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Cartilha Técnica

2018

Patrícia Guimarães Araújo, Allyson E. Nardelli, Stefane Saruhashi, Fungyi Chow


Patrícia Guimarães Araújo, Allyson E. Nardelli, Stefane Saruhashi, Fungyi Chow

Monitoramento ambiental do cultivo de


Kappaphycus alvarezii

1ª Edição

Instituto de Biociências
Universidade de São Paulo
São Paulo

2018
IB/USP
Universidade de São Paulo
Instituto de Biociências

Autores:
Patrícia Guimarães Araújo, Allyson E. Nardelli, Stefane Saruhashi, Fungyi Chow
Ilustrações:
Stefane Saruhashi
Capa:
Patrícia Guimarães Araújo
Fotos:
Patrícia Guimarães Araújo, Fungyi Chow

A663 Araújo, Patrícia Guimarães


Monitoramento ambiental do cultivo de Kappaphycus alvarezii /
Patrícia Guimarães Araújo, Allyson E. Nardelli, Stefane Saruhashi, Fungyi Chow;
ilustração Stefane Saruhashi – São Paulo: IBUSP, 2018.

17p. ; il.

ISBN: 978-85-85658-76-2

1. Macroalgas. 2. Algicultura. Monitoramento Ambiental. I. Nardelli,


Allyson E. II. Saruhashi, Stefane. III. Chow, Fungyi. IV. Título.

LC:QK 565.6

Bibliotecária responsável pela catalogação: Elisabete da Cruz Neves. CRB - 8/6228.


APRESENTAÇÃO

A cartilha Monitoramento Ambiental do Cultivo de Kappaphycus alvarezii


representa um dos resultados do Projeto SeaFeed – Ingredientes sustentáveis para
alimentos e ração animal a partir de macroalgas, idealizado pelo Instituto de
Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e Instituto Fraunhofer IVV
(Alemanha), em parceira com o Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento do Litoral
Norte do Instituto de Pesca/APTA/SAA, Instituto de Botânica (IBt/SP), Universidade
Estadual Paulista (Unesp) e Cia das Algas.

Este material descreve de forma simples e didática os procedimentos necessários


para realização do monitoramento ambiental do cultivo de K. alvarezii, baseado em
pesquisa realizada no litoral de Ubatuba por uma equipe especializada do IB-USP e
do Instituto de Pesca, e pretende atender, principalmente, o pequeno maricultor no
litoral sudeste do Brasil.

Esperamos que esta cartilha possa contribuir para o desenvolvimento do cultivo


sustentável de algas marinhas no litoral brasileiro, bem como incentivar as ações
fundamentadas nos princípios da bioeconomia, favorecendo o desenvolvimento
sustentável do país.

Patrícia Guimarães Araújo e Fungyi Chow


Kappaphycus alvarezii: CULTIVO E IMPORTÂNCIA ECONÔMICA

Kappaphycus alvarezii é uma alga marinha


nativa da região do Indo-Pacífico. Ela cresce
em ambientes tropicais, em áreas rasas
e claras, protegidas das ações das
ondas e de fortes correntes, com
temperatura variando entre
25 a 30°C.

É uma alga de grande porte,


de consistência firme e com muitos
ramos pontiagudos.

Ocorre em diversas tonalidades da


cor vermelha, verde e marrom, sendo
denominadas como variantes de cor.

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A partir da década de 60, Kappaphycus tem sido introduzida e cultivada em diversas
regiões do mundo. Os cultivos são realizados em balsas ou cabos long-line flutuantes ou
próximos ao fundo e o ciclo de produção varia entre 45 a 60 dias.

Kappaphycus é usada, principalmente, na produção de carragenana, um tipo de


gelatina utilizada na indústria alimentícia. Também poder ser usada como adubo
orgânico e ração animal, além de possuir propriedades antioxidantes que podem ser
empregadas nas indústrias farmacêutica, cosmética e de nutrição.

Por ser uma alga exótica, o cultivo de


Kappaphycus alvarezii no Brasil está autorizado
apenas para a região entre Baia de Sepetiba (RJ)
e Ilha Bela (SP), conforme a Instrução
Normativa IBAMA N° 185/2008, que
estabelece as condições de
cultivo e a execução de um
plano de monitoramento
ambiental para o funcionamento
das fazendas de algas.

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MONITORAMENTO AMBIENTAL DO CULTIVO DE Kappaphycus alvarezii

As ações de monitoramento ambiental são de grande importância


e permitem o acompanhamento e controle de possíveis Monitoramento
dispersões de fragmentos da alga no ambiente, do costão
rochoso
evitando impactos ambientais.

De acordo com estudos dessa alga para a


Monitoramento
Monitoramento
região sudeste do Brasil, recomenda-se que ambiental
a través de
mergulho
o monitoramento ambiental seja realizado
em três etapas:
1) monitoramento dos costões rochosos e praias Monitoramento
das estruturas
adjacentes; reprodutivas
2) monitoramento através de mergulho na área do cultivo
e área do entorno;
3) monitoramento das estruturas reprodutivas das algas.

O plano de monitoramento deve ser apresentado pelo maricultor/empreendedor


para avaliação e aprovação pelo respectivo órgão público fiscalizador.

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ETAPA 1: MONITORAMENTO DOS COSTÕES ROCHOSOS E PRAIAS

A Etapa 1 do monitoramento ambiental é


fundamental para verificar se as algas do
cultivo estão se dispersando para as áreas
adjacentes no costão rochoso e nas praias. Ela
consiste em uma vistoria de áreas pré-
selecionadas, denominadas áreas de
monitoramento.

A escolha das áreas de monitoramento deve-se


basear em critérios como: proximidade da área a ser
monitorada do cultivo, direção das correntes e ventos que podem
influenciar na dispersão de fragmentos de algas ou estruturas
reprodutivas, acessibilidade e logística das condições ambientais adequadas para o trabalho,
como o batimento das ondas. O número de áreas de monitoramento pode variar de acordo
com o tamanho do cultivo, ciclo de produção e características ambientais. As coordenadas
geográficas de cada área de monitoramento devem ser registradas.

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Para o monitoramento serão necessários os seguintes materiais:
✓ cabo com 20 m de comprimento, marcado a cada ½ metro;
✓ quadrado de 50 x 50 cm, que pode ser feito
com cano de PVC, varão de ferro ou alumínio;
✓ prancheta de anotação à prova d’água e lápis;
✓ máquina fotográfica a prova d’água;
✓ sacos plásticos ou de malha de rede.

O monitoramento deve ser realizado por duas


pessoas na região entremarés durante o período de
maré baixa.

Prévio ao monitoramento, devem ser sorteados


20 números de 0 a 40 e anotados na prancheta.
Esses 20 números corresponderão aos pontos de
amostragem ao longo do cabo de 20 m.

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Na área de monitoramento, durante a maré baixa, estender o cabo paralelo à linha
d’água, logo acima desta. Em seguida, colocar o quadrado no primeiro ponto sorteado
do cabo. A área do quadrado deve ser vistoriada cuidadosamente quanto a presença de
fragmentos de Kappaphycus, e anotadas as seguintes
informações: data do monitoramento,
características ambientais da área de
monitoramento (praia, costão rochoso,
área protegida ou batida, etc), presença ou
ausência de fragmentos em cada quadrado,
número de fragmentos de Kappaphycus,
quando presentes.

Quando possível, registrar por


meio de fotografias as áreas
de monitoramento, os quadrados analisados
e os fragmentos encontrados.

Deve-se seguir estes procedimentos para os 20 pontos sorteados em cada área de


monitoramento.

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Caso seja encontrado qualquer fragmento de Kappaphycus fora do cultivo, este deve
ser imediatamente coletado, e registrados data e local onde estavam presentes o
fragmento.
Os pedaços de algas recolhidos do ambiente devem ser pesados,
com a alga fresca (peso úmido) ou seca ao sol (peso seco). Estes
fragmentos podem ser reaproveitados pelo
maricultor/empreendedor como mudas, para venda, etc.

O monitoramento deve ser realizado sistematicamente,


considerando o ciclo de produção de algas e o tamanho
do cultivo. Recomenda-se que o monitoramento dos costões
rochosos e das praias sejam realizados a cada 2 ou 3 meses.

Em caso de dúvida quanto à identificação de Kappaphycus,


procurar instituições de pesquisa e extensão que possam
auxiliar na identificação do material. A alga pode ser
congelada ou conservada em álcool comercial.

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ETAPA 2: MONITORAMENTO ATRAVÉS DO MERGULHO
NA ÁREA DO CULTIVO E ÁREA DE ENTORNO

A Etapa 2 tem o objetivo de vistoriar a presença de fragmentos de Kappaphycus


flutuando na coluna d’água na área do cultivo e áreas de entorno. Esta etapa pode ser
realizada através de mergulho autônomo ou livre na região abaixo das balsas de cultivo
e áreas do entorno.

Para esta etapa de monitoramento serão necessários:


✓ equipamentos de mergulho;
✓ sacos plásticos ou de malha de rede;
✓ máquina fotográfica a prova d’água;
✓ poitas ou pequenas âncoras para demarcação.

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É importante realizar um mergulho prévio para avaliar as condições ambientais e
visibilidade da água, além do reconhecimento das melhores regiões para distribuição das
faixas de monitoramento no fundo abaixo das balsas de cultivo. A
partir deste mergulho, devem ser estabelecidas de três a cinco
faixas paralelas entre si, com 50 cm de largura cada uma.

O número e comprimento de faixas podem variar


de acordo com o tamanho da área do cultivo.
O importante, é que estas faixas estejam
dispostas de maneira que abranjam toda
a área do cultivo e áreas de entorno.

As faixas podem ser demarcadas nas suas


extremidades usando referências naturais presentes
no ambiente como pedras, poitas ou outras
estruturas presentes no fundo, ou fazer uma
demarcação com poitas ou pequenas âncoras.

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A Etapa 2 do monitoramento deve ser realizado através de uma vistoria cuidadosa da
presença de fragmentos de Kappaphycus em cada faixa demarcada, através de
mergulho livre ou autônomo.

Os fragmentos devem ser


coletados e acondicionados
em saco. Todas as observações do
monitoramento pelo mergulho
devem ser anotadas ao final da
atividade, tais como: data,
coordenadas geográfica da área de
monitoramento, características do fundo (fundo de areia, lama, pedra, etc), presença ou
ausência de correntes e suas direções, presença de animais que se alimentam da alga
como tartarugas, algumas espécies de peixes e lesma do mar.

Se possível, fotografar as faixas de monitoramento e características gerais do


ambiente abaixo do cultivo e das áreas de entorno. Todos os fragmentos coletados
durante o mergulho devem ser pesados (peso úmido ou seco) separadamente por
faixas, e podem ser reaproveitados como mudas ou para venda.
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ETAPA 3: MONITORAMENTO DAS ESTRUTURAS REPRODUTIVAS

A Etapa 3 tem a finalidade de avaliar se as algas do cultivo estão desenvolvendo


estruturas reprodutivas, e deve ser realizada com apoio de uma instituição de pesquisa
para melhor avaliação da presença destas estruturas de reprodução.

Para esta etapa do monitoramento serão necessários os seguintes materiais:


✓ baldes pequenos;
✓ sacos de malha de rede;
✓ caixa térmica;
✓ lupa de mão com aumento de, no mínimo, 10x.

Devem ser coletados de forma aleatória, 10 fragmentos com aproximadamente 10 cm


de comprimento, de diferentes mudas para cada variante de cor (verde, vermelha,
marrom), totalizando, 40 fragmentos de algas. Os fragmentos devem ser coletados da
porção do meio de cada muda e acondicionados em sacos separados por cor.

Estas algas coletadas devem ser acondicionadas em caixas térmicas, protegidos da


luz e do calor.

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Cada fragmento deve ser cuidadosamente analisado quanto à presença de estruturas
reprodutivas. No primeiro momento, esta análise pode ser realizada com auxílio de uma
lupa de mão com aumento, de pelo menos 10x. Com a lupa de mão será possível
observar estruturas reprodutivas semelhantes a verrugas, denominadas cistocarpos.

Estruturas reprodutivas de menor


tamanho, conhecidas como
esporângios e gametângios,
somente serão possíveis de analisar
através de lupa e microscópio de luz em
laboratório, com auxílio de um especialista.
Por isso a importância do apoio de
instituições de pesquisa ou universidades.

Até a análise em laboratório, o ideal é manter os fragmentos de algas vivos em um


balde com água do mar, guardado em local fresco, protegido da luz e do calor excessivo.
A água do balde deve ser periodicamente trocada. Caso isso não seja possível, manter
as algas em álcool comercial, protegidas do calor e luz excessiva.

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Ressaltamos a importância do monitoramento ambiental para o desenvolvimento da
produção de Kappaphycus alvarezii, promovendo uma atividade econômica sustentável e
ambientalmente responsável.

Destacamos para a importância da execução


das três etapas do monitoramento de forma
sistemática, enquanto houver cultivo de
Kappaphycus alvarezii no mar.

Todas as informações do monitoramento devem ser


devidamente registradas e, quando possível, fotografadas.

Qualquer fragmento de Kappaphycus fora do cultivo


deve ser coletado.

Finalmente, qualquer dúvida sobre procedimentos


do monitoramento ambiental e identificação do
Kappaphycus não hesite em procurar instituições de
pesquisa, universidades e entidades ambientais públicas e privadas para assessoria.

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Anexo 1. Endereço e contato de instituições de pesquisas no Estado de São Paulo que
podem assessorar na identificação de Kappaphycus e monitoramento de estruturas
reprodutivas.

Laboratório de Algas Marinhas Édison José de Paula


Instituto de Biociências – Universidade de São Paulo
Rua do Matão, 277 – Butantã, São Paulo, SP 05508-090
Telefone: (11) 3091-7555
Site: http://www.ib.usp.br/pesquisa-botanica/laboratorios/biologia-de-algas.html

Núcleo de Pesquisa em Ficologia, Instituto de Botânica de São Paulo


Av. Miguel Stéfano, 3687 – Água Funda, São Paulo, SP 04301-902
Telefone: (11) 5067-6000
Site: http://www3.ambiente.sp.gov.br/institutodebotanica/ficologia/

Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento do Litoral Norte Instituto de


Pesca/APTA/SAA
Estrada Prof. Joaquim Lauro Montes Claros, 2275, Praia de Itaguá, Ubatuba – SP 11680-000
Telefone: (12) 3832-1254
Site: http://www.pesca.sp.gov.br/

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Anexo 2. Fragmento de Kappaphycus atirado a praia, e alga que pode ser confundida
com Kappaphycus.

A) Fragmento de Kappaphycus alvarezii B) Fragmento da alga verde Codium.


atirado à praia.

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Contato dos autores

Patrícia Guimarães Araújo


pgaraujo18@gmail.com

Allyson E. Nardelli
allyson.nardelli@usp.br

Stefane Saruhashi
stephane.saruhashi@gmail.com

Fungyi Chow
fchow@ib.usp.br

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REALIZAÇÃO APOIO

PARCEIROS