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tecnologiaevidasociã 
naculturacontem porânea

   u
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tes
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c  Acompa
 Aco
se de Andr
mpanhe
André
nhei
é Le
Lemo
i o desen
mos
des envol
s sobre
volvim
viment
obre a ciber
ento
bercult
o da
da
ultura.
ura.
Fomoscolegasdedoutorado
Fomoscolegasdedoutoradoem
em Pari
Paris,
s,sob
sob a
orientação
orientaçãode
de Miche
Michel
l Maffes
Maffesoli
oli.
. Desculpe
Desculpem
m a
nosta
ostalg
lgia
ia:
: belo
belos
s te
temp
mpos
os.
. Desd
Desde o prin
princí
cípi
pio,
o,
fi
fiqu
que
ei mar
maravi
avilhad
lhado
o com
om o conh
conhec
ecim
imen
entto de

Lemossobreoassuntoqueestudava.Parecia
sa b e r tudo. E tu d o  era s u rp re e nd e n te ,
inst
instiigant
gante
e, desc
descon
onhe
heci
cido
do para
ra mim. Entrei
ness
nesse
e novo
novo mundo
mundo fascina
fascinante
nte por
por infl
influê
uênci
ncia
a
delee
deleede
de seuamigo
seuamigo FedericoCasal
FedericoCasalegno,
egno, um
italianoquehojetrabalhanoMIT.

Ness
Nessa
a époc
época,
a, desco
descobri
bri a capaci
capacidad
dade
e

de pesqu
esquiisa
sa e de deba
debatte de Andr
André
é Lemos:
criougruposdeestudoepesquisa,viajoupela
Europaembuscademaisinformaçõessobre
seuobjeto,leutudooqueexistiasobreotema
e, não
não bastassetudo
bastassetudo is
isso
so,
, sempreenc
sempre encontr
ontrou
ou
prazerem
prazerem partilharsuas
partilharsuas descobertas
descobertas com
com os
os
neóf
neófit
itos
os como
como eu.
eu. Aos
Aos pou
poucos,
cos, most
mostro
rou-
u-me
me
queaciberculturaeraumarealidadeincontor
queaciberculturaeraumarealidadeincontor-
-

nável.
nável. Hoje
Hoje,
, is
isso
so deve
deve soarestranho
soarestranhoee óbvio
óbvio,
,
maseu,naminhaingenuidadepretensamente
crítica,
crítica, duvidava.
duvidava. O virtual
virtual era
era para
para mim
mimape
ape
nasumamiragem;ocibermundo,umailusão.

 Alguns
 Alg uns anos depois, quando
qua ndo lio
i oorig
origi
i
nal
nal deste li
livr
vro,
o, atualizado
atualizado em
em relação
relaçãoàà tese
tese,
,
dadaavertigemdaevoluçãotecnológica,reno

vei o meu enca


encant
ntam
amenento
to:
: André
André Lemo
emos é o
grandeespecialista
grande especialista brasileiro
brasileiroda
dacibercu
cibercultura.
ltura.
Oleitorencontraránestaspáginasumasuma,
umacartogr
umacartografia
afia,
, um
um inven
inventár
tário,
io, uma
uma genealo
gia,
ia, um compênd
compêndio
io e, ao mesmo
mesmo temp
tempo,
o, um
roman
romance
ce sobr
sobre
e as
as tecno
tecnolo
logi
gias
as de comuni
comunica
ca
ção,taléasensaçãodenovidadequeotexto
provocaeoprazerdaleitura.Estaéumaobra

que não
que não pode
pode faltar
faltar na bibli
bibliote
oteca
ca de
de nenh
nenhum
um
estudiosodo
estud iosodoimaginárioda
imagináriodanossaé
nossaépoca
poca..

A n d ré  Lem os foi de v a n g ua rd a  em


Paris.AFrançamaldescobriaaInterneteele
 já na
 já nave
vegav
gavaa como
co mo um velh
ve lho
o m ari
arinh
nheir
eiro,
o, com
muitas histór
muitas histórias
ias pa
parara cont
contar
ar,
, nas
as quais
quais todos
todos
ospersonagenseramfabulososevirtualmen
teconcretos.Quandooconheci,acheiqueera
cari
ca rioc
oca
a ou ba
baia
iano
no. . Depo
Depoiis,
s, compr
compree eend
ndíí que
vivianumnão-lugar,numainterfacedeRiode
Jane
Ja neiiro,
ro, Sa
Sallvado
vador,r, Paris,
s, Cal
Calif
ifór
órni
nia
a e ciber
iber-
-
mundo.

O to
tom
m de
dest
sta
a apre
apresesent
ntaçação
ão é afet
afetiivo,
vo,
pois
po is não
não posso
posso negar
negar a admiração
admiração queque si
sint
nto
o
peloautordolivroapresentado,masoconteú
do desteédomai
do desteédo maissal
alto
tonív
nível
el int
intelect
electual.
ual. É só
só
conferir.

JuremirMachadodaSilva
andrél
le
emos,

40,édoutoremsociologiapela Université Réne 


Descartes, Paris V, Sorbonne, é professor
adjuntoda Faculdade de Comunicação da UFBa, 
coordenadordo Centro de Estudos e Pesquisa 
em Cibercultura (Ciberpesquisa). Já publicou
vários artigos e capítulos de livros sobre a
ciberculturanoBrasilenoexterior.Éautordolivro
Cultura das Redes,
Redes, Ciberensaios para o século 
XXI(Edufba,2002).

 An
 A n d r é Lemos

CIB ERCULTUR
CIB ERCULTURA A , TECNOL OGIA  
E VID A SOCI
SOCIAL
AL NA CULT
CULTUR
URAA CONTEMPORÂNEA
a
E d i t o r a S u l in
in a

© A ndré Lemos, 2002

Concepção de capa:  Mar


 Martt Fiorelli 
Finalização de capa:  Dani
 Daniel
el Ferreira da Silva 
Foto: Afonso Jr
Jr.
Projeto gráfico e editoração:  Daniel Ferreira da Silva 
Revisão:  Márcia Abraão
Ab raão

Coordenação editorial:  Lui


 Luiss Gomes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação ( CIP ) 


Bibliotecár ia Responsáve
Bibliotecária Responsável:
l: Ginam
Ginamara
ara Lima Jacqu
Jacques
es Pinto CRB 10/12
10/1204
04

L557c Brasil
Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura  
contemporânea/André Lemos 
— Porto
Porto Alegre : Sulina, 2002.
328p.
ISBN: 85-205-0305-5

1.Meios de Comunicação Social 2.Meios de  

Informação I.TítuIo
I.TítuIo
CDD: 070.1
302.23

0
Edi tora Sulin
Sulina
a

Todos os direitos desta edição reservados


à E d it o r a  M e r id io n a l  L t d a .

Av. Osva
Av. Osvaldo
ldo Aranh
Aranha,
a, 44
4400 cj. 101 
Cep: 90035-190 Porto Alegre-RS 
Tel/Fax: (0xx51) 3311-4082  
e-mail: ed.sulina@via-rs.net 
www.editorasulina.com.br

Setembro/2002

I m pr
p r e s s o   n o  B r a s i l /P r i n t e d   in  B r a z i l

 A  g r a d e c i m e n t o

Este livro é uma adaptação da minha tese de doutorado em so-


ciologia defendida em 1995 na Université René Descartes, Paris V,
Sorbonne,  e aprovada pelos professores André Akoun, Pierre
Fougerollas e Pierre Lévy, sob a orientação do sociólogo Michel
Maffesoli. Sem a sua orientação e os trabalhos
Maffesoli. trabalhos do Groupe de Recherche 
sur la Technique et le Quotidien   (GRETECH), criado por mim em
1993 no Centr
Centree d ’Etudes sur VActuel Quotidien  (CEAQ/ParisV,
VA ctuel et le Quotidien
Sorbonne), este trabalho não chegaria a seu término. Agradeço aos
colegas do C EAQ p elo ambiente de pesquisa e camaradagem.
A pesquisa foi enriquecida pela minha ex periência como p ro-
fessor da Facu ldade de Com unicação da UFBa e com o bolsista do
CNPq. Agradeço assi
assim,
m, aos ccoleg
olegas
as da Faculdade de Comunicação,

espec ialmente
especialme nte aos mem bros do Ciberpesquisa (C entro de Estudos e
Pesquisa em Cibercultur
Cibercultura),
a), pelo
pelo am adurecim
adurecimento ento profissional
profissiona l e pelo
excelente am ambiente
biente de diálogo,
diálogo, criti
criticismo
cismo e sincerida
sinceridade de que eles me
 pro
 p rop
p o r c io n a m , e ao C N P q p e la aj
ajuu d a ffin
inaa n c e ir
iraa atr
a traa v é s de
d e bo
b o ls
lsaa s de
doutorado e de pesquisa.
Este livro reflete a minha experiênc
experiência ia pessoal entre 1991 e 19 199595
em Paris e em docência
do cência e pesquisa na Facom/U
Facom/UFBa, FBa, de 19 1996
96 até hoje.
Aparecem
Aparec em aqui os resulresultados
tados da pesquisa “A ciberculturacibercu ltura no B Brasil”,
rasil”,

em andamento com apoio do CNPq, entre 1997 e 2000. Agradeço


também à Greice Menezes e à Messias (brincando de deus) Bande Bandeira
ira
 pee la a ju
 p judd a n a re
revv isão
is ão do te
text
xto,
o, e a Ir
Iren
enee P in
inee ir
iroo q u e m e supo
su porto
rtouu
durante o período de preparação da tese.

Sumário

 A pr e s eenn t a ç ã o   11

p e c t i v a  v j t a l i s t a  s o b r e  a  c i b e r c u l t u r a   13 
U ma  pe r s pe
P o r  P i e r r e  Lévy

C i b e r c u l t u r a . pr i me i r a  a pr
me pr o x i ma ç ã o   17
ma

Parte I-Téc
I-Téc n ic a e te
tecno
cno logia 25
C ap ítulo I 27
Capítu
Ca pítulo
lo IIII - O fenômeno tecnológico
tecnológico através
através da hist
h istória
ória 42

Parte II - A vida soc


sociial contem po râne
râneaa6
63
3
Capítulo
Ca pítulo I - Condiç
Cond ição
ão pós-modema
pós-modem a e cibercultura 65

Parte
Pa rte II
IIII - A cibercultura 105
Ca pítulo
pítu lo I - O nascim
nascim ento da cibercultura:
cibercultura: a micro-inform ática 107 
micro-informática
Capítulo
Ca pítulo II - A s estruturas antr
antropológicas do ciberespaço 136 
opológicas
C a p ítulo
ítu lo II virtua l 166 
III - Realidade virtual
Capítulo
Ca pítulo IV
IV - Co rpo e tecnologi
tecnologia
a 174
Cap ít
ítulo
ulo V - Cyberpunk:
Cyberpunk: ati
atitude no coraç
coração
ão da cibercult
cibercultura 200 
ura 200
Capítulo
Ca pítulo VI - A rua e a te
tecnol
cnologia.
ogia. O s cyberpunks
cyberpunks reais 215 
reais 215
Capítulo
Ca pítulo VI
VII - O espírit
espírito
o da cibercul
cibercultur
tura: apropriação, 
a: en tre apropriação,
desvio e despesa improd utiva 257 
im produtiva
Ca pítulo VI
VIII - O imaginário
imaginário da cibercultura.
cibercultura. Entre
E ntre neo-ludism
neo-ludismo,
o,
tecno-utopia, tecnoreal
tecnorealismo
ismo e tecnosurrealism
tecnosurrealism o 26
267
7

Conclusão: Cibercultura 278

B i bl
bl i o g r a f i a  g er
er a l   308

 A p r e s e n t a ç ã o
Este livro é fruto de um incômodo pessoal que se traduz pela
necessidade de compreender
com preender o fenômeno
fenômeno técnico
técnico.. Este incômodo
incôm odo vem
da mistura de medo e fascinação que as novas tecnologias exercem
sob re as pessoa
sobre pessoas. s. Todo objeto técnico, da antigüida
antigüidade de aos no nossos
ssos dias,
mistura fé nessa arte do fazer humano e nostalgia de uma natureza
(biológica, psíquica, cultural) perdida (transformada, dominada) em
função desse mesmo m esmo fazer técn técnico
ico.. Trata
Tratase
se da nostalgi
nostalgiaa de um mun-
do sem artifíci
artifício,
o, convivendo lado a lado com um a fé quase cega nos
 po
 p o d eres
er es q u e d a í eem
m er
ergg em.
em . N ão po
pode
demm os p e n sa r a cu
c u lt
ltuu ra c o n te
temm po-
rânea
rân ea sem nos remetermos
rem etermos à questão da técni técnica.
ca.
Pretendemos, neste trabalho, analisar os impactos das novas
tecnologias na sociedade contemporânea, através da descrição da nova
cultura tecnológica planetária: a cibercultura. A tarefa é de monta,
tocando várias áreas da cultura contemporânea: do ciberespaço à en-
genharia
genh aria genética, dos celulares aos tamagotchis,  das festas raves aos
zippies tecnopagãos,
tecnop agãos, do m arketing digital aos jog os eletrônicos..
eletrônicos....
Optei p or dirigir meu o olhar
lhar para onde suas m anifestações
anifestações apa-
apa -
reciam.
reciam. C omo um v viajant
iajantee que deve pegar um a determinada estrada,
tomei a rota da cultura eletrônica de rua.
rua. Pude ver
ver,, assim,
assim, u m a infini-
infini-

dade de eventos no Brasil e na Europa. Busquei também, durante


todo o trabalho, estar conectado ao ciberespaço, pois esse parecia
ser,
ser, já em 199
1991,1, o terreno de expansão da ciberc
cibercultura
ultura planetária. O
ciberespaço me m e permitiu veverr, em imagem e a cores, os espectros da
cibercultura.. A internet j á é hoje, em 2000, um fenôm
cibercultura fenômeno
eno hegemônico,
embora ainda minoritário. Em breve, ela será percebida como uma
infraestrutura banal, com o as de redes de água, luz ou telefone.
Parti também ao encontro dos hackershackers,, dos tecnoanarquis
tecnoanarquistas,
tas,
dos profissionais de informática, dos publicitários, dos sociólogos,
dos artistas
artistas e d
dos
os jornalistas. Fui a vári
vários
os encontros na Europa, prin-
cipalmente n a Holanda, na BélgicBélgica,
a, na França e na Inglat
Inglaterra.
erra. Con-
Con -
versei com intelectuais,
intelectua is, crí
críticos
ticos e pensadores d dessa
essa cultura
cultu ra eletrônica
emergente, tentando compreender
com preender o fenômeno em sua integrintegralida
alidade.
de.

• A N D R É L EEM
MOS | II
 

Os resultados deste percurso (e suas falhas)


falhas) aparecerão ao longo des-
te livro.
 N e s t e p e r c u r s o , t e n te i r e t e r o  ze
 z e i t g e i s t   contemporâneo: o
 pre
 p rese
senn te
teís
ísm
m o (no futur e)  da jove m cultura ur urbana,
bana, as tecnologias do
tempo real e as agregações, comunitárias ou não, nas redes telemáticas,
a veiculação
ve iculação digit
digital al do erotismo e mesmo do po rnográfico (Mini (M initel
tel
Rose, Sites X, WebCams), as lutas micropolíticas e globais (tecno
anarquistas, visionários)
visionários),, o misticismo e o he hedonismo
donismo (ravers, zippies)..
zippies)....
O objetivo
o bjetivo deste livro é escutar a vi vida
da social
social que fala através do
 baa rulh
 b ru lho o m a q u ín
ínic
icoo e e le
letr
trô
ô n ic
icoo da ttee c n o lo
logg ia c o n tem
te m p o rân
râ n e a .
Devo advertir o leitor, que alguns capítulos deste livro foram
 pu
 p u b lic
li c a do
dos,
s, c o m aalt
lter
eraç
açõõ es
es,, em c ol
olet
etânâneaeas,s, jo
jorn
rn a is
is,, rev
re v is
ista
tass nac
n acioion
n a is
e internacionais.

Salvador, março
m arço de 2002.
2002.1
1
1 2  | C I BER
BE R C U L TU
T U R A , T E C N O L O G I A E V I D A S O C IA
IA L N A C U L T U R A C O N T E M P O R Â N E A •
 

U m a p e rs
r s p e c t iiv
v a v i t a llii s t a s o b r e a c i b e r c u l t u r a 1
po r Pi er r e Lé Lévyvy

O livro de André
An dré Lemos sobr sobree a cibercultura rompe com a pro-
dução contemporânea em filosofia e em ciências sociais através de
uma abordagem
ab ordagem aberta e “vita “vitalis
lista”.
ta”. Lemos tem o grande mérito de
não confundir
confu ndir a inteligência com a crítica si sistemática.
stemática. Ele reconhece
reconh ece a
cibercultura como um a manifestação
manifestação da vitalidade soci socialal contem po-
rânea e a analisa
ana lisa como
com o ta tal.
l.
 Nãã o se d
 N dev
evee cco
o n fu
funn d ir a c ib
iber
ercu
cult
ltu
u ra cco
om u
umm a su
s u b c u lt
ltuu ra pa
p a rt
rti-
i-
cular,, a cultura de um
cular umaa ou algumas “tribos”.
“tribos” . Ao contrário, a cibercu
cibercultura
ltura

é a nova forma da cultura.


cultura. Entramos hoje na cibercultura como com o pene-
tramos na cultura alfabética há alguns séculos. Entretanto, a
cibercultura não é uma negação da oralidade ou da escrita, ela é o
 pro
 p rolo
lonn g a m e n to d e sta
st a s; a flor,
flor , a g er
ermm in
inaa çã
çãoo . S e ja
jamm o s v it
itaa li
list
staa s a té o
fim!
fim! Se considerarmos
conside rarmos a linguagem com como o uma forma de vida, o aper-
feiçoamento dos meios de comunicação e do tratamento da informa-
ção representa uma evolução de seu m mecanismo
ecanismo reprodutor.
reprodutor.
Graças ao código digita digitall do DNA, a vida orgânica dos microorganis
microorganis- -
mos e das plantas surgiu lentamente da matéria inerte. inerte. Emergindo
Emergi ndo da sensi-
 bilidadee vegetativa, o códig
 bilidad código o digital do sistema nervoso
nerv oso engengend
endrourou os mun mun- -
dos suntuosos, sonoros, perfumados e coloridos dos animais. O código
digital
digital da linguagem humanahum ana abriabriuu o espaço infinito
infinito das questões, das nar-
rativas, dos saberes, dos signos da arte e da religião. religião. A linguagem
lingua gem fez cres-
cer uma
um a nova
no va vida no coração da antiga antiga,, aquela dos signos,
signos, da cultura e das
técnicas. A linguagem
lingu agem vive vive.. Ela elevase em direção a formas mais leves,
mais rápidas, mais evolutivas que a existência org orgânica.
ânica. Com
Co m a escrita, ela
adquiriu uma
um a memória
me mória autônoma. DigitaliDigitalizada
zada pelo alfabeto
alfabeto,, essa memória
mem ória
conquistou um umaa eficácia univ universal.
ersal. A escrita forjou seu próprio sistema sistem a de
autoreprodução através
através da impimprens
rensa.
a. A cada etapa da evoluçã
evolução o da lingua-
gem, a cultura humana tomase mais potente, mais criativa, mais rápida.
Acompanhando
Acompan hando o progres
progresso
so das
das mídias, os espaços culturais multiplica1
multiplica1

1Tradução André Lemos.

• A N D R É L EEM
MOS /3
 

ramse e enriqueceramse: novas formas artísticas, divinas, técnicas,


revoluções industriais
industriais,, revoluções políticas.
políticas. O ciberespaço
ciberespa ço re
representa
presenta o
mais recente desenvolvimento da evplução da linguagem.
linguagem. Os signos da
cultura, textos, música, imagens, mundos
mu ndos virtuais
virtuais,, simulações,
simulaç ões, softwa
res, moedas, atingem
atinge m o último
último estágio da digit
digitalização.
alização. Eles tomam
tom amse
se
ubiqüitários
ubiqüitár ios na rede  no momento em que eles estão estão em algum lugar
lugar,,

eles estão em toda parte  e interconecta


interconectamse
mse em um único tec tecido
ido mul
ticor, ffactal, volátil, inflacionista, que é, de toda forma, o metatexto
englobante
englob ante da cultura humana. Os signos são adquiridos, po r intermé-
dio do software,
software, dessa dessa eescri
scrita
ta toma
tomada
da vi
viva;
va; uma potência da ação au-
tônoma d e um ambiente num érico que lhe é pr próprio.
óprio. O ciberespaço
tomase
tom ase o sistema ecológico do mundo das idéias, idéias, uma noosfera abun-
dante, em transformação acelerada, que começa a tomar o controle
do conjunto da biosfera e a dirigir sua evol evolução
ução a seu
seuss próprios fi
fins
ns.. A
vida em sua completude
comp letude elevase em direção ao v virt
irtual,
ual, ao infinito,
infinito,
 pee la p o rta
 p rt a d
daa lin
li n g u a g e m hu
humm an
ana.
a.
Isso é muito bonito, mas nos perguntariam: qual perspectiva
crítica
crít ica adotar? O Onde
nde se encontram o “bem” e o “m al” sobre um terri- terri-
tório virtual tão novo que a tradição de gerações passadas não dá
conta? Um dos grandes méritos da cibercultura cibercultura é dede nos confrontar
co nfrontar à
nossa própria
pró pria liberdade, à nossa própria responsab responsabilidade.
ilidade.
A internet é um espaç espaçoo de comunicação propriamente
propriame nte surreali
surrealista,
sta,
do qual “nada
“na da é excluído” , nem o bem, nem o mal, nem suas múltiplas
definições,, nem a dis
definições discussão
cussão que tende a se separál
parálos
os sem jam ais conse-
guir
gu ir.. A internet encarna a presença da hum anidade a eela la própria, já
que todas as culturas, todas as disciplinas, todas as paixões aí se en-
trelaçam.
trel açam. Já que q ue tudo é possípossível,
vel, ela manifes
manifestata a conexão do hom em
com a sua própria essência, essência, que é a aspir
aspiração
ação à liberdade.
O bem e o mal mal,, assim como a mentira e a verdade, pertencem ao
mundo da d a linguagem e crescem com ele, complexificamse
complexificamse com ele. ele. O
que é esse caos que rei reinana no ciberespaço
ciberespaço como na human
humanidade
idade contem-
 po rânea
 porân ea?? O nde
nd e se en
enco
cont
ntra
ra a or
orde
dem?
m? A í está
es tá o qu
quee nós go
gost
star
aríam
íamos
os de
saber. Procuramos e corremos em todos os sentidos, nos reunimos em
clãs, nos opomos, nos distdistanciamos,
anciamos, bri
brigamos.
gamos... .. Denunciamo
D enunciamoss o “mal”
“m al” à
direita e à esquerda. C Cada
ada um aponta
apon ta o dedo sobre os outros. Nos preci-
 pitam
 pit amos
os co
comm av
avide
idezz sobr
sobree “bens”
“be ns” de tod
todoo tipo. E, assim
ass im fazen
faz endo
do,, co
comp
mpli-
li-
camos tudo, desempenham
desem penhamos os nosso pape
papell de aceleradores da evolução,
como
com o os animais, as correntes e os ventos
ventos que dispersam as ssementes
ementes deI
deI

I 4  | C I BER
BE R C U L T U R A . T E C N O L O G I A E V I D A S O C IA
IA L N A C U L T U R A C O N T E M P O R Â N E A •
 

uma ecologia vegetal em evolução.


evolução. Porque ela coloca em jogo
jo go a liberda-
liberda-
de, que é a essência da linguag
linguagem,
em, a internet
internet vai nos fazer
faze r descobrir a
verdadeira hierarquia do bem: uma hierarquia complexa, hipertextual,
emaranhada,, viva, móvel, abundante,
emaranhada abundante, turbilhante
turbilhante como
com o um a biosfera.
biosfera.
Muitos entre nós já participamos
participamos online de múlti
mú ltiplas
plas trocas de

idéias,
ções emde
cominformações vire tuais
unidades virtuaide sserviços. tiNós
de todo tipo
po aoestabelecemos
longo das redesconversa-
móveis
em reconfiguração contínua.
contínua. Em pouco tempo, teremos todos nosso
site web. Em alguns anos imprimiremos nos coletivos humanos nos-
sas memórias,
memó rias, nossos projetos e nossas visões sob a forma form a de avatares,
ou de anjos numéricos
num éricos que dialogarão
dialogarão no ciberespaço. Cada Cad a indiví-
duo, cada grupo, cada forma de vida, cada objeto se tomará seu
automédium, seu próprio emissor de dados e de interpretações
interpretações em um
espaço de comunicação
com unicação onde a transparênci
transparênciaa e a riqueza se opõem
opõ em e
se estimulam.
À televisão sucederá a omnivisão:
omnivisão: através do ciberespaço, qual-
quer que seja o lugar onde nos encontrarmos,
encontrarmos, dirigiremos nós mes- m es-
mos nossos olhos a distância em direçãodireção à zona da realidade que es-
colheremos para observ
observar,
ar, e a intensidade
intensidade dos nossos olhares, comocom o a
força de nossas questões, fará nascer ao infinit
infinitoo novos detalhes. Am a-
durecidos
dureci dos pela nossa potência
potência de questionamento,
questionamento, poderem os tom tomarar
conhecimento de tudo o que pode ocupar o espírit espíritoo humano, das pai-
sagens estelares às situações
situações sociais,
sociais, das simulações
simulaçõ es ciencientíficas
tíficas às ficfic
ções interativas. Àquele que souber formular um problema, tudo se
tornará visível de qualquer ponto,
ponto, em todas as direções,
direções, eme m todo tem- tem -
 po e e m to
todd as as esca
es cala
las.
s. M as esse
es se “to
“t o d o ” , lon
lo n ge d e p ree
re e x isti
is tirr a n o s-
sass questões e a nossas técnicas
sa técnicas,, será obra nunca acabada, impossível
de concluir. A realidade, mais
ma is e mais viva, inteligente e interconectada,
interconec tada,
se comportará como uma simulação interativa e será cada vez mais
concebida, aí compreend
com preendida
ida a realidade da vida,
vida, em matrizes nnum
uméri-
éri-
cas de mundos virtuais.
Jogaremos rorole
le playing gam es2 em rede, consistindo
play ing games2 consistindo em inven-
tar as leis dos mundos virt
virtuais
uais cada vez mais parecidos comco m o mundo
m undo
real (ou viceversa) e nos quais os ganhadores
ganhado res serão os mais engenho
eng enho- -
sos criadores de novas formas de cooperação. Aprenderemos as re-
gras sempre
semp re móveis
mó veis da colaboração criativa e da inteligência
inteligên cia coletiva

2 Jeu de rôle em francês (N. T.).

• A N D R É L E MO
MO S   15
 

em um universo onde se misturam fontes de sentido sempre mais


heterogêneas.
heterogên eas. Essa
Es sa aprendizagem
aprendizagem acontecerá nas comunidades virtuais,
as quais não se saberá
sab erá mais muito bem se elas são universidades oon- n-
li
line,
ne, empresas de comunicação, universos universos de jogo jog o ou ágoras dem o-
cráticas desterritorializadas.
Face ao futuro que nos espera, nenhuma nenhum a referência,
referência, nenhuma nenh uma
autoridade, nenhum dogma e nenhuma certeza se mantêm. Desco-
 bri
 b rim
m o s q u e a re
reaa li
lidd a d e é u m a c ri
riaa ç ã o c o m p a r tilh
ti lhaa d a .  E
 Ess tam
ta m o s to
dos pensan do na m esma rede rede.. Tal é nossa condição desde sempre,
mas o ciberespaço a apresenta diante de noss nossosos olhos com tamanha
força que não podemos mais dissimulála. É chegado o tempo da
responsabilidade.
 / 6 C I B E R C U L T U R A , T E C N O L O G I A E VI
VID A S O C IA L N A C U L T U R A C O N T E M P O R Â N E A •
 

C i b e r c u l ttu
u r a , p r i m e ir
ir a ap r o x i m aç ã o

Para m ostrar as caract


caracterí erísti
sticas
cas da cibercul
cibercultura,
tura, devem
devemosos fazer
fa zer
um pequeno percurso em retrocesso, mostrando os simbolismos da
técnica através da história, suas dimensões sociais, culturais, filosófi-
cas.
ca s. Compreend
Com preender er a cibercultur
ciberculturaa contemporân
contemporânea ea é impossível sem um umaa
compreensão global do fenômeno téc técnico,
nico, já que esta faz parte de um
 pro
 p roce
cess
ssoo m ai
aiss am p lo d a rree la
laçç ã o een
n tr
tree té
técn
cnic
icaa e so
soci
ciee da
dade
de..
 N ã o e x is
istt e a q u i a idé
id é ia
ia,, f r e q ü e n te m e n te v e ic
icuu lad a, d e um
determinismo
determ inismo social. Ao contr contrário,
ário, a motivação desse livro é mostrar mo strar
que a forma técnica da cultura contemporânea é produto de uma
sinergia entre o tecnológico e o social. Compreender a cibercultura
unicamente pela sua dimensão técnica é um reducionismo que nós
tentaremos evitar
e vitar ao longo deste trabalho. trabalho.
Em bora vivamos num m mundo
undo alt altamente
amente tecnológi
tecnológico, co, existe um
 prof
 pr ofun
undo
do d e sc
scoo n h e ci
cimm e n to d o ffee nô
nôm m e no té técn
cnic
ico.
o. A id
idéé ia b
báá sic
si c a aaqu
quii
é tentar descrever
abordagem este fenômeno
multidisciplinar passando e, para
pe latant
pela tanto,o, voucríti
filosofia me ca
críticaa poiar
d numa
daa técnica,
 pela
 pe la p
pee rs
rspp ec
ecti
tiv
v a eetn
tnoo zo
z o o ló
lógg ica
ic a d
dee A nd
ndré
ré Le
L e ro
roi
iGG o u rha
rh a n e fi
filo
losó
sófi
fica
ca
de Bernard Stiegler, pela abordagem genealógica e gestáltica de G.
Simondon, pela filosofia da técnica de de M. H eidegg
eidegger er e, po
porr ffim,
im, pela
 pers
 pe rspe
pectctiv
iva,
a, q u e po
podd e m o s c h am a r de só sóci
cioo a n tr
troo p o lóg
ló g ic
icaa d e J. El
Ellu
lul,
l,
L. MMum
umford
ford e O. Spengler.
Podemos dizer que exis existete uma relação simb ióti ióticaca e ntre o ho-
mem, a naturez a e a sociedade. A cada época da história da hum a-
nidade
nid ade corresponde uma cultura técnica técnica parti
particular.
cular. Num segundo
momento, vamos mostrar as principais características da socieda-
de de comun icação (cham ada ta também
mbém de sociedade da informação
ou informacional), onde a saturação dos ideais da modernidade
(razão, progresso, futuro, etc.), aliada às novas possibilidades da
microeletrônica,
microelet rônica, parece prop orcionar o surgimen to de novas fo r-
mas de sociabilidade.
A cultura contemporânea, associada às tecnologias digitais
(ciberespaço, simulação, tempo real, processos de virtualização,

• A N D R É L EEM
MOS /7
 

etc.), vai criar


etc.), c riar uma nova
no va relação entre a técnica e a vida social que
cham aremos
aremo s de cibercultura. Hoje podemos dizer que um a verda-
deira estética do social cresce sob nossos olhos, alimalim entada pelas
p elas
tecnologias do ciberespaço. Como mostraremos ao longo deste
livro, as novas tecnologias tornamse vetores de novas formas de
agregação social.
social. A tese de fundo é que a cibercultura result
resu ltaa da
convergência entre a socialidade contemporânea e as novas
tecnologias
tecno logias de base microe
mic roeletrôn
letrôn ica1
ica 1.
Tendemos a ver os efeitos nefastos das tecnologias em sua
interface com
co m a cultura, com a vida social,
social, com a política. A associ-
asso ci-
ação de uma tecnologia eletromecânica apoiada no paradigma

newtoniano
lado obscuroàeuma imposição
m esmo
mesmo racionalista
conspirat
con spiratório da vida
ogiassocial
ório das tecnologias
tecnol revelou
(controle o
soci-
al, poluição, isolamento). A modernidade se caracterizou por uma
conjunção de fator
fatores:
es: po r uma dominação técnica do social,
social, por um
individualismo
individuali smo ex
exacerbado,
acerbado, por um constrangimento social exerci-
do por uma moral burguesa e uma ética da acumulação, por uma
abordagem racionalista
racionalista do mundo
mundo.. A m moderni
odernidade,
dade, ao mesmo
m esmo tem-tem -
 po,
 p o, lan
la n ç o u e e sgo
sg o tou
to u o son
so n h o tec
te c n o lóg
ló g ico
ic o . O q u e c h a m a m o s d e n o -
vas tecnologias situase num novo contexto sociocultural, numa nova
ambiência
am biência social.
social. A tecnologia
tecno logia que foi foi o principal instrum
instrumentoento de
separação, de alienação, do desencantamento do mundo m undo (Weber)
(Weber) e
do individualismo positivist
positivista,a, vêse investida
investida pelas potências refuta- re futa-
das pelo racionalismo
racion alismo moderno.
m oderno.
O mundo da vida (Lebenswelt   Habermas, Simm Simmel) el) vai
vai tomar
tomar
nas mãos as novas possibilidades
possibilidades da microeletrônica
micro eletrônica e do desenvo
dese nvol- l-
vimento de redes de comunicação.
com unicação. É o surgimento
surgim ento ddaa cibercultura2
cibercu ltura2,,
como veremos na terceira parte. Ela nasce nos anos 50 com a
inform ática e a cibernética, começa
informática com eça a se tornar
tornar popular
popu lar na décad décadaa de
70 com o surgimento do microcomputador
microcom putador e se estabelece comp co mpleta-leta-
mente
men te nos anos 80 e 90: 90: em 80 com a informática de massa e em 90
com as redes telemáticas, principal principalmente
mente com o boom  d  daa internet.
internet.
 Noo ssa
 N ss a arg
a rguu m e ntaç
nt açãã o est
e star
aráá cen
ce n trad
tr adaa na an
a n ális
ál isee ddaa ddin
inââ m ica
ic a eenn -
tre as novas tecnologias e a sociedade contemporânea, e é através
desta perspectiva que iremos analisar o surgimento da micro
informática, do ciberespaço, da realidade virtual. Mostraremos tam-
 béé m c o m o o ima
 b im a g iná
in á ri
rioo c ybe
yb e rpu
rp u n k m arca
ar cará
rá tod
to d a a c ibe
ib e rcu
rc u ltu
lt u ra
ra,, e x -
 prim
 pr imin
indo
dos
see na mod
m odaa e n a ficçã
fic ção
ocie
cientí
ntífíc
fíca,
a, nas açõ
a çõeses reai&iphreakers,

18  | C I B ER
E R C U L TU
T U R A , T E C N O L O G I A E V I D A S O C IA
IA L N A C U L T U R A C O N T E M P O R Â N E A •
 

hackers, crackers, ravers, zippies, cypherpunks ),


nas artes... Como
veremos, todas as formas da socialidade3contem
socialidade3contemporân
porânea
ea aí estão
estão pre-
sentes:Visamos
o presenteísmo,
fornecer opistas
tribalismo, o erotismo, aaviolência.
para compreender cibercultura. Va-
mos rabiscar, aqui e ali, algumas definições. Para isso, antes de nos
fecharmos num discurso acadêmicoacadêmico descolado da vidav ida da rua, decidi-
mos dar a palavra aos expoentes desta cultura high-tech.   Pegamos
traços que aparecem ao longo deste deste trabalho
trabalho:: víamos comunidad
com unidadeses se
formarem, mesmo sem presença corporal e/ou territorial; víamos
smileys  e fla
 f la m e s  nas trocas
trocas de mensagens; sexo e violência; pirataria
pirata ria e
hedonismo. Buscávamos escutar a vida social que fala através dos
artefatos tecnológicos contemporâneos.
É a vida social contemcontemporânea,
porânea, enfim, que deve
de ve ser observada,
não numa perspectiva de conceitos congelados, mas pela ótica do
movimen
mov imento
to caótico e sempre inacabado entre as formas técnicas e os
conteúdos da vida social
social.. Para
Pa ra Simmel, a tragédia da cultura está liga-
da ao processo dialógico entre as formas e os conteúdos; entre a
subjetivação do objeto e a objetivação do sujeito. Levar em conta a
dimensão técnica da vida quotidiana significa dirigir nosso olhar ao
mundo da d a vida.
vida. Esta é uma tentativa
tentativa de reconhecer a técnica no cam -
 poo d a c u ltu
 p lt u r a . S e n a m o d e r n i d a d e p r e v a lec
le c e u o i m a g i n á r i o d a
homogeneização
hom ogeneização e da racionalidade
racionalidade instrumental,
instrumental, a épo época
ca atual
atual impõe
uma atit
a titude
ude complexa
com plexa do fenômeno
fenômen o técnic
técnico. o.
Podemos
Podem os perceber
perceb er que, em todos os lugares, a tecnolog tecnologia ia mistu-
ra desejo de potência
po tência e medomed o de transgressão,
transgressão, utilidade
utilidade e objetividade
com despesa
despes a improdutiva
im produtiva (Bataill
(Bataille),
e), racionalidade
racionalidade e imaginário, funcio-
nalidade
nali dade e estét
estética.
ica. Esta configuração vai marcar ma rcar a cibercultura. Propo-
nho então
en tão ao leitor um exercício
e xercício excita
excitante:
nte: pensar
pen sar a tecno
tecnologia
logia na soci-
edade contemporânea
c ontemporânea e na histó históriria.
a. Da
D a mecânica à eletricidade,
eletricidade, da micro
eletrônica às nanotecnologias, a tecnologia propagase a uma enorme
velocidade, infiltrandose
infiltrandose tanto em objetos objetos do quotidiano com co m o no cor-
 poo h u m a n o , e m u m m o v ime
 p im e n to inc
in c e ssa
ss a n te d e m inia
in iatuturr iza
iz a ç ã o , de
estetização,
estetização, de automação
au tomação e autoregulação. As novas tecnologias pare-
cem caminhar
cam inhar para uma forma de onipresença, onipresença, misturandose
misturandose de ma-
neira radical e quase imperceptível ao nosso ambiente cultural através
do devir
dev ir micro (tomarse
(tom arse invisí
invisível)
vel) e do devir estético
estético (toma
(to marse rse belo).
belo).
Este movimento vai, como veremos, aproximar a tecnologia contem-
 por
 p orân
ânea
ea d o p raze
ra zerr esté
es tétic
ticoo e do
d o com
co m part
pa rtilh
ilham
amenentoto socia
so cial.l.

• AN D R É L E M O S | (9
 

As novas tecnologias
tecn ologias não só estão presentes em todas as ativi-

dades
 b
 béé m topráticas
tom seecontemporâneas
m a m s contemporânea
v e to ress de e x pser
tore (da
eriê nmedicina
iên cias
ci as e sté à econom
st é tic
ticas
as,, ta
tann toia),
n o como
se
senn ti
tiddtam
tam-
o de-
arte,
art e, do Belo, como no sentido sentido de comunhão, de em emoções
oções co comp
mparti-
arti-
lhadas. Em bora esse fenômeno
fenôm eno não seja novo, ele parec parecee radicalizar
se nesse fim de século. Tratase de uma sociedade que aproxima a
técnica (o saber
sa ber fazer) do pra prazerzer estét
estético
ico e comunitário.
Como podemos constatar, desde os terminais bancários até o
acesso à internet, o termo “ciber” está em todos os lugares: cyberpunk, 
cibersexo, ciberespaço, cypherpunks,   ciber moda, ciber economia,
ciberraves, etc. Todos os termos mantêm suas particularidades, se-
melhanças e diferenças, formando, no seu conjunto, a cibercultura.
Todos eles
eles atestam uma um a atitude,
atitude, uma apropriação,
ap ropriação, vitalista, hedonista,
tribal e presenteísta da tecnologia.
Se a tecnocultura
tecnocu ltura moderna foi o paraíso de Apoio, a cibercu cibercultura
ltura
 pó
 p ó s
smm o d e rn
rnaa p a re
recc e se
serr o teat
te atro
ro de D io
ioni
niso
so.. A te
tecn
cno
o lo
logg ia m ic
icro
roe
ele
le
trônica é, ao mesmomesm o tempo, mágica mág ica (abolição
(abolição do espaço e do tempo;
telepresença) e agregadora
agregad ora (societári
(societária,
a, comunit
comunitária).
ária). Lem bremos
brem os que

a raiz “ciber” tem origem no grego Kubernetes  (a arte do controle, con trole, da
 pilo
 pi lotatage
gemm , do g govovererno
no). ). No entan
en tanto
to,, co
comomo v ver
erem
emosos,, a cib
ciber
ercu
cultltu
u ra nã
não o
 paa re
 p recc e , c o m o ac acreredd it
itaa m a lgun
lg uns,
s, e st
staa r se
send
ndo o d o m ina
in a d a p o r u m B ig
Brother timoneiro. Nas diversas manifestações da cibercultura, não
 po
 p o d e m o s d izizee r q ue a v id idaa so
soci
cial
al se d e ixixee sim
si m p le
lesm
sm e n te g o v e rn
rnaa r o
ouu
 pil
 p ilo
o ta
tarr p
poor uumm a tetecc n o lo
logg ia au
autô
tôno
nomm a. Is Isso
so ta
tamm b é m n ã o s ig
ignn if
ific
icaa qu
quee
os efeitos dos controles tecnocráticos tenham desaparecido.
A form a “ciber”, lligada igada à didimen
mensão são das tecnolo
tecnologias gias m icroele
trônicas
trôni cas (digi
(digitai
tais),
s), vai manter uma relação complexa com os conteú-
dos da vida social. Esse não foi o caso da modernidade, onde a
tecnocultura tentou reduzir à normas racionais a complexidade do
vivido.
vivid o. G. Orw ell4 tentou, na metade do sécul século,o, exp ressar todo o ima-
ginário social antitecnológico (o perigo perigo da tecnocracia mo moderna)
derna) no
seu “ 1984”. O livro mo stra o sentimento pr provável,
ovável, e me mesmo
smo p previsí-
revisí-
vel,, de m
vel medo
edo do controle ttecnocrát ecnocráticoico e da homogeneização das m as-
sas.. O sonho da modernidade estava concent
sas concentrado
rado inte
inteiramente
iramente na pers-
 pee c ti
 p tivv a ra
racc io
ionn a li
list
staa d a vivia,
a, no d o m ínínio
io d a n a tu
turerezz a e n o c o n trtro
o le e
domesticação do homem e da sociedade. Mas o ano de 1984 vai ser
 paa re
 p reci
cid
do m
mai
aiss cco
o m o aam
m b ien
ie n te cyberpunk  de W illiam GGibso
ibson5
n5,, do que
com aquele pessimista e homogeneizant
homogeneizantee de O rwel
rwell.l. A cibercultura é

20   | C IB
I B E R C U L TU
T U R A , T E C N O L O G I A E V I D A S O C I AL
AL N A C U L T U R A C O N T E M P O R Â N E A •
 

mais complexa, não sendo totalmentetotalmente dominada por um a “classe vir-


tual” (Arthur Kroker6). A atitude dispersa, efêmera e hedonista da
socialidade contemporânea vai marcar, de forma constitutiva, a
cibercultura.
cibercul tura. Esta é, como
com o proponho, a form
formaa cultural da tecnologia
contemporânea e, como toda forma, forma, ela é composta por relações com-
com -
 ple
 p lexx as c o m o socia
so cial.l.
Se continuarmos atentos
atentos ao mundo
m undo da vida,
vida, poderemos escutar
um coração que bate nos transes dionisíacos das tecnoraves, ver à
tr ompe Vo eil  as paisagens místicas dos mundos de imagens
trompe imagen s de síntese
e seres virtuais, entrar de corpo e alma nas comunidades virtuais,
redescobrir
redescob rir o prazer de navegar
nav egar por territór
territórios
ios de informação, sofrer
os malefícios de um vírus digit
digital.
al.
A atual cultura eletrônica não busca mais, como foi o caso da
tecnocultura moderna, a dominação
dom inação técnica
técnica da natureza e do socia
social.
l.
Tratase mesmo de uma atitude sociocultural que se expande sobre
uma natureza
n atureza já dominada e transformada
transformada em bits  e bytes, em espec-
tros virtuais do ciberespaço. Se a tecnocultura moderna foi a forma

técnica
técnic
da a que emergiu
domesticação da dominação
energética do mundo da natureza (Descartes
(Heidegger), e Bacon) e
a cibercultura,
 poo r sua
 p su a vez,
ve z, é a form
fo rm a c o n tem
te m p o rân
râ n e a d a téc
té c n ica
ic a q u e j o g a c o m os
signos
sign os desta tecnonatureza
tecnonaturez a construída pela astúcia da tecnocracia. É,
ao mesmo tempo, ruptura e continuidade.
O que vemos nas diversas manifestações
manifestações da cibercultura é uma
apropriação de imagens, de obras atr através
avés de colagens,
c olagens, de discursos
não lineares, um verdadeiro  za in g   e hacking   daquilo que Guy
 z a p p ing
Debord chamou de sociedade do espetáculo7. Os exemplos são nu-
merosos: o neopaganismo dos zippies, o faça você mesmo dos
cyberpunks,   a criptografia cara aos cypherpunks,   o ativismo dos
hackers e a violência dos crackers,
crackers, os fanáticos dos jog jogos os eletrôni-
cos, o isolamento dos otakus japoneses, os delírios das raves e da
realidadee virtual,
realidad v irtual, a arte eletrônica,
eletrônica, a moda sintética ou ciber-fashion, 
os transumanistas extropians... A tecnologia deve, como dizia nos
anos 50 o filósofo
filósofo G ilbert Simondon8
Simondon 8, fazer parte da cultura, já que
ela é constitutiva
constitutiva do homem. Refutar a técnica é refutar a huma hu manida-
nida-
de como
tética queum todo,
“deveria
“deve riaé ser”
refutar
ser ” . essa humanidade que “é”, “é” , por
po r uma hipo-
 Nãã o i r e m o s , n e s t e l i v r o , f a l a r d o f u t u r o 9, m e s m o q u e a
 N
cibercultura se pareça à um a revista revista em quadrinhos de fícçãocientífi

MOS | 2 1
• A N D R É L EEM
 

ca. Ao contrário, tentaremos mostrar que, mesmo em sua fase embri-


onária, ela é um
umaa realidade social pl
planetár
anetária.
ia.
A saturação
saturaçã o dos meta relatos e dos grandes sistema sistemass explicati
ex plicati
vos é hoje uma evidência, levandonos a pensar em novos desafios
 para
 pa ra a s o c iolo
io logg ia e a c omu
om u nic
ni c ação
aç ão.. E x ige
ig ese
se aqu
aq u ilo
il o q u e o soci
so cióó log
lo g o
Edgar Morin
M orin chama
cham a de pensamento
pensamento complexo. A vida social social não pode
ser desvelada, em toda a sua complexidade,
complexidade, por um pensamento pensam ento redu-
red u-
zido à causas e efeitos simples,
simples, à linearidade
linearidade pprogressiva
rogressiva do tempo e
da
mentoHistória, ao determinismo
com plexo,
complexo, explica Morin, econômico
M orin, não podeousetecnológico.
limitar a redução
reduçãUmopensa-
analí-
an alí-
tica do mundo ou a uma síntese global dos fenômenos sociais. Ao
contrário, ele deve agir por retroações, por recorrências, por uma
dialógica não dialética (que aceite a concorrência dos antagônicos
sem sínteses posteriores), e pelo diálogo entre entre os sa saberes
beres quequ e se tor-
naram compartimentali
com partimentalizados. zados.
O pensamento complexo proposto por Morin é talvez a única
 poo s si
 p sibb ilid
il idaa d e de inst
in staa u rar
ra r um
u m p e n sam
sa m e n to se senn síve
sí vell (M a f f e soli
so li110) que
qu e
 podd e inte
 po in tera
ragg ir c o m a v ida id a q u o ti
tidd ian
ia n a c o m o u m a e spé sp é c ie de  p pee n s a 
mento-vida  ligado ao que as coisas coisas são são.. Maffesoli propõe uma um a p pen
enséséee -  
caressante   para dar conta das dinâmicas politeísta, hedonista e
 prr e sen
 p se n teís
te ísta
ta c ara
ar a c terí
te ríst
stic
icas
as d a v ida
id a quo
qu o tid
ti d ia
iann a c o n tem
te m p o rân
râ n e a . E sta
st a
seria refratária
refratá ria em relaçãore lação ao fazer políticopolítico partidário e às ideologias
em relação ao futuro".
É no coração
co ração mesmom esmo do fenômeno técnico técnico que são introduzidas
introduzidas
experiências vitais, vitais, induzindo à socialidade de que nos fala Maffes M affesoli oli..
São os resíduos (V. Pareto) dessa vida sem qualidades que qu e vai marcar
m arcar
 pro
 p rofu
funn d a m e n te a cib
ci b e rcul
rc ultu
tura
ra.. A ssim
ss im,, po
p o r exem
ex empl plo,
o, a ffoo rm a de
d e esta
es tar
r
 junn to,
 ju to , a q u e la q ue d ir
irig
igee a vida
vi da soci
so cial
al,, e n c o n tra
tr a se
seuu c o rre
rr e spo
sp o n d e n te
nas comunidades virtuais do ciberespaço. O desenvolvimento
tecnológico, longe de ser apenas agente de separação, de alienação e
de esgotamento
esgotam ento de formas de solidariedadesolidariedade sociais,
sociais, pode servir como
vetor de reliance, como instrumento de cooperação mútua e de soli
dariedades múltipl
m últiplas.
as.

reP.
ssooFougeyrollas
 p rogg ress
 pro , d e tem mostra
te m po li
linn e a r e od oesgotamento
o timis
tim ism
m o teda
cnoonoção
tecn lóg icoode
ló g ic tãfuturo,
, tão ar o sdeà
o c aro
epistemologia moderna.
m oderna. A sociologia deve então então com preender
preend er a nova
cultura tecnológica que emerge nesse vácuo ideológico, temporal e
espacial.. Com
espacial C omoo afirma
afirm a o sociólogo francês,
francês, “nós pe dim os'à sociolo-
22  C IB
I B ER C U LT
L T U R A , T EC N O L O G I A E V I D A S O C IA
I A L N A C U L T U R A C O N T EM P O R Â N EA •
 

gia, não de discernir mi


gia, miraculos
raculosamente futu ro que avança em  
amente esse futuro
nossa
nos sa direçã
direção,
o, m as de integ
integrá-lo
rá-lo à ssua
ua pro
proble
blemm átic
ática...
a... ”
”1
12.
McL uhan, na época de llançame
ançamentonto de sseu
eu Galáxia Gutenberg, 
falava da complexidade
complex idade dos media  e das das tecnologias de comucomunicação
nicação
mostrando como estas alteram, e mesmo moldam, nossa maneira de
ver e interpretar o mundo. Para dar conta de uma situação tão com-
 plex
 pl exa,
a, M cL u h a n p ro
roppunha u
umm m ét
étod
odoo em
e m m os
osai
aico
co,, c o m o u m a m e tá
tá--

foraa de um olhar em fragmentos, disperso no real.


for real. O m osaico é uma
abordagem em m movimento,
ovimento, atenta a fragmentos do real.real. A cibercultura
 pode
 po de se
serr an
a n al
alis
isaa d a at
atra
rav
v és d e st
stee m os
osai
aico
co..
• A N D R É LE M
MOO S   23
 

Notas

1 Ver
Ver número especial da Revue Sociétés n. 59. Technosocialité. De Boeck, Bru-
xelas, 1998.
2 Algumas publicidades veiculadas em 1995 na Europa, particularmente na Fran-
ça, mostram
m ostram bem eesse
sse espfrito do tempo: Thomson (“da tecnologia ao amor” ), TamTam de
France Télécom (“mantenha o contato com a sua tribo”),
tribo”), da IBM ((“é
“é louco como a tecnologia
aproxima as pessoas”) e da Apple (“o important
importantee não é o que a tecnologia pode fazer por
você, mas o que você pode fazer dela”). Gravadas pelo autor na televisão francesa em
1995.
3 O conceito de socialidade
social idade foi desenvolvido por Michel Maffesoli. Ela diferencia
se da sociabilidade
soc iabilidade já que esta está liga
ligada
da a agrupamen
agrupamentos
tos que têm uma função preci
precisa,
sa, ao
mesmo tempo
tem po objetiva e raci
racional.
onal. O indivíduo iinserese
nserese numa lógica do dever ser
ser.. Já a
socialidade está ligada a uma fenomenologia do social,
socialidade social, onde os sujeitos desenvolvem agru-
 pamento
 pam entoss fes
festivo
tivos,
s, emp
empáti
áticos
cos,, basea
baseados
dos em emo
emoçõe
çõess com
compar
partilha
tilhadas
das e em n
novo
ovoss tribali
tribalismos
smos..
A socialidade referese ao vivido, ao presente, ao estarjunto. Segundo Maffesoli, a vida
quotidiana contemporânea é marcada pela socialidade e não pela sociabilidade. Ver
Maffesoli, M. La Conquête du Présent. Pour une Sociologie de la Vie Quotidienne. Paris,
P.U.F., 1979.
4 Orwell, G. 1984, Paris, Gallimard: 1951.
5 Gibson, W. Neuromancien, Paris, J’ai Lu: 1985.
6 Ver Kroker, A. Weinstein, Michel A. Data Trash. The Theory of the Virtual
Class. NY. St. Martin's Press: 1994.
7 Ver Debord, G. L Laa Socié
Société té du Spectacle. Paris, Gallimard
Gallimard:: 19
1992.
92.
8 Simondon, G. Le Mode d d’Exist
’Existence
ence des Objets Techniques. Paris, Aubier: 19 1954
54..
9 Ver
Ver Rushkoff, D. Um Jogo Chamado Futuro.Como a Cultura dos Garotos pode
nos ensinar a sobreviver na era do caos. RJ E Editora
ditora Revan
Revan:: 19
1999
99,,
10 Ver Maff
Maffesoli,
esoli, M. Elog
Elogee de la Raison Sens
Sensible,
ible, Paris: 19
1997.
97.
11 Exemplos desta vida quotidiana podem ser encontrados em várias manifesta-
ções sociais como os encontros esportivos, o culto às estrelas do show bizz, a fascinação
 porr ima
 po imagens
gens,, o sin
sincre
cretis
tismo
mo,, o es
estilo
tilo e a mo
moda
da e, com
como o ten
tentam
tamos
os mo
mostra
strar,
r, na ati
atitud
tudee em
relação às novas tecnologias.
12 Fou
Fougeyr
geyrollas
ollas,, P
P.. L’Attracti
L’Attraction
on du F
Futur.
utur. in: Annales de 1
1’Institu
’Institutt Internat
International
ional de

Sociologie, Nouvelle
N ouvelle S
Série,
érie, vol. IV
IV,, 19
1994
94,, p.230.
p.230. D
Daqui
aqui em diante todas as ccitações
itações de
obras em inglês e francês são de tradução livre do autor.
24 C IB
I B ER C U LT
LT U R A , T EC N O L O G I A E V I D A S O C IA
IA L N A C U L T U R A C O N T E M P O R Â N EA •
 

Pa r t e   I

Técnicaetecnologia
 

C a p ít u l o   I

Compreender
essência do fenômeno as particularidades,
técnico, bem como complexidades
seu papel naouhistória mesmodaa
humanidade, não é um exercício fácil. fácil. Hoje, talvez mais que em ou- o u-
tras épocas, a influência da tecnologia nas sociedades ocidentais ociden tais tem
um lugar capital dentre as quest questões
ões que emergem com comoo prioritárias
prioritárias na
contemporaneidade.
Desde o surgimento das das primeiras sociedades até as complexas
cidades pósindustriais, o homem inventou o fogo, cultivou a terra,
domesticou animais, construiu cidades, dominou a energia,
implementou indústrias, conquistou o espaço cósmico, viajou aos
confins da matéria e do espaçotempo. Durante esse trajeto, a
tecnologia ganhou significações e representações diversas, em um
movimento de vaivém com a vida socia social.l. Em alguns mom momentos,entos, esta é
dominada, controlada, racionalizada pelas atividades científico
tecnológicas; em outras, é a tecnociência que deve negoc ne gociar iar e aceitar
ace itar
os ditames da sociedade
sociedade..
 Naa e n tr
 N traa d a d o séc
sé c ulo
ul o X X I, a tecn
te cnoo log
lo g ia e a s o c ied
ie d a d e n ã o p o -
dem mais
ma is ser reduzidas às análises unilaterais que
qu e se desenvolveram
desenvolvera m
durante os séculos da modernidade industrialista, e não precisamos
insistirr muito sobre a saturação dos paradigmas científicos
insisti científicos e os impasses
de seus métodos, para nos darmos conta co nta desse estado de coisas.
Estamos assim obrigados obrigados a mudar nosso olhar e buscar bu scar novas
ferramentas
ferrament as para
p ara compreender
com preender o fenômeno técnicocientífico
técnicocientífico contem-
 porâ
 po râne
neo.
o. E st
stee , pa
p a ra us
u s a r a exp
ex p ress
re ssãã o de Ber
B ertr
traa n d Gi
G i l l e 13, ins
in s e res
re see em
um novo paradigma sociocultural: a queda das grandes ideologias e
dos metadiscursos
desconfiança iluministas,
em relação o fracasso
cios do dos
aos benefícios
benefí sistemas
progresso políticos,
tecnológico
tecnológi co ae
científico,, a indifere
científico in diferença
nça social e irônica da
d a geraçã
ger açãoo X e Y 14, o novo
tribalismo
tribalismo que
q ue revelaria o fracasso do projeto individualista moderno,
a descrença
desc rença no futuro, as novas formas de comunicação
comu nicação gregárias
greg árias no
ciberespaço, os desafios
d esafios da manipulação genética, da AidsA ids e da droga
em nível
n ível planetário.
planetário. É precisamente este novo quadro ddaa civilização
civilização
contemporânea
contem porânea o berço da d a cibercul
cibercultur
tura.
a.

• A N D R É L EEM
M O S | 27
 

Compreender os desafios da cibercultura nos obriga a buscar,


nas raízes do fenômeno
fenôme no técnic
técnico,1
o,1a compreensão da cultura
c ultura co
contem
ntempo-
po-
rânea. Não podemos
pod emos co
comp
mpreender
reender os paradoxos, as potencialidades e
os conflitos da tecnologia
tecno logia na at
atualidade
ualidade sem uma visão da história da

tecnologia e de seus simbolismos respectivos; sem ter percorrido as


 pri
 p rinn c ip
ipaa is c o rr
rree n te
tess d
daa fil
f ilos
osoo fi
fiaa d
daa técn
té cnic
ica.
a. N e sta
st a p
pri
rim
m e iriraa p
paa rt
rtee , eem
m-
 prr e e n d e r e m o s u m a p e q u e n a v ia
 p iag
g e m a trtraa v é s d o s s im b o li liss m o s d a
tecnologia
tecnolog ia na história da humanidade: sua genealogia, genealogia, filosofia e his-
tória.
tór ia. Tentaremos retraç retraçar ar a gênese do fenômeno técnico desde a an-
tiguidade até os nossos dias, mostrando as parti particularidades
cularidades d a cultura
tecnológica
tecno lógica contem
contemporânea,
porânea, a cibercultura.
cibercultura.
Veremos que o fenôm eno técnico nasce com a aaparição parição do ho ho--
mem, depois será enquadrado pelo discurso filosófico e a noção de
tekhnè  (arte, os saberes práticos) para, enfim, entrar no processo de
cientifização com o surgimento da tecnociência, tecnociência, ou o que cham chamamos amos
hoje de tecnologia. Vamos Vamos insistir nas dif diferenças
erenças en entre
tre a tecnoc
tecnoculturaultura
e a cibercultura. O surgimento da cibercultura não é só fruto de um
 pro
 p rojejeto
to tétécn
cnic
ico,
o, ma
mass de um a re relalaçã
ção
o e stre
st reit
itaa ccom
om a sso o c ie
iedd a d e e a ccu u l-
tura contemporâneas.

 A tek
tekhn
hnè
è greg
gregaa

Para compreendermos os desafios do fenômeno técnológico


contemporâneo devemos, num primeiro momento, precisar as dife-
renças entre técnica e tecnologia, pois estes conceitos não são facil-
mente diferenciados. Hoje compreendemos por tecnologia os objetos objetos
técnicos, as máquinas
máq uinas e seus respecti
respectivos vos processos de fabricação.
fabricação . Do
mesmo modo, utilizamos o termo técnica para abranger áreas tão
díspares
díspa res co
como
mo a dança, a economia, as ativi atividades
dades esportivas ou mes-
mo objetos, instrumentos e máquinas. A confusão de termos é im-
 pre
 p ress
ssio
iona
nant
nte.
e.
Técnica, na sua acepção original e etimológica, vem do grego
tekhnè,  que podem os tradu traduzirzir po r art
arte.
e. A tekhnè  com  compreende
preende as ativi-
dades práticas, desdede sde a elaboração de leis leis e a habili
habilidade
dade p para
ara con tar e
medir, passando pela arte do artesão, do médico ou da confecção do
 pão,
 pã o, até
at é as a rt
rtes
es p lá
lást
stic
icaa s o
ouu be
bela
lass ar
arte
tes,
s, es
esta
tass ú lt
ltim
imaa s c o n sid
si d e ra
raddas a
mais alta expressão da tecnicidade humana. Tekhnè   é um conceito
filosófico que visa descrever
desc rever as ar artes
tes práticas,
práticas, o saber faz fazerer humano

28 C I BER
B ER C U LT
LT U R A , T EC N O L O G I A E V I D A S O C IA
IA L N A C U L T U R A C O N T EM P O R Â N EA •
 

< '

em oposição
opo sição à outro conceito chave, a p  ph is,,  ou o princípio de gera-
h u s is
ção das coisas naturais. Tekhnè e p h u s is  fazem parte de todo processo
 ph
de vir a ser, de passagem da ausência à presença, ou daquilo que os
gregos
gre gos cha
chamavam
mavam d e p  po
o iè s is '5.
'5.
O  conceito de tekhnè  é, assim, assim, fruto de uma prim eira filosofia
da técnica que qu e visa distinguir o fazer hu m an o16do fa zer da n natureza,
atureza,
este último
último aautopo utopoiético,
iético, guardand
guardando o em si os meca mecanismo
nismoss de sua auto
reprodução. A tekhnè   é a arte1 arte 17 que coloca o hom homem
em no centro do
fazer p
 poo iè ticc o ,  em confronto
ièti co nfronto direto com as coisas naturais. A tekhnè é  
uma p poo iè s i s  no sentido de revelar todo fazer humano. Como mostra
Stiegler, “a dança é tekhnè, as boas maneiras são tekhnè, a cozinha  
é tekhnè  ” 18.
O nascimento da filosofia grega, cinco séculos antes da nossa
era, vai ser decisivo para a formação da visão atual da tecnologia.
Como veremos, a crít crítica
ica contemporânea da tecnologia será marcada
 po
 p o r es
esta
ta fi
filo
loso
sofi
fiaa d
daa té
técn
cnic
ica,
a, infl
in flu
u en
encc ia
iadda p
pri
rin
n c ip
ipaa lm e n te p e lo p e n sa
sa--
mento de Platão e de Aristóteles.
Aristóteles.
Para os gregos, todo ato humano é tekhnè  e “tod toda a ‘te k h n è ’ tem  
 p o r cca
a ra
racc te
terí
ríst
stic
ica
a fa zer nnaa scer uumm a ob
obra '”19. N um pri
ra'”1 primeiro
meiro momen-
to,, a fil
to filosofia
osofia grega vai isolar o qu éè m tempos préhistóri
préhistóricos
cos e mít
míticos
icos

ainda não era, po r um llado,


ado, a tekhnè, com o saber prático, e po porr out
outro,
ro,
a épistèmé, como saber ccontemplati
ontemplativo vo ou teóri
teórico.
co. Podem os dizer que
o homem
hom em préfil
préfilosófico
osófico não conheceu dicot dicotomias
omias eentre
ntre as artes e os
conhecimentos teóricos, já que estava imerso num mundo fechado,
simultâneo, onde não nã o existia
existia ainda com partimentalização
partimen talização dos saberes
em esferas independentes
indepen dentes e estestanques.
anques.
A crítica de Platão aos sofistas buscava mostrar como a con-
templação filosófica era a atividade mais digna dos hom ens, ac acima
ima da
tekhnè  e longe dos manuais e das receit receitas as sofisti
sofisticas.
cas. Nã
Não o é à toa que
os sofistas são chamados de tekhnai  por Platão. A partir par tir de Platão, a
tekhnè vai ser colocada em oposição ao saber teórico teóricocontemplativo,
contemplativo,
à épistèmé  (a
 (a contem
con tem plaç
plação
ão ffilosó
ilosófica
fica)2 )20
0. A filo
filosof
sofia
ia de PPlatã
latão2
o21 induz
nossa percepção
percep ção em relação às artes práticas, que são aind aindaa hoje co con-
n-
sideradas menores
men ores em relação à ati atividade
vidade intelectualconceitual.
O pensame
pensa mento
nto filosófico vavai,
i, pela primeira vez, ass assoc
ociar
iar a técni-
ca aos destinos
destinos do homem e da  p  poo li s.  O artista, aquele que possui o
lis.
dom de uma tekhnè,  é para Plat Platão
ão um demiurgo, um imitador, prod produ-u-
tor de cópias e de simulacros. Os objetos técnicos são assim
a ssim produtos

• A N D R É L EM
EM O S | 2 9
 

que imitam o ser. ser. Como cópia, imitação ou simulacro, Platão desen- dese n-
volve a tese da desconfiança em relação à tekhnè.
Já em Aristóteles, a ati atividade
vidade prática é iinferior
nferior às coisas da na-
tureza, pois “ nenhuma cois coisa a fabrica da possui nela m esma o prin cí
io da f a b r i c a ç ã o ”21. As coisas artifi
 pio
 p artificiais,
ciais, frutos da tekhnè,   são infe-
riores às coisas naturais, pois estas possuem o princípio do vir a ser.
Aquelas são formadas,
form adas, diferentemente das coisas naturais naturais,, pe
pela
la ação
externaa dos ho
extern homemens ns (ou animais). A inferiorida
inferioridade
de dos seres artifi
artificiais
ciais
em relação
relaç ão aos seres natur naturais
ais está lligad
igada,
a, segundo Aristóteles, à inca-
 paa c id
 p idaa d e do
doss p ri
rim
m ei
eiro
ross d a auto-poièses, ou seja da autpreprodução.
Aristóteles
Aristóte les mostra, com sua famos famosaa teoria das qu quatro
atro cau
causas
sas2 23, que a
tekhnè , como p
 poo iè
ièsi s,  está submetida à causa fi
sis, final
nal e à causa formal,
estranhas ao acaso da naturez
natureza. a. A tekhnè   será as
assim
sim um saber prát
prático
ico
que imita e domina a p  phh u s is 24.
O imaginário grego sobre as técnicas será influenciado pelas
narrativas míticas. Os mitos de origem do homem são também os
mitos de origem da técnica (Prometeu, Dédalo, ícaro, Hefaístos,
Atenas, Pandora...) que nos colocam diante da questão do homem
como ser da técnica. Aqui a antropogênese coincide com

tecnogênese.
tecnogê nese. A técnica, com
como o iimitação
mitação e violação da natureza, logo
inferior à contemplação e à p  ph is,,  será também fon te de violação
h u s is
dos limites sagr
sagrado
adoss imp
impostos
ostos ppelos
elos deuses aos hom enens2s25
5. A tekhnè  
é, assim, ao mesm o tem
tempo,
po, inferior à natureza, à contem plaçã
plação o filo-
sófica, sendo também um instrumento de transgressão do espaço
sagrado imposto pelos deuses. Esta concepção marcará profunda-
mente nossa atual visão da tecnologia, como veremos no capítulo
sobre o imaginário
ima ginário da cibercultura.

 A pe
persp
rspec
ectiva
tiva etn
etnoz
ozoo
oológ
lógica
ica

L Al
Além
ém da v
viisão ffiilosó fica, p o demo
demoss v
veer o ffeenô
nômemeno
no téc
écni
nico
co co
como
mo
um elemento zoológico da formação e da evolução dos primeiros
humanos. Ele vai mesmo caracteriza
caracterizar,
r, junta
juntam m ente
en te com o surgimento
de um pensam ento m mágicoreli
ágicoreligioso,
gioso, o ssurgimen
urgimento to do homosapiens.
homo sapiens.
A gêgese do
d o hom
homemem que somos hoje é tributária
tributária da gên gênese
ese da técnica.
> O hom em é um ser técnico po r defini definição!
ção! A pers pec tiva

etnoló gica de André LeroiG


etnológica LeroiGourhan2
ourhan26
6 propõe analisar a téc
técnica
nica co
como
mo
um tendência
tendên cia universal e determinante da evolução da espé
espécie
cie huma

30 C I BER
B ER C U LT
LT U R A , T EC N O L O G I A E V I D A S O C IA
IA L N A C U L T U R A C O N T EM P O R Â N EA •
 

na, inspirada na idéia de evolução de Bergson. A técnica se situa,


assim,
assim, como
com o uma
um a solução zoológi
zoológica
ca da espécie
espécie hum ana na sua con-
frontação com a natureza.
frontação natureza. A tecnicidade
tecnicidade humana
human a aparece com o uma (
tendência universal
un iversal e hegemônica, se
sendo
ndo a primeira
prim eira característica
carac terística do j
fenômeno humano. A antropogênese
antropogênese coincide
coincide com a tecnogênese, já ,
que o homem não pode ser definido antropoloantropologicam
gicamente
ente sem a di i
mensão da tecnicidade.
tecnicidade.
A técnica seria um caso específico
específico e particular
pa rticular da zoologia
zoolog ia na
medida em que o fenômeno técnico aparece como uma relação
artificializada
artificializada (mediada
(me diada por artefatos)
artefatos) entre a matéria viva ou orgâni-
org âni-

ca ecomo
da a matéria
ma téria inanimada.
o resultado
result A técnica é, sob
ado do desenvolvimento
desenvolvimen to eesta
evoperspectiva,
perspe
lução ctiva,
evolução da vidainterpre
inorgânica
terpreta-
ta-
do homem, como com o uma
um a interfa
interfacece entre
entre a matéria orgânica viva e a ma- m a-
tériaa inerte deixada ao acaso na natureza.
téri natureza. O fenôm eno técnico
té cnico é um i
caso particular (zoológico) da relação entre o ser vivo e seu meio [
natural (a matéria inert inertee largada ao acaso na natureza).
A cultura, como tragédia de objetivação do sujeito e de
subjetivação dos objetos (Simmel), formase no coração do fenôme-
no técnico. Como mostra Bernard Stiegler, “a tendência não vem  
simplesmente de uma fo rç a organi organizadora
zadora que seria o hom em (.. (...)
.) el
elaa 
opera
oper a p o r sseleçã
eleção o d efo rm as numa rel ação do ser vivo humano com  
relação
a matéria que ele e le organiza
organiza e pela qual ele se o organi
rganiza, ondee nenhum  
za, ond
dos term os d desta
esta relação tem o segrsegredo
edo d
dooooutro
utro ” 27. A técnica dese
”2 de semm ,
 pee nha
 p nh a uum
m pape
pa pell fund
fu ndam
amee ntal
nt al na fo
form
rmaç
ação
ão d o h ome
om e m . I
A corticalização que define o homosapiens
homo sapiens se introduz nas pri-
meiras armas e ferramentas construídas a base de sílex talhado. É ppor or
isso que nós não podemos “ imaginar que o homem seja operador  
como
com o inv
inventor
entor,, mas, ao contrário, com
comoo inven
inventa
ta d o ”.2  Até
 A
.28 

formação do córtex nós podemos dizer que a evolução da técnicatéa faseé de
de
* cunho zoológico, influenciando a evolução da espécie. PoucoPou co a pou-
po u-
co, a técnica vai desligandose desta evolução genética, tomandose
independente. Em um primeiro momento os objetos ajudam na for-
mação do córtex, numa
nu ma simbiose entre
entre o sílex
sílex e os neurônios
neurô nios (Leroi
Gourhan). Uma vez acabado esse processo, os objetos técnicos vão
seguir uma lógica própria
própria,, abordada brilhantemente
brilhantemente ppor
or G. Simondon,
com um modo
mo do de existência própri
próprio.
o.
Partindo desta hipótese,
hipótese, LeroiGourhan afirma
a firma que, pela
p ela li
libe-
be-
ração da mão e pela exteriorização
exteriorização do corpo humano,
hum ano, “a aparição  x y

EM O S | 3 1
• A N D R É L EM
 

. do homem é a aparição da té
técni
cnica
ca.. É a ferramenta, isto
isto éé,, atekhn è,  
atek hn è, 
 \ q u e inv
in v e n ta o h o m e m e n ã o o h o m e m q u e inv in v e n ta a té
técc n icà
ic à ” ”229.  É
 pee la e x ter
 p te r ior
io r iz
izaa ç ã o tec
te c n o lóg
ló g ica
ic a d o c o rpo
rp o , q u e a m ã o v ai p e d ir o
instrumento e, em consequência,
consequ ência, esse gest gestoo vai proporc
pro porcionar
ionar a fala. fala.
Como explica LeroiGourhan, “a f “a fee r r a m e n ta p a r a a m ã o e a l in
guagem pa ra a fa c e são dois polos de um mesmo d ispositi vo  ,,,,33°. N a
ispositivo
mesm a direção, aponta ap onta Stiegler,
Stiegler, o instrum
instrumento ento é resultado da ante ante
cipação e da exteriori
ex teriorização
zação mas, ao mesmo tempo, ele é a condição
mesma
me sma deste processo.
processo. Assim, a p
a prr ó tes
te s e n ã o é um s im p les
le s p r o lo n

gamento
'quanto hum do ano...
corpo
ano.. humano, ela é a constituição deste corpo en- 
. ”31. en-  
A formação do córtex, da técnica e da linguagem é assim
imbricada na coevolução
coevoluçã o zoológica da espécie espécie hum ana, já que sua
evolução vai ser potencializada
potencializada pela adaptação adaptação locomoti
locomo tiva va e técnica
técnica
do homem,
hom em, ao invés de ser a simples causa. causa. A corticalização seri seriaa
codeterminada pela exteriorização (a mão e a fala ou o gesto e a
 paa lav
 p la v ra,
ra , c o m o d e f ine
in e L e r o i
iGG o u rha
rh a n ) , p e lo c a r á ter
te r nnãã o g e n é tic
ti c o d o
■ inst
instrume
rument nto.
o.^A
^A essência
essê ncia da natureza humana human a situase no que pode
' remos cham c ham ar de processo de desnaturalização
desnaturalização do homem) na ssua ua
simbiose com a técnica e na formação da cultura com o surgimento surgimento
da linguagem. É esta genealogia da tecnicidade que vai interessa interessarr a
Gilbert Simondon.

 A gên
gênese
ese e o m od
odoo de ex
existên
istência
cia dos ob
objetos
jetos téc
técnic
nicos
os

“...chaque heure de notre vie, aussitôt morte, s’incame


s ’incame et

se cache
reconn en quelque
reconnaisson s, nous 11’’objet
aissons, matériel.
appelons, elleeAest
et ell travers luie. nous
délivrée.
délivré Iat
L’obje
objet
oü elle se cache
cache  ou la sensation, puisque tout objet par
rapport à nous est sensation nous pouvon pouvonss très bien ne
le rencontrer jamais. Et c’est ainsi
ainsi qu’i
qu ’ill y a des heures de
notre vie qui ne ressusciteront jamais.”
M a r c e l  Pr o u s t

Ao lado de Martin Heidegger, Gilbert Simondon é um dos mais m ais


importantes filósofos da técnica do século XX. Ele vai empreender
um esforço na compreensão
com preensão da gênese e da essência desta. desta. A mplian-
do a análise anterior, Simondon desenvolve uma perspectiva quase
 bio
 b ioló
lógg ica
ic a ddaa te
t e cnic
cn icid
idaa d e hum
h uman
ana.
a. A tec
te c n o log
lo g ia m o d e rna
rn a va
vaii se ca
c a rac
ra c 

32 C IB
I B ER C U LT
LT U R A , T EC N O L O G I A E V I D A S O C IIA
A L N A C U L T U R A C O N T EM P O R Â N EA •
 

terizar pela instauração de máquinas e sistemas sistemas m aquínico


aquínicoss que vão,
 pou
 po u c o a p o uc
uco,
o, af
afaa st
staa n d o o h om em d o qu
quee até
at é e n tã
tãoo c a r a c te
teri
rizz a v a a
relação homemtécnica: a manipulação de instrumentos e ferramen-
tas.
tas. A máquina,
máqu ina, segundo Simondon, será a responsável pela sensação
contemporânea de que a tecnologi tecnologiaa não faz parte da cultura humana
(ou é sua inimiga).
inimiga). Essa separação seria uma espécie
espé cie de defesa ccontra
ontra
a posição que ocupa a máquina
máq uina na civil
civilização
ização indust
industrial.
rial. Com o o ho
ho--
mem não m anipula mais instrumentos,
instrumentos, o fenôm
fenômeno
eno técnico eem
m geral
não teria lugar
lugar dentre as áreas nobres da cultur
cultura.
a. Assim, se a tekhnè  
grega era a técnica na cultura,
cultura, a técnica mo
moderna
derna seria a cultura sem
técnica ou melhor, contra a técnica.
Contra
Con tra esta visão errônea de separação entre técnica e cultura,
Simondon pretende fundar uma verdadeira “tecnologia” (um logos  
d a tekhnè),  não como ciência aplicada, mas como uma filosofia dos
mecanismos. A esta ele propõe o nome d dee “me
“mecanologia”
canologia” . O mmodo
odo d e .
existência dos objetos técnicos, que
que vai caracterizar a tecnologia
tecnolog ia con-
temporânea, corresponde à uma lógica interna, um caráter genético
do desenvolvime
dese nvolvimento nto das técni
técnicas
cas primit
primitivas.
ivas.
Os objetos são, no começo de sua evolução, dependentes de
uma ação inventiva e primiti primitiva
va dos homens (a fase zoo zoológica);
lógica); mas, a
 paa rt
 p rtir
ir d a fo
form
rm a ç ã o do córt
có rtex
ex,, os ob
obje
jeto
toss té
técn
cnic
icos
os v ã o s e g u ir u m a ló
ló--
gica interna
interna (a inovação de uma peça pode mu mudar
dar completamente os
rumos de evolução de uma um a máquina,
máquina, por exemp
exemplo),
lo), criando um gên gêne-e-
ro.. Assim, na m odernidade,
ro odernidade, o homem não é mais mais verdad
verdadeiramen
eiramente te um
simples inventor,
inventor, mas operador de um conjunto m maquínico
aquínicoss que evo evo- -

luii segu
lu segundo
objetos ndo um a engendra,
técnicos lógica interna própria
então,
então, (a ttecnicidade).
um processoecnicidade).
perm anenAteapariçã
anenteapariçãoo de
de natura-
lização dos objetos e de objetivação da natureza (na construção de
uma segund
segundaa natureza artificial
artificial,, a tecnosfera).
A evolução da espéc
espécie
ie humana é fru fruto
to desse movimento
movimen to perpé-
tuo e infindável,
infindável, sendo a técnica
técnica responsável pela criação da segunda
naturezaa  a cultur
naturez culturaa  num
num proc
processessoo de desnat
desnaturali
uralização
zação do homem.
Os objetos técnicos formam uma espécie de ecossistema cultural,
onde a naturalização
naturalizaçã o do artifício
artifício modifica o meio natural, da mesm a
forma que o meio natural vai impondo limites à atividade técnica
humana. E sta naturali
naturalização
zação de objetos
objetos técni
técnicos
cos im pulsiona um
umaa pro-
gressiva artificialização do homem e da natureza, sendo mesmo
impensável a existência do homem e da cultura fora deste processo.

• A N D R É L E M O S | 33
 

A técnica m oderna segue, assim,


assim, uma lógica evolutiva pró-
 p r i a n a o r g a n i z a ç ã o d a m a t é r i a i n e r t e , c r i a n d o u m a m a t é r i a
. inorgânica orga nizada tendendo à sua própria naturalização naturalização . Po-
demos dizer que a oposição entre técnica, homem e cultura não
tem fundamento. A cultura moderna estaria, segundo Simondon,
deseq uili
uilibrada
brada ao considerar a máquina com o estrangeira à cultu-
ra. Esse
Esse dese quilíbri
quilíbrio o aparece quando a cultur culturaa mo derna reco nhe -
ce o objeto estético
estético (art (arte)
e) no mundo das signifi significaçõe
caçõe s, mas recu sa
e afasta
afasta os objetos técnicos para um mundo à parte, como um sis-
tema autônomo (veremos com Jacques Ellul) completamente fe-
chado, sem estrutura ou significações. Como explica Simondon,
“ a mais fo rte causa de alalienação
ienação no m undo contemporâneo re resi de 
side
nesse desconhecimento da máquina, que não é uma alienação  
causada pela máquimáquina,
na, mais pelo não conhecimento de sua natu
reza
re za e de sua essênci
essência,
a, pela sua ausência do mundo das sign ifi ifica
ca
ções,
çõe s, e pe la sua om iss
issão
ão na tabel
tabela
a de valor es e dos con ceitos que  
valores

 f
 faa z e m Simondon u r a ” para
p a r t e d a cpropõe,
u lt
ltu 32. explicar sua posi
posição,
ção, um a genealogia
da técnica a pa rtir da perspectiva de evol evolução
ução das form as (gestalt ), ), e
da evolução bergsoniana da vida. Simondon compreende a técnica
como uma form a particular que sur surge
ge do confl
conflit
itoo entre o homem e o
mundo, cuja evolução se daria daria por bifurc
bifurcações
ações e desdobrame
desdobramentos ntos su-
cessivos.
cessi vos. PPara
ara Simondo
Simondon, n, a compreensão da genealogia d daa técnica é a
única possibilidade
possibilidade de tomar consciên consciência
cia do modo de existência de
objetos técnicos e de seu papel na cultura contemp contemporânea.
orânea.
Para situarmos o surgimento
surgimento da tecnici
tecnicidade,
dade, devemos
devemo s emempreender
preender
um retomo
retom o ao momen
momento
to onde esta apaparece
arece pel
pelaa primeira ve
vez.
z. Simondon,
influenciado
influenciado pela teoria do élan vital de Bergson, propõe que a gênese da
técnica seja compreendida
c ompreendida com
como o uma forma particular de indivi
individuação
duação
no conflito
conflito homem
homemmundo.
mundo. Para Bergs
Bergson,
on, a técnica é conse
consequência
quência de
uma bifurcação do élan vital.
vital. N
Naa su
suaa “Evol
“Evolution
ution CCréa
réatrice
trice”3
”33
3ele vai vin-
cular a técnica à evolução da vida
vida.. Esta se reali
realiza
za por operações sucessi
sucessi-
-
vas de dissociações e de desdobramentos. A técnica aparece, então, no

fim de múltiplas bifurcações. Para Bergson: “se nonossos


ssos órg
órgãos
ãos sã
são
o instru
mento s natur
mentos naturais,
ais, n
nossos
ossos instrum
instrumentos
entos são órgãos artiartifici
ficiais.
ais. O instru
mento do operário continua seu brbraço;
aço; ofe
oferram entall da humanidade éé,, 
rram enta
assim, um pro
prolon
longa
game
mento
nto de seu cco
o rp
rpoo ”34.
A hipótese genealógicoevolutiva
genealógicoevolutiva de Simondon, influenciada

 V
34  C I BER
B ER C U LT
LT U R A , T EC N O L O G I A E V I D A S O C IA
I A L N A C U L T U R A C O N T EM P O R Â N EA •
 

 p o r B e r g son
 po so n , é q u e a te
tecc n icid
ic idaa d e a p a rec
re c e p a ra r e s o lve
lv e r p rob
ro b lem
le m a s
colocados pela fas fasee primitiva
primitiva da relação
relação homemmundo,
homem mundo, que qu e ele cha
cha- -
ma de fase m ágica. Esta caracteriza
caracterizase se como uma estrutura prétéc prétéc
nica e préreligiosa. Sem distinção entre técnica e religião, a fase
mágica caracterizase por uma vinculação vinculação global do hom homem em ao mun-
mun -
do. Esta unidade mágica primitiva primitiva se constit constituiui po
porr uma relação do
homem ao mundo (do estar no mundo) que é, ao mesmo tempo,

oobjetiva
sujeitoeesubjetiva,
subjet
o objeto.iva, não compreendendo aí nenhuma nenhum a distinção
distinção entre
A origem, ou gênese, da técnica corresponde, então, à um umaa fase
da relação homemmundo
homemm undo engendrada pelo pelo desdobramento,
desdobramen to, a partir
da saturação,
saturação, da fase mágica primiti primitiva. va. E pelo desdobramento
desdobrame nto dessa
 pri
 p rim
m ei
eira
ra esestr
truu tura
tu raçç ã o (a fa
fase
se m ágic
ág ica)
a),, q u e surg
su rgee a d isti
is tinn ç ã o e n tre
tr e fi-
fi -
gura (o objeto) e fundo (religi (religião).
ão). Na fase mágica, figura figu ra e fundfundoo não
se distinguiam
distinguiam no unive universo.
rso. A saturação
saturação da fase mágica m ágica descola
desc ola figura
e fundo, gerando
gerand o duas novas formas de solução desse conflit conflito: o: a for-
ma técnica, que responde aos problemas problema s de figura, e a forma religião,
que se ocupa dos fenômenos de fundo. fundo. Para Simondon,
Simond on, o homem hom em cria
a técnica para resolver os conflitos dos fenômenos da natureza, e a
religião
religi ão para tratar do espírit espírito,
o, do simbólico
sim bólico e do imaginário.
A evolução
evo lução da vida, seu élan  vital, vital, faz com que o universo unive rso má-
gico entre em saturação originando, por duplicação, duas soluções
 part
 pa rtic
icuu lare
la ress p ara
ar a o dra
d ramm a da
d a re
r e laçã
la çãoo ho
h o m e m mun
m undodo.. A técn
té cnicicaa éé,, a s-
sim
sim como
com o a religi
religião,
ão, uma
um a solução particular
particular para a saturação do modo
mágico do homem estar no mundo. A tecnicidade não é nem uma
realidade isolada,
realidade isolada, nem uma realidaderealidade completa, já que é dependente
do modo religioso. Assim, os dois modos de relação homemm hom emmundo, undo,
desdobrados
desdob rados e individualizados
individualizados a partir do modo m odo mágico, são incom-
 plet
 pl etos
os e d e v em b u scasc a r nov
n ovas
as form
fo rmas
as d e con
c onvv ergê
er gênn cia.
ci a. E s sa form
fo rmaa dede
convergênc
conv ergência ia será para
pa ra Simondon efetuada
e fetuada pela estética35
estética35.
É através do pensamento estético estético que os objetos podem reve-
lar sua epifan
epifania ia áuri
áurica,
ca, seu fundo. Assim, o belo não nã o seria uma um a atri-
 buu içã
 b iç ã o d ir
iree ta d o s o b jeto
je toss m as um p o n to sin
si n g u lar,
la r, o c u p a d o e p e r p e -
trado pela experiência. O objeto belo é o bom objeto o bjeto no bom lugar e
no bom momento. O pensamento estético seria, assim, aquele que
vaii tentar reaproximar
va reaproxima r a figura figura do fundo, buscando a origem origem mágica
que não encontraremos jamais. Como explica Simondon, o pensa-
mento estético “...não
...não é uma fase , mais uma lembrança perma nen-
nen-••

E M O S | 35
• A N D R É L EM
 

te da ruptura da unidade do modo de ser mágico e uma busca da  


dade fu tur a ”36.
unidade
uni
É da objetivação do mundo que surge o objeto técnico e, da sua
subjetivação, o pensamento
pensam ento religioso.
religioso. Aparecem o primeiro
prim eiro sujeito e
o primeiro objeto. Sabemos,
Sabem os, por estudos antropológicos e etnográficos,
que o universo mágicoreligioso
mágico religioso estruturase por
po r reticulações em lu-
gares
mentoprivilegiados;
privilegi ados; os
do fundo37. lugares
Para sagrados
Simondon, quelugares
esses participam do reco
reconheci-
nheci-
privilegiados são
 poo n tos
 p to scc h ave
av e (points-clés),  lugar de hierofanias,
hierofanias, com
comoo nos propõe
propõ e o
mitólogoo romeno
mitólog rom eno Mircea
M ircea Eliade3
Eliad e388. A dissolução do modo
m odo mágico
má gico ocor-
oco r-
re quando esses pontoschave
po ntoschave se cristali
cristalizam
zam e se descolam
desc olam do
d o univer-
so global
global ao qual eles aderiam, quando se tomam tom am funcionais
func ionais e instru-
mentais
men tais (mitos e ritos religiosos).
Surgem três tipos de realidade: o mundo, o sujeito e o objeto.
Técnica e religião vão também entrar em saturação exigindo novos
desdobramentos e bifurcações39. Elas vão desdobrarse em figura e
fundo constituindo, respectivamente, novas soluções: tecnologia e
ciência para a saturação técnic técnica;
a; dogma
dogm a e ética para a saturação reli-
giosa, segundo Simondon.
Para a compreensão da evolução dos objetos objetos técnicos na histó-
ri
ria,
a, Simondon
Sim ondon propõep ropõe três níveis
níveis de desenvolvimento: o elem elemento
ento (a
ferramenta), o iindivíduo
ndivíduo (a máquina) e o conjunto (indústrias).
(indústrias). A téc-
nica transform
transformasease em tecnologia a partir ddoo nível
nível dos indivíduos téc-
nicos.
nicos
do, . O nível
como veremos
veremo doss elementos
elemen
adiante,tosa idéia
persiste
persist
idéia dee progresso
atéogresso
pr o século XVIII, introduzin-
contínuo. introd uzin-
O segundo
. nível,
nível, o dos indivíduos,
indivíduos, corresponde ao momento mom ento em que a máquina máqu ina
í toma o llugar
ugar do homem
hom em como
com o manipulador de instrumentos.
instrumentos. E a fase
do controle e domínio da natureza. Aqui estamos no coração da
modernida
mo dernidade de técnicocientífi
técnicocientífica.ca.
O nível dos conjuntos técnicos, a partir da segunda revolução
industrial, caracteriza a era da energia termodinâmica e nuclear. Às
 port
 po rtaa s do sécu
sé culo
lo X X I, ve
vemm os um outr
ou troo pa
p a rad
ra d igm
ig m a de
d e ev
e v o luçã
lu çãoo , o que
qu e
 p ropp o n h o c h a m a r de nível das redes (como interligação de conjun
 pro
tos).
tos ). A cibercultura
c ibercultura aparece e desenvolvese neste nível. nível. Aqui
A qui as meta

( máquinas digitais
digitais (com

os tra N egro
eg ropo
pont
(computadores)

nte,
putadores) não manipulam mais matéria
gia. Agora tratase de traduzir a natureza em dados binários. Como
s*r m ostra e, “os bits ssub
ubstituem
stituem os á tom
to m o s”4
m atéria e ener-

s”40.

36   | C I B ER
E R C U L TU
T U R A , T E C N O L O G I A E V I D A S O C I AL
AL N A C U L T U R A C O N T E M P O R Â N E A •
 

Heidegger
He idegger e a essênci
essência
a da técnica

O hom
h omemem é u umm ser ttécnico
écnico que não se caracteriza apenas pelo
sentido zoológico (LeroiGourhan) ou genealógicogestáltico
(Simondon). M artin Heidegger vai mostrar mostrar,, com ma maestria,
estria, que a con-
cepção instrumental,
instrumental, ou aquilo que el elee chamav
chamavaa de concepção antro-
 poló
 po lóg
g ica
ic a d a té
técn
cnic
ica,
a, n ão p o d e no
noss re
revv e la
larr tto
o d a a e s s ê n c ia d a té
técn
cnic
ica.
a.
A técnica, definida como um saber fazer, uma arte, um meio e uma
atividade produtora (poiètica) do homem, é exata, como vimos, sem
ser necessariamente
necessariame nte a sua verdadeira essência: essência: “o que é exato não é  
ainda verdadeiro",  d  diz
iz H eid
eidegg
egger4
er411.
Como vimos, tekhnè   é  p o i è s i s ,   produção. Por produção
Heidegger compreende
compreend e o processo que revela revela uma verdade, que faz
com que uma coisa passe do estado latente ou ausente à presença.
Produção é  p  poo ièsi s,  que pode ser natural (a  p
iè sis,  ph is ,  o nascimento de
h u s is,
uma flor, por exemplo) ou artificial (a tekhnè,  a construção de uma
mesa)
mes a).. H eideg
eidegger
ger vai explicar que a raiz latina da palavra prod produção
ução
vem de veritas,  verdade. Assim, toda p  po iè s is  é ato de desvelamento
o iès
da verdade, logo toda técnica é um modo de desvelamento de uma
verdade,
verd ade, um modo de desvelamento do humano ao mundo. C Contraria-
ontraria-
mentee à perspectiva instrumental e antropológica, a técnica
ment técn ica não é so-
mente um meio zoológico de evolução da espécie, nem apenas um
modo de evo evolução
lução o originári
riginário o de uma unidade m ágica perdida. E Ela
la éé,,
segundo Heidegger, um modo de desvelamento, um m odo de existên-
cia do hom em no mundo mundo..
As diferenças entre as técnicas técnicas primitivas ou industriais
indu striais não se
situam no nível da p  poo ièsi s,  já que ambas são modos de de
iè sis, desvelamento
svelamento
do ser do hom em no mundo. A diferença entr entree as técnicas primiti p rimitivas,
vas,
ou préindustriais,
préindustriais, e a técnica moderna (tecnologia) está para Heidegge H eideggerr
na fundaç
fundação
ão científica desta últi
última.
ma. O que vai car
caracteriz
acterizar
ar a essência
da tecnologia
tecnologia moderna é um modo de desvelamento baseado na ciên-
cia moderna, originada no século XVII (empirismo, quantificação
matemática, paradigmas newtonianos de sujeito e objeto). Para
Heidegger, o modo de desvelamento (poièses ) da tecnociência mo-
derna é exercido como uma provocação da natureza, através da qual
esta é força
forçada
da a liberar matéria e energia para o livre controle e manu
manu- -
seio
seio humano. A essência da técnica
técnica moderna tem p or base este modo
de desvelamento:
desvelamento: um m odo de produção provocante da natu naturez
reza.
a.••

M O S | 37
• A N D R É L EEM
 

A natureza, desencantada
desenc antada e dessacralizada,
dessacralizada, pode, com o tal,
tal, ser
requisitada como objeto de exploração e pesquisa tecnocientífica. E
nessee modo de desvelamento que Heidegger si
ness situa
tua a dif
diferença
erença fund
funda-a-
mental entre as técnicas préindustriais e a tecnologia moderna. A
essência da tecnologia (a técnica moderna) está no que Heidegger
chamou de Gestell ou o arraisonnement  (dispositivo)42,
  (dispositivo)42, uma provo-
cação científica
cien tífica da nat natureza.
ureza. Em um discurso em 19 1955
55,, Heidegg
H eidegger er ssee
explicava: “nós podem os utilizar as coisas ttécnic écnicas,
as, nos ser
servir
vir nor
malmente
ma lmente mas, ao m esmo tempo tempo,, nos liberar delas de fo rm a que, a  
form
todo momento, possampo ssam os coconservar
nservar uma distdistância
ância em rel
relação
ação a el as.. 
elas
 Nó
 N ós p
poo d e m o s u sa
sarr os ob
obje
jeto
toss técn
té cnic
icos
os co
com m o se dev
deve.
e. M a s p
poo de
dem os,, 
m os
ao mesmo tempo, deixá-los a eles mesmos, como algo que não nos  
atinge naquilo que nós nó s temos de mais ínti íntimo
mo e próprio. Nossa rela

ção
sível.com
sível Nósso admitimo
. Nó mundo técnico
admitimos torna-sttécnicos
torna-se
s os objetos e marav
maravilhosamente
écnicos ilhosamente
no nosso
nosso mundosi
simp
m undomples
les e p la
lau
quotidiano u  
e ao mesmo
m esmo tempo nós os deixamos de fora. Isso signi fica que nós os 
significa
deixamos
deixam os rrepousar les mesmos como coisas que não têm nada  
epousar sobre eeles
de absoluto, mas que dependem de algo maior do que eles. Uma  
velha
velh a palav ra se oferec
oferecee a nós para designar es esta atitude de sim e de  
ta atitude
não ditos em conjunto
con junto ao mundo técnico: é a pa palav
lavra
ra ‘ge lass en he it’,, 
heit’
‘serenidade', ‘igualdade da alma ” ’ 43
A visão bíblica já legiti
legitimava
mava o crescimento e a multiplicação da
espécie pela dominação da nature
natureza,
za, pela potênc
potência
ia humana. No en -
tanto, é a partir de filósofos como Francis Bacon e René Descartes
que o homem,
home m, com o centro do uni
universo,
verso, ganha legit
legitimidade
imidade para agir
sobre o mundo de forma racional e científica. Para Bacon, um saber
só é válido se ele tem como co consequência
nsequência atividades
atividades ou prod
produtos
utos prá-
ticos. Ele sela a máxima “saber é poder”. René Descartes, por sua
vez, afirmava a razão autocentrada do homem ( cogito ergo sum ),
onde este passa a se
serr o centro do universo int
inteligí
eligível;
vel; ele é o cen
centro
tro de

todo gênio e de toda arte de modificar a natureza a partir da razão


científica e da intervenção tecnológi
tecnológica.
ca. O h
homem
omem racional tem, a par-
tir do século XV
XVII,
II, o po
poder
der de ser o senhor da verdade, portador do
ato cognitivo puro, afastado de toda e qualqu
qualquer
er supersti
superstição,
ção, eesta
sta con-
siderada agora com o epifenômeno do espírit
espíritocrenças,
ocrenças, tradições, re-
ligiões, imaginário.
O Gestell  é, para Heidegger, a forma que a técnica moderna
tem para arraisonner  a natureza e tornála um dispositivo
dispo sitivo livre para a

38  | C I B E R
RCC U L T UR
U R A , T E C N O L O G I A E V I D A S O C IA
IA L N A C U L T U R A C O N T E M P O R Â N E A •
 

man ipulação humana. Assim, o Gestell, a essência da técnica moder-


manipulação
na, não tem nada de técnico. Ele revelase antes do surgimento da
técnica moderna, com a Revolução Industrial inglesa do século
sécu lo XVIII.
Heidegger preconiza a tecnociência moderna em pleno século XVII
com a funda
fundação
ção da ciência (físi (física)
ca) moderna,
m oderna, cartesiana e newtoniana.
É a física moderna que prepara o terreno para o surgimento da
tecnologia moderna. Aparece A parece assim, pelapela primeira vez na história ddoo
homem, uma um a atividade técnica sendo result resultante
ante de uma ciência
ciên cia aplica-
da, tom
tomando
ando a natureza como campo de requisição e controle.
A tecnologia moderna
m oderna nada mais é que a concretização
concre tização dos pla- pla -
nos dessa  Bi Big
g Sc ie n c e , marcando o surgimento de uma
S c ien um a forma
form a técnica,
a tecnologia, de uma forma sociocultural, a tecnocultura, e de uma
forma ecológica, a tecnosfera. A tecnologia, ou a tecnociência mo-
derna, é resultado do casamento entre a ciência e a técnica num pro-
cesso de cientifização da técnica e de tecnização tecnização da cciência
iência (Ba
(Bartholo
rtholo
Jr.)
Jr.).. A tecnologia
tecnolog ia moderna é a tecnociência tornandose autônoma autôno ma e
instrumental sendo, na maioria das vezes, associada a projetos políti-
cos tecnocráticos e, como tais, futuristas e totalitários.
 Naa m o d erni
 N er nidd ade,
ad e, é toda
to da a tecn
te cnic
icid
idad
adee h u m a n a q u e v ê se
s e re
redd u -
zida à pura inst
instrumentalidade
rumentalidade da tecnociência, autônoma, autônom a, racionalis
ra cionalista ta
e objetiva.
objetiva. NãoNã o é à toa que essa mesma mesm a tecnologia vai ser rotulada de
fria, artificial, oposta a toda e qualquer realização nobre do espírito
humano4
hum ano444. Com
Co m a tecnolog
tec nologia
ia moderna,
mode rna, afirma
afirm a Heidegger,
Heide gger, é o próprio
próp rio
destino
dest ino do homem
hom em no mundo
m undo que está
está em jogo,
jogo , transformando o seu
modo de existência num desvelamento enquanto provocação científi- científi-
ca da natureza para uso meramente instrumental. O Gestell,   como
destino do ser do homem no mundo m undo seria
seria,, para Heidegger, o perigo
supremo da moderni
m odernidade.
dade. O perigo não é de ligar
ligar o homem às máqui-
nas,, mas a essa forma
nas form a específica
específica de estar no mundo. Para
P ara Heidegger,
H eidegger,

sua essência. E a essência da técnica, enquanto um destino de   


“não existe n
nada
ada d
dee demoníaco
demo níaco na técnica,
técnica, m as existe o m istério de

desvelam ento, que é o pe


p e ri
rigg o ”45.
Citando o poeta alemão Hõlderlin,
Hõlderlin, Heidegger
H eidegger mostra
mo stra que é nes-
se perigo, no centro da essência da técnica
técnica moderna, que
q ue cresce aqui-
lo que aniquila
aniqu ila e o que também pode nos salvar.
salvar. O Gestell é, ao mes-
mo tempo, Geschick  (destino)
  (destino) e Gefahr  (perigo).
 (perigo).
Em 1969
1969 Heidegger se pronuncia maismais uma vez sobre
sob re a técnic
técnica:
a:
“eu não so
souu contra
c ontra a técnic
técnica.
a. Eu nunca disse nada
nad a contra
co ntra a técnica•
técnica •

M O S | 39
• A N D R É L EEM
 

ou contra seus aspectos demoníacos; eu quero, simplesmente, com


 prr e e n d e r a eess
 p ssêê n ci
ciaaddaa téc
técni
nica
ca.. (..
(...)
.) O q
que
ue eu ve
vejo
jo na té
técn
cnic
ica,
a, na su a 
sua
essência,
essênci a, é que o homem se suj sujeitou
eitou a um po de derr qu
quee o desafia ef ace 
efa
ao qual ele perde sua liberdade, que alguma coisa se anuncia aí,  
uma relação do ser se r do homem. E que a rel relaçã
açãoo que é escon dida na  
escondida
essência
essên cia da técnica poderá, tal talvez,
vez, um dia apa aparece
recerr em ple
plena
na lu z. Eu 
luz.
ignoro se isso acontecerá. Consequentemente, eu vejo na essência da 
técnica a prim eira aparição de alguma coisa de muito profundo, que 
primeira
eu cha
chamo mo de dispo sitivo ’ ” 46.
dispositivo

Historicamente podemos dizer que a técnica precedeu a ciêncciência.


ia.
A técnica foi, durante séculos, impulsionada por tentativas e erros, sem
necessariamente ter nenhuma explicação
explicação teóric
teóricaa cientifícamente con
con--
trolável. Vimos que a técnica é constitutiva do fazer humano e que,
durante a fase zoológica, como mostraram os trabalhos de Leroi
Gourhan,
Gou rhan, Stiegle
Stieglerr e Simondon, a técnica ttem
em um papel vital na form
forma-
a-
ção da espécie humana, onde não sabemos ao certo quem é o inventor
e o inventado. Depois, vimos como a técnica se vê investida por um
discurso filosófico, enquadrada no campo da tekhnè  como atividade
(poiètica) nascida da confrontação entre o homem e o ambiente.
A partir
pa rtir d
do
o sé
século
culo XVII, a atividade técnica vai estar ligada ao
conhecimento científico. Este processo vai culminar no século XX,
com os Centros de Pesquisa e Desenvolvimento
Desenvolvimento (P&D(P&D)) determinando
a junção definitiva da ciência com a técnica. Podemos dizer que a
técnicaa préhistóri
técnic préhistóricaca é produt
produtoo de uma experiência empírica do mun-
do, sem necessidade
neces sidade de explicações científ
científicas
icas (as pri
primeiras
meiras fe
ferrame
rramen-
n-
tas,, instrumentos e máquinas). A técnica é o fazer ttransfo
tas ransforma
rmadordor hu-
mano quequ e prepara a natur
natureza
eza à formação da espécie e da cultura hu-
mana. Ela é uma provocação da natureza gerando um processo de
naturalização dos objetos técnicos na construção de uma u ma segun
segunda da na-
tureza povoada
povo ada de matéria
m atéria orgânica, de matéria iinorgâ norgânica
nica e de ma maté-té-
ria inorgânica organizada (os objetos técnicos).
A técnica moderna, ou o que chamamos hoje de tecnologia, é
 pro
 p rod
d u to d a ra
radd ic
icaa li
liza
zaçç ã o d e ss
ssaa seg
se g un
unda
da na
natu
ture
reza
za,, d a n atu
at u ra
rali
lizz a ç ã o
dos objetos técnicos e da sua fusão com a ciência. Não sabem os mais
onde com eçam e onde terminam a ciência e a técnica. Estamo Estamoss aqui
no coração da modernidade. Aqui, a natureza e a vida social serão

requisitadas como objetos de intervenções tecnocientíficas. Como

40 C I B ER
E R C U L TU
T U R A , T E C N O L O G I A E V I D A S O CI
C I AL
AL N A C U L T U R A C O N T E M P O R Â N E A •
 

mostra Stiegler, “este mundo extensivoextensivo ao plan


planeta
eta é aq uele onde a  
aquele
ciência e a técnica ocidentais têm atado uma nova nov a relação —mun mundodo  
da tecnociência”41.
Com
Co m o advento da tecnologia moderna, as contradições do fenô- fenô -
meno técnico alcançam seu clímax. A ação técnica humana mudou a
natureza
nat ureza,, transformando
transformandoa a em umuma'
a' tecnosf
tecnosfera!
era! como também a na nature-
ture-
za do homem, associando o potenci potencialal inventivo humano, ao potencial
destrutivo
destruti vo da técni
técnica.
ca. A mmodernidade
odernidade nos mostrou o lado perv perverso
erso do
desenvolvimento
desenvolvi mento tecnológ
tecnológico.
ico. A tecnolo
tecnologiagia moderna tomase
tomase,, assim, o
inimigo
inimigo público n núme
úmeroro e, como tal,
tal, passa a ser excluída das áreas no-
 bres da
d a cu
cultu
ltura
ra.. A te
tecn
cnoc
ocul
ultu
tura
ra m
mod
oder
erna
na m
mos
ostr
traa su
suas
as g
gar
arra
ras,
s, se
send
ndoo for-
fo r-
mada por um
u m a tecnociência autônoma, universal e totalitár
totalitária.
ia.••
• ANDRÉ LEM
LEMOS   41
 

C a p í t u l o   II
O F E N Ô M E N O T E C N O L Ó G I C O AT
A T R AV
A V ÉS
É S D A H IS
I S T Ó RI
RIA

Vimos os conceitos de íekhnè, técnica e tecnologia e devemos


agora ten tar rretraçar,
etraçar, rapidamente, a evolução h
histórica
istórica dos sist
sistemas
emas
técnicos para um a melhor compreensão dos des desafios
afios contemporâneos
da cibercultura
cibercu ltura nascente.
A história da técnica, como nos propões B. Gille, é um a disci-
 p lin
 pli n a q u e te
temm p o r o b je
jeti
tiv
v o e st
stuu d a r a ló
lógi
gica
ca e v o lu
luti
tiv
v a d o s sist
si stee m as
técnicos através de inovações e invenções de ferramentas, instrumen-
tos e máquinas ou, na terminologia de Simondon, elem elementos,
entos, indiví-
duos, conjuntos.
conjuntos. A fim de evitarmos um umaa hist
história
ória basicamente ou uni-
camente
cam ente tecnicista, devemos coloca colocarr em destaque, també também, m, as inter
relações dos sistsistema
emass técnicos e socia sociais.
is.
A própria
p rópria separação desses domíni domínios os já é problemáti
problemática, ca, já que

todo sistem
sistemaa técnico só faz senti sentido do em meio a um determdeterminadoinado corpo
social. Sabemos que cada sistema técnico é expressão de relações
específicas entre a ciência, a filosofia, a sociologia, a economia e a
 po
 p o lí
líti
ticc a 48. Bu
Busc
scaa rem
re m o s, a p
paa rt
rtir
ir de um
umaa rá
ráp
p id
idaa h
his
istó
tóri
riaa d
daa té
técc n ic
icaa , v
vis
is-
-
lumbrar
lumb rar os simbolismos que esta assume em épocas distintas até che che- -
garmos à contemporaneidade. Ligado à complexidade das culturas,
todo sistema técnico é marcado por po r incoerênci
incoerências,as, bloqueios, pa parado
rado- -
xos e conflitos, da antigii a ntigiiidade
idade aos nossos dias dias..

 Ass origens
 A orig ens pré-his
pré -históric
tóricas
as

Com o vimos, a origem do homem coincide com a orige


Como origemm da técn
técnica.
ica.
De acordo com B. Gille, os primeiros sistemas técnicos instauramse a
 partir de dois motiv
motivos
os principais: a potência
potênci a dos Deuse
Deusess e a imita
imitação
ção da
natureza.
natu reza. A técnica é, nesse momento, um
umaa arte,
arte, designando uuma
ma ativi
atividade
dade
 práticaa manual e material, de orige
 prátic origemm divina. A técnica préhistó
préhistórica
rica nasce,
assim, como desvio e imitação da natureza, segundo moldes cedidos por

deuses ancestrais.
ancestrais. A mitologia grega está cheia de exemplos desdesta
ta potência
divina.
divina. O ho
home
mem m toma
tomase
se um invent
inventor,
or, um demiurgo, profana
profanadordor do uni-
verso sagrado,
sagrado, se
sendo
ndo aquele que “não
nã o rec
receb
ebe
e mais, el
elee inve
in ven
nta
ta”
”49-.

42  CIBERCU
CIBERCULTUR
LTURA,
A, TECNOLOGI
TECNOLOGIA
A E VIDA SOCIAL NA CULTURA CONTEMP
CO NTEMPORÂNEA
ORÂNEA •
 

 N a b if
 Na ifuu r c a ç ã o d o u n ive
iv e rso
rs o m á g ico
ic o p rim
ri m itiv
it ivoo , p r o p o s to p o r
Simondon, a técnica separase da religião, religião, sem perder, nesse mom en-
to, as referências ligadas ao sagrado sagrado.. Estamos
Estam os aqui no centro do pri- p ri-
meiro desdobramento
desdobram ento do universo mágico, onde técnica e religião se
separam, mesmo mantendo ainda um forte elo de recorrência. O sa-
grado e o profano se estabelecem. O primeiro como qualidade do
mundo (fundo) e o segundo como o mundo concreto, onde o homem
 pod
 p odee a g ir atra
at ravv és de seus
se us in
inst
stru
rumm ento
en toss (fig
(f iguu ra)5
ra )500. Na
N a o rig
ri g e m p réh
ré his
is--
tórica da técnica, o sagrado tornase lugar do interdito, do respeito e
daratransgressão,
 pa
 para os p rob le m a sjáde
ro b lem d que
e fig a técnica
f igur
ura)
a) mas, ém
ma s, tam
ta vinculada
bém p oao
bé m , à po tê nprofano
tên c ia divi (soluções
di vina
na.. A co
c on-
tradição
tradi ção e o paradoxo sagrado/profano
sagrado /profano estão na origem do fenômeno fenôm eno
técnico e, como com o veremos
verem os adiante,
adiante, permanecerão
perma necerão até os dias dias de hoje.
O m odelo da técnica préhistórica
préhistórica é o da fase mágica má gica proposta
 poo r S im o n d o n . E s t a f a s e c a r a c t e r i z a  s e c o m o u m a té c n i c a d e
 p
sacralização, de acordo com Miguel e Ménard51. Aqui, o universo
técnico não é autônomo autônom o frente à natureza ou às esferas da vida soci- s oci-
al. A técnica é, ao mesmo tempo, um instrumento profano (trans-
gressão da ordem da natureza) natureza) e potência
potência mágica m ágica e simbólica
sim bólica (trans-
formação do mundo). Consequentemente, o objeto técnico, preso a
este esquema de transgressão será, para sempre, depositário de um
medo e de uma u ma fascinação que nos perseguem até os dias de hoje. É,
sem sombra de dúvida, o que vivemos na cibercultura, cibercultura, já que a ccivi-ivi-
li
lização
zação concontemporâne
temporâneaa mistura temor e deslum deslumbrambramento
ento pelos ob-
 je
 j e to s téc
té c n i c o s 52.
Este sentimento ambivalente
ambivalente caracteriza
caracteriza o que Miguel e Ménard M énard
cham am de “astúcia
chamam “astú cia tecnicista” do homem nas origens. A vida social social
era fechada numa rede de técnicas técnicas mágicas, e não existia um univer- u niver-
so técnico independente da vida social. social. O fim econôm
econô m ico e o esfor-
ço técnico eram secundári secundários os em relação ao imperativo de estar no
mundo.
mund o. M. M auss e J. Ellul5 Ellu l533 mostraram
mo straram como, com o, nesta
n esta fase, a magia
 poo d e s e r c o n s ide
 p id e r a d a u m a téc
té c n ica
ic a , talv
ta lvee z a téc
té c n i c a p o r e x c e lê
lênn c ia
das sociedades tradicionais. A técnica sagrada (magia) pode ser
traduzida como um desejo do homem primitivo primitivo em obter respostas respostas

de fundo,
como já que os
c oncebem
concebem este nunca
nun
hoje.
hoje . Ocapensamento
ligou
ligou seu destino
mágicoaoreligioso,
progresso
progre
reli ssoque
gioso, técnico,
funda
as primeiras
primeiras técnicas,
técnicas, é o oposto
oposto do que compreendemos
compreendem os com o ra-
zão instrum
ins trum ental
en tal m odern
od erna5
a544.•

• ANDRÉ LEMO
LEMOSS | 43
 

 A s pr
prim
imei
eira
ras
s civiliza
civi lizaçõe
çõess e os gregos
gre gos

A revolução
revo lução do Neolítico
Neolítico (entre 8.000 e 5.000
5.000 a.C.)
a.C .) vai criar as
 pri
 p rim
m eira
ei rass c ivil
iv iliz
izaç
açõõ e s e um prim
pr imei
eiro
ro sist
si stem
emaa técn
té cnic
icoo d esen
es envv olvi
ol vidd o ,
aparecen do entre o quarto e o terceiro
aparecendo terceiro milênio
milênio às margens do Medi-
M edi-
terrâneo. Entramos na história.
Com as primeiras civilizações,
civilizações, surgem sociedades estruturadas
a partir de um
u m pode
p oderr hierarquizado,
hierarquizado, do crescimento
crescimento das primeiras ci-

dades
vimento e impérios, do surgimento
dos transportes, da metal da escrita
m etalurgia
urgia e da(3.500
(3. 500daa.C.),
arte do desen
guerra. desenvol-
vol-
Essa con
con--
 junn tur
 ju tu r a vai
va i form
fo rm a r o ppri
rim
m eiro
ei ro siste
si stem
m a técn
té cnic
icoo c oere
oe rent
ntee d a h u m anid
an ida-
a-
de, segundo
segu ndo os historia
h istoriadore
doress Gille5
G ille555 e Daum
Daumas. as.
 Noo e nta
 N nt a nto
nt o , o Egit
Eg itoo co
conhnhec
eceu
eu um verd
ve rdaa d eiro
ei ro sist
si stee m a técn
té cnic
icoo
sem, necessariamente, ser efetivamente inovador; e, quanto aos de-
senvolvimentos
senvolvim entos e invenções técnicas,
técnicas, os historiadores
historiadores notam uma certa
limitação.
limi tação. Gille explica que, de uma certa maneir m aneira,a, o desenvolvimento
desenvo lvimento
de uma civilização fechada fech ada e muito bem estruturada inibia as inova-
ções tecnológicas.
Já o sistema técnico grego é elaborado a partir do sexto século
antes da nossa
n ossa era, nas ilhas
ilhas Jônicas,
Jônicas, onde o progresso não é global 
não há grandes inovações em relação à civilização egípcia e estão,
lado a lado, técnicas novas e técnicas artesanai
artesanais.
s. A ev
evolução
olução é quase
qu ase
imperceptível, existindo o que G Gill
illee chama de bloqueio técnico. Nes-
N es-
se momento,
mom ento, o nascimento
nascimen to da filosofi
filosofia,a, como vimos, exerce umu m a in-
in-
fluência muito
m uito grande. Segundo o historiador
historiador,, o bloqueio grego
g rego é de-

vido àa ciência,
nica três fatores
fatore
os slimites
liprincipais:
mites da ciência1. ao asassociar,
sociar,
grega pelaam
poderí
poderíam primeira
prim eira vez,
limitar o nívela téc-
do
desenvolvim
desen volvimento ento técnico; 2. 2. o sistema escravocrata pode ter sido um
dos fatores do bloqueio, já que, dispondo de escravos, os desenvolvi- desen volvi-
mentos técnicos não seriam fundamentais; 3. 3. a desconfiança
desconfian ça e o des-
 prez
 pr ezoo d a fifilo
loso
sofifiaa d e P latã
la tãoo e A ririst
stót
óteleles
es em rela
re laçã
çãoo à tekhnè, como
vimos, pode ter te r llimitado
imitado o progresso técnico. técnico. Para Gille, a explicação
mais convincente seria o incipiente incipiente desenvolvimento da ciência grega
que não
nã o permitia o desenvolvimento técnico. técnico. Já para Miguel
M iguel e Ménard,
M énard,
a causa
cau sa situase na visão v isão filosó
filosófica
fica da técnica5
técnica 56.
 Noo e nta
 N nt a nto
nt o , é n a c ivil
iv iliz
izaç
açãã o h e lêni
lê nica
ca que
qu e nasc
na scee u m a p rim
ri m e ira
ir a
 pre
 p reoo c u p ação
aç ão e m a c h a r expl
ex plicicaa ções
çõ es ra
r a cio
ci o na
nais
is em rerela
laçç ã o à c iên
iê n c ia e à
técnica. É a ppar artir
tir do sécu
séculolo V a.C. que a técnica técn ica vai, ppou ouco
co a*pouco,
pouco ,

44  | CIBERCULT
CIBERCULTURA,
URA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL N A CULTURA CONT
CONTEMPOR
EMPORÂNEA
ÂNEA •
 

sendo laicizada
laicizad a e dessacral
dessacralizada.
izada. Os prim
primeiros
eiros filósofos, os ph si c o is  
 p h y sic
 p rés
 pré soo cr
crát
átic
icoo s (T
(Tha
hale
less d e M ile
ileto
to,, H er
erác
ácli
lito
to,, P it
itág
ágoo ra
ras)
s),, v ão se ininteter-
r-
rogar sobre as causas materiais da natureza. Os deuses detêm ainda
um grande papel na estrutur estruturação
ação do universo simbólico, mas a técnica
 paa ss
 p ssaa d e u m e ststad
adoo d e m er
eraa in
intu
tuiç
ição
ão a um no novovo e sta
st a d o d e in
invv e stig
st igaa -
ção, de demonstração, sendo investida pelo discurso filosófico, a
tekhnè.   Um a incipi
incipiente
ente ciê
ciência
ncia gre
grega
ga está nascendo com o desenvo desenvol- l-
vimento
vime nto da ma matemática,
temática, d daa geom etria e da aritm aritmética5
ética57 7.
Pa ra J
Para JP.
P. Vernant5
Vernant58 8, são os sofistas
sofis tas quequ e efe
efetua
tuam m os p prim
rimeiro
eiross
esforços para desenvolver um pensamento técnico na Grécia, com
seus manuaisreceitas. Estes, são normas práticas sobre a moral, a
 polít
 po lític
ica,
a, a eecc o n o m ia e a re
r e li
ligi
gião
ão n u m a ppee rs
rspp ec
ecti
tiv
v a in
inst
stru
rumm e nt
ntal
al.. E m -
 bo
 b o ra a in
indd a m a rcrcad
adaa p el
elaa o rdem
rd em re
reli
lig
g io
iosa
sa ou m íti íticc a , a té
técc n ic
icaa e n tr
traa
aqui,, no m
aqui momento
omento de dessacralizaç
dessacralização, ão, sendo investida por um umaa enquete
filosófica, inscrevendose também na luta pelo poder, mais precisa-
mente na n a arte da guerra. A técnica se desenvolve ainda a inda em relação à

uma natureza plena de segredos, como nos primeiros momentos da


humanidade,
human idade, mas ela é, pouco a pouco, dessacralizada pe pela
la busca de
explicações
explicaçõ es racionais
racionais..
Ainda longe do humanismo do quattrocento , a técnica especi-
alizase e tende a tomarse uma atividade meramente profana e ins-
trumental. A cité  grega
  grega se estabelece,
estabelece, não mais sobre um autoridade
religiosa, mas sobre o império do logos. Nesse sentido, é na Grécia
clássica que a técnica,
técnica, na sua acepção moderna, é gestada. A civiliza-
ção grega é a primeira a exercer uma atividade racional e filosófica
coerente,
coerent e, mesmo que esta ati
atividade
vidade não seja ai
ainda
nda compreendida
com preendida como
motor do desenvolvimento de uma atividade prática. A racionaliza-
ção das atividades práticas não está ligada
ligada à uma ciênc
ciência
ia experim en-
tal,, com o con
tal conhece
hecemomoss hoje com a tecnociên
tecno ciência
cia m
mode
oderna5
rna59
9.

O Império Romano

A partir
pa rtir do primeiro século ant
antes
es da nossa era, os romano
romanoss em -
 p reee n d e m um p ro
 pre rocc e ss
ssoo ra
radi
dica
call d e ex
expp a n sã
sãoo e c o n q u ista
is tas.
s. A nt
ntig
igos
os
agricultores, eles vão, com a conquista de novos territórios, conhe conhecer
cer
novas técnicas e adquirir conhecimentos dos povos dominados. Os
romanoss assim
romano assimilam
ilam novas técnicas e vão est estendêlas
endêlas p por
or todo o impé-
rio, sem ser necessariamente inovadores.
inovadores. Existe assimilação, m mas as pouca
pouca••
• ANDRÉ LEMO
LEMOSS | 4 5
 

inovação. Mesm
M esmoo se a agricultura conhece algum pro progresso,
gresso, os histo-
riadores não sabem ao certo se esse desenvolvimento se deve aos
gregos, aos povos bárbaros
b árbaros ou, enfim, aos romanos.
Se em relação a equipamentos (ins
(instrume
trumentos
ntos,, ferramentas, mmáqui-
áqui-
nas) os rom
romanos
anos são conservadores, a grande invenção
inven ção destes situase no
campo da energ
energia
ia e d
daa administ
administração,
ração, incluindo aí o direit
direito,
o, a arquitet
arquitetura
ura
e a urbani
urbanização,
zação, famosa p por
or seus aquedu
aquedutos
tos e pela gestão administrat
administrativaiva
das cidades.
cidades. C Como
omo povo guerguerreiro
reiro,, os romanos desenvolveram algumas
ferramentas
ferramen tas e máq
máquinas
uinas de guerra, assim como alguns tratados técnicos.
Mas, como
co mo n nota
ota B
B.. Gille, o império não conheceu engenh
engenheiros
eiros e técnicos
remarcáveis: “...a sua genialidadefo i ter combinado todas estas técnic as  
técnicas
e de utilizá-las até seus limites mais extremos...”60.
A civilização romana desenvolveu técnicas sociais, o direito
romano e a administração urbana, não apresentando inovações radi-
cais em relação ao sistsistema
ema técnico gr grego.
ego. D
Daum
aumas6
as61 assinala q
que
ue essa

organização social
social,, sem
mação, pela primeira vezgrandes inovações
na história técnicas,
da técnica, vaicon
de um ajud
ajudar
ar a for-
conjunto
junto ho-
mogêneo
mogê neo se difundindo através do mundo conhecido da época.
A estabili
estabilidade
dade técnica do ImpériImpério o Romano será a causa de um
movimento
movim ento inovador, lento e fraco
fraco,, mas constituirá uma fo forte
rte organi-
zação social e administrativa. Como afirma Gille, Gille, “a novidade téc nica  
técnica
é semp
semprere gerado
geradorara de conf
conflit
litos.
os. Uma organização bem orden ordenada vivee  
ada viv
necessa
nec essariam
riamente
ente so
sobre
bre téc
técnica
nicass iim
m ut
utáv
áveis ”62. Esta estabilidade
eis” estabilidad e vai ser
mantida
man tida do séc
século
ulo VII até o sécul
século o XVII. Assim, influenciado
influen ciado pelos
gregos, o simbolismo
simb olismo da técnica no Império Roma
Romano
no vai situarse no
mesmo registro, isto é, como atividade profana ligada ao medo da
transgressão da ordem
orde m divina.

Idade Média

O período que compreende a segunda metade do século XII at


atéé
o século XIV, longe de ser unicamente caracterizado como a idade

das trevas, foi uma


um a época de intensa
intensa ati
atividade
vidade técnica. N
Noo sécu
século
lo XII
XII,,
a população
populaçã o aum enta consideravelmente e o feudalismo se insta
instala,
la, as
Cruzadas abrem as portas do Oriente e o comércio de técnicas se
mantém até o século XIII. No século XIV, as tensões sociais apare-
cem com crashes  financeiros, epidemias e guerras intermináv
crashes financeiros, intermináveis,
eis, cri-
ando tensõ
te nsões
es qu
quee irão en
enfraq
fraquec
uecer
er as inovaç
inovações6
ões63
3.

46  CIBERCU
CIBERCULTUR
LTURA,
A, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL N A CULTURA CONTEM
CO NTEMPORÂN
PORÂNEA
EA •
 

O misti
misticismo
cismo e a contemplaç
contemplação ão medieval estestão,
ão, certamente, pre-
sentes
sent es e d
detêm
etêm uumm papel fundamental nesse enfr enfraquecimento.
aquecimento. E ntre-
tanto,
tant o, o espírito cont
contemplativo
emplativoreligi
religioso
oso está longe de ser geral. Com
Como o
explica
exp lica Gillle, “à pa rte a
alguns
lguns exemplos ra raro
ros,
s, existem ap
apena traços  
enass traços
desse desprezo pelapelass té
técnicas evocado”” 64.
cnicas frequentem ente evocado
A técnica é, nesse período, elemento de reflexão, ao ponto de
Gille propor
propo r a existência
existência de uma “técni
“técnica
ca didáti
didática”,
ca”, onde a ciência
começa
com eça a sentir nece
necessi
ssidade
dade da técni
técnica
ca e a técnica da ciência, instau-
instau-
rando o germe da modernidade
mode rnidade tecnocientí
tecnocientífíca.
fíca. O emp
empirismo
irismo pass
passaa a
ter seu lugar no desenvolvimento de uma tecnologia ou, ao menos,
aparece como uma preocupação quanto à refl reflexão
exão ordena
ordenadada e sist
siste-
e-
mática
má tica da técnic
técnica.
a.
A utilização
utilização da energia é capit
capital
al para o sist
sistem
em a técnico m edi-
eval.. O grande m érito
eval érito desta época está na disponibili
disponibilidade
dade crescente
da energ ia uti
utilizada.
lizada. A utilização das energias hidráu lica e eólica é, é,
sem sombra de dúvida, a grande inovação medieval (o moinho a
vento é implantado na Europa no século XIII). O maquinismo e o
automa ti tismo
smo são bast
bastante
ante conhecidos nesta época, onde os relógios
e as novas máquinas de guerra fazem furor. O aperfeiçoamento na
utilização do metal permite o começo de uma atividade industrial,
ainda que incipiente, no começo
com eço do século XII, passando a indústria
têxtill p
têxti por
or algum m elhoramento
elhorame nto já no século seguint
seguinte.
e.
Agora, todos os elementos que preparam a modernidade estão

colocados:
colocado
matem s: uma sistema
ática, divisão técnico baseado
do tempo, no
o espí
espíritempirismo
rito
o co e na
conquistad orquantificação
nquistador quantificação
da natureza,
onde a técnica tornase laica e secul
secularizada
arizada.. E
Esta
sta profanaç
profanação
ão radi
radical
cal
da técnica devese portanto a trê
trêss fator
fatores:
es: a difusão e ba
banalizaçã
nalização o das
técnicas conhecidas, a urbanização e o desendesenvolvime
volvimento
nto dos métiers
métiers  
nas corporações
corporaç ões de ofício
ofício..
O sistema técnico não será mais constituído sobre a codagem
sagrada de m edo de transgressão, passando a ser articulado em torn torno
o
de uma “escatologia
“ escatologia do social”” (Miguel e Ménard) onde,
d o progresso social
 p elaa p ri
 pel rim
m e ir
iraa ve
vez,
z, “ a técnica não remete mais à natureza (...) mas ao  ao 
 prr ó p r io s e r h um
 p umanano.
o. A té
técn
cnic
ica
a ten
te n de a se a n tro
tr o p o m o rfiz
rf iza is  
a r ou, m a is 
antropocentrar”65. Passamos do paradigm a clássi
exatamente, a se antropocentrar”65. Passamos clássico
co
de astúcia com a naturez natureza,a, para uma simbologia medieval q que
ue prepara
a modernidade
modernida de ao exercício de uma ast astúcia
úcia antropocêntrica da técni-
ca. Nasce, aqui, um novo código de conduta que vê na técnica um• um •

• ANDRÉ LEMO
LEMOSS | 47
 

instrumento de transformação radical do mundo, passando a ser m es-


mo a condição ontológica de uma “escatologia do progresso”.
A evolução do conjunto ttécnico
écnico medieval será marcada
ma rcada po r um
relaxamento progressivo da codificação simbólica tradicional, favo-
recendo
recend o um a nova on
onda
da de desenvolvimento téc
técnico.
nico. Passa a ex
existir
istir a

“adoçã
adoção o de um poponto
nto de vist
vista
a mais funcion
funcional, das  
al, racionalização das
técnicas,
técnicas, emergência de uma nova ordemordem onde a medmedida
ida quantitati
qua ntitati
va se reve
revelará
lará de
determ
term ina
inante
nte”
”66.

O Rena
Renasci
sciment
mento
o

Sob o ponto de vista da evolução das técnicas, o Renascim Renascimento ento


será conhecido
conhec ido como a era do maquinismo. maquinismo. Segundo historiadores,
essa época pode ser considerada como aquela que implantou um
 prr o g r e s s o c o n s i d e r á v e l e m r e l a ç ã o às té c n i c a s m e d i e v a i s . O
 p
surgimento
surgi mento do siste sistema ma “biela
“bielaman
man ivela” va vaii p roporciona r um a ver-
dadeira revolução maquínica cuja performance performance estava limitada à uti-
lização da madeira. O maquinismo do Renascimento será, então,
formado r de uma sis sistema
tema técnico demandante de energia, fazendo
do século XV o terreno de uma primeira revolução formada pela
tríade bússola, pó lvora e iimprensa. mprensa.
Aparecem
Ap arecem tam bém alguns manuais técnicos técnicos,, principalm
principalmente ente na
Itália do norte e no sul da Alemanha, demonstrando que o espírito
tecnológico entrava em cena. Como explica explica Gill Gille,
e, “...é um novo
no vo sis
tema técnico que nasce, na medida em que todas invenções  
todas as nova s invenções
são co
com
m plem ent
entare
aress um
umasas das ooutr
utras”
as”6 61.
 No
 N o e n ta
tann to
to,, m a is q u e u m a re
revv o lu
luçç ã o p u ra
ramm e n te té
técc n ic
icaa , o
Renascim
Ren ascimento
ento vai caracterizarse como uma radical revolu revoluçãoção na ra-
zão, uma revolução epistemológica que prepara o imaginário social
 para
 pa ra o surg
su rgimimee n to d a m ododer ern
n id
idad
ade.e. AqAqui
ui ra
radd ic
icaa li
lizz a s
see a fafasc
scin
inaa ç ã o
 pelo
 pe lo e sp
spír
írit
itoo d e d e sc
scoo b e rt
rtaa c ien
ie n tí
tífi
ficc o, a po
potê
tên
n cia
ci a d a ra razz ã o p rá
rátic
ticaa , a
crença no ser humano como reordenador do cosmo pela ação tecno
científica,
científi ca, a natureza como objeto ob jeto d dee livre
livre conquist
conquista. a. Vemos o nasci-
mento, ainda embrionário,
emb rionário, da ciência moderna e da ttecno ecnologia
logia com
como o
resultado do estreitamento das relações relações entre ciência aplicada e inter-
venção técnica. Como Co mo notam M Miguel
iguel e Menard, “o método não é mai maiss  
uma submissão à natureza em se contentando em inferir classifica
ções e taxonomias; ele te temm a incumbênci
incumbência a de sub
subme meter ter a natureza a

48  | CIBERCULTURA,
CIBERCULTURA, TECNOLOG
TECNOLOGIA
IA E VIDA SOCIAL NA CULTURA
CULT URA CONTEMPOR
CONTEM PORÂNEA
ÂNEA •
 

si própri
próprio,
o, de fazê-la fa la r - ou de tr tradu
aduzí
zí-l
-laa - numa li lingu
nguage
agemm 
matemática
matem ática muito m ais operat ória” 68.
operatória
A razão passa a ocupar o lugar de centro do u niverso inteligí-
vel e, a técnica, a encarnar o meio legítimo e ideal para a máxima
cartesia na de “co nqu
nquistar
istar e domina
dominarr a natureza” . O em pirismo de F F..
Bacon e o racionalismo de R. Descartes
Descartes aprox imam se aqui da fun-
ção de nos tornar “mestres e possuidores da natureza”. No seu
“Novun
“N ovun O rga
rganu
nun”6
n”699, Francis B acon faz um umaa apo logia à potê
potênc ncia
ia da
razão hum
hu m ana que deve atingir a “imensidão d das s”,  e Descar-
as c o isa s”,
tes, no seu “Disc
“Discours
ours de la M Métho
éthode”
de” 70, vai com ba bater
ter a filoso
filosofia
fia
especulativa, fundando um racionalismo
racionalismo que separa mente e m até-
ria, corpo e alma,
a lma, ligando
ligand o o sujeito ao ato de fi filosofar.
losofar. A qui o cogito  
é   a causa de um verdadeiro deslocamento metafísico do homem,
onde este passa a ocupar
ocup ar o centro do
do universo inteligível, superand
superando o
a perspectiva teocêntrica: Deus morreu (Nietzsche) e o mundo se
desen canta (Weber)
(Weber)..
O que parece estar em jogo , no Renascimento, é a subst substitui
ituição
ção
de uma estrutura ontoteológica (explicações de ordem divina) para
umaa estru
um estrutura
tura on
ontoan
toantropo
tropológic
lógicaa (razão cien
científica)7
tífica)71
1, ating
atingindo
indo seu
ápice com a Revo
Revolução
lução Industri
Industrial
al no século XVIII.

 A Rev
Revoluç
olução
ão Industrial

Como
Com o nos expli
explicam
cam os his
histor
toriador
iadores,
es, devemos co
compre
mpreender
ender que
não houve no século XVIII uma revolução no sent sentidoido de u uma
ma ruptura
radical, mas a colocação de um novo dispositivo simbólico que vai,
 pro
 p rog
g re
ress si
sivv a m e n te d
dee sd
sdee a IIda
dade
de M édédia
ia,, aau
u m e n ta
tarr o po
pod d e r e o al
alca
cannce
do complexo
comp lexo tecnoci
tecnocientí entífico
fico h humano.
umano. O que cham chamamosamos d dee Revolu-
ção Industrial
Industrial (RI (RI)) é o fenômeno observado na Inglaterra no m eio do
século XVIII: aquele que ocorre em torno de 1780 com a indústria
têxtil (entre 17601780),
17601780), a invenção da m máquina
áquina à vap vaporor (1769) e as
 prim
 pr im eira
ei rass a p li
licc aç
açõõ e s in
indu
dust
stri
riai
aiss cco
om a pproroddução d dee fe
ferr
rrood dee b
booa q
quua-
li
lidade
dade (1780)
(1780).. Seguindo o pensamento de Gill Gille,e, nessa éépocapoca pode
pode--
mos destaca r mais inovações (banalização (banalização e desenvolvimento de téc-
nicas antigas) do que invenções (técnicas radicalmente novas). De
mesm
me smaa opinião, Da Daumumas7as72
2 mo
mostra
stra que o q que
ue vai cacarac
racteriz
terizarar o século
XVIII
XV III é menos um p progresso
rogresso técnico no sentido de invençõ invenções, es, que o
acelerado ritmo das inovações, sendo preponderante a influência de• de •

• ANDRÉ LEMO
LEMOSS | 4 9
 

uma técnica sobre as outras, cricriando


ando aquil
a quilo
o que Ellul vai chamar, mais
tarde,
tarde, de sistem a técnico ( système techni
technicien)
cien)..
Começa
Com eça ha
haver
ver um
umaa inter
interpenetr
penetração
ação da ciência na técnica (conheci-
mentos básicos de princípios
princípios físi
físicos
cos,, químicos e biológicos) e da técnica
na ciência (instrumentos os mais diversos),
diversos), embora a máqmáquina
uina à vavapo
por,
r,
símbolo maior
m aior desta época, tenha sido desenvol
desenvolvida
vida sem ajudas subst
substan-
an-
ciais da
d a ciên
ciência7
cia733. A despe
despeito
ito de u
umm certo d
desenvo
esenvolvimen
lvimentoto científico, e d
dee
uma busca
b usca cad
cadaa vez mmaior
aior de proces
processos
sos de cientifí
cientifízação
zação da técnica, “o 
 prog
 pr ogre
resso
sso té
técn
cnico
ico se dá à bas
basee d e observa
observação,
ção, d e expe
experiê
riênc
ncia
ia aná
anárqrquic a 
uica
e de imaginação, e não através de uma reflexão contruída, salvo em  
algu
al guns
ns c as
asoo s rar
raros ”14.  As mutações técnicas tomamse cada vez mais
os”
globais e a trilogia do n novo
ovo sistema expandese pelo mundomu ndo O Ocident
cidental,
al,

formada
forma da agora pela nova tríade meta metal, l, carvão e máquina à va vapo
por.r.
O dispositivo automático também ganha uma dimensão nova
 pela
 pe lass p
pri
rim
m ei
eira
rass m
máá qu
quin
inas
as au
auto
tom
m á tic
ticas
as de
d e cá
cálc
lcu
u lo (P
(Pas
ascc al,
al , L
Lee ib
ibni
nizz ). A
mecanização
meca nização industri
industrialal atinge um grande desenvolvimento nesta épo-
ca e a técnica é pensada, pela primeira vez, ligada à questão de uma
economia política (trabalho, industrialismo) com Marx. A partir do
século XIX, a ciência e a técnica vão ser ligadas, ligadas, m ais fortemente, à
formação profissional. O interesse para a organização de trabalho
aparece com a formação das unidades grandes de produç produção ão industr
industrial ial..
A literatura técnica atinge um desenvolvimento considerável. consideráve l. A idéia
de progresso técnico, como o explica Gille, implica a formação de
uma nova estrutura social. Marx vai se interessar, particularmente,
 po
 p o r e ss
ssee as
aspp e c to ao e st
stu
u d a r os efei
ef eitotoss d a té
técn
cnic
icaa n o n o v o m u n d o inin-
-
dustrial, na economia e no trabalho. Pela primeira vez, articulamse
técnica, trabalho e economia política. Desta forma, a característica
 prin
 pr incc ip
ipaa l d a R e v o luçã
lu çãoo In
Indd u st
stri
riaa l nã
nãoo se situ
si tuaa aap
p e n a s no
noss n ov
ovoo s us
usos
os
da energia e do advento de uma sociedade industrial, industrial, mas na am plia-

ção da aplicação técnica a todos todos os domínios da vida social. social.


 No
 N oppla
lan
n o ssim
imbó bólic
lico,
o, a novi
no vida
dadede ddaa R
Rev
evo o lu
luçã
çãoo IIn
n du
dust
stri
riaa l es
está
tá na
 pree te
 pr tenn sã
sãoo e m in
inst
staa u ra
rarr u
umm a eesc
scaa tolo
to logg ia do
d o pr
prog
ogreress
sso
o , cco
o m o a fifirm
rmaa m
Miguel e Ménard. O progresso não é, é, da
daqui
qui em diante, mais um po s-
sível devir, mas o possível em vias de ssee rea realiz
lizar.
ar. Estam os no ce cem m e do
mito fundador da modernidade: o mito do progresso pela realização
tecnológica do destino humano. Como mostra Spengler, é precisa-
mente no século XIX “que se apresenta pela prim primeira
eira vez o prob
problemalema  
da técnica e de ssua uass rerelações
lações com a cultura e com a h históri
istória”a”1 15.

50 CIBERCULT
CIBERCULTURA,
URA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL
SOCIAL N
NAA CULTURA CONTEMPO
CON TEMPORÂNEA
RÂNEA •
 

Tecnocultura e modernidade

A partir da segunda metade do século XIX uma outra revolu-

ção
 b
 ba seindustrial
indust
a seaa d o n riallecolocase
coloca
a e letr
tric
icid see ,em
idad
ade n omarcha,
marcha
petr
pe tró le,ocriando
ó leo cri
, nando
o m oum
to r novo
tor à e x psistema
sist
losã ema
lo sãoo e técnico
técni co-
n as in-
in
dústrias de síntese química.química. DeD e acordo com Gille,G ille, esta revolução
revoluç ão in-
dustrial aparece em dois grandes períodos: períodos: de 1855 1855 a 1870,
1870, período
de adaptação de natureza técnica e econômica (crescimento
demográfico, rede bancária, organização industrial, aumento da de-
manda); e de 1880 1880 a 1900
1900,, onde as grandes mudanças entram em jog o
com a produção de energia em larga escala (turbocompressores e
motores a explosão e elétricos, aços especiais, química de síntese,
lubrificantes). Conjuntamente, vemos florescer a diversificação dos
novos m eios de transporte e de comunicação.
A primeira
prim eira Guerra Mundial, a crise crise econômica de 19291931,
19291931, o
enorme crescimento
crescimento da dem anda e a competição
competição entre os dois sistemassistemas
 polít
 po lític
icos
os prin
pr inci
cipa
pais
is to
t o m am se
s e o conju
con junt
ntoo a part
pa rtir
ir d o qua
q uall um
u m a nov
n ovaa era
técnica vê a luz do dia. Entramos em uma idade técnica onde o par
ciênciatécnica é determinante
determinante para a disseminação da idéia de progres-
so.. O progresso
so p rogresso é, então, compreendido como o deslocamento
deslocam ento dos pre-

conceitos e do pensamento
pen samento infantil
infantil para uma área sombria
som bria do espírito e
o recentramento metafísico do homem, colocado agora no centro do
universo inteligível
inteligível.. Este sistema técnico moderno
modern o vai criar
cri ar um descon-
desco n-
forto
forto,, ou o que
q ue Lewis Mumford chamou de mal estar da civilização e
Guattari e Deleuze
D eleuze de modo
mo do esquizofrêni
esquizofrênico co do capitalismo, misturando
medo e excitação, contradições e paradoxos. O progresso técnico en-
caixase, justam ente, nesta nova conjuntura
con juntura sociocultural
sociocultural..
M umford cham a esteeste período de Era Neotécnica, um a radicali-
radicali-
zação da megam áquina civil civilizac
izaciona
ional.l. A Era Neotécnica
N eotécnica sucede a era
Paleotécnica,
Paleotécni ca, associada por M umford à era autodestrutiva da Revo-
lução Industrial
Industrial da segunda metade do século de XV III  capitaliscapitalismo
mo
industrial, exploração de matériasprimas e poluição. A era Paleo-
técnica sucede, por sua vez, vez, a era Eotécnica,
Eotécnica, caracterizada por uma
relação harmoniosa
harmo niosa entre o homem e a natureza
natureza (do século X ao sécu-
lo XVIII), utilizandose, basicamente, de energias renováveis (moi-
nhos d ’água e movidos à energia
energia eólica)
eólica).. M umford propõe
propõ e o conceito
de megam
me gamáquina
áquina para dar conta da formaforma de organização que qu e vai
vai se
estruturando
estruturando aos poucos a partir do III milênio antes da nossa era na•
na •

• ANDRÉLE
ANDRÉLEMOS
MOS | S I 
 

Me sopotâmia,
Mesopotâm ia, como vimos. A modernidade é o ápice desta megam á
quina civilizacional.
civilizacional. A sociedade moderna é conseqli
conseqliência
ência do des
desen-
en-

volvimento da megam áquina atravé atravéss do model


modelo o do pent
pentágono:
ágono: “ener
gia, política (poder), propriedade, lucro, privilégio”16.
 No
 N o s é c u lo X V II
IIII a c iê
iênn c ia e a té
técc n ic
icaa g a n h a m v a lo
lore
ress r e c o -
nhecidos como dominantes
dominantes:: objet
objetiviividade,
dade, racionali
racionalidadedade instr
instrum um en-
tal77
tal77, un
univer
iversalism
salism o (das aplicaç
aplicações)ões) e neutralidad
neutralidade. e. C riase um a or or- -
ganização racional e tecnocrática da vida social. O conhecimento
científico tornase autônomo e institucionalizase em valor (Mer
ton).. A ciên cia e a ttécnica
ton) écnica são os val valores
ores supremos da em emancipaçã
ancipação o
sociall po sitiva e il
socia iluminada.
uminada. A técnica é envolvida por um ssimb imb olis-
mo que a associa a um instrumento (legítimo)
(legítimo) de transform ação so-
cial.. A técn ica e a cciência
cial iência transformamse em id ideolog
eologia
ia (Habermas)
legitima
leg itimado
dora
ra do progr
progresso
esso so
social7
cial78
8. A con
conjunçã
junção
o científico tec
tecno
noló
ló
gica vai ser investida
inv estida de “...uma...uma nova fun çã o ssacralizada
acralizada de utilida
de social que a m obiliza no intuit intuito o de dom inar a natureza e regene
sociedade   ”79. O estatuto de par sagrado (ciênciatécnica),
rar a sociedade 
conduzindo a huma nidade ao progr progress
esso,
o, consti
constitui tui a novidade sim-
 bó
 b ó li
licc a d a R e v o luç
lu ç ã o In d u s tr
tria
iall e d a m o d e rn
rnid
idaa d e e m e r g e n te
te..

A ciência moderna (newtoniana e cartesiana) aponta no hori-


zonte simbólico da m odernidade para desvelar os mistérios da nature-
za.. Crenças,
za C renças, tabus ou explicações mágicas ficam gravad gravadas as no terreno
da tradição, longe da potência transformadora e positiva da
tecnociência. Nã Nãoo é à toa que nesse período A. Com te busca superar,
com sua ciência posi positiva,
tiva, a pulsã
pulsão o da com
comunidade
unidade pela organização
da sociedade, separandoa
separand oa dos est estágios
ágios religioso
religioso e m metafísico
etafísico anterio-
res. A tecnologia moderna será o instrumento legítimo que permite
transformar e regenerar
regenera r o mundo. mundo. Ela agregase
agregase à ciência criando a
tecnociência,
tecnociênci a, o araut
arauto o supremo d daa era moderna, transmutandose em
operador privilegiado da potência do racional e do dispositivo
(iarraisonement, Gestell) 
Gestell) heideggeriano.
heideggeriano.
A máquina aparece como o objeto central de um culto novo,
 pre
 p rese
senn te
te,, h o je e m d iaia,, n a fe
f e b re e fa
fasc
scin
inaa çã
çãoo p elas
el as n ov
ovasas te
tecn
cno o lo
logi
gias
as..
Essa nova religião (Spengler) estrutura estruturase
se em pleno século X XIX,
IX, am
ama-a-
durecendo plenam ente no século século XX. O soci social
al tom ase transparente
 pee la g e st
 p stãã o tetecn
cnoo c rá
ráti
ticc a , a n a tu
ture
rezz a é li
lid
d a e tr
traa d u z id
idaa p e lo
loss o lh
lhos
os
implacáveis da ciência, a com
comunicação
unicação tomase instantânea e planetá-
ria na troca sem ruído de informações. Aqui aparece um outro mito

52 CIBERCUL
CIBERCULTURA,
TURA, TECNOLOGIA E VIDA SOCI
SOCIAL
AL NA CULTURA CONTEMPORÂNE
CONTEM PORÂNEA
A•
 

supremo da modernidade: a transparência (social, comunicacional,

 pto,
 poo lí
lític
ticaa ), c o m oauscultado
analisado, m o stro
st rouu msob
uito
ui toa bimparcialidade
e m G. Vattim
Va ttimo8o80
0. Trazão.
da u d o dÉe veste
e ser
se rovin-
is-
is -
tuito da técnica universal e do conhecimento
conhecim ento científ
científico.
ico. Este
E ste é neutro,
tendo como objetivo eliminar os epifenômenos do espírito (o imagi-
nário, o mito, a religião),
religião), a escória sensorial
sensorial que dificulta
d ificulta o desenvol-
desen vol-
vimento
vimen to livre da razão. A máquina
m áquina (indust
(industrial
rial,, info
informá
rmática)
tica) é o objeto
de culto central nesta religião
religião moderna (Spengler e Weber). Weber). Para MiguelM iguel
e Ménard, o que surge surge nessa modernidade tecnológica
tecnológica é a estruturação
do mundo
m undo pela potência do racional racional.. NãoN ão é por acaso que W Weber
eber de-
fi
fine
ne a técnica
técnica moderna
m oderna como a colocação de meios orientados in
tencionalmente e metodicamente em fun çã o de experiê experiências,
ncias, ref
refle
le
 xões
 xõ es,, e - p a ss
ssaa n d o p e la ra
raci
cio
o na
nali
lida
dade
de em se
seuu m a is a lt
ltoo g ra u - de 
consideração científica  ”81.
A modernidade é o esti estilolo de uma época produzido pela decom decom- -
 poo s içã
 p iç ã o d a raz
ra z ã o s u b s tan
ta n ti
tivv a , tí
típp ica
ic a d a s c o n c e p ç õ e s reli
re ligg ios
io s a s e
metafísi
me tafísicas
cas do mundo,
m undo, por uma razão instrumental, positiva, signifi-
cando que as concepções
concepçõ es e dogmas dogm as religiosos
religiosos não são mais ma is legítimos
legítimos
com
como o ernidade
fundamento
fundam ento
a modernidade
mod explicativo
é, para Habermas, da vida soci
social8
al822. 0 que
a independência e avai caracterizar
caracteriza
autonomia
au tonomia es-r
 pee cí
 p cífi
fica
ca pró
pr ó p ria
ri a s às esf
e sfer
eraa s da
d a ciê
c iênc
nciaia,, ddaa mor
m oral
al,, ddaa re
r e lig
li g iã
iãoo e d a arte
ar te..
Estas esferas passam a ser institucionali institucionalizadas, zadas, traduzidas
traduz idas por po r um dis-d is-
curso de segunda
segun da ordem que as indivi individuali
dualizam
zam e as decompõem.
decompõem . A
racionalidade formulada no século XVIII deprecia as tradições im-
 pul
 p ulsi
sioo n a n d o um
u m a tran
tra n sfo
sf o rmaç
rm açãoão rac
r acio
ionn al e radi
ra dica
call da
dass con
co n d içõ
iç õ e s soc
s oci-
i-
ais de existência.
existência. Com o explica Habermas, o processo de d e racionaliza-
ção “da cultura oc ocidental
idental significa
significa que os set setores
ores,, de ag agoraora eem md dian
ian
te tratados por especialistas (a ciência, a moral, a arte), tomam-se  
autônom os e rompem suas ligaçõ ligações es com corrent
correntes es da tradição  ”83.
Habermas vai mostrar como a ciência ciência e a tecnologia vão se cons-
tituir em ideologias
ideo logias na modernidade. Ciência C iência e técnica, enquanto enqu anto dis-
cursos de segunda
segu nda ordem (ideológica),
(ideológica), alimentam uma um a esperança
esperanç a des des
mesurada no controle das forças naturais, na administração racional
da socied
so ciedade ade (Freyer8
(Frey er844), no progresso
progre sso científico
científic o e tecnológic
tecno lógico, o, na
n a in-
gerência de tecnocratas
tecnocra tas especial
especialistas
istas e no desenvolvime
desenv olvimento nto do indiví-
duo autônomo. Aqui, a razão instrumental leva ao individualismo
(Dum
(D umont8
ont855). Pela prim eira vez na história
h istória da hum
humanida
anidade,
de, a técnica
técn ica se
ergue como
com o um valor e se impõe como força simbólica e mítica. mítica. A•
A•

• ANDRÉ LEMOS
EMOS 53
 

mo dernidade tecnológica, apo


modernidade apoiandose
iandose na
na produção e na organização
tecnocrática dos modos
m odos de vida, torna
tornase
se ela mesma terreno de novas
mitologias. Embora a nossa sociedade menospreze o simbólico, ela
elege a máquina
má quina com
comoo um símbolo
símbolo mágico
m ágico e místico.
místico.
Jacques
Jacqu es Ellul propõe o conceito de sistema técnico para cara
carac-
c-
terizar o conjunto da técnica moderna. Para o pensador francês, o
sistema técnico formaria um dispositivo automático, um fenômeno
total e universal. Por ser autônomo e cego aos valores subjetivos, o
sistema técnico teria
teria quatro característ
características:
icas: modificação
mo dificação ininterrupta
de elementosque
tecnocrático queajusta
transformam a configuração
os aspectos de vida social, do sistema,
os domíniosum todo da
vida social estão sob o domínio da técnica; o sistema não aceita ne-
nhumaa realimentação
nhum realimentaçã o e funciona a partir partir de sua lógica interna. interna. A par-
tir destas características, alguns valores fundam o sistema técnico:
unidade (forma um conjunto homogêneo), universalidade (indiferente
aos detalhes culturais),
culturais), acumulação
acu mulação (inclui todos todos os aspectos da exis- ex is-
tência), e a autonomia (lógica interna hegemônica sobre outras). Na
modernidade,, criase
modernidade criase uma
um a tecnocultura
tecnocultura como um fenôm eno técnico técnico
expandindose
expand indose para todos os domínios da vida social, social, sendo a preocu- p reocu-
 paa ção
 p çã o pri
p rinn ci
cipa
pall “pro
procur
curarar em todas as coisas o método abso absolutam
lutamen en
te mais eficiente  ”86.
O progresso técnico é, daqui em diante, indiscutível, e não há
escolha entre dois métodos técnicos. É a eficiência maximizada ao
extremo
extr emo que a determina
determina sendo que a idéia idéia do progresso nunca é ob-
 jeto
 je to de dis
d iscucussssão
ão.. A fala
fa la téc
t écni
nica
ca se
s e im
impõ
põee sob
s obrere fa
f a las
la s ddee out
o utra
rass ord
o rden
enss
 j jáá que,
qu e, com
co m o ad a d vent
ve ntoo da
d a mod
m odererni
nida
dade
de,, en
e n tra
tr a m os n u m a fasefa se d a ev
e v o lu-
lu -
ção histórica de eliminação de tudo o que não é técnico, sendo o
desafio da modernidade um desafio técnico. O progresso técnico,
irreversível e em progressão
prog ressão geométrica,
geom étrica, é a lei
lei simbólica principal do
imaginário tecnológico
tec nológico moderno. De acordo com Hans H ans Freyer, a ppla la
nificação é o modo m odo de consumir
con sumir a história
história e o progresso, sua própria
 per
 p erso
sonn if
ific
icaa ç ã o . E s ta é a pala
pa lavv ra m ágic
ág icaa da époc
ép oca.
a. A “ad
“a d m inis
in istr
traa çã
çãoo
das coisas”,
coisas ”, como propõe Freyer, Freyer, espalhase
espalhase por todo o campo
cam po social
sob a responsabilidade
responsab ilidade do especialista técnico técnico..

A técnica tornase
ças econômicas o instrumento
e do progresso do desenvolvimento
da cultura das for-
faustiana (Spengler). O
simbolismo da técnica moderna encontrase na potência do artefato
comoo instrumento
com instrumen to legítimo de dessacralização
dessacralização da naturezá, transfor

54 CIBERCU
CIBERCULTUR
LTURA,
A, TECNOLOGI
TECNOLOGIA
A E VIDA
VIDA SOCIA
SOCIALL NA CULTURA CONTEM
CONTEMPORÂNE
PORÂNEA
A•
 

mando paradoxalmente a técnica técnica num totem sagrado,


sagrado, num Deus su-
 prem
 pre m o d a sociedade.
socieda de. Com
Co m o diz Spengler, com
co m o adve
ad vento
nto d o racion
rac ionalis
alismmo
moderno, “a técnica é eterna e imortal, como Deus Pai. Ela traz a  
salvação da Humanidade como Deus Filho, e ela nos ilumina como  
 Deu
 D euss Es
Espí
píri
rito
to San
Santo.
to. E sua
su a ado
adora
raçã
çãoo é o sn
snoo b pr
prog
ogre
ress
ssis
ista
ta d
doo s te
tem po s  
m pos
m o d e rn
rnoo s”*1.
G. Hottoi
H ottoiss vai levar mais longe as teses de Ellul
E llul mostrando
mostrand o que
a técnica moderna não é uma um a ferramenta
ferramenta de mediação
m ediação entre nós e o
mundo mas,
m as, de maneira
m aneira mais
mais radical,
radical, um instrumento
instrumento de imposição da
ordem cultural (o artifício)
artifício) sobre o ambiente
am biente natural, substituindoo.
substituindoo.
Para Hottois, o verdadeiro idioma da técnica é o cálculo, a ma manipula-
nipula-
ção de forma operati
operativa.
va. A ciência não só é um domínio
dom ínio teórico mas,
também, revestese
reve stese de uma natureza ttécnica.
écnica. É nesse casamento
casam ento que
surge o termo tecnociência, “ cuja técnica constitui o   'meio natural'  
de desen
de senvo
volvim
lvimen
ento
to e também
tam bém o pr
princ
incípio
ípio m oto
otor”
r”*
**.
Agindo deste modo, a técnica afasta o homem de sua perma-
nência simbólica no universo.
universo. Toda a experiência
experiência da realidade
rea lidade tomou
tomo u
se tecnológica. Para Hottoi
H ottoiss a mediação técnica substitui a experiên-
cia,
cia, afastando o homem
hom em do simbólico.
simbólico. Diferenciando
Diferenciando a ação simbólica
da ação tecnológica, Hottoi
H ottoiss afirma que “o símbolo não rompe a pa i
sagem, não consome a florest
sagem, floresta,
a, não manipula o se
serr vivo;
vivo; ele dá sen
s en
tido, organiza, finaliza ”89. A especificidade da técnica contemporâ-
nea estaria na constituição de um meio, de um sistema, de um reino
isolado das outras esferas da cultura, a formação
formaçã o de uma
um a tecnocultura.
Hottois usa o termo reino para evocar
evo car “o dinamismo ded e crescimento 
crescimento

totalitário
totalitário e de proliferação univeruniversal
sal,, a autono
autonomia mia e relati
relativa
va ind
indee
 pe ndên
 pend êncc ia,
ia , e n fim a g ra
rann de co
conc
ncre
retu
tud
d e da
d a té ni c a ,,,,9°. O reino da téc-
técc nic téc-
nica seria,
seria, então, estrangeiro ao humano, reinado cultural e simbóli-
co, onde o humano se tomaria um instrumento do desenvolvimento
técnico991. Entretanto, se a atividade técnica
técnico técnic a está imbricad
im bricadaa na em e m er-
gência
gênc ia da linguagem
linguagem,, toda atividade
atividade técnica é umaum a atividade simbóli-
sim bóli-
ca92 já que existe “ linguagem desde que existe técnica e, assim, a 
atividade técnica e a atividade simbólica são indiss ociáveis.... ”93.
indissociáveis..
É a construção de Centros de Pesquisa e Desenvolvimento
(P&D),
(P&D ), na segunda metade
m etade do século
século XX, que finaliza o processo de
cientifização da d a técnica e de tecnicização da ciência,
ciênc ia, até então inédito
inédito..
A ciência é estimulada, daqui em diante, pelo Estado, e a relação sa sa
 ber
 be rpp ode
od e r baco
ba coni
nian
ana,
a, def
d efin
init
itiv
ivam
amen
ente
te selad
se lada.
a. A raci
ra cioo nali
na lida
dade
de cien
c ientíf
tífi
i

• ANDRÉ LE
LEMOS
MOS | 5 5
 
cotecnológica toma se instinstrumento
rumento de m odernização da sociedade,
sendo a racionalidade
racionalidade determinante para o modelo de desenvolvimen
desenvo lvimen- -
to moderno. Esta nova estrutura social, a tecnocultura, vai estabele-
cer um pod
poderer uunidimensionalizante
nidimensionalizante (Ma
(Marcuse9
rcuse94), onde a orga
organização
nização
de trabalho é pensada em e m termos de divisão de tarefas e da otimização
otimizaçã o
do tempo (taylori
(taylorismo,
smo, fordismo). O trabalho hum ano é ligado ao rit-
mo da indús
indústri
tria,
a, onde a velocidade das máquinas determina o tempo e
os movimentos do trabalhador.
O p aradigma eletricidade/
eletricidade/petról
petróleo,
eo, m otor elétri
elétrico
co e quím ica
de síntese do fim do século XIX muda, depois do Segunda Guerra
Mundial, para um novo paradiparadigma:
gma: en
energia
ergia n
nuclear
uclear,, informática, en
en--
genharia
genh aria genética. Este novo sistema técnico vai afetar a vida quoti-
diana de forma radiradical
cal com a for
formação
mação e planetarização da socieda-
de de consumo e do espetáculo. Este é o pano de fundo para o
surgimento da cibercultura.
• • •

O desenvolvimento tecnológico, como vimos, sempre esteve


imerso no imaginário social.
social. Podem
Podemos os pensar a históri
históriaa do desen
desenvol-
vol-
vimento tecnológico
tecno lógico em três grandes fase
fases:
s: a fase d
dee ind
indiferença
iferença (até
a Idade Média), a fase do confort
conforto o (modernidade) e a fase da ubiqui-
dade (pósmodernidade).
A primeira
prim eira fase é carac
caracterizada
terizada pela mistura entre arte, religião,
religião,
ciência e mito. A vida social
social é um todo coerente
coerente que g ira em tom o de
um universo
un iverso sagra
sagrado.
do. A técnica e a ciência não têm um estatuto privi-
p rivi-

legiado porque estão imersas na dimensão global. global. N esta fase, o olhar
em relação à técnica está próximo da indif
indiferenç
erença.a. A técnica não é uma
realidadee em si
realidad si,, independ
independente
ente das outras esfer
esferas
as da cultura.
A fase do conforto é localizada
localizada no princípio
princípio de m odernidade.
A na tureza é dessacralizada, control
controlada,
ada, explorada e transfor
transformada.
mada.
A mente
men te está separada do corpo. A razão tornase ind epen dente e é,
daqui em diante, a norm a que dirige
dirige o progress
progresso o das condições ma -
teriais de existência. A ciência
ciênc ia substi
substitui
tui a religião no m ono pólio da
verdade, e a tecnologia faz do homem um Deus na administração
racional do mundo. A cidade é o resultado do planejam ento urba urbanís-
nís-
ti
tico
co onde a tecnosfera prevalece sobre a ecosfe
ecosfera.
ra. A dime
dimensão
nsão soci
socio
o
técnica
técni ca dom ina o oikos   (Morin). Aqui, o olhar sobre a técnica é o
olhar do tecnoc rata que, em uma mistura de coragem e fascinação,
explora, dom ina, territorializa o espaço
espaço e o tempo. A m odern idade é
56 | CIB
CIBERCUL
ERCULTURA,
TURA, TECNOLOGIA E VIDA SOCI
SOCIAL
AL NA CULTURA CONTEMPORÂNE
CONTEMPO RÂNEA
A•
 

a fase da ideo logia em substituição


substituição à do mito, sendo a ideologia um
discurso que atua como promessa de transformação e controle da
vida social.
social. Poderiamos d izer que essa
essa é a fase do co nforto (domí-
nio da natureza) e de preparação do futuro. A modernidade
tecno lógica foi estrut
estruturada
urada pela mistura de conv icções e sonhos na
força racional do homem, na conquista do espaço, no progresso
tecnológico e científico,
científico, n
naa urbanização e na util
utilização
ização intensiva em
energia.
M as o pesadelo tomou o lugar do sonho prometéico:
prometéico: polui
poluição,
ção,
desigualdades sociais, econômicas e políticas, caos urbanos, violên-
cia, drogas,
drog as, eetc.
tc. Jean G rimp el9
el95
5 m ostra bem ess e fim d o futuro
tecnológico moderno.
m oderno. A fase da ubiqii
ubiqiiidade
idade pósm ode
odemm a, ou fase da
comunicação
com unicação e da informação
informação digi
digital
tal,, corresponde à conclusão da fase
do conforto (a natureza é agora controlável) e ao surgimento da
tecnologia digital permitindo escapar do tempo linear e do espaço

geográfico. Entram em jogo a telepresença, os mundos virtuais, o


tempo instantâneo, a abolição do espaço físico, em suma, todos os
 pode
 po dereress de tr traa n sc
scee n d ê n c ia e d e c ontr
on tro
o le sim
si m b ó li
licc o d o e sp
spaa ç o e do
tempo. Virilio
Virilio mostra bem a necessidade de um pensam ento m míst
ístico
ico
 paa ra d a r cco
 p o n ta da
dass no
novavass a ngús
ng ústia
tiass ca
caus
usaa da
dass p e la
lass n o va
vass te
tecn
cnoo lo
logg ias
ia s
digitais: “Aí   referências místicas são as únicas que permitem com
 prr e e n d e r as tele-
 p tel e-te
tecn
cnololog
ogiaias,
s, já
j á qu
quee toca
to camm a ubiq
ub iqiiiiiida
dade
de,, a o imed
im ediaia
to, ao instantâneo, a omnividência, que q ue são atributo divin o e não  
atr ibutoss do divino
do humano  ”96.
Esta última
ú ltima fase é a fase da ubiquidade, a fase da sim simulação,
ulação, a
fase da cibercultura. As ideologias da modernidade perdem forças e
são substituídas pela ênfase no presente, numa sociedade cada vez
mais refratária às falas futurist futuristas,as, cada vez m mais
ais subm
submergida
ergida em jogo s
de linguagem. Estamos no vácuo espaçotemporal que alguns cha-
mam de fim da História. Vamos analisar agora esta nova dinâmica
cultural que se instaura no século XX a fi fim
m de desc
descrever
rever o enraizame
enraizamento nto
social da cibercultura.
cibercultura.••
• ANDRÉ LEMOS
LEMOS | 5 7
 

Notas

13 Ver Gille
Gille,, B. Histoi
Histoires
res des Techniques. Paris, Pléiade: 197
1978.
8.
14 A Geraç3o X é aquela que nasce nos anos 70. Veja o excelente Copland, D.
Génération X. Paris: Robe
Robert rt Laffont, 19
1991
91.. A geração Y é aquela dos teen dos anos 90, que
tem por hábito ser fort
fortee consumidora de entret
entretenimento
enimento e dos produtos da era da
d a informa-
ção. Na América já existe o rótulo dela ser a geração do Teenspoliation, neologismo de
teen e spoliation, ou a geração da exploração dos adolescentes.
15 Ver Heidegger, M. La Question de Ia Technique. in: Essais et Conférences. Pa-
ris: Gallimard, 1958.
16 Partindo das premissas de Platão e Aristóteles, Heidegger vai mostra que a
 poièsis
 poiè sis é um pro
proces
cesso
so de produ
produção:
ção: uma flor que nasce rev
revela
ela um pr
proc
oces
esso
so poi
poièti
ètico,
co, da
mesma forma em que a construção de uma mesa. No entanto esta exige a presença de uma
inteligência externa, de um demiurgos que imite aquilo que a natureza faz por ela mesma.
17 Arte aqui não significa uma atividade à parte, ligada ao prazer estético como
compreendemos hoje.
18 Stiegler, B. La Technique et le Temps. 1. La Faute d’Epiméthée. Paris: Galilée,
1994.
19 Ar
Aristo
istote
te U Et
Ethiq
hique
ue à Nicom
Nicomanque
anque.. Paris: J. VrVrin,
in, 199
1990.
0.
20 Platão mostra a dicotomia entre o homem e a técnica, entre o inteligível e o
sensível, entre alma e corpo. Ve
Verr Platon, P h èd re , Paris, GarnierFla
GarnierFlamma
mmaríon,
ríon, Paris, 19
1989
89..
21 Em Platão, o tema da técnica aparece em várias obras (Banquete, Fedro, Timeu,

Política, República) onde aquela é tributária de simulacros, uma imitação da natureza.


Segundo Goffi, a filosofia da técnica em Platão comporta trê trêss aspectos: um antropológico,
um ontológico e um outro
outro avali
avaliativo
ativo.. Em seu S ofi sta , Pl
Platão
atão vavaii dividir a tecknè como
arte de produção (seres artificiais) e de aquisição (apropriação da natureza).Ver, Goffi, JP.
La Philosophie de la Technique. Paris: P.U.F. 1988.
22 Aristote. Physique. Paris: Belles Lettres, livre 2, 1990.
23 As quatro causas são: material, formal, eficiente e final. Ver Aristote.
Métaphysique. Paris: Librairie Philosophique Jean Vrin, 1991.
24 N a L’
L’étique
étique à Nicomanque Arist
Aristóteles
óteles va
vaii distinguir a technè da épistèmé, onde
as diferenças entre o artificial e o natural são valorizadas. Ver Aristote. L’Ethique à
 Nicom
 Ni comanq
anque.
ue. op.
op.cit
cit.. ca
capít
pítulo
uloss 3 e 4.
25 Ver Hooykaas, R. A Religião e o Nascimento da Ciência Moderna Moderna.. Brasíli
Brasília:
a:
Polis, 1988.
26 Ver LeroiGourhan, A. L’Evolut L’Evolution
ion des Techniques: Tome II:: Ho
Hommmmee et la
Matière. et Tome
Tom e II: Milieu et Te Technique.
chnique. Paris: Albin Michel, 19431971
19431971.. Ver também Le
Geste et la Parole. Paris: Albin Michel, 1964.
27 Stiegler, B. op.cit. p.64.
28 Stiegler, B. op.cit. p.145.
29 Stiegler, B. op.cit. p.152.

58   | CIBERCU
CIBERCULTUR
LTURA,
A, TECNOLOGIA
TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL
SOCIAL NA
N A CULTURA CONTEMPOR
CONTE MPORÂNEA
ÂNEA •
 

30 LeroiGourhan, A. Le Geste et la Parole, op.cit.


op.cit. p. 34.
31 Stiegler, B. op.cit. p.162.
32 Simondon, G. op.cit. pp.910.
33 Bergson, H. L'Evolution Créatrice. in: Oeuvres. Paris: P.U.F, 1939.
34 Bergson, H. Deux Sources de la Morale et de la Religion. in: Oeuvres, op.cit.
 p.1238
 p.1 238..
35 É interessante
râneos guardam interess
umaantecarga notar
dessequedesejo
não é de
poraproximar
um acaso figura
que os eobjetos
fundo técnicos contempo-
pela estetização. O
design nada mais é do que essa tentativa tentativa de introduzir
introduzir o belo em objetos criados em indús-
trias,
trias, como um resgate de alguma qualidad qualidadee perdida naquilo que é marcado pela quantida-
de. A cibercultura nos dá exemplos desse prazer estético instaurado nos objetos técnicos
microeletrôni
microel etrônicos.
cos. A magia do tempo real, real, a supressão
supressão de fronteiras
fronteiras físicas e geográficas
 propo
 pro porci
rcion
onado
adoss pel
p eloo cibe
c iberes
respaç
paço, o, a danç
d ançaa e músic
mú sicaa tribal
trib al e mini
mi nima
malis
lista
ta das
d as ci
ciber
berra
rave
ves,
s, as
criaturas virtuais de mundos artificiais em três dimensões, só para citar alguns, atestam a
 busc
 bu scaa em fund
fu ndar
ar um espa
es paço
ço mágico
mág ico perdido.
perd ido. As novas
nova s tecnol
tec nologi
ogias
as parece
par ecemm possibil
pos sibilitar
itar,,
 porr at
 po atua
uarr n es
essa
sa in
inte
terf
rfac
acee entr
en tree a figu
fi gura
ra e o fu
fund
ndo,
o, entr
en tree o té
técn
cnic
icoo e o rereli
ligi
gios
oso,
o, es
essa
sa
reaproximação. Ver Maffesoli, M. La Contemplation du Monde. Figures du Style
Communautaires. Paris: Grasset, 1993.
36 Simondon, G. op.cit. p.160.
37 Ver
Ver Huizinga,
Huizi nga, L’Homo Ludens. Paris: Gallimard Gall imard,, 1931
1931 e Gliade,
Gliade, M. Le Sacré
et le Profane. Paris: Gallimard, 1965.
38 Eliade, M. op.cit.
39 Ver Simmel, G. Philosophie de la Modemité. Modem ité. Paris:
Paris: Payot, 1990
1990..
40 Negroponte.
Negrop onte. N. L’Homme
L’Homme Numérique. Paris: Fayard, 1995 1995..
41 Ver Heidegger,
Heidegger, M . , op.ci op.cit.
t.
42 Ver Heidegger, M. op.cit.
43 Gravado
Gra vado pelo autor auto r em emissão da televisão francesafrancesa ARTE,
AR TE, em 1994 1994..
44 A separação entre a técnica e a arte na modernidade é muito interessante e
tornase mesmo
mesm o sintom
sintomática
ática desse estado de coisas. Ver Ver Ladrière,
Ladrière , J. Les Enjeux de la
Rationalité. Paris: Aubier, 1977.
45 Gravado pelo autor na televisão francoalemã (ARTE), em Paris em 1995
46 Gravado pelo autor na televisão francoalemã (ARTE), em Paris em 1995.
47 Stiegler,
S tiegler, B . , op.cit.
op.cit. p. 102.
02.
48 Gille, Bretrand. Histoires des Techniques.
Techniques. Paris: Pléiade, 1978
1978..
49 Gille, B. op.cit.p.127.
50 Ver Eliade, Mircea. Le Sacré et le Profane, op.cit.
51 Miguel, C. e Ménard, G. La Ruse de la Technique. Les Symbolisme de la
Technique à Travers VHistoire. Paris: Méridiens, 1988.
52 Ver Brun, J. Les Masques du Désir. Paris: Buchet/Chastel, 1981
53 Ver Ellul, J.
J. Le Système Technicien.
Technicien. Paris: CalmannLévy, 1977. 1977. e Mauss,
Maus s, M.
Sociologie et Anthropologie. Paris: PUF, 1962.
54 Como veremos adiante, as novas tecnologias com noções como tempo real e
ciberespaço vão manter toda essa carga mágica. Com a cibercultura, a técnica estará, tal-
vez, empreendendo um retorno paradoxal à magia dos tempos ancestrais, já que em todas
as suas formas de expressão
expressã o ela guarda esta característica
característica mágicosimbólica.
mágicosim bólica. A cibercultura
 parec
 pa recee ser
se r ass
a ssim
im uma
um a atuali
atu alizaç
zação
ão dessa
des sa relação
rela ção mágic
má gicor
oreli
eligio
giosa
sa que
q ue carac
ca racte
teriz
rizou
ou a técni
técn i••

• ANDRÉ LEMOS
EMOS 59
 

ca primitiva. Como afirma brilhantemente J. Ellul: “notre adoration de la technique est une
dérivation de
d e cette ances
ancestrale
trale adoration de 1 1’homme
’homme vis à vis du car caractère
actère mystérieux et
merveilleux
merv eilleux de 1 1’’oeuv
oeuvre
re de ses ma
mains”
ins”.. in Ellul, J. op.cit. 1968
1968,, p.24.
55 Voir Gille, B. op.cit.
56 Spengler, Mauss e LeroiGourhan seguem a perspectiva oigânica de Aristóteles.

Em Spengler, a técnica é uma “ta


“tactique
ctique de la vie” . V
Ver
er,, Spengler,
Spengler, O. UH om
omme
me et la Technique.
Paris: Gallimard, 1958
1958.;
.; Mauss, M. Les Techniques et la Technologie. In: Sociologi Sociologiee eett
Anthropolog
Anthr opologie.
ie. Paris: P.
P.U.
U.F.
F. 1948.; et LeroiGourhan, A. Le GestGestee et la Parole... op.cit.
57 Sobre a ciência grega ver E. E.R.Lloyd,
R.Lloyd, G. Une Histoire de la Science Grecque.
Paris: La Découverte, 1990.
58 Vemant, JPJP.. Mythe et Société en Grèce Ancienne. Pa Paris:
ris: La Découverte, 19
1974
74..
59 As inovações gregas pertencem, nessa época, a quatro domínios principais: o
transporte (portuário e naval), a guerra e os armamentos, as máquinas hidráulicas e as artes,
incluindo aí a arquitetura, a escultura, a cerâmica e, principalmente, as máquinas maravilho-
sas, os “tha
“thaumat
umatas”
as”,, máquinas sem grande uti utilidade,
lidade, ancestrais dos autômatos. Segundo
Miguel , “aux machine
machiness techniques lesles grecques
grecques semblent avoir préférer les thaumatas,
machines merveilleuses et merveilleusement inutiles...” . Miguel et Ménard, op.cit. p.89.
60 Gille, B. op.cit. p.42122.
61 Daumas, M. Histoire Générale des Techniques. Paris: P.U.E 19621979.
62 Gille, B. op.cit. p.382.
63 Gille, B. op.cit. et Daumas, M. op.cit.
64 Idem, p.520.
65 Idem, p.167.
66 Miguel et Ménard, op.cit. p.142.
67 Gille, B. op.cit. p.663.
68 Miguel et Ménard, op.cit.p.187.
69 Baco
Bacon,
n, F. Nov
Novun
un Organun. Paris: P.U
P.U.F
.F.. 198
1986.
6.
70 Descarte
Desc artes,
s, R. Disco
Discours
urs de la Métho
Méthode.
de. Paris: 101
1018,
8, 195
1951.
1.
71 Lima
Li ma Vaz
Vaz,, H. Religião e Modernidad
Modernidadee Filosofíca. ISER, Petrópolis: 19
1990
90..
72 Daumas, M. op.cit.
73 Gille, B. op.cit.p.689.
74 Idem, p.691.
75 Spengler, O. op.cit. 1958, p.33.
76 Goffi, op.cit. p.103.
77 A racionalidade instrumental é, nesta perspectiva, a adequação de processos
(meios) na procura do aumento da eficiência econômica e técnica fina
finall do processo. Quan-

do a racionalidade é meramente formal e separada do processo social entramos no terreno


da tecnocracia, no coração da tecnocultura. A racionalidade, como adequação de meios
 para
 pa ra fi
fins
ns de
dete
term
rm in
inad
ad os sem pr
preo
eocu
cupa
paçã
çãoo in
inere
erente
nte em re
rela
laçã
çãoo ao
aoss ef
efee it
itoo s gl
glob
obai
ais,
s, é o
 pa radigm
 parad igmaa d a ra
razão
zão tec
tecno
nocie
cientí
ntífic
ficaa na mod
modern
ernidad
idade.
e. A cr
crise
ise d a ra
razão
zão mo
mode
derna
rna apa
aparec
recee
nos efeitos negativos da tecnologia no homem e no seu ambiente. Esta crise, posta em
evidência a partir
parti r da ssegunda
egunda guerra mundial, coloca em xeque as premissas da d a modernidade.
78 Ver Habermas, H. Técnica e Ciência enquanto ideologia. Coleção os Pensado-
res, SP: Abril, 1980.
79 Miguel et Ménard, op.cit.p.232.
80 Vattimo, G. La Société Trasparente. Bruxelas. Desclée de Brouwer, 1990.

60 CIBERCU
CIBERCULTUR
LTURA,
A, TECNOLOGI
TECNOLOGIA
A E VIDA
VIDA SOC
SOCIAL
IAL NA CULTURA CONTEMPORÂNEA
CONTEMPOR ÂNEA •
 

81 Weber, M. Econom
Econ omie
ie et Société. Pa
Paris:
ris: Plon, 1971, p.63.
82 Ver
Ver Latour, Bruno. Jamais
Jamai s Fomos Modernos. Rio Ri o de Janeiro
Janeiro:: Ed. 34, 1997
1997..
83 Habermas, J. La Modemité: un Projet Inachevé. In: Critique,
Criti que, n° 413, Paris:
Minuit, p. 95859.
84 Ver Freyer, Hans. Teoria da época atual, Rio de Janeiro: Zahar, 1965.
85 Ver Dumond, L. O Individualismo. Uma perspectiva antropológica da ideologia
moderna. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.
86 Ellul, J. A Técnica e o desafio do século. Rio de Janeiro: P Paz
az e Terra, 19
1968
68..
87 Spengler, O. op.cit. p.148.
88 Hottois, G. Le Signe de Ia Technique. La Philosophie à 1’Epreuve de la
Technique. Paris: Aubier, 1984. p.60.
89 Idem, p.73.
90 Idem, p.122.
91 Entretanto, vimos no começo desse livro que a técnica
técnica é acima ddee tudo sim
simbóli-
bóli-
ca.
ca. Miguel e Ménard mostraram
m ostraram como o meio técnico é a expressão do sim simbólico
bólico e, como
 po rtador
 porta dores
es ddee hierof
hie rofani
anias,
as, os obj
objeto
etoss técnico
téc nicoss são ritu
rituali
alizad
zados
os na vida
vi da quo
quotid
tidian
iana.
a. A técni-
téc ni-
ca não está isolada do mundo
m undo simbólico.
simbólico. É a partir dos microrit
microrituais
uais coletivos de regenera-
ção do sagrado que qu e os diversos objetos técnicos
técnicos contemporâneo
contemporâneoss podem revelar todo o seu
 potenc
 pot encial
ial de hierof
hie rofani
ania.
a. Ma
Mas,s, pa
para
ra Ho
Hottois
ttois,, a téc
técnic
nicaa nã
nãoo ser
seria
ia inf
influe
luenc
nciad
iadaa pe
pelala ord
ordem
em
simbólica na medida em que o tecnocosmos teria a tendência à globalização, ao universal universal..
92 Hottois, G. op. cit.
93 Stiegler, B. op.cit. p.174.
94 Marcuse, H. LUomme Unidimensionnel. Paris: Les Editions du Minuit, 1968.
95 Grimel,
Grim el, Jean. La L a fin de 1'aven
1'avenir.
ir. Le Déclin Technologique et la crisecris e de 11'Occid
'Occident.
ent.
Paris: Seuil, 1992.
96 Virilio, Paul. Rat de Laboratoire. In:
In: L’
L’Autre
Autre Journal. Paris:
P aris: n°27
n°27,, p.32
p.32..•

• ANDRÉ LEMO
LEMOS
S   61
 

Pa r t e   II
 _•• A vid
 _ vidaa  socia
social
lcc o n tem
te m p o rân
râ n e a

C apítulo  I
C o n d i ç ã o   p ó s -m o d e r n a   e  c i b e r c u l t u r a

A idéia de modernidade, como vimos, está ligada ao próprio


nascimento
nascimen to da fil
filosofia
osofia ocident
ocidental.
al. Modernidade
Mod ernidade significa um modo
de p ensar e julg ar o te
tempo.
mpo. O nascimento da razão filosófi
filosófica
ca na
nass
ilhas Jônicas no século V a.C. impôs uma outra maneira de enten-
dermoss e apreenderm os a experiência temporal e, consequen
dermo con sequentemen
temen -
te, espac
espacial.
ial. O nascim ento da razão filosófica, do logos como centro
simbólico da civilização grega, é a possibilidade de um a revolução
na represen
repre sentação
tação do tem po9 po97 7. A dimensão
dime nsão ffilosófic
ilosóficaa do p presen
resentete é,
daqui em diante, o lugar luga r pri
privilegi
vilegiado
ado para en entender
tender e julg ar o passapassa- -
do, preparando o futuro.
A modernidade é uma m aneira aneira de estar no temp tempo o e no espa
espaço,
ço,
vivida de forma
form a diferente pelas civilizações
civilizações mítmíticas
icas tradicionais. O sim-
 bo
 b o li
lism
sm o d
doom
mito
ito,, eem
m ssua
ua e st
stru
rutu
tura
ra re
repe
petit
titiv
iva,
a, p
pee rd
rdee , cco
om o nnaa sc
scim
im e n -
to da razão filosófica,
filosófica, a sua dignidade como princípio legitimado
legitim adorr e
mobilizad
mo bilizador
or da socieda
sociedade de (Bartholo Jr
Jr.9
.98
8). Se a m ode
odernida
rnidade
de é uum
m
conceito
conce ito filos
filosófico,
ófico, sua pregnância se dá a partir do século X XIX,
IX, ana-
lisada poeticam
poe ticamente
ente po
porr Baudelaire99na sua descriç
d escrição
ão flan
flaneurística
eurística d
daa
sociedade industrial, e sociologicamente por Weber,Weber, na sua análise da
m od
odern
ernida
idade
de bu
buro
rocr
crát
átic
ica1
a10
00.
Max Weber defi definene a modernidade como o p rocesso de racio-
nalização da vida
v ida socia
sociall no término do século X VII. E ste processo

abriu as vias para a industrialização e a modernização global do


Ocidente, sendo um processo p rocesso gl global,
obal, iintegrando
ntegrando a econo m ia capita-
lista, o Estado Nação, a administração científica do trabalho e da
 prr o d u ç ã o , o d e se
 p senn v o lv
lvim
im e n to in
indd u st
stri
riaa l e te
tecc n o ló
lógg ic
icoo . S ã o c ri
riaa d a s,
na sinergia de racionalidade e emancipação, as condições de uma
administração racional da vida social. Devese depreciar as tradi-
ções, gerando um a transformação radical das das condições de existên-
cia.
ci a. A m odernidade é inexoravelmente ut utópica,
ópica, alimentando
alimen tando a espe-
rança (crença?) no contr controle,
ole, domínio e dom esticação racional, cien-
tífica e técn ica das fo forças
rças n
natura
aturais,
is, com o afirm a H Habab er
ermm as1
as 101.
Habermas, contudo, não rejeita a modernidade. Ele pretende• pretende •

• ANDRÉ LEM
LEMOS 65
 

corrigir os rumos do racionalismo


racionalismo moderno,
m oderno, aceitando
aceitando as críticas
críticas de
W
(l eberrepressivo
(lado
ado (burocratização
(buro cratização
repressi vo da razãodad a vida social),
social),dadenatureza
dominação H orkh
orkheim
eimer
er home
e do e A do
homemdorno
mrno1 102
pelo
homem
hom em)) ou de Fouc
Fo ucau
ault1
lt1003(as estruturas do d o conhecim
con hecimento/p
ento/pode
oder).
r). Para
Habermas, a correção deste processo só será possível com o nasci-
mento de uma u ma razão que possa reconduzir os excessos da parte ins-
trumental que a dominou na modernidade. Para o sociólogo alemão,
o problema não é a razão, mas o predomínio da razão instrumental
sobre a razão
raz ão substan
sub stantiva
tiva (Rou
(R ouan
anet1
et1004). Através da razão
raz ão com
c omun
unicati-
icati-
va, conseguiriamo
conseg uiriamoss chegar
cheg ar ao consenso, única possibilidade
pos sibilidade de corri-
gir o processo filosófic
filosóficoo da modernidade.
modernidade. A modernidade seria um
 prr o jeto
 p je to i n a c a b a d o 105. P a r a H a b e rm a s, “no lugar de renunciar à  
modernidade
mod ernidade e a seu proj eto, deveriamos tirar lições dos desvios que  
projeto,
marcaram esse projeto e d dos
os erros comet
cometidos
idos p o r abusivos prog ra
mass de su pe raçã
ma ra çã o”'06
o”'06.
A modernidade é a expressão
expressão da existência
existência de uma
um a mentalidade
mentalidade
técnica, de uma tecnoestrutura e de uma tecnocultura que se enraiza
em instituições, incluindo toda
tod a a vida social
social na burocratização,
burocra tização, na secu
larização
lari
lizadazação
dasdaesferas
religião,
religião,
d a no
da individuali
individualismo
ciência, smo
da arte e na
e da diferenciação
moral. ciên ciainstituciona-
A ciência instituciona-
vinculase,
vincul ase,
como vimos, ao desenvolvimento
desenv olvimento da tecnologia
tecnologia e à produção
produ ção industri-
industri-
al;; a arte é retirada de seu contexto religioso
al religioso e passa
pa ssa a ser
se r espetáculo,
espetáculo,
sustentada pela publicidade e por um mecenato m ecenato;; a moral é enquadrada
enquad rada
na secularização
secularizaçã o individualista da ética
ética protestante e do espírito do capi-
talismo (Weber).
(Weber). NoN o plano econômico e político,
político, com
comoo mostra
mos tra Rouanet,
a sociedade modern
m odernaa é,é, verdadeiramente, a sociedade industrial; de pro-
dução de bens e serviços massivos,
massivos, da utilização
utilização intensiva da d a energia,
do trabalho qualificado
qualifica do dos especi
especialistas
alistas e da hierarquização
hierarqu ização sócioeco
nômica dos donos do capitalcapital.. O espaço dividese
dividese em espaç
espaçoo privado, de
liberdades
liber dades individuais,
individuais, e em espaço públ público,
ico, de dever
d ever cívico. O cidadão
consum
con sumidor
idor deve
dev e circular neste
neste espaço de universali
universalidade
dade e de igualda-
de. É no espaço público que as ações ações são tomadas pela sociedade orga-
nizada (sindicatos, associações,
associações, ONGs,
ONG s, partidos políticos).
políticos). A demo
de mocra-
cra-
cia representativa constituise
constituise como um jog jogoo político com
comoo representa
representa- -
ção legítima da d a sociedade.
sociedade.
O modo de d e produção capitalista requer um indivíduo que
qu e deve
ajustarse
ajustarse às novas exigências econômicas, com normas universais de
consumo. Na modernidade, o indivíduo é o consumidor. Podemos

6 6 | CIBERCULTU
CIBERCULTURA,
RA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL
SOCIAL NA CULTURA CONTEMPO
CONT EMPORÂNE
RÂNEAA•
 

dizer que o indivíduo moderno é filh filho


o da filosofi
filosofiaa das luze
luzes,
s, da em an-
cipação e d a universalização da moral ocident
ocidental
al judaicocristã. A m moral
oral
moderna
mode rna estabelecese, assim, como secular, universalista e individu-
ind ividu-
alista, supervisionada pela razão, estando, daqui em diante, em har-
monia com as necessidades da sociedade capitalista industrial.
industrial. E no-
n o-
tável
táv el com
comoo as artes e a arquitetur
arquiteturaa são investidas por essa racionaliza-
raciona liza-
ção do mundo, estando em rompimento com o ecletismo do século
XIX. O pas
passad
sadoo é e de
deve
ve ser rej
rejeita
eitado
do1107. Ao térm
término
ino d o quattrocento  
e do Século das Luzes, o homem ocident
ocidentalal em ancipase dos constran-
gimentos tradicionais,
tradicionais, entrando
entrando em jog o uma concepção linear e pro-
gressiva da história.
história. O progresso é uma conseqüêncconseqüência ia da própria exis-
tência da histór
história.
ia.
A crise
c rise da linea
linearidad
ridadee histór
histórica,
ica, como cam
caminho
inho inevitável para o
 prog
 pr ogre
ress
sso,
o, eex
x p re
ress
ssaa a c rise
ri se d
daa idé
idéia
ia de m
mod
oder
erni
nida
dade
de e se
seus
us p
par
arad
adigigm
m as
fundadores. Não há m odernidade se não é mais possível fala falarr de futu-
ro. O fim da história é o fim da modernidade.
m odernidade.
O advento
a dvento da sociedad
sociedadee de consumo e dos ma ss medi media a  ajudou
muito para o reconhecimento ou ou consciênci
consciênciaa (pósm odem a?) de rup-
tura com a modernidade. A influência dos meios de com comunicação
unicação e a
dinâmica da sociedade de consumo são as principai principaiss razões d a crise
da noção de história e da crise das m metanarrati
etanarrativas
vas mmodernas.
odernas.

Contemporâneo
Contemporâneo pós
pós-mo
-modem
demo?
o?

A idéia de pósmodernidade aparece


aparece na segunda metade do sé-
culo XX com o advento da sociedade
sociedade de consumo e dos ma ss media
media,, 
associados à qued a das grande
associados grandess ideologi
ideologias
as modernas e de idéias cen-
trais como história, razão, progresso. Agora, os campos da política,
da ciência e da tecnologia, da economia, da moral, da filosofia, da
arte,
ar te, da v ida quot
quotidiana,
idiana, do conhecimento e da comu nicação vão so-
frer um a m modificação
odificação radic
radical.
al.
O termo pósmoderno aparece, pela primeira vez, na esfera
estética,
estét ica, m ais precisamente no dom ínio da crít
crítica
ica literár
literária,
ia, em uma
antologia de poesia espanhola e hispanoame ricana de Federico de

Osnis, em 193
1934.
4. Em 19
1959
59,, Irwing Ho
Howewe publica, na Partisan Review,
o artigo Sociedade de M assa e a Ficção Pôs-m oderna,  on de fala da
decadência
decadê ncia da ficção eem
m m eio à cultura de massa. Ihab A ssan afirma
que o termo pósm odem o, na li literat
teratura,
ura, aparece com o crítica e di
di•

• ANDRÉ LEMO
LEMOSS | 6 7
 

ferencia
fere ncia çã
çãoo do m
movim
ovim ento das va
vangua
nguardas
rdas do alto m od ern ism o1
o10
08.
Pósmodernidade é a expressão do sentimento de mudança
cultural e social
social correspondente ao apareci
aparecimento
mento de um a ordem eeco-co-
nôm ica cha m ada de pósi pósindustr
ndustriali ialismo,
smo, nos anos 4050 nos E.U. A.
e em 1958 na França, com a 5a República. Os anos 60 serão um
 pee rí
 p ríoo d o d e tr
traa n s iç
içãã o , d e r e e n c a ix
ixee ( G id d e n s 109) d a s in
inss ti
titu
tu iç õ e s à
falência dos discursos. A parecem, aqui e aali li,, sintomas de desse
sse m malal es-
tar: contracultura, revolução verde, informatização da sociedade,

 pó
 p ó s  c oPa
lo
lon
Paran ia
ra iali
D lis
s m ol B
Danie
aniel e pó
pell1
ó sin
s10ind
ell11 , adpósm
u st
stri
riaa li
lism
sm o .idade corresp
odem correspond
onde,
e, eexatam
xatam en-
te, à fase pósindustrial da sociedade de consumo, onde a produção
de bens e serviços
serviços (liga
(ligados
dos a grandes consumos de energia) é mod modifi-
ifi-
cada de acordo
aco rdo com as novas tecn
tecnologias
ologias (digitais)
(digitais) da informação. O
sociólogo americano
am ericano exp
explica
lica sua teoria
teoria at
através
ravés de estatísti
estatísticas
cas ec
econô
onô--
micas que mostram a redução do número de trabalhadores no setor
secundário e o aumento
au mento deles no setor de serviços
serviços (terciári
(terciário).
o). A ter-
ceira fase do capital é aquela do capitalismo multinacional, onde o
 p lan
 pla n et
etaa in
inte
teir
iroo se to m a u m gra
gr a nd
ndee m er
erca
cado
do:: a g lo
lobb a li
lizz a ç ã o . E n tr
traa -
mos na terceira fase do d o capital,
capital, na terceira fase da mmáquina,
áquina, na fase da
microeletrônica
microe letrônica e da energ
energia
ia nucl
nuclear.
ear. A fase pósindustri
pósindustrial al d daa socie-
dade não é uma ruptura com a di dinâmica
nâmica m monopolis
onopolista ta de capital
capitalismo,
ismo,
mas uma radicalização do desenvolvimento de sua própria lógica.
Em bora esta não sseja eja uma ruptura com a sociedade capitali
capitalista, sta, alguns
autores aceitam a existência
existência de umumaa nova ordem cultural.
cultural.
Jameson, por exemplo, consi considera
dera que essa fas
fasee do desenvolvi-

mento capitalista corresponde à cultura pósmode pósmodema ma,, visto estestarmos


armos
diante de um a nova configuração do Estado e da econom ia, trazendo,
em seu bojo, um umaa nova forma de exercício da pol políti
ítica.
ca. Para
P ara Rouane
Rouanet, t,
a política
política pósm
pósmoderna
oderna seri
seriaa uma “política segmentária,
segm entária, exercida po r  
grupos particulares, política micro-lógica, destinada a combater o  
 po
 p o d e r inst
in sta
a lad
la d o n os inte
in ters
rstíc
tício
ioss os
o s m a is imp
im p e rce
rc e p tí
tíve
veis
is d a v ida
id a q u o
tidiana... ” m. A meta não é mais a polít política
ica do universal, mas aquelas
microscópicas,
microscó picas, política das minorias, das massas que desapa des aparece
recem m em
sua astucios
astu ciosaa ind
indiferenç
iferença, a, como
com o aafirma
firma BaBaud
udrillard
rillard 112. O sujeito bus b us- -
ca, incessantemente, a conquista
co nquista do pr presente,
esente, como m ostra MaffesoliM affesoli,,
aqui e agora.
agora. Se o ano 2000 era “o” futuro para a geração do d o começ
começo o
deste século, o “aqui e agora” ago ra” é a úni
únicaca saída para a geração d doo século
que começa. Aqui, vivemos a globalização do llocal ocal e localização do

68   CIB
CIBERCU
ERCULTUR
LTURA,
A, TECNOLOGIA E VIDA SOCI
SOCIAL
AL NA CULTURA CONTEM
CONTEMPORÂNEA
PORÂNEA •
 

global. Entramos no ambiente social onde a dimensão estética e


hedonista imp imp regna todos os aspectos da vida contemporânea.
A realidade social tomase produto de processos de desmateria desm ateria
lização e de simulação do mundo (Baudrillard), impulsionados pelo
desenvolvimento
desenvolv imento de máquinas de informação (os comp computadores).
utadores). ComComo o
afirma Rouanet, o home homem m histéri
histéricoparanói
coparanóico
co mod
moderno
erno morreu, dando
lugar ao homhomemem esquizoconform
esquizoconformista ista (Baudrillard) ou esquizoanarquis
ta (Deleuz
(De leuzee e G ua uattar
ttari1
i113), habitand
habitando o um mun
mundo
do ddee im
imag
agens
ens hiperreais:
a sociedade do espetáculo.
Com o observa corretamente L Lyota
yotard,
rd, o homem pósmod erno
obedece às enun ciações de vária váriass ordens através de jog os de lingua-
gem, escapando das formas totalitárias da razão instrumental mo-
d e rna
rn a 114. L yo tar
tardd va
vaii mo
mostrar,
strar, que
que,, na co nd
ndiçã
içãoo p ó s
smm o d e rn
rnaa 115, o
conhecimento científico entra em crise das próprias metanarrati
vas. A ciência pósmoderna (pósnewtoniana) procura novas for-
mas de consenso naqu il ilo
o que o fi filósofo
lósofo fra
francês
ncês cham a de “paralo-
gia”. A ciência moderna, segundo ele, foi construída na síntese do
discurso
discurs o e do em piri
pirismo,
smo, procurando o consenso, a efici
eficiência,
ência, a ce r-
tezaa e o determinismo. Ao contrári
tez contrário,
o, a ciência pósm oderna (a teo-
ria do caos, as lógicas nãodenotativas, o paradigma cibernético
informacional,
informaci onal, a teori
teoriaa dos jogos, a mecânica quântica, a matemá ti ti-
-
ca fractal,
fractal, etc.) legiti
legitimase
mase pelo paradoxo e pela paralogia, re velan-
do o heterog
heterogêneo
êneo e a diferença. A questão não é mais “de cconh onh ece r  
o que é o a dversário (a natu
naturez a), mas sa ber qua l jo g o ele jo g a  ”1
reza),  ” 116.

A
tí ciênci
ciência
tínuo,
nuo, doacatastrófico,
pósm odernadotornase
caótico,uma espécie
do com plexodee ci
ciênc
doênc ia do descon-
paradox al. Esta
nova ciência, afirma Lyotard, “sugere um modelo de legitimação  
que não é aque le da m elhor performance, ma s aquele da diferença 
com preen
preendida
dida com o pa ra lo g ia ’’1'1
'1..
Em termos filosóficos, Nietzsche é o primeiro a produzir uma
crítica significativa da razão moderna e do projeto apolíneo da
modernidade, opondo
op ondo a ordem moderna
mode rna ao passado arcaicodionisíaco
da força vital e do êxtase.
êxtase. O niilismo corresponde a um a revitalização
de valores vitais
vitais da sociedade contra o poder anestesiante
anestesian te da razão e
da moral modernas.
m odernas. O culto a Dionísio representa o fim do princípio
de individualização,
individualização, a vitória
vitória do p polimórfico.
olimórfico. No m esmo sentido, ca-
minha a filosofia de M.
M. H
Heidegg
eidegger,
er, ao mostrar que o pe pensam
nsam ento oci-
dental é um
umaa m
maneira
aneira de esconde
esconderr o ser em detrime
detrimento
nto do ente, atra
atra••

• ANDRÉ LEMOS
LEMOS | 6 9
 

vés da destruição
d estruição da m etafísietafísica ca (a razão filos
filosófica)
ófica) pela ciência objeti-
va (a razão científi
científica).ca).
 Nos
 N os an
anosos 60
60,, a fi filo
loso
sofifiaa de N ieietz
tzsc
schh e e d e H e id
idee g g e r sã
sãoo am -
 pla
 p lam
m e n te d ififuu n d id
idaa s no
noss E ststadados
os U ni
nido
dos,s, na F ra
rann ç a e n a A le lemm an
anhh a,
dentro da corrente pósestruturalista onde autores como Derrida,
Barthes, Foucault,
Fouc ault, Deleuze, Castoriadis ou Guattari vão criticar a ra- ra-
zão moderna
m oderna a partir de perspectivas difer diferenciadas.
enciadas. Cr Criticase
iticase a supe-
rioridade da razão, da ciência e da técnica técnica na mod modernidad
ernidadee ocidental
ocidental..
 No
 N o c am p o dasda s arartetes,
s, Jam
Ja m e so
sonn faz
fa z re
refe
ferê
rênn c ia às m u d a n ç a s e m
todas as áreas: a poesia de John Ashbery A shbery nos anos 60 em op oposição
osição à
 po
 p o e si
siaa a ca
cadd ê m ic
icaa , a a rqu
rq u it
itee tu
tura
ra de Ve
Ventu
nturi
ri c o n tr
traa a a rq
rquu it
itee tu
tura
ra m o -
derna e o  In  Inte
tern
rn a ti
tio ty le,, a arte Pop de Andy Warhol, a música
o n a l S tyle
concreta e m inima inimalistalista de John Cag Cagee e Philli
Phillipe
pe Glass, o punk e a  N  Nee w  
Wave, o cine cinemama da N  Nououve llee Vague, a literatur
vell literaturaa com Tho Thom m as Pynchon,
entre outroutros.
os. A arte pósmodem a apar apareceece como um mod modo o de protes-
to contra a arte do alto modernismo, quequ e conquistou galerias
ga lerias de arte,
museus e academias.
Uma das características proeminentes da arte pósmodema é a
quebra de fronteiras entre a alta cult
cultura
ura e a cultura popular
popu lar ou de massa.
O pósmodernismo
pósm odernismo dos anos 60 é fruto de uma vanguarda anárqui anárquica,
ca,
instituindose como uma ruptura com a institucionalização oficial da
cultura (entendida como artes e espetáculos). Os artistas começam a
descobrir
descob rir as possibi
possibilidades
lidades oferecidas pelas novas tecnologias a partir

da vídeoarte,
veremos da fotografia,
mais adiante no capítulodos satélites
sobr e dos
sobree a arte ele computadores, como
eletrônica.
trônica.
Com o afirma E. Subirats, o fi fim
m das possibilidades
possibilidades revoluc
re volucioná-
ioná-
ri
rias
as das vanguardas do começo do século XX, o pósmodernism o não
olha mais o passado sob o signo da paródia, mas sob o rótulo
do pastiche.
pastiche. D Desta
esta forma, a cul cultura
tura pósmodem
pósmodemaa não se prende à di-
mensão histórica
h istórica do futuro, mas ancorase no presente, revisitando o
 paa ss
 p ssaa do
do.. E s p ír
írit
ito
o d a é p o ca
ca,, a a rt
rtee d a p ó s m o d e m id
idaa d e é a a rt
rtee d o
“aqui e agora”, performática, participativa, aproveitando os objetos
do diaadia.
Para Jameson, a pósmodemidade caracterizase por uma in-
versão do milenarismo
milena rismo e pelo fim das gr grandes
andes ideologias. Com
Co m a crise
da idéia de futuro, as duas chaves para entender a mu dança espaço
temporal da pósmodem
pósm odem idade são, segundo o auto autor,
r, o pastiche e a
esquizofrenia. Já
J á que os artist
artistas
as não têm nada mmais
ais a inventar, a única

70 CIBERCULT
CIBERCULTURA,
URA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL NA CULTURA CONTEM
CONTEMPORÂ
PORÂNEA
NEA •
 

 poo s s ibil
 p ib ilid
idaa d e e s tá nas
na s c o m b ina
in a ç õ e s m ú ltip
lt ipla
lass , n a s c o la
lagg e n s , nos
no s
happenings  e nas performances.
A partir
pa rtir de uma perspectiva lacaniana
lacaniana,, mostrando
m ostrando que hoje estamos
diante de uma um a desconexão lingüística
lingüística e de uma um a desconexão
desconex ão do indiví-
duo em relação a uma sucessão temporal, Jameson propõe a idéia de
uma esquizofrenia pósmodema. Como a continuidade temporal está
quebrada, a experiência do presente fica mais forte, intensificando a
frustração e o desespero. A experiência esquizofrênica da pós
modemidade é a experiência de uma temporalidade descontínua, uma
experiência
experiênc ia temporal onde há uma desestabilização
desestabilização acelerada das per-
sonalidades em ruptura com a fase inaugural inaugural de modernidade. Nesta, o
 pod
 p oder
er discipli
disci plina
nar,
r, a unive
un iversa
rsalid
lidad
adee de valore
va lores,
s, os pr
prinincí
cípi
pios
os ideo
id eológ
lógico
icoss
e coercitivos
coercitivos fundaram uma u ma foima
fo ima de coesão social social através do fortale-
cimento do individual
individualismo
ismo e do racionalismo cego à complexidade.
com plexidade.

terizadaMaffesoli,
Maffesol i, por exemplo,
pelo advento de tri bos mostra
tribos em francacomo a pósmodem
pósmàodemidade
oposição figuraidade
modeé rna
modernacarac-
do
individualismo
indivi dualismo.. Para Jameson, também a morte m orte do sujeito,
sujeito, ou o fim do do
individualismo, é um dos componentes mais importantes da pós
modemidade.
modemidad e. É justamente
justamente o declínio
declínio de individual
individualismo
ismo que dá forma à
 pósm
 pó smododememididad
adee social. Para
Par a d a r conta
co nta das
da s relaç
re laçõe
õess sociais
socia is conte
co ntemm porâ
po râ-
-
neas,
nea s, não podemos
podem os falar mais mais a partir de uma u ma perspectiva individual
individualistista,
a,
contratual,
contratu al, a partir
pa rtir de uma estrutura mecânica que marcou a modernidade.
Pelo contrário, devemos estar atentos atentos aos múltiplos papéis dos d os sujeitos
sujeitos
sociais.
soci ais. Estes configuramse
configuram se como estruturas
estruturas complexas
comp lexas e orgânicas
orgân icas que,
sob as mais variadas forma formas, s, recusamse a reconhecerse em algum a lgum pro-
 jeto
 je to polít
p olítico
ico,, em qquaualq
lque
uerr finalida
fina lidade
de ideoló
ide ológic
gicaa ou uutóp
tópica
ica.. A pre
p reoc
ocup
upa-
a-
ção é com o aqui e agora, com um prese presente
nte vivido
vivido coletivamente.
coletivamente. Pode-P ode-
mos falar
fa larem
em mudanç
mudançaa de sensibili
sensibilidades
dades,, falas e práticas.
práticas.
Para Kroker,
Kroker, o contemporâneo
contemporâneo é marcado por po r cenas de pânico.
pânico.
A cultura pósmodema é vista como excesso, desperdício, despesa
improdutiva. Ela é marcada
m arcada por um niilismo
niilismo profundo
profun do e pela sedução,
sendo uma interface entre o êxtase
êxtase e a decadência, entre a melancolia
das grandes narrativas e o niilismo
niilismo extático, entre a prisão de corpo corp o e
o prazer de corpo, entre a fasc
fascinaçã
inaçãoo e o lamento.
lamento. Esta E sta cultura seria
aquela do excremento (Kroker), uma cultura em ruínas, imersa na
efemeridade das cenas ded e pânico (p a n ic sc en e s)
s)1 '8.. Sinais desta cultu-
1'8 cultu-
ra são numerosos
nume rosos na moda,
moda , nos videoclipes, nas nas doenças
doenç as sexuais, no
fim da grande
grand e arte, nos novos usos da informática, etc. etc.•

• ANDRÉ LEMOS
LEMOS | 71
 

Para Kroker,
K roker, este é o mom
momento
ento de implosão e de inversão, onde
a sensação mítica do primitivo é reconectada à sociedade tecnológi
tecnológica,
ca,
numa simbiose entre um hiper
hiperprimit
primitivismo,
ivismo, expressão de mitologi
mitologias
as
(o carnaval, o dionisíaco), e um hipertecnologismo, em direção às
tecnologias
tecnolo gias do virtual (image
(imagens
ns de sínt
síntese,
ese, realidade virtual
virtual,, multimídia,
ciberespaço, etc.) Para Kroker, "quan "quando do a tecnologi
tecnologia a e sua fa se  
ultramodernista conectam-se de novo ao medo mítico radical do  
 prr i m i t iv is m o , n ã o s e t r a ta m a is d o m u n d o b a u d r i l la r d i a n o d o  
 p
simulacrum e hiper-realismo, mas de uma nova nova cena de  
tecnol
te cnologia virtual e o fim da fantasia do Real  ”1
ogia virtual  ” 119.
A pósmodernidade é o terreno de desenvolvimento da
cibercultura. Ela se caracteriza por uma condição sociocultural que se
inscreve nessa cena cen a de pânico de que nos fala Kroker, instituindo uma
nova forma de relação espaçotemporal. O espaço e o tempo pós
modernos não podem mais ser percebidos como seus correlatos mo-
dernos.
der nos. Dav id Harvey desenvol desenvolve ve a tese de acordo com a qual uma
mudança cultural (espaçotemporal)
(espaçotemporal) est estáá em marcha desde, pelo me-
nos,
no s, a década d dee 70 com a est estabili
abilização
zação da cultura de massa.
 Naa m
 N mododererni
nida
dade
de,, o tem
te m po é lin
linea
earr (p
(pro
rogr
gres
esso
so e his
histó
tória
ria)) e o e sp
spaa -
ço é naturalizado e explorado enquanto lugar de coisas (direção, dis-
tância,
tânc ia, forma, volume). N Naa modernid
modernidade, ade, o tempo é um modo d dee escul-
 pirr o es
 pi espa paço
ço,, j á qu
quee o pr
progogre
resso
sso,, a inc
i ncam
amaç ação
ão do tetemm po lin
linea
ear,
r, im
impl
plic
icaa
a conquista do espaço físico.
físico. Na pósmodernidade, o sentimento é de
compressão do espaço e do tempo, onde o tempo real (imediato) e as
redes telemáticas,
telem áticas, desterrit
desterritoriali
orializam
zam (desespaci
(desespacializam)
alizam) a cultura, tendo
um forte impacto nas estrut
estruturas
uras econômicas, sociais
sociais,, p
políti
olíticas
cas e ccultu-
ultu-
rais. O tempo é, assim, um modo de aniquilar o espaço.
Este é o ambiente
am biente comu
comunicacional
nicacional da cibercult
cibercultura.
ura.

O ambiente comunicacional contemporâneo

Podemos dizer que a avent aventura


ura das “novas
“novas tecnologias de comcomu-u-
nicação” (NTC) teve seu boom,  não n no
o sécul
século o XX, como pensamos
comumente, mas no século XIX. Aqui, por meio de artefatos eletro
eletrônicos (telégrafo, rádio, telefone, cinema), o homem amplia o
desejo de agir a distância, da ubiquidade. A idéia de Brecht sobre o
rádio parece ser bem esclarecedora deste desejo. Ele vai afirmar o
 po
 p o te
tenn c ia
iall rree li
liaa n te
te,, soci
so cial
al e co
comm u n it
itáá ri
riood
dee ss
ssee media , em
embora,
bora, na prá

72 | CIB
CIBERCUL
ERCULTURA,
TURA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL
SOCIAL N A CULTURA CONTEMPORÂ
CONTEM PORÂNEA
NEA •
 

tica, este nunca


tica, nu nca tenha sido pl plenamente
enamente real
realizado.
izado. Esta utopia
utop ia brechteana
está transformand
transformandose ose em uma verdadeira topia  com o cibere ciberespaço.
spaço.
O s media  podem ser consi considerados
derados como inst
instrumentos
rumentos de simu-
lação, formas técnicas de alterar o espaçotempo. Se Será
rá no século XIX
que diversas inovações mediáticas aparecerão, a começar em 1837
com o telégrafo elétrico, o telefone em 1875, o telégrafo por ondas
hertzianas em 190 19000 e um ano antes, o ci cinema.
nema. E m 1961964,4, o primeiro
primeiro
satélite de com unicação, o Tel Telst
star,
ar, revoluciona nossa v visão
isão de mmundo
undo
e instaura um espaço de informação cobrindo todas as áreas do plane- plan e-
ta 120. A gran
grandede nov
novidade
idade d doo sé
século
culo XX será as novas tecn
tecnolog
ologias
ias d
digi-
igi-
tais e as rerede
dess ttel
elem
em át
átic
icas
as1121.
O que
qu e ch
chamam
amamos os de novas tecnologias1
tecn ologias122d
2dee com unica
unicação
ção e in-
formação surge a partir de 1975, com a fusão das telecomunicações
analógicas com a informát
informática,
ica, possibil
possibilitando
itando a veiculação
veiculação,, sob um m mes-
es-
mo suporte  o compu
computador
tador  , de diver
diversas
sas for
formatações
matações de mensage
mensagens.
ns.
Esta rev
revoluç
olução
ão ddigita
igital1
l123implica, progressivam
progressivamente,
ente, a pass
passage
agemmd do
o mass  
media  (cujos símbolos são a TV, o rádio, a imprensa, o cinema) para
formas individuali
individualizadas
zadas de produç
produção,ão, difusão e estoque de infor
informação.
mação.
Aqui a circulação de informações não obedece à hierarquia da árvore
(umtod
(um todos)
os) e ssim
im à m multipl
ultiplicida
icidadede do riz
rizom
omaa (t
(tod
odos
osto
todo
dos)1
s)12
24.
As novas tecnologias de informação devem ser consideradas

em função da comunicação bidirecional entre grupos e indivíduos,


escapando da difusão centralizada da informação massiva. Várias
tecnologias ccomp
tecnologias omprovam
rovam a falência da centr centralida
alidadede d dos
os media  de mas-
sa:: os vide
sa videotex
otextos,
tos, os BBSs, a rede mundial mund ial internet
interne t em tod todasas as suas
 paa rt
 p rtic
icu
u la
lari
rid
d a d e s (w
(web
eb,, w ap
ap,, chats,  listas, newsgroups, muds...).  E m
todos estes novos media  estão embutidas noções de interatividade e
de desce
de scentraliz
ntralizaçãação o da informaçã
informação, o, cocomomo verem os a sseg eg u ir1
ir1225.
Pensarr essa nova forma de comunicação exige esforços teóri-
Pensa
cos consideráveis. Alguns autores contemporâneos fizeram tentat tentativas
ivas
neste sentido. Mas tudo começou com McLuhan. Para o pensador
canadense, os media  m odificam nossa vis visão ão do mundo. E Ele
le mostrou
como a imprensa transformou o mundo da cultura oral, da mesma
forma como a eletricidade estaria modificando o que ele chama de
media do individuali
individualismo smo e do racional
racionalismo, ismo, a impren
imprensa sa de Gutenbe
Gutenberg. rg.
Para McLuhan, a eletricidade faz do mundo uma aldeia glo-
 baa l, a o m e sm o te
 b temm p o qu
q u e e st
staa ri
riaa rree tr
trib
ibaa li
lizz a n d o a eex
x p e r iê
iênn c ia so
soci
cial
al..
Estaríamos entrando na era da simultaneidade e da tactili tactilidade,
dade, numanuma••

• ANDRÉ LEMO
LEMOSS | 73
 

integração total
total dos sent
sentidos,
idos, des
deslocandonos
locandonos do parad igma m ecâ-
nico ao orgânico.
orgânico. M cLuhan mostra como a im prensa mod ificou aass
formas de nossa experiência do mundo, assiassim
m com o nossas ati
atitudes
tudes

mentais.
mentai
narcoses.dos
Se asenti
invenção
dos, qude
sentidos, er G utenberg
diz
dizer, encor
encorajou
ajou de
er, a exacerbação o que ele cham
só uma a de
sensação
(a visão para
par a a escrita e a imprensa), os novos media  estari  estariam
am favo-
recend o a tactil
tactilidade,
idade, o retorno à oralidade e à si simu
multaneidade.
ltaneidade. Mais
ainda, se as tecnologias são prolongamentos
prolongamen tos de nosso corpo, próteses
de no
noss
ssos
os s e n tid
ti d o s 126, os media  são extensão do nosso sistema ner-
voso central.
A tipografia e a técnica de impressão estavam ligadas ao
raciona lismo e à persperspectiva,
pectiva, privilegiando o lado raciona
racional,
l, esqu er-
do do cérebro. A escrit escrita,a, e depois a iimprensa,
mprensa, teriam de stribalizado
o homem. A eletrônica e, mais tarde, o que será chamado de
multimídia, parecem
pa recem ajudar a criação de novas fformasormas de tribalização.
Para M cLuhan, a retri retribalização
balização engloba “a grande fam ília humana 
em um
uma ó ttrr ib o " 127, a aldeia global.
a ssó global. O indivíduo destribalizado nas-
ceu no momento em que a instituição da escrita fonética realizou
uma cisão entre “o mund mundo o mágico da audição e o m und
undoo indiferen
te da visão m .

O m ulti
ultimídia,
mídia, entendido tanto como sua vertente off-line  (CD
Rom) como on-line  (inter  (internet),
net), é hoj
hojee o exemplo mais claro dess dessaa si-
multaneidade e convergênci
convergência. a. C
Com
om as tecnologias analógicas, a trans-
missão, o armazenamento e a recuperação recuperação de inforinformação
mação eram com com--
 ple
 p leta
tamm e n te in
infl
flee x ív
ívee is
is.. C o m o d ig
igita
ital,
l, a fo
form
rm a d e d istr
is trib
ibuu iç
içãã o e de
armazenam ento são independentes
independentes,, m mult
ultimodai
imodais,s, onde a escolha em
obter uma informação sob a forma textual, imagética ou sonora é
independen
indepe ndente te do modmodo o pelo q qual
ual ela é transmiti
transmitida.
da. N Nesse
esse sentido, as
redes eletrônicas constituem
constituem um a nova forma de publicação (a eletrô-
nica), onde os computadores podem produzir cópias tão perfeitas
quanto o original
original..
A idéia de original parece tornarse problemática a tal ponto,
que essa questão está embutida em problemas de Copyright de obras
eletrônicas, como as imagens digitais e a música em formato MP3.
Podemos dizer, com Pool, que os novos  m  mee d ia   eletrônicos são
“tecnologias da liberdade”'29. P  Por
or tecnol
tecnologias
ogias da lliberdade
iberdade Pool en-
tendee aquelas que não se pod
tend podee controlar o conteúdo, que colocam em
questão hierarquias,
hierarqu ias, que prop
proporcionam
orcionam agregações soc
sociais
iais e que mul

74 CIBERCULT
CIBERCULTURA,
URA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL NA CULTURA CONT
CONTEMPO
EMPORÂNE
RÂNEAA•
 

tiplicam o pólo da emissão não centralizada. Assim, por exemplo,


com os hipertextos, a liberdade liberdade de naveganavegação ção do usuário desestabiliza
distinçõess clássicas entre leito
distinçõe leitorr e autor.
autor.
Diante de uma um a obra mulmultimídi
timídiaa em CDRCDRom, om, ou diante
d iante das home  
 pa
 p a g e s  da internet, não nos colocamos mais como com o leitores de um livro
ou espectadores das formas clássicas clássicas do espetáculo. Agora, Ag ora, devemos,
devem os,
 para
 pa ra qquue hhaa ja a co
conn teci
te cimm en
ento
to,, v
vee r e in
inte
tera
ragi
gir,
r, sim
si m u lt
ltaa n ea
eamm e n te
te,, cco
om a
obra. Este agir se dá através da interatividade digital (clicar (c licar em ícones
os mais diversos), como veremos adiante. Podemos, também, mani-
 pul
 p ulaa r c a d a u
umm a das
da s ffo
o rm as m edediá
iátitica
cass à v
von
onta
tad
d e, e d e ffoo rm a in
i n d e p en
en--
dente (som,
(som, im imagens,
agens, textos). Tomamon
Tom amonos, os, não mais lleitores,
eitores, no sen-
tido
tido estrito,
estrito, mas atores, exploradores, navegad navegadores
ores ou screeners como
 pref
 pr efer
eree M. R o se lllloo 130. A aç
ação
ão n ão o b e d e c e n nee c e ss
ssaa ri
riaa m e n te a p
pee rc
rcuu r-
soss determinados
so determinad os a priori  (a linearidade),
linearidade), mas pod podee ser feita por des-
vios, conexões, adições (links),  como uma forma de p assei asseio o pelo es-
 paço
 pa ço c ib
iber
ern
n é ti
tico
co,, co
com m o u m f
 fll â n e u r  digital,
  digital, o ciber-flâneur.   Voltare-
mos mais tarde a esta discussão.
Como dizíamos, para McLuhan, a cultura do impresso é coe-
rente com o processo de racionalização da modernidade, típico do
século XV, resultando na organização do espaço e do tempo sobre
uma base filosófica de tipo moderna. Como vimos, a modernidade
afasta a tradição, investindo num numaa visão utópica e racionalista do fu-
turo
tu ro.. Esta tend
tendência
ência foi impulsionada pela imprensa,
imprensa, com a padroni-
zação de caracteres que poderíam ser reprodutíveis ao infinito, infinito, e pela
 pee rs
 p rspp ec
ectiv
tiva,
a, qu
quee c o lo
locc a o ol
olho
ho hum
hu m a no c o m o ccee n tr
troo , o u p o n to p ri
rivv i-
legiado, da visão.
A cultura do impresso, que vinga do século XV até fins do
século XX, separousepa rou a vi visualidade
sualidade (a leitura silenciosa)
silenciosa) da oralidade
(a leitura em voz alta), como a separação do texto da música. Os
caracteres de repetitibilidade,
repetitibilidade, de co
continuidade
ntinuidade e de lógica, presentes
na cultura do impresso, são derivados dos mesmos caracteres pre-
sentes nas ciências m atemáticas e na física clássica.
clássica. Isto cara
caracteriza
cteriza
a própria
própria tecnologia da moder
modernidade
nidade:: ho mo geneização, pad roniza-
ção e narcose (um só ponto de vista,
vista, como na persp ectiva ren asc
ascen-
en-
tista). Como explica McLuhan, “a ho mog eneização dos hom ens e 
dos objetos vai se tornar o grande objetivo da era de Gutenberg,  

como fo n te de uma ri
riquez a e de um po de r que não conheceram  
queza
nenhum a outra época e nenhuma outra tecnologia ” 131. A ti
tipp o g r a fi
fiaa •

• ANDRÉ
ANDRÉ LEM
LEMOS | 7 5
 

será, por
será, po r sua vez,
vez, o instrume
instrumento
nto do individualismo dentro
de ntro da soc
socie-
ie-
dade moderna.
mo derna. O impresso é a tecnologia de individu
individualismo
alismo que
qu e se
lê (só), em silêncio, para si132.
Os computadores
com putadores em rede parec
parecem
em ir na direção oposta àquela
da cultura do impresso, estando
e stando mais próximos
próximos do tribalismo anterior
an terior
à escrita
escrita e à imprensa.
imp rensa. Podemos
Pode mos dizer,
dizer, que a dinâmica
dinâm ica social atual do
ciberespaço
ciberesp aço nada mais
m ais é que esse desejo de
de conexão se realizando
realizan do de
forma planetária.
planetária. Ele é a transformação do PC (Personal Com puter 
puter ),
),
o computado
com putadorr individual,
individual, desconectado, auster
austero,
o, feito pa
para
ra um indiví-
duo racional e objetivo,
objetivo, em um CC (Computador Coletivo),
Coletivo), os com -

 pu
 putad
(o tador
ores
es em
e m rede.
ciberespaço)redecom
. Assim
As sim,
, a conju
co njunç
nção
a socialidade ãocontemporânea
de uma
um a tecnol
tecn olog
ogia
ia
vairetriba
retrproduzir
ibaliz
lizan
ante
tea
cibercultura profetizada por McLuhan. Parece que a homogeneidade
cibercultura homogen eidade
e o individualismo da cultura do impressoimpresso cede, pouco a pouco, lugar
à conectividade
conec tividade e à retriretribalização
balização da
d a socied
sociedade.
ade.
Como mostraremos, a estrutura piramidal do poder mediático
massivo tornase disfuncional na emergente cibercultura. Não N ão é à toa
toa
que assistimos à fusões as mais diversas entre entre os gigantes da teleco-
municação e os provedores
provedores de conteúdo, como a recente compra com pra da
TimesWarner pelo provedor de acesso americano AOL (American
Online). Os gigantes buscam busca m se recolocar na nova configuraç
config uração
ão tecno
social,, percebe
social pe rcebendo
ndo que
q ue a cibercultura (digit
(digital,
al, imediata, múltimo
múltimodal,dal,
rizomática) requer a transversalidade, a descentralização, a
interatividade. Como afirma Lévy, ela é universal sem ser totalitá-
ri
riaa 133, tratand
trata ndoo de fluxos
flux os de inform
in formaçã
açãoo bidirecion
bidire cionais,
ais, imediato
ime diatoss e pla-
pla -
netários, sem uma homogenização dos sentidos, potencializando vo-
zes e visões diferenciadas.
Com a contração
transformamonos do planeta
não numa pelosglobal,
única aldeia novos mas
media   digitais,
em várias e
idiossincráticas alde
aldeias globais,  devido principalmente
ias globais, principalmente à implosão
implosão do
mundo ocidental pelo efeito das tecnologias microeletrônicas. Não
se trata de bens materiais, matériasprimas
matériasprimas e energia
energ ia retiradas da na-
tureza, mas de informações
informaç ões traduzidas sob a forma de bits, imateriais,
abstratas,
abstratas, lidas
lidas por uma
um a metamáquina
metamáq uina (o computador,
computador, o ciberespaço).
ciberespaço).
Atualizase, com o ciberespaço, o grande sonho enciclopédico de, em
um único media,  armazenar todo o conhecimento da humanidade,
disponível a todos
todos..
É pela interatividade
interatividade digital
digital que possibilidades
possibilidades descentrali
descen tralizado
zado

76 CIBERCUL
CIBERCULTURA,
TURA, TECNOLOGIA E VIDA SOC
SOCIAL
IAL NA CULTURA CONTEMPORÂ
CONTEM PORÂNEA
NEA •
 

ras do pod er podem se estab


estabele
elecer.
cer. Para McLuhan,
McL uhan, a inter
interativi
atividade
dade

(embora ele não utilize esta palavra) situase em termos de media  


quentes ou frios. Os media  quentes são aqueles aqueles que pe permitem
rmitem pouca
ou nenhum
nen hum a interação do es especta
pectador.
dor. São media de  d e alt
altaa definição onde
não existe possibilidade de int intervenção.
ervenção. Nesse sentido, os media  quen-
tes são o rádio, o cinema, a fotografia, o teatro e o alfabeto fonético.
Por outro lado, os media  frios são aqueles em que a interatividade é
 perm
 pe rmiti
itida
da,, de
deix
ixan
andd o um espa
es paço
ço on
onde
de os us
usuá
uário
rioss po
podd em p pre
reen
ench
cher
er.. S
São
ão
media frios a palavra, a televis
televisão,
ão, o telefo
telefone,
ne, e os alfabetos pictográfi
cos. Nesse
cos. Ne sse sentido, as tecnologi
tecnologiasas de cibercultura são media frios, inte-
rativos
rativos e retribalizant
retribalizantes.
es. NNão
ão é po
porr acaso que o tribalismo d
daa socialida
de contemporâne
contem porâneaa (Maffesol
(Maffesoli)i) alimentase da potência reliante das tec-
nologias da
d a cibercultura
cibercultura..
A cibercultura
c ibercultura ser
seráá uma configuração soci
sociotécnica
otécnica onde h have-
ave-
rá modelos tribais associados às tecnologias digitais, opondose ao
individualis
individualismomo da cultura do impr
impresso,
esso, moderna e tecnocrát
tecnocrática.
ica. Com
a cibercultura, estamos diante de um processo de aceleração, reali-
zando a abolição do espaço homogêneo e delimitado por fronteiras
geopolíticas e do tempo cronológico e linear, dois pilares da
modernidade ocidental. No entanto, esta conectividade generalizada
não é isenta de
d e críticas.
Jean Baudrillar
B audrillard,
d, por exemplo, ttem
em uma visão muito
mu ito menos en
en--
cantadora que McLuhan e, de forma bastante pessimista, vai propor
que, com as novas tecnologias digitais de comunicação, estaríamos
diante não de uma retribalização,
retribalização, mas de uma m
mera
era circulação de in-
formações. Esta nos faz indivíduos terminais que comutam entre si,

sem nenhuma
simulação interação.
de interação Paraverdadeiras
e não Baudrillard, o ciberespaço
inter
interações. Pa ra osópolêmico
ações. Para permite
 pee n sa
 p sadd o r fr
fran
ancc ês
ês,, os no
novo
voss media  aumentam a espiral destruidora e
autista da comunicação, próximo, como veremos, das posições de
Lucien Sfez e Paul Viril Virilio.
io.
O pensame
pen samento nto baudrillardiano é aquele do excesso: qua
quanto
nto mais
trocamos informações,
informaçõ es, menos est estamos
amos em comunicação. Trocam
Trocamos os o
real pelo hiperreal, a verdadeira comunicação por sua simulação.
Estaríamos diante de uma encefalação eletrônica, onde o real desa desapa-
pa-
rece com a instituição do seu simulacro. No me
mesmo
smo sentido, para Paul
Virilio, as novas tecnologias do tempo real, do ao vivo {live), estabe-
lecem uma institucionalização do esquecimento (industrialization de• de •

• ANDRÉ LEMO
LEMOSS | 7 7
 

1'oubli), já que elas requerem respo


1'oubli),  respostas
stas imedia
imediatas tas,, não privi
privilegiando
legiando a
reflexão,
reflexã o, o debate ou mesm o o exercíci exercício o da mem
memóri ória.
a.
 Naa ssu
 N u a E
 Ess th
théé tiq
ti q u e d
dee lla
a D isp
is p a ri
riti o n l34, Paul V irili
tio irilio
o m os
ostra
tra qu
quee
as novas tecnologias privi privilegiam
legiam o fluxo de dados que circulam no
ciberespaço de forma inst instantâ
antânea,
nea, sendo regidasregidas,, assim, pelo refle-
xo e não pela reflexão ou a memória. Virilio afirma que “mais o  o 
sab er cresce e mais o desconhecido aumenta ou ou,, m elho r diz endo,  
dizendo,
mais se precipita a informação-número, mais nós somos normal
mente conscientes de sua essê
essênci
nciaa in
incomple
completa
ta fragm entá ria  ” ,3S. Pa
entária P a ra
Virilio, com os computadores, é a informação que é transportada,
mas não as sensações. O processamento dos dados é sinal de uma
 fazend o com que, quanto mais informado esteja o homem,
apathéia, fazend
apathéia,
mais, ao seu redor, cresça o deserto do mundo. Para V iri irilio,
lio, “o p en
same nto coletivo imposto pe los diversos medi a visava aniqu ilar a  
media
originalidade
originalida de das sensaçõe
sensaçõess ((..
...)
.),, um est
estoque
oque de inform
informaçõe
açõess de sti
nado
na do a pr
prog
og ra
ramm a r sua
suass m em
emória
órias”1s”136.
Virilio
Viri lio afi
afirma
rma que o tempo re real
al e a velocidade mudaram a rela-

ção do ho mem com


contemporâneo como
das oteletecnologias
o am biente u urban
rbano,
o, soc
social
tornouse ialume cult
cultural.
ural. Opassivo,
receptor usuári
usuário o
tendo
tend o que responde
responderr a eestímulos
stímulos imediimediatos
atos.. Isto
Isto causaria um umaa com -
 pree en
 pr ensã
são
o pa
parcrcia
iall da
dass s it
itua
uaçõçõeses às q ua
uais
is e le e s tá e x p o sto
st o (im
(i m ag
agee n s
televisivas,
televisi vas, informações do ciberespaço)
ciberespaço).. Ele entra no “ciberm “cibermund undo”o”
com susuaa po
polític
líticaa do p io r1
r1337, ond
ondee o tem po real co cond
nduzuz “...nossa von vontata
zero.. ” 138 tra
de a zero..  traze
zend
nd o à ba baililaa “o desapar
desapareciment
ecimento consciência  
o d a consciência
como percepçã o diret diretaa dos fenô
fenôm m eno
enoss que nos inf informamam
ormamam sobr sobree  
nossa pró
p rópria
pria exexistê
istênc
nciaia”'3
”'39.
Sob a batuta do tempo real, a sociedade contem porânea estaria
imersa na pura circulação de informação, gerando um processo de
mera
me ra co m uta
utaçã ção1
o14
40. N o entan
entanto,
to, a circulação da iinfornformm açã
ação
op process
rocessa
a
se de form a entrópica e viróticav irótica ee,, talv
talvez,
ez, seja essa virose digital o que
 po
 p o s sa im p e d ir a d
dee st
stru
ruiç
ição
ão to
tota
tal,
l, co
comm o a firm
fi rm a B au
audr
dril
illa
lard
rd..
Para Baudrillard e Viri Virilio
lio,, a existência contemp
contemporânea
orânea está imersa
em uma espiral autodestrutiva. Quanto mais meios de comunicação
temos ao nosso dispor, menos comunicamos. A informatização da

sociedade seria a encarnação da racionalidade moderna onde o


 pa
 p ti c o m  do Big Broth
a n o p tic Brotherer se inser
inseree na cultura contem porâ
porânea
nea 141. 0
real torn
tornasasee a v
vítim
ítimaa de um crim
crimee q
quas
uasee pe
perfe
rfeito
ito 142.
Essa sociedade de comunicação generalizada é vivida sob o sig sig

78  C IIB
B E R C U LLTT U R A , T E C N O L O G I A E V I D A S O C I A L N A C U L T U R A C O N T E M P O R Â N E A •
 

no da obscen
obs cenida
idade
de e d
daa radica
radicalizaç
lização
ão d
daa socie
sociedad
dadee do es
espe
petá
tácu
culo
lo1143. A
obscenidade começa mais precisamente
precisamente com o fim da so sociedade
ciedade do
espetáculo, onde não existe mais nada para ver, onde não há mais
ilusão,
ilusão, pois tudo tornouse transparente e visível. Esta seri
seriaa a maior de
todas as obsce
obscenidad
nidadee tudo ver
ver,, quando nã
não o há mais nada
nad a para ser
se r vist
visto.
o.
Como mostra Baudrillar
Baudrillard,
d, “não estam
estamos
os mais no dr
dram
ama a da alienação, 
mas no êxtase
êxtase da ccomuni
omunicaçã
cação.o. E est
estee êxta
êxtase
se é ob sce no ”m .  Ainda
obsce
segundo Baudrillard, “ cami
caminha
nhamos
mos para um mundo intinteir
eirament
amentee fu n
cional, operatório, racional, positivo sem o mínimo buraco, de uma  
transparência total, logo extremamente mortal  “l4 “ l45
5.
 No
 N o e n ta
tan n to
to,, a c rí
ríti
ticc a c o n tr
traa a d e s u m a n iz
izaa ç ã o d e v id
idaa à r a c io -
nalização técnica do social, típica de Baudrillard e Virilio, é vista
 por
 p or M u rp
rph h y c o m o o b s o leleta
ta,, já q u e os jo
jog g o s de lilin
n g u a g e m n ã o a u to -
rizam uma interpretação definitiva do fenômeno técnico. Segundo
Murphy,
Murp hy, é através dos jogo s de linguagem que ex existe
iste a possibilidade
de esca
escapar
par ao mund
mundo o técnico,
técnico, unidimensional, pintado po porr Baudrillard
e Virilio. Para Murphy “o que Ba Baudrillard
udrillard visivelm
visivelmente ente esqu eceu é  
esqueceu
que a técnica (...) (...) não afeta os iindivíduos
ndivíduos de m aneira causai. Dito  
maneira
de outra
outra form a, um fenôm eno não te temm nunc a um impacto dir eto  
direto
sobre os indivíduos e isso porque a imaginação é indissociável da  
realidad
real idade.e. (...
(...)) a realidade é ape apenasnas um
uma a interpretaç
interpretação ão que du ra  ” 146.
dura
A comunicação mediatizada pelas novas tecnologias como a
internet,, po r exemp
internet exemplo, lo, criaria para Baudril
Baudrillard
lard um desedesertorto social, assim
com o a v veloc
elocidad
idadee ccria
ria para
pa ra Virilio o des deserto
erto no e sp aç o 147. Para
Baudrillard,
Baudrill ard, os modelos de simulação se degradam n naa form
formaa moderna,
técnica e estéril, que ele chama de comutação. Contudo, a atual
efervescência
efervescên cia das rredes
edes de computadores não pode, sob o risco de uma um a
simplificação
simplifi cação grosseira, ser reduzida à simpl
simpleses comu
comutação
tação entre os usu-
ários
ár ios.. N a fria infraestrutura
infraestrutura tecno
tecnológic
lógica,
a, pa
parece
rece infiltr
infiltrarse
arse toda a dindinâ-
â-
mica da vida social contemporânea. Mais, M ais, não existe a circulação pura,
 já
 j á qu
quee o imimpr
prev
evis
isto
to,, o ex
exce
cess
ssiv
ivo,
o, o ca
caót
ótic
icoo sem
se m pr
pree p o d e a p arec
ar ecer
er e
trazer resultados
resultados inesp
inesperados.
erados. O caos é o carrasco do determ
determinismo.
inismo.
Hoje, o ciberespaço parecparecee ser a consequência
consequên cia mais óbvia óbv ia dest
destaa

ausência de pura circulação.


circulação. Com o veremos, o ciberespaço não é só
um espaço de comutação. Exemplos pululam neste sentido: chats, 
muds, fóruns, newsgmups. Todos de conteúdos os mais diversos (aca-
dêmico, erótico, revolucionário, marginal, político ou de lazer). O
ciberespaço não é o deser
deserto
to do real
real,, assi
assimm com não é o fim da com u
 
• ANDRÉ LEM
LEMOS
I 79
nicação ou do social. Da mesma
m esma forma, os vívírus
rus de computador, como
também
tamb ém as piratarias
piratarias dos hackers, são expressões ffortes
ortes desta impro-
impro -
visação tecnosocial.
Baudrillard percebe estes fenômenos como com o possibilidade de es-
capar
cap ar ao desastre
desa stre total,
total, ao crime perfeito.
perfeito. Os vírus, como os hackers
e suas invasões espetaculares, seriam a expressão mais mortífera (e
assim, vital) des
desta
ta transparên
transparência
cia e circulação pura da informação.
informa ção. A
assepsia
ção um apodería
à uma nos conduzir,
purificação tecnológica
tecno lógicade de
acordo
nossos com Baudrillard,
corpos em dire-
e subjetividades.
Esta assepsia pode tornarse mesmo mortal pois pois é, justam ente como com o
nos organismos vivos, pela supressão da heterogeneidade dos siste-
mas que eles são conduzidos à morte. O vírus, como as ações dos
hackers, são sã o desastres efêmeros e infecciosos que vão ten tentar
tar evitar o
grande desastre. Para Baudrillard, “o virtual e o viral caminham  
 ju
 j u n t o s ”'4
”'48
8“...a
.. .a re
rece
cent
ntee ir
irru
rup
p ç ã o d o s víru
ví russ e le
letr
trô
ô n ic
icoo s of
ofee re
rece
ce um
umaa 
anomalia remarcável: diriamos que existe um prazer moleque das  
má quinas em amplif
máquinas amplifica
icar,
r, ou em pro
produduzir
zir efeitos perve
perversos,
rsos, em ex ce
der suas finalidad es pelas suas próprias opera operaçõe
ções.s. Exist
Existee a í um uma a 
 pee r ip
 p ipéé c ia irôn
ir ônic
icaaeaapa
paix
ixon
onan
ante
te.. P o d e ssee r qu
quee a in
inte
teli
ligg ê n c ia a r ti
tifi
ficc i
al se parod ie a ela mesma nessa patologia vi vira l, inaugurando aqui  
ral,
uma esp espécie
écie de verda
verdadeira
deira inteligên
inteligência”'
cia”'4 49.
O que m obiliza
obiliza o imaginário socia
sociall da cibercultura é eessa
ssa viru-
lência da informa
informação,
ção, que se dá de várias
várias fo
formas:
rmas: por
p or vírus de compu-
comp u-
tador,
tador, pelos ataques
a taques dos hackers (estes gostam de ataca
a tacarr instit
instituições
uições
que encarnam
enc arnam o espírito da modernidade),
modernidade), pelo erotismo do cibersexo,
 pelo
 pe lo tra
tr a n se d o s div
di v e rso
rs o s esti
es tilo
loss d a m úsic
ús icaa tecn
te cno,
o, p e lo e x c e sso
ss o de in-
in -
formação
formaç ão no ciberespaço. É devido a estas estas várias
várias formas de virulênci-
as e de apropriações que a racionalidade do sistema, sua transparên-
cia total e mortífera, não atinge completamente o apogeu. Vemos,
assim, que é por p or esta atitude
atitude virulent
virulenta,a, presenteísta
presen teísta e comco m unitária que
a vida social
social cocontemporâne
ntemporâneaa evit evitaa sucumbir
sucumb ir ao deserto da técnica. Aí
está o que caracteriza a cibercultura do final de século XX. Como
afirma Baudrillard: “a verdadeira catástrofe, a catástrofe absoluta  
seria a onipresença de todas as redredes
es,, a transparênc
transparência
ia total da infor
mação,
maçã o, as qua
quais
is,, felizmente, os vírus da informática
informática no
noss protege
protegemm  ”
 ”1150.
A cibercultura
cibercultura é um a configuração
configuração sociotécnica
sociotécnica de produção de
 pe quen
 pequ enas
as catástr
ca tástrofe
ofess que
qu e se alime
ali menta
ntamm das
da s fusões,
fusõ es, impulsõ
imp ulsões
es e simbio
sim bioses
ses
contemporâneas:
contem porâneas: o usuário interativo
interativo da cibercultura
cibercultura nasce do desapa

80  CIBERCUL
CIBERCULTURA,
TURA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL
SOCIAL NA CULTURA CONTEM
CONTEMPORÂ
PORÂNEA
NEA •
 

recimento do social (Baudril


(Baudrillard)
lard) e da implosão do individualismo mo-mo -
derno.. Homens
derno Hom ens e máquinas (nanotecnologias,
(nanotecnologias, próteses) tomams
toma msee qua-
se isomórficos, simbióticos,
simbióticos, indiferenciados.
indiferenciados. O tribalismo, o presenteísm
pres enteísmoo
e o hedonismo das comunidades virtuais abalam a rigidez das formas
sociais modernas (partidos, classes, gênero). A cibercultura seria a in-
clusão de pequenas catástrofes em meio à infraestrutura tecnológica

mundial.
mundia
noção l. Tudo
de Tud
tempooisso
tempo real
real, em tempo real,
, inventada real
pe ,los
pelosinst
instantân
antâneo.
técnicos
técn eo.em
icos Como
Com o afirma Lévy,
informática, resume “a 
bem o espíri
espírito
to da info
informáti
rmática:
ca: a co
condensação
ndensação do presente
presen te sobre a ope
ração em curso.
curso. (...
(...)) Po
Porr analogia com o tempo circu circularlar da or alidade  
oralidade
 pri
 p rim
m á ria
ri a e o tem
tempo
po lin
lineaearr da
dass socie
so cieda
dade
dess hi
histó
stórica
ricas,
s, p
poo d er
eria m o s f a l a r  
iam
de uma espécie de implosão cr cronol
onológic
ógica,
a, de um tempo po pontu
ntual
al instau
rado pela
pe lass redes ininfo
form rmát
átic
icas
as””151.
Lu cien S fez
Lucien fe z 152 vai acom
aco m panhar
pan har o penp ensam
sam ento
en to de V irilio
irilio e
Baudrillard. ParaPa ra Sfez, estaríamos
estaríamos vivendo o ápice da cultura faustiana,
que ele prefere chamar
chama r de Sociedade Franknstein.
Franknstein.  A questão da críti-
críti-
ca da comunicação
comun icação deve, com razão, se deslocar para um umaa crítica
crítica da
tecnologia através de três formas: a metáfora do “ avec ” (a técnica é
exterior ao homem e é com ela que o homem molda o real), a do
“dans ” (o homem está dentro dentro de um ambiente de m máquinas
áquinas de comu-
com u-
nicar e só existe ali) e a do “par” (o homem só existe pelo objeto
técn
té cnic
icoo )15
)153. É esta
est a últim
ú ltimaa metáfo
me táfora
ra que
qu e ele cha
c ham
m a de tautismo (neolo
gismo entre tautologia e autismo) e seria esta a metáfora mais apro-
 pria
 pr iadd aCom
pa
p a raodBaudril
Como Be scre
sc revv elard,
r a c oSfez
audrillard, Sm u npensa
fez içã
iç ã o acon
pens c aonte
temm pnicação
o rân
râ n e a . como um a mori-
comunicação
comu
 bu n d a m o rr
 bun rree n d o p o r exc
e xces
esso
so.. C o m as nova
no vass tec
te c n o log
lo g ias
ia s esta
es tarí
ríaa m o s
vendo o nascimento de um Franknstein Franknstein tecnológico que instit institui
ui a re-
 peti
 pe tiçç ão e o iso
is o lam
la m ento
en to,, o taut
ta utis
ismm o. L ucie
uc ienn S
Sfe
fezz pro
p ropp õ e qu
q u e a co
c o m u n i-
cação contemporânea
contem porânea é marcada m arcada pelo
pelo imperativo tecnológi
tecnológico, co, agora
sob a forma de tecnologias da mente.  Estas produzem uma forma
simbólica, o tautismo, como repetição e isolamento patológico do
mesmo
me smo,, tom andoan dose
se o símbolo
símb olo da cultura contem
con tem porân
po rânea ea1154.
A sociedade da comunicação,
comunicação, regida pela ameaça am eaça do Franknstei
Franknstein, n,
cria uma cultura tecnológica onde as tecnologias
tecnologias potencializam
potencializam,, ao
mesmoo tempo, a troca de informações
mesm informações e a debilitação
debilitação da comunica-
com unica-
ção: “a comu
comunicação excesso de comunicação e se acaba  
nicação morre p o r excesso
em um
umaa inte
interm
rminá
inável
vel ago
a gonia
nia de es
esp is ”155. Tratase mesmo
p ira is”1 mesm o “do fim
fi m  
da co m u n ic
icaa ç ã o ”156.•

• ANDRÉ LEMO
LEMOS
S
 
81
 N o e n ta
 No tann to
to,, é e st
staa tr
troo ca d e in
info
form
rm aç
açõõ es en
entr
tree in
indd ivíd
iv ídu
u o s ou
grupos ordinários
ordinários que compõe a singul singularid
aridade
ade daquilo que Léo Scheer
chama de Civilização do Virtual, em oposição oposiçã o às visões de Baudrillard,
Virilio
Virilio e Sfe
Sfez.
z. Es
Estata Civili
Civilização
zação é aquaquela
ela onde a informaçã
informação o é privada
de seu vínculo a um sentido (já que tudo é convertido em bits), per-
dendo toda referência
referên cia ao real, podendo circular mensagen mensagenss num jog o
ilimitado de figuras
figuras caleidoscópicas. As novas tecnologias eliminari- elimina ri-
am a opacidade
o pacidade do sujei sujeito
to e do objet
objeto,
o, instit
instituiríam
uiríam a troca frívol
frívola:a: não
deserto do real, mas efe efervescência
rvescência do frívolo.
frívolo.
O grande mito da modernidade fo foii o sonho de uma sociedade
de comunicação transparente, onde a difusão da informação se dá
através de redes cibernéticas. A idé idéia
ia de uma com comunicação
unicação racional
racional,,
instituindo
instit uindo uumama sociedade il iluminada
uminada e sem sem amb
ambiguidades
iguidades é, no fun-
do, um sonho
sonh o totalitário.
totalitário. A transparência elimina o jo jogg o de du alida -

des. Hoje, o mito da neutralidade técnica é transform ado p ela apro-


 pri
 p riaa ç ã o d iá
iári
riaa e a d in â m ica
ic a d a so
socc ie
iedd a d e c o n te
temm p o râ
rânn e a . E s ta n ã o
nos permite falar de uma sociedade homogênea homog ênea ou transparente, tau
tista ou Frank nstein.
Léo Sch
Scheer,
eer, analisando o que el elee cham a de civilização do virtu-
al,, explica
al ex plica que entramos na crise da noção de históri históriaa com a queda do
muro de Berlim. Assim, se não há uma história, o sujeito histórico
desaparece, assim como a noção de Estado Nação, afetando a dimen dimen- -
são política,
política, traduzindose numa desconexão entre esta e o quotidia-
no. Para Scheer, os télécitoyens   são o ssímbolo ímbolo mesmmesmo o do fim das
grandes narrativas da modernidade e o começo das pequenas h ist istóri-
óri-
as, sustentandose sob três pilares pilares pri
principa
ncipais: is: a informática, a ccom omuta-
uta-
ção e a comunicação, substitui substituindo
ndo os pilpilares
ares da m modernidade
odernidade repre-
sentados pelo exército, pela família/produção e pela religião.
A sociedade virt virtual
ual seria a socied
sociedade ade de comunicação (fundada
na redundância da difusão da mensagem); a sociedade da
informação (fundada no estereótipo do terminal) e a sociedade de
comutação (de equivalência
equivalência entr entree o em iss
issor
or e o receptor na r e d e ).
Para Scheer, a sociedade virtual é a sociedade onde “a inteligência  
do central coloca o usuário no desaf desafioio de pro du
duzir
zir seu próprio espe
táculo,
tácu lo, seu prpróp
óprio
rio imagi
imaginário
nário,, seu pró
próprio
prio desafi
desafio.
o. As sim este modo  
Assim
reconstitui
recon stitui um tetecido
cido co m un
unitár
itário”'5
io”'57
7.
 A C iv
ivil
iliz
izaa ç ã o d o Virtu al,  para Léo Scheer, marca a cibercul
Virtual, cibercultu
tu
ra, criand
criando o ainda três excessos que colocam as visões dos seus conter

82  | CIBERCULTU
CIBERCULTURA,
RA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL N A CULTURA CONTEM PORÂNEA
PORÂ NEA <
 

râneos franceses em desafio:


desafio: um excesso de inf
informação,
ormação, um excesso
de tecnologia
tecnolog ia e um excesso do soc
social
ial.. A desmateriali
desmaterialização
zação ddaa ordem
natural das coisas pela numerização generalizada pod
podee ser vista como
um a transgressão da realidade pela li
liberação
beração do eexcesso
xcesso potencial ou
virtual
virtual da infor
informação,
mação, ha
havendo
vendo um descolamento dos constrangim
constrangimen-
en-
tos materiais (imagens de síntese,
síntese, simulação, realidade virtual). A abu
abun-
n-
dância
dân cia de inform
informações
ações e de ttecnologias
ecnologias informacionais, criadas e ge-
radas constantemente no ci ciberes
berespaço,
paço, faz entrar em jog o a dépense  
(Bataille).
Por m ais paradoxal que seja seja,, a tecnologi
tecnologiaa m
microelet
icroeletrônica
rônica co-
loca a civilização
civilização contem
contemporânea
porânea no excess
excesso,
o, na despe
despesa
sa im produti-
va, n a o
orgia
rgia d
dee ccód
ód igo
igos1
s15
58. Neste
Ne ste sentido, a so
socied
ciedade
ade de inform ação
não se interessa mais pelo político, havendo uma separação entre o

contrato moderno e o tribalismo orgânico e grupai das sociedades


contemporâneas. Estas são refratárias às promessas ideológicas, aos
 pro
 p rog
g ra
ramm a s e p ar
arti
tid
d o s p o lít
lític
icos
os trtraa di
dici
cion
onai
ais.
s. E la
lass se a p ro
rox x im a m m ais ai s
da tribo, ligada por mitologias e não por ideologias. Estamos Estam os aqui no
que S cheer cham a de excesso do social social,, não morte do soci socialal..
 No
 N o im
imaa g in
ináá ri
rioo te
tecn
cno o lóg
ló g ico
ic o m o dedern
rno,
o, d o q
quu a l Sf
Sfez
ez,, B au
aud d ri
rill
llaa rd
e Virilio
Virilio são os herdeiros m mais
ais famosos, toda a vida social está fecha-
da em um sistema técnico. Toda a vida social é homogeneizada pela
razão tecnocrática. A escola de Frankfurt criticou, de forma oportu-
na, o caráter homogeneizan
hom ogeneizante te da tecnologia
tecnologia e dos media,  assim como
o perigo da vinculação entre tecnologia e poder. poder. Os elem entos vit vitais
ais
de uma sociedade (a orgia, a violência, a comunidade, o jogo
agonístico) seriam eliminados pela razão científica instrumental instrumental e pelo
totalitarismo
totalitarismo de desem
desempenho
penho tecnológi
tecnológico.
co.
Entretanto, como veremos, a objetividade perfeita, a reprodu-
ção exata da realidade, projetada a priori  nos escritórios dos tecno
cratas, não corresponde
correspond e à realidade
realidade do quotidi
quotidiano.
ano. Aqui,
A qui, o m
mapa
apa não

corresponde ao território. Diversos exemplos estão presentes na ci


 bee rc
 b rcuu lt
ltuu ra qu
quee e n co
cora
raja
jamm a m u lti
ltipp li
lica
caçç ão d e eesp
spee c if
ific
icid
idaa d e s lo
loca
cais
is e
múltiplas. As mais contundentes expressões estão presentes na di-
mensão quotidiana, onde diversas tribos tribos acham seus nichos em meio m eio
aos interstícios
interstícios do desenvo
desenvolvimento
lvimento tecnológico. Es Esta ta cibercultura, a
que existe e está ancorada no dia a dia, não se vê na metáfora da
sociedade Franskstein, tautística como pretende Sfez. Ela não é re-
 pre
 p ress e n ta
tadd a ta
tamm bé
bémm pepela
la so
soci
cied
edad
adee o nde
nd e a c o m u n icicaçação
ão de
desasapp a re
recc e •

LEMOS   83
• ANDRÉ LEM
 

através de seus excessos comunicativos e sociais, como afirma Bau


drillard.
drill ard. Ela está ain ainda da distante da constituição
constituição de um a civilização do
esquecimento,
esquecim ento, com o mostra Vir Viril
ilio.
io. Embora os perigos visualizados
 po
 p o r est
estes
es p e n sa
sadd o re
ress ssej
ejaa m re
reai
ais,
s, a ccib
iber
ercu
cult
ltu
u ra c o n te
temm p o râ
rânnea p
paa re
re--
ce r sser,
cer er, hoje, irredutível à esta vi visão.
são. Aqui, o mun mundo do da vida
v ida inserese
no deserto do real da tecnologiatecnologia..
Todo impacto da cibercultura
cibercu ltura est
estáá na simbiose pa paradoxal
radoxal entre
tecnicidade e socialidade.
socialidade. Ela pode sser er mesmo com compreen
preendida
dida como a
expressão
expre ssão ttecnocultural
ecnocultural desta Civilização Virtual, pondo em m marcha
archa
um processo de apropriação e de construção de tecnosocialidades,
ou cibersocialidades.
cibersocialidades. Podemos dizer com M ercier que “ os usuários  
não se contentam em se sub subme
me terá tétécn
cnic a. E seu papel supera aquele 
ica.
de escolhas elementares do tipo adquirir/não adquirir, ou utilizar  
bem/não utilizar (...) os novos objetos técnicos. São eles que, pelas  
 prr á tic
 p ti c a s q u e e le
less vã
vãoop
pro
rog
g re
ress
ssiv
ivaa m en
ente
te d e se
senn v o lv
lvee r e afinar
afinar,, d e te
terr
m inarão, no fin a l das cont as, a incidência efetiva das novas  
contas,
tecnologias sobre a transformação
transformaçã o de suas vidas quotidi anas. Existe  
quotidianas.
a í um proce
processosso de reapr
reapropri
opriação
ação mais ou menos cconsciente onsciente das téc
nicas que o pú público
blico nem concebeu nem explici tamente desejou  ” 159.
explicitamente
• • •

Os novos media  (digitais) aparecem com a revolução da micro


eletrônica,
eletrônica, na segunda metade d
daa década de 70, através de convergências
e fusões, principalmente no que se rrefere
efere à inf
informática
ormática e às telecomu
telecomunica-
nica-
ções160. Os media  digitais vão agir em duas frentes: ou prolongando e
multiplicando a capac
capacidade
idade dos tradici
tradicionais
onais (como satélit
satélites,
es, cabos, fibras
ópticas); ou criando novas tecnologias, na maiorias das vezes híbridas
(computadores,
(compu tadores, Minitel, celulares, Pagers, TV Digital, PDAs,
PDA s, etc.
etc.).
).
Podemos
Podem os d
dizer
izer que o ttermo
ermo m ulti
ultimídia
mídia int
interativa
erativa expressa bem
o espírito tecnológico da época, caracterizandose por p or uma hibridação
de diversos dispositivos, infiltrados de chips  e memórias m emórias eletrôni
eletrônicas.
cas.
As novas tecnologias são o resultado de convergências tecnológicas
que transformam as antigas através de revisões, invenções ou jun-
ções.. A
ções Ao o mode
modelo lo UmTodos dos media  tradicionais opõemse o mo-
delo Tod
T odos
osToTododos1s161, ou seja, a form
formaa descen
desc entraliz
tralizada
ada e un
univer
iversal
sal (tudo
 pod
 p odee se
serr co
c o n v er
erti
tid
d o e m bits -  sons, imagens, textos, vídeo...) de cir-
culação das informações.
Os novos media  permitem a comunicação
com unicação individualizada, per-
sonalizada e bidirecional, em tempo real real.. Isto vem cau
causándo
sándo m mudan
udan

84  | CIBERCU
CIBERCULTUR
LTURA,
A, TECNOLOGIA
TECNOLOGIA E VIDA
VIDA SOCIAL
SOCIAL NA CULTURA CONTEMPORÂN
CONTEM PORÂNEA
EA •
 

ças estruturais na produção e distribuição da informação, tanto em


 jorn
 jo rnaa is
is,, te
tele
lev
v is
isõõ e s, rád
rá d ios
io s e re
r e v is
ista
tass al
além
ém d o se
seto
torr d
dee e n tr
tree te
tenn im e n to
como o cinem a e a música. A ttecnologia ecnologia digital
digital propo
proporciona,
rciona, assim,
uma dupla ruptura: no modo de conceber a informação (produção
 porr p
 po prorocc e ss
ssoo s m ic
icroroe
ele
letr
trô
ô n ic
icoo s) e no m o do d e d if ifu
u n d ir as in info
form
rm a -
ções (modelo TodosTodos). Alguns autores chegam mesmo a falar
de um dom ínio dos meios de produção pelo públic público. o.
Para concluir este capítulo, podemos dizer que, na evolução
das vias
vias da com un ica icaçã
çã o,vemos a passagem do modelo iinformal nformal da
comunicação para o modelo da comunicação de m assa e deste para o
atual mode
modelo lo de rredes
edes de comunicação informatizadas. O mo modelo
delo in-
formal estabelece uma relação direta entre o homem e o mundo. A
linguagem não representa
represe nta o mundo, antes, ela é o próp
próprio
rio mundo. A
falaa produz aq
fal aquilo
uilo que enuncia.
enuncia. A com unicação informal constitui o
reconhecimento do pertencimento a uma comunidade
comun idade e sua eficiência
situase no plano mítico,
m ítico, simbólico e reli
religioso.
gioso.
Já o m odelo massivo é aquele onde a linguagem se autonomiza.
Ela não mais é o mmundo,
undo, ela representa
representao.
o. AAss palavras nã
nãoo se con
confun-
fun-
dem mais com as coisas e a racional
racionalidade
idade assume o valo
valorr do discurso.
A eficácia não se dá m
mais
ais no pl
plano
ano religi
religioso,
oso, mas na dinâm ica opera

tóri
ória,
a, na ação objetiva e efi eficiente
ciente que desencadeia. A com unicação de
massa não constitui uma comunidade,
comu nidade, antes, diri
dirigese
gese às diversas co -
munidades do espaço público (a massa). O paradigma aqui é o da
televisão162.
O modelo
mode lo informat
informatizado,
izado, cujo exemplo é o ciberespaço, é aquel aquelee
onde a forma
form a do rizoma
rizo ma (redes digi
digitais)
tais) se constit
constitui
ui n
num
umaa estrutura co-
municativa de livre circulação
circulação de mensagens, agora não mais editada por
um centro, mas disseminada de forma form a transvers
transversal
al e verti
vertical,
cal, aleatória e
associativa. A nova racionalidade dos sistemas
sistemas inform
informatizados
atizados aagege sobre
um homem
hom em qu quee não mais recebe iinformações
nformações homogêneas de u umm centro
“editorcoletordistribuidor”, mas de forma form a caótica, multidirecional,
multidirecion al, en
trópica,
trópic a, coletiv
coletivaa e, ao mesm
mesmo o tempo, personalizada.
Diante de um a sociedade
sociedade massifi
massificada
cada (pouca informação com
redundância), passase a uma sociedade informacional, prevalecen-
dose o fluxo de uma quantidade gigantesca de informações para os
interagentes
interagen tes (C
(Caste
astells1
lls163) que terão o pod
poder
er de escolhe
escolher, r, triar e bu
buscar
scar
o que lhes ininteres
teressa.
sa. O que está em jog
jogoo nesse processo de digitali
digitalização
zação
do mundo é, segundo A dri
driano
ano Rodrigues, o desaparecimento da in
ins
s••

• ANDRÉ LEMOS
LEMOS | 85
 

tância legitimadora
legitimadora clássica do dis discurs
curso:o: eem
m issor e receptor fundem
se na d an ançaça de b its
it s 164.
Vamos
Vam os tentar m mostrar
ostrar nas pági
páginas
nas que seguem, qu quee a cibercul
tura é  mais que o simpl simples es desert
desertoo do real
real,, tautismo ou indústria do
esquecime
esque cimento
nto  vitali
vitalista,
sta, tr
tribal
ibal e presenteí
presenteísta.
sta. MMais
ais do que dese
deserto
rto e
reflexo, o tempo real da velocidade imediata imediata de trocas de informações
 bin
 b ináá ri
riaa s é um a ““man
maneiraeira de retor
retorno
no ao Kdíros
Kdíros dos sofis
sofistas.
tas. O con
conhe
he
cimento por simulação e interconexão em tempo real valorizam o  o 
momento oportuno, a ocasião, as circunstâncias relativas, opostas  opostas  
ao sentido m olar da históri história a ou à verda
verdade de fo ra do tempo e fo ra do do  
lugar,
lug ar, q que
ue eram
eram,, talvez, ap apen
enas
as efeito
efe itoss de eesc
sc ritu
ri tura
ra ”165.
Mais do que deserto do real, a cibercultura está sincronizada
com a dinâmica da sociedade contemporânea, podendo mesmo ser
caracterizada com o uma cib
ciberso
ersocial
cialidade
idade..
 A cib
ciber
erso
socia
cialida
lidade
de co
conte
ntem
m po
porân
rânea
ea

“parler de technologie de la vie quotidienne, prise comme


 processus global de socialisation et un système d ’actions,
’actions,
fait d’abord référence, par conséquent, à la manière dont
1’indivi
’individu
du perçoi
perçoitt son monde et agit sur llui.
ui. La vie de
tous les jours, la vie domestique comme celle qui se
déroule aux points de jonct
jonctions
ions ave
avecc les macrosystèmes
(cabines téléphoniques, routes, gares, etc.) sont dès lors
les lieux privilégiés de cette nouvelle mise en forme du
social”.
Al n  G r a s s '6 6
a iin

Com vimos nos capítul


capítulos
os anteri
anteriores,
ores, a soci
sociedade
edade con
contemporâne
temporâneaa

está imersa num culto da técnica e seus objetos. A cibercultura, pela


socialidadee que nela atua, parece, antes de isolar indivíduos termina
socialidad terminais,is,
colocar a tecnologia digital contemporânea como um instrumento de
novas formas de d e sociabili
sociabilidade
dade e de vínculos associativos e comu comunitári-
nitári-
os. Como afirma Maffesoli, “todos “todos os micro-rituais (...) parecem ter  
esse papapepell de desvio da técni
técnica
ca de sua fun çãção o meramente uti utili
litár
tária, de  
ia, de
agrupamento
agrupam ento de indiví
indivíduos
duos em torno d dee uma atividade
atividade comum, de uma uma  
 pa
 p a ix
ixãã o ccom
ompaparti
rtilha
lhada
da.. Po
Pode
deri
riam
amos
os eent
ntão
ão f a l a r qu
quee o d
des
estin
tinoo da té
técn
cnii
ca moderna reside também na sua apropriação dionisíaca e, assim,  assim, 
num
nu m a ressa
ressacral
cralizaçã
ização,o, um ree
reenca
ncantam
ntamentoento do mu mund
ndo”1
o”161.

86   | CIBERCULTURA, TECNO


TECNOLOGIA
LOGIA E VIDA SOCIAL NA CULTURA CONTEM
CON TEMPOR
PORÂNE
ÂNEA
A•
 

Vamos analisar as novas formas de sociabilidade emergentes


com as tecnologias do ciberespaço. As diversas manifestações da
cibercultura
cibercul tura contemporânea como, por exemplo, a efervescência so-
cial da internet; as comunidades virtuais, as festas raves e a música
eletrônica, o underground high-tech  com os cyberpunks; o misticis-
mo dos zippie
zip pies1
s1668, o ativismo
ativism o dos cypher
c ypherpunk
punks,s, exprim
ex primem
em o encon
en contro
tro
das tecnologias digitais com a socialidade
socialidade contem
con temporân
porânea
ea de que nos
fala Michel
M ichel Maffesoli no conjunto de sua obra.
A tecnologia, que foi durante
durante a modernidade
m odernidade um instrumento
instrumento
de racionalização e de separação,
separação, parece
parece transformarse num a fer-
ramenta convivial
con vivial e comuni
comunitár
tária.
ia. O objetivo desse capítulo é mos-
m os-
trar como as noções que definem a socialidade contemporânea
(tribalismo, presenteísmo, vitalismo, ética da estética e formismo)
 poo d e m e x p lic
 p li c a r o fen
fe n ô m e n o d a c ibe
ib e r c u ltu
lt u ra e nos
no s a jud
ju d a r a c o m p re
re--
enderr o que proponho chamar de cibersocialidade. A cibersocialidade
ende cibersocialidade
é a sinergia entre a socialidade contemporâneacontemporâne a e as novas tecnologias
do ciberespaço.
Para compreendermos os impactos das novas tecnologias na
cultura e na comunicação
com unicação contemporâneas
contemporâneas,, devemos devem os dirigir
d irigir nosso olhar
 paa ra a ssoo cie
 p ci e d a d e en
enqq u anto
an to um p roce
ro cess
ssoo (que
(q ue se c ria
ri a ) en
e n tre
tr e as form
fo rmasas
e os conteúdos (Simmel). (Simmel). É isso, no fundo, o que nos propõe prop õe Michel
M ichel
Maffesoli. Tratase, a partir da perspectiva formista simmeliana, de
mostrar a dinâm ica sóciotécnica
sóciotécnica que se instaura nesse final de século
misturando,
misturand o, de forma
form a inusitada,
inusitada, as tecnologias digitais e a socialidade
 póó s mo
 p m o d e m a , form
fo rmanandd o a cibe
ci berc
rculultu
tura
ra..
A fim de compreendermos
compreendermos m elhor essa cibercultura cibercultura plane-
tária,
tári a, vamos ten tar m ostrar como conceitos tais tais como o ttribalis-
ribalis-
mo, o presenteísm
presenteísm o, o vitalismo vitalismo e o formism o, m arcas indiscu tí-
veis da socialidade contemporânea, podem ser aplicáveis para
descrev er a relaçãorelação en tre as as novas tecnologias
tecnologias e a sociedade c on-
temporânea. Estes miniconceitos, como afirma Maffesoli, vão
 poo n t u a r t o d o s o s c a m p o s d a c u l t u r a c o n t e m p o r â n e a , n ã o s ó a
 p
cibercultura (comunidades virtuais, jogos eletrônicos, imaginá-
rio cybe
cy berpu
rpu nk , ciberse xo , realidade
realida de v irtual, cib eres er es p aç o 169), mas
todos os acontecimentos quotidianos, todas as formas de agre-
gação
edades(banal, festiva,
festiva, esporti
contemporâneas.
contemporâneas.•esportiva,
• va, m ediática)
ediática) que m arcam as soci-

 
• ANDRÉ LEMOS
LEMOS | 87
 A soc
socied
iedad
adee co
conte
ntem
m po
porâ
râne
neaa

A obra
ob ra de M. Maffesoli
Maffesoli é decisiva
decisiva para uma abordagem feno
menológica da sociedade
sociedade contemporânea ocidental
ocidental.. Com o veremos,
o conjunto de conceitos
conceitos que compõem
com põem a socialidade
socialidade maffesol
m affesoliniana
iniana
nos ajudará a compreende
com preenderr osos fenômenos recentes da cultura eletrô-
nica global.
global. Devem
De vemosos partir
pa rtir de uma fenomenologia
fenom enologia do social, enten
tendoo esta como os “ est
tend estudos
udos dos fenômeno s, isto
isto é, daquilo
daqu ilo que apa
a pa
rece à consciência,
con sciência, daqu
da quilo
ilo que
qu e é dado
dado . N
 Neste
este
sentido, a sociolo
gia maffesoliniana é um a fenomenologia do social,social, tendo por
po r objetivo
objetivo
olhar aquilo que é dado, aquilo que é, e não aquiloaquilo que de
deve
ve ser uma
sociedade, insistindo na descrição das formas atuais das relações so-
ciais.
ciais. A ênfase
ên fase da sociologia maffesoliniana está nessa desc descrição
rição do
social “...tal qual ele se dá  ” m .
qua l ele
Partindo dessa
de ssa visão fenome
fenomenológica
nológica do social,
social, M
Maffesoli
affesoli tenta
descrever
desc rever o que, segundo
segun do ele,
ele, vai marcar a atmosfera das sociedades
socieda des
ocidentais contemporâneas:
contemp orâneas: a socialidade
socialidade.. Ele mostra
m ostra com o o concei-
to de socialidade
socialidad e é definido em oposição
o posição àquele de sociabilidade. A
socialidade marcaria os agrupamentos urbanos contemporâneos, di-
ferenciandose da d a sociabilidade
sociabilidade ao colocar
coloca r ênfase na tragédia do pre-
sente, no instante vivido além de projeções futuristas ou morais, nas
relações banais
bana is do quotidiano, nos momentos não institucionais, racio-
naiss ou finalistas da vida de todo dia.
nai dia. Maffeso
M affesoli li procura
proc ura olhar
olha r a vida
como ela é, como com o diría Nelson Rodrigues Rodrigues (al
(aliás
iás,, amb
ambosos investem
inv estem numa
nu ma
 pee rsp
 p rs p e c tiv
ti v a e ró
róti
ticc a do socia
so cial).
l).
A socialidade é, para M. Maffesoli, um conjunto de práticas
quotidianas que escapam ao controle social (hedonismo, tribalismo,
 pre
 p resesenn teís
te ísmm o ) e q u e coconn stit
st ituu e m o subs
su bstr
trat
atoo ddee toda
to da v ida
id a em soc
so c ied
ie d a -
de, não só da socieda sociedade de contemporânea, mas de toda toda forma
form a social. É
a socialidade
socialidade que faz sociedade, sociedade, desde as sociedades
sociedades primitivas
prim itivas (mo(mo- -
mentos efervescen
efe rvescentes, tes, ritualísticos
ritualísticos ou mesmmesmoo festivos)
festivos) até as socie
socieda-da-
des tecnologicam
tecnolog icamente ente avançadas. A socialidade é, assim, a m ultiplici-
dade de experiências
expe riências coletivas baseadas, baseadas, não na homogehom ogeneizaçã
neizaçãoo ou ou
na institucionalização
institucionalização e racionalização
racionalização da vida, mas no amb a mbiente
iente ima-
ginário,
ginár io, passional, erótico eró tico e violent
violentoo do dia a dia, do quotidiano
quotidian o dos
homens sem qualidade (Musil) (Musil)..
Maffesoli mostra que existem existem momentos de uma um a determinada
sociedade
socie dade em que uma forma vai exprimir melhor a cultura vigente. vigente.

88   CIBERCULT
CIBERCULTURA,
URA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL N A CULTURA CONT
CONTEMPORÂ
EMPORÂNEA
NEA •
 

Assim
Ass
ais im modernidade
da foi,
foi, por
po r exemplo,
exem plo, a forma
form a institucionalizada
institucionalizada
(sociabilidade). Em outras, como das relações soci-
so ci-
na sociedade
contemporânea,
contem porânea, é a socialida
socialidade
de não instit
institucional,
ucional, tribal
tribal que se sobres-
sai. Isso não significa que elas existam de maneiras estanques e
excludentes. O que é importante frisar é a pregnância
pregnânc ia de umumaa destas
destas
formas sobre a outra em determinados momentos mom entos históricos.
históricos.
A socialidade contemporânea vai se estabelecer, então, como
um politeísmo
politeísmo de d e valores
valores onde o indivíduo
indivíduo desempenha papéis, pro- p ro-
duzindo máscaras
m áscaras dele mesmo, agindo numa verdadeira teatral teatralidade
idade
quotid
qu otidian
iana1
a1772. É no quotidiano,
quotidiano , locus da prática dessad essa teatralidade
teatralid ade 
através dos diversos papéis que encarnamos nas situações plurais plu rais do
dia a dia, que podemos
podem os ex-ister   (ser
(ser,, no sentido de sair de si,
si, o D
 Daa se in  
sein
heideggeriano), sem sucumbir aos imperativos de uma moral ou de
uma racionalidade
rac ionalidade implacável, típicos
típicos do individuali
individualismo
smo moderno.
A socialidade
socialidade pósmodema, por colocar ênfase no presente, não
investe
inves te mais no dever
deve r ser
ser,, mas naquilo que é, no presente. A vida quo-
tidiana contemporâne
contem porâneaa vaivai insistir na dimensão
dimensão do
d o presente; num
nu m pre-
sentee caótico
sent caó tico e politeísta
politeísta em detrimento de perspectivas futuristas. A
socialidade não seria, assim, contratual, no sentido dos engajamentos
 políti
 po lítico
coss fixos
fix os ou dosd os perten
per tencimcimenentos
tos à classe
clas sess sociais
socia is defin
de finid
idas
as e e stan-
sta n-
ques.. Ela seria efêmera, imediata,
ques imediata, empática.
empática. Maffesoli
M affesoli dá vários exem- exem -
 ploss dess
 plo de ssaa socia
so cialid
lidad
adee nas suas
sua s anál
an álise
isess d a soci
so cied
edad
adee cont
co ntem
empp orân
or ânee a
(agrup
(ag rupamamento
entoss urbano
urb anos, s, festas e rituais, moda,
moda , tecno
te cnolog
logia,
ia, etc
e tc.)
.)1173.
A soc
socialid
ialidadadee encon
en contra tra sua forç
f orçaa na astúc
a stúcia
ia das m assa as sas1 s1774,
m arcada por p or uma espécie de passividade ativa, ativa, intersti
intersticial,
cial, subversi-
subv ersi-
va, e não por um ataque frontal de cunho revolucionário. Esse com-
 por
 p orta
tamm ento
en to riz
ri z omát
om áticicoo 175, esgu
es guio
io e efêm
ef êmerero,
o, vai
va i mar
m arcc ar profu
pro fundndamamen entete
a cibercultura, com comoo veremos mais adiante. adiante. Como afirma afirm a um  zi  zipp pi e,  
pie,
um dos
do s expoentes
expoen tes dessa cibercultura:
cibercultura: “antes de lutar contra con tra o siste
s iste
ma, estamos ignorando-o  ” .
Entretanto, se não existe mais uma unidade do social, isso não
significa uma
um a desagregação radical, radical, nem tão pouco o isolamen isolamento to pato-
lógico ou o fim do d o social,
social, como
com o vimos em Baudríllard,
Baudríllard, Virilio
Virilio ou Sfez.
Comoo afirma Maffesoli, se não podemos mais falar de unidade (fecha-
Com
da, acabada, objetiva
o bjetiva e instrumental),
instrumental), a análise da vida quotidiana
quotidian a nos
 per
 p erm
m ite ve
v e r uma
um a cert
ce rtaa unic
un icid
idad
adee ( unicité ). A un
unicidade
icidade se traduz como
uma união holística, como com o um processo em que elementos os mais m ais di-
versos agem em sinergia,
sinergia, dentro
dentro de uma mesma forma form a formante.
formante.••

• ANDRÉ
ANDRÉ LEMO
LEMOSS | 89
 

Comoo vimos, a modernidade insisti


Com insistiuu na assepsia social marcada
 p o r um
 po u m a rac
ra c ion
io n a li
lidd ade
ad e inst
in stru
rumm enta
en tal.l. E la bu
b u sca
sc a v a do
d o m e s tic
ti c a r (ou
(o u ani-
an i-
quilar) as imperfeições
imperfeiçõ es (tidas como com o escórias
escórias sensoriais) da vida, como
as emoções
emoçõe s desmedidas,
desm edidas, a violência e o imaginário simbólico. Entre-
tanto,
tant o, a contemporaneidade,
contempo raneidade, insiste insiste M. Maffesoli,
Maffesoli, vai ser marc marcada ada por
um imaginário
imag inário dionisíaco
dionisíaco (sensual, ttribal ribal),
), além de prerrogativas pu- pu -
ramente
rame nte instrumentais. Podemos Podem os ver exemplos nas diversas situações
que marcam
m arcam a cadência
cadê ncia das ações minúsculas do presente. E as nova novass
tecnologias vão desempenhar um papel muito importante nesse pro-
cesso. Ao A o invés de inibir as as situações lúdicas,
lúdicas, comun
comunitárias
itárias e imaginá-
im aginá-
rias da vida social, elas vão agir como com o vetores potencializadores
potencializadore s des-
sas situaç
situações,
ões, da social idade.idade.
A análise formista, que vê na forma social algo que é também
“formante”
“form ante” de conteúdo, tem origem nos trabalhos de G. Simmel, Sim mel, influ-
ência marcante
m arcante na obra de Maffesoli.
Maffesoli. As formas (institucionai
(institucionais, s, simbó-
simb ó-
licas,
licas, técnicas) de uma um a cultura visam enquadrar a vida, vida, regulála, control
controláá
la.s. Para
la
te
tes o formismo
da forma.formAismo
vidade Simmel,daa vida
necessita formasepara
impõe sempre
“ex-istir  con
contra
” , da
”, tra osalimi-
mesma
mesm ma-
neira em que qu e ela busca expandirse para além das formas. É nesse em em- -
 bate,
 ba te, ness
ne ssee con
co n fl
flit
itoo ent
e ntre
re forma
for mass e cont
co nteú
eúdo
dos,s, que
qu e en
e n raiz
ra izaa se
s e o trági
trá gico
co
da socie
so cieda
dade
de1177. A forma
for ma seria uma
um a matriz, ambiente
am biente ddee nascim
n ascimentoento e
morte de diversos elementos da d a vida em sociedade.
sociedade. A formaform a seria então
formante. Como Co mo mostra Simmel, as formas sociais são o invólucro invóluc ro “na  
qual esta vida se vest veste,e, como a maneira necessária sem a qual qu al a vida 
não pod e aparecer enquanto fenômeno... ”1
enquanto fenômeno...  ” 177.
A evolução
e volução das formas da cul cultura
tura est
estabelecese
abelecese num processoproc esso pa-
radoxal entre a vida, que quer qu er superar suas formas (que é a possibilidade
mesma de “ex-istência”), e estas, que revestem a vida e que tendem a
cristalizála.
cristali zála. Para
P ara Simmel,
Simm el, e aí está a idéia de vitalismo social presente pre sente nos
trabalhos de Maffesoli, a fecundidade da vida obriga as formas a
reconstituíremse num processo con contínuo
tínuo.. A forma
form a teria,
teria, assim, duas fun-
ções contra
c ontraditórias
ditórias:: ela é ao a o mesmo
me smo tempo
temp o suporte e prisão
pris ão ddaa vida
vi da1178.
As formas de uma um a determinada sociedade vão cristalizarse nos
objetos técnicos,
técnicos , nas instituições as mais diversas e no ima imaginá
gináriorio sim-
sim -
 bólic
 bó lico.
o. E sta
st a s ten
te n d e m a dese
de senn v o lve
lv e r
rse
se de m a n eira
ei ra a u tôn
tô n o m a e ind
in d e -
 pend
 pe nden
ente
te.. P a ra Sim
Si m m el
el,, a c u ltura
ltu ra se real
re aliz
iza,
a, ness
ne ssaa trag
tra g é d ia,
ia , no p ro-
ro -
cesso de objetivação do sujeito (a forma “formando” o conteúdo) e
de subjetiv
su bjetivaçã
açãoo dos objetos (o conteúdo impondo imp ondose se à form
f orma)Ja)J779. Po
90 | C I BE
B E R C U LT
L T U R A , T E C N O L O G I A E V I D A S O C I AL
AL N A C U L T U R A C O N T E M P O R Â N E A •
 

demos
dem os assim analisar
an alisar a cibercultura e, principalmente, o ciberespaço.
Tomemos por enquanto o ciberespaço. Este, enquanto forma
técnicaa é, ao mesmo
técnic m esmo tempo, limite e potência de uma um a estrutura social
de conexões
co nexões tácteis,
tácteis, que são as comunidades virtuais
virtuais elet
eletrônicas
rônicas ( chats,
muds  e outras
o utras agregaçõe
agreg açõess eletrôn
e letrônicas1
icas1880). Em um m undo
und o saturad
sa turadoo de
objetos técnicos, será nesta forma técnica (as redes telem telemáticas)
áticas) que a
vida social vai imim por o seu vital
vitalismo.
ismo. As diversas m anifestações con- con -
temporâneas da cibercultura
cibercultura podem ser vist vistas
as como a expressão quoti-
diana da d a vida
v ida que se rebela contra as formas instituí instituídasdas e cristalizad
cristalizadas.as.
Segundo M affe affesoli
soli,, e aí está mais
mais um conceito
conceito importante
im portante para com- com -
 pre
 p reee n d e rmo
rm o s a soci
so cial
alid
idaa de,
de , e sta
st a rí
ríaa m o s a ssis
ss isti
tind
ndoo à p a ssa
ss a g e m (ou
(o u a
desintegração)
desintegraç ão) do indivíduo clássico à (na) tribo. tribo.
A erosão e o esgotamento da perspectiva individualista da
modernidade
mod ernidade (o que não significa
significa que não existam “indivíduosindivi
“indivíduosindivi
dualistas”) é co correlata
rrelata à formação
formação das mais diversas diversas tribos contemporâ-
contem porâ-
neas,, a nível planetário
neas plan etário.. Atravé
Atr avéss das inúmeras
inúm eras fo form
rmasas de trib
t ribalis
alism
m o181
contemporâneo, a organiz organizaçãoação da sociedade cede lugar, lugar, pouco
pouc o a pou-
co, à organicidade da soci alidade, ag
socialidade,  agora
ora tribal
tribal e não mais racional ou
contratual. Se na modernidade,
m odernidade, afirma Maffesol Maffesoli, i, o indivíduo tinhatinh a uma
função, a pessoa {persona) pósmodema tem um papel, mesmo que
efêmero, hedonista ou cínico. cínico. A questão colocada assim não n ão significa
que esse fato seja novo, mas afirma que a preponderância da persona
sobre o indivíduo atinge seu paroxismo nesse ne sse final
final de milênio.
Para Maffeso
M affesoli,
li, a lógica individualis
individualista ta se apoiou sobre uma um a iden-
tidade fechada, sobre o indivíduo, enquanto qque ue a p
 pee rs
rsoo n a  só existe
em relação ao outro, agregandose. É por isso que esta tem necessi-
dade da tribo,
tribo, para se construir com o outro, pelo outro e no outro. O
indivíduo é assim “levado p o r uma pulsã o agregadora, ele é também  
o protag
protagonista
onista de uma am biência afet afetuosa
uosa qu quee o fa z adader
erir
ir,, p
par
artici
tici
 p a r m
maa g ic
icaa m en
ente
te a es
esse
sess p e q u en
enoo s cco
o n ju
junn to
toss vvis
isco
coso
soss q
quu e eeu pro p u s  
u prop
chamar de tribos ” 182. Estaríam
Estar íamos os ven
v endodo hoje,
ho je, atra
a travé
véss dos diver
div ersos
sos
tribalismos
tribalismos contemporâneos
contem porâneos (religios
(religiosos,
os, esportivos, hedonistas, mu-
m u-
sicais,
sic
de ais, tecnológicos,
solidariedades etc.), o (re)surgimento
m ecânicas,
mecânicas, (re)
ousurgimento do que Durkheim
Durk heim
Weber de comunidades
comu nidades chama
emocionais,
em ocionais,
ou Marcei Bolle de Bal chama de reliance  (Bolle de Bal)183. E isso
 pa ra m e lho
 para lh o r ou pior:
pior : solid
so lidar
arie
ieda
dade
dess raci
ra cist
stas
as,, cri
c rim
m inos
in osas
as e into
in tole
lera
rant
ntes
es
têm lugar
luga r também no tribalismo
tribalismo atual, sustenta Maffesoli.
Maffesoli.
O tribalismo referese, consequentemente, à vontade de estar• estar •

• ANDRÉ LEMO
LEMOS
S 91
 

 j u n t o ( être-ensemble ), onde o que importa é o com partilham


 ju partilhamento
ento de
emoções em comum . Isso vai for formar
mar o que o pensador frafrancês
ncês identi-
fica como cultura do sentimento, relações tácteis
tácteis e grupais de em
empatia.
patia.
Esta cultura não se iinscreve
nscreve mais em nenhuma
ne nhuma finali
finalidade
dade prospectiva,
tendo como única preocupação o presente vivido. Maffesoli propõe
analisar
analis novaa ambiance  com
ar essa nov  comunit
unitária
ária a parti
partirr do que ele c hama de

 p a ra
 pa radd ig
igmm a eest
stét
étic
icoo . A soc
s ocia
iali
lida
dade
de tr
trib
ibal
al,, g
gre
reg
g á ri
riaa e em p á ti
ticc a , a ccu
u lt
ltuu-
ra do sentimento que se apóia sobre aass multipersonalidades (as m más-
ás-
caras do teatro quotidiano), agem a partir de um umaa ética da estética,   e
não a partir de uma moral universalizante. A sociedade elabora um
éthos,  uma m aneira de se ser,
r, um modo
m odo de exi stência “on
existência onde
de aaqu quiloilo que  
é compartilhado com outros será será primordial
primordial.. É isso que eu designa
design a
reii pela
re pe la expressão
exp ressão ‘ética da estética
esté tica’’  ” 184.
A ética
é tica da estética vai impregnar todo todo o ambiente social e ccontami-
ontami-
narr o polít
na político,
ico, a comunic
comunicação,ação, o consumo,
consum o, os negócios, as artes e espetá-
culos, ou seja, a vida quotidiana no seu conjunto.conjunto. Essa
E ssa ética é, assim, um
conceito chave para ajudar a melhor discernir sobre o conjunto
desordenado
desor denado e versátil daquilo que M. Maffesoli ch chamamaa de social
socialidade.
idade.
Vejamos em relação aos media.  As tecnologias do ciberespaço
vão potencializar a pulsão gregária, agindo como vetores de comu-
nhão, de compartilhamento
co mpartilhamento de sentimentos e de religação comunitária.
 No cib
c iber
eres
espa
paço
ço,, a m
maa io
iorr pa
parte
rte d
doo us
usoo deve
de ves
see a ativ
at ivid
idad
ades
es ssoc
ocia
ializ
lizan
ante
tess
como chats, grupos de discussão, listas, muds, icq, entre outros. Na
cibercultura, o ciberespaço é uma rede soc
cibercultura, social
ial complexa, e não somente
tecnológica. Isto mostra que a tendência comunitária (tribalismo), a
ênfase no presente
p resente (presen
(presenteísmo)
teísmo) e o paradigma estético (ética da eesté-
sté-
tica) podem potencializar
po tencializar e ser potencializados
potencializados pelo desenvolvime
desenvolvimentonto
tecnológico. Podemos ver nas comunidades do ciberespaço a
aplicabilidade
aplicabilidade do co conceito
nceito de socialidade
socialidade (mas també
também
m de sociabilida-
de), definido por
p or ligações orgânicas, efêmeras e simbóli
simbólicas.
cas.
As expressões
expressõ es culturai
culturaiss mais ri
ricas
cas do fenôme
fenômeno
no da cibercultura
“religação” ( reliance) social potencializada
mostram, precisamente, a “religação”
 pe la tec
 pela tecnonolo
logi
giaa mic
micro roe
elet
letrô
rônic
nica.
a. C
Com
omo
o af
afirm
irmaa M af
affe
feso
soli,
li, a soc
socia
ialid
lidad
adee
 pod
 p odee e fe
feti
tiv en te,, “...caminha
v a m ente ...caminharr lado a lado com o desenvodesenvolvimento
lvimento  
tecnológic
tecno lógico,o, ou mesmo
m esmo ser apoiada p o r 'ele 'ele (veja-se o m micro
icro ou o  
 M in i tel)
te l)”m
”m .  Assim, podemos propor, como hipótese, que as novas
tecnologias
tecnol ogias de com unicação atuam como fatores fatores de difração do cará-
ter com unitário tribal típi típico
co da socialidade contem
contemporânea.
porânea.

92
 
  | CIB
CIBERCU
ERCULTUR
LTURA,
A, TECNOLOGIA EVIDA
E VIDA SOCIAL NA CULTURA CONTEMPORÂ
CONTE MPORÂNEA
NEA •
Mais um
umaa vez, trata
tratase
se de uma
u ma mmudança
udança ^i
^iee escala. Em várivários
os
momentos
mom entos da história da hhumanidade
umanidade pudemos ver a tecnologia servir
como instrumento comunitário ou simplesmente agregador. Sabemos
que os íhaumata  gregos eram apenas instrumentos de divertimento,
que a imprensa
imp rensa desestabili
desestabilizou
zou o poder
pod er da igreja ao dem
democratizar
ocratizar a in-
formação,
formaç ão, que o rádio po
podia,
dia, co
como
mo pensav
pensavaa B rec
recht1
ht1886, criar co
comu
munida
nida--
des solidárias à distância, e que mesmo a contracultura, sendo anti
tecnológica, não seria possível
possível sem drogas químicas, imagensimage ns (vídeo e
cinemaa experimental) e a guitarra eelét
cinem létri
rica.
ca. Mud
Mudança
ança de escal
escala:
a: en
entra-
tra-
mos em cade
cadeia
ia planetár
planetária
ia (aldeia
(aldeiass globais) com inform
informaçõesações tornando
se dispon
disponíveis
íveis ao planeta (ou entregues) em tempo real, imediato.
A cibercultura
cibercu ltura vai ssee caracterizar pela formação
formaçã o de um a socie-
dade estruturada através de uma conectividade
conectividade telem
telemática
ática generaliza-
da, ampliando o potencial comunicativo, proporcionando a troca de
informações sob as mais diversas formas, fomentando agregações
sociais.
soci ais. O ciberespaço cria um mundo operante, interli interligado
gado p
por
or ícones
ícones,,
 port
 po rtaa is
is,, sí
síti
tios
os e home pages, permitindo colocar o poder de emissão
nas mãos de uma cultura jovem jove m , tribal
tribal,, gregária, que vai pro
produ
duzir
zir in-
formação, agrega agregarr ruí
ruídos
dos e cola
colagens,
gens, jog ar excesso ao sistema.
Com
Co m o fen
fenôm
ômeno
eno das comunidade
comunidadess virtua
vir tuais1
is18
87 form
formadas
adas aatravés
través
da comunicação tel telemática
emática  podemos dizer que est estamos
amos assisti
assistindo
ndo a
uma forma, crescente e planetária, do fenômeno, mostrando a perma-

nência (senão o renascimento) de comunidades de base, aquilo que a


Escola de Paio Alto chamou de proxemia (proxémiem ). Segundo
Maffesoli, a socialidade
socialidade no ciberespaço mostra que a tecnolotecnologiagia “nã o 
não
chega a erradicar a potência da ligação (da re-ligação) e, às vezes, 
serve-lhe
serve-lhe até de coadjuvan te”189. A potê
coadjuvante” p otênc
ncia
ia d
dee li
liga
gaçã
çãoo da
dass ccom
om un
unid
ida-
a-
des virtuais
virtuais do ciberespaço encaixamse bem no que U. Hamm H ammerz,erz, cha
cha--
ma de comunidade sem proxim idade ,  inst
proximidade institui
ituindo,
ndo, nã
nãoo um territó
rio físico,
físico, mas um terri
territóri
tório
o simbóli
simbólicoco (embora o pepertencimento
rtencimento sim
simbó- bó-
lico
lic o não seja exclusividade das comunidades eletr eletrônicas)
ônicas)..
As comunidades virtuais eletrônicas são agregações em torno
de interesses comuns, independentes de fronteiras ou demarcações
territoriais
territ oriais fi
fixas.
xas. M
Mais
ais um
umaa vez
vez,, Maffesoli vem con statar “ que a evi
dência táctil
tác til pa
passa
ssa atual
atualmente,
mente, (.
(...
..),
), pelo desen
desenvolvime
volvimentonto tecnológico  
(...)
(...) onde se exerce uma int interdependência
erdependência societária inegável
inegável...... ” llJ
llJ0
0.
A sociedade contemporânea, ajudada pela tec tecnologi
nologia,a, mergulha nes-
sa dime
dimensão
nsão d daa social
socialidade.
idade. AAqui
qui “o indiví
indivíduo
duo se exclue enquanto
enqu anto tal tal••

• ANDRÉ LEMO
LEMOS
S 93
 

 p a r a p a r tic
 pa ti c ip a r d e u m a co
comm un
unid
idad
ade,
e, um p o u c o m íti
ítica
ca,, cu
cujo
jo im
imaagi
nário não é sem efei efeito
to no quot
quotid
idia
iano,
no, em pa
particula
rticularr porqu e ela acen
tua a comunicação sem objeto específico: a comunicação pela co
municação ” 191. Estam Esta m os longe dod o diagnó
diag nóstico
stico de
d e morte
m orte da
d a com
co m unica
un ica--
ção porp or excesso
exce sso tão caro a Sfez, Baudrill Baud rillard
ard e Viri
Virili
lio.
o.
É interessante not notar,
ar, também, que a tecnologia moderna
mode rna é fruto
fru to do
casamento da ciência ciênc ia com a técnica,
técnica, associada à racionalidade e à objeti-
vidade. Ela é, assim, oposta a toda e qualquer forma de socialidade (o
emocional,
emo cional, o subjetivo,
sub jetivo, o dionisíaco).
dionisíaco). Maffesoli aponta isso muito
m uito clara-
mente no prefácio de um u m número especial da revista francesa Sociétés
Sociétés,,
cujo tema era er a a “tecnosociali
“tecnosocialidade” dade” ( technosocialité ).
). Ele afirma: “ p odee  
 pod
 pa
 p a r e c e r p a r a d o x a l p e n s a r em um m esesm
m o m ov
ovimimen
entoto a té
técn
cnic
icaa e a 
socialidade. Entretanto é este paradoxo que este número de Sociétés 
 pret
 pr eten
ende
de coloca rf,, m . Assim, a tecnologia
colocarf tecnologia contemporânea é um dos fato-
res mais importantes de formação da socialidade contemporânea. contemp orânea.
O estranhamento
estranham ento atual atual em relação à técnica
técnica advém, justamente,
justam ente,
da simbiose
sim biose bizarra entre a socialidade,
socialidade, que recusa a positividade utó-
 picc a e a ra
 pi r a c ion
io n a lid
li d a d e indu
in dust
stri
rial
al,, e as
a s nov
n ovas
as tecn
te cnoo log
lo g ias,
ia s, fru
fr u to de
desta
stas.
s.
A cibercultura contemporânea mostra que é no coração mesmo da
racionalidade técnica que a socialidade aparece com força e ganha
novos conto
co ntorn rnosos1193. A cibercultura,
cibercu ltura, esse
e sse estilo da cultura
cu ltura técn
técnicaica con-
co n-
temporânea, é o produto social e cultural cultural da sinergia entre a socialidade
socialidade
estética contemporânea de que nos fala Maffesoli e as novas
tecnologias. Talvez estejamos estejamos buscando, pelas pelas tecnologias, uma um a nova
forma de agregação social (eletrônica, efêmera e planetária). Como
mostra magnificamente o sociólogo francês, “...por ma
mais
is paradox al  
paradoxal
que isso possa parecer, nós podemos estabelecer uma estreita liga
ção ent
entre
re o desenvolvimento tecnol
tecnológic
ógicoo e a am plifi
plificação
cação da estéti
ca. A técnica que tinha sido o elemento essencial da reificação, da  
separação,
separação, invert
inverte-se contrário e favo rece uma espécie de  
e-se em seu contrário
tactilida
tac tilidade,
de, um
umaa ex
expe
periê
riênc
ncia
ia co
comm u m ”194.
A socialidade caótica e fractal vai ser alimentada pelas
tecnologias microeletrônicas,
microeletrônicas, numa espécie
e spécie de harmo
harmonie
nie confli
conflictuelle, 
ctuelle,
ajudada pelo politeísmo
politeísmo de valores
valores e pelo excesso de imagens. A pro-
fusão (excesso) de imagens, e de tecnologias da imagem, pode ser
entendida aqui a partir da análise
análise do barroco enquanto form a socia
sociall
contemporânea. Para Maffesoli, a profusão de imagens (de todos os
um a baroquisation do mundo, exprimindo o
gêneros) está na base de uma

94 CIBERCUL
CIBERCULTURA,
TURA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL NA CULTURA
CULTUR A CONTEM
CONTEMPORÂN
PORÂNEA
EA •
 

caldo cultural multiforme que constitui aass sociedades ocidentais. Esta


ambiance   barroca está presente, de forma radical, no culto quase
mágico aos objetos técnicos, seja a televisão,
televisão, o videotexto, a micro-
informática e a telecópia,
telecópia, todos aniquilam prom otores  
aniquilam o futu ro e são promotores

de um instante eterno”'95.  Tóquio, Times Square, Beaubourg ou


Piccadilly Circus mostram bem a pregnância das imagens e a
 baa rr
 b rroo q u iz
izaa çã
çãoo e st
stéé ti
ticc a d a cult
cu ltu
u ra co
conn tem
te m p o râ
rânnea.

 A cib
cibee rc
rcuu ltu
ltura
ra em pro
proces
cesso
so

Podemos compreender como, a partir da análise da socialidade


contemporânea
contem porânea proposta po porr Michel Maffesol
Maffesoli, i, a cibercultura se constitui
como
com ou
umm a ciber
cibersocialid
socialidade
ade1196ou seja, u
uma
ma estétic
estéticaa social alim
alimenta
entada
da pelo
que poderiamos
poderiam os ch chama
amarr de tecnologi
tecnologiasas do ciberespaço (redes informát
informáticas,
icas,
realidade virtual, multimídia).
multimídia). A cibercultura fformase,
ormase, preprecisame
cisamente,
nte, da
convergência entre o socisocial
al e o tecnológi
tecnológico,
co, sendo através
a través da incl
inclusão
usão da
socialidad
socialidadee na prática diária da tecnologi
tecnologiaa que ela adquire seus contornos
mais nítidos. Não se trata, obviamente, de nenhum determinismo social
ou tecnológico, e sim de um processo simbiótico, onde nenhuma das
 partes det
d eter
ermm in
inaa imp
impied
iedos
osam
amenente
te a ou
outr
tra1
a19
97.
Hoje em dia, vemos o prefixo “ciber” em tudo : cyberpunk,
cibersexo, ciberespaço, cibermoda, ciberraves, cibercidades, cibercidad es, ciberarte,
etc.
etc. Cada expressão forma, com sua suass particularidades, semelhanças e
diferenças,
difer enças, o conjunto da cibercul cibercultura tura.. As tribos cyberpunks, as com comu-u-
nidades virtuais das redes redes informáticas (mu muds, chats, fórun
ds, chats,  fóruns,
s, BBSs, sites
e newsgroups ), o hedonismo e o presenteísmo das raves (festas tecno
eletrônicas), os fanáticos por jog jogos os eletrônicos,
e letrônicos, o ativismo rizo rizomático
mático e
 po
 p o lí
líti
ticc o  a n a rq u is
ista
ta d os m il
ilit
itaa n te
tess e letr
le trô
ô n ic
icoo s ( hackers, crackers, 
cypherpunks...) entre outros, outros, mostram com como o o mundo da vida está em

simbiose ativa com


co m o munmundo do da técn
técnica.
ica.
A contracultura das anos 70, por exemplo, foi um movimento
de oposição à cultura “desligante” (déliante) da modernidade, como
 pro
 p ropõ
põee o so
soci
ció
ó lo
logg o b e lga
lg a B ol
olle
le de Bal
Bal.. E sta
st a c o n tr
traa c u lt
ltuu ra re
refu
futa
tavva a
tecnologia, pois ela encarnava o símbolo maior do totalitarismo da
razão científica,
científica, causa principal
principal da racionalização dos m modos
odos de vida
e da domina
dominaçãoção da natureza atra através
vés da urbanização e industrialização
das cidades ocidentais. A cibercultura toma por herança esta
contracultura, mas ela não recusa a tecnologitecnologia. a.••

• ANDRÉ
ANDRÉ LEM
LEMOS 95
 

Fruto da geraç geração ão X 198, a sociedade


socieda de co contem
ntem por
porâne
âneaa aceaceita,
ita, tam -
 bém
 b ém , a ttee c n o lo
logg ia a part
pa rtir
ir de u m a pe
pers
rsp
p e c ti
tivv a lú
lúdi
dica
ca,, er
eróó ti
ticc a , v
vio
iole
lenn ta
e comunitári
com unitária. a. N este senti
sentido,
do, a tecnologi
tecnologia, a, que foi o instrum
instrumento ento prin-
cipal da alienação, do desencantamento do mundo mu ndo e do indiv
individualis-
idualis-
mo, vêse investida
inve stida pelas potência
potênciass da socialidade.
socialidade. A cibercu
cib ercultura
ltura que
se forma sob os nossos olhos, mostra, para o melhor ou para o pior,
como
com o as novas tecnologias estão sendo
sendo,, efeti
efetivamente,
vamente, utilizadas como
ferramentas
ferr amentas d dee uma eferves
efervescência
cência soci
social
al (comp
(comparti
artilhamento
lhamento de em o-
ções, de con
convivia
vivialidad
lidadee e de formação
forma ção ccom
om ununitária
itária)1
)19
99. A ciberc
cibercultura
ultura
é a socialidade com o prática da tecnol
tecnologia.
ogia.
A geração
geraçã o 90 está habituada à multimídia, à rea realidad
lidadee virtual e
às redes
redes telem áticas. Ela não é somente lliterári
iterária,
a, ind
individual
ividual e racio
racio--
nal,, mas também simultânea, como diria McLuhan, presenteísta, trib
nal tribal
al
e estética
estética com o afirm a Maffesol
Maffesolii e simulacro dela mesm a como no noss
explica Baudrillard. Ela se compõe como um  z  za in g   de signos,
a p p ing
como apropriação de bits   num espaçotempo em profundas trans-
formações.
A cibercultura aceita o desafio
desafio da sociedade de simsimulação
ulação e jogjogaa
( samplings, zappings ) com os símbolos da sociedade do espetáculo.
 No
 N o e n ta
tann to
to,, a c ib
iber
ercu
cult
ltu
u ra nã
nãoo p e rt
rtee n ce m ais
ai s à so
socc ie
iedd a d e d o e sp
spee tá
tá--
culo, no se sentid
ntido o da
dado
do a esta pe pelo
lo situ
situacio
acionista
nista fra
francncês
ês G
Guy
uy D eb
ebor
ord2
d20
00.
Ela é mais do que o espetáculo, configurandose como uma espécie
de manipulação
man ipulação digital do espet espetáculo.
áculo.
Para Debord,
D ebord, o espetáculo é a repres representação
entação do m undo através
dos mass m edia, edia, enquanto que a cibercul cibercultura tura é a simulação do m undo
 pela
 pe lass te
tecc n o lo
logg ia
iass d
doo vi
virt
rtua
ual.
l. A cib
c ibee rc
rcuu lt
ltuu ra su
surg
rgee co
c o m o s media  digi-
tais, ou seja, com a informática, as redes telemáticas, o multimídia
interativo,
interati vo, a realidad
realidadee virtua
virtual. l. A cibercultura ttoma oma a sim ulação com o

via de ap
apropriação
ropriação do real, enquanto que o espetáculo da tecnocultura
tecnocu ltura
mo derna2
modern a201 se ap
aprop
ropria
ria do real ppor
or me
meioio da rep
represe
resentaç
ntação
ão d
doo mu
mundo
ndo
(através dos med ia de massa).
massa).
Mesmo se cibernética significa controle e pilotagem, a
ciberculturaa não é o result
cibercultur resultado
ado li
linear
near e determinist
deterministaa de uma programa-
ção técnica do social
social.. Ela parece se
ser,
r, ao contrário, o resultado de uma
apropriação
aprop riação simb
simbólica
ólica e soci
social
al da tecnol
tecnologia.
ogia. O que vai caracterizar
carac terizar a
cibercultura nascente não é um determinismo tecnocrático. Não se
trata de ex clu
cluir
ir a ssocialidade,
ocialidade, e tudo que ela tem de trágico, violento,
erótico ou lúdico comocom o inimiga de uma socie sociedade
dade racional, técnica e

9 6 | CIBE
CIBERCULT
RCULTURA,
URA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL
SOCIAL NA
N A CULTURA CONTEMPORÂ
CONTEM PORÂNEA
NEA •
 

objetiva. A cibercultura não é uma cibemetizaçãoda sociedade m as a


tribalização da
d a cibernéti
cibernética.
ca.

Se nós
dizer que retom armos
retomarmo
a forma s à análi
“ciber” análise
se formista
(tecnologias do de Maffesoli, poderi
ciberespaço) poderiamos
amos
vai manter
umaa relaç
um relação
ão d
dialóg
ialógica2
ica20
02 com os conteúd
conteúdos
os d
daa v
vida
ida social co
contem
ntem po
po--
rânea. Todo o sonho da modernidade foi concentrado na p perspectiva
erspectiva
racionalista e funcionalista da vida, na dominação da natureza e no
controle das pulsões selvagens. Contraditoriamente, é por uma um a atitu-
de dispersa, efêmera
efêm era e lúdi
lúdica,
ca, que a soci
sociedade
edade co
contem
ntem porân
porâneaea vai se
relacionar
relacion ar com as novas tecn
tecnologias.
ologias. Tratase de umumaa imbricação een-n-
tre a socialidade e a técnica contemporânea
contem porânea (transfo
(transforma
rmada
da em instru-
me nto co
mento conv
nvivia
ivial2
l203); aaíí está o que pare
parece
ce ca
carac
racteriz
terizar
ar a cib
cibersoc
ersocialidad
ialidade.
e.
Assim “é po ssív el de imaginar que, que, correlati
correlativamente
vamente ao desenvo
des envo lvi
mento tecnológico crescimento das tribos urbanas fav ore ce uma 
tecno lógico o crescimento
palabre
pala bre informatizad
inform atizada a   204.
 No
 N o e n ta
tann to
to,, e m b o ra a s o c ia
iali
lid
d a d e e s teja
te ja p r e s e n te d e fo
form
rm a
marcante
marcan te nas principais expressões da cibercultura, isso não signif significa
ica
que esta não tenha suas práticas de sociabili sociabilidade.
dade. Sim, e muito muito.. Todo
o trabalho acadêmico, empresarial, comercial ou governamental no

ciberespaço caracterizase por relações de sociabilidades, relações


contratuais, formais,
formais, instit
institucionalizadas.
ucionalizadas. A contradcontradição ição e o paradoxo
entree uma hiper
entr hiperracionali
racionalidadedade inst
instrumenta
rumentall e um a transcendente ap apro-
ro-
 pri
 p riaa ç ão so
soci
cial
al d a te
tecn
cnoo log
lo g ia pe
p e la ru
ruaa eest
stáá no cco
o ra
raçç ã o d a ccib
iber
ercc u lt
ltuu ra
ra..
A cibercultura criase por uma astúcia dos usos, uma invenção do
quotidia
qu otidianono (De C Certeau
erteau)) em direç
direçãoão a con
convivia
vivialidade
lidade (Ivan Illich)2
Illich)20 03.

Notas

97 Etimologicamente, a palavra moderno é uma derivação do advérbio temporal


latino “modo” que pode ser traduzido por agora, recente, presente, atual. O adjetivo mo-
derno aparece no francês medieval no sécul
século
o XIV e o substanti
substantivo
vo abstrato modernidade no
século XIX, no trabalho do poeta Charles Baudelaire.
98 Ver Bartholo Jr. Os Labirintos do Silêncio. Cosmologia e Tecnologia na
Modernidade. SP, Ed. Marco Zero: 1986.
99 Ver Benjam
Benjamin,
in, W. Obra
Obrass Escolhidas III. S
SP,
P, Brasiliense: 199
1997.
7.
100 Weber, M. A lógica protestante e o espírito do capitalismo. SP, Livraria Pio-
neira: 1983.
101 Habermas, J. op.cit.
102 \f
\fer
er Horkheimer, M.; Adorno. T. La Dialectique de Ia Raison. Paris, Gallimai
Gal limaid:
d: 19
1974.
74.
103 Foucault, M. A Microfísica do Poder. RJ, Graal: 1986.
104 Ver Rouanet, S.P.S.P. As Razões do IIluminismo.
luminismo. SP
SP,, Cia das Letras: 19 1987
87..
105 Ver Habermas, J. Modemité un Projet Inachevé. op.cit.
106
106 Habe
Habermas,
rmas, J. Mode
Modemité...
mité... op.ci
op.cit.
t. p.
p.963.
963.

107 Ver Vattimo, G. La Société Trasparente. Bruxelas, op.cit.


108 Rouanet, S.P. op.cit, p.255.
109
109 Ve
Verr Giddens
Giddens,, A. The Con
Consequences
sequences o
off Modemity. Cambridge, Polity Press: 19
1990
90..
110 Ver Bell, D. A sociedade pósindustrial. SP, Cultrix: sd.
111 Rouanet, op.cit. p.237.
112 Baudrillard, J. L'O mb
mbre
re des Majorités Silen
Silencieuses.
cieuses. Paris, Cahiers dTJtop
dTJtopie:ie: 19
1978
78..
113 Deleuze, G. Guattari, F. Milles Plateaux. Capitalisme et Schizophrénie. Paris,
Les Editions du Minuit, 1980.
114 Nesse sentido, Michel Foucault vai falar de uma rede de micropoderes onde a
 práti
 pr ática
ca da raz
razão
ão mo
mode
derna
rna é um
umaa fon
fonte
te de po
poder
der dis
discip
ciplin
linar
ar (asil
(asilo,
o, pri
prisão
são,, hos
hospit
pital,
al, esco
escola).
la).
De acordo com Foucault, os discursos são manipulados pelas regras do poder disciplinar e
 panópt
 pan óptico.
ico. A ge
gene
nealo
alogia
gia de Fou
Foucau
cault
lt é um tra
trabalh
balho
od dee ar
arque
queolog
ologia,
ia, de pe
pesqsquis
uisaa das reg
regras
ras
e dos modos do discurso; uma pesquisa da ori
origem
gem e da dinâmica do poder na modernidad
modernidade.
e.
O conhecimento científico moderno vinculase às metanarrativas da razão Iluminista, à
filosofia hegeliana de emancipação e da dialética do espírito.
115 Lyotard, JF
JF.. L
Laa condition postmodeme. Paris, Les Editions
Editi ons du Minuit
Minuit,, 19
1979
79..
116 Lyotard, JF. op.cit. p. 93.
117 Lyotard, JF. op.cit. p.97.
118 Kroker, A. Panic... op.cit.
119 Kroker, A. idem, op.cit. p.15.
120 A crise espaçotemporal contemporânea deve muito aos media.  A invenção da
escrita separou o enunciado do enunciador, instituindo uma nova maneira de conceber o
tempo e o espaço. O rádio enviou vozes a distâ
distância,
ncia, a TV image
imagens...
ns...
121 Os novos media   diferenciamse dos anteriores por seu caráter digital. As

98  CIBERCUL
CIBERCULTURA
TURA.. TECNOLOGIA
TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL N A CULTURA
CULTUR A CONTEMPOR
CONTE MPOR ÂNEA •
 

 base
 ba sess qu
quee pe
perm
rmit
itir
iram
am o su
surg
rgim
imen
ento
to dos
do s novo
no voss  m e d i a  são várjgs.
várjgs. Primeiro, a possibilida-

de
umatécnica
melhordetransmissão
numerização e umda informação (o digital substitui
tratamento automático o analógico),
das mensagens. permitindo
Juntese a isso o
rápido progresso dos componentes eletrônicos e as técnicas eletrônicas de compressão
da informação. Como vemos atualmente, todos os  m e d ia  vão passar (e já estão passando)
 pela
 pe la num
nu m er
eriz
izaç
ação
ão,, se
senã
nãoo ddee cont
co nteú
eúdo
do,, ao meno
me noss em
e m sua
su a form
fo rmaa prod
pr odut
utiv
iva,
a, cheg
ch egan
ando
do hoje
ho je
ao multimídia e à internet.
122 É bom notar que o adjetivo “novo” é de certa forma abusivo. Toda inovação
tecnológica cria “novas” tecnologias. Nos parece que este adjetivo vem carregado de pro-
messas de uma nova era tecnológica substancialmente diferente das “antigas”. Devemos
estar atentos à esta conotação ideológica do adjetivo.
123 Victor Scardigli propõe a idéia de sociedade digital para dar conta desta rela-
ção. Estaríamos então em meio a uma sociedade digital porque as diversas inserções da
tecnologia na vida quotidiana não obedecem mais as leis leis da mecânica. Com o digital, todos
os suportes são reconvertidos em dados binários. O termo sociedade digital é utilizado por
Scardigli tentando escapar a uma visão linear do impacto tecnológico e à sua negação. Ver
Scardigli, V. Les Sens de la Technique. Paris, PUF. 1992.
124 Com o desenvolvimento dos media analógicos exigese um canal específico e
um receptor também específico para veicular as mensagens (tvhetziana, rádioondas, telé
grafosfios, telefonesfios, etc.). Podese classificálos em três categorias: autônomos (li-
vros, jornais, discos, fitas, softwares, videocassete, cinema, jogos eletrônicos), onde o con-
teúdo é dependente
depen dente do veículo e se realiza offIine
offIine;; teledifusão (broadc
(broadcasting
asting com
comoo a T
TV,
V, o
rádio) onde o conteúdo é dependente do suporte e que se realiza através de conexões à
distância por ondas hertzianas ou elétricas; digitais, que permitem uma comunicação
multidirecional, onde o suporte independe do conteúdo. Ver Baile, F.; Eymery, G. Les
 Nouve
 No uveaux
aux Media.
Me dia. Paris,
Pa ris, PUF
PUF,, 1984.
1984.
125 A descentralização é uma exigência mesma do sistema em redes digitais, onde
0 que importa é a troca de informações de todos para todos. A interatividade garante ao
usuário a possibilidade de interferir nos conteúdos dos programas consumidos (os jogos
eletrônicos são um exemplo muito popular).
1266 McLuhan, M. La Galaxie Gut
12 Gutenberg.
enberg. La Genèse de TH THomme
omme Typographique
1 e 2. Paris, Gallimard, 1967/1977.
127 McLuhan, M. op.cit. p. 34.
128 McLuhan, M. op.cit. p. 56.
129 Pool, Ithiel de Sola. Technologies of Freedom. Harvarde Press, 1983.
130 Rosello, Mireille. The Screener’s Maps: Michel de Certeau’s “Wandersmãner”
and Paul Auster’s Hypertextual Detective”. in Landow, George. Hyper/Text/Theory. The
John Hopkins University Press, 1994, p. 123.
131 citado por McLuhan, M. op.cit. p. 273.
132 Falase muito hoje em dia do isolamento causado (ou pretensamente causado)
 peloss compu
 pelo com putad
tadore
oress e nos esquec
esq uecem
emos
os frequen
freq uentem
tement
entee que um
umaa das tec
tecno
nolog
logias
ias da inteli-
inte li-
gência mais individualista é o livro. Ler um livro é, por definição, uma atividade isolante,
fechada 133
e individualista,
Ver Lévy, P. embora maravilhosa.
Cibercultura. RJ, Ed. 34, 1999.
1344 Virilio
13 Virilio,, Paul. Esthétique de la Disparit
Dispa rition
ion.,., Paris
Paris,, Livre de Poche, Galilée, 1989
1989..
1355 Viril
13 Virilio,
io, P. op.cit.
op. cit. p. 51.•

• ANDRÉ LEM
LEMOS   99
 

136 Vlrilio, P. op.cit. p. 5253.


137 Virilio, Cybermonde. La Politique du Pire. Paris, Editions Textuel, 1996.'
138 Virilio, P. op.cit.
op. cit. p. 116.
139 Vir
Virili
ilio,
o, P
P.. op
op.ci
.cit.
t. p. 11
117.
7.
140 Poderiam
Poderiamos os questionálo aqui. Este deserto parece não se verificar. O cibem
cibemauta
auta
não age passivamente àquilo que se desenrola sob seus olhos. Ele é ativo pois, diferente-
mente da televisão, é ele que deve buscar a informação. E, mesmo com o tempo real, nada
garante que as reações tenham que ser imediatas ou impensadas pela urgência do livre.
Com as novas tecnologias telemáticas e as televisões por cabo ou satélite, privilegiase o
“meu tempo”: posso assistir a um programa em horários diferentes, assistir aos jornais
televisivos em momentos alternados, etc. O livre perde parte do seu impacto por causa do
meu tempo de exposição.
141 Murphy, John
John,, W.
W. De LL’lmplo
’lmplosion
sion Technique de la Réa Réalité
lité et des Mo
Moyens
yens d d’y
’y
Echapper., in Diogène, n°162, avriljuin, 1993, Paris, Gallimard. p.29.
142
142 Baudrillard, JJ.. Le Crime PPar
ar fa
fait.
it. , Paris, Gallilée, 19
1995
95..
143
143 Ve
Verr Debo
Debord,
rd, G. La Société du Spectacle. op.cit.
144
144 Baudrillard, Jean. El Otro por S Sii MMisism
m o.,
o. , Barcelona, Anagrama, 191988
88,, p. 18.
145 idem, p.72.
146 Murphy, J. W. op.cit. p. 37.
147 A cibercultura tem suas raízes na manipulação digital da sociedade de consu-
mo. Toda a cibercultura, dos jogos eletrônicos ao cibersexo, vai ser preenchida por esta
desmaterialização do mundo, pela divagem entre o real e o virtual, entre o artificial e o
natural. A materialização do mundo, ou a economia de átomos como explica Negroponte,
teve sua feitura durante a modernidade. Como vimos, a técnica contemporânea não é liga-
da à uma restrição energética da natureza, mas a uma manipulação de informação, da
segunda natureza formada pela tecnocultura moderna. A cibercultura não é produção, no
sentido da sociedade industrial, mas simulação. Há uma nova forma de domínio da nature-
za: em oposição à cultura moderna, a cibercultura ttrabalha
rabalha por modelos de simulação, uma
requisição (Heidegger) digital do mundo.
148 Bau
Baudrilla
drillard,
rd, J. La Tran
Transpare
sparence
nce du Mal. Paris, Galilée.
Galilé e. 1990
1990,, p. 7
70.
0.
149 Baudrillard, J. Le Xerox et LTnfini
LTn fini.,
., in Traverse, n. 4445, Paris, CG
CGP.
P. 19
1987
87.. p.19.
150 Baudrillard, J. La Tr Tran
anspa
sparen
ren ce...
ce...,, op.cit. p. 75.
151 Lévy, Pierre. Les Tec Technologies
hnologies de L’L’intelligence.
intelligence. L’aven
L’avenir
ir de la pensée à ll’’ère
Infor
In form
m ati
atiqu
que.,
e., Paris, Editions ddee la D
Découverte,
écouverte, 191990
90.. p. 130
13013
131.
1.
152
15 2 Sfez, L. Critiqu
Critiquee de la Co
Com m mu nic
nicatio
atio n., Paris, Seuil, 19
1992
92..
153 O autor associa a metáfora do “com” à perspect perspectiva
iva mecânica da comunicação
simbolizada pelo jogo
jo go de bilhar, ou seja pela teoria da comunicação clássica e linear (emi (emis s
sorcanalreceptor). A metáfora do “dentro”, é mais orgânica, sistêmica, centrada na escola
de Paio Alto. Sfez associa esta metáfora à figura da criatura. A cibernética seria herdeira
da metáfora do bilhar e percursora da perspecti
perspectivava da cri
criatura.
atura.
154 Sfez, L. idem, p.17.

155 Sfez, L. idem, p.47.


156 Sfez,L. idem, p.49.
157
157 Scheer, Léo. La Démo
Démocrac
cracie
ie Virtuelle. Paris Flammar
Flammarion,
ion, 1994
1994.. p.55.
158
158 Com
Comoo mostra Sche
Scheer,
er, a demo
democracia
cracia grega era, por excelência
excelência,, a opinião contra-
ditória em um espaço público, um exercício do diálogo, em tempo real. A de.mocracia

100  CIBERCU
CIBERCULTUR
LTURA,
A, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL NA CULTURA CONT
CONTEMPOR
EMPORÂNEA
ÂNEA •
 
ateniense era uma um a tekhnè polipolitiké,
tiké, uma arte do julgamento político
po lítico a partir da garantia da
 palav
 pal avra
ra ppar
araa todo
t odos,
s, a isegonia
iseg onia.. Para
P ara Scheer
S cheer,, ao cont
co ntrár
rário
io do qu
quee pe
pens
nsaa Vir
Virilio,
ilio, a democr
dem ocraci
aciaa
é, por
po r definição,
definição, o exercício do político em tempo real. O espaço político cibernético pode
ter uma função de Ágora eletrônica eletrônica,, simulacro da ÁgoraÁ gora gre
grega,
ga, espaço públic
público.o.
159 Mercier, PA . Plassard, F. Scardigli, V. La Société Digitale. Les Nouvelles
Technologies au Futur Quotidien. Paris, Seuil, 1984.
160 Ver
Ver Pool, I. Technologies
Technologies o f Freedom. op.cit.
161 Lévy,
L évy, P
P.. Construire
Construi re finte
f intellig
lligen
ence
ce collecti
collecti ve.
ve. in Le Monde
M onde Diplomatique.
Dip lomatique. Manie
de Voir Horssérie. internet et L’Extase de UEffroi. octobre 1996, p 35.
162 A experiência da Piazza Virtuale mostra bem a possibilidade digital de con-
vergência dos media. A Van Gogh TV, ou a Piazza Virtuale, foi uma experiência de 100
dias, 750 horas de transmissões para a Europa e Japão de uma televisão interativa, com
comunicações bidirecionais (com um telefone e um controle remoto podíamos participar),
 prod
 pr oduz
uzida
ida por
po r Po
Ponto
nton,n, cr
cria
iada
da em 1986 em Hamb Ha mburgurgoo na Ale
Alemamanha
nha.. Van Go Goghgh TV foi
distribuída pela ZDF durante o IX Documenta, durante o verão 1993. Poderíam ser
conectadas, ao mesmo tempo, vinte pessoas para fazer música com um orquestra virtual,
enviar fax ou falar entre eles. A Piazza Virtuale era uma espécie de BBS televisivo onde
“modemusers squirt text onto the television screen and faxes were displayed on camera;
there were QuikTime movies, animation, and even ISDN connections”. Desde o primeiro
dia, sem publicidade, 5.000 pessoas se conectaram. No dia seguinte, 100.000. A Deutsche
Telecom ganhou quase um milhão de dólares. Os criadores eram hackers, músicos, artistas
gráficos e técnicos italianos, alemães, franceses, austríacos, canadenses e americanos. Se-
gundo Karel Dudesek, um dos diretores de Panton “our major goal was live interaction; to
 break throug
thr oughh the barr
ba rrie
ierr o f the screen;
scre en; to ddow
owngngrad
radee TV
T V from a maste
ma sterr mé
médiu
diumm into ju
j u st
one window onto a space" space " . Ver Marshall, Jules. Th Thee Médium is the Mission. in Wired,
n°1.05, nov.1993, p.6970.
163 Ver Castels, M. The Information Age; Economy, Society and Culture. Volume
I. The Rise of the Network Society. Massachusetts, Blackwell, 1996.
1644 Para Bougnoux
16 Bougnoux,, o paradoxparadoxoo da comunicação é que ela é produzida tecnicamen-
te mas, ao mesmo tempo, tenta escapar do mundo da técnica e corrigilo. Não há uma
determinação unívoca e linear da técnicatécnica ao social,
social, já que a inovação técnica é tão impor-
tante como a inovação social. Daí toda a crítica substancialista, metafísica da técnica,
tornandoa diabólica (Heidegger, Frankfurt, Ellul, Sfez, Baudrillard). A mediologia rejeita
autonomizar a técnica e esse parece ser um bom caminho para a compreensão
compreensã o da cibercultur
cibercultura.
a.
Sabemos que a utilização de uma inovação técnica sugere uma metamorfose e uma inter-
 pretação
 preta ção,, consti
con stitui
tuind
ndoo uma
um a dup
d upla
la articu
articulaçã
lação;
o; a lóg
lógica
ica do utensíl
uten sílio
io se im
imbr
brica
ica na lóg
lógica
ica do
usuário, modificandose
modifica ndose ambas nesse contato.
contato. Ver
Ver Bougnoux, D. Introd
Introdução
ução às Ciênc
Ciências
ias da
Informação e da Comunicação. Petrópolis, Vozes, 1994.
1655 Lévy , P. Les Technologies
16 Technologie s de LTntelligen
LTntel ligence.
ce. op.cit.
1666 Gras, Alain. Le Bonheur, Produit Surgelé. in Autremen
16 Autr ement,t, Technologies dduu
Quotidien, Paris, 1992, p. 1819.
167 Maffesoli, M. O Tempo das Tribos. O declínio do individualismo nas socieda-
des de massa. RJ. Forense, 1987. p. 150.
168 Os zippies (Zen Inspired Pagan Professional) são neohippies que utilizam as
novass tecnologias como
nova com o fonte de (re) aproximação
aproximação comunitária e de busca da espir
espiritualidade.
itualidade. Já
os ravers são os participantes das raves parties, festas tribais, cadenciadas pela música tecno•
tecno•
• ANDRÉ
ANDRÉ LEMOS   101
LEMOS
 

eletrônica.
eletrônica. Ver Lemos, A . , Ciber
Ciberrebeld
rebeldes.
es. in Guia da internet .BR
.BR,, RJ, Ediouro, 1996
1996..
169 Sobre o ciberespaço ver: Benedikt, M (ed). Cyberspace. First Steps. MIT,
1992. et Lévy, R L’Intelligence Collective. Pour une Anthropologie du Cyberspace. Paris,
La Découverte, 1995.
170 Ver Lyotard. JF. La Phenomenologie. Paris, PUF, 1959. p. 7.
171 Lyotard, JF. op.cit. p.7
172 Sobre a teatralidade quotidiana ver GofFman, E. La Mise en Scène de la Vie
Quotidienne. Paris, Minuit, 1973.
173 Ver Maffesoli, M. A Conquista do Presente. RJ. Rocco. 1984.
174 Ver Baudrillard, J. L'Ombre des Majorités... op.cit.
175 Ver Deleuze, G. Guattari, F. Capitalisme et Schizophrénie... op.cit.
176 Ver Simmel, G. La Tragédie da la Culture, Paris, Rivages, 1988.
177 Simmel, G. Philosophie de La Modemité. Paris, Payot, 1990. p.229.
178 Para Simmel, a vida tende a superar ela mesma, desenvolvendose no plano
dos valores vitais, enquanto vida (“Mehr Leben”), e tornandose mais do que a vida, supe
randoa (“MehrAlsLeben”). Sobre a obra de Simmel ver Jankélévitch, V. Georg Simmel,
 philo
 ph ilosop
sophe
he de la vie. in Sim
Simmel,
mel, G. La Tragéd
Tra gédie
ie da la Cu
Cultur
lture,
e, op.c
op.cit.
it.
179 Por exemplo, em todos os objetos técnicos, podemos ver como estes são, ao
mesmo tempo, limite e possibilidade de manifestação da vida soci
social,
al, sob a forma de uma
“tekhnè”.
180
180 Chats são fóruns (m
(muitas
uitas vezes temát
temáticos
icos  paquer
paquera,
a, Brasil, hacker, sexo, etc.)
de bate papo online, em tempo real. Os M MUDs
UDs (Multi User Dungeons) são jog os online
(tipo role play games), onde os participantes criam mundos e personagens imaginários
através de uma ficção construída atravé
atravéss da escrita (alg
(alguns
uns são gráficos), também em e m tem-
 po real. So
Sobre
bre os MU
MUDs
Ds e C
Chat
hatss enq
enquan
uantoto ccom
omuni
unidad
dades
es vir
virtuais
tuais ver, Rh
Rhein
eingo
gold,
ld, H. Virtual
Communities. Homestanding on the Electronic Frontier. NY, AddisonWesley. 1993.
181 Maffesoli, M. O Tempo das Tribos, op.cit.
182 Maffesoli, M. La Transfiguration du Politique. La Tribalisation du Monde.
Paris, Grasset, 1992, p.17.
183 Durkheim
183 Durkheim,, E, Les F
Formes
ormes Elémen
Elémentaires
taires de la Vi
Viee Religieuse. Paris, PUF, 19
1978
78..
Weber, M, Economie et Société. Paris, Plon, 1971. Bolle de Bal, M. La Tentation
Communautaire. Les paradoxes de la reliance et de la contreculture. Bruxelas, Ed. De
1’Université de Bruxelles. Bruxelas, 1985.
184 Estética aqui deve ser compreendida, afirma Maffesoli, como
“Gesamtkunstwerk”, como obra de arte total. Ver Maffesoli, M. Au Creux des Apparences.
Pour une Ethique de 1’Esthétique. Paris, Plon, 1990. p.12.
185 Maffesoli, M. O Tempo das Tribos... op.cit, p.110.
186 Brecht, B. El compromiso em Literatura y arte. Historia, Ciência, sociedad
102.
102. Edicio
Ediciones
nes Península, Barcelona, 19
1973
73.. Ver ca pí tu
tulo
lo ‘T eo
eoria
ria de la Rá
Rádio
dio (19271932
(19271932)”,
)”,

 pp.819
 pp. 8191.
1.
187 Sobre as comunidades virtuais ver Rheingold, R. Virtual Communities, op.cit.
Lemos, A. Les Communuatés Virtuelles. in Sociétés, n°45, pp. 253261, Paris, Dunod,
1994.
188 Sobre a Escola de Paio Alto ver, Watzlawick, P. La realité de la realité.
Confusion, désinformation, communication. Paris, Seuil, 1978.
189 Maffesoli, M. O Tempo das Tribos... op.cit. p. 61.

102  | CIBERCU
CIBERCULTURA
LTURA,, TECNOLOGIA E VIDA SOCI
SOCIAL
AL NA
N A CULTURA CONTEMPOR
CON TEMPORÂNEA
ÂNEA •
 

190 Maffesoli, M. Au Creux des Apparences... op.cit.j2.45.


191 Maffeso
Maffesolili,, M. Au Creux des Apparence
Apparences..
s.... op.
op.cit
cit.. p. 286.
192 Maffesoli, M. Préface. in Sociétés, “Dossier Technosocialité”. n. 51, Paris,
GauthierVillars, 1996. p.l.
193 Maffesoli, M. La Transfiguration du Politique. La tribalisation du poiitique.
Paris, Grasset, 1992.
194 Maffesoli, M. La Transfiguration du Politique... op.cit. p. 255.
195 Maffesoli, M. Au Creux des Apparences... op.cit. p.160.
196
19 6NNeologism
eologismo o a partir de “cib
“ciber”
er”  tecno
tecnologias
logias do cciberesp
iberespaço,
aço, e socialidade  a
socialidade contemporânea.
197 Nesse processo, superase a natureza naquilo que Negroponte chama de subs-
tituição dos “átomos” pelos “bits”. Ver Negroponte, N. A Vida Digital. SP, Cia das Letras,
1995.
199 5. V
Ver
er também Manzini
Manzini,, E. ArtArtefact
efacts.
s. CG
CGP,
P, Pari
Paris,
s, 19 1991
91..
198 Ver o interessante livro, Coupland, D. Génération X. Paris, Robert Laffont,
1991.
199
19 9 Para o melhor
melhoree para o pior, é tto
om que fique claro. Os diversos ffundamundamentalism
entalismos
os
religiosos, os grupos neonazistas, as redes de pedofilia, entre outras formas de agregação
tribal, emocional, fazem parte também desta socialidade contemporânea.
200 Detord, G. La Société du Spectacle. op.cit.
201
201 Aqui ut utili
ilizo
zo o termo tecnocultura para identificar a cult cultura
ura técnica modema
 basseada na el
 ba elet
etro
rom
meecâ
câni
nica
ca e nas ide
ideoolo
log
gia
iass da mmo ode
dern
rnid
idaade. Ob
Obvi
viam
amen
entete,, nu
num
m ssen
enti
tido
do
lato, a cibercultura é uma tecnocultura. Esta tipologia, mesmo que insuficiente, pode nos
ajudar a discernir as diferenças entre as duas.
202 Morin, E. La M Méthode
éthode I. La Nature de Ia Nature. Pari Paris,
s, Seui
Seuil,
l, 19
1977
77..
203 Illich, I. La Convivialité. Paris, Seuil, 1973.
204 Maffesoli,
Maffesoli, M M.. Le Tem
Temps
ps des Tr
Tribibus
us..
...,
., op.cit. p.38.
205 Illich, I. La Convivialité. Paris,...•
Paris,...•
 
• AND RÉ LEMOS   103
ANDRÉ 103

P a r t e   III

------- • A c ib e r c u ltu r a
1

C apítulo  I
O N A S C I M E N T O D A C IIB
BER
RCCUL
LTTURA
A:: A M IIC
C R O --II N F O R
RMMÁT1
1CCA

Vamos situar o nascimento da cibercultura no surgimento da


microinformática na metade dos anos 70. A cibercultura, embora a
expressão dev
devaa muito à ciber
cibernética,
nética, não é, no sentido exato, correlata
corre lata
a esta ciência. Antes, a cibercultura surge como os impactos
socioculturais da microinformática. Mais do que uma questão
tecnológica, o que vai marcar a cibercultura não é somente o potenci ,
al das novas tecnologias, mas um a atitude
atitude que, no meio dos anos 70, j
influenciada pela contracult
contracultura
ura americana, acena contra o pod er '
• tecnocrático.
tecnocrático. O lema da microinformática será:será: “computadores
“comp utadores para
o povo” (“(“Compute
Computerr to the p
pee o p le”
le ”).
O advento
a dvento de tecnologi
tecnologiaa do computador pode ser s er expli
explicado
cado por
três condições históricas: as condições técnica, social e ideológica
^ (Breton2
(Breto n20
06). A inform ática será um
umaa ciência (basea
(b aseada
da na cibern
cibernética)
ética)
de produção, organização, armazenamento e distribuição
distribuição automatizada
autom atizada
da informação, agora traduzida em bits  (códigos binários tipo 0 e 1) 1).!
.!

A informática é, assim, uma forma de aliar


a liar o conhec
conhecimento
imento d
daa nature
nature
*za às formas
formas de funcionamento da sociedade moderna. C riase a pos-
sibilidade de leitura da realidade, traduzida pela linguagem digital,
autom atizando a infor
automatizando informação.
mação.
Com o vimos, o mundo da moderni
modernidade
dade é o mundo quantificado
através da matemática e das tecnologias analógicas. Aqui, a aproxi-
mação
ma ção ma
matemática,
temática, quantitat
quantitativa
iva e experi
experimental
mental da naturez
naturezaa é a base
do racionalismo analítico
analítico e dedutivo moderno, herdeiro d dee D escart
escartes.
es.
A organização
organizaç ão sóciopolítica e a adm administ
inistração
ração buro
burocrática
crática e racional
da vida social generalizouse.
generalizouse. A cibercultura tem origem n nesse
esse mu
mundo
ndo
hiperquantificado, hiperracionalista, que tenta integrar, ou melhor,
traduzir, e não mais representar a natureza através das tecnologias
digitai
digi tais.
s. Esta condição técn
técnica,
ica, da qual a cibercultura é sua coconsequên-
nsequên-
cia,
cia, é resultante do progresso
p rogresso da matem
matemática
ática e das ciências a ppartir
artir d
doo
meados do século XVII.
A formação
forma ção da microinformática devese ao desenvolvim ento
de domínios
do mínios ccientí
ientíficos
ficos a pa
parti
rtirr d
dos
os ano
anoss 40: a cibernética (1948
(1948),), aa••

• ANDRÉ
NDRÉ l e m o s ] 107
 

inteligência artificial (1956), a teoria da auto autoorganizaçã


organização o e de siste-
mas (dos anos 60), a tecnologia de comunicação de massa (rádio,
televisão e telefone) e a telemática
telemá tica (d (dee 19
1950
50).
). Os primeiros passos
p assos no
v tratamento automáautomático tico da informação foram dados entre 194 19400 e 196
960.
0.
Aqui os princípios essenciais e as inovações inovações estratégicas são influen influen- -
ciadas fortemente pela cibernética. O segundo, de 1960 a 1970, ca-
racterizase por sistemas centralizados ligados às universidades e à
 pee sq
 p squu is
isaa m il
ilit
itaa r (os m in
inic
icom
om puta
pu tado
dore
res)
s) e o te
terc
rcei
eiro
ro,, de
d e 19
1970
70 aos
a os n o s-
sos dias, com o surgimento dos microcomputadores e das redes
telemáticas. Breton para aí a í sua cronologi
cronologia. a. Poderiam
Poderiamos, os, para diferen-
difere n-
ciar a informatização da soci sociedade
edade em 70 desta que estamos vivendo
em 2000, propoproporr uma qu quarta
arta ffase
ase.. E sta seria
seria a que apaparece
arece na metade
dos anos 80, caracterizada pela popularização do ciberespaço e sua
inserção na cultura contemporânea. Se a terceira fase foi a do comp u-
tador pessoal (PC), a década de 90 (e o século
século que se aprox
aproxima)
ima) é a
fase do com putador conect ado  (CC).
conectado
Como
Com o ex
explica
plica Bret
Breton,
on, na primeir
primeiraa fase da informática o desen-
volvimento de computadores é influenciado fortemente pela teoria
cibernética (noções de realimentação, informação, programação,
regulação, controle, sistemas complexos). As máquinas cibernéticas
vão tentar imitar o cérebro humano e simular seres vivos (e
maquínicos). Este é o período metafísico da informática, segundo
Breton. A teoria cibernética de Wiener, em 1948, vai estabelecer a
relação entre a individuali
individualidade
dade humana
hu mana e as tr
trocas
ocas de inform
informação.
ação.
A informação
inform ação é, assi
assim,
m, a chave mais import
importante
ante para definir o ser
humano, até mesmo em seu sentido biológico (o DNA). Wiener vai
criar um modelo informacional onde a relação entre o homem e seu
ambiente se estabelece a partir de trocas de info
informação.
rmação. EEstas
stas de
determi-
termi-
nam sua
s ua evoluç
evolução
ão e sobrevivência. De acordo co
comm Wiener
Wiener,, toda a socie
, dade deve ser analisada a partir de ttrocas rocas de iinformação
nformação (a “difer ença que  
diferença
I f
 faaz d
dif
ifer
eren ça ” , como def
ença define
ine BaBateson
teson2 207) porque tod
todaa a vida (bio
(biológlógicaica e
social)) é estruturad
social estruturadaa a p partir
artir de processos de com comunicação.
unicação.
Pouco a pouco a cibernética vai se separar da informática. A
 pró
 pr ó x im a fa
fase
se va
vaii se
serr c a ra
racc te
teri
rizz ad
adaa pe
pelo
lo ac
acen
ento
to n a a u to
tomm a ti
tizz a ç ã o d a
informação e nos processos de transmissão. A informática será uma
técnica de manipulação de informação, ou afomação da informação,
enquanto a cibernética pretende ser um modo de reflexão sob os usos

das ferramentas de comunicação. Para Wiener


Wiener,, a meta da cibern
cibernética
ética é

108
108  CIBERCULTURA,
CIBERCULTURA, TECNOLOGIA E VIDA SOCIAL N A CULTURA CONT
CONTEMP
EMPORÂ
ORÂNEA
NEA •
 

criar uma técnica nos permitindo tratar problemas de regulação da


comunicação
com unicação e da inform
informação
ação em geral.
geral. Como afirm
afirmaa Breton, “a s e
 pa
 p a r a ç ã o en
entre
tre a iin
n fo
form
rm át
átic
ica
a e a c ib
ibee rn
rnét
étic
icaa pro
prove
vem
m , tal
talve
vez,
z, em p
paa r te  
das tomadas
toma das de decisão de Wien Wiener er hostis à instituição mili militar(.. .). O t  
tar(...).
 fu
 f u n d a d o r d a c ib
ibee rn
rnéé ti
ticc a f o i en
entã
tão
o m a rg
rgin
ina
a l e m re rela
laçã
ção
o a tu do que 
tud
tocava de pe rto ou de longe ao co comp
mputador
utador ((.....) (...)) um  
.).. Wiener f o i (...
dos prim eiros a se interrogar
interrogar sobre os desafios éticos e os u usos
sos soci
aiss desses nov
ai novosos dom
domíniosínios ”  ”2208.
Co m o explícito
Com ex plícito em “Cibern
“C ibernética
ética e Socieda
Soc iedade
de”2
”2009, Wiener
Wien er prevê
prev ê
uma estratégia de pilotagem informacional da vida social. A primeira
prim eira
informática
informática vai ser concebida como uma utopia, cujo objetivo é a trans-

formação do homem
desvinculase e da sociedade.
da compreensão sobre o Aque
invenção
é o homemde computadores
e sobre quais
seriam
seriam os impactos dessas máquinas
m áquinas em meio
m eio a sociedade, migrando
Ipara o desenvolvimento
desenvolvim ento de máquinas que tratarão (de formformaa mecâni
' ca) a informação
informaç ão  basicamente
basicamen te calcular e co
conta
ntar.
r. Não
N ão é à toa que a
máquina chamase Computer    aquele
aquele que conta
conta;; ou ordinateur — aquele
que põe ordem, automatiza, classifica. Ã informática segue, agora,
desvinculada da metafísica cibernética, sendo concebida dentro dos
ideais modernos de uma utopia tecnológica. Buscase a transforma-
ção e a administração racional da sociedade. sociedade. O modelom odelo será um  p  poo o l 
formado pela IBM, militares, militares, universidades e institutos
institutos de pesquisa.
Embora
Em bora a microinfor
microinformática
mática popular só só surgisse em m eados da
década de 70, precur precursores
sores do que viría a ser a revolução da informá-
ti
tica
ca pess
pessoaloal (e do ciberespaço) começavam
começa vam a pensarpen sar em tornar
torna r o com-
com -
 puu tad
 p ta d or mai
m aiss am
a m igáv
ig ável
el desd
de sdee os ano
a noss 40.
40 . Ne
N e sta
st a déc
dé c a d a o pro
p robb lem
le m a da
informação preocupa os cientistas. Vanevar Bush, coordenador de
 pes
 p esqu
quisisaa da
d a s forç
fo rças
as arm
ar m adas
ad as amer
am eric
ican
anasas,, em
e m m e io a umu m a pro
p rofu
fusãsãoo ddee
informação,
infor
os mação, inventa
cientistas uma meta
a armazenar máquina
e indexar (nunca realizada)
informações nos seus para ajudar
diversos
campos de pesquisp esquisa,
a, o “Memex”
“M emex” . Outros pioneiros,
pioneiros, como Engelbart e
Licklider
Lickl ider,, vão cunhar
cun har noções comocom o interface e ambiente
am biente de resposta.
Doug Engelbart e sua equipe do Stanford Researsh Institute (SRI)
invent
inv entaa a interface
interface WYSIWYG
WYSIW YG ( “w ha tyou see is wh atyo u g e t” -  “o
que você vê é o que você tem”), o processador de texto, o mouse m ouse e as
 jane
 ja nela
lass ccoo m os
o s men
m enus
us.. J.C.R
J. C.R.. Lick
L icklid
lider,
er, p esqu
es quis
isad
ador
or em psic
ps icoo log
lo g ia vai
levar adiante a idéia de interatividade
interatividade e propõe uma re relação
lação simbióti
simbióti
ca entre o homemhom em e o computador
computador..•

• ANDRÉ
ANDR É LEMOS
LEMOS | 109
 

Com o vemos, a perspecti


perspectiva
va de interat
interativi
ividade
dade foi discernida muito
cedo. Nos anos 60 um real impulso ffoioi dado pelas pesquisas de Ivan
Sutherland com o Sketchpad (1963), um software onde o usuário
atua diretamente sobre a tela do monitor com uma light pen.   Este
 pro
 p rog
g r a m a “ abriu o campo da computação gráfica e apresentou in
venções
vençõ es co
como
mo o cu
curs
rsor
or,, a
ass jan ela s (zooming, scrol
scrolli ng, clipping...) e 
ling,
reco
re co nh ec
ecim
im en to ge stu ai
ais”
s”2 210.  Em 1962, John Kemeny e Thomas
Kurtses
Kurt ses da Faculdade de Dart Darthmouth
hmouth  EUA, implantam linguagens
simples de programação como o DTSS ( D  Da a rt
rthh m o u th ti
timm e sh
shaa r in
ingg 
system ) e o BASIC. A interatividade
interatividade camcaminha,
inha, assi
assim,
m, para sist
sistemas
emas
mais simples e os primeiros computadores interativos
interativos nascem
nasce m nos anos
50 como o W hirlwind de Jay Forr Forrest
ester.
er. Est
Estee trat
tratava
ava a inform
informaçãoação em
(tempo real) e de forma m mais
ais interat
interativa
iva por meio de um monito monitor. r.
 N e ss
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ntoo do de
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sen
n v o lv
lvim
imee n to d a in
info
form
rm átic
át icaa u
umma o
ouu tr
traa
idéia forte começava
começa va a aparecer:
aparecer: a de comunidade eletrônica
eletrô nica ou virtu-
al.. Licklide
al L ickliderr e Tayl
Taylor,
or, percursores da microinformá
microinformática, tica, perceberam
percebera m
rapidamente, já em 1968 1968,, todo
todo o desafio de reunir pessoa pessoass através de
comunicações
comu nicações mediada
mediadass p or computador
computadores, es, o que seria concreti
concretizado
zado
mais tarde com a expansão da cibercultura através do ciberespaço.
Licklider e outros pesquisadores
pesquisadores contemporâneos encorajaram a for-
mação da rede ARPAN
ARPANET, ET, origem da at
atual
ual int
internet,
ernet, entrando eem
m op
ope-
e-
ração em 1969. Eles afirmavam: “o que as com unidades interativas
interativas  
online
online se rã o? Na maiori
maioria
a do
doss campos elas consist irão de membros  
consistirão
separados geograficament
geograficamente, e, às vezes agrupados em peq uen as agre
gações, às vezes trabalhando individualmente. Elas serão comuni
dades não de locali
localidade
dade comum, m as de inter esse com um ”211.
interesse
Em 191970
70,, Seym our Papert desenvolve a linguagem Lego com o

ferramen
dos estudos ta de en sino da do
e processos matem ática
ática e de particularme
pensamento, anál
análiseise e desenvolvimento
particular me nte na área da
 pee d a g o g ia e d a cco
 p o g n iç
içãã o . A la
lann Ka
Kay,
y, iin
n fl
fluu e n c ia
iaddo p o r P
Paa p e rt
rt,, ccrr ia no
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tório
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PARC RC d a X Xer erox
ox 212, o  R
 Ree se
sea a rc
rchh L e a r n in
ingg G rorou u p e   cujo
objetivo
objeti vo é integrar usuários di diversos
versos como crianças, m úsicos úsicos,, méd i-
cos, arquitetos. Os investigadores de PARC decidem construir um
com putador pessoal, o ALT ALTO, O, exper
experimental,
imental, funcionando em redes
locais (LAN , Ethernet). Em 197 1979,
9, havia já 1. 1.000
000 Altos, algumaalgumass
dezenas de impressoras e 25 terminais terminais Ethernet conectados em rede
local. Em 1976 1976,, Kay já pen pensava
sava nos com putadores po portáteis.
rtáteis.
Mas a m icroicroinformáti
informática ca será mai
maiss do que um conjunto de ino ino

110  I CIBERCULT
CIBERCULTUR