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RIC - RELATÓRIO DE INFORMAÇÃO CARCERÁRIA

[NOME DO APENADO]

I – OBJETO: ANÁLISE DO PROCESSO DE EXECUÇÃO CRIMINAL N. […]

II - CONDENAÇÕES:

1. Processo nº […] – oriundo da Comarca de Tubarão/SC, no


qual foi condenado à pena de 8 (oito) meses de reclusão, a ser cumprida no
regime inicialmente semiaberto, por infração ao disposto no art. 155, caput c/c
art. 14, inciso II, do Código Penal;

2. Processo nº […] – oriundo da Comarca de Tubarão/SC, no


qual foi condenado à pena de 5 (cinco) anos e 4 (quatro) meses de reclusão, a
ser cumprida no regime inicialmente semiaberto, por infração ao disposto no
art. 157, § 2º, inciso II, do Código Penal;

3. Processo nº […] – oriundo da Comarca de Tubarão/SC, no


qual foi condenado à pena de 5 (cinco) anos e 4 (quatro) meses de reclusão, a
ser cumprida no regime inicialmente fechado, por infração ao disposto no art.
157, § 2º, inciso II, do Código Penal;

4. Processo nº […] – oriundo da Comarca de Tubarão/SC, no


qual foi condenado à pena de 1 (um) ano e 4 (quatro) meses de reclusão, a ser
cumprida no regime inicialmente fechado, por infração ao disposto no art. 157,
caput c/c art. 14, inciso II, ambos do Código Penal;

5. Processo nº […] – oriundo da Comarca de Tubarão/SC, no


qual foi condenado à pena de 5 (cinco) anos e 4 (quatro) meses de reclusão, a
ser cumprida no regime inicialmente semiaberto, por infração ao disposto no
art. 157, § 2º, inciso I, do Código Penal;
6. Processo nº […]– oriundo da Comarca de Tubarão/SC, no
qual foi condenado à pena de 6 (seis) anos e 8 (oito) meses de reclusão, a ser
cumprida no regime inicialmente fechado, por infração ao disposto no art. 157,
§ 2º, inciso I, do Código Penal.

III – SITUAÇÃO DA EXECUÇÃO PENAL

As penas foram somadas em 24 anos e 8 meses, pelo juiz da execução. Na


oportunidade foi fixado o dia 6-12-2010, como data-base para futuros
benefícios.

A partir de 6-12-2010, o juiz mencionou que faltariam 20 anos e 3 meses de


pena, quando deveria cumprir 1/6 desse total (que equivale a 3 anos e 4 meses
para alcançar a progressão).

Por isso, estabeleceu como previsão da progressão de regime o dia 20-4-2014.

IV – POSSIBILIDADE DE ALTERAÇAO DA DATA-BASE

Primeiramente, destaca-se que a data-base é o dia em que se


inicia a contagem do tempo necessário para alcançar a progressão de regime.

Por isso a data-base talvez seja o ponto mais importante da


execução da pena de um reeducando.

Contudo, em que pese a relevância do tema, não há qualquer


previsão em lei a respeito da data-base.

Logo, os juízes têm liberdade para estabelecer a data que


entenderem a adequada para fixar como data-base.

Pois bem.

Destacamos agora os fundamentos para que a data-base seja


alterada:
O juiz, na decisão de soma de penas, fixou a data-base no dia 6-
12-2010, quando foi cumprido mandado de prisão contra o reeducando do
último processo pelo qual foi condenado.

Entretanto, na referida data o reeducando já se encontrava


cumprido pena no regime fechado, no qual estava desde 12-3-2010, quando
fora recapturado. Destaca-se que no dia 25-11-2009, o reeducando já havia
sido regredido cautelarmente para o regime fechado.

Sendo assim, a mera intimação de mandado de prisão em razão


de sentença criminal definitiva não interrompe o período aquisitivo do tempo
de pena para fins de progressão, se o reeducando já estava cumprindo a pena
no regime fechado.

A Lei só admite a alteração de regime, e a consequente


alteração da data-base, em três casos: 1º) prática de novo crime; 2º) prática de
falta grave; 3º) condenação superveniente, “cuja pena, somada ao restante da
pena em execução, torne incabível o regime”.

Assim dispõe o art. 118 da Lei n. 7.210/84:

Art. 118. A execução da pena privativa de liberdade ficará sujeita à


forma regressiva, com a transferência para qualquer dos regimes
mais rigorosos, quando o condenado:
I - praticar fato definido como crime doloso ou falta grave;
II - sofrer condenação, por crime anterior, cuja pena, somada ao
restante da pena em execução, TORNE INCABÍVEL O REGIME (artigo
111).

Logo, a lei não permite excluir o tempo de pena cumprido no


regime fechado por causa da intimação do mandado de prisão, quando o
reeducando já estava preso em razão da execução penal.

Destaca-se o requisito objetivo da progressão de regime é


cumprir 1/6 da pena no regime anterior, conforme prevê o art. 112 da LEP:

A pena privativa de liberdade será executada em forma progressiva


com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinada
pelo juiz, quando o preso tiver cumprido ao menos um sexto da
pena no regime anterior e ostentar bom comportamento carcerário,
comprovado pelo diretor do estabelecimento, respeitadas as normas
que vedam a progressão.
Portanto, a data-base para fins de progressão deve ser o exato
dia em que o reeducando passou a cumprir a pena no regime fechado.

A fixação de data-base em dia posterior ao da última prisão


(fora os casos de regressão) representa imensurável desestímulo para aquele
reeducando que deseja se ressocializar, mas possui processos em andamento,
representando clara violação dos objetivos da execução penal, já que “tem por
objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar
condições para a harmônica integração social do condenado e do internado”
(art. 1º da LEP).

Por consequência, o Estado Democrático de Direito também é


abalado, tendo em vista que um de seus pilares, a dignidade da pessoa humana
(art. 1º, III, da CF/88), não é respeitado pelo próprio Poder Judiciário.

O princípio da humanidade também é infringido na medida em


que obrigar o apenado a cumprir novamente todo o requisito objetivo da
progressão, sem ter cometido qualquer falta, representa demasiada crueldade e
tratamento degradante da pena, o que é vedado pela Constituição (art. 5º,
XLVII) e pela Convenção Americana de Direitos Humanos (art. 5º, item 2).

As penas devem ser executadas observando sempre o princípio


da humanidade que “pressupõe uma execução humana e responsável”
(Jescheck apud Brito, 2011. p. 44)

Vale aqui consignar as palavras do Min. Fontes de Alencar


proferidas no HC 9.892;

Senhor Presidente, ouvi com atenção a palavra do eminente


Relator, do ilustre Advogado e estou a refletir que um dos
fundamentos do Estado Democrático de Direito, tal como estabelece
o art. 1° da Constituição, é a dignidade da pessoa humana. Ora, se
um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito assentados
na Constituição é a dignidade da pessoa humana, qualquer lei
ordinária há de ser interpretada à luz desses fundamentos do Estado
brasileiro. Dito isto, pergunto- me: O que seria o homem sem
esperança? Lembrando que, na sua Divina Comédia, Dante Alighieri
colocou os que desejam sem esperança no Inferno. Não
podemos fazer isso com aqueles que recebem a reprimenda da lei.
Eis a ementa do julgado:

RECURSO SUBSTITUTIVO DE HABEAS-CORPUS. ART. 75 DO CÓDIGO


PENAL. MUDANÇA DO REGIME CARCERÁRIO.
- A dignidade da pessoa humana, um dos fundamentos do Estado
Democrático de Direito, ilumina a interpretação da lei ordinária.
- Ordem concedida.
(HC 9892/RJ. Rel. Min. Hamilton Carvalhido. Rel. p/ Acórdão Min.
Fontes De Alencar. Sexta Turma. DJ 26-3-2001).
Da mesma forma, representa ofensa ao princípio da legalidade,
pois “não há execução da pena sem lei. O princípio da legalidade garante que
tanto juiz como autoridade administrativa correrão para com as finalidades da
pena, garantindo direitos e distribuindo deveres em conformidade com a lei”
(Brito, Alexis de Couto. Op., cit. p. 43 - grifamos).

A alteração da data-base em decorrência de intimação de


mandado de prisão de sentença condenatória transitada em julgado fere o
princípio da isonomia, pois aquele que padece da morosidade do Poder
Judiciário (que é a maioria dos casos) estará em desarrazoada desvantagem em
relação àquele que é processado e julgado de forma célere.

Aqui também se evidencia a desproporcionalidade da afixação


da data-base no dia da intimação, pois “um dos caracteres da pena que deve
traduzir os interesses da defesa social e a garantia individual consubstanciada
no direito do condenado de não sofrer uma punição que exceda a medida do
mal causado pela infração” (Dotti apud Brito, Alexis de Couto. Op., cit. p. 45).

Além disso, essa alteração da data-base viola princípios


consagrados na Constituição Federal que foram árduas conquistas da
humanidade.
Isso porque a aplicação desse entendimento coage, quase que
irresistivelmente, o apenado que fora sentenciado em primeiro grau a não
recorrer, mesmo que inocente, no afã de obter o trânsito em julgado mais
rapidamente.

Essa “COAÇÃO” representa afronta direta ao princípio do


contraditório, da ampla defesa, do devido processo legal e do duplo grau de
jurisdição, todos previsto expressamente na CF/88 (art. 5º, LIV e LV):

LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o


devido processo legal;
LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos
acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa,
com os meios e recursos a ela inerentes;

O egrégio Tribunal de Justiça de Santa Catarina, em sua maioria,


acolhe o entendimento de que a data-base é o dia do início do cumprimento da
pena, veja-se magistral decisão proferida pela 4ª Câmara Criminal:

EXECUÇÃO PENAL. VÁRIAS CONDENAÇÕES. SOMA DAS PENAS.


CONTAGEM DO REQUISITO OBJETIVO NECESSÁRIO À PROGRESSÃO
DE REGIME DE CUMPRIMENTO DE PENA NÃO REINICIADO NA DATA
DO TRÂNSITO E JULGADO DA NOVA CONDENAÇÃO. DIVERGÊNCIA.
ENTENDIMENTO CONTRÁRIO AO POSICIONAMENTO ADOTADO
PELAS CORTES SUPERIORES. AUSÊNCIA DE DISPOSITIVO LEGAL
EXPRESSO. INTERPRETAÇÃO QUE DEVE SER REALIZADA EM
BENEFÍCIO DO APENADO, SOB PENA DE APLICAÇÃO DA ANALOGIA
IN MALAM PARTEM. ENTENDIMENTO DAS CORTES SUPERIORES QUE
PODE ACARRETAR DESIGUALDADE ENTRE OS APENADOS DOS
ESTADOS-MEMBROS DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL, BEM
COMO DO DISTRITO FEDERAL, POIS O TRÂNSITO EM JULGADO
DEPENDE DA CELERIDADE DAS AÇÕES PENAIS EM CADA PODER
JUDICIÁRIO ESTADUAL. DECISÃO MANTIDA.
Não mencionado expressamente na Lei de Execução Penal o termo
inicial acerca do requisito objetivo para a concessão da progressão de
regime quando houver nova condenação do apenado, deve-se
interpretar os dispositivos legais que tratam da questão de forma a
não prejudicar o reeducando, pelo contrário, aplicando o princípio
da legalidade, extremamente importante no direito da última razão,
a interpretação deve ser a mais benéfica, sob pena de analogia in
malam partem, o que é vedado. Além disso, o entendimento
sufragado nas Cortes Superiores de que o termo inicial para
concessão dos benefícios deve corresponder à data do trânsito em
julgado da nova condenação, pode gerar várias injustiças
decorrentes da demora na prestação jurisdicional em algumas
ações penais, ou até mesmo cerceamento de defesa, pois o réu, no
intuito de obter sua absolvição ou redução da pena, deverá abdicar
dos recursos legais para abreviar o trânsito em julgado da decisão
condenatória. Finalmente, destaca-se que a data do trânsito em
julgado da nova condenação, como reinício da contagem do requisito
objetivo (cumprimento de 1/6 da pena) para a concessão de
benefícios, acarretará enorme desigualdade em desfavor dos
apenados no país, pois é cediço que em alguns Estados-Membros da
República Federativa do Brasil, as ações penais são mais céleres do
que em outros. (Recurso de Agravo n. 2011.021719-7, de Criciúma,
rel. Des. Jorge Schaefer Martins. Quarta Câmara Criminal. DJ 6-7-
2011).
Ademais:

AGRAVO - EXECUÇÃO CRIMINAL - PROGRESSÃO DE REGIME -


UNIFICAÇÃO DE PENAS - LEP, ART. 111, PAR. ÚNICO - CONDENAÇÃO
SUPERVENIENTE - CÔMPUTO DO PRAZO PARA O BENEFÍCIO - DATA
DA ÚLTIMA PRISÃO - AUSÊNCIA DE MANIFESTAÇÃO NA ORIGEM
ACERCA DOS REQUISITOS OBJETIVO E SUBJETIVO - INVIABILIDADE DE
ANÁLISE SOB PENA DE SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. I - A Lei n.
7.210/84 é omissa no sentido de estabelecer o termo inicial de
contagem da pena para a concessão das benesses decorrentes da
execução, sobretudo em sede de unificação, em que implicará no
mesmo regime de resgate da reprimenda, de sorte que, nesta
situação, deve ser sempre resolvida em favor do condenado. Desse
modo, o cômputo da pena cumprida para fins de progressão de
regime deverá ser da data da última prisão e não da data do mais
recente trânsito em julgado, porquanto não se deve desprezar o
período em que o apenado estivera segregado antes da sentença
condenatória proferida no curso da execução por crime anterior. II –
[...]. (Recurso de Agravo n. 2011.080115-2, da Capital, rel. Des. Salete
Silva Sommariva. Segunda Câmara Criminal. DJ 23-2-2012 grifou-se).

RECURSO DE AGRAVO. EXECUÇÃO PENAL. INSURGÊNCIA


MINISTERIAL CONTRA DECISÃO QUE DEFERIU PEDIDO DE
PROGRESSÃO DE REGIME TENDO COMO DATA-BASE A ÚLTIMA
PRISÃO DO REEDUCANDO. PRETENDIDA APLICAÇÃO DA DATA DO
TRÂNSITO EM JULGADO DA ÚLTIMA CONDENAÇÃO.
IMPOSSIBILIDADE. SENTENÇA HOMOLOGATÓRIA DE SOMA DAS
PENAS QUE NÃO ALTEROU O REGIME DO RESGATE DA REPRIMENDA.
RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. (Recurso de Agravo n.
2011.007470-0, de Criciúma, rel. Des. Marli Mosimann Vargas.
Primeira Câmara Criminal. DJ 25-3-2011 – Grifou-se).
AGRAVO EM EXECUÇÃO PENAL. DEFERIMENTO DE PROGRESSÃO DE
REGIME. LAPSO TEMPORAL CONTADO DESDE A ÚLTIMA PRISÃO DO
REEDUCANDO. IRRESIGNAÇÃO MINISTERIAL. PRETENDIDA, PELO
AGRAVANTE, A CONTAGEM A PARTIR DA DATA DA SENTENÇA DE
SOMA E, PELA PGJ, A PARTIR DA DATA DO ÚLTIMO TRÂNSITO EM
JULGADO. PRETENSÕES INVIÁVEIS. SENTENÇA DE PRIMEIRO GRAU
MANTIDA. "Somadas as penas aplicadas em processos distintos e
em não havendo modificação do regime prisional, o termo inicial
para contagem do prazo para a progressão (LEP, artigo 112) é a data
da última prisão do reeducando, não interrompido pela nova
condenação (RA n. 1999.001513-0, de Lages, rel. Des. Nilton Macedo
Machado)" (Recurso de Agravo n. 2007.056638-9, de Balneário
Camboriú, rel. Amaral e Silva, j. em 19/12/2007). RECURSO
DESPROVIDO. (Recurso de Agravo n. 2011.039150-3, de Criciúma, rel.
Des. Alexandre d'Ivanenko. Terceira Câmara Criminal. DJ 9-8-2011 –
grifou-se).

“A última prisão” a que se referem os julgados se trata do dia


em que o reeducando passou a efetivamente a se encontrar na situação de
encarcerado.

Portanto, deve a data-base ser alterada para o dia da última


prisão do reeducando, que neste caso é a mesma que passou a cumprir a pena
no regime fechado, que ocorreu no dia 12-3-2010.

V – PREVISÃO DE BENEFÍCIOS

Com a alteração da data-base para o dia da última prisão, a situação da


execução ficará da seguinte forma:

1. Pena total: 24 anos e 8 meses;


2. Data-base: 12-3-2010;
3. Pena cumprida até a data base: 3 anos e 6 meses;
4. Pena remanescente (sobre a qual será calculado o 1/6): 21 anos e 2
meses;
5. 1/6 de 21A2M: 3 anos e 6 meses e 10 dias;
6. Pena cumprida após a data-base: 2 anos, 6 meses e 23 dias;
7. Remição: 132 dias até junho de 2011 = 4 meses e 12 dias;
8. Remição a partir de jun/2011: 3 meses (estimativa);
9. Pena total cumprida: 3 anos, 2 meses e 5 dias, com a remição estimada;

VI - CONCLUSÃO: falta aproximadamente 4 meses para alcançar o benefício da


progressão de regime, com a alteração da data-base.

É o relatório.

Florianópolis, 3 de outubro de 2012.