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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO


28ª CÂMARA DE DIREITO PRIVADO

Registro: 2016.0000274156

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo nº


0008886-69.2007.8.26.0510/50000, da Comarca de Rio Claro, em que é agravante
WILNEY DE ALMEIDA PRADO, são agravados CELSO LUISA DE SANTIS e
TANIA ELISA CUNHA GODOY DE SANTIS .

ACORDAM, em 28ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de


São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Negaram provimento ao recurso. V. U.", de
conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores DIMAS


RUBENS FONSECA (Presidente sem voto), CELSO PIMENTEL E BERENICE
MARCONDES CESAR.

São Paulo, 26 de abril de 2016

GILSON DELGADO MIRANDA


RELATOR
Assinatura Eletrônica
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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
28ª CÂMARA DE DIREITO PRIVADO

1ª Vara Cível da Comarca de Rio Claro


Agravo Regimental n. 0008886-69.2007.8.26.0510/50000
Agravante: Wilney de Almeida Prado
Agravados: Celso Luis de Santis e outra

Voto n. 9.622

AGRAVO REGIMENTAL. Prestação de


serviços. Mandato judicial. Interposição de
recurso intempestivo pelo advogado.
Indenização. Perda de uma chance. Prazo
prescricional decenal (10 anos).
Responsabilidade civil contratual. Inteligência
do art. 205 do Código Civil. Precedentes do
STJ. Sentença anulada. Recurso
manifestamente procedente. Decisão
monocrática mantida. Agravo não provido.

Vistos.

Cuida-se de recurso de agravo regimental


interposto contra decisão monocrática de fls. 256/258, de minha
relatoria, pela qual, liminarmente, dei provimento a recurso de apelação
interposto para impugnar sentença de lavra do juiz da 1ª Vara Cível da
Comarca de Rio Claro, Dr. Alexandre Dalberto Barbosa, pois
manifestamente procedente.

Segundo o agravante, então apelado, a decisão


monocrática deve ser reformada e o recurso de apelação, não provido.
Repete o argumento de que não foram impugnados todos os fundamentos
da sentença e que a demanda está prescrita.

Tempestivo o recurso, a decisão monocrática


recorrida foi mantida.

Esse é o relatório.

Aplica-se ao caso o Código de Processo Civil de


1973, nos termos do Enunciado Administrativo n. 2 do Superior Tribunal

Agravo n. 0008886-69.2007.8.26.0510/50000
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de Justiça: “aos recursos interpostos com fundamento no CPC/1973


(relativos a decisões publicadas até 17 de março de 2016) devem
ser exigidos os requisitos de admissibilidade na forma nele prevista,
com as interpretações dadas, até então, pela jurisprudência do
Superior Tribunal de Justiça”.

O recurso de agravo não merece guarida, pois a


decisão monocrática está efetivamente correta.

Não comungo da ideia de que a sentença tem


duplo fundamento. A prescrição é preliminar de mérito. Antecede a
análise de fundo. A sentença, claramente, resolveu o pedido com
incidência do art. 269, IV, do CPC.

As considerações sobre o ato imputado


negligente foram feitas apenas para se identificar o início do prazo
prescricional [“o ato do réu, imputado negligente, não causou o
prejuízo, senão talvez pudesse evitá-lo ou reduzi-lo. E tal ato
ocorreu em fevereiro de 2001”]. Não se analisou o cerne da demanda,
especialmente porque se reconheceu a prescrição.

E prescrição, na espécie, não houve.

Como é largamente sabido, salvo disposição


legal em sentido contrário, aos casos de responsabilidade civil contratual
aplica-se o prazo geral de 10 anos do artigo 205 do Código Civil e não o
prazo específico de 3 anos do artigo 206, § 3º, inciso V, próprio para
casos de responsabilidade civil aquiliana (extracontratual): “à pretensão
de reparação civil por danos decorrentes de inadimplemento
contratual aplica-se o prazo prescricional de 10 (dez) anos, previsto
no art. 205 do Código Civil” (STJ, AgRg-REsp n. 1.291.531-DF, 3ª
Turma, j. 05-11-2015, rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva).

No mesmo sentido: 1) STJ, REsp n. 1.222.423-


SP, 4ª Turma, j. 15-09-2011, rel. Min. Luis Felipe Salomão; 2) STJ, AgRg-
REsp n. 1.317.745-SP, 3ª Turma, j. 06-05-2014, rel. Min. Paulo de Tarso
Sanseverino; 3) STJ, AgRg-REsp n. 1.485.344-SP, 3ª Turma, j.
05-02-2015, rel. Min. Marco Aurélio Bellizze; e 4) STJ, AgRg-AREsp n.
477.387-DF, 4ª Turma, j. 21-10-2014, rel. Min. Raul Araújo.

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Vale dizer, “enquanto não prescrita a


pretensão principal (a referente à obrigação contratual) não pode
prescrever a respectiva sanção [...]. É, então, a prescrição geral do
art. 205, ou outra especial aplicável 'in concreto', como a quinquenal
do art. 206, § 5º, I, que, em regra, se aplica à pretensão derivada
do contrato, seja originária ou subsidiária a pretensão. Esta é a
interpretação que prevalece no Direito Italiano (Código Civil, art.
2.947), onde se inspirou o Código brasileiro para criar a prescrição
reduzida para a pretensão de reparação de dano” (Humberto
Theodoro Júnior, “Comentários ao Novo Código Civil: dos atos jurídicos
lícitos. Dos atos ilícitos. Da prescrição e da decadência. Da prova”
[coord. Sálvio de Figueiredo Teixeira], 3ª edição, Rio de Janeiro,
Forense, 2005, vol. 3, tomo 2, p. 333).

Aliás, especificamente no caso de “ação de


indenização do mandante em face do mandatário, em razão de
suposto mau cumprimento do contrato de mandato, hipótese sem
previsão legal específica”, decide-se hodiernamente pela incidência da
“prescrição geral de 10 (dez) anos do art. 205 do Código Civil de
2002, cujo prazo começa a fluir a partir da vigência do novo diploma
(11.1.2003), respeitada a regra de transição prevista no art.
2.028” [grifei] (STJ, REsp n. 1.150.711-MG, 4ª Turma, j. 06-12-2011, rel.
Min. Luis Felipe Salomão).

Pois bem.

Na espécie, independentemente da data em que


os apelantes tomaram ciência da perda do prazo recursal pelo advogado
apelado e do trânsito em julgado da sentença que lhes foi desfavorável,
fato é que sua pretensão indenizatória contra o apelado permanece
íntegra.

Ainda que o prazo prescricional decenal (10


anos) fosse computado a partir da exata data em que o advogado apelado
perdeu o prazo para recorrer (05-02-2001 fls. 112), ou da data em
que os apelantes foram citados pessoalmente para pagamento do valor
exequendo (04-05-2001 fls. 225v.), não seria possível falar em
prescrição, pois a demanda foi ajuizada em 11-06-2007 (ver protocolo a
fls. 2v.). Isso sem falar na regra de direito intertemporal do artigo
2.028 do Código Civil [NÃO DECORRIDO mais da metade do prazo
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vintenário previsto na codificação anterior].

À vista dessas considerações, a anulação da


sentença era mesmo de rigor, considerando que a causa ainda não está
em condições de imediato julgamento [“causa madura”] (artigo 515, § 3º,
do Código de Processo Civil), com o retorno dos autos à origem para
regular andamento do feito, em especial para que sejam produzidas
todas as provas requeridas pelas partes nos termos da lei.

Posto isso, nego provimento ao recurso.

GILSON MIRANDA
Relator
Assinatura Eletrônica

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