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Comunitarismo ou Liberalismo?

Gisela Gonçalves
Universidade da Beira Interior
Setembro de 1998

Índice nalista; os comunitaristas comungam da des-


confiança pela moral abstracta, têm simpa-
1 O justo e o bem 3 tia pela ética das virtudes e uma concepção
2 Indivíduo e comunidade 6 política com muito espaço para a história das
3 Dois conceitos de liberdade, estado e tradições.
de cidadania 10 Outra dificuldade na análise deste debate
4 Como Conclusão 13 encontra-se no facto, de não se tratarem de
duas doutrinas filosóficas opostas bem defi-
nidas, mas de duas "equipas"bastante hete-
No âmbito da filosofia política, a dis- rogéneas. Do lado Liberal encontramos au-
cussão entre liberalismo e comunitarismo tores como John Rawls, Ronald Dworkin,
apresenta, logo à partida, algumas dificulda- Thomas Nagel, Bruce Ackerman e Charles
desna sua dissecação. Embora a maior parte Larmore. Entre os Comunitaristas encon-
da literatura sobre este debate se tenha pro- tramos Alasdair MacIntyre, Charles Taylor,
duzido nos anos 80, a discussão está já muito Michael Sandel,Will Kymlicka, e Michael
enraizada no tempo, podendo-se mesmo ver Walzer, entre outros.
um retomar da confrontação entre o forma- Do elevado número de intervenientes neste
lismo kantiano e o romantismohegeliano. debate resulta a impossibilidade de se afir-
Enquanto os liberais se sentem herdeiros de mar que existe uma resposta liberal e uma
Locke, Hobbes, Stuart Mill, Kant, os co- resposta comunitarista ao problema do jul-
munitaristas, têm as suas raízes no aristote- gamento político e dos princípios que regem
lismo, em Hegel e na tradição republicana as práticas e as instituições políticas. Há
da Renascença (como por exemplo, Maquie- um continuum de respostas onde só os dois
vel e "O Príncipe", que mais não é do que extremos se encontram indiscutivelmente no
um tratado político onde se afirma que o campo liberal ou no campo comunitarista.
governante deve subordinar a sua conduta Daí poder falar-se em comunitarismo radi-
ao êxito político). Os primeiros partilham cal e comunitarismo moderado, assim como
a ideia de liberdade de consciência, res- em liberalismo radical (muito individualista)
peito pelos direitos do indivíduo e descon- e em liberalismo moderado (mais susceptí-
fiança frente à ameaça de um Estado pater-
2 Gisela Gonçalves

vel às condições culturais e sociais da vida fica do bem, ou mesmo, de uma hierarquia
política). de bens. São ÉticasPerfeccionistas ao afir-
Na realidade, as divergências teóricas não se marem que não podemos definir aquilo que
reflectem necessariamente no plano das po- é politicamente justo sem invocar uma con-
sições políticas concretas, já que a própria cepção substancial do bem, e Contextuali-
tradição liberal não é homogénea. Os li- stas (na justificação mais radicalmente co-
berais, na linha de Hobbes, defendem que munitarista), ao defenderem que não pode-
a política está desprovida de significação mos apontar uma concepção do bem sobre
moral, que o Estado não é mais do que uma base natural e abstracta mas apenas
um instrumento destinado a assegurar a co- por referência aos valores substanciais vei-
existência pacífica dos indivíduos numa de- culados pela tradição de uma comunidade
terminada sociedade contractualista. Já na histórica particular.
linha de Kant, consideram que o Estado tem No caso dos Liberais, encontramos Éticas
uma função moral autêntica e que transcende Procedimentaisque definem uma teoria mo-
as considerações pragmáticas ou naturalistas ral fundada segundo normas procedimentais,
determinantes para os anteriores. Aqui in- formais, desligadas de qualquer concepção
cluídos encontramos Rawls, Dworkin, Lar- específica do bem. São éticas que em vez de
more, para quem, a política não tem por obri- decidirem o que é que há que fazer, dizem de
gação responder às exigências de sobrevi- que forma decidiremos correctamente o que
vência mas sim garantir a cada um, e de ma- devemos fazer. Por esta razão são Anti-
neira igualitária, a liberdade de escolher e de -Perfeccionistas ou Neutralistas na justifi-
perseguir uma concepção da "vida boa", nos cação de regras que orientem a vida pública.
limites do respeito de uma capacidade equi- O debate entre Liberais e Comunitaristas foi
tativa por parte dos outros. despoletado sobretudo pela "Teoria da Jus-
Do lado oposto, o comunitarismo propõe que tiça" (1971) de John Rawls, que deu origem
o indivíduo seja considerado membro inse- a uma renovação espectacular da filosofia
rido numa comunidade política de iguais. E, política anglo-saxónica. Apesar do grande
para que exista um aperfeiçoamento da vida número de objecções e comentários em volta
política na democracia, se exiga uma coope- deste tema há, de certa forma, consenso entre
ração social, um empenhamento público e filósofos políticos das duas "equipas", so-
participação política, isto é, formas de com- bre os temas essenciais a tratar dentro desta
portamento que ajudem ao enobrecimento da discussão. Em primeiro lugar importa re-
vida comunitária. Consequentemente, o in- ferir duas oposições nevrálgicas: justiça e
divíduo tem obrigações éticas para com a fi- bem; indivíduo e comunidade. Num se-
nalidade social, deve viver para a sua comu- gundo ponto, será abordado o tema: Liber-
nidade organizada em torno de uma só ideia dade, Estado e Cidadania.
substantiva de bem comum. No intuito de melhor apresentar a discussão
Subjacente a estes princípios comunitaristas liberais/comunitaristas, o trabalho a seguir
encontramos ÉticasSubstanciais, que deter- apresentado, está estruturado sobre esses ele-
minam que uma teoria moral só se pode de- mentos fundamentais da querela e, além
senvolver a partir de uma concepção especí- disso, recorre-se do contributo do pensa-

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mento de alguns autores como, John Rawls em contrapartida, as éticas iluministas re-
e Alasdair MacIntyre, emblemático das duas jeitaram qualquer perspectiva teleológica da
correntes. natureza humana ao não aceitarem a ideia
do Homem como possuidor de uma essência
que definisse o seu verdadeiro fim. Enquanto
1 O justo e o bem
Aristóteles parte do Homem e deduz as virtu-
Um dos temas consensuais no debate libe- des necessárias para atingir um ideal de vida,
ralismo/comunitarismo incide no reconheci- Kant vai partir de uma regra racional que está
mento da importância fulcral da articulação acima do Homem como espécie e elabora
entre os conceitos de justo e de bem. uma ética que se reduz à descoberta e apli-
Se contextualizarmos a oposição filosófica cação das leis a priori do pensamento e do
entre os conceitos de justo e de bem verifi- raciocínio puro que devem reger o compor-
camos que se trata de um dos temas princi- tamento moral. Kant procura a forma uni-
pais da tradição filosófica ocidental. A afir- versal da lei moral fundamentada racional-
mação do justo sobre o bem traça a fronteira mente, sem referência a uma entidade supe-
entre os pensamentos morais antigos e mo- rior, exterior ou transcendental.
dernos: os antigos colocavam a questão de A noção moderna de dever foi uma ma-
qual o bem, que sendo objecto do meu desejo neira de libertar a ética de questões de con-
me levaria à melhor forma de vida (eudai- teúdo existencial demasiado subjectivas (no
monia) 1 ; os modernos preocupam-se com a sentido de se tomar por orientação a felici-
questão do justo, isto é, como é que eu devo dade ou a realização individual) e encontrar
agir, já não em relação ao meu bem, à minha um Bem como um princípio formal, que uma
felicidade, mas em relação às condições que vez aplicado seria o critério de valor moral
tornam possível a procura do bem, conduzida objectivo de toda e qualquer acção - a gene-
por cada indivíduo (dever). ralização do conceito de Dever.
Se as éticas pré-iluministas tinham como Neste sentido, a afirmação da "Prioridade
pressuposto o raciocínio que consiste em de- dojusto sobre o bem" - tese central do pensa-
duzir o telos a partir da natureza humana, mento ético moderno e contemporâneo - tem
1
vantagens para os pós-kantianos: oferece
A ética antiga dizia respeito à questão acerca da
verdadeira felicidade humana, promovida pela prática uma justificação da moral mais sólida do que
das virtudes. Por exemplo, para Aristóteles a melhor a justificação antiga, porque não depende de
forma de vida - theoria - é a actividade racional que pressupostos empíricos; parece mais aplicá-
consiste na contemplação de verdades eternas (vida vel num mundo onde a obrigação moral deve
intelectual ou contemplativa); já para a Ética Cristã a
coabitar com uma pluralidade crescente de
virtude máxima é o amor pelo próximo. A ética ari-
stotélica formula uma definição de virtude segundo concepções do bem. Além disso, a atenção
uma ordem eterna do cosmos, e de acordo com o lu- deslocou-se das concepções substanciais do
gar que o homem ocupa nesse cosmos. Ainda que bem em direcção às noções de autonomia
de modo diverso, o cristianismo pressupõe também a moral e de liberdade individual. Esta nova
existência de uma ordem superior, de uma entidade
forma de colocar a questão moral implica
transcendente - Deus - que constitui o princípio e a
fonte das normas éticas. uma distinção de princípio entre a moral pes-
soal (indivíduo) e a esfera do político (colec-

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tivo). é uma condição para poder fazer uma es-


Tendo presente esta contextualização im- colha entre diferentes concepções de bem.
porta realçar que na articulação entre os con- Esta segunda interpretação conduz à sepa-
ceitos de justo e de bem se tornou um lugar ração entre teorias antiperfeccionistas e teo-
comum afirmar que os Liberais defendem a rias perfeccionistas.
prioridade do "justo sobre o bem" (posição Nesta dupla dicotomia,enquadramos a "Teo-
deontológica) e que os Comunitaristas de- ria da Justiça" de Rawls numa teoria deon-
fendem a prioridade do "bem sobre o justo" tológica e numa ética antiperfeccionista -
(posição teleológica). traços característicos de qualquer teoria libe-
O debate actual a propósito do justo e do ral.
bem consiste, em parte, na questão de se este
deslocamento do interesse filosófico (do bem 1.1 John Rawls e a Teoria da
para o justo) foi um progresso ou um erro.
Os liberais optam unanimemente em favor Justiça
do progresso, já a maior parte dos comuni- Filósofos contemporâneos como Jurgen Ha-
taristas, têm uma atitude muito crítica em re- bermas e John Rawls prosseguem, explicit-
lação a esta deslocação em direccção ao ju- amente, a reactivação do pensamento ilumi-
sto. nista. Mostram-se herdeiros de Kant na in-
Segundo Michael Sandel 2 , a prioridade do tenção de determinar os critérios pelos quais
justo sobre o bem pode ser compreendida seja possível distinguir o racional ou ético do
de duas formas diferentes: ponto de vista irracional e não ético.
moral e epistemológico. Do ponto de vista Habermas encontrou o critério ético nas
moral "Prioridadedo justo sobre o bem" si- condições de possibilidade do que designa
gnifica que os princípios de justiça limitam “acção comunicativa”. Sumariamente a tese
as concepções de bem que os indivíduos é a seguinte. Tendo em conta que os hu-
podem escolher e colocar em prática, por- manos somos seres de fala e que a nossa
que quando os valores escolhidos entram acção mais específica é a comunicação, essa
em conflito com os princípios de justiça, mesma ideia de comunicação que nos consti-
são estes que se devem respeitar. Encon- tui encerra os critérios de validade da própria
tramos aqui a oposição, como já vimos an- comunicação e dos seus resultados. Ao falar
tes, entre teorias deontológicas e teleológi- e discutir sobre questões normativas, que são
cas. Do ponto de vista epistemológico a as que nos separam, expressamos as nos-
"prioridade dojusto sobre o bem" denota que sas posições contrárias. Mas, se dialogamos
os princípios de justiça não podem ser es- é porque procuramos o consenso. Não o
colhidos com base numa concepção especí- consenso alcançado numa acção comunica-
fica do bem, mas que pelo contrário, o facto tiva em que a relação entre os falantes não
de escolher princípios de justiça específicos é simétrica mas desigual (relação de domí-
2
nio de uns sobre os outros) mas sim, o con-
André Berten, Pablo da Siveira e Hervé Pourtois,
Libéraux et Communautariens, Presses Universitaires
senso alcançado numa comunicação justa e
de France, 1197, p. 29-32. simétrica - acordo que merece ser qualifi-
cado de racional.

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A ideia de uma comunicação perfeita a fundação da sociedade como produto de um


que Habermas designa, “situação ideal de acordo ideal entre os seus membros sobre
diálogo” - é uma ideia inata em nós, intrín- o modo "justo"de viver em comum. Seria
seca à nossa realidade comunicativa ou ra- uma experiência imaginária, em que os in-
cional, já que é a linguagem o que nos dis- divíduos escolhem sob o "véu da ignorân-
tingue enquanto racionais. Assim, quando cia", isto é, no desconhecimento dos papéis
discutimos sobre questões normativas, pro- e hipóteses que lhes podem estar reservados,
jectamos - enquanto ideia reguladora - essa garantindo assim opções em função apenas
situação ideal que nos servirá de critério para de considerações gerais sobre a sociedade e
julgar as situações reais em que se realiza de não em função de interesses particulares e
facto a discussão. egoístas.
Para Habermas, a “situação ideal de Rawls apresenta uma teoria semelhante à de
diálogo” é o critério que nos há-de permi- Habermas, na medida em que simula uma
tir ajuizar e avaliar os acordos fáticos. Um "posição originária"da qual devem proceder
critério que não proporciona qualquer con- os princípios fundamentais da justiça. Esta
teúdo sobre os acordos que devem ser esta- posição consiste na simulação da imparcia-
belecidos, mas que apenas se limita a propor lidade ao ser representada por uma comuni-
um procedimento: se são respeitados os re- dade de seres livres e com igualdade de opor-
quesitos da comunicação justa, os resultados tunidades. Da "posição originária"nascem
racionais resultarão por acréscimo e a vali- os três princípios da justiça: liberdade,
dade dos mesmos está garantida. igualdade de oportunidades e princípio da di-
A Teoria da Justiça de Rawls também é pro- ferença (à luz do qual as desigualdades só
cedimental porque, como é visível, ele tenta serão justificadas, quando e na medida em
reencontrar um consenso, uma base univer- que propiciam a melhoria da situação dos
salmente aceite, aonde escorar a legitimação mais desfavorecidos).
dos valores e normas, de forma a tornar viá- Além disso, Rawls também afirma que com
vel a fundamentação racional da lei. a sua teoria pretende fixar as condições ge-
Os principais pressupostos de base da sua rais de perseguição do bem, mas não se
teoria são: 1) A raridade dos recursos - o ocupa da avaliação de conceitos particula-
facto de que a totalidade de recursos a distri- res de bem nem do uso que cada indivíduo
buir é menor do que a procura; 2) O reconhe- pode fazer dos seus recursos legítimos (é
cimento do "facto do pluralismo- a existên- anti-perfeccionista).
cia de um desacordo profundo e irredutível A teoria de Rawls foi alvo de muitas
ao nível das concepções do bem defendida objecções, na maior parte comunitaristas.
pelos indivíduos; e 3) O reconhecimento de Além de ser contestado o carácter genera-
todos os membros da sociedade como indiví- lista dos seus princípios de justiça é também
duos racionais e razoáveis - capazes de for- criticado o facto de se tratar de uma teo-
mular concepções do bem e de desenvolver ria da justiça que não pode honrar as suas
um "sentido de justiça". próprias pretensões porque está ligada a uma
Com base nestes pressupostos Rawls recu- concepção implícita de bem. Esta concepção
pera a teoria moderna (contractualista) da sobressai quando Rawls se pronuncia a favor

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de uma teoria que concebe o bem de cada ciológica, porque a sociedade liberal induz
indivíduo como o exercício da livre escolha os membros da sua sociedade a uma atitude
racional. Contrariando esta perspectiva, o individualista, egocêntrica que tem efeitos
teórico M. Sandel 3 , afirma que o bem nunca destruturantes sobre a identidade individual
é objecto de uma escolha mas que reside e do grupo.
no pleno desenvolvimento de certos aspec-
tos que são constitutivos da nossa identidade 2.1 O sujeito descomprometido e
(familiares, religiosos,etc).
Por isso, o bem nunca pode ser objecto de atomatizado do Liberalismo
uma escolha racional mas sim objecto de A crítica antropológica e normativa estão in-
uma autodescoberta. timamente ligadas e recaem sobre o sujeito
Toda esta polémica conduz-nos, necessaria- descomprometido e atomatizado do Libera-
mente, a outra questão, não menos import- lismo.
ante, sobre a forma como serão desenvolvi- Segundo os Liberais, os indivíduos não
das as concepções do bem, inseridas numa são definidos pelas suas interdependências -
comunidade democrática. económicas, sociais, éticas, sexuais, cultu-
rais, políticas ou religiosas. Os indivíduos
são livres de colocar em questão e de rejei-
2 Indivíduo e comunidade
tar qualquer forma de participação em gru-
O debate contemporâneo entre filósofos libe- pos, instituições ou actividades particulares.
rais e comunitaristas parece polarizar-se em São livres de questionar as suas convicções,
torno de outra, não menos importante, opo- mesmo as mais profundas.
sição: indivíduo e comunidade. Charles Taylor e MacIntyre são alguns dos
As teorias políticas liberais são inseparáveis filósofos a apontar que os teóricos liberais
do individualismo moderno ao valorizarem se apoiam numa antropologia fraca, apre-
o indivíduo em relação ao grupo social e por sentado o ser humano como um ser desen-
se oporem às visões colectivistas da política carnado, um sujeito sem raízes, descompro-
que tendem a valorizar o grupo social e não metido, mas capaz de escolher soberana-
o indivíduo. mente os fins e os valores que orientam a sua
Este facto, conduziu a críticas ferozes por existência. Esta concepção é, segundo eles,
parte dos filósofos comunitaristas tecendo irrealista porque a liberdade e a identidade
uma questão bastante complexa, onde se do homem não são características ontológi-
pode encontrar pelo menos três dimensões, cas inatas à pessoa.
ou perspectivas, de abordagem: antropoló- Pelo contrário, aquilo que dá sentido à
gica, onde se critica à concepção liberal de existência, são os conteúdos substanciais
um sujeito descomprometido e atomizado; (daí o comunitarismo defender uma ética
normativa, ao se questionar o princípio mo- perfeccionista) que tecem a história própria
ral sobre o qual se rege a moral política - de cada um. Estes conteúdos já estão ins-
valorização da liberdade individual; e, so- critos na cultura, precedem o indivíduo, por
3
isso ele é pré-determinado na forma de defi-
Ibid., p. 35.
nir a sua identidade e exercer a sua liberdade.

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A uma antropologia descritiva corresponde metafísico e salvar a natureza humana, não


uma antropologia normativa: os fins que ori- a interpretando no sentido cosmológico mas
entam a nossa existência não são produto no sentido social. Estes dois sentidos advêm
duma escolha arbitrária e soberana mas o da tensão interna entre as definições aristoté-
produto duma auto-interpretação contextua- licas: animal racional (cuja maior virtude é a
lizada da nossa situação num horizonte so- contemplativa) e animal político, para o qual
ciocultural que nos precede. É esta auto- a vida em comunidade e em harmonia é atin-
interpretação que dá consistência e densi- gida através da amizade (a virtude que liga
dade ao sujeito. Ao afirmarem que o in- os indivíduos). A tese central é que esta di-
dividualismo é inseparável da socialização, mensão sócio-política é recuperável moder-
os comunitaristas pretendem mostrar que o namente, uma vez que as virtudes se impõe
indivíduo livre da concepção liberal é ele por relação à vivência social, à vida em co-
mesmo produto duma forma específica de munidade.
socialização. Realçando os valores comunitários, Ma-
Segundo os comunitaristas a atomização do cIntyre extrai de Aristóteles um elemento
social tem consequências duplas. Por um histórico-narrativo ou semântico: a vida hu-
lado, empobrece e enfraquece o tecido cul- mana adquire sentido quando ganha a forma
tural ao destruir as identidades culturais in- de uma narrativa de carácter histórico ou
compatíveis com o individualismo liberal. E, globalizante, e não uma forma meramente
a diversidade cultural é uma condição ne- atomística. A obtenção da unidade histórico-
cessária para que os indivíduos possam es- narrativa sofre de duas contrariedades mo-
colher livremente uma concepção de "vida dernas: uma de carácter social e natureza
boa". Por outro lado, a atomização do so- eminentemente prática, inexistente na po-
cial demonstra-se destruturante para a ordem lis clássica, que deriva da fragmentação da
social porque suscita um déficit de legitimi- vida em esferas duais (público/privado; tra-
dade. balho/lazer) - o comportamento exigido ao
Ao individualismo liberal, os comunitaristas indivíduo numa esfera é incompatível, ou
contrapõem as formas de socialização carac- melhor, não tem ligação com as exigências
terísticas da sociedade grega ou do antigo re- sociais das outras esferas; um outro obstá-
gime. É o caso de Alasdair MacIntyre, autor culo, de índole teórica, tem origem na filo-
de "After Virtue - A Study in Moral Theory" sofia analítica e na análise atomística da ra-
4
, onde procura recuperar a teoria social e zão, bem como no existencialismo, nomea-
política de Aristóteles. damente de Sartre, no qual se faz uma ne-
Este neo-aristotélico tem por objectivo gação da unidade da vida imediata.
modernizar a ética aristotélica, recusando, Uma outra visão interessante deste problema
todavia, o controverso conceito de Biologia (indivíduo/comunidade), próxima do comu-
metafísica 5 . Pretende minimizar o elemento nitarismo, pertence ao filósofo canadiano
4
Alasdair MacIntyre, After Virtue - A Study in Mo- Charles Taylor. Taylor nota que a controvér-
ral Theory, Duckworth, London, 2a edição, 1985. estático e fixo onde as gerações humanas ocupam um
5
O modelo metafísico de justificação da ética ari- lugar determinado.
stotélico funda-se no pressuposto de um universo

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sia liberais/comunitaristas não tem apenas também no plano colectivo ou político: pelo
um lado normativo mas também ontológico: constrangimento da técnica, cuja dinâmica
não se pode elaborar uma concepção política própria possui à partida um elemento impo-
de justiça sem passar pela subtileza prévia sitivo, o agir comum encontra-se inevitavel-
duma reflexão ontológica sobre a condição mente limitado e determinado. É que todas
do homem e o seu estar em sociedade. Não as possíveis acções são obrigadas a passar
porque Taylor considere que as questões mo- pelo filtro da racionalidade tecnológica, que
rais e políticas se reduzem a questões ontoló- imprime a sua marca na própria potenciali-
gicas, mas porque a condição ontológica do dade do agir.
homem delimita o campo de posições que é O individualismo tira força à vida em co-
possível ter no plano normativo das teorias munidade, facto que produz um desinteresse
políticas. pelas questões do político e da liberdade.
Segundo Taylor a sociedade democrática ac- Preocupamo-nos cada vez menos com a par-
tual enferma de três males éticos: o indivi- ticipação pública e ficamos "em nossa casa"a
dualismo, o desencantodo mundo, relacio- desfrutar dos prazeres da vida privada, prin-
nado com uma racionalidade tecnológica e cipalmente num tempo em que os Estado nos
instrumental e, por último, uma perda da li- fornece os meios para o fazer.
berdade. Taylor encontra a resposta aos males mo-
O individualismo moral vigente nas socie- dernos na Ética daAutenticidade e que deu
dades modernas teve como efeitos civiliza- o nome à sua obra "TheEthics of Authenti-
cionais, por um lado, a recusa e a inviabili- city"6 . A definição ética de Taylor não se en-
zação de qualquer ordem cósmica e, por ou- quadra no sistema bipolar - neo-aristotélicos
tro, um egoísmo social crescente. O indivi- versus neo-kantianos - mas opera uma sín-
dualismo mostra que ninguém está disposto tese de diferentes elementos das duas tra-
a sacrificar-se em nome de valores presumi- dições antagónicas. Tal como Aristóteles
velmente sagrados ou transcendentes. não define uma norma, mas um ideal de vida.
Directamente associado a este aspecto, um De Kant prolonga uma tentativa de inver-
modo de ver economicista, científico, calcu- são da fundamentação biológico-metafísica
lista proliferou no domínio das relações hu- da ética.
manas, favorecendo a ideia do outro como O ideal de autenticidade define-se por valo-
um puro meio na prossecução de um fim par- res como a sinceridade e a genuinidade pes-
ticular. Esta utilização excessiva ou mesmo soal do indivíduo para consigo mesmo (rela-
exclusiva da razão instrumental obriga a que 6
Charles Taylor, The Ethics of Authenthicity, Har-
tudo seja definido por critérios de eficiência vard University Press. Este livro tem como referência
e de lucro, numa lógica de meios e de fins, ou fundamento um outro, do mesmo autor, mas mais
numa tentativa de rentabilização do esforço e vasto e datado de 1989 que se denomina "Sources of
de maximização do proveito - os indivíduos the Self ", Cambridge University Press, London. Tay-
lor remete-nos diversas vezes para ele ao longo da lei-
constituem a própria matéria da acção.
tura do "The ethics of Authenticity", alegando falta de
O terceiro mal da modernidade é consequên- espaço e por certos assuntos já lá terem sido tratados
cia dos dois primeiros. A perda da liberdade de uma forma mais aprofundada.
verifica-se não só ao nível individual, mas

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tivismo moderno), mas não dispensa um des- não é objecto de uma escolha ou de um julga-
tinatário - o outro. O carácter dialógico da mento soberano, mas de uma descoberta de
existência, essencial à cultura democrática, si. As sociedades modernas dão a possibili-
exige que do outro advenha o reconheci- dade ao indivíduo de constituir a sua própria
mento e a confirmação da identidade indi- identidade de maneira multiforme e de defi-
vidual. É importante a relação e o recon- nir aquilo que é importante para ele.
hecimento intersubjectivo para a construção Pelo contrário, do ponto de vista liberal,
da minha identidade porque o meu julga- é importante garantir a cada um a possi-
mento de valores e do valor da minha própria bilidade efectiva de possuir um julgamento
existência só tem sentido enquanto objecto crítico sobre os valores e as finalidades que
de reconhecimento social, de confirmação devem orientar a sua acção, baseado num in-
social. dividualismo onde prevaleça o justo.
A Ética da Autenticidade não aspira à ne-
gação do individualismo, pelo contrário, 2.2 O Liberalismo é viável
nasce da pressuposição da livre escolha
como resposta e resolução das doenças mo- socialmente? Uma crítica
dernas. Só que para Taylor, e aqui segue a sociológica.
mesma linha de MacIntyre, esta opção in- A crítica comunitarista ao individualismo li-
dividual faz-se sempre num horizonte de si- beral também é travada no plano sociológico.
gnificação, pré-estabelecido, efectua-se por Esta crítica incide na percepção individua-
relação a um amplo leque de valores pré- lista do laço social subjacente à teorias libe-
existentes 7 . O liberalismo não é negado in- rais de inspiração rawlsiana. Porque, como
serido num horizonte de significação, é ilustrado pela ideia de uma "posiçãoori-
A livre escolha possibilita a constituição de ginal", o Liberalismo de Rawls inscreve-se
uma identidade individual que é indissocia- na tradição contractualista (Hobbes, Locke):
vel dos quadros axiológicos de referência no a sociedade é uma associação resultante de
quadro prévio das significações. O indívi- um acordo negociado entre os indivíduos; o
duo é um "self"capaz de responder por ele Estado é a garantia, o fiador do contracto
mesmo à questão "Quem sou eu?", em ter- social - o dispositivo institucional que tem
mos que não são exclusivamente universais por função assegurar a coexistência equita-
e pré-construídos. tiva dos interesses privados dos seus indiví-
Taylor e MacIntyre não defendem a tese de duos.
que o contexto sócio-cultural determina a A crítica comunitarista sublinha que uma or-
pessoa ao ponto de que será condenada a dem social não se pode estabelecer, estrut-
reproduzi-lo sem variação. É sempre possí- urar e estabilizar baseada num encontro de
vel a emergência de sentido em novos valo- egoísmos. Já Durkheim dizia que a simp-
res. Mas a orientação dada a uma existência les associação de interesses individuais não
7
Este raciocínio é elaborado sobretudo, no pode criar ordem social. A ordem social só
capítulo IV - "Horizontes Inescapáveis- de "The irá subsistir de maneira durável se se apoiar
Ethics of authenticity"de Charles Taylor. no reconhecimento pelos membros do grupo

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social, de uma normatividade social que lhes 2) A sociedade liberal concebida por Rawls
preexiste. O contractualismo não dá conta do ou Larmore não corresponde à imagem dada
sentido de obrigatoriedade das normas que pela crítica comunitarista: uma associação
estão na base do laço social, porque entende produzida por um contracto entre indivíduos
que o Estado nasce de um acordo que os con- que, de forma egoísta, apenas procuram no
traentes podem dissolver quando lhes con- pacto social, a maneira de maximizar a satis-
vém. fação dos seus interesses privados (linha de
Para os Comunitaristas, um Estado Liberal Hobbes).
- simples instrumento de garantia dos direi- Contra Hobbes querem dar ao pacto social
tos, desligado de qualquer forma de con- uma significação moral: a sua legitimação
forto pessoal ou comunitário - não é viável repousa no reconhecimento pelos cidadãos,
socialmente e é destrutor de identidades in- de que ele assegura uma possibilidade má-
dividuais e colectivas. Os indivíduos são xima e equitativa para cada um definir e rea-
atomizados, apercebem-se dos concidadãos lizar a sua concepção de "vida boa".
como seres que lhes fazem obstáculo ou que Para Rawls, sociedade Liberal não está li-
estão ao serviço dos seus projectos privados. gada pelas considerações relativas ao inter-
Rawls, nos textos mais recentes, dá resposta esse particular de cada um, mas pelas consi-
a esta objecção sociológica 8 : derações morais partilhadas relativamente à
1) O Liberalismo político não pressupõe liberdade igualitária de todos. Há uma co-
que qualquer forma de socialização deve to- munidade política onde os cidadãos partil-
mar uma forma contratual e livre de qual- ham uma mesma finalidade e uma mesma
quer referência a valores comunitários. A concepção de bem público. E sublinha
sua ambição limita-se a propôr um modelo mesmo, que uma sociedade Liberal bem or-
institucional para uma comunidade política denada não é apenas uma sociedade onde
democrática - comunidade que não exclui as instituições de base são conformes a cer-
a existência no seu seio de formas comu- tos princípios de justiça, mas uma sociedade
nitárias de sociabilidade (família, religião, onde esses princípios são publicamente justi-
etc.). ficados pelos cidadãos.
Note-se que a concessão de Rawls ao comu- Em suma, a ruptura dos liberais contemporâ-
nitarismo não é total porque defende que os neos com um egoísmo sociológico à Hobbes
laços de pertença repousam sobre a adesão não implica uma renúncia ao individualismo
voluntária. Mas, a adesão voluntária é pro- normativo.
blemática numa análise sociológica - todos
nascemos, somos socializados e vivemos no
3 Dois conceitos de liberdade,
seio de grupos sociais particulares (família,
nação, igreja, comunidade étnica) na qual estado e de cidadania
não escolhemos deliberadamente entrar. É Tanto do lado dos Liberais como dos Comu-
um facto social incontornável. nitaristas a Liberdade éelevada à classe de
8
André Berten, Pablo da Siveira e Hervé Pourtois, princípio essencial. Ambas as partes sentem
Libéraux et Communautariens, op.cit., pp. 244-248. que uma sociedade só é justa se os membros

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Comunitarismo ou Liberalismo? 11

que a compõe aí vivem livremente e, se a fi- de justiça que lhe permita reconhecer como
nalidade da actividade política for realizar as politicamente aceitável uma decisão, mesmo
condições nas quais essa liberdade é possí- que ela não encontre lugar no horizonte da
vel. sua moral pessoal.
Enquanto para o senso comum, Liberdade Os Liberais (concepção negativa da liber-
significa livre arbítrio, a capacidade e pos- dade) reconhecem uma significação moral às
sibilidade de fazer aquilo que se quer, per- instituições políticas no sentido de que a sua
spectivada por filósofos políticos, podemos única finalidade legítima é assegurar a todos
encontrar variadas interpretações. Como a os membros duma sociedade uma máxima
de Isaiah Berlin 9 que classifica duas con- autonomia e igualdade para todos - princípio
cepções polares de liberdade: concepção ne- individualista. Isto implica que nas socie-
gativa e concepção positiva de liberdade. dades modernas pluralistas o Estado Liberal
No primeiro caso, a liberdade é pensada não pode ser "perfeccionista- promover uma
como uma libertação relativamente a qual- concepção moral ou religiosa particular ou
quer coacção social; no segundo, a liberdade impor aos cidadãos comportamentos ditados
designa a auto-realização do indivíduo, que por essa concepção. O Estado Liberal deve
só se pode realizar num contexto social que sim, ser neutro nas suas finalidades por re-
a promove. lação a qualquer concepção de bem.
É esta oposição que divide as concepções Os Comunitaristas (concepção positiva de li-
normativas liberais e comunitaristas sobre o berdade)julgam redutora esta concepção an-
papel do Estado nas sociedade modernas. tiperfeccionista e individualista do Estado.
A reflexão dos filósofos liberais contemporâ- Para eles, um Estado Liberal - simples in-
neos parte duma constatação empírica: as so- strumento de garantia dos direitos, desligado
ciedades contemporâneas são caracterizadas de qualquer forma de conforto pessoal ou
por um persistente pluralismo axiológico e comunitário - não é viável socialmente e é
qualquer tentativa para o esquecer apenas irá destrutor de identidades individuais e colec-
violar o princípio de igualdade (tão respei- tivas. Fazer do princípio de autodetermi-
tado pelos liberais). nação do sujeito o princípio moral exclu-
Neste contexto, o poder político deve ser sivo sobre o qual devem repousar as práti-
neutro nas finalidades e justificações. O pa- cas e as instituições políticas só pode desem-
pel do Estado deve limitar-se a garantir o bocar na rejeição de todo o valor comum e
respeito dos direitos individuais e dos prin- provocar a desagregação do sentimento de
cípios de justiça que derivam do imperativo pertença política. É em si mesmo um prin-
de igual liberdade para todos. Isto implica cípio contraditório que desemboca no nii-
que o poder de coacção exercido pelo Estado lismo: uma sociedade onde as finalidades da
deve poder ser reconhecido como legítimo nossa acção só recebem valor duma escolha
por aqueles sobre os quais o poder é exer- individual será uma sociedade onde a "von-
cido.O estado Liberal deve conseguir susci- tade de poder"dominará as relações sociais
tar junto do cidadão um sentido específico e onde todo o sentido moral se reduz a uma
9
auto-afirmação do sujeito.
Ibid., p. 237.
Segundo os Comunitaristas, a liberdade do

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12 Gisela Gonçalves

homem não lhe é naturalmente dada como temente, se uma comunidade política quer
crêem os liberais: ela é conquistada e de- devotar um respeito igual a todos os seus
senvolvida. O homem só pode atingir a sua membros, ela não pode favorecer uma con-
liberdade autenticamente através de certos cepção particular de "vida boa".
modos de vida: virtuosos e não alienados. Este raciocínio conduz à defesa de um
O modo de vida autêntico varia de autor Estado neutro.A questão da Neutralidade de
para autor, correspondendo a diferentes for- Estado pode seguir uma posição liberal clás-
mas de cidadania. No caso de MacIntyre, sica (como B.Ackerman), que não se preo-
há a defesa de uma interpretação comunita- cupa com a questão do bem e coloca-se
rista stricto sensu. Segundo este autor, a par- a favor dum Estado neutro, abstendo-se de
ticipação na vida da comunidade, a cidada- qualquer intervenção nas concepções de bem
nia, passa pela adopção dos modos de vida desenvolvidas pelos indivíduos. Mas tam-
tradicionalmente valorizados por ela - im- bém pode originar a posição liberal mo-
plica um Estado paternalista: uma comuni- derna (como J.Rawls), que reconhece a im-
dade política com o objectivo de assegurar a portância, para uma sociedade justa e está-
cada um, um livre desenvolvimento, promo- vel, de uma cultura pública partilhada, in-
vendo os valores da tradição e encorajando cluindo certas ideias de bem (por exemplo,
os modos de vida que realizam esses valores. o Estado pode encorajar a prática de certas
A valorização da tradição implica da parte virtudes cívicas).
do cidadão, uma certa obediência aos valo- Em suma, uma das discussões mais premen-
res por ela veiculados e às suas instituições. tes na discussão ética da democracia é a da
Uma outra interpretação possível é a de participação dos membros de cada comuni-
Taylor, com uma interpretação do "huma- dade na sua vida pública. A concepção li-
nismo cívico"porque pede emprestado os te- beral defende que “uma vez que os cida-
mas clássicos do humanismo cívico (teve a dão se vejam a si mesmos como pessoas li-
sua maior expressão no pensamento político vres e iguais, reconhecerão que para reali-
de Rousseau). A inscrição do indivíduo na zarem as suas diferentes convicções de bem
vida da comunidade passa pela sua parti- necessitam dos mesmos bens primários - ou
cipação activa na vida política da cidade. seja, os mesmos direitos básicos, liberda-
Senão formos cidadãos não somos homens des e oportunidades - bem como dos mes-
verdadeiros. Encontramos aqui uma valori- mos meios destinados a todos os fins, como
zação das virtudes republicanas clássicas e a o rendimento, a riqueza e as mesmas bases
participação política directa. A liberdade do sociais de auto-estima. (...) Segundo esta
homem é antes de tudo uma liberdade púb- visão liberal, a cidadania é a capacidade de
lica. cada pessoa formar, rever e realizar racio-
O humanismo cívico não é bem visto aos ol- nalmente a sua definição de bem.” 10 Em
hos dos liberais porque se baseia numa com- oposição a esta teoria surgem os comunitari-
preensão perfeccionista da política. Os Libe- stas, apelando a um ressurgir da concepção
rais defendem que, se as sociedades moder- 10
Chantal Mouffe, O Regresso do Político, Gra-
nas são pluralistas - são partilhadas por dife- diva, Lisboa, 1996, p. 84.
rentes concepções de "vida boa- consequen-

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Comunitarismo ou Liberalismo? 13

republicana cívica da política, onde a noção sempre, do meu ponto de vista, a melhor
de bem comum está bem presente. Essa forma de perceber fenómenos reais, e de
noção deverá ser anterior e independente das propor novas soluções para uma democracia,
vontades e desejos individuais. que por vezes, está tão longe de conceitos
éticos.
4 Como Conclusão
A filosofia política e a sua ética têm uma
tradição importantíssima no pensamento
sobre a vida pública da Humanidade. As
várias teorias filosóficas sobre a política,
o Estado, formas de governo, formas de
participação e cidadania, são construídas
com base numa Ética política. É da distinção
entre Público e Privado, Bem e Mal, Justo
e Injusto que se constróem os quadros para
uma teorização da vida política.
Aos filósofos políticos cabe a tarefa de
desenhar esquemas conceptuais do poder e
das instituições políticas, das relações entre
o Estado e a sociedade, numa perspectiva
normativa. Ao longo de todo o trabalho foi
demonstrado como pode caber à filosofia
comunitarista e à filosofia liberal tal tarefa,
nomeadamente na discussão das dimensões
éticas das sociedades democráticas moder-
nas.
A articulação entre liberalismo e comuni-
tarismo supõe variadas posições. Os mais
liberais tendem a valorizar a liberdade e os
direitos individuais, os mais democratas a
igualdade e a participação. Estamos perante
uma luta permanente dentro do regime de
democracia. Enquanto o liberalismo puxa
para a exacerbação das diferenças e da
desencarnação, já o comunitarismo puxa
para uma homogeneização e para poderosas
formas de união.
Ora esta articulação e tensão pode ser
vista como o principal capital simbólico da
democracia. A discussão política foi, e será

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