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FILOSOFIA E METAFÍSICA – UM RESUMO

Trabalho produzido para a disciplina História da Metafísica IV, do curso de Mestrado em Filosofia da
UFRN, ministrada pelo Prof. Dr. Glenn W Erickson Aluno: Roberto Solino. Novembro de 2013.

1. Introdução. Na introdução da parte dois de Negative Dialectics and the End of


Philosophy (1990), Glenn W. Erickson oferece um diagrama que procura resumir as
relações entre metafísica e filosofia, assim como destas com o pensamento
extrafilosófico (fig. 1). Esse diagrama é limitado e contempla apenas as áreas do
pensamento pré, pós, extra e antifilosófico, além da própria filosofia, e o pensamento
metafísico e antimetafísico.

Figura 1
Neste trabalho propomos um novo diagrama, ampliado, usando como base as
anotações de aula da disciplina de História da Metafísica IV (2013), onde o assunto
foi abordado de maneira ampla, e da disciplina da graduação História da Filosofia IV
(2011), assim como o texto da introdução citada.

2. O pensamento pré-filosófico. A filosofia é tradicionalmente aceita como tendo


surgido na Grécia por volta do séc. VI a.C., com os chamados filósofos pré-
socráticos. Antes deles, porém, houve um período onde diversos pensadores se
destacaram, mas suas ideias não possuíam suficiente sistematização e validade
racional para serem consideradas minimamente "filosóficas". Esse pensamento era
muitas vezes sacro, mítico e, como exemplo dele, podemos citar o zoroastrismo
(séc. VI a.C.) e o budismo (séc. V a.C.) além de, na Grécia, as ideias de Sólon
(sécs. VII-VI a.C.), como suas legislações.
3. O pensamento extrafilosófico. Paralelamente ao desenvolvimento da filosofia,
podemos considerar a existência de um tipo de pensamento que não é propriamente
filosófico mas que se articula com este de maneira próxima. A investigação histórica
de Heródoto (séc. V a.C.), por exemplo, avança em relação às crônicas e épicos
anteriores que, embora fossem registros dos acontecimentos, não tratavam a
história como um processo capaz de gerar conhecimento sobre o ser humano. Essa
característica de "pesquisa" (historía, em grego), que fez de Heródoto pioneiro
também na etnografia e na antropologia, o aproxima dos pensadores filosóficos, mas
é Tucídides (Séc. V a.C.) quem realiza um trabalho ainda mais próximo da filosofia,
ao aplicar critérios críticos no estudo dos eventos históricos, ressaltando inclusive o
papel do poder nas relações entre as pólis (política). O trabalho de Tucídides se
aproxima também da abordagem científica do conhecimento, proximidade que a
filosofia em seus primeiros tempos também mantinha. Mais recentemente,
Quintiliano (séc. I), orador e retórico romano, realizou uma obra que se vale do
pensamento metafísico. Ele chega, inclusive, a confundir os tipos de estado
(conjectura, definição e qualidade) com as categorias do trivium, que classificam os
tipos de coisas que existem (substância, qualidade e ação), típicas da metafísica.
Assim temos Heródoto e Tucídides como exemplos de pensamento extrafilosófico
pré-metafísico e Quintiliano, como exemplo do mesmo tipo de pensamento agora já
metafísico, embora a metafísica em si não fosse um dos seus interesses de estudo.

4. Filosofia e metafísica. A filosofia surge, como já dissemos, por volta do século VI


a.C., quando habitantes da região onde hoje é a Grécia começaram uma transição
da visão mítica e religiosa do mundo para uma investigação mais racional da
realidade. Essa “filosofia” pré-socrática, embora assim chamada, ainda era um
amálgama de mitologia e de filosofia e ciência incipientes. Muito do que esses
primeiros filósofos, os physiologoi, investigavam hoje forma campos das ciências
naturais, como a física. Mesmo a dupla Platão e Aristóteles, que praticamente dão
início ao que se pode chamar mais propriamente de "filosofia", não tratam em suas
obras apenas de temas filosóficos. Aristóteles caminha largamente pelas ciências
naturais, como a botânica, assim como pelo que depois viria a ser as ciências
humanas. A sua Poética, por exemplo, é um tratado de retórica. Mesmo hoje é difícil
apontar um critério consensual sobre o que é filosófico e o que não é. Os filósofos
germânicos procuraram definir a disciplina por seu conteúdo. Heidegger definiu a
filosofia como o pensamento que busca conhecer a realidade em termos de
totalidade e essência, definição que concorda com a do próprio Platão, em A
República (485b).

Quando as ciências começam a se diferenciar na Grécia antiga, a metafísica emerge


como sendo o objeto de estudo da filosofia e por muito tempo foi considerada, ao
lado da epistemologia, uma das áreas centrais da investigação filosófica. Todas as
outras áreas seriam apenas exemplos de "filosofia aplicada". Mas, embora tenha
surgido associada à filosofia e raramente apareça separada dela, a metafísica não é
necessariamente um campo filosófico. Sendo um tipo de pensamento por meio de
sistemas de conceitos, a metafísica se aplica tanto à filosofia quanto ao pensamento
extrafilosófico e cresceu tanto nos últimos tempos que alcança inclusive áreas fora
do campo do pensamento, como a tecnologia da informação. Assim temos na
filosofia um período pré-metafísico, onde podemos incluir todos os pré-socráticos,
um período metafísico inciado por Platão e Aristóteles e, por fim, um período pós-
metafísico. Esse último é antecedido por um ataque aos conceitos fundamentais da
metafísica, como substância e causa. Essa antimetafísica, da qual a filosofia
marxiana pode ser considerada um marco, mas que possa ser recuada ao tempo
dos nominalistas, representa uma recusa moderna à possibilidade de se investigar
quaisquer conhecimentos que transcendam os limites da experiência. Marx,
Guilherme de Ockham, Hume, Nietzsche, Heidegger I e os filósofos analíticos
podem ser citados como exemplos dessa atitude, que reflete de algum modo a
filosofia pré-metafísica de Pitágoras e Parmênides.

5. Pós-metafísica e pós-filosofia. Alguns pensadores não-filósofos, como


Rousseau, também podem ser contados nas fileiras da antimetafísica, que se
posiciona em oposição à metafísica e, portanto, ainda ligada a essa, mas assume
assim um momento pós-filosófico. Somente com Heidegger II é que a metafísica e
suas negações são deixadas para trás e podemos, pela primeira vez, falar em um
momento pós-metafísico. Essa fase do pensamento heideggeriano pode ser
caracterizada também como antifilosófica, por abandonar a própria tarefa da
filosofia, atitude já tomada em sua primeira fase, antimetafísica. Nos anos 50 e 60
Heidegger abandona de vez a filosofia e o pensamento adentra uma nova fase, a
pós-filosofia, refletindo um movimento geral da cultura, onde as ideologias também
se findam, levando à morte do romance, da poesia, da pintura, da história até, o qual
ficou geralmente conhecido como "pós-modernismo".

O advento da pós-filosofia representa enfim uma alternativa genuína para a disputa


filosofia/antifilosofia, pois já não se interessa pela cisão com o pensamento filosófico,
e se propõe a ir além do que a tradição filosófica vinha pensando. Essa “pós-
filosofia”, representada pelo Heidegger III, é um campo autônomo do pensamento,
cuja história está para ser escrita em um momento posterior de seu
desenvolvimento, já que os conceitos utilizados para a crítica da filosofia não podem
ser aplicados a ela. Enquanto a antifilosofia era uma resposta à filosofia e a
antimetafísica uma resposta à metafísica, numa provável formação reativa freudiana,
a pós-filosofia salta para além da filosofia, tentando alcançar o ainda não-pensado.

6. Conclusão. O diagrama que propomos para representar as relações entre


filosofia e metafísica e seus desenvolvimentos distribui essa terminologia
metafilosófica em um diagrama de Euler (fig. 2) onde o campo do pensamento é
representado por uma elipse, sendo seu conjunto complementar tudo aquilo que não
é pensamento, como a arte e a tecnologia.

Figura 2
A filosofia ocupa uma elipse contida no pensamento, separando a filosofia do
pensamento extrafilosófico (em cinza), o qual intersecciona com os dois círculos que
representam os pensamentos pré e pós-filosófico. Três outros círculos representam
a metafísica e seus momentos pré e pós, os quais interseccionam os pensamentos
filosófico e extrafilosófico. A metafísica é a única área que se expande além do
pensamento e discorda do movimento temporal que parece se deslocar da esquerda
para a direita através do diagrama.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de filosofia. Trad. Desidério Murcho et al.


Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.
BURNET, John. A aurora da filosofia grega. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Ed.
PUC-Rio, 2006.
ERICKSON, Glenn W. Negative Dialectics and the End of Philosophy. Wolfeboro:
Longwood, 1990.
MACK, Peter. Renaissance argument: Valla and Agricola in the traditions of rhetoric
e dialectic. Colônia: Brill, 1993. Brill's studies in intelectual history, vol. 43.
WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikimedia Foundation. Apresenta conteúdo
enciclopédico. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/>. Acesso em: 14 de novembro
de 2013.