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Curso Online Confinamento: Conceitos

Atualizados de Manejo

Módulo 1 – O Confinamento como Negócio

Professor Ricardo Bürgi


Boviplan Consultoria AgroPecuária Ltda

1) INTRODUÇÃO

Até a poucos anos, a atividade de confinamento de bovinos no Brasil tinha como


principal justificativa permitir o aproveitamento do diferencial de preços do boi
gordo, entre a safra e a entressafra. Mais do que as vantagens de abater um
bovino mais novo, com acabamento adequado, ou de aproveitar subprodutos na
sua alimentação, a grande motivação dos confinadores era o abate de seus
bovinos na entressafra e o recebimento de um valor da arroba pelo menos 30 %
mais alto do que o praticado na safra. Este diferencial de preços era
conseqüência da elevada concentração de abates no 1o semestre (cerca de 70
% do abate anual ocorria entre janeiro e junho), decorrente da produção
estacional das pastagens: alta disponibilidade de forragem, em termos de
quantidade e qualidade, entre novembro e abril, e baixa disponibilidade entre
maio e outubro. De um modo geral, se os bois não eram vendidos até o final do
1o. semestre, perdiam peso na seca e somente voltavam a estar em condições
de abate no ano seguinte.

Nos dias atuais, com o advento de forrageiras como o braquiarão, cuja massa
diferida para a seca apresenta uma qualidade razoável, e de técnicas de
suplementação protéica (nitrogenada) de baixo custo, é possível manter os bois
gordos e em condição de abate, por um período mais longo, até os meses de
julho ou agosto. Paralelamente, cresceu no país a atividade do confinamento e
também a do semi-confinamento de bovinos. Desse modo, o diferencial de
preços da arroba do boi gordo, entre os períodos de safra e de entressafra,
reduziu-se nos últimos anos para cerca de 8 a 10 %.

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O confinamento hoje no Brasil é uma atividade que apresenta rentabilidade
reduzida e as justificativas para sua adoção não são mais preponderantemente
de ordem econômica. Hoje o confinamento deve ser encarado como uma
alternativa estratégica para produzir novilhos precoces, reduzir a lotação das
pastagens na seca, constituir uma reserva de alimentos volumosos, aumentar a
escala de produção da propriedade, etc.

2) HISTÓRICO DO CONFINAMENTO NO BRASIL

Na década de 70, os órgãos de extensão rural do país divulgaram entre os


pecuaristas as vantagens da adoção da atividade de confinamento, dando
ênfase às vantagens econômicas da atividade. Nesta época, o pacote
tecnológico sobre confinamento era adaptado de modelos europeus, envolvia
investimentos elevados com instalações (confinamento com piso, cochos
cobertos, lotes pequenos, etc.) e indicava como opções de volumosos as
silagens de milho e de sorgo. Predominavam confinamentos de pequeno porte
(100 a 500 cabeças), organizados ao nível da propriedade, para engorda de
gado próprio do confinador.

Na década de 80, surgiram confinamentos de porte maior (1.000 até 15.000


cabeças), as instalações foram simplificadas (piquetes sem piso, cochos
descobertos, etc.) e começou-se a utilizar, em maior escala, volumosos mais
baratos, como a cana picada e o capim elefante. Nesta época, surgiram também
os confinamentos que utilizavam como componentes principais da ração
subprodutos agro-industriais das indústrias alimentícias do milho (silagem de
restos de espigas de milho verde) e do tomate (pele e sementes) e,
principalmente, das usinas e destilarias de açúcar e álcool (bagaço hidrolisado,
levedura, melaço, etc.). Os operadores desses confinamentos, em grande parte,
atuavam apenas na terminação dos bovinos, sendo que compravam os bois
magros na safra (maio-junho) e os vendiam gordos para abate na entressafra
(setembro a novembro). O diferencial de preços da safra para a entressafra
continuou sendo o grande atrativo do confinamento, mas a compra de bois
magros para confinar ficou mais difícil, no final da década. O mercado sofisticou-
se, com a cotação do boi gordo e a possibilidade de sua comercialização no
mercado futuro e com os incentivos governamentais para a produção do novilho
precoce. Surgiram os confinamentos de aluguel, com capacidades para 5.000 a
15.000 cabeças, geralmente utilizando rações à base de resíduos e subprodutos
agro-industriais. No final da década, acentuou-se a preocupação dos
confinadores com a qualidade e com o custo de reposição dos bois confinados.
Muitos confinadores passaram a associar ao confinamento a atividade de recria
ou mesmo a produção pecuária em regime de ciclo completo (cria-recria-
engorda).

Na década de 90, a atividade de engorda de bovinos em confinamento cresceu


muito e surgiram alguns confinamentos de grande porte (até 50.000 cabeças). A
margem de lucro da atividade se estreitou muito e o bom desempenho técnico

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passou a ser determinante para a rentabilidade do confinamento. Enquanto que
nas décadas anteriores o diferencial de preços da safra para a entressafra
geralmente já garantia o lucro da atividade, mesmo que o desempenho técnico
(ganho de peso, conversão alimentar) fosse baixo, na década de 90, esse
diferencial de preços reduziu-se para apenas 8-10 % e tornou-se bem menos
importante para a rentabilidade do empreendimento do que os índices de
desempenho técnico. Os principais volumosos utilizados nas rações de
confinamento passaram a ser as silagens de capins tropicais (principalmente
Mombaça, Tanzânia e braquiarão), além da cana e seus subprodutos e do
crescente uso de silagens de sorgo forrageiro e de milheto. Acentuou-se a
associação do confinamento com as atividades de recria ou de ciclo completo.
Aquele esquema de giro rápido, com a compra dos bois magros na safra e a
venda dos bois gordos na entressafra, passou a ser de alto risco. Isto ocorreu
porque, como vimos, o diferencial de preços se reduziu, devido ao aumento da
oferta de bois gordos na entressafra e à elevação dos preços do boi magro na
safra. Especialmente os bois de qualidade, capazes de apresentar bom
desempenho técnico no confinamento, passaram a ser muito procurados e sua
cotação no mercado subiu. Por outro lado, os produtores que já utilizavam o
confinamento associado às atividades de cria e recria, passaram a tirar proveito
da produção própria de bezerros melhores, de raças e cruzamentos apropriados
para a produção intensiva de carne. A utilização de cruzamentos dirigidos,
visando a exploração da heterose (cruzamentos industriais), cresceu muito e as
centrais de inseminação passaram a vender mais sêmen de raças taurinas de
corte do que de raças zebuínas. Surgiram os confinamentos de novilhos
superprecoces (confinados logo após a desmama) e aumentou a participação de
fêmeas nos confinamentos, especialmente novilhas de cruzamentos industriais.
Cresceu muito também, nesta última década, a utilização da irrigação de
pastagens. Esta prática permite a engorda de bois durante a seca,
especialmente nas regiões do Centro-Oeste e do Nordeste. É mais uma técnica
que resulta em maior oferta de bois na entressafra, o que também concorre para
reduzir o diferencial de preços da arroba, durante o ano.

Nos últimos anos, especialmente a partir de 2002, a procura de bovinos de


qualidade pelos frigoríficos exportadores vem se acentuando. O Brasil tornou-se
o maior exportador mundial de carne, em 2003 e está consolidando esta
posição. O diferencial de preços oferecido para bovinos de qualidade e
rastreados já sinaliza um estímulo para o desenvolvimento de projetos de
confinamento que possam operar durante o ano todo. Naturalmente, a
adequação de instalações (com piso e com cochos cobertos) será necessária
para permitir a operação dos confinamentos também durante o período das
chuvas. Outra alternativa será o surgimento de estruturas de confinamento em
regiões que apresentam baixa pluviosidade (pluviosidade anual menor do que
600 mm), mas onde se possa desenvolver a produção intensiva de forragens
irrigadas.
As figuras que seguem apresentam a evolução do abate total de bovinos e da
engorda em confinamento no Brasil.

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O C ONFINA MENTO E O A BA TE TOTA L D E
BOVINOS NO B RA SIL

45.000

40.000

35.000
X 1.000 C ABEÇAS

30.000

25.000
A B A TIDA S
20.000 CONFINA DA S
15.000

10.000

5.000

0
01
83

85

87

89

91

93

95

97

99
19

19

19

19

19

19

19

19

20
19

Fonte: F NP

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3) VANTAGENS DO CONFINAMENTO

A adoção da atividade do confinamento em uma propriedade apresenta


vantagens técnicas, estratégicas e econômicas. A seguir, apresentamos
algumas delas.

- Vantagens Técnicas:

Redução da Idade de Abate – O confinamento permite a terminação acelerada


dos bovinos, com redução de pelo menos 6 meses na idade de abate.

Aumento da produtividade – O confinamento proporciona aumento dos índices


de ganho de peso e de desfrute do rebanho.

Qualidade da carne – O confinamento permite produzir o chamado novilho


precoce (pronto para abate com menos de 24 meses de idade). Além disso, o
confinamento permite atingir com segurança o grau de acabamento das
carcaças (teor de gordura) exigido pela indústria frigorífica. Estes dois aspectos
– bovinos jovens e acabamento adequado – são determinantes para a qualidade
da carne, quanto aos aspectos maciez e sabor.

- Vantagens Estratégicas:

Redução da Lotação das Pastagens na Seca – O confinamento tira toda uma


era de bovinos do pasto, aliviando as pastagens na seca e permitindo aumento
do rebanho de cria e/ou de recria e o conseqüente aumento da escala de
produção.

Abates Programados – O confinamento permite planejar a engorda de diferentes


lotes e programar os abates de modo escalonado, conforme as necessidades
financeiras do empreendimento.

Reserva de Forragens – A adoção do confinamento requer uma estrutura de


produção e conservação de forragens. A constituição de um estoque-pulmão de
forragens conservadas representa uma significativa redução de risco para o
negócio pecuário da propriedade, como um todo, e permite tirar proveito de
negócios de ocasião, como a engorda de vacas descarte, a suplementação de
bezerros e a compra de bovinos baratos, em épocas de estiagem prolongada.

- Vantagens Econômicas

Perfil das Receitas – O confinamento permite adiantar receitas e o giro de capital


do sistema de produção. Permite também obter uma melhor distribuição de
receitas durante o ano.

Vendas na Entressafra – Permite vender bois prontos para o abate em plena


entressafra, conseguindo melhores preços pela produção.

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Ágio por Qualidade – O mercado, cada vez mais, remunera melhor pela
qualidade. Hoje em dia, a conjugação dos fatores qualidade e rastreabilidade já
proporciona um ágio de R$ 2,00 a R$ 5,00/arroba.

Retorno sobre Investimento – Devido ao aumento da produtividade e do ganho


de escala, bem como da elevação do valor médio de venda da produção, o
confinamento proporciona melhoria do retorno econômico sobre o capital
investido no negócio pecuário.

4) INVESTIMENTOS PARA O CONFINAMENTO

O quadro que segue apresenta uma relação dos investimentos necessários para
estruturar um confinamento com capacidade para 2.000 bois. O valor total atinge
R$ 335,00/boi alojado. Contudo, parte desses investimentos, como tratores e
curral de manejo, já pode estar disponível na propriedade. Além disso, o
conjunto de tratores será apenas parcialmente utilizado para a produção da
quantidade de silagem indicada, o que poderia ser contratado de terceiros.
Excluindo os tratores da relação de investimentos, o valor total do investimento é
reduzido para R$ 235,00/boi.

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RELAÇÃO DE INVESTIMENTOS – CONFINAMENTO PARA 2.000 BOIS

Instalações
Currais de confinamento (cochos, cercado, preparo terreno) 104.000,00
Barracão 10X20 m para ração 50.000,00
Silos trincheira p/silagem capim 7.500,00
Sistema captação de água e rede hidráulica 11.500,00
Rede Elétrica 15.000,00
SUBTOTAL 188.000,00
Equipamentos para Ensilagem de Capim (5.000 t /ano)
01 forrageira de área total 75.000,00
02 carretas ensiladoras cap 24 m3 44.000,00
01 Trator 120 HP 90.000,00
02 Tratores 75 HP 120.000,00
01 carreta distribuidora de esterco cap 10 m3 35.000,00
01 adubadora-calcareadora cap. 5 t 7.500,00
SUBTOTAL 371.500,00

Equipamentos para Preparo e Distribuição de Ração


01 vagão forrageiro com balança cap. 10 m3 65.000,00
01 fábrica de rações cap. 3 t/hora 18.000,00
01 garra desensiladeira STARA 12.500,00
01 silo grãos cap 50 t 10.500,00
01 conj. moega/elev. canecas cap 20 t/hora 7.500,00
01 silo para ração pronta cap. 15 t 6.000,00
SUBTOTAL 119.500,00

TOTAL 679.000,00
5) CUSTOS DO CONFINAMENTO

O principal componente do custo do confinamento é a ração. A ração pode


representar 80 a 85 % do custo total do confinamento.

Por ração entende-se a quantidade total de alimentos consumidos pelo bovino


em um período de 24 horas. Esses alimentos são as forragens (volumosos) e os
farelos e grãos energéticos (concentrados). Além disso as rações geralmente
contêm suplementos minerais e aditivos. As rações são formuladas
tecnicamente com nutrientes (energia, proteína, fibra, gordura, minerais,
vitaminas, etc.) balanceados para proporcionar um determinado ganho de peso
para uma determinada categoria de bovinos. O desbalanceamento da ração
resulta em desperdício de nutrientes, redução do desempenho e aumento do
custo da engorda. Os técnicos em nutrição de bovinos se utilizam hoje de
programas de computador que permitem atingir o balanceamento requerido de
nutrientes, ao menor custo possível, para um determinado elenco de alimentos
disponíveis. As rações de confinamento custam hoje entre R$ 2,00 e R$
3,00/boi.dia e, considerando 100 dias de período de engorda, cada 1 centavo

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economizado no custo diário da ração representa uma economia final de R$
1,00 por boi confinado. Isto é muito e os pecuaristas não devem prescindir de
consultoria técnica nesse momento. Um bom técnico em nutrição animal, ao
avaliar os bois a confinar, o volumoso a ser utilizado e os alimentos disponíveis,
geralmente consegue economizar entre 5 a 10% sobre o custo de rações
comerciais padrão, adquiridas pelo pecuarista no mercado. E isso sem
alteração, e talvez até com melhoria, do desempenho dos bois confinados.
Desse modo, o técnico pode conseguir uma redução de pelo menos R$ 0,15 a
R$ 0,20/boi.dia e isto, com 2.000 bois confinados pode representar um lucro
adicional de R$ 30.000,00 s R$ 40.000,00.

O quadro a seguir apresenta uma formulação típica de ração para bovinos


confinados e dá uma idéia do peso econômico de cada tipo de ingrediente no
custo final da ração.

FAZENDA RECANTO – ÁGUA CLARA/MS


CONFINAMENTO 2004 - CUSTO DA RAÇÃO DO CONFINAMENTO
- Bois de 400 kg de peso vivo / GPD = 1,250 kg/boi.dia

Quantidade Custo (R$) % do


Ingredientes (kg/boi.dia) Unitário Total Total
Volumoso
Silagem de Capim Mombaça 20,00 0,032 0,64 30,5

Concentrado
Sorgo Moído 3,00 0,240
Casquinha de Soja 1,20 0,200
Farelo de Trigo 0,50 0,310 1,35 64,3
Farelo de Algodão 38 0,30 0,540
Uréia 0,08 0,870

Suplemento Mineral e Aditivos


Fosfato Bicálcico 0,05 0,860
Calcário Calcítico 0,10 0,060
Sal comum 0,03 0,250
0,11 5,2
Premix Mineral 0,01 1,200
Premix Ionóforo 0,01 2,200

TOTAL 2,10 100,0


GPD = ganho de peso diário

No quadro abaixo apresentamos uma estrutura típica de custos do confinamento


de bovinos, com valores atualizados para junho/2004.

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ESTRUTURA DE CUSTOS DO CONFINAMENTO DE BOVINOS
Peso vivo médio inicial dos bois confinados = 360 kg
Númer o de dias de confinamento = 100 dias
Ganho de Peso médio diár io = 1,250 kg/ cabeça.dia
Peso vivo médio final dos bois confinados = 485 kg

CUSTO DO CONFINAMENTO
CUSTO CUSTO
DISCRIMINAÇÃO DIÁRIA GANHO % do % do
(R$/ BxD) (R$/ @) desembolso total
Aliment os 2,100 40,883 85,80 81,48
Pr odut os Vet er inár ios 0,045 0,876 1,84 1,75
Mão de Obr a 0,025 0,487 1,02 0,97
Cust o Oper acional Máquinas 0,210 4,088 8,58 8,15
Manut enção de Inst alações 0,026 0,506 1,06 1,01
Ener gia Elét r ica (f ábr ica r ações) 0,042 0,811 1,70 1,62
SUBTOTAL 2,448 47,651 100,00 94,96
Depr eciação de Inst alações e Equipament os 0,127 2,472 4,93
Jur os sobr e o Cust o Aliment os (4% ao mês) 0,003 0,055 0,11
TOTAL 2,577 50,178 100,00

O custo da arroba produzida no confinamento, neste ano de 2004, deve ficar em


média entre R$ 45,00 e R$ 55,00.

6) ESPECULAÇÃO X PRODUÇÃO

O ganho especulativo com a estocagem de bois no confinamento é coisa do


passado. É verdade que o valor da arroba na entressafra deverá ser sempre um
pouco superior ao valor da safra. Porém, esse diferencial tende a diminuir ainda
mais, tornando a lucratividade do confinamento extremamente dependente da
eficiência da engorda.

No presente e no futuro, a busca de eficiência na conversão alimentar, a


integração com atividades agrícolas e agro-industriais, a produção de carne de
qualidade e o enfoque estratégico do confinamento devem cada vez mais
nortear os caminhos pelos quais deverá evoluir a atividade do confinamento.

Os quadros a seguir apresentam a evolução do valor da arroba do boi, desde a


safra (junho) até a entressafra (outubro), considerando a variação média
verificada nos triênios 1981-1983 e 1998-2000.
Os valores da arroba do boi gordo e do boi magro, para os meses de junho e
outubro de cada triênio, foram obtidos em USD, das tabelas da FNP - Anualpec
2001, e calcularam-se as variações percentuais entre as categorias de bovinos e
entre os valores de safra e entressafra. Os percentuais encontrados foram
aplicados sobre um valor base da arroba de R$ 60,00 atribuído ao mês de maio
de 2004 e os valores obtidos simulam o lucro, em valores atuais, que a simples

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estocagem de gado nos confinamentos proporcionou nos 2 triênios
considerados.

D ife re n c ia l d e P re ç o s e C u s to d o B o i M a g ro
1 9 8 1 -1 9 8 3 X 1 9 9 8 -2 0 0 0

V A L O R D A A R R Ô B A (U S D e R $ ) D IF E R E N Ç A
JU NH O O UTUB RO (R $ )
BOI GORDO BOI M AGRO BOI GORDO em 1 @ em 12 @
U S D 1 4 ,6 3 U S D 1 9 ,4 5
1981-1983

5 8 ,2 9 7 7 ,4 9 1 9 ,2 0 2 3 0 ,4 4

U S D 1 5 ,0 6 -2 ,8 6 % 2 9 ,1 5 % 3 2 ,0 1 %
SIMULAÇÃO
R$ de Mai/04

6 0 ,0 0

U S D 2 0 ,4 7 5 ,0 8 % 8 ,7 9 % 3 ,7 1 %
1998-2000

6 3 ,0 5 6 5 ,2 8 2 ,2 3 2 6 ,7 3

U S D 2 1 ,5 1 U S D 2 2 ,2 7
F o n te d o s v a lo re s e m U S D : A N U A L P E C 2 0 0 1

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7) LUCRO DO CONFINAMENTO

Os quadros do capítulo anterior deixam claro que nos dias de hoje o lucro do
confinamento depende cada vez mais de planejamento e de eficiência.

A atividade do confinamento mal planejada, mal localizada ou mal conduzida


pode apresentar prejuízos. Salvo exceções, alguns exemplos de risco
econômico do confinamento são:

- Se o confinamento for instalado em regiões onde os alimentos e outros


insumos são caros e/ou onde o valor da arroba for baixo, devido à
distância dos centros consumidores.
No Brasil, a região que compreende essas características é o noroeste do Mato
Grosso, o sul do Pará e do Amazonas e Rondônia. Ali os insumos são caros, a
produção de grãos ainda é incipiente e praticam-se os menores preços da
arroba no Brasil. Por outro lado, a região Centro-Oeste, incluindo Minas Gerais,
São Paulo, o Noroeste paranaense, o Oeste baiano e o Centro-Sul do Tocantins,
apresenta situação favorável, com insumos (grãos, fertilizantes, suplementos)
baratos e valor da arroba elevado.

Aspectos Regionais da Atividade de Confinamento de Bovinos de Corte no Brasil

Valor da @ baixo
Insumos caros

Valor da @ alto
Insumos baratos

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Independente das regiões indicadas no mapa, um outro fator pode ser
decisivo para a rentabilidade do confinamento:

“A disponibilidade regional de algum alimento muito barato e de boa qualidade”

Nesta categoria estão, por exemplo, os seguintes alimentos:


- silagens de safrinha
- volumosos e palhadas produzidos em sistemas de integração pecuária-
agricultura
- resíduos agro-industriais - bagaço auto-hidrolisado, melaço, levedura
- polpa cítrica
- resíduos de pré-limpeza de grãos
- resíduos da indústria alimentícia - resíduo de bolacha
- varredura de fábrica de macarrão
- polpa de frutas
Estes tipos de alimentos, especialmente os obtidos em integração com a
agricultura e a agroindústria, podem reduzir o custo do confinamento em até
50%.

- Se o desempenho técnico não for atingido.


Se os objetivos de ganho de peso e/ou de conversão alimentar não forem
atingidos, a possibilidade de prejuízos aumenta muito. No quadro acima, sobre a
estrutura de custos do confinamento, o custo diário é de R$ 2,58/boi, o ganho de
peso esperado é de 1,250 kg/boi.dia e a conversão alimentar é de 7,66 kg
MS/kg GPV (kg de matéria seca de ração ingerida/kg de ganho de peso vivo).
Nestas condições, considerando um valor de venda da arroba de R$ 65,00, o
lucro por arroba produzida será de R$ 14,82, ou de R$ 76,12/boi. Se o ganho de
peso for 20 % inferior e o consumo 10 % mais alto, a conversão alimentar irá
piorar para 8,94 kg MS/kg GPV e o confinamento apresentará um prejuízo de R$
2,89/arroba produzida ou R$ 14,85/boi. O gráfico que segue apresenta uma
relação entre ganho de peso e lucro do confinamento, considerado os custos
acima apresentados.

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- Se o confinador não vender rapidamente os bois já terminados
A demora em vender os bois já terminados reduz todos os índices de
desempenho técnico. Bois já terminados apresentam elevada exigência de
manutenção, ganham pouco peso e convertem mal. Isso acontece por um
motivo fisiológico: na composição do ganho de peso de bois já gordos
predomina a deposição de mais gordura ainda na carcaça. E a conversão dos
alimentos em gordura corporal é 5 vezes menos eficiente do que a conversão
desses mesmos alimentos em massa muscular. Por isso, no início da engorda
em confinamento a conversão pode ser muito boa, menos de 6,00 kg MS/kg
GPV, e ao final do período de confinamento, pode piorar para mais de 15,00 kg
MS/kg GPV, conforme apresentado no quadro que segue.

8) ASPECTOS ESTRATÉGICOS DO CONFINAMENTO

Com a estabilidade econômica, a terra deixou de ser apenas uma proteção


contra a inflação e o custo de propriedade começou a ser considerado por
muitos pecuaristas, na análise econômica de suas atividades. A intensificação

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do uso da terra, assim como a de outros fatores de produção, passou a ser
perseguida pelos pecuaristas-empresários. Na pecuária de corte brasileira, a
intensificação da produção envolve principalmente o aumento da produção
forrageira da propriedade, com o conseqüente aumento da lotação das
pastagens, visando produzir mais carne por hectare por ano.

Na fase de cria, o aumento do rebanho de matrizes de uma propriedade é


limitado pela baixa produção das pastagens durante a seca. O rebanho de
matrizes, como todos sabem, deve ser mantido na propriedade o ano todo, com
exceção de um percentual de até 20 ou 25 % das matrizes, que pode ser
descartado, geralmente na entrada da seca. De todo modo, já lá deverão estar,
prontas para substituir estas matrizes descartadas, as novilhas de reposição.
Quando se parte de um sistema extensivo de produção e são adotadas medidas
adequadas de manejo e de adubações corretivas de solo, é possível conseguir
algo como até 50% de aumento no suporte das pastagens, considerando um
manejo exclusivamente a pasto e durante o ano todo. A alimentação de vacas
de cria com alimentos volumosos no cocho, seja silagem ou feno, ainda é uma
prática onerosa e de baixo retorno, de modo que a intensificação da atividade de
cria fica mesmo limitada pelo suporte das pastagens da propriedade, durante a
seca.

Na fase de recria, é possível aumentar, com relativa facilidade, em 4 ou 5 vezes


a lotação das pastagens. Esse aumento de lotação, obviamente, pode ser obtido
apenas no período das águas e desde que se adote o manejo rotacionado
intensivo, com adubações corretivas e de reposição. Não é difícil trabalhar, na
maioria dos casos, com lotações de 5 UA/ha, ou 7 a 8 cabeças em recria/ha.
Logicamente, esta é uma lotação para o período das águas e, no período seco,
a lotação certamente será menor. Mas, as pastagens de recria, no início da
seca, recebem bezerros recém-desmamados, o que representa uma carga
animal leve. Estas pastagens devem ter boa disponibilidade de massa para a
seca e o fornecimento de sal proteinado é obrigatório. Além do mais, se
necessário, estes bezerros podem ser alimentados, a baixo custo, com
volumosos no cocho. Desse modo, fica claro que na fase de recria a
intensificação da produção pode ser muito efetiva. Em uma área reduzida da
propriedade, pode-se concentrar todos os bovinos desta fase, liberando áreas
de pastagens para aumentar o rebanho de cria e, em conseqüência, a escala de
produção da propriedade.

Na fase de engorda, o grau máximo possível de intensificação é o confinamento.


Existem medidas intermediárias de intensificação, como a engorda em
pastagens irrigadas, em pastagens de inverno, em pastagens sob manejo
rotacionado intensivo, etc.. Contudo, nenhuma dessas medidas apresenta o
mesmo impacto de permitir uma utilização tão intensiva da terra como o
confinamento. O quadro que segue apresenta uma comparação entre alguns
sistemas de engorda de bovinos:

14
Comparação entre Sistemas de Engorda de Bovinos
Premissas: - início da engorda - junho
- peso dos bois magros - 360 kg
- idade dos bois magros - 20 meses
- peso dos bois gordos - 460 a 480 kg

Sistema de Seca Águas


Engorda Lotação GPD Lotação GPD Período Produção
(cab/ha) (kg/cab.dia) (cab/ha) (kg/cab.dia) (kgPV/ha.ano)
Pastagem extensiva 0,8 0,10 0,8 0,60 jun-mar 84
Pastagem rot. intensiva 1,5 0,15 5,0 0,60 jun-fev 394
Pastagem rot. intensiva + 5,0 0,80 8,0 0,60 jun-nov 1.464
irrigação (*) dez-mai
Confinamento (**) 40,0 1,20(0,50) - - jun-out 4.800 (2.000)
(*) dois lotes de engorda por ano
(**) produção anual de silagem = 80 t/ha.ano ; confinamento de 100 dias; entre parênteses está o ganho de
peso que pode ser atribuído à contribuição energética do volumoso na ração de confinamento.

A engorda em confinamento usa a terra apenas para a produção do alimento


volumoso. Pode-se produzir, por exemplo, com gramíneas tropicais do gênero
Panicum (Mombaça, Tanzânia, etc.), cerca de 80 t de silagem de capim/ha.ano.
Esta quantidade é suficiente para engordar 40 bois, durante 100 a 120 dias. Se
a área de produção de volumosos for irrigada, estes números podem ser
dobrados. O volumoso contribui com 40-50% da energia digestível nas rações
de confinamento. Mesmo considerando este aspecto, a produtividade de carne
da propriedade é muito mais elevada do que com outros sistemas de engorda.
O confinamento pode tirar toda uma "era" de bois dos pastos da propriedade,
liberando, desse modo, uma grande área de pastagens para aumentar a escala
das atividades de cria e/ou recria. Cada 2 bois confinados, em um sistema de
produção de ciclo completo, abrem espaço na propriedade para aumentar o
rebanho de matrizes em 1 vaca. Cada boi confinado, em um sistema de
produção de recria-engorda, abre espaço na propriedade para 2 garrotes em
recria.

Finalmente, com o crescimento dos confinamentos de aluguel, que buscam


lucrar com a grande escala de produção ou com a utilização localizada e
exclusiva de determinados alimentos baratos (resíduos e sub-produtos agro-
industriais), o pecuarista pode enviar seus bois para terminação fora da
propriedade e, assim, usufruir os mesmos benefícios já referidos, sem contudo
investir em instalações e maquinário para produção de silagem.

Hoje em dia, a engorda de bovinos em confinamento, apesar de pouco atrativa


economicamente (as margens são estreitas), é uma alternativa estratégica para
o pecuarista que quer administrar com menor risco, ganhar escala no seu
sistema de produção e ganhar qualidade em seus produtos.

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A seguir, apresentamos um estudo de caso que exemplifica o impacto que a
adoção da atividade do confinamento pode ter sobre a produtividade e
lucratividade de um sistema de produção de gado de corte, em regime de ciclo
completo, numa fazenda com apenas 340 ha de pastagens. Os mapas da figura
abaixo apresentam o uso das pastagens da fazenda, antes e depois da
implantação do confinamento.

Fazenda com 340 ha de pastagens


Rebanho de Ciclo Completo

sem confinamento com confinamento


V
vacas
V EC
V R V
EP V
R
recria Confinamento
EP
R EP
V R
engorda
R a pasto V
V V
EC
Reserva Reserva
engorda
confinamento

A adoção do confinamento abriu espaço para aumentar o rebanho de matrizes


em 33%. O número de cabeças em engorda, nos dois casos, representa o
número de bois somado ao de vacas e novilhas de descarte (93 bois e 37 vacas
e novilhas de descarte, sem o confinamento, e 120 bois e 49 vacas e novilhas
de descarte, com o confinamento). Os quadros que seguem apresentam o custo
de produção, nas fases de cria, recria e engorda, considerando as opções de
engorda a pasto ou engorda em confinamento.

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PRODUÇÃO DO NOVILHO PRECOCE (MACHO)
Custos de Produção da Arrôba nas 3 Fases de Produção de Gado de Corte
- Cria, Recria e Engorda a Pasto (Sistema Intensivo)

CRIA Semi-Intensiva RECRIA INTENSIVA ENGORDA A PASTO TOTAL


80 % nat. SECA ÁGUAS SECA ÁGUAS
(PRSI) (SAL PROT.) (PRI) (SAL+U) (PE)
1,2 vacas/ha 3,0 cab./ha 6,0 cab./ha 1,3 cab./ha 1,3 cab./ha 2,14 ha
240 dias 150 dias 210 dias 150 dias 170 dias 920 dias
out-03 mai-04 mai-04 out-04 out-04 mai-05 mai-05 out-05 out-05 abr-06 out-03 abr-06
35 179 kg 179 202 kg 202 328 kg 328 358 kg 358 460 kg 35 460 kg
0,600 kg/dia 0,150 kg/dia 0,600 kg/dia 0,200 kg/dia 0,6 kg/dia 0,461 kg/dia
R$ 239,21 R$ 38,99 R$ 132,58 R$ 47,48 R$ 198,83 R$ 657,09
5,97 @ 0,75 @ 4,20 @ 1,00 @ 4,32 @ 16,24 @
R$ 40,09 /@ R$ 51,99 /@ R$ 31,57 /@ R$ 47,48 /@ R$ 46,04 /@ R$ 40,47 /@

R$ 40,09 /@ R$ 34,66 /@ R$ 46,31 /@ R$ 40,47 /@


Valor es de maio de 2004

PRODUÇÃO DO NOVILHO PRECOCE (MACHO)


Custos de Produção da Arrôba nas 3 Fases de Produção de Gado de Corte
- Cria, Recria e Engorda em Confinamento

CRIA Semi-Intensiva RECRIA INTENSIVA ENGORDA CONF. TOTAL


80 % nat. SECA ÁGUAS SECA
(PRSI) (SAL PROT.) (PRI) (RAÇÃO)
1,2 vacas/ha 3,0 cab./ha 6,0 cab./ha 30,0 cab./ha 1,41 ha
240 dias 150 dias 210 dias 100 dias 700 dias
out-00 mai-01 mai-01 out-01 out-01 mai-02 mai-02 set-02 out-00 set-02
35 179 kg 179 202 kg 202 328 kg 328 458 kg 35 458 kg
0,600 kg/dia 0,150 kg/dia 0,600 kg/dia 1,300 kg/dia 0,604 kg/dia
R$ 239,21 R$ 38,99 R$ 132,58 R$ 265,15 R$ 675,93
5,97 @ 0,75 @ 4,20 @ 5,25 @ 16,17 @
R$ 40,09 /@ R$ 51,99 /@ R$ 31,57 /@ R$ 50,52 /@ R$ 41,81 /@
R$ 40,09 /@ R$ 34,66 /@ R$ 50,52 /@ R$ 41,81 /@
Valor es de m aio de 2004

Apesar de a adoção do confinamento resultar em um custo de produção mais


alto, a lucratividade do sistema com o confinamento é maior, devido ao ganho de
escala. Considerando a necessidade de área de pastagens por boi terminado
(2,14 ha sem o confinamento e 1,41 ha com o confinamento), pode-se simular a
seguinte situação de receitas e de rentabilidade, conforme apresentado no
quadro que segue:

17
Rentabilidade de Sistemas de Pr odução de Gado
de Cor te - Ciclo Completo
Engorda a Pasto X Engorda em Confinamento
Pr emissa: Pr opr iedade com 340 ha de pastagens

ENGORDA ENGORDA
Discriminação A PASTO CONFINADA
No. cabeças vendidas por ano 159 241
Produção (@/ha.ano) 7,57 11,48

Produção total (@/ano) 2.574 3.903

Custo de Produção (R$/@) 40,47 41,81

Custeio da Produção (R$/ano) 104.192,04 163.183,30

Receita Total do ano (R$)


-valor de @ na safra = 60,00 154.464,53

-valor de @ na entressafra = 68,00 265.373,82

Resultado líquido (R$/ano) 50.272,49 102.190,52

Considerando o valor da terra a R$ 3.000,00/ha e o valor do rebanho a uma


média de R$ 400,00 por cabeça, a rentabilidade anual, sobre o patrimônio, do
sistema sem confinamento é de 4,02 % e a do sistema com confinamento é de
7,76 % .

Apesar das vantagens econômicas, a adoção do confinamento requer


capacidade de investimento, práticas gerenciais e administrativas mais apuradas
e intensivas, além de treinamento da mão de obra. No caso apresentado, a
necessidade de insumos para a produção dobra, conforme apresentado no
quadro que segue:

18
NECESSIDADES DE INSUMOS PARA OS SISTEMAS DE PRODUÇÃO,
COM E SEM CONFINAMENTO

(*) Cria-Recria-Engorda a Pasto - 259 matrizes (**) Cria-Recria-Engorda Confinada - 334 matrizes.

Resumindo, são requisitos para a adoção da engorda em confinamento:

- Capacidade de investimento
- Planejamento
- Treinamento de mão de obra
- Estrutura para aquisição de insumos
- Gerenciamento de operações mecanizadas
- Controles da produção e dos custos
- Administração intensiva

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANUALPEC 99 - Anuário estatístico da Produção Animal, 1999: coordenação


técnica de Victor Abou Nehmi Filho e outros, Editora Argos Comunicação,
São Paulo/SP, 447 p.
ANUALPEC 2001 - Anuário estatístico da Produção Animal, 2001: coordenação
técnica de Victor Abou Nehmi Filho e outros, Editora Argos Comunicação,
São Paulo/SP, no prelo
Curso BOVIPLAN - Intensificação da Pecuária de Corte no Brasil – editado por
BOVIPLAN Consultoria Agropecuária Ltda., Piracicaba, SP - 165 p.
Simpósio sobre Produção Animal, 5o., Piracicaba/SP, 1987. Confinamento de
bovinos de corte e leiteiros: anais / editado por Aristeu Mendes Peixoto, José
Carlos de Moura e Vidal Pedroso de Faria. - Piracicaba: FEALQ, 1987.
Simpósio sobre Nutrição de Bovinos, 6o., Piracicaba/SP, 1995. Utilização de
resíduos culturais e de beneficiamento na alimentação de bovinos: anais /
editado por Aristeu Mendes Peixoto, José Carlos de Moura e Vidal Pedroso
de Faria. - Piracicaba: FEALQ, 1995.

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