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Departamento de Teologia

MITOLOGIA CANANEIA: A FIGURA DE BAAL E SEU CULTO NO


“MITO DE BAAL” DE UGARIT

Aluna: Quézia de Melo Souza


Orientadora: Maria de Lourdes Corrêa Lima

Introdução
Quando nos deparamos com a palavra "mitologia" temos a tendência de associar o termo
com a civilização grega, muitas vezes isso ocorre de maneira automática. De fato, a mitologia
grega ganhou destaque por sua grande influência, em particular, no mundo ocidental. Porém é
importante perceber que existem outras estruturas mitológicas que também inspiraram outras
culturas. Como exemplo, temos os povos do Antigo Oriente Próximo, que tiveram grande
influência da mitologia cananeia. A leitura de textos mitológicos cananeus nos dá pistas de como
se estruturavam e se organizavam aquelas antigas civilizações.

1. Textos mitológicos cananeus


Através dos textos mitológicos encontrados em Ugarit, é possível compreender a
substância de fé de civilizações que floresceram nessa região da Síria no segundo milênio a.C.
Nessa perspectiva, o trabalho aqui apresentado tomou como objeto de estudo, particularmente,
os textos do Ciclo de Baal, relevante divindade da região.

1.1 Ugarit: história e arqueologia


A cidade de Ugarit foi uma antiga cidade portuária, conhecida atualmente como Ras
Shamrá, situada na costa norte do leste Mediterrâneo, a cerca de 1 km do Mar Mediterrâneo, 10
km da atual cidade de Latakia e 345 km ao norte de Damasco.1
Sabe-se relativamente pouco sobre os primeiros períodos do local, porém é possível
verificar que a cidade possui vestígios de ocupação desde o período do neolítico (6500 a.C).
Mas foi a partir do início da Idade do Bronze (3000 a.C) que a região apresentou um gradual
desenvolvimento. Embora nunca tenha se tornado um grande reino, pode-se afirmar que Ugarit
foi um próspero centro comercial, e, a partir de 1900 a.C., sofreu um crescimento urbano
espetacular. Os fatores geográficos são os principais agentes de seu desenvolvimento. Ao norte,
leste e sul, a cidade era cercada por montanhas e a nordeste por um vale. Essa localização foi
extremamente favorável para o estabelecimento de um porto comercial na costa do
Mediterrâneo. O que viabilizou uma rota ideal para o comércio com os antigos reinos do norte,
Síria e Mesopotâmia. Um outro fator geográfico relevante é que essa região possuía condições
climáticas extremamente favoráveis às atividades agrícolas. 2
Quanto à destruição de Ugarit, calcula-se que tenha ocorrido aproximadamente em 1.200
a.C., durante o tempo dos Reis Niqmadu III e Ammurapi. Nesse período, ataques dos chamados
"Povos do Mar" estavam causando uma preocupação crescente às civilizações do Oriente
Próximo, inclusive aos governantes hititas e egípcios, como revelado em suas correspondências.

1
SCHNIEDEWIND, Willian M; HUNT, Joel H. A Primer on Ugarit: Language, Culture and Literature. Cambrigde:
University Press: 2007, p. 5-21
2
YON, Marguerite. The city of Ugarit at Tell Ras Shamra (Cité d'Ougarit sur le tell de Ras Shamra). Winona Lake,
Ind.: Eisenbrauns,2006, p. 15-16.

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A chegada destes novos invasores criou uma reviravolta naquela região e desempenhou um
papel decisivo na destruição de Ugarit.3
A história do descobrimento das ruínas de Ugarit teve início em março de 1928, quando
um agricultor, arando sua propriedade, removeu uma pedra e encontrou uma tumba antiga. As
escavações em Ugarit começaram sob a direção do arqueólogo francês Claude Schaefer em
1929. Pouco depois do início das escavações, juntamente com peças e objetos de bronze,
apareceram numerosos tabletes de argila escritos com caracteres cuneiformes. Isto representou
o começo de uma série ininterrupta de achados arqueológicos e epigráficos. A primeira série de
campanhas durou de 1929 a 1939, sendo interrompida pela II Guerra Mundial. Porém, em 1948
as escavações foram retomadas e prosseguiram durante os anos seguintes. De 1929 a 1980 foram
realizadas 40 campanhas arqueológicas. Os escavadores descobriram documentos,
principalmente no palácio e nos templos que ficavam nessa região, embora alguns textos fossem
encontrados em residências de pessoas provavelmente importantes dessa antiga cidade. A
identificação de um sítio arqueológico tão amplo não apresentou maiores dificuldades porque,
antes mesmo das descobertas do sítio da antiga Ugarit, os estudiosos já sabiam de sua existência
e importância através dos arquivos escavados em Amarna no Egito e em Boghazköy na Ásia
Menor. Dessa forma, Ugarit já era conhecida mediante referências da literatura mítica egípcia e
mesopotâmica.4

1.2 Os textos de Ugarit / Ras Shamra


Os textos antigos descobertos em Ras Shamrá foram encontrados em tabletes de argila,
em uma “Biblioteca” anexa ao templo de Baal e no “Palácio Real” ou “Grande Palácio”. Sendo
que esse último possuía diversas dependências para arquivos. Esses escritos revelaram
informações importantes sobre a vida intelectual, religiosa e cultural em Ugarit, descrevendo os
diversos aspectos da vida na antiga cidade. Os primeiros textos encontrados eram
preponderantemente literários e mitológicos, enquanto os posteriores eram de natureza
administrativa e diplomática. Esses textos podem ser divididos nas seguintes categorias: (1)
Textos literários, epopeias e hinos; (2)Textos cerimoniais, rituais e médicos; (3) Textos
didáticos (abecedários, exercícios escolares e dicionários); (4) Documentos diplomáticos
(tratados e cartas); (5) Textos administrativos e econômicos (inventários, listas, registros etc).
Os tabletes de argila foram redigidos em sete sistemas diferentes de escrita, correspondente a
sete línguas diferentes: em egípcio, em hitita, em acádio, em hurrita, em micênico, em cipriota
e em ugarítico. Os escribas de Ugarit usavam o método cuneiforme da escrita. Uma cana
pontiaguda era usada para imprimir sinais em um pedaço de argila úmida adequadamente
preparada.5
Esses arquivos encontrados indicaram vestígios de muitas escolas de escribas espalhadas
pela cidade. Aparentemente, muitos desses textos teriam sido escritos por um escriba conhecido
como Ilimilku. Os principais responsáveis na decifração desses documentos foram H. Bauer, E.
Dhorme e Ch. Virolleaud.

3
Ibidem p. 21
4
LETE, Gregorio Del Olmo. Mitos y Leyendas de Canaan Segun la Tradicion de Ugarit. Madrid: Ediciones
Cristiandad, 1981; p.23
5
Ibidem, p. 30

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Os textos mitológicos que se concentram nas divindades refletem o universo teológico


ugarítico e fornecem pistas de como era a vida interior do povo.

2. Os mitos do Ciclo de Baal: descrição, sentido e função


O ciclo ugarítico de Baal foi preservado em seis tabuinhas de argila (KTU 1.1-6) e está
dividido em três seções principais: A luta de Baal contra Yammu (KTU 1.1-1.2); A construção
do palácio de Baal (KTU 1.3-1.4); A luta de Baal contra Môtu (KTU 1.5-1.6)6
KTU é a sigla para Keilalphabetischen Texte aus Ugarit. Esse é o sistema de referência
dos textos ugaríticos utilizado pelos estudiosos desse assunto. Os textos não foram compilados
pela ordem de escavação, mas segundo uma classificação. Podemos entender essa classificação
da seguinte maneira: o número 1, no início da referência, significa que se trata de textos literários
e textos religiosos (o número 2, no início, por exemplo, classifica as cartas, e assim
consecutivamente). O outro número ordinal que aparece na referência corresponde ao tablete
em que o texto está localizado, e o numeral romano indica a coluna do texto.
Por conter informações relevantes sobre a base da religião cananeia, o Ciclo de Baal é alvo
de muitos debates entre os estudiosos. Pelo menos cinco correntes interpretativas servem de
amparo para a compreensão do sentido e função dos três mitos. Essas seriam: Interpretação
ritual; interpretação sazonal; teoria cosmogônica; conflito “força da vida versus potência da
morte” e exaltação de Baal como rei.7 Cada uma dessas interpretações ilumina vários aspectos
do Ciclo de Baal e nos permite ter uma ideia de possíveis sentidos e funções presentes no texto.
No entanto, é importante considerar que, mesmo tendo avançado significativamente, nenhuma
delas consegue dar conta de todo o conteúdo presente no mito. Um ponto em comum entre a
maioria dos intérpretes é com relação ao Ciclo ser fundamentalmente uma narrativa de conflito
e resolução. Se por um lado Baal representa a fonte de vida no cosmos, por outro lado Yammu
e Môtu representam o caos, a morte e destruição.
Os três textos aqui desenvolvidos formam uma aparente unidade que se estrutura em volta
do deus Baal como senhor do cosmos e da ordem. Abordaremos separadamente cada um dos
três mitos dividindo-os da seguinte maneira: Na primeira parte, apresentaremos um breve
panorama do mito, na segunda parte descreveremos o mito, seguindo o esquema utilizado por
Olmo Lete8, e por fim apresentaremos algumas interpretações referentes ao sentido do mito.

2.1 A luta entre Baal e Yammu


Essa primeira parte do Ciclo marca a ascensão de Baal ao poder e tem como protagonistas,
Baal e Yammu. Este poema descreve o feroz combate entre esses dois deuses. Yammu estava
associado ao mar, por isso era conhecido como o “deus do mar” na língua semítica. O texto
começa com um lamento, que descreve a situação precária deste deus em sua morada. Tal
lamento tem como objetivo comover El (o deus supremo), a fim de que este dê a Yammu um
palácio e autoridade sobre os demais deuses. No panteão ugarítico, o apoio de El somado a uma
vitória sobre algum oponente é imprescindível para estabelecer a soberania de qualquer

6
LETE, Gregorio Del Olmo. Mitos y Leyendas de Canaan Segun la Tradicion de Ugarit. Madrid: Ediciones
Cristiandad, 1981, p. 88-90
7
SILVA, Cassio Murilo Dias. Aquele que manda chuva sobre a face da terra. Loyola, 2006; p.262
8
LETE, Gregorio Del Olmo. Mitos y Leyendas de Canaan Segun la Tradicion de Ugarit. Madrid: Ediciones
Cristiandad, 1981.

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divindade. É nesse sentido, de legitimidade, que a narrativa é conduzida para um confronto entre
Yammu e Baal, o protagonista do ciclo. Baal é apresentado como o principal oponente de
Yammu e como o deus que é capaz de afrontar El para não ter que se submeter ao governo do
“deus do mar”. No decorrer da trama, El promove encontros, convocando os deuses para
concordar e colaborar com a sua decisão de proclamar Yammu como deus governante no
panteão ugarítico. Destas convocações, se destacam encontros de El com dois deuses: Anatu e
Kôtaru. Esses dois surgem como personagens secundários na trama, mas ainda assim
extremamente relevantes no desenvolvimento no mito. Com respeito a Anatu, o texto relata um
episódio em que esta deusa se opõe a Baal e a sua fúria destruidora. Com relação a Kôtaru, o
texto destaca a importância deste deus para a construção do palácio de Yammu e, no final da
narrativa, o seu apoio a Baal.
Outros dois personagens secundários na trama são Sapsu e Attaru. Esse último aparece
como um possível oponente de Yammu, disposto a enfrentá-lo com o propósito de adquirir
também um palácio. Sapsu, por sua vez, é quem alerta Attaru sobre a sua inaptidão para o cargo
de rei e sobre a preferência de El por Yammu.
O mito enfatiza a insatisfação de Baal em relação à postura dos deuses que acatam, sem
questionar, a decisão de El. Baal fica revoltado a ponto de atacar os mensageiros de Yammu,
expressando toda a sua vontade de ver o deus do mar destruído. Dessa forma, a trama se
encaminha para um particular combate entre Yammu e Baal. A princípio, Yammu parece estar
imune a Baal, porém a sorte de Baal muda com a intervenção mágica do deus artesão Kôtaru,
que lhe dá armas capazes de destruir seu adversário. A supremacia de Baal finalmente se impõe
e El admite sua vitória, mesmo contra a própria vontade.
Após esse breve panorama do primeiro mito do Ciclo de Baal, é relevante apresentar a
forma como este mito é estruturado e os detalhes da trama.

Situação de Baal (1.1 V 1-28). Olmo Lete esclarece que tanto a primeira quanto a última coluna
deste mito estão muito danificadas e por isso torna-se difícil oferecer interpretações seguras
sobre elas. O que alguns comentaristas afirmam, com base no que está escrito em 1.1 IV 23, é
que Baal vangloriou-se e afrontou o deus supremo El. E isso motivou El a proclamar Yammu
como rei, atendendo à vontade do próprio Yammu.9
Lamento por Yammu (1.1 IV 2-12). A coluna IV também apresenta uma interpretação incerta
por possuir lacunas deterioradas. Olmo Lete, para explicá-la, parte de um lamento feito por
Yammu sobre a situação que ele se encontra em sua morada. Yammu parece estar situado,
naturalmente, nas profundezas do mar, o que seria um aparente inferno. Por isso a necessidade
de El proclamá-lo rei sobre os deuses e lhe dar um palácio. Essa é uma circunstância mitológica
primordial, que dá a entender que a “realeza” entre os deuses ainda não estava consolidada.
Proclamação de Yammu (1.1 IV 13-27). A trama continua com El proclamando Yammu e
prometendo-lhe um palácio. Aparentemente, Yammu é acolhido pelos outros deuses. Essa seção
dá a entender que a proclamação de Yammu, também tem como motivação, a insatisfação de El
com relação a Baal.
Cena de um banquete (1.1 IV 28-32). Um banquete é oferecido por El a todos os deuses com o
propósito de celebrar a proclamação de Yammu.

9
Ibidem, p. 90-99

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Mensagem de El a Kôtaru (1.1 III 1-16). Essa seção narra o momento que Kôtaru (deus da magia
e da arte) recebe, por meio de dois mensageiros, uma convocação de El.
Resposta de Kôtaru (1.1 III 17-21). Kôtaru aceita obedientemente a convocação de El e se dirige
a morada do deus supremo.
Marcha de Kôtaru (1.1 III 21-25). Esse trecho narra a chegada de Kôtaru na morada de El.
Ordem do deus El (1.1 III 26-30). A única coisa que podemos afirmar aqui é que El deu uma
ordem a Kôtaru, mas não fica claro para o leitor que ordem foi essa. Alguns comentaristas
sugerem que El pediu ao deus artesão que construísse um palácio para Yammu.
Mensagem de El a Anatu (1.1 II 1-13). Esta passagem mostra El dando encargo a seus
mensageiros para que esses entregassem uma mensagem à deusa Anatu.
Transmissão da mensagem (1.1 II 14-25): os mensageiros vão até Anatu e entregam a mensagem
de El conforme a orientação que ele lhes deu.
Resposta de Kôtaru (1.2 III 1-3). Enquanto isso, Kôtaru, que já havia voltado a sua morada para
executar a missão dada por El, recebe uma nova convocação do deus supremo.
Marcha de Kôtaru e Ordem do deus El (1.2 III 4-11). Kôtaru se apresenta novamente à presença
de El e recebe dele, por três vezes, a ordem de construir um palácio para Yammu.
Execução da ordem. Reação de Attaru (1.2 III 11-14). Kôtaru, deus artesão, segue executando
a ordem recebida por El. A sequência do texto aponta para a reação do deus Attaru em uma
conversa com a deusa Sapsu. Attaru expõe a sua pretensão de conquistar o trono que estaria
destinado a Yammu.
Réplica de Sapsu (1.2 III 15-18). Sapsu responde a Attaru, esclarecendo a preferência de El por
Yammu e o desejo do deus supremo em ter Yammu presidindo os deuses. Deixando evidente
que seria inútil a pretensão de qualquer outro deus ao trono.
Resposta de Attaru. Contrarréplica de Sapsu (1.2 III 18-24). Attaru se queixa de não ter um
templo próprio. Então, Sapsu expõe o fato de Attaru não ter uma mulher como os demais deuses,
o que lhe impossibilitaria de assumir a realeza. Palácio, mulher e filhos são condições essenciais
para ser rei no panteão ugarítico.
Maldição de Baal (1.2 I 3-10). Baal demonstra toda sua insatisfação com a proclamação de
Yammu e lança maldições contra ele. Sua atitude pode ser considerada como um ato de rebelião
contra os desígnios de El e insubmissão para com Yammu.
Mensagem do deus Yammu (1.2 I 11-19). Yammu recorre a El e lhe envia uma mensagem. Nessa
mensagem, Yammu faz menção aos bens de Baal, a fim de tomar posse de sua riqueza, isto é,
destituí-lo e substituí-lo.
Reação dos deuses. Reprovação de Baal (1.2 I 19-29). A maioria dos deuses fica intimidada
quando vê os mensageiros de Yammu se aproximando. Baal então os repreende por se
comportarem como covardes e os convoca a levantarem suas cabeças e serem corajosos. Os
deuses menores obedecem a Baal.
Transmissão da mensagem (1.2 I 30-35). Os mensageiros de Yammu chegam diante de El e,
com a devida revereência, apresentam a El a mensagem de Yammu, exigindo a rendição de
Baal.
Resposta de El (1.2 I 36-38). El corresponde à expectativa de Yammu e declara Baal seu servo.
Reação de Baal (1.2 I 38-47). Essas linhas detalham a reação inicial de Baal ao discurso de El.
Ao contrário dos demais deuses, Baal não se mostra receptível à decisão de El e agride os
mensageiros de Yammu. Anatu e Attaru tentam amenizar a situação e se colocam na frente de
Baal para impedi-lo, porém sem sucesso.

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Cena do combate (1.2 IV 1-7). Na continuação, Baal ataca o próprio Yammu, que, contudo, se
mostra invencível. Baal confessa sua impotência para dominar Yammu.
Intervenção de Kôtaru (1.2 IV 7-10). Neste momento entra em cena Kôtaru, que responde à
declaração de Baal, afirmando que chegou o momento decisivo. Kôtaru também fala sobre a
técnica que Baal deve usar para vencer Yammu.
Cena do feitiço/magia (1.2 IV 11-26). A grande batalha entre Baal e Yammu pode ser dividida
em duas partes, cada uma das quais é precedida por um encantamento de Kôtaru, que
proporciona uma arma mágica a Baal. No primeiro ataque, Baal é malsucedido, mas no segundo
ele consegue ferir Yammu. Várias partes do corpo de Yammu são mencionadas: suas
articulações, tronco, braços, cabeça e olhos, dando a entender que ele foi mutilado.
Cena do combate (1.2 IV 27-40). Baal se mostra preparado para destruir completamente
Yammu, porém Attaru surge, mais uma vez, se opondo a Baal. Ele repreende a Baal por querer
matar Yammu, tendo em vista que este goza do direito de cativeiro. Baal, por sua vez, ignora
Attaru e repetidamente proclama que Yammu já está morto. Várias proclamações da realeza de
Baal despontam na narrativa.

Em síntese:
Segundo Olmo Lete, o conflito entre Yammu e Baal parece estar relacionado
principalmente à ideia do caos original, tema de toda a mitologia oriental. Para ele, o mito reflete
o contraste entre o caos aquoso e o cosmo organizado e fértil. Dessa forma ele defende que
primeiramente, o mito tem um sentido cósmico, e posteriormente um sentido sazonal.10

2.2 O Palácio de Baal


Depois da vitória sobre Yammu, Baal recorre ao deus supremo e manifesta a
necessidade de construir um palácio para que seu governo sobre deuses e homens seja
estabelecido. Esta construção exigirá uma série de reuniões e discussões de natureza
diplomática. A construção de um palácio é elemento indispensável para o desempenho efetivo
da dita soberania.
O segundo mito tem início com a cena de um banquete. Porém, o enredo começa a se
desenvolver a partir do momento que Baal reclama com Anatu que não tem um palácio. Após
esse diálogo com Baal, Anatu decide encarregar-se de solicitar a autorização de El para
construção do edifício. Ao que parece, Anatu não é bem sucedida em seu encargo e então ela e
Baal decidem buscar a boa vontade e a intervenção de Atiratu, a deusa consorte, para convencer
o deus supremo a autorizar a construção e efetivar a proclamação de Baal. Atiratu se deixa
convencer pelos dois deuses e se encaminha com eles à morada de El. Ela é recepcionada por
El com muita alegria e entusiasmo. Então, sem esperar muito, ela expõe a El seu desejo de que
Baal seja reconhecido como rei dos deuses por decreto e que lhe seja construído um palácio.
Para agradar à deusa, El decreta a construção do palácio de Baal. O decreto enche Atiratu de
júbilo e então ela ordena que a notícia seja encaminhada o mais rápido possível a Baal para que
a construção do palácio comece o mais breve possível. Assim que Anatu dá a notícia a Baal, ele
se apressa em executar as orientações de Atiratu. A primeira coisa que Baal faz é convocar
Kôtaru para dar início à edificação do palácio. De acordo com Kôtaru uma claraboia deve entrar

10
Ibidem, p.146

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no projeto do edifício, porém Baal inicialmente se opõe à ideia. Mas logo após a confirmação
de seu reinado, Baal retoma o assunto da claraboia e volta atrás em sua decisão, autorizando
Kôtaru a executar a construção.
O mito termina com Baal sentado em seu trono, lançando um desafio ao último oponente
que lhe sobrou, Môtu, divindade que tem seu trono no inferno. Baal tem como objetivo impor
sua soberania. Para isso ele envia seus mensageiros a Môtu a fim de obrigá-lo a submeter-se ao
seu domínio.
O mito se abre continuando a narrativa que é apresentada no tablete anterior (1.2 IV) e se
estrutura da seguinte maneira:

Cena do banquete (1.3 I 1-27). O texto começa descrevendo um banquete e finaliza com Baal
contemplando suas filhas.
Cena do combate (1.3 II 2 – III 2). As sequências dos episódios não são claras, por causa das
lacunas que separam um episódio do outro. Porém, é possível dividir essa cena em três partes.
A primeira parte mostra Anatu se preparando, se perfumando e então saindo de seu palácio para
participar de uma batalha apocalíptica. A segunda parte fala de um novo combate, mas esse é
mencionado usando a imagem e os símbolos da preparação de um banquete. Nessa cena Anatu
parece se regozijar com o que contempla. A terceira parte descreve a purificação do palácio e
da própria deusa.
Mensagem de Baal (1.3 III 4-31). Esta seção é aberta com uma canção sobre o amor de Baal e
o amor de suas três filhas. É difícil entender a relação desse início com a sequência do texto,
porém a maioria dos comentaristas considera essa seção como parte do discurso de Baal,
instruindo seus mensageiros sobre uma mensagem que eles deveriam entregar a Anatu. Os dois
deuses são instruídos a ir até Anatu e se curvarem diante dela. Esses mensageiros são
identificados como as divindades menores Gapnu e Ugaru.11
Reação de Anatu (1.3 III 32 – IV 4). Nessa seção é apresentado o relato da chegada dos
mensageiros no palácio de Anatu. Ao ver os mensageiros de Baal, Anatu passa por uma série
de reações físicas que expressam seu grande medo. A deusa está preocupada que esta visita
inesperada tenha como motivo, más notícias. Anatu cita uma lista de inimigos cósmicos.
A transmissão da mensagem (1.3 IV 5-20). Os mensageiros de Baal acalmam Anatu de seus
medos e enfim transmitem a mensagem de Baal à deusa.
A resposta de Anatu (1.3 IV 21-36). Anatu responde ao convite de Baal e sai de sua morada para
se encontrar com ele.
Encontro com Baal (1.3 IV 37-46). Baal avista Anatu de longe e começa os preparativos para
recebê-la. Ele afasta sua “mulher” ou coletivamente “mulheres” e prepara um banquete
extravagante para Anatu. A ênfase aqui sugere a alegria e o entusiasmo com que Baal está
cumprimentando sua convidada. Após esse relato o texto descreve um ritual de purificação e
narra Anatu lavando-se e embelezando-se.
A situação de Baal (1.3 IV 47-53). Baal expõe à deusa Anatu um lamento a respeito de sua
situação precária. Ele fala sobre sua necessidade de um lar e de seu desejo de um palácio.

11
SMITH, Mark S; PITARD, Wayne T. The Ugaritic Baal Cycle: Introduction With Text, Translation and
Commentary of KTU/CAT 1.3-1.4 (Vol. II). Supplements to Vetus Testamentum: Leiden/Boston, 2009, p.150-
237

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Resposta de Anatu (1.3 IV 53 – V 4). Anatu inicia sua resposta anunciando sua intenção de
transmitir a reclamação a El. Anatu completa sua resposta descrevendo o que ela planeja fazer
a El se ele se recusar a atender ao seu pedido. Ela ameaça puxar El para o chão como se ele
fosse um animal preparado para o abate.
Marcha de Anatu (1.3 V 4-18). Concluindo seu discurso, Anatu vai à morada de El e, ao chegar,
o deus supremo a recebe mantendo-se distante dela.
Mensagem de Anatu (1.3 V 19-25). Anatu registra seu descontentamento com El e em seguida,
ameaça atacá-lo, mesmo sem ter ao menos apresentado o lamento de Baal.
Diálogo entre El e Anatu (1.3 V 25-34). El responde a Anatu e a sua postura ameaçadora. A
narrativa menciona que El continua afastado e responde a Anatu de sua câmara interior, em vez
de falar com ela presencialmente. Na linha final do discurso, El simplesmente pergunta a Anatu
o que ela quer, o deus supremo não demonstra nenhum sinal de intimidação diante das ameaças
da deusa, ao contrário disso, sua atitude sugere até uma certa tolerância para com os excessos
de Anatu.
Réplica da corte divina (1.3 V 35-44). Anatu apresenta a El o lamento de Baal e o fato de ele
não ter um palácio. A resposta de El ao discurso de Anatu nos leva ao que seria o ponto alto da
narrativa, porém, infelizmente, a coluna está incompleta (provavelmente por causa da
deterioração do texto nos tabletes), deixando-nos sem uma conclusão sobre a reação de El.
Quando a coluna VI se torna legível, fica claro que uma nova cena está começando. Com relação
à resposta de El a Anatu, não existe um acordo entre os estudiosos. Muitos deles entendem que
a intercessão de Anatu é um sucesso. No entanto, alguns entendem que o pedido de Anatu foi
rejeitado, o que justificaria Baal ir até a deusa Atiratu para lhe pedir ajuda, como veremos mais
adiante. Sugerimos, então, que dentro das linhas que faltam no texto, o pedido de Anatu foi
rejeitado por El; sendo assim, ela regressou com as más notícias e por isso Baal mudou suas
estratégias.
Encargo de Mensagem (1.3 VI 4-25). Essa seção é de difícil compreensão devido às lacunas nela
presentes. Ao que parece, consta de uma ordem de Baal a dois de seus mensageiros, para que
estes compareçam à presença de Kôtaru. A trama segue com as orientações de como esses
mensageiros devem reverenciar Kôtaru. As linhas que faltam apresentam o resto da mensagem
de Baal a Kôtaru e, presumivelmente, incluem a queixa de Baal de que ele não tem palácio e um
pedido para que Kôtaru produza presentes para Atiratu. Pode-se concluir isso a partir da cena
seguinte.
Encargo a Kôtaru (1.4 I 4-22). Pela terceira vez, Baal lamenta que não tem um palácio. Logo
após a sua lamentação, ele solicita ao deus artesão que fabrique presentes para a deusa Atiratu.
Execução do Encargo (1.4 I 23-43). Sem uma resposta verbal, Kôtaru atende ao pedido e começa
a trabalhar fabricando os presentes. Esta seção pode ser dividida em duas partes. A primeira
descreve Kôtaru no trabalho e a segunda descreve os itens que o deus artesão cria.
Cena de conjuro (1.4 II 3-11). Presume-se que essa cena mostre Atiratu se preparando num ritual
de magia.
Reação de Atiratu (1.4 II 12-26). Atiratu percebe Baal e Anatu se aproximando de sua morada
e fica com medo.
Reação de Atiratu (1.4 II 26-38). O texto descreve a aparência dos presentes e a forma como
Atiratu os vê de longe. Assim que percebe que os dois visitantes estão em paz, Atiratu se dirige
a seu servo, chamado de “pescador” da Grande Dama do mar, e lhe dá algumas instruções.

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Lamento de Baal (1.4 III 10-22). Há uma grande lacuna entre o final da coluna II e o início da
coluna III. Quando o texto se torna legível, a narrativa apresenta um discurso de Baal que relata
uma reunião do conselho divino em que ele foi humilhado por outro deus. Vários estudiosos
consideraram estas linhas como descrevendo não um evento passado mas sim uma reunião da
assembleia dos deuses, enquanto Baal e Anatu chegam para ver Atiratu. Sendo assim, existem
alguns desacordos com relação à interpretação dessa seção.
Diálogo de cortesia (1.4 III 23-37). Baal e Anatu se encontram com Atiratu e entregam os
presentes à deusa mãe. Atiratu questiona o motivo dos presentes.
Conselho de Atiratu (1.4 III 38-44). Essa seção parece descrever o banquete realizado em
homenagem à chegada de Baal e Anatu.
Encargo de Atiratu (1.4 IV 1-12). Atiratu se prepara para viajar. O texto descreve ordens que ela
dá a seu servo para que ele prepare sua montaria.
Cena da viagem (1.4 IV 13-26). Uma vez que as ordens são cumpridas, a deusa parte em viagem,
em direção à morada de El, acompanhada por seus servos e por Anatu. O texto não deixa claro
se Baal vai junto.
Reação do deus El (1.4 IV 27-39). El recebe Atiratu com entusiasmo.
Diálogo entre os deuses (1.4 IV 40-57). Atiratu abre seu discurso elogiando a sabedoria de El e
logo após se põe a elogiar Baal, até que finalmente ela apresenta para El o lamento de Baal e o
fato dele não ter um palácio.
Diálogo entre El e Atiratu (1.4 IV 58 – V 11). El dá sua autorização para a construção de um
palácio para Baal. Atiratu confirma sua decisão, elogia a sabedoria de El e se põe a falar das
vantagens futuras que a decisão de El trará ao mundo.
Mensagem de Atiratu e transmissão de Anatu (1.4 V 12-35). Atiratu dá o comando à deusa Anatu
para que a decisão de El seja transmitida a Baal e ordena que ele receba a mão de obra necessária
para a construção, que deverá ser realizada dispondo de materiais preciosos. Anatu se enche de
alegria ao receber a notícia e vai transmitir a mensagem a Baal.
Execução do encargo (1.4 V 35-43). Baal reage com alegria ao receber a notícia e então começa
a executar as instruções dadas por Atiratu através de Anatu. Ele inicia os preparativos para a
construção do palácio e convoca Kôtaru para supervisionar o projeto.
Encargo de Baal (1.4 V 44-57). Kôtaru é recebido por Baal com todas as honras devidas. Baal
dá a Kôtaru a missão de construir o seu palácio.
Diálogo entre Kôtaru e Baal (1.4 V 58 - VI 15). Kôtaru deseja inserir uma espécie de claraboia
no palácio, mas Baal se opõe e rejeita a ideia Kôtaru. A questão ganha grande destaque na
narrativa. Na coluna VI a conversa entre Baal e Kôtaru sobre a claraboia continua, mas Baal se
mantém resistente. Até que Kôtaru para de insistir e faz uma previsão de que Baal futuramente
voltará atrás em sua decisão.
Execução do encargo (1.4 VI 16-35). Relato da construção do palácio. O texto segue uma
espécie de sequência de dias (parecida com o relato da criação em Gênesis) para narrar a
edificação.
Cena do banquete (1.4 VI 35-59). Baal prepara um banquete para celebrar a conclusão do
palácio. Ele convida os filhos de Atiratu, ou seja, todo o panteão das divindades, para a festa.
Baal assume a posição (1.4 VII 5-14). Após a celebração em seu palácio, Baal faz uma espécie
tour triunfal pelas cidades do mundo. Esta seção descreve a marcha da vitória de Baal pelas
cidades e aldeias de seu domínio.

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Diálogo entre Baal e Kôtaru (1.4 VII 14-25). Tendo retornado ao seu palácio, Baal anuncia a
Kôtaru que mudou de ideia com relação à claraboia e que permitirá sua instalação (conforme a
previsão que Kôtaru fez anteriormente). O texto de uma forma bem humorada expõe a reação
de Kôtaru que dá a seguinte resposta a Baal: “Eu avisei!”.
Execução/repercussão do encargo (1.4 VII 25-37). A claraboia é instalada e, através dela, Baal
emite sua voz como trovão (e as chuvas certamente a acompanham). O texto dá ênfase à
intensidade esmagadora de sua voz, descrevendo que ela faz os montes tremerem e seus inimigos
correrem. Enfim o governo de Baal foi estabelecido no céu, na terra e no mar. Esta descrição do
poder de Baal marca o fim de um enredo.
Monólogo de Baal (1.4 VII 37-52). Agora, tendo estabelecido seu domínio sobre o céu (ou seja,
o conselho divino) e a terra, o deus da tempestade volta sua atenção para a única área do universo
que não o reconheceu, a saber, o mundo dos mortos. Baal declara (em uma espécie de monólogo)
que ele estabelecerá seu domínio sobre o mundo dos mortos e que o deus Môtu deve saber disso.
Encargo de mensagem (1.4 VII 52- VIII 37). Baal convoca seus mensageiros Gapnu e Ugaru e
começa a instruí-los sobre a mensagem que devem entregar a Môtu. Através de um extenso
discurso, Baal os prepara para a viagem ao submundo. Ele os adverte para que façam as devidas
reverências a Môtu e os alerta quanto ao perigo que correm, dando a entender que o deus do
submundo é como um grande e perigoso predador.

Em síntese:
Esse mito poderia ser considerado como um mito de confirmação de Baal como divindade
soberana e que reina como senhor no trono dos deuses sem inimigo capaz de fazer-lhe frente.
Sua morada é a expressão de seu domínio inigualável e inabalável. Enquanto, no primeiro mito,
a vitória sobre Yammu é o que confirma Baal como rei dos deuses, aqui, nesse segundo mito, o
que fundamenta seu governo é a autorização de El para a construção de seu palácio. Após uma
leitura cuidadosa é possível perceber que o palácio de Baal aparenta um significado político
semelhante ao templo de Salomão.

2.3 A Luta entre Baal e Môtu


Mesmo com Yammu derrotado e a realeza conquistada por Baal, ainda não está tudo
terminado. Surge agora uma guerra decisiva para Baal: a guerra com Môtu, divindade da
esterilidade e da morte. Na cena final do mito anterior, Baal envia uma mensagem para Môtu,
outro dos filhos “amados” de El, anunciando a construção de seu novo palácio. Môtu responde
à mensagem de Baal sugerindo que Baal o convide para um banquete. A mensagem de Môtu
contém um tom ameaçador que parece intimidar Baal, tendo em vista que este responde
declarando-se servo de Môtu. Em contraste à atitude anterior perante o deus Yammu, aqui Baal
aceita a condição de submissão. Assim como no primeiro mito, nesse também El parece
sancionar a submissão de Baal a outro deus. Assim que Baal se submete a Môtu ele desaparece
da trama. O texto dá a entender que Baal foi consumido pelo deus da morte.
Quando, enfim, é comprovada a morte e o desaparecimento do corpo de Baal, El e Anatu
choram. Anatu demonstra uma profunda preocupação em providenciar um enterro honroso para
Baal e, quando percebe que os outros deuses se alegram com a morte de seu irmão, ela os
repreende. Com essa situação estabelecida, o panteão vê a necessidade de buscar um substituto
para o rei morto e deposto. Desta vez por eleição, não por pretensão própria, Attaru surge como

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candidato ao trono. Mas outra vez sua incapacidade para tal função se evidencia. Diante disso
só restam duas possibilidades, ou Môtu assume o trono ou então Baal é resgatado da morte e
volta a reinar. Portanto, Anatu se propõe a resgatar Baal, ela vai até Môtu e o mutila.
De volta à vida, Baal reina por sete anos até que Môtu reaparece e os dois se envolvem
num novo combate, só que agora, decisivo. A superioridade de Baal se impõe, e Môtu, seguindo
o concelho de Sapsu, se rende a Baal. Dessa forma o mito termina com a consolidação do trono
de Baal.

Assim se estrutura o mito:


Mensagem de Môtu (1.5 I 1-8). Môtu prepara uma mensagem para Baal na qual ele faz
referência a Baal matando a serpente, identificada como Lôtanu. Embora Môtu comece falando
de uma vitória de Baal, ele termina a mensagem ameaçando Baal.
Transmissão da mensagem (1.5 I 9-35). Os mensageiros retornam a Baal com uma mensagem
de Môtu. Na mensagem, Môtu se gaba de seus poderes e alega que, apesar da vitória de Baal
sobre um inimigo anterior, ele o despedaçará e o devorará. Môtu termina sua mensagem
convocando Baal para um encontro.
Final de Mensagem (1.5 II 2-6). Essa seção não é muito clara, mas podemos supor que, após ler
a mensagem de Môtu, Baal faz uma reflexão sobre o perigo que Môtu representa.
Mensagem de Baal e transmissão (1.5 II 6-20) Baal fica com medo e envia seus mensageiros à
morada de Môtu com uma mensagem de rendição ao deus da morte.
Reação de Motu (1.5 II 20-23; III (toda); IV 5-7). Essa seção está muito fragmentada, o que
praticamente impossibilita a sua leitura. A única coisa que se pode dizer é que termina com uma
pergunta sobre onde estaria Baal.
Cena do banquete (1.5 IV 8-18). A cena começa respondendo à pergunta da seção anterior. Baal
surge em meio à preparação de um banquete.
Ordem dada a Baal (1.5 V 1-17). Após uma extensa lacuna inicial, lemos sobre uma ordem que
é dada a Baal para que ele desça ao submundo. Devido os danos sofridos pelo texto, não sabemos
quais razões forçam Baal a seguir estas instruções.
Execução da ordem (1.5 V 17-26). Como as lacunas estão deterioradas, fica difícil afirmar
qualquer coisa sobre essa seção. O que parece é que Baal se põe a providenciar uma
descendência antes de descer ao submundo.
Transmissão da mensagem (1.5 VI 3 - 10). A morte de Baal é anunciada a El.
Reação de El (1.5 VI 11-25). Ao ouvir a notícia sobre a morte de Baal, El realiza diferentes ações
rituais de luto e lamenta profundamente.
Marcha e reação de Anatu (1.5 VI 25-5 I 9). Anatu também chora a morte de Baal e percorre
vários lugares até que encontra o corpo dele caído na terra. A deusa cobre corpo com uma túnica
em uma espécie de ritual e lamenta.
Resgate de Baal (1.6 I 9-18). Com a ajuda de Sapsu, Anatu carregou o corpo de Baal para a
montanha e o sepultou em uma caverna.
Cena do sacrifício (1.6 I 18-31). Anatu realiza um ritual fúnebre em honra a Baal.
Marcha de Anatu (1.6 I 32-43) Anatu então vai à morada de El, cumprimenta El com a devida
reverência e então ela chora dizendo: “Atiratu e seus filhos agora se alegram. A deusa e o clã de
seus parentes, porque Baal está morto.”
Diálogo entre El e Atiratu (1.6 I 43-55). El pede a Atiratu que escolha um de seus filhos para
que seja aclamado rei em lugar de Baal. O primeiro deus que Atiratu escolhe é rejeitado por El,

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pois o deus supremo alega que o deus escolhido é fraco e não pode se igualar às capacidades
físicas de Baal.
Fracasso de Attaru (1.6 I 56-65). Atiratu faz uma segunda escolha, e dessa vez nomeia Attaru
para subir ao trono de Baal, porém Attaru é muito pequeno e não alcança o topo do trono. Attaru
admite que não pode ser rei e em seguida desce do trono de Baal e passa a reinar apenas sobre a
terra.
Diálogo entre Anatu e Motu (1.6 II 4-25. Passados alguns dias, Anatu procura por Baal e aborda
Môtu, exigindo que ele lhe entregue Baal.
Morte de Motu (1.6 II 26-37). Passados mais alguns dias, Anatu continuou sua busca por Baal.
E num segundo encontro com Môtu ela o destrói. Anatu divide o corpo de Môtu, o queima, mói
e semeia em um campo onde os pássaros o comem.
Cena do presságio (1.6 III 1-13). Enquanto isso, El tem uma visão de que a chuva retornará
como um sinal de que Baal está vivo.
Reação de El (1.6III 14-21). El exulta de alegria por ver que Baal está vivo.
Mensagem de El (1.6 III 22 – IV5). O deus supremo convoca Anatu.
Transmissão da mensagem (1.6 IV 6-16). Anatu recebe a mensagem de El, pedindo-lhe que
procure por Baal.
Diálogo entre Anatu e Sapsu (1.6 IV 17-24). Anatu pede a Sapsu para iniciar a procura por Baal
em todo o mundo.
Cena do combate (1.6 V 1-6). Baal aparece vivo, ataca os filhos de Atiratu e retoma seu trono.
Lamento de Motu (1.6 V 7-25). Baal reina por sete anos até que Môtu reaparece, aparentemente
restaurado. Môtu apresenta um lamento a Baal e lhe pede um de seus irmãos para que ele o possa
devorar.
Cena do combate (1.6 VI 9-22). Inicia um combate entre Môtu e Baal.
Conselho de Sapsu (1.6 VI 22-29). Nesta luta, Baal e Môtu parecem iguais até que Sapsu começa
a falar com Môtu e dizer-lhe que não pode derrotar Baal. A voz de Sapsu deixa Môtu atordoado
e ele começa a sentir medo.
Desfecho do combate (1.6 VI 30-35). Môtu ficou com tanto medo, depois de ouvir a voz de
Sapsu, que se prostrou e se humilhou diante de Baal.
Hino de Baal (1.6 VI 42-53). O mito termina com um hino.

Em síntese:
É possível fazer uma leitura do mito a partir de uma perspectiva sazonal, considerando as
estações climáticas da Síria-Palestina da seguinte maneira: nos meses de verão, Baal, o deus da
chuva, está morto, para depois ressurgir na estação chuvosa. Ainda que a interpretação sazonal
tenha suas limitações, não se pode negar que haja alguma ligação entre o ciclo da natureza e o
ciclo de morte-vida de Baal presente aqui nessa trama.
A oposição entre Baal e Môtu é evidente na narrativa, enquanto um é a divindade da dádiva
da vida o outro é exatamente a divindade que tira a vida. Dentro dessa perspectiva, o sentido do
mito não é exclusivamente sobre a vida vegetal. É importante perceber também a experiência
de vida e de morte presentes no mito, que transcendem o reino vegetal e animal e o seu ciclo
agrário. Dessa forma é preciso considerar que existem outros sentidos para esse mito e o sentido
sazonal é só uma parte do que representa o grande conflito entre Môtu, o deus da morte, e Baal,
o deus do céu, da vida.

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3. Sistematização
Cada divindade em Ugarit tinha relação direta com a visão de mundo daquela sociedade.
A forma como o universo e os espaços físicos eram vistos se expressava na imagem e função de
cada deus do panteão ugarítico. O Panteão era formado por inúmeras divindades, porém poucos
desempenharam um papel significativo na literatura. O ciclo de Baal fala sobre o processo de
reconhecimento de Baal, a confirmação de seu reino e sua relevância diante dos demais deuses.

3.1 A figura de Baal


O termo Baal significa “senhor“, “dono” ou “marido”; no plural é representado por Baalim
(aportuguesando, Baalins ou Baals). Baal era o alicerce de fé para muitos em Ugarit, adorado
em toda a Síria-Palestina. Porém, em cada região ele recebia um nome, o que prova que era uma
divindade altamente adaptável. Cada lugar enfatizava um ou outro de seus atributos e
desenvolvia “denominações” especiais, refletindo uma espécie de “Baalismo”. Por exemplo, em
um determinado lugar ele era conhecido como Baal-Peor, já em outro como Baal-Berite e assim
por diante. Por esse motivo, antes da descoberta dos textos ugaríticos, conjeturava-se que
“baalins” se referia a divindades cananeias distintas. Ou seja, “cada Baal” tinha sua identidade
local separada. Os textos ugaríticos revelaram, no entanto, que o termo Baal, embora
considerado um nome pessoal de uma grande divindade cósmica, tinha vários epítetos, de modo
que “baalins” eram, de fato, simplesmente manifestações locais da divindade em particular.12
Baal era conhecido como deus da tempestade, relacionado com a fertilidade. Acreditava-
se que, através da chuva, ele fazia o grão crescer e era capaz de prover o que era fundamental
para a subsistência daquelas civilizações. Nos textos ugaríticos, Baal aparece como o deus mais
forte, o mais poderoso dos heróis, o valente. Todos esses atributos fazem de Baal a verdadeira
divindade heroica na religião em Ugarit. Sua posição elevada é demonstrada através do seu
poder sobre as nuvens, tempestades e relâmpagos. E é nesse sentido que ele também recebe o
nome de “cavalheiro das nuvens”. Na trama mitológica, os outros deuses empalidecem em
comparação a Baal e são incapazes de substituí-lo adequadamente. Isso enfatiza a legitimidade
e a capacidade de Baal para governar.

3.2 O culto a Baal13


A trama mitológica do ciclo de Baal nos ajuda a perceber o protagonismo de Baal entre
os deuses de Ugarit. Em uma leitura mais atenta é possível identificar, no mito, atividades rituais
e cerimoniais que faziam parte da vida religiosa daquele povo. O mito fala de rituais de
purificação, de cultos fúnebres, uso de encantamentos, oferendas, banquetes, adivinhações,
previsões etc. Esses elementos presentes na trama são vestígios dos cultos realizados em Ugarit.
Os principais textos ugaríticos que tratam do contato diário dos “ugaritianos” com suas
divindades são aqueles classificados como textos rituais ou cultuais. Alguns desses textos são
instruções sobre como realizar rituais de sacrifício (textos prescritivos), enquanto outros são
registros de sacrifício que foram realmente realizados (textos descritivos). A partir de uma
leitura mais aprofundada desses documentos é possível perceber que, praticamente, todo ato
12
DAY, J. Yahweh and the gods and goddesses of Canaan. New York: Sheffield Academic Press, 2002, p. 68-74
13
PARDEE, D.; LEWIS, T.J. Ritual and cult at Ugarit. Atlanta, Ga.: Society of Biblical Literature, 2002.

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cultual prescrito é precedido, acompanhado ou seguido por um ou mais sacrifícios. Em suma,


os textos fornecem dados sobre um sistema de culto em que os deuses, do mais alto ao mais
baixo, do mais antigo ao mais recente, eram honrados com cultos sacrificiais. O sacrifício
sangrento de animais fazia parte do coração do culto em Ugarit. A constatação mais interessante
dessas listas tem a ver com quantidade de vezes que o nome de Baal aparece nelas. Baal está
efetivamente no topo como a divindade mais apreciada e que mais recebia ofertas. Outro fato
importante que evidencia a relevância de Baal na vida religiosa está relacionado ao templo que
recebia o seu nome. O templo de Baal era o segundo mais importante na realização das
cerimônias cultuais, estando atrás, apenas, do templo de El (o deus supremo).
Muitos objetos religiosos com caráter sacro foram encontrados no sítio arqueológico de
Ugarit: estátuas de pedra, de metal, estelas de culto, pequenos ídolos, pingentes feitos de metais
preciosos etc. Muitos desses achados faziam referência a Baal. Com isso é possível concluir que
Baal não era reverenciado apenas pela elite de Ugarit (que tinha acesso aos templos), mas
também, exercia forte influência nas classes mais baixas, que muitas vezes não tinham
condições de ir até o templo com uma oferta.

3.3 Baal e as outras entidades divinas


Ao longo dos seis tabletes do Ciclo de Baal é possível perceber que cada personagem
tem uma relação particular com Baal. No nível cósmico, as deidades benéficas habitam o céu,
enquanto as forças monstruosas e demoníacas habitam o submundo ou o oceano. Na trama
mitológica, Baal governa o céu, Yammu o mar, e Môtu o submundo. Cada divindade é soberana
sobre seu próprio domínio. Enquanto Baal representa a ordem e a vida, os outros dois deuses
representam o caos e a morte. Yammu foi o primeiro candidato à soberania apoiado por El e
adversário de Baal; sua característica principal é o caos aquoso; Môtu, o segundo grande
adversário de Baal, conhecido como deus da morte, tem como característica a aridez estéril, bem
como a sepultura e a podridão. Baal, Yammu, Môtu são deuses que competem pelo domínio
cósmico e parecem exercer maiores influências na literatura ugarítica. Yammu e Môtu são
chamados de “amados” de El, o que lhes dá legitimidade como potenciais reis e herdeiros de El.
Isso torna o sucesso de Baal contra eles ainda mais notável. É importante observar que os mitos
de Ugarit apresentam a progressão de Baal como único deus merecedor do trono.
Entre as divindades benéficas de Ugarit, podemos identificar níveis de hierarquia entre
os deuses. A mais alta posição é ocupada por El, o pai dos deuses, que preside o panteão,
determinando e definindo a hierarquia dos demais deuses. Atiratu é a dama dos deuses e
progenitora de diferentes divindades, conhecida como consorte de El. No início da narrativa
mitológica ela é uma das divindades que se opõem a Baal. No entanto, depois de um longo
processo diplomático, Atiratu é quem convence El de construir um palácio para Baal. Não há
dúvidas de que ela tem forte influência em decisões referentes ao reinado cósmico no panteão
ugarítico.
Como deuses secundários na hierarquia de divindades, temos: Anatu, Kôtaru, Sapsu e
Attaru. Essas divindades não são protagonistas, no entanto exercem um papel importante no
desenvolvimento do mito.
Anatu é a donzela, deusa da guerra, amor e fertilidade. Ela é conhecida por seu apoio
incondicional a Baal, tanto nos conflitos quanto na aquisição do palácio. O mito relata que a
ajuda de Anatu foi fundamental para trazer Baal do mundo dos mortos. Entre todos os epítetos
divinos que aparecem nos mitos ugaríticos, os que se referem a Anatu e a Baal são os mais

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frequentes. Este fato nos permite concluir que essas duas divindades foram as mais ativas, pelo
menos no Ciclo de Baal.
Kôtaru é o deus da sabedoria, e feiticeiro, mais conhecido como artesão por excelência
e como aquele que tem mãos hábeis. Os diferentes personagens chegam até ele quando precisam
da fabricação de algum objeto poderoso. Kôtaru aparece como um partidário de Baal, é ele quem
providencia as armas mágicas para Baal na luta contra Yammu e os presentes que Baal leva para
Atiratu. Ele é também o arquiteto do palácio real e o responsável pela ideia de colocar uma
claraboia no palácio com a finalidade de que Baal exiba seu poder ao mundo.
Sapsu é chamada de lâmpada dos deuses. É uma deusa extremamente forte, que está
associada a fenômenos meteorológicos. Ela é chamada também de “poder dos céus”. Sua
posição como juíza sobre questões de vida e morte no conflito entre Baal e Môtu também afirma
seu alto status. Sapsu é a deusa que ajuda Baal a vencer Môtu. Foi por causa de sua voz que
Môtu ficou aterrorizado e se rendeu a Baal.
Attaru desempenha um papel menor no ciclo ugarítico de Baal. As duas vezes em que
ele surge na trama mitológica, fica evidente sua incapacidade de assumir qualquer posição de
governo no panteão. No primeiro momento ele é definido como inapto pelo fato de não ter
esposa e filhos. Num segundo momento, é considerado inapto por não ter estatura suficiente
para alcançar o trono. Apesar de Attaru se opor a Baal, o mito passa a ideia de que ele, por causa
de sua visível inaptidão, não oferece nenhuma ameaça ao deus da tempestade.

Conclusões
O estudo permitiu uma maior compreensão da importância das pesquisas em torno da
cidade de Ugarit. Principalmente no que diz respeito à literatura da região. Os textos ali
descobertos, especificamente os textos mitológicos, apresentam uma síntese preciosa do que era
a cultura siro-cananeia na época do segundo milênio a.C.
O aprofundamento dos textos mitológicos nos ajudou a compreender a relevância da
figura de Baal, a sua influência tanto na cultura quanto no pensamento religioso, a sua
centralidade nos cultos de Ugarit e a sua relação com outras entidades divinas daquela
civilização.
Nesse estudo ficou evidente que Baal era uma divindade que influenciava todas as
classes sociais da região siro-cananeia. Essa análise nos permite sugerir que provavelmente a
adesão de tantas pessoas a Baal provinha de uma identificação daquela civilização com o papel
que ele desempenhava, principalmente, na literatura mitológica. Além de Baal ser a divindade
que representava a ordem e a vida (fertilidade), aquele que vence as batalhas, ele era também a
divindade que representava aqueles que tinham que lutar para conquistar o seu espaço. Baal,
diferentemente de Yammu e Môtu, não era conhecido como “amado de El”, mas, mesmo sem o
devido apoio, ele mostrou a sua importância e conquistou o seu lugar por meritocracia. Por meio
dessa análise mais aprofundada, podemos entender como essa divindade se propagou por toda
aquela região e foi capaz de influenciar a mentalidade de outras civilizações.

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Referências
1- CALDEÓN NÚÑEZ, G., “Los textos de Ugarit en la Biblia. Una introducción en
la tradición mitológica del Medio Oriente antiguo”. Veritas, 20, (2009), p. 55-72.

2- DAY, J. Yahweh and the gods and goddesses of Canaan. New York: Sheffield
Academic Press, 2002.

3- DEL OLMO LETE, G. Mitos y leyendas de Canaan según la tradición de Ugarit


(Institución San Jerónimo. Fuentes de la ciencia bíblica 1). Madrid: Ediciones
Cristiandad, 1981.

4- DEL OLMO LETE, G. Mitos, leyendas y rituales de los semitas occidentales,


Madrid: Barcelona, Trotta Universidad de Barcelona, 1998.

5- MOURA, R.L. “A cidade de Ugarit: contribuições para o estudo da religião do


antigo Israel”. Revista Nures, ano 12, nº 32, (2016), p. 1-20.

6- PINTO, P.M. Baal, ADN de Deus. A génese do conceito de Deus único no mundo da
Bíblia à luz do Ciclo de Baal. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias,
2010 (disponível em pdf: file:///C:/Users/Maria%20de%20Lourdes/Downloads/3991-
1-13225-1-10-20131106%20(1).pdf).

7- PARDEE, D.; LEWIS, T. J. Ritual and Cult in Ugarit. Atlanta, Ga.: Society of
Biblical Literature, 2002.

8- YON, M. The City of Ugarit at Tell Ras Shamra. Winona Lake, Ind.: Eisenbrauns.
2006. eBook.

9- YON, M. “Ugarit: 6,000 Years of History”. In: Near Eastern Archaeology.


63(4):187-189; American Schools of Oriental Research, 2000.

10- SCHNIEDEWIND, Willian M; HUNT, Joel H. A Primer on Ugarit: Language,


Culture and Literature. Cambrigde: University Press, 2007.

11- SILVA, Cassio Murilo Dias. Aquele que manda chuva sobre a face da terra.
Loyola, 2006; p.262

12- MARK S. SMITH, The Ugaritic Baal Cycle: Vol. 1: Introduction with text and
commentary of KTU 1.1-1.2, E. J. Brill, Leiden. N. York. Colónia. 1994

13- SMITH, Mark S; PITARD, Wayne T. The Ugaritic Baal Cycle: Introduction With
Text, Translation and Commentary of KTU/CAT 1.3-1.4 (Vol. II). Supplements
to Vetus Testamentum: Leiden/Boston, 2009

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