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CURRÍCULO E SOCIEDADE

AULA 2

Profª Dinamara Machado


Profª Kátia Cristina Dambiski Soares
CONVERSA INICIAL

Olá, aluno, aluna, coordenadores, professores e tutores de polo! Sejam


bem-vindos a esta aula, em que trataremos sobre o histórico do currículo
escolar. O histórico sobre o currículo escolar é muito extenso e complexo;
portanto, trataremos apenas sobre os principais aspectos relacionados com
esta temática. Esperamos que a partir dos elementos aqui apresentados, você
busque saber ainda mais sobre este tema, que é tão importante para a
formação dos futuros professores e pedagogos de nosso país.
Esta aula terá como objetivos:

 Compreender os aspectos gerais que norteiam as definições


curriculares;
 Conhecer as origens da discussão curricular no mundo e
especificamente no Brasil;
 Refletir sobre os movimentos de transferência cultural e idiossincrasia
em termos de currículo;
 Identificar e discutir, a partir do histórico abordado, os avanços e
desafios atuais no campo do currículo nacional.

Conhecer aspectos importantes do histórico a respeito do currículo


escolar nos ajudará a entender melhor a importância dessas definições para a
organização do trabalho pedagógico a ser desenvolvido nas escolas do nosso
país. Convido vocês para acompanharem nossas discussões. Vamos lá?

TEMA 1 – INÍCIO DA DISCUSSÃO SOBRE TEORIA DE CURRÍCULO NO


MUNDO

O pensamento crítico a respeito de currículo no mundo, de modo geral,


começa a ser desenvolvido a partir da preocupação com a educação das
massas, ou seja, quando a educação passa a ser desenvolvida pelos governos
e destinada para as populações de modo geral. Isso significa que é a
industrialização e a migração da população do campo para a cidade que
impulsiona o desenvolvimento de teorias a respeito dos conhecimentos que
devem ser ensinados, e de que maneira o ensino deve ocorrer. Antes disso,
não havia sistematização a respeito do currículo escolar, e a educação era
voltada apenas para as elites, para as classes dominantes.

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De maneira geral, pode-se dizer que existe “relação entre as definições
de currículo e a ênfase dada, conforme a concepção de cada teórico e o
contexto social, cultural e econômico”. (Lima; Zanlorenzi; Pinheiro, 2012, p. 53)
Vamos então destacar alguns importantes educadores que contribuíram
com o início da discussão curricular de forma sistematizada. Esses educadores
foram os americanos John Dewey, Franklin John Bobbitt e Ralph Tyler.
A respeito das principais ideias desses educadores podemos destacar:

 Dewey (1859-1952) – foi o primeiro a utilizar a expressão currículo, na


obra The child and the curriculum (1902). Este autor se preocupava com
o papel do educador, como alguém que organiza o ambiente escolar em
prol da aprendizagem do aluno. Neste sentido, o foco da discussão
curricular era o professor e a crítica aos currículos que eram utilizados
na época, com base numa pedagogia predominantemente tradicional.
 Bobbitt (1876-1956) – escreveu o livro The curriculum (1918), no qual
define currículo como as coisas que as crianças e os jovens devem fazer
e experimentar para desenvolver habilidades que os capacitem a decidir
assuntos da vida adulta. Este autor tinha como foco da discussão
curricular o papel do aluno como sujeito ativo na aprendizagem. Bobbitt
também se destaca por pensar a escola como uma empresa,
destacando a necessidade de estabelecer que resultados se quer
alcançar e os métodos necessários para alcançar tais resultados. Sua
concepção curricular está relacionada com a ideia de racionalidade
técnica instrumental.
 Tyler (1902-1994) – escreveu, em 1949, o livro Princípios básicos de
currículo e ensino. Este autor se destaca por discutir a necessidade de
definir os objetivos do ensino e os fins da educação. Tyler, numa
perspectiva tecnicista, tinha como foco da discussão curricular o método
de ensino.

De modo geral:

Estas concepções de currículo pautam-se em uma visão redentora


frente à relação educação e sociedade, com respostas diferenciadas
na forma, mas defendendo e articulando um mesmo objetivo –
adaptar a escola e o currículo à ordem capitalista, com base nos
princípios de ordem, racionalidade e eficiência. Em vista disso, as
questões centrais do currículo foram os processos de seleção e
organização do conteúdo e das atividades, privilegiando um
planejamento rigoroso, baseado em teorias científicas do processo

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ensino-aprendizagem, ora numa visão psicologizante, ora numa visão
empresarial. (Zotti, 2019)

A partir das ideias de Dewey, Bobbitt e Tyler, é possível perceber que se


inicia a preocupação em organizar de forma mais lógica, ordenada e
sistemática, as ideias sobre currículo escolar. Tais autores tiveram seus
escritos baseados em pedagogias liberais, ou seja, não-críticas, já que não se
abordavam ainda, neste período, questões relacionadas com a crítica à
sociedade capitalista.

TEMA 2 – ORIGENS DA DISCUSSÃO CURRICULAR NO BRASIL

Ao discutirmos as origens da questão curricular no Brasil, devemos


lembrar que já em 1549, os jesuítas trouxeram para nosso país o programa
chamado Ratio Studiorum, baseado numa pedagogia tradicional: “No programa
de ensino, nessa perspectiva, os conteúdos eram selecionados da cultura
universal, sendo, assim, denominados de humanísticos e enciclopédicos, os
quais são repassados como verdades absolutas” (Lima, Zanlorenzi e Pinheiro,
2012, p. 49).
Todavia, é apenas com o movimento escolanovista, por volta dos anos
de 1930, com base na influência de pensadores americanos como John
Dewey, John Bobbitt e Ralph Tyler que a discussão curricular ganha mais rigor
e sistematicidade no Brasil. Os educadores relacionados com o movimento da
escola nova foram muito importantes neste período, principalmente Anísio
Teixeira (1900-1971), Fernando de Azevedo (1894-1974) e Lourenço Filho
(1897-1970). Estes educadores defendiam a escola gratuita, laica e de
qualidade para o povo brasileiro. Com base em Dewey, o educar pela pesquisa
era o norte do processo educativo. E, sobretudo, as propostas curriculares
desenvolvidas nesta perspectiva traziam fortes críticas à pedagogia tradicional
procurando superar o ensino enciclopédico que tinha sua base na
memorização e nos métodos expositivos, na direção de um processo educativo
que privilegiasse o aluno como sujeito ativo e uma aprendizagem significativa.

TEMA 3 – TRANSFERÊNCIA CULTURAL

São vários os autores que se dedicam a estudar o campo do currículo


escolar, no Brasil e no mundo. Entre os autores que abordam a questão
curricular no nosso país, destacamos Pedra (1997) e Moreira e Silva (1994).
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Tais autores ressaltam o fenômeno da influência de outros países sobre a
educação nacional, e denominam este fato de transferência ou transplante
cultural. Isso significa que, quando falamos sobre as influências de outros
países e de seus pensadores sobre as definições curriculares no nosso país,
estamos tratando, de certa forma, sobre um processo ou movimento de
articulação entre diferentes culturas. Isso ocorre em muitas áreas da vida
humana.
Podemos dizer que recebemos interferências externas em áreas
diversas, como arte, moda, música, e também no campo da educação. Isso
acontece porque a educação brasileira faz parte de um contexto muito maior,
que é o contexto mundial.

A inteligência nacional não conseguiu criar pensamento autonômico


sobre o currículo, mesmo porque a tradição brasileira fora a de
programas (mais o feitio francês) e não a de currículo (ideia possível
aos norte-americanos em virtude da grande descentralização do seu
sistema escolar). Assim, não restaram muitas alternativas senão a de
buscar nos textos norte-americanos o conteúdo e a forma do pensar
e fazer currículo. (Pedra, 1997, p. 33)

Todavia, mesmo reconhecendo que sempre houve influência externa


sobre a elaboração dos currículos no nosso país, este movimento não
acontece de forma linear. É sobre a relação dialética de como isso ocorre, em
um movimento de apropriação e renovação/criação, que trataremos no próximo
tópico.

TEMA 4 – IDIOSSINCRASIA E CURRÍCULO

O que é idiossincrasia? Idiossincrasia é um termo que advém da


biologia, e se refere ao que ocorre quando um corpo estranho ou substância
interage com outro organismo. Por exemplo, quando tomamos determinada
vacina ou ingerimos um alimento diferente do que estamos acostumados, há
uma reação própria de cada organismo que recebe o elemento estranho. Esta
reação pode ser de acomodação e integração ao corpo ou rejeição, mas
mesmo a integração ocorre de maneira específica, relacionada com cada
organismo em particular.
E se fizermos uma analogia com o currículo escolar? Neste caso, pode
ter ocorrido uma transferência cultural advinda de outros países, em termos
dos conhecimentos que o currículo particular irá contemplar. Ocorre que tal

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transferência não acontece sem que haja uma articulação própria, específica
em relação ao contexto.

A tradição curricular americana não poderia ter sido introduzida em


nossas universidades sem ter sido “contaminada” pela maneira como
nossos educadores lidavam com questões curriculares, “filtrada”
pelas idiossincrasias das tradições históricas, culturais, políticas e
sociais brasileiras e, finalmente, “adulterada” ao ser transmitida e
utilizada por nossos professores e especialistas. (Moreira; Silva,
1994, p. 42)

Assim, nenhuma determinação externa sobre o currículo brasileiro


ocorre de forma linear, sem adaptações às realidades locais, pois “as
diferentes influências possibilitam o surgimento de costumes próprios, locais,
na maioria das vezes compartilhados, mas que não são uniformes nem
definitivos”. (Ferraço, 2004, p. 89)
Podemos exemplificar de que forma acontece esta relação entre
transferência cultural e idiossincrasia nos remetendo à própria história da
educação brasileira e retomando dois métodos de ensino que vieram de fora
para o nosso país: o método Lancaster ou Mútuo e o Método Lição de Coisas
ou intuitivo, o primeiro na perspectiva da pedagogia tradicional e o segundo da
perspectiva da pedagogia escolanovista. Sobre a incorporação desses
métodos de ensino no Brasil, as autoras Lima, Zanlorenze e Pinheiro (2012, p.
51) ressaltam:

Podemos inferir desses dois métodos relatados – método Lancaster e


método intuitivo – que são experiências estrangeiras que, transferidas
para o Brasil, tiveram adaptações e encontraram resistências,
principalmente em relação ao último método, dada a força da igreja
católica e da pedagogia tradicional.

Outro exemplo mais recente foi a elaboração dos PCNs (Parâmetros


Curriculares Nacionais) em meados dos anos 1990, que teve como principal
consultor o professor César Coll, da Universidade de Barcelona, seguindo o
modelo implementado na reforma curricular da Espanha, numa concepção
predominantemente construtivista. Tal proposta teve influências externas, mas
foi também muito questionada, tendo sido apropriada de acordo com a
realidade das escolas brasileiras, em um movimento que não foi linear, nem
isento de discussões e críticas.

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TEMA 5 – AVANÇOS E DESAFIOS NO CAMPO CURRICULAR

Ao refletirmos sobre os pontos principais da discussão curricular no


mundo e no Brasil, podemos perceber que ocorreram avanços, mas que ainda
existem também muitos desafios para serem enfrentados. Até agora,
procuramos demonstrar que o conceito de currículo engloba múltiplas
dimensões, e com certeza recebe diversas influências de aspectos políticos,
econômicos, sociais e culturais em cada um dos momentos históricos a que
nos referirmos.
Podemos indicar, como avanços no pensamento curricular brasileiro, a
sistematicidade e o rigor na organização, que foi gradualmente se ampliando, o
que pode ser vislumbrado nas diferentes propostas curriculares dos estados e
municípios brasileiros, bem como no crescimento da preocupação com um
currículo que seja de qualidade e destinado para a totalidade da população
brasileira, e não apenas para as elites, dado que esta foi sua característica
marcante, desde as origens, se pensamos no histórico da educação brasileira.
Apenas em meados dos anos 1980, após a elaboração da chamada
Constituição Cidadã, em 1988, é que se desenvolvem algumas propostas
educacionais no nosso país, voltadas aos interesses das classes
trabalhadoras. Destacamos que tais propostas, desenvolvidas em alguns
estados e municípios brasileiros, como a proposta do Currículo Básico do
Estado do Paraná ou a Escola Plural em Minas Gerais, tiveram por base
pedagogias progressistas. Em breve, trataremos sobre a relação entre as
pedagogias progressistas e as propostas curriculares.
Em relação aos desafios, ainda temos um longo caminho a trilhar, pois
ainda não atingimos um nível de qualidade, com garantia de educação para
toda a população, principalmente às camadas mais desfavorecidas econômica
e culturalmente. Nesta direção, muitos pontos ainda precisam ser pensados e
melhorados, como o investimento em estrutura nas escolas, em formação
inicial e continuada de professores, além da garantia ao direito de todos à
educação, ao acesso e à permanência escolar. Ainda temos muito a caminhar
na direção de um currículo que de fato seja contextualizado, com sentido e
significado para os alunos, e que se desenvolva numa perspectiva claramente
contra hegemônica, ou seja, que se coloque na direção contrária às políticas

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neoliberais atuais, buscando a superação e a crítica às relações desiguais e
injustas que se estabelecem no contexto da sociedade capitalista.

NA PRÁTICA

Temos no Brasil, na atualidade, um documento advindo do Ministério da


Educação (MEC), e que deve orientar a organização das propostas curriculares
das escolas da Educação Básica, ou seja, Educação Infantil, Ensino
Fundamental e Ensino Médio.
De acordo com o MEC, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) é
um documento de caráter normativo, que define o conjunto orgânico e
progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem
desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica.
A BNCC define conhecimentos, competências e habilidades que devem
ser desenvolvidas pelos alunos ao longo da Educação Básica no nosso país.
Por este motivo, é importante conhecer este documento.
Para tanto, acesse o site: <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/a-
base>. Analise a Base Nacional Comum Curricular no que se refere aos
conteúdos da área de Linguagens para o Ensino Fundamental, anos iniciais, e
organize suas observações a partir dos seguintes tópicos:

 Como estão organizados os conteúdos (conhecimentos / componentes


curriculares)?
 Quais os conhecimentos, competências e habilidades que aparecem em
destaque e qual seria o motivo?
 Você acredita que é possível implementar esta proposta? Quais seriam
as maiores dificuldades para colocar em prática a BNCC?

FINALIZANDO

Nesta aula abordamos um breve histórico a respeito das origens do


pensamento curricular no Brasil e no mundo. Vimos que a área acadêmica
voltada para a discussão do currículo escolar se desenvolveu, no Brasil, com
maior rigor e sistematicidade a partir das décadas de 1920 e 1930, tendo por
base as ideias dos educadores do movimento escolanovista.
Neste período, tivemos grande interferência do pensamento de autores
norte-americanos, entre os quais John Dewey, John Bobbitt e Ralph Tyler. As

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ideias desses autores contribuíram para que as discussões curriculares se
voltassem para aspectos importantes da prática pedagógica, como o papel do
professor e do aluno e a questão do método de ensino.
Vimos também que, desde suas origens, a teoria e a prática vinculadas
com a discussão sobre currículo, no Brasil, estiveram voltadas principalmente
para o atendimento dos interesses das elites ou classes dominantes, e que é
mais recente na nossa história a preocupação com uma educação de
qualidade destinada ao conjunto da população – apenas a partir dos anos
1980, após a Constituição de 1988, quando se desenvolvem pedagogias
progressistas, como a Libertadora e a Histórico Crítica, que em breve serão
assunto de nossas aulas.
Para encerrar, fizemos um breve balanço, elencando pontos em que
avançamos e pontos que ainda nos desafiam na direção da construção de um
currículo escolar que de fato se comprometa com um projeto contra
hegemônico de sociedade.
Finalizando, trazemos o alerta do professor Antônio Flávio Moreira,
importante estudioso da área de currículo no Brasil. Segundo Moreira (2000, p.
110):

Dominantemente, têm sido estudadas as reformulações curriculares


oficiais que se realizam segundo a ótica neoliberal. As que procuram
caminhar em direção contrária ao discurso hegemônico ainda têm
sido pouco focalizadas, ao menos no Brasil. Em outro estudo (Moreira
1998), argumento que análises dessas propostas alternativas, que a
meu ver se fazem bastante necessárias, podem contribuir tanto para
o avanço do conhecimento no campo do currículo como para
estimular outras reações. A intenção não é a busca da alternativa,
mas a divulgação de alternativas que se fazem viáveis em
determinados espaços e em determinados momentos históricos, para
que se promovam inteligibilidades e cumplicidades recíprocas.

Precisamos, portanto, conhecer, pensar, analisar e buscar implementar


propostas alternativas de currículo, que nos auxiliem a romper com a tradição
histórica de um ensino voltado para as elites, um ensino dualista que pouco
tem contribuído com a formação das classes trabalhadoras. Como afirma
Moreira (2000), precisamos caminhar em direção contrária ao discurso
hegemônico.

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REFERÊNCIAS

FERRAÇO, C. E. Os sujeitos praticantes dos cotidianos das escolas e a


invenção dos currículos. In: MOREIRA, A. F.; PACHECO, J. A.; GARCIA, R. L.
Currículo: pensar, sentir e diferir. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

LIMA, M. F.; ZANLORENZI, C. M. P.; PINHEIRO, L. R. A função do currículo


no contexto escolar. Curitiba: Ibpex, 2011. (Série Formação do Professor).

MOREIRA, A. F. B. Propostas curriculares alternativas: limites e avanços.


Educ. Soc., Campinas, v. 21, n. 73, p. 109-138, dez. 2000. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
73302000000400009&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 13 jun. 2019.

MOREIRA, A. F.; SILVA, T. T. da (Org.). Currículo, cultura e sociedade. São


Paulo: Cortez, 1994.

PEDRA, J. A. Currículo, conhecimento e suas representações. Campinas:


Papirus, 1997.

ZOTTI, S. A. Currículo. Glossário, 2019. Disponível em:


<http://www.histedbr.fe.unicamp.br/navegando/glossario/verb_c_curriculo.htm>.
Acesso em: 13 jun. 2019.

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