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EXMO. SR.

JUIZ DA VARA DO TRABALHO DE CRATEUS – CE

RECLAMAÇÃO TRABALHISTA

Nome: MARIA DO SOCORRO Brasileira, Casada, Aposentada


ARAGÃO MAGALHÃES

CPF: 736.137.383-68 RG: 2002014164148 SSP/CE

End.: Assentamento Saco do Belém, s/n, Cidade: Santa Quitéria/CE


zona rural

por sua procuradora, in fine assinada, ut incluso instrumento


procuratório (doc.01), endereço no timbre para intimações de estilo,
vem, respeitosamente, perante V. Exa., com esteio nas disposições
do art. 8º, inciso III, da Constituição Federal, c/c arts. 513, “a”, e 839,
“a”, da CLT, interpor a presente RECLAMAÇÃO TRABALHISTA em
face do MUNICÍPIO DE SANTA QUITÉRIA, pessoa jurídica de direito
público, CNPJ n.º 07.725.138/0001-05, com sede na Rua Ernestina
Catunda, 50, Piracicaba, Santa Quitéria, Ceará, pelos fatos e
fundamentos de direito que adiante expõe:

1
I - DA COMPETÊNCIA

O Município talvez dirá não ser a Justiça do


Trabalho competente para apreciar a presente ação em razão da
instituição do Regime Jurídico Único, ou Estatuto dos Servidores.

Como será debatido no mérito, o RJU, muito


embora instituído pela Lei 083-A/93, de 11/10/1993, jamais foi
publicado em órgão oficial, no que faz surgir o disposto na Súmula n.º
01 do E. TRT 7ª Região, que dispõe que “"Somente de admitir, como
válida e eficaz, lei que instituir R.J.U, quando sua publicação houver
sido feita em órgão oficial, nos termos do art.1º da L.I.C.C."

Não sendo a referida lei municipal válida e eficaz,


conclui-se que os servidores municipais fazem jus às verbas
inerentes ao regime celetista, entre elas, o FGTS, pleiteado nesta
ação, além de estar firmada a competência da justiça laboral para
processar o pleito em liça.

II - DO MÉRITO

II.I - DO DIREITO AO FGTS

A reclamante foi servidora pública do reclamado,


ingressando no serviço público em 02/03/1981, por anotação de
contrato de trabalho em sua CTPS, e, empós, ininterruptamente, em
01/09/1983, através de ato de nomeação (documento em anexo),
tendo adquirido a estabilidade conforme o disposto no artigo 19 do
ADCT.

Importante comunicar que a reclamante encontra-


se aposentada desde 04/10/2010, data em que ocorreu a extinção de
sua relação de trabalho (carta de concessão da aposentadoria por
idade ou INFBEN em anexo).

2
Sob o auspício de ter virtualmente instituído o
RJU, a partir de NOVEMBRO DE 1993 o reclamado deixou de efetuar
os depósitos nas contas vinculadas dos seus servidores. No caso da
reclamante, contudo, desde a admissão os depósitos não foram
efetivados.

De acordo com o que estatui o art. 1º, caput, da


Lei de Introdução ao Código Civil, a lei para vigorar, isto é, para viger,
em todo o território nacional, deverá ser oficialmente publicada. Ora,
não há outra forma de publicar oficialmente uma lei a não ser através
do órgão oficial de imprensa. A propósito, veja-se o que preleciona
sobre o tema a civilista MARIA HELENA DINIZ1, ipsis litteris: “A Lei
tornar-se-á obrigatória, repetimos, só após a publicação, por gerar a
presunção de que a norma jurídica, já formada e declarada em
execução, chegou ao conhecimento daqueles que são adstritos a
obedecer ao seu comando e dos que devem executá-la e aplicá-la. A
publicação da lei deverá ser oficial (RF. 33:352), ou seja, feita sob a
responsabilidade do governo, no Diário Oficial, para que mereça fé e
tenha autenticidade a fim de ser conhecida pela sociedade e
obedecida pelos seus destinatários, embora sua vigência não se
inicie, desde logo, exceto se o legislador assim o determinar.” (grifo
atual).

No caso específico do Município reclamado,


verifica-se que o Regime Jurídico Único jamais foi publicado, o que,
como dissemos, faz nascer o direito do reclamante à verba
eminentemente celetista, como é o caso do FGTS. que lhe foi
deliberadamente suprimido.

Na esteira do entendimento aqui trilhado,

1
Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro; 2ª ed., São Paulo: Saraiva
1996, p. 44

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transcrevemos arestos oriundos do Regional alencarino, in verbis:

RJU NÃO OFICIALMENTE PUBLICADO. FGTS.


COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO TRABALHO. Regime
Jurídico Único só tem vigência eficaz depois de
publicado em órgão oficial, nos termos do art. 1º da
LICC (Súmula n.º 01 deste Tribunal). Não havendo
RJU válido, o regime reconhecido há de ser o
da CLT, no qual o FGTS é devido e a
competência para julgar o litígio é da Justiça do
Trabalho. Recurso do reclamado conhecido, mas
desprovido. HONORÁRIOS DE ADVOGADO NA
JUSTIÇA DO TRABALHO. A verba de honorários de
advogado é devida nos termos da Constituição
Federal em vigor (art. 133) e legislação
infraconstitucional, como art. 20 do CPC e Estatuto
da OAB (art. 22). Recurso adesivo do autor,
conhecido e provido.
(TRT 7ª Região - RO 53300/2008-023-07-00-7 – 1ª
Turma – Rel. Manoel Arízio Eduardo de Castro – j.
09/12/2009 – pub. 03/02/2010 – Fonte DEJT)

REGIME JURÍDICO ÚNICO - LEI NÃO


OFICIALMENTE PUBLICADA FGTS DEVIDO. Não
comprovada a publicação do RJU, deve ser
confirmada a decisão que não reconheceu a sua
existência válida. Recurso Ordinário conhecido e
improvido.
(TRT 7ª Região – RO 03300/2009-022-07-00 – 2ª
Turma – Rel. Jose Ronald Cavalcante Soares – j.
09/11/2009 – pub. 12/01/2010 – Fonte DEJT)

4
RJU NÃO OFICIALMENTE PUBLICADO - FGTS -
COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO TRABALHO - Regime
Jurídico Único só tem vigência eficaz depois de
publicado em órgão oficial, nos termos do art. 1º da
LICC (Súmula n.º 01 deste Tribunal). Não havendo
RJU válido, o regime reconhecido há de ser o
da CLT, no qual o FGTS é devido e a
competência para julgar o litígio é da Justiça
do Trabalho. Recurso conhecido e improvido.
(TRT 7ª Região – RO 32600/2009-024-07-00 – 1ª
Turma – Rel. Manoel Arízio Eduardo De Castro – j.
21/10/2009 – pub. 08/01/2010 – Fonte: DEJT)

(grifamos)

Como também é cediço, o FGTS é direito de todo


trabalhador, estendido aos servidores públicos celetistas, nos termos
do art. 15, caput e § 1º, da Lei n.º 8.036/90. Diante da invalidade e
ineficácia do RJU instituído pelo reclamado, tem-se que a reclamante
era vinculada a este como servidora celetista, o que faz surgir o
direito à verba fundiária.

Diante do amparo legal e Jurisprudencial, devido é,


pois, à reclamante, o recolhimento do FGTS relativo ao período em
que o reclamado deixou de fazê-lo, ou seja, desde sua admissão até a
extinção do vínculo mediante sua aposentadoria.

III – DO PEDIDO

Em face do exposto, requer:

1) A notificação do reclamado para responder à

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presente, sob as cominações legais;

2) A procedência final da presente reclamatória,


para compelir o reclamado a pagar ao reclamante os depósitos
fundiários desde sua admissão, em MARÇO/1981, até a extinção de
seu vínculo empregatício, em OUTUBRO/2010 (data de sua
aposentadoria), apurados em liquidação, devidamente acrescidos de
correção monetária e juros, na forma legal, devendo tais valores
serem disponibilizados sem necessidade de depósitos, para resgate
pelo beneficiado, em face do ocaso da relação de emprego.

3) A condenação do reclamado nas custas


processuais e honorários advocatícios na base de 20% do valor total
apurado em liquidação.

Protesta por todos os meios de prova admitidos em


direito, depoimentos pessoais, juntada posterior de documentos,
testemunhas, perícia, etc, tudo desde já requerido.

Dá-se à causa o valor de R$ 2.000,00 (dois mil


reais) para efeitos fiscais.

P. Deferimento.
Santa Quitéria, 11 de outubro de 2010.

_________________________
Dra. Valéria Magalhães
OAB/Ce nº10.965