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SEBENTA DE HISTÓRIA DA

FARMÁCIA E DA
TERAPÊUTICA
Aulas teóricas desgravadas acompanhadas com uma pitada de slides

2017/2018

Ângela Cardoso

Inês Torres
Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Índice
Aula 1 2

Aula 2 9

Aula 3 14

Aula 4 18

Aula 5 26

Aula 6 31

Aula 7 35

Aula 8 38

Aula 9 42

Aula 10 47

Aula 11 50

Aula 12 52

Aulas 13 e 14 56

Aula 15 60

Aula 16 63

Aula 17 68

Aula 18 73

Aulas 19 e 20 76

Aulas 21 e 22 79

Nota: pode conter vestígios de erros

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Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa
Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Aula 1 – 02/03/2018

Para que serve a história da farmácia e da Terapêutica?

o Papel da formação humanista no ensino das ciências:


o Contextos do ensino:
o As ciências e as letras
o O geral e o particular
o A mudança
o Contextos da atividade profissional
o O profissional e o Estado
o Ciência e política
o O profissional e a sociedade
o O público
o Os outros profissionais
o A empresa

A história da farmácia

o História do medicamento
o Preparação (Farmácia)
o Utilização (Terapêutica)
o Nas sociedades humanas
o História social e das ideias
o Parte integrante da História da Ciência, da Tecnologia e da Medicina

Donde vem a doença?

Há mitos que são importantes sobre a origem da doença e há um que é


particularmente interessante, por duas razões:

o Não é monocultural – tem origem em diferentes culturas. Há um conjunto de


mitos que se desenvolveram na Humanidade em diferentes culturas. O mito
do dilúvio, por exemplo, por muito estranho que pareça, não é algo que exista
só na bíblia judaica.
o Nós podemos com alguma facilidade perceber a sua origem, que, para a
sociedade moderna, levanta ensinamentos e questões extremamente
importantes.

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O mito da Arcádia e
da Caixa de Pandora têm a
ver com a cultura grega
clássica. O mito da Arcádia é
um mito que se dá num
contexto religioso politeísta,
mas depois o mesmo mito
da queda surge num
contexto religioso
monoteísta com o judaísmo e o cristianismo que tem a ver com a existência de
um Paraíso e depois com a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Portanto, em
ambos os casos, qual é a ideia que está por detrás disto? No caso do mito de
Pandora, existia um local na Terra, que era a Arcádia, que corresponde a uma área
geográfica na Grécia, que era um local onde a Humanidade vivia “na maior” e em
equilíbrio com os Deuses e com as entidades mitológicas.

Quando é que as coisas se estragam? Quando a Pandora abriu o vaso


onde estavam todos os males do mundo e, portanto, ao abrir a caixa liberta os
demónios todos e, logo, a doença. Portanto, tudo o que é mau para a
Humanidade é libertado pela Pandora.

Na queda do Paraíso, existe algo semelhante.


O paraíso é o local onde Deus coloca os primeiros
seres humanos, o Adão e Eva, a viver. Eles vivem
sem dificuldades e são imortais, logo, eles não
adoecem. A única proibição de Deus é que eles não
podem provar o fruto da árvore do conhecimento
e, portanto, por sugestão demoníaca, é curioso
termos em conta que a
existência de demónios
já é uma parte do mito
da queda, porque os
demónios são antigos
anjos que foram
expulsos (bíblia). Só pela existência de Lucifer e de
outros demónios já há aqui uma queda.

Estes dois processos de queda (em primeiro


lugar, da expulsão dos anjos caídos (dos anjos que se

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revoltam contra Deus) e depois da intervenção dos anjos caídos, dos demónios,
provocando a tentação de Adão e Eva para provarem o fruto da árvore do
conhecimento) leva à segunda fase da queda, que é a expulsão de Adão e Eva do
Paraíso e essa expulsão, como acontece com a caixa de Pandora, é o que cria a
doença, porque, a partir do momento em que eles são expulsos do Paraíso, eles
perdem a vitalidade e têm a possibilidade de adoecerem.

De onde é que vem isto? O que nós percebemos é que este mito tem
provavelmente origem nas transformações observadas na pré-história. O que é
que nós sabemos da pré-história? Tem muito a ver com o estudo de três
aspetos:

1) os estudos da Paleopatologia, ou seja, o estudo dos restos ósseos


provenientes de períodos antigos. Estas técnicas do estudo dos restos
ósseos, que se tornaram um bocado populares na televisão nos últimos
anos, permitem nós percebermos uma série de coisas sobre as sociedades
como coisas tão simples como “o que é que as pessoas comiam?” ou
“porque é que morreram?”. Consegue-se então saber e constituir alguma
da vida desses seres humanos com o estudo do tecido ósseo que ficou
depois de mortos. Este estudo da Paleopatologia não é um estudo direto,
é o estudo do objeto que resta daquela sociedade;
2) o estudo das sociedades, que já praticamente todas desapareceram
(povos “primitivos”), sociedades que tiveram pouco contacto com as
sociedades com escrita e que, portanto, mantiveram uma série de formas
de organização social e tradições. Mas o estudo dessas sociedades,
principalmente no século XIX e XX, permitiu perceber por analogia como
é que organizariam muitas das sociedades antes do
aparecimento da escrita;
3) o estudo das primeiras sociedades com escrita e a forma
como se organizavam.

Estes três níveis de análise, ao serem comparados entre si, permitem tirar
algumas conclusões.

Portanto, aquilo que nós sabemos destas sociedades e que nos interessa,
é a passagem entre a chamada “idade da pedra”, do Paleolítico e do Mesolítico,
para o Neolítico, que em geral se chama a Revolução Neolítica e que se deu
algures cerca de 5000 a.C. Podemos perceber que a tal sensação de queda e a
sensação de transformação têm muito a ver com as transformações sociais e
económicas observadas durante a Revolução Neolítica.
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No Paleolítico, como é que a


Humanidade sobrevive? Essencialmente
fazendo duas funções: funcionando como
recoletores e como caçadores. Como
recoletores, o Homem apanhava o que
estava “à mão” e comia (havia árvores de
fruta, sementes e raízes) e caçava. A forma
Paleolítico – (ca. 500.000-10.000 a.C.) de economia do Paleolítico era
essencialmente baseada nestas duas atividades. Os grupos sociais são grupos
sociais pequenos, normalmente pequenas tribos, muitas vezes, com poucas
dezenas de membros, com muito pouco contacto com outras tribos e esse
contacto normalmente quando existia era violento. Porque é que havia pouco
contacto? Porque eles concorriam para a mesma fonte de recursos. Se estavam
na mesma zona geográfica, competiam com os diferentes grupos. A tendência é
organizaram-se em áreas geográficas diferentes e terem pouco contacto entre si,
para poderem desenvolver esta atividade. São também sociedades normalmente
nómadas. Os animais são mortos à medida das necessidades, portanto, são
caçados à medida que é preciso consumir (não dá para armazenar).

No Neolítico, esta situação altera radicalmente. Em primeiro lugar,


porquê? Porque os grupos humanos aumentam e, portanto, esta ideia de que é
possível termos grupos nómadas que não
andam sempre “às turras” e a chocar com
outros grupos nómadas, só acontece quando
a densidade populacional ainda é pequena.
Quando a densidade populacional atinge um
determinado limite, os recursos começam a
desaparecer, começam a chocar entre si e
Neolítico – (ca. 5.000 a 3.000 a.C.)
aumentam as crises bélicas.

Portanto, a humanidade naturalmente foi desenvolvendo outras técnicas


e outros recursos. Há dois recursos essenciais que surgem no Neolítico:

o Cultivar, em vez de estar à espera que as coisas cresçam normalmente e


apanhar quando crescem. O Homem foi aprendendo técnicas de cultivo e,
portanto, isso permitia não sair da sua área geográfica, fazendo culturas que
se podiam repetir, tornando-se assim relativamente inesgotáveis.
o Domesticar, em vez de andar atrás dos animais.

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Porque é que a Revolução Neolítica é importante para nós na


sociedade atual? Em primeiro lugar, a Revolução Neolítica se calhar só acabou
agora. A Revolução Neolítica se calhar só acabou quando o campo desapareceu,
quando as sociedades se tornaram urbanas. Portanto, há muita da Revolução
Neolítica que se mantém ainda no século XX, mas no século XX com uma
industrialização acelerada e, principalmente com uma criação dos grandes
agrupamentos urbanos e, portanto, isso leva à redução da importância da
agricultura. Em Portugal, este problema tem normalmente outra denominação
que é a mudança para o litoral, da mudança do interior para o litoral, da
transferência de uma sociedade rural para uma sociedade urbana.

Paleolítico

Do ponto de vista da saúde, o que é que isto tem a ver com o mito da
queda? Em primeiro lugar, quais são as doenças existentes no Paleolítico
(portanto, as doenças existentes antes da Revolução Neolítica)?

Doenças transmissíveis há muito poucas, as doenças transmitem-se


quanto muito dentro da própria tribo, não há grandes transferências geográficas.
Muitas das doenças que conhecemos hoje não existiam, porque não havia
densidade populacional para elas se transmitirem. Ainda temos na atualidade
exemplos disso, por exemplo, o ébola só se tornou um problema grave do ponto
de vista da saúde pública no momento em que o ébola começou a contactar com
as sociedades desenvolvidas. Portanto, doenças como a gripe, a varíola, o
sarampo, etc., simplesmente não existiam, porque não havia transmissão. Por
outro lado, nós estamos a falar de sociedades nómadas, sociedades que se
movem, sociedades que não têm tempo para poluir o sítio onde vivem (ou seja,
eles têm, mas depois quando o sítio está poluído, mudam de sítio). As lixeiras da
pré-história, nomeadamente os chamados concheiros, são importantíssimas do
ponto de vista do estudo arqueológico. Mas a verdade é que no tempo do
Paleolítico, o Homem nunca estava tempo suficiente no mesmo local para que o
lixo se tornasse um problema de saúde pública (o material orgânico já teria
sofrido biodegradação). Por outro lado, como não havia animais domesticados,
não havia reservatórios para a transmissão de certas doenças. Há um conjunto de
doenças que foi um choque para o Neolítico, porque elas no Paleolítico não
existiam. Por outro lado, que doenças é que existiam? Essencialmente, doenças
associadas a ferimentos (gangrena, tétano); algumas doenças em que o
reservatório era animais selvagens, por exemplo a raiva que é transmitida pelos
lobos; doenças relacionadas com alimentos crus ou mal cozinhados, como a febre

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tifoide, transmitida pela caça, brucelose e febres hemorrágicas; no homem,


existiam algumas doenças que já estavam presentes, como a sífilis e o treponema;
e depois aquilo que em muitos casos se admite que possa ser o fim de algumas
sociedades primitivas que é a pouca diversidade genética. O tabu do incesto é
algo que se desenvolve em larga medida quando a Humanidade percebe que a
consanguinidade, ou seja, o cruzamento sexual entre parentes próximos, é um
problema genético, um problema de saúde, causa malformações, etc.

Neolítico

No Neolítico, este perfil patológico altera-se. Em primeiro lugar, a


agricultura leva ao aparecimento de doenças próprias, como por exemplo, os
parasitas nas próprias plantas e a existência de águas paradas (nos arrozais e até
mesmo águas utilizadas para a rega) também leva ao aparecimento de um
conjunto de doenças. A pastorícia e a domesticação levam a que exista uma maior
partilha de espécies patogénicas entre o Homem e os animais que são
domesticados. Surge, por exemplo, doenças epidémicas, como a tuberculose e a
varíola com origem nos bovinos; as gripes (por exemplo, a gripe das aves), que
surgem nos porcos e nos patos; e os rinovírus, que têm origem principalmente
nos cavalos. Por fim, outra questão fundamental, é o aumento da concentração
populacional, ou seja, a agricultura, a sedentarização, etc. levam a que as
sociedades se passem a agrupar no mesmo local, levando ao aparecimento de
aglomerações urbanas – as cidades. Estas têm um problema complicado: a
densidade populacional é grande e a deposição dos detritos é feita no próprio
local com maior ou menor eficiência.

O que é que se passa, então, no Neolítico? Temos uma crise de recursos


alimentares e uma série de alterações técnicas (agricultura, domesticação) que
permitem ultrapassar essa crise de recursos e, depois, temos novos problemas
que são criados por essa alteração. Se olharmos para a nossa sociedade atual, é
fácil perceber que estamos numa situação de crise. Com o rápido crescimento da
densidade populacional que nós assistimos na atualidade, é evidente que a forma
como nós temos os nossos recursos alimentares nos dias de hoje, daqui a 50 anos
já não vai existir.

Se há alguma coisa que podemos concluir quando olhamos para o


Neolítico é que fazer qualquer coisa é irremediável: ou nós começamos a matar
a população e, portanto, reduzimos a densidade populacional, ou, então, vai ser
necessário alterar, do ponto de vista tecnológico, a forma de produção de
alimentos. No entanto, esta alteração a esta produção não pode ser deixada para
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as leis do mercado, porque estas normalmente são aferidas em função do


exercício anual e, portanto, uma empresa que obtém bons lucros ao fim do ano
pode estar a estragar o habitat onde nós vivemos ao fim de 10, 20, 30 anos. Estes
problemas levantam na atualidade problemas grandes dos pontos de vista
técnico e político, nomeadamente, como é que a sociedade pode controlar estas
alterações técnicas e a sua aplicação industrial dessas alterações técnicas.

Há medida que as civilizações se foram desenvolvendo na antiguidade,


estas doenças tornam-se mais graves. Isso tem a ver com o quê? Em primeiro
lugar, as civilizações que vão surgir são civilizações urbanas de grandes
aglomerados populacionais. Por outro lado, são civilizações que têm grandes
trocas entre si, profundos e permanentes contactos entre si e esses contactos são
simultaneamente pacíficos e bélicos. Em ambos os casos, isso tem consequências
do ponto de vista sanitário. Os contactos comerciais têm consequências
importantes do ponto de vista de transmissão, por causa das movimentações das
pessoas, das mercadorias, dos animais, etc., promovendo as grandes epidemias.
As guerras também, porque são responsáveis por grandes deslocações
populacionais, havendo transmissão e invasão de cidades. Dessa ocupação,
resulta questões culturais, mas também sanitárias.

Na antiguidade, existiram uma série de situações que podemos interpretar


como grandes epidemias:

o Pragas do Egipto
o Grande epidemia de Atenas – 430 a.C.
o Durante a guerra do Peloponeso (431-404 a.C.)
o Descrição: Tucídides (460-404 a.C.)
o Origem: África -> Pérsia -> Atenas. Durou 4 anos na região. Terá morto
um quarto do exército e população ateniense. Causa incerta.
o Império romano
o Peste antonina (165-180). Pensa-se que poderá ser varíola, trazida do
Próximo Oriente por tropas romanas. Dizimou um quarto da população
nas regiões afetadas.
o 2.ª epidemia – 211-266. Chegou a 5.000 mortes/dia.
o Peste de Justiniano (Egipto, 540; Constantinopla 542). P. bubónica.

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Aula 2 – 02/03/2018

Como foi referido anteriormente uma das formas que nós extrapolamos o
que se passa na pré-história é com o estudo das primeiras sociedades com
escrita, nomeadamente:

o A região que atualmente corresponde maioritariamente ao Iraque (entre o


Tigre e o Eufrates) = Mesopotâmia (teve grande influência para as civilizações
atuais europeias)
o Egipto (vale do Nilo)
o Corredor sírio-palestino (faixa mediterrânea que liga o Egipto à Mesopotâmia)

Sendo por isso grandes sociedades urbanas que desenvolvem a sua


agricultura à volta destes rios, pois são as regiões que se tornam mais férteis entre
o degelo polar e as zonas quentes do equador, zonas onde devido a este
equilíbrio entre o grande frio das zonas geladas mais a norte e o grande calor
mais a sul se vão desenvolver grandes cursos de água, permitindo assim o
desenvolvimento da agricultura em grande escala e, por sua vez, de civilizações
à volta dessa mesma agricultura.

Aparte: Apesar de, na atualidade, ao olhar para as imagens do Egipto ou do Iraque


retirarmos a ideia que estes locais têm de tudo menos férteis, na altura eles eram os locais
mais férteis do planeta. A Bíblia refere Israel como sendo a terra do leite e do mel

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No ponto de vista do Egipto, há aparentemente um maior equilíbrio étnico


civilizacional entre o chamado Antigo Império, Médio Império e o Novo Império
(havendo mudanças de capitais).

Na Mesopotâmia vai-se observar uma maior transformação étnico-


civilizacional. Na Mesopotâmia vamos observar três civilizações: os Assírios,
Babilónios e os Sumérios, em todos estes casos existem invasores que vão tomar
conta do território. A grande questão importante aqui é que: um território fértil
(com água e agricultura) vai ser atacado por invasores que desenvolveram as suas
aptidões bélicas, conquistando assim o território = PROCESSO DE
ACULTURAÇÃO (a vida do povo conquistado era melhor do que a dos invasores,
logo o conquistador é aculturado pelo conquistado). Ex.: quando os bárbaros
conquistaram Roma.

Como foi referido anteriormente, o que foi transmitido em maior


quantidade do ponto de vista cultural para a europa de hoje veio mais da
Mesopotâmia do que da civilização Egípcia. As fontes nestas duas civilizações
eram diferentes,

o No Egipto, usava-se o papiro (origem no mediterrânio) que se degradava em


ambientes húmidos;
o Na Mesopotâmia, o material de escrita eram uns tijolos de argila (tabuinhas)
que eram cravados com um estilete enquanto esta se encontrava fresca
(escrita cuneiforme).

Como as tabuinhas são mais resistentes (aos incêndios de palácios, onde


eram guardadas, sendo que estes só fortaleciam ainda mais as tabuinhas) que os
papiros, a maioria das fontes encontradas foram as tabuinhas, daí o facto de a
Mesopotâmia ter tido um papel cultural importante para a europa de hoje.

Aparte: As fontes Mesopotâmicas (revelantes para a Farmácia) mais antigas que se


conhecem datam do último quartel do terceiro milénio A.C. e contêm 15 receitas
medicinais

O que estas tabuinhas nos dizem sobre as crenças sanitárias da


Mesopotâmia? As crenças sanitárias da Mesopotâmia são muito interessantes
para nós percebermos o que se passa numa série de sociedades e também para
percebermos algumas coisas que ainda se permanecem na chamada Medicina
popular da antiguidade.

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Saúde e magia na Mesopotâmia

Em primeiro lugar contrariamente ao que acontece hoje no judaísmo e no


cristianismo, nós estamos a falar de sociedades politeístas. Além da Humanidade
os mesopotâmicos acreditavam na existência de uma série de entidades
sobrenaturais, embora houvesse deuses mais importantes que outros.

Qualquer que seja a vossa crença a verdade é que a descrição dos deuses
nestas civilizações reflete a forma como as sociedades se veem a si próprias.
Sociedades que se viam a si próprias de uma forma piramidal hierárquica, olham
para o mundo dos deuses também como uma pirâmide (como a mitologia greco-
romana).

Há entidades especializadas e há entidades sobrenaturais mais positivas (a


que podemos chamar Deuses) e outras mais negativas (a que podemos chamar
demónios).

Uma das caraterísticas interessantes (ainda presente no cristianismo) é a


criação por parte dos mesopotâmicos do conceito de Deus Pessoal/Protetor
(atualmente mais referido como anjo da guarda, mas também os santos são
exemplos de).

Deus Pessoal é um deus protetor da própria pessoa, seu confidente e amigo, são
deuses menores e, portanto, não têm grande poder direto mas vão interceder
junto dos grandes Deuses (como Marduk e Ea).

Ea é:

o O Deus tutelar da Babilónia;


o O Deus dos deuses;
o Considerado como o Deus da luz do exorcismo, da arte de curar e da
sabedoria;
o O pai do deus da literatura e da escrita (Nabu);
o Deus do oceano (água é a fonte da vida), da água doce e o criador da
vegetação dos seres humanos.
o Como é o Deus todo-poderoso não se deve fazer invocação direta, pois pode
não gostar (usar o Deus Protetor ou um sacerdote).

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No ponto de vista etnológico o que define Santo?

Um Santo é um homem ou mulher que a igreja tem a certeza que está no


Paraíso, estando assim ao pé de Deus, podendo interceder junto dele.

Na prática aquilo que na igreja católica define um Santo são atualmente


curas milagrosas (feitas com a mediação do sangue).

Aparte: Antes do século XX, as pessoas não tinham muita confiança em médicos, sendo
que nesta época o que era mais importante era o prognóstico e não a cura em si, logo, um
médico era considerado como sendo um bom profissional se por exemplo ele disse-se que
o doente iria morrer e tal acaba-se por acontecer

Ver Oração de Apiladad

o Apiladad é o doente;
o Conceito de que a doença deriva de um desentendimento com o Deus
Protetor;
o Cativeiro = doença;
o Isthar, Deusa da sexualidade;
o Marduk, Shamash e Isthar são os intercessores mais invocados, mais fortes
que o Deus Pessoal (Ver slide dos Deuses invocados).

NOTA: Para os mesopotâmicos a morte é algo terrível.

A lenda de Gilgamesh tem origem no Rei Sumérico de Urk (3º milénio), o


poema está contido em 12 tabuinhas da biblioteca Assurbanípal e relata
principalmente a relação (parte desta é uma relação homossexual) entre dois
homens (Gilgamesh e o seu companheiro íntimo, Enkidu). Este tipo de relações
sexuais, principalmente entre homens, é muito frequente na antiguidade.

História do poema:

Enkidu é representado como um homem com força de javali, com crina de


leão e velocidade de pássaro, ele é representado como um leão ao colo de
Gilgamesh. O que acontece é que Isthar quer ir para a cama com Gilgamesh, mas
Gilgamesh (embora provavelmente fosse bissexual) não queria ir para a cama
com Isthar, pois esta matava os seus parceiros, recusando-se assim o desejo da
Deusa. Como castigo a Deusa mata Enkidu. Toda a História do poema centra-se
na tentativa de Gilgamesh de ir ao mundo dos mortos para falar com Enkidu, com
a esperança de o trazer de volta (consegue falar com ele, mas não o traz de volta).
Há várias questões interessantes neste poema:

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o Existência de uma figura que é o equivalente mesopotâmico ao Noé =


Shamash – napishtim que sobreviveu ao Dilúvio e se tornou imortal, isto está
na origem de uma associação que nós vamos encontrar ao longo dos séculos
(com grande relevância na civilização grega) que é a associação da serpente
com a saúde.
o O Gilgamsesh encontra Shamash-napishtim pois quer encontrar a planta da
interna juventude, porque a ideia é levar a planta para o mundo dos mortos e
dá-la a Enkidu. Shamash-napishtim diz que Gilgamesh irá encontrar a planta
no fundo do mar. Depois de Gilgamesh colher a planta, este vai-se lavar numa
fonte e nessa altura aparece uma serpente que come a planta, ganhando a
capacidade de renovar a sua pele.
o Parte do poema que se encontra no slide é dito por Enkidu e dirigido a
Gilgamesh

Para os mesopotâmicos a doença é sempre causada por espíritos


malignos, demónios, quando as pessoas estão protegidas pelos Deuses os
demónios não podem aturar. Para os mesopotâmicos existe o termo Shêrtu, que
significa pecado (algo feito pelo Homem que desagradou aos Deuses), cólera
divina (reação dos Deuses), castigo e doença (doença resulta sempre do pecado).

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Aula 3 – 09/03/2018

Começámos a ver na última aula, os conceitos de saúde e doença na


Mesopotâmia e ficamos o próprio termo que representa doença na Mesopotâmia
= Shêrtu (este termo representa a forma como eles olhavam para a origem da
própria doença). Portanto a doença era sempre resultado da intervenção de um
espírito sobrenatural, que podia ser:

o Uma ação direta dos Deuses;


o Deus retira a proteção (porque estavam zangados com os seres humanos),
logo o demónio possui (tendo em atenção que a ação do demónio é uma
ação potencialmente constante, mas este só consegue atingir o ser humano
quando a proteção é retirada);
o Posse do demónio resultado da magia negra (capacidade que certos homens
podem ter de dirigir as forças malignas num, determinado sentido);
o Destino (estava escrito que a pessoa estaria doente numa determinada altura,
formando assim um conjunto de fatores que iriam levar ao “ataque” do
demónio).

Os mesopotâmicos acreditavam nas causas naturais, só que achavam que


estas não eram determinantes para a doença, mas sim a ação dos Deuses.

Que tipo de espíritos negativos/ demónios são esses?

Existem vários tipos de espíritos que dão origem a demónios, por exemplo:

o Os espíritos dos mortos que não conseguiram descansar (Edimmu ou


Ekimmu) podendo ter várias origens:
o Mortos por enterrar;
o A que não se dedicavam oferendas (por esquecimento ou por falta de
descendência);
o Que não tinham cumprido a sua missão na terra.
o Resultantes da união entre demónio e humano (M/F; na Bíblia é nos
transmitida a ideia de cruzamento entre anjos caídos e humanos, havendo
assim descendência); (Lilû, Lilîtinou Ardatilî);
o Deuses inferiores ou diabos
o Nergal – peste
o Ashakku – febre
o Ti`u – cefaleias
o Sualu – doenças do peito

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NOTA: Ver a tabuinha no slide 26

Se a doença nasce de uma prática qualquer que desagradou aos Deuses,


o diagnóstico na Mesopotâmia passa essencialmente por um interrogatório, ou
seja, saber o que o ser humano fez que desagradou aos Deuses (em tabuinhas há
um espécie de menus de questões a serem feitas).

Aparte: Na idade média cristã, os filhos dos bispos realizavam um conjunto de perguntas
(específicas a cada profissão) a serem feitas pelos parcos às pessoas que iam comungar
(obrigatório pelo menos uma vez por ano, na altura da páscoa). Este conjunto de
perguntas eram muito parecidas com as que se encontravam presentes nas tabuinhas.

Na Mesopotâmia, estas listas de perguntas sistemáticas para saber o que


o doente o que o doente tinha feito, pois isto determinava qual era a origem da
doença e ao determinarem esta origem, poderiam prever a sua evolução. Tipo de
perguntas (do ponto de vista religioso e também social):

o Semeaste a discórdia entre pai e filho?


o Semeaste a discórdia entre mãe e filha?
o Semeaste a discórdia entre irmãos?

Também havia o conceito da impureza moral por contágio o que tornava


tudo possível. Através da tabuinha (slide 28), nós percebemos a possibilidade da
impureza moral, ou seja, a possibilidade do ato de pecar. Esta tabuinha demostra
que a pessoa peca de forma inconsciente e isto tem a ver com um outro conceito
que será explicado mais à frente, o justo doente.

Portanto o diagnóstico passava por este interrogatório, com o objetivo de


saber qual tinha sido o ato impuro, o pecado que tinha sido cometido, para
também perceber qual o era o demónio que se tinha apoderado do corpo e
determinar algo em relação ao prognóstico (perceber qual os propósitos dos
Deuses).

Os métodos utilizados, além do interrogatório propriamente dito,


passavam principalmente no que diz respeito aos propósitos dos Deuses pelas
técnicas de adivinhação. As técnicas de adivinhação passavam pela crença e a
técnica (onde os Deuses manifestavam as suas vontades) usada era uma forma
de permitir perceber ao certo as intenções dos Deuses. Estas técnicas incluíam
coisas como:

o Interpretação das chamas e do fogo (Piromancia);

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o Interpretação do formato dos fígados dos animais (Hepatoscopia), sacrifício


de animais para perceber os desígnios dos Deuses (o animal sacrificado
substitui o doente, logo há a crença de que a forma do fígado do animal
representa o fígado do doente);
o Sonhos (Oniromancia);
o Presságios a partir de nascimentos anormais (homens/animais) = devido a
intervenção Divina;
o Astrologia.

Terapêutica

Uma vez de determinado o diagnóstico (saber qual o pecado, quais as


entidades sobrenaturais envolvidas e as suas intenções), havia a necessidade de
curar o doente e de introduzir técnicas terapêuticas. Há duas técnicas de
terapêutica que são coincidentes:

o Reconciliação com os Deuses


o Oração (também serve para expulsar demónios)
o Marduk e outros intermediários (podem ser humanos, como os
sacerdotes);
o Por mandato de Ea, o sacerdote representa o doente perante o
tribunal dos Deuses.
o Sacrifícios (é um mau menor que tem em vista um bem melhor)
o Alimentício (dos Deuses), expiratório (destruição do bem, o
humano não vai comer a carne do animal sacrificado) e
substitutivo (do homem)
o Expulsão dos demónios
o Encantamentos e purificações por magia
o Dirigidos ao tribunal dos Deuses;
o Dirigidos diretamente contra o demónio;
o Profiláticos, amuletos (podem repelir ou absorver os demónios,
um dos mais usados é o SAL);
o Dirigidos a objetos (para lhes incutir espírito)

Os demónios depois de possuírem o corpo do doente, passam a sentir o


que o doente sente, logo o que é mau para o doente também é mau para o
demónio. Isto está na origem numa crença presente na medicina popular que é
o facto de que um medicamento tem que ser desagradável e quanto mais
desagradável for melhor é o medicamento.

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O justo doente

As pessoas que nasceram com problemas de saúde não pecaram.

O conceito do justo doente, ou seja, a pessoa que acha que não pecou/não
praticou nenhum ato impuro, mas que está doente por causa disso. Normalmente
eram consideradas duas vias:

o Pecado inconsciente
o Nomear o pecado cometido, mesmo que inconsciente
o Poder da palavra (ao ser dita pode ter o mesmo significado de forma
consciente ou inconsciente, ou seja, para eles era igual se eu dissesse
que me arrependia do meu pecado, apesar de não saber qual é o
pecado, ou se eu acreditar que o não cometi)
o Nome – representação espiritual de objeto ou pessoa
o Mencionar algo aprox. possuí-lo.
o Recitar listas de possíveis faltas (lista com vários pecados. O
homem faz a lista se for dizendo que se arrepende de todos os
pecados presentes nessa lista à de acabar por se desculpar pelo
pecado cometido, apesar de não saber qual foi)
o Pecado de família (o cristianismo não acredita nisto, mas sim no pecado
original/coletivo, Adão e Eva,)
o Na cultura judaica: cura do cego de nascença

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Aula 4 – 09/03/2018

Templos de Asclépio (asklépieia)

Há vários locais na Grécia Antiga onde


existem templos de Asclépio, Kos, Epidauro,
Knidos e Pérgamo. Nesses templos, existiam sacerdotes que se dedicavam à cura
de doentes e essa cura era feita através de um tratamento chamado “incubatio”
e baseava-se no seguinte: os doentes passavam a noite no templo e eram curados
e, embora passassem a noite em grupo, eram curados individualmente.

Há duas tradições e o que é que nós sabemos acerca dessas tradições?


Uma delas tem a ver com as tabuinhas que os doentes curados colocavam nos
próprios locais, no caso de Epidauro e Pérgamo. Há textos escritos nessas tábuas
que permitem perceber como é que as pessoas acreditavam que havia a prática
da cura e como é que ela se processava.

Há dois casos diferentes: em Epidauro, por volta do séc. IV a.C. e depois


em Pérgamo cerca de 500/600 anos depois, no séc. II d.C. Em Epidauro, era como
se fosse uma espécie de enfermaria, ou seja, os doentes estão lá, o Asclépio passa
por lá durante a noite e ia curando-os individualmente. Em Pérgamo, o que
acontece é um pouco diferente. Como eles são visitados pelo Asclépio, o que o
ele faz é indicar a prescrição, ou seja, o que é que eles devem fazer para serem
curados (ele não os cura diretamente). Há uma diferença cultural fundamental
entre estes dois períodos, porque o segundo implica que o doente tenha alguma
cultura médica: alguém tem de sonhar e acreditar numa prescrição, ele tem que
ter ideias sobre as possíveis formas de tratamento. Se ele não souber nada sobre
o assunto, ele não pode imaginar nada sobre o que Deus lhe diz. Se ele supõe e
acredita que o Asclépio diz qualquer coisa para se curar, ele tem de ter esse
conhecimento. Isto significa que em 500/600 anos, há um aumento de cultura
grande sobre questões sanitárias na população.

Esta questão é muito interessante, porquê? Porque as pessoas


acreditavam que isto dava resultados. A crença é profunda e muito difundida na
sociedade grega da época. As pessoas acreditavam seriamente que Deus existia
e que curava e necessariamente tinha de haver alguns resultados.

Como é que os gregos explicam a saúde e a doença na própria


natureza? Essa explicação está muito próxima da forma como os gregos e os
pensadores gregos encaram a constituição do mundo.

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Bases filosóficas da Medicina grega

Há dois autores: Alcméon e Empédocles. Para Alcméon, a saúde é o


resultado do corpo humano de uma série de equilíbrios entre qualidades opostas,
como por exemplo, o frio e o quente, o húmido e o seco e o doce e o amargo.
Quando a pessoa está sã, existe um determinado equilíbrio. Se esse equilíbrio se
rompe, a pessoa fica doente.

Um autor como Empédocles introduz a ideia dos 4 elementos, que depois


vai ser muito difundida e associada à figura de Aristóteles (são muitas vezes
chamados “os 4 elementos Aristotélicos”). Segundo Empédocles, a natureza seria
constituída por 4 elementos: a Terra, a Água, o Ar e o Fogo e estes 4 elementos
seriam os constituintes de todas as coisas, incluindo o corpo humano. Portanto,
quando estes 4 elementos estão em equilíbrio, o corpo humano está saudável.
Quando surge um desequilíbrio, o corpo humano fica doente. Se pensarmos que
estamos a falar de sociedades que se desenvolveram a
partir da sedentarização com a agricultura e que se
desenvolveram à volta de rios, esta ideia do equilíbrio é
uma ideia muito próxima por exemplo do equilíbrio que
os rios trazem para a vida social, nomeadamente para a
agricultura – quando há desequilíbrio, há secas ou cheias;
quando há equilíbrio, há o suficiente para alimentar os
campos para haver uma agricultura rica para as pessoas
terem alimento.

Esta ideia do equilíbrio de fluidos na saúde e na doença vai instalar-se em


determinadas escolas médicas que frequentemente estavam próximas de sítios
onde havia templos de Asclépio (Knidos, Crotone e Kos). Há esta ideia de que
existem fluidos (podem ser constituídos por ar, água, etc) e que numa situação
normal permitem a saúde, mas quando se introduz o desequilíbrio, introduz a
doença. Portanto, há o conceito de apepsia, que é o aparecimento do
desequilíbrio; a ideia de pepsis que é a reação do corpo a tentar reganhar o
equilíbrio perdido (existe a ideia de que o mundo e o corpo humano tendem para
o equilíbrio – situação normal; o desequilíbrio é anormal; tanto o mundo como o
corpo humano fazem coisas para tentar recuperar esse equilíbrio; coisas como a
febre, a inflamação ou o pus são formas, para os gregos, do corpo tentar reganhar
o equilíbrio (processos de autorrecuperação)); por fim, existe sempre um
resultado final neste desequilíbrio, que é a recuperação do equilíbrio através da
eliminação de humores em excesso (crisis ou lysis) e a crisis ou lysis pode originar

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duas coisas: a cura ou a morte (pode ajudar a recuperar o equilíbrio perdido ou


o equilíbrio tornar-se totalmente disfuncional e desaparecer e quando esse
equilíbrio desaparece dá-se a morte).

Hipócrates

A figura que vai representar estas ideias todas (não quer


dizer que a mesma as tenha criado) é Hipócrates, que viveu na
ilha de Kos e que é contemporâneo daquelas figuras
conhecidas de Péricles, de Empédocles, de Sócrates, de Platão,
etc. Do ponto de vista histórico, é importante nós termos em
conta que os nomes que ficam na história são normalmente
figuras importantes (o Hipócrates é uma figura dessas) e, portanto, por causa do
nome ser conhecido, ele é nomeado em textos do próprio Platão e de outros
autores. Ele ao ser uma figura conhecida acaba por representar aquelas pessoas
todas que chegaram àquelas ideias. Esse conjunto de ideias que foram
desenvolvidas na Grécia foram recolhidas no século seguinte à morte de
Hipócrates, em Alexandria, por um senhor chamado Baccheio, que reuniu uma
série de textos (no total 53 livros) à qual deu o nome de Corpus Hippocraticum.
Supostamente teriam sido 53 livros escritos pelo Hipócrates, mas nós sabemos
hoje que isso não é verdade, porque as ideias são contraditórias em muitos casos.
Nós hoje sabemos que esses 53 livros foram escritos por pessoas diferentes. No
entanto, o que aqui é importante é que quando nós falamos do Corpus
Hippocraticum, falamos de um conjunto de textos que foram desenvolvidos mais
ou menos na mesma época (a época em que Hipócrates viveu) à qual depois foi
atribuída a sua autoria (porém, ele apenas representa aquele coletivo).

Teoria dos Humores

Há uma teoria
subjacente ao Corpus
Hippocraticum, que é a
Teoria dos Humores. Esta é
particularmente importante
na história da Medicina e da
Farmácia, porque ela vai
durar cerca de 2000 anos e seguido por muita gente (provavelmente a teoria
médica que tem maior longevidade).

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

A ideia é a seguinte: tudo o que existe na natureza é constituída pelos tais


4 elementos (Fogo, Ar, Terra e Água). No que respeita aos seres vivos,
nomeadamente aos seres humanos, a constituição do corpo destes é constituído
por humores/substâncias/fluidos e cada uma delas está associada a um destes
elementos. Esses fluidos são:

o a Bílis Amarela (associada ao Fogo);


o o Sangue (associado ao Ar);
o a Linfa (associada à Água);
o a Bílis Negra (associada à Terra).

Quando o corpo está são, estes quatro humores encontram-se em


equilíbrio e este não é igual a toda a gente, cada pessoa tem o seu equilíbrio
próprio.

Como é que os humores são criados? Os humores são criados a partir


dos alimentos e depois, em 4 órgãos diferentes, esses alimentos são
transformados em humores:

o o fígado produz bílis amarela;


o o coração produz sangue;
o o cérebro produz linfa ou fleuma;
o o baço produz a bílis negra.

Quando nós andamos por aí, nós comemos, respiramos, bebemos água,
etc e tudo isso ao entrar no nosso corpo é transformado naqueles 4 órgãos em
humores e esses humores misturam-se no nosso corpo para manter o corpo vivo.

É possível considerar 4 grandes categorias de pessoas de acordo com as


tendências do equilíbrio:

o os coléricos (que têm uma


predominância de bílis amarela);
o os sanguíneos (que têm uma
predominância de sangue);
o os fleumáticos (que têm uma
predominância de linfa);
o os melancólicos (que têm uma
predominância de bílis negra).

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Cada uma destas categorias de predomínio de equilíbrio confere às


pessoas determinadas características próprias:

o os coléricos são normalmente aqueles que se diz que “fervem em pouca


água”, irritadiços, com mau-feitio, etc;
o os sanguíneos são normalmente muito ativos;
o os fleumáticos são cerebrais, intelectuais;
o os melancólicos são mais deprimidos.

Em relação às representações medievais destas 4 compleições:

o os coléricos (associados à guerra) normalmente são representados com umas


espadas “à pancadaria”;
o os sanguíneos (associados aos prazeres do sexo e da mesa) são
frequentemente representados a perseguir mulheres (são mais ativos do
ponto de vista sexual – é a forma de representação mais frequente);
o os fleumáticos são representados mais a pensar;
o os melancólicos são muitas vezes representados frustrados e deprimidos.

Um outro aspeto em ter em conta é acerca das qualidades (seco, quente,


húmido e frio). Cada um deste humores possui 2 qualidades (é fácil de perceber
quais são as qualidades se nos lembrarmos do elemento que está associado ao
humor):

o a bílis amarela, que está associada ao Fogo, tem como qualidades o seco e o
quente;
o o sangue, que está associado ao Ar, tem como qualidades o quente e o
húmido;
o a linfa, que está associada à Água, tem como qualidades o húmido e o frio;
o a bílis negra, que está associada à Terra, tem como qualidades o seco e o frio.

A chave para nós nos lembrarmos deste esquema são os 4 elementos.

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Por exemplo, a dor de cabeça, segundo o esquema, é uma produção de


linfa em excesso no cérebro, que provoca pressão intracraniana. As doenças que
estão associadas à constipação e ao Inverno são doenças de origem fria e húmida.
Quando nós temos coriza (saída de líquido pelo nariz), nós temos um ambiente
agressivo, que é frio e húmido, que provoca produção em excesso de linfa, sendo
a linfa expulsa pelo nariz.

Como se tratam os doentes com base neste conjunto de doenças? Há


em regra duas técnicas: uma é expulsar o humor que estiver em excesso (se há
desequilíbrio, quer dizer que houve um humor que foi produzido em maior
quantidade e então vamos tentar expulsá-lo; ao expulsá-lo, estamos a diminuir o
volume de humores no nosso corpo e este quando sente que estamos a ficar sem
humores começa a produzir humores novos – os humores que são expulsos são
humores que estão em desequilíbrio, mas os humores que estão a ser produzidos
pelo nosso corpo tendem em estar em equilíbrio (se expulsarmos humores,
estamos a promover a produção de humores sãos)). Isto é importante, porque
não precisamos de estar preocupados em expulsar apenas o humor que está em
excesso; se conseguirmos expulsar humores em abstrato, estamos a provocar
uma situação em que os novos humores tendem a ser humores sãos. Há aqui
uma questão importante que é o facto de alguns humores corresponderem a
substâncias que nós conhecemos, por exemplo, o sangue. No entanto, segundo
a teoria humoral, o sangue que corre nas nossas veias e o humor sangue não são
a mesma coisa – o que significa que o sangue que corre nas nossas veias é muito
rico em humor sangue. Há, portanto, uma diferença entre o humor e a substância
que usa a mesma designação que o humor. Uma técnica terapêutica que se torna
muito comum, principalmente a partir da Idade Média, e que é muito utilizada
por exemplo nos séc. XVII e XVIII é a sangria. A sangria consistia em fazer uma
incisão no braço e fazer verter o sangue que saia para um recipiente. Eles não
estão só a expulsar o humor sangue, quando fazem a sangria. Estão a expulsar os
outros humores todos e os novos humores que são produzidos no corpo tendem
a ser humores saudáveis, ou seja, duas coisas: uma até é verdade, isto é, se
fizermos uma depleção do sangue, o nosso sistema hematopoiético produz mais
sangue, para substituir o sangue perdido (a ideia de que eles têm de que,
expulsando humores, o corpo aumenta a produção de humores é verdade).
Portanto, a ideia de que, ao expulsar humores corruptos, eles estão a produzir
humores sãos, serve para qualquer uma destas técnicas. Se nós imaginarmos tudo
aquilo que permita expulsar substâncias do nosso corpo, é uma técnica
terapêutica, por exemplo podemos expulsar humores através das fezes, da urina,

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do suor, etc. Tudo isto são técnicas para purificar os humores e tentar obter o
equilíbrio do corpo. Qualquer técnica para expulsar material do nosso corpo é
positiva para a recuperação do equilíbrio.

Outra técnica utilizada é a de usar substâncias que tenham qualidades


opostas às do humor que estiver em excesso. Isto está relacionado com o caso
do nosso sistema de saúde, que é chamada medicina halopática e que é diferente
da medicina homeopática. Esta medicina que se pratica nos dias de hoje tem
origem no séc. XVIII e opõem-se à medicina tradicional. A medicina tradicional o
que diz é o seguinte: nós tratamos a doença com substâncias contrárias a essa
mesma doença. A homeopatia diz que se deve utilizar substâncias com as
mesmas qualidades do humor que está em excesso. Segundo a medicina
halopática, as qualidades da doença são as qualidades do humor que estiver em
excesso. Por exemplo, há uma dama da corte que tem momentos de fúria e
processos muito complicados acompanhada de dores de cabeça muito fortes.
Quando é chamado um médico para a curar, o que é que o médico faz? Atira-
lhe pimenta moída pelo nariz – se olharmos para o esquema, vemos que as dores
de cabeça são provocadas por excesso de linfa e, portanto, têm origem fria e
húmida (porque a linfa é fria e húmida), então vamos usar um medicamento que
seja quente e seco e a pimenta surge aqui como um medicamento quente e seco
para contrariar o humor que é frio e húmido. Como é que eles sabem que é
quente e seco, etc? Através dos chamados caracteres organoléticos. Estes são
aqueles que a gente consegue determinar uma substância utilizando os nossos
sentidos. Os caracteres organoléticos mais importantes para a maior parte das
substâncias são o cheiro, o sabor e a cor. Se pegarmos na pimenta, temos uma
sensação de calor e secura e era isso que era utilizado para a determinação das
substâncias. Muitas vezes, é a cor: uma substância com uma cor mais azulada é
uma substância mais fria; uma substância mais amarela ou vermelha é uma
substância mais quente.

No que diz respeito a substâncias medicamentosas, uma das categorias de


substâncias que mais se utilizava na preparação de medicamentos na Idade
Média eram as substâncias que nós hoje chamados de especiarias e que
praticamente só as utilizamos na culinária. As substâncias que têm um cheiro,
sabor e cor fortes, por exemplo o açafrão, são substâncias que são facilmente
classificadas e, portanto, são substâncias muito ativas farmacologicamente. Na
Idade Média, quando olhamos para as receitas utilizadas na preparação dos
medicamentos, um dos grupos mais importantes é o grupo das especiarias. As
especiarias mais conhecidas, especiarias orientais, são conhecidas na Europa

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desde a Antiguidade. Eram substâncias caras, mas a ideia de que as substâncias


para produzir medicamentos serem caras queria dizer que as substâncias eram
boas. Por exemplo, se tivermos mel e açúcar, apesar do sabor do mel ser melhor,
o mel, como é muito mais barato do que o açúcar, é mal considerado e, portanto,
o açúcar é considerado o melhor para disfarçar o sabor desagradável dos
alimentos.

A água de colónia era primeiramente utilizada como medicamento,


porque tinha um cheiro forte. Já as substâncias que tendem a ter odores fracos
ou sabores fracos eram consideradas como sendo pouco ativas
farmacologicamente.

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Aula 5 – 16/03/2018

A teoria dos humores que vimos na última aula vai ser a dominante para
explicar a medicina, para fazer o diagnóstico, prognóstico, etc durante mais 2000
anos – só no séc. XVII é que a teoria humoral vai ser posta em causa (não por
debilidades internas, mas porque a visão do mundo no sec. XVII muda; a teoria
Aristotélica também é posta em causa e a dos humores vai “por arrasto”).

Hoje em dia, como há uma ligação muito grande entre o Estado, a


organização civil e o ensino existe um conceito que podemos dizer que é oficial,
ou seja, há conceitos claros. Na Antiguidade não existia essa ideia. Apesar disso,
a teoria humoral vai ser a mais corrente. Devemos perceber, então, que nós às
vezes usamos certos conceitos na linguagem corrente, mas esses conceitos têm
um significado diferente quando aplicado na Antiguidade (o termo “cientista” é
um deles; o termo “química orgânica” também – é um termo anacrónico, porque
química orgânica, hoje, é química dos compostos de carbono, no entanto, no
início, era a química dos seres vivos).

Escola de Alexandria

A teoria dos humores surgiu na Grécia e começa a ser difundida


principalmente a partir das conquistas do Alexandre, o Grande, na Macedónia.
Alexandre, o Grande começa a fazer um processo bastante acelerado de
conquista em todo o Médio Oriente até à Índia e também até ao Egito. Ele
acultura-se de civilizações locais, nomeadamente na zona da Mesopotâmia, Egito
– Alexandria (uma cidade fundada após as conquistas de Alexandre e que associa
a cultura faraónica com a cultura clássica grega). O local mais importante do
ponto de vista do conhecimento é precisamente Alexandria e é em Alexandria
que eles criam a chamada biblioteca do mouseion, que foi fundada por Ptolomeu
I, no séc. III a.C.. O termo “mouseion” vem de musa (as musas inspiram o Homem
com o conhecimento, a arte, etc). O termo que conhecemos como museu é, no
fundo, o local onde se cultiva o conhecimento, onde se recolhem papiros com
textos da Antiguidade, etc.

Vai ser em Alexandria que a cultura clássica grega se vai


desenvolver, já fora da Grécia. Há um conjunto de médicos (Herófilo
e Erasístrato) que desenvolvem em Alexandria os conhecimentos da medicina
grega clássica e é Baccheio de Tanagra que vai reunir o conjunto de textos que
ele atribui a Hipócrates e que ficam, no fundo, a sintetizar conhecimento (Corpus
Hippocraticum). Esses textos têm também influência na teoria humoral.

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Medicina Indiana

Este conceito da medicina humoral relaciona-se com uma série de fluidos


(entidades fluidas) que se misturam e consoante o tipo de mistura, o ser vivo
pode estar são ou doente, ou seja, a saúde ou a doença, que é o resultado de um
equilíbrio de humores. Esta ideias não vão surgir apenas na medicina grega, vão
surgir também em outros locais: na medicina chinesa e na medicina indiana. O
Ayurveda não defende 4, mas 5 elementos: éter (vazio), ar, água, terra e fogo; e
depois há três humores: prana (respiração – ar – seco, frio, ligeiro, claro e cru),
pitta (bílis – fogo) e kapha (fleuma ou muco – água). Por exemplo, o equilíbrio
entre a chuva e a seca – se houver água a mais ou água a menos, a agricultura
vai “à vida”. A medicina Ayurvédica é também muito conhecida por grandes
avanços na anatomia, embora eles tivessem uma série de tabus em relação à
inspeção de cadáveres.

Medicina greco-romana

A civilização que depois vai ser mais importante para a difusão da


medicina grega vai ser a civilização romana e porquê? Porque os romanos
conquistaram o império todo. A medicina romana nas suas origens é uma
medicina relativamente pobre no sentido em que eles não têm propriamente
funcionários de saúde definidos. Em regra, a pessoa responsável pela saúde de
um determinado agregado é aquele a que corresponde ao chefe de família.

Quando os romanos conquistam a Grécia, há uma série de elementos


culturais da Grécia que se vão aculturar na civilização romana. Ao assimilar a
cultura grega, significa muitas vezes trazer os gregos para Roma e possivelmente
a qualidade de escravos. Se há muitos praticantes de medicina que venham como
escravos, o estatuto social deles tende a ser baixo.

Autores romanos

Há algumas figuras importantes da medicina e da farmácia em Roma: os


mais importantes são Dioscórides e Galeno, mas existe uma série de outros
autores como: Celso (que escreveu o chamado De medicina octo libri); Plínio o
velho (que é mais conhecido pela redação de um texto chamado Naturalis
Historia, uma enciclopédia que hoje em dia se chama ciências naturais; chamava-
se história, porque tinha a ver com a observação dos fenómenos ao longo do
tempo); e Scribonius Largus (que foi médico do imperador Cláudio e escreveu
um formulário farmacêutico – De compositiones medicamentorum).

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Pedáneo Dioscórides (fl. 50-70)

Sabe-se muito pouco sobre Dioscórides. Imagina-se


que ele tenha acompanhado as legiões romanas
(provavelmente como médico: Ásia Menor, Itália, Grécia,
Gália e Espanha, no tempo de Nero) porque ele escreveu
um livro sobre essas legiões. Provavelmente era comerciante de drogas ou
alguém que praticava medicina. A sua obra que o tornou conhecido chama-se
De materia medica e por causa disso foi considerado o fundador da
farmacognosia. De materia medica significa materiais da medicina (as substâncias
que se utilizam para fabricar medicamentos). Este termo já caiu em desuso, mas
foi usado até ao séc. XIX, para significar a área do conhecimento que explicava
quais eram as propriedades medicinais das plantas, dos animais, etc. Depois, foi
substituído pela farmacologia.

Embora isto se passe no império


romano, muitos autores, e é o caso de
Dioscórides e de Galeno, continuam a
escrever na língua que deu origem a
estes conhecimentos que foi o grego
(não escrevem em latim).

A materia medica de Dioscórides


descreve cerca de 600 plantas, 35
fármacos de origem animal e 90 de
origem mineral. Por aqui, nós
percebemos a grande desproporção
que existe entre as substâncias
provenientes dos dois ramos da natureza
para a produção do medicamento e isto
vai acontecer ao longo do tempo. A
maior parte dos medicamentos são
preparados com plantas, não são
preparados nem com animais nem com
minerais. Destas coisas todas, só 130 é
que apareciam no Corpus Hippocraticum; 100 ainda são considerados como
tendo atividade farmacológica (nem tudo o que ali existia era inativo).

A obra do Dioscórides é agnóstica do ponto de vista da teoria científica:


ele limita-se a fazer uma descrição das substâncias. A maior parte das obras em
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medicina tem tanta ou mais teorização, ou seja, tentativas de explicar


racionalmente, do que informação sobre a ação das substâncias. Dioscórides
limita-se a descrever a substância e as suas propriedades.

A grande preocupação da representação das imagens na Antiguidade e na


Idade Média não é a representação do real, é a representação esquemática para
ajudar a identificação.

Galeno (129-200)

Uma outra figura


importante da Antiguidade é
Galeno. Ele é natural de
Pérgamo, uma colónia romana e
é uma pessoa que também
escreve em grego. Foi viver para
Roma em 161. Em Roma,
trabalhou como médico de
gladiadores e foi médico de Cómodo, filho de Marco Aurélio.

Galenismo

Porque é que Galeno é importante? É importante porque o que Galeno


fez foi pegar nas ideias da teoria humoral e tentar sistematizar, dar uma coerência
àquelas ideias todas e eliminar as contradições. Pela primeira vez, as pessoas liam
o texto e não havia partes a contradizerem-se umas às outras. Quando a partir
do séc. II, III, IV se fala de teoria humoral, isso normalmente é sinónimo de
Galenismo, ou seja, a teoria humoral descrita pelo Galeno. É por isso que a teoria
humoral vai permanecer até ao sec. XVII.

o Baseou-se na Medicina hipocrática


o Transformou patologia humoral em teoria sistemática
o Medicina greco-romana que passou para Ocidente cristão medieval na forma
de galenismo
o Dominante até ao séc. XVII e mantendo ainda grande influência no séc. XVIII

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Terapêutica medicamentosa galénica

Do ponto de vista da terapêutica, há alguns aspetos a considerar sobre a


teoria galénica. Galeno dividia os medicamentos em 3 categorias:

o Simplicia (simples – eram aqueles que tinham uma única substância e,


portanto, só um par de qualidades – seco, húmido, quente ou frio);
o Composita (compostos – possuíam mais que uma substância e, logo, mais do
que um par de qualidades);
o Específicos (têm a ver com a expulsão de humores, por exemplo, na forma de
fezes, urina, vómito, etc).

Nesta época, os medicamentos eram feitos para um doente específico e,


portanto, não existia indústria. Só a partir do séc. XIX é que começou a surgir
máquinas para a produção de grandes quantidades de medicamento. Além disso,
a saúde e a doença dependem do equilíbrio, da idade, da raça e do clima. Cada
idade tem o seu equilíbrio. Existe também a ideia de que cada raça tem um
equilíbrio próprio. Outro aspeto importante é que há uma classificação da ação
dos medicamentos de acordo com o grau, o que significa que a quantidade de
medicamentos não é o mais importante, mas sim o quão fortes são – 1º grau
(fraco) até ao 4º grau (forte).

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Aula 6 – 16/03/2018

No que diz respeito à intervenção do sobrenatural, existe uma grande


diferença entre as religiões monoteístas e as politeístas.

Nas religiões monoteístas (3 mais importantes = judaísmo, islamismo e o


cristianismo), a importância de um único Deus tem dois aspetos:

o Como o Deus é omnipotente, ele é responsável por tudo (seja por algo mau
ou bom, tem a capacidade de limitar a ação dos demónios);

o Deus único é criado da natureza, logo é a única coisa que antecede a esta.
Aqui temos uma total separação entre o criador e as criaturas (natureza e o
Homem), enquanto por exemplo na mitologia grega tal não ocorre.

Na antiguidade existem dois termos que são muito curiosos:

o Natura naturans (Natureza capaz de criar vida = Divindade), onde está


inserido Deus;
o Natura naturata (Natureza criada por Deus, este não iria criar algo mau).

Panteísmo, significa que existe natureza divina em tudo (não há distinção


entre as duas naturas em cima descritas). = algo ortodoxo ao monoteísmo

NOTA: O que está próximo do divino é espiritual, o que está próximo do material
(ex: pecado) é mau.

O cristianismo nasce da confluência entre duas tradições culturais (a


israelita/judaica e a greco–romana; os primeiros padres tinham formação
filosófica grega).

Os filósofos gregos usavam uma imagem muito interessante que era, os


médicos curavam o corpo e a filosofia curava a alma). Os filósofos greco-romanos
viam-se como médicos das almas e de alguma forma o cristianismo surge
associado a este conceito (existe uma passagem na bíblia em que Cristo prefere
se sentar com os pecadores/doentes do que com os não pecadores/saudáveis).

No ponto de vista do cristianismo, Cristo é o medicamento tal como o


médico, ou seja, ele através do seu corpo/ do seu sacrifício, não está só a exercer
a medicina, como também está a ser consumido como um medicamento (morreu
para nossa salvação).

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

A relação da saúde e da doença com a


ancestralidade

O cristianismo mantém duas coisas da antiguidade:

o O conceito da doença como possessão


demoníaca (na bíblia Cristo curou um mudo que
estava possuído por um demónio);

o A associação entre a doença e o pecado (se


nasceu já com a doença, não relacionado com o
pecado dos pais, mas sim o pecado original).

O Homem ao ser expulso do paraíso foi enviado para a terra, mas a terra
é criatura de Deus. Quando o Homem é enviado para a terra, é enviado para um
sitio que está preparado para um Homem mortal e que adoece, o que significa
que as coisas que existem na terra (arvores, animais, plantas ect..) podem ser fonte
de cura. Deus castiga o Homem ao envia-lo para a terra mas ao mesmo tempo
dá-lhe alguns meios de ajuda.

Para certos autores protestantes, tem interesse pela botânica, este


interesse é uma forma de mostrar a grandeza de Deus, ou seja, mostram que
Deus criou a natureza como palco para o homem expiar o pecado original.

Quando olhamos para o passado, a religião tem um papel importante para


o desenvolvimento do conhecimento científico, porque a religião é que dava ao
homem a convicção que a indagação científica tinha resultado, ao estudarem a
natureza iam encontrar qualquer coisa, porque era evidente que Deus tinha posto
lá qualquer coisa, e essa coisa tinha um significado. Esta ideia que de a resposta
existe eu é que não a conheço é fundamental para eu continuar/ começar à
procura dessa resposta.

Questão da dor e do sofrimento

Nas religiões politeístas, existem entidades que causam o mal e outras o


bem, enquanto na religião monoteístas tudo vem do mesmo Deus.

Deus é bom ou mau?

A primeira formo do cristianismo de tentar resolver isto está relacionado


com o sacrifício de Cristo. Cristo deliberadamente aceita a sua morte (algo que é
mau) para um fim que é bom (salvação da humanidade). Se isto aconteceu então

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

é normal que o homem também sofra um pouco. A passagem do homem pela


terra, a vida e a doença é visto como parte de um percurso de treino e
aprendizagem pequeno, portanto o sofrimento e a dor física (doença) têm um
papel.

Portanto a doença (ou a dor) em geral não é um mal absoluto, é sim um


mal temporário ou relativo, mas que tem um papel para um bem absoluto.

RESUMINDO: O sofrimento é visto pelo cristianismo como algo que tem um


objetivo/fim. No ponto de vista da ação de Deus é sempre algo que visa um bem,
pode ser uma forma de melhorar a mentalidade espiritual dos homens, uma
forma de corrigir certos pecados ou fraquezas (ex. a gula).

Conceito de medicina como metáfora

o Médico
o Cura final exige regime e meios terapêuticos rigorosos e mesmo
penoso
o Deus
o Vida eterna exige conduta de vida pura e mesmo sofrimento

NOTA: A ação religiosa é um pouco como a ação do médico. O médico aplica


técnicas terapêuticas que são dolorosas, mas o objetivo é a cura, da mesma
forma, Deus exige sofrimento, mas com um bem final (por exemplo obter a vida
eterna).

Religião curativa

O cristianismo tem uma forte componente de religião curativa. Esta


componente é frequentemente apresentada como uma forma de mostrar a
vontade de Deus e a sua grandeza (ideia de que se Deus dá a doença ela também
dá a cura). Em todas as curas realizadas por Cristo, está presente a vontade e do
poder divino.

Depois da morte de Cristo, a igreja tal como os apóstolos continuam a


praticar atos curativos, como o São Paulo.

No século XVII os reis de França e Inglaterra tinham o “poder da cura”, pois


eles eram reis devido á vontade de Deus, o seu poder de curar era dado por este.

Justino acredita que o bem vive no mundo espiritual e que o mal vive no
mundo material.

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Dualidade que é levada ao limite por Justino = O espírito procura o bem


mas o corpo (matéria) está ligado ao mal.

Justino diz então que o mundo material é o mundo onde se transmitem


os demónios (não se pode tomar os medicamentos, pois sendo este material, eles
carregam os demónios).

Depois o cristianismo acaba com esta ideia, pois se a matéria foi criada por
Deus esta não pode ser intrinsecamente má, a matéria só é má se for feito um
mal uso dela.

Justino, apesar de acreditar num só Deus, não nega a existência de


Asclépio e as suas capacidades curativas, mas ela não é Deus (pois só existe um),
logo Asclépio é um demónio (no cristianismo os demónios podem curar).

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Aula 7 – 23/03/2018

Um dos aspetos importantes/determinantes para a evolução da história da


ciência, foi a adoção da filosofia clássica por parte do cristianismo. Isto foi
importante, porque durante a Idade Média e Moderna (pouco), a igreja funcionou
como o detentor do saber.

A sociedade medieval tinha uma visão libertina e cada grupo social tinha
a sua função:

o Nobreza: função de guerra, proteção do local


o Clero: função de procurar a salvação da humanidade, isto implicava a leitura,
a utilização de textos (e este facto levou a que a igreja se tenha tornado no
detentor do saber, tanto religioso como o geral). Único grupo social que tinha
como função algo que tinha a ver com a leitura e a escrita.

A forma como a igreja aceita ou não a cultura científica vai determinar o


evoluir desta mesma.

Há alguns autores que dizem que a cultura clássica não deve ser aceite,
pois esta é pagã (politeísta), achando que o medicamento tem matéria (mau) a
mais e espírito (bom) a menos.

O que acaba por predominar é a ideia de que tudo no mundo provém de


Deus, quer seja o espírito/pensamento e as coisas materiais, portanto,
intrinsecamente a matéria não é má nem é boa, a sua utilização é que pode
ser errada, ou seja o homem pode fazer dela o que quiser (o bem ou o mal).
Isto leva a que questões como as práticas médicas fossem consideradas boas,
passiveis de serem utilizadas pelos cristãos e também pelos membros do clero.

O mundo material é algo que foi criado por Deus para ser usado pelo
homem, e para ser usado para a salvação do homem. Havia a ideia de que a divina
providencia tinha dado aos homens coisas para contrariar aquilo que lhes tinha
acontecido (terem ficado doentes), ou seja, para se curar.

No reino animal, mineral e vegetal, havia coisas que podiam ser


transformadas em medicamentos.

A adoção por parte do cristianismo de alguns elementos chave da cultura


médica greco-romana, uma delas o juramento de Hipócrates (antes começava
com a invocação dos deuses, tal já não acontece).

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Culto dos Santos

Um dos aspetos importantes depois da influência do cristianismo, na


saúde, na doença e na medicina, tem a ver com a questão do culto dos santos.

O culto dos Santos surge no séc. IV. Os historiadores consideram que o


culto dos Santos é o resultado da massificação do cristianismo. A massificação do
cristianismo acontece, quando este se torna a religião oficial do império romano.

Há dias religiosos que são de grande culto, sendo que muitos deles, estão
associados previamente a culturas pagãs, como por exemplo, o culto da
fertilidade (fertilidade dos campos), havendo assim a formação de como uma
ponte entre as religiões.

A forma como a igreja estabelece uma ponte para reduzir a noção de


afastamento entre Deus e as populações = são os Santos.

Os Santos são pessoas que eram importantes numa determinada


localidade, ganharam fama de santidade, de serem bons, crentes. Esta fama leva
à ideia de que quando morreram foram para junto de Deus, ou seja, para o
paraíso. E se estão no paraíso então podem por “cunhas”, podem ser
intermediários de Deus = Muito semelhante aos Deus Protetores da
Mesopotâmia

O aparecimento dos primeiros hospitais tem a ver com o culto dos Santos.

O melhor sítio para se fazer uma prece a um Santo é ondo o seu corpo
está enterrado. Iniciando-se as peregrinações, fazendo com que as pessoas que
as realizavam estivessem sujeitas a vários perigos como o risco de saúde. Assim,
os bispos de muitos locais, especialmente dos locais onde existiam cultos a
Santos começaram a construir instituições para cuidar dos peregrinos, sendo
estas primeiras instituições as que deram origem aos hospitais.

Há mais dois aspetos da prática do cristianismo que são importantes:

o O aparecimento dos grupos religiosos que se afastam das comunidades =


MONASTICISMO. Isto vai ser importante na saúde, porque na idade média os
mosteiros e os conventos começam a tornarem-se importantes como locais
de prática de medicina
o A questão do sobrenatural/satanismo. Aparecimento da questão de que se
calhar as pessoas podiam estar a rezar a algo que não fosse um Santo, algo
mau. Demonologia tem a ver com a ideia de que existem pessoas que fazem

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

pacto com o demónio, este dá poderes como por exemplo o da cura (em
muitos casos o aspeto exterior da bruxaria era a prática de curar).

Na antiguidade, alguns médicos, precisamente para questões religiosas e


prática da caridade, curavam gratuitamente, sendo conhecidos como os
ANARGYROI (Santos Cosme e Damião curavam sem cobrar).

Se o homem foi criado à imagem de Deus, então cuidar do homem (da sua
doença, impedir que morra de fome) é uma forma de prestar homenagem a Deus.

Na sua origem, os hospitais não são locais de prática média, mas sim,
local de cuidar do próximo. São na sua origem como que albergues.

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Aula 8 – 23/03/2018

Divisão do Império Romano (395 d.C.)

Há um acontecimento
importante que acontece no final
do sec. IV que é a divisão do
Império Romano (tudo o que está
a laranja e a verde constituiu o
Império Romano).

O Império Romano tinha


do ponto de vista económico uma
situação um bocado complicada.

O Império foi crescendo. Enquanto eles conseguiam alargar as suas


fronteiras, o que é que acontecia? Derrotavam os seus inimigos, escravizavam-
nos e adquiriam novas terras. O Império tinha muita dificuldade em pagar aos
seus soldados e então a forma como os pagavam era com os frutos da conquista
(roubando dinheiro aos derrotados).

O Império deixou de crescer quando passou a ser difícil derrotar os


inimigos (por estes se concentrarem nas fronteiras, por exemplo). O problema da
estabilidade das fronteiras com o Império Romano começa a marcar o período
de decadência. Porquê? Porque eles começam a ter poucos recursos para poder
manter a estrutura de pé nos exércitos. Aquilo que no início da expansão do
Império permitia economicamente manter o Império pode, a partir de
determinada altura da expansão, desaparecer.

No final do sec. IV a situação já estava complicada. Para manter a


estabilidade, o Imperador Teodósio resolveu dividir o Império em dois bocados
e atribuir cada um a um dos filhos dele.

Para perceber esta divisão, temos que também perceber o que acontece
nos dias de hoje. Atualmente, o Norte é mais rico e o Sul é mais pobre, assim
como o Ocidente é mais rico e o Oriente é mais pobre. Na Antiguidade era o
contrário: o Ocidente era mais pobre e o Oriente era mais rico.

A zona oriental era uma zona de influência grega, por isso, a língua
predominante era o grego. Na zona ocidental a língua predominante era o latim.
Na zona oriental, as cidades eram maiores, bem como o comércio, logo eram

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

mais ricas. Na zona ocidental, as cidades eram mais pequenas e mais pobres. A
zona mais culta era também o Oriente. O que Teodósio fez foi separar duas zonas
que do ponto de vista económico, cultural e linguístico são diferentes.

A zona ocidental, pouco tempo depois, acabou por ser submergida pelos
povos germânicos que estavam nas fronteiras do Império, que conquistaram o
Império.

A partir do sec. V, a zona a verde (Império Romano do Ocidente) foi


dividida em vários reinos e em cada um deles havia um grupo germânico que se
tinha estabelecido, dominando o local.

O Império Romano do Oriente continua a existir. O fim formal do Império


Romano do Oriente só se dá em meados do sec. XV com a queda de
Constantinopla.

Cada um destes impérios tinha a sua própria capital: no Ocidente era Roma
e no Oriente era Bizâncio ou Constantinopla (esta mais tarde), que é a atual
Istambul.

Portanto, o Império Romano do Oriente dura muito mais tempo que o


Império Romano do Ocidente.

Nestorianos

Há um grupo social que teve um papel importante na questão da evolução


da história da medicina – os Nestorianos.

Os Nestorianos eram essencialmente importantes na Síria (Nisibis e


Edessa, que eram os principais centros culturais). Os Nestorianos eram partidários
do patriarca de Constantinopla chamado Nestório. Eles foram condenados como
hereges no Concílio de Éfeso em 431. O motivo da condenação tem a ver com a
natureza divina ou humana da mãe de Deus. Nestório defendia que Maria não
era mãe de Deus, mas sim mãe do invólucro humano de Cristo.

Os Nestorianos, como são considerados hereges (são considerados não


cristãos), foram expulsos do Império Romano do Oriente. Começam a ser
desterrados para Edessa e Nisibis no tempo de Teodósio II. Após 451, juntaram-
se os partidários da heresia monofisita, que era originária de Alexandria. Foram
expulsos de Edessa em 489, indo refugiar-se na Pérsia, em Gundishapur.

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Porque é que os Nestorianos são importantes do ponto de vista da


história da cultura e da ciência? Porque eles são os portadores da cultura greco-
romana (pois eles vêm de Alexandria, depois da Síria, etc) e o que eles levam para
o Oriente é o pensamento clássico grego e, portanto, com os Nestorianos vão
livros, médicos, etc.

Ascensão do Islão

Quando se dá a ascensão do Islão quem vai dar aos muçulmanos a cultura


greco-romana são os Nestorianos. O Islão é a 3ª grande religião monoteísta,
porque tem importância na história da ciência. Os árabes iniciaram a expansão
em 634, após conversão da Arábia à fé revelada por Maomé: derrotaram persas
e bizantinos e conquistaram a Síria, Palestina, Mesopotâmia, Egipto, Tunis e
Península Ibérica (711); na Europa, foram detidos em Poitiers em 732; chegaram
até à Índia em 1001. É uma expansão muito rápida. Como é que essa expansão
é possível? Em larga medida, tem a ver com a visão proselitista do Islão, ou seja,
o Islão converte os seus vizinhos, dá-lhes um estatuto e usa os tropas dos seus
vizinhos para ir conquistar os vizinhos deles, como se fosse um dominó.

Em Portugal, a ocupação real do Islão vai até ao Mondego. Este permanece


durante muito tempo como a linha de divisão.

A herança da cultura helénica pelos árabes

Nós chamamos Império Árabe, mas na verdade eles não eram apenas
árabes. As principais dinastias governantes, ou seja, os mais importantes, eram
Árabes, mas o resto das populações, das tropas, etc não eram árabes, eram
sobretudo africanos.

Os Árabes tomam uma posição muito forte em relação à proibição das


outras línguas que não o árabe. O árabe torna-se a língua oficial e as outras
línguas são proibidas como o latim.

Na igreja, a língua das orações era o latim. No entanto, os árabes não


sabem suficientemente latim para tal, por isso a oração era feita pelos membros
do Clero. O Islão vai afastar esta ideia.

No que diz respeito à medicina, a medicina árabe vai tornar-se muito


importante. O Islão vai dar um estatuto social elevado aos médicos e também
adota a medicina greco-romana. A conjunção destes dois fatores foi
extremamente importante. O Islão dá uma importância grande à leitura, porque

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

significa que se uma pessoa consegue ler e escrever pode ler o Corão, por
exemplo. Um médico associa duas coisas: a cultura (a leitura) e cuidar do próximo.
Portanto, o médico Hakim vai ter um estatuto mais elevado do que aquele que
os médicos têm no Ocidente e, por essa razão, a prática da medicina no Islão vai
ser mais escolarizada e feita por não religiosos.

Em relação aos momentos mais importantes no desenvolvimento da


cultura árabe: dá-se a cura de Bagdá al-Mansur em 765 feita pelo médico
nestoriano Girgis ibn Gibril que vem do hospital nestoriano de Gundishapur e é
portador de uma cultura médica greco-romana. A partir desta cura, os diferentes
califas vão ordenar a tradução sistemática de obras de medicina da Antiguidade
que estejam escritas em grego e sírio.

Muitos dos textos eram traduzidos do grego para o árabe e depois do


árabe para o latim (sec. X-XIII). No Renascimento, os textos eram traduzidos do
grego para o latim, para confirmarem a tradução dos
árabes.

Medicina islâmica

Os árabes vão buscar a tradição médica greco-


latina (galenismo arabizado), ou seja, pegam nos
textos do Galeno e vão introduzir novos contributos.
O núcleo do pensamento médico árabe é a teoria
humoral.

Farmacologia e farmácia

No caso da farmacologia e da farmácia, os principais autores traduzidos


são os clássicos Dioscórides e Galeno. Há uma série de contributos próprios que
têm a ver com vários motivos, mas a primeira razão é que o Império Islâmico é
muito grande e está ligeiramente descentrado em relação ao que era
antigamente o Império Romano, também está descentrado para o Oriente.
Considera-se que os árabes acrescentaram cerca de 3/4 centenas a um milhar de
drogas medicinais conhecidas na Antiguidade clássica.

Há também uma série de autores importantes: Ibn al-Bayţār, que é


natural da Península Ibérica e Geber, que teve importância no estudo das
chamadas operações unitárias em química.

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Aula 9 – 06/04/2018

Canais de transmissão do galenismo

Há um desenvolvimento assimétrico entre o que se passa no mundo


Cristão Ocidental e o mundo Islâmico no que diz respeito à medicina greco-
romana. Este esquema mostra os canais de transmissão do galenismo. A medicina
é levada para Roma, depois é transmitida para Alexandria, para a Síria,
Mesopotâmia até à Grécia. A cultura árabe absorve a medicina greco-romana. Em
termos linguísticos, temos uma cultura médica transmitida em língua grega no
seu início que depois do tempo do império romano tem umas pequenas
traduções para o latim (mas não há uma tradução sistemática durante o
predomínio do Império Romano). A língua árabe e a religião islâmica são os dois
fatores de coesão do Império (havia, então, a proibição de outras línguas). Os
textos médicos que estavam escritos em grego começam a ser traduzidos para
árabe. O ocidente Cristão divide-se em vários reinos, que têm a ver com o
predomínio de certos grupos germânicos que tinham ocupado territórios (na
Península são os Visigodos, em França são os Francos, etc). O nível cultural do
Ocidente já era menor do que o do Oriente (como já visto atrás). No Ocidente
fala-se entre o latim e uma versão popular do latim, enquanto que no Oriente a
língua erudita e unificadora é o grego. A medicina durante a Idade Média vai
traduzir-se numa prática não religiosa, mas que não tem um grande predomínio
social. No entanto, há um gruo social da medicina que vai ter uma importância
grande em transmitir conhecimentos médicos e vai dar origem às primeiras
formas de ensino de medicina – que é o Clero. Este é o grupo social mais culto
da Idade Média – sabiam ler, escrever e também sabiam latim. As universidades
nascem da Igreja. Por exemplo, em Cambridge, as universidades têm os clusters
de mosteiros e conventos.

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

A Medicina e a Farmácia monástica

Entre os grupos religiosos que são importantes para a medicina na Europa,


principalmente a partir do séc. VI, encontra-se a ordem de São Bento, uma ordem
Benedicti. A constituição da ordem tem um artigo que foi sempre interpretado
como uma obrigação de prestações de cuidados médicos e farmacêuticos – regra
36:

“Devemo-nos ocupar com importância dos enfermos: devemos servilos como se


de Jesus Cristo se tratasse, e a Ele na verdade servimos nos seus corpos, pois que
Ele disse: Estive enfermo e vós cuidastes de mim, e também: O que haveis feito a
qualquer um destes pobres, o haveis feito a mim” (Capítulo 36 da Regula)

o Inclui a necessidade de cuidar dos enfermos, com local próprio e religioso


dedicado. Tinham também membros da ordem especializados nessa prática.
Foram criadas enfermarias, boticas (para seres armazenados medicamentos
para serem posteriormente administrados aos enfermos) e jardins botânicas
(para haver plantas para alimentar a botica e serem utilizadas na enfermaria).

Medicina monástica

Entre os mosteiros mais


importantes da ordem Benedictina
temos o mosteiro de Montecassino
(Itália) e também de Saint Gall
(França), onde se tratava de
enfermos e ensinava-se, tendo o seu
auge nos finais do séc. IX.

As figuras que estamos aqui a falar são:

Cassiodoro Senator, que foi perfeito de Teodorico, o Grande; fundou o mosteiro


em Vivarium, em Calábria; escreveu um texto enciclopédico de história natural e
aconselhou religiosos a estudar terapêutica pelas plantas.

Isidoro de Sevilha, que foi bispo de Sevilha; escreveu um texto enciclopédico


Etymologiarium Libri XX, que tinha uma parte sobre medicina e sobre o
conhecimento no geral – era um texto que era destinado para uma escola que
tinha sido criada pelo irmão; teve um papel na transmissão de conhecimento
teórico médico formal – abandona-se a ideia da aprendizagem mestre-aprendiz.

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Hildegarde de Bingen, que foi autora de vários textos musicais e medicinais de


plantas, animais e vegetais; ela, enquanto abadessa, era responsável pela cura das
irmãs que estão no convento; ela escreve de uma forma topográfica – descrevia
as doenças na forma vertical do corpo humano (da cabeça aos pés); focou-se em
problemas do foro ginecológico, havia uma perspetiva que chocava com visão
tradicionalmente negativa da mulher na cultura medieval – por exemplo, o genital
feminino na Idade Média era visto como o genital masculino incompleto.

Medicina nas Artes Liberais

Na Idade Média, os saberes são distinguidos em 2 grandes categorias,


chamadas de 7 artes liberais. Estas dividiam-se em Trivium e Quadrivium. O
Trivium (gramática (escrita), retórica (leitura) e dialética (diálogo)) é aquilo que
se chama muitas vezes de letras. O Quadrivium (aritmética, geometria, música e
astronomia) são as ciências. A música aqui é relacionada com a matemática.

Esta forma de organizar as artes liberais é a forma que está por detrás da
organização do ensino. O ensino na Idade Média passa-se principalmente em 2
níveis – escolas monásticas (existiam nos mosteiros e nalguns conventos;
originam os liceus) e escolas episcopais ou catedralícias (chamadas seminários;
dos bispos; originam as universidades). Existem mais escolas monásticas do que
episcopais.

Onde é que se encaixa aqui a medicina? O bispo Teodulfo de Orleans


proclamou a medicina como a oitava arte liberal.

A Physica

A medicina foi incluída na astronomia. Dividiu-se a medicina em 2 partes:


a medicina extraterrestre (a astronomia propriamente dita) e a medicina terrestre
(a física, ou seja, o estudo da natureza).

Os médicos na Idade Média eram chamados de físicos. Um professor de


física era alguém que ensinava medicina, era um professor de medicina. A língua
inglesa ainda tem esta distinção: há dois termos com a mesma origem – physician
(médico) e physicist (físico).

Salerno - Origem

O primeiro local onde houve uma forma de organização parecida ao


ensino universitário dos dias de hoje começa a acontecer numa localidade
chamada Salerno. Esta é uma zona que está próxima da Grécia, está próxima do

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mundo latino e também está próxima do mundo árabe – está então numa zona
equidistante das várias tradições culturais – grega, latina e árabe. Em Salerno,
vários médicos começaram a receber em conjunto aprendizes que não vinham
necessariamente trabalhar com eles, mas aprendizes que vinham pagar o ensino,
já não vinham aprender “à borla”. A família dos aprendizes também tem mais
despesa – há um investimento maior por parte das pessoas envolvidas. Maior
investimento implica maior esperança no retorno desse investimento e implica
também um estatuto social mais elevado – se eu vou aprender com um Mestre,
o meu estatuto vai ser mais alto quando sair de lá. Salerno era um centro laico,
ou seja, não era inteiramente religioso, em estreita ligação com o mosteiro de
Montecassino. Há uma lenda da fundação de Salerno, que foi atribuída a 4
médicos (Ponto, grego, Helinus, judeu, Adela, árabe e Salernus, latino). As
primeiras figuras da escola foram: Garioponto (autor de Passionarius Galeni, que
era um epítome de textos bizantinos) e Alfano (arcebispo de Salerno, que
aprendeu em Montecassino e era também de influência bizantina e greco-síria).

Uma das figuras mais importantes da influência árabe em Salerno é


Constantino, o Africano (c. 1020- 1087). Tanto quanto se sabe, ele terá sido um
comerciante de drogas, natural de Cartago, com conhecimentos de medicina e a
certa altura decidiu converter-se ao Cristianismo e viver para Montecassino e
ensinar em Salerno e trouxe consigo uma série de textos da medicina árabe que
ele depois traduzir para latim (na verdade, não eram textos dele).

Outros autores que se conhecem em Salerno incluem uma figura feminina


que do ponto de vista histórico não se sabe muito, mas que escreveu De
passionibus mulierum, que trata de questões de ginecologia, obstetrícia e
cosmética.

A Articella era uma coletânea de vários textos – Isagoge de Joahnitius; In


arte parva (resumos) de Galeno, Prognostikón de Hipócrates; Liber pulsum
(interpretações do pulso) de Philaretros e o Liber urinarum (observação das urinas
– fator de diagnóstico muito importante) de Teophilus. A Articella incluía tudo o
que era essencial para um médico saber.

Regimen Sanitatis Salernitanus ou Flos medicinae é um poema com 360


versos com conselhos relativos a higiene e saúde, porque era uma forma de
decorar (os poemas são uma forma de decorar). Este poema tem 3 centenas de
edições em várias línguas, sendo que a primeira edição foi em Pisa, em 1484.

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

As tonsuras na Idade Média eram uma forma de


mostrar publicamente que ele tinha votos religiosos. Era uma
maneira das senhoras saberem que aquele senhor tinha feito
algum voto de castidade. Os votos religiosos são muito
variados (nem todos significam que eles fossem padres ou
frades), há votos maiores e menores e ainda há votos
temporários.

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Aula 10 – 06/04/2017

Salerno – Farmácia e terapêutica

Embora o que se ensinasse em Salerno fosse essencialmente medicina, há


também textos de caráter farmacêutico, provenientes de Salerno e alguns foram
bastante influentes da prática da farmácia desta época.

o Obras de conteúdo farmacêutico e terapêutico


o Antidotarium de Nicolaus Salernitanus (fl. 1110- 1150)
o Fac. Medicina de Paris determinou (1322) ser obrigatório em
todas as boticas
o De simplici Medicina de Mattheus Platearius, o Jovem (c. 1120-1161),
ou Circa instans
o Fora de Salerno
o Macer Floridus
o Atribuído a Otto de Meudon (fl. 1161), poema – trata das
virtudes de 77 plantas

NOTA: quando há um manuscrito que não tem uma capa, o título será as 2
primeiras palavras do texto

Toledo

o Reconquista de Toledo – 1085


o Arcebispo cria uma escola de tradutores com cristãos e judeus – ca. 1135
o Gerardo de Cremona (c. 1114-1187) juntou-se em 1144
o Traduziu total de 90 obras do árabe para o latim, incluindo 24 de
medicina
o Entre autores médicos traduzidos:
o Galeno, Hipócrates, Al-Israili, Razés, Al-Wafid, Serapião,
Abulcassis, Al-Kindi e Avicena
o Fora de Toledo
o Burgundio de Pisa (1110-1193), traduzido diretamente do grego ao
latim os Aforismos de Hipócrates e vários de Galeno, incluindo o
Methodus medendi

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Ensino médico nas universidades

o Escola de Salerno
o Centro da formação médica na Europa (provavelmente o mais
importante) até finais do séc. XII – primeira titulação médica
o 1140 – Rogério II da Sicília estabelece obrigatoriedade de exame
oficial para exercício da medicina
o 1240 – édito de Melfi – promulgado por Frederico II
o Algum ensino médico começou a ser ministrado ainda nas escolas clericais
o A Medicina
o Integra-se no conjunto do sistema universal do saber e da filosofia
(Trivium e Quadrivium)
o Deixa de ser um mero ofício manual

Quando a medicina ganha um estatuto não mecânico, ganha também um


estatuto jurídico diferente. O estatuto mecânico não tem apenas a ver com o
sangue, é algo que é transmitido pela prática. “Se eu tiver uma profissão que me
obriga a trabalhar com as mãos, eu não perco esse estatuto mecânico.” Por
exemplo, os boticários preparavam os medicamentos, portanto, nunca podiam
deixar de trabalhar manualmente. Os droguistas eram comerciantes. Se estes
fossem pobres, tinham de ser eles a carregar as mercadorias (estatuto mecânico),
mas se eles enriquecessem, passavam à categoria de “homens de negócios”
(arranjavam caixeiros para estarem aos balcões e mudavam-se para os escritórios)
– estatuto não mecânico.

Porque é que aparece a profissão farmacêutica? O estatuto mecânico é


dado pelo trabalho, o que significa que um médico recebe os doentes, estabelece
o diagnóstico, a terapêutica e em muitos casos produzia medicamentos. A partir
de determinada altura, o estatuto do médico que é ganho com o ensino superior
é incompatível com o facto de ele continuar a exercer partes da função da
profissão que fossem consideradas mecânicas (produção de medicamentos e
cirurgia). Os médicos tiveram, então, de deixar de exercer estas atividades, porque
isso punha em risco o seu estatuto social. Por esta razão, os médicos tiveram de
deixar de produzir medicamentos – daí surgiu outra profissão, o farmacêutico.

Até ao séc. XIX, encontramos três principais grupos: médicos (estatuto


social mais elevado, cirurgiões e boticários (estes dois últimos têm um estatuto
social mais baixo).

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Universidades

o Criação das universidades nasce


o da necessidade de professores e alunos terem uma estrutura própria,
diferenciação das clericais, capaz de afirmar o seus direitos e privilégios
o Salerno e Montpellier – os professores médicos na origem do impulso para a
criação das universidades
o Montpellier – escola médica autorizada em 1180, mais de cem anos
antes da criação da Universidade
o Paris – a Universidade (ligada ao clero) criada por volta de 1200, a partir da
escola catedralícia; dominada pelos teólogos
o Bolonha – Séc. XIII – dom. juristas
o Oxford – Séc. XIII – dom. teólogos

As áreas mais comuns no ensino universitário na Idade Média são: o


Direito Canónico, a Medicina e a Teologia.

Ensino da medicina

Três fases:

o Bacharel
o 1 ano em Artes (atualmente seria a interface
entre o ensino secundário e o superior) e 3 anos
em Medicina + Exames
o Não podia curar pessoas, era apenas alguém
entendido em medicina
o Licenciado – licença para o exercício
o + 3 séries de lições teóricas e 1 prática +
Redação de Texto (tese)
o Já podia curar pessoas
o Magister (Mestre) – substituído mais tarde pelo título
de doutor
o + Período de prática e + 2 exames → período curto
o Além de poder curar, também podia ensinar

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Aula 11 – 13/04/2018

Separação de facto das profissões médicas

o Médicos
o Assimilação do saber médico greco-romano
o Domínio do latim e ensino universitário
o Processo de nobilitação da profissão médica
o Abandono progressivo das funções manuais
o Separação entre a medicina dogmática (medicina médica) e a medicina
ministrante (medicina prática) (farmacêuticos e cirurgiões)
o Especieiros (comerciantes de drogas)
o Impulso do comércio de especiarias orientais através do Mediterrâneo
o Especialização na preparação de medicamentos
o Aumento da perícia e formação técnica
o Perda progressiva do caráter ambulante
o Boticários (caráter sedentário – já tinham um sítio fixo para vender as drogas)
o Formação baseada na aprendizagem com mestre
o Estabelecidos com botica (armazém)

Separação legal das profissões médicas

o Arlés, França (1162)


o Posturas municipais determinam separação
o Édito de Melfi (1240)
o Frederico II da Sicília e Nápoles
o Reafirmou obrigatoriedade de um curso de tipo superior em
Salerno para os médicos
o Proibiu qualquer sociedade entre médicos e farmacêuticos –
quando alguém estabelece um diagnóstico e prescreve a
terapêutica, essa pessoa não deve ter interesse financeiro em
que o doente tome o medicamento A ou o medicamento B
o Determinou que os farmacêuticos tinham de dispensar os
medicamentos de acordo
o com as receitas médicas
o e as normas da arte provenientes de Salerno
o Introduziu o princípio
o da necessidade de controlo dos preços dos
medicamentos

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

o do licenciamento e inspeção da atividade farmacêutica

Alargamento das medidas de separação

o Em França – Avignon (1242) e Nice (1274) proibiram sociedade entre


farmacêuticos e médicos
o Europa central – Basileia separou as duas profissões – entre finais do séc. XIII
e princípios do séc. XIV
o Portugal – Obrigatoriedade da separação determinada em 1462

O Renascimento

Há um conjunto de acontecimentos que marca o Renascimento:

o Queda de Constantinopla (1453) – marca o fim do Império Romano do


Oriente; há um conjunto de ideias que vêm do Oriente para o Ocidente, da
Grécia/Turquia… para Itália – estas ideias fazem renascer o interesse pela
cultura clássica e pela cultura grega
o Introdução dos caracteres móveis na imprensa por Gutenberg (1454) – a
imprensa já existia na Idade Média; a imprensa torna-se importante a partir
da introdução do papel (material mais “democrático” do que o pergaminho;
o papel dá também para imprimir, mas o pergaminho não); com os caracteres
móveis, a partir de um conjunto de tipos, é possível construir vários textos em
várias páginas; mais económico; permitiu uma maior difusão de textos
o Expansão Europeia – “quando a Europa começa a saltar para fora da Europa”;
período com maior protagonismo; a expansão é aquilo que se segue à
reconquista na Península Ibérica;
o Bartolomeu Dias dobra o Cabo da Boa Esperança (1487)
o Colombo chega às Antilhas (1492)
o Vasco da Gama contorna a África e chega à Índia (1498)
o Reforma e Contra-Reforma – a reforma impõe-se sobretudo no norte da
Europa, sendo essencialmente uma questão política; cria uma maior
independência da Europa do Norte e Central em relação à do Sul
o Martinho Lutero (1483-1546) – reforma – criou a reforma protestante
o Concílio de Trento (1545-1563) – contra-reforma – 19º concílio
ecuménico da Igreja Católica

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Aula 12 – 13/04/2018

Quando surge a reforma


Luterana, o mundo católico tentou
reagir com um movimento – contra-
reforma, que começou com o Concílio
de Trento (1545-1563). Surgiram uma
série de operações da prática do
Catolicismo.

No caso da medicina, aquilo


que nós chamamos hoje em dia à corrente médica que se desenvolve durante o
Renascimento tem a denominação de Humanismo Médico. Este começa com
uma preocupação muito grande no impulso da Anatomia. Passa também por
uma grande difusão da literatura médica, retorna às fontes gregas clássicas,
havendo também a edição de novos textos latinos de Hipócrates, Galeno e
Dioscórides. Nesta época, também se dá uma enorme importância ao
desenvolvimento da investigação filológica dos textos.

Durante este período, os autores consideram que muitos dos textos


científicos e médicos que circulam na Europa dos textos clássicos são traduções
dos Árabes – eles consideram que houve adulteração dos textos clássicos pelos
próprios tradutores Árabes e, depois, os tradutores traduziram do árabe para o
latim. Existe então uma grande preocupação em ver os textos em grego para
tentar fixar e identificar qual é o significado das palavras. É por essa razão que a
literatura científica de hoje é quase toda de origem greco-latina. A terminologia
científica atual é uma terminologia científica que começou a ser fixada no
Renascimento.

Um dos aspetos importantes da anatomia é o


impulso que é dado da relação entre a arte e a anatomia.
Muitos dos artistas do Renascimento têm uma
preocupação na representação exata do real. Isto leva a
questões no desenvolvimento das técnicas de
perspetiva, sendo um dos objetivos perceber o que está
por baixo do corpo humano quando se o representa.

Leonardo da Vinci (1489-1514) tem


apontamentos anatómicos que ele próprio fez.
Colaborou com um artista, Marco Antonio della Torre,

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que ensinou Medicina em Pádua. Há uma relação direta entre artistas e


anatomistas. Isto também acontece com outros artistas: Albrecht Dürer (1471-
1528), Miguelangelo (1475-1564) e Rafael (1483-1521).

De repente, os textos científicos, nomeadamente os


textos anatómicos, começaram a ter ilustrações ou
representações muito fiéis daquilo que era observado (na
Idade Média, a ilustração não procurava representar o real,
procurava dar uma ideia dos conceitos – estavam mais
próximos de diagramas do que desenhos propriamente
ditos). Um desses textos foi publicado por Andreas
Vesalius, De Humani Corporis Fabrica (1543), que tem já
representações anatómicas muito complexas.

Além desta preocupação com a anatomia, há também uma preocupação


com a matéria médica, procurando as fontes greco-romanas. Há textos de
Galeno, Dioscórides e Plínio que circulam na Europa e que já tinham sido
traduzidos a partir do árabe: Canon de Avicena, Aggregator de simplicibus de
Serapião e Historia naturalis.

Dioscórides é o autor mais estudado neste período do ponto de vista da


matéria médica. O primeiro texto é impresso em 1478 (P. d’Abano), depois há
uma segunda edição em 1512. Também há uma edição em grego em 1499.
Depois há um grande número de edições, traduções e comentários a partir de
1516, nomeadamente:

o Veneza, 1516 - Ed. do venez. Ermolao Barbaro (1454-1493) – Gr.->Lat.


o Paris, 1516 - Jean de Ruelle (1474-1537)
o Pier Andrea Mattioli (1501-1577)
o Amato Lusitano (1511-1568)
o 1555 - Andrés Laguna (1511-1559) – em castelhano

Pier Andrea Mattioli é uma das figuras mais


importantes relacionadas com Dioscórides. Ele
publica normalmente em Veneza.

Há um interesse económico importante para


os Venezianos. Eles controlam o comércio medicinal
das ilhas de Creta e Chipre. Mattioli vai criar uma rede
informal de médicos, farmacêuticos, botânicos,

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mercadores, viajantes e diplomatas que lhe vão trazer


informações sobre diferentes ordens. Dois dos mais
conhecidos são:

o Luca Ghini (1490?-1556) – Professor de botânica em


Bolonha e fundador do jardim botânico de Pisa (1544)
o Ulisse Aldrovandi (1524?-1607) – Fundador do jardim de
Bolonha (1568)

Uma das preocupações do estudo de Dioscórides era


identificar o que Dioscórides estava a falar (havia algumas
dúvidas sobre quais eram as plantas que Dioscórides se
referia). A Teriaga é um medicamento já conhecido desde a
Antiguidade. Teve a sua primeira referência no poema Theriaká
de Nicandro de Colófon no séc. II a.C. Era um medicamento com uma grande
variedade de ingredientes (80). No séc. XVI, queria saber-se se esses ingredientes
faziam parte das fórmulas originais: à medida que o medicamento ia sendo
preparado, quando eles não encontravam a substância original, colocavam outra
para substituir. O estudo do Dioscórides e das suas plantas procurava acabar com
o Quid pro quo, ou seja, determinar
exatamente quais eram as plantas
referidas nos textos da Antiguidade. Em
1540, fazia-se cerca de 20 substituições,
porque não se sabia de que substâncias
eles falavam. Em 1566, o farmacêutico
Francesco Calzolari só usava 3
substitutos. Em 1568, Mattioli afirma que
Teriaca já era tão boa como a dos
romanos (já não precisava de
substitutos).

Muitas substâncias são conhecidas por nomes


diferentes de região para região (mas são a mesma
substância).

Nos textos de botânica médica também começa a


existir uma grande preocupação em representar fielmente as
plantas, etc.

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Leonhard Füchs, autor de De historia stirpium (Basileia, 1542), descreve


cerca de meio milhar de plantas. Há uma preocupação muito grande com a flora
alemã (a flora dos Dioscórides é a flora do Mediterrâneo). Também há uma reação
religiosa e política em relação ao Sul da Europa – uma tentativa de independência
(“vamos usar as nossas plantas e não as deles”).

De historia stirpium: A importância


dada aos desenhadores é de tal forma
grande que o retrato dos desenhadores faz
parte do próprio livro.

Em Pádua, em 1533, surge o


primeiro professor universitário de
botânica.

Os primeiros jardins botânicos são jardins de plantas medicinais – a


botânica é inseparável da matéria médica nesta altura. Os mais famosos ficam
em: Pisa, Pádua, Bolonha, Leiden,
Leipzig, Basileia, Montpellier e Paris.
Em Portugal, os jardins botânicos
surgem tarde (o primeiro jardim
botânico ficava na zona de
Xabregas, mas hoje já não existe; os
jardins botânicos que surgiram a
seguir foram os de Coimbra e
Ajuda).

Nesta altura, as pessoas faziam essências, misturando plantas com água,


ficando com um cheiro concentrado. A destilação concentra as propriedades
medicinais de um material que é mais pequeno, mas que tem as propriedades
medicinais no seu todo. Havia a ideia de associar o cheiro à propriedade
medicinal. Um cheiro concentrado significava uma propriedade medicinal
concentrada. Daí vem o termo princípio ativo.

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Aulas 13 e 14 – 20/04/2018

Paracelso (1493-1541) é um médico suíço e a sua


grande inovação é a recusa da teoria humoral. Ele não
recusa a existência propriamente dita dos 4 humores,
mas considera que estes são relativamente acessórios e
passivos. Segundo Paracelso, os que são os elementos
mais ativos é aquilo que ele chama de “Tria Prima” – sal,
enxofre e mercúrio. Isto tem a ver com a ideia do
conhecimento da natureza como se fosse num
laboratório – filosofia química. O sal corresponde à
matéria propriamente dita, o enxofre à combustão e o mercúrio à volatilidade.
São, portanto, elementos que têm características próprias das operações
químicas. Na verdade, para Paracelso, há 7 constituintes (os 4 tradicionais da
teoria humoral + os 3 da “Tria Prima”). Outra característica do conhecimento dele
é o facto de ele achar que existe uma correspondência direta ente o macrocosmo
e o microcosmo. Ele considera que o microcosmo (corpo vivo) tem uma
correspondência em termos de funcionamento de propriedades com o
macrocosmo (universo). Como ele era proveniente de uma zona mineira, ele
considera o macrocosmo como sendo os minerais que são posteriormente
transformados e trabalhados em laboratório, ou seja, para ele o macrocosmo era
um grande laboratório metalúrgico. Portanto, ele afirma que o que se passa no
corpo humano deve ter características muito semelhantes ao que se passa com
os minerais. O macrocosmo é um grande laboratório e o microcosmo, ou seja, o
corpo humano é um pequeno laboratório com as mesmas propriedades. Outra
característica de Paracelso é a crença na teoria das assinaturas: tudo o que existe
na Terra que foi criado por Deus tem um objetivo que pode ser usado pelo
Homem. Esta teoria foi descrita por Giambattista della Porta, na obra
Phytognomonica (1588). Ele procura através da forma dos materiais vegetais
encontrar marcas que Deus tinha colocado nos vegetais para mostrar qual era a
sua utilidade.

Quando a parte de uma planta se


assemelhava a uma parte do corpo humano então
queria dizer que essa planta teria funções
terapêuticas. Por exemplo, alguns frutos de plantas
têm quase a forma de coração, por isso eram
usadas para tratamento de doenças cardíacas. Até
ao séc. XVIII/XIX esta teoria era muito frequente.
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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

No séc. XVI, verifica-se, então, um crescimento da utilização da flora


europeia em relação, por exemplo, ao tempo de Dioscórides. As únicas drogas
vegetais que são utilizadas em medicina e em farmácia e que não são
provenientes da Europa são as drogas orientais. Porque é que falamos em
drogas e não em plantas? Porque o que chega à Europa são apenas as partes
da planta que são utilizadas (pedaços de caule, folhas secas, etc) e não a planta
toda.

Portanto, temos as drogas ocidentais e as drogas


orientais. Em relação às drogas de origem asiática (orientais),
há um contributo relativamente importantes por parte de
autores portugueses: Tomé Pires, Simão Álvares e Garcia de
Orta.

No início da Expansão e do comércio marítimo com a Índia, os boticários


são os responsáveis por reconhecer as drogas, identificá-las, controlando a
aquisição, são aqueles que “percebem do assunto”. Os textos de Tomé Pires e
Simão Álvares são textos de informação comercial. Tomé Pires escreveu a Suma
Oriental, que descreve geograficamente a costa asiática desde a Índia até à China
e é o primeiro embaixador enviado por Portugal à China, ficando aí “preso” o
resto da vida, uma vez que os chineses desconfiavam imenso dos portugueses. O
texto de Simão Álvares também é muito semelhante ao de Tomé Pires.

O primeiro autor que vai escrever de uma forma mais completa sobre a
flora asiática é Garcia de Orta – Colóquios dos Simples e drogas e coisas
medicinais da Índia (1563). Este texto, e como se pode ver a partir do título, não
é escrito em latim. Este autor escreve em português para a(s) obra(s) não
circular(em) internacionalmente. O Colóquio introduz algumas plantas que até
aqui não eram conhecidas, descrevendo as plantas de onde as drogas eram
extraídas.

Há dois atores que vão difundir os Colóquios na Europa:


Cristóvão da Costa (ca. 1525-1593) – é português, mas escreve em
castelhano (escreve um texto com base no de Garcia de Orta e
acrescenta imagens – Tractado de las drogas, y medicinas de las
Indias Orientales (1578)) – e Charles de l'Écluse -
Clusius (1526-1609) – flamenco (traduz os textos de Garcia de Orta
para latim - Aromatum et Simplicium aliquot medicamentorum
apud Indios nascentium historia ante biennium quidem Lusitanica
língua… conscripta, D. Garcia ab Horto auctore (1567)).
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Em relação às edições dos Colóquios:

Nicolás Monardes (ca. 1512- 1588) nasceu e


passou a sua vida em Sevilha (o equivalente a Lisboa para
a expansão espanhola). As drogas americanas chegam
precisamente ao porto de Sevilha. Escreveu Historia
medicinal de las cosas que se traen de nuestras Indias
Occidentales (1565) e vai falar numa série de plantas e
drogas que não são conhecidas na Europa,
nomeadamente plantas que produzem resinas
aromáticas – Jálapa, sassafraz, Guaiaco, Canafístula e as
árvores dos bálsamos do Peru e Tolu.

Um dos autores mais importantes para o


conhecimento da flora americana vai ser Francisco
Hernandez (1514- 1587), médico de Felipe II e, portanto, vai
trabalhar a partir do palácio Real. É enviado para o México
para fazer investigação botânica, vai estudar cerca de 4000
plantas e posteriormente escreve Rerum Medicarum Novae
Hispaniae Thesaurus (1628) pela Accademia dei Lincei e
Opera (1790).

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Alguns contributos holandeses:

o Georg Markgraf (1610-1644) – Historia rerum naturalium


Brasiliae (1648) – relacionado com a parte botânica das
plantas
o Willem Piso (1611-1678) – Historia naturalis
Brasiliae (1648) – relacionado com as
propriedades medicinais
o Reede tot Drakestein, Hendrik van (1678-1703) – Hortus
Indicus Malabaricus (1678-1703). 12 vols – publicado em
Amesterdão entre 1678 e 1703.

Estas obras são trabalhos de investigação muito completos.

As plantas que são introduzidas na Europa a partir da américa são plantas


que se considera que tenham propriedades semelhantes a outras já conhecidas.
O que significa que não são introduzidas novas drogas totalmente diferentes, são
introduzidas drogas em substituição de outras. As principais drogas americanas,
aquelas que têm características totalmente novas, só vão ser introduzidas no séc.
XVII. Há dois exemplos: quina (cinchona) – introduzida a partir do Perú (possessão
espanhola) e Ipecacuanha – introduzida a partir do Brasil. A quina é introduzida
na Europa por causa de uma doença – malária. Até ao séc. XX, só as substâncias
ativas presentes na quina (alcaloides da quina) é que tratavam a malária. A casca
da quina oscilava entre o amarelo e o vermelho. Um pó que é desta cor, do ponto
de vista da teoria humoral, considera-
se quente e seco. É complicado utilizar
esta substância para tratar de febre,
que é também quente. Portanto, esta
teoria entra aqui em choque. Outro
aspeto é que quem vai no séc. XVII
controlar o comércio da quina na
Europa vai ser os Jesuítas. Por esta
razão o pó da quina era conhecido
como o pó dos Jesuítas.

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Aula 15 – 27/04/2018

A Revolução Científica do século XVII é um conceito que as ciências


desenvolveram principalmente por Thomas Kuhn. Ele usou uma analogia entre
um fenómeno histórico com outro que seja conhecido. As analogias servem para
nós percebermos melhor certos conceitos.

Uma revolução política é uma alteração normalmente tumultuosa de uma


ordem social e política por outra ordem social e política. Kuhn pegou na ciência,
dizendo que nesta existia um conjunto de ideias (paradigmas) e essas ideias eram
o cerne da ciência durante um determinado período. Em determinados
momentos das revoluções científicas, esse paradigma era substituído por outro
conjunto de ideias totalmente diferente de uma forma tumultuosa. Por exemplo,
a teoria humoral é um conjunto de ideias que dá para explicar tudo o que se
passa na medicina. As pessoas partilham entre si um paradigma, mas depois vão
acrescentando outros conhecimentos.

No caso da medicina, começaram a surgir as chamadas “ações ocultas”


para tentar resolver a incompatibilidade entre o paradigma e o conhecimento.

A revolução científica vai levar à queda da teoria humoral através da física


(e não pela medicina).

Podemos definir 3 grandes acontecimentos que têm a ver com a


Revolução Científica do séc. XVII: aparecimento da filosofia experimental, a
rejeição das teorias Aristotélicas na mecânica e o aparecimento das primeiras
academias científicas.

Há um conjunto de acontecimentos que começam com Francis Bacon,


autor de Novum Organum (1620) e que terminam com Galileo Galilei e Isaac
Newton e que levam ao aparecimento e desenvolvimento da filosofia
experimental (método experimental) – observação dos fenómenos naturais feita
de uma forma cronológica. Esta filosofia experimental introduz um novo conceito
ao conhecimento científico: a procura de padrões através da observação –
indução (fazer generalizações; observação repetida dos fenómenos para
conhecer as leis do mundo). René Descartes, autor de Discours de la méthode
(1637), nega o empirismo, ou seja, nega a indução como fonte de conhecimento
e introduz o método racional para tentar explicar os acontecimentos. A grande
crítica à indução é uma crítica que foi desenvolvida no séc. XX por Karl Popper:
por exemplo, podemos ver 3 milhões de fenómenos e todos se passam da mesma

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

maneira e fazemos uma generalização baseada nesses fenómenos, mas basta


aparecer 3 milhões e 1 que se passa de forma diferente e ele nega essa
generalização, ou seja, de repente pode aparecer alguma coisa que nega a
generalização. Galileo Galilei defende que a partir de generalizações é possível
formular uma hipótese para explicar as coisas que observamos – possíveis leis –
permitindo chegar a conclusões. (Eu deduzo
a partir da hipótese e as consequências
serão obrigatórias. Se a minha hipótese for
verdadeira, então a consequência 1, a 2, a 3
serão verdadeiras também. Se qualquer
uma delas não for verdadeira, então a
minha hipótese está errada.) No método
experimental, em condições controladas,
faz-se experiências para verificar se as
conclusões que se definiu à priori são verdadeiras ou falsas. A lei é, então, o
resultado da experimentação para verificar se estas consequências são
verdadeiras ou falsas. Galileo junta Bacon e Descartes, uma vez que ele usa o
indutivismo (Bacon) para chegar à hipótese. Para determinar as consequências,
ele usa o método dedutivo racional (Descartes). O que é novo acerca de Galileu
é precisamente a utilização da experiência para verificar se as consequências são
verdadeiras ou falsas.

No final do séc. XVII, aparece Isaac Newton (1642-1727), autor de


Philosophiae Naturalis Principia Mathematica (1687). Este texto teve um grande
impacto no conhecimento científico, uma vez que consistia num conjunto de
ideias que explicava o universo.

Durante o séc. XVII, surgem uma série de aparelhos para realizar o método
experimental. Por exemplo, o microscópio e o termómetro graduado começam a
ter uma alguma aplicação médica.

No final do séc. XVII, a teoria dominante na física é o Newtonianismo, ou


seja, a lei da atração universal e que serve para explicar os diferentes fenómenos
em diferentes áreas científicas.

Já no séc. XVI e no início do séc. XVII começam a surgir as primeiras


academias científicas:

o Accademia dei Segreti (Nápoles, ...1580) - Giambattista della Porta


o Accademia dei Lincei (Roma, 1603) - Porta (1610), Galileu (1615)

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o Accademia del Cimento (Florença, 1657)


o Royal Society (Londres, 1662) - Philosophical Transactions, 1664-
o Academie des Sciences (Paris, 1665) - J.B.Colbert c/ prot. Louis XIV – aquela
que tem profissionais
o Academia naturae curiosorum (Alemanha, 1652)
o Real Academia de Medicina de Sevilha (1697) - Primeira acad. Médica

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Aula 16 – 27/04/2018

Quando se chega à conclusão de que a teoria humoral estava errada,


começam a surgir três novos conceitos:

o Iatromecânica – tem muito a ver com as ideias de Descartes; olhar para o


corpo humano como uma máquina
o Iatroquímica – renascer da filosofia do Paracelso, excluindo a parte da
metafísica; olhar para o corpo humano como um laboratório
o Animismo

Iatroquímica (segunda metade do séc. XVII)

o Interpretação química dos processos fisiológicos, patológicos e terapêuticos

Principais autores:

o Franz de le Boe (Sylvius) (1614-1672)


o Thomas Willis (1621-1675)

Síntese entre:

o Paracelso (1493-1541) excluindo filosofia química (que considerava que era


metafísica – não tinha a ver com a natureza)
o Mecanicismo cartesiano + Indutivismo de F. Bacon
o Dissecção de cadáveres – Andrés Vesalio (1514-1564)
o Circulação do sangue – William Harvey (1578- 1657)

Há uma tentativa, então, de introduzir uma filosofia moderna na época na


medicina numa perspetiva química.

Joan Baptista van Helmont (1579-1644)

Estudou a digestão como processo químico e defendeu a existência de


agentes químicos específicos das doenças (archaei) contra a teoria do
desequilíbrio humoral – se uma doença é provocada por um agente específico
então aquela doença tem um caráter específico (na teoria humoral, as doenças
são um pouco vagas, ou seja, não têm um caráter específico – ex.: febre).

De onde é que poderá vir o raciocínio de que há doenças que são


causadas por agentes químicos específicos? Venenos, pois levam a pessoa a
adoecer, sendo uma causa específica.

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Estas ideias irão repetir-se ao longo dos tempos, nomeadamente no séc.


XIX, na bacteriologia.

Franz de le Boe (Sylvius) (1614-1672)

Utiliza um conceito de fisiologia baseada em processos de fermentação e


de reações de ácidos e bases. Para ele, a enfermidade não era provocada por um
agente específico – mantém ainda a ideia do equilíbrio, neste caso, de ácido-base
– se houvesse um excesso de ácido ou um excesso de base, a pessoa adoecia.

Thomas Willis (1621-1675)

Tem teorias semelhantes às de Sylvius. Em Pharmaceutice


rationalis (1674- 1675) procura explicar a ação dos medicamentos.

Iatromecânica

o Interpretação por leis físicas e mecânicas dos processos fisiológicos


e patológicos
o Ideia de que o corpo é uma máquina

René Descartes (1596-1650)

Escreveu Traité de l'homme (1662) – texto de


fisiologia

Considera que o corpo humano é uma máquina


física que tem uma alma imaterial, ou seja, a alma é
uma espécie de combustível que mantém a vida no
corpo humano (sem a alma, o corpo morre, ou seja, a
máquina para).

Santorio Santorio (1561-1636)

Fez estudos sobre o metabolismo basal.

Foi o primeiro a tentar utilizar o termómetro graduado


para o diagnóstico clínico.

Também introduz o pulsilógio para medir o pulso.

Isto não vai ter grande sucesso no séc. XVII, mas


tornam-se muito importantes no séc. XIX.

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Qual é o principal problema do iatromecanicismo? É fácil imaginar o


corpo como uma máquina. O problema está relacionado com a embriologia e a
fertilidade, uma vez que as máquinas não se reproduzem, nem se transformam
para chegar do estado de embrião ao estado adulto.

Animismo

O corpo vivo não se pode comparar com um


laboratório ou com uma máquina, porque a sua natureza
é totalmente distinta. Uma coisa é o mecanismo e outra
é o organismo: o organismo tem propriedades
totalmente diferentes do mecanismo. Eles introduzem
aqui uma grande distinção entre o vivo e o inerte, entre
a matéria e o espírito.

Eles olham para todos os processos vitais como sendo controlados pela
anima sensitiva imaterial, ou seja, aquilo que define um organismo é que ele é
controlado pela anima, considerando que a alma atribui ao corpo propriedades
que não são de outras máquinas.

NOTA: questões psicossomáticas – as ações sobre o corpo são controladas pela


mente

Hermann Boerhaave (1668-1738)

o Influenciado por
o Iatromecânica
o Cartesianismo
o Liga a medicina às ciências básicas do tempo
o Química médica s/ iatroquímica
o Thomas Sydenham (1624-1698)
o Lig. da patologia à observação clínica
o Infl. Taxonomia botânica (John Ray)
o Descrição indutiva dos casos clínicos individuais

As suas ideias são muito ecléticas, ou seja, misturam várias correntes.

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Vitalismo

Procura uma via intermédia entre a iatromecânica e o


animismo.

Introduz o princípio das forças vitais, que eram forças


específicas dos seres vivos (ex.: irritabilidade provocada
pelas infeções).

O autor mais importante é Albrecht von Haller


(1708-1777).

Nosotaxia

Procura classificar as doenças de um modo semelhante


àquele que Lineu utilizou para a classificação na botânica.
Conseguiu-se, então, fazer uma classificação sistemática das
doenças.

Matéria médica e farmácia das Luzes

Até ao séc. XVIII, assistimos permanentemente a um aumento do número


de ingredientes que se utilizam em farmácia.

Lineu escreve Depuração das farmacopeias, em que procura determinar se


as plantas são ativas ou não, se têm atividade farmacológica ou não.

Johann Andreas Murray (1740-1791) escreve Apparatus medicaminum,


que descreve a forma de comprovar a atividade dos medicamentos através de
experiências de laboratório in vivo e in vitro.

Introdução de novas drogas e medicamentos

Apesar da tentativa de reduzir as farmacopeias, existem medicamentos


novos que são introduzidos nesta época.

o James Lind (1716-1794) escreve A treatise of scurvy (1753) sobre a utilização


de citrinos no tratamento do escorbuto;
o William Withering (1741-1799) escreve An account on the Foxglove and some
of its medical uses (1785) sobre o uso da digital no tratamento de doenças
cardíacas;
o Pós de [Tomas] Dover (1732) – mistura de ópio e ipecacuanha como
diaforético para queixas reumáticas;

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

o Licor de [Gerard] van Swieten (1750) – solução de bicloreto de mercúrio em


brandy para sífilis por via interna (até esta época a sífilis era tratada com sais
mercuriais (insolúveis) e, por isso, eram aplicados sobre a pele; o licor de van
Swieten é uma forma de fazer o tratamento da sífilis por via interna).
o Licor de Fowler (1736-1801) (1785) – licor arseniacal (trióxido de arsénico)
como tónico diaforético

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Aula 17 – 4/05/2018

Desenvolvimento do Paradigma médico-laboratorial (séc. XIX)

Como é que a medicina moderna se desenvolveu?

Desde o séc. XIX, que as ciências médicas se organizam do ponto de vista


linguístico de forma muito semelhante à de hoje. Os conhecimentos são
diferentes, mas os conceitos base são muito semelhantes.

Podemos dividir em:

o Medicina hospitalar
o 1.ª metade do século
o Método anatomo-clínico
o Medicina laboratorial
o 2.ª metade do século
o Desenvolvimento da patologia celular, fisiopatologia e etiologia
o Medicina apoiada nas ciências físico-químicas e biológicas modernas

No início do séc. XIX, o laboratório não é uma coisa importante. No


entanto, na segunda metade do séc. XIX, o laboratório passa a ser muito
importante, nomeadamente para o diagnóstico, terapêutica, preparação de
medicamentos, etc.

Método anatomo-clínico

O que procura no séc. XVIII nos estudos anatómicos é relacionar aquilo


que é observado quando se abre o cadáver do doente morto com os sinais que
o médico observou antes da morte do doente.

o “Anatomo” – disseção anatómica


o “Clínico” – observação do doente

Pretende-se, então, tentar perceber, quando se vê os sinais clínicos do


doente, quais são as lesões anatómicas associadas, tentando fazer isto em tempo
útil, ou seja, sem esperar que ele morra.

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Lesões anatómicas e sintomas

Giovanni Battista Morgagni (1682-1711)

Estudou em Bolonha com Antonio María Valsalva.


Este escreveu De sedibus et causis morborum per anatomen
indagatis (1761), que é sobre a origem e a causa das
doenças indagadas anatomicamente, ou seja, o seu objetivo
era tentar identificar as causas das doenças através da
disseção dos cadáveres.

De sedibus et causis morborum per anatomen indagatis

o 5 livros com 500 histórias clínicas com relatório de


autópsia, ordenadas a capite ad calces, de acordo com
localização clínica da doença
o Metade dos casos dos apontamentos de Valsalva, f.
1723
o Perspectiva médica de Morgagni complementa
perspetiva cirúrgica de Valsalva
o Revisão crítica do Sepulchretum (1679) de Théophile
Bonet – estudo de disseções anatómicas de cadáveres

Porque é que estes estudos não são ainda uma atividade sistemática
no âmbito da medicina? Porque é que esta prática é feita por Valsalva,
Morgagni…, mas não é uma prática comum? Porque nesta época continua a
haver distinção entre médicos e cirurgiões. Quem faz a parte mecânica da
autópsia são principalmente os cirurgiões, no entanto, estes não acompanham o
doente na fase terminal. Normalmente são os médicos que o fazem. Alguns
médicos fazem disseções anatómicas, mas não o fazem sistematicamente,
precisamente porque a disseção anatómica é um trabalho do cirurgião. Só a partir
do séc. XIX é que começa a ser uma prática sistemática. Antes disto dá-se um
acontecimento: a Revolução Francesa. Qual é a importância desta na história
da medicina? É principalmente o acabar da distinção entre médicos e cirurgiões.

NOTA: Revolução Francesa  Revolução científica

Medicina em Paris nos finais do Séc. XVIII – papel da Revolução Francesa

Em março de 1791, a Faculdade de Medicina de Paris é encerrada, pois


esta tem funções de controle da profissão médico-farmacêutica – corporações –

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

entraves ao desenvolvimento do mercado e da economia liberal, que impedem a


livre circulação de bens, etc. Com o encerramento desta faculdade, começam a
surgir outras instituições de ensino: Écoles de Santé.

O grupo social que é mais dinâmico como partidário da revolução vai ser
o grupo dos cirurgiões, nomeadamente, os cirurgiões militares (os médicos são
menos ativos, precisamente por terem um estatuto social mais elevado). As novas
Écoles de Santé vão ser construídas à imagem da prática do ensino da cirurgia,
que era essencialmente prático, em hospitais.

Em praticamente todos os hospitais, os doentes principalmente os que


estão internados, são observados clinicamente (há registos da observação clínica)
e quando eles morrem no hospital sistematicamente também se faz a autopsia
do doente e, portanto, este acumular de conhecimentos começa a tornar-se
muito maior.

Marie-François-Xavier Bichat (1771-1802)

o Uma das grandes figuras do programa anatomo-clínico;


o Escreveu Anatomie générale, appliqué a la physiologie
et à la médecine (1801).

NOTA: não há ainda nesta época uma observação


microscópica, a observação anatómica é uma observação
macroscópica

Percussão – baseia-se em provocar um som no corpo e observar o resultado


desse som, ou seja, o reflexo da batida

o Desenvolvida por Jean Nicolas Corvisart (1755-1821)


o Cirurgião
o Médico no Hospital de la Charité
o Professor de clínica médica na École de Santé
o Médico de Napoleão (1804)
o Redescobriu a obra de Leopold Auenbrugger (1722-
1809) sobre a percussão

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Auscultação

o Quarto método da observação clínica:


o Inspeção, palpação, percussão e auscultação
o Desenvolvida por René Théophile Laennec (1781-
1826)
o Auscultação do tórax
o De l’auscultation médiate (1819) –
estetoscópio (monauricular – só tem uma
ligação a um ouvido, com um orifício no meio)
o Sinais anatomopatológicos
o Albuminúria – alterações anatómicas renais – Richard Bright. 1827-
1831

NOTA: Sinal anatomopatológico – sinal que se consegue ver através do exterior


de modo a identificar a lesão interna (ex.: albuminúria – alterações anatómicas
renais)

Anatomia Patológica

o Observação de lesões ocultas


o Endoscopia – Oftalmoscópio (1851); Laringoscópio (1855)
o Raios-X – Wilhelm C. Roentgen – utilidade no diagnóstico (1895)
o Introdução dos critérios anatomopatológicos na nosologia
o Tuberculose pulmonar (1810) substitui Tisis (doença que se
caracterizava pela expulsão de sangue através da tosse e fraqueza do
doente até à morte)
o Anatomia patológica – Olho nu – 1.ª metade século

O desenvolvimento dos métodos anatomo-clínicos levou à alteração da


forma como as doenças são descritas. No séc. XVIII, a doença é descrita através
dos seus sintomas. A partir do momento em que os sintomas são relacionados
com as lesões, as doenças passam a ser identificadas através das lesões
propriamente ditas.

Oftalmoscópio de Helmoltz

o Aparelho que permitia ver o interior do olho

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

O Laboratório e o Hospital

Este primeiro desenvolvimento da perspetiva anatomo-


clínica dá-se essencialmente nos hospitais.

A hospitalização é um fenómeno muito importante por


razões científicas e sociais – no início do séc. XVIII, quem tinha
dinheiro/posses, nunca era tratado em hospitais, era sempre
tratado em casa. Os hospitais são, e ntão, o sítio onde vão “parar os pobres” – a
situação do doente está dependente do hospital (ausência de autonomia do
doente no hospital). Porque é que esta situação se altera? Durante o séc. XVIII,
o hospital começa a ser visto como o local onde vão “parar também outros
grupos sociais”, uma vez que os hospitais começam a ser os sítios que têm os
melhores médicos e os melhores meios.

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Aula 18 – 4/05/2018

Medicina de laboratório

Principalmente na segunda metade do século XIX


começa a surgir o laboratório propriamente dito.

A primeira técnica que podemos considerar que


está dentro do laboratório é o aparecimento do
microscópio.

Na segunda metade do século XVIII, descobrem-se as lentes acromáticas


que reduzem a aberração cromática, conseguindo-se aumentar a ampliação. Isto
permitiu a análise de células de um tecido.

Há, então, uma alteração de escala, uma lesão macroscópica passa para
uma lesão microscópica. O processo seguinte começa quando a medicina se
começa a preocupar não pela lesão em si, mas pelos mecanismos que causam
essa lesão.

Mentalidade fisiopatológica

O que distingue a mentalidade fisiopatológica é o “estar


preocupado com o processo”, tentar estudar quais são os
transtornos funcionais que levaram à doença, como é que a situação
do corpo passou de normal a patológica.

Há 2 escolas importantes. Uma delas é aquela que olha para os transtornos


fisiológicos como processos de transformação de energia e essas técnicas vão
estar intimamente relacionados com a física (olhar para os transtornos como
sendo fenómenos de variação energética – ex.: é fácil associar a febre a variação
de energia). A outra tem a ver com a alteração dos materiais – incide sobre a
química e não na física.

Disfunções como processos energéticos

Em relação às disfunções como processos energéticos, eles estudavam a


evolução da doença segundo a variação da temperatura (febre como processo
energético).

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Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Introdução de instrumentos de registo

Um dos aspetos desta visão física é a


associação aos instrumentos de registo.

Começou a ser possível introduzir


aparelhos físicos, em que as variações de
energia eram registadas automaticamente:

o Medição dos transtornos do pulso arterial – invenção do esfigmógrafo pelo


fisiólogo Karl Vierordt (1854) e introdução na prática clínica por Jules Marey
(1860)
o Introdução da eletrocardiografia por Willem Einthoven (1901)
o Introdução da eletroencefalografia por Hans Berger (1929)

Karl Vierordt (1818-1884)

o Invenção do esfigmógrafo em 1854 – medição da pressão exterior necessária


para parar a circulação na artéria radial:

Étienne-Jules Marey (1830-1904)

o Torna portátil o esfigmógrafo de Karl Vierordt, permitindo a sua introdução


na prática clínica:

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Eletrocardiógrafo

Introdução da eletrocardiografia por Willem Einthoven (1860-1927):

Disfunções como processos materiais

Olhando para as disfunções fisiológicas como


processos materiais temos principalmente os trabalhos de
Friedrich T. von Frerichs (1819-1885) – aplicação das
técnicas da química fisiológica às doenças renais e hepáticas e
introdução de exames funcionais. Isto é aquilo a que nós
chamamos nos dias de hoje de análises clínicas, ou seja,
métodos químicos para identificar a presença de lesões.

Mentalidade fisiopatológica

A mentalidade fisiopatológica também introduz novos critérios


nosográficos, ou seja, critérios que servem para identificar e descrever a doença.

Patologia experimental

Uma das características importantes da patologia experimental é a


introdução da experimentação animal.

o Fundada por Ludwig Traube (1818- 1876)

Claude Bernard (1813-1878) considera que é possível


obter conhecimento sobre as doenças humanas a partir de
sistemas animais.

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Aulas 19 e 20 – 11/05/2018

Só para rever:

1º fase – Programa anatomo-clínico, que relacionava os sinais clínicos com as


lesões anatómicas, normalmente feito após a morte do doente; desenvolvimento
dos sinais anatómicos, em que se pretendia identificar lesões sem ter de se abrir
o corpo, por exemplo utilizando o estetoscópio e o raio x

2ª fase – a passagem do nível macroscópico para o nível microscópico permitiu a


observação de lesões a nível celular

3ª fase – olha para a doença, já não como o que se passa no corpo num
determinado momento, mas já numa perspetiva dinâmica e como ela evolui –
para isso, recorreu-se a duas disciplinas básicas fora da medicina, que forneceram
métodos para a fisiologia e fisiopatologia – física (olha para a doença como
variações de energia) e química (olha para a doença como alterações dos
materiais (ex.: sangue))

Estas técnicas permitem ter um maior conhecimento sobre a doenças, mas


também têm um papel fundamental no diagnóstico.

Vamos agora entrar na 4ª fase da constituição do paradigma médico-


laboratorial no séc. XIX: mentalidade fisiopatológica, que visa determinar a
origem da doença e a partir desta tentar explicar a sua etiologia.

Mentalidade etiopatológica

Mateo J. B. Orfila (1787-1853) é autor de uma obra


relacionada com a toxicologia, Traité des poisons (1814). A
toxicologia é algo em que visão etiológica é imediata – olha
para a causa. Existe, por isso, um nexo causa-efeito que é
indiscutível. Isto vai permitir o alargamento para outras
áreas de medicina, como a bacteriologia.

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Microbiologia

Ao longo do séc. XIX, vão surgir uma série de autores que vão olhar para
aquilo a que nós chamamos hoje a microbiologia, mas que na sua origem era
essencialmente a bacteriologia, ou seja, o estudo da ação das bactérias
patogénicas:

o Jakob Henle (1809-1885) – um dos primeiros autores a defender a origem


microbiana das doenças contagiosas (há uma transmissão que é feita através
de microrganismos)
o C-J. Davaine (1812–1882) – descreve o bacilo do carbúnculo (1855) e
consegue provocar experimentalmente a doença (1860)
o Ferdinand Cohn (1828–1898) – escreve Investigações sobre bactérias, em
1872 e estabelece as bases da taxonomia e morfologia microbiológica

Sendo os dois mais importantes:

o Louis Pasteur (1822-1895) – faz a demonstração final da


teoria microbiana da infeção; introduz uma das primeiras
técnicas de terapêutica eficazes na virologia – vacinação; cria o
primeiro grande instituto dedicado à bacteriologia à escala
internacional – Instituto Pasteur, em Paris; é um mineralogista
(descobre os enantiómeros óticos); descobre a vacinação da
raiva – é uma terapêutica e não prevenção – depois do contacto com a
doença; tem uma intervenção política importante
o Robert Koch (1843-1910) – o seu contributo bacteriológico é maior e mais
consistente do que o do Pasteur; criador das principais técnicas
microbiológicas modernas, como por exemplo: técnicas de coloração
(importantes, porque as bactérias são incolores), meios de cultura,
microfotografia e esterilização por vapor; descobre numerosos germes
patogénicos, como por exemplo, o bacilo da tuberculose (1882) e o vibrião
colérico (1883), que foi isolado previamente por Filippo Pacini (1854);
contribuiu para teoria geral das doenças infecciosas (“como é que nós a partir
de meios biológicos temos a certeza de que o microrganismo isolado é o
causador da doença?”); introduz algumas medidas
profiláticas; lançou a quimioterapia antimicrobiana (“como é
que nós administramos uma substância ao doente que mata
os microrganismos que causam doença e não mata as
outras células?”)

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Microbiologia – Finais do século XIX

Nos finais do séc. XIX, qual é o estado da microbiologia? Nas primeiras


décadas do séc. XX, já se sabia quais eram os principais agentes infecciosos que
causavam as diversas doenças.

Nos finais do séc. XIX, também já se conhece a existência de vírus. Esta


resulta principalmente da introdução dos filtros – filtros de Chamberland –
utilizados para a purificação da água potável de modo a retirar os agentes
patogénicos.

No entanto, mais tarde, descobre-se que há doenças infecciosas que


atravessam o filtro de Chamberland, o que significa que a dimensão das partículas
que transmitem a doença tem de ser mais pequena que a das bactérias – vírus
filtráveis. O primeiro vírus a ser identificado e descrito é o vírus do mosaico do
tabaco (Dimitri A. Ivanovski, 1892).

Imunologia

o Descoberta da fagocitose por Elie Metchnikoff (1884), discípulo de Pasteur


o Hans Buchner (1850-1902) publica em 1889 os seus estudos sobre a ação
bactericida do soro, donde irá derivar o conceito de antigénio-anticorpo
o Ehrlich introduz o termo anticorpo em 1891
o Criação do termo anti-toxina em 1891
o Charles Richet descobre a anafilaxia (1902) – reação indesejável da imunologia
o Clemens von Pirquet expõe a teoria da alergia (1905)

Um dos aspetos importantes da imunologia é a introdução da terapêutica


para tratamento de certas doenças, utilizando antitoxinas (ex.: difteria). Esta passa
a ser a segunda grande doença do Instituto Pasteur de Lisboa.

Etiologia

Da mesma forma que aconteceu com as outras perspetivas anteriores, aqui


também surgem:

o Sinais etiológicos, ou seja, testes para tentar identificar doenças (teste da febre
tifoide por Fernand Widal (1896) e serodiagnóstico da sífilis por August von
Wassermann (1906))
o Critérios nosográficos baseados nas causas específicas

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Aulas 21 e 22 – 25/05/2018

Descoberta e separação de princípios activos

O que é que acontece na parte farmacêutica e farmacológica ao


mesmo tempo que se desenvolve o paradigma médico-laboratorial?

O primeiro grande desenvolvimento no início do séc. XIX é a descoberta e


separação de diversos princípios ativos, que vão começar a ser extraídos a partir
de uma série de plantas:

o Alcaloides (bases fracas, insolúveis em água, solúveis em solventes orgânicos,


junta-se um ácido e forma-se um sal, que tem uma solubilidade contrária ao
alcaloide, ou seja, solúvel em água e insolúvel em solventes orgânicos,
formando-se, assim, um precipitado)
o Morfina (1806) – isolada por Friedrich Sertürner (1783-1841) a partir do
ópio (analgésico potente)
o Cinchonina (1812) – isolada por Bernardino António Gomes (1768-
1823)
o Emetina (1817) – isolada por Pierre Joseph Pelletier (1788- 1842)
o Estricnina (1819) – isolada por Pierre Joseph Pelletier (1788- 1842)
o Quinina (1820) – isolada por Pierre Joseph Pelletier (1788- 1842), a
partir da quinina
o Glucósidos
o Digitalina em 1844 por Augustin Homolle e Théodore Quevenne

A descoberta dos alcaloides da quina, nomeadamente do sulfato de


quinino, permite o tratamento das tropas europeias da malária. Portanto, esta
descoberta, tem um impacto do ponto de vista político, económico, etc.

A partir da introdução de substâncias que têm uma ação médica


começam-se a estudar os mecanismos de ação dos medicamentos:

o Farmacodinamia – explicar experimentalmente o mecanismo de ação dos


medicamentos no organismo. Iniciada com F. Magendie e C. Bernard como
parte da Fisiologia experimental.

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Dois autores importante:

François Magendie (1783-1855)

o Primeiras experiências de Magendie, junto com A. Raffeneau-Delile, com


espécies do género Strychnos desde 1809
o Experimentação com animais
o Formulaire ... de plusieurs nouveaux médicaments (Paris, 1821) – novos
alcaloides

Claude Bernard (1813-1878)

o Estudos sobre:
o curare (1850) – substância que os índios sul americanos utilizam nas
setas para envenenar os animais; quando é administrada oralmente, é
transformada dentro do corpo humano e deixa de ser tóxica, no
entanto, quando é administrado de forma endovenosa não há
transformação, continuando a ser tóxica (daí matar os animais e não
matar os índios que comiam os animais)
o monóxido de carbono – primeira explicação a um nível bioquímico: CO
deslocava O da Hemoglobina no sangue

Outro autor (menos importante):

Jonathan Pereira (1804-1859) – The Elements of Materia Medica (Londres,


1839-1840)

Farmacologia experimental

Rudolf Buchheim (1820-1879)

o Formação médica em Leipzig – 1845


o Interesse por F. como tradutor de Pereira e editor
de Pharmazeutisches Zentralblatt
o Professor na universidade de Dorpat (Tartu - Estónia) em
1847
o Cadeira de Materia médica, dietética, história e enciclopédia médica.
o Fundou primeiro laboratório e instituto de Farmacologia
o Tratado de farmacologia (1856) – primeira exposição dos medicamentos
segundo as analogias químicas e farmacodinâmicas
o Contributo relativamente pequeno
o Schmiedberg, seu assistente, va i criar escola internacional de farmacologistas

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Oswald Schmiedeberg (1838-1921)

o Discípulo de Buchheim em Dorpat


o Investigou a nicotina, a cafeína, os digitálicos e os narcóticos
a partir de 1869
o Fundou Lab. de F. em Estrasburgo em 1872
o Fundou, com B. Naunyn e E. Klebs, primeira revista:
o Archiv für experimentelle Pathologie und Pharmakologie em 1873
o Livro de texto clássico
o Grundriss der Arzneimittellehre (1883)
o Mais de 150 farmacologistas foram treinados no laboratório de Schmiedberg
o Incluindo Silvio Rebelo Alves, o fundador do Instituto de Farmacologia
o Em 1921, cerca de 40 cadeiras de farmacologia eram ocupadas pelos
seus discípulos internacionalmente
o Base para conhecer a relação entre a composição química e a ação no
organismo

Química: orgânica e inorgânica

Uma questão importante no estudo da ação dos


medicamentos no organismo é a rejeição da grande ideia de
que as substâncias inorgânicas eram distintas das substâncias
orgânicas, ou seja, que as substâncias da terra tinham
propriedades diferentes daquelas que eram produzidas pelos
seres vivos.

Friedrich Wöhler (1820-1882) acaba com essa ideia, porque sintetiza (1828)
a ureia (composto orgânico) a partir do cianato de amónio (substância
inorgânica), provando que não há uma separação entre o mundo orgânico e o
mundo inorgânico.

A partir de Hidrato de cloral, sintetizado por Justus


von Liebig em 1832, começam a surgir os anestésicos.

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William Henry Perkin (1838-1907)

o Sintetiza a malveína em 1856


o Indústria de corantes sintéticos

A malveína dá origem a corantes sintéticos (importantes


em farmácia).

A síntese química desenvolveu-se bastante ao


longo do séc. XIX.

Pierre Eugène Marcellin Berthelot (1827-1907)

Em 1860, sintetiza o Benzeno e outros compostos do


alcatrão da hulha. Porque é que o benzeno é importante?
Porque faz-se uma cadeia fechada a partir de cadeias
abertas.

Quimioterapia sintética

No final do séc. XIX, praticamente os grandes passos de síntese orgânica


estão dados:

o Friedel publica Novo método geral de síntese de hidrocarbonetos e cetonas


(1877)
o Ácido salicílico – sintetizado em 1874 – empregado no reumatismo em 1875
o Ácido acetilsalicílico (aspirina) – sintetizado em 1893 – util. 1899 após estudos
de Adolf von Bayer
o Primeiro alcaloide sintetizado em 1886
o Novocaína ou procaína – 1899

Um dos passos importantes de todo este processo vai ser a junção entre a
síntese de química orgânica e a bacteriologia e essa junção vai ser feita por um
discípulo de Koch – Paul Ehrlich (1854-1915):

o Ele considera que existem substâncias (“balas mágicas”) que são capazes de
serem introduzidas no corpo vivo e ligarem-se às bactérias patogénicas,
matando apenas essas bactérias e não o hospedeiro.
o Treponema pallidum isolado em 1905

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o Partiu de um derivado do ácido arsenioso


o Preparado 606 – salvarsan (1910)
o Preparado 914 – neosalvarsan (1912) – agente quimioterápico importante

o Sulfamidas por Gerhard Dogmack em 1935


o 1940 – Util. Antibióticos

Indústria e tecnologia farmacêutica

No séc. XIX e principalmente no séc. XX, a indústria farmacêutica vai ser o


setor preponderante na produção de medicamentos. Os medicamentos que se
vendem nas farmácias passam a ser os medicamentos industriais.

o 1833 – Cápsulas gelatinosas por A. Mothes


o 1837 – Drageificação (meter uma cobertura à volta do comprimido) por
Labélonye e Adolphe Fortin
o 1843 – Aparelho para pastilhas comprimidas (produzidas por via húmida) por
William Brockedon; aperfeiçoado por Henry Bower em 1872
o 1873 – Cápsula amilácea por via húmida por Stanislas Limousin (1831-1887)

Indústria e tecnologia química

o W. H. Perkin (1838-1907)
o 1856 – sintetiza a malveína, primeiro corante derivado da anilina,
obtido a partir do alcatrão da hulha
o Indústria de corantes sintéticos na Suíça e Alemanha
o Geigy (1758), CIBA (1884), Sandoz (1886) e Hoffman-La Roche (1896)
o BASF, Bayer e Hoescht – no Ruhr

A partir dos corantes sintéticos começa-se a investir na produção de


medicamentos:

o Suíça e Alemanha
o 1888 – Bayer lança fenacetina e sulfonal e depois a Aspirina
o 1889 – CIBA, Sandoz c/ medicam. na Expo U. Paris
o Salvarsan – Hoescht
o Outros
o 1858 – Poulenc
o 1875 - Smith-Kline

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Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa
Sebenta de História da Farmácia e da Terapêutica

Biologia e farmácia

o Vacinas e Antitoxinas
o A. anti-diftérica
o Laboratórios de investigação e de saúde pública
o Privados: Parke Davis e Mulford (1891)
o Regulação do sector
o 1902 – Federal Act – controlo de produtos biológicos
o 1906 – Pure Food and Drugs Act
o Smith Kline and French
o Bureau de Química do Dep. Agricultura
Aparte: Nos U.S.A. e na Inglaterra, o controlo dos medicamentos está próxima do controlo
dos alimentos. No entanto, em Portugal, não há organismos que façam controlo
simultaneamente dos dois.

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Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa

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