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Como se Constituiu o Processo de Humanização no Hominídeo

Fabio Alberto de Matos1

A constituição do hominídeo resulta de diversas transformações ao longo de centenas


de anos, das quais somos resultado. Essas mudanças são marcadas pelos desafios
apresentados pela natureza, algo que está à frente do humano, e que não passa por nenhum
tipo de trabalho da humanidade para a sua existência. Como descreve o Prof. Dr. Jussemar
Weiss2 “A natureza é aquilo que existe apesar dos humanos”.
Conforme os hominídeos descem das árvores e adentram em um novo nicho ecológico
- as savanas -, ocorre a formação da postura bípede, causando a liberação das mãos e a
formação dos polegares opositores para a coleta de alimentos e o uso de ferramentas,
juntamente à perda dos pelos (ocasionado a partir da mudança de temperatura) e do rabo.
Sua mandíbula diminui, e sua caixa craniana aumenta, permitindo assim, um maior
desenvolvimento cerebral. Como discorre Yuval Harari,
‘’Apesar de suas muitas diferenças, todas as espécies humanas têm em
comum várias características que as definem. Mais notadamente, os
humanos têm o cérebro extraordinariamente grande em comparação com
o de outros animais. Mamíferos pesando 60 quilos têm um cérebro com
tamanho médio de 200 centímetros cúbicos. Os primeiros homens e
mulheres, há 2,5 milhões de anos, tinham cérebros de cerca de 600
centímetros cúbicos. Sapiens modernos apresentam um cérebro de 1200
a 1400 centímetros cúbicos.’’ (HARARI, YUVAL, 2011, p.12).

Assim vai se formando um novo ser.


Um ser que convive agora em sociedade, deixa de ser apenas coletor e começa a
fabricar ferramentas de caça e coleta, auxiliando na busca por alimento, e garantindo
proteção ao bando. Com isso em mente, Childe aponta que “o aparecimento do homem
sobre a Terra é indicado pelos instrumentos que ele fez”, visto que “o homem necessita
de instrumentos para suplementar as deficiências de seu equipamento fisiológico na
obtenção de alimento e abrigo”.(CHILDE, 1975, p. 61). Mediante o trabalho, ele começa
a habitar um espaço mental, a partir do qual constrói instrumentos que vão lhe permitir
um outro tipo de vida; a produção desse mundo artificial define a singularidade do
humano, que cria um ambiente a sua semelhança, com intuito de suprir as suas
necessidades. É o que define a humanidade.
O controle do fogo tem um impacto abissal no cotidiano do hominídeo, permitindo a
ele infinitas possibilidades. Segundo Childe (1975), foi um dos primeiros grandes passos
na emancipação do homem em relação à servidão do seu ambiente, sendo aplicado para
o aquentamento do grupo – agora, sem pelos, eles necessitam de uma alternativa de
aquecimento -, para a defesa e o ataque, e para cozinhar os alimentos. Não comendo mais

Graduando no curso Bacharelado em História da Universidade Federal do Rio Grande – FURG.


1
2
Uma linha de raciocínio elaborada a partir de uma aula de História Antiga I, pelo Prof. Dr. Jussemar
Weiss, Universidade Federal do Rio Grande - FURG, 2020.
a carne crua, eles têm um novo tipo de refeição, que dá mais energia e é mais fácil para
mastigar e consumir; a proteína da carne assada foi um dos maiores fatores para o
desenvolvimento do cérebro humano. O fogo dá outra dimensão à vida. Em seus estudos,
Childe descreve que
‘’Ao dominar o fogo, o homem estava controlando uma poderosa força
física e uma notável transformação química. Pela primeira vez na
história, uma criatura da Natureza dirigia uma das grandes forças
naturais. E o exercício do poder deve reagir sobre quem o exerce. A
visão de uma chama crepitante, elevando-se do galho seco era lançada
entre as brasas brilhantes, a transformação do galho em cinzas finas e
fumaça, deve ter estimulado o cérebro rudimentar do homem.
Impossível saber o que lhe sugeriam tais fenômenos. Mas ao alimentar
ou apagar o fogo, ao transportá-lo e usá-lo, o homem afastou-se
revolucionariamente do comportamento dos outros animais. Afirmou
sua humanidade e se fez homem.’’(CHILDE, 1975, p. 63).

Esse ser que agora habita em cavernas, bípede, com as mãos liberadas, se
desenvolvendo em sociedade, produzindo ferramentas e tendo acesso ao fogo, começa a
praticar formas de linguagens com seus semelhantes, acarretando também a proibição do
incesto. Desse modo, o indivíduo tornou-se, portanto, um ser constituído por
experiências, podendo transmitir de geração a geração seus conhecimentos sobre o
ambiente que os cerca. Nesta perspectiva, Childe afirma que “o homem aprende métodos
mais eficientes e discriminativos de obter alimento, através do preceito e exemplo de seus
mais velhos” (CHILDE, 1975, p. 32).
A produção de linguagens é algo que vai se modificando ao longo do tempo, junto com
os humanos. Conforme vamos evoluindo, também vão as maneiras de se comunicar. Essa
origem se deu de forma oral, com sons vocais, troca de olhares e apontamento dedos. A
experiência vai fazendo com que os hominídeos desenvolvam uma linguagem oral, sem
a escrita, somente com marcas e símbolos nas paredes das cavernas.
Com o passar dos anos, o mito como forma de pensar foi se solidificando nessa
sociedade. Os humanos se colocavam a partir do ponto de vista de uma criação
mitológica, na qual todos os seres foram constituídos, para só então existir. Isso quer dizer
que eles entendiam e compreendiam a si próprios e tudo o que os cercava a partir de uma
visão sagrada, se tornando, para eles, uma forma de explicar a vida de todos nesse mundo.
A humanidade do humano é definida quando ele rompe o esquema do instinto e
constitui para si um mundo de opções a partir da invenção.
Controlando, e utilizando a natureza como forma de mediação para saciar as suas
necessidades básicas, produzindo para si um mundo à sua característica. A própria
sociedade estabelecida pelo humano dá a ele a possibilidade de alcançar todos os seus
outros objetivos de maneira mais fácil e rápida. Por fim, Einsten escreveu que

‘’O conceito abstrato de 'sociedade' significa para o ser humano individual o


conjunto das suas relações diretas e indiretas com os seus contemporâneos e
com todas as pessoas de gerações anteriores. O indivíduo é capaz de pensar,
sentir, lutar e trabalhar sozinho, mas depende tanto da sociedade – na sua
existência física, intelectual e emocional – que é impossível pensar nele, ou
compreendê-lo, fora da estrutura da sociedade. É a 'sociedade' que lhe fornece
comida, roupa, casa, instrumentos de trabalho, língua, formas de pensamento,
e a maior parte do conteúdo do pensamento; a sua vida foi tornada possível
através do trabalho e da concretização dos muitos milhões passados e presentes
que estão todos escondidos atrás da pequena palavra 'sociedade’’'. (EINSTEN,
1949, s/p).

Da luta pela sobrevivência feita pelo hominídeo, surgiu o homem, e, com ele, tudo o
que conhecemos como sociedade, cultura, política, ciência e história.

Referências Bibliográficas
HARARI, Y. NOAH. Sapiens – Uma Breve História da Humanidade. 29ª Ed. Editora
Harper, 2011.
CHILDE, V. GORDON. A Evolução Cultural do Homem. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1975.
EINSTEIN, ALBERT. Por Que Socialismo? Maio de 1949. Traduzido por Ralf Rickli.
In.