
máxima produtividade das culturas. atenuação e degradação de compostos tóxicos ao
Através do SPDH busca-se a construção ambiente.
coletiva da transição da agricultura convencional para A título de exemplo, um solo com elevada
a agricultura agroecológica, tendo por objetivos a capacidade tamponante resiste à mudança de pH, ou
redução e até a eliminação do uso de agrotóxicos e seja, para aumentar uma unidade no seu valor de pH
adubos altamente solúveis; a diminuição dos custos exigirá a aplicação de grandes quantidades de
de produção, e manutenção da produtividade dos calcário. Se visto pela quantidade de calcário, isso
cultivos de forma sustentada. pode ser entendido como uma característica
O SPDH pode ser caracterizado por dois negativa, mas se o solo resiste à mudança de pH, é
grandes eixos: porque ele tem resiliência, que é a capacidade de
O eixo político-pedagógico, que tem como premissas: determinado sistema recuperar o equilíbrio depois de
• A decisão consciente em praticá-lo; ter sofrido uma perturbação. Por isso, por conta da
• A organização dos agricultores; resiliência, muitos solos, mesmo que submetidos a
• A valorização da qualidade de vida dos práticas de manejo inadequadas, continuam
agricultores e consumidores. produzindo.
O eixo técnico-cientíco, cujo aspecto central é Um sistema de produção agrícola que forneça
a promoção da saúde de planta, que tem como base: grande quantidade de compostos orgânicos, através
do cultivo diversicado de plantas, melhora a
• A promoção do conforto da planta, estrutura do solo, formando macroagregados, que são
orientada pela minimização dos estresses estruturas complexas e diversicadas, a partir do
nutricionais, de salinidade, de disponibilidade de agrupamento de microagregados. No SPDH ou em
água, de temperatura, de luminosidade, de pH, áreas de orestas nativas predominam os
entre outros; macroagregados, pois tem-se constantemente aporte
• A nutrição da planta com base nas taxas de resíduos vegetais e liberação de exsudatos via
diárias de absorção de nutrientes, adequando-a sistema radicular (Figura 1).
às condições ambientais, às reservas nutricionais
do solo e aos sinais (aparência) apresentados pela Nesses sistemas têm-se propriedades como:
planta; resistência do solo à erosão; maior inltração e
retenção de água; aumento dos teores de carbono e
• A rotação de culturas e de plantas de
nutrientes; maior capacidade de troca de cátions;
cobertura e adubos verdes (cultivados e
complexação de compostos orgânicos e inorgânicos;
espontâneos), evoluindo para a rotação com
e estímulo ao crescimento da vida no solo - micro e
animais manejados no sistema de Pastoreio
macrobiota.
Racional Voisin, caracterizando um sistema de
integração lavoura-pecuária; De maneira oposta, em um sistema de
• A adição anual de matéria seca superior a produção agrícola pouco diversicado e que fornece
10 toneladas por hectare e por ano por meio dos pequena quantidade de compostos orgânicos, a
planos de consorciação e, ou, rotação de culturas; exemplo do sistema de preparo convencional (SPC),
01
predominarão os microagregados (Figura 1), que são perdas de solo e nutrientes.
estruturas menores e mais simples. Muitos As consequências desse sistema são:
microagregados estão protegidos sicamente dentro suscetibilidade à erosão; diminuição dos teores de
dos macroagregados, e no SPC, devido às constantes carbono e nutrientes; contaminação de águas
operações de preparo do solo (aração, gradagem, superciais e subterrâneas; emissão de gás carbônico
escaricação), os macroagregados são quebrados, para atmosfera (perda de carbono orgânico total do
liberando os microagregados e aumentando as solo – COT, Figura 1); e diminuição da biota do solo.

Figura 1. Formação de macroagregados em área de vegetação nativa (oresta). Após a conversão da área de oresta para
uso agrícola com sistema de preparo convencional do solo (SPC) tem-se o predomínio de microagregados. Em seguida, com
a transição para o SPDH, acontece a re-agregação do solo pela união dos microagregados para formar os macroagregados,
com redistribuição do carbono entre as classes de tamanho de agregados no SPDH. COT=carbono orgânico total do solo
(Fonte: Adaptado de Tivet et al., 2013).

Por isso, para favorecer a qualidade do solo direta do sol.


deve-se empregar sistemas agrícolas nos quais Parte dos nutrientes absorvidos pelas raízes e
constantemente são cultivadas plantas de diferentes incorporados no tecido das plantas de cobertura são
famílias que forneçam grande quantidade de mineralizados durante a sua decomposição,
biomassa, com elevada qualidade, em consórcio e, reduzindo a lixiviação no perl e favorecendo a sua
ou, rotação, e sem o revolvimento do solo (Figura 1). absorção pelas plantas.
No SPDH, o preparo do solo restrito à linha ou A taxa de decomposição dos resíduos vegetais e
berço de plantio e semeadura melhora a qualidade do a liberação de nutrientes depende das condições
solo por não destruir sua estrutura pela quebra dos edafoclimáticas, tais como temperatura, umidade,
agregados, a exemplo do exposto na Figura 1. Os valores de pH, teores de oxigênio e nutrientes no solo;
resíduos das plantas de cobertura são depositados na assim como da composição bioquímica do material
superfície, e dependendo da sua qualidade e vegetal, a exemplo dos valores de relação C/N -
quantidade, poderão permanecer por maior tempo. carbono/nitrogênio, teores de lignina, celulose e suas
As vantagens da utilização de plantas de relações.
cobertura são a proteção da superfície do solo contra Em geral, resíduos com maior relação C/N,
o impacto das gotas da chuva, o que reduz a erosão maior teor de lignina e menor de celulose, como as
hídrica e, consequentemente, a perda de matéria gramíneas (Poaceae), entre elas, a aveia preta e o
orgânica e nutrientes, a diminuição da incidência de centeio, liberam os nutrientes de forma mais lenta e
plantas espontâneas e o aumento do armazenamento gradual, enquanto as brássicas (Brassicaceae), como
de água, bem como a menor oscilação da o nabo-forrageiro, e as leguminosas (Fabaceae),
temperatura do solo pela proteção contra a radiação como a ervilhaca-comum e os tremoços, possuem
02
menores valores de relação C/N, menores teores de que integrem as propriedades físicas, químicas e
lignina e maiores de celulose. Isso estimula a biológicas do solo, que representem processos
liberação mais rápida de nutrientes. Assim, com o relevantes para as funções do solo e que sejam
consórcio de plantas busca-se obter valores sensíveis a mudanças decorrentes das práticas de
intermediários desses parâmetros e manter os manejo. Também é desejável que os indicadores
resíduos vegetais em quantidades adequadas na sejam de fácil uso pelos agricultores e técnicos,
superfície do solo. permitindo a sua adequada análise e interpretação.
As gramíneas possuem sistema radicular A seguir é apresentado um conjunto de
fasciculado e denso, que distribui mais
indicadores passíveis de serem utilizados para a
uniformemente os exsudatos radiculares, aproxima
avaliação da qualidade do solo (Quadro 1). A
as partículas do solo, favorece sua agregação e
avaliação participativa da qualidade do solo
funciona como uma espécie de rede de sustentação
do solo (Figura 2); o nabo, por sua vez, imprime maior pressupõe a escolha de indicadores com base no
efeito físico ao solo ao comprimi-lo à medida que conhecimento dos participantes, e tais indicadores
desenvolve seu sistema radicular pivotante, devem ser adaptados à realidade local.
favorecendo a formação de macroagregados. Uma vez escolhidos os indicadores de
qualidade do solo e denido como os mesmos serão
avaliados, sugere-se atribuir notas a eles em uma
AVALIAÇÃO PARTICIPATIVA DA QUALIDADE escala que pode variar de 1 a 10 ou de 1 a 5. No caso
DO SOLO do intervalo de 1 a 10, a nota 1 será atribuída à pior
condição para aquele indicador, ou seja, o cenário
Deve-se buscar o uso de indicadores (sinais) indesejável; a nota 5 será atribuída a uma condição

Figura 2. Sistema radicular fasciculado e denso de gramíneas, que aproxima as partículas do solo, promove a agregação e
funciona como uma rede de sustentação do solo (Séguy et al. 2001).

03
minimamente aceitável; e a nota 10 será dada àquela situada sobre o mesmo tipo de solo e topograa. Após
condição desejável, ou seja, a situação ideal, a atribuição das notas aos indicadores, são
semelhante a uma área com vegetação nativa (Figura confeccionados grácos tipo teia, guarda-chuva,
3). Evidentemente notas intermediárias podem ser radar ou pizza (Figura 3). Esse tipo de gráco permite
atribuídas aos indicadores. uma fácil visualização do estado da qualidade do
Para facilitar a atribuição de notas aos solo, pois os valores mais próximos do lado externo do
indicadores, recomenda-se usar cenários de gráco representam o sistema mais próximo da
referência, como por exemplo, uma mata nativa condição ideal.

Quadro 1. Exemplo de indicadores de qualidade do solo com os respectivos valores (mínimo, médio e máximo) e
caraterísticas de avaliação. A abreviação de cada indicador está apresentada entre parênteses.

Indicadores Valor Características


Cor, odor e teor 1 Coloração mais clara, odor desagradável, teor muito baixo de matéria
de matéria orgânica orgânica
(Matéria orgânica) 5 Coloração mais escura, sem odor marcante, teor médio de matéria orgânica
10 Coloração escura, odor de terra de mata, teor alto de matéria orgânica
Profundidade do 1 Volume de solo explorado não ultrapassa 10 cm
solo explorada
5 Volume de solo explorado entre 10 e 20 cm
pelas raízes
(Enraizamento) 10 Volume de solo explorado superior a 40 cm
Estrutura do Solo 1 Solo poeirento, sem a presença de agregados visíveis
(Estrutura)
5 Solo com poucos agregados visíveis, que se rompem com leve pressão
10 Solo com muitos agregados, que mantém a forma após leve pressão
Compactação e 1 Camada muito compactada, apresentando elevada resistência
Inltração à penetração da ponta da faca e com pouca ou nenhuma inltração
(Compactação) de água
5 Camada compactada, apresentando média resistência à penetração da
ponta da faca e com inltração lenta de água
10 Ausência de camada compactada, não apresentando resistência à
penetração da ponta da faca e a água inltra rapidamente
Erosão 1 Erosão severa, presença de sulcos e canais de erosão
(Erosão)
5 Erosão pouco visível (laminar), o escorrimento não cria sulcos
10 Sem sinais visíveis de erosão
Retenção de 1 Solo seco após pouco tempo sem chuva
umidade
5 Solo úmido após algum tempo sem chuva
(Umidade)
10 Solo úmido mesmo com estiagem prolongada
Atividade biológica 1 Sem sinais da presença de minhocas e, ou, artrópodes
(Macrofauna)
5 Presença de algumas minhocas e, ou, artrópodes
10 Abundância de minhocas e, ou, artrópodes
Estado dos restos 1 Pouca ou nenhuma palhada, sem sinais de decomposição
vegetais e
5 Fina camada de palhada, cobertura do solo inferior a 50%
cobertura do solo
(Palhada) 10 Espessa camada de palhada, restos vegetais em diferentes estágios de
decomposição, cobertura do solo superior a 90%

Alguns indicadores apresentados no inltrar completamente.


quadro acima, como compactação e inltração de Para o teor de matéria orgânica associado à
água, foram agrupados, mas podem ser avaliados em atividade microbiológica, acrescenta-se certa
separado. Para a avaliação do indicador inltração de quantidade de água oxigenada (peróxido de
água pode-se introduzir no solo um tubo de PVC com
hidrogênio a 10%) em um recipiente transparente
20-30 cm de comprimento e 10-15 cm de diâmetro
com alguns gramas de solo e observa-se a
e, em seguida, coloca-se um volume de água
intensidade e a duração da efervescência. Ocorrendo
conhecido e marca-se o tempo que a água leva para
04
pouca ou quase nenhuma
efervescência e com curta
duração, a atividade biológica
e o teor de matéria orgânica
podem ser considerados
baixos. Por outro lado, uma
efervescência abundante e
duradoura indica um solo com
elevada atividade biológica e
teor de matéria orgânica.

PASSOS PARA REALIZAR


A AVALIAÇÃO

•O primeiro passo é a
identicação de uma
estação de trabalho, isto é,
o local que represente as
condições médias
existentes na área a ser
avaliada. No local
escolhido é aberta uma
t r i n c h e i r a o n d e s e r á Figura 3: Exemplo de gráco tipo pizza confeccionado em campo após a avaliação da
analisado o perl cultural qualidade do solo. MO=matéria orgânica.
da área avaliada.
•A trincheira, deve ser
cavada perpendicular ao
sentido da semeadura e ao
deslocamento dos
i m p l e m e n t o s .
Recomenda-se que a partir
da trincheira se possa
observar ao menos uma
linha da passagem das
rodas das máquinas. A
luminosidade não deve
interferir na interpretação
visual do perl e a terra
tirada da trincheira deve
car no lado oposto ao da
face que será observada.
Deve-se delimitar uma
zona de segurança na
frente da face observada a
m de preservar as
características originais do
perl (Figura 4);
•Com o uso de uma
faca é realizada uma Figura 4: Vista de uma trincheira com o ponto de observação perpendicular ao sentido da
limpeza na parede do semeadura e em posição em que a luminosidade não interfere na interpretação visual do
escavado para desfazer os perl. A terra retirada da trincheira cou fora da zona de segurança, situada na frente da
face de observação.
traços da ferramenta
usada para abrir a
trincheira. A limpeza do perl deve ser feita de •Cada participante atribuirá notas aos
cima para baixo, da esquerda para a direita. Com o indicadores e a média das notas será usada para
perl limpo, procede-se à avaliação dos confeccionar o gráco. É importante que as
indicadores de qualidade do solo associados ao avaliações sejam sempre realizadas pelos
perl cultural, e em seguida se caracterizam mesmos avaliadores, por conta da percepção
indicadores fora do perl, como erosão e estado diferenciada que cada indivíduo tem ao atribuir
dos restos culturais e cobertura do solo (Figura 4); notas aos indicadores;
05
•Para confeccionar o gráco em campo, outro lado, a lavoura de cana de açúcar conduzida sob
desenha-se uma circunferência em uma cartolina SPDH apresentou todos os valores dos indicadores de
e divide-se a circunferência em tantas partes qualidade do solo mais próximos do lado externo do
quanto seja o número de indicadores No exemplo gráco, condição que demonstra um sistema mais
deste guia, são oito partes. Recomenda-se próximo do ideal.
desenhar uma circunferência no centro do gráco,
A lavoura de tomate convencional - SPC
referente à nota 5, que representa a condição
(Figuras 6 e 7) não tem palhada, apresenta selamento
mínima aceitável para cada indicador (Figura 3).
da camada supercial, áreas compactadas, raízes
Na Figura 5 está apresentado o gráco de superciais - crescendo horizontalmente, ausência de
avaliação da qualidade do solo de uma lavoura de macrofauna, e diferença abrupta de coloração do
tomate manejada em sistema de preparo horizonte supercial (0-20 cm) para o horizonte
convencional do solo (SPC) e outra de cana de açúcar, subsupercial, em condição original do solo. Este
manejada segundo os princípios e eixos do sistema de horizonte supercial é submetido ao trabalho dos
plantio direto de hortaliças (SPDH). O solo em implementos e recebe a adição sistemática, e em
questão é um Cambissolo Háplico (Figuras 6, 7, 8 e excesso, de cama de aviário.
9), que apresenta pers medianamente profundos a
Já na lavoura de cana de açúcar sob SPDH
profundos, cores brunadas, e neste caso em posição
(Figuras 8 e 9) não se observa a presença de áreas
de relevo plano. Esta ordem de solo ocorre em todo o
compactadas e tem-se a presença de espessa
estado de Santa Catarina e apresenta a maior
camada de palhada (pelo menos 10 cm). Há
representatividade.
abundante quantidade de galerias e agregados
Para não confundir com Latossolo, basta arredondados (biogênicos) formados pela
vericar no perl do solo a presença abundante de macrofauna, a presença de raízes nas, numerosas e
material ainda não intemperizado ou, mesmo, distribuídas uniformemente em profundidade. Além
pedregosidade associada a solos menos profundos. disso, a distribuição de matéria orgânica no perl é
Ao analisar o gráco, constata-se que a lavoura mais uniforme, visível por meio de uma diferença de
convencional de tomate (SPC) não apresentou coloração associada à transição gradual entre o
nenhum dos indicadores de qualidade do solo com horizonte do solo supercial e o subsupercial.
valores superiores a 5, condição que demonstra
valores abaixo do mínimo aceitável (Figura 5). Por

Tomate SPC Cana SPDH

COBERTURA

EROSÃO
MATÉRIA ORGÂNICA
10

UMIDADE
1
ESTRUTURA

MACROFAUNA COMPACTAÇÃO

ENRAIZAMENTO

Figura 5: Diagrama de avaliação da qualidade do solo em lavoura de tomate manejada em sistema de preparo convencional
(SPC) e de cana de açúcar manejada no sistema de plantio direto de hortaliças (SPDH).

06
Figura 6: Visão geral de perl do solo, para avaliação participativa da
qualidade do solo, em lavoura de tomate conduzida em sistema de
preparo convencional do solo com intensa mecanização.

Figura 7: Vista em detalhe do perl do solo cultivado com tomate em sistema de preparo
convencional do solo.

07
Figura 8: Visão geral do perl do solo para avaliação da qualidade do
solo em lavoura de cana de açúcar conduzida segundo os princípios e
eixos do SPDH por 5 anos.

Figura 9: Vista em detalhe do perl do solo cultivado em lavoura de cana de açúcar conduzida
segundo os princípios e eixos do SPDH por 5 anos.

08
Em outra avaliação da qualidade do solo em O Latossolo Vermelho Distroférrico, apresenta
uma situação contrastante de manejo do solo, em um cor vermelho intensa devido ao alto conteúdo de ferro
Latossolo Vermelho Distroférrico manejado com na forma de hematita, com teores de matéria orgânica
semeadura de aveia preta com cultivo mínimo do solo variando de médios a altos, presença de transição
(CM) em uma gleba e capim marmelada em pousio na difusa entre os horizontes, pers de solo muito
borda da parcela, obteve-se o cenário apresentado na profundos e intemperizados, com alta friabilidade e
Figura 10. Ao analisar o gráco, constata-se que a estrutura granular muito pequena – solos comumente
lavoura de aveia preta somente apresentou os encontrados no Oeste de SC. O diagrama do perl
indicadores de qualidade do solo erosão e retenção de cultural do solo manejado sob sistema de cultivo
umidade com valores superiores a 5, condição superior mínimo (CM) - incorporação das sementes de aveia
ao mínimo aceitável. Mas, a lavoura de capim preta com grade leve e semeadura direta da soja, sem
marmelada apresentou a maioria dos valores dos rotação de culturas e plantas de cobertura, com
indicadores de qualidade do solo mais próximos do sucessão soja/aveia, está apresentada na Figura 10.
lado externo do gráco, condição que demonstra uma Nesta lavoura são utilizados herbicidas para a
melhoria considerável da qualidade do solo em relação dessecação das plantas de cobertura e controle das
à lavoura de aveia preta. plantas espontâneas, além de outros agrotóxicos.

Figura 10: Diagrama de avaliação da qualidade do solo em lavoura de aveia


preta manejada em sistema de cultivo mínimo (CM) e em área com capim
marmelada sob pousio. A linha vermelha representa a lavoura de aveia preta e
a linha preta representa a área com capim marmelada.

Nota-se à esquerda da Figura 11 a presença de ou, com ausência de macroporos e de raízes. Na


uma camada supercial não compactada, que chega a Figura 12 tem-se o detalhe da zona compactada pelo
no máximo 10 cm, na qual estão presentes terra na e tráfego dos pneus das máquinas agrícolas.
alguns agregados que se aproximam do formato Em outro perl cultural da mesma área, situado
original (arredondado). É nesta camada supercial, a na borda do terreno, sob pousio com capim
qual foi trabalhada com grade leve para a incorporação marmelada (Brachiaria plantaginea) (Figura 13),
das sementes de aveia, que se percebe a presença das apesar da presença de uma região adensada no lado
raízes da aveia em início de ciclo. esquerdo da gura, em geral, se tem uma estrutura
Mas, em geral, se tem ao longo do perl (Figura bem formada e agregada, associada a uma adequada
11), entre 5 a 35 cm de profundidade, a presença de distribuição de raízes, que chega a 50 cm de
estrutura com aspecto de maciça com muito pouco e, profundidade (Figura14).
09
Figura 11: Vista do perl do solo de lavoura manejada em sistema de
cultivo mínimo (CM), com sucessão aveia/soja.

Figura 12: Vista em detalhe do perl do solo de lavoura manejada em sistema de cultivo mínimo
(CM), com sucessão aveia/soja. Nota-se no centro do perl a marca da passagem de pneus das
máquinas agrícolas.

10
Figura 13: Vista do perl do solo de área sob pousio e cobertura de capim marmelada.

Figura 14. Vista do perl do solo com distribuição de raízes até


50 cm de profundidade em área sob pousio e com cobertura de
capim marmelada.

11
Referências Bibliográcas

ALTIERI, M. A.; NICHOLLS, C. I. Un método agroecológico rápido para la evaluación de la


sostenibilidad de cafetales. Manejo Integrado de Plagas y Agroecología, Costa Rica, v. 64, p.17-24,
2002.

MACHADO, C. T. T.; VIDAL, M. C. Avaliação participativa do manejo de agroecossistemas e capacitação


em agroecologia utilizando indicadores de sustentabilidade de determinação rápida e fácil. Planaltina:
EMBRAPA Cerrados. 2006. 44p. (Documentos 173).

SÉGUY, L.; BOUZINAC, S.; MARONEZZI, A. C. Sistemas de cultivo e dinâmica da matéria orgânica.
Potafos. Encarte do Informações Agronômicas n. 96, Dezembro/2001. 32p.

VEZZANI, F.M.; MIELNICZUK, J. Uma visão sobre qualidade do solo. Revista Brasileira de Ciência do
Solo, 33: 743-755, 2009.

TIVET, F; SÁ, J. C. M; LAL, R; BRIEDIS, C; BORSZOWSKEI, P. R; SANTOS, J. B; FARIAS, A; HARTMAN,


D. C; NADOLNY JUNIOR, M; BOUZINAC, S; SEGUY, L. Aggregate C depletion by plowing and its
restoration by diverse biomass-C inputs under no-till in sub-tropical and tropical regions of Brazil. Soil &
Tillage Research. v.126, p. 203-218, 2013.
Ao Professor Dr. Pierre Curmi, mestre do perl cultural e parceiro dos trabalhos com SPDH.
Ministério do Secretaria da
Desenvolvimento Agrário Agricultura Familiar P Á T R I A E D U C A D O R A

Você também pode gostar