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Maio/2021
Ambiente Virtual

Caderno de Resumos
http://www.escravidaoeliberdade.com.br/

Departamento de História
2021
10º ENCONTRO ESCRAVIDÃO E LIBERDADE NO BRASIL MERIDIONAL

COMISSÃO ORGANIZADORA
Jaime Rodrigues COMISSÃO EDITORIAL DO DEPARTAMENTO DE
Lúcia Helena Oliveira Silva HISTÓRIA – EFLCH/ UNIFESP
PET-História/UNIFESP Coordenação – Glaydson José da Silva
Representação Docente
Patrícia Teixeira Santos
COMITÊ CIENTÍFICO Wilma Peres Costa
Beatriz Gallotti Mamigonian – Universidade Representação Discente
Federal de Santa Catarina Felipe Vaz - Mestrado Acadêmico
Helen Osório - Universidade Federal do Rio Joyce da Silva Serafim – Mestrado Profissional
Grande do Sul Liz Santos de Jesus – Mestrado Profissional
Henrique Espada Lima – Universidade Federal de Matan Ankava – Mestrado Acadêmico
Santa Catarina Victoria Lacerda – Graduação
Jaime Rodrigues – Universidade Federal de São
Paulo CONSELHO CONSULTIVO
Joseli Maria Nunes Mendonça – Universidade Ana Luiza Martins Camargo de Oliveira - Ex
Federal do Paraná Condephaat/ Pós-doc. FFC/ Unesp - Marília
Lucia Helena Oliveira Silva – Universidade Andrew Britt - University of North Carolina School
Estadual Paulista – Unesp-Assis of Arts
Regina Célia Lima Xavier – Universidade Federal Armelle Enders - Université de Paris IV
do Rio Grande do Sul Carlos Antonio Garriga Acosta - Universidad del
País Vasco
Eugénia Rodrigues - Universidade de Lisboa
INSTITUIÇÕES PROMOTORAS Fabrícia Cabral de Lira Jordão - Universidade
Programa de Pós-Graduação em Federal do Paraná
História/UNIFESP Gianluca Fiocco - Università degli studi di Roma Tor
Programa de Pós-Graduação em História/UNESP Vergata
Programa de Pós-Graduação em História/UFSC Gustavo Junqueira Duarte Oliveira - Pontifícia
Programa de Pós-Graduação em História/UFRGS Universidade Católica de Campinas
Programa de Pós-Graduação em História/UFPR Jeffrey Lesser - Emory University
José Manuel Viegas Neves - Universidade Nova de
Lisboa
Marcelo Cândido - Universidade de São Paulo
Mônica Raisa Schpun - École des Hautes Études en
CADERNO DE RESUMOS Sciences Sociales
PREPARAÇÃO – Jaime Rodrigues e Lucia Helena Renata Cristina de Sousa Nascimento -
Oliveira Silva Universidade Federal de Goiás
DIAGRAMAÇÃO: PET-História/UNIFESP Renata Senna Garraffoni - Universidade Federal do
CAPA: Laís Charleaux, com base em A Free Black- Paraná
Girl, litografia, aquarela e lápis de cor sobre papel Stella Maris Scatena Franco - Universidade de São
de Eduard Hildebrandt, c.1846. Paulo
Valdei Lopes de Araújo - Universidade Federal de
Ouro Preto

Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional (10. : 2021 : ambiente virtual).


10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional (recurso eletrônico) : caderno
de resumos / organizadores, Jaime Rodrigues e Lucia Helena Oliveira Silva. – Dados eletrônicos –
1º ed., Guarulhos: Departamento de História/EFLCH/UNIFESP, 2021. 115 p.
Evento realizado em ambiente virtual, no período de 11 a 13 de maio de 2021.
E-book (PDF)
ISBN 978-65-87312-06-4
1. História – Brasil – Congressos. I. Rodrigues, Jaime. II Silva, Lucia Helena Oliveira. III.
Título
CDU: 981
SUMÁRIO

Apresentação ............................................................ 5

Quadro geral da programação ............................. 9

Programação e resumos ........................................ 12

Índice de autores, comentadores e

conferencistas .......................................................... 109


APRESENTAÇÃO

Sejam bem-vindos ao 10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil


Meridional. Nesta edição, nosso Encontro traz duas novidades. Ele
ocorrerá pela primeira vez fora do âmbito da região Sul e acontecerá
virtualmente.

Desde o primeiro Encontro, ocorrido em 2003 em Castro (PR), foram


realizadas várias edições, sempre com número crescente de participantes.
Nossas pesquisas, que buscavam desconstruir a ideia de uma escravidão
discreta na região Sul, caminharam para muitos outros espaços
geográficos, envolvendo pesquisadores de graduação, pós-graduação e
docentes das instituições públicas e privadas de ensino superior. Em cada
um dos Encontros, pudemos observar o crescimento e a consolidação de
diversas temáticas, envolvendo processos de escravização, resistência,
alforrias, memória e patrimônio, estudos demográficos, relações familiares,
relações de gênero, compadrio, infância, estudos sobre posse escravista,
estrutura fundiária, relações de trabalho, imprensa, fronteiras, relações
raciais, religiosidade, associativismo, rebeliões, demografia, saúde e saberes
populares, mestiçagem, escravidão e Direito, processos de escolarização,
tráfico interno, migrações, abolicionismo, sociabilidades, pós-Abolição e
tráfico transatlântico, entre outras. Também vimos diversos estudos com
interfaces com as diversas regiões do Brasil, Américas e África, contando
ainda com participações trazidas por diversos investigadores estrangeiros.

As tendências da historiografia brasileira no campo da escravidão e


da liberdade podem ser identificadas pelos trabalhos apresentados ao
longo dos dez Encontros até agora realizados. Essa riqueza de pesquisas
possibilitou grande troca de informações, bem como um convívio
estimulante e proveitoso que esperamos manter no 10º Encontro, a despeito
da realização em outro formato, condicionado pelas excepcionalidades
advindas da pandemia de Covid-19.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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Nesta edição contaremos com cerca de 130 trabalhos de docentes e
pós-graduandos, dez apresentações de estudantes de graduação e
lançamentos de livros, frutos de pesquisas desenvolvidas em meia centena
de instituições em todo o país e algumas no exterior. Também teremos
duas conferências, duas mesas redondas sobre temas candentes, além de
cerca de duzentos ouvintes – o que nos alegra e demonstra a boa
receptividade do público. A promoção dos encontros tem sido realizada
pelos membros do grupo de pesquisa do CNPq A experiência dos africanos e
seus descendentes (http://escravidaoeliberdade.com.br). Esta edição foi
conduzida e organizada pelo trabalho conjunto da Universidade Federal
de São Paulo (UNIFESP) e da Universidade Estadual Paulista (UNESP-
Assis) e seus respectivos programas de pós-graduação em História.

Estamos felizes por contarmos com sua participação e desejamos a


todas e todos um Encontro produtivo!

A Comissão organizadora

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10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
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QUADRO GERAL DA PROGRAMAÇÃO

Horário 11/maio Horário 12/maio Horário 13/maio


9h30-10h Abertura pela 11h-13h Comunicações 9h-11h Comunicações
Comissão coordenadas coordenadas
Organizadora Mesas 11 a 15 Mesas 21 a 24

10h-12h Conferência de 13h-14h Intervalo 11h-13h Lançamentos de


abertura: Mariana livros
Pinho Cândido

12h-14h Intervalo 14h-16h Mesa redonda – 13h-14h Intervalo


Pós-Abolição:
estado da arte
14h-16h Comunicações
coordenadas
Mesas 25 a 28

14h-16h Mesa redonda – 16h- Premiação dos


África, diáspora 16h30 painéis de
africana e graduação
patrimonialização
16h-18h Comunicações 16h-18h Comunicações 16h30- Intervalo
coordenadas coordenadas 17h
Mesas 1 a 5 Mesas 16 a 20

Comunicações Painéis de 17h- Conferência de


18h-20h coordenadas 18h-20h graduação 18h30 encerramento -
Mesas 6 a 10 Javier Alemán
Iglesias
18h30- Plenária de
19h encerramento

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Programação e resumos

11/05/2021 – 9h30-10h
Abertura pela Comissão Organizadora

11/05/2021 – 10h-12h
Conferência de abertura: “História da exclusão e da desigualdade em Angola:
acesso à terra, escravidão local e acumulação de bens”
 Mariana Pinho Cândido (Emory University)
Mediação: Lúcia Helena Oliveira Silva (UNESP)

11/05/2021 – 14h-16h
Mesa-redonda: “África, diáspora africana e patrimonialização”
 Mariza de Carvalho Soares (UNIFESP), Mônica Lima e Souza (UFRJ) e Carlos
Francisco da Silva Jr. (UEFS)
Mediação: Fernando Atique (UNIFESP)

11/05/2021 – 16h-18h
Comunicações coordenadas (Mesas 1 a 5)

SESSÃO 01
PATRIMÔNIO, ENSINO DE HISTÓRIA E LEI Nº 10639/2003
Coordenador e comentarista:
 Patrícia Teixeira Santos (UNIFESP)

Racismo religioso, Estado laico e ensino de História


 Alessandra Ferreira e Maria da Conceição Guilherme Coelho (UFRN)
No Brasil, vem crescendo nas últimas décadas um movimento fundamentalista
muito articulado com partidos políticos e mandatos legislativos. Existe até mesmo uma
denominação para se referir aos representantes desse conservadorismo cristão no
Congresso Nacional, comumente chamados de “Bancada da Bíblia”. Essa ascensão dos
segmentos vinculados às igrejas neopentecostais ocupando espaços políticos ameaça e
fere os direitos constitucionais, pois a atuação da dita “Bancada da Bíblia” promove
violência simbólica e, em alguns casos, violência física contra os praticantes das
religiões de matriz africana. Diante disso, tratar de temas sensíveis como escravidão,

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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cultura afro-brasileira e patrimônio afro-religioso, que atravessam o ensino de História,
constitui uma abordagem metodológica extremamente desafiadora para os docentes,
porque amplas parcelas da sociedade civil legitimam uma concepção de
ensino fundamentada no cristianismo enquanto padrão cultural hegemônico. Para que
possamos problematizar diferentes perspectivas e abordagens que façam aflorar as
memórias dos chamados "invisíveis da História", precisamos trazer para a sala de aula
as situações do cotidiano que denunciem as práticas discriminatórias contra os bens
culturais afro-brasileiros e, assim, construir uma proposta de ensino de História
comprometida com uma educação antirracista. Diante disso, partiremos das
considerações proporcionadas pelos estudos realizados por Reginaldo Ferreira
Domingos, Júnia Pereira Sales & Sônia Regina Miranda e Vagner Gonçalves da Silva,
promovendo uma reflexão de como a prática de ensino pode desconstruir estereótipos e
disponibilizar aos estudantes um processo de ensino e aprendizagem que reforce
valores como o pluralismo religioso, o respeito à diversidade cultural e à liberdade
religiosa como princípios imprescindíveis para uma convivência democrática e cidadã.

Disputando territórios no latifúndio do saber: o movimento quilombola


brasileiro e a luta pelo direito a uma educação diferenciada na
contemporaneidade
 Jadson Fernando Rodrigues Reis (UFMA)
A presente comunicação é parte de uma pesquisa em nível de mestrado que vem
sendo desenvolvida no Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Cultura e
Sociedade da UFMA, na Linha de Pesquisa Cultura, Educação e Tecnologia. A
investigação debruça-se sobre a análise do currículo de uma escola localizada em um
território quilombola do município de Santa Helena (MA), com o intuito de desvendar
como o seu processo de construção estabelece diálogos com o saberes construídos
historicamente em luta pelo Movimento Quilombola do Maranhão
(MOQUIBOM). Para tanto, estabelecemos que um dos objetivos da pesquisa é
construir um apanhado histórico, em caráter descritivo e analítico, dos principais
marcos no campo educacional formal propostos e construídos pelo movimento
quilombola brasileiro no pós-Abolição, com ênfase na sua atuação a partir da década de
1980, período em que ganha contornos de movimento social na contemporaneidade.
Desta feita, a partir de estudo bibliográfico, esta comunicação apresenta as discussões
preliminares sobre este apanhado, objetivando apontar que o movimento quilombola,
entendido enquanto sujeito epistêmico, exerceu protagonismo político crucial na
disputa de territórios curriculares e de referenciais legais que garantam uma educação
diferenciada nos territórios, ou seja, que respeitem sua soberania, autogestão,
identidades étnico-raciais, modos de reprodução social, cultural, política e econômica.

Um roteiro por São Paulo, cidade negra


 Jaime Rodrigues (UNIFESP)
Entre 2017 e 2018, coordenei o projeto intitulado São Paulo: vestígios da cidade
negra, desenvolvido junto aos estudantes do Laboratório de Ensino e Pesquisa III do
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
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curso de graduação em História da Universidade Federal de São Paulo. Partimos do
princípio de que pouco se sabe acerca da presença dos africanos e de seus descendentes
na história da cidade de São Paulo. Este desconhecimento se deve principalmente às
tentativas de apagamento da memória da população afro-brasileira, implantadas desde
o final do século XIX pelo poder público. O objetivo do projeto era trazer à tona um
pouco da história e dos vestígios da presença negra no Centro da capital paulista. Para
isso, criamos um roteiro de visitação atento aos indícios dessa presença. Esta
comunicação trata da elaboração e desenvolvimento do projeto e da efetivação do
roteiro junto ao público.

A liberdade em ler e escrever no Brasil imperial: os espaços de “instrução


solidária” entre escravos, libertos e livres “de cor” na Corte (1822-1889)
 Marconni Cordeiro Marotta (UFF)
Nesta comunicação pretendemos apresentar um estudo acerca da
apropriação/distribuição da escrita e da leitura (padrões de alfabetização) e os
usos/papéis da escrita e da leitura (processo de letramento) pela população escrava,
liberta e livre “de cor” – parte das camadas mais pobres da população da capital do
Império do Brasil. Pensamos que a análise do que chamamos de “instrução solidária” –
alfabetização e letramento promovido gratuitamente por diversos indivíduos e
instituições de beneficência – permitirá uma interpretação acerca dos diversos
significados e formas de inserção desses sujeitos no universo da cultura “letrada” no
século XIX brasileiro: pelo letramento, entendido enquanto processo de aprendizagem
social e histórica da leitura e da escrita, em contextos de informação para usos
utilitários; pela alfabetização que pode se dar à margem das instituições escolares
oficiais, que compreende o domínio ativo das habilidades de ler e escrever; e, por fim,
pela escolarização, que corresponderia, grosso modo, à prática formal e institucional do
ensino para uma formação “integral” dos indivíduos. Nesta comunicação, pretendemos
abordar os espaços “instrução solidária”, e a ações dos indivíduos “de cor” que
(re)inventaram suas possibilidades e experiências de liberdade. No século XIX, a
estratégia de atuação desses indivíduos foi a luta pela obtenção de “autonomia” ou das
“propriedades possíveis”, que poderiam ser “materiais, simbólicas ou mesmo
intelectuais”. Pretendemos compreender a forma pela qual a instrução “solidária” e o
conhecimento da(s) cultura(s) escrita(s) foram articulados enquanto instrumentos
capazes de possibilitar a superação das condições sociais às quais estavam submetidos.

O ensino de História e os materiais de apoio do currículo paulista com o foco


“educação antirracista e História e Cultura africana e afro-brasileira”
 Priscila Lourenço Soares Santos (SEDUC-SP)
A presente comunicação propõe analisar a relação dos materiais de apoio em
história do ensino fundamental - anos finais e a aprendizagem escolar. Para tanto,
nosso objeto da pesquisa será analisar como são apresentadas as questões das políticas
antirracistas e a Lei nº 11.645/08 nos materiais de apoio ao Currículo Paulista nos
quatro volumes do ano de 2020, elaborado pelos professores de História da rede
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
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estadual e a equipe curricular de História da Coordenadoria Pedagógica (COPED) da
Secretaria da Educação de São Paulo (SEDUC) para uso pelos estudantes e professores.
Pretendemos analisar a abordagem presente e discutir o combate às desigualdades
raciais e a educação antirracista, além de verificar os trabalhos desenvolvidos acerca da
Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008 e se os mesmos foram atendidos nos referidos
materiais elaborados pela SEDUC.

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SESSÃO 02
DIMENSÕES DO TRÁFICO DE ESCRAVIZADOS
Coordenador e comentarista:
 Suely Creusa Cordeiro de Almeida (UFRPE)

Herdeiros da ilegalidade: O capitalista Augusto Frederico de Oliveira e a


Companhia Chargeurs Réunis
 Amanda Barlavento Gomes (UFPE)
Augusto Frederico de Oliveira, filho de um dos maiores traficantes de
escravizados de Pernambuco, o Barão de Beberibe, foi capitalista influente, banqueiro e
deputado geral por Pernambuco. Manteve sua influência dentro e fora daquela
província por quase toda a segunda metade do século XIX, através da herança da
fortuna e de redes de sociabilidade paterna advindas do comércio ilegal. Esta
comunicação investiga o envolvimento dessa personagem com a Chargeurs Réunis,
companhia francesa de imigração e transporte de passageiros e cargas fundada em
1872. Dessa forma, observou-se sua participação dentro da empresa e como seus sócios
fundadores e representantes estiveram ligados ao tráfico de escravizados nos anos
anteriores. As estratégias dos herdeiros dos traficantes para se adaptarem às novas
formas de comércio e acúmulo de capitais após a lei Eusébio de Queiroz, de 1850, e
suas aplicações em setores correlatos às atividades ilegais de seus antepassados,
apontam para os investimentos realizados por essas grandes fortunas, e como
ganharam respaldo dentro dos novos projetos econômicos do Brasil.

Pelas rotas do comércio interno de escravos: notas sobre a atuação dos


agentes do tráfico em Juiz de Fora/MG na segunda metade do Oitocentos
 Dayana de Oliveira da Silva (UFJF)
O tráfico transatlântico promoveu um dos maiores deslocamentos populacionais
da história. Diversas pesquisas apontam a magnitude dessa migração forçada. Estima-
se que, entre os séculos XVI e XIX, 12,5 milhões de africanos tenham atravessado o
oceano Atlântico em direção às Américas. Destes, 5,5 milhões, aproximadamente 46%
do total, tiveram como destino o Brasil. Após a legislação que colocou fim ao
contrabando de negros escravizados no Império do Brasil, uma prática pouco difundida
ganhou destaque e relevância: o comércio interno, em suas distintas feições
(intraprovincial, interprovincial e local). Todavia, essa prática, intensificada a partir da
Lei Eusébio de Queiroz, tornou-se um fenômeno fundamental na reorganização das
redes de redistribuição de mão de obra escravizada no interior do Império. Essa nova
fase do tráfico, agora dentro dos limites do Brasil, criou uma nova profissão, conforme
destacado por Robert Conrad: os compradores de escravos viajantes, homens que
estavam à frente de firmas que ofereciam cativos para a venda de província em
província, de cidade em cidade. Nesta comunicação, propomos apontar alguns
resultados preliminares de uma pesquisa em andamento, cujo objetivo é entender o
modo de funcionamento e as estratégias usadas pelas companhias que tinham à frente

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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delas homens ávidos e sedentos por lucros. Nosso recorte espacial corresponde ao
município de Juiz de Fora, interior da província de Minas Gerais, local de residência da
mais importante firma do período, denominada Justiniano das Chagas & Cia. Tratava-
se de uma poderosa empresa que atuou na segunda metade do século XIX na Zona da
Mata mineira, tendo conexões importantes com a Corte do Rio de Janeiro. Em Juiz de
Fora, onde se encontrava a sede da firma, moravam dois sócios, os irmãos Carlos
Justiniano das Chagas e José Justiniano das Chagas. A filial estava localizada na cidade
do Rio de Janeiro, onde residia o terceiro sócio, o doutor Augusto Cesar das Chagas.
Por meio da análise quantitativa e qualitativa dos seis Livros de Notas e Escrituras
Públicas de Juiz de Fora durante a década de 1870, buscaremos apontar as estratégias
adotadas por esses agentes do tráfico para negociar mão de obra escravizada no
município juiz-forano. Aspectos referentes aos cativos, como “cor”, idade,
nacionalidade, filiação, não serão menosprezados nessa pesquisa.

A expansão dos engenhos no sul da Bahia: Ilhéus, século XIX


 Marcelo Loyola de Andrade (USP)
Nesta comunicação, discutiremos alguns aspectos da expansão dos engenhos no
sul da Bahia durante o século XIX, concentrando a atenção na comarca de Ilhéus. O
foco recai sobre os engenhos, mas a lavoura cacaueira também se desenvolveu naquele
contexto, com uso do trabalho escravo e da mão de obra livre, como será demonstrado.
As fontes principais são inventários post mortem, Livros de Notas do Cartório de Ilhéus
e o Livro de classificação dos escravos, disponíveis no Arquivo Público do Estado da
Bahia (APEB). A produção de açúcar e aguardente em Ilhéus é antiga, embora a
capitania nunca tenha se tornado uma zona de plantation. Nos primeiros lustros do
século XIX, o contexto internacional era favorável ao açúcar, o que impulsionou o
crescimento do número de engenhos para além do Recôncavo, incluindo no processo as
comarcas do sul da Bahia. Investigamos vários inventários de senhores de engenho de
Ilhéus, com informes relativos aos móveis e acessórios para produção de açúcar e
aguardente. Nosso objetivo é apresentar um pouco dessas características, falar sobre a
estrutura da posse de escravos, a composição da riqueza das famílias, o tamanho de
suas fortunas e o lugar dos donos de engenho dentro do conjunto dos
inventariados. Os Livros de Notas contêm registros de negociações envolvendo
engenhos, escravos, alforrias e outras transações, o que permite averiguar um pouco
das relações econômicas e o lugar dos engenhos na documentação. O Livro de
Classificação dos escravos para serem libertos pelo Fundo de Emancipação dispõe de
dados sobre os cativos e seus proprietários, possibilitando analisar o perfil da população
escrava, entre outras questões. O cotejo desta documentação, o cruzamento dos
informes e o diálogo com a historiografia atinente ao tema permitirão discutir a
hipótese central da comunicação, que é a da expansão dos engenhos no sul da Bahia
durante o século XIX.

O tráfico de escravos em debate nos periódicos O Cronista e O Brasil


 Tatiane Rocha de Queiroz dos Santos (UNIRIO)
O debate nos jornais O Cronista e O Brasil acerca da escravidão estavam
associados à cessação do tráfico de escravos, assinada com a Grã-Bretanha no ano de
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
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1831. Ao longo do século XIX, foi sendo montada o que o historiador Tâmis Parron
chamou de “política da escravidão”, a qual ele subdividiu em duas partes: política do
contrabando negreiro (1835-1850) e a política da escravidão na era pós-contrabando
(1850-1865). De acordo com o autor, ao longo de todo o século XIX, o Estado, através
de uma rede de alianças políticas, atuou em favor da estabilidade institucional do
cativeiro a fim de manter ou protelar o fim da escravidão no Brasil. Enfim, ao
analisarmos a questão da escravidão nas folhas regressistas, poderemos entender toda a
argumentação que contribuiu para a constituição da política da escravidão que estava
sendo constituída e estruturada ao longo dos anos de 1836 a 1841, momento de
predomínio da política do contrabando.

“Que vive de navegar de piloto e capitão”: os capitães negreiros e o comércio


de escravizados na capitania de Pernambuco, século XVIII
 Wildson Félix Roque da Silva (UFRPE)
O porto do Recife foi um dos mais importantes locais de descarga de africanos
escravizados na América portuguesa durante a vigência do comércio transatlântico de
escravos. A atividade mercantil gravitava em torno da região do ancoradouro da
Freguesia de São Frei Pedro Gonçalves, sendo a maior parte das fainas relacionadas ao
aprontamento das embarcações e o grosso do comércio negreiro destinado à capitania.
Como sinal do impulso que o comércio atlântico passou a ter na região durante todo o
século XVIII, em boa parte movimentados pelos ganhos com o comércio negreiro,
foram levantados edifícios, procedeu-se o douramento dos altares de capelas e também
foram igualmente ornadas algumas trajetórias dos sujeitos envolvidos diretamente no
trato negreiro. Na esteira da mercancia, os capitães de navio tinham grande
importância e participação na faina. Estava sob seu comando o destino do
empreendimento, o governo da nave, da carga e de toda a sua tripulação. Além disso,
eram estes sujeitos que, em pessoa, conduziam a negociata com os agentes mercantis,
fossem europeus estabelecidos nas feitorias e fortificações, os outros luso-brasileiros, ou
os africanos nas feiras ou canoas que faziam conduzir sua mercadoria até as naves.
Atuando na capitania de Pernambuco, alguns dos capitães de embarcação conseguiram
ascender a outros misteres, uns mais lucrativos que outros, ou mesmo alcançando o
reconhecimento de homens de negócio, com fortuna e navios empregados no comércio
de escravos, reconhecidos dentre a elite mercantil, com participação em instituições
como a Ordem Terceira de São Francisco, na Câmara da vila ou mesmo como familiar
do Santo Ofício. A presente comunicação tem por propósito apresentar as trajetórias de
alguns capitães negreiros atuantes no trato de gente escravizada para a Vila do Recife
durante o século XVIII, como meio para entender não somente o meio como
conduziram suas vidas, mas também sua participação em sociedades e redes que foram
essenciais, não somente na condução daquele negócio como, em nível operacional, da
própria manutenção do Atlântico português.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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SESSÃO 03
GÊNERO E TRABALHO I
Coordenador e comentarista:
 Mariana de Aguiar Ferreira Muaze (UNIRIO)

Amas de leche en Montevideo entre la esclavitud y la abolición (1820-1890)


 Florencia Thul (Univ. de la Republica, Uruguay)
Los estudios históricos sobre las amas de leche llevan ya varias décadas.
Después de los comienzos en la década de 1980, se han sucedido diferentes tipos de
enfoques, espacios y marcos temporales. En los últimos años, un grupo de
investigadoras de diferentes universidades, principalmente de Estados Unidos y Brasil,
crearon una red sobre maternidades esclavas en la que abordan, entre otros aspectos, la
experiencia de las mujeres esclavizadas que fueron obligadas a actuar como amas de
leche de los niños de sus amos. Encarnan estudios sobre maternidades en sociedades
esclavistas atlánticas. Analizan como el trabajo forzado de las mujeres esclavizadas con
frecuencia incluía el desempeño de un trabajo de cuidado asociado con la maternidad
para los hijos libres de sus dueños, lo que solía dificultar mucho el cuidado de sus
propios hijos. Destacan como las connotaciones románticas y el lenguaje afectivo ha
oscurecido la experiencia cotidiana de cuidado a los niños en un contexto de coerción.
Su propuesta, es la de estudiar la maternidad desprovistos de estas representaciones
románticas. La situación de las nodrizas en las sociedades esclavistas, que trabajaban
para alimentar y cuidar a los hijos de los dueños, era por demás compleja. La lactancia
materna, por definición, implica un proceso corporal íntimo. Las nodrizas solían vivir
en espacios apartados de la casa esclavista, y se les confiaba la tarea de cuidar a los
hijos de los esclavistas en la fase más frágil de su vida. De todas las personas
esclavizadas, las nodrizas experimentaron las formas más directas de control de su
movilidad y relaciones sociales. En general, estaban impedidas de vivir con sus propias
familias y cuidar de sus hijos. Nuestro trabajo pretende dialogar con esta historiografía
así como con la específica de las condiciones de las mujeres en la post abolición. El foco
está puesto en los aspectos vinculados al trabajo, la subsistencia y las condiciones de
vida asociados a éste. La historiografía uruguaya ha abordado el tema con foco en los
discursos médicos, la reglamentación y su actuación en los Asilos de Huérfanos. No se
ha problematizado aún el tema desde la perspectiva de la historia social del trabajo ni
de la post abolición. La comunicación analiza el trabajo de las amas de leche en
Montevideo entre la década de 1820 y 1890. Se cuestiona acerca de las consecuencias
provocadas en este mundo laboral tras la abolición de la esclavitud decretada en 1842,
la condición de “patronato” en la que quedaron las mujeres hasta ese momento
esclavizadas y el arribo masivo de inmigrantes europeas en condiciones sociales de
extrema vulnerabilidad, las que entrarían a competir por la fuente laboral con las
africanas y afrodescendientes.

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O mercado de trabalho de amas de leite na Gazeta de Noticias
 Karoline Carula (UFF)
No espaço urbano do Oitocentos, diversas atividades eram desempenhadas por
escravos: serviços domésticos, quitandeiras, parteiras, sapateiros, hortelões, caçadores,
carregadores, artesãos, marinheiros (no caso dos locais que possuíam portos), alfaiates,
sangradores etc. O serviço doméstico constituía uma modalidade de trabalho
amplamente difundida nas cidades e era composta majoritariamente por alugados,
incluída na categoria estava a atividade da ama de leite. Na cidade do Rio de Janeiro, a
imprensa foi amplamente utilizada para anunciar esse serviço, tanto por quem ofertava
como por aqueles que buscavam uma mulher para aleitar um bebê, que em sua maioria
era escravizada. Posto isso, esta comunicação tem o objetivo de analisar anúncios de
amas de leite publicados no jornal Gazeta de Noticias na década de 1870. Todos os
anúncios foram transcritos e, em seguida, deles extraíram-se as seguintes informações:
endereço, tipo (oferta ou procura por ama de leite), as duas primeiras presentes em
todos os anúncios; transação envolvida (aluguel ou venda); condição jurídica da mulher
(livre ou escrava); procedência, “cor” (branca, preta, parda), cidade (Corte ou Niterói);
preço, qualidades da ama; habilidades; número de partos; idades do bebê a ser
alimentado, da ama e de seu leite; presença ou não de filho da ama. De circulação diária,
a Gazeta de Notícias foi fundada em 2 de agosto de 1875, por Ferreira de Araújo. Além
da assinatura já praticada pela imprensa periódica, uma inovação implementada foi a
venda de exemplares individuais, que durante toda a década de 1870 custou 40 réis. A
modalidade do comércio avulso pela cidade possibilitava a ampliação de circulação do
diário, não vendido em apenas livrarias, como os concorrentes de mercado, o que
possivelmente estimulou os anunciantes. Com relação à escravidão, o jornal tinha um
posicionamento antiescravista e, entre 1877 e 1881, contou com a colaboração do
abolicionista José do Patrocínio. Os anúncios de amas de leite na Gazeta de Notícias, nos
cinco anos iniciais de circulação do periódico, descortinam ser esse um mercado de
trabalho muito dinâmico. A presença de amas de leite escravas em um jornal
marcadamente abolicionista expõe a tensão vivida pelo órgão de imprensa, entre o peso
financeiro dos anúncios e os ideais propalados. Já a geografia da distribuição das amas
de leite pela cidade do Rio de Janeiro mostra a concentração nas zonas de povoação
mais antigas da cidade, as centrais, mas com a entrada para áreas mais afastadas, como
a freguesia da Lagoa. A maioria dos anúncios se tratava de oferta; nesse sentido, a
presença constante de anúncios oferecendo o serviço de amas de leite, desde a primeira
metade do século XIX, pode ter minimizado a necessidade de se publicar um buscando
uma nutriz.

Las últimas esclavas: experiencias, negociaciones y trayectorias de mujeres


esclavizadas en el Río de la Plata (Santa Fe, 1810-1870)
 Magdalena Candioti (Inst. Ravignani, Argentina)
La abolición de la esclavitud en el Río de la Plata fue un proceso gradual, lento
y signado por el género. Si bien largamente se exaltó el compromiso liberal de unas
élites que habrían aceptado dar fin a la institución sin resistencias, la emancipación fue
producto de negociaciones y luchas tejidas pacientemente por generaciones de
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
20
esclavizados, esclavizadas y sus familias. El paper da cuenta de las estrategias de
emancipación de cuatro esclavas santafesinas y a partir de sus trayectorias reflexiona
sobre las distintas vías accesibles, creadas o negociadas por ellas para alcanzar la
libertad así como sobre los significados y alcances de ésta. Para ello, en primer lugar,
trazamos un panorama del mundo popular santafesino, el lugar social e inserción
laboral de africanos, africanas y afrodescendientes y, finalmente sus vínculos con la
población indígena y “española”. En segundo lugar, reconstruimos las historias de
Victoria, Gregoria, Josefa y Agustina, cuatro de las últimas mujeres esclavizadas de la
ciudad, mostrando que, lejos de ser recipientes inermes de un beneficio, fueron activas
tejedoras de redes y de espacios de autonomía, de control familiar y laboral en el marco
de una sociedad que las racializaba, las minorizaba y legitimaba su
explotación. Finalmente, reflexionamos sobre el proceso de abolición rioplatense en
general, mostrando sus supuestos y dinámicas cruzadas por género y raza.

Mulheres negras na História: desafios teóricos e metodológicos


 Taina Aparecida Silva Santos (UNICAMP)
Nos últimos quarenta anos, a historiografia passou por transformações
importantes no que tange à produção que têm enfocado a população negra. Esse
movimento provocou a ampliação dos temas e das abordagens acerca das experiências e
agências desses indivíduos, além de modificar as perspectivas teórico-metodológicas
mais recorrentes até a década de 1980. O crescimento da produção do campo sobre a
História das mulheres negras também foi significativo. O assunto tem sido
aprofundado nos estudos historiográficos, principalmente nos campos que enfocam a
história do trabalho doméstico, da prostituição e do trabalho escravo, aspectos que
analiso nesta comunicação enquanto uma das principais tendências no estudo do
passado das trabalhadoras negras no Brasil do século XIX. A partir dessa análise,
estabeleço comparações com os estudos realizados por três intelectuais negras
brasileiras nas áreas da História e das Ciências Sociais: Beatriz Nascimento, Lélia
Gonzalez e Luiza Bairros. Trata-se de pensadoras que enfocaram a mulher negra em
suas pesquisas, foram contemporâneas às transformações na historiografia e se
debruçaram sobre temas como a questão da raça e a representação de trabalhadoras
negras. As contribuições delas têm sido pouco consideradas por historiadoras e
historiadores que se dedicam aos estudos dessa natureza. Nesse sentido, pretendo
compartilhar novas perspectivas de abordagem documental que foram possíveis a
partir da análise da documentação do Hospital de Caridade da Santa Casa de
Misericórdia de Campinas, ao longo da pesquisa realizada para a minha dissertação de
mestrado sobre trabalhadoras negras livres e libertas na segunda metade do
Oitocentos.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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11/05/2021 – 16h-18h
SESSÃO 04
PÓS-ABOLIÇÃO, LITERATURA E IMPRENSA
Coordenador e comentarista:
 Joseli Maria Nunes Mendonça (UFPR)

Repercussões do tráfico da escravatura, da transição para o trabalho livre e


da Abolição na imprensa angolana oitocentista
 Eduardo Antonio Estevam Santos (UNILAB)
Esta comunicação pretende apresentar as dinâmicas e os efeitos do processo
histórico do fim do tráfico da escravatura (1836) e da abolição (1875) em Angola,
repercutidas em materiais impressos (oficiais) e na emergente imprensa (periódicos) na
segunda metade do século XIX. O tema da escravidão foi bastante recorrente na
imprensa periódica, ora associada a um período nefasto do qual se precisava regenerar-
se ou a defesa do seu prolongamento, tendo em vista as atividades da empresa agrícola
de Angola. Nas três últimas décadas do século XIX, aconteceram mudanças
significativas no debate público angolano. A imprensa como uma força ativa, muito
mais do que o registro de acontecimentos, acompanhou os momentos mais decisivos
das transformações políticas e econômicas. Conquistou espaços por meio da crítica
colonial e anticolonial e, desta forma, inaugurou uma nova cultura política. O
prolongamento da abolição da escravatura (decretos de 1858 e 1868) ao longo de vinte
anos visou proteger as empresas agrícolas e evitar indenizações aos escravagistas,
entre outros projetos políticos que serão apresentados nesta comunicação. As
discussões em torno da escravidão e da abolição foram bastante exaltadas. Eram
constantes as denúncias feitas pelos periódicos a respeito do trabalho forçado.
Apresentaremos os debates, divergências, protestos e contestações, por meio da palavra
impressa, a respeito da transição da escravidão para a liberdade formal. A maioria dos
editoriais se empenhava em tornar efetiva a legislação contra a escravidão. A imprensa
livre em Angola tem início com o decreto de 1 de outubro de 1866, que tornava
extensiva às províncias ultramarinas a liberdade de imprensa. Procuraremos
interpretar historicamente os acontecimentos registrados na imprensa, assim como as
formas como foram percebidos pelo público leitor, seus sentidos e decodificações. Desta
forma, analisaremos os seguintes materiais históricos: Boletim do Governo Geral da
Província de Angola (1845), Relatórios dos Governadores das Províncias Ultramarinas
(1861, 1887), A Civilização da África portuguesa (1866/1869), União Áfrico Portuguesa
(1882), O Mercantil (1875), O Cruzeiro do Sul (1873, 1874), O Pharol do Povo (1883), O
Desastre (1889).

Memórias impressas: pós-Abolição a partir do jornal Cidade do Rio


 Geovan Souza Silva (UNESP-Assis)
O trabalho tem como objetivo analisar o jornal Cidade do Rio a partir da
temática da memória. Dentro desse olhar, o pós-Abolição e nomes importantes da

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


22
época, como José do Patrocínio, Coelho Netto e outros, serão importantes para a
compreensão das discussões. Buscamos entender como a rede de solidariedade da qual
Patrocínio fazia parte buscava construir memórias para si mesma, reafirmando seus
próprios papéis para o processo de Abolição e pós-Abolição. Há uma tentativa de
analisar criticamente tais posicionamentos e demonstrar como eles estão inseridos em
processos históricos e memórias que eles forjaram para si mesmos a partir da imprensa
e da literatura.

Escravidão, literatura e abolição: uma análise do romance Fantina (1881)


 Mateus Rezende de Andrade (UFJF)
Esta comunicação tem como objetivo fazer apontamentos de uma pesquisa que
tem como foco o romance Fantina, publicado no ano de 1881. Escrita pelo então
discente da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, Francisco
Coelho Duarte Badaró, esta obra foi propagandeada pelos veículos de imprensa do
período como uma obra abolicionista. Mas, abolicionismo, como muitos autores tem
demonstrado, não foi um só. Deste modo, qual era o abolicionismo de Badaró? Ao
buscarmos o contexto familiar do autor da obra, fica claro que, no processo inventivo
da trama do romance, literatura e realidade se permutam de maneira quase
indistinguível na caracterização dos personagens e seus desígnios no enredo principal.
Por isso, tendo como aporte as intercessões entre a História e a Literatura, esta
pesquisa tem como objetivo esmiuçar qual foi a ideia de liberdade e emancipação
construída pelo autor, a qual se respaldava, muito provavelmente, na experiência que
seu autor havia acumulado nas práticas cotidianas que marcavam as sociabilidades
entre livres, libertos e escravizados nas fazendas escravistas no interior de Minas
Gerais, contexto no qual Badaró fora criado. Como resultados, demonstra-se que o
romance Fantina, a partir de suas tramas e enredo, nos proporciona compreender
algumas imagens que parcelas da elite imperial produziam sobre a escravidão, a
população cativa, os libertos e outros subalternizados da sociedade brasileira do
período.

“Quem o pegar entregar nesta cidade”: os anúncios de fuga nos jornais A


Imprensa (PI), Pedro II (CE) e O Caxiense (MA) na segunda metade do
século XIX
 Talyta Marjorie Lira Sousa Nepomuceno (UFPI)
Os jornais piauienses devem ser utilizados como fonte principal e objeto de
pesquisa para o estudo da história da escravidão. As fontes hemerográficas são meios
de expressão de ideias: nelas encontramos dados sobre a sociedade oitocentista, seus
usos e costumes; informes sobre questões econômicas e políticas que envolvem a
abolição da escravatura; contradições ideológicas e as visões de cada jornal sobre o
trabalho escravo; discussões em torno da violência; os anúncios de venda, aluguel e
fuga, que revelam o perfil dos escravos, o espaço geográfico das fugas e o cotidiano.
Nessa perspectiva, este trabalho propõe analisar os anúncios de fuga dos jornais como
fonte e objeto de estudo da história da escravidão no século XIX. Analisamos os
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
23
anúncios dos jornais A imprensa (1865-1888), da província do Piauí; Pedro II (1840-
1867), da província do Ceará e O Caxiense (1846-1852), da província do Maranhão.
Verificamos os anúncios de três periódicos de diferentes províncias porque existia um
rico universo social que envolvia as estratégias, o cotidiano e o circuito das fugas.
Nesse jogo conseguimos flagrar, nas descrições dos cativos, uma espacialização muito
maior, por isso os anúncios de fuga vão demonstrar que o escravo se desloca pela Vila
de União, Barras, Oeiras, Campo Maior e pelas províncias do Ceará, Pernambuco e
Maranhão. No que diz respeito ao levantamento da documentação, recorremos às
fontes primárias existentes no Núcleo de Pesquisa em Jornalismo e Comunicação da
Universidade Federal do Piauí, na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e no
Arquivo Público do Piauí. Analisaremos os anúncios de fuga dos periódicos do século
XIX, reconstruindo aspectos da vida cotidiana oitocentista. Ensejamos que este
trabalho ajude a preencher as lacunas da historiografia referente ao uso das fontes
hemerográficas para o estudo da escravidão, contribua, enriqueça, e excite o interesse
de novos pesquisadores.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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11/05/2021 – 16h-18h
SESSÃO 05
HISTORIOGRAFIA E INTELECTUALIDADE
Coordenador e comentarista:
 Carlos Eduardo Coutinho da Costa (UFRRJ)

A questão racial na história e na ficção de Lima Barreto no Brasil do pós-


Abolição
 Denilson Botelho (UNIFESP)
O romance Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, apresenta um enredo
ambientado no Rio de Janeiro em meio à Revolta da Armada (1893-1894), ocorrida
durante o governo de Floriano Peixoto (1891-1894). Para além dos embates do
protagonista que dá título à obra em torno da questão da identidade nacional e dos
rumos autoritários que a República tomava já nos seus primeiros anos de existência, a
trajetória dos personagens negros Ricardo Coração dos Outros, Anastácio e Maria
Rita, entre outros, também se destaca e merece atenção. Esta comunicação explora os
significados desses indivíduos que resultaram da fabulação do escritor carioca, assim
como analisa o que o autor teve intenção de expor, denunciar e argumentar sobre a
questão racial através deles. Considerando que Lima Barreto construiu uma obra
engajada e militante, é possível supor que tais personagens correspondiam às angústias
do autor em relação a um dos principais problemas do pós-Abolição: o racismo
evidenciado na negação da cidadania aos ex-escravizados e seus descendentes. É o que
se pode verificar, por exemplo, na figura do autor de modinhas e professor de violão de
Quaresma, Ricardo Coração dos Outros, cujo instrumento musical se apresentava como
signo de uma cultura negra a ser combatida e perseguida. Ou na preta velha Tia Maria
Rita, verdadeiro repositório de antigas cantigas que remetem a uma tradição cultural
negra. Ou ainda em Anastácio, que a exemplo do Pancrácio, de Machado de Assis,
transita da escravidão à liberdade na mesma condição: como serviçal de Quaresma por
décadas seguidas. Escrito entre janeiro e março de 1911, o romance em questão foi
inicialmente publicado em folhetins no mesmo ano na edição da tarde do Jornal do
Comércio e, em 1915, ganhou sua primeira edição em livro. Tomado como fonte,
Policarpo Quaresma documenta parte das frustrações do autor com o regime
republicano e denuncia o racismo que insistia em impor a subalternidade vivenciada na
ficção e na realidade daqueles tempos. Analisar a obra sem perder de vista a sua
historicidade permite compreendê-la na sua materialidade e numa necessária
perspectiva dialética - que reflete aspectos do contexto histórico da sua produção, ao
mesmo tempo em que se constitui como uma forma de intervenção concreta. Ciente de
que o escritor não deve ser tomado como um gênio criador, pertencendo a uma classe
especial de pessoas dotada de características inatas, visto que essa é uma tradição
romântica inventada no século XIX – como argumenta Raymond Williams -, trata-se
aqui de examinar autor e obra inseridos no movimento da história. Ou um escritor
negro fazendo da literatura uma forma de participação política.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


25
Custódio Joaquim de Almeida: nobre africano ou filho de Agudá? (Porto
Alegre, virada do século XIX para o XX)
 Jovani de Souza Scherer (SEMED-Porto Alegre) e Rodrigo de Azevedo Weimer
(UFRGS)
Custódio Joaquim de Almeida, conhecido como Príncipe, é um personagem
muito presente no imaginário da capital gaúcha, onde viveu desde as últimas décadas
do século XIX e faleceu em 1935. Costuma-se apontar seus laços de amizade, e mesmo
ascendência, sobre políticos do Partido Republicano Rio-Grandense. Além disso, fazia
sucesso nas altas rodas com sua atuação como turfman. Geralmente é apontado como
descendente da nobreza africana “nigeriana”. Entretanto, documentos inéditos
encontrados no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul indicam ser filho de
Joaquim de Almeida, um agudá. O pai de Custódio era um mahi, natural do Daomé, da
cidade de Hoko, provavelmente escravizado nas guerras que dissolveram o Reino de
Oió e depois trazido para o Brasil, de onde, uma vez liberto, retornou ao Velho Mundo.
Fixou-se na Costa dos Escravos, entre Agouê e Ajudá, tornando-se um destacado
comerciante. Ainda que tivesse trânsito com a elite local, não há indícios de que
pertencesse à nobreza. Nesse sentido, nosso objetivo é rediscutir a origem do “Príncipe
Custódio”, pois os dados disponíveis são dissonantes em relação às narrativas
consolidadas a seu respeito. Nascido por volta de 1853, Custódio seria um dos últimos
filhos da extensa família agudá liderada por Joaquim de Almeida. Não estava em
condições de dispor ou lutar pela riqueza e prestígio do pai quando faleceu, em 1858.
Uma posição pouco privilegiada para dispor dos bens familiares, um contexto
econômico pouco favorável aos negócios familiares, entre outros aspectos, levaram
Custódio a migrar no refluxo dos retornados, de volta ao Brasil. Analisamos os
processos judiciais envolvendo Custódio nas duas últimas décadas do século XIX em
Porto Alegre. Esses documentos apresentam detalhes sobre sua filiação, origem e
idade, informações que originaram o ponto de partida para a reinterpretação de sua
trajetória proposta. Outras fontes são publicações de periódicos da década de 1930,
interligadas e também inéditas, que ampliam e aprofundam a compreensão a respeito
de sua origem e chegada ao Rio Grande do Sul, bem como bibliografia específica sobre
o contexto do Daomé e do antigo reino do Benin em suas conexões atlânticas com o
Brasil. Tendo seu nome e o de seu pai como referenciais, seguimos o método
onomástico, procurando-os em diferentes acervos a fim de compor uma narrativa
válida sobre suas trajetórias. A história do seu nascimento e da consequente
transferência para o Brasil insere-se no contexto das últimas interações do comércio
transatlântico. Ele era membro de uma comunidade forjada em experiências nas duas
margens do Atlântico. Nesse sentido, usamos para compreendê-la a noção de
identidade atlântica.

Da senzala à colônia, 50 anos depois: Emília Viotti da Costa e a historiografia


contemporânea
 Rafael Domingos Oliveira da Silva (USP)
Emília Viotti da Costa (1928-2017) foi uma das mais destacadas historiadoras
brasileiras. É de sua autoria o livro Da senzala à colônia, publicado em 1966 com o
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
26
subtítulo Corpo e alma do Brasil. A obra, referência obrigatória na formação em
História, é uma versão de sua tese de livre docência, defendida em 1964, para a cadeira
de História do Brasil na Universidade de São Paulo. Na tese, intitulada A escravidão nas
áreas cafeeiras: aspectos sociais, econômicos e ideológicos da desagregação do sistema escravista
em São Paulo, Viotti da Costa utiliza uma vasta documentação para reconstituir o
processo que culminou na abolição da escravidão como parte da crise da estrutura
colonial. Nesta comunicação, apresentaremos um balanço do papel que a obra teve na
historiografia brasileira, sobretudo em relação ao tema da Abolição. Serão destacadas,
igualmente, obras recentes sobre o tema, discutidas à luz do arcabouço teórico de
Viotti da Costa. Com este exercício, buscamos demonstrar as continuidades e
descontinuidades de sua obra e o peso que o “clássico” possui nas pesquisas
contemporâneas. A comunicação faz parte da pesquisa de doutorado em andamento,
que consiste no estudo da trajetória intelectual e política de Emília Viotti da Costa.

Joaquim Saldanha Marinho: para além dos projetos educacionais


 Renata Ribeiro Francisco (UNIFESP)
Pretende-se apresentar a trajetória intelectual de Joaquim Saldanha Marinho
(1816‐1898) e os projetos educacionais propostos pelo político na segunda metade do
século XIX. Figura de ampla visibilidade, Marinho protagonizou processos sociais e
políticos importantes do Império e encampou as principais bandeiras levantadas por
seus contemporâneos: abolicionismo, republicanismo, estado laico. Paralelamente,
Saldanha Marinho foi uma das importantes vozes a defender e protagonizar ações em
defesa da educação laica e gratuita. Como fonte de pesquisa, serão analisados os jornais
A República em 1870, folha em que pôde encampar uma agenda política em defesa da
República, do Estado laico e da instrução pública; o Diário do Rio de Janeiro e o Boletim
do Grande Oriente dos Beneditinos, todos eles periódicos criados por Saldanha Marinho.
Pretende‐se, neste estudo, compreender as concepções de educação do político, sem
perder de vista a trajetória intelectual de Marinho. Neste estudo, será utilizado o
conceito de biografia no sentido proposto por Jacques Revel, no qual a narrativa
biográfica pode ser compreendida como uma espécie de brecha de acesso às
experiências sociais e processos históricos de um determinado contexto. Por meio da
trajetória de um indivíduo é possível reconstruir e refletir questões mais amplas,
concernentes às relações familiares, de formação intelectual, bem como táticas de
socialização. O estudo em questão integra uma proposta de investigação que visa a
construir uma linha de pesquisa dedica a dar visibilidade a intelectualidade
negra docente, bem como aos seus respectivos projetos voltados às áreas educacional e
social, elaborados na segunda metade do XIX e princípio do século XX.

Manuel Querino e sua análise sobre a escravidão no Brasil


 Ynaê Lopes dos Santos (UFF)
No ano de 1918, o intelectual baiano Manuel Querino publicava O colono preto
como fator da civilização brasileira. Na contramão do que estava sendo produzido pela
maior parte de intelectualidade brasileira naquele momento, Manuel Querino propunha
uma análise na qual o papel dos escravizados e libertos – os ditos colonos pretos - era

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


27
não só positivado, mas ganhava centralidade na compreensão da formação nacional
brasileira. Uma abordagem que, ao mesmo tempo em que lançava outro olhar para a
escravidão e, principalmente, para os escravizados, apontava como a percepção de um
intelectual negro sobre a instituição escravista no Brasil era significativamente distinta
do olhar lançado pelos seus contemporâneos brancos, profundamente embebidos pelas
políticas racistas do começo do século XX. Partindo da premissa de que a história é um
campo em disputa, e na tentativa de compreender a formação de parte da
intelectualidade negra brasileira durante a Primeira República, o presente trabalho tem
como objetivo analisar a obra de Manuel Querino no que diz respeito à sua
compreensão sobre o peso da instituição escravista no Brasil, sublinhando quais
aspectos de sua análise se distanciavam do conhecimento produzido na época, e como
sua perspectiva teve fundamental relevância na reformulação historiografia sobre a
escravidão no Brasil a partir da década de 1930.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


28
11/05/2021 – 18h-20h
Comunicações coordenadas (Mesas 6 a 10)

SESSÃO 06
REDES DE SOCIABILIDADE I
Coordenador e comentarista:
 Carlos de Almeida Prado Bacellar (USP)

Famílias e mestiçagens: o caso de uma mameluca poderosa em Minas colonial


 Igor Bruno Cavalcante dos Santos (UFOP)
O objetivo desta comunicação é oferecer uma oportunidade para se pensar as
noções de família, escravidão e mestiçagem na América portuguesa. Para isso, tomamos
o caso de uma mameluca (filha de pai português e mãe indígena) nascida na vila de Itu,
capitania de São Paulo, e falecida na comarca do Rio das Velhas, capitania de Minas
Gerais, no ano de 1743. O caso da mameluca Anastácia é emblemático por retratar a
história de uma mulher mestiça que deixou, em seu testamento e inventário, registrada
a sua experiência de itinerância movida pelo medo de morrer pelas mãos do próprio
marido, por tê-lo traído quando este estava pelos sertões. Por reconhecer-se adúltera e
ter ciência das legislações civis e eclesiásticas da época, Anastácia decidiu partir para as
minas do ouro e ali reestruturar sua vida. Anastácia fugira para as Minas sem bem
algum. Chegando na capitania mineira, trocara de nome, voluntariamente, passando a
se chamar Francisca Poderosa, e lançara mão de novos casos de concubinato, sendo o
mais duradouro (até a sua morte), com o licenciado Domingos Maciel Aranha.
Seguindo os seus rastros através de testamento, inventário e devassas eclesiásticas, é
possível ver que a itinerância permitiu a Anastácia/Francisca a fuga de São Paulo, a
chegada a Minas Gerais, novas misturas com homens portugueses, com suas formas de
conjugalidade, e uma ascensão social e econômica. Anastácia morreu em 1743 sendo
respeitada e proprietária de escravos e índios administrados. Esse estudo visa
contribuir com a historiografia sobre as formas de Família, os regimes escravistas e as
mestiçagens em Minas Gerais, além de contribuir com estudos na área de História
sociocultural. Oferece, ainda, uma oportunidade para se pensar maneiras de se
apropriar de fontes documentais de naturezas distintas que, conjuntamente, permitem
ao historiador seguir os fios e os rastros de personagens que foram responsáveis por
reconfigurar os espaços sociais propondo maneiras distintas de viver e pensar no
mundo colonial.

Redes cativas: apropriação e uso do compadrio por escravizados e


escravizadas em uma comunidade de Antigo Regime (Viamão, século XVIII)
 Israel da Silva Aquino (UFRGS)
Este trabalho é fruto de uma dissertação de mestrado defendida em 2019 no
PPGH da UFRGS, e teve como objeto o estudo da formação de redes de
apadrinhamento, buscando investigar sua utilização como estratégia de atuação e
reprodução social entre famílias de uma comunidade sul-rio-grandense em meados do
século XVIII. A sociedade forjada nos extensos domínios portugueses naquele
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
29
contexto de Antigo Regime estava baseada na construção de alianças familiares e
clientelistas, tendo como esteio uma noção de “bem comum” que atravessava as
relações constituídas por seus diversos agentes. Assim, o compadrio se inseria dentro
de um universo mais amplo de práticas costumeiras, sendo estas constituídas pela
regularidade das sociabilidades locais, ao mesmo tempo agregando e estratificando
aquele corpo social, tal como apontam autores como João Fragoso e Antônio Manuel
Hespanha. Para o presente trabalho, propomos como recorte o estudo da apropriação
do compadrio católico realizada pela população escravizada da freguesia de Nossa
Senhora da Conceição de Viamão, de forma a compreender não apenas os usos e
significados que este expediente assumia para aqueles atores, mas principalmente como
sua atuação contribuía para a configuração das redes de sociabilidade locais. Partindo
de um corpus que reuniu 142 registros de batismo de crianças cujos pais eram homens e
mulheres negros e escravizados, buscamos analisar como eram formadas suas redes
relacionais e de que forma a apropriação do compadrio afetou suas possibilidades de
inserção social e - em alguns casos - pode ter contribuído para que tivessem acesso à
alforria. Como metodologia, empregamos as ferramentas da Social Network Analysis,
aqui compreendida como uma análise metódica de redes representadas graficamente,
tomadas enquanto representações das estruturas de relacionamento que aqueles
agentes estabeleciam entre si. Nossos resultados permitiram apontar que as relações
construídas por aquelas gentes sugerem o uso do compadrio como parte de uma
estratégia que permitiu a construção de um conjunto de alianças verticais, contribuindo
para a associação entre diferentes camadas sociais e criando, assim, compromissos e
expectativas que vinculavam aqueles escravizados às suas casas e à comunidade onde
estavam inseridos, mas que ao mesmo tempo poderiam contribuir para que os
indivíduos em situação de cativeiro tivessem acesso à proteção, condições de trabalho
menos penosas e, talvez, um horizonte de liberdade.

Cativos no sul de Minas Gerais: Aiuruoca nos últimos anos da escravidão


 Paula Chaves Teixeira Pinto e Renato Leite Marcondes (USP)
A escravidão no Sul de Minas Gerais concentrou-se nas atividades para o
mercado interno, muitas vezes destinadas à província de Rio de Janeiro e, em menor
monta, à de São Paulo. Aiuruoca consistia num elo dessa rede de abastecimento
regional. Para essas atividades eram empregados grandes contingentes de mão de obra
cativa, não sendo muito conhecidos o perfil demográfico, a estrutura das posses e a
trajetória dos escravizados em Aiuruoca nos últimos anos de escravidão. Portanto, a
história dos escravizados dessa região mineira após 1870 revela-se pouco explorada
pela literatura. O objetivo da comunicação consiste em compreender o perfil dos
cativos e de sua propriedade, bem como analisar algumas trajetórias dos escravizados
nas últimas décadas da escravidão em Aiuruoca. Lançamos mão de diferentes fontes
primárias, algumas das quais inéditas: o Censo de 1872, as listas de matrícula
apensadas aos inventários post-mortem e as listas de classificação dos escravos de 1874 a
1880. Para melhor entender o perfil da população escrava na década de 1870,
utilizamos de forma comparativa as listas nominativas da década de 1830. Aiuruoca
reunia um contingente cativo bastante expressivo nesses anos finais da escravidão,
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
30
mantendo uma economia direcionada para o mercado interno. O perfil dos escravizados
nas listas da década de 1830 revelou uma maior participação numérica masculina e
africana do que no censo da década de 1870, bem como eles tiveram maior participação
percentual na população total no primeiro levantamento demográfico. Nos inventários,
conseguimos levantar uma amostra da população cativa referente a posses de 35
escravistas. Todos escravistas eram agricultores, mas alguns consorciavam com outras
atividades. Apesar de serem fontes de natureza distintas, a média de cativos por
proprietário mostrou-se superior nos inventários das décadas de 1870 e 1880 (11,2) em
comparação ao censo da década de 1830 (7,1). O perfil dos escravizados nos inventários
mostrou uma razão de sexo superior ao do censo de 1872, prevalecendo os solteiros e
em idade produtiva (15 a 40 anos). A elevada razão de sexo entre os casais no censo de
1872 e nos inventários decorreu também da maior incidência de alforria entre as
mulheres. As informações dos cativos nos inventários e nas listas de classificação
permitiu-nos reconstruir algumas trajetórias familiares dos escravizados, inclusive com
libertos. Uma pequena parte deles alcançou o pecúlio e a liberdade.

O impacto da mortalidade infantil nas relações de compadrio entre os


“escravos da religião” (Rio de Janeiro, século XIX)
 Vitor Hugo Monteiro Franco (UFF)
No século XIX, a Ordem de São Bento estava assentada nas mais diversas
regiões do país. No entanto, era no Rio de Janeiro que os monges possuíam a sua
abadia mais rica e opulenta. A origem de tanta riqueza guardava vínculos profundos
com a escravização de africanos e seus descendentes em suas fazendas, como Iguassu,
Camorim e Campos dos Goytacazes, dentre outras. Os então denominados “escravos da
Religião” somavam quase 1.200 indivíduos alocados nas mais diferentes funções, desde
a produção de cerâmica, gado, mantimentos, na fabricação de açúcar e aguardentes.
Para (sobre)viver neste cativeiro, que combinava escravidão e catolicismo, foi
fundamental para estas pessoas estabelecerem laços familiares nucleares e extensos. No
entanto, as condições de vida eram penosas e adversas. A mortalidade infantil, por
exemplo, era altíssima. Em vista disso, como os “escravos da Religião” construíram
suas expectativas familiares? É possível redimensionar a importância do compadrio, a
partir desse cenário? Quais eram as relações entre a escolha recorrente de um
determinado compadre e a mortalidade infantil? Para responder a esta e outras
questões, utilizarei fontes paroquiais, inventários e listas nominativas, valendo-me de
métodos da História Demográfica e da Micro-História.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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SESSÃO 07
ESCRAVIDÃO COLONIAL I
Coordenadora e comentarista:
 Mariza de Carvalho Soares (UNIFESP)

O comércio de africanos escravizados e as epidemias de bexiga no Estado do


Maranhão e Piauí, século XVIII
 Gutiele Gonçalves dos Santos (FIOCRUZ)
Com a expansão do império ultramarino português, cada vez mais se
encurtavam as distâncias pelos deslocamentos contínuos de homens e mulheres que
transitavam em diferentes espaços. Para além das pessoas, havia a movimentação de
mercadorias, plantas, medicamentos, animais e doenças. É sobre essa última que iremos
focar nessa discussão. Para ser mais precisa, vamos buscar analisar uma doença,
localidade e tempo específico: a epidemia de bexigas no Estado do Maranhão no século
XVIII. Esta comunicação baseia-se em uma análise preliminar da pesquisa de
mestrado, que buscar compreender como as epidemias de bexigas afetaram o Estado do
Maranhão e Piauí, principalmente o comércio de escravizados, uma vez que a mão de
obra escrava era essencial ao sustento da economia, sendo os escravizados os mais
atingidos pelas doenças. Além disso, pretende-se analisar quais foram as medidas
tomadas para tentar remediar os males causados pelas epidemias que ocorreram de
1744 a 1789. Para realizar essa análise, utilizaremos documentos manuscritos coloniais
do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), do Arquivo Público do Estado do Piauí
(APEPI) e do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Entre eles, cartas, ofícios e
requerimentos de autoridades (governadores, cirurgiões, secretários) sobre assuntos
variados, tais como comércio, doenças e medidas tomadas durante as epidemias. Como
referencial teórico, irei dialogar principalmente com o livro Escravidão, doenças e
práticas de cura no Brasil, organizado por Flávio Gomes e Tânia Pimenta. Também
utilizarei livros e artigos de outros autores, como Sidney Chalhoub, Mary Karasch,
Rafael Chambouleyron e Ângela Porto, uma vez que as discussões feitas em todos esses
trabalhos nos ajudam a pensar as fontes sobre comércio, doenças e práticas de curas
que serão úteis para desenvolver a proposta. Em suma, este trabalho buscará perceber
como as bexigas – também conhecidas como varíola – estão entre as enfermidades que
mais causaram mortes no período colonial, devido, principalmente, ao processo da
colonização e ao comércio e circulação de sujeitos escravizados e de mercadorias, pois
estes foram fatores preponderantes para o aumento do contágio. As discussões
levantadas aqui correspondem a uma parte das possibilidades de análise do projeto de
pesquisa que serão desenvolvidas na dissertação de mestrado.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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Bolsas de mandinga, etnias e crenças na capitania da Bahia do século XVIII
 Jhon Lenon de Jesus Ferreira (UFRN)
As bolsas de mandinga eram objetos de poder utilizados no mundo atlântico
português para solucionar uma diversidade de problemas. Na capitania da Bahia do
século XVIII, grupos de pessoas negras recorreram a estes amuletos para auxiliá-los
na sobrevivência dentro do sistema escravocrata. Partindo desse pressuposto, nosso
trabalho tem como objetivo analisar as experiências religiosas dos africanos e seus
descendentes, no que diz respeito ao uso das bolsas de mandinga em solo baiano. Para
tanto, nosso foco vai girar em torno da adaptação criativa das práticas culturais destes
sujeitos. As interações atlânticas foram determinantes para este evento.

Segregação racial e produção do espaço urbano: Curral Del Rey/Belo


Horizonte (MG)
 Josemeire Alves Pereira (FLACSO)
A comunicação abordará a presença e agência da população de origens africanas
no território do Curral Del Rey, povoado de origem colonial transformado para dar
lugar à nova capital de Minas Gerais, ao final do século XIX. A despeito da existência
de fontes atestando a preponderância de pessoas classificadas como africanas, pretas e
pardas na composição demográfica do Curral Del Rey, ao longo de todo o século XIX
observa-se, em geral, nas narrativas de memória e história sobre Belo Horizonte, uma
lacuna sobre tais sujeitos e sua atuação na formação do espaço urbano antes e depois da
instituição desta nova cidade. Serão considerados, de maneira especial, o perfil desta
população, suas estratégias de construção de liberdade – já que desde 1816, pelo menos,
a maioria era classificada como livre – e as condições de sua vida em liberdade. Por fim,
será considerada sua percepção e reação ao impacto ocasionado por sua remoção
forçada do território, quando da instalação das obras de construção da nova sede
administrativa do governo do estado de Minas Gerais, a partir de 1894.

“Com muito amor e verdade”: alforrias e Antigo Regime ibérico no Rio de


Janeiro do século XVIII
 Mirella Soraya Pinheiro Rodrigues de Oliveira (UFRJ)
Dentre as mudanças assistidas no Rio de Janeiro setecentista, destaca-se
preliminarmente o avultado crescimento na entrada de africanos na cidade,
transformando a região em uma importante praça mercantil dentro do sistema
atlântico escravista. Tais alterações oferecem maiores possibilidades de libertação, uma
vez que a compra de um novo escravizado era facilitada mediante o contínuo
desembarque de almas. Paralelamente, o cenário iniciado no século XVIII produziu
transformações nas relações escravistas e nas paisagens urbanas. Não obstante as
mudanças, no cerne desse quadro setecentista apresentam-se características de uma
sociedade que une traços hegemônicos da cultura ibérica às categorias próprias da
realidade colonial, sobretudo aquelas relacionadas à escravidão. Neste sentido, é
possível observar continuidades entre a sociedade metropolitana e a colonial a partir
das instituições e vida social desta última, pois imperava na América uma disciplina
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
33
social católica assentada nos moldes do Antigo Regime. A referida disciplina social
atuava enquanto ordenadora dos estatutos sociais, ao mesmo tempo mobilizando
sentimentos cardinais e criando relações desiguais. A partir dessa interpretação, as
alforrias são compreendidas em uma dupla dimensão: enquanto documentos que
representam igualmente processos de negociação e expressões da ordem de Antigo
Regime. Assim, nas manumissões estão presentes elementos constitutivos da segunda
escolástica, base teórica da dita ordem. O mesmo pode ser dito com relação a
determinados dispositivos, como o título dedicado às alforrias nas Ordenações
Filipinas. O presente trabalho visa explorar as relações entre essa disciplina social
católica e o ato da alforria no Rio de Janeiro do século XVIII, também apresentando
um perfil qualitativo dos agentes envolvidos nessa negociação. Para tanto, nos valemos
das trajetórias presentes nas manumissões registradas no 1º e 4º Ofício de Notas do
Rio de Janeiro, bem como nas liberdades assinaladas no livro de Testamentos e Óbitos
do Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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SESSÃO 08
HISTORIOGRAFIA SOBRE ÁFRICA PRODUZIDA NO BRASIL I
Coordenador e comentarista:
 Marcus Joaquim Maciel de Carvalho (UFPE)

A Kisama e o sal-gema: resistência contra as investidas lusófonas, em Angola,


no século XVII
 Gabriela Fabiane Luiz (UNICAMP)
A presente pesquisa busca investigar relações estabelecidas entre as populações
da Kisama, os portugueses e o produto sal-gema, na África Centro Ocidental, no século
XVII. A Kisama se destaca nos espaços angolanos por algumas características
importantes: resistiu por quatro séculos às investidas lusas na região, era um local em
que as pessoas procuravam refúgio contra o tráfico atlântico e ainda era detentora das
principais minas de sal-gema. Essas duas últimas características motivaram os
portugueses e chefias africanas, como Njinga a Mbande, a buscarem estratégias para se
apossar essa região, pois o controle das salinas da Kisama permitiria o domínio das
principais rotas de comércio local e de longa distância da África Centro Ocidental.
Importante ressaltar que este sal-gema era obtido em pedras e muito requerido nas
feiras e mercados da região, chegando a ser trocado por escravizados e até exportado
para o Brasil. Sendo assim, é nosso propósito nesta comunicação apresentar formas de
resistências ao tráfico atlântico nos territórios de onde originaram muitos escravizados
que vieram para as Américas. As fontes escolhidas como ponto de partida foram: a
documentação contida na coletânea Monumenta Missionária Africana, organizada pelo
padre espiritano António Brásio; os volumes da obra História Geral das Guerras Angolas,
do militar português Antonio Oliveira Cadornega; os relatos de Fernão de Souza,
organizados pela historiadora Beatrix Heintze; e a Descrição Histórica dos Três Reinos,
do capuchinho Antonio Cavazzi. Essa problemática influenciou a escolha por uma
metodologia de análise com a proposta de repensar conceitos e refletir sobre as
concepções de valores atribuídos pelas pessoas em suas relações de trocas. Nessa
perspectiva, utilizamos a metodologia proposta pela historiadora angolana Rosa Cruz e
Silva e pelo historiador Carlos Almeida, que argumentam maneiras de pensar os
padrões mentais dos agentes que escreveram as fontes a que temos acesso. Para
ampliar as perspectivas sobre valores, utilizamos os estudos do antropólogo Arjun
Appadurai. Essa averiguação, por sua vez, pode nos revelar aspectos de uma estrutura
social e as formas de resistência que surgiram nesses espaços.

O Ministério da Marinha e das Colônias francês e a manutenção da


escravidão colonial em uma era de abolicionismo: notas de pesquisa
 Daniel Dutra Coelho Braga (USP)
O Ministério da Marinha e das Colônias francês, em sua organização a partir da
reestruturação do Estado francês quando da Restauração Bourbon e o subsequente
estabelecimento de um regime monárquico constitucional, foi uma arena política onde

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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se afirmaram as possibilidades tanto de manutenção de escravidão colonial quanto de
adesão a uma política cada vez mais internacional de combate ao tráfico de escravo. A
presente comunicação analisa, em caráter preliminar, os vestígios dessas performances
políticas que em primeiro momento parecem contraditórias, de modo a situar quais
foram seus agentes e os interesses que as mobilizaram. Para tanto, a comunicação
aborda diferentes tipos de documentos, a saber, o periódico Annales maritimes et
coloniales, editado pelo Ministério, no qual diversas menções ao problema da abolição
foram registradas, bem como documentação manuscrita trocada no interior do
Ministério, em referência às atividades de agricultura colonial, hoje arquivados no
Arquivo Colonial do Ultramar francês – priorizando-se o caso da Guiana Francesa.

A diáspora mina: uma leitura sobre os temas de casamento, família e sexo na


obra de Melville J. Herskovits
 Ivana Stolze Lima (FCRB)
O livro Dahomey, an Ancient West African Kingdom (New York: J. J. Augustin,
1938), assinado por Melville J. Herskovits, foi feito a partir de trabalho de campo
conduzido por ele e sua esposa em 1931. Estabelecidos na cidade de Abomey, a capital,
com passagens em Alada e Uidá, contrataram intérpretes, travaram relações com
moradores de várias categorias, fizeram e receberam visitas de homens, mulheres e
crianças. O pátio de sua casa, próxima ao mercado, se tornou um local de interlocução,
garantida, segundo o antropólogo, pelo fato de que sua pesquisa não servia à Igreja
nem à administração colonial, e mais ainda, pelo interesse que os daomeanos nutriam
em seu conhecimento sobre a cultura da Guiana Holandesa, o que dava ao casal um
trunfo. Vale lembrar que a obra de Herskovits teve como grande desafio mostrar os
vínculos e relações entre as culturas africanas e os afro-americanos, combatendo as
teorias biológicas e racistas, e apontar o envolvimento da antropologia cultural nas
lutas pela cidadania nos Estados Unidos. O Mith of the Negro Past foi publicado em
1941, e questiona a noção corrente de que a escravidão teria quebrado todas as
memórias africanas dos negros escravizados. Herskovits traz elementos interessantes
sobre a parceria intelectual com a esposa, que travou conversas com mulheres que ele
mesmo não teria. Em diferentes assuntos, como a educação sexual e o casamento, o
livro traz duas versões, a das mulheres e a dos homens. Isso posto, em que sentido
pode ser interessante ler esse volume, buscando uma aproximação com a experiência
dos múltiplos africanos chamados minas da área gbe, que foram escravizados na
América portuguesa? Claro que muitas ressalvas devem ser feitas: as “fronteiras” do
Daomé visitado por Herskovits, não são as mesmas do antigo reino. Além disso, foram
vários os povos escravizados na esfera e em torno do reino de Daomé, e a base
linguística comum não significa compartilhamento de formas de vida, organização
social e religiosidades. Além, é claro, da óbvia questão temporal, a qual aliás é
constantemente mobilizada por Herskovits, lançando mão (crítica) dos escritos
produzidos desde o século XVII e as possíveis referências de memória ao período pré-
colonial francês. Ainda assim, buscaremos operar a leitura de alguns temas
desenvolvidos por Herskovits, visando aprofundar a análise que já temos feito sobre a
possível expressão africana, particularmente a feminina, registrada nos documentos
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
36
produzidos por Antonio da Costa Peixoto, em Ouro Preto, a Obra nova da língua de
mina (1731) e a versão ampliada, Obra nova da língua geral de mina (1741), análise
essa que é evidentemente alimentada pela rica historiografia disponível sobre a área
mineradora e a sobre a diáspora mina no Brasil.

O tráfico ilegal e a representação consular portuguesa nos portos do Recife e


do Rio de Janeiro
 Maria Luiza Ferreira de Oliveira (UNIFESP)
Três homens de uma mesma família, os Moreira, controlaram a legitimação do
comércio português nos portos do Recife e do Rio de Janeiro, entre 1826 e 1862. Como
o cônsul geral podia nomear vice-cônsules, essa rede se estendia a outros portos do
Brasil. Os irmãos Moreira eram negociantes e traficantes e atuaram azeitando as
engrenagens do tráfico ilegal. Atuaram também apoiando o comércio da imigração em
massa de portugueses pobres para o Brasil, feita sobretudo em navios portugueses.
Foram importantes pontos de apoio para os comerciantes portugueses, tanto os da
praça do Porto como os de Lisboa, além dos residentes no Brasil, e não apenas pelo
tráfico. A pedido do governo português, intermediaram, do Brasil, o fluxo de
trabalhadores pobres entre a Ilha da Madeira, os Açores e os campos de frentes de
expansão agrícola em Angola. Agenciaram o povoamento de Moçâmedes, enviando
luso-brasileiros moradores do Brasil para a colônia agrícola militar, assim como
cuidaram do envio de mestres de açúcar, aguardenteiros, artesãos, além de mudas e
sementes de variadas plantas.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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SESSÃO 09
TRÁFICO E REDES DE COMÉRCIO
Coordenador e comentarista:
 Thiago Campos Pessoa Lourenço (UFF)

“Leva, que a mim te deixo furtar”: roubo de escravos em Uberaba/MG na


segunda metade do século XIX
 Ana Carolina Coelho Chicorski (UNICAMP)
O trabalho visa apresentar os resultados obtidos a partir da análise de dezoito
processos criminais de roubo, furto e sedução de escravizados que aconteceram na
cidade de Uberaba (MG) na segunda metade do século XIX. O objetivo da pesquisa foi
entender a lógica de funcionamento desses crimes na região, bem como delinear o
perfil dos sujeitos envolvidos (quem roubava e quem “se deixava roubar”), suas
motivações e ainda a jurisprudência adotada pela justiça para julgar esses crimes. A
inspiração teórica da pesquisa foram as análises desenvolvidas por E. P. Thompson em
Senhores e caçadores para pensar as relações entre direito e história. Já a perspectiva
metodológica que guiou a pesquisa foi a “história vista de baixo”, isto é, uma história da
escravidão com o olhar atento aos sujeitos escravizados e suas estratégias cotidianas
para viver em uma sociedade que tentava a todo o momento negar sua humanidade.
Derradeiramente, a partir da análise inicial dos processos encontrados no APU e da
leitura da bibliografia, entende-se que o termo “roubo de cativos” esconde uma
diversidade de agentes e de práticas. Por trás dessa nomenclatura existem escravizados
fugidos fazendo acordos com “ladrões” para serem vendidos ou realizar trabalhos
remunerados; sedutores ajudando na fuga de cativos para vendê-los ou usar sua força
de trabalho; cativos sendo roubados e vendidos contra sua vontade para alimentar o
tráfico interprovincial; pessoas responsáveis pelo aliciamento de cativos e pessoas que
intermediavam suas vendas; senhores de escravos acoutando escravizados fugidos para
utilizar sua mão de obra, senhores roubando escravos de seus familiares para resolver
separações de bens extrajudicialmente, entre outras. As práticas que envolviam esses
crimes eram diversas dependendo do lugar e dos personagens envolvidos. Sendo assim,
tendo em vista a pequena quantidade de trabalhos que se dedicam a estudar este tema,
as contribuições apresentadas pela pesquisa, bem como o balanço historiográfico feito
por ela, são de grande contribuição para a historiografia sobre sujeitos escravizados e
práticas de resistência no Brasil oitocentista.

Atar nós e estreitar laços: Pedro de Araújo Lima e os comerciantes de


escravizados no Brasil (1820-1830)
 Paulo Henrique Fontes Cadena (UNICAP)
Pedro de Araújo Lima ficou mais conhecido na história do Império do Brasil
pelo título de Marquês de Olinda. Nascido no ano de 1793, em Pernambuco, alcançaria
rapidamente os mais altos cargos políticos possíveis à época. Em 1837, com a renúncia
do padre Diogo Antônio Feijó, o político pernambucano ascendia à Regência. Os seus

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


38
contemporâneos chegaram a dizer que subiu até onde era lícito subir. Alguns disseram
dele, da forma de Mello Moraes, que era “O maior vulto que ainda resta do primeiro
reinado, e o mais considerado cidadão que possui o Brasil, depois do imperador”. Foi
deputado geral, ministro, senador e regente: tudo isso antes dos 45 anos de idade. E
claro: seguiria mantendo-se no poder, até a morte. José de Alencar, o escritor cearense,
lembrou que Olinda era a “múmia da história do Império”, chamando-o “vice-rei”, em
1866, ironizando a importância e longevidade do político, que viria a falecer em 1870.
Já é bem conhecido pela historiografia que, no governo regencial de Araújo Lima
(1837-1840), as entradas ilegais de navios de tráfico de africanos subiram
assustadoramente. Em Pernambuco, o presidente da província, Barão da Boa Vista, a
pessoa de Olinda naquela localidade, se aliava aos traficantes de escravos para construir
pontes e estradas, adornando o Recife e o banhando em sangue escravo. Por longo
tempo, uma pergunta deixara os historiadores preocupados: qual o motivo da subida e
permanência, no poder imperial, de um homem nascido em Sirinhaém, Pernambuco?
Mesmo sendo filho de senhor de engenho e tendo estudado Direito em Coimbra,
faltava, ainda, resposta a tal questionamento – posto que tantos e tantos como ele
faziam parte deste grupo. Buscamos responder ao questionamento neste trabalho,
partindo das anotações do pai de Pedro de Araújo Lima – Manoel de Araújo Lima –
que estão acondicionadas no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Analisando o
manuscrito, é possível perceber que desde a década de 1810, passando pelos idos de
1820 e chegando à regência, os maiores contatos existentes extrafamiliares se davam
em intrincada estrutura de rede entre os Araújo Lima e diversos comerciantes de
escravos estabelecidos entre Pernambuco, Rio de Janeiro, África e Portugal. Ao que
parece, a subida de Araújo Lima ao poder, de forma meteórica, dava-se pela aliança
frutífera do seu pai com os comerciantes de carne humana. O objetivo principal deste
trabalho é mostrar como essa rede de comerciantes era acionada quando alguma
necessidade dos Araújo Lima era percebida. Pedro de Araújo Lima, o Marquês de
Olinda, ainda estaria envolvido, na década de 1850, com o desembarque de Sirinhaém.
Entretanto, o foco deste trabalho está entre os anos de 1810 e 1830.

Senhores e escravizados na bacia do rio Paraíba do Sul: um estudo sobre a


presença de africanos nas propriedades rurais da vila de Piraí em tempos de
contrabando negreiro (1830-1840)
 Vladimir Honorato de Paula (UNIRIO)
O tráfico transatlântico foi, até meados do século XIX, o principal responsável
pela entrada de cativos de origem africana no continente americano. Desde suas
origens, ainda no século XVI, até sua proibição total e progressiva extinção no período
posterior à publicação da Lei Eusébio de Queiroz, a importação maciça de escravizados
tornou, primeiro a América Portuguesa, e depois, o Império do Brasil, uma importante
zona receptora de africanos. Uma vez estabelecidos, os escravizados eram direcionados
para as mais diferentes áreas de colonização, sobretudo, aquelas que experimentavam
intenso processo de desenvolvimento econômico. Na primeira metade do Oitocentos,
uma área receptora de africanos escravizados se formou, ao longo da bacia do rio
Paraíba do Sul, atrelada ao desenvolvimento da cultura cafeeira em terras das
Províncias de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Na porção fluminense da bacia
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
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do Paraíba do Sul entraram nas décadas de 1830 e 1840 expressivos contingentes de
africanos introduzidos de forma sistemática e intensa. A entrada maciça de
escravizados nessa região contribuiu para a alteração do perfil dos plantéis de escravos
devido à presença de africanos recém-desembarcados, especialmente na antiga vila de
Piraí, importante produtora de café em território fluminense. Nesta localidade, foi
possível identificar, a partir de nossas pesquisas, um aumento no número de africanos
escravizados introduzidos nas propriedades agrícolas em decorrência de dois fatores:
primeiro, o aumento na demanda por mão de obra devido a uma expansão na lavoura
de café; segundo, a uma modificação na conjuntura política a nível imperial facilitando a
importação de escravizados. Sendo assim, o presente trabalho se propõe a apresentar, a
partir de uma ampla pesquisa documental, os impactos da política imperial no
contrabando de africanos no período do Regresso Conservador, e seus efeitos práticos
na expansão das fazendas escravistas na bacia do rio Paraíba do Sul dentro de uma
análise das propriedades cafeeiras da antiga vila de Piraí.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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SESSÃO 10
PÓS-ABOLIÇÃO E IMPRENSA NEGRA
Coordenador e comentarista:
 Daniela Magalhães da Silveira (UFU)

A educação na trajetória do nascido de ventre livre Rodolfo Xavier (Pelotas-


RS, pós-Abolição)
 Ângela Pereira Oliveira Balladares (UFRGS)
Em minhas pesquisas, tenho me dedicado à trajetória de Rodolfo Xavier, um
nascido de ventre livre natural da cidade de Pelotas (RS). Trata-se de um homem
simples, que é reconhecido na historiografia pela sua atuação no jornal da imprensa
negra A Alvorada (1907-1965). Nesta apresentação, tenho por objetivo enfatizar a
relação com o ensino nas experiências de Rodolfo. Sendo a educação uma bandeira
comumente presente entre os movimentos negros, busco pensar a maneira pela qual
Rodolfo se apropria dela, seja enquanto um mecanismo de resistência ou de
diferenciação. A educação na trajetória desse sujeito perpassou os espaços de ensino,
mas para além deste, se aperfeiçoou por parte de um autodidatismo. Sua mãe, a ex-
escravizada Eva, matriculou Rodolfo, quando ainda menino, no curso de alfabetização
noturna da Bibliotheca Pública Pelotense. Um espaço que era destinado aos homens da
classe trabalhadora. Concomitante a seu irmão Antônio, Rodolfo cursou o ensino
primário que buscava desenvolver as habilidades de ler, escrever e contar. Os dois
irmãos constam nos registros como excelentes alunos. Rodolfo foi um dos mais
assíduos colaboradores no jornal A Alvorada, espaço no qual podemos ter acesso ao seu
vasto conhecimento. Nesse periódico, Rodolfo participou de uma campanha, na década
de 1930, pela educação das pessoas negras. Em seus posicionamentos, ele coloca a
educação como um mecanismo de libertação dos preconceitos vivenciados pelas pessoas
de pele escura. A formação de Rodolfo também está atrelada ao espaço sindical,
conforme demonstrarei, sobretudo pelos seus posicionamentos e ideias defendidas.
Assim, tanto a educação formal quanto a informal agregam os conhecimentos
cultivados por este sujeito. Para finalizar, busco tratar brevemente de como a educação
foi sendo percebida ao longo das gerações desta família, ou seja, qual a relação dos
descendentes de Rodolfo com esta pauta, que foi muito defendida por ele e, de que
maneira ela foi utilizada ou percebida pelas novas gerações.

As lutas por moradia no extremo sul do Brasil: notas de pesquisa sobre o caso
de Santa Maria-RS no pós-Abolição
 Felipe Farret Brunhauser (UFRGS)
Neste trabalho, convido leitores e leitoras a refletirmos sobre as lutas por
moradia em meio a urbanização do interior do Rio Grande do Sul durante a Primeira
República e o pós-Abolição. Paralelamente às profundas transformações que marcaram
os anos finais do século XIX – a Abolição da escravidão, a instauração da república as
políticas de imigração europeia, etc. – o final do Oitocentos presenciou um crescimento

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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urbano e demográfico expressivo no interior de diversos estados brasileiros. Avaliando
apenas o caso do RS, entre os censos de 1872 e 1890, o Estado teve um crescimento
absoluto de 28 para 63 cidades. Dentro deste contexto, investigo a cidade de Santa
Maria, localizada na região central do Estado e que vivencia um crescimento
demográfico expressivo neste momento. A chegada de imigrantes pobres das mais
diversas origens (libaneses, belgas, alemães, italianos, etc.) e de trabalhadores nacionais
(brancos ou negros, livres ou libertos da escravidão), marcou o desenvolvimento da
cidade com intensa e variada vida operária e associativa, que contou com pelo menos 19
organizações negras apenas durante a Primeira República: clubes sociais, imprensa
negra, blocos de carnaval, irmandade religiosa, entre outras. Portanto, o presente
trabalho expõe notas de pesquisa acerca das lutas por moradia travadas dentro deste
processo. Partindo de uma análise em SIG Histórico (através da cartografia histórica e
geoprocessamento), analiso a espacialidade das lutas por moradia e como se dava a
relação da população pobre e o poder público através do pagamento de impostos e do
pedido de isenções de multas por motivo de pobreza. Com a análise de registros da
Décima Urbana (o imposto predial no Brasil, neste período), registros de pacientes
pobres do Hospital de Caridade, requerimentos e correspondências enviadas ao poder
público local, demonstro como critérios étnico-raciais e de gênero influenciavam nas
estratégias e recursos disponíveis para o acesso a moradia, bem como na permanência
desta conquista, no imediato pós-Abolição.

A trajetória militante de Christiano Fettermann no pós-Abolição em Porto


Alegre: raça, classe e luta por direitos
 Liana Severo Ribeiro (UFRGS)
A proposta de comunicação é parte da pesquisa de mestrado em que abordei a
trajetória e o pensamento político de alguns redatores do jornal da imprensa negra O
Exemplo, fundado em Porto Alegre no ano de 1892. Para a apresentação, meu objetivo
é analisar a trajetória de vida de Christiano Fettermann, homem negro gaúcho que
viveu entre a segunda metade do século XIX e o ano de 1930. Christiano foi militante e
liderança do movimento operário da cidade no início do século XX e colaborador, entre
os anos de 1908 e 1911, do já mencionado jornal O Exemplo. Nesse sentido, ao longo da
sua vida teve envolvimento com ambas as causas, articulando-as nos diversos espaços
associativos em que atuou e ajudou a organizar. Desta forma, procuro investigar e
melhor compreender as possibilidades traçadas por esse indivíduo que viveu em um
contexto bastante complexo, marcado pelo acirramento das tensões envolvendo as
definições de raça/cor; pelas crescentes expectativas associadas ao início da República,
bem como pelas lutas por cidadania que emergiram no contexto do pós-abolição
brasileiro. Na medida em que foi possível, alcancei informações a respeito de sua
composição familiar, os caminhos percorridos no mundo do trabalho, a luta pelo direito
à instrução e pela ampliação de direitos sociais.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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De investidores de escravos a investidores de cortiços: trajetórias de
proprietários de bens de raiz em São Paulo(1850-1900)
 Philippe Arthur dos Reis (UNICAMP)
Ao longo do século XIX, os cortiços não eram apenas os espaços de moradia da
população pobre e marginalizada de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, pois a
aplicação do vocábulo extrapolava sua associação como um ambiente habitacional. Do
lugar improvisado para a produção de mel e reunião de abelhas, ao espaço mal dividido
e “enxameado” de humanos, é apenas ao final do Oitocentos que o cortiço se firma
como uma palavra da cidade, frequentemente adotado em relatórios, leis e notícias que
o interligam aos espaços insalubres das cidades brasileiras, e consequentemente como
espaço de habitação dos setores populares. Segundo Ynaê Lopes dos Santos, os cortiços
foram um dos espaços do “morar sobre si” na então capital brasileira do século XIX, o
Rio de Janeiro, podendo também ser entendido como um dos lugares de resistência e
de liberdade da população negra e escravizada, servindo assim como uma das portas de
entrada para se entender o processo de urbanização daquela e de outras cidades. Tal
assertiva, combinada com outras leituras, nos faz questionar como os cortiços e demais
habitações ligadas à população pobre da cidade de São Paulo na passagem do século
XIX para o XX ainda carecem de um olhar pormenorizado a partir da mudança das
relações de trabalho em curso na capital paulista. Nesta comunicação, procuramos
desenvolver um panorama dos vocábulos ligados às tipologias de habitação popular,
como os cortiços, casas operárias e vilas operárias, interligados com o processo de
transição da mão de obra cativa para livre em São Paulo do entre séculos. Percebe-se, a
partir da leitura de relatórios, pesquisas produzidas pelo poder público e projetos
legislativos, como a habitação popular e seus projetos de construção foram pensados
conjuntamente às transformações do mundo do trabalho paulistano. A edificação de
habitações voltadas à população pobre não foi um fator isolado da capital paulista, mas
um problema enfrentado por diferentes cidades da modernidade e que, no caso de São
Paulo, foi pensada como um dos artefatos de integração daqueles que podiam se
estabelecer, trabalhar e pagar por ambientes salubres e higiênicos, por meio do aluguel
ou compra de casas, excluindo assim outros grupos. Tal fator esteve intimamente
ligado aos processos de transição da mão de obra escrava para livre na cidade e da
sobrevivência de determinados grupos em detrimento de outros, o que pode ser
vislumbrado a partir da análise de relatórios sanitários, pesquisas realizadas pelo poder
público e os pedidos de construção e reforma de tais edificações.

Sobrevivendo na urbe: cor, classe e criminalidade na Porto Alegre de finais


da década de 1930
 Sarah Calvi Amaral Silva (UFRGS)
O objetivo desta comunicação é discutir parte dos mecanismos de significação
de categorias de cor atribuídas a três homens acusados de furto, na cidade de Porto
Alegre, em finais da década de 1930. João Batista Mota, Jaime Azevedo e Carlos
Teixeira eram trabalhadores pobres que, ao enfrentarem as dificuldades do mercado de
trabalho informal, envolveram-se em delitos investigados e julgados, respectivamente,
no âmbito da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Em ambas as
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
43
esferas, as histórias delitivas foram relatadas conforme os pontos de vista de acusados,
vítimas, testemunhas e autoridades diversas, cujos juízos de valor emitidos em relação
aos comportamentos de Mota, Azevedo e Teixeira perpassaram a enunciação ou o
silenciamento da cor. Cotidianamente utilizados para nomear a si e ao “outro”, termos
de cor integravam uma grade classificatória composta de termos cambiantes entre
representações epidérmicas das mais claras às mais escuras, onde adquiriam
significados categorias, tais como “branco”, “misto”, “preto”, “negro” e “crioulo”.
Enquanto trabalhadores urbanos buscavam alternativas de sobrevivência frente às
vicissitudes experimentadas em uma sociedade profundamente hierarquizada,
delegados, peritos, médicos, juízes, promotores, defensores públicos e demais
envolvidos em situações criminais, interpretavam os comportamentos desses
trabalhadores de maneira a criminalizar atitudes entendidas como prejudiciais à
manutenção da ordem. Nesse interregno, a cor tornava-se um dos elementos centrais à
caracterização daqueles que, de homens honestos, passavam a ser referenciados como
ladrões. Fragmentos das situações conflituosas nas quais a cor era acionada encontram-
se registrados nos processos-crime referentes aos casos de furto em questão, capazes de
problematizar os limites e as possibilidades do exercício da cidadania em um período
marcado pela reformulação das leis, instituições e órgãos públicos atrelados ao
trabalho, à segurança e à justiça penal de uma nação supostamente democrática, porque
mestiça. Nas arenas policiais e jurídicas o processo de racialização das relações sociais,
em uma capital do Brasil Meridional, ajuda a descortinar o quanto a significação da cor
perpassava múltiplas experiências forjadas em uma sociedade historicamente racista.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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Comunicações coordenadas (Mesas 11 a 15)

SESSÃO 11
TERRA E TRABALHO I
Coordenadora e comentarista:
Helen Osório (UFRGS)

Escravidão e aquilombamento nos sertões


 Carolina Pazos Pereira (UFF)
A escravidão é um dos temas mais explorados pela historiografia e pelo
pensamento social brasileiro. Contudo, as formas de escravização nos sertões do país
ainda é uma vertente incipiente. Desde os anos 2000 e, sobretudo, a partir de 2010,
estudos de pós-graduação (dissertações e teses) estão investindo em pesquisas
regionais sobre escravidão e pós-Abolição nos interiores e alargando o que Caio Prado
Júnior chamou de "linhas mestras da história do Brasil" (1942). Minha pesquisa de
doutoramento dialoga com a escravidão oitocentista no Piemonte da Chapada
Diamantina, Bahia, investigando também o pós-Abolição a partir da pesquisa de
arquivo, História Oral e Etnografia nas comunidades quilombolas de Morro do
Chapéu.

Real Forte Príncipe da Beira: da fortificação militar à titulação de um


quilombo remanescente na Amazônia brasileira
 Daniela Paiva Yabeta de Moraes (UNIR)
A comunidade remanescente de quilombo Forte Príncipe da Beira está
localizada à margem direita do rio Guaporé, na fronteira entre o Brasil e a Bolívia,
atual município de Costa Marques (Rondônia). O quilombo foi certificado pela
Fundação Cultural Palmares em 2005 e possui processo aberto no Instituto Nacional
de Colonização e Reforma Agrária (Incra) desde 2008. A história do forte remonta a
disputa por territórios na América entre Portugal e Espanha, sua construção data de
1776. Por conta de sua imponência e de sua posição em local estratégico, o Forte
sempre foi objeto de atenção e investigação. Para entender um pouco os conflitos que
permeiam a fortificação, recorri ao periódico Alto Madeira, fundado na cidade de Porto
Velho em 1917 – quando o município ainda pertencia ao atual estado do Amazonas. Em
1976, o comandante do CFAR (Comando da Fronteira Acre/Rondônia), por
determinação do Comando Militar da Amazônia (CMA), organizou uma “Comissão dos
Festejos” em comemoração ao bicentenário da fortaleza. A comissão foi formada por
Jerzy Badocha, Abanel Machado de Lima, Yeda Maria Pinheiro Borzakov e seu pai Ary
Tupinambá Pinheiro. Ao longo dos meses de abril e maio daquele ano, Abnael
Machado de Lima, que exercia o cargo diretor do Mobral, publicou no jornal uma série
de textos intitulada “Achegos para a história do Forte Príncipe da Beira”. Ainda que a
narrativa construída pelo autor exalte um discurso de imposição, sob o argumento de
integração nacional e domínio da natureza, é possível encontrar passagens que

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


45
remontam a experiência de aquilombamento na região e ocupação do território por
parte de grupos chamados por ele de “negros e crioulos eufóricos por
autodeterminação”. Para essa comunicação, apresentarei notas de pesquisa sobre a
presença da comunidade negra rural no entorno do Forte Príncipe da Beira. Utilizarei
como ponto de partida os textos publicados por Abnael Machado de Lima no Alto
Madeira em 1976 e entrevistas com o quilombola Elvis Pessoa - presidente da
Associação dos Remanescentes de Quilombo do Forte Príncipe da Beira (AsqForte)
que foram fornecidas aos projetos de extensão Amazônia em Quarentena (Universidade
Federal de Rondônia) e Canal da América (Universidade Federal de Juiz de Fora).

Plantações em grande escala ou pequenas fazendas? Reavaliando a escravidão


e o campesinato na produção brasileira de algodão (c.1750-c.1810)
 Felipe Souza Melo (European University Institute) e Diego de Cambraia Martins
(USP)
A comunicação compara as duas maiores capitanias produtoras de algodão cru
no Brasil entre meados do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX. Por
meio de extensa pesquisa quantitativa, com mais de mil registros de exportação,
organizamos uma nova série de exportações do Maranhão e de Pernambuco. Os dados
revelaram que o Maranhão, apesar de ter menos escravos que Pernambuco, sempre
exportou mais que esta última região. Dezenas de registros paroquiais que relatam a
produção de algodão e dados demográficos apontam soluções para este paradoxo. As
regiões de cultivo de algodão no Maranhão estavam enraizadas em grandes plantações
escravistas e com um alto padrão de posse de escravos. Pernambuco, ao contrário, se
apoiava em pequenas fazendas com baixo padrão de posse de escravos para cultivar
algodão.

Dimensões da propriedade escrava no Agreste de Pernambuco: Garanhuns,


1800 e 1850
 José Eduardo da Silva (UFPE)
O presente trabalho tem como principal objetivo analisar o perfil dos
proprietários de escravos de Garanhuns (Agreste Meridional de Pernambuco), entre os
anos de 1800 e 1850. Essa pesquisa é um recorte da minha dissertação de mestrado
intitulada Além do litoral: escravidão no Agreste Meridional de Pernambuco (Garanhuns,
1800-1850). Para realizar esta pesquisa, uma significativa variedade de fontes foi
utilizada. No entanto, nesse recorte destacaram-se apenas os inventários post-mortem na
perspectiva de uma abordagem serial. A partir da presente pesquisa foi possível
perceber a dinâmica, a intensidade e a capilarização do sistema escravista no interior de
Pernambuco, indo muito além das áreas das grandes agriculturas de exportação.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


46
A quem pertence a terra? Pequenos agricultores livres de cor e a expansão da
produção de açúcar (Campinas, 1774-1829)
 Laura Candian Fraccaro (UNICAMP)
A expulsão de pequenos agricultores na fronteira mercantil por grandes
senhores escravistas, orientados para a exportação, é um tema clássico na historiografia
brasileira. Mesmo assim, há poucos estudos que tentem enfocar a análise nas
perspectivas dos pequenos produtores de cor. O presente trabalho tem como objetivo
fazer isso, num estudo de caso centrado em Campinas (SP) na virada do século XVIII
para o XIX. Nesse período, dezenas de produtores de açúcar se dirigiram a essa
localidade, transformando o acesso à terra dos pequenos agricultores, especialmente os
de cor. Utilizam-se nesse trabalho os métodos da Micro-História e a ligação
nominativa de fontes, que permitem reconstruir as biografias de indivíduos e grupos de
parentesco, para intuir as estratégias econômicas e sociais dos agricultores afetados
pela expansão da produção de cana-de-açúcar. O cruzamento de fontes, como o registro
agrário de 1818 e de censos populacionais, permitiu ainda saber a cor dos indivíduos
que possuíam terras e o que produziam, trazendo informações sobre um quadro intenso
de concentração de terras e escravos na vila.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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SESSÃO 12
LIBERDADE EM QUESTÃO I
Coordenadora e comentarista:
 Iamara da Silva Viana (UERJ e PUCRJ)

Caleidoscópio das liberdades: os registros cartoriais das alforrias e as


modalidades de concessão (São João del-Rei, 1830-1860)
 Bruno Martins de Castro (UFSJ)
A comunicação proposta tem por objetivo analisar quantitativa e
qualitativamente os processos de concessão e lavratura das alforrias no tabelionato do
1° e 2° Ofício de Notas de São João del-Rei entre os anos de 1830 e 1860, bem como
traçar uma tipologia das formas de liberdade registradas ao longo desse período. Ao
perscrutarmos o conjunto serial das manumissões cartoriais, pôde-se constatar que,
apesar de muitas vezes o simples reconhecimento social ser suficiente para atestar a
liberdade um ex-escravizado, um número considerável de libertos recorria às notas
públicas para registrar sua carta de alforria, como forma de se dar notoriedade,
legitimidade e segurança à sua nova condição jurídica. A importância atribuída ao
lançamento das cartas e títulos de liberdade em cartório pode ser mensurada por meio
do lapso temporal entre a outorga e o registro desses documentos, visto que mais de
2/3 deles eram lavrados no mesmo ano de sua concessão. No levantamento dessas
alforrias, nos deparamos com uma variedade de modalidades pelas quais os escravos
alcançavam a sua liberdade, havendo um relativo equilíbrio entre as alforrias gratuitas
e aquelas outorgadas a título oneroso. Ainda que alguns padrões verificados para
outras regiões escravistas do Brasil, tais como o maior número de mulheres, crianças e
crioulos entre os alforriados tenham sido também notados para o termo de São João
del-Rei, pudemos constatar que, mais do que o gênero, a idade, a condição física ou a
origem, o que determinava a forma das alforrias era, com efeito, o tipo das relações e as
negociações que os escravos foram capazes de estabelecer com os seus senhores. Por
meio da redução na escala de observação, conseguimos acompanhar as estratégias
empregadas pelos escravos no processo de negociação por sua liberdade e a afirmação
do poder privado dos senhores na formulação de suas políticas de domínio.

A urgência pela liberdade: a luta pela alforria como enfrentamento do tráfico


interno de pessoas escravizadas
 Joice Fernanda de Souza Oliveira (SENAC-Jundiaí)
Ao longo da década de 1870, o tráfico interno de pessoas escravizadas,
especialmente o comércio interprovincial, atingiu o seu ápice. Na iminência da venda,
homens e mulheres escravizados reivindicaram na justiça o direito de adquirir sua
liberdade e, assim, livrar-se não apenas da migração forçada, mas também da
escravidão. Antes de representar o fim do cativeiro, o pecúlio e a compra da própria
alforria significou para muitas pessoas a única forma de se desvencilhar das artimanhas
estabelecidas entre senhores e traficantes. O presente trabalho investiga como aqueles

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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sujeitos escravizados se apoderaram do artigo 4° da Lei n° 2.040, de 28 de setembro de
1871, para conquistar a manumissão e escapar à comercialização de suas vidas. Embora
a lei tenha criado a possibilidade de uma negociação amistosa entre proprietários e
cativos, muitas vezes homens e mulheres escravizados tiveram que recorrer aos
tribunais para fazer valer os seus direitos. Isso porque, os senhores interessados no
montante oferecido pelos negociantes, se recusavam a aceitar os valores apresentados
como indenização que, em geral, eram mais baixos do que os praticados no mercado
interno de cativos.
Nesse estudo, analisamos ações de liberdade, bilhetes trocados entre senhores,
cativos e autoridades, pedidos de soltura enviados à polícia do porto de Salvador e
pedidos de contestação emitidos ao chefe da polícia e ao presidente da província, que
foram solicitados por cativos residentes na capital da Bahia na década de 1870. A
leitura dessa documentação à luz dos debates sobre o funcionamento do tráfico interno,
das interpretações e disputas em torno da legislação vigente e do crescimento do
movimento abolicionista nos permite demonstrar que, diante da urgência das
circunstâncias, do medo de ter seus laços familiares rompidos, de um futuro incerto e
da ameaça de terem suas vidas destruídas pela migração forçada, homens e mulheres
escravizados negociaram com senhores e traficantes, exigiram seus direitos e
interpretaram a lei a seu favor. E, quando nada funcionou, eles ainda teceram alegações
e apelos desesperados, com a intenção de ganhar algum tempo ou, quiçá, desprender-se
definitivamente das amarras do tráfico interno e da escravidão.

“Queriam ser tratados como gente livre”: as reivindicações dos africanos


tutelados na Estrada da Maioridade (São Paulo-Santos, 1852-1862)
 Mariana Alice Pereira Schatzer Ribeiro (UNESP-Assis)
A exploração do trabalho no Brasil, no século XIX, abrangeu questões complexas,
pautadas pela precariedade da liberdade, pelo trabalho assalariado infrequente, além do
trabalho compulsório e forçado. Nesse sentido, na província de São Paulo, importantes
estabelecimentos públicos utilizaram a mão-de-obra dos africanos livres, ou seja,
indivíduos submetidos à reescravização ilegal. A presente comunicação é um recorte da
minha pesquisa de Doutoramento, a qual buscou compreender o que significava ser um
africano livre arrematado aos canteiros de obras da Estrada da Maioridade. O
empreendimento foi um dos projetos de modernização mais relevantes para a província
de São Paulo, entre 1840 a 1862. A construção e a manutenção das obras destinavam
ligar a capital, até o porto de Santos, perpassando as cidades de São Bernardo e
Cubatão. A iniciativa visou dinamizar a comunicação, a circulação de pessoas, bem
como o escoamento dos itens da economia agroexportadora, em especial, o café,
durante a segunda metade do Oitocentos. A apresentação analisará as reivindicações e
a luta por melhores condições de vida dos tutelados, exemplificadas nos ofícios,
correspondências e listas nominais produzidas pelos diretores da estrada, cuja
documentação encontra-se depositada no Arquivo Público do Estado. Deste modo,
homens e mulheres denunciaram os tratamentos precários recebidos, a morte de seus
companheiros deixados ao desamparo, como também se dirigiram às autoridades
policiais. Aliás, em 1856, um grupo recusou-se a trabalhar, lamentou-se contra os
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
49
castigos, exigiu também a demissão do feitor e reivindicou que não queriam morrer de
fome, nem comer com os porcos em uma caixa. As queixas e as estratégias realizadas
pelos indivíduos permitem, portanto, discutir as concepções acerca da exploração do
trabalho no século XIX, em conjunto com outros períodos históricos e localidades,
como por exemplo, as exigências dos escravos do Engenho de Santana, em Ilhéus-BA,
no ano de 1789, examinado por Stuart Schwartz; como também a greve de 1857 na
Bahia, observada por João José Reis. Embora fossem pontuais, as táticas de
organização e ação dos africanos livres arrematados à estrada podem ser interpretadas,
mediante um processo de formação de consciência de classe, mesmo que incipiente. Por
fim, o estudo das experiências de vida e de trabalho dos indivíduos trouxe à luz
discussões relativas à emancipação e à liberdade, em proporções inesperadas,
impulsionando, inclusive os arcabouços que sustentavam a própria escravidão no
Brasil.

Questão de método para a análise das fugas de escravos nas Américas: estudo
de caso nas fronteiras platinas
 Thiago Leitão de Araujo (UNICAMP)
Tema recorrente na historiografia sobre a escravidão nas Américas, a fuga de
escravos - fosse qual fosse sua característica - ainda permanece gerando debate e
controvérsia entre os especialistas, ao menos no que se refere a sua dimensão,
frequência e seu possível (e potencial) impacto em determinada sociedade. Questão essa
que perpassa e requer um debate metodológico mais calibrado, que não dê margem à
sobrevalorização de determinadas fontes. Nos últimos tempos, alguns historiadores e
historiadoras reacenderam o debate, sustentando a baixa frequência das fugas de
escravizados nas Américas, utilizando como aporte documental os inventários post-
mortem. Tendo como ambientação as fugas de escravos nas fronteiras do Rio da Prata,
o presente estudo visa se contrapor a tal perspectiva e método, demonstrando como os
inventários estão longe de se constituírem uma fonte confiável para alcançar o objetivo
visado. Para tanto, utilizo os inventários abertos em todos os municípios rio-
grandenses fronteiros ao Estado Oriental do Uruguai, entre 1845 e 1850, em
cruzamento com uma notável lista de escravos fugidos para as repúblicas platinas (lista
concluída em 1850), que tinha por objetivo sustentar reclamações do Império visando à
devolução dos fugitivos.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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SESSÃO 13
RELIGIOSIDADES
Coordenadora e comentarista:
Regina Celia Lima Xavier (UFRGS)

De engenho a escola agrícola: escravidão e liberdade nas propriedades


beneditinas do Recôncavo da Bahia.
 Idalina Maria Almeida de Freitas (UNILAB)
Esta pesquisa busca investigar a posse de escravizados e as políticas de
escravidão e liberdade da Ordem Beneditina no Recôncavo da Bahia. Seguindo esse
percurso, buscamos conexões da Ordem com o estabelecimento da Escola Agrícola de
São Bento das Lages na vila de São Francisco do Conde, sendo importante observar e
discutir as dinâmicas e expectativas dos cativos da religião nas fronteiras entre a
escravidão e a liberdade. O Engenho das Lages foi erigido em propriedades beneditinas
em meados do século XVIII. As dependências contavam com senzalas para habitação
dos escravos, cais próprio que ligava a região à capital da província e uma capela,
elemento importante no complexo rural. Em 24 de outubro de 1863, foi decidido pelo
Conselho do Mosteiro de São Bento da Bahia, encabeçado pelo abade geral frei Thomas
de São Leão Calmon, o arrendamento do Engenho das Lages ao Imperial Instituto
Agrícola Baiano. O citado Instituto foi consequência de uma política iniciada em 1859
pelo imperador Pedro II que, em viagem ao Nordeste do Brasil, decidiu criar alguns
imperiais institutos de agricultura, com o intuito de solucionar problemas de mão de
obra, capital e atraso tecnológico no que se referia à produção agrícola brasileira.
Segundo consta no contrato de arrendamento da Ordem, o Mosteiro pela sua parte
gostaria de concorrer para o progresso e melhoramento da agricultura, cedendo
anualmente para o Instituto a quantia de um conto de réis. Nossa hipótese é que, para
além dos arranjos meramente financeiros, com o arrendamento por nove anos ao
Imperial Instituto Baiano de Agricultura, a Ordem Beneditina de alguma forma
quisesse contribuir para o “melhoramento da agricultura” da região, continuando a
reger os destinos da população livre e liberta do Recôncavo. Haveria egressos do
cativeiro beneditino na Escola Agrícola de São Bento das Lages? Nesta comunicação,
partiremos das análises dos livros de tombo, dietários e códices da Ordem Beneditina,
amparadas por uma historiografia já produzida acerca dos “escravos da religião”.
Também buscaremos articular a essa análise as fontes produzidas pelo Imperial
Instituto de Agricultura da Bahia e pela Escola Agrícola de São Bento das Lages,
traçando um percurso que pode revelar aspectos de continuidade dos arranjos
beneditinos dentro das políticas de pós-emancipação dos seus cativos.

São Cipriano no Brasil


 Inês Teixeira Barreto (PUCSP)
Apresento alguns dos hibridismos culturais criados a partir das circularidades
do imaginário mágico entre Portugal e Brasil e como as tradições e crenças

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


51
portuguesas foram absorvidas pelas práticas de feitiçaria e pelas religiosidades de
matriz africana-brasileira, onde encontraram terreno para sua sobrevivência da Era
Moderna até a Contemporaneidade. Entre esses elementos, estão as tradições e práticas
mágicas envolvendo o mito de São Cipriano, e especialmente, O Livro de S. Cipriano – o
Thesouro do Feiticeiro, um livro de magia português de orações e feitiços que se tornou
muito popular na Umbanda e na Quimbanda. Muitos dos mitos e práticas relacionados
a São Cipriano, que circulam em Portugal desde pelo menos o século XVI, circulam
também pelo imaginário mágico brasileiro. Aqui não há somente influência dos livros,
mas também das tradições orais que chegaram com os colonos portugueses e que foram
ganhando terreno entre os negros escravizados já no período colonial. Sofrendo
modificações entre o XVIII e XIX, a devoção a São Cipriano chega na Umbanda e na
Quimbanda do século XX e ainda se faz presente na contemporaneidade. Pretendo
contextualizar a figura de São Cipriano em Portugal, sua chegada ao Brasil no período
colonial e mostrar os vestígios da permanência dessas práticas na feitiçaria brasileira
entre os séculos XIX e XX. Uso como fonte o próprio Thesouro do Feiticeiro e utilizo o
trabalho de folcloristas e etnógrafos que abordaram essas práticas em Portugal, como
José Leite de Vasconcelos e Teófilo Braga. No Brasil, tenho como fontes as músicas
rituais das religiões brasileiras e utilizo obras de intelectuais que se dedicaram a
pesquisar o tema, como Câmara Cascudo e Nina Rodrigues, entre outros. Meu objetivo
é entender as circularidades culturais entre Portugal e Brasil a partir das práticas e
representações da feitiçaria portuguesa e como ela foi absorvida pelas tradições
mágicas e religiosas de matriz africana no Brasil. Em ambos os países, a feitiçaria
possui forte substrato católico, o que mostra que ela absorveu essa influência ao invés
de resistir inteiramente, e é justamente nesse processo de relação com o catolicismo
que estou mais interessada. A partir dos encontros entre catolicismo, religiões
africanas, ameríndias e até mesmo de outras, como o judaísmo e o islã, nascem os
hibridismos entre culturas e práticas mágico-religiosas diferentes, que dialogam e
formam um novo elemento, completamente único. Aqui uso a definição de hibridismo
cultural de Nestor Canclini, que define a hibridação como “processos socioculturais nos
quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam
para gerar novas estruturas, objetos e práticas”.

Senhora de mentes, senhora de corpos: instituições católicas como


proprietárias de escravos no interior de São Paulo
 Rafael José Barbi (UNIFESP)
Em agosto de 1872, o casal José e Joaquina, residentes no povoado do Salto,
zona rural de Itu, e cativos da Capela de Nossa Senhora do Monte Serra, abre um
processo contra a igreja pedindo sua liberdade, alegando como principal motivação o
abandono por parte dos administradores da instituição. Após um resultado positivo, o
administrador da capela apela da sentença e, entre idas e vindas, José morre e apenas
Joaquina consegue a sua liberdade ao fim do processo. Durante o período imperial, a
Igreja católica passou por diversas tentativas de reorganização e/ou moralização das
suas instituições, tanto no âmbito regular quanto secular. Essas transformações
atingiram também espaços sociais, com a implementação de uma nova visão de Igreja,
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
52
tentando abandonar a perspectiva da fé colonial, sincrética e exteriorizada; formando
dessa forma um novo grupo de fiéis. Apesar dessa reorganização da fé, as instituições
católicas permaneciam com várias práticas consolidadas no âmbito civil, tal como o
direito à propriedade de bens como igrejas, sítios, fazendas, sobrados e, não menos
importante, escravos. A presente comunicação pretende levantar questões acerca da
escravidão mantida por essas instituições na região de Itu, interior de São Paulo,
durante o século XIX, pensando o funcionamento, seus números e suas posturas frente
à escravidão.

Entre rezas e calango: a tradição oral e a influência bantu no Candendê


 Roseli dos Santos (UFJF)
As memórias de rezas e de bailes dos moradores mais antigos do quilombo
Candendê mostram a riqueza das manifestações culturais afro-brasileiras. Antônio
Lourenço, um dos fundadores do quilombo, “[...] falava meio embolado, usava algumas
palavras do idioma africano, gostava de benzer utilizando um rosário no pescoço.”
Aurora, a filha caçula, mesclava os conhecimentos adquiridos do pai com os de sua fé
católica e, ao ser chamada para solucionar “problemas, aparentemente, sem solução”,
ligados às plantações, criações ou moléstias que acometiam as crianças, sempre
começava com uma indagação: “Bonita, você acredita em Deus?” Aí, a pessoa respondia
que cria. Ela então continuava – “Então, confie em Deus e não em mim.” Aurora traz,
em sua fala, a encruzilhada epistemológica de saberes, que são perpassados por
simbologias de diferentes culturas. Ao realizar as rezas, tanto Aurora quanto Antônio,
usando de palavras africanas, mas com o crucifixo nas mãos, resgatavam o coletivo e
reativavam a territorialidade de culturas encarnadas na memória do corpo e da voz,
numa performance afro-diaspórica. As performances e encruzilhadas destes saberes
também são perceptíveis no baile da Broa e do Café que ocorria no quilombo até a
década de 1950. Os bailes aconteciam em datas especiais, como o dia de São João,
casamentos de algum conterrâneo ou simplesmente para o entretenimento dos
moradores do povoado. Nem só harmonia reinava na festa. Havia sempre uma tensão
no ar devido às disputas de canto que embelezavam o evento. Segundo Genésio,
tocador de sanfona desde os treze anos de idade, o baile era nomeado de formas
diferentes e precisava da destreza dos organizadores e tocadores para não sair da
ordem pretendida. Segundo ele, “[...] os nordestinos falavam embolado, aqui fala
Calango. [...] meu pai ficava de segurança [...]. Eles disputavam o canto, um cantava
mais que o outro, quando eles ficavam nervosos [...] aí meu pai me olhava e eu parava
na hora. Assunção afirma que esses desafios entre os homens faziam parte da vida
cotidiana, marcando o ritmo sazonal da vida de comunidades rurais, e que eram
originários ainda do tempo da escravidão. Para a autora, os “duelos verbais” eram mais
comuns durante a “mutação”, a tradicional troca de trabalho entre os camponeses
ocorrida em várias regiões brasileiras. Para a visão banto-kongo, o ritmo representa
estar no mundo, ocupar o mundo, tirar o mundo de si e ser atravessado por essa
experiência. Na arte afro-diaspórica não se separam visualidade, ritmo e cena. Todos
fazem parte de uma mesma performance. Assim, o Calango é música, é corpo, presença
e território.
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
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SESSÃO 14
EXPERIÊNCIAS NEGRAS EM CENTROS URBANOS I
Coordenadora e comentarista:
Beatriz Gallotti Mamigonian (UFSC)

A regulamentação do trabalho dos ganhadores entre a escravidão e a


liberdade: uma legislação escravista sobre identificação profissional no Brasil
do século XIX (cidades de Salvador e Rio de Janeiro)
 Adailton Pires Costa (UFSC)
Pretende-se analisar as experiências de regulação das relações de trabalho dos
“ganhadores” escravizados, libertos e livres no séc. XIX, em especial nas cidades de
Salvador e Rio de Janeiro. Um dos pilares centrais da cultura da escravidão no Brasil,
que era a limitação da intervenção estatal sobre as relações domésticas entre senhores e
escravos, entrava em crise junto com a própria crise do trabalho cativo no final do
século XIX. A multiplicação de temas regulados pelas posturas municipais era um sinal
dessa mudança. Por meio dessa vasta legislação de “polícia”, estatizavam-se
mecanismos de controle que, a princípio, seriam do âmbito senhorial da casa doméstica.
Nesse movimento de limitação do poder doméstico do senhor de escravos, uma das
principais formas de regulamentação estatal do trabalho é o processo de identificação
profissional obrigatória, com repercussões criminais, previsto em posturas municipais.
Essa identificação profissional surge em regulamentos municipais na cidade de
Salvador a partir de 1835, logo após a Revolta dos Malês, ocorrida no mesmo ano. Essa
legislação influenciaria diretamente as posturas sobre o tema na cidade do Rio de
Janeiro ao longo do século XIX. As posturas de “polícia” que aparecerão a partir de
1838 na capital do Império previam mecanismos de vigilância, disciplina e controle
daqueles que prestavam serviços em suas ruas, especialmente trabalhadores e
trabalhadoras de transporte e comércio de rua, denominados “ganhadores”. Contudo, a
maioria dos regulamentos do Município Neutro da Corte que tratavam sobre a
obrigatoriedade de identificação profissional desse grupo de trabalhadores urbanos não
abrangia apenas os ganhadores escravizados. Os Códigos de Posturas promulgados
pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro tratavam de estabelecer a identificação
profissional obrigatória também para os ganhadores negros libertos e livres, limitando
a liberdade de trabalho, organização e locomoção desses trabalhadores, configurando
mais um elemento da “precariedade estrutural” indicada por Sidney Chalhoub. Com a
drástica redução do tráfico de escravos a partir da segunda metade do século XIX, a
obrigatoriedade de identificação profissional dos ganhadores seria ampliada,
alcançando, inclusive, imigrantes europeus que disputavam o mercado de trabalho nas
ruas do Rio de Janeiro com trabalhadores afrodescendentes. A abolição formal da
escravidão em 1888 não será o fim desse modelo de identificação profissional
obrigatória, revelando a vitalidade desse processo de controle social urbano iniciado
sobre os ganhadores envoltos pela escravidão. Essa forma de regulamentação
repercutirá para além do regime escravista e influenciará diretamente as primeiras
experiências de regulação das relações de trabalho urbano “livre” no pós-Abolição.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


54
O comércio britânico no Império brasileiro: a atuação da firma Francis Le
Breton & Co. (c.1818-c.1824)
 Bruna Digiacomo Cerveira Coutinho (UFF)
A presença britânica no Brasil da primeira metade do século XIX,
particularmente dos comerciantes ingleses, tem sido tratada de uma forma
generalizada. A historiografia brasileira sobre a dita participação dos ingleses no
Brasil, particularmente os trabalhos de Gilberto Freire, Richard Grahan, Olga
Pantaleão e Riva Gorestein, corroboram com o clássico trabalho de Alan K.
Manchester. Em outras palavras, a historiografia enfatiza na preeminência e na
modernidade inglesa no século XIX em detrimento do comércio e comerciante
“arcaico” português. A partir dos estudos mais específicos sobre a organização e a
forma de atuação das firmas inglesas, a visão mais geral passou a ser revista. Ana Célia
Castro, Maria Barbara Levi e Flávio Saes chamaram atenção para o novo tipo de
investimento direto inglês pós-1850: bancos e ferrovias. Entretanto, os trabalhos acima
citados priorizam o período pós-1850, marcado pelo fim do tráfico negreiro e pela
criação do código comercial. O período anterior de atuação das firmas comerciais
britânicas no comércio importador-exportador do Brasil Império não tem sido
trabalhado pela historiografia brasileira. O objetivo deste trabalho consiste em analisar
a organização e a atuação da firma britânica Francis Le Breton & Co. no Rio de Janeiro
na primeira metade do século XIX. Organizada pelo comerciante Francis Le Breton,
natural de Jersey, uma das ilhas do Canal da Mancha, que chegou ao Rio de Janeiro no
período joanino, esta firma atuou não só no comércio de importação de produtos como
bacalhau, madeira, vinho e outros, como também na exportação de café, açúcar e
produtos da pecuária, como chifres e solas.

Os senhores de escravos em um centro urbano do sudeste cafeeiro: Juiz de


Fora, segunda metade do século XIX
 Caio da Silva Batista (UNIVERSO e SEDUC-RJ)
A proposta deste estudo é analisar o perfil social e econômico dos senhores de
escravos da cidade mineira de Juiz de Fora durante a segunda metade do século XIX.
Para tal foram utilizados inventários post-mortem, documentos que apresentam as
listagens dos bens do inventariado no ato de seu falecimento. Mesmo representado um
número pequeno da população, a citada fonte apresenta sua importância pois, por meio
de sua análise, é possível compreender a composição da riqueza do inventariado, sua
escravaria, dentre outros aspectos socioeconômicos. Para se chegar aos senhores de
escravos da cidade de Juiz de Fora, foi desenvolvido um banco de dados com 1.229
nomes. Para sua montagem, utilizei o Almanaque Administrativo, Civil e Industrial de
Minas Gerais dos anos de 1870, 1873 e 1875, lista nominativa de 1831 e documentos
fiscais da Câmara Municipal de Juiz de Fora. Após realizar uma triagem, localizei treze
inventários post-mortem de senhores de escravos referentes aos anos de 1853 a 1879.
Com os dados obtidos na documentação, foi possível verificar o quantitativo de cativos,
investimentos, dívidas e os demais bens que esses indivíduos possuíam. Essas
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
55
informações permitiram o desenvolvimento e análise do perfil social e econômico dos
senhores de escravos de Juiz de Fora. Além deste aspecto, a presente pesquisa buscou
compreender as peculiaridades e as particularidades desses indivíduos em comparação
ao observado em outras regiões do Brasil oitocentista. É importante salientar que a
baixa incidência dessa documentação para a cidade de Juiz de Fora no decorrer do
século XIX se relaciona à sua economia embasada na cafeicultura. Essa cultura
demandou grande contingente de mão de obra cativa nas áreas rurais. Porém, mesmo
com uma economia embasada na produção agroexportadora de café, a cidade recebeu
investimentos que possibilitaram a diversificação de sua economia e sua consolidação
como o principal entreposto comercial da Zona da Mata de Minas Gerais. Dentro deste
contexto, a cidade contou com a mão de obra cativa em diversos setores produtivos.
Assim, é objetivo deste trabalho analisar o perfil social e econômico dos senhores de
escravos em Juiz de Fora durante a segunda metade do Oitocentos e compará-lo com
os de outras regiões brasileiras do período.

Repensando o aluguel como modalidade de trabalho escravizado: um estudo a


partir da prestação de serviços domésticos (cidade do Rio de Janeiro,
segunda metade do século XIX)
 Flavia Fernandes de Souza (UFF)
A proposta dessa comunicação é apresentar uma análise e uma reflexão sobre o
chamado “aluguel”, a partir da esfera laboral do serviço doméstico, na então capital do
país na segunda metade do século XIX. Tradicionalmente entendido como uma
modalidade de exploração da força de trabalho escravizada (realizada por meio da
transferência temporária de um(a) cativo(a) de um(a) proprietário(a) para outro(a)
senhor(a) visando à prestação de serviços), típica em espaços urbanos oitocentistas, o
aluguel era uma prática comum de emprego de criadas e criados domésticos na cidade
do Rio de Janeiro nas últimas décadas da escravidão. Tendo em vista isso, a
comunicação pretende discutir a ideia de que, embora fosse o aluguel uma conhecida
forma de emprego da força de trabalho escravizado nos domicílios, no contexto em
estudo tal prática provavelmente não envolvia apenas escravos(as), mas também
trabalhadores(as) livres. A partir da análise de um conjunto de fontes documentais
(composto por anúncios de jornais, relatos de viajantes e dicionários de época), e tendo
como base de diálogo recentes estudos históricos sobre as complexidades em torno do
entendimento do que era o trabalho dito livre no século XIX, em especial o chamado
trabalho assalariado, a comunicação busca defender a hipótese de que o aluguel
provavelmente se constituía como um tipo de contratação de trabalhadores em geral,
independentemente de suas condições sociais e jurídicas. Isso seria especialmente
válido para o caso da prestação de serviços domésticos na cidade do Rio de Janeiro,
onde numerosos anúncios de empregos e de trabalhadores publicados na imprensa, no
anterior e no seguinte à abolição da escravidão, apresentavam com frequência as
expressões “aluguel” ou “alugado(a)” na busca e na oferta de criadas e criados
domésticos no mercado de trabalho, fossem eles(as) escravos(as), libertos(as) ou livres.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


56
“O que é que você quer ser, carroceiro?”: trabalhadores de carroças na capital
da Bahia (1866-1873)
 Mona Lisa Nunes de Souza (UFBA)
Em 25 de agosto de 1858, a Câmara Municipal de Salvador aprovou um projeto
de postura que regulava os serviços prestados por carroceiros e cocheiros. A sessão foi
dirigida pelo presidente da câmara dos vereadores, Ernesto Rezende, e contou com a
presença de mais quatro vereadores. No entanto, os efeitos não foram imediatos, pois a
regulamentação dos carroceiros e cocheiros em Salvador passou por um longo
processo. Neste sentido, os indicativos apontam que a aplicabilidade da legislação
municipal que regulamentaria e controlaria tais trabalhadores foram efetivadas a partir
de 1866, momento em foi aberto o Livro de Matrícula dos Carroceiros (1866-1873).
Esse livro contém registros de 320 trabalhadores, em sua maioria livres, mas também
escravizados e libertos, que grassavam com suas carroças e carros pelas angulosas ruas
da cidade da Bahia. Enfim, no cotidiano das ruas, os laboriosos carroceiros resistiam às
diversas interferências das autoridades públicas que tentavam controlar essa atividade.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


57
12/05/2021 – 11h-13h
SESSÃO 15
CORPO E ESCRAVIZAÇÃO I
Coordenador e comentarista:
 Henrique Espada Lima (UFSC)

Cirurgias e experimentos em corpos cativos pela medicina baiana e


pernambucana do Oitocentos
 Barbara Barbosa dos Santos (FIOCRUZ)
A presente comunicação busca apontar a produção do conhecimento médico em
torno do corpo escravizado na Bahia e Pernambuco no século XIX. Esta perspectiva se
insere no movimento da historiografia da saúde e escravidão, de romper com as ideias
que negam produções médicas para o tratamento da população escravizada. Este novo
olhar é representado por historiadores como Silvio Lima e Iamara Viana, que
demonstram, em análises sobre teses, manuais práticos de medicina e periódicos
médicos, uma intensa imersão dos médicos na própria dinâmica escravagista daquela
sociedade. Deste modo, a partir da análise da Gazeta Médica da Bahia e os Anais da
Sociedade Pernambucana de Medicina, apresentamos que no Nordeste ocorre situação
análoga à encontrada pelos historiadores supracitados no Sudeste oitocentista. Isto é,
uma presença intensa de escravizados em experimentos cirúrgicos e farmacológicos.
Para além de contribuir com as novas visões sobre a medicina e escravidão no Brasil, o
exame destas fontes reafirma a importância de homens e mulheres escravizados para o
desenvolvimento do conhecimento médico brasileiro, como também as complexidades
na relação entre médicos, cativos e Estado, intensificadas pelas experiências de
adoecimento.

O domínio nos corpos: as marcas de ferro nos escravizados e o comércio


atlântico no século XVIII
 Luanna Maria Ventura dos Santos Oliveira e Suely Creusa Cordeiro de Almeida
(UFRPE)
Este trabalho trata das marcas carimbadas nos produtos de importação e
exportação no período do Brasil colonial: açúcar, algodão e, de forma específica, de um
produto marcado e que atravessou o Atlântico em direção ao Brasil: o escravizado.
Procura perscrutar como e quando eram carimbadas as marcas a ferro quente no corpo
dos cativos e qual a serventia que possuíam no mundo da escravidão. Como o Estado
organizou o processo de marcação, que tipo de controle poderia garantir e como
tornavam os corpos cativos para sempre. Além dessas questões, transversalmente
refere-se aos processos nos quais as marcas foram essenciais para o controle e
fiscalidade do Estado português, como entradas e saídas nas alfândegas, controle de
contratadores e senhorios de navios, leilões e arrematações.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


58
A economia dos castigos na era da segunda escravidão: Brasil e Estados
Unidos, século XIX

 Marcelo Rosanova Ferraro (USP)


A pesquisa se inicia na virada entre os séculos XVIII e XIX, quando a
combinação entre a Revolução de São Domingos e a Revolução Industrial provocou um
aumento dos preços de commodities como o açúcar, o algodão e o café no mercado
mundial. Em plena era da crise do colonialismo e da escravidão colonial, novas zonas
escravistas se formaram em Cuba, nos Estados Unidos e no Brasil – precisamente
quando os dois últimos países construíam seus Estados independentes. O avanço das
economias agroexportadoras do Vale do Mississippi e do Vale do Paraíba impôs a
ambos os parlamentos nacionais a agenda de novas classes escravistas, que
converteram seus interesses em verdadeiras agendas de Estado. Desse modo, o
cativeiro moldou a construção dos regimes constitucionais estadunidense e brasileiro,
assim como as leis e as justiças criminais, que fizeram da população negra e escravizada
os inimigos domésticos a serem contidos pelo rigor penal e pela violência de Estado.
Em seguida, a pesquisa analisa crimes capitais cometidos por escravizados na região de
Natchez (Mississippi) e do Vale do Paraíba (Rio de Janeiro) entre as décadas de 1820 e
de 1880, com o objetivo de investigar a relação entre variáveis econômicas e políticas
na vida cotidiana nessas duas sociedades de plantation, com destaque para a violência
privada e pública. Os crimes capitais revelam as dinâmicas das relações e violências
domésticas do cativeiro, atreladas às influências do mercado mundial e à lógica das
hierarquias privadas. Ao mesmo tempo, nos julgamentos de réus nos tribunais públicos
se encontravam, e por vezes se chocavam, a soberania dos fazendeiros e a jurisdição do
Estado. O rigor das cortes e das penas variou ao longo do tempo, nem sempre em
relação aos índices de resistência e de criminalidade, mas respondendo igualmente às
tensões políticas. A violência de Estado era menos uma reação aos crimes do que aos
anseios políticos de setores da sociedade, que reivindicavam o punitivismo estatal como
demonstração de força da ordem escravista em tempos de crise. Por fim, essa pesquisa
revela como a abolição da escravidão nos Estados Unidos e no Brasil preservou a
condição precária da população liberta, sujeita ao arbítrio das forças políticas e da lei.
Mais uma vez, em plena ordem constitucional, eles foram legados a um permanente
estado de exceção regido pelo signo da raça.

Identificação de estereótipos contido na obra Casa Grande & Senzala e a


coleção de obras didáticas que compõem o Projeto Araribá História
 Luciano Araujo Monteiro (UNIFESP)
Este estudo visa à desmistificação de estereótipos relacionados à visão sobre a
população negra, criados na obra Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre [2006],
por este livro difundir a ideia de democracia racial entre brancos, negros e indígenas,
isto é, uma relação harmônica entre as três raças na constituição do que hoje
conhecemos por Brasil. Paralelamente, haverá a problematização e comparação com as
informações transmitidas por meio das obras didáticas do Projeto Araribá História
[2006], voltadas aos alunos de 5ª até 8ª séries. Trata-se de um conjunto de obras
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
59
didáticas produzidas com recursos do Ministério da Educação e distribuídas para
alunos de escolas públicas por meio do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD)
nos anos de 2008, 2009 e 2010. Este tema surgiu com a finalidade de mostrar que
cativos também são agentes históricos e não vivem apenas para o trabalho ou mesmo
para o castigo, pois esta visão tornou-se constante em muitas coleções didáticas, ao
observarmos as imagens e textos que retratam a época da escravidão negra no país,
como no conjunto de livros didáticos aqui analisados. Tamanha recorrência impede que
haja, por parte dos estudantes, a conscientização sobre a figura do negro como um
agente histórico. Por esta razão é citado o trabalho de Sílvia Lara, pois esta apresenta a
escravidão como um processo de interação social em que, em determinados momentos,
o senhor deveria ceder, a fim de que a escravaria não se rebelasse. O recorte temporal
analisado está situado entre os séculos XVIII e XIX. Além disso, será mencionado o
trabalho de Circe Bittencourt, por esta afirmar sobre o sentido envolto na suposta
ausência dos conflitos sociais nos livros didáticos.

12/05/2021 – 13h-14h
Intervalo

12/05/2021 – 14h-16h
Mesa-redonda: “Pós-Abolição: estado da arte”
 Petrônio José Domingues (UFS), Wlamyra Ribeiro de Albuquerque (UFBA) e
Fernanda Oliveira da Silva (UFRGS)
Mediação: Flávio dos Santos Gomes (UFRJ)

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


60
12/05/2021 – 16h-18h
Comunicações coordenadas (Mesas 16 a 20)
12/05/2021 - 16h - 18h

SESSÃO 16
DEMOGRAFIA DA ESCRAVIDÃO I
Coordenador e comentarista:
 Renato Leite Marcondes (USP)

Saúde e liberdade: doenças em pedidos de alforria no Vínculo do Jaraguá


(Minas Gerais, século XIX)
 Jacques Ferreira Pinto (FIOCRUZ)
Este trabalho tem por objetivo analisar como escravizados recorreram às suas
condições de saúde em requerimentos de alforria para conquista de liberdade na
comunidade rural do Vínculo do Jaguará, província de Minas Gerais, durante o século
XIX. Em primeiro lugar, apresentaremos as fontes principais da pesquisa, no sentido
de contextualizá-las em aspectos históricos, arquivísticos e possibilidades de
investigação. Em seguida, contextualizaremos a investigação em curso em diálogo com
os estudos da confluência entre história da saúde e da escravidão com base na produção
historiográfica. Por último, iremos expor resultados preliminares acerca do papel da
saúde na busca por liberdade nos referidos recortes espaciais e temporais por meio de
algumas fontes em destaque. O Vínculo do Jaguará era um conjunto de fazendas
localizado na comarca de Sabará com sede na Fazenda de Jaguará, perto do rio das
Velhas, Minas Gerais. O estabelecimento do Vínculo ocorreu nos anos iniciais do
século XIX, pela vinculação de diversas regiões com engenhos, fábricas, casas,
escravos, gados, criações etc. A autoria dos requerimentos estudados é atribuída aos
escravizados, entre homens e mulheres, solicitando sua alforria seja pela idade muito
avançada, comprovada deficiência física e/ou enfermidades e moléstias que os
acometiam. Em parte dos requerimentos consta também um termo de juramento e
avaliação de médico acadêmico ou procurador acerca da situação exposta. A análise de
tal experiência histórica pode subsidiar na compreensão da complexidade da escravidão
no Brasil, em que saúde, doenças e conhecimento médico se entrecruzaram com raça,
etnicidade, escravidão e liberdade.

Africanos livres e escravizados, sentenciados e europeus assalariados:


experiências de trabalho e de vida na Fábrica de Ferro de Ipanema (1810-
1895)
 Karina Oliveira Morais dos Santos (UNIFESP)
Esta comunicação pretende abordar as relações de trabalho no âmbito da
Fábrica de Ferro São João de Ipanema (1810-1895), localizada na então Vila de
Sorocaba, interior de São Paulo. A fábrica foi oficialmente fundada em 1810, mas desde
o século XVI já se sabia da existência de ferro no Morro de Araçoiaba, onde foi
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
61
posteriormente edificada. Em função da instabilidade produtiva e das dificuldades no
gerenciamento administrativo, em 1860 ela foi desmontada e seu patrimônio,
compreendendo maquinaria e escravos, foi enviado ao Mato Grosso, onde se iniciava a
construção de uma nova siderúrgica. Com a eclosão da Guerra do Paraguai, a
siderúrgica reativou suas atividades em 1865, a fim de fornecer insumos à guerra. Suas
atividades foram definitivamente encerradas nos primeiros anos da República, em
1895. Africanos livres e escravizados, alemães, suecos, indígenas, sentenciados,
camponeses locais, católicos, protestantes, homens, mulheres, crianças, Coroa e
acionistas particulares: entre expectativas e frustrações, uma pluralidade de sujeitos
emaranhados nas teias das complexas relações de trabalho e de vida compartilharam a
experiência de trabalho na Fábrica. Pioneira na fundição de ferro no país, lugar de
encontros e dissonâncias, a Fábrica de Ipanema apresenta um cenário com inúmeras
especificidades. Em seu interior, podemos perceber as articulações entre os distintos
perfis de trabalhadores, diferentes em origens geográficas, étnicas, ofícios, idiomas,
religiões, necessidades, expectativas e sonhos. Diferentes também quanto ao estatuto
legal. Resistência será sempre um termo atual e tratar o mundo do trabalho é
emblemático em qualquer tempo histórico. A teia de relações sobre a qual me debruço
aqui contribui para compreendermos São Paulo para além da sua inserção no mercado
externo com a produção cafeeira e para além da formação de seus núcleos urbanos e
transformações na infraestrutura, por exemplo. Contribui também, e sobretudo, para
compreendermos o Brasil oitocentista para além das narrativas estanques que se criam
sobre os sujeitos. Neste momento, tratarei dos conflitos que perpassam esse ambiente,
de trabalho e de vida, tão cheio de complexidades e que envolve os distintos grupos que
por Ipanema passaram. Chamo a atenção, em especial, para as articulações coletivas, as
situações de enfrentamento e negociação, as ameaças, os dissensos menos visíveis e
toda sorte de alternativas criadas a partir da percepção das circunstâncias que se
encontravam. Nosso foco é no encontro, nas experiências coletivas, naquilo que se
pratica em conjunto. A clareza de tais dinâmicas evidencia o papel ativo desses sujeitos
na construção de respostas a partir da consciência de suas próprias condições, sejam
elas situacionais ou a longo prazo. Em uma palavra: agência.

Dinâmica demográfica dos escravos africanos no interior do Maranhão na


primeira metade do século XIX
 Lélio Luiz de Oliveira e Renato Leite Marcondes (USP)
A partir da primeira década do Império brasileiro, a estagnação das exportações
e a acentuada retração do tráfico atlântico produziram grandes alterações na dinâmica
populacional dos escravizados da província do Maranhão. Objetivamos analisar essas
mudanças por meio do perfil demográfico dos escravos, principalmente africanos, em
cinco vilas do interior da província na primeira metade do século XIX. O
recenseamento dos escravos de 1848 forneceu dados individualizados por cativo (micro
dados), permitindo distinguir os originários da África dos “nacionais”. Calcados
principalmente nessa fonte e em comparação com outras já disponíveis, analisamos as
transformações demográficas maranhenses. Ao analisarmos a proporção de africanos
no total de cativos segundo as idades em 1848, notamos uma crescente participação
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
62
deles à medida do incremento etário, revelando movimentos imigratórios decrescentes
na primeira metade do século XIX.

Infância negociada: crianças no comércio interno de escravos (Fortaleza,


1861-1880)
 Rafael da Cunha Scheffer (UNILAB)
Após 1850, a população escrava cearense foi duramente atingida pela migração
forçada provocada pelo comércio interprovincial, com o Ceará sendo apontado por
diferentes autores como uma das principais províncias que venderam escravos ao
Centro-Sul cafeeiro. Nesse contexto, a partir da análise de escrituras de compra de
escravos em Fortaleza, a presente comunicação procura se inserir no debate sobre os
impactos desse comércio para a família negra na região, discutindo especificamente a
presença de menores de quatorze anos entre os negociados. Com a análise documental,
buscamos perceber a representatividade de cativos entre 0 e 14 anos entre os grupos
negociados, analisando também em que situação essas crianças e jovens foram
comercializados. Ou seja, além do número de negociados e seu percentual frente a
outras faixas etárias (e sua variação ao longo dessas duas décadas), discutiremos
também quantas dessas crianças foram negociadas juntamente com mães e irmãos,
quantas delas foram vendidas sozinhas e para onde foram negociadas, procurando
entender como a migração forçada dessas crianças impactou suas famílias. Por sua vez,
através da análise de anúncios, notícias e artigos publicados em jornais locais, visamos
perceber como as crianças escravizadas eram vistas enquanto força de trabalho e como
o impacto das vendas em suas famílias foi percebido no discurso local sobre a
escravidão e o comércio interno de escravos. Para tanto, além dos livros de notas de
dois cartórios de Fortaleza, vamos explorar um livro de passaportes e dois jornais
locais – o Pedro II e O Cearense.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


63
12/05/2021 – 16h-18h
SESSÃO 17
MOVIMENTOS SOCIAIS NO FIM DA ESCRAVIDÃO
Coordenador e comentarista:
 Ricardo Figueiredo Pirola (UNICAMP)

O projeto da parteira Madame Durocher sobre a emancipação dos escravos


na crise do Império brasileiro
 Florisvaldo Paulo Ribeiro Júnior (UFU)
Madame Durocher, famosa parteira, vivendo na cidade do Rio de Janeiro,
escreveu e publicou, na década de 1870, um opúsculo em que abordava a problemática
da emancipação dos escravos. Neste texto, resultado de uma pesquisa mais substancial,
procurei analisar esse documento tentando colocá-lo em uma perspectiva mais ampla,
envolvendo o debate político que desde meados da década de 1860 se dedicou a
construir soluções visando a extinção da escravidão. Procurei assinalar também as
peculiaridades profissionais e políticas de Madame Durocher mostrando suas posições
políticas conservadoras e sua movimentação pela Corte imperial contrariando o
ordenamento social prescrito. Por fim, tentei destacar o enraizamento das posições
conservadoras quanto à abolição da escravidão e a emergência de uma “política racial”
representadas no seu escrito.

Aqueles que querem ser irmãos: religiosidade e liberdade nos anos finais da
escravidão
 Helen da Silva Silveira (UFRGS)
Este resumo pretende apresentar os resultados parciais de uma pesquisa de
mestrado em andamento. Um dos focos da pesquisa é a Irmandade religiosa de São
Sebastião Mártir, fundada em 1880 na cidade de Venâncio Aires. Nesta Irmandade,
doze dos seus dezesseis fundadores eram cativos, pertencentes, em alguns casos, a
famílias importantes e ricas da cidade, famílias que ocuparam cargos políticos após a
emancipação do município. O que significa que a escravidão foi uma realidade na cidade
até seus anos finais e uma parte da riqueza das elites veio da exploração dessa mão de
obra. Achar registros desta organização não foi fácil e envolve um caminho de pesquisa
feito em vários acervos e catálogos de busca usando vários métodos. A partir das cartas
de liberdade e inventários senhoriais encontrados nos Documentos da Escravidão do
Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS) que estão online, e com o
auxílio de outras ferramentas de busca como o site Family Search, foi possível
estabelecer alguns pontos importantes sobre a escravidão em cidades pequenas do
interior do estado e da relação desta com a concentração de poder político na mão de
algumas famílias ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, os escravizados adotaram
formas de criar associações próprias e bastante conhecidas para reivindicar suas
liberdades em um momento em que o cativeiro estava em franca derrocada.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


64
Entre vivas e brados: ocupando as ruas para celebrar a Abolição, Recôncavo
da Bahia (1888)
 Jacó dos Santos Souza (UFBA)
Esta comunicação tem como objetivo refletir sobre as celebrações da Abolição
na cidade de Cachoeira, Recôncavo da Bahia. Os eventos festivos do maio de 1888
possibilitaram encontros e desencontros de interesses, anseios, projetos, frustrações e
expectativas de um futuro desconhecido. Reuniões, passeatas, missas, recitais de
poesias e solenidades diversas formaram um painel de eventos celebrativos que
ocorreram durante e após o 13 de Maio, atraindo multidões para as ruas e recintos
fechados. Passados os dias de celebração, ex-escravos, libertos, livres e abolicionistas
seguiram elaborando memórias do momento histórico que prenunciava um tempo de
grandes mudanças políticas e sociais. Nesta comunicação procuro, além de
compreender como ocorreu a participação de diferentes setores da sociedade
cachoeirana nas festas da Abolição, analisar como os abolicionistas Cincinato Franca
(professor), Cesário Mendes (rábula) e Tranquilino Bastos (músico) se envolveram com
as questões que tocavam diretamente às vidas da população negra nos primeiros anos
do pós-emancipação. Esta reflexão é oportuna na medida em que procuro discutir que
as pautas abolicionistas não se findaram com a abolição. Pelo contrário, o que se viu no
imediato pós-Abolição foi uma continuidade de antigas reivindicações relacionadas à
população negra.

Intersecções entre Abolição e infância: São Paulo, 1880 e 1890


 Marília Bueno de Araújo Ariza (USP)
A comunicação ora proposta tem como objetivo refletir sobre a importância
substantiva assumida pela infância, como categoria social, e pelas crianças escravas,
como sujeitos, nos embates que antecederam e sucederam a Abolição. Recorrerá, para
isso, a conclusões obtidas em pesquisa concluída sobre tutelas e contratos de soldada
registrados no Juízo de Órfãos da cidade de São Paulo, e a pesquisa em andamento
sobre trabalho e representações da infância escrava e negra na segunda metade do
século XIX. Há tempos, a compreensão do processo de transformações que culminou
na abolição tem sido aprofundada por pesquisas sobre a contestação da legalidade da
escravidão nas arenas formais da justiça, a multiplicação de alforrias adquiridas por
escravos e as variadas formas de protesto escravo que marcaram as últimas décadas do
século XIX. Mais recentemente, estudos sobre o pós-Abolição e as intersecções entre
escravidão, Abolição e gênero têm enriquecido anda mais os debates da área. Esse
panorama diversificado de interpretações sobre o processo de Abolição e suas
consequências, no entanto, ainda não incorporou adequadamente as crianças escravas e
egressas da escravidão, sua participação no mundo do trabalho, suas agências e
representações sociais. Transpondo a invisibilidade a que foram alienadas pela maior
parte da história da colônia e do Império, estas crianças passaram a ocupar lugar
central nos embates que encaminharam a emancipação gradual e o encerramento
definitivo da escravidão. De dimensões simbólicas e práticas, esse deslocamento foi
primeiramente assinalado pela aprovação da Lei do Ventre Livre, que buscava dar
sobrevida à escravidão por meio do controle da mão de obra de ingênuos. Na década de
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
65
1880, tais crianças tornam-se personagens fundamentais de disputas em que se
enfrentavam mulheres escravizadas ou libertas, em busca de emancipação e autonomia
para si e suas famílias, e a camada proprietária, que buscava controlar a perda de mão
de obra à emancipação por meio de tutelas e contratos de soldada. Informando
estratégias de ambas as partes, a emergência de uma normatividade de inspiração
burguesa, que designava lugar central à infância no seio da família e, por conseguinte,
da sociedade, atrelava o disciplinamento das crianças na ética do trabalho livre e
morigerado ao encaminhamento da nação brasileira nos rumos da modernidade e da
superação dos atrasos da escravidão – preservando, ao mesmo tempo, as hierarquias
sociais consolidadas sob o cativeiro. No centro dessa disputa, concepções de infância
moderna eram reelaboradas, adquirindo feições específicas em diálogo com a escravidão
e a abolição.

A atualização dos clubs abolicionistas na província da Bahia (1883-1888)


 Ricardo Tadeu Caires Silva (UNESPAR)
Neste texto, discuto o papel dos clubs abolicionistas da província da Bahia nos
três anos que antecederam a Abolição da escravidão (1885-1888). O recorte temporal
se justifica pelo fato de que é a partir desse momento que a campanha abolicionista se
radicaliza e as ações subversivas em prol da liberdade passam a ser cada vez mais
frequentes. E é justamente na execução dessas atividades que se encaixam alguns dos
clubs abolicionistas fundados na capital baiana pelo abolicionista Eduardo Carigé (1851-
1905). Para além de realizar a propaganda das ideias abolicionistas, estas pequenas
agremiações atuaram dando suporte ao resgate, fuga e acoitamento de centenas de
cativos que a elas recorriam para obter auxílio para conquistar suas liberdades.
Compostos por indivíduos de diferentes origens sociais e profissões, estes clubs
apontam para uma importante participação popular na campanha abolicionista nos
momentos que antecederam a derrubada do sistema escravista. Por meio da análise
dos dados coletados em alguns dos principais jornais baianos – por exemplo o Diário da
Bahia –, busco traçar um perfil da composição social e étnica de seus membros;
apresentar suas filiações e interesses políticos; bem como discutir as principais
estratégias de atuação na promoção da propaganda abolicionista e na libertação dos
escravizados.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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SESSÃO 18

GÊNERO E TRABALHO II
Coordenadora e comentarista:
 Karoline Carula (UFF)

Pequenas notas de violência: suicídios de mulheres escravizadas e a expansão


da imprensa fluminense
 Daniela Magalhães da Silveira (UFU)
Em 1875, a Gazeta de Notícias lançou o seu prospecto com indicações que
permitiram à historiografia buscar pistas sobre inovações técnicas, de escrita e da
forma de distribuição da folha. Ao se tornar um dos jornais de maior vendagem e
agregando alguns dos principais homens de letras das últimas décadas do século XIX,
o periódico adotou uma postura que, embora não tenha sido abertamente abolicionista,
encampou algumas das principais pautas que suscitaram na posterior assinatura da lei
Áurea. Cabe observar que o seu modo de organizar a página, selecionar temas e
abordagens, talvez com o intuito de fidelizar esse público leitor, foi acompanhado por
outros periódicos a ele contemporâneos. Assim, vários são os títulos interessados em
alargar o espaço oferecido aos literatos e também às notícias colhidas nas ruas e
oriundas das delegacias. São nesses espaços dos jornais onde encontramos notícias
sobre suicídios de pessoas livres e também escravizadas. Considerando esses anos finais
da década de 1870, percebemos como algumas cobranças passam a ser feitas a mulheres
escravizadas que deixavam filhos pequenos ao cometerem o suicídio. A pesquisa que
gerou a proposta de apresentação tem como intuito buscar indícios, em alguns jornais
de grande circulação no Rio de Janeiro, sobre a maternidade de mulheres escravizadas
e as narrativas que revelavam a opção delas pelo suicídio. Vale a pena ressaltar como os
estudos de gênero, em consonância com o olhar sobre a imprensa como objeto de
pesquisa, podem render novas perspectivas e desvendar experiências de mulheres que
não experimentaram a escravidão da mesma forma que seus parceiros. Existiram
cobranças específicas feitas a elas e o modo de organizar essas informações na página
do jornal revela o olhar masculino e senhorial, mas também a forma como aquelas
mulheres escolheram viver e também morrer.

“Dos afazeres de meninas de cor”: trabalho doméstico, infância situações de


exploração 1920-1950
 Lúcia Helena Oliveira Silva (UNESP-Assis)
Nossa comunicação é parte de uma investigação que estuda as relações de
trabalho na infância de crianças e adolescentes negras durante o início até a segunda
metade do século XX. Se considerarmos o serviço doméstico como trabalho nascente
com a colonização, pode-se se dizer que o trabalho doméstico é uma das profissões mais
antigas de nosso país. Marcado pelas violências institucional, física e moral, ele foi, em
sua maior parte, fruto do trabalho de escravizadas e escravizados e diminuído entre os

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


67
ofícios – tanto que essa atividade foi a última profissão a ser regulamentada de forma
completa no Brasil. A relação do trabalho doméstico com o uso da mão de obra infantil
foi comum na vida dos cativos e depois da Abolição, quando muitas crianças foram
tuteladas por famílias ricas que as buscavam, sob pretexto de ensinar uma profissão,
para trabalhar em suas casas. Também por parte das autoridades, havia o procedimento
de encaminhar para reeducação em instituições crianças que viviam nas ruas. Lá,
comumente elas eram treinadas para o serviço doméstico. A prática de encaminhar
crianças para o serviço doméstico também podia partir de suas famílias como estratégia
de sobrevivência das populações pobres. Este foi o caso de Laudelina de Mello,
trabalhadora doméstica e sindicalista que militou pela obtenção de direitos para as
trabalhadoras, obtendo avanços como o Registro em Carteira (Lei nº 5.859/1972).
Usando de sua própria experiência e dos relatos das colegas e sindicalizadas, Laudelina
é nossa fonte para os estudos dos relatos da vivência e dificuldades das trabalhadoras
empregadas na infância.

Uma “preta mina” no Recife: comércio, escravidão e trajetória de Thereza


Afonço, 1720-1767
 Filipe Matheus Marinho de Melo (UFRPE)
Este trabalho tem como principal objetivo discutir a trajetória de uma africana
da Costa da Mina em Recife, Thereza Afonço. As pistas sobre sua vida lançam olhares
mais gerais sobre a presença de africanos do Golfo do Benim em Pernambuco, além de
considerações sobre o comércio que se fazia entre a praça do Recife e os portos da
África Ocidental. Talvez a sua vinda ao Recife tivesse sido fruto das sucessivas guerras
empreendidas pelo reino do Daomé na conhecidíssima Costa dos Escravos, na década
de 1720. Em 1724, o reino de Aladá caiu, sendo saqueado e queimado. Muitos se
refugiaram em Ajudá, reino costeiro, mas não durou até que este caísse em 1727.
Destas guerras, homens e mulheres foram vendidos aos europeus e luso-brasileiros que
mercadejavam naquela costa. Para o contexto deste trabalho, estima-se que entre 1722
e 1731 cerca de 22.220 escravizados desembarcaram no porto do Recife, perfazendo
média anual de 2.220 cativos. Nascida em Aladá, pois se identifica como de nação “arda
da Costa da Mina”, é possível que ela tivesse desembarcado no Recife em fins da década
de 1720 ou início de 1730. Veio ainda jovem, pois antes de sua morte em dezembro de
1767, era de conhecimento que a africana possuía em torno dos 50 ou 60 anos de idade.
Não esteve sozinha, pois veio com seu irmão, Francisco Nunes. Em Recife, Thereza foi
escrava de Antônio Afonço, que concedeu sua alforria mediante pagamento. Em vida,
esteve inserida em irmandades de pretos e acumulou bens: sedas e tecidos de Veneza,
voltas e cordões de ouro e prata, além duas cativas (da Costa da Mina), foram
declarados em testamento aberto de 1763. Casou-se em maio 1767 com Antônio
Moreira Coelho, africano de nação arda da Costa da Mina, como Thereza. A trajetória
da africana e demais sujeitos ligados a ela – vale destacar, todos da Costa da Mina –,
informam sobre a presença dos chamados “pretos minas” em Pernambuco. Diferente do
que por anos acreditou a historiografia, a capitania possuía quantidades significativas
de africanos vindos do Golfo do Benim, além dos de Angola. Pernambuco
comercializava – junto com a Bahia – o famoso tabaco de terceira que era trocado na
África Ocidental por lotes de escravizados. Mesmo sob a Companhia de Comércio
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
68
Pernambuco e Paraíba, pode-se observar o contínuo “resgate” dos minas, ainda que em
razões inferiores aos vindos da África Centro-Ocidental. Segundo relatórios, entre
1759 e 1777, cerca de 7.801 africanos do Golfo do Benim desembarcaram no porto do
Recife. Em Pernambuco, tinham roças de culto onde dançavam e festejavam,
frequentavam irmandades e atuavam no cotidiano ao ganho ou em ofícios diversos.
Portanto, este trabalho não conta apenas a história de uma preta mina no Recife, mas
todo um complexo que ligava as pontas do Atlântico Sul.

Sentidos possíveis de maternidades negras em experiências escravizadas:


construir o olhar de dentro na historiografia
 Bruna Letícia de Oliveira dos Santos (UNISINOS)
Fui motivada a realizar a minha pesquisa de mestrado a partir do
questionamento de como mulheres negras viveram a experiência de ser mulher sob o
julgo da escravização, buscando compreender a relação entre gênero e raça. Fui levada
a tal problemática devido ao meu encontro com a experiência de uma mulher mina-
nagô escravizada, chamada Maria Rita. Este elo de ligação passado-presente se deu
através da leitura de um processo crime, custodiado pelo APERS, de 1850 e referente à
cidade de Rio Pardo. Tal fonte apresenta-se como um lugar de enunciação da mulher-
mãe Maria Rita. Desse modo, algumas frases emblemáticas ditas por esta africana e
guardadas pelo tempo nas páginas envelhecidas do documento ficaram em mim,
movendo-me ao encontro de respostas possíveis para afirmações como: “os homens não
passam pelos trabalhos das fêmeas”. Além disso, o que poderia significar o ato dela ter
vestido as filhas com as melhores roupas que tinham, antes de consumar o infanticídio
de ambas e tentar suicídio, preservando a vida de seu filho mais novo, um menino
homem de nove meses de idade? Patrícia Hill Collins diz que precisamos compreender
as maternidades negras de um modo auto definido. Isto é o que chamo no título desta
proposta de construir o olhar de dentro. Maria Lúcia Mott fez uma provocação às
pesquisas historiográficas realizadas no período, afirmando que retirar a vida dos filhos
nascidos vivos ou praticar abortos era sem dúvida uma forma de resistência, mas
observar estas ações apenas por esta perspectiva era reduzir a questão. Em minha
dissertação, dediquei-me a pensar o corpo das mulheres negras antes da lei do Ventre
Livre como o espaço de reprodução do sistema escravista e lugar onde as estruturas de
poder que alicerçavam tal sistema se interseccionavam. Além disso, propus pensar o
corpo como lugar de exercício de liberdades, o que me levou a buscar os significados
das maternidades escravizadas através do infanticídio com o qual me deparei na fonte
citada. Acredito que problematizar historiograficamente dois infanticídios, uma
tentativa de suicídio e a escolha por preservar a vida do filho estão além do que a
compreensão da realidade objetiva pode explicar. Ainda que o real vivido seja o nosso
objeto, tais fatos também dizem respeito à forma como mães, neste caso específico
Maria Rita, sentiam subjetivamente a maternidade a partir do lugar estrutural que
ocupavam na escravização. O objetivo desta proposta é pensar o infanticídio como uma
das possíveis expressões de maternidade escravizada que tiveram a intenção de alargar
os limites da vida, vivida no corpo munido de sentimentos em cativeiro. Bem como
entender os filhos e filhas nascidos escravizados como extensões físicas e históricas,
diferentes e iguais ao corpo mulher-negra.
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
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SESSÃO 19
ESCRAVIDÃO COLONIAL II
Coordenador e comentarista:
 André Figueiredo Rodrigues (UNESP-Assis)

Políticas e técnicas industriais: aspectos da manufatura do salitre e do ferro


nas capitanias de Minas Gerais e da Bahia (1779- 1812)
 Danilo Moura Monteiro (UNIFESP)
As recentes discussões historiográficas sobre a produção de salitre e de ferro no
Brasil entre finais do século XVIII e meados do XIX têm revelado que, a despeito do
pacto colonial e do edital de dona Maria I que interditava a instalação de manufaturas
na colônia, as mesmas foram incentivadas, especialmente sob as administrações dos
secretários de Estado Luís Pinto de Sousa Coutinho e Dom Rodrigo de Sousa
Coutinho. Ambos desenvolveram políticas de incentivo às manufaturas e promoveram
as viagens filosóficas, com o intuito de localizar recursos naturais que pudessem ser
beneficiados industrialmente. Nessa perspectiva, este estudo busca investigar a
produção de salitre e do ferro nas capitanias de Minas Gerais e da Bahia, tendo como
pano de fundo as políticas econômicas adotadas por Portugal entre os anos de 1779 e
1812. Assim sendo, pretende-se entender o papel das pesquisas dos naturalistas em
Minas Gerais e na Bahia para o exercício da produção efetiva do salitre e do ferro. Em
outras palavras, busca-se compreender a intersecção entre ciência e política de Estado,
no contexto do Iluminismo europeu. Para o desenvolvimento do estudo, de acordo com
o contínuo desvelar da História, a proposta é levantar a discussão à esteira da
bibliografia fundamental e das fontes disponíveis para o período.

As leis de restrições do acesso dos escravizados para as áreas mineradoras


(1701-1711)
 Gilberto dos Santos (USP)
A descoberta de ouro na região centro-sul da América Portuguesa no final do
século XVII incrementou a demanda por escravizados para a colônia, ocasionando um
aumento de desembarque de africanos nos portos do Brasil e a sua redistribuição para o
serviço aurífero. Esse comércio intensificou o fluxo de pessoas para áreas mineradoras
do centro-sul do Brasil e promoveu a formação de redes mercantis para o
abastecimento daquelas áreas. O fluxo de cativos para a mineração logo gerou o
descontentamento dos lavradores e dos senhores de engenhos em virtude do aumento
no preço dos escravizados, pois os comerciantes negreiros preferiam vender os cativos
para os mineradores que pagavam à vista e muitas vezes em ouro, enquanto os homens
envolvidos nos negócios do açúcar os pagavam a prazo ou em promessas baseadas na
safra do ano seguinte. Logo, começaram as reclamações de falta de negros para a
manutenção dos engenhos de açúcar e das lavouras, devido aos preços praticados nas
áreas mineradoras que refletia em toda colônia e ocasionou o desabastecimento de
muitas lavouras e engenhos. Os senhores de engenhos estavam impossibilitados de

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


70
concorrerem com os valores pagos pelos mineradores, pois enfrentavam uma recessão
dos valores dos açúcares, causados sobretudo pela crise geral do século XVII. A Coroa
resolveu agir restringindo o acesso de cativos nas minas de ouro. Em 1701, permitiu
que somente a capitania do Rio de Janeiro abastecesse as áreas mineradoras com
duzentos escravizados por ano e, para garantir que se cumprisse a lei, criou o cargo de
corretor de escravos, cuja atribuição era vender os negros para serviço aurífero e
fiscalizar o cumprimento da cota anual. Em 1702, o Regimento das Minas aumentou a
proibição da entrada de escravizados, como de gado e outras mercadorias para as minas
vindas da Bahia e de Pernambuco. As proibições não eram respeitadas e havia
aumentado o contrabando, com participação de oficiais metropolitanos. Além dos
diversos contrabandos, havia a queixa dos mineradores e dos paulistas pela falta de
mão de obra africana para a exploração, bem como para as lavouras, e ainda continuava
as reclamações dos senhores de engenhos e lavradores da Bahia e Pernambuco em
relação ao alto preço dos escravizados e a falta desses para os seus negócios. Em 1703,
a Coroa instituiu uma cota de importação anual de escravizados para o Rio de Janeiro,
para Pernambuco e para a Bahia, enquanto se mantinha pequeno o limite de
escravizados para reexportação para as Minas Gerais na tentativa de controlar a ida de
cativos para essa região. A lei do sistema de cotas foi letra morta, sendo finalmente
abolido em 1715.

A trajetória de Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas: escravidão e liberdade


em São Paulo colonial
 Luis Gustavo Reis da Silva Lima (UNIFESP)
A partir de 1750, a cidade de São Paulo passou por diversas transformações
econômicas, geográficas e arquitetônicas. As mudanças no corpo paisagístico contaram
com o concurso de centenas de pessoas, muitas delas escravizadas. Entre os edifícios
mais impactados por esse processo estavam as igrejas, que decidiram reformar suas
instalações utilizando um recurso até então escasso na cidade: pedras. Não havia
muitos profissionais gabaritados, numa época em que São Paulo ensaiava retomar seu
crescimento econômico abalado com a debacle das jazidas de ouro nas Minas Gerais.
Um dos profissionais contratados para encampar as obras foi Joaquim Pinto de
Oliveira, mais conhecido pela alcunha Tebas. Oriundo de Santos, onde aprendeu a
técnica de construir emparelhando pedras (cantaria), o escravizado passou a reformar
diversos edifícios. Foi ele quem construiu a fachada da antiga Catedral da Sé, reformou
o Mosteiro de São Bento, a igreja da Ordem Terceira do Carmo e a fonte de São
Francisco. Mas não parou por aí: Tebas reformou a Igreja das Chagas do Seráfico Pai
São Francisco, inspecionou as obras no Quartel de Voluntários Reais e construiu o
primeiro chafariz público de abastecimento de água da cidade: o Chafariz da
Misericórdia, que devido à fama de seu artífice era chamado de “Chafariz do Tebas”.
Após finalizar as obras na antiga Catedral da Sé, Tebas conquistou a liberdade, se
alfabetizou, comprou escravos e se tornou uma figura destacada na São Paulo do século
XVIII. Até hoje suas intervenções podem ser encontradas na paisagem urbana paulista.
Em 29 de abril de 2015, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou a Lei n°
16.190/2015 que estabelece no calendário de eventos da cidade a Festa de Tebas, a ser
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
71
comemorada anualmente no dia 25 de janeiro. No próximo dia 20 de novembro, em
decorrência do Dia da Consciência Negra, a Secretaria Municipal de Cultura entregará
uma estátua em homenagem ao Tebas. A promessa é que o monumento seja
inaugurado dia 5 de dezembro durante a sexta edição da Jornada do Patrimônio –
evento que resgata memórias da capital paulista e que já homenageou Tebas em 2019.
A história de Tebas, alfabetizado enquanto seus proprietários eram analfabetos, que
negociava obras, estipulava valores e prazos com a anuência de seus senhores, que
tempos depois conquistou a liberdade e processou esses mesmos senhores e morreu
com longevos 78 anos é bastante instigante. De cativo a proprietário de escravos,
Tebas deixou suas impressões digitais numa cidade em que a escravidão organizava
todo o corpo social.

Reformismo ilustrado e o status político dos pardos livres na América


ibérica, c. 1750-1808
 Priscila de Lima Souza (USP)
Assoladas pela consciência da posição secundária ocupada no quadro de forças
dos Estados europeus, as monarquias ibéricas colocaram em prática uma série de
reformas ao longo da segunda metade do século XVIII visando à reestruturação da
pujança imperial. Elas foram direcionadas aos campos econômico, político, militar e
social, sendo viabilizadas pelo processo de centralização régia e pela adoção de
princípios do racionalismo ilustrado. Ainda que o reformismo ilustrado conte com um
amplo repertório de interpretações historiográficas, as chamadas reformas sociais ainda
são relativamente pouco exploradas se comparadas às demais. As intervenções
monárquicas nesse âmbito buscavam modificar os princípios de hierarquização entre os
grupos sociais mediante a alteração de seus estatutos jurídicos, tornando-os habilitados
ao exercício de funções sociais de prestígio e ao recebimento de honras e mercês típicas
do Antigo Regime. Esta comunicação tem como objetivo analisar a relação entre as
reformas sociais e a emergência de um campo de debates sobre o estatuto político dos
pardos livres na América. Os espaços abordados são as capitanias da América
portuguesa e regiões escravistas do Caribe espanhol, atentando-se para o fato de que,
nessas sociedades, os descendentes livres de escravos – como eram os pardos –
ocupavam um lugar social inferiorizado, conferido pela condição de inabilitação legal e
por estigmas sociais. Investigam-se particularmente os efeitos do alvará de 16 de
janeiro de 1773 na América portuguesa e das gracias al sacar promulgadas pela
monarquia espanhola em 1795. Aquela habilitou os libertos e seus descendentes em
Portugal, e esta permitiu a compra de cargos e honras, determinando também que os
pardos pudessem adquirir a dispensa das restrições legais a eles impostas. Por meio da
análise dos posicionamentos dos diversos grupos envolvidos com os debates sobre a
condição jurídica dos pardos livres, procurarei demonstrar que o período foi
caracterizado pela crescente politização desse segmento social, a qual se manifestou de
forma radicalizada na passagem para o século XIX, com a emergência de expectativas
quanto à equiparação entre pardos e brancos. Ao fim, sugere-se que as respostas
conferidas pelas monarquias ibéricas ao problema da habilitação dos pardos indicam
alterações e permanências quanto ao ideário da pureza de sangue nos espaços coloniais.
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
72
A hipótese aventada é a de que, no ocaso dos impérios ibéricos, a Coroa portuguesa
reconheceu e promoveu o enfraquecimento dos critérios de pureza de sangue, ao passo
que a Coroa espanhola tendia a conservar o sistema de hierarquização tradicional.

Vicus Juda: redes de comércio judaico na vila de Penedo neerlandês (1637-


1646)
 Robson Williams Barbosa dos Santos (UFAL)
A presença judaica na região de Penedo, cidade do atual estado de Alagoas, faz-
nos concluir que o intenso comércio na região do Rio São Francisco era judaico. O que
nos mostra que os judeus não ficaram restritos apenas ao Recife e que essas
personagens controlavam um intenso comércio do açúcar, de escravos, retalhos,
produtos usuais da terra (fumo, farinha, pau-brasil de mandioca, entre outros) e da
criação de gado naquelas cercanias. Dos engenhos que ali constavam, quatro deles
pertencentes a judeus sefardita que, em terras brasílicas, se movimentavam numa
diversidade de atividades econômicas. A Vila de Penedo teve como catalisador
econômico a fleuma comercial judaica que lá se estabeleceu e dominou toda a região do
São Francisco. Em Penedo, temos a figura do rabino Samuel Israel, da esnoga da vila,
situada aos pés do Forte Maurício. Apesar de não haver mais a edificação física,
podemos recorrer à iconografia do pintor neerlandês Frans Post (1612-1680) e aos
relatórios, que continham registro da ocupação flamenga, enviados a Amsterdã pelos
funcionários da WIC. Samuel Israel era um médio comerciante que fazia o trânsito de
diversos produtos com outros judeus que viviam tanto em Penedo quanto em Porto
Calvo. Alguns desses comerciantes negociavam escravos trazidos de Angola e da
Guiné através dos navios da WIC, como é o caso de João Nunes Velho, Jacob Franco
Mendes e Isaac Baru. Levando-se em conta o que foi observado, o controle do intenso
comércio que havia na Vila de São Francisco de Penedo com outras vilas e regiões
próximas, controladas pelos judeus que lá viviam, nos permite fazer uma reflexão sobre
as diversidades de produtos que chegavam e saíam da região sul de Alagoas e eram
escoadas por judeus e cristãos-novos e o entendimento de que essa vila era vista por
outra mentalidade, mas não a neerlandesa e sim a sefardita.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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SESSÃO 20
IMPRENSA, ESCRAVIDÃO E PÓS-ABOLIÇÃO
Coordenadora e comentarista:
 Denilson Botelho (UNIFESP)

Trabalhadores em fuga: os anúncios e seus fugitivos no sertão oeste mineiro


escravista, século XIX
 Carlos Eduardo Moreira de Araújo (UFU)
Os estudos atuais sobre a escravidão no Brasil em todas as regiões e ambientes
(rurais e urbanos) descortinam a amplitude das fontes documentais, imagéticas e até
mesmo arqueológicas, proporcionando a pulverização do conhecimento sobre a
presença escrava nos mais recônditos lugares do país, demonstrando ser possível
acompanhar a trajetória de libertos e ex-escravizados, aproximando-se de suas práticas
culturais, econômicas, religiosas e sociais construídas, muitas vezes, no período do
cativeiro e preservadas na liberdade. Da mesma forma, os significados da liberdade têm
sido matizados em pesquisas que apontam outras possibilidades para além do
“paradigma paulista” de substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre e
imigrante no período pós-abolição. O objetivo desta comunicação é analisar o cotidiano
e as relações de trabalho entre senhores, escravos, lavradores livres e libertos no
Triângulo Mineiro, conhecido no século XIX como sertão da Farinha Podre, oeste da
província de Minas Gerais, através dos anúncios de fuga de escravos publicados no
periódico Gazeta de Uberaba ao longo da década de 1880. Durante o século XIX, a
região serviu de entreposto comercial e importante ligação entre as províncias de
Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Mato Grosso. A cidade de Uberaba já havia se
consolidado como uma das mais importantes cidades do Brasil central desde a década
de 1870. Com sua produção baseada na agropecuária e na distribuição de mercadorias
oriundas de várias partes do império, a utilização da mão de obra cativa encontrava-se
disseminada na sociedade local até a Abolição em 1888. Conforme aponta a
historiografia local, o padrão de posse de escravos na região se caracterizava pelo
pequeno proprietário (1 a 5 cativos) e com o trabalhador livre ao lado do trabalhador
escravizado na produção. Como uma unidade produtiva com número reduzido de
trabalhadores poderia ser afetada pela fuga dos escravizados? Que táticas foram
utilizadas pelos fugitivos para se manterem o maior tempo possível longe de seus
senhores? Essas questões serão respondidas no cotejamento dos anúncios de fuga com
outros tipos de fontes depositadas nos arquivos da região.

Tradução de poesias abolicionistas britânicas na imprensa lusófona:


prospecção sobre os limites do publicável no Brasil oitocentista (1811-1814)
 Danilo José Zioni Ferretti (UFSJ)
O início do século XIX é caracterizado pela instituição, no Brasil, de uma versão
própria de esfera pública moderna (Habermas, Morel). Esse processo vem marcado pela

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


74
formação de um mercado editorial crescente; a expansão, ainda que restrita a pequena
porção no conjunto da sociedade, de um público leitor e produtor de escritos; da
liberação da palavra pelo fim da censura prévia (a partir de 1821) exceto para o teatro;
de instituições e espaços de sociabilidade letrada; da afirmação da imprensa como vetor
da maioria dessas mudanças. No coração do processo estava a prática de colocar certos
temas, muitos até então preservados pelo segredo do Estado e da Igreja, como questões
de natureza pública e, por isso, sujeitas ao debate racional por sujeitos privados. Muitas
questões até então evitadas, ou tratadas de forma marginal, passaram a ser passíveis de
discussão e debate. Contudo, diferente do que ocorreu na Europa, no Brasil esse
processo teve que lidar com a escravidão como instituição estruturante da economia e
sociedade do conjunto de seu território. Como a escravidão se articulou com a
constituição de uma versão própria de uma esfera pública moderna é a questão de
fundo que orienta a pesquisa maior de onde sai essa apresentação. Mais
especificamente, aqui procuro compreender os limites dessa esfera pública no que toca
ao tema da escravidão. O que era então publicável sobre a escravidão? Quais as
possibilidades de tratar publicamente de questão tão explosiva por si só, pelas
constantes ações de resistência pelos próprios escravizados, ainda mais em um
contexto de ascensão internacional de movimentos abolicionistas? Para tanto me
concentrarei no estudo da forma como a escravidão aparecia em dois dos vetores desse
processo: a imprensa e a literatura, precisamente na literatura publicada na imprensa,
momento de sua maior exposição pública. Pretendo, nesta abordagem preliminar, como
uma prospecção, me concentrar na análise de um evento. Concentrei-me no caso
daquela que provavelmente é a experiência pioneira de publicação de literatura sobre
escravidão, ainda mais sob a perspectiva abolicionista, pelo jornal O Investigador
Português em Inglaterra, em 1811, e a explicitação de uma modalidade de tentativa de
controle de manifestação pública sobre o cativeiro, realizada por Hipólito da Costa, em
1814. Por elas podemos avaliar tanto um esforço pioneiro de publicização da
escravidão, quanto o papel conferido à literatura e aos mecanismos de controle
mobilizados quando se davam os primeiros passos da constituição de nossa moderna
esfera pública.

Imprensa negra e ensino de História: o debate sobre a questão racial em São


Paulo na Primeira República
 Francilene de Souza Tavares (UNIFESP)
As ações dos cônsules Moreira estiveram permeadas por conflitos; enfrentaram
diversas acusações ao longo dos anos. A estratégia de escrever panfletos, conseguir
representações de apoio, configurava uma guerra de informação e contrainformação: de
negreiro a benemérito cidadão, cioso dos interesses da pátria. A Associação Comercial
do Porto publicou mais de uma vez na imprensa declarações de apoio ao Barão de
Moreira. João Moreira era atuante na Sociedade Portuguesa de Beneficência, além de
comandar um dos importantes salões do Segundo Reinado no Rio de Janeiro, os bailes
que promovia eram concorridos. Mesmo que fossem muitas as acusações da atuação
ilegal dos Moreira, foram mantidos na representação diplomática por décadas; não
caíram pelo envolvimento com o tráfico de escravos, esse foi celebrado por uns,
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
75
tolerado por outros. Uma revolta popular, no entanto, teve importante papel na queda
do Comendador Moreira, cônsul geral de Portugal no Brasil durante várias décadas.

Escola Noturna “O Exemplo” instrução e educação de trabalhadores no pós-


Abolição, Porto Alegre/RS
 Melina Kleinert Perussatto (UFRGS)
Na presente comunicação pretendemos refletir sobre o projeto de escolarização
noturna defendido pelo jornal O Exemplo de Porto Alegre, em 1902, com o objetivo de
apreender sentidos, disputas e conflitos em torno da instrução e educação de
trabalhadores no pós-abolição. Problematizamos como os mecanismos racializados
gestados no processo político da Abolição, que se amalgamou ao projeto vitorioso de
república, impactaram sobre a população negra e como, de outra parte, setores negros
instruídos, como era o caso da imprensa negra, manejaram a instrução e a educação na
tessitura de possibilidades de, não sem conflitos e tensões, superar a raça e o racismo
em prol de outro projeto de sociedade. A despeito de não ter saído das páginas do
jornal, o projeto de escolarização noturna explicita articulações entre raça, classe,
gênero e idade na produção de desigualdades e na construção de lutas políticas no pós-
abolição. Especificamente, revela uma tentativa de materialização de ideias diaspóricas
antirracistas, especialmente a partir do diálogo direto com a história de vida do
educador estadunidense Booker T. Washington; diálogos e tensões com o Estado e
com o movimento operário nas definições sobre o trabalhador livre e nas lutas por
melhores condições de vida, trabalho e instrução; as intersecções de marcadores sociais
nas definições polissêmicas de instrução e da educação; a tentativa de mulheres se
somarem e assumirem a frente de projetos educacionais; os conflitos entre expectativas
e necessidades no interior do grupo sociorracial. Permite, ainda, um diálogo com o
processo emancipacionista, uma vez que no regulamento lastimou-se o fechamento do
único curso noturno para trabalhadores existente na capital, fundado em 1876, que
admitia a frequência de libertos e ingênuos. A escolarização noturna articula-se aos
processos políticos que culminaram na Abolição e na República, expressando, por um
lado, tentativas de rearranjo das políticas de dominação de classe e, por outro,
possibilidades de lutas políticas por sujeitos racializados. Com fronteiras cada vez mais
difusas, os sentidos de instrução e educação em O Exemplo se forjaram na tensão com
os sentidos atribuídos pelo Estado, sobretudo na concretização e no cotidiano da
instrução pública. Era necessário disputar e alterar a cultura escolar que, tal como a
sociedade, reproduzia o racismo, repelindo as crianças negras de seus bancos. Mais que
isso, depois de muitas denúncias, tornou-se imperativo tomar a frente e pautar projetos
educacionais. Por isso, o projeto de escola noturna pode ainda ser compreendido como
forma de controle sobre o tempo livre de crianças e de trabalhadores, visando, dentre
outras coisas, uma formação para a emancipação em detrimento do embrutecimento, da
alienação e do racismo.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


76
12/05/2021 – 18h-20h
Painéis de graduação

Mesa 1
(Mediação: Renata Ribeiro Francisco/UNIFESP)
 Álvaro Huber de Souza, Andressa Pastore e Camila Martins (UFSC), A
escravização ilegal observada por meio de processos judiciais (Brasil, século XIX)
 Bolají Alves Matos de Paula Xavier (UNESP-Assis), Sociabilidade e ativismo: um
estudo do cotidiano dos afrodescendentes nas primeiras décadas do pós-Abolição (1900-
1920)
 Heitor Abreu Ferreira (UFRPE), Têxteis, tabaco e cativos: mapeando a circulação
de mercadorias no comércio escravista do Atlântico sul
 Jonas de Luca Trindade da Silva (UFRPE), A Caserna Negra do Norte:
recrutamento dos libertos paraenses para a guerra contra o Paraguai (1866-1869)
 Júlia Gusmini (UNESP-Franca), O problema dos filhos de africanos livres na
Fábrica de Ferro de São João de Ipanema

Mesa 2
(Mediação: Rafael Domingos Oliveira da Silva/USP)
 Aislan Soares Viçosa e Maria Eduarda Albuquerque Mendez (UFSM), A ideia
de África e do negro no Brasil: o que construiu essa ideia?
 Alexandra Helena Batista da Silva (UFBA), Memórias da escravidão e resistência
no cinema e em outros meios: estudo comparativo em torno de imagens dos navios
negreiros
 Fernando Antonio Uchôa Fonseca (UFPE), Interfaces entre História e Cinema:
representações de escravizados(as) no filme Vazante
 Iago Fernando Duarte Cerbino (UNAMA), Desafios para a aplicabilidade da Lei
10.639/03 no ensino fundamental II em uma escola no município de Belém
 Mariana Teles da Silva (UNESP-Assis), Mulheres negras nos periódicos negros:
relações de trabalho e sociabilidade na cidade de São Paulo, 1899-1926

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


77
13/05/2021 – 9h-11h
Comunicações coordenadas (Mesas 21 a 24)

SESSÃO 21
TERRA E TRABALHO II
Coordenadora e comentarista:
Carmen M. Oliveira Alveal (UFRN)

Laborando a terra: relações de trabalho e direitos de propriedade no Vale do


Paraíba fluminense (1879-1916)
 Felipe de Melo Alvarenga (UFF)
Esta pesquisa procura analisar as principais transformações relacionadas ao
acesso à terra e às relações de trabalho no Vale do Paraíba fluminense na virada do
século XIX para o século XX. A partir de ampla documentação judicial alocada nos
acervos locais e nos arquivos do Judiciário do Rio de Janeiro, buscaremos compreender
quais foram os principais conflitos em torno dos direitos de propriedade entre o ano de
1879, quando foi promulgada a Lei de Locação de Serviços, que se configurou como o
primeiro código rural de regulamentação das relações de trabalho envolvendo
nacionais e imigrantes nas zonas rurais do Império do Brasil, até o ano de 1916,
quando foi promulgado o primeiro Código Civil do país já no período republicano. Esta
investigação se concentrará nos municípios de Piraí, Valença e Vassouras, localizados
na parte ocidental do Vale do Paraíba fluminense, em vista do quadro semelhante de
crise produtiva e populacional que se abateu sobre estes municípios no período
considerado; além do fato de que as três localidades contam hoje com um acervo
arquivístico e com potencial para novas pesquisas históricas na área de História Social.
Estreitando os laços entre a História Social da Propriedade e a História Social do
Trabalho, esta pesquisa pretende compreender como a modificação dos contratos de
trabalho efetivada entre proprietários e trabalhadores rurais acabou refletindo-se
também na (re)configuração dos direitos de propriedade exercidos nas fazendas de café
fluminenses entre o final do século XIX e início do século XX.

“Uma fazenda é um pequeno reino”: o Manual do Agricultor Brasileiro,


jurisdição senhorial e controle penal no Brasil do século XIX
 Mario Davi Barbosa (UFSC)
Em 1839 é publicado o Manual do Agricultor Brasileiro, obra de Carlos Augusto
Taunay, que pretendia ser um guia para o empreendedor brasileiro oitocentista, com
importantes dicas e informações sobre culturas relevantes para a agricultura e a gestão
de uma fazenda próspera. Um dos pontos de destaque da obra é a discussão sobre a
escravidão e as técnicas de disciplinamento dos escravos, ponto este que colocamos em
destaque para a pesquisa. Taunay debate abertamente sobre a abolição do tráfico
negreiro ocorrida legalmente oito anos antes, dando ênfase para a importância desta
mão de obra, apesar dos auspícios liberais que procurou enfatizar. Além disso, de forma

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


78
não direta, dialoga com o processo de codificação criminal do Império (1830 e 1832),
alertando para a necessidade de lei geral que regulasse os castigos escravistas, o que
livraria os senhores do peso de seu ônus de legislar em seu espaço particular. Nas
entrelinhas do texto de Taunay, se percebe também o debate sobre a necessidade de se
resguardar o espaço de poder dos senhores escravistas, poder este delimitado no
âmbito do conceito de casa do Antigo Regime lusitano, cujas rupturas deste período
não foram capazes de superar. O foco da pesquisa será dado a partir da noção de “o
penal”, como manifestação da punição para além dos limites do Estado, abrindo mão do
conceito de direito penal vislumbrando também na jurisdição senhorial a manifestação
de uma esfera de punição, capaz de ir além do mero conceito de violência, ou seja, o
senhor de escravo possuía prerrogativas jurídicas de estabelecer penas e fazer cumprir
sua sentença no âmbito de fazenda. Este poder de castigar foi fundamental para a
implementação e manutenção da produção em todo o período colonial, sobrevivendo de
forma vigorosa até a abolição da escravatura. Dialogando com estudos da história
social e da história do direito, pretendemos apontar nesta obra uma via de compreensão
de representação de uma crise maior, que diz respeito sobre o apogeu e o declínio deste
poder jurisdicional dos senhores escravistas, num cenário de extremas modificações
sociais brasileiras, cenário este somente possível com a interação entre os interesses
públicos do Estado e os interesses privados das elites agrárias, a despeito da aberta
ilegalidade do processo escravista desde 1831. Na conclusão de seu manual, Taunay
aponta o limite entre o poder estatal e suas leis gerais, ante um cenário social
estratificado e desigual, onde o lugar de cada um deveria ser delimitado, sobretudo o
espaço de poder e mando senhorial que dava sustentação aquele modelo de Estado:
“Uma fazenda é um pequeno reino”.

Terra, família e escravidão: a escravidão nas datas em terra de São José do


Taquari, 1765-1802
 Sandra Michele Roth Eckhardt (UFSM)
Nessa comunicação queremos demonstrar alguns apontamentos sobre a
escravidão em uma comunidade de pequenos produtores rurais, ao sul da América
portuguesa, ao final do século XVIII. Para tanto, a intrínseca relação entre o acesso a
terra, as estratégias familiares e suas relações com a escravidão nos guiou na pesquisa
sobre a estrutura de posse cativa na freguesia de São José do Taquari. A freguesia teve
sua origem marcada, profundamente, pela acomodação de migrantes açorianos e seus
descendentes e a estrutura agrária oriunda desse movimento foi a pequena propriedade
rural, focada na produção de alimentos e a pequena criação de animais, perfil comum
aos lavradores do Rio Grande de São Pedro. A freguesia se caracteriza como um espaço
colonial de pequenos produtores livres dedicados ao abastecimento do mercado
interno, que mesmo tendo como base a mão-de-obra familiar, buscou, quando possível,
se inserir nas rotas do comércio de pessoas escravizadas e complementar o repertório
de trabalhadores com cativos africanos e crioulos. Em Taquari, ao final do século
XVIII, não havia grandes fazendas e escravarias de grandes posses, mas sim
proprietários de datas de terra, agregados e chacareiros, que muitas vezes nem
possuíam a posse legal da terra, portanto essa estrutura em si só aponta para um perfil
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
79
de pequenas escravarias. A investigação sobre a presença de trabalhadores escravizados
entre os pequenos produtores de Taquari exigiu o exame de fontes variadas e intensos
cruzamentos de informações. Para tanto, recorremos aos registros paroquiais da capela
de São José do Taquari, que, felizmente, referiram o status jurídico dos sujeitos
escravizados envolvidos nos ritos do batismo e casamento. Além, desses também
utilizamos os mapas populacionais da freguesia, referentes aos anos de 1780 e 1798, e
cruzamos suas informações com as dos registros paroquiais. A partir desse cruzamento,
constatamos que a população cativa presente na freguesia compunha entre 16% e 30%
do total da população, ao final do século XVIII. A estrutura de posse verificada foi de
escravarias com até 10 cativos, sendo que dentre essa predominaram as escravarias de
até 4 escravizados. Em relação aos dos produtores que mais acessaram essa mão-de-
obra constatamos que eram, majoritariamente, proprietários de uma data de terra e que
não consentiam relações de agregamento familiar, prática amplamente difundia na
freguesia. Assim, a partir das análises realizadas, concluímos que a escravidão, em
Taquari, compunha uma estratégia familiar de ampliação do número de trabalhadores
das pequenas unidades produtivas dedicadas ao cultivo de lavouras.

Escravos e trabalhadores “voluntários” na sesmaria Victoria: Bahia, 1874-


1893
 Victor Santos Gonçalves (UFRRJ)
Esta proposta visa apresentar as ocupações e ofícios das famílias libertas e dos
trabalhadores voluntários da fazenda Victoria, entre 1874-1893. A fazenda Victoria
ficava localizada no município de Ilhéus, província da Bahia. Importa investigarmos
como aquelas famílias libertas conseguiam amealhar pecúlio para compra de alforrias.
Analisaremos como eram realizados os acordos envolvendo a família senhorial Steiger
e os trabalhadores voluntários da plantation Victoria nas duas últimas décadas da
Abolição. Utilizaremos como fontes o Livro de matrícula de escravos da Junta
Classificatória de Ilhéus (1874-1886), 21 cartas (1870-1887) pessoais da família Steiger.
Investigaremos ainda uma pequena biografia (1893) sobre o barão Steiger e um
relatório administrativo da plantation Victoria de 1893. Por fim, examinaremos os
relatos do viajante Maximilian von Habsburg na obra Mato Virgem. O autor visitou a
fazenda Victoria em janeiro de 1860 e, deixou registrado em seu livro suas impressões
sobre a composição social, rotina e costumes dos trabalhadores daquela fazenda. A
fazenda Victoria teve sua escravaria montada por volta de 1856-1857. Nesse período, a
fazenda tinha por volta de 120 escravos. Todavia, já nas décadas de 1870 e 1880, havia
naquela propriedade uma escravaria composta por 29 homens, 60 mulheres, 3 idosos,
54 crianças escravas e 58 ingênuos. Isso representava um total de 204 trabalhadores.
As crianças escravas e ingênuas representavam 112 trabalhadores, ou seja, 54,9% do
total da mão de obra organizada nesta amostragem. As mulheres em idade adulta
abaixo de 50 anos representavam 29% daquela escravaria. Portanto, a escravaria da
plantation Victoria era majoritariamente constituída de mulheres em idade produtiva e
crianças escravas e ingênuas que trabalhavam, especialmente nas lavouras de cana, café
e cacau. O plano maior da família Steiger era renovar essa escravaria ao longo das duas
últimas décadas da Abolição. Ou seja, interessava aos senhores transformar as famílias
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
80
libertas – compreenda-se aqui, as mães escravas/libertas com seus filhos escravos e
ingênuos – em “trabalhadores voluntários”. Enfim, a família Steiger tentou de diversas
formas conciliar trabalho da escravaria da fazenda Victoria, com outros tipos de mão de
obra. A esperança dos Steiger era no contexto de decadência da Abolição, conseguir
encontrar novas formas de exploração da mão de obra de mulheres, crianças
escravizadas e tutoriadas.

Relações senhoriais ressignificadas: o caso da família Baptista da Silva (1849-


1896)
 Vitor da Silva Costa (UNISINOS)
Partindo do campo do pós-Abolição, sobretudo a partir dos estudos de
trajetórias negras individuais e coletivas, esta análise busca enfatizar alguns aspectos
das experiências sociais da família Baptista da Silva na cidade de Porto Alegre (RS).
Durante a dissertação, busquei salientar as práticas de sociabilidades desenvolvidas
pelos membros dessa família, ações que contemplavam atividades correspondentes às
áreas temáticas do pós-Abolição (imprensa negra, irmandades religiosas, funcionalismo
público e militarismo). Porém, as características da formação familiar fomentaram
análises e incursões referentes à experiência social desses sujeitos durante a escravidão
e suas relações com a família senhorial. Este último ponto diz respeito à proposta deste
trabalho, com o intuito de investigar as relações entre senhores e escravizados,
tomando como aspecto norteador o pós-Abolição, em específico as problematizações
acerca da relação evidenciada entre membros da família Baptista da Silva e seu ex-
senhor. A principal fonte que possibilita realizar tais questionamentos é o testamento
do ex-senhor, datado de 1896. A partir desse ponto e dos documentos já levantados
sobre a família Baptista da Silva, pretendo ampliar o entendimento ligado às dinâmicas
existentes entre esses dois grupos, e os impactos dessas relações na construção da
liberdade e autonomia desta família negra e em suas gerações futuras.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


81
13/05/2021 - 9h - 11h
SESSÃO 22
GÊNERO E TRABALHO III
Coordenador e comentarista:
 Fabiane Popinigis (UFRRJ)

“Por ser mulher de cor”: relações de gênero e de raça na cidade de São Paulo
(década de 1860)
 Caroline da Silva Mariano (USP)
Uma abordagem que evidencie o cotidiano pode ser profícua no sentido de
desvelar perspectivas das categorias de raça e de gênero, contextualizando-as em um
tempo e espaço específicos. Ao propor uma historicização destes conceitos analíticos a
partir de aspectos concretos da experiência dos sujeitos, é possível afastar-se de
discursos totalizantes e universais, apreendendo elementos parciais e informais da vida
social, os quais distam do normativo. Para tanto, no presente trabalho, os processos
criminais são cruciais: ainda que tenham função específica dentro do aparelho estatal –
a de controle e repressão –, uma leitura nas entrelinhas do documento permite, por um
lado, captar fragmentos do cotidiano dos envolvidos nos crimes e contravenções e, por
outro, sistematizar as visões que as elites desenvolveram sobre práticas de moradia,
trabalho e sociabilidade específicas dos setores alijados do poder político e econômico –
estes, muitas vezes, egressos do cativeiro. De modo a discutir a dimensão relacional das
categorias de gênero e raça na cidade de São Paulo da década de 1860, nos
aproximaremos de um vislumbre da trajetória de três mulheres: Jacintha Maria de
Jezus, recolhida à cadeia municipal em 1864 por suspeita de escrava fugida; Escolástica
Maria da Conceição, parda, incursa no artigo 264 do Código Criminal de 1830 e
acusada de furtar um alfinete de brilhante de Dona Joanna Alexandrina de Carvalho; e
Maria Luiza, preta crioula presa em flagrante por furtar um tacho de cobre de Antônio
Pinto de Souza. Quais relações – de poder, de conflito e de solidariedade – estas
mulheres construíram com outros homens e mulheres, brancos e negros, nacionais e
estrangeiros?

Maternidade e escravidão nas plantations cafeeiras do Vale do Paraíba


 Mariana de Aguiar Ferreira Muaze (UNIRIO)
Esta apresentação parte do princípio de que as vivências e experiências de
homens e mulheres escravizados foram distintas e que o gênero foi um fator
determinante desta diferença nos regimes escravistas do Mundo Atlântico, em especial,
no Brasil Império. Assim, enquanto as mulheres escravas eram vistas como produtoras
e reprodutoras do sistema escravista, já que o status da mãe determinava o do filho; aos
homens eram dificultados os vínculos paternos, a formação de domicílios com a
transmissão de nome, para mantê-los sobre o pátrio poder dos senhores e diminui-los
em relação ao ideal de masculinidade vigente (Palmer, 2016). Em quaisquer dos
aspectos, em última instância, ambos eram encarados como produtores de riquezas.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


82
Portanto, pretende-se demonstrar que, no contexto das grandes propriedades
cafeicultoras do Vale do Paraíba Fluminense, apesar das diferentes tentativas de
controlar a produção e a reprodução femininas, as mulheres escravizadas resistiram
apoiadas em laços familiares ou tecidos no interior de suas “vizinhanças escravas”. A
reflexão proposta se subdivide em três pontos integrados. Primeiro, apresenta a
dinâmica escravista do Vale do Paraíba Fluminense enfatizando a formação de famílias
e de vizinhanças escravas nos grandes complexos cafeeiros. Segundo, analisa o discurso
dos manuais de administração de fazenda em relação às mulheres escravizadas e como
as regras dos mesmos eram ou não vivenciadas na prática cotidiana, ressaltando o
papel da resistência feminina neste pêndulo de forças. Terceiro, estuda dois processos
crime em que mães escravas estiveram envolvidas para analisar como seu "papel de
mãe" foi descrito pelos outros escravizados, pelos senhores e pelos agentes do Estado,
através do poder judiciário. Comparando os casos com outras ações cíveis e criminais,
demonstra-se as disputas de discursos em relação às mulheres escravizadas e seus
direitos ao exercício da maternidade.

“As criadas também tem outras vidas em suas mãos: a vida moral dos que as
cercam”: mulheres afrodescendentes e o serviço doméstico (Belo Horizonte,
1897-1930)
 Marileide Lázara Cassoli (UFJF)
O objetivo norteador desta pesquisa é investigar as relações entre o trabalho
doméstico de mulheres afrodescendentes e as “práticas pedagógicas” definidas pelas
elites dirigentes em diferentes instâncias de poder, visando a formação feminina para os
papéis de mãe, esposa e trabalhadora em Belo Horizonte nos anos de 1897 a 1930.
Nesse microcosmo, representado pela cidade em seus primórdios, adultos, jovens e
crianças eram objetos de uma “educação” que extrapolava os muros escolares e tinha
entre os seus objetivos civilizar e despertar o senso de urbanidade, a cortesia, e bom
termo, os estilos de gente civilizada, e polida. Suas vivências e estratégias nesse
“campo de batalhas” podem desvelar o quanto, efetivamente, o projeto
civilizador/modernizador/educador pensado pelas elites dirigentes impactava o
cotidiano destes atores sociais, os seus “amotinamentos” ou suas estratégias de
sobrevivência ou adesão aos ditames da modernidade. Iniciamos nossa investigação por
meio dos autos de corpo de delito por defloramento nos quais se encontravam
envolvidas mulheres afrodescendentes e que se dedicavam ao trabalho doméstico. A
análise deste corpo documental, cruzado a outros, tais como, relatórios da chefia de
Polícia, atas da Conferência Católica Feminina e a legislação regulamentadora do
serviço doméstico, ensejou vislumbrar as relações de trabalho, familiares e pessoais nas
quais estas mulheres encontravam-se inseridas, no contexto de formação de um
mercado de trabalho livre no Brasil, evidenciando, as suas estratégias de autonomia e
suas conexões com outros espaços e atores sociais, frente ao projeto de controle de seus
corpos e comportamentos intencionado pelo Estado republicano.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


83
Uma análise dos discursos de mulheres forras nos estudos de compadrio
 Rachel dos Santos Marques (IF Farroupilha)
O texto cuja proposta de apresentação aqui se coloca é um fruto inesperado de
uma pesquisa em andamento que busca analisar as linhagens teóricas dos estudos de
compadrio do Brasil escravista. Até o momento a base de dados criada para esse fim
possui 316 textos referentes ao período que estão sendo fichados para análise. Nesse
processo, surgiram questões não tão relacionadas com a problemática original, mas que
se tornaram gritantes na medida em que as análises começaram a ser feitas, como a que
segue. Um elemento enfatizado nos estudos de compadrio é o fato de que seguidamente
mulheres libertas possuem compadres de status social aparentemente mais elevado do
que as mulheres escravizadas e, mesmo que a maioria das mulheres livres, pois
possuem mais compadres que carregam patentes e títulos junto ao nome. Embora essa
associação entre título e status precise ser qualificada, parece claro que existe uma
complexidade das redes de relacionamento dessas mulheres que não condiz com os
preconceitos existentes a respeito de sua situação social. Ao invés de investir no estudo
dessa complexidade, no entanto, há trabalhos que justificam esse dado simplesmente
presumindo relacionamentos sexuais prévios entre essas mulheres e seus compadres (o
que contraria frontalmente os impedimentos impostos pelo laço). Tal suposição pode
ser válida como uma hipótese possível para alguns dos casos. No entanto, o que se vê é
a utilização dessa hipótese – que em nenhum dos casos veio baseada em qualquer
indício empírico, ou mesmo em base teórica – apresentada como resposta, sem que
sejam sequer aventadas outras hipóteses. Há, inclusive, textos que afirmam que muitas
das mulheres alforriadas poderiam mesmo desconhecer quem seriam os pais de seus
filhos – afirmação que, novamente, não vem acompanhada de indício empírico. Ao se
observar as construções discursivas desses textos, pode-se fazer a leitura de que, diante
da ausência de confirmação empírica, a utilização exclusiva da hipótese apresentada
representa, de fato, uma face do racismo e do machismo estruturais da sociedade
brasileira, os quais seguidamente sexualizam as mulheres negras em suas
pressuposições. Além de prejudicial pelos motivos óbvios, esse tipo de abordagem deixa
de colocar novas perguntas aos indícios do passado, que poderiam nos levar a uma
compreensão mais aprofundada das sociedades estudadas. Diante da percepção do que
foi aqui exposto, pretende-se comunicar mais a respeito dessas construções discursivas,
problematizando-as, e apresentando outras hipóteses de análise para os mesmos
fenômenos que as construções descrevem.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


84
13/05/2021 - 9h - 11h
SESSÃO 23
REDES DE SOCIABILIDADE II
Coordenador e comentarista:
 Waldomiro Lourenço da Silva Jr. (UFSC)

Uma milícia de pardos se forma na capital: história, perfis e conflitos no


Regimento de Homens Pardos do Rio de Janeiro em finais do século XVIII
 Adriana Barreto de Souza (UFRRJ)
O objetivo dessa comunicação é recompor a história de criação do Regimento de
Homens Pardos do Rio de Janeiro e apresentar os resultados de um primeiro esforço de
sistematização do perfil de seus oficiais e soldados. Trata-se de um perfil ainda
limitado, realizado a partir de dados dispersos nas petições por eles enviadas à Coroa
portuguesa, solicitando promoções e acesso aos postos superiores do regimento. Os
regimentos de pardos – até 1796 formalmente denominados terços – foram criações da
década de 1770, ligadas à escalada militar imposta pelos conflitos com a Espanha e que
resultaram nas guerras de 1762 e 1776. Nesse contexto, os terços de pretos e pardos
passaram por uma reestruturação, se difundindo pela América portuguesa. Por carta
régia de 22 de março de 1766, a Coroa determinou que fossem alistados “todos os
moradores (...) sem exceção de nobres, plebeus, brancos, mestiços, pretos, ingênuos e
libertos”. Os terços então criados – segundo a carta – deveriam ser disciplinados por
um sargento-mor (atual major) do Exército. Todavia, pouco mais de um ano depois,
por meio de um aviso de 30 de maio de 1767, a Coroa reavaliou sua decisão, definindo
que sargentos-mores e ajudantes fossem recrutados entre oficiais dos próprios
regimentos e que recebessem “o mesmo soldo, graduação e honras que tinham os de
outros regimentos”. Política que afirmava certa igualdade entre pretos, pardos e
brancos. Os novos terços (depois, regimentos) também refletiam o expressivo
crescimento da população de pardos, pessoas livres de ascendência africana, nas cidades
coloniais. O avanço da atividade mineradora na região das Minas Gerais em fins do
século XVII e a transferência da capital para o Rio de Janeiro em 1763 intensificou o
tráfico de escravos para esta região, movimento que se ampliaria ainda mais nos anos
subsequentes, face à expansão das lavouras de café pela região norte fluminense. O Rio
de Janeiro, ao final do século XVIII era, portanto, uma cidade negra, fosse pela
presença de escravizados, fosse de livres e libertos. O engajamento nas “milícias de
homens de cor” – como eram chamados à época os regimentos de pardos e pretos – era
uma boa forma destes últimos se distinguirem nessa sociedade e, servindo com
dedicação à Coroa, exercerem certa pressão em busca de mecanismos de inserção social.
Nesse sentido, para além das necessidades militares da Coroa portuguesa, as cartas
régias da década de 1760 foram ao encontro dessas demandas, estimulando a
organização de milícias de “homens de cor”. Atualmente, já dispomos de algumas
ótimas pesquisas sobre essas milícias. Mas, no caso do Rio de Janeiro, o tema só conta
com uma dissertação de mestrado e, ainda assim, sobre a milícia de pretos, ou seja, os
Henriques. É para essa lacuna que este trabalho se volta, procurando contar uma
história da criação do regimento de homens pardos do Rio de janeiro e traçar um
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
85
esboço do perfil desses homens que, ao engajarem suas vidas e cabedais no regimento,
começaram a exigir também direitos.

Entre a Abolição da escravidão e o Quebra de Xangô: cultura e sociabilidade


negra em Maceió (1880-1910)
 Danilo Luiz Marques (UFAL)
Esta pesquisa pretende contribuir para o debate da história social da escravidão
e do pós-abolição em Alagoas, atento aos processos de emancipação e às lutas por
liberdade e cidadania anteriores e posteriores ao 13 de maio de 1888. Será dado
destaque ao papel que pessoas escravizadas, libertas e “livres de cor” desempenharam
na conjuntura de desestabilização da instituição escrava, através de suas trajetórias
individuais e/ou coletivas. Objetiva-se aprofundar as discussões sobre os significados
da liberdade, abolicionismos e lutas por direitos e conquistas de lugares sociais antes e
depois da assinatura da Lei Áurea. Na década da abolição, a cidade de Maceió estava
repleta de “territórios negros”, a exemplo de regiões com nomes advindos de
expressões bantas como Mutange e Cambona, além de Bebedouro, Levada e Ipioca. A
pobreza e a miséria eram grandes, a sociedade escravista, em crise, acentuava suas
tendências à discriminação e a marginalização da população liberta. No que tange à
questão da racialização no Brasil, a atmosfera era tensa, e isso não mudaria
imediatamente após a abolição. O anúncio do 13 de maio deixou muitos membros das
camadas abastadas em polvorosos e trouxe incertezas acerca das consequências sociais
que viriam. Estavam preocupados com a preservação da propriedade e da condição
senhorial. Assim, tinha-se como principal intento fazer transbordar para a sociedade no
pós-abolição as regras sociais que balizavam o mundo escravista. Nessa perspectiva, o
fim da escravidão não simbolizou para a população negra o acesso direto à cidadania,
tiveram de implementar outras lutas, sobremaneira acerca da repressão às suas práticas
religiosas e culturais, como no episódio do Quebra de Xangô, em 1912, quando uma
liga civil armada invadiu terreiros em Maceió e espancou seus praticantes, chegando a
assassinar a yalorixá Tia Marcelina. A grande quantidade de “indivíduos de cor” e tidos
como desocupados, era “cada vez mais comum no cenário urbano das cidades
brasileiras ao longo do século XIX e início do século XX. Em busca da sobrevivência, a
maioria desses sujeitos históricos passavam seu tempo em longas conversas nas ruas,
jogando, bebendo, e também mendigando. Esses homens e mulheres foram vistos pelas
elites locais como “perniciosos”, vagabundos e desordeiros.

A construção da norma: sociabilidades e resistências nas irmandades de


homens pretos (Vale do Paraíba, século XIX)
 Fábia Barbosa Ribeiro (UNILAB/UNIFESP)
As irmandades constituídas pelos chamados “homens pretos” têm um campo de
pesquisa bastante consolidado. Estudos sistemáticos demonstram que elas floresceram
de norte a sul do Brasil, cercadas pela vigilância do poder eclesiástico e das autoridades
civis. Não obstante, nos interstícios da sociedade escravista, essas confrarias se
transformariam em espaços sui generis de organização da população escravizada,
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
86
através dos quais puderam sedimentar identidades construídas no contexto da
diáspora, tecer sociabilidades e produzir formas múltiplas de resistência e proteção. O
processo de constituição dessas irmandades assegurou aos historiadores uma variada
gama de fontes: livros de registros de entradas, de atas, despesas e, entre outros, os
seus compromissos, documentos fundantes dessas associações. Nesses documentos
reside a “construção da norma”, apontada por Mariza Carvalho, que deveria nortear a
existência dessas confrarias e, oficialmente, “controlar” os seus membros. Todavia, em
seu bojo, subjaz a estratégica movimentação de mulheres e homens negros que
habilmente se utilizaram das estruturas existentes para suportar e combater as agruras
de um sistema violento e opressor. No Vale do Paraíba paulista, foco de nossa
comunicação, encontramos irmandades constituídas entre os primórdios do século
XVIII, quando a região ainda sentia os impactos da influência mineira e o decorrer do
século XIX, momento de florescimento da lavoura cafeeira e de intenso afluxo de
africanos e africanas escravizados. É nesse contexto que iremos ao encontro da
Irmandade de São Benedito dos Pretos Cativos de Guaratinguetá e da Irmandade dos
Pretos do Rosário do Bananal. A partir das fontes deixadas por essas duas confrarias
foi possível captar, entre outras coisas, as tentativas de composição de quadros
administrativos eminentemente negros, a compra de alforria de irmãos e irmãs
escravizados, as disputas pela primazia em cortejos de populares festas religiosas e,
ainda, vislumbrar as complexas e tensas relações sociais que fizeram parte da
constituição do Brasil, que passavam muito ao largo da superada dicotomia senhores
versus escravos e que nos ajudam a compreender as bases do racismo estrutural que
alicerça, ainda hoje, a nossa sociedade.

Resistências e lutas por direitos: a extinção das milícias segregadas por cor
na imprensa e no parlamento (1830-1834)
 Maria Clara Aredes de Figueiredo (UFRRJ)
A pesquisa busca, através da imprensa e das discussões parlamentares, analisar
o processo de extinção das milícias segregadas por cor no Rio de Janeiro, ocorrido em
1831, que se deu em virtude da Lei de criação da Guarda Nacional, por meio das
discussões que surgem nos periódicos cariocas e nos meios políticos no período de 1830
a 1834. O período anterior à abdicação de d. Pedro I foi uma época de efervescência
política, quando grupos políticos, com diferentes projetos de governo, buscavam espaço
no desenvolvimento do Império brasileiro, nos processos que levaram à Abdicação e ao
período regencial (1831-1840). Momento em que diversos grupos sociais estavam na
busca pela construção de um modelo de Império e de cidadania, cada qual com suas
próprias demandas e reivindicações. Com moderados no poder, tentavam manter a
ordem pública e manter a unidade territorial. Que envolvia conter aqueles descontentes
com o seu modo de governo e conseguir emparelhar seu Estado com um corpo armado,
cria-se a Guarda Nacional. Medida fruto das políticas do governo Moderado na busca
por controle e manutenção da ordem, a Guarda nasce com o objetivo de controle e
ordem. Com a lei da Guarda às milícias foram extintas e com isso os ex-oficiais de
milícias de pardos e pretos reivindicavam seu direito de ingresso na nova força sem
serem preteridos na designação de patentes em virtude da cor de sua pele. A vida
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
87
militar era para esses homens de cor uma forma de exercício de cidadania de obtenção
de status social e inserção na sociedade hierarquizada do Brasil imperial. Não só
através do pertencimento à uma força militar, mas também com as possibilidades que o
fazer parte trazia para seus membros, como a possibilidade de distanciamento da
escravidão. Os debates então gerados perpassam as temáticas da cor e do ser cidadão
no contexto de lutas por direitos e reformas quanto ao recrutamento e à disciplina da
Guarda Nacional. Tendo em vista sua experiência negativa quanto ao ingresso na nova
força, e em comparação com experiência positiva com à milícia, condenaram às práticas
exclusivas da Guarda e em sentido mais amplo o liberalismo moderado que era
extremamente excludente. Assim, por meio da imprensa e dos Anais do Câmara dos
deputados, identificar e analisar as discussões, reclamações e reivindicações que surgem
no período apresentado. Discussões acerca da criação de uma nova lei que criou uma
nova força de “policiamento” e de cidadãos em armas e que pôs fim em outra instituição
centenária e de forte enraizamento social. O que nos deixa transparecer um projeto de
cidadania excludente é pautado em ideias liberais importadas e que ao serem
implementadas na realidade miscigenada brasileira tornaram à cidadania excludente na
prática. Homens que participaram ativamente da política e que, após as reformas do
governo regencial moderado, viram-se excluídos da construção da nova nação e ainda
viram sua força ser excluída.

Famílias de negros nos estudos genealógicos em Pirenópolis-GO


 Tereza Caroline Lôbo e João Guilherme da Trindade Curado (APLAM)
A antiga Meia Ponte surge no século XVIII e se destaca pela mineração do ouro
da aluvião e pela confluência das estradas responsáveis pelo fluxo de pessoas e de
mercadorias no Planalto Central do Brasil. O povoado minerador nasceu e se
desenvolveu sob a égide da mão de obra negra escravizada, suas marcas estão por toda
parte e manifestam na cultura e na formação da sociedade. Assim a convivência de
negros com brancos desde o século XVIII desenvolveu elementos culturais, sociais e
religiosos que são constituintes e representativas das memórias e das identidades
pirenopolinas. O presente estudo tem como objetivo principal investigar a experiência
de vida dos escravos e seus descendentes em Pirenópolis, estado de Goiás, partindo dos
ensaios genealógicos de Jarbas Jayme, publicado em 1973. Nesta obra, o historiador e
linhagista descreve, em cinco volumes, a genealogia de 145 famílias nascidas ou que
teriam vivido em Meia Ponte, destas foram elencadas apenas 25 famílias de origem
escrava, cuja descendência de algumas delas se faz presente nos dias atuais. Tenciona-
se, acompanhar a história de vida e as interações sociais dessas famílias buscando
compreender a presença negra na história e na memória do lugar. Discutir as
percepções de mundo embasada nesta que é a maior obra genealógica de Goiás
permite-nos acompanhar as descendências das tradicionais famílias pirenopolinas desde
a mineração e o entrelaçamento destas como as famílias de origem escrava,
demonstrando a mestiçagem resultante do processo de convivência. O presente
trabalho é pertinente na medida em que este estudo de caso denuncia o fato do negro
ser cada vez mais a “exceção demográfica e da memória”, além de propiciar um diálogo
com outras realidades que estão inseridas no processo de lutas contra as desigualdades
e o racismo.
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
88
13/05/2021 - 9h - 11h
SESSÃO 24

CORPO E ESCRAVIZAÇÃO II
Coordenador e comentarista:
 Josivaldo Pires de Oliveira (UNEB)

Doenças e pandemias no pós-abolição: notas de pesquisa sobre o impacto de


doenças na região metropolitana do Rio de Janeiro (1888-1940)
 Carlos Eduardo Coutinho da Costa (UFRRJ)
A presente comunicação pretende apresentar os primeiros resultados de uma
pesquisa direcionada ao impacto das doenças na população negra no pós-Abolição.
Escolhemos como área de estudo a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, com a
finalidade de compreender como a população dessas regiões foi impactada pelos surtos
de doenças respiratórias nos primeiros anos da República. Para atingir tais objetivos,
analisaremos os registros civis de óbitos do município de Nova Iguaçu, que apresentam
dados relativos à cor, à idade, ao ano de morte e, principalmente, à causa mortis. Ao
final, pretendemos contribuir com a historiografia ao apresentar possibilidades de
pesquisa para além dos discursos médicos, jornais imprecisos e estudos concentrados
em capitais federais.

Brancos demais para o cativeiro? Distinções raciais entre os escravos e


significados de ser branco no Brasil oitocentista
 Marcus Vinicius de Freitas Rosa (UFRGS)
As reflexões aqui presentes fazem parte de uma pesquisa mais ampla, ainda em
andamento, intitulada O privilégio da cor: administração pública, racialização e identidades
brancas no Brasil escravista (1808-1850), cujo objetivo é compreender os significados de
ser branco no Brasil oitocentista. Especificamente, nesta apresentação, cujas
interpretações são ainda temporárias, meu objetivo é analisar sentidos e práticas
envolvidos no aparecimento de escravos brancos que, no contexto do fim do tráfico
atlântico, foram vendidos no mercado interno brasileiro e se tornaram conhecidos na
imprensa durante a segunda metade do século XIX. São casos que se prestam à
investigação acerca dos complexos vínculos estabelecidos entre cor, escravidão e
liberdade. De forma mais ampla, busco analisar os aspectos raciais da linha que
estabelecia a separação entre escravos e livres, bem como situar a cor branca no centro
da análise racial, procedimento ainda pouco usual entre historiadores brasileiros.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


89
Pedagogias do corpo negro: escravizados e ensino médico-cirúrgico no Rio
de Janeiro (1830-1850)
 Silvio Cezar de Souza Lima (UFF)
Durante todo o século XIX, a profissão médica esteve intimamente relacionada
com o cotidiano da escravidão. Foi no contexto de formação do Império brasileiro, com
suas elites repactuando a escravidão e a expansão da monocultura de exportação, que
médicos e cirurgiões construíram espaços de produção e divulgação de seus
conhecimentos, consolidando as bases do processo de institucionalização da medicina.
Neste período, foi criada a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (1829) que,
posteriormente, tornou-se a Academia Imperial de Medicina (1835), as academias
médico-cirúrgicas foram transformadas nas faculdades de medicina (1832) e foi criada a
imprensa médica. A institucionalização da medicina, o crescimento avassalador do
comércio de escravos na cidade, os debates sobre formação da nação e sobre a
legalidade do tráfico negreiro são o solo de onde emerge o discurso médico do Império.
Assim, tanto os debates como outras instâncias da produção de conhecimento e treino
profissional dos médicos e cirurgiões acontecem em uma sociedade onde a mão de obra
escrava, além de ser um dos seus alicerces, está em amplo debate. O objetivo desta
comunicação é demonstrar como o ensino-aprendizado médico estava intimamente
ligado ao cotidiano da escravidão na Corte imperial. Podemos perceber isto a partir de
artigos publicados por alunos das cadeiras de Clínica Médica e de Clínica Cirúrgica da
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Dessa forma, minha intenção é demonstrar
que tanto o treinamento médico quanto a construção deste conhecimento era realizado
a partir dos corpos negros, mobilizados para aperfeiçoamento de técnicas e criação de
conceitos e teorias nas aulas de medicina na corte imperial.

A cultura de taverna da escravidão


 Lucas Endrigo Brunozi Avelar (USP)
A comunicação apresenta parte dos resultados de uma pesquisa de doutorado
sobre a história das tavernas no Brasil do século XIX. O estudo da cultura de taverna
das zonas de plantation será o objeto específico da apresentação. A partir do exame de
fontes diversas, localizamos as características dessa cultura, marcada sobretudo pela
tensão oriunda da relação entre senhores e escravos. De um lado, o Estado e os
proprietários procuravam regular ou coibir a ida dos cativos até as vendas, mobilizando
estratégias como ameaça de açoite, ensino da religião, disciplina do trabalho, oferta de
terras e compra de produtos, além da distribuição de aguardente. Sem efeito, as leis
reiteradamente proibiam a presença de cativos nas tavernas e estabeleciam horários de
fechamento dos estabelecimentos. De outra parte, os grupos escravizados insistiam em
frequentar aqueles espaços públicos onde podiam beber longe dos senhores, trocar
ideias e experiências, dançar, cantar e aliviar a condição imposta pelo cativeiro. Assim
como nas zonas mineradoras, a cultura de taverna das áreas de produção cafeeira foi
marcada pela heterogeneidade de seus frequentadores. Livres, libertas(os), cativas(os),
fazendeiros, viajantes, profissionais liberais, pequenos proprietários, autoridades
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
90
públicas e integrantes do clero entravam nas vendas dos caminhos e das cidades.
Precisamente no vale do Paraíba, quando a expansão do café fez aumentar o fluxo
populacional para a região, Saint-Hilaire registrou a presença de ruidosas vendas nas
quais os escravos eram “confundidos aos homens livres de classe inferior”. A relação
entre vendeiros e quilombolas ou mesmo escravos das fazendas fora registrada ao
longo do século XIX por historiadores como Stanley Stein e Flávio Gomes. Estas
relações iam para além do comércio e se tornavam vínculos de confiança, solidariedade
e proteção.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


91
13/05/2021 – 11h-13h
Lançamentos de livros

Mesa 1
(Mediação: Regina Célia Freire Xavier – UFRGS)
 Mariza de Carvalho Soares (UNIFESP), Diálogos Makii de Francisco Alves de
Souza: manuscrito de uma congregação católica de africanos Mina, 1786. São Paulo:
Chão. 2019.
 Danilo Luiz Marques (UFAL). Sob a “sombra” de Palmares: escravidão e
resistência no século XIX. São Paulo: e-Manuscrito, 2020.
 Claudia Daiane G. Molet (UFRGS), O litoral negro do Rio Grande do Sul:
campesinato negro, parentescos, solidariedades e práticas culturais (do século XIX ao
tempo presente). São Leopoldo: Oikos, 2020.
 Wagner de Azevedo Pedroso (UFRGS), Nazário e um plano de rebelião escrava
na Aldeia dos Anjos. Porto Alegre: Coragem, 2020.
 Jaime Rodrigues e Edilene Toledo (UNIFESP) (orgs.), Florestan Fernandes: 100
anos de um pensador brasileiro. São Paulo: Fund. Perseu Abramo, 2020.

Mesa 2
(Mediação: Joseli Maria Nunes Mendonça - UFPR)
 Carlos Eduardo Coutinho da Costa (UFRRJ), “Faltam braços nos campos e
sobram pernas na cidade”: famílias, migrações e sociabilidades negras no pós-Abolição
do Rio de Janeiro (1888-1940). Curitiba: Apris, 2020.
 José Maia Bezerra Neto (UFPA) e Luiz Carlos Laurindo Jr. (UFOPA),
Escravidão urbana e abolicionismo no Grão-Pará (século XIX). Jundiaí, Paco: 2020.
 Álvaro Pereira do Nascimento (UFRRJ) e Nielson Bezerra (Museu Vivo do
São Bento) (orgs.), De Iguassú à Baixada Fluminense: histórias de um território.
Curitiba: Apris, 2019.
 Josivaldo Pires de Oliveira (UNEB), O urucungo de Cassange: um ensaio sobre os
arcos musicais no espaço atlântico. Itabuna: Mondrongo, 2019.
 Joseli M. N. Mendonça (UFPR), Luana Teixeira e Beatriz G. Mamigonian
(UFSC). Pós-Abolição no Sul do Brasil: associativismo e trajetórias negras.
Salvador: Sagga, 2020.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


92
Mesa 3
(Mediação: Henrique Espada Lima – UFSC)
 Petrônio José Domingues (UFS), Protagonismo negro em São Paulo: história e
historiografia. São Paulo: Ed. Sesc-SP, 2019.
 Ennio Brauns, Gevanilda Gomes dos Santos e José Adão de Oliveira,
Movimento Negro Unificado: a resistência nas ruas. São Paulo/Fund. Perseu
Abramo: Ed. Sesc-SP, 2019.
 Christine Leidgens (org.), Frechal, quilombo pioneiro no Brasil. Ed. Sesc-SP,
2019.
 Ligia Ferreira Fonseca (UNIFESP), Lições de resistência: artigos de Luiz Gama
na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro, Ed. Sesc-SP, 2019.

13/05/2021 – 14h-16h
Comunicações coordenadas (Mesas 25 a 28)

SESSÃO 25

DEMOGRAFIA DA ESCRAVIDÃO II
Coordenador e comentarista:
 José Flávio Mota (USP)

Engenhos e estrutura da posse de escravizados em Laguna, Santa Catarina


(1799-1859)
 André Fernandes Passos (UFSC)
Este trabalho apresenta os resultados de uma pesquisa feita em 196 inventários
post-mortem de moradores de Laguna entre 1799-1859. Procurou-se identificar os
principais setores produtivos da agricultura local e o padrão da posse escrava na
região. Analisou-se a concentração da posse de escravizados de acordo com o tamanho
dos plantéis e a evolução da concentração da propriedade escrava ao longo dos anos.
Em especial, fez-se distinção do padrão da posse escrava dos lavradores e dos senhores
de engenhos locais. Comparou-se também a posse de escravizados no litoral de Laguna
com outras regiões do Brasil que praticavam a agricultura, especialmente a de
alimentos, no inicio do século XIX. Os resultados apresentados buscaram entender o
significado da evolução da propriedade escrava em Santa Catarina, relacionando-a com
o advento da economia mundial atlântica.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


93
O batismo de filhos de escravizadas na Freguesia de N. S. do Desterro
(Florianópolis, 1870-1888)
 Jurama Bergmann Vieira (UFF)
Temos hoje em nossa sociedade diferentes arranjos familiares. Para Iriana
Munhoz, não é possível admitirmos apenas a família tradicional como o único modelo
familiar, pois essa defesa é incompatível com a natureza afetiva da parentela. São as
discussões das famílias de hoje que levaram os pesquisadores a voltarem seus olhos
para os sistemas familiares do passado. Como seriam as famílias escravas na antiga
cidade de Florianópolis? Cidade essa que, por muito tempo, teve a presença de
africanos e afrodescendentes ignorada. É partindo dessa indagação que o texto aqui se
desenvolve, apresentando reflexões baseadas na documentação paroquial da Freguesia
de Nossa Senhora do Desterro, Província de Santa Catarina, entre os anos de 1870 a
1888. A análise demográfica mais ampla, viabilizada por meio da documentação
paroquial, é o ponto de partida de uma investigação mais detalhada da população
florianopolitana do século XIX, que busca perceber as estratégias, funcionamento e
relações familiares, mas com o foco principal direcionado aos filhos de mulheres
escravizadas. É importante ponderarmos que “família”, no século XIX, ultrapassava os
limites de sangue e incluía também o parentesco ritual. O debate sobre o compadrio
nos abre caminhos para que possamos acompanhar as estratégias da população
escravizada nos anos finais da escravidão no Brasil, sendo de suma relevância de
análise para a história de nossa sociedade. O senso comum poderia imaginar que a
escolha do cônjuge de um escravizado, ou dos padrinhos de seu filho, se dessem de
acordo com a decisão de seu proprietário. Entretanto, para a historiografia, é
indiscutível que essa designação era uma prerrogativa de muita importância para o
cotidiano dos escravizados. Para muitos lugares do Brasil estudos foram realizados
tendo essa temática como foco de análise, ainda assim, algumas regiões carecem de
maiores investigações. Como seria então essa realidade na Freguesia de Nossa Senhora
do Desterro? Os dados para a capital catarinense indicam a preferência de padrinhos
livres para os batizandos, já para o cargo de madrinhas, a grande maioria foi de
protetoras espirituais. Raras foram as crianças, dentro do recorte de tempo proposto,
que tiveram o nome de seus pais mencionados em seus registros de batismo. Buscamos
analisar e compreender o que essas informações podem nos dizer sobre a população
escravizada e seus descendentes, no que tange à história da infância e da família.

Produção e disponibilização online de banco de dados histórico envolvendo


sujeitos escravizados: notas de pesquisa
 Luana Teixeira e Alan Pedro da Silva (UFAL)
Mas o espaço da venda foi mais do que isso para os cativos. O processo da “casa
amarela” fornece pistas para aprofundarmos o conhecimento do significado das
tavernas. Este processo de 1866 investigou o assassinato do feitor de uma fazenda da
região de Vassouras. Após ameaçar de espancamento um cativo por conta de entrevero
na colheita do café, o feitor foi morto nas proximidades da venda de Jerônimo,
denominada “casa amarela”. O exame dos depoimentos permite a observação da rede de
relações abrigada no estabelecimento, bem como a verificação de que a venda foi espaço
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
94
de reflexão coletiva entre os cativos que, em seu interior, discutiram sobre como
responder a uma ameaça de surra prometida pelo feitor. Pretendemos apresentar os
resultados do exame deste e de outros processos que informam sobre a cultura de
taverna da escravidão.

Escravidão e atividades produtivas em Santa Catarina a partir dos mapas de


população, 1787-1836
 Luciano Costa Gomes (UFRGS)
A presente pesquisa aborda a escravidão em Santa Catarina a partir dos
problemas pertinentes à história da população. A documentação utilizada é composta
por doze mapas de população, quadros nos quais eram apresentadas a soma e
composição sociojurídica e sexual das populações pertencentes ao império português e
depois ao Império do Brasil, relativos ao período entre 1787 e 1836. Na esteira de
trabalhos mais recentes sobre a instituição escravista nas vilas e freguesias
catarinenses, realizaremos uma comparação sobre a participação da população
escravizada nas diferentes localidades, considerando as atividades produtivas nelas
desenvolvidas a partir de três expedientes. Com o conjunto dos mapas, podemos
avaliar a dimensão da participação da população escravizada ao longo do período em
foco. A partir do Mapa de População de 1805 podemos analisar a distribuição das
atividades exercidas pelos homens livres e libertos utilizando a parâmetro de
classificação Hisco (Historical International Standard Classification of Occupation). A
partir de dois documentos do ano de 1796, o “Resumo geral da população” e a “Relação
de engenhos e fábricas”, poderemos associar o tamanho da população à presença de
engenhocas e fábricas. O argumento a ser defendido é o de que maior ou menor
presença de instalações de produção açucareira, fábricas de mandioca e engenhos de
pilar arroz estavam relativamente associados ao tamanho da população escravizada (no
que diz respeito ao ano de 1796), assim como a intensidade de atividades comerciais e
artesanais (no que diz respeito ao ano de 1805). Ao concordar com pesquisas mais
recentes que advogam a importância da escravidão para a formação de Santa Catarina,
pretendemos oferecer um quadro comparativo que ajude a pensar a particularidade
cada uma das localidades.

População e representatividade política na construção do Império brasileiro


 Regina Celia Lima Xavier (UFRGS)
Esta apresentação é parte de um projeto em andamento que investiga a
estatística na primeira metade do século XIX no Império brasileiro, tendo como foco o
Rio Grande do Sul. Inicio narrando algumas sessões do senado em 1840. Ali os
senadores se reuniram em torno de um debate sobre o calendário das eleições dos
deputados à Assembleia Geral Legislativa. Ali se discutiu a representação política e
conveniência de se aumentar o número de deputados de algumas províncias,
notadamente Mato Grosso, Espírito Santo e Santa Catarina vindo, na sequência, a se
reclamar o mesmo para o Rio Grande do Sul. A questão foi ponderada por Vergueiro,
que afirmou repetidamente o que regia a constituição de 1824: o número de deputados
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
95
deveria ser regulado pela razão da população. Ele lembrou que em período anterior as
províncias organizavam anualmente mapas da população, base para o cálculo que
estabelecia uma relação entre o número da população e o de deputados. Quando da
eleição da Assembleia Constituinte, mudou-se esta lógica aumentando para cem o
número de deputados, privilegiando algumas províncias em detrimento de outras. Se o
número de deputados foi definido inicialmente pelo governo, deixou que uma lei
suplementar definisse esta estrutura. A questão não seria de fácil resolução, tendo em
vista que não havia uma estatística centralizada que pudesse dar este cômputo geral da
população e permitisse uma razão (população/deputados) que possibilitasse uma
ponderação entre as diversas províncias. A ausência de uma estatística geral abria
caminhos para cálculos e barganhas. Desde 1826, quando da instalação do Senado, se
formou uma comissão de estatística que englobou colonização estrangeira e catequese
dos indígenas. Diante da necessidade de braços, debatia-se sobre a pertinência da
colonização e definição dos direitos dos estrangeiros em um projeto de naturalização.
No caso dos indígenas, o “aproveitamento de braços” fazia com que as expectativas do
governo apontassem para projetos “civilizadores” e repousassem primordialmente
sobre os aldeados. Portanto, desde a nomeação da comissão de estatística em 1826,
contabilizar a população significava classificá-la para muito além de parâmetros como
sexo ou idade, pois que deveria apontar o lugar de cada um na estrutura política do
Estado. A questão de fundo em 1840 era que o cômputo da população deveria definir o
número de deputados por província, e a cada dois deputados se poderia eleger um
senador. Muitos senadores apresentaram estatísticas organizadas nas províncias e
cálculos estimados. Mas o cômputo da população deveria englobar escravos,
estrangeiros e indígenas? No caso do Rio Grande do Sul, em luta contra o Império,
deveriam ser contados os rebeldes? São questões como estas que esta apresentação
pretende problematizar.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


96
13/05/2021 - 14h - 16h
SESSÃO 26

HISTORIOGRAFIA SOBRE ÁFRICA PRODUZIDA NO BRASIL II


Coordenador e comentarista:
 Lucilene Reginaldo (UNICAMP)

Os sobas de Angola e suas estratégias: comércio e política na feira de


Kassanje
 Felipe Pires Vilas Bôas (Museu Paranaense)
Com o declínio da legalidade do tráfico de escravizados em Angola ao longo do
século XIX, a administração portuguesa, imbuída de um crescente ideário liberal,
buscou planejar alternativas comerciais para os constantes problemas financeiros
gerados pelo aparelho colonial instalado em Angola. Entre interesses amplos de
fomentar a agricultura, mas ainda dependente das receitas do comércio de
escravizados, os interesses comerciais portugueses pelos “bens lícitos” colocaram
inicialmente barreiras à atividade comercial legal dos sobas, já familiarizados com o
tráfico de escravizados, esvaziando pontos tradicionais de comércio como a feira de
Kassanje e abrindo espaço para o protagonismo de outras localidades como o Dondo.
Entre os anos de 1840 e 1860, diversas foram as ações conduzidas por autoridades
africanas em busca de reconhecimento político, seja perante uma fragilizada
administração portuguesa ou comunidades circunvizinhas que podiam ou não ter laços
linhageiros entre si. A busca por taxar rotas comerciais e apertar o controle sob a
disponibilidade de mão de obra foram ações fundamentais para fortalecer estatutos
políticos africanos e ao mesmo tempo estimular o interesse pela espoliação de terras
produtivas por parte dos portugueses. Neste cenário em constante construção pode-se
apontar que, se por um lado as esparsas ações portuguesas desse contexto dariam início
a uma política colonial mais agressiva, por outro se verificam indícios de uma
“centralização fragmentada” dos sobados angolanos, especialmente no que diz respeito
à conformação do poder político nas estruturas linhageiras.

Colonialismo e trabalho em São Tomé e Príncipe, 1870-1930.


 Maysa Espindola Souza (UFSC e Bonn Center for Dependency and Slavery
Studies/Max Planck Institute for Legal History)
Após a emancipação dos escravos em 1869, foram muitas as iniciativas
realizadas no intuito de fazer com que os libertos trabalhassem e, além disto, que o
fizessem em setores específicos da economia colonial da África portuguesa. As diversas
formas de coerção aplicadas fizeram uso de instrumentos jurídicos e de uma moralidade
que acreditava serem os negros intrinsecamente indolentes e que nunca se
apropriariam da lógica capitalista de trabalho. Estes dispositivos jurídicos que
submeteram os africanos a intenso controle foram leis, decretos, cartas régias,
regulamentos de trabalho e igualmente as decisões dos tribunais coloniais. Quando

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


97
refletimos sobre a produção de normas, costumamos atribuir ao poder legislativo, no
caso de Portugal à Câmara dos Pares do Reino e à Câmara dos Senhores Deputados, o
papel principal neste processo. No entanto, os tribunais coloniais tiveram um papel
importante na produção do significado concreto das normas e esta dimensão da
produção normativa é ainda pouco explorada pelos africanistas. As condições de vida e
de trabalho dos africanos foram disputadas cotidianamente através dos processos
sumários realizados nos tribunais judiciais das curadorias indígenas. Assim, esta
pesquisa analisa a participação dos africanos nos processos julgados pela Curadoria
Geral dos Serviçais e Colonos de São Tomé e Príncipe entre os anos de 1970-1930. Ao
buscarem a curadoria para reclamar aquilo que consideravam seus direitos, os serviçais
demonstraram as suas leituras de juridicidade e, além disto, lutaram pelo significado
concreto das normas sobre o trabalho nas ilhas. Os processos julgados pela curadoria
são fontes singulares para a compreensão das expectativas dos serviçais em relação à
suas condições de vida e trabalho no pós-emancipação. Situada na intersecção de dois
grandes campos de estudo, a história do trabalho e a história do direito, esta pesquisa
dedica-se a compreender a atuação dos serviçais de São Tomé nos tribunais da
curadoria e as suas lutas pela definição do conceito de trabalho livre. Além dos
processos judiciais, também se analisam fontes como relatórios de governo, legislação,
doutrinas, periódicos, fotografias, contratos de trabalho, censos e livros de memórias.

A revolta dos “escravos” do rei Ginga: um episódio de resistência anticolonial


durante a expansão do comércio atlântico de escravizados em Angola (c.1810
- c.1830)
 Aline Emanuelle de Biase Albuquerque (UFPE)
Em 24 de setembro de 1830, o capitão do presídio de Ambaca relatou ao
governador geral de Angola que potentados rebeldes estavam prejudicando o comércio
e a tranquilidade dos moradores do maior e mais rico presídio do interior angolano.
Entre as correspondências enviadas pela autoridade, e atualmente disponíveis no
Arquivo Histórico Ultramarino, estava a súplica dos comerciantes ambaquenses
queixando-se que já há algum tempo “os povos do rei Ginga”, habitantes da margem do
rio Lucala, estavam acoitando escravos fugidos, recusando-se a pagar os tributos e
roubando os feirantes e pumbeiros que comercializavam ou apenas transitavam com
suas mercadorias pela jurisdição. Articulando uma ofensiva contra os rebeldes, os
moradores do presídio garantiram auxílio financeiro às tropas que fossem enviadas de
Luanda para o combate e relembraram que uma expedição financiada por eles já havia
marchado contra os mesmos rebeldes em 1817. Contrário aos súditos, que estavam
propositadamente prejudicando a sua aliança com os lusos, o próprio Ngola Quiluangi
Quiassamba, rei Ginga, escreveu uma carta pedindo que o governador, como
representante de seu “amado irmão”, o rei de Portugal, o ajudasse a castigar esses seus
“escravos” e garantindo que metade dos aprisionados seria entregue aos portugueses. A
partir desse episódio de revolta que reuniu os interesses de sobas e macotas do reino de
Ginga e escravos fugidos contra a invasão portuguesa, este trabalho analisa as disputas
de poder e a resistência autóctone em um período de auge do embarque de escravizados
para o tráfico transatlântico na região de Angola. Abrangendo um recorte temporal
que vai dos anos de 1810 aos de 1830, as ações dos súditos de Ginga e seus aliados
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
98
contra o domínio estrangeiro nos permitem ainda investigar o contexto político e
social no presídio de Ambaca, uma localidade importante para as trocas mercantis no
interior angolano. Por fim, este trabalho dialoga com uma historiografia que vem
analisando os meandros negreiros na costa africana e contribui na investigação da
resistência anticolonial e antiescravista na região que mais enviou africanos
escravizados para o Brasil.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


99
13/05/2021 - 14h - 16h
SESSÃO 27
LIBERDADE EM QUESTÃO II
Coordenador e comentarista:
 Ivana Stolze Lima (FCRB)

Quando a estiagem e a fome chegam, a escravidão se aproxima: liberdade


precária, escravização e reescravização ilegais e o apelo à Justiça no Ceará
provincial
 Antonia Márcia Nogueira Pedroza (UFC)
Neste estudo, partimos do entendimento de que, no século XIX, no plano
coletivo, a precariedade da liberdade era sentida na pele pelos africanos e seus
descendentes. Esse dado já foi demonstrado por historiadores que observaram a
presença do fenômeno em diferentes regiões do Brasil. Todavia, procuramos contribuir
com essa discussão evidenciando como o grau dessa precariedade variou no tempo e no
espaço. Procuramos demonstrar que, na província do Ceará, as forças que pressionaram
contra a liberdade oscilaram ao longo do período estudado, tornando-se mais intensas
nos períodos de calamidade, principalmente durante as secas ocorridas entre 1844 e
1845 e entre 1877 e 1879, quando a sobrevivência se tornou uma luta tenaz a ser
vencida a cada dia pelos pobres e miseráveis. A partir da combinação entre análise
quantitativa e qualitativa de jornais, processos civis e criminais, comunicação da
chefatura de polícia e relatórios de presidentes de província, dentre outros documentos,
examinamos como a liberdade foi usurpada e reivindicada pelos sujeitos sociais na
referida província. Foi possível observar que, no plano individual, as pessoas eram
atingidas por essa fragilidade de maneiras e com intensidades distintas. Aquelas que
não viviam laços familiares e comunitários consistentes ou se encontravam distantes
dos locais onde estavam suas redes de parentes, vizinhos e conhecidos, ou aquelas que
não dispunham de meios para assegurar a vida material, sofriam mais fortemente a
ameaça de serem escravizados ilegalmente ou reescravizados. Além disso, para elas
eram mais custosa e incerta as lutas pela recuperação da liberdade. Para que a
escravização e a reescravização ilegais fossem praticadas com êxito, era necessário o
emprego de estratégias. Neste trabalho exploramos algumas histórias de escravização e
de lutas pela liberdade, voltando nosso olhar para a identificação dos mecanismos
empregados pelos escravizadores. O deslocamento espacial das vítimas, a retirada do
convívio com sua família ou comunidade era importante para que o crime de reduzir
pessoa livre à escravidão, tipificado no artigo 179 do Código Criminal de 1830, fosse
efetuado. Entretanto, pudemos identificar que nem sempre a vítima era retirada à força,
por meio de sequestro: por vezes ela acompanhava o futuro escravizador porque ele era
alguém do seu conhecimento ou de suas relações, depositando nele certa confiança.
Importa destacar que, nessas disputas em torno da escravidão e da liberdade que
envolviam redes de clientela, conflitos políticos locais e intrigas de famílias, os
escravizados e aqueles que estavam sob a ameaça da escravização ou reescravização
sabiam quais cartas podiam botar na mesa para conseguirem o acesso à Justiça e
obterem ou manterem a liberdade.
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
100
Registros forjados, negócios escusos: as circunstâncias da escravização ilegal
no Brasil oitocentista
 Beatriz Gallotti Mamigonian (UFSC)
Em contraponto à vigorosa e consolidada literatura sobre a conquista da
liberdade por alforrias e por via judicial, muitos estudos recentes têm revelado a
extensão do fenômeno da escravização de pessoas livres no Brasil. O Código Criminal
de 1830, art. 179, previa pena de reclusão e multa para os culpados do crime de
“redução à escravidão de pessoa livre, que se achar em posse de sua liberdade”. Não
foram muito numerosos, no entanto, os processos na esfera criminal. Os casos de
escravização ilegal chegaram ao judiciário, principalmente como ações cíveis – de
manutenção de liberdade, ações de liberdade ou mesmo habeas corpus. Com base na
análise de ações-crime, ações cíveis, e casos relatados na literatura especializada, essa
comunicação pretende explorar – ainda de forma preliminar – as circunstâncias da
escravização ilegal entre as décadas de 1830 e 1880, apurando um perfil das vítimas e
dos perpetradores e os mecanismos jurídicos para forjar legalidade à aquisição. Esta
comunicação se insere em uma pesquisa mais ampla sobre precariedade da liberdade e a
escravização ilegal que pretende contribuir para a História do Trabalho e do Direito,
assim como dialogar com os estudos sobre trabalho escravo contemporâneo na busca
do entendimento das fronteiras conceituais da escravidão.

Cartas ao imperador: petições, requerimentos, representações e súplicas de


escravos e africanos livres a D. Pedro II
 Elizabeth Albernaz Machado Franklin de Sant’Anna (UFC)
Neste trabalho, abordaremos uma amostra de cartas enviadas ao imperador d.
Pedro II por escravos e africanos livres. Pretende-se evidenciar, através das diferentes
tipologias documentais (petições, requerimentos, representações, e súplicas), as
estratégias de vida e sobrevivência mobilizadas por escravos e africanos livres na
sociedade oitocentista, através da escrita. Por meio dessas cartas, é possível vislumbrar
percursos e meios diversificados em que homens e mulheres recorriam a instâncias de
poder e ao imperador, no ensejo de terem suas demandas atendidas, tais como
liberdade, justiça, graça e queixas, entre outros. A metodologia baseia-se numa
amostragem documental a partir de um banco de dados criado através de pesquisas aos
arquivos do Museu Imperial e do Arquivo Nacional, que objetivou coligir documentos
de demandas populares ao imperador d. Pedro II. Para a leitura desses dados,
empreendemos uma análise quantitativa e qualitativa, no intuito de privilegiar um
prisma interpretativo das modalidades de ações e inserções de escravos e africanos
livres na sociedade oitocentista.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


101
A “liberdade precarizada” enquanto categoria de análise das movimentações
internacionais de fuga das pessoas escravizadas: o caso da Bolívia (1825-
1845)
 Newman Di Carlo Caldeira (UFU)
Neste trabalho, procuraremos destacar a importância de se utilizar a categoria
de “liberdade precarizada” ao investigar as movimentações de fuga das pessoas
escravizadas no território brasileiro que buscavam asilo em solo boliviano. Para tanto,
analisamos as informações contidas nas correspondências diplomáticas, como a troca de
avisos, ofícios e despachos, bem como as orientações dos governantes bolivianos aos
seus subordinados e as fontes legislativas de ambos os Estados. Ao pesquisar as
movimentações de fuga de caráter temporário ou não, encontramos variados graus de
autonomia e formas de protesto experimentadas pelos escravizados, que permitiram
aos envolvidos viverem fora do alcance do Estado, de seus representantes e de seus
sistemas judiciários, assim como dos proprietários. As travessias e passagens
internacionais reforçavam essa perspectiva na medida em que os fugitivos
conseguiram, em alguns casos, se colocar ou se manter fora do alcance do rigor das leis
e das autoridades existentes em seus locais de origem. As movimentações de fuga
agregavam em si novos significados para a concretização de uma liberdade possível,
ainda que não reconhecida pelas autoridades envolvidas e fora das definições legais dos
Estados que os acolhiam, nos casos internacionais. Ao migrarem, os fugitivos passavam
a se sujeitar a um conjunto de leis e práticas sociais até então provavelmente
desconhecidos da maioria. Mesmo sem conhecer os meandros jurídicos em relação à
situação que enfrentariam ou possuírem garantias legais de que melhorariam suas
condições de vida e de trabalho, muitos escravizados que habitavam o lado brasileiro
escolheram essa modalidade de fuga. O exame das múltiplas experiências decorrentes
do cruzamento entre o trabalho escravizado e as ideias e práticas de liberdade,
presentes no imaginário dos prófugos oriundos do lado brasileiro, demonstram a
importância da mobilidade espacial para a modificação dos campos de possibilidade dos
diversos agentes sociais envolvidos diretamente ou indiretamente nas práticas de fuga.
Nos casos analisados, as travessias não asseguraram necessariamente a aquisição da
liberdade para os envolvidos, mas, sim, espaços de autonomia que muitas vezes os
levavam a viver sob um limbo jurídico em função do desrespeito em relação às
legislações existentes em ambos os lados da fronteira. Portanto, a perspectiva ora
apresentada não associa necessariamente as fugas à aquisição da liberdade pessoal, pois
o risco de ocorrerem reescravizações e engajamentos militares compulsórios se fizeram
presentes em ambos os lados da fronteira, não assegurando aos prófugos que suas
movimentações resultariam na aquisição da liberdade. Esta última, quando ocorreu, foi
apenas uma dentre tantas outras possibilidades.

Instabilidades da propriedade sobre o ventre escravizado na América


Colonial
 Paulo Henrique Rodrigues Pereira (USP)
Com o enfraquecimento do tráfico transatlântico, a propriedade escrava por
nascimento tornou-se a última possibilidade legal para a continuação da escravatura
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
102
negra nas Américas. Para enfrentar a escravidão, seus opositores passaram a organizar
uma série de iniciativas para desarticulá-la, fortalecendo estratégias de emancipação
baseadas na liberdade do ventre. A partir da segunda metade do século XVIII, dezenas
de projetos legais, processos judiciais e discursos públicos em todo o continente
americano e espaço atlântico procuraram interromper a transmissão legal da
propriedade por nascimento. Foi um lugar comum nas narrativas da época, a ideia de
que havia uma estabilidade na transmissão de propriedade via ventre que os projetos
emancipacionistas procuravam interromper. Esse direito teria sido formado durante
um longo período, remontando ao princípio geral do partus sequitur ventrem advindo do
legado romano. Para os seus defensores, tal transmissão era inerente à instituição da
escravatura, naturalmente incorporada no direito moderno como atributo liberal da
própria noção de propriedade. A apresentação pretende analisar parte desta longa
história, questionando a linearidade da propriedade por nascimento como uma
instituição imutável. Para tanto, examinarei a discussão da propriedade sobre o ventre
escravizado como parte de um debate teológico-legal mais amplo sobre as formas de
transferência geracional desse estatuto legal. Com base em exemplos concretos,
pretendo demonstrar a diversidade de abordagens jurídicas sobre o tema durante o
período colonial.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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13/05/2021 - 14h - 16h
SESSÃO 28
EXPERIÊNCIAS NEGRAS EM CENTROS URBANOS II
Coordenador e comentarista:
 Fernanda Oliveira da Silva (UFRGS)

“A classe agora que nos ampare”: a comunidade leitora e receptora da


imprensa negra sul-riograndense (O Astro, Cachoeira e Rio Pardo/RS)
 Aline Sônego (UFSM)
O presente trabalho tem como intuito apresentar a metodologia e os resultados
preliminares obtidos a partir da pesquisa de doutorado sobre o público leitor e receptor
do jornal O Astro. Fundado pelos dois jovens negros José de Farias e Manoel Etelcides
da Silva, o referido jornal foi publicado entre os anos 1927 e 1928 e destinava-se
especialmente às comunidades negras de Cachoeira e Rio Pardo, região central do Rio
Grande do Sul. O Astro se insere no rol de publicações da imprensa negra rio-
grandense, que foi fértil nas primeiras décadas do pós-abolição, contexto este marcado
pelas lutas em prol da cidadania e contra a discriminação e preconceito racial, evidentes
em diversas passagens destas publicações. Parte-se da hipótese que a comunidade
leitora da imprensa negra tinha suas vidas entrelaçadas aos ideais e na elaboração
daquele jornal, na medida em que as temáticas traziam à tona diversas situações em
que a comunidade negra estava envolvida e pautavam o conteúdo da publicação. Nesse
sentido, através do jornal O Astro, busca-se acessar estas vivências negras, através da
identificação do seu público leitor e receptor, conhecendo seus ofícios, gênero, idades,
locais de residência e redes familiares e associativas que estavam expressas em diversas
passagens do jornal. Por meio do método onomástico preconizado pela Micro-História,
os nomes citados na publicação, assim como demais informações acerca destas pessoas,
foram catalogados em um banco de dados necessário para empreender a busca a outras
fontes, especialmente registros civis, cujo cruzamento de dados, permite compreender
as diversas agências das comunidades negras pesquisadas.

Quem eram os trabalhadores no século XIX? As posturas municipais e a


organização das relações de trabalho na cidade do Rio
 Fabiane Popinigis (UFRRJ) e Paulo Cruz Terra (UFF)
Estudos sobre a municipalidade a partir de fins da década de 1990 discutiram
marcos legais e regulatórios definidos para os trabalhadores do século XIX. Essas
pesquisas trataram dos esforços de controle e higienização, pela câmara municipal, da
vida da cidade e de regulamentação do trabalho, mostrando, entretanto, que esses
códigos e leis municipais também eram fruto ou se confrontavam com as reivindicações
dos trabalhadores por maior autonomia no controle do processo produtivo, por tempo
livre e para limitar a exploração pelos patrões e proprietários. Assim, se a construção
de um código de trabalho e uma legislação trabalhista a nível nacional se inicia nas
últimas décadas da primeira república, é possível afirmar, como demonstraremos aqui,

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


104
que as disputas pelos temas e princípios que viriam a ser abordados por essa legislação
carregavam a experiência de muitas décadas anteriores de conflitos e negociações.
Pesquisas sobre os poderes municipais a partir de leis, códigos, editais e regulamentos
mostraram que os mecanismos de controle e higienização que os poderes públicos
buscavam utilizar na ordem cotidiana de municípios e cidades eram muitas vezes fruto
de negociação com os objetos desses elementos normativos. Esta comunicação
pretende demonstrar, utilizando como fonte o código de posturas de 1894 no Rio de
Janeiro (que compila posturas formuladas ao longo do século XIX), que a legislação
municipal incidia sobre os mais diferentes aspectos do trabalho na cidade, como
também sobre os mais diversos tipos de trabalhadores escravizados e livres. Nesse
sentido, argumenta-se que o poder municipal foi um espaço privilegiado no que diz
respeito à identificação e definição de quem eram os trabalhadores e de disputas pela
regulamentação do trabalho no referido período.

Vivendo do que a terra dá: migração, trajetória de lavradores negros e


projetos de vida na São Paulo pós-abolição (1890-1940)
 Fábio Dantas Rocha (USP)
A presente comunicação tem como objeto a experiência dos trabalhadores e
trabalhadoras negras na São Paulo pós-abolição entre os anos de 1890 e 1940.
Buscando a relação entre os processos migratórios de sujeitos e de famílias negras para
a cidade de São Paulo de fins do século XIX e início do XX e seus respectivos projetos
de vida, pretende-se ressaltar a busca pela compra de terras para subsidiar suas
próprias produções agrícolas como uma das possíveis estratégias encontradas para
vencer as agruras do crescimento urbano da cidade. A intenção é a de articular a
História Social da cidade de São Paulo ao pós-Abolição (entendido aqui a partir de suas
dimensões teórico-metodológicas), maneira necessária para a compreensão do processo
de construção de redes sociais que os ex-escravizados e seus descendentes mobilizaram,
seja durante o processo de migração, seja durante sua estada na cidade. Tal perspectiva
contribuirá para novas interpretações do processo de urbanização paulistano, além de
nutrir a esperança de, ao lado de tantas boas pesquisas contemporâneas, compor uma
interpretação do Brasil republicano que leve em conta a relação estruturante das atuais
práticas sociais e culturais do nosso país: raça e classe.

A década de 1870 dos trabalhadores livres e escravizados: o Rio de Janeiro e


a “epidemia de greves”
 Renata Figueiredo Moraes (UNIFESP)
Na década de 1870, algumas transformações ocorreram nas comunicações do
Império com outras províncias e países. O telégrafo permitiu uma integração não
apenas entre chefes de Estado como também entre trabalhadores, uma vez que notícias
sobre os trabalhadores do mundo chegavam mais facilmente ao Império. Ao mesmo
tempo, o fim da guerra do Paraguai, a carestia dos preços e o aumento dos
trabalhadores livres diante da permanência da escravidão, a despeito da lei de 1871,
criou um cenário de constante tensão. Esta comunicação quer problematizar a década
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
105
de 1870 a partir dos trabalhadores, livres e escravizados, a fim de identificar entre eles
tensões e diferenças no que se refere às lutas por liberdade e direitos. Deste modo,
pretendo ver a cidade do Rio de Janeiro a partir da escravidão urbana e da cidade
negra, entre os trabalhadores, homens e mulheres que criavam diferentes formas de
luta, entre greves e fugas. Para o primeiro caso, é possível identificar nos jornais
greves de trabalhadores livres, mas também o que chamavam de “greves dos escravos”,
e que autores como Flávio Gomes e Antonio Luigi Negro identificaram como
“paredes”. Os jornais da Corte noticiavam essas greves e outras que ocorreram fora do
Império, temendo que pudesse ocorrer uma “epidemia de greves”. Como essa
“epidemia” poderia contaminar o Império do Brasil ainda escravista? Pretendo elaborar
algumas hipóteses para a resposta a essa pergunta a partir dos trabalhadores, sejam
livres e escravizados, e que de algum modo criaram tensões que mobilizaram
autoridades para criar meios para frear a continuidade desses movimentos. O aumento
de prisões por vadiagem, a criação de estereótipos sobre trabalhadores imigrantes e a
perseguição a homens negros livres, sempre suspeitos de vadiagem, apareceu no
cotidiano da Corte e por parte de autoridades policiais que seguiam uma legislação que
contribuía para esse controle. Deste modo, pretende-se entender a tensão das ruas,
entre livres e escravizados, numa década de forte ebulição no Brasil e no mundo em
meio ao movimento dos trabalhadores e a condenação da escravidão.

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


106
13/05/2021 – 16h-16h30
Premiação dos painéis de graduação

13/05/2021 – 17h-18h30
Conferência de encerramento: “Azucar y esclavitud: una relación tardía en la
región oriental de Puerto Rico”
 Javier Alemán Iglesias (Universidad Ana G. Méndez)
Mediação: Jaime Rodrigues (UNIFESP)

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


107
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
108
ÍNDICE DE AUTORES, COMENTADORES E CONFERENCISTAS

Adailton Pires Costa ............................................................................................ 54


Adriana Barreto de Souza 85
Aislan Soares Viçosa ............................................................................................ 77
Alan Pedro da Silva 94
Alessandra Ferreira .............................................................................................. 12
Alexandra Helena Batista da Silva 77
Aline Emanuelle de Biase Albuquerque .......................................................... 98
Aline Sônego 104
Álvaro Huber de Souza ........................................................................................ 77
Álvaro Pereira do Nascimento 92
Amanda Barlavento Gomes ................................................................................ 16
Ana Carolina Coelho Chicorski 38
André Fernandes Passos ..................................................................................... 93
André Figueiredo Rodrigues 70
Andressa Pastore .................................................................................................. 77
Ângela Pereira Oliveira Balladares 41
Antonia Márcia Nogueira Pedroza ................................................................... 100
Barbara Barbosa dos Santos 58
Beatriz Gallotti Mamigonian ......................................................................... 54, 92, 101
Bolají Alves Matos de Paula Xavier 77
Bruna Digiacomo Cerveira Coutinho ............................................................... 55
Bruna Letícia de Oliveira dos Santos 69
Bruno Martins de Castro .................................................................................... 48
Caio da Silva Batista 55
Camila Martins ...................................................................................................... 77
Carlos Eduardo Coutinho da Costa 25, 89, 92
Carlos Eduardo Moreira de Araújo
74
.....................................................................
Carlos de Almeida Prado Bacellar 29
Carlos Francisco da Silva Jr. .............................................................................. 12
Carmen M. Oliveira Alveal 78
Carolina Pazos Pereira ........................................................................................ 45
Caroline da Silva Mariano 82
Christine Leidgens ................................................................................................ 93
Claudia Daiane G. Molet 92
Daniel Dutra Coelho Braga ................................................................................ 35
Daniela Magalhães da Silveira 41, 67
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
109
Daniela Paiva Yabeta de Moraes ...................................................................... 45
Danilo José Zioni Ferretti 74
Danilo Luiz Marques ........................................................................................... 86, 92
Danilo Moura Monteiro 70
Dayana de Oliveira da Silva ............................................................................... 16
Denilson Botelho 25, 74
Diego de Cambraia Martins ............................................................................... 46
Edilene Toledo 92
Eduardo Antonio Estevam Santos .................................................................... 22
Elizabeth Albernaz Machado Franklin de Sant'Anna 101
Ennio Brauns ......................................................................................................... 93
Fábia Barbosa Ribeiro 86
Fabiane Popinigis .................................................................................................. 82, 104
Fábio Dantas Rocha 105
Felipe de Melo Alvarenga ................................................................................... 78
Felipe Farret Brunhauser 41
Felipe Pires Vilas Bôas ........................................................................................ 97
Felipe Souza Melo 46
Fernanda Oliveira da Silva ................................................................................. 60, 104
Fernando Antonio Uchôa Fonseca 77
Fernando Atique ................................................................................................... 12
Filipe Matheus Marinho de Melo 68
Flavia Fernandes de Souza ................................................................................. 56
Flávio dos Santos Gomes 60
Florencia Thul ....................................................................................................... 19
Florisvaldo Paulo Ribeiro Júnior 64
Francilene de Souza Tavares ............................................................................. 75
Gabriela Fabiane Luiz 35
Geovan Souza Silva .............................................................................................. 22
Gevanilda Gomes dos Santos 93
Gilberto dos Santos .............................................................................................. 70
Gutiele Gonçalves dos Santos 32
Heitor Abreu Ferreira .......................................................................................... 77
Helen da Silva Silveira 64
Helen Osório .......................................................................................................... 45
Henrique Espada Lima 58, 93
Iago Fernando Duarte Cerbino ......................................................................... 77
Iamara da Silva Viana 48

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


110
Idalina Maria Almeida de Freitas ..................................................................... 51
Igor Bruno Cavalcante dos Santos 29
Inês Teixeira Barreto ........................................................................................... 51
Israel da Silva Aquino 29
Ivana Stolze Lima ................................................................................................. 36, 100
Jacó dos Santos Souza 65
Jacques Ferreira Pinto ......................................................................................... 61
Jadson Fernando Rodrigues Reis 13
Jaime Rodrigues .................................................................................................... 13, 92, 107
Javier Alemán Iglesias 107
Jhon Lenon de Jesus Ferreira ............................................................................ 33
João Guilherme da Trindade Curado 88
Joice Fernanda de Souza Oliveira ..................................................................... 48
Jonas de Luca Trindade da Silva 77
José Adão de Oliveira ........................................................................................... 93
José Eduardo da Silva 46
José Flávio Mota ................................................................................................... 93
José Maia Bezerra Neto 92
Joseli Maria Nunes Mendonça ........................................................................... 22, 92
Josemeire Alves Pereira 33
Josivaldo Pires de Oliveira .................................................................................. 89, 92
Jovani de Souza Scherer 26
Júlia Gusmini ......................................................................................................... 77
Jurama Bergmann Vieira 77, 94
Karina Oliveira Morais dos Santos ................................................................... 61
Karoline Carula 20, 67
Laura Candian Fraccaro ...................................................................................... 47
Lélio Luiz de Oliveira 62
Liana Severo Ribeiro ............................................................................................ 42
Ligia Ferreira Fonseca 93
Luana Teixeira ...................................................................................................... 92, 94
Luanna Maria Ventura dos Santos Oliveira 58
Lucas Endrigo Brunozi Avelar .......................................................................... 90
Lúcia Helena Oliveira Silva 12, 67
Luciano Araujo Monteiro ................................................................................... 59
Luciano Costa Gomes 95
Lucilene Reginaldo ............................................................................................... 97
Luis Gustavo Reis da Silva Lima 71

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


111
Luiz Carlos Laurindo Jr. ..................................................................................... 92
Magdalena Candioti 20
Marcelo Loyola de Andrade ............................................................................... 17
Marcelo Rosanova Ferraro 59
Marconni Cordeiro Marotta ............................................................................... 14
Marcus Joaquim Maciel de Carvalho 35
Marcus Vinicius de Freitas Rosa ....................................................................... 89
Maria Clara Aredes de Figueiredo 87
Maria da Conceição Guilherme Coelho ........................................................... 12
Maria Eduarda Albuquerque Mendez 77
Maria Luiza Ferreira de Oliveira ...................................................................... 37
Mariana Alice Pereira Schatzer Ribeiro 49
Mariana de Aguiar Ferreira Muaze .................................................................. 19, 82
Mariana Pinho Cândido 12
Mariana Teles da Silva ........................................................................................ 77
Marileide Lázara Cassoli 83
Marília Bueno de Araújo Ariza .......................................................................... 65
Mario Davi Barbosa 78
Mariza de Carvalho Soares ................................................................................. 12, 32, 92
Mateus Rezende de Andrade 23
Maysa Espindola Souza ....................................................................................... 97
Melina Kleinert Perussatto 76
Mirella Soraya Pinheiro Rodrigues de Oliveira ............................................ 33
Mona Lisa Nunes de Souza ................................................................................ 57
Mônica Lima e Souza 12
Newman Di Carlo Caldeira ................................................................................ 102
Nielson Bezerra 92
Patrícia Teixeira Santos ...................................................................................... 12
Paula Chaves Teixeira Pinto 30
Paulo Cruz Terra .................................................................................................. 104
Paulo Henrique Fontes Cadena 38
Paulo Henrique Rodrigues Pereira ................................................................... 102
Petrônio Domingues 60, 93
Philippe Arthur dos Reis ..................................................................................... 43
Priscila de Lima Souza 72
Priscila Lourenço Soares Santos ....................................................................... 14
Rachel dos Santos Marques 84
Rafael da Cunha Scheffer ..................................................................................... 63

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


112
Rafael Domingos Oliveira da Silva 26, 77
Rafael José Barbi ................................................................................................... 52
Regina Celia Lima Xavier 51, 92, 95
Renata Figueiredo Moraes ................................................................................. 105
Renata Ribeiro Francisco 27, 77
Renato Leite Marcondes ..................................................................................... 30, 61, 62
Ricardo Figueiredo Pirola 64
Ricardo Tadeu Caires Silva ................................................................................ 66
Robson Williams Barbosa dos Santos 73
Rodrigo de Azevedo Weimer ............................................................................. 26
Roseli dos Santos 53
Sandra Michele Roth Eckhardt ......................................................................... 79
Sarah Calvi Amaral Silva 43
Silvio Cezar de Souza Lima ................................................................................ 90
Suely Creusa Cordeiro de Almeida 16, 58
Taina Aparecida Silva Santos ............................................................................ 21
Talyta Marjorie Lira Sousa Nepomuceno 23
Tatiane Rocha de Queiroz dos Santos ............................................................. 17
Tereza Caroline Lôbo 88
Thiago Campos Pessoa Lourenço ..................................................................... 38
Thiago Leitão de Araujo 50
Victor Santos Gonçalves ..................................................................................... 80
Vitor da Silva Costa 81
Vitor Hugo Monteiro Franco ............................................................................ 31
Vladimir Honorato de Paula 39
Wagner de Azevedo Pedroso ............................................................................. 92
Waldomiro Lourenço da Silva Jr. 85
Wildson Félix Roque da Silva ........................................................................... 18
Wlamyra Ribeiro de Albuquerque 60
Ynaê Lopes dos Santos ........................................................................................ 27

10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional


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10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
114
10º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional
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