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Galileu Galilei e Francis Bacon

MÉTODOS E DESCOBERTAS EM COMPARAÇÃO

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO (UNICAP)


CENTRO DE TEOLOGIA E CIÊNCIA HUMANAS (CTCH)
METODOLOGIA CIENTÍFICA
PROFESSORA: ELEONOURA ENOQUE
ACADÊMICO: JOSÉ DE SÁ ARAÚJO NETO
DATA: 26/02/2019
Introdução
Não sendo possível entender os paradigmas da Revolução científica sem antes
percorrer a Idade Média, é mister que se esclareça, à guisa de introdução, as
características da ciência no medievo.
A atividade científica, no período em questão, baseava-se na fé e na razão e sua
principal finalidade era compreender o significado das coisas e não exercer a predição
ou o controle. Deus era o centro do universo, e o homem, imagem e semelhança de
seu Criador, dotado de liberdade, vontade e memória, deveria perscrutar a natureza
reconhecendo o seu autor em todo o seu objeto de estudo. Para Boaventura, bispo e
influente teólogo do século XIII, por exemplo, como afirma Reale e Antiseri (2017,
p.588):
“O mundo, no seu conjunto, é um livro, no qual reluz a Trindade que o criou, segundo um tríplice grau
de expressão, isto é, segundo o modo de vestígio, da imagem e da semelhança. O vestígio é das
criaturas irracionais, a imagem é das intelectuais, a semelhança é das deiformes.”

A Igreja Católica era a mais forte instituição política, econômica e também científica da
época. A cosmovisão era amparada no geocentrismo de Cláudio Ptolomeu, em que a
terra era colocada como centro do universo, e Deus, seu Divino e Absoluto Artífice, era
a medida, o sustento e a razão de ser de todas as coisas. Aristóteles dominava a
compreensão de homem, virtude, política e tudo o mais que fosse concernente
àquele. Tomás de Aquino, frade e teólogo dominicano, era o seu maior comentador,
tecendo a vestimenta da fé cristã com a linha do pensamento aristotélico. A respeito
da “Ars Medieval”, diz CAPRA (2006, p.49):
“...As pessoas viviam em comunidades pequenas e coesas, e vivenciavam a natureza em termos de
relações orgânicas, caracterizadas pela interdependência dos fenômenos espirituais e materiais e pela
subordinação das necessidades individuais às da comunidade.”

No medievo, foram fundadas as primeiras universidades (pela Igreja Católica, diga-se


de passagem), e os germes dos instrumentos metodológicos foram lançados, os quais
mais tarde (séculos XVI, XVII e XVIII) se desenvolveram nas mãos de cientistas que
construíram seus conhecimentos em instituições católicas. Não seria a Idade Média a
Idade das Trevas, a não ser que se deseje tratar a “Mãe do Século das Luzes” com
indiferença, deixando o anacronismo cegar a análise histórica dos acontecimentos.

A Revolução Científica
Voltando-se para a Revolução científica, tem-se os séculos XVI a XVIII como os séculos
das descobertas e das mudanças de paradigmas. Este período foi marcado por
mudanças na forma do pensamento e da fé aceitos na Europa. A ciência, até essa
época, estava interligada com a filosofia. Separou-se dela para tornar-se um
conhecimento mais prático, estruturado e fundamentado.
Seu Início é marcado com a Revolução Copernicana, quando o padre polonês, Nicolau
Copérnico, viu-se obrigado a confrontar o geocentrismo ptolomaico que era guardado
pela Igreja Católica a qual, por sua vez, usava dessa imagem do universo para esboçar
a crença na centralidade do Criador na vida do homem e de toda a criação. Com o
heliocentrismo, todo fundado em observações e medições acuradas pela rigidez
científica já aflorando naqueles dias, afirma Copérnico que o sol é o centro do
universo. Por causa das investidas eclesiásticas contrárias, o padre cientista atrasou a
publicação de seus estudos até o ano de sua morte (1543) e, mesmo assim, reduziu os
resultados de suas pesquisas a hipóteses.
O renascimento cultural, a imprensa e a reforma protestante podem ser consideradas
como que o “Big Bang” do novo mundo que logo se expandiria, destruindo a imagem
do cosmos medieval. Com o renascimento, vieram correntes de pensamento que
pregavam o uso do senso crítico mais aprofundado, assim como uma atenção maior às
necessidades humanas. 
Iniciou-se, então, a busca por metodologias que instrumentalizassem e efetivassem a
atividade científica. Destacam-se, por exemplo, Galileu Galilei e Francis Bacon que
foram os primeiros a contribuir decisivamente para a estruturação da ciência moderna.

Nos Ombros de Gigantes: Galileu Galilei e Francis Bacon


Os contemporâneos Galileu Galilei (Florença, 1564-1642) e Francis Bacon (Londres,
1561-1626) construíram os pilares da ciência moderna com seus estudos e
descobertas. Contudo, estes resultados nem sequer existiriam sem o concurso
fundamental do método em que cada qual montou sua forma de “fazer ciência”.
Ambos contestaram a visão aristotélica de que o objeto das investigações científicas
seria a substância íntima das coisas, suas qualidades, afirmando que interessa à ciência
as leis que regem os fenômenos, isto é, suas relações quantitativas. Justamente, para
perscrutar a relação existente entre a(s) causa(s) e os seus respectivos fenômenos,
buscaram edificar um sistema metodológico eficiente.
Comparando os métodos de ambos, pode-se chegar à conclusão de que Galileu, por
estar inteiramente voltado à observação dos astros e suas relações matemáticas e
tendo um aguçado espírito inventor, suas criações o auxiliaram no aprofundamento de
teorias sobre o movimento dos corpos, a inércia e os astros. O florentino fez como que
uma varredura nas descobertas que, até aquele momento, auxiliavam os estudos na
astronomia. Utilizando e aperfeiçoando o telescópio, por exemplo, pode observar os
astros e seus movimentos. Ajuntando a isso as descobertas de Copérnico e os seus
conhecimentos matemáticos, também pôde descobrir alguns corpos celestes (por
exemplo, Netuno, os Satélites de Júpiter e as fases de Vênus), as crateras lunares, as
manchas solares e a comprovação de que o sol era o centro do universo. O seu
interesse pelo movimento dos corpos também fez com ele discordasse da teoria
proposta pelo filósofo grego Aristóteles sobre o peso dos corpos em queda livre. Dessa
maneira, demostrou que a velocidade da queda independe do peso dos corpos. Um
dado interessante é que a sua última obra, "Duas novas ciências", lançou os alicerces
para as descobertas de Isaac Newton e foi publicada apenas na Holanda, país
suficientemente afastado da influência da Igreja. O método indutivo experimental de
Galileu, por sua configuração “menos rígida” na verificação das hipóteses e por tentar
chegar a uma lei geral por meio da observação de certo número de casos particulares,
pode tê-lo dado maiores oportunidades de fazer descobertas imprescindíveis para o
mundo moderno mesmo sendo vigiado pelas autoridades eclesiásticas e com as
limitações que isso implicava.
Já o inglês Francis Bacon desenvolveu um método que, por suas detalhadas etapas,
mais tarde foi chamado “Coincidências Constantes”. O método de Bacon exige que os
cientistas façam observações, formem uma teoria para explicar o que foi observado e
depois testem a validade de suas respostas a partir de experimentos. Assim, se forem
verdadeiros, os resultados poderiam ser enviados para revisão e constatação de outros
cientistas. O “Pai da filosofia experimental”, como é chamado por muitos dos seus
biógrafos, desenvolveu sistematicamente um método em que reunia, em primeiro
passo, a experimentação do objeto observado; a formulação de hipóteses,
relacionando os constitutivos e tentando explicar a relação de causa e efeito dos fatos;
a repetição dos experimentos, o que demanda tempo, e a necessidade de expandir os
participantes da pesquisa também buscando novos fatores e técnicas; a testagem das
hipóteses e a formulação de generalizações e leis. Como pode ser imediatamente
visto, o “modo de fazer ciência” baconiano tem como centro a formulação de
hipóteses que podem ser corroboradas pelo número favorável de evidências extraídas
da experimentação e de sua repetição. Isso tem como consequência, dentre tantas, o
alargamento da pesquisa, tornando-a mais trabalhosa e dependente de novos esforços
feitos por outros cientistas, em outros lugares. Por outro lado, Galileu verificava o
fruto da indução já experimentando-o e, em seguida, generalizando-o, ou seja, sem
repetir os experimentos com outras técnicas, a não ser que os resultados não
apresentassem aparente afinidade com o fenômeno observado.
Bacon mostrou um compromisso intransigente com a experimentação, mas apesar
disso, ele não fez grandes descobertas científicas durante a vida – talvez por não ser o
experimentador mais competente na tarefa, ou porque a hipótese desempenha
apenas um pequeno papel no método baconiano em comparação com a ciência
moderna (Russell, 2000). Este foi o seu erro metodológico. Outro erro baconiano foi
negligenciar a importância dos saltos imaginativos [insights] que impulsionaram o
progresso científico (Livro da Filosofia, 2012). No método baconiano, as hipóteses
devem surgir durante o processo de investigação, com a ajuda da matemática e da
lógica. Portanto, o método científico vigente hoje não é baconiano, mas a proposta de
bacon foi fundamental para arquitetar o método atual, assim como todos os outros
desde Aristóteles até os mais recentes filósofos da ciência.1
Galileu e Bacon, seguindo métodos de uma aproximação conceitual, distaram um do
outro no “modo de fazer ciência”, ou seja, utilizando os métodos e as técnicas criados
e aperfeiçoados, seguiram caminhos e propostas diferentes. Por exemplo, Galileu
considerava os “insights”, estalos imaginativos, como uma espécie de “mecanismo
extraordinário de imediata indução” quando da observação de certos fenômenos. A

1
ROSSETTI, “Francis Bacon e seu método científico” -
https://netnature.wordpress.com/2018/01/08/francis-bacon-e-seu-metodo-cientifico/
partir deles, buscava sustentar suas hipóteses em experiências, usando de técnicas e
instrumentos matemáticos para verificar o que, por clareza súbita na mente, lhe havia
chegado de novo. Exatamente, é indubitável o caráter de extraordinário que têm
esses “estalos mentais”. Todavia, saber usá-los para fazer um percurso investigativo
pode ser a chave para descobertas.
Referindo-se a Galileu e a Bacon, escreve Farndon; A História da Ciência (2015, p. 73):
Acima de tudo, porém, ele [Galileu] era um grande cientista. Por exemplo, não pegou simplesmente
o telescópio e o apresentou como um importante instrumento científico. Teve o insight de usá-lo
para olhar o céu noturno e chegar a descobertas extraordinárias [...]

Foi a insistência de Galileu na importância da demonstração, observação e experimentação que


mostrou que Aristóteles estava errado. Ele não foi o único a olhar para as coisas dessa maneira. O
pensador inglês Francis Bacon foi um pioneiro desses novos métodos. Contudo, Galileu os colocou
em prática com tantos insights, e com efeito tão crucial, que merece ser chamado, como com
frequência o é, de “pai da ciência moderna”.

Conclusão
Por conseguinte, é certamente desonesto não reconhecer que a ciência moderna é
devedora desses grandes investigadores que se lançaram no trabalho de decifrar os
“códigos da natureza” para a compreensão e o benefício de toda a humanidade.
Subindo nos ombros desses gigantes da ciência, os homens de hoje podem vislumbrar
o que aqueles ainda não tinham conseguido ver e analisar, porém, sem estas pilastras
do método científico, todo um caminho teria ainda que ser feito. É nessa sucessão de
bravos investigadores e com os esforços que se somam ao longo da história que a
humanidade pode dar passos consideráveis rumo à qualidade científica e de vida.
Observar, analisar, levantar hipóteses, experimentar, colher resultados... antes de
tudo, é aguçar a curiosidade e permitir que ela seja transportada nas asas do método
para as alturas do conhecimento. Para isso, primeiro, é necessário trabalhar o medo da
altura que as dúvidas colocam diante do “curioso”, é preciso sair da “gaiola das
certezas”, como escrevera Rubem Alves na introdução de sua obra “Religião e
Repressão”, para alçar voos livres e mergulhar “de cabeça” no abismo do
desconhecido.