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CASSIANO RICARDO

JOÂÒTÒRTQ
iii:
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1JVUAKIA /O S # QLYMP10 EDITÔRÀ.


Concordo plenamente com Manuel
Bandçtra, sObre o “ caSo” *Cassiano R i-
"carflo è sobre esta “ A Pace perdida”;
Verdadeiramente uma grande obra deste
ano santt) de Í95CH \
J O R G E ,D E LIM A"

Desde “ TJm dia' depois do outro”


. CassianO t RiçardB xvem nos oíerecendo
múltiplas, facetas do seu excepcional
pdder de" §jn£ese pòetíca. *
j £ f f R E tN A L D O BA IR Ã O

' *$*.>*•
• “ Con^üçlo, g^us mais recentes livrps
constituem' urna revolução do. poeta coji-
trsÇ si ^nesmo, um superar-se tanto na'
linguagem como nos assuntós, que pro­
vam a conquista de> um plano mãi&
amplo -da criaçãor através da. pr^serva-
ção -das fonfes, de poesia. <^‘ A Face
Perdida” é- uma obra*de poemas sólidos»
cõnstruidos em’ blocos* de extrsiordiná-
rio manuseafhento x ocabular.”
' A N T O N IO O II N T O -á

“ Êste livro*.vem mostrar aos homens


comuns, àqueles que não»nasceram ino-
•culados do , ópio * das rosas do sangüe,
e mesmo a uns outros jque se dizem
poetas jfia s. que não passam de mistifi-i
cádoresj-quao dolorosa é a missão do
yerdadeíro poeta.”
CTRO PIM EHTEL

- “ Sempre descobrindo novõs rumos e


dilatando cada yez mais o espaço e a
vivência.- dá poesia brasileira Cassiano
Ricafdo surge;com outro livro, “ Poemas
Murais”, tão*' denso e forte como» “ A
íV c e Perdida” .
• JOSÉ TAVARE3S DE* M IR A N D A
Mim immv1 1,i, nostos “ Murais” , chega
n Mor oMcundiilosa de tanto penetrar a
min (Iiih coisas e no-las revelar com o
acento «• a pureza dos grandes can-
tortflt
Quo presença do homem no artista e
(íoimu os dois nos servem de exemplo!
(JAULOS DRUMMOND D E A N D R A D E


Verlfica-se que êste livro é a conse­
qüência de uma fase de recolhimento e
meditação. O poeta voltou-se para den­
tro de sl mesmo, interiorizou-se, e des­
cobriu um mundo que afinal era bem
maior artisticamente do que aquele de
Martim Cererê e Vamos caçar -papa­
gaios. Por êste caminho, êle chegou à
simplicidade, ao espírito sintético, ao
despojamento de exterioridades, que en­
contramos num pequeno e excelente
poema como “A orquídea” .
A L VA R O LINS

I ★
E eis que em 1947 lança o poeta o
livro“ Um dia depois do outro”, que ta­
manha surpresa causou aos que, como
eu, não suspeitavam que em Cassiano
Ricardo houvesse um grande poeta
encadeado.

Nestes versos, e em tantos outros


(leiam-se os poemas “ Noturnidade”,
“ Canção muito clara”, “ A sétima que­
da” ) está a verdadeira face perdida
no tumulto da mocidade mas feliz­
mente achada no limiar da velhice. Ela
guarda toda a frescura da infancia, toda
a elasticidade de músculos e de nervos,
capaz de “records” como o de em “ O
marujo e dona Sanja”, glosar olhos
verdes depois de Camões.
M A N U E L B A N D E IR A

Considero o aparecimento do seu li­


vro “ Um dia depois do outro” algo
formidável entre nôs.
JOSÉ GERALDO V IE IR A

$•' ★
- .. .fico a pensar se o titulo de um
poema, “ Dialogo na fronteira” não se
aplicaria de preferência a toda a poesia
desse volume, em que o autor da “A
Face perdida” chega, sob muitos aspec­
tos, á culminação de sua obra.
PERICLES EUGENIO D A SILVA
RAMOS
*
E ’ agora, nesta “ A Face perdida”
que Cassiano Ricardo remata o seu re­
encontro consigo mesmo e consegue
«levar, com isso, a poesia nacional ás
grandes paragens da universidade.
CÂNDIDO M OTTA FILHO
A FÁBULA DE
JOÃO TORTO

A mitologia é a filosofia do
mundo primitivo.
Não convem o filosofo jogar
pedras às casas de vidro do seu
antecessor — o criador de mitos.

FRAZER
• (Myths of the origin of fire)
DO AUTOR:

“ Dentro da Noite” — 1917 (esgotado).


“ A frauta de Pâ” — 1918 (esgotado).
“ Vamos caçar papagaios” — 1947 (3’ edi­
ção).
“ Borrões de verde e amarelo” , — 1947, 2* edi­
ção.
"Deixa estar, jacaré” — 1931.
“ O Brasil no original” (ensaio) 2* edição
1936.
“Discurso de recepção na Academia Brasi­
leira”, 1938.
“ O negro na bandeira” (ensaio) in Rev. do
Arquivo Municipal de S. Paulo, 1938.
“ A Academia e a Poesia Moderna” (ensaio
1939.
“ Martim Cererê” (poesia) 9* edição, 1947.
“ Martim Cererê” (versão espanhola) de Emi-
lia Bernal, Madrid, 1954.
“ Pedro Luís visto pelos modernos (crítica
literária, 1939.
“ Marcha para Oeste” (ensaio, dois vols.) 2*
edição, 1942.
“ O Sangue das Horas”, (poesia), 1943.
"A Academia e a Língua Brasileira” (ensaio)
in “Revista da Academia Brasileira de
Letras, Ano 40, vol. 61.
“ Um dia depois do outro", (poesia) 1947.
“ A face perdida”, 1950.
tePoemas murais”, 1950.
“ 25 Sonetos”, Ed. Hipocampo, 1952.
“ A poesia na técnica do romance”, 1953.
“ O Tratado de Petrópolis9>, 1954.

NO PRÉLO:
“ Pequeno ensaio de bandeirologia” (ensaio).
CASSIANO RICARDO

JOAO TORTO
E A FÁBULA
1 9 3 1 -1 9 5 3

1956
LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITÔRA
R U A DO OUVIDOR, 110 — RIO D E JANEIRO
Prefácio
desnecessário
»

I
Pescador,t viu êle cair a bomba de hidrogênio sobre
a ilha deserta.
Olhou-se no espelho, o seu rosto estava torto. Sentiu-
no inocente, como homem algum no mundo o havia sido
antes.
Além de torto, monstruosamente inocente.
Sua mulher, Rosamusa, essa morreu na explosão
que, por sinal, desintegrou a palavra “ maravilha em três” :
mar, ave e ilha.
II
Passa, então, João Torto por várias outras defor­
mações (as “ deformações” substituem aqui as “ meta­
morfoses” do mundo mágico):
No primeiro ato chora êle sobre o cadáver de Rosa­
musa; mas não convence. Quer enterrá-la mas não o
consegue, porque ela é uma morta-viva.
No segundo ato, faz de RoscMiwsum banquete “pan-
tlrico” ; e, de um ôsso que lhe ficou do banquete, faz
uma flauta.
No terceito se transforma em Pã; vai contar aos
deuses o que se passa na Terra, mas é escorraçado.
— Aqui não se acredita em fábula.
No quarto ato entra no barco de Ulisses, que vira
no cinema, e vai visitar os que morreram por nós; cai,
porém, prisioneiro de Belfulgor e de Fulgobel.
No quinto, assiste a uma chuva de paraquedistas.
No sexto, monta um cavalo de jardim publico e dá
volta ao mundo, por excesso de imaginação e velocidade.
No sétimo, se oculta dentro de uma enorme girafa
(Zarafa) espécie de cavalo de Tróia, e comparece a um
comício de lunáticos.
No oitavo é levado à cadeira elétrica.
No último, um Egipã entrega a El Rey a derradeira
mensagem de João Torto.
III
Embora se aluda, aqui, a atos sucessivos, a orienta­
ção não chega a ser linear; tanto pode a leitura ser
feita no começo para o fim, como pode o leitor, se o
preferir, entrar no livro por qualquer lado, talqual num
poema “ rosáceo” .
Aliás, João Torto figura nas três pessoas: na pri­
meira, por ex., em “ Canto imediato"; na terceira, em
(<Visita aos deuses"; na segunda, em "Cadetira elétrica".
Se se puder falar numa quarta pessoa, estará êle <
(sobrevivente) na figura de Egipã, em “ Fim de comício
Ê o caso do personagem descontínuo; uma tenta­
tiva, ao mesmo tempo, de substituir heterônimos por
pessoas gramaticais mas também simbólicas.

IV
Peças periféricas que compõem a narrativa:
Uma fábula (A enterrada viva) uma lamentação
bíblica (0 espelho torto) uma rapsódia (Eu no barco de
Ulisses) e uma farsa (Cavalo em flor).

V
Quanto à autoria dos poemas, só dois são meus:
a “ Dedicatória", em que apresento João Torto ao leitor;
e “ Cadeira elétrica", em que procuro consolá-lo à hora
da morte.
Todos os outros são dele, nas três pessoas.
DEDICATÓRIA
Ao claro tempo, ao tempo
das metamorfoses,
não havia horizonte
na alegria do ser
e do acontecer.

Havia a graça aérea


com que as coisas brincavam
de ser e de não ser,
no jardim da matéria.

Hoje uma coisa passa


a ser outra coisa;
nascem anjos sem asa
dentro do dicionário;
um monstro, um dragão
em lugar de um canário.
Não pela alegria
da metamorfose.
Mas por deformação
de cada ser, ou flor,
em sua geometria.

n
Não te levarei,
ó azul, ó gentil aeromoça,
ao laranjal florido,
ao palácio do rei.

Não irás ver comigo


as Metamorfoses
de Ovídio e de outrora,
mas a vida que é o rosto
das mil e uma feições;
mas as deformações,
divindades de agora.

Não irás vêr Júpiter


mudado em cisne, em tfouro.
Nem Aretusa em fonte;
nem a deusa que um dia .
passou a ser a ave
de uma constelação.

•Irás vêr comigo,


num espelho torto,
entre o número e a rosa
da vida numerosa,
o mundo onde ora estão
as tristes outras coisas
que hoje. as coisas são.

(Que é a esperança? uma espera


no*outro lado da esfera?
Ou um dado de fogo
numa mesa de jogo?)
10 até que chegue o dia
rias novas hamadríadas,
cantarei os lunáticos
ao invés dos lusíadas.
A ENTERRADA VIVA
(FÁBULA)
A Péricles da Silva Ramos
CANTO IMEDIATO

Um pássaro pousou
em seu corpo, tranquila­
mente.
Como a querer ouvi-la.
E me disse: está morta.

Busquei, então, beija-la.


Para ouvir sua fala,
mordi-lhe, como um louco,
os dois seios renhidos.
A sua boca, muda, t
me disse: está morta.

O rubro caranguejo,
que mora no Zodíaco,
desceu, então, á praia,
para examina-la...
E feriu-a com as patas
denticuladas.
E me disse: está morta.

Mas, como poderia


estar súbito morta,
misteriosa opala,
aquela que inda ha pouco
era uma coisa viva?
Viva como a certeza
de um rosto que ri,
de uma boca que fala?

Não faz senão uma hora


que os seus olhos brilhavam
decisivamente
como duas lanternas.
Que eu amansava, rude,
a sua carne em flor,
formada por duas rosas,
sua rosa diurna,
sua rosa noturna,
na roseira do amor.

Que eu mordia o seu lábio,


carnudo mas terrivel­
mente sábio. Que as suas
duas roliças pernas,
com volúpia irascível,
me prendiam, ferozes,
qual se fossem eternas.
Com a tenacidade
rubra das tenazes.
Como dois afluentes
do rio de óleo e sal
que era o seu denso corpo
longitudinal.

Mas como poderia


estar súbito morta
a única que sabia
a origem do fogo -
que o beija-flor da fábula
lhe contara, em segredo?.

Aquela que inda ha pouco,


entre as luzes da sala,
era uma coisa viva?
Viva como a certeza
de um rosto que ri,
de uma boca que fala?
O ENTERRO IMPOSSÍVEL

Entérro seu cadaver num deserto


porém a arêia não quis decompô-lo.
Não o desfez. Antes, cobriu-o de ouro.

Enterrei-a sob as raizes mais fundas


mas os meus gestos se tornaram aves,
e subiram pelo perfil das árvores.

Enterrei-a no vale e as borboletas


vieram dançar, brancas, sobre o que fiz.
Exumei-a, era um goivo a sua efígie.

Como enterra-la, e onde? em que país?


Como levar comigo a jovem morta,
como escondê-la e por que oculta porta?

Na arêia, numa esponja, na floresta?


se a tèrra, a arêia, o azul, a onda, o cácto,
me restituiam o seu corpo intácto?
O FRUTO E A FRUTA

Como quem reluta


entre um fruto e uma fruta,
os seios bem vivos.
Louros cómo dois jambos.

E com a fome de amor


repartida entre ambos
por dolorosa e neutra.
Penso em esconde-los
com os teus próprios cabelos.
Sem saber qual dos dois
hei de beijar primeiro
se isso importa em deixar
o outro para depois. . .

Ou apenas porque
não podia estar morta
quem tinha o olhar verde.

Ou apenas porque
verde, não em pintura
mas na sintaxe lírica,
quer dizer tão alto
que a fome não a alcança,
como a uva da fábula.

Verde quer dizer vivo,


pois não pode estar morta
a mulher de olhar verde.

Só pela estranha graça


do teu olhar (tão verde
que me causou medo,
como se me quisésse
contar o teu segredo)
antes chamei os pássaros,
"vinde para vêrdes
a graça imaterial
que ha nos seus olhos verdes”

Mostrei-lhes, no meu léxico,


todos os significados
da palavra verde.

E os pássaros me disseram
que sim, que os teus olhos
se não eram, estavam,
estavam, muito verdes.

(Porque os pássaros sabem


que o maduro é dourado,
e que o branco é frio
e o fruto quando é verde.)
4

Chamei, tambem, o signo


do Zodíaco, a essa hora
(era o Sagitário)
que me disse as seguintes
palavras aladas:

"Se ninguém a aceita


como morta, por verdes
serem os seus olhos,
precisarás morrê-la,
minuto por minuto
enterrando-a em ti mesmo;
tanto quanto uma coisa
possa morrer a outra,
tanto quanto o fruta
da árvore morre a árvore
no chão do absoluto.”
(E explicou-me que o verbo
morrer é transitivo,
tèm algo de vivo.)

Chamei as borboletas:
vinde, vós que saistes
de crisálidas pretas.
Pousai sobre o seu corpo
em que morreu a graça
da metamorfose.
Dai-lhe as vossas asas.

17
Como poderei, eu,
transforma-la numa ave
ou numa sempreviva?

Como poderei, eu,


morrer o quanto baste
para poder morre-la?
Como poderei, eu,
enterra-la em mim mesmo
(entêrro em carne viva) ?

Onde o tempo em que os homens


tanto podiam ser
como deixar de ser
agora e a qualquer hora?

Onde a asa, o espírito


com que as pedras, de súbito,
passavam a ser flores?
Onde a festa mágica
das formas e das cores?

Porém as borboletas
me disseram, mais práticas:
“ Se não existe mais
metamorfose, desde
que ela rolou morta
entre os dois hemisférios
(como nota de música
que caiu da pauta;
sem se transformar
num lírio, ou numa flauta)
por que não ofereces
o seu sangue à aurora
que é tão pálida, agora?
e não dás de presente
aos pirilampos, sua
alva carne de estrela?
e não dás de comer
os seus ossos à lua?

7
Quis, ainda, guardar-te
numa urna marajoara,
e eis que me vi em meio
a um bando de antropófagos,
de súbito descidos
de um disco voador
na floresta dos homens.

E sem que eu lhes pedisse


um parecer qualquer,
eis que um dêles me disse:

“ Por que não a ofereces


qual pomba, aos canibais?
Únicos inocentes
no pecado da fome?
Fome que não é de hoje,
a das gréves, mas a outra,
a fome original,
a que está na alegria
de uma boca que come?
Não a que exige o suor
com que hoje se amassa
ò pão de cada dia,
mas a que tem a graça
de tornar convivas
de um mútuo banquete
todas as coisas vivas?

E não moras, acaso,


num país em flor,
onde a antroppfagia
é uma forma de amor?”

Realmente, pior que tudo


era a minha fome
cruel e simbólica.
Era o verbo morrer
ter algo de vivo;
ser tambem transitivo.

20
MISSA DE CORPO PRESENTE

O seu corpo tão alvo, o seu corpo presente


é a coisa mais ausente, é uma ilusão
pensar que a rosa ou o fruto já colhidos
ainda soluçam desprendidos da haste.

O seu corpo é já um fruto neutro e frio.


Não obstante jovem, tem a mesma idade
de todos os que morreram antes, ou mesmo
na mais remota origem babilônica.

Todos os mortos têm a mesma idade,


Que me adianta chorar sobre a argila ainda tenra,
que esfriou não faz, senão, apenas um minuto?
Todo cadaver é uma coisa já longínqua.

Embora tenha esfriado apenas ha um minuto


é algo que regressou súbita e automáticamente
á noite que existiu antes de Deus. k
Todo cadaver é anterior ao sol e a Deus.

Mas por que sofro tanto? não será justamente


por estar sendo vista, ser um corpo presente
aquela que voltou ao nunca ter nascido
e me deixou ausente, eternamente?

21
Aquela que voltou á fonte, ao horizonte
de quando antes de tudo e me deixou ausente
para que eu vá matando em mim sua presença
até morrê-la quanto o dia morre a estrela?

Se eu fosse Júpiter me converteria


em chuva de ouro sobre a sua imagem.
Se eu fosse Glauco me transformaria
num peixe azul no Índico da imemória.

22
»

A TRISTE DIALÉTICA
• •

Então eu conduzi a jovem morta,


por entre gaivotas.

%
Arrastei-a escorrendo sol na práia,
pela trança geométrica.

E arremessei-a ao mar. Que a onda,


onde mora a sereia,

metade peixe, metade mulher,


a entregasse a algum peixe.

Ou, mulher, a entregasse a algum marujo


para um ritual qualquer.

Mas o mar, sete vezes lhe joguei


a jovem morta à onda,

sete vezes jogou-me, em verde réplica,


seu cadaver à práia.

Qual um peixe, escamado a ouro e prata,


na areia rosiclér.

23

2
Como pacificar a discussão
entre mim e o oceano,

se o alvo corpo, jogado à água viva,


era a minha pergunta,

e o mesmo corpo, agora em sal e ouro,


da mulher descomposta,

violentamente devolvido à praia,


era a sua resposta?

Com que esponja apagar a grande dúvida


se hoje o meu coração

acredita em sereia e assim, por menos


que seduzir me deixe,

é tambem pescador e se debate


entre a mulher e o peixe? ,

24
LAMENTO EM SI BEMOL

Já não houve a rainha


que — depois de morta —
o rei, por sua lei,

decretou andorinha?
E, de vestido novo,
governou seu povo?

(Tanto podia o rei


que a considerou viva
por seu gôsto e lei)

Esta é um outro ser.


Esta ia sendo flor,
ao invés de morrer,

(infanta ou sempreviva)
mas perdeu a graça
da metamorfose.

É a que ninguém aceita


como morta perfeita,
por estar perfeita.
I

É esta a que morreu,


mas não me convenceu
de que é um corpo sem vida*

É a que precisará,
mesmo depois de morta
ser por mim morrida.

Ser por mim morrida


minuto por minuto,
misteriosa Lenora.

Como se não fôra


para tão longa morte
tão curta a minha vida.

26
FESTIM TERRESTRE

. . . sunt, quibus in plures ju s


est transire figuras.

O VED IO
«A s M etam orfoses»
A LUA IMOVEL

A minha lua é bem


diferente da tua.
Não a estrela que chove.
Pomo de um só gomo
e fixa, não se move.

Não tem quatro faces


nem quatro fases como
a tua, mais gentil.
Não é o teu trevo branco.
É uma repetição
que não muda de rosto,
por mais que' eu me renove.

É uma lua cruel


que só me olha de frente,
infinitamente.
Olhar de algum gigante
que me espia, parado
dentro da circunferência.
Grande lua de fel.
Nunca se comove.
Movem-se as estrelas
como pássaros lentos
da física celeste
em caminho do oeste.
Ela não se move.
O silêncio da noite
sobre as coisas chove.
Ela — lua sinistra —
lâmpada de janela,
é estrela que não chove.

Lua — estranha arte


de não ter nascido eu
em Marte, ou em Saturno.
Mas na Terra e, na terra,
morar eu nesta rua;
asa, e pé de barro,
água dentro do jarro,
casa número nove.

Não a grande Tácita


taciturna e noturna.
Mas lua nua e crua
do meu estar aqui,
entre o cáis de pedra
e o azul solto que dança
neste rude diálogo
da espera com a esperança.

Lua do aconteceu.
E fixa, não se move.
Que monstruosa lei fisica
nos pôs face a f$ce?
I
AVISO AOS NAVEGANTES

A deusa íris
que Juno transformou em rainha solar.
Com a rosa da sua asa. circular ao ombro
e o seu sorriso de ouro no ar.
Anterior ao que irisa o ar de Monalisa.
E o seu leque de plumas de pavão
molhado pela chuva e aberto sobre o mar.

Mas ha uma parte dos teus olhos que pertence


ás crianças e aos naufragos.

31
O CACTO

T h is is cactus land.
H a re the stone im ages
a re r a is e d .. .
T . S. E L I Ò T

Vamos, todos, brincar de cacto


na areia da nossa tristeza.
Uma folha sobre outra,
* em caminho do céu intacto.

Uns nos. ombros dos outros,


um braço a nascer de outro braço,
uma folha sobre outra,
formaremos um grande cacto.

De cada braço, já no espaço,


nascerá mais um braço, e deste
outros braços, qual ramalhete
de flores para um só abraço.

Filhos da pedra e do pó,


fique aqui em baixo o nosso orgulho,
pisado sobre o pedregulho.
Formaremos, num corpo só,
(uma falha sobre outra,
uma folha sobre outra,
um braço a nascer de outro braço)
a nossa escada de Jacó.

Pra que torre de Babel


ou o Empire State, compacto,
se, uns nos ombros dos outros,
chegaremos ao ceu, num cacto?

Uma folha sobre outra


e já uma árvore de feridas
por entrç os anjos de azulejo
e as borboletas repetidas.

Que fique aqui em baixo a terra;


lá de cima nós tiraremos
uma -grande fotografia
do seu rosto de ouro e prata.

Pra provar a Deus que a terra,


numa fotografia exata,
não é redonda, mas chata;
não é redonda, mas chata.

Pra provar, por B mais H,


que o homem, animal suicida,
já sabe fabricar estrelas...
Se é que Deus disto duvida.

Que iriamos fabricar luas


(se não fora, para Seu gáudio,
o espião nos ter furtado a fórmula)
mais bonitas do que as Suas.

Vamos, todos, brincar de cacto,


uns nos ombros dos outros,
um braço a nascer de outro braço,
uma folha sobre outra.

Vamos subir, de folha em folha,


mais alto do que vai o avião.
Lá onde os anjos jogam pedras
no cão da constelação.

Que outros usem avião a jacto


pra uma viagem em linha reta;
nós, filhos da planície abjeta,
subiremos ao céu nuin cacto.

Uns nos ombros dos outros,


injustiças sobre injustiças,
formaremos um verde p acto...
Vamos, todos, brincar de cacto.

Vamos, todos, brincar de cacto.


INDOMITUS

O mar é uma esmeralda suja.


ituctfes de coral repontam como flores de sangue
[salpicado de espuma.
(Coisa que explica naturalmente o sangue róseo
iIoh náufragos)

Ah owpadas dos peixes aguerridos


(os espadartes) trançam cintilações *de prata
cim campo blau, como num escudo.
O (‘rtcudo de Netuno contra o casco do Indômitus.
A arte de navegar entre espadas
n&o é tão fácil, senão a mais oscilante das artes.
Nflo consta da rosa dos ventos.
Ho bem que uma rosa dos ventos é rosa
mas apenas no nome. Antes, a chamaremos malme-
[quer
ítfcé Dunquerque.

Indômitus está dançando agora entre duas especies


[de estrelas.
A hora não é pra considerações em torno do que possa
[acontecer.
K1 a hora do sangue frio. Porque os peixes,
como os capitães, são animais de sangue frio.

A hora é do vento
ptla proa, ou a maubordo (não bombordo)
Nasce uma flor no mastro, uma flama (não flâmula)
Indômitus então navega em plena rosa céga.

Uma fulguração sübita escreve no ar uma frase.


Thamuz, Thamuz, panmegas tethneke. Fulmotondro.

O comandante está dizendo á sua maruja que não


há no dicionário uma palavra
mais bonita do que arquipélago.

Trinta pombos azuis em formação geométrica


voltarão ao navio.
A CIDADE CONFUSA

A cidade chora
lágrimas elétricas
sobre o corpo anônimo
do eletrocutado.

As figuras tétricas
que residem, mudas,
na parede do templo,
me cercam, na rua.

Como se eu fosse, acaso,


o culpado de algum
acontecimento
na noite confusa.

II

O deus unicórnio
que há no escudo do rei,
e que lhe defende
a coroa, me acusa.

Os anjos da guerra
têm rostos cubistas.
Monstros estão nascendo
como animais dourados.
0 perfil das coisas
está, agora, sendo
substituído por outro,
doloroso e polêmico.

As ingênuas figuras
dos meus livros da infância
mudaram de rosto. . .
Como reconhecê-las?

m
Faço das palavras
meu reduto anti-aéreo.
Cada minuto é o fruto
de um dificil relógio.

Toda a fauna do escombro


no chão onde caiu
a estrela voadora
vem chorar no meu ombro.

O habitante da Terra
traz no rosto o estigma
de quem, como o infeliz rei,
decifrou o enigma.

Onde crime mais grave


que alterar-se a silhueta
de uma criatura, de uma
simples borboleta,
não por arte, magia,
ou graça de pintura,
mas por lesão dos seres,
em sua argila obscura.

Quando voltarão
os pombos ao navio?
As palavras ao léxico
hoje tão acerbo?/

Deus não fez a linguagem


do homem á sua imagem?
Como no começo,
no fim não será o verbo?

IV

Uma Salomé alva


me traz, em sua salva,
a cabeça de João,
degolado às cinco horas.

Ha, em cada sol falso,


uma aurora abolida...
A noite leva o sol,
fica o cadafalso.

Mas, de quem a culpa?


Não o sei; o que sei
é que não fui eu
quem matou os símbolos.
FAUNO EM PRANTOS

Corri atrás dela, pelo bosque,


e quanta vez caí de bruços,
levando um buquê de soluços,
sem alcança-la na corrida,
pra recomeçar logo após;
que assim é a vida, assim é a vida.

Até que um dia eis-me que a alcanço,


e ei-la, porém, que se transforma
em planta agreste, de tal forma
que a recortei e, com mão cauta,
reunindo os gomos, pobre irmã,
somei-os e fiz uma flauta.

Flauta com que, em lugar do corpo


que persegui, na louca festa,
chorei o ideal (é o que nos resta
quando pára o rio que corre)
Que o ideal, ao invés do amor
poderá ser vida a quem morre.

E agora? Agora, a minha mágoa


foi mais cruenta; a que persigo
— nova Sirinx — deu-me o castigo
de só alcança-la quando morta.
Ah, em seu lugar, agora, trago
a dor — fotografia torta.
Não sei dizer quem morreu mais,
quando esta em minhas mãos morreu.
Se foi ela, a morta, ou fui eu.
Meu dó maior, fora da pauta,
é a flauta que não terei mais.
E eu sou agora um Pã sem flauta.
NOTILONGO

Demônio familiar

Misto de andorinha,
de sanguessuga e borboleta.

Asa, e unha na asa,


anti-girassol,
quem te recortou a silhueta
numa noite de chuva?

Numa trave pousado


do meu teto.
Dé cabeça pra baixo.
Como um pequeno guarda-chuva
fechado.

Ou ao teto enganchado
da igreja,
em fundo azul-violeta,
entre anjos cor de rosa,
És um anjo, um demônio
de capa preta?

O pássaro se suicida
no muro de cal.

42
A manhã oposta

Estás vendo o mundo


como uma flor exótica.

Como o céu caido ao fundo


do rio, céu antípoda.

Como um jornal aberto


em sentido contrário
na mão do analfabeto.

Como a torre da igreja


de Pampulha, invertida.

Um ramo sêco com duas


pétalas verdes, louva a Deus
na manhã oposta.

Entre quatro parede&

De repente, porém,
desprendido da haste,
agora em vôo elétrico
sobre a minha cabeça,
' agora sôlto no ar.

Que espirito da treva,


que estrela, te leva
tão imprevistamente,
entre os súbitos ângulos
das quatro paredes
(antecipação e imagem
do radar)?

4S
Sem que o vento te açoite.
(Vara sibilante)
Sem que te suicides
no muro da noite.

A rosa dormida

Que pena, talvez mais macia


que pluma,
tens na asa que a transformas
num léque,
quando adejas e pousas
na árvore vermelha
que circula em meu corpo?
Tão sub-reptíciamente
que és carícia e aconchego.

Sobre a que abres, ferida,


como rosa dormida,
na sintaxe da vida
que é o meu desassossego.

Na carne da vida.
SOLSTÍCIO

Agua que nasce


de uma parede,
como se fosse
a própria sêde...

Musgo que brota


do olhar da pedra.
Sol que penetra
pelo interstício

do ínvio segredo.
Assim vivemos
no vão que fica
(uma só rua)

entre o sol de hoje


e o de amanhã.
Entre dois ódios,
entre dois medos.

Um diante do outro,
nunca o inimigo
esteve tão
junto do irmão.
O HIPOPÓTAMO

Não adianta o rio lhe ofertar um espelho,


se ele não sabe de quem é a imagem
que o espelho reflete. Se ele pensa que a sua
imagem n’água é a de um outro hipopótamo.

A paisagem por volta tem algo de bíblico


pois é a água da criação, ainda viva,
como no primeiro dia. As árvores folhudas
guardam segredos a ninguém, jamais, contados.

São árvores virgens fotograficamente.


Milhões de borboletas voam em redor
da estrela diurna, as flores são douradas bocas
de uma lúbrica, gigantesca primavera.

Um céu vestido de azul-rei, (mal brilha a alva)


completa a inenarravel beleza das coisasi
E eis que, foto-potamo-gráfico, o hipopótamo
emerge dágua e vem, rombudo, estragar tudo.

Tudo parecia em ordem, o céu pernalta,


as aves egípcias, os troncos que simulam
primitivas colunas, de algum templo, a lisa
epiderme do rio enrolado na cauda.

46
Sim, o rio e as demais serpentes que aí moram
dormiam tranqüilos, quando a enorme figura
do hipopótamo perturbou tudo e agitou
, as cores, e inda fez as borboletas voarem,

elétricas, e as garças gritarem no abismo,


Porém ele, na glória da sua inconsciência,
nem sabe que desfez a alegria das coisas.
Pensa que tudo é festa e a natureza o aplaude.

Até que volta a calma e se refaz o espelho


maravilhoso. Mas, que adianta o espelho
se o que ele quer é a lama? se ele pensa que a sua
imagem n’água é de um outro hipopótamo?
ABSOLUTO, ABSOLUTO

Ei-lo por fim exausto


de tanto fausto.
É apenas uma múmia
tão sujo está de pó.
O luxo das cores
lhe dá a sensação
do vazio, do oco.
Os omatos aumentam
a feroz tristeza
do rei faraó.

Pobre, vil matéria


que a complicação
dos simbolos disfarça.
Misteriosa farsa
em caracteres de ouro.
Não ha nada mais triste
do que uma coroa
de ouro ou de louro
sobre a fronte de alguem,
seja homem, ou deus,
reduzido a só
ser um rei faraó.
De que serve o arco
iris que ficou
(morto porque torto)
na fronte de Osiris?

Espêssas inscrições
que ninguém decifra
dizem coisas mudas
entre dois hipogrifos
de asas ponteagudas.
Exóticas figuras
de djins, de felás,
azuis, em fundo negro,
formam um longo friso
em relevo, na pedra.
Mas o tempo é antropófago
como o é um sarcófago;
tem a boca em ó
de tanto comer pó.

Duro rei faraó


cujo coração
seus súditos, em vão,
quiseram abrandar
com um pouco de poesia.
Que lhe resta? um nó,
feito de silêncio,
na face estilizada.
Um nó cego que amarra,
nas órbitas ocas,
dois olhos de safira.
Um não-ser absoluto.

49
Seco como um fruto,
mísero como um Jó.

Flores monumentais
brotam com grande pompa
na base da pirâmide.
Um egípcio, ao lado,
nu porém dourado,
toca a sua trompa
de quarenta séculos.
Mas, sob tanto fausto,
como me causa dó
o rei faraó!
A DEGOLAÇÃO DOS INOCENTES
*

Um fio lucidíssimo que corta


e já o sangue quente, não se sabe de onde,
nos tinge a mão, subitamente.
Que corta, sem fazer sentir.
Um frio relâmpago e já a dor não consciente.
Já a ferida que não dói, a mais fina,
a que sorri no escuro chinêsmente.
Um gesto súbito e já todos os lírios
estão cortados,
não houve tempo de os recolher para um ramo
como o que enfeita o cajado dos santos
ou o céptro dos reis, nas gravuras.
Uma cintilação crúa e já o corpo
em orvalho vermelho,
sem a flor da cabeça, já a lanterna caída,
e oferecida ao banquete dos cégos.
E já os anjos degolados, cujos rostos,
sobre fundo azul,
cercam agora os pés da imagem.

51
O FESTIM TERRESTRE

O olho de Polifemo
já depois de arrancado
ao gigante bêbedo,
foi posto,
entre rosas carnosas
e lírios agudos,
sobre a alva mesa.

Tinha ainda a pupila


acesa.

E os doze convivas,
— doze fomes irmãs, —
todos ao mesmo tempo,
simultâneos como
figuras de uma orquestra,
vieram, graves, comer
o olho
de Polifemo,
em dourado molho.

Eram só matéria
exigindo a matéria.
Bocas rubras de vinho
num banquete com algo
de mágico *
e de antropofágico.
Ah, era tanta a fome
que nem perceberam,
um minuto após,
pousar-lhes sobre o ombro
a mão de um anjo torto
que os fez diferentes
do que eram,
no banquete feroz.

De modo
que se olhassem pra dentro
do seu próprio ser,
não se conheceriam:
"quem são?”
de tão desfigurados
pela deformação.
\
E ao mesmo tempo iguais
uns aos outros,
era como se olhassem
num espelho morto.
Tão iguais de rosto
que já não poderiam
distinguir quais deles
eram eles mesmos
(se todos
tinham um só rosto).
Todos deformados
pela angústia, desnudos,
reduzidos a ângulos
agudos,
no instante decomposto
em que a fome era o fruto
do absoluto.

Fruto do chão bruto.

Frutp que tinha o gosto


do suor e da lágrima
que a língua bebe ao rosto.

Mas, o olho redondo,


comido alegremente
entre rosas camosas
e lírios agudos,
em campo de prata
(Pã ergue um brinde a Ulisses)
como comer se come
numa mesa de doudos, •
continuou olhando
a todos.
Como se olhasse um bando
de doudos.

Não lhes matou a fome.

Então, na manhã clara,


como enormes figuras,
iguais e repetidas
I

de um baralho humano,
os doze convivas
repentinos e feéricos,
todos ao mesmo tempo,
automáticamente,
comeram — verdes potros —
uns os olhos dos outros.
0 ESPELHO TORTO
(LAMENTAÇÃO)

Perdi a memória de todo bem.


JEREMIAS, “ Lamentações”
Cap. i n . § 19.
O ENTERRO DOS VIVOS

O morto porque torto.

O arco-iris que só é iris


por ser arco.
Mas entortou seu arco.

O espelho que só é espelho


por ter, dentro de si,
o horizonte.
Mas, perdeu o horizonte.

Narciso que só é Narciso


em seu retrato.
Mas rasgòu seu retrato.

O morto não obstante vivo.


O que nunca foi cúmplice.
O neutro entre o estômago
e a rosa.

O que — morto civil — conduz


o seu próprio entêrro, sob
a roupa de vidro
e a borboleta da gravata.
O morto que precisará
ter morrido, a pior espécie
de morto, o não definitivo.
(O que não é, ainda, um “ não”
definitivo)

O que não morreu, de todo,


as coisas que deverá morrer
(morrer, verbo transitivo).

O morto não obstante vivo.


EVOCAÇÃO DOS MORTOS

Um dia conversarei com os meus mortos.


E todos os que morri (os muitos eus que eu fui)
reunidos inquietos sôfregos cada qual com um meu
[rosto na mão,
me contarão (sua) a minha história.
Não obstante a tua gélida memória.
Ah, os defuntos que ficaram atrás de mimfotográ-
[ficamente,
agora juntos.
Não acredito que aquele menino fui eu__
Nem acreditarei que um dia fui menino, a não ser
[que a minha dúvida se desfaça nu~
[ma lágrima de identidade.

Um dia conversarei com os meus mortos.


Com todos os que fui sucessivos.
Tão mortos que não os sinto mais, nem reconheço
senão por uma cicatriz.
Mas todos presos ao meu ainda estar vivo.
Como uma estranha multidão de mim mesmo.
Como figuras trágicas de uma comitiva obrigatória^
Como comparsas de uma mesma cena continuada
que os faz um só quando uns atrás dos outros,
cinematicamente.

Cemitério de plena e rútila perspectiva


por onde espio o outro lado das coisas.

69
Por onde me vejo, e vejo as coisas que conversam
atrás de mim, que estou defronte do teu horizonte.

Ha uma hora em que o teu refúgio é o meu subter-


[fúgio.
O meu desesperado subterfúgio.
Não só a certeza límpida que me dás de que nin-
[guem me agredirá pelas costas.

A dor que sinto é de hoje


não as que senti ontem e morreram comigo.
O meu lamento de ontem é histórico e desbotado.
Um pássaro empalhado, ou um couro curtido.
Uma dor que passou cristaliza-se, por arte
da natureza, passou a ser um simples material pa-
[ra espelho.
»
Uma fotografia não sente a mais mínima dor.
Mesmo que doa em nós quando mais dói. . .
Os meus mortos já se esqueceram destas coisas.
Prova de que estão mortos e pra sempre enterrados
no teu cemiterio que só é mais frio do que os outros
por ser de cristal.

(De cristal como é o copo onde a água é mais pura


porque adquire uma cintilação de estrela}

Abismo de onde vim, deixando atrás de mim


os outros que virão conversar comigo, mas de frente,
na tua inversão prodigiosa.
\
Não me será preciso o ritual que Ulisses
/
observou
quando para invocar as cabeças dos mortos
degolou suas rezes e fez o sangue rubro escorrer
[numa cova
70
I

desembainhando a espada para conter tantas som-


[bras
que lhe queriam falar a um só tempo.

(O primeiro foi Elpenor que ainda não tinha sido


[sepultado)
Antes, diante do teu cemitério,
não sou mais que Elpenor — um corpo por chorar e
[insepulto.

Dia virá em que a ciência cristalizará certo pran-


[to para a fabricação de
[um espelho.
Então o parentesco lágrima com espelho
\ terá sua explicação.

Os mortos me trazem, cada um (sua) a cabeça,


que foi minha, na mão.
A multidão está reunida agora, como peixes
no fundo de uma primavera sub-marinha.
1

'
DESINTEGRAÇÃO

Uma flauta: como prever


suas modulações,
cavalo sôlto e louco?
JOÃO CABRAL DE
MELO NETO.

s
Onde quer que coloquem o
eixo do mundo
tenho a flauta e modulo.
HAROLDO DE CAMPOS,
1

Antes gue algum abutre


te levasse os pedaços
do corpo hirto e jovem,
ó mulher de olhos garços,
para o seu negro fausto
fiz de tí uma festa
toda ritmos e côres
com todo o ritual mágico
e antropofágico;
fiz — furtando-a a teus ossos
e em teu próprio holocausto
esta flauta de ôsso.

Antes que, de um ímpeto,


algum disco voador
ou pássaro de fogo,
com a hélice de prata,
te cortasse o corpo
em dois — cortado ao meio
na rua que divide
a manhã em duas,
fiz minha nova flauta
de um ôsso do teu corpo.

Antes que dois sátiros

75
verdes te encontrassem
nua, na floresta,
um pelo lado esquerdo,
outro pelo direito,
e te dividissem
em duas, para o amor
de dois — amor ignóbil.
Antes que te levassem
o torso, objeto de arte,
para um alvo museu,
sem a flor da cabeça,
arranquei ao teu corpo
já frio, o fragil osso
com que fiz esta flauta.
Ontem de cana agreste,
hoje uma flauta de osso.

Antes que os geógrafos


viessem, algum dia,
dividir os teus seios
em oeste e leste,
dando-te uma outra morte
além da que tiveste;
antes que os policiais,
pra quem tudo é suspeito,
violassem o teu peito
e a tua boca roxa
pra saber que palavras
foram as que disseste;
na ânsia de te emprestar
um pensamento falso
e te levar, mesmo depois
de morta, ao cadafalso;
arranquei ao teu corpo
(como quem arranca
ao caule uma flor branca)
o osso com que fiz
minha flauta de osso.

Antes que te partissem


como Mirra, cortada
em duas, depois do incesto
como a lua, cortada
em duas por Sing Bonga;
como a fuiva sereia
cortada por Netuno
em duas: mulher e peixe;
como uma fruta em duas,
entre o ouro e a espada
de dois rêis, num baralho;
fiz, com um dos teus ossos
minha flauta de osso.

6
E antes que o rei louco,
ó minha Rosamusa,
te mandasse raptar
num caixão de vidro
pra fazer-te rainha,
chamei todos, vinde,
ó famintos, ó cegos,
ó necessitados
de sangue, ó rostos pálidos,
ó párias, ó lunáticos!

Chamei todos, vinde


para que eu vos brinde:

"Antes o teu sangue


transformado em vinho
para a nossa sêde.
Antes desfolhada
grande rosa encarnada
rosa multiplicada
afinal rosadada
entre os que tinham fome
e possuiam as mãos
magras e dolorosas,
do que simples múmia
com olhos de esmeralda,
que de não ser se nutre,
do que carne abjeta
no bico de um abutre.. J*

e ofertei os teus olhos


como duas joia^ verdes
a um cego que os pedia
desesperadamente;
e — ontem cégo, olhos pretos
hoje verdes — lhe deste,
de novo, a luz do dia.
E distribui teu vinho
entre os necessitados
de sangue, entre os esquálidos,
os exaustos, os pálidos.

Dei, depois, os teus labios,


já por mim machucados
eomo dupla pétala
a dois beija-flores.

Desatei tuas tranças


geométricas, e dei-as,
uma aos pescadores
para que a retrançassem
em copiosa rêde;
outra a um pobre funâmbulo
pra lhe servir de corda
de descer ao abismo
em busca de uma flor
para alguma grinalda;
ou pra salvar o náufrago*
trazendo-o á superfície
da feroz esmeralda.

Os teus braços, embora


sem a lira do abraço,
dei-os aos nadadores.

Os teus pés, as tuas


mãos (os teus limites
com o mundo das coisas)
retirados da haste,
dei-os ás próprias coisas
que tocaste e pisaste.
Ao chão duro, ás flores.

O
9
/ < \ ' v vV.Xj"

(Quem quiser, um dia,


por maldade ou por simples
intenção policial,
descobrir quem foste,
ou identificar-te,
aqui e em qualquer parte,
não precisa inquirir
testemunhas e pássaros.
Basta-lhe entreabrir
uma rosa, afinal.
Que estarás dentro dela,
com os, teus dez segredos,
fria, digital. . . )

(Quem quiser conhecer


os teus braços, tão alvos
quanto obscuros, observe
os abraços que o náufrago
ou o nadador dá
numa onda, e os verá.)

(Quem quiser regressar,


por dentro de si mesmo,
á infancia, ao mundo mágico
em que as coisas brincam
de ser e de não ser
e encontra-lo intacto
como gota de orvalho
nos olhos de um cacto —
é seguir, através
do humano labirinto, ;
o sinal dos teus pés.)

81
O’ CIRCE, ONDE ESTÁS?

Na grande floresta mecanica sem folhagem


nem lua.
A manhã operária
passeia entre as chaminés, que são troncos hirsutos
e entre números brutos.
Onde agora estarei?

O que sei
é que um disco voador, enorme brasa
sem asa, me persegue
por ordem do rei.

A floresta dos homens é movei, como


a de Shakespeare. Avança por todas as ruas
com pés que são raizes ou com as plantas
dos pés.
Dentro dela não sou mais do que um simples canário.
Mais que isso não sei.
Sei que um disco voador me fura os olhos,
a bicadas de fogo
por ordem do rei.

Quantos, agora, pensarão que estou louco,


que fiquei sujo de ouro,
quando na realidade estou é, simplesmente,
dourado.
Dourado de £error, porque fui perseguido
por um disco voador,
e por ordem do rei.

O’ Circe, ó consolatrix afflictorum, onde


estás?
Onde a magia com que resolvias
as situações dificeis, insolúveis?
Estás perdida por acaso entre as borboletas
volúveis?
No ventre de uma naja cor de prata?
como o saberei!
Só sei que tres monstros me cercaram na rua
na floresta mecanica sem folhagem nem lua
e que um disco voador me sujou de ouro
por ordem do rei.
Eis tudo quanto sei.

Quem sou agora, vil matéria onde as palavras


gorjeavam como pássaros, se o monstro
que me inquiriu deu ás minhas palavras
o sentido que quis, o mais feroz?
Quem sou eu, se o segundo monstro, o que possui
a hedionda maquina de fazer chorar
já me arrancou a alma pelos olhos?
Quem fiquei eu, quando o ser ou não ser
me foi trocado pela dor de ser?
Se o monstro de um só olho, o que só vê um lado
das coisas, me faz ser o que não sou?
Ah, como o saberei!

Só sei que estou perdido na floresta mecanica


sem folhagem nem lua.
E que um disco voador me sujou de ouro
por ordem do rei.
A torre de Babel só confundiu as línguas.
A confusão de agora falsifica as palavras. . .
Ser ou não ser era uma dúvida, ou era apenas
uma dádiva.
Hoje é uma escolha (escolha que não salva)
entre o fuzilamento e a estrela d’alva.

Afinal, quem me acusa?


em nome de que lei?
Nunca o saberei.

O que sei
é que estou louro, que fiquei sujo de ouro
por ordem do rei.

84

JORNAL FALADO

Dentro da mesma ode


pânica,
a universal manhã

sairá — quem o sabe —


de uma simples flauta
de Pã.

Não mais palavra vã.


Já que Pã quer dizer
que tudo é de todos.

Foi ao sopro (alma)


do mais simples instrumento
de sopro

que os muros cairam


em Tebas, ou em Jerico,
pedras no pó.

Que as cobras se ergueram


na ponta da cauda
num êxtase órfico.
0 que faltou ao suave
irmão do lobo,
foi uma flauta, embora de osso.

Será ao som de uma flauta


que hoje o mundo trágico
voltará ao mágico.

II

De uma simples flauta


sairá mais que a bomba
de hidrogênio.

Muito mais que o cavalo alvo


do Apocalipse.
Muito mais que um eclipse

do sol e da lua.
Muito mais que uma estrela voadora,
sem alvo. Sairá

o mínimo de ternura
de que o mundo precisa
para ser salvo.

III

(Muito mais que o arco-iris


que o meninos acendem
soprando o canudo de vidro)
OS 30 EGIPÃS

Então trinta egipãs,


em série, e num só ato,
ó andorinha,

com os ossos do banquete,


fizeram trinta flautas,
ó andorinha,

todas iguais á minha,


cada qual fez a sua,
ó andorinha,

Eram trinta figuras


iguais e repetidas,
ó andorinha,

como trinta antropófagos»


num friso marajoara,
ó andorinha.

E todos a um só tempo,
e todos de perfil,
ó andorinha,
desfilaram, tocando,
todos, as suas flautas,
ó andorinha,

todas iguais á minha,


ó andorinha,

na floresta dos homens,


ó andorinha!
VISITA AOS DEUSES

Place à Tout! Je suis Pan,


Júpiter! à genoux.
L e Satyre,

VICTOR HUGO
T

Os chifres já sem ouro, e tão desfigurado


que Zeus não o reconheceu,
de dentro Pã saiu de um pássaro, mal grado
a procela do mar Egeu.

E entre os deuses do Olimpo, à hora da grande sésta,


riscado a fogo, em fundo anil,
desceu — não pra tocar a sua flauta, que esta
perdera a graça pastoril.

Ao contrário, em lugar da flauta verde-rosa,


de oito gomos, caniço em flor,
era uma flauta de osso a em qué, longa e penosa­
mente, chorava o seu amor.

"Vede estas rosas! são as que, em Hiroschima,


vieram a nascer, logo após
a estrela ter caido ao chão, daqui de cima,
como uma lágrima feroz!”
■■'v •

“ São rosas — digo mal; serão caricaturas


porque mudaram de feição.
Qual de rosto também mudam as criaturas,
por súbita deformação.

Mas vocês acharão que isto é fabula.

91
“"Qual de forma os demais viventes e a paisagem
mudaram, por um mal qualquer.
De modo que o gentil se mudou em selvagem
e o lirio se fez malmequer.”

E assim, com a mágoa que lhe punham os dois ramos


de louro falso, na cerviz, ,
Pã consegue que Zeus, entre garças e gamos,
venha escutar o que êle diz:

“ Sim, escuta: là bas, tudo é sangue e intempérie.


A fome é cubista, a dor ri.
Corpos balançam, no ar, de enforcados em série...
Fosse eu contar tudo o que ví!

E Pã entra a dizer, reunifla a grande coorte,


diante de um grande espelho azul:
"Aqui fica a Anglo Iranian Oil, ao norte;
aqui, a Coréia do sul.”

"Quem aqui mora está, por isso, dividido,


por êste paralelo, em dois.
Do lado esquerdo, herói, do direito, bandido.
Só o mapa o dirá, depois.”

E voltando-se, após, aos deuses aéro-humanos


que o escutam, já com desprazer,
oréades, egipãs, centauros ou silvanos,
dourados pelo entardecer:

**Inocentes vocês o são — ou por espêssa


ignorância ou viverem nús,
ou porque ao vir do dia escondem a cabeça
sob uma flor, como o avestrúz.

92
Nós o somos, porém, porque a dor nos deforma
e o mundo, lá em baixo, é tão mau
que o simples morar nêle é como já uma forma
de inocência em último grau.”

"Tu, que vives nêste alto, ó Júpiter tonante


e tonitroante, não vês
que és um simples cartão postal, lá em baixo, diante
do dilúvio russo ou chinês?

E tu, pobre Netuno, ó trôpego — o ex-tridente


rombudo, a carta de marear
já objeto sem uso — és um deus indolente...
Perdeste a coroa do mar.

O teu nome num barco — um, já de mastros tortos —


eis tudo o que hoje lá possúis.
O que há são mortos, são navios mortos: são,
hoje, sete prantos azuis.

Mas quem não dirá que isto é fabula?

Ó ícaro, que, tens as asas derretidas


e fôste ingênuo, entre os gaviões,
por que agora não vais, mesmo num salva-vidas,
olhar o céu, cheio de aviões?

Por que não vais a um morro, ao menos, de onde


[assistas,
como um humilde girassol,
s, uma chuva de prata — a dos paraquedistas
cair lá em baixo, sob o sol?

93
Ou não abres o teu guarda-chuva sidéreo,
contra êsses pássaros boreais?
E não vais contemplar o bombardêio aéreo
dos hospitais, das catedrais?

Ó Prometèu, que fôste o grande injustiçado,


atado a um áspero alcantil,
porque furtaste ao céu um corisco dourado
num furto quase que gentil,

hoje, estás reduzido a um simples pirilampo. . .


Nessun maggior dolor. . . bem sei.
Como é duro perder, qual fragil flor do campo,
a fulva coroa de rei!

Não obstante — o que vim fazer — com esta fala


é chorar, é pedir a vocês
que regressem á Terra, espoliada da fábula.
E' o mundo mágico, outra vez.

Quero levar comigo o cavalo que a fonte


fez brotar do mais duro chão.
Que um coice de cavalo abra um outro horizonte
em cada humano coração. . .

II

Porém os deuses não acreditam na fala


do habitante da Terra, infeliz.
A todos, que hoje são inimigos da fábula,
parece fábula o què ele diz.

— Aqui hão se acredita em fábula.


Então Anfion lhe ofereceu, hoje noturno,
sua lira peritacordial
e não só pentacórdia e Apoio, por seu turno
e com galanteria igual,

lhe pôs na mão a sua flauta de oito chaves


faiscante de graça e sol,
e capaz de imitar o canto a oito aves
das que anunciam o arrebol.

E se escondida mão lhe arremessa uma flor,


outras, vozes de prol, o tacham de impostor,
e a apupam com palavras vís
por ser fábula o que ele diz.

Como explicar que um tocador de flauta


viesse aqui ter, simples plebeu?
Tamuz não garantiu (ou fora incauta, a sua
proclamação) que Pã morreu?

Mas Pã lhes explicou a sua condição


no mísero instrumento e, então,
(inclusive o que tem por olho o setestrelo)
vieram todos escarnece-lo.

E dançaram por fim, todos, ao som do osso


isto é, da flauta (rosicler)
que ele fez soluçar, qual se beijasse, em moço
o lábio a um corpo de mulher.

E em tom de fábula ele diz:

Nunca estive tão vivo. O meu nome, ao contrário,


é lá o prefixo do amor.
Para significar— unânime canário —
tudo o que é universal e em flor.

Quando hoje se diz "tudo”, ou que "tudo é de todos”,


quando se fala em regressar
a uma vida que só — singela, sem engodos,
as coisas simples podem dar ;

quál o nome a que o ser recorre, no seu pânico


imemorial, senão ao meu?
Se o meu nome é uma flor, contra o mundo mecânico,
como dizer que Pã morreu?

Pan-americanismo, ou pan-lirismo. . . o signo,


sob o qual vive a Terra, é Pã.
Formas de amor sou eu que ora as designo, como
se eu fosse a estrela da manhã.

Já uma vez aqui estive e anunciei (não se lembram?)


a rebelião universal,
a geografia contra o azul; hoje o que sei
é que a hora chegou, afinal.”

Mas ninguém ouve mais o que Pã narra (por


ser da fábula o que êle diz)
Tudo é glória no Olimpo, o azul azul escarra
no rosto de um mundo infeliz.

E ei-lo, já escorraçado, assim como um cachorro


que, perseguido por um cão,
o da constelação, dispara pelo morro
até alcançar o rés do chão.

96
Por ser fábula o que ele diz.

Até a planície nua, onde, em rubro alvoroço,


o herói, então, livre se viu
do cão que quis roubar-lhe a flauta, por ser de ôsso,
e que até aí o perseguiu.

E eis que, notas a rir, soltas, fora da pauta,


os pássaros, sem o saber,
lhe ouvem a flauta (de ôsso) e pensam que é de
[prata. . .
Pensam que vai amanhecer.

E que o mundo será feliz,


porque a fábula assim o diz.

97
Pe q u e n a m it o l o g ia

O mito do mêdo

Não creias
no que diz a fábula:
“ primus in prbe
Deos fecit timor.”

Antes tàe ter medo,


o homem, ó Aretusa,
ficou encantado.
Só depois veio o mêdo;
só depois
que Deus serrou o. corpo
da sereia, em dois.

Só a separação
é que trouxe o mêdo,
nascido
com a revelação
do primeiro segredo.

Só depois que Deus


dividiu o mundo
em dois: o mágico
e o trágico.

98
A inocência n. 20

Foi preciso
ser pássaro,
T-V-fã,
radio-ouvinte,
pro homem, ó Arètusa,
ficar inocente.

Inocente, não diante


do mundo mágico,
mas inocente, diante
do mundo trágico.

/ Inocente
do século XX.

A ro sa s in tética

A magia da ciência,
ó Aretusa,
matou a dos mitos.

Ha uma poesia, agora,


vivida e concreta.
Não só a que criou
o poeta cuja ciência
é secreta.

A ciência é a magia
sem símbolos.
É a multiplicação
sem criação.
Fabricando rosas
sintéticas.
99
É uma magia
sem nenhum segrêdo.

Substituiu o encanto
pelo medo.

Teoria da festa

O hipopótamo,
símbolo da deformação,
é quem paraninfa,
hoje, a festa das coisas,

Não mais a Ninfa,


símbolo da metamorfose.

A palavra Terra

O Dicionário, agora,
é o que usaram os homens,
em Babel.

É o que usou Caim,


contra Abel.

É o que usou Calibã


contra Ariel.

Está sujo de sangue


e de fel.

Nele a palavra terra


é aterradora.
Cosmogonia

Tu, que tens a noite


vermelha na boca,
e uma manhã escura
no sexo,
és o meu noite e dia.

101
EU NO BARCO DE ULISSES
(RAPSÓDIA,

E M 10 FR AG M E N TO S)

i
I Visita aos que morreram por nós

A nau pintada de preto, a vela como a asa de um


[cisne,
no anilmarinho, lá fomos, agora, a buscar outra terra.

Tinhamos visto, em tal viagem, o branco país dos


[lotófagos
e o do Cavalo em Flor, vamos, agora, ao dos mortos, ao
[longo
da cimeriana região, onde os homens suplicam o sol.
Por aí só haver noite e ser, tudo, uma treva perene.

Os que morreram por nós, entre tantos que aí se


[reunem,
são os que ifalam mais, por não terem dormido até
[hoje.

Quando, porém, escutaram a ária do cravo e da rosa,


por mim tocada, na flauta de osso que eu trazia
[comigo, -•
imaginando talvez que eu era um pássaro, e amanhecia,
se levantaram dos seus leitos duros. E um deles me
[diz:
morremos lutando por uma manhã luminosa e feliz
e aqui estamos no escuro, e vocês continuam no escuro
aí fora. Onde a sonhada aurora?

E eis que o segundo interrompe a feroz falação do


[primeiro:

105
"Aqui ninguém dorme, não só por estarmos vivendo
[em chão duro
e no escuro, mas tambem porque os geógrafos, aí fora,
não nos permitem sossego. E o terceiro (um que me
[parecia
chorar, assim me falou: como dormir, se hoje os meus
[olhos
se transformaram em rosas? se as rosas são como as
[de Rilke:
não dormem; são rosas fátuas; são como os olhos
[das estátuas?

E o quarto: não só por estarmos no escuro


não só porque sejam rosas, hoje, os nossos olhos
[já ocos,
é que não dormimos, nem apenas porque os geó-
[grafos falam alto,
mas por que os mortos dançam, em sinistra coreia.
Aqui se encontram sepultados
os que morreram nas ilhas do Pacifico; os que mor-
[reram
em Berlim; os que ficaram dançando no chão da
[Indochina.
os soterrados nas minas; os que, pra não serem
[comidos
pelos abutres, tiveram que ser enterrados na areia;
afinal, todos os mortos que nunca tiveram sossego.

Mas eis que o quinto morto interrompe o dialogo e


[assim fala:
Ha uma mulher com cabelo de fogo, a “ terribilis
[dea”
dançando como a princesa egipcia. Qual agora a
/ [cabeça
r
que ela pediu ao tetrarca? Não é Salomé, mas
[quem é a
mulher que dança, aí fora, e jamais nos permite
[dormir?
* Enquanto houver, no azul falso do mapa, a frontei-
[ra que dança,
como terão os meus ossos um só minuto de sossego?
Terão tambem que dançar, como numa monstruosa
[coréia.
Digo coréia pra não aludir á fronteira que dança.
Aludo á dança dos mortos, falo coreograficamente.
Como dormir se o meu túmulo é uma questão de geo-
[grafia?

Enquanto houver, no azul falso do mapa, a frontei-


[ra que dança,
como terão os meus ossos um só minuto de sossego
na terra fria?

Chegada á ilha dos Cojubins

Ó grande Noite, onde estão os banidos do dia? Jamais


foi dado ao sol, com os seus raios de ponta doura-
[da, doura-los.
Nem ao subir, quando sai da garganta noturna dos
[galos,
nem quando baixa de novo, na volta do azul para a
[Terra.

E (a nau pintada de preto, a vela como a asa de


[um cisne)
lá me fui eu, com os meus trinta egipãs, companhei­
r o s de viagem,

107
e no outro dia descemos no lado oriental da grande
[ilha.
A região onde, ao contrário, o que os homens supli-
[earn é a Noite.
Aí só existe o Sol. Unicamente os pássaros de fogo
aí gorjeiam sem pausa, pedindo que a Noite lhes
[venha
(não a dos dedos de rosa, porém a dos dedos de lã)
para que possam dormir como dormem os de outros
ü & d ,.. Cpaíses-
Os còjubins, ao nos vêr, proclamaram a eterna ma-
[nhã.

Vulcano fabrica o Sol da Terra

E aí encontramos, em sua tarefa, o sórdido fer­


reiro
que tem as mãos de ferrugem vermelha, os cabelos
[acesos.
JS agora está fabricando um sol, a que chamou Sol
[da Terra.
Um sol final, de cem pétalas. Um girassol que só
[em vê-lo
fiquei de súbito louro, E apenas porque ao longe
[o avistaram,
louros tambem se tornaram os meus companheiros
i [de viagem,
não obstante indios e negros. E os objetos, e as
[armas
se lhes mudaram, tambem, em ouro; no mais rútilo
[ouro.

108
Seria essa a sonhada aurora, a grande luz por quem
[tantos
guerra após guerra, pensando em obte-la tombaram
[sem vida?
E — mais que tudo — tombaram sem vê-la? Am-
[bicionada estreia,
adiada sempre, ou apenas fogo? Qual a aurora que
[um dia
resolverá nossa angústia, desde que seja simples-
[mente
e, apenas, fogo? ou que não seja universal e que, por
[último,
não signifique, tambem, o amanhã — sendo apenas
[manhã?
E entre mil e um maquinismos, e muito mais surdo
[que absurdo,
o Sol da Terra já brilha, qual grande pássaro de
[fogo
dentro da jaula, esperando que os homens lhe digam:
[é a hora.

Encontro com os dois antropófagos

JE eis justo que, na linha que divide um hemisfério


[do outro,
me apareceram, de pronto, os dois bruscos Gigantes
[que aí moram.

Não eram dois Corinqueãs. Tambem não eram Si-


[la e Caribdis.
!Nem Pantagruel e Adamastor que houvessem mar-
[cado um encontro
na encruzilhada, lançando o terror por aquelas pa­
ragens.

Mas dois Gigantes modernos, dois monstros de igual


[estatura,
um mágico, outro mecânico, ambos filhos da Noite
[e do Sol.
E tão iguais que seria impossível distinguir, entre
[os dois,
qual o mecânico, qual o mágico. A hora é da con-
[fusão
maravilhosa, de tão perfeita... O mágico é irmão
[do trágico.

Eram tão gêmeos e iguais que, por serem assim


[tão iguais
é que espantavam, é que se tornavam brutais e
[afrontosos.
Por essencial semelhança, pois a confusão entre os
[dois,
primeiramente os fazia um só, irreconhecíveis depois.
Exatamente por serem irmãos, cara de um, cara do
[outro,
era impossível saber com qual deles estava e razão.
Um se chamou Belfulgor, o outro se apelidou Fulgobel.

“ Vinde, ó Tirésias, ó Circe, e todos os demais adi-


[vinhos” .
Uns pelo lado esquerdo, outros pelo direito; chamei
[todos.

E perguntei-lhes, então, com palavras aladas, qual era


a solução que me davam. Como eu iria decidir,
entre duas formas de ser a mesma coisa. Entre duas
[faces
110
de uma esfinge partida em dois rostos iguais.” Se
[quisésseis
saber, de mim, qual o reino que, um dia, eu pretendo
[habitar,
se o país onde só existe a Noite, e o outro, onde o
[Sol é que existe
eu saberia, de pronto, dizer; se depois me indagasseis
a que prefiro enfrentar, entre as duas máquinas ter-
[riveis
(a máquina de fazer chorar e a outra, de fazer rir)
eu saberia, por certo, como decidir entre as duas.

Porque passei, já, por elas, tomado de choro ou de


[riso.
A isso já me obrigou o nefasto designio dos deuses.

Já chorei pedras, em vez de lágrimas; tambem já


[me ri,
por decreto; acordei rindo, outra vez, entre rosas ci­
rúrgicas.

E eu saberia dizer qual xdessas máquinas me doeu


[mais.

Porém pergunto se o rio, metido entre margens opos-


[tas.
conseguirá decidir qual das margens é a que ele pre-
[fere?

Que diferença haverá entre dois canibais se tim se cha-


[ma
Belfulgor e outro, por simples retrolâmpago, Fulgobel?

111
Çomo, entre irmãos, tão iguais, haverá quem decida?
[quem possa,
vil criatura, dizer qual dos dois é o que quer para
[irmão?
E o coração, como irá — de tão fragil no peito dos
[homens
•optar, um dia, entre dois lírios ou duas bombas atô-
[micas?”

I — luca Pirama

Outras perguntas me vieram á mente, imediatas e


[rubras,
como as que, sob o furor de algum vinho, alvoroçam
[a gente.

Onde uma noite mais densa? uma condenação mais


[vazia
que a do forçado a esta opção que o próprio Zeus
[não poderia
contornar? "De onde é que sois, ó monstros não ter-
[reais mas terréstres,
mas um sinistro outro dextro? Afinal, que quereis
[do meu ser;
.ser já de si tão inglório, já tão por si contraditório?

Dês que comi, certa vez, na árvore do bem e do mal,


o doce fruto da noite entre dois escorpiões colocado
perdi a inocência, bem sei, mas fiquei iniciado na
[arte
de distinguir, entre coisas opostas, um fruto do outro.

Mas como agora optar, entre vós ambos, se me su-


[primistes,

112
no coração (suprimindo-o) essa árvore de pomos dou-
[rados?

Se dividís a manhã, que é uma só, em duas; tal como


[a um corpo
de mulher nua, cortada em duas rosas sangrentas, na
[rua?

(Ah, a dificil aurora, a que os mortos, banidos do dia


estão pedindo no escuro, como numa mesa de jogo.
Não a dos dedos de rosa, não a do pássaro de fogo.)

Como quereis, finalmente, que eu me defenda se me


[sinto
um prisioneiro? Se sou obrigado a dançar tendo, á
[fronte,
um cocar rubro, que aí fareis pôr pelos vossos ver-
[dugos?
Feito de plumas tiradas ao gavião rei e a outras
[aves?

Se me virão ver as gralhas, coroado de plumas ver-


[melhas
que não são minhas mas postas em mim como sim-
[bolos?
Como palavras que eu não disse? E gostarão de
[ver a festa
que serei eu, obrigado a me olhar no fantástico es-
[pelho
que entortará o meu rosto e me fará dolorosa a
[cerviz?
(Triste, enfeitado com as plumas de uma confissão
[que não fiz)

113
Que serei eu, forçado a defender-me, a cabeça metida
sob as prismáticas penas de uma confissão que rião
[fiz?
(Que adiantará defender-me se estou de antemão
condenado?)

Que serei eu suicidando-me mas resuscitado em se-


[guida
e reposto, eu, mas com outro rosto, no tablado da
[vida,
para outra morte, que não será minha mas a que,
[por lei,
será morrida por mim, e morrida em feroz dicio-
[nãrio?

Eu enfeitado com as plumas de uma confissão que


[não fiz?

Circe em forma de borboleta

Os monstros de antigamente, gerados em noites de


[lua
e de magia, hoje estão no jardim, ou nos livros de
[cores
para crianças. Estão foragidos. Estão nos quiós-
[ques
e nos bazares. São feitos, agora, de seda e algòdão.
Uma asa em cada ombro, uma flor, mas de feltro, na
[mão.
Ah, como são graciosos, agora, esses monstros de
[outrora,
quando, na estrada onde cruzam os homens, dois
[monstros nos surgem

114
em carne e osso, os de agora, dois rostos iguais a
[um só tempo,
um pelo lado esquerdo, outro pelo direito, e assim
[nos forçam
a escolher entre dois lírios, ou entre duas bombas
[atômicas!

Lembrei-me, então, de tocar, na flauta que trazia


[comigo,
uma canção sonorosa, uma ária — a do cravo e da
[rosa —
pra despertar-lhes no peito um instante, talvez, de
[ternura.
Que os animais, como as pedras, atendem ao som de
[uma flauta
mais que a qualquer argumento (isto, desde o começo
[do mundo)
Pois quanto monstro já ouviu, em silêncio, o gorjeio
[dos pássarcs!
E quanto tigre, na toca, não se pôs a sonhar, a so-
[nhar,
só porque viu, pelo vão de uma árvore, a camélia
[do luar!
Mas, não toquei minha flauta! Ao contrário. A
[escondi com mão cauta,
num ramo em flor que colhi, por causa de uma azul
[borboleta
que começou a dançar, que era azul mas devia ser
[preta.
Não, não toquei minha flauta. Escondi-a, mas por
[simples cautela.
Se bem que, ouvindo-a, os dois tais (por não ser uma
[uma flauta qualquer

115
mas arrancada a uma perna formosíssima de mu-
[lher)
talvez quisessem saber seu segredo, e ficassem com
[medo.

Pequena oração aos "brutos

Não; não toquei minha flauta; ao contrário, a escon-


[di dos dois monstros.

E procurei ser. sutil. E lhes disse as seguintes


[palavras:

“ Já. meu pai foi um gigante, um gentil caçador de


[onças pretas,
que submeteu muitos monstros e que — ele mesmo
[um antropófago —
não por maldade mas por gosto, e apenas simboli­
camente,
comeu a carne de tais monstros. E quem dirá se
[esses tais
de cuja carne o meu pai comeu, não eram os vossos
[pais?

Se me comerdes vivo, ó monstros de horrorosa figura,


e só porque não consigo decidir entre os dois, de tão
iguais que sois, como dois lírios ou duas bombas
[atômicas,
nem poderei dividir o meu coração entre vos ambos,
e porque o sangue de meu pai é que circula em mi-
[nhas veias,
comereis a vossa própria carne, carne de vossos pais.
"Vous y trouverez le goust de votre chair, chair
[rosiclér.”

116
Que bom se, no meu caminho, eu encontrasse agora
[um objeto
perdido, só pela graça de o ir restituir a seu dono.
Estou com vontade, até, de fazer um discurso dizendo
que minhas palavras são mariposas no rosto das
[coisas.

Meu coração, hoje, está puro, está mais lirico do


[que nunca.
Não alimentará, portanto, aos que precisam ser fe~
[rozés.

Se o alimento é que faz as criaturas cordiais cu


[cruéis,
meu coração não será, com certeza, o alimento in-
[dicado
para manjar tão opíparo, porque é ele um coração
tão cheio de ternura humana e de cordial democra-
[cia,
que perderieis a vossa riqueza, que é o serdes ferozes
e passarieis, suponho, a chorar como choram os
[fracos.
Como choraram um dia as terriveis bacantes, já
[bêbedas,
de desespero, e depois de já terem comido, raivosas,
o corpo a Orfeu, sem saber que o que haviam comi-
[do eram rosas. . .
Õ vós, que sois os heróis da selva, nunca ouvistes
[falar
na história do elefante, o estúpido, que comeu um
[rouxinol
e começou a gorjear como se fosse um pássaro, ao
[sol?

117
O interrogatório

Assim a ambos falei e, verdade, os dois monstros


[me olharam,
apreensivos, ouvindo as palavras aladas que eu disse.
Receando me comer vivo, pra não desfolhar seu se-
[gredo
que era o segredo de um reino. Ah, que seria de
[dois tigres
a quem as garras se abrissem em flor, como azuis
[açucenas?

E os dois Gigantes falaram, ao mesmo tempo: "de


[onde vieste?”
— Vim do país onde mora Iracema, a dos lábios de
[mel.

Eles se riram. "E a tua língua?” então eu lhes


[respondi,
' em esperanto, que a minha língua era a unica em
[que existe
uma palavra, saudade; e de novo eles riram e
[riram. |.

"Quem és tu?” me perguntaram. "Mostra-nos tua


[caderneta
de identidade, uma prova, qualquer, de que tu és tu
[mesmo.
Mostra-nos onde está escrito: "tem olhos azuis, cor
[morena”

118
Decisão entre o ôsso e a flauta
t

E enquanto os dois se dispunham a ler a palavra


[Iracema,
e a outra, a mais portuguêsa, a divina, a agridoce
[saudade,
e conferiam a cor dos meus olhos, olhando-os na
[ficha
de identidade "um indio? como os seus olhos pode-
[rão ser azuis?
outro recurso me acode, inda mais eficaz pra entre-
[te-los.

A minha flauta joguei-lhes — um ôsso, jogado a dois


[cães,
(A flauta que eu escondera, por uma questão de hora
[exata)
E enquanto os dois se atracavam por causa da flauta,
[dotados
de uma só fome, qual se possuíssem uma única boca
(ou por quererem, ao certo, uma só coisa; ou por
[ignorarem
que ambos queriam a mesma coisa, sem razão pra
[tal fúria)
enquanto os dois se feriam de morte por causa de um
[ôsso,
que abandonaram no chão, de tão cégos na sua dispu-
[ta,
pude salvar, ainda, a flauta; e eu, e os demais com-
[panheiros,
eu e os trinta egipãs, um atrás do outro, a tocar trin-
[ta flautas,
tomamos, todos, a nau pintalgada de branco e de preto.

119
8
Bem me falara o adivinhos "se a tua flauta, por ser
[de osso,
não te salvar na hora extrema, te salvará o osso da
[flauta.”
Bem me falara o adivinho: a multidão, cruel ou
[incauta,
verá em ti, não um simples pastor modulando uma
[flauta
pelos caminhos em flor mas um cão agarrado ao seu
[osso.

Continuação da viagem

Não era essa a manhã que procuravamos, argonautas,


mas uma outra, a dificil aurora, a que morá no es-
[pelho,
ou em nós mesmos, aquela que não se sabe onde mora.

Não a dos dedos de rosa, não a que mora no himeneu


dos pombos, não a que o ceu nos envia ao começo do
[dia
nem a da ilha de fogo, onde tudo era sol e mais nada*
mas uma outra, a dificil aurora, a que Deus anuncia
desde o começo do mundo, mas que não se sabe onde
[mora.
Enfim, aquela que os mortos estão reclamando no
(• ’ ' [escuro,
e nós, os vivos, iremos de novo buscar aqui fora,
de ceu em ceu, por todo um oceano de safira e de
[iodo,
mas como cégos, porque ninguém sabe, até hoje, onde
[mora.
E o dia inteiro, lá fomos rasgando um azul furtacôr,
até alto mar, perseguidos, então, por um disco voador.

120
ODES PÂNICAS
MORRER NÃO SERÁ DORMIR

Morrer não será dormir,


pois não existe horizonte
para poder haver sono.
Será ser indiferente.
A p e n a s in d ife r e n t e .
Que tanto faça haver sol
como o sol não seja mais
do que um simples girassol.
Não será, só, o morrer
porque se deixou de ser.
Será — por indiferença —
tanto estar o mundo morto
como imundo estar o morto.
Morrer, mais do que não ser,
é ter perdido o pudor.
É já estar pelo que for.
Como um dia estarei eu.
Quando alguem se tornar neutro
como um dia estarei eu.
Ou entre um pão e uma rosa,
ou mais logicamente entre
um abutre e um beijaflor,
como um dia estarei eu,
é porque, para esse alguem,
homem* por haver nascido,
homem, não por ter querido,
a estrela d’alva morreu.
Ou — indiferentemente
esse alguem é que morreu.
Sejas tu, ó estrela d’alva,
IRIS, A AEROMOÇA

Estás nascendo em ti, a toda hora


(água de fonte) porque a toda hora
poderás morrer (pássaro no horizonte)

Aeromoça que não choras


porque somente vives no alto
acima das coisas que se passam neste vale de lágrimas.
Moça da graça aérea,
aeromoça.

Ünico anjo que o mundo de hoje admite.


0 único verdadeiro,
porque sem nenhum medo de estar longe da Terra
jiem das estrelas.

Quantas borboletas, já despetaladas no ar.

Quantas gaivotas
caidas sem ter podido ao menos abrir a asa
na queda.

E, no entanto, não pensas na morte,


quando ela gorjeia, no teu coração.
Borboleta do Atlântico, irmã das gaivotas.
Moça da graça aérea.
Aéromoça.
125
Ó loucos dos dois hemisférios,
por que a bomba atômica
se ninguém tem culpa, se ha crianças no mundo?
1 i
Se ha tantas coisas que não merecem morrer, amo-
[rosas,
agarradas ao chão
Icomo as rosas?

Se há a aeromoça que merece viver e está sempre tão


[tão perto da morte?

Moça da graça aérea.


Aeromoça.

Eu te prefiro em terra,
caida do azul sobre a plumagem
do meu coração.
Os braços sem plumas recordando uma ave, que
[foi ave.
A cabeleira
como uma nuvem grossa que quisesse voar,
mas presa.

Os seios núbeis, mas antí-nubívagos.


Os olhos contra o ceu, o céu nos olhos.

Mais vale uma aeromoça em terra firme


que dois pássaros voando.
A ROSA E O NUMERO

Rosa encarnada,
porque por mim morrida
em minha própria carne.
Rosa, sexo
rubro da beleza
multiplicada. Mesmo
sem estar defronte
do espelho, horizonte

Que morre e ressuscita.


Grande rosa infinita.

, n
Rosa em que eu era um só
de tão eu, absoluta.
E em torno de nós dois
o distante, o depois,
o aconteça, o amanheça,
o pouco importa, o azul,
o relativo, o pó.

E em torno do seu sexo,


excessivo, o universo.
Flor encontrada "viva.
Rosa de Jerico.

III

A palavra rosa
é o meu plurissigno.
Com ela é que designo
a eternidade e o instante.
Eu nasci sob o signo
dos ventos que formam
a rosa navegante.
DEFINIÇÃO

Não és Diana, a diurna.


Nem Tácita, a noturna.
És a cerração.
0 ARRANHACÉU DE VIDRO

V v 1 ,v vÇ fi \ '. j , A água do Dilúvio

Impossível descrever a tormenta


sobre a cidade, sobre o arranhacéu de vidro.

A hora do pânico.

Uma cintilação crua e os fios da iluminação pública


[e do tráfego
síncope das palavras.

As ruas são rios, as casas dos pobres


nadam como peixes nos alagadiços, rosa d’água
que tombou do ar em pétalas de fogo.

(Os jornais naturalmente publicarão amanhã a foto­


grafia do transeunte que a enxurrada engoliu pela
[boca de um cano de esgoto)

Mas surge o arco-iris, grande flor celeste,


girassol fantástico sobre o arranha-ceu de vidro.

Arco-iris que fugiu da fábula e da Bíblia.


O arco de aliança, o sinal do armistício
assinado entre Deus e as suas criaturas.
Arco no céu, e iris em nossos olhos
pra nos lembrar que ainda somos náufragos.

No céu o arco de triunfo, em nossa iris


a agua do Dilúvio
qiíe nos escorre pelos olhos, até hoje.
à
Festa náutica

Ou porque a tempestade, hoje,


perdeu o prestígio da fúria.
Ou porque uma faisca elétrica,
inesperada, não é mais tétrica
que uma cadeira elétrica, á hora exata.
Ó bárbara que se tornou santa,
ó santo irmão do lobo.

Ou porque as grandes fúrias


da natureza serão sempre pequenas
diante da tempestade
que os laboratórios de física anti-celeste
fabricam em silencio. 9

A tempestade sobre o arranhaceu de vidro


é uma palavra só, esférica.

Que haverá de mais mil e uma noites


que o arranhaceu de vidro
cintilando — do que cada relâmpago
o transformar numa rosácea de ouro?
Parece que está havendo dentro dele
uma festa nautica.

131
NARCISO E O ECO

O éco perguntou á montanha


porque canto assim.
Não é ninguém que me acompanha.
Sou eu quem canta por mim.

O mar perguntou á lua


porque te amo assim.
Mesmo que a falta seja tua,
sou eu quem te ama por mim.

Um sábio perguntou ao erro


de onde sou, de onde vim.
Culpa da palavra desterro. . .
Fui eu quem errou por mim.

Se na hora da ira me inflamo


qual vento no jardim,
quem arrancou a flor ao ramo?
Fui eu mas não foi por mim.

Ninguém contou a ninguém


porque sou assim.
Quando em mim morrer alguem,
quem foi que morreu por mim?
PAN-LIRISMO

Sou noivo das coisas


que amo com os olhos.
Sou irmão dos lírios
toda vez que a justiça
me declara inocente.

Sou primo da estrêla


e filho de Deus.
Neto de algum marujo
que veio do Atlântico
e que viaja, agora,
pelos riachos rubros
do meu coração.

Sou local, pelos pés.


Pássaro universal
pelo pensamento.
Ha um espelho mútuo
entre mim e as coisas.
Um éco ferido
entre mim e o vento.
0 DITONGO "EU”

Quando Thamuz gritar,


de novo: Pã morreu!
não foi Pã quem morr’eu.
Sem que ninguém o saiba
(eco, apenas,
do que aconteceu)
fui eu.

O éco será longo


ao dizer que fui eu.

Mas, terei sido eu?


Eco de Pã morreu,
eu do pronome eu,
ou já um simples ditongo
CAVAÜO EM FLOR
(F A R S A )
(D e como o cavalo apareceu no jardim}

Um cavalo tão grande


que encheu a manhã pública, qual monstro
fugido de uma fãbula.
Crina grossa, aparada, pelo hostil.

Enorme, mas sem asa.


Com dois olhos de sol,
uma cauda trançada em madressil-
va e orelhas longas, feitas com dois tufos
floridos.

Será igual ao de Troia famoso


mas em tamanho apenas, não no ardil.
Quem engendrou idéia tão gentil?

Com a sua presença,


entre buxos transformados em bichos,
todas as coisas do jardim, agora,
só faltam falar.
Passaram a ter outro significado
que antes não tinham, na sintaxe do povo.
As rosa,s da China
estão, agora, rubras e douradas
como que de propósito reunidas
no gradil.

137
Enquanto eu busco, em ritmo de galope,
se a tanto me ajudar engenho e arte,
celebrar-lhe a figura de cavalo
primaveril.
3

Já tres anjos da rua


ao passar por ali, o surpreenderam
enorme, apocalíptico mas risonho,
como a um brinquedo e sonham cavalgá-lo
entre lanternas, num parque infantil,
E outros três, maliciosos,
querem saber se êle é, mesmo, um cavalo,
e o examinam por trás e de perfil.

E as rosas riem-se
como bocas vermelhas
na manhã ros^nil.

Cavalos dos brinquedos de natal,


cavalos mágicos do meti carrossel,
cavalos em que o rei mais a rainha
vão caçar borboletas;
cavalos que puxais o carro ao sol,
nenhum de vós, nem o mais senhoril,
terá o sentido oculto, a graça, o chiste
deste muito mais símbolo que cavalo
não obstante feio,
cavalo em flor
no mês de abril.

138
Viagem a cavalo e perguntas no caminho

— Que vais fazer, cavaleiro?


— Vou viajar em redor do globo.
Pus no ombro do meu cavalo
o meu mais veloz pensamento.

— Que vais fazer, cavaleiro?


— Vou visitar o meu amor.
Que graça a de me ver chegar
montando este cavalo em flor.

— Que vais fazer, cavaleiro?


— Vou visitar outros cavalos.
Saí de manhã muito cedo.
Cantavam os primeiros galos. . .

— Que vais fazer, cavaleiro?


— Visitar o do herói manchego,
em seu velho desassossego.
(E os moinhos, com asas de pássaros,
voavam ao longo dos caminhos)

— Que vais fazer, cavaleiro?


— Visitar o de quem o tirano
fez um senador, pra saudá-lo.
(Pelos menos, houve um rei,
agradecido ao seu cavalo).

139
Só não compreendo, até hoje,
o que mandou, sem titubear,
por um exército vassalo
surrar a safira do m a r.. .

— Que vais fazer, cavaleiro?


— Visitar o de Troia, famoso,
em cujo ventre azuis soldados
jogam hoje xadrez ou pôquer,
como inocentes, congelados. . .

— Que vais fazer, cavaleiro?


— Visitar o que fez brotar,
com a sua lúcida patada,
a fonte, ao áspero alcantil,
como de um oculto horizonte.

Monólogo:

Qual dos quatro o mais gentil?

140
O cavalo e a Fonte

* A esta altura da viagem, parei.


Tinha eu mais sêde do que um girassol.

Uma fonte, como uma boca de mulher na pedra, aí


oferecia o seu beijo cristalino a quem quisesse
beija-la na boca.
Mais gorjeando do que gorgolejando.

Ha uma certa hora em que beber agua de fonte


é mais bíblico, mais original que comer uma fruta
(ou um fruto).

Meu cavalo — em cujas orelhas em flor pousaram bor­


boletas do mato —
parecia contente.
Um cavalo nunca pode ouvir o rumor de uma fonte na
pedra
sem cumplicidade (ou sem saudade)

141
O diálogo indiscreto

Foi quando ouvi (abismado) o diálogo noturno


entre o cavalo que foi árvore
e a árvore que ele fo i:
“ Era uma vez um homem rude,
um trabalhador de jardim, alma simples,
mas de mão geométrica;
certo dia, por não poder cortar a trança ao seu
[amor
cortou a tua cabeleira e fez de ti
minha figura de cavalo em flor.**
"A h , eu quero ser árvore, voltar a ser quem era.
Sentir o mundo como uma árvore o sente.”

E compreendi a luta
entre o meu cavalo e a árvore que ele foi.
Lua secreta entre a geometria e a primavera.

Outro, mais sutil, teria transformado


a camélia em Amélia, como a um malmequer.

O jardineiro, não; êsse cortou a trança a uma árvore..


E fez da árvore um cavalo em flor.
Foi rude, incivil.

Como em geral o é o primitivo no furor de criar o


[seu símbolo.
As rosas riam-se
como bocas vermelhas
na manhã ros’anil.

142
Andante, presto

Mas, galopo de novo.


Qual a graça maior:
a do escultor anônimo
transformar uma árvore em cavalo
e a prefeitura oficializa-lo
enfeitando-o de lâmpadas elétricas
e as crianças dançarem diante dele
ou numa era pânica fazer-se
de um cavalo um edil?
um senador em flor
no mês de abril?
Qual dessas a metáfora mais gentil?

Amo, ao certo, os escultores anônimos,


os que inventam figuras, construídas
com areia, na praia
(uma efígie de Cristo, uma mulher,
metade peixe)
A reia ... ouro vil.
Como me punge aquela
fragilidade diante do infinito.
Aquelas estátuas que sé têm a vida
das borboletas, vinte e poucas horas,
sobre fundo anil.

Mas o cavalo verde,


no jardim público, onde os animais
criaram folhas novas, e estão cheios
de flores pelo corpo,
me põe na alma de nômade uma flauta
pastoril.

143
O que é verde é de todos

Quando eu era menino:


— Que cor tem o cavalo branco
de Napoleão?
O meu avô me perguntava, entre
malicioso e sutil.

E me falava no alazão, no baio, no tordilho, no picaço,


e no corcel, no palafrém, no da guarda da rainha
montado por um herói de purpura e pluma preta.

Mas o meu era verde, com pernas de pau.


Como o de Fernando Pessoa era azul
com um jóquei amarelo.

Qual deles, afinal, o mais gentil?

Um dia hei de aparecer


no céu, montado no cavalo verde
que o jardim público me deu.

Um arcanjo:

— Que vens fazer, cavaleiro,


num cavalo que não é teu?

144
O cavaleiro:

— Este é o cavalo verde


que o jardim público me deu.
Como verde é o cavalo
da esperança — JRossinante dos doudos,

E o que é verde é de todos.


Regresso ao jardim (já é noite)

Onde estará, a esta hora,


meu cavalo de pau? com o seu soldado
armado de fuzil?
que dava a volta ao mundo, a toda hora,
ou ia á guerra, a toque de corneta
e tamboril?

Que cor tem o H. P. que mora, hoje,


nesta lâmpada verde, ou rosanil?

Por que não nasci eu,


no estranho jogo de uma geografia
que me obriga a escolher entre água e fogo,
(nesta farsa que a lágrima não disfarça)
já não direi um simples vagalume,
mas, em vez de homem, qualquer outra coisa,
mais lógica, mais gentil?
Uma árvore transformada em cavalo
no jardim público?
um caValo a dar flor
lio mês de abril?

Por que não amanheci, eu, pensando


em outras coisas?

146
Ou pensei nisso por pensar justamente
em animais feitos a lapis verde
no meu mundo comercial e civil?

Montei meu cavalo verde


(o meu era verde, o de Fernando Pessoa era anil)

— Quando voltei de minha viagem


(viagem que fiz em torno do planeta)

— Onde está meu cavalo de pau


que foi árvore?
Em que árvore estará
o mês de abril?

147
4
Não pensemos na morte, se o espetáculo
nos deslumbra, se o encanto mata o espanto.
O ceu tornou azuis os inimigos.
Que importa o assalto quando os nossos olhos
se contentam com a insólita beleza
do mundo mágico? ou se o absurdo é surdo?
Mais que um poema entre coisas nunca vistas
é a chuva branca dos paraquedistas.

Como uma rosa oca e repentina


que se abriu no ar, eis que o primeiro dêles
se joga em pleno espaço, eis que o segundo
tambem se joga, e um após outro, todos.
Todos parecem rosas soltas no ar
e ainda flutuam no apogeu da quéda.
No horizonte da tarde em que coincide
o seu ato com a imagem do suicídio.

Do grande dia azul sáem os pássaros;


de cada pássaro uma rosa branca
que se abriu no ar, de cada rosa branca
desçe suspensa uma metralhadora.
De cada uma destas, não a festa
do ser e do não ser, como na fábula,
mas o implacavelmente ter que ser,
mas o ter que matar ou que morrer.

4 151

10
Que mais bela presente ao inimigo
do que esta chuva de prateadas rosas?
O cavalo de Tróia já perdeu
a sua enorme graça, o sal antigo.
O encanto é tal que substitui o medo.
Quando a gente percebe é sempre tarde:
nascidas no ar, rosas enganadoras,
no chão caídas, são metralhadoras.

Apelar para o ceu? mas o castigo


nos vem do ceu, é o ceu quem no-lo envia,
não sob a fórma de uma chuva de ouro,
como o fez Júpiter, mas da maravilha
que é, para nós — homens sempre crianças
a chuva branca dos paraquedistas.. .
A maravilha é tanta e de tal sorte
que apaga em nós o recêio da morte.

Mas uma rosa não se abriu no ar,


e eis um botão de rosa que cáe morto.
É algum herói que, ao certo mais afoito,
caiu do ceu como um anjo sem asa.
"Pobre anjo sem asa que morreste,
pòrque morrer quiseste, mais celeste,
de morte bíblica perpendicular:
Por que tua rosa não se abriu no ar?”

Êss9 caiu em linha reta como


uma ave que desceu de asa fechada,
à hora em que os nossos olhos se assustaram
bem mais com a maravilha que com a morte.
Talvez pra nos mostrar a diferença
que não vemos, entre o mágico e o trágico .
Êsse mostrou, caindo de mais alto,
a diferença entre um salto e um 'assalto.. .

D
Tombado
. mtá H
ao chão como um anjo sem asa,
êsse era bem a imagem do suicídio.
Nunca senti tanta necessidade
de um Deus anti-celeste, ou anti-aéreo
como sob esta chuva fabulosa
que hoje caiu sobre as nossas cabeças.
Não somos mais, nesta planície rasa
do que anjos tristes que perderam a asa.

A morte imperceptível hoje mora


conosco, dorme em nossa cama, acorda
à hora em que acordamos, e ainda agora
está vendo, por nossos olhos, tácita,
a chuva branca dos paraquedistas
e os pássaros geométricos que cruzam
o céu, — cujo rumor (embora diurno)
tem, sempre, qualquer coisa de noturno.

Ah, os anjos vindos do ar, dependurados


nas corolas de "nylon”, rosas côncavas,
me despertam o muito de criança
que ainda ha em mim, o livro de figuras
que li em menino, o terrível, brinquedo
que é o universo, hoje bíblico e mágico,
(azul dragão de olho fosforescente)
me mostra como sou ainda inocente.

Amanhã, num cinema, estarei vendo


o que hoje vi no céu, a chuva branca.
E estarei vendo mais a maravilha
do que o suicídio, e entre os heróis que irão
caçar o monstro da Desesperança
estarei eu, numa fotografia.
E a celebrar a manhã que nasceu
estarei eu, paraquedista e Orfeu.

154
0 COMÍCIO
OS CÉGOS

I ,

Temos os olhos ocos,


não por sermos cégos
e sim porque comemos,
uns, os olhos dos outros.

Mas, depois da fome,


eis o arrependimento.
Que fazer, agora?
Esperar pela aurora?

Pedir aos enforcados


que se lembrem de nós
e nos deixem seus olhos
no banco dos cegos?

Se inda houver lâmpada


pra nosso nervo ótico,
que importa olhar a vida
por um olho exótico?

Ou ficamos assim,
de olhos ocos, á espera
da grande primavera?
ou de algum outro fim ?
Temos os olhos ocos
como os das estátuas»
Temos os olhos loucos...
Que fazer, agora?

Pedir á terra, ao menos,


que um dia nos coloque,
nas órbitas vazias,
duas rosas frias?

Não haverá, ao menos,


para quem só não chora
por ter os olhos ocos,
uma noturna aurora?

II

Não é a justiça, a cega.


Cega será a injustiça...
Cega não será a mão
que dá, mas a que nega.

Temos os olhos ocos


e o espelho em que se esconde
nossa triste figura
já não nos responde.

O mal não é estar cego


por não ver as coisas.9

Não é ter olhos ocos


poraue comemos, loucos,
uns os olhos dos outros.
É o de quem vê as coisas
sem saber que está cego.
É o de quem está morto

sem saber que morreu.


Ê o de quem carrega
o seu proprio enterro,
sem saber que é o seu.

É o de quem vê tudo,
as cores, as figuras,
mas tem, dentro de si,
uma estrela cega.
M E U T A I FOI REI

Repousei porque abdiquei.


FERNANDO PESSOA

Todos gritarão
que não foi, que não foi.
E me jogarão pedras,
bem o sei;
que essa é a grande lei.

Mas meu pai foi rei.


Não porque tivesse
uma coroa de ouro
na cabeça insensata,
mas pela grande lei
da lua ser de prata.

Ah, o meu pai foi rei.


(Rei tu és, rei eu sou)
Quem de nós nao foi rei
só porque abdicou?

Ah, o meu pai foi rei.


Muito mais do que o rei
Salomão.
Porque o não foi por ter
rubins e esmeraldas
e um ceptro na mão,
mas só porque assinou
sua abdicação.

160
Não o rei4’dè espadas
numa mesa de jogo,
mas o rei de não ter,
após ter tido tudo
sinão um coração
e um pássaro na mão.

Ah, o meu pai foi rei.


Mas rei só porque pôde
dizer: ó onipotente,
tuas estrelas são
o teu suor de viagem
mas eu suei estrelas
carregando pedras
para a minha paisagem.

Rei, mas não do mar,


nem d. Sebastião,
mas de assim exclamar:
ó oceano,
tu não me intimidas
com a tua grandeza.
Maior que tu é a lágrima
que chorei hoje, á hora
da abdicação.

Rei de me haver dito:


olha. meu filho, arranca,
ao teu proprio corpo,
(como a um malmequer
uma pétala branca)
o teu único bem
em favor de alguem
a quem faças feliz,
sem que esse alguem, sequer,
o saiba, e serás rei.
E dirás: fui rei,
só porque abdiquei.

Ah, o meu pai foi rei!


(Rei tu és, rei eu sou)
Quem de nós não foi rei
só porque abdicou?
Quem de nós não foi rei
só porque renunciou
(anônimo suicida)
ao que mais quis na vida?

Todos gritarão
que não foi, que não foi.
E me jogarão pedras,
bem o sei;
que essa é a grande lei.
Não importa, não.
Muito maior que um reino
é uma abdicação.

162
OS DEFORMADOS

Não comemos, a fome é que nos come.


E quanta vez, por mais que o ignoremos,
algo, em longo segredo, nos consome.

Deformação terrível, associada


tanto ao maravilhoso como ao feérico,
a que sofremos sem saber de nada.

Olhamo-nos no espelho, mas não vemos


o sinal da deformação, na suada
face, senão lá fora o azul esférico.

Vemos no espaço uma rosa voadora


e o seu reflexo em nossos olhos brilha
como se uma outra anunciação nos fora.

E o que mais nos empolga é a maravilha,


não a idéia da morte, porque o trágico
está, agora, transformado em mágico.

Tudo deformação. Que todos somos


cégos em torno à mêsa dissoluta,
ou sob a arvore dos dourados pomos.

163
Somos os jnutilados, que a disputa
da terra arremessou ao lodo e ao vento
(o mapa é azul, porém a terra é bruta) *

Somos os trôpegos, os de passo lento,


os de rosto cubista, os deformados
pela polêmica e pelo sofrimento.

E os que, por sêde de justiça irados


se riem (só, porém, fisicamente)
já que chorar não podem? Que as mais duras

lágrimas já beberam longamente,


uns nos olhos dos outros, de tal sorte
que Deus não os conhece mais, nem sente?

Sob um perfil de anguloso recorte,


as árvores são braços ao sol nu
tremendo no ar, imagens do nosso erro.

Passaro de metal, eis hoje o abutre


que nos assalta, em tão brusco desterro,
onde a tristeza é uma ave pernalta.

Até nossa inocência é monstruosa.


Inocência, não diante das estrelas,
nem diante da manhã orvalho e rosa,

mas de uma bomba atômica; e assim todos


desfilamos na rua, como doudos.
O mundo é teu, agora, ó hipopótamo!
■■■

ZARAFA

Pronta a girafa, foi preciso pinta-la,


como a natural. E eis a ilusão perfeita
de uma girafa viva. Agora foi preciso,
pelo radar, faze-la ir — a passo lento —

pela rua, entre as duas filas de crianças


que a esperavam em festa, á hora do anuncio.
E ei-la que se moveu, alta, com a fronte
de quem tinha a consciência do horizonte.

Alta como uma flor na haste, e bela


como alguma outra flor de olhos dourados
que deixasse o jardim para ir passear na rua.
(Falso perfeito que a tornou autêntica)

Andando por si mesma, inequivocamente,


tão convencida quanto convincente,
o que invejei nessa girafa não foi eu
ser criança pra estar metido entre os garotos;

e assim ve-la passar; não foi a maravilha


da sua aparição, no universo mecânico
que substituiu o mágico; o que me fez
pensar foi a certeza, a absoluta certeza

165
da girafa se crêr uma entidade viva;
o seu andar, que era o de uma mulher
bem moça; o que mais me encantou foi a cena
feliz, a de uma coisa não ter dúvida

sobre o seu proprio mérito; a girafa


certa de ser girafa; andando entre as crianças
como uma flor numa moldura azul-garrafa,
que era a manhã universal, na rua.
POEMA EXPLICATIVO

(De como Zarafa percorreu a


cidadej na manhã de hoje)

1
Zarafa, gentil de se ver,
com seus cinco cornos dourados,
quatro maiúsculas na testa.
(No corpo, um mapa).

Cabeça errante, no ar situada.


O pescoço descomedido
mais longo que o da Bem-Amada
no Cântico dos Cânticos.

Entre as árvores da avenida


ei-la com o povo a caminhar.
Tão comprida que a sua fronte
alcança um 20.° andar.

“ Responde-me, dou-te uma rosa:


És mesmo uma girafa viva
ou, na cidade sem sossego,
um erro de perspectiva?”

2
Não se sabe de onde ela veio.
Se da Bíblia, se da Fábula.
Se do Senegal, se da Núbia.
Se do arquipélago grego.

167
Se de um Ciclotron, se da Pérsia,
Se de algum outro planeta.
Só se sabe que era impossível
caça-la como borboleta. . .

Muito menos submetê-la


como se submete uma estrela
da Ursa Maior ao nosso olho,
quando a noite é azul violeta.

“ Responde-me, dou-te um jasmim:


O mapa que trazes no corpo,
salpicado de rosa dúbia,
é um mapa da Pérsia, ou da Núbia?9*

3
Jogam-lhe então frutos vermelhos»
para desvia-la do seu rumo.
Nãò adianta. Zarafa tem
a cabeça e o pescoço a prumo.

Não os pode colher, no asfalto.


Conforme o que é estilo e uso.
A não ser que abra as duas patas
dianteiras, em ângulo obtuso.

Mas abrir-se toda, tão fácil,


será elegante, porventura,
a uma girafa do seu tipo,
do seu sexo e compostura?

O Gabinete então se reune


(florido como um ramalhete)
168
no salão nobre da República,
para manter a ordem pública.

“ Que objetos escondidos levas,


Zarafa, em teu ventre mosqueado?
Um contrabando de joias?
Um lírio? uma bomba? um soldado?”

4
Porém a girafa mecânica
áchou graça no Gabinete.
E marcha, outra vez, pela rua,
como um animal sob a lua.

Nem lhe adiantam tambem os nomes


que lhe dão, camelo pardalis,
girafa peralta (ou pernalta)
como rótulos de garrafa.

Não lhe alteram a substância,


a graça lírica; e as crianças
a acharão linda, quer se chame
Zarafa, Zirafa ou Girafa. . .

Dizem que algo no céu ocorre


(talvez por secreta lei)
quando um Rei manda, de presente,
um elefante a outro Rei.

Que se dirá de uma girafa


que altera, de modo tão brusco,
a idéia azul do horizonte, a
réplica do encanto e do susto?
«

Até que — gentil monstro bíblico —


com pasmo do público, absorto,
se ergueu nas patas de trás
(parecia um arcanjo torto)

E começou a tocar flauta,


diante do povo, a tudo alheia.
Com a certeza, o ar tranqüilo de uma
fatalidade que gorjeia.

5
O Gabinete então se reune
dentro de uma grande ode pânica
e interpela, com azedume,
Zarafa, a girafa mecânica.

Mas Zarafa, Girafa ou Zirafa


ihe responde: gente incauta!
Não sabeis, então, que o mundo
foi feito ao som de uma flauta?

170
OS OUTROS

Os que hoje são figuras


da fábula: os outros.
Homens em cuja boca
as palavras passaram
a significar outras coisas.

(Digo rosa e eis um ramo


imediatamente agreste
de cravos. Digo "eu te amow
mas estás a oeste)

Os desfigurados,
aqueles que a injustiça
tornou fora de si, os exçluidos
da terra, como João.

Os que não têm culpa


de haver nascido numa hora
de chuva radioativa,
de pânico, de escarcéu,
em que lhes foi preciso
nascer escondidos do céu.

Os que já foram atacados


por um disco voador
e mudaram de rosto;
e estão dourados de terror.

Os que viram a estrela


brotar do chão
como uma enorme flor azul,
e por ve-la, tambem,
passaram a ser outros
em hórrida procriação.

Os que tentaram escalar


o céu num cacto.
Os quatro Anjos sem asa:
Geófago, Malandrau,
Fulgobel, Belfulgor.

Enfim, todos os outros


reunidos -na calçada como
num ekto-cromo.

Que lhes adianta agora


mostrar a sua cicatriz,
uma última fotografia,
o sinal da mão?
Se o dicionário e o feérico
os fizeram outros?

Se outros serão, até


que o morcego voe
da torre invertida, até
que se restabeleça a ordem
das estrelas?
Ó rei, no teu dourado rei­
no,
onde és tu mesmo a lei,
nunca ouviste falar
nos outros?

Nos dolorosos outros?


Os LUNÁTICOS

S. Jorge, ainda acredito


Na fôrça da tua lança.
MENOTTI

Nós somos os lunáticos, os párias.

Só a lua nos conhece, amiga única.


E quanta vez nos encontrou, notívagos,
roendo os ossos do dia, nesta rua.

Nós somos os lunáticos, os poetas.

No entanto, os homens práticos, agora,


é que organizam uma sociedade
para viagens á lua, em hora exata.

Que irão eles fazer, na cor de prata,


onde só encontrarão gêlo e destroços
de antigas primaveras destruídas?
Talvez uma planície toda óssos.. .

ó cães, uivai bem alto. Uivai bem alto.


Que os homens práticos vão ficar celestes,
que os homens práticos vão subir á lua.

174
Vão assaltar a branca — inerme presa —
a lua,
que não é russa nem americana
como, por alusão, pensar se possa,
mas, da outra grei, mas naval e chinesa.
E que, antes de naval e de chinêsa,
é nossa.

(Ó S. Jorge, desfere a tua lança


no peito do dragão que, de novo, se apóssa
da lua.
Da lua que, antes de naval e de chinêsa.
é tua!)

Lunáticos de todos os países:


Façamos um rumor tão alto quanto absurdo,
batendo em latas velhas, pelos becos.
Como nas noites universais de eclipse.
Como, um dia, o fará o anjo do Apocalipse,
com a sua trombeta que será de prata
e fogo.

Contra os intrusos, contra os que decidem


da nossa sorte numa mesa de jogo.

Somos os namorados pobres, de que a lua


foi cúmplice.
Os cafusos, os nômades, os confusos.
Os loucos, os de cabeça lírica, os jogados
á rua e ao frio, enquanto os outros dormem.

Somos as velhas fomes, sempre adiadas,


porque imemoriais e já simbólicas.
Mais duras do que a simples fome de ter fome.

175
Hestos lunares do festim terrestre.

(Sing Bonga
casou com Chaudo Omol, nasceram as
estrelas.)

Somos os mágicos, os serestelros,


os que nunca beberam senão leite
de lua.
Guardas noturnos, boêmios, varredores
de rua.
Somos os anjos da propriedade alheia.
Os que não temos mais que uma triste alegria:
* dormir,
tendo uma pedra como travesseiro
e a branca hipótese de um lençol de lua. ,

Mais cintilante do que um grão-Mogol,


o sol não nos dá o pão de cada dia
senão desigualdade aos que nasceram longe
ou perto dele (pois que culpa temos
de uns nascerem mais longe e outros mais próximos
do sol?)

Somos os marginais, os loucos de Raimundo.


Nossas irmãs são pobres ròsas públicas,
são diurnas de corpo, mas noturnas.
Mas, têm segredos que só sabe a lua.
\
No baralho do céu, onde, durante o dia,
o rei de ouros é o trunfo, ei-la, durante a .noite,
nossa rainha, nossa dama de espadas.
Porém de espadas brancas como plumas. . .

176
Onde estarão, a esta hora, os homens práticos

A noite é nossa, o dia é, todo, deles.


A lua é nossa porque moramos na rua.
HMorar na rua é residir na lua!

(Sol da demência.. .
Vaga, notâmbula aparição)

Que importa a nossa ficha policial


nos dê como de domicílio não sabido?

A Ásia é dos asiáticos, a lua


é exclusivamente nossa, dos lunáticos.

A lua é nossa porque nós moramos


na rua.

E há quanto tempo é que moramos na rua?

Morar na rua é residir na lua.


OS ALTO-FALANTES

Orfeu:

Zeus não mais enlouquece,


primeiro, as criaturas
a quem quer perder.

Zeus corta-lhes, no peito,


a flor onírica.

Que é um déspota, afinal?

É justamente aquele
ém cujo coração
Zeus suprimiu a graça lírica.

Aretusa:

Quando falta poesia


no coração do Rei,
o povo trás á rua
sua própria poesia.
Porque o povo é poeta.
Porque, em todos nós,
há uma fome secreta’
que é a fome do ser.
Não a simples fome
que uma coisa tem de outra.
Nem a pura fome
de uma boca que come;
a fome de ter fome.
Não a simples matéria
exigindo a matéria.
Mas a fome do ser.
Fome de poesia.
Fome de amanhecer.

Anfion:

Como nos salvaremos


da destruição?

Como resistiremos
ao frutò que a Serpente
nos traz, oferecendo-nos
o trágico em vez do mágico?

Só mesmo com a poesia


que se conservar pura
em nosso coração.
Só mesmo adormecendo
com o canto de um canário
os monstros que habitam,
hoje, o dicionário.
Grandes anjos sem asa
da deformação.
EIS A TUA LANTERNA

Nada mais facil que -Caim


olhar Abel no espelho.

Nada mais facil que a resposta


a uma das sete perguntas
de João.

Nada mais facil que a manhã


nascer,
anunciada pela flauta de Pã.

E’ uma questão de abrir os olhos


e vêr na porta a nossa" irmã.
Bom dia, Alegria.

Nada mais facil, afinal,


do que uma Salomé, terna e alva,
restituir nossa cabeça
no espelho do dia seguinte
qual numa
cor de rosa salva: eis a tua
fotografia.

A cabeça que haviamos perdido


na lua
numa hora de bruma espêssa,
por deformação. A cabeça
que S. Denis lavou na fonte
como se lava um fruto: Nua.

Eis o fruto de tua cabeça.

A cabeça do heroi que de si


faceva a sé stesso lucerna. . .
A cabeça que haviamos perdido
na rua:
Eis a tua lanterna.

Mas por que coisa tão facil


ha de ser tão dificil e eterna?
GÀS LACRIMOGÊNIO

Aplaudi o orador do comicio.


Mas aplaudi, apenas, sem nenhuma
intenção de chorar.
Pois, como diz a Biblia: ao dia
de hoje já não bastarão os seus males?

Mas a policia compareceu rutilante.


A sua maquina de fazer chorar
funcionou
maravilhosamente, rutilantemente.
E a multidão se dispersou chorando,
como se um monstro biblico
desfizesse a alegria das ruas em panico
com o seu choro mecânico e coletivo.
E os meus olhos choraram lágrimas
inveridicas.

No entanto eu não pretendia chorar.

Pretendia, ao contrário, apartear o orador


pra lhe contar que ha muito tenho os olhos
enxutos.

Que sou um habitante da caatinga.

Que sou anti-maritimo, anti-celeste.


Que sou âgorâ uma árvore sem frutos.

Porque um homem não chora.

Porque sou filho das manhãs sem orvalho.


Porque pertenço a uma família enxuta e ma-
[gra
a quem a sêde faz secar os olhos.. .
Porque moro num chão onde são muitas as
[ratões pra chorar
mas onde não se chora.
Meu filho choraste em presença da morte?
Meu filho não és.

Que nome terá o crime, a iniqüidade


de quem me fez chorar na rua, no áspero
[país
onde não se chora:
Onde não se chora senão de saudade?
A CADEIRA ELÉTRICA

(Qualquer semelhança com fatos, pes­


soas e firmas, é por mera coincidência).

Não adiantam confrontos metafísicos


entre a cadeira azul em que o rei de ouros
está sentado, e a tua. Entre a cadeira
em que me sento p’ra dar lustre ao sapato
que me fará ilustre, e a tua.

Pediste a revisão do teu processo,


mas um processo é algo, sempre, de kafqueano.
Tem a porta da entrada e não a da saída.

O pássaro cantou, anunciando que é hora


de estar chegando a dos dedos de rosa.
Há um frescor matinal, e uma estrela ainda acesa. -
A que se apagará por méra coincidência,
quando a tua se apagar, em teus olhos. . .

Tens um consolo, é o de que tudo será breve


como um relâmpago. Como aquêle relâmpago
que taquigrafa no ar uma palavra repentina.
Palavra que ninguém já leu, em sânscrito.
Mas que, com certeza, ha de significar qualquer coisa.

Tens um outro consolo, é que o primeiro


a ostentar sobre a fronte a coroa de prata,

184
não teve a tua “ opportunity” e suou sangue.
Fagulhas da eletrocução lhe saltaram do corpo
como num halo sobrenatural.

Foi preciso ajustar-lhe os pés e os pulsos


á posição tétrica, como o exige a morte elétrica.
E coroa-lo de novo (a auréola
da majestade, como a ceremonia o exige)
Com que direito não morrera ele, em três segundos,
com a maravilha da instantaneidade
prevista pela técnica? Ainda respirava
depois do óbito legal. Em estado de graça.
Ou de desgraça,, para merecer a graça
não de fazer sorrir, nem a dos deuses,
mas de morrer mais uma vez. Sob um luxo de força
que acenderia todas as lâmpadas de uma igreja.

Coma se fosse sua a culpa de não haver morrido


[à hora certa.)

Hoje tudo é sintético.. . é geométrico.


Teu eletrocutor será gentil; mais que gentil, exato
e te fará morrer tão amistosamente
como quem — num jardim — colhe uma flor.

Que te importa o aparato, a cerimônia


do café matinal, da coroação?
A morte, acaso, não requer ornatos?
O ornato não é enfeite, mas aumenta o mistério.

Tens o aspecto, por fim, sentado no teu trono,


de uma figura de mitologia.

185
0 que te falta é um ceptro — o que os rêis têm na mãoc
Mas não importa. Vais dormir com a rainha.
No reino cujo escudo é o de uma rosa
em campo blau, e em ouro uma andorinha.
*

(E a estrela se apagou, por méra coincidência)

186
FIM DE COMÍCIO

O rei:

Afinal, o que pedem?

Um egipã:

Pedem, simplesmente,
uma vida,
parecida com a vida.
Pedem tão pouco
que, afinal, nada pedem.
Pedem, tão somente,
uma morte,
parecida com a morte.
Pedem, se não é tarde,
um pouco de poesia
no duro coração
de Vossa Majestade.
Pedem um quase nada,
uma rósadãda:
Pedem que amanheça
na cabeça de Júpiter.
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■ ÍNDICE

Dedicatória . . . . *................... 5 VISITA AOS DEUSES


Visita aos deuses ........... 89
A ENTERRADA VIVA Pequena mitologia ........... 98
Canto imediato ..................... 11
Enterro impossível .............. 14 EU NO BARCO DE ULISSES
O fruto e a fruta .............. 15 A nau pintada de preto ... 105
Missa de corpo presente . . . . 21
A triste dialética . ............. 23 ODES PÂNICAS
Lamento em si bemol ........ 25 Morrer não será dormir . . . 123
íris, aeromoça ................... 125
A rosa e o número ......... 127
O JFESTIM TERRESTRE
Definição , ............................ 129
A lua imóvel ............. 29 O arranha-céu de vidro ... 130
Aviso aos navegantes ........ 31 Narciso e o éco ................. . 132
O cacto .................................. 32 Pan-lirismo ............. ........... 133
, Indômitus ............................ 35 O ditongo “ eu” ............... 134
A / cidade confusa ................ 37
Fauno em prantos .............. 40 CAVALO EM FLOR
■Notilongo ............................... 42 Farsa do cavalo em flor .. 137
Solstício ................................ 45
O hipopótamo ....................... 46 OS PARAQUEDISTAS
^Msoluto, absoluto .............. 48 Não pensemos na morte ... 151
A^degolação dos inocentes . . 51
Festim terrestre ................... 52 O COMÍCIO
Os cégos ............................... 157
O ESPELHO MORTO Meu pai foi rei ................. 160
Os deformados ..................... 163
O enterro dos vivos ........ 67 Zarafa .................................. 165
Evocação dos mortos .......... 69 Poema explicativo .............. 167
Os outros ........................... . 171
DESINTEGRAÇÃO Os lunáticos ......................... 174
Os altofalantes ................. .. 178
[Desintegração ....................... 73 Eis a tua lanterna ............ 180
ó Çirce, onde estás ............ 82 Gás lacrimogêneo ................... 182
JÒrnal falado ..................... 85 A cadeira elétrica ........ . 184
Os 30 egipãs ......................... 87 Fim de comício ................. 187

189
ÊSTE LIVRO FOI COMPOSTO E IMPRESSO
N A S OFICINAS D A EMPRÊSA GRÁFICA D A
“R E V IS T A DOS T R IB U N A IS ” LTD A ., À R U A
CONDE D E SARZEDAS, 38, SÃO PAULO,
PARA A
L IV R A R IA J08Ê OLYMPIO EfDITÔRA,
RIO DE JANEIRO,
EM JANEIRO DE 1956.
“ Um dia depois do outro” ô um
livro cheio da grande, da maior poohIm,
Estou certo de que ficará representan­
do um dos momentos mais altos, nmlH
fecundos, mais luminosos da poesia mo­
derna, no Brasil. ”
MUCIO LEÃO

★. II
Com “ Poemas murais” Cassiano Ri­
cardo se sobreexcéde na realização lirica.
SERGIO M ILLIE T J

★ I
Ganhando assim nova dimensão, ^.a
linguagem deste poeta ganhou tudo
quanto ainda lhe faltava para se tornar
uma das vozes essenciais da nossa poe­
sia de hoje.
SERGIO B U A R Q U E D E H O LAN D A

★ .I
Ao poder visual e imagistico, que
era a nota predominante da sua fase
verde-amarela, soma-se, como elemento
novo e principal na poesia de Cassiano
Ricardo, esse elemento de reflexão e de
experiencia autentica e cristalizada. E
a humanização dos temas, livres do ex-
clusivismo pitoresco, histórico e paisa­
gístico de “ Vamos caçar papagaios” deu
á sua poesia uma ressonancia poderosa,
elevando este poeta, antes limitado e
apenas curioso, á primeira linha dos
poetas do Brasil.
A LM E ID A SALLES.

* 1|
Coloca-se Cassiano Ricardo, com os
seus dois últimos livros, dentro da mais
alta linhagem espiritual e artistica da
poesia contemporanea.
.LEDO IVO



. . . essa força, na transmissão de
uma idéia, no destino de uma especula­
ção, na evolução de uma tese (com o
maior exemplo no poema “ E tc.” ) não
consegue neutralizar a liberdade da Ins­
piração ou asfixiar a violência do sopro
lírico. Aqui, e talvez seja esse o itu
grande contacto com Fernando I'ohnAii,
o poeta, sem perder a disciplina Impoalu
pela lógica, entrega-se â crlaq&o. A
forma trabalhada não se alantra n ponto
de destruir, na poesia, o amplo ohiuhjo
sem oriem e sem fronteira. lOm
librio, circulando, ao ninimio linmpu, < m
torno de dolM tmlvornoM, <1iiMwlnno Kl
cardo confirma o QUt, nni niiii ponMiti, a