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Curso de 2ª Fase para o XXVII Concurso da DPERJ

DIREITO CONSTITUCIONAL

Prof. Luís Zouein


Intensivo para a 2ª fase da DPERJ (Direito Público):

1. Direito à vida: polêmicas sobre o aborto.


2. Integridade física: segurança cidadã, violência estatal e tortura.
3. Liberdade de expressão.
4. Direito à igualdade: aspectos sobre raça e gênero.
5. Direitos LGBTI+.
6. Pessoas com deficiência.
7. Direito à educação.
8. Direito à saúde.
Luís Henrique Linhares Zouein
@lhlzouein
https://t.me/lhlzouein
1. Direito à vida.
Caso concreto/questão:
Os pais de XXX, de 11 anos, descobrem que sua filha está grávida após a criança ter sido
atendida em uma unidade pública de saúde. Desesperados, procuram você, no seu órgão de
atuação em pequena e conservadora cidade do interior do Rio de Janeiro, e informam que os
médicos e demais profissionais, em que pese tenham informado a possibilidade legal de
interrupção antecipada da gestação, têm receio de realizar o procedimento sem um
resguardo do Sistema de Justiça. Considerando este contexto, responda:

a) Você, na qualidade de Defensor(a) Público(a), o que faria (medidas cabíveis) e com que
fundamentos?
b) Ademais, responda: a criminalização do aborto é constitucional? Mencione ao menos 3
fundamentos favoráveis à descriminalização da conduta até os 3 meses de gestação.
Dica de documentário
(plataforma Netflix)
Link da notícia: https://g1.globo.com/es/espirito-
santo/noticia/2020/09/04/menina-de-11-anos-que-engravidou-apos-
estupro-no-es-tem-gestacao-interrompida.ghtml
Introdução sobre o direito à vida:

• Fundamentos normativos:
Art. 5º, caput, da Constituição;
Art. 4º da CADH;
Art. 6º do PIDCP.

• Conceito clássico: vida biológica.


• Abordagem contemporânea: vida digna e com autonomia.
Polêmicas sobre o aborto:

• Aborto na legislação brasileira (tipos penais: artigos 124 a 126 do


CP):
Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico:
Aborto necessário
I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante;
Aborto no caso de gravidez resultante de estupro
II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de
consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu
representante legal.
A visão institucional (posição
para DPERJ)
“Nem todas as mulheres que decidem não seguir com uma
gravidez no Brasil (...) são criminalizadas. As que têm que
enfrentar polícia, promotor, juiz e júri costumam ter algo em
comum: não são brancas, ricas, capazes de pagar por uma
interrupção de gestação segura. São em geral pretas e pardas,
pobres e denunciadas por profissionais de saúde que deveriam
cuidar de suas dores. A criminalização do aborto é misógina,
racista e classista.” (Sinara Gumieri - Justificando)

Pontos do “edital” de Direitos Humanos:


o Gênero, Sexo, Diferença Sexual. Reprodução Feminina.
Política e Trabalho. Jurisprudência do Sistema
Interamericano. Caso Artavia Murillo e Outros vs.
Costa Rica. (ponto II, item “f”);
o Violência Institucional de Gênero. Violência Obstétrica.
Igualdade e não Discriminação. Direitos Sexuais e
Reprodutivos. ADPF 442. (ponto III, item “a”);
o Direito das Mulheres. Direitos Sexuais e Reprodutivos.
STF ADPF nº 442. (ponto IV, item “b”);

Tema exigido na prova escrita preliminar – Banca III (XXVI


Concurso).
4ª QUESTÃO (VALOR: 25 PONTOS)

Leia os textos abaixo, identifique e discorra sucintamente sobre as violações de direitos humanos presentes. Indique também formas de
atuação da Defensoria Pública para combatê-las.

Texto 1. “Vozes-Mulheres. A voz da minha bisavó ecoou criança nos porões do navio, ecoou lamentos de uma infância perdida. A voz da
minha avó ecoou obediência aos brancos-donos de tudo. A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela. A minha voz ainda ecoa versos perplexos com
rimas de sangue e fome. A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato. O ontem – o hoje – o agora. Na voz de minha filha se fará ouvir a
ressonância o eco da vida-liberdade”. Conceição Evaristo. Poemas da Recordação e outros Movimentos. Rio de Janeiro. Ed. Male 2017. Pág.
24 e 25.

Texto2. “Débora Diniz lembrou a história de Ingriane Barbosa, mulher negra, trabalhadora doméstica, mãe de 3 filhos, que morreu no mês
passado, aos 30 anos, após fazer um aborto de forma insegura em casa, em Petrópolis, na região serrana do Rio. ‘Ela morreu com um talo
de mamona no útero. É mãe de 3 filhos e o que se sabe é que já tinha feito um aborto. Se assim foi, se essa história é verdadeira, nós
perdemos, como Estado, uma oportunidade de prevenir o segundo aborto e certamente de ter Ingriane viva. É na rota crítica de uma mulher
que faz aborto que podemos e devemos apresentar medidas de prevenção”, afirmou a antropóloga. “A criminalização do aborto matou
Ingriane e deixou seus filhos órfãos.” Diniz reforçou ainda que a abstração dos números esconde que, apesar de o aborto ser um evento
comum na vida das mulheres brasileiras, o risco é distribuído de forma desigual, pesando muito mais sobre mulheres mais jovens, mais
pobres, das regiões Norte e Nordeste, negras e indígenas. Quem são as mulheres que abortam? Essa multidão pode ser descrita por
números: uma por minuto, 1 a cada 5 mulheres aos 40 anos, 56% delas são católicas e 26%, evangélicas. É uma mulher comum brasileira.
“Novamente aí está Ingriane e faço questão de pedir que se lembrem dela. Para aqueles que nunca viram racismo como parte da
criminalização do aborto, ou nunca viram o racismo como uma das causas de morte materna, que guardem a foto de Ingriane, recolham um
talo de mamona e façam um porta-retrato na sua casa, porque a partir daí, nunca mais vão esquecer”. Huffpostbrasil Disponível em
<https://www.huffpostbrasil.com/2018/08/03debora-diniz-a-criminalização-do-aborto-matou-ingriane-e-deixou-seus-filhos-
órfãos_a_23495678/> Acesso em 04/08/2018.

Obs: link atualmente indisponível.


Disponível em: http://cejur.rj.def.br/uploads/arquivos/f8528a283b544defb6429ec0c3e86f0a.pdf
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Ny31sXYfmws
Fundamentos favoráveis à criminalização do
aborto

• Argumentos religiosos;
• Adoção da teoria concepcionista (art. 4.1 da CADH): “Toda pessoa tem o direito de
que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde
o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente.”
Teorias:
A) desde a concepção;
B) desde a nidação;
C) com a formação do sistema nervoso central;
D) com a viabilidade da vida extrauterina;
E) desde o nascimento.
• Dimensão objetiva dos direitos fundamentais;
• Vedação à proteção insuficiente;
• Separação de poderes (via jurisdicional).
Aborto na jurisprudência do STF:

• Interrupção da gravidez de feto anencéfalo: ADPF 54.

• Interrupção da gravidez em caso de gestante com zika


(microcefalia): ADI 5.581.
• O art. 10 da Convenção de Nova Iorque.
HC 124.306/RJ e a descriminalização do
aborto até os 3 meses de gestação
“A interrupção da gravidez no primeiro trimestre da gestação
provocada pela própria gestante (art. 124) ou com o seu
consentimento (art. 126) não é crime. É preciso conferir
interpretação conforme a Constituição aos arts. 124 a 126 do
Código Penal – que tipificam o crime de aborto – para excluir do
seu âmbito de incidência a interrupção voluntária da gestação
efetivada no primeiro trimestre. A criminalização, nessa
hipótese, viola diversos direitos fundamentais da mulher, bem
como o princípio da proporcionalidade.” (STF. 1ª Turma. HC
124306/RJ, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min.
Roberto Barroso, julgado em 29/11/2016 - Info 849).
Fundamentos do Ministro Barroso
favoráveis à descriminalização do
aborto
• 1. Violação à autonomia da mulher:
“24. A criminalização viola, em primeiro lugar, a autonomia da mulher,
que corresponde ao núcleo essencial da liberdade individual, protegida
pelo princípio da dignidade humana (CF/1988, art. 1º, III). (...) 25.
Quando se trate de uma mulher, um aspecto central de sua autonomia
é o poder de controlar o próprio corpo e de tomar as decisões a ele
relacionadas, inclusive a de cessar ou não uma gravidez. Como pode o
Estado – isto é, um delegado de polícia, um promotor de justiça ou um
juiz de direito – impor a uma mulher, nas semanas iniciais da gestação,
que a leve a termo, como se tratasse de um útero a serviço da
sociedade, e não de uma pessoa autônoma, no gozo de plena
capacidade de ser, pensar e viver a própria vida?”
• 2. Violação à igualdade de gênero:
“29. A norma repressiva traduz-se, ainda, em quebra da igualdade de
gênero. (...). A histórica posição de subordinação das mulheres em
relação aos homens institucionalizou a desigualdade socioeconômica
entre os gêneros e promoveu visões excludentes, discriminatórias e
estereotipadas da identidade feminina e do seu papel social. (...). Na
medida em que é a mulher que suporta o ônus integral da gravidez, e
que o homem não engravida, somente haverá igualdade plena se a ela
for reconhecido o direito de decidir acerca da sua manutenção ou não.”
Fundamentos do Ministro Barroso favoráveis à
descriminalização do aborto
• Discriminação social e impacto desproporcional sobre mulheres pobres:
“30. (...) a tipificação penal produz também discriminação social, já que prejudica, de forma desproporcional, as mulheres pobres, que não têm
acesso a médicos e clínicas particulares, nem podem se valer do sistema público de saúde para realizar o procedimento abortivo. Por meio da
criminalização, o Estado retira da mulher a possibilidade de submissão a um procedimento médico seguro. Não raro, mulheres pobres precisam
recorrer a clínicas clandestinas sem qualquer infraestrutura médica ou a procedimentos precários e primitivos, que lhes oferecem elevados riscos
de lesões, mutilações e óbito.”
• Violação aos direitos sexuais e reprodutivos da mulher:
“27. A criminalização viola, também, os direitos sexuais e reprodutivos da mulher, que incluem o direito de toda mulher de decidir sobre se e
quando deseja ter filhos, sem discriminação, coerção e violência, bem como de obter o maior grau possível de saúde sexual e reprodutiva. A
sexualidade feminina, ao lado dos direitos reprodutivos, atravessou milênios de opressão. O direito das mulheres a uma vida sexual ativa e
prazerosa, como se reconhece à condição masculina, ainda é objeto de tabus, discriminações e preconceitos. Parte dessas disfunções é
fundamentada historicamente no papel que a natureza reservou às mulheres no processo reprodutivo. Mas justamente porque à mulher cabe o
ônus da gravidez, sua vontade e seus direitos devem ser protegidos com maior intensidade.”
• Violação do direito à integridade física e psíquica:
“26. (...) a criminalização afeta a integridade física e psíquica da mulher. O direito à integridade psicofísica (CF/1988, art. 5º, caput e III) protege
os indivíduos contra interferências indevidas e lesões aos seus corpos e mentes, relacionando-se, ainda, ao direito à saúde e à segurança. A
integridade física é abalada porque é o corpo da mulher que sofrerá as transformações, riscos e consequências da gestação. Aquilo que pode ser
uma bênção quando se cuide de uma gravidez desejada, transmuda-se em tormento quando indesejada. A integridade psíquica, por sua vez, é
afetada pela assunção de uma obrigação para toda a vida, exigindo renúncia, dedicação e comprometimento profundo com outro ser. Também
aqui, o que seria uma bênção se decorresse de vontade própria, pode se transformar em provação quando decorra de uma imposição
heterônoma. Ter um filho por determinação do direito penal constitui grave violação à integridade física e psíquica de uma mulher.”
• Violação ao “princípio” da proporcionalidade.
• Desenvolvimento do sistema nervoso central.
Fundamentos do Ministro Barroso
favoráveis à descriminalização do aborto
• Direito comparado:
• “Anote-se, por derradeiro, que
praticamente nenhum país democrático
e desenvolvido do mundo trata a
interrupção da gestação durante a fase
inicial da gestação como crime, aí
incluídos Estados Unidos, Alemanha,
Reino Unido, Canadá, França, Itália,
Espanha, Portugal, Holanda e Austrália.”

• Ainda mais recentemente, a Argentina


(dezembro de 2020):
https://brasil.elpais.com/internacional/
2020-12-29/votacao-historica-no-
senado-de-projeto-para-legalizar-
aborto-na-argentina.html
Aborto no âmbito onusiano:
• Comentário Geral n. 28 do Comitê de Direitos Humanos da ONU (Igualdade entre Mulheres e Homens): Item 10.
• Comentário Geral n. 36 do Comitê de Direitos Humanos da ONU (Direito à vida):
• Item 8: “Embora os Estados partes possam adotar medidas destinadas a regular as interrupções voluntárias da gravidez, tais medidas não
devem resultar em violação do direito à vida de uma gestante ou de uma menina, ou de seus outros direitos previstos no Pacto. Assim,
restrições à capacidade de mulheres ou meninas de buscar o aborto não devem, entre outras coisas, pôr em risco suas vidas, sujeitá-las a
dor ou sofrimento físico ou mental que violem o artigo 7, discriminá-las ou interferir arbitrariamente em sua privacidade. Os Estados
devem providenciar acesso seguro, legal e efetivo ao aborto, onde a vida e a saúde da gestante ou da menina estão em risco, e quando
levar uma gravidez a termo causaria dor ou sofrimento substancial à gestante ou à menina, mais notadamente quando a gravidez é o
resultado de estupro ou incesto ou não é viável. Além disso, os Estados-parte não podem regulamentar a gravidez ou o aborto em todos
os outros casos de maneira contrária ao seu dever de garantir que mulheres e meninas não tenham que realizar abortos inseguros, sendo
que devem revisar suas leis sobre aborto em tal sentido. A título exemplificativo, os Estados não devem tomar medidas como criminalizar
a gravidez de mulheres solteiras ou aplicar sanções criminais contra mulheres e meninas submetidas a aborto ou contra prestadores de
serviços médicos que as ajudem a fazê-lo, uma vez que tais medidas obrigam mulheres e meninas a recorrerem ao aborto inseguro. Os
Estados Partes não devem introduzir novas barreiras e devem remover as barreiras existentes que negam acesso efetivo de mulheres e
meninas ao aborto seguro e legal, incluindo barreiras causadas como resultado do exercício de objeção de consciência por parte de
prestadores de serviços de saúde individuais. Os Estados Partes também devem proteger efetivamente as vidas de mulheres e meninas
contra os riscos de saúde mental e física associados a abortos inseguros. Em particular, devem assegurar o acesso de mulheres e homens
e, especialmente, de moças e rapazes, à informação e educação de qualidade e baseada em evidências sobre saúde sexual e reprodutiva e
a uma vasta gama de métodos contraceptivos acessíveis; e prevenir a estigmatização de mulheres e meninas que buscam o aborto.”
• Comentário Geral n. 22 do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (Sobre o direito à saúde sexual e reprodutiva): Itens 10, 28 e 40.
• Recomendação Geral n. 35 da Cedaw:
• Item 18: “Violações da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, tais como esterilizações forçadas, aborto forçado,
gravidez forçada, criminalização do aborto, negação ou atraso do aborto seguro e de cuidados pós-aborto, continuação forçada de
gravidez, abuso e maus-tratos de mulheres e meninas que procuram informações, produtos e serviços relacionados à saúde sexual e
reprodutiva, são formas de violência de gênero que, dependendo das circunstâncias, podem ser equiparadas à tortura ou ao tratamento
cruel, desumano ou degradante.”
• Item 29.A.i: Recomendação de que os Estados revoguem leis que criminalizam o aborto.
O ato normativo do Ministério da Saúde (Portaria n.
2.561/20 - "Procedimento de Justificação e Autorização da
Interrupção da Gravidez nos casos previstos em lei"):
Art. 2º A primeira fase será constituída pelo relato circunstanciado do evento, realizado pela própria gestante, perante 2 (dois) profissionais de saúde
do serviço.
Parágrafo único. O Termo de Relato Circunstanciado deverá ser assinado pela gestante ou, quando incapaz, também por seu representante legal,
bem como por 2 (dois) profissionais de saúde do serviço, e conterá:
I - local, dia e hora aproximada do fato;
II - tipo e forma de violência;
III - descrição dos agentes da conduta, se possível; e
IV - identificação de testemunhas, se houver.

Art. 4º A terceira fase se verifica com a assinatura da gestante no Termo de Responsabilidade ou, se for incapaz, também de seu representante legal,
e esse termo conterá advertência expressa sobre a previsão dos crimes de falsidade ideológica (art. 299 do Código Penal) e de aborto (art. 124 do
Código Penal), caso não tenha sido vítima do crime de estupro.

Art. 7º Em razão da Lei nº 13.718, de 24 de setembro de 2018, que alterou o artigo 225 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940
(Código Penal), para tornar pública incondicionada a natureza da ação penal dos crimes contra a liberdade sexual e dos crimes sexuais contra
vulnerável, o médico e os demais profissionais de saúde ou responsáveis pelo estabelecimento de saúde que acolherem a paciente dos casos em que
houver indícios ou confirmação do crime de estupro, deverão observar as seguintes medidas:
I - Comunicar o fato à autoridade policial responsável;
II - Preservar possíveis evidências materiais do crime de estupro a serem entregues imediatamente à autoridade policial ou aos peritos oficiais, tais
como fragmentos de embrião ou feto com vistas à realização de confrontos genéticos que poderão levar à identificação do respectivo autor do crime,
nos termos da Lei Federal nº 12.654, de 2012.

Recomendação n. 20 de 2020 do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH).


Pendência de julgamento da ADPF 737 e da ADI 6.552 – a posição da PGR (ato normativo secundário).
Aspectos práticos:
• 1. Ofício: primazia da solução extrajudicial das controvérsias
(art. 4º, inciso II, da LC n. 80/94) e o “Comunicado Técnico
conjunto: acesso ao aborto legal por meios extrajudiciais”,
produzido pela Coordenação de Defesa Criminal em conjunto
com a Coordenadoria de Defesa dos Direitos da Mulher e o
Núcleo Contra a Desigualdade Racial, todos da DPERJ;
• 2. “Ação de autorização” com a pedido de expedição do
respectivo alvará (“pedido de alvará autorizativo da interrupção
de gravidez”);
• 3. Habeas corpus (preventivo).
Caso concreto/questão:
Os pais de XXX, de 11 anos, descobrem que sua filha está grávida após a criança ter sido atendida em
uma unidade pública de saúde. Desesperados, procuram você, no seu órgão de atuação em pequena e
conservadora cidade do interior do Rio de Janeiro, e informam que os médicos e demais profissionais,
em que pese tenham informado a possibilidade legal de interrupção antecipada da gestação, têm
receio de realizar o procedimento sem um resguardo do Sistema de Justiça. Considerando este
contexto, responda:

a) Você, na qualidade de Defensor(a) Público(a), o que faria (medidas cabíveis) e com que fundamento?
b) Ademais, responda: a criminalização do aborto é constitucional? Mencione ao menos 3 fundamentos
favoráveis à descriminalização da conduta até os 3 meses de gestação.
Esqueleto da resposta:
• Meio impugnativos: ofício -> “ação de autorização” -> habeas corpus preventivo.
• Polêmicas sobre o início da proteção jurídica do direito à vida. Constituição (?) vs.
CADH (art. 4.1).
• Breve apresentação das hipóteses legais e jurisprudenciais de aborto lícito.
• Fundamentos da inconstitucionalidade, com enfoque interseccional.
• Violação à autonomia da mulher;
• Violação à igualdade de gênero;
• Discriminação social e impacto desproporcional sobre mulheres pobres;
• Violação aos direitos sexuais e reprodutivos da mulher;
• Violação do direito à integridade física e psíquica;
• Violação ao “princípio” da proporcionalidade;
• Desenvolvimento do sistema nervoso central.
• Direito comparado:
• Citar as manifestações dos órgãos onusianos.
• Menção à ADPF n. 442 e à participação da DPERJ – posição institucional.
2. Integridade física: segurança cidadã,
violência estatal e tortura.
Pontos do edital de Direitos Humanos
• Ponto I, itens “d” e “e”:
• Direito das Pessoas Moradoras de Favelas. Direito das Vitimas de Violência de Estado. Jurisprudência do
Sistema Interamericano. Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil. ADPF 635.
• Sistema Interamericano. Obrigações dos Estados de Prover os Recursos Internos. Corte Interamericana:
Caso Velásquez Rodrigues vs Honduras.
• Ponto II, item “e”:
• Tortura. Tratados Internacionais de Combate à Tortura. Órgãos Nacionais e Internacionais de
Monitoramento. Atribuições. Jurisprudência do Sistema Interamericano. Caso Bayarri vs. Argentina.
• Ponto III, item “d”:
• Direito das Pessoas moradoras das Favelas. Segurança e Cidadania. Direito de Resistencia. Comissão
Interamericana. Informe sobre Segurança cidadã e Direitos Humanos. ADPF 635.
• Ponto V, item “a”:
• Privados de Liberdade. Padrões Internacionais para as Garantias Judiciais e os Direitos Pre-processuais.
Direito a não ser torturado. Protocolo de Estambul. Resolução DPGE nº 932 de 26 de Junho de 2018.
Padrões Interamericanos de Exclusão da Prova obtida por meio ilícito.
2ª QUESTÃO (VALOR: 25 PONTOS)

À luz do Sistema Interamericano de Direitos


Humanos, quais são as obrigações dos
Estados em casos em que se alega a
ocorrência de fatos constitutivos de tortura?
Diante de um caso concreto de tortura, qual o
protocolo de atuação de Defensores (as)
Públicos (as)?
Caso concreto/questão:

Maísa, cidadã de Campos dos Goytacazes, é presa em flagrante pela 3ª vez no


mesmo ano, por, supostamente, subtrair doces e outras guloseimas da cantina do
Fórum da cidade. Conduzida para a Audiência de Custódia em prazo razoável, em
entrevista pessoal com você, Defensor Público com atribuição, narra que sofreu
“esculacho” por parte dos Policiais Militares autores da captura, com pontapés, tapas
e xingamentos. O Auto de Prisão em Flagrante está acompanhado de laudo que
afirma categoricamente não ter Maísa sofrido qualquer lesão. Nada obstante, as
múltiplas lesões são evidentes e esteticamente compatíveis com o por ela narrado.
O que você faria na qualidade de Defensor Público? Ignore fundamentos defensivos
penais meramente dogmáticos.
“Grassa no Brasil, de forma velada, uma política de conivência com a tortura, especialmente quando
praticada contra pessoas excluídas do meio social e em situação de vulnerabilidade.
A desigualdade estruturante brasileira e a profunda concentração de renda ampliam o abismo no
tecido social, e a dignidade dos indivíduos passa a ser valorada de acordo com sua classe
econômica, raça, etnia e religião. Essa falsa percepção do conceito de dignidade, o aumento da
violência e o açodado julgamento alheio levam à categorização de alguns seres humanos como
menos dignos e, por consequência, alicerçam a reprovável aceitação da tortura e de outros
tratamentos cruéis, degradantes ou desumanos por parte de larga parcela da sociedade, sobretudo
quando perpetrados contra negros, pobres, imigrantes e pessoas em situação de privação de
liberdade, segmentos mais propensos também à sanha persecutória penal do Estado.
Essa perigosa tolerância com práticas aviltantes estimula a sua expansão e a sua realização de
modo sistemático e generalizado nas unidades prisionais e nos centros voltados a adolescentes em
conflito com a lei, sob o pretexto silencioso de produção de corpos dóceis, na inspirada expressão
foucaultiana. Não raro, condutas desse jaez são levadas a cabo antes da chegada efetiva do
conduzido ao local de encarceramento, seja no momento da prisão-captura, seja na colheita dos
interrogatórios realizados em delegacias.” (Fábio Amado)

Disponível em (Revista n. 28 da DPERJ/CEJUR):


http://cejur.rj.def.br/uploads/arquivos/1386e1d1ee2e4203ac41d554d31556a5.pdf
RESOLUÇÃO DPGE Nº 932 DE 26 DE JUNHO DE 2018
Art. 1º, §1º – No âmbito institucional, o Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (NUDEDH) é o órgão
aglutinador, gestor e difusor de todas as comunicações e informações sobre casos de tortura e outros
tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes direcionadas à Defensoria Pública.
§2º – Nos termos do disposto no parágrafo anterior, os órgãos de atuação da Defensoria Pública deverão
encaminhar ao NUDEDH, OBRIGATORIAMENTE [1], todas as comunicações e informações sobre casos de
tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes, o que se fará preferencialmente
por correspondência eletrônica devidamente instruída nos moldes dispostos neste protocolo.
Art. 2º. Em caso de comunicação presencial da vítima durante atendimento de qualquer espécie, o(a)
Defensor(a) Público(a) deverá documentar os fatos narrados (...).
§1º. Todo e qualquer relato colhido DEVERÁ ser encaminhado ao NUDEDH e deverá conter:
I - obrigatoriamente, os dados qualificativos e de contato com a vítima e/ou seus familiares;
II - se possível, registro fotográfico e/ou audiovisual que evidencie eventual lesão à integridade pessoal [2].
III - o consentimento expresso da vítima e de seu representante legal quanto à adoção de medidas judiciais,
cíveis e/ou criminais, e/ou representação por falta funcional caso se trate de servidor público, e/ou aos
respectivos conselhos profissionais, bastando, quanto ao consentimento, aquele constante do próprio
formulário a que se refere o caput;
Art. 3º, §2º. O(a) Defensor(a) Público(a) DEVERÁ sempre indagar à pessoa defendida se sofreu alguma forma
de violência física, psicológica ou moral, por meio de entrevista pessoal prévia e sigilosa, sem a presença de
agente policial e em local adequado e reservado.
RESOLUÇÃO DPGE Nº 932 DE 26 DE JUNHO DE 2018
Art. 6º. Dentre as PROVIDÊNCIAS CABÍVEIS a serem postuladas às autoridades, com vistas à garantia da
integridade pessoal da vítima, sem prejuízo de outras reputadas necessárias para imediata cessação
das práticas de tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes,
recomendam-se as seguintes providências:
I – requerer ao juízo ou encaminhar diretamente a vítima, por ofício (ANEXO V), ao órgão de perícia
oficial, a fim de se submeter a exame de corpo de delito [3], formulando quesitos específicos com
vistas à constatação de vestígios da alegada agressão sofrida, inclusive, se for o caso, quanto à
violência psicológica;
II – solicitar a aplicação de medidas protetivas [4] para garantia da integridade pessoal da vítima, de
seus familiares e de eventuais testemunhas;
III – requerer ao juízo ou encaminhar diretamente a vítima, por ofício (ANEXO VI), para atendimento de
saúde integral [5], visando reduzir os danos e o sofrimento físico e mental;
IV – postular a concessão de liberdade ou da liberação do adolescente* internado provisoriamente,
independentemente da existência dos requisitos que autorizem a manutenção da privação de
liberdade, sempre que não for possível garantir a segurança e a integridade da vítima (Resolução CNJ
n.º 213/2015,Protocolo II,item 6, IV);
V – postular o relaxamento da prisão ou da apreensão [6], quando eivada de ilegalidade em
decorrência da obtenção de provas por meios inadmissíveis;
RESOLUÇÃO DPGE Nº 932 DE 26 DE JUNHO DE 2018
VI – requerer a exclusão da prova obtida [7], direta ou indiretamente, por meio de tortura e
outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes;

VII – enviar cópias do depoimento e demais documentos, mídia, se houver, pertinentes para
órgãos responsáveis pela apuração de responsabilidades, especialmente Ministério Público e
Corregedoria e/ou Ouvidoria do órgão a que o agente responsável pela tortura e outros
tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes esteja vinculado.

Parágrafo único. Encontrando-se a vítima em situação de privação de liberdade, as medidas


adotadas deverão ser comunicadas ao(à) Defensor(a) Público(a) que atua no estabelecimento de
privação de liberdade, bem como ao(à) Defensor(a) Público(a) que atua em eventual processo
criminal ou de apuração da prática de atos infracionais [8].

Art. 8º. Ao receber as comunicações, diretamente ou por encaminhamento de outros órgãos da


Defensoria Pública, o NUDEDH adotará, quando cabíveis e havendo CONSENTIMENTO DO
INTERESSADO [9], as medidas de responsabilização civil, penal e/ou administrativa do suspeito
da prática dos fatos narrados, podendo valer-se, para tanto, da colaboração dos demais Núcleos
Especializados e suas respectivas equipes técnicas.
Audiência de Custódia: debates sobre sua
realização por videoconferência.
• Fundamentos convencionais: artigos 7.5 da CADH e 9.3 do PIDCP.
• Art. 7.5 da CADH: “Toda pessoa detida ou retida deve ser conduzida, sem demora, à
presença de um juiz ou outra autoridade autorizada pela lei a exercer funções
judiciais (...).”
• Resolução n. 213/15 do CNJ.
• Fundamento legal:
• Art. 310, caput, do CPP: “Após receber o auto de prisão em flagrante, no prazo
máximo de até 24 (vinte e quatro) horas após a realização da prisão, o juiz deverá
promover audiência de custódia com a presença do acusado, seu advogado
constituído ou membro da Defensoria Pública e o membro do Ministério Público (...).
• § 4º Transcorridas 24 (vinte e quatro) horas após o decurso do prazo estabelecido
no caput deste artigo, a não realização de audiência de custódia sem motivação
idônea ensejará também a ilegalidade da prisão, a ser relaxada pela autoridade
competente, sem prejuízo da possibilidade de imediata decretação de prisão
preventiva.”
Audiência de Custódia: debates sobre sua
realização por videoconferência.
• (Im)possibilidade da realização da audiência de custódia por videoconferência em tempos de normalidade:
• A posição do STJ: “Não é cabível a realização de audiência de custódia por meio de videoconferência.”
STJ. 3ª Seção. CC 168.522-PR, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 11/12/2019 (Info 663).
• O Caso Santa Cruz (episódio n. 1 do podcast da DPERJ).
• A (odiosa) Resolução n. 357 de 2020 do CNJ: “Dispõe sobre a realização de audiências de custódia por
videoconferência quando não for possível a realização, em 24 horas, de forma presencial.”
• O art. 3-B, §1º do CPP (Pacote Anticrime) e a derrubada do veto presidencial pelo Congresso em 19 de
abril de 2021.
• Audiência de Custódia em tempos de pandemia.
• A posição inicial do CNJ (Recomendação n. 62):
• Art. 8o Recomendar aos Tribunais e aos magistrados, em caráter excepcional e exclusivamente
durante o período de restrição sanitária, como forma de reduzir os riscos epidemiológicos e em
observância ao contexto local de disseminação do vírus, considerar a pandemia de Covid-19 como
motivação idônea, na forma prevista pelo art. 310, parágrafos 3º e 4º do Código de Processo Penal,
para a não realização de audiências de custódia.
• A posição de Aury Lopes Jr. (Criminal Players).
• A recente decisão do Ministro Nunes Marques, em 28 de junho (ADI 6.841).
• A posição institucional: “Tortura não se vê pela TV”.
Tortura: tratamento constitucional e
convencional
• Tratamento constitucional:
Art. 5º, inciso III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;
• Convenção Americana sobre Direitos Humanos:
Art. 5º da CADH e 7º do PIDCP.
• Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (ONU):
Art. 1º: “1. Para os fins da presente Convenção, o termo "tortura" designa qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos agudos [1],
físicos ou mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de [2] obter, dela ou de uma terceira pessoa, informações
ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou uma terceira pessoa tenha cometido ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar
ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou por qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza; quando tais
dores ou sofrimentos são infligidos por um funcionário público ou outra pessoa no exercício de funções públicas [3], ou por sua
instigação, ou com o seu consentimento ou aquiescência. Não se considerará como tortura as dores ou sofrimentos que sejam
conseqüência unicamente de sanções legítimas, ou que sejam inerentes a tais sanções ou delas decorram. 2. O presente Artigo não
será interpretado de maneira a restringir qualquer instrumento internacional ou legislação nacional que contenha ou possa conter
dispositivos de alcance mais amplo.”
• Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura:
Art. 2º: “Para os efeitos desta Convenção, entender-se-á por tortura todo ato pelo qual são infligidos intencionalmente a uma
pessoa penas ou sofrimentos físicos ou mentais, com fins de investigação criminal, como meio de intimidação, como castigo
pessoal, como medida preventiva, como pena ou com qualquer outro fim. Entender-se-á também como tortura a aplicação, sobre
uma pessoa, de métodos tendentes a anular a personalidade da vítima, ou a diminuir sua capacidade física ou mental, embora não
causem dor física ou angústia psíquica [4]. Não estarão compreendidos no conceito de tortura as penas ou sofrimentos físicos ou
mentais que sejam unicamente conseqüência de medidas legais ou inerentes a elas, contanto que não incluam a realização dos atos
ou a aplicação dos métodos a que se refere este artigo.’
Vedação à tortura como direito absoluto
• Perguntas da última prova oral:
“Você conhece algum direito absoluto?”
“Uma pessoa pode ser torturada sob alegação que a tortura está sendo realizada para encontrar
a vítima de um crime?”
Teoria do "cenário da bomba relógio”.
• Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes
(ONU):
Art. 2.2: “Em nenhum caso poderão invocar-se circunstâncias excepcionais tais como ameaça
ou estado de guerra, instabilidade política interna ou qualquer outra emergência pública como
justificação para tortura.”
• Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura:
Art. 5º: “Não se invocará nem admitirá como justificativa do delito de tortura a existência de
circunstâncias tais como o estado de guerra, a ameaça de guerra, o estado de sítio ou de
emergência, a comoção ou conflito interno, a suspensão das garantias constitucionais, a
instabilidade política interna, ou outras emergências ou calamidades públicas. Nem a
periculosidade do detido ou condenado, nem a insegurança do estabelecimento carcerário ou
penitenciário podem justificar a tortura.”
• Posição da examinadora Renata Tavares.
Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil:
• “O caso se refere às falhas e à demora na investigação e punição
dos responsáveis pela execuções extrajudiciais de 26 pessoas no
contexto de duas incursões policiais efetuadas pela Polícia Civil
do Estado do Rio de Janeiro em 18.10.1994 e 08.05.1995 na
Favela Nova Brasília. As mortes foram justificadas pelas
autoridades policiais mediante a lavratura de ‘autos de
resistência à prisão’. Alega-se ainda que, no contexto da
incursão policial de 18.10.1994, três mulheres, sendo duas delas
menores de idade, foram vítimas de tortura e atos de violência
sexual por parte dos agentes policiais. Finalmente, alega-se que
a investigação dos fatos mencionados teria sido conduzida com
o objetivo de estigmatizar e revitimizar as pessoas falecidas,
pois teria sido focada na culpabilidade delas e não na verificação
da legitimidade do uso da força.” (Caio Paiva)
Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil:
• Repúdio aos denominados “autos de resistência à prisão”:
• “Os autos de resistência no Brasil representam o genocídio da
juventude negra, contado pela história majoritária como resultado do
confronto entre o Estado e seu inimigo, o jovem negro desumanizado,
tornado monstro para que a sua execução conte com aprovação
social, inclusive dentro da própria comunidade negra. Não são raras as
falas dos familiares no sentido de afirmar a condição de ‘trabalhador’
ou ‘estudante’ dos seus meninos brutalmente assassinados por uma
polícia despreparada e racista, com o intuito de afastá-los do
estereótipo do descartável. Mais uma vez o não dito acaba por
enfatizar que existe um padrão de descarte e que esse padrão é
atribuído ao Outro que se pretende negar.” (Caroline Lyrio Silva e
Thula Pires)
• “Para a Corte Interamericana, a expressão ‘autos de resistência’ deve
ser abolida, pois ela provoca uma revitimização contra as pessoas
executadas e seus familiares, contribuindo para que as circunstâncias
das mortes – ou da violência em geral – não sejam esclarecidas”. (Caio
Paiva)
• Expressão adequada: lesão corporal ou homicídio decorrente de Link com trechos da palestra:
intervenção policial. https://www.youtube.com/watch?v=zsZy3ZdhOvA
Destaques:
• Incompetência da Polícia Civil para investigar crimes praticados por seus • Zona do ser vs. zona do “não ser”. “Humanos e não
agentes (Caso Jacarezinho): humanos”.
• “A Corte Interamericana observou que a instituição incumbida pela
• “Violência como norma”: violência como “sustentação do que
se denominou de democracia”.
condução das investigações era a mesma responsável pelas incursões
• Mesmo governos progressistas dos últimos anos (Lula e
na Favela Nova Brasília, ou seja, a Polícia Civil do Estado do Rio de
Dilma) tiveram como moeda de negociação para a
Janeiro, que não dispunha de objetividade e idoneidade institucional governabilidade ou consolidação de um modelo econômico o
necessárias para assegurar uma investigação independente e sangue preto e indígena: “capital político de que nenhum
imparcial.” (Caio Paiva) grupo abriu mão”.
Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil:
• Participação da vítima na investigação:
• Art. 268 do CPP: “Em todos os termos da ação pública, poderá intervir, como assistente do
Ministério Público, o ofendido ou seu representante legal, ou, na falta, qualquer das pessoas
mencionadas no Art. 31.”
• “A partir desse contexto, conclui-se que o art. 268 do CPP (...), por se limitar a participação da
vítima somente à fase processual – impedindo, portanto, sua participação na fase investigativa-,
se revela inconvencional.” (Caio Paiva)
• Parâmetros relativos à devida diligência e prazo razoável em casos de violência sexual:
• A declaração da vítima deve ser prestada em ambiente cômodo e seguro, que lhe ofereça
privacidade e confiança;
• A declaração da vítima deve ser registrada de forma tal que se evite ou se limite a necessidade
de sua repetição;
• Deve ser ofertada à vítima atenção médica, sanitária e psicológica;
• Seja oferecido acesso à assistência jurídica gratuita à vítima durante todas as etapas do
processo;
• Em casos de supostos atos de violência contra a mulher, a investigação penal deve incluir uma
perspectiva de gênero e por profissionais capacitados.
Caso Favela Nova
Brasília vs. Brasil:
• Determinação para que o Estado avalie a necessidade de federalizar o processo e o julgamento dos crimes:
• Art. 109, §5º, da CRFB: “Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da
República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados
internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior
Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência
para a Justiça Federal.” E a Defensoria Pública?
• A posição de Raquel Dodge.

• Proibição de o Estado invocar qualquer obstáculo processual para não cumprir a obrigação de investigar e punir os
responsáveis:
• Imprescritibilidade dos crimes de lesa-humanidade – neopunitivismo?
• Sobre o tema: “Punitivismo na Corte Interamericana de Direitos Humanos” (Podcast Segurança dos
Direitos).
• Elementos da devida diligência investigatória para a Corte IDH (Roberta Fraenkel):
• Pergunta da prova oral: “Quais os parâmetros interamericanos para a investigação criminal ?”
• Séria: “Uma investigação configura-se como séria quando dotada de eficácia, superando a
adequação formal de acesso aos recursos judiciais e contribuindo para a busca da verdade e
esclarecimento dos fatos.”
• Imparcial: “Quanto à imparcialidade, segundo fator para a caracterização da devida diligência nas
investigações, a Corte dispõe do entendimento de que é imprescindível a análise da atividade dos
agentes estatais em relação ao procedimento investigativo e a participação ativa dos interessados. “
• Efetiva: “Finalmente, no que diz respeito à efetividade, terceiro elemento da devida diligência
investigatória, a Corte IDH entende que devem ser evitadas omissões na coleta de provas e no
acompanhamento das linhas lógicas de investigação.”

• Os crimes de “violação sexual” podem ser considerados como uma forma de tortura.
Link para a entrevista: Caso Degase: Adolescentes sofreram violência sexual de gravidade enorme, diz defensoria do Rio - YouTube
Porte de armas e agentes socioeducativos no Rio de
Janeiro:
Atuação do examinador Rodrigo Azambuja e da DPERJ em ADI Estadual (TJ/RJ) – julgamento
em 21/06/21 e acórdão assinado em 01/07/21):
1. Associação entre a figura do amigo da corte e o conceito de sociedade aberta dos
interprestes (Peter Haberle)
2. Ressignficação do conceito de “necessidade” ou “hipossuficiente” – defesa de crianças e
adolescentes como função institucional – art. 2º, inciso I, da Deliberação CS/DPGE n.
124/17.
3. Inconstitucionalidade formal (orgânica): art. 22, inciso da CRFB c/c art. 74 da CERJ. Art.
6º do Estatuto do Desarmamento.
4. Inconstitucionalidade por vício de iniciativa.
5. O fundamento material (art. 144 da CRFB e art. 45 da CERJ):
“Nesse ponto, convém destacar que a atividade desempenhada pelos agentes
socioeducativos não é de segurança pública. O modelo federal instituído reconhece
um rol de órgãos encarregados de prestar segurança pública, como se observa do
art. 144 da CF/88. (...)
Isso sem falar do viés sociopedagógico das medidas socioeducativas, que não se
coadunam com a figura de socioeducadores armados, que farão incutir no imaginário
do adolescente a ideia de que é perigoso, frustrando, portanto, os objetivos da
socioeducação. É que, diferentemente dos agentes e guardas prisionais, o agente
socioeducativo exerce suas funções sob a égide da doutrina da proteção integral, a
qual garante especial proteção aos adolescentes e jovens que, por estarem em pleno
processo de formação de sua personalidade, gozam de especial proteção e direitos.”
6. Utilização argumentativa do princípio da proporcionalidade (adequação).
“(...) faz-se mister destacar que o porte de arma a agentes socioeducativos não
resolve o problema das agressões e fugas no sistema socioeducativo, ao contrário,
apenas incrementa o risco e as consequências da violência estrutural já
institucionalizada nas unidades socioeducativas do estado do Rio de Janeiro. Daí
porque tal legislação viola o princípio da proporcionalidade, na sua vertente
adequação.”
ADPF 635 e a decisão monocrática do Ministro
Edson Fachin
• “DECISÃO: Trata-se de pedido de medida cautelar formulado pelo Partido requerente desta arguição de
descumprimento de preceito fundamental, a fim de que sejam concedidas monocraticamente todas as medidas
cautelares deferidas no voto já proferido por ocasião da submissão do julgamento da medida cautelar ao Plenário
Virtual, assim como a concessão da ordem para: (i) que não se realizem operações policiais em comunidades
durante a epidemia do COVID-19, a não ser em hipóteses absolutamente excepcionais, que devem ser
devidamente justificadas por escrito pela autoridade competente, com a comunicação imediata ao Ministério
Público do Estado do Rio de Janeiro – responsável pelo controle externo da atividade policial; e (ii) que, nos casos
extraordinários de realização dessas operações durante a pandemia, sejam adotados cuidados excepcionais,
devidamente identificados por escrito pela autoridade competente, para não colocar em risco ainda maior a
população, a prestação de serviços públicos sanitários e o desempenho de atividades de ajuda humanitária.”

• Menção ao Caso Favela Nova Brasília (páginas 6-7): “Registre-se que o Estado brasileiro foi condenado pela Corte
Interamericana de Direitos Humanos, no caso Favela Nova Brasília, não apenas pela violação às regras mínimas de
uso da força, mas também por não prever protocolos para o uso da força, seja para atestar a necessidade do
emprego, seja para fiscalizá-lo. (...) Assim, é justo que se espere que, a partir da condenação do Estado brasileiro,
medidas concretas sejam adotadas para evitar que os lamentáveis episódios de Nova Brasília não se repitam.”

• Estado de coisas inconstitucional: “estado de coisas que em nada respeita a Constituição” (página 7).
ADPF 635
(http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=449833)
Suspensão de operações policiais no RJ reduz
mortes em mais de 70%
(http://defensoria.rj.def.br/noticia/detalhes/10536-Suspensao-de-operacoes-policiais-no-
RJ-reduz-mortes-em-mais-de-70-)
Sustentação oral de Wallace Corbo
(@wallace.corbo - https://www.instagram.com/tv/B_FZh8flbcB/?utm_source=ig_web_copy_link)
DPRJ entra com recurso contra helicópteros policiais
perto de escola
(https://defensoria.rj.def.br/noticia/detalhes/11018-DPRJ-entra-
com-recurso-contra-helicopteros-policiais-perto-de-escola)
A Defensoria Pública do Rio protocolou
nesta sexta-feira (22) recurso contra a
decisão da 6ª Câmara Cível do Rio, que
liberou agentes policiais de realizarem
sobrevoos de helicóptero próximo a
escolas.

No recurso, a Defensoria alega que


apenas o pedido de reconsideração
formulado pelo Estado do Rio de Janeiro
foi analisado, não sendo considerado
aquele apresentado pela Defensoria
Pública, que tem por fundamento a ADPF
635, aprovada pelo STF.

Alega também que o recurso do governo


sequer poderia ter sido conhecido, uma
vez que inúmeras formalidades não
foram cumpridas, conforme previsto no
Artigo 1018 do Código de Processo Civil.
• As decisões no âmbito do Sistema Interamericano.
• (Super)População carcerária superior a 200%.

Encarceramento
• Dezenas de mortes evitáveis (ex: tuberculose).
• Proibição de novos ingressos na unidade e aplicação da SV n. 56. Críticas?
• Cômputo da pena em dobro. Críticas? A posição da VEP quanto ao marco temporal.

em massa e o • Crimes contra a vida, a integridade física e sexuais: “exame criminológico” (?). Críticas?

Caso Plácido: • O recente HC do STJ: HC 136.961/RJ.


• Decisão monocrática do Ministro Reynaldo Soares da Fonseca (28 de abril de 2021) e a
confirmação pela 5ª Turma (18 de junho de 2021).

• Podcast da DPERJ (episódio 19 – publicado em 28 de junho).


Relatório sobre Segurança cidadã e direitos
humanos (CIDH - 2009):
1. Marco conceitual:
“O conceito de segurança que se utilizava anteriormente se preocupava unicamente em garantir a ordem como uma expressão
da força e supremacia do poder do Estado. Hoje em dia, os Estados democráticos promovem modelos policiais construídos de
acordo com a participação dos habitantes, sob o entendimento de que a proteção dos cidadãos por parte dos agentes da
ordem deve se dar em um marco de respeito à instituição, às leis e aos direitos fundamentais. Assim, desde a perspectiva
dos direitos humanos, quando na atualidade se fala de segurança, esta não se pode limitar à luta contra a criminalidade, mas
trata‐se de como criar um ambiente propício e adequado para a convivência pacífica das pessoas. Por isto, o conceito de
segurança deve colocar maior ênfase no desenvolvimento de trabalhos de prevenção e controle dos fatores que geram a
violência e a insegurança, ao invés de tarefas meramente repressivas ou reativas perante fatos consumados”.
2. Segurança cidadã como direito humano.
3. Jovens como principais autores e vítimas da criminalidade.
4. Obrigações negativas e positivas dos Estados.
5. Atenção no âmbito da justiça de transição (a posição de Renata Tavares).
6. Participação democrática.
7. Especial atenção às vítimas da criminalidade.
8. Riscos da privatização dos serviços de segurança.
9. Modernização das forças policiais.
10. Riscos da utilização das forças armadas.
Caso concreto/questão:
Maísa, cidadã de Campos dos Goytacazes, é presa em flagrante pela 3ª vez no
mesmo ano, por, supostamente, subtrair doces e outras guloseimas da cantina do
Fórum da cidade. Conduzida para a Audiência de Custódia em prazo razoável, em
entrevista pessoal com você, Defensor Público com atribuição, narra que sofreu
“esculacho” por parte dos Policiais Militares autores da captura, com pontapés, tapas
e xingamentos. O Auto de Prisão em Flagrante está acompanhado de laudo que
afirma categoricamente não ter Maísa sofrido qualquer lesão. Nada obstante, as
múltiplas lesões são evidentes e esteticamente compatíveis com o por ela narrado.
O que você faria na qualidade de Defensor Público? Ignore fundamentos defensivos
penais meramente dogmáticos.
Esqueleto de resposta:
• Meios impugnativos: relaxamento da prisão e, em caso de indeferimento, HC.
• Apontar a Audiência de Custódia como direito humano e importante instrumento de combate à tortura. Debates sobre a
possibilidade de sua realização virtual.
• Discorrer sobre a violência estatal e a tortura no país. Estabelecer breve conexão com o tema da justiça de transição.
Necropolítica. Estabelecer relação com aspectos raciais.
• Mencionar o Caso Favela Nova Brasília, os recentes acontecimentos no Jacarezinho e a ADPF n. 635 (e a atuação da DPERJ
nela).
• Mencionar a Resolução DPGE n. 932 de 2018.
• Citar o Protocolo de Istambul.
• Requerer o encaminhamento para realização de novo Exame de Corpo de Delito.
• Requerer atendimento biopsicossocial.
• Se possível, tirar fotos e documentar os fatos.
• Comunicar, obrigatoriamente, o NUDEDH.
• Oficiar, desde que haja manifestação de vontade da vítima, o MP, a Corregedora da Polícia Militar e as Ouvidorias.
• Eventuais ações judiciais de reparação são de atribuição do NUDEDH.

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