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A Vida das

Abelhas
Tradução de M ARIA JOSÉ SETTE RIBAS
Revista por MONTEIRO LOBATO

Direitos reservados da Errvprêsa Editora “ O Pensamento” htda.

.•
EMPRÊSA EDITÔRA «O P E N S A M E N T O ” L t d a .
Ru a R odrigo S ilv a , 171 e P ra ça A lm eid a J u n ior, 100 - S. P a u lo
LIVRO I

NA E N T R A D A DO CORTIÇO

i
Não pretendo escrever vim tratado de api-
cultura. Todos os paises civilisados os possuem
tão bons que escusa mais um. Na França ha os
de Dadant, de Georges de Layens & Bonnier, de
Bertrand, de Hamet, de Weber, de Clément, do
padre Collins e outros. No mundo de lingua in­
glesa ha os de Langstroth, de Bevan, de Cook, de
Cheshire, de Cowan e de Root e seus discipulos.
Na Alemanha ha os de Dzierzon, de Yan Ber-
lepsch, de Pollmann, de Vogel e muitos outros.
Este livro não é igualmente uma monografia
cientifica sobre a apis mellifica, lingustica, fascia-
ta, etc., nem um repositorio de observações e estu­
dos novos. Nada direi que não seja conhecido
de quantos já lidaram com abelhas. Para aliviá-
lo, deixo para obra mais técnica certo numero
de observações de interesse que fiz durante os
meus vinte anos de apicultura limitado e muito
6 MAURICE MAETERLINCK

especial. A respeito das “ blondes avettes” de Ron-


sard falarei como se deve falar dum assunto que­
rido aos que o desconhecem. Não enfeitarei a
verdade, nem, como condenava Réaumur, subs­
tituirei por um “ maravilhoso de fantasia” , o “ ma­
ravilhoso real” das pequenas fabricantes de mel.
Basta o que ha de realmente maravilhoso nas col-
meias. Alem de que de muito tempo que já re­
nunciei a procurar neste mundo maior maravilha,
e mais bela, que a verdade ou pelo menos o esfor­
ço do homem para conhecer a verdade. Nada de
procurar a grandeza na vida, nas coisas incertas.
As coisas certas já são imensas— e a nenhuma
delas ainda a abarcamos de modo integral.
Não afirmarei nada que eu não tenha veri­
ficado por mim mesmo, ou que não esteja tão as­
sente na apidologia classica que dispense compro­
va. Meu intento é apresentar os fatos com a mes­
ma exatidão, porem com mais vivacidade, e filo­
sofar com liberdade a respeito, agrupá-los dum
modo mais harmonioso do que os podemos tei
num simples guia pratico de apicultura ou numa
monografia cientifica. Quem ler este meu livro
não ficará habilitado a criar abelhas, mas ficará
conhecendo quasi tudo quanto se sabe de certo, de
curioso, de profundo e de intimo sobre a vida das
abelhas. E não o conhecerá com prejuizo do que
resta a conhecer. Omitirei as tradições errôneas
ainda correntes nos campos, e em muitas obras
fantasistas. Não escamotearei os pontos dubios
e muitas vezes me deterei diante do desconheci­
do. Fora dos atos facilmente perceptíveis da ati­
vidade e da politica das abelhas, pouco sabemos
com precisão sobre as maravilhosas filhas de aris-
teu. Quanto mais as cultivamos, mais nos acos­
tumamos a ignorar a profundidade da vida das
abelhas; esta forma de ignorancia, porem, vale
mais que a ignorancia inconciente e satisfeita que
constitui o fundo da nossa ciência da vida e é o
maximo que podemos aprender neste mundo.
Existirá por acaso uma obra assim sobre as
abelhas? Eu, que já li tudo, só encontro no ge-
nero o capitulo que a elas reservou Midhelet no
O Inseto, e o ensaio de Ludwig Buchner no Geis-
tes Leben der Thiere. (*) Mas Michelet tocou
de leve no assunto; e as afirmações ousadas de
Buchner, a menção que faz de coisas lendarias e
ás assertivas já de muito tempo postas de lado, me
levam a crer que em vez de estudar colmeias ele
só abriu livros. Seu ensaio não nos sabe nem a
mel nem a abelha; tem o defeito de muitas Idas
nossas obras eruditas: conclusões preconcebidas e
grande acumulo de anedotas colhidas de todos os
lados. Vem daí que pouco me encontrarei com

(*) Poderíamos citar ainda a monografia de Kirby e


Spence na Introduction to Entomology, apesar de ser muito
técnica.
8 MAVRICE MAETERLINCK

Buchner neste meu livro — tanto os nossos pon­


tos de vistas e os nossos objetivos são diferentes.

A bibliografia das abelhas é das mais exten­


sas. Desde muito tempo esses misteriosos se-
resinhos que vivem em sociedade, submetidos a
leis complicadas e executando no escuro obras
prodigiosas, atrairam a curiosidade do homem.
Aristóteles, Catão, Varrão Plinio, Columela, Pa-
ladio deles se ocuparam, sem falar no filosofo
Aristómaco que segundo Plinio estudou as abe­
lhas durante 58 anos, nem em Filisco de Tasos,
“ o selvagem” que foi viver no deserto para me­
lhor observa-las. O que deles todos saiu foi a
lenda da abelha, cuja sintese aparece no canto
quarto das Georgias de Virgilio.
Lenda, sim; a historia das abelhas começou
no seculo XVII com as descobertas do grande sá­
bio holandês Swammerdam. Convem notar, en­
tretanto que antes deste holandês o naturalista
flamengo Clutius tinha afirmado sobre as abelhas
coisas importantes, entre elas que a Rainha é a
mãe de toda a colmeia e possue os atributos dos
dois sexos — mas Clutius não demonstrou a afir­
mativa. Swammerdam inventou métodos de ver­
dadeira observação cientifica, creou o microsco-
pio, imaginou injeções preservadoras, foi o primei­
ro a dissecar abelhas, descobrindo o ovario e o ovi-
duto da Rainha (até então julgada R ei),^ ilumi­
nou a politica da colmeia ao baseá-la na materni­
dade. E por fim desenhou cortes anatomicos e
pranchas tão perfeitas que até hoje figuram como
ilustrações em varios tratados de apicültufa.
Swammerdam viveu no tumulto de Amesterdam,
sempre a chorar pela a “ doce vida dos campos” (e
morreu aos 43 anos, exgotado pelo trabalho. Em
estilo claro piedosamente lança tudo à gloria do
Creador na sua grande Bybél dei Nature, que um
seculo depois Boerhave iria fazer passar para o
latim com o titulo de Biblia Naturae (Leyde, 1737)
Em seguida vem Reamur, que, fiel aos mé­
todos do sabio holandês, fez em seus jardins de
Charenton muitas experiencias e observações
curiosas, e reservou ás abelhas todo um tomo das
Memoires pour servir à Fhistoire des insects,
obra que ainda lemos com proveito e agrado.
Reaumur é claro, direto, sincero e dotado de certo
encanto — embora um pouco seco. Esforça-se
sobretudo por destruir erros antigos — e espa­
lhou alguns novòs; aprendeu em parte a forma­
ção dos enxames, o regimem politico das Rainhas;
decifrou pontos dificeis e encaminhou a decifra-
ção de outros. Estudou principalmente as mara­
vilhas arquitetônicas da colmeia — e o que disse
é ainda o que ha de melhor. Vem de Reaumur a
idéia dos cortiços com paredes de vidro —astúcia

10 MAVRICE MAETERLINCK

que, aperfeiçoada, nos permitiu conhecer a vida


intima dessas ferozes obreiras que começam o seu
trabalho à luz deslumbrante do sol e o terminam
nas trevas.
Para ser completo terei de mencionar os tra­
balhos um pouco posteriores de Charles Bonnet
e de Schirach (que resolveu
J
o enigma do .
ovo
real); pulando por cima de alguns outros chego a
François Huber — o grande clássico da ciência
apicola moderna.
Huber nasceu em Genebra, em 1750, e perdeu
a vista muito criança. Interessado nas experi-
encias de Réaumur, empreendeu controlá-las, e
com a ajuda de François Burnens, um criado fiel
e inteligente, passou a vida inteira a estudar as
colmeias. Nos anais dos sofrimentos e das vito­
rias humanas, nada mais tocante e rico em li­
ções, do que a historia deste paciente trabalho em
comum, no qual o cego guiava com o espirito as
mãos e os olhos do outro. Huber, que jamais vi-i
ra com seus olhos um favo de mel, surpreendeu
os segredos da formação dessa substancia — como
para nos ensinar que em qualquer estado que es­
tejamos sempre nos é possivel investigar a ver­
dade. Não enumerarei o que a ciência apicola
deve a Huber, pois cumpre antes enumerar o que
não lhe deve. Suas Novas observações sobre as
abelhas, cujo primeiro volume foi escrito em 1789
em forma de cartas a Charles Bonnet, e cuja se­
— j— -----

A VIDA DAS ABELHAS 11

gunda parte apareceu vinte anos depois, torna­


ram-se a fecunda mina onde vão bater todos os
apidologos. Ha ali erros, não resta duvida, e al­
gumas verdades incompletas; depois de apareci­
da sua obra a micrografia ensinou muita coisa, e
muito aprendemos na cultura pratica das abelhas,
no manejamento das Rainhas, etc. Mas nenhuma
de suas observações principais foi desmentida —
e no conjunto constituem a base da nossa experi-
encia atual.
in
Depois das revelações de Huber passaram-se
alguns anos sem novidade, até que Dzierzon, um
padre de Carlsmark, na Silesia, descobriu, a par-
tenogenese, isto é, a parturição virginal da Rai­
nha e concebeu o primeiro cortiço de prateleiras
moveis, por meio dos quais o apicultor pode tirar
uma parte do mel sem destruir a colonia ou ani­
quilar num momento o trabalho de um ano. Esse
cortiço foi magistralmente aperfeiçoado por Lan-
gstroth com o sistema de gavetinhas, que se pro­
pagou nos Estados Unidos de um modo extraor-
dinario. Root, Quinby, Dadant, Cheshire, de
Layens, Cowan, Hedon Howard, etc melhoraram-
no ainda mais. Mehring, para poupar trabalho às
abelhas, teve a idéia de lhes oferecer favos de ce­
ra mecanicamente moldados, que elas recebem
muito bem. De Hruschka introduz o Smelatore,
em que o emprego da força centrifuga permite
extrair o mel sem prejudicar os favos de cera.
A velha rotina apicultora cedeu o passo a essas
novidades. A capacidade e a fecundidade das col­
meias triplicaram. Desenvolveu-se por toda par­
te, em bases rendosas, a industria do mel. Ces­
sam os inúteis massacres justamente das colmeias
mais laboriosas, estabelecendo-se assim uma sele­
ção ás avessas. O homem se toma realmente o
senhor das abelhas — senhor furtivo e ignorado,
que tudo dirige sem dar ordens, e é aceito sem
ser reconhecido. Esse senhor sana falhas do tem­
po. Junta republicas inimigas. Iguala as rique­
zas dos varios cortiços. Aumenta ou restrin­
ge o nascimento das operarias. Regula a fecun­
didade da Rainha. Destrona-a e a substitue por
outra depois de habilmente obter o consentimento
de um povo que se exaspera desvairadamente á
simples suspeita duma intervenção extranha em
sua vida social. Viola calmamente, quando o jul­
ga util, o segredo das camaras sagradas e a poli­
tica sinuosa e tão previdente do gineceu real. Re­
colhe cinco ou seis vezes o produto do trabalho
das irmãs daquele convento infatigavel, mas sem
as ofender, sem as empobrecer ou desanimar.
Obriga-as a reduzir o numero excessivo de aman­
tes que aguardam o nascimento das princesas.
Em suma, faz delas o que quer, contanto que se
submeta às leis que as regem. Porque através
»
A VIDA DAS ABELHAS 13

da vontade do apicultor, este deus inesperado que


delas se apoderou — muito vasto para ser discer­
nido e muito estranho para ser compreendido —
as abelhas vêem mais longe e só cuidam de cum­
prir, com uma abnegação inabalavel, os deveres
misteriosos da raça.

iv
Até aqui, o que os livros nos dizem das ve­
lhas abelhas; agora vamos ver o que por obser­
vação pessoal aprendemos. Uma hora passada ao
pé duma colmeia nos mostrará coisas talvez me­
nos precisas, porem muito mais vivas e fecundas.
Não me esqueço do primeiro cortiço que vi
e que me ensinou a amar as abelhas. Foi ha anos
já, numa grande aldeia da Flandres zelandesa,
tão limpa e graciosa e que, mais que a própria
Zelandia — esse espelho concavo da Holanda —
cultiva o gosto das cores e acaricia os olhos com
lindos brinquedos serios: — seus torreões e car­
ros com iluminurias, seus armarios e relogios a
reluzirem no fundo dos corredores, as arvores de
tamanho reduzido que se alinham ao longo de cais
e canais como que à espera duma cerimonia ingê­
nua, as barcaças e coches aquaticos de popas en­
talhadas; as portas e janelas que parecem flores
da arquitetura, os diques irrepreensiveis, as pon-
tes-levadiças minuciosas e multi-coloridas, as ca-
14 MAURICE MAETERLINCK

sinhas reluzentes como bibelôs de ceramica de


onde saem mulheres de saia rodada como sinos,
todas enfeitadas de ouro e prata, para irem tirar
leite das vacas em pastos de cercas pintadas de
branco, ou extender roupa nos gramados sempre
cheios de pequeninas flores.
Uma especie de velho sabio, muito semelhan­
te ao ancião de Virgilio,
Homem que lembra os reis, homem que se aproxima dos deuses
E como êstes se mostra satisfeito e tranqüilo,
no verso de La Fontaine, fixou residencia nessa
aldeia da Flandres, onde a vida parecia mais es­
treita que em qualquer outra parte — se é possi­
vel realmente estreitar a vida. Ali estabeleceu
ele o seu refugio, não por fastio da vida, porque
os sabios não conhecem os grandes fastios, mas
cansado de estudar os homens — porque o estu­
do dos homens responde menos que o estudo dos
animais e das plantas às unicas questões interes­
santes que possamos propor à natureza e suas leis.
Toda a felicidade desse velho sabio — do mesmo
modo que como o filosofo cita — estava nas bele­
zas dum jardim, e entre estas belezas a mais que­
rida era um colmeal composto de doze cortiços de
palha que ele havia pintado de côr-de-rosa vivo,
de amarelo claro e sobretudo de azul — porque
muito antes das experiencias de sir John Lubbock
ele observara que o azul é a côr preferida pelas
abelhas. O colmeia ficava junto à parede caida
I

A VIDA DAS ABELHAS 15

da casa, no canto formado por uma dessas gosto­


sas cozinhas holandesas com prateleiras de faien-
ças, estanhos e cobres — tudo a refletir-se nas
aguas mansas de um canal. Aguas carregadas
de reflexos caseiros que sob o dossel das arvores
marginais levam nossos olhos até ao calmo hori­
zonte de moinhos-de-vento e prados.
Naquele lugar, como em toda parte onde as
instalamos, as colmeias haviam dados às flores, ao
silencio, à doçura do ar, aos raios de sol, como que
uma significação nova. Sentia-se ali a festa do
outono. Ponto de convergencia das rotas aereas
que, da aurora ao crepusculo, azafamados e sono­
ros, percorrem todos os perfumes do campo. Si­
tio onde o homem ouve a alma feliz e visivel, a
voz inteligente e musical, a concentração de ale­
gria das belas horas do jardim, onde vai aprender
na escola da colmeia as preocupações da nature­
za onipotente, o entrelaçamento luminoso dos tres
reinos, a inexgotavel organização da vida, a moral
do trabalho ardente e desinteressado e — o que é
tão bom quanto a moral do trabalho — aprende
tambem com as heróicas operarias a gosar o sabor
indizivel dum ocio como que riscado pelos traços
de fogo de mil asinhas em ação. Delicias quasi
etereas desses dias gloriosos que regiram no es­
paço, impregnando-nos da sensação duma felici­
dade muito pura.
16 MAVRICE MAETERLINCK

Afim de seguir o, mais simplesmente possi-


vel a historia anual dum cortiço, tomá-lo-emos
ao despertar da primavera, quando as abelhas se
põem ao trabalhõ, e assistiremos ao desdobrar dos
grandes episodios da vida das colmeias, a saber:
a formação e partida do enxame, a fundação du­
ma cidade nova, o nascimento, a luta e o vôo nup­
cial das jovens Rainhas, o massacre dos machos
e por fim o sono, quando sobrevem o inverno.
Cada um destes episodios nos esclarecerá sobre
as leis, particularidades, hábitos e acontecimentos
que os provocam ou seguem, de modo que ao ter­
mo do ano apicola de todos que. é curto, pois vai
de abril a setembro, estaremos senhores de to­
dos os mistérios da casa do mel. Antes de mais
nada cumpre-nos saber que a casa do mel se com­
põe duma Rainha, mãe de todos; de milhares de
obreiras ou neutras, femeas incompletas ou este-
reis; e de algumas centenas de machos, entre os
quais será escolhido o esposo — o desgraçado espo­
so — o desgraçado esposo da futura soberana —
futura soberana que as obreiras elegerão depois
da partida, mais ou menos voluntaria, da Rainha
reinante.
Vi

Da primeira vez que abrirmos um cortiço


sentimos um pouco da emoção que sentiriamos
A VIDA DAS ABELHAS %%

ao violar um objeto desconhecido e talvez cheio


de surpresas temiveis — *Um tumulo, por exem­
plo. Paira em torno das abelhas uma atmosfera
de ameaças e perigos. Lembramo-nos das pica­
das que provocam uma dor tão especial — especie
de queimor -— fogo do deserto que irradia na zona
picada, como se essas filhas do sol tivessem extraí­
do dos raios irritados de seu pai um veneno fulgu­
rante, para com mais eficacia defenderem os te­
souros de doçura que tiram do mesmo sol em cal­
ma.
Se a abertura do cortiço se faz por quem não
conhece o carater e os costumes das abelhas, aqui­
lo se transforma instantaneamente numa explo­
são violenta de colera e heroismo. Mas é facil
adquirir a manha necessaria para os manejar im­
punemente. Basta um pouco de fumaça bem di­
rigida, muito sangue-frio e suavidade — e as
obreiras, tão bem armadas, deixam-se despojar
sem revolta. Não que reconheçam o seu senhor,
como.se ha afirmado, nem que temam o homem;
mas o cheiro da fumaça e os gestos lentos das
mãos que manipulam a sua urbs não lhes sugere
ò ataque dum inimigo de que tem de defender-
se, mas a ação de uma Força Natural, duma Ca-
tastrofe diante da qual convem submeter-se. Em
vez de lutar inutilmente — e cheias duma previ-
dencia que se engana porque olha para muito lon­
ge — as abelhas só pensam em salvar o futuro; e
«>
18 MAURICE MAETERLINCK

se lançam sobre as reservas de mel para guardar


dentro de seus corpinhos o mais que possam, com
que fundem algures e sem demora uma cidade no­
va, caso aquela seja destruída ou suas moradoras
sejam forçadas a abandoná-la.

VII

O profano diante do qual se abre um cortiço


de estudo (*) começa por desapontar-se. Apro-
xima-se com a noção de que naquela caixa de vi­
dro se desenvolve uma atividade sem exêmplo,
regulada por um numero infinito de leis sabias,
norteada por uma espantosa soma de genio, de
mistérios, de experiencias, de ciências, de cál­
culos, de hábitos inteligentes, de sentimentos e
virtudes estranhas. Mas só vê um aglomerado
confuso de carunculas côr de açucar queimado,
lembrando passas de uva grudadas contra os vi­
dros. Essas carunculas parecem mais mortas que
vivas, em seus movimentos morosos, incoerentes,
incompreensiveis. Não lembram as admiraveis
gotas de luz viva que se afanavam pouco antes no
halito animado, todo pérolas e ouro, de mil coro-
las desabrochadas. São abelhas que tiritam nas
(*) Cortiço envidraçado, munido de cortinas pretas ou de
postigos. Os melhores só têm um andar ou prateleira, o que
permite a observação dos dois lados. Não há inconveniente em
te-los dentro de casa. O que eu tenho em meu gabinete de tra-
balho em Paris não impede que elas colham mel e cera no gran­
de deserto de pedra que é a grande capital.
trevas. Comprimem-se em massa, retransidas,
dando ideia de prisioneiros em campo de concen­
tração, ou de rainhas destronadas — rainhas que
tiveram seu momento de esplendor nas flores ilu­
minadas dos jardins para em seguida se recolhe­
rem à miséria vergonhosa daquela morna mora­
dia superlotada.
Acontece com elas como com todas as reali­
dades profundas. Temos que aprender a obser­
vá-las. Um habitante de outro planeta que vis­
se os homens se moverem lentamente pelas ruas,
aglomerando-se diante de certos edificios ou em
certas praças, à espera de não se sabe do que, sem
movimentos aparentes, concluiria tratar-se de se­
res inertes e desgraçados. Só com muita obser­
vação apreenderia a múltipla atividade oculta na­
quela inércia.
Na verdade, cada uma das “ passas” quasi
imóveis está num trabalho incessante e exerce
uma função diferente. Nenhuma está ociosa; e
as que parecem mais inertes e como que adorme­
cidas sobre o vidro são as que exercem a tarefa:
mais misteriosa e fatigante; pois que formam e se-
cretam a cera. Logo veremos isto com mais de­
talhes. Basta-nos agora atentar no traço essen­
cial da natureza das abelhas, explicativo daquele
acantonamento de trabalho confuso.
A abelha é antes de mais nada, e ainda mais
que a formiga, um ser de vida multitudinaria.
20 MAURICE MAETERLINCK

Não pode viver senão amontoada. Quando a abe­


lha sai dali, abrindo caminho por entre a massa vi­
va à força de cabeçadas separa-se de seu elemen­
to proprio. Sai — flutua por uns momentos no
espaço cheio de luz e flores, como o mergulhador
afunda no oceano cheio de pérolas; mas sob pena
de morte tem que, a intervalos regulares, vir res­
pirar o bafo da multidão, do mesmo modo que o
mergulhador tem que vir à tona para encher de
ar os pulmões. A abelha isolada, ainda, que ro­
deada de viveres e na temperatura mais favora-
vel, perece no fim de alguns dias — não de fome,
nem de frio, mas de solidão. O ajuntamento, a
cidade, desprende para ela um alimento invisivel
tão indispensável como o mel. Temos que ter
sempre em vista esta necessidade vital para bem
compreendermos o espirito das leis da colmeia.
Nessa maravilhosa cidade o individuo não é nada;
• sua existencia condiciona-se à existencia coletiva;
ele não passa dum momento indiferente, de um
orgão alado da especie. Toda a sua vida é um sa­
crifício total ao Ser Inumerável e Perpetuo de que
faz parte.
Muito curioso verificar que nem sempre foi
assim. Ainda hoje encontrafnos entre os hime-
nopteras meliferas os estágios progressivos de ci­
vilização da nossa abelha domestica. Nos de­
graus mais baixos a abelha trabalha só e vive na
miséria; muitas vezes nem chega a ver a sua des-
A VIDA DAS ABELHAS 21

cendencia (como nas Prosopis, nas Colletes, etc.)


outras vezes vive no seio da pequena familia
anual. Depois aparece formando associações tem-
porarias (as Panurgias, as Dasipodas, as Halictes,
etc.) e assim, gradativamente, chega ao estagio
implacavel das nossas colmeias domesticas, no
qual o individuo é totalmente absorvido pela re­
publica, e a republica, por sua vez, é regularmen­
te sacrificada à Cidade Abstrata e Imortal do fu­
turo.
vm
Não nos precipitemos em tirar destes fatos
conclusões de aplicação entre os homens. Nós te­
mos a fuculdade de refugir às leis da natureza.
E saber se temos razão ou não em usar desta fa­
culdade constitue o ponto mais serio e menos es­
clarecido da moral humana. Mas não deixa de
ser interessantíssimo surpreender a vontade da
natureza num mundo diferente. Ora, na evolu­
ção das himenopteras, que são depois dos homens
os habitantes deste globo mais favorecidos em ma­
téria de inteligencia, essa vontade da natureza pa­
rece muito clara. Tende visivelmente para o me­
lhoramento da especie, mas ao mesmo tempo mos­
tra que isso só pode ser obtido em detrimento da
liberdade e da felicidade dos individuos. À me­
dida que a sociedade se eleva, a vida particular de
cada um de seus membros se restringe em sua li­
22 MAURICE MAETERLINCK

berdade de ação. O progresso num ponto resulta


sempre do sacrifício cada vez maior do interesse
' pessoal em proveito do interesse geral. E’ preci­
so primeiramente que cada qual renuncie a vicios
que não passam de atos de independencia. As­
sim, no penúltimo degrau da civilização apicola
encontramos os zangões, muito semelhantes aos
antropofagos da civilização humana. Obreiras
adultas rondam sem cessar os ovos para devorá-
los, e a mãe é obrigada a defendê-los energicamen­
te. E’ preciso tambem que cada um, depois de
liberto dos vicios mais perigosos, adquira um cer­
to numero de virtudes cada vez mais dificeis.
As obreiras de certas especies, por exemplo, não
pensam em renunciar ao amor, ao passo que nossa
abelha domestica vive em perpetua castidade.
Adiante veremos tudo quanto ela abandona em
troca do bem-estar, da segurança, da perfeição ar­
quitetônica, economica e politica da colmeia, e no
capitulo consagrado ao progresso das himenopte-
ras estudaremos a sua maravilhosa evolução.
LIVRO n

O E N X A M E

I
As abelhas da colmeia que tomamos para es­
tudo já se desentorpeceram da hibernação. Pri­
mavera! A Rainha começou de novo a por ovos.
As operarias já visitam as anemonas, as pulmona-
rias, as violetas, os salgueiros, as nogueiras. Quan­
do a estação se acentua, tudo transborda de mel e
polen, e milhares de abelhas vem ao mundo cada
dia. Os machos, grandalhudos e pesadões, saem
de suas alentadas células, percorrem os andares;
e o congestionamento da cidade prospera se torna
tal, que á tarde, ao regressarem das flores, cente­
nas de operarias não encontram mais lugar na col­
meia e são forçadas a dormir fora, na porta, onde
o frio as difcima.
Uma inquietação agita toda aquela comunida­
de, e a velha Rainha tambem se sente nervosa com
o pressentimento de novo destino que se prepara.
Religiosamente cumpriu ela o seu dever de boa
24 MAURICE MAETERLINCK

criadeira, e porisso mesmo está triste e atribula­


da. Uma força invencivel lhe ameaça o repou­
so — força que a fará abandonar aquela cidade
onde sempre reinou, que é sua obra, que é ela in­
teira. A Rainha das abelhas não o é no sentido
hamano da palavra. Não dá ordens e vive tão
submissa como as miais humildes obreiras à potên­
cia oculta e soberanamente sabia que não sabemos
onde reside e a que chamamos “ Espirito da Col­
meia.” Mas a Rainha é a mãe unica da comuni­
dade e o seu unico orgão do amor. Fundou-a na
incerteza e na pobreza. Sem cessar a repovoou
com a sua própria substancia; todos ali, larvas,
operarias, zangões, ninfas e as jovens princesas
cujo proximo nascimento vai precipitar a sua par­
tida, e das quais uma já está marcada no pensa­
mento imortal da Especie como a sua sucessora,
s^iram de seus flancos.

n
O espirito da Colmeia onde reside, no que se
incarna? Não se assemelha ao instinto das aves
que as faz construir tão bem seus ninhos e pro­
curar outras terras quando chega o tempo. Não
é tampouco um habito maquinai da especie, que
a todo o transe quer viver e dá cabeçadas às ton­
tas quando circunstancias imprevistas lhes per­
turbam a rotina. Ao contrario desses impulsos
cegos, o Espirito da Colmeia acompanha as cir­
cunstancias, como um escravo inteligente tira par­
tido das ordens mais inesperadas de seu senhor.
Implacavel, mas com discreção e como sob o
império dum dever, o Espirito da Colmeia dispõe
das riquezas, da felicidade, da liberdade e da vida
de todo aquele povo de asas. Regula dia a dia o
numero de nascimentos e o mantem em proporcio­
nalidade com as flores das redondezas. Faz sen­
tir à Rainha o fim de seu reinado ou a necessida­
de de sua partida; força-a a pôr no mundo as suas
futuras rivais e educa-as para a grande função,
protegendo-as contra o ciume politico de sua mãe;
segundo a abundancia de flores da estação e os
perigos do vôo nupcial, permite ou proibe que a
primeira princesa nascida mate no berço suas
irmãs, ficando sozinha. Outras vezes, quando a
estação já vai perto do fim e as horas da visita às
flores são menos longas, o Espirito da Colmeia,
para fechar a era das revoluções e apressar a re­
tomada do trabalho, manda que as próprias obrei­
ras destruam toda a descendencia imperial.
Esse Espirito ê prudente e economico, mas
não mesquinho. Parece conhecer as leis exube­
rantes e algo desvairadas da natureza em matéria
de amor, e durante os dias calidos do verão tolera
(porque vai ser entre elas que a futura Ráinha es­
colherá seu amante) a presença incomoda de tres
ou quatro centenas de machos estouvadões, desas­
trados, inultimente atarefados, pretenciosos, es­
26 MAVRICE MAETERLINCK

candalosamente vadios, barulhentos, grosseiros,


sujos, insaciaveis. Mas depois de fecundada a Rai­
nha e quando os dias começam a se tornar mais
curtos, certa manhã, friamente, o Espirito da Col­
meia decreta o massacre geral do bando de zan­
gões já inúteis.
Tambem é ele quem regula o trabalho de ca­
da uma das operarias conforme a idade: mas são
destacadas para o cuidado das larvas e ninfas; ou­
tras devem servir de damas de honra à Rainha e
jamais perdê-la de vista; outras passam o tempo
vibrando as asas para fins de ventilação, aqueci­
mento ou resfriamento da colmeia, ou para apres­
sar a evaporação dum mel muito fluido; outras de­
dicam-se à arquitetura; outras são pedreiras, mo-
deladoras de casa com a qual fazem os favos; ou­
tras dedicam-se a recolher nos campos o nectar
das flores que elas transformam em mel, ou o po-
lem que é o alimento das larvas e ninfas; e outras
recolhem o propolis qúe serve para calafetar,
consolidar as estruturas internas, ou a agua e o
sal necessário à mocidade da nação. E ha as que
cuidam de assegurar a conservação do mel, nele
instilando gotinhas de acido formico; e há as oper-
culadoras, que fecham os alvéolos quando estão
cheios; e as encarregadas da limpeza das ruas e
praças; e as necroforas, que velam noite e dia pela
segurança da porta, interrogando os que entram
e saem, reconhecendo as adolecentes que se aven­
A VIDA DAS ABELHAS 27

turam fora pela primeira vez, espantando os in­


setos vagabundos ou pilharengos, expulsando os
intrusos, atacando em massa inimigos terríveis
— e até obstruindo a entrada quando é necessário.
E por fim é o Espirito da Colmeia quem fixa
o momento do grande sacrificio anual ao Genio da
Especie: a enxameação, na qual um povo inteiro,
chegado ao fastigio da prosperidade e do poder,
subitamente abandona à geração futura o palacio,
as riquezas acumuladas e todo o fruto do traba­
lho para ir longe dali, destituido de tudo e na in­
certeza, fundar uma patria nova. Temos aqui
um ato que, conciente ou não, passa alem da mo­
ral humana. Um ato que muitas vezes arruma
a cidade, empobrece-a dispersa-a, mas é pratica­
do em obediencia a uma lei mais alta que a felici­
dade aparente. Onde se formula esta lei, que,
como veremos, está longe de ser uma lei cega, co­
mo muita gente supõe? Onde, em que assem-
bleia, em que conselho, em que esfera comum tem
assento esse Espirito a que todas se submetem e
que, por sua vez, está submetido a um Dever he-
roico e a uma Razão sempre voltada para o futu­
ro?
Dá-se com as abelhas o que se dá com a maior
parte das coisas deste mundo; observamos-lhes
alguns hábitos, dizemos que fazem isto ou aquilo,
que trabalham deste ou daquele modo, que suas
rainhas nascem assim, que as operarias permane­
cem virgens, que a colmeia enxameia em tal épo­
ca. Dizemos isso e ficamos certos de que conhe­
cemos as abelhas — e não queremos saber de mais
nada. Vemo-las se apressarem de flor em flor;
observamos o vai-e-vem fremente da colmeia —
e aquilo nos parece bem simples, e reduzido, co­
mo outras vidas, aos cuidados instintivos da ali*
mentação e da reprodução. Mas se atentamos
melhor, ver-nos-emos diante da tremenda com­
plexidade dos fenomenos naturais do enigma da
inteligencia e da vontade, do mistério dos desti­
nos, fins, meios e causas, e da incompreensivel
organização do menor ato de vida.

iii

Na nossa colmeia de estudo chegou o momen­


to da enxameação — o grande sacrificio aos deu­
ses imperiosos da Raça. Obedecendo à ordem do
“ Espirito” — tão pouco explicável à nossa inteli­
gencia, visto como funciona exatamente ao con­
trario de todos os instintos e sentimentos huma­
nos — 60 ou 70 mil abelhas das 80 ou 90 mil da po­
pulação total vão na hora marcada abandonar a
cidade materna. Mas não ha angustia; não aban­
donam numa resolução subita e aflita uma patria
devastada pela fome, guerra ou peste. Aquele
exilio é longamente meditado, e o momento mais
favoravel é esperado com toda a paciência. Se a
colmeia está pobre, porque foi prejudicada por
desgraças da familia real ou intemperies e pilha­
gens, suas habitantes não a abandonam. Só a
abandonam quando a vêem no apogeu da felicida­
de, quando depois do trabalho forçado da prima­
vera o imenso palacio de cera de 120 mil células
regorgita de mel novo e dessa farinha de arco-
Uris que se chama “ pão das abelhas” e serve para
alimentar as larvas e ninfas.
Jamais a colmeia se apresenta com maior es­
plendor do que na vespera da heróica renuncia.
E’ a hora sem igual, um pouco febril apesar de se­
rena, da abundancia e da alegria completas. Pro­
curemos no-la representar, não como a vêem as
abelhas — porque nos é impossivel imaginar que
modo magico as coisas refletem nas seis ou sete
mil fácetás de seus olhos laterais e no ciclopitío
olho triplice que elas têm na fronte — mas como
nós as veriamos com os nossos olhos, se tivessemos
o tamanhinho delas.
Do alto dum zimborio mais agigantado que
o da catedral de S. Pedro de Roma veriamos des­
cer até ao chão enormes muralhas de cera, múlti­
plas e paralelas, geometricamente construidas, nas
trevas e que pelas proporções, pela precisão, pela
ousadia e enormidade avantajam-se, proporcio­
nalmente, ás maiores construções humanas.
Cada uma dessas muralhas, de substancia
ainda fresca, virginal, argentea, imaculada, chei-
30 MAURICE MAETERLINCK

rosa, é formada de milhares de células nas quais


se acumulam viveres suficientes para ahmentar
todo aquele povo durante semanas. Aqui vemos
manchas vivas, vermelhas, amarelas, malvas ou
escuras: é o polen — esse fermento de amor de
todas as flores da primavera — acumulado nos
alvéolos transparentes. Ali uma cortina de filó
côr de ouro: o mel de abril, o máis limpido e per­
fumado, em repouso em seus vinte mil reservato-
rios fechados com a tampinha de cera que só será
tirada nos dias de suprema desgraça. Mais aci­
ma o mel de maio amadurece em grandes cubas
abertas, à beira das quais numerosas “ ventilado-
ras” mantem uma continua corrente de ar. No
centro , no ponto mais aquecido e longe da luz que
penetra pela unica entrada dorme o futuro. E’ a
incubadeira reservada à Rainha e suas acólitas:
em cerca de 10 mil berços repousam os ovos, 15
ou 16 mil camaras são ocupadas pelas larvas e 40
mil com as ninfas, cuidadas por milhares de
amas. (*) E no santuario da colmeia temos por
fim de tres a doze recintos relativamente amplos,
onde envoltas numa especie de sudario as prince­
sas adolescentes esperam a sua hora imóveis, mui­
to palidas, mantidas que são nas trevas.

(*) Estes números são rigorosamente exatos, para uma


colmeia bem formada e em plena prosperidade.
I
A VIDA DAS ABELHAS 31

IV

No dia designado pelo Espirito da Colmeia,


uma parte do povo, estritamente determinada por
leis imutáveis e rigidas, cede o espaço àquelas
esperanças ainda informes. Ficam na cidade
adormecida os machos, entre os quais a futura
Rainha escolherá seu amante, mais as abelhinhas
novas que cuidam das ninfas, e alguns milheiros
de operários que continuarão a visitar as flores,
a guardar o tesouro acumulado e a manter as tra­
dições morais da colmeia. Porque cada colmeia
tem a sua moral particular. Ha as muito virtuo­
sas e outras muito corrompidas, e o apicultor inep­
to pode estragar as abelhas fazendo-as perder o
respeito pela propriedade alheia, incitando-as à
pilhagem, dando-lhes 'hábitos de conquista ou
ociosidade que as tornam temiveis para as peque­
nas republicas das redondezas. Basta que ve­
rifiquem que a lenta caça ao mel das flores não é
o meio mas pronto de se enriquecerem, para que
entrem a pilhá-lo nas colmeias mal guardades, ou
a tomá-lo à força nas que não podem defender-se.
Perdem a noção do implacavel dever que a faz es­
cravas aladas das flores na harmonia nupcial da
natureza, sendo muitas vezes dificit regenerar
uma colmeia que desse modo se depravou.
MAURICE MAETERLINCK

Tudo indica que não é a Rainha, e sim o Espi­


rito da Colmeia, quem determina a epoca da enxa­
meação. Dá-se com a Rainha o mesmo que com
os chefes entre os homens, os quais parecendo co­
mandar de fato obedecem a injunções imperiosas
e inexplicáveis. Quando o Espirito da Colmeia
fixa o momento da enxameação, parece que desde
a aurora, ou desde a vespera ou antevespera, se
torna publica a sua resolução, porque mal entra o
sol a evaporar as gotas de orvalho a colmeia agi­
ta-se dum modo facilmente reconhecivel pelo api­
cultor. Ás vezes parece que ha hesitação, recuo,
e durante alguns dias a dourada agitação das abe­
lhas vibra e se apaga sem razão aparente. Tor-
nar-se-á alguma nuvem qúe não vemos no ceu que
as abelhas vêem, ou lhes sobrevem o pesar? Na­
da sabemos, como tambem não sabemos de que
modo o Espirito da Colmeia comunica a sua reso­
lução ao povo apicola.
Será que se debate num conselho rumoroso
a necessidade da partida? Se é certo que as abe­
lhas se comunicam entre si, ignoramos se o fazem
à maneira dos homens. Aquele zumbido perfuma­
do a mel, aquele inebriado frêmito dos belos dias
de verão que constitue um dos prazeres do cria­
dor de abelhas, aquele cântico do trabalho em fes­
ta que sobe e desce da colmeia e sugere o murmu-
A VIDA DAS ABELHAS 33

rio de alegria das flores desabrochadas, o hino de


sua felicidade, o eco de seus perfumes, a voz do
cravo branco, da mangerona, do timo, talvez elas
não o sintam. Vibram, vibram, entretanto, toda
uma gama de sons que nós percebemos e que vai
da felicidade profunda à ameaça, à colera, à an­
gustia; ha ali ides à Rainha, estribilhos da abun-
dancia, salmos da dor; e soam enfim prolongados
e misteriosos gritos de guerra das princesas ado­
lescentes nos combates e massacres que precedem
o vôo nupcial. Será musica de acaso que não lhes
afeta o silencio interior? As abelhas não se in­
comodam com os ruidos que produzimos em redor
das colmeias talvez por sentirem que não são coi­
sas de seu mundinho e de seu interesse. E no nos­
so lado não ouvimos senão uma parte minima do
que elas dizem, porque não temos orgãos capazes
de aprender muitas das harmonias que elas emi­
tem. Mas adiante veremos que as abelhas sabem
entender-se entre si e combinar coisas com uma
rapidez prodigiosa, como quando o grande ladrão
de mel, a Sphinx atropus, essa sinistra mariposa
que tem no dorso o desenho duma caveira, invade
a colmeia ao murmurio duma especie de sortilé­
gio que lhe proprio; nesses momentos, a nova cir­
cula das sentinelas da entrada até à ultima obrei­
ra ocupada em seu trabalho lá no extremo, nos
últimos recantos e todo o povo apicola freme.

3
34 MAURICE MAETERLINCK

VI

Por muito tempo os estudiosos das abelhas


admitiram que ao abandonarem os tesouros da sua
cidade para se arremeterem à vida incerta, as sa­
bias abelhas, tão economicas e sóbrias, tão previ­
dentes, eram arrastadas por uma especie de lou­
cura fatal — obedeciam a um impulso maquinai,
a uma lei da especie, a um decreto da natureza,
a essa força que para todos os seres está oculta
no tempo que passa.
Trate-se de abelhas ou de nós mesmos, da­
mos o nome de fatal a tudo que ainda não com-t
preendemos. Mas a colmeia já nos desvendou
alguns dos seus segredos materiais, entre eles que
esse exodo não é instntivo nem inevitável. Não
se trata de uma emigração cega, mas de um deli­
berado sacrifício da geração presente em benefi­
cio da futura. Basta que o apicultor destrua as
jovens rainhas ainda inertes e que ao mesmo tem­
po, se ha muitas larvas e ninfas, aumente os dor-
mitorios e depositos da nação, para que sem demo­
ra todo aquele tumulto esmoreça, como as gotas
de ouro duma chuva obediente, e o trabalho habi­
tual de visita às flores seja retomado; e tornada
assim indispensável, e já sem receio de uma su­
cessora e segura quanto ao porvir da atividade que
recomeçou, a velha Rainha desiste da enxamea­
ção. Calmamente retoma nas trevas a sua faina
A VIDA DAS ABELHAS 35

maternal consistente em por ovos — o que faz se­


guindo uma espiral metódica, indo de celula em
celula, sem omitir uma só — e deita dois a tres
mil ovos por dia.
Que ha nisto de fatal senão o amor da raça de
hoje pela de manhã? Tal fatalidade tambem
existe na especie humana, mas em extensão e in­
tensidade muito menores, sem produzir nunca sa­
crifícios tão grandes e unanimes. A que fatalida­
de previdente obedecem os homens, que substitua
a das abelhas? Ignoramo-lo, e não conhecemos
o ser que nos olha como nós olhamos as abelhas.

vn
Mas na colmeia que estudamos, o homem não
pertubou a marcha dos acontecimentos e a enxa­
meação se processa. O ardor ainda orvalhado da
bela manhã que avança apressa o momento da
partida. De alto a baixo dos corredores doura­
dos que separam as muralhas paralelas do pala-
cio apicola as obreiras concluem os preparativos
de viagem. Cada qual toma consigo uma provi­
são de mel que dê para cinco ou seis dias. Desse
mel assim levado extraem, por meio de uma qui-
mica que ainda não alcançamos, a cera necessa-
ria para dar imediato começo à construção da ci­
dade nova. Munem-se tambem de certa quanti­
dade de propolis, que é uma especie de resina
36 MAURICE MAETERLINCK

própria para obstruir fendas, consolidar o que es­


tiver frouxo, envernizar as paredes e a tudo cala-
fetar, porque as abelhas gostam de trabalhar na
obscuridade quasi completa, na qual se orientam
com a ajuda de seus olhos multi-facetados, ou tal­
vez com as antenas, orgãos de um sentido que
apalpa e mede no escuro.

VIII

As abelhas sabem prever as aventuras do dia


mais perigoso de sua existencia. Operada a mu­
dança, e todas entregues aos cuidados e azares do
grande ato, não têm tempo, nesse primeiro dia, de
visitar as flores, e nos imediatos é possivel que
vente ou chova, que suas asinhas se gelem ou que
as flores não se abram. Sem muita previdencia,
a fome e a morte seriam inevitáveis. Ninguém
lhes virá em socorro, nem elas pediriam socorro
a ninguém. Não se conhecem as moradoras de
colmeias diferentes, nem se entre-ajudam. Acon­
tece muitas vezes que o apicultor recolhe a Rai­
nha emigrada, com o cacho de operarias que a ro­
deia, e as instala num cortiço colocado junto ao
que elas acaba de abandonar. Qualquer que se­
ja a desgraça que lhes suceda, dir-se-ia que elas
ifrevogavèímente desistiram da paz anterior, da
felicidade laboriosa, da segurança e das enormes
riquezas acumuladas; e que todas sem exceção
»
A VIDA DAS ABELHAS 37

preferem morrer de fome em torno de sua Rainha


a retornar à colmeia de onde sairam, embora o
bom cheiro da abundancia, esse perfume de seu
trabalho passado, venha alcança-lás ali na desgra­
ça.
IX

Eis o que não fariam os homens — dirão —


e esse fato prova que apesar das maravilhas da
organização das abelhas não ha nelas nem inte­
ligencia nem conciencia verdadeira.
Mas que sabemos nós? Alem de muito ad-
missivel que haja em outros seres uma inteligen­
cia de natureza diversa da nossa, que produza
efeitos outros sem ser inferior, será que, não sain­
do de nossa pequena paroquia humana somos tão
bons juizes das coisas do espirito? Basta que ve­
jamos duas ou tres pessoas em conversa atrás du­
ma janela, sem ouvirmos o que dizem para que
não possamos adivinhar o pensamento que as di­
rige. Credes que um habitante de Marte ou Ve-
nus, que desses planetas visse nas ruas e praças
de nossas cidades o ir e vir dos pequenos ponti­
nhos negros que somos no espaço, possam formar,
diante do espetáculo de nossos movimentos, de
nossos edificiós, de nossos canais, de nossas maqui­
nas, uma ideia certa da nossa inteligencia, da nos­
sa moral, da nossa maneira de amar, de pensar,
de esperar? e compreender o ser intimo e real que
38 MAVRICE MAETERLINCK

somos? Esse observador se limitaria a verificar


alguns fatos bastante surpreendentes, como acon­
tece conosco diante das colmeias, e era muito pro­
vável que deles tirasse conclusões tão incertas e
errôneas quanto as nossas.
E na melhor das hipóteses muito lhe custaria
descobrir naqueles “ pontinhos negros” a grande
direção moral, o admiravel sentimento unanime
que observamos na colmeia. “ Para onde vão?”
haviam de indagar depois de observá-los duran­
te séculos. “ Que fazem? Qual é o ponto cen­
tral e o fim de suas vidas? Obedecerão a algum
deus? Nada vemos que lhes conduza os passos.
Um dia parecem edificar e amontoar coisinhas e
no dia seguinte as espalham ou destroem. Vão e
vêm, reunem-se e dispersam-se, mas é impossivel
saber o que desejam. Oferecem uma multidão de
espetáculos inexplicáveis. Vê-se, por exemplo,
que não fazem nenhum movimento. Distinguem-
se pelo revestimento externo, e uns são mais vo­
lumosos que outros, e ocupam moradas dez ou vinte
vezes mais vastas, mais engenhosamente ordenadas
que as comuns. Esse pontinhos fazem todos os
dias refeições que duram horas e às vezes se pro­
longam pela noite a dentro. Os que deles se apro­
ximam parecem reverenciá-los; e carregadores de
viveres afluem de casas visinhas, e mesmo de lon­
ge, para lhes trazer presentes. Temos de crer
que são seres indispensáveis, que prestam à
A VIDA DAS ABELHAS 39

espécie serviços essenciais, embora nossos meios


de observação não nos permitam reconhecer
a natureza desses serviços. Já outros, ao con­
trário, se agitam em grandes edifícios cheios
de rodas, em recantos escuros, em redor dos por­
tos ou em pequenos quadrados de terra que reme­
xem desde o nascer até ao pôr do sol, penosamen­
te. Tudo nos faz crer que essa agitação é um cas­
tigo. Alojam-se em cabanas minusculas, sujas,
mal arranjadas. Vivem cobertos duma substan­
cia incolor. O ardor que demonstram na obra per­
niciosa ou inutil que fazem, mal lhes dá tempo de
comer ou dormir. O numero destes pontinhos é
de mil para um dos outros. Parece estranho que
essa especie de seres tenha podido sobreviver em
condições tão desfavoráveis ao seu desenvolvimen­
to. E convem acentuar que, apesar daquela obsti­
nação característica de seus movimentos penosos,
esses pontinhos mostram ar inofensivo e docil, e se
contentam com os restos dos outros — evidente­
mente seus guardiães e talvez os salvadores da
raça.”
x
Não é de espantar que a colmeia que confusa­
mente vemos do alto do nosso ponto de vista hu­
mano nos dê à primeira vista uma resposta segura
e profunda? Não é de admirar que suas constru­
ções cheias de certeza, seus usos, suas leis, sua or­
40 MAURICE MAETERLINCK

ganização economica e politica, suas virtudes e até


sua crueldade nos mostrem imediatamente o pen­
samento òu o deus que as abelhas servem — deus
que não é menos legitimo e razoavel que possa­
mos conceber, embora seja o unico que ainda não
adoramos seriamente — o Futuro? Na nossa his­
toria humana procuramos às vezes avaliar a força
e a grandeza moral de um povo ou raça, e não en­
contramos outra medida afora a persistencia e a
amplitude do ideal que os norteia e da abnegação
com que a ele se devotam. E que ideal já encon­
tramos mais conforme com os desejos do Universo,
mais firme, mais augusto, mais manifesto, mais
abnegado e heroico, do que o devotamento ao Fu­
turo?
XI

Estranha pequenina republica, tão logica e tão


grave, tão minuciosa, tão economica e entretanto
vitima dum sonho tão grande e precário! Peque­
nino povo tão decidido e profundo, nutrido de ca­
lor e luz e do que ha de mais puro na natureza —
a alma das flores, isto é, o mais evidente sorriso
da matéria e seu mais tocante esforço para a feli­
cidade e a beleza — quem nos dirá os problemas
que resolvestes ou que vos restam a resolver, as
certezas que adquiristes ou vos restam a adquirir?
E se é verdade que não haveis resolvido esses pro­
blemas ou adquirido essas certezas com o auxilio
A VIDA DAS ABELHAS 41

da inteligencia, mas em virtude de algum impulso


primitivo e cego, a que enigma ainda mais insolú­
vel vós nos impelis? Pequenina cidade cheia de
fé, de esperanças, de mistérios, por que motivo vos­
sas cem mil virgens aceitam uma tarefa que ne­
nhum escravo humano jamais aceitou? Donas de
si que fossem, menos esquecidas de si mesmas e
menos afanosas no trabalho, abelhas veriam uma
nova primavera e um novo estio; mas no momento
magnifico em que todas as flores as chamam, elas
parecem afetadas da embriaguez mortal do traba­
lho e, com as asas quebradas, o corpo amarfanha-
do, as abelhinhas parecem todas em menos de
cinco semanas.
Tantus amor florum, et generandi gloria mel-
lis! — exclama Virgilio, o qual nos transmitiu no
quarto livro das Georgicas, consagrado às abelhas,
os encantadores erros dos antigos, aqueles homens
que observavam a natureza com os olhos ainda des­
lumbrados da presença dos deuses concebidos pela
sua imaginação.
XII

Por que motivo renunciam as abelhas ao sono,


às delicias do mel, ao amor, aos doces lazeres tão
do agrado, por exemplo, de suas irmãs aladas, as
borboletas? Não podiam viver como as borbole­
tas? Não é a fome que as urge. Duas ou três
flores bastam para a alimentação de uma abelha,
42 MAURICE MAETERLINCK

e ela visita duzentas ou trezentas por hora no afã


de acumular um tesouro de que não vai gosar a
doçura. Para que tanto esforço? Donde vem
tanta convicção? Estão certas assim de que a ge­
ração pela qual elas morrem merece o sacrifício,
será mais bela e feliz, fará qualquer coisa que a
sua geração não possa fazer? Vemos o objetivo
das abelhas tão claro como o nosso: elas querem
viver em sua descendencia tanto quanto vai viver
a Terra — mas qual é o fim desse grande fim, e
qual a missão dessa existencia eternamente reno­
vada?
Quem sabe, abelhinhas, se somos nós que nos
atormentamos na hesitação e no erro, como deva-
nea.dores pueris, ao propor-vos estas questões inú­
teis? Ainda que de evolução em evolução vós vos
tornasseis onipotentes e felicissimas, chegadas às
extremas alturas de onde dominasseis as leis da
natureza, nós vos interrogaríamos ainda, e vos
perguntaríamos que esperais, para onde quereis
ir, aonde pretendeis chegar, já isentas de desejo.
Somos feitos assim; nada nos contenta, nada nos
parece ter o seu fim dentro de si mesmo, nem li­
mitar-se a existir pura e simplesmente, sem inten­
ção nenhuma. Não conseguimos até hoje crear um
só dos nossos deuses, desde o mais grosseiro até
ao mais aceitavel, sem o fazer agitar-se, sem o obri­
gar a criar uma porção de coisas, sem procurar
mil fins alem dele mesmo; e nunca nos resignamos
A VIDA DAS ABELHAS 43

a representar tranquilamente uma forma interes­


sante de atividade da matéria sem retomar logo
depois, outra forma que é a inconsciente, a desco­
nhecida, a adormida, a eterna.

xm
Mas voltemos à nossa colmeia onde o enxame
se impacienta e já desborda em ondas vibrantes,
como um vaso sonoro ao ardor do sol. E’ meio-
dia, e tio calor que faz, parece que as arvores re­
têm suas folhas, como retemos a respiração diante
duma coisa muito suave mas muito seria. As
abelhas dão ao homem que delas cuida o mel e a
cera cheirosa, e talvez lhe deem mais quando lhe
chama a atenção para a alegria de junho ou o fa­
zem gosar as harmonias dos belos meses do ano.
Todos os acontecimentos da vida das abelhas es­
tão ligados aos ceus puros, à festa das flores, às
horas mais felizes do tempo que passa. São elas
a alma do estio, o relogio marcador dos momen­
tos de abundancia, a asa diligente dos perfumes
que se expandem, a inteligencia das radiações que
pairam no ar, o murmurio das claridades que es­
tremecem, o canto da atmosfera que se estira e
repousa; e seu vôo é o sinal visivel, a nota sincera
e musical das inumeráveis pequenas alegrias que
nascem no calor e vivem na luz. Elas nos fazem
compreender a voz mais intima das boas horas
naturais. A quem as conhece e ama, um estio
44 MAURICE MAETERLINCK

sem abelhas lhe sabe tão triste e imperfeito como


se viesse sem passarinhos e sem flores.

XIV

Quem assiste pela primeira vez ao espetáculo


atordoante e desordenado da enxameação duma
colmeia bem povoada, desconcerta-se e aproxima-
se com temor. Momentos antes tinha visto as
abelhas chegarem de todos os lados preocupadi-
nhas como boas donas de casa que nada diácrai das
tarefas caseiras. Entravam na colmeia extenua­
das, apressadas, agitadas, discretamente recebendo
de passagem a leve saudação das antenas das jo­
vens amazonas de guarda à porta. Trocavam no
máximo três ou quatro palavras, provavelmente
indispensáveis, e sem demora faziam a entrega
de' sua colheita de mel às portadoras adolescentes
que estacionam no patio interior da usina; ou iam
elas mesmas levar aos vastos depositos em redor
da incubadeira os dois pelotinhos de polen ade­
ridos às suas coxas; depois retornavam à faina do
ar livre, sem se preocuparem com o que se passa­
va nas oficinas, no dormitorio das ninfas ou no pa-
lacio real, nem se imiscuírem por um instante no
movimento da praça publica que se abre diante da
entrada e que nas horas de calor se enche do zum­
bir das ventiladoras. As ventiladoras que “ fa­
zem a barba” , na expressão pitoresca dos apicul-
tores.
' • á
r~ t

' \
/
A VIDA DAS ABELHAS 45

XV

Hoje, porem, dia da enxameação, tudo está


mudado. E’ verdade que certo numero de opera­
rias prosseguem na faina de sempre, como se nada
haja de novo, e vão ao campo e voltam, e fazem a
limpeza da cidade, e penetram nas camaras de in­
cubação sem se deixar influir pela ebriedade ge­
ral. São as que têm de permanecer ali na cidade
para tomar conta dos 9 ou 10 mil ovos, das 18 mil
larvas, das 36 mil ninfas e das 7 ou 8 princesas que
ficarão na colmeia.
Não sabemos com que critério são escolhidas
para essa missão, nem por quem, nem como. Ali
se quedam tranqüila e inflexivelmente fieis. Fiz
experiencia. ‘ Marquei no povo em festa, com um
colorante, algumas daquelas gatas borralheiras,
facilmente reconheciveis pelo ar serio e um tanto
pesadão, e raramente encontrei uma delas na mul­
tidão inebriada do enxame que se partiu.

xvi
E, entretanto, o arrastamento da enxameação
parece irresistível. E’ o delirio do sacrifício, tal­
vez inconsciente, ordenado por um deus; é a festa
do mel, a vitoria da raça e do futuro; é o unico dia
de alegria, esquecimento e loucura; o unico do­
mingo das abelhas. E é tambem o dia em que elas
comem a fartar e se embriagam com a doçura do
^ ^ v r J 1 i I I I p f , ; w

46 MAURICE MAETERLINCK

tesouro acumulado. Têm o ar de prisioneiras li­


bertadas e subitamente levadas a um país de exu-
berancia e regalos. Exultam, não se contêm.
Elas, que nunca fazem um movimento inutil, vão
e vêm, entram e saem, e voltam de novo para es­
timular suas irmãs e ver se a Rainha está pronta
— e assim enganam as impaciencias da espera.
Voam muito mais alto que do costume e fa­
zem vibrar, em redor da colmeia a folhagem das
arvores. Não mostram temores nem cuidados.
Perdem a ferocidade. Deixam de ser agressivas^
desconfiadas, irritáveis, indomáveis. O homem, o
senhor que elas não reconhecem nunca, e que delas
só se utiliza quando se dobra a todos os seus hábi­
tos de trabalho, e lhes respeita todas as leis seguin­
do passo a passo aquele trabalhar para o futuro que
é irredutível nas abelhas, o homem pode aproxi-
mar-se do enxame, manter-se incólume dentro da
nevem turbilhonante e tomá-las na mão e as abe­
lhas se mostram mansas e inofensivas como uma
nuvem de libelinhas ou falenas. Felizes naquele
dia em que não possuem mais nada, submetem-se
a tudo e não atacam a ninguém — contanto que
as não separem de sua Rainha, a portadora do
Futuro.
xvn
Mas o verdadeiro sinal para a partida ainda
não está dado. Vai na colmeia uma agitação in-
A VIDA DAS ABELHAS 47

concebível e uma desordem que não podemos nos


explicar. Em tempo comum, logo que entram dos
campos, as abelhas esquecem que têm asas, e cada
qual se conserva quasi imovel sobre os favos, em­
bora não inativa, no posto que lhe é assinalado no
trabalho geral. Agora, entretanto, movem-se em
circulos compactos de alto abaixo das paredes ver­
ticais, como uma pasta viva e vibrante que mão
invisivel remexe. A temperatura interior se ele­
va rapidamente, a ponto, às vezes, de amolecer e
deformar a cera das estruturas interiores. A Rai­
nha, que habitualmente nunca sai dos favos do
centro, percorre ofegante como desvairada, a su­
perfície da multidão veemente que gira e regira.
Para apressar a partida ou retardá-la? Dá ordens
ou implora? Transmite a emoção prodigiosa ou
sofre-lhe o influxo? Do que sabemos da psico­
logia geral das abelhas deduzimos que a enxamea­
ção se faz sempre contra a vontade da velha so­
berana. No fundo, a Rainha não passa, aos olhos
das ascéticas operarias suas filhas, do orgão do
amor, indispensável e sagrado, mas um tanto in­
consciente e muitas vezes até pueril. As filhas
a tratam como a uma boa mãe tutelada. Mostram
por ela um respeito e uma ternura heróica sem
limites. Reservam-lhe o mel mais puro, de dis-
tilação especial, e que é quasi que integralmente
assimilado. Vive rodeada de uma escolta de sa-
telites ou, como diz Plinio, de litores que por ela
48 MAURICE MAETERLINCK

velam dia e noite sem cessar, e lhe facilitam o


trabalho maternal, preparam as células para seus
ovos, animam-na, acariciam-na nutrem-na, as-
seam-na e até lhes absorvem os residuos. Ao me­
nor acidente que lhe suceda, a noticia percorre to­
da a cidade, e todo o povo se agita e se lamenta.
Se a tiramos da colmeia e as abelhas não têm es­
peranças de a substituir, seja porque não ficou
descendencia predestinada, ou não existem larvas
de obreiras de menos de tres dias (estas larvas
podem, por meio duma alimentação especial, ser
transformadas em ninfas reais — grande princi­
pio democrático da colmeia que compensa as prer­
rogativas da predestinação maternal); se nestas
circunstancias privamos a colmeia da sua Rainha,
está morta a cidade. Em duas ou tres horas o
desastre cai no conhecimento de todas e o traba­
lho geral cessa. As ninfas são abandonadas, uma
parte da população erra às tontas em procura da
desaparecida, outra parte sai a procurá-la fora, as
guirlandas de operarias ocupadas em construir
os favos se rompem e se desagregam, as colhedo-
ras de mel já não procuram as flores, as sentinelas
da porta desertam de seu posto, os ladrões de mel,
sempre de ronda, invadem impunemente a col­
meia sem que nenhuma ali pense em defender um
tesouro tão laboriosamente acumulado. Pouco a
pouco a cidade se empobrece e se despovoa, e seus
habitantes, desanimados, não tardam a perecer
A VIDA DAS ABELHAS 49

de tristeza e miséria, por mais que o sol abra flo­


res lá fora.
Mas se lhes restituimos a soberana antes que
a desgraça tenha sido completa (as abelhas são
como os homens: uma desgraça e um desespero
muito prolongado lhes arruina a inteligencia e lhes
degrada o carater), o acolhimento que fazem à
reaparecida é algo extraordinario e comovente.
Todas se lhe reunem em redor, se atropelam, gal­
gam umas sobre as outras, acariciam-na de pas­
sagem com suas atenas portadoras de orgãos ain­
da inexplicados, apresentam-lhe mel escoltam-na
em tumulto até às camaras reais. A ordem da
colmeia se restabelece, o trabalho retoma seu curso
desde os favos centrais junto à incubãdeira até aos
extremos onde se amontoa o excesso das colhei­
tas, as colhedoras de mel saem em fileiras e retor?
nam às vezes em menos de tres minutos carrega­
das de nectar e polen, os ladrões de mel e parasi­
tas são expulsos ou massacrados, as ruas são var­
ridas, e toda a colmeia vibra doce e monotonamen­
te no canto feliz e tão especial que é o canto in­
timo da presença ali da Rainha.

xvm
Temos mil exemplos deste apego e deste de-
votamento absoluto das operarias à sua soberana.
Em todas as catastrofes da pequena republica —
desabamento da colmeia ou dos favos, brutalidade
50 MAURICE MAETERLINCK

ou ignorancia do homem, o frio, a fome, a própria


doença, o povo perece todo, mas a Rainha sempre
a encontramos viva entre os cadaveres das operá­
rias. E’ que todas a protegem até às ultimas, fa­
cilitam-lhe a fuga, fazem-lhe de seu corpo um ba­
luarte, lhe reservam o alimento mais são e as ulti­
mas gotas de mel. Seja qual for o desastre, en­
quanto a Rainha se mantem viva, o desanimo não
entra na cidade das “ castas bebedoras de orvalho” .
Quebrai-lhes vinte vezes seus favos, privai-as vin­
te vezes de suas ninfas e seus viveres, e não con-
seguireis fazê-las duvidar do futuro; dizimadas,
esfaimadas, reduzidas a um pequeno grupo que,
com seus corpos, mal podem esconder a Rainha
aos olhos do inimigo, elas restauram os regulamen ­
tos da cidade, dedicam-se ao mais urgente, distri­
buem-se nas tarefas de emergencia e retomam o
trabalho com um ardor, uma inteligencia, uma te­
nacidade que dificilmente encontraremos iguais na
natureza — se bem que a maior parte dos seres
mostrem mais coragem e confiança que o homem.
Para afastar o desanimo e conservar o amor,
nem é preciso que a Rainha esteja presente; basta
que haja deixado, na hora da sua morte ou da sua
partida, a mais fragil esperança de descendencia.
Diz Langstroth, um dos pais da apiculturâ moder­
na: “ Vimos uma colonia que não tinha abelhas
em numero suficiente para cobrir um favo de dez
centimetros quadrados tentar obter uma Rainha.
A VIDA DAS ABELHAS 51

Durante duas semanas mantiveram-se nessa espe­


rança; por fim, quando seu numero já estava re­
duzido à metade, a Rainha nasceu, mas com asas
imperfeitas, de modo que não podia voar. Embora
defeituosa, as abelhas a trataram com o maior ca­
rinho e respeito. Uma semana mais tarde não
existiam mais que doze abelhas — e por fim, dias
depois, a Rainha desapareceu, deixando no favo,
inconsoláveis, as ultimas sobreviventes.”
X IX

Eis aqui, entre outras, uma circunstancia nas­


cida das inauditas provações que nossa interven­
ção tiranica inflinge às infelizes mas inabalaveis
heróicas, na qual vemos até onde vai o amor filial
e a abnegação das abelhas. Mais de uma vez,
como todos os apicultores mandei vir da Italia rai­
nhas fecundadas, porque a raça italiana é melhor,
mais robustas, mais prolifica, ativa e mansa que a
nossa. Esses transportes se fazem em pequenas
caixas com orificios. Põe-se dentro alguns vive-
res e fecha-se ali a rainha em companhia de umas
tantas obreiras escolhidas entre as mais velhas
(conhecemos a idade das abelhas pelo estado das
asas e pelo corpo mais polido, mais magro e quasi
destituído de pelos); vem para nutri-la e cuidá-
la durante a viagem. Muitas vezes estas opera­
rias me chegam pela maior parte mortas; e uma
vez todas morreram de fome mas tanto desta vez
52 MAURICE MAETERLINCK

como das outras, a rainha chegou perfeita e vigo­


rosa. A ultima operaria tinha provavelmente pe­
recido depois de oferecer à sua soberana, simbo-
lo duma vida mais alta e preciosa, a ultima goti­
nha de mel que trazia de reserva no corpo.

xx
Havendo observado esta constante afeição
das abelhas pela Rainha, o homem soube tirar par­
tido do admiravel senso politico, do ardor no tra­
balho, da perseverança, da magnanimidade e da
paixão pelo futuro que dessa afeição decorrem.
Graças a isso tem podido, de uns anos a esta par­
te, e até certo ponto, domesticar as ferozes guer­
reiras, mesmo contra a vontade delas. Porque
as abelhas não cedem a nenhuma força estranha,
e na sua inconsciente subordinação áo homem não
servem senão às suas próprias leis postas a servi­
ço dele. Dispondo da Rainha, o homem tem nas
mãos a alma e os destinos da colmeia. Segundo
a maneira como a manipula, provoca ou restringe
a enxameação, reune ou divide as colonias, diri­
ge o desdobramento dos reinos. A Rainha não é
no fundo senão um símbolo vivo. E, como todos
os simbolos, representa um principio menos visi-
vel e mais amplo, que o apicultor deve ter sempre
em vista se quer evitar decepções. Alem dé que
as abelhas não se enganam nesse ponto,* e através
da rainha material não perdem de vista a Sobera­
A VIDA DAS ABELHAS 53

na Imaterial, que lhes é a ideia fixa. Que esta


ideia seja conciente ou não, isso não importa; em
qualquer ponto em que se localize — nos peque­
nos corpinhos tão frágeis ou no grande corpo in-
cognoscivel — essa ideia é digna de nossa aten­
ção. E — diga-se de passagem — se lhes dermos
atenção teremos ensejos de abrir nossos olhos com
espanto — e nada mais salutar do que abrir os
olhos.
XXI

Poderão dizer que isto não passa de conjetu-


ras muito audaciosas e humanas que provavelmen­
te as abelhas não têm nenhuma ideia desse gene-
ro; e que a noção do futuro, do amor à raça e ou­
tras, que lhes atribuímos, não passam no fundo
de formas que nas abelhas assumem a necessida­
de de viver, o medo do sofrimento e da morte, e
a atração do prazer. Concordo; tudo isto, se que­
rem, não passa dum modo de falar e pois sem mui­
ta importancia. A unica coisa certa aqui, como
a unica coisa certa em tudo quanto sabemos, é que
é possiveí verificar que em tal ou tal circunstan­
cia as abelhas se conduzem para com a Rainjia
de tal ou tal modo. O resto é um mistério sobre
o qual só podemos fazer conjeturas mais ou me­
nos agradaveis, mais ou menos engenhosas. Mas
se falassemos dos homens como falamos das abe­
lhas, teriamos acaso o direito de dizer mais? Tam-
54 MAURICE MAETERLINCK

bem nós só obedecemos às nossas necessidades, à


atração do prazer ou ao horror ao sofrimento, e
o que chamamos nossa inteligencia tem a mesma
origem e a mesma missão do que chamamos ins­
tinto nos animais. Réalizamos certos atos dos
quais supomos conhecer os efeitos; submetemo-
nos a còisas das quaiss pretendemos penetrar as
causas melhor do que as penetram os animais;
mas alem dessas suposições não repousarem em
nada inabalavel, esses atos são raros e minimos,
em comparação com a enorme quantidade de ou­
tros que se realizam em trevas profundas e onde
parece que somos tão cegos como supomos cegas
as abelhas.
X X II

Temos de admitir — escreveu algures Buffon,


que tinha pelas abelhas uma divertida aversão
— que individualmente essas moscas tem menos
engenho que o cão, o macaco e a maior parte dos
animais; e que têm menos docilidade, menos ape­
go, menos sentimento, menos qualidades com as
nossas, em suma; e sua inteligencia aparente sur­
ge com o se reunirem em multidão. Mas essa
mesma reunião não implica nenhuma inteligen­
cia, porque não é por motivos morais que elas se
reunem. A sociedade das abelhas, pois, não passa
dum ajuntamento fisico, ordenado pela natureza
e independente de qualquer conhecimento ou ra-
A VIDA DAS ABELHAS 55

ciocinio. A Rainha-mãe produz dez mil indiví­


duos ao mesmo tempo e no mesmo lugar; esses dez
mil indivíduos ainda que sejam mil vezes mais es­
túpidos do que os suponho tinham de arranjar-se
de algum modo para sobreviver. Como todos
agem com forças iguais, ainda que tivessem come­
çado prejudicando-se, à força de se prejudicarem
chegaram em breve a se prejudicar o menos pos-
sivel, isto é, a se ajudarem; daí a aparência de se
entenderem e concorrerem para o mesmo fim; o
observador logo lhes atribuiria intenções e o dis­
cernimento que lhes falta; procuraria uma razão
para cada ato praticado; cada movimento das abe­
lhas terá seu motivo — e daí sairam maravilhas,
ou verdadeiras monstruosidades de raciocínio.
Porque esses dez mil indivíduos formados ao mes­
mo tempo não podem deixar de fazer a mesma coi­
sa, e por pouco sentimento que neles haja não po­
dem deixar de ter hábitos comuns — de se arru­
marem, de se ajeitarem lá entre si, de se ocupa­
rem da casa que moram, de a ela voltarem depois
de saírem, etc. — e dai vem a arquitetura, a geo­
metria, a ordem, a previdencia, o amor à patria;
daí vem a republica, em suma, fundada, como se
vê, na admiração do observador.”
Eis um modo contrario de explicar as nossas
abelhas. Mas explicará alguma coisa? Salto por
cima dos erros materiais dessa pagina de Buffon,
mas o se acomodarem assim de modo a se preju-
56 MAURICE MAETERLINCK

dicarem o menos possivel não requererá certa in­


teligencia, que parecerá tanto mais possivel quan­
to mais de perto examinarmos de que modo esses
“ dez mil indivíduos” evitam prejudicar-se e che­
gam a entre ajudar-se? E não é isso a nossa pró­
pria historia? O que o diz velho naturalista irri­
tado não se aplica exatamente a todas as socieda­
des humanas? Nossa sabedoria, nossas virtudes,
nossa politica — rudes frutos da necessidade que
a nossa imaginação dourou — não têm outro fim
senão tirar partido de nosso egoismo, encami­
nhando para o bem comum a atividade natural­
mente nociva de cada individuo. E, depois, ain­
da uma vez, se não querem que as abelhas tenham
as ideias e sentimentos que lhes atribuimos, se se
julga imprudente que admirarmos as abelhas,
admiraremos a natureza — e ninguém poderá con­
denar a nossa admiração.
XXXII

Seja como for, e para não abandonar nossa


conjetura, a qual tem pelos menos a vantagem de
ligar em nosso espirito atos evidentemente liga­
dos na reahdade, o que as abelhas adoram é mui­
to mais o futuro da raça representado na Rainha
do que a própria Rainha. As abelhas não são sen­
timentais; quando uma volta do trabalho grave­
mente ferida, de modo a já não ser de utilidade
nenhuma, as outras a expulsam sem misericórdia
A VIDA DAS ABELHAS 57

— e no entanto revelam uma especie de apego


pessoal pela Rainha. Reconhecem-na entre todas.
Ainda quando velha, miserável, estropiada, as sen­
tinelas da porta não permitem nunca que uma es­
tranha, por mais bela, jovem e fecunda que seja,
penetre na colmeia. E’ verdade que isso é uma
regra geral da politica das'abelhas, só derrogada
nas epocas de grande safra, quando uma operaria
estrangeira aparece bem carregada de mel e polem.
Se a Rainha se torna completamente esteril,
substituem-na por uma princesa real de criação
ali. Mas que fazem da velha soberana? Não sa­
bemos com exatidão, embora alguns apicultores
tenham encontrado em certas colmeias uma rai­
nha magnfiica, na flor da idade, e no fundo, num
recinto escuro, a antiga “ dona de casa” , com di­
zem na Normandia, magra e entrevada. Parece
que nestes casos as abelhas a protegem até às ul­
timas contra o odio de sua vigorosa rival moça,
que só pensa em destrui-la; as rainhas detestam-
se à fundo, e atracam-se quando existem duas
num mesmo reino. No caso da rainha velha pa­
rece que as abelhas lhe proporcionam um fim de
vida humilde e pacifico, num recanto da colmeia.
E temos aqui um dos mil enigmas das cidades de
cera, reveladores de que a politica e os hábitos
das abelhas não são de nenhum modo fatais e em­
perrados, pois que obedecem a muitos moveis mais
complicados do que os que julgamos conhecer.
58 MAVRICE MAETERLINCK

XXIV

A cada momento perturbamos leis naturais


que às abelhas devem parecer inabalaveís. Po-
mò-las na situação em que nos encontraríamos se
alguem suprimisse de subito em redor de nós as
leis da gravidade, do espaço, da luz, da morte.
Que farão elas, pois, se introduzirmos na colmeia,
à força ou manhosamente, uma segunda rainha?
E’ caso que, naturalmente, talvez nunca se haja
dado desde que existem abelhas no mundo, em
virtude da perpetua defesa das sentinelas. Mas
provocado artificialmente pelo homem, as abelhas,
diante desse fato novo, não se afobam, e sabem
conciliar da melhor maneira dois principios que
a colmeia respeita como ordens divinas. O pri­
meiro é o da Maternidade Unica, principio que
não é inflingido nunca, a não ser em caso de este­
rilidade. O segundo é mais curioso ainda, se não
pode ser infringido, pode ser ladeado, por assim
dizer judaicamente. E’ o da Inviolabilidade de
todas as rainhas, sejam quais forem. Seria facil,
na intromissão promovida pelo homem, cravar na
intrusa mil aguilhões envenenados; ela pereceria
imediatamente e o problema se reduziria a lan­
çar-lhe o cadaver fora da colmeia. Mas embora
as abelhas tenham o ferrão sempre pronto e dele
se sirvam com frequencia já para combaterem en-<
tre si, já para destruirem os machos, os inimigos
A VIDA DAS ABELHAS 59

e os parasitas, elas nunca o dirigem contra uma


rainha, do mesmo modo que a rainha jamais di­
rige o seu ferrão contra o homem, nem contra um
animal ou uma abelha comum. Sua arma real,
recurva em forma de cimitarra, só sai da bainha
para combates de igual para igual — isto é, com
outra rainha.
Nenhuma abelha ousando assumir a responsa­
bilidade de um regicidio direto, quando a boa or­
dem e prosperidade da republica o exigem, elas se
esforçam por dar ao regicidio a aparência de mor­
te natural, subdividindo o crime ao infinito e desse
modo tomando-o anonimo.
“ Embolam” a soberana intrusa, para me ser­
vir de uma expressão técnica dos apicultores, isto
é, envolvem-na inteiramente com seus corpinhos
entrelaçados, formando uma prisão viva onde a
prisioneira não pode mover-se; e conservam-na
assim até 24 horas, se for preciso — ou até que'
morra de fome ou asfixiada.
Se, farejando uma rival, a rainha legitima se
aproxima nesse momento, as abelhas soltam a in­
trusa e se reunem em semi-circulo em redor das
duas rivais; não tomam parte na luta, limitam-se
a seguir muito atentas o duelo. Porque só tuna
rainha pode desembainhar o aguilhão contra ou­
tra; só à que traz nos flancos quasi um milhão de
vidas tem o direito de, com um golpe, produzir
quasi um milhão de mortes.
60 MAURICE MAETERLINCK

Nesses duelos, se a luta se prolonga sem re­


sultado, porque os dois aguilhões recurvos desli-
sam sem penetrar sobre as pesadas couraças de
chitina, às vezes uma delas, a legitima ou a intru­
sa, faz menção de fugir; as espectadoras agarram-
na e embolam-na, e assim a mantêm até que se
decida a retomar a luta. Convem acentuar que
em numerosas experiencias feitas a vitoria sem­
pre coube à rainha reinante, seja pelo fato de que,
sentindo-se em casa, tenha mais audacia e ar­
dor, seja porque as obreiras, tão imparciais du­
rante a luta, são-no menos quando embolam as
duas lutadoras. A rainha reinante sai sempre a
mesma de uma embolada; já a intrusa sai visivel­
mente estropeada e tonta...

xxv
Uma experiencia facil mostra como as abe­
lhas reconhecem sua rainha e têm por ela verda­
deiro apego. Tirai-a da colmeia e vereis se pro­
duzirem todos os fenomenos de angustia e deses­
pero que descrevemos atrás. Recolocai-à ali ho­
ras depois e todas as suas filhas lhe virão ao en­
contro com ofertas de mel. E abrem-lhe alas à
passagem; outras, baixando a cabeça e erguendo
o abdômen, formam diante dela grandes semi-
circulos imóveis mas sonoros, com os quais can­
tam sem duvida o Hino do Feliz Regresso, assi*
A VIDA DAS ABELHAS 61

naládor nos ritos reais do respeito solene ou da


felicidade suprema.
Mas não esperai enganá-las com a substitui­
ção da rainha legitima por uma estrangeira. Ape­
nas dará ela alguns passos na colmeia, e as obrei­
ras, indignadas, começarão a acudir de todos os
lados. E a estrangeira será imediatamente embo­
lada — operação em que as abelhas envolventes
se vão revesando. O fim é sempre a morte da
intrusa.
Daí a dificuldade do apicultor na introdução
e substituição de rainhas. Curioso ver quanta
diplomacia, quantas astúcias complicadas tem o
homem de desenvolver para impor sua vontade a
esses pequeninos insetos tão perspicazes. Sempre
de boa fé, as abelhas aceitam com uma coragem
comovente os fatos mais imprevistos, neles não
vendo, aparentemente, senão um capricho novo,
mas fatal, da natureza. E nesses passes é sempre
com o admiravel senso pratico das abelhas que o
apicultor conta, e com o seu inesgotável tesouro
de leis, os seus maravilhosos hábitos de vida, o
seu amor à ordem, à paz, ao bem publico, a sua
fidelidade ao futuro, a sua firmeza, o desinteresse
tão serio de seu carater, e sobretudo com a cons-
tancia no cumprimento do dever de que elas não
se desviam nunca. Mas a exposição detalhada
62 MAURICE MAETERLINCK

destes processos só cabe aos tratados de apicul-


tura; aqui nos levariam muito longe. (*)

XXVI

Quanto à afeição pessoal de que falamos, se é


provável que exista, tambem é certo que tem a
memória curta; se pretendemos restabelecer no
trono uma rainha que esteve exilada alguns dias,
as abelhas a recebem com “ embolamento” , como
se fosse uma estrangeira. A razão é que, durante
a ausência da exilada, tiveram tempo de rtansfor-
mar em células reais uma duzia de células de

(*) A regra é encerrar a rainha estrangeira em uma gaio-


linha de arame suspensa entre dois favos. A gaiolinha é mu­
nida de uma porta de cera e m el que as obreiras roem, e assim
dão vasão à cólera; e roida a porta está libertada a prisioneira,
que muitas vezes elas acolhem sem malevolencia. Simmins, o
diretor do grande eolmeal de Rottingdean, encontrou recente­
mente um m eio muito simples e de muito resultado. O que
torna a introdução da rainha d ificil é a atitude desta. Apa­
vora-se, foge, esconde-se, conduz-se com o uma intrusa, des­
perta suspeitas que o enxame das obreiras não tarda a confir­
mar. Simmins imaginou primeiramente isolar a rainha a ser
introduzida, depois faze-la jejuar por meia hora. Em seguida
levanta um canto da coberta interior da colmeia orfã e a de­
posita no topo dum dos favos. Desesperada em virtude do
isolamento anterior, a rainha se sente feliz de ver-se de novo
rodeada de abelhas; e esfaimada, aceita avidamente o m el que
lhe oferecem. As operarias, iludidas por aqueles modos, não
entram a examiná-la detidamente — imaginam que é a mesma
rainha antiga que voltou e a acolhem com alegria. Desta ex-
periencia parece resultar que, ao contrario do que supunha
Huber, elas não sejam capazes de reconhecer sua rainha. As
duas hipóteses são igualmente plausíveis, mas pode ser que
a verdade se encontre em uma terceira, ainda não formulada.
A VIDA DAS ABELHAS 63

obreiras, de modo que a raça já não corre nenhum


perigo.
O apego das abelhas à rainha cresce propor­
cionalmente ao grau em que esta representa o
futuro. Assim, quando uma rainha virgem de­
sempenha a perigosa cerimonia do “ vôo nupcial” ,
é tal o receio entre suas súditas de perdê-la, que;
todas a acompanham naquela tragica e remota
procura do amor — assunto de que logo me ocupa­
rei; mas já não fazem o mesmo quando lhes da­
mos um fragmento de favo contendo células com
ninfas ainda no ponto de serem viradas em rai­
nhas. E o apego pode ainda transformar-se em
furor e odio, se a soberana não desempenha a
contento seus deverés para com a divindade abs­
trata, que é a Sociedade Futura, por elas muito
mais vivamente concebida do que por nós. Em
casos em que o apicultor, por qualquer razão, im­
pede a rainha de juntar-se ao enxame, retendo-a
na colmeia por meio duma rede de arame por
cujas malhas passam livremente as operarias, mas
não ela, muito mais corpulenta, na primeira saí­
da, ao perceberem que a rainha não as seguiu, às
abelham voltam e admoestam-na, e maltratam-
na, como acusando-a de indolência ou fraqueza
de espirito. Na segunda saída voltam de novo,
e considerando bastante evidente a má vontade
da soberana em acompanhá-las, enfurecem-se e
chegam até às sevicias. E na terceira saída, jul-
64 MAVRICE MAETERLINCK

gando-a irremediavelmente infiel ao seu destino e


ao futuro da raça, condenam-na à morte por em-
bolamento.
XXVII

Como se vê, tudo está subordinado ao futuro


da raça, com uma previdencia, uma harmonia,
uma inflexibilidade e uma habilidade para enfren­
tar as circunstancias, e delas tirar partido, que
nos causam a maior admiração, sobretudo quando
tomamos em conta todo o imprevisto, todo o so­
brenatural, que a nossa intervenção impõe à col­
meia. No caso da rede de arame, poder-se-á dizer
que elas interpretam muito mal a impotência da
rainha em segui-las. Seriamos nós mais perspi­
cazes se uma inteligencia de ordem superior e
servida de um corpo tão grande que seus movi­
mentos fossem como os fenomenos naturais, se di­
vertisse èm nos armar ciladas desse tipo? Não
levamos milhões de anos para arranjar uma expli- \
cação do raio, suficientemente plausivel? Toda
inteligencia entorpece quando sai da sua esfera, ;
sempre pequena, e se vê diante de acontecimentos
que não foram desencadeados por ela mesma. E
ademais não sabemos que sucederia se a expe-
riencia da rede de arame se generalizasse; talvez
elas acabassem por compreender e obviar o incon­
veniente.; Já resolveram as abelhas outros pro­
blemas desse tipo e souberam sair-se com muito
engenho. A prova das “ gavetinhas” ou “ seções” ,
por exemplo, nas quais as obrigamos a armazenar
o mel em pequenas caixas simetricamente empi­
lhadas, e mais ainda no caso da cera “ gaufrée” ,
em que os alvéolos são esboçados num fino con­
torno de cera e elas os concluem sem perda de ma­
terial nem de trabalho. E por acaso não desco­
brem em todas as circunstancias naturais a melhor
e unica solução humana? No caso duma lesma
ou dum camondongo que se insinua na colmeia e
íá encontra a morte, que fazem elas para se de­
sembaraçarem de um cadaver que breve estará
envenenando o ambiente? Se não podem deitá-lo
fora reduzido a pedaços, envolvem-no hermetica-
mente num verdadeiro esquife de cera ou própo-
lis, que lá fica bizarramente no seio das estrutu­
ras da cidade.
O ano passado encontrei em uma das minhas
colmeias um conjunto de tres destes esquifes, se­
parados por paredes-meias, de modo a economizar
cera o mais possivel. As prudentes coveiras ha­
viam enquistado assim tres pequenos caramujos
que uma criança travessa lá introduzira. Em re­
gra, quando se trata de caramujo, elas costumam
obturar apenas o orificio da carapaça; mas neste
meu caso, como as carapaças estavam quebradas,
tiveram o cuidado de envolvê-las totalmente. E
para não prejudicar o vai-e-vem da entrada, abri­
ram naquela tranqueira um certo numero de ga­
66 MAURICE MAETERLINCK

lerias de transita, exatamente proporcionadas não


ao talhe das obreiras, mas ao dos machos, que são
maiores. E pois que agem assim, não será justo
admitirmos que, no caso da rede de arame, aca­
bariam compreendendo por que motivo a rainha
não pode segui-las? ’As abelhas revelam um sen­
so muito seguro das proporções e do espaço neces­
sário a um corpo para mover-se. Nas regiões in­
festadas pela hedionda Acherontia atropus, a ma­
riposa com desenho de caveira nas asas, elas cons-
troem à entrada da colmeia colunatas de cera,
através das quais essa depredadora noturna não
pode introduzir o seu gordo abdômen.
XXVIII

E basta neste assunto, porque do contrario


não teriam fim os exemplos. Resumimdo, quanto
ao papel e à situação da rainha, cabe-nos dizer que
ela é o coração-escravo da cidade, cercado pela
inteligencia. E’ a soberana unica, mas tambem
a regia servà da raça, a depositaria cativa e a de­
legada responsável do amor. Seu povo a serve
e venera mas sem esquecer-se de que não é à sua
pessoa que se submete e sim à missão que ela de­
sempenha e aos destinos que representa. Onde
uma republica humana assim? Uma democracia
em que a independencia seja ao mesmo tempo tão
perfeita e razoavel, e sujeição mais total e jus­
tificada? E onde os sacrificios sejam mais duros
A VIDA DAS ABELHAS 67

e absolutos? Não se deduza daqui que eu admire


esses sacrifícios tanto quanto admiro seus resul­
tados. Muito mais desejável que fossem obtidos
com menos sofrimento, com menos renuncia.
Mas uma vez aceito o principio das abelhas — e
talvez seja ele necessário no pensamento do nos­
so planeta — sua organização é admiravel. Seja
qual for neste ponto a verdade humana, na col­
meia a vida não é encarada como uma serie de
horas mais ou menos agradaveis, das quais não é
prudente levar a serio demais senão os momentos
indispensáveis à sua manutenção, mas como um
grande dever comum, severamente distribuido,
para com um futuro que se afasta sem cessar des­
de o começo do mundo.
Cada abelha renuncia à metade de sua feli­
cidade e de seus direitos. A rainha diz adeus à
luz do dia, à corola das flores e à liberdade; as
obreiras renunciam ao amor, a quatro ou cinco
anos de vida e à doçura de serem mães. E a rai­
nha ainda vê seu cerebro reduzido a nada em pro­
veito dos orgãos de reprodução, orgãos que nas
obreiras se atrofiam ém beneficio da inteligência.
Não séria justo sustentar que a vontade não entra
nestas renuncias. E’ bem certo que a obreira não
pode mudar seu proprio destino, mas dispõe de
todas as ninfas da colmeia, suas filhas indiretas.
Já vimos que cada larva de obreira, se criada e
nutrida sob o regimen real, pode desenvolver-se
68 MAURICE MAETERLINCK

em rainha; e vice-versa, cada larva real, com o re­


gem alimentar mudado, desenvolve-se em obrei­
ra. Estas prodigiosas determinações se operam
todos os dias no escuro dourado das colmeias. Não
se efetuam ao acaso, mas com uma sabedoria cuja
lealdade e gravidade profunda só o homem pode
perturbar, uma sabedoria sempre alerta que faz
ou desfaz a escolha conforme o que se passa dentro
ou fora da colmeia. Se flores imprevistas abun­
dam de repente, se a encosta ou as margens do rio
resplendem de novas messes, se a rainha se mostra
menos fecunda, se a população cresce muito e de­
termina congestionamento, veremos formarem-se
mais células reais. Essas células poderão ser des-
truidas se a colheita não for boa ou se a colmeia
é ampliada.
Outras vezes são mantidas até que a jovem rai­
nha haja realizado seu vôo nupcial, para serem
aniquiladas logo que ela retorne à cidade trazen­
do, como um troféu, o sinal irrecusável da fecun­
dação. Onde reside a sabedoria que desse modo
pondera o presente e o futuro, e para o qual o que
ainda não está visivel tem mais peso do que o que
está? Qnde se situa essa prudência anônima que
discerne e renuncia, que eleva ou rebaixa, que de
certo numero de obreiras pode fazer outras tan­
tas rainhas e que de tantas mães faz um povo de
virgens? Atrás dissemos que se acha no Espirito
da Colmeia — mas onde localizar esse espirito se­
f

A VIDA DAS ABELHAS 69

não na assembleia das obreiras? Talvez para ve­


rificar que é na assembleia que esse espirito resi­
de não seja necessário observar tão atentamente
os hábitos da republica. Talvez baste, como fez
Dujardin, Brandt, Girard Vogel e outros entomo-
logos, examinar ao microscopio, ao lado do cranio
um pouco vasio da soberana e do magnifico chefe
dos machos, a cabecinha feia e triste da operaria.
Veremos que justamente nesta cabecinha apare­
cem as circunvoluções do cerebro mais desenvol­
vido da colmeia. E é mesmo o mais belo, o mais
complicado e delicado, o mais perfeito dentro do
seu tipo, que existe na natureza depois do do ho­
mem. (*)
Aqui, como em todo o mundo que conhecemos,
onde está o cerebro está a autoridade, a verdadei­
ra força, a sabedoria e a vitoria. Temos tambem
aqui um atomo quasi invisivel dessa misteriosa
substancia que domina e organiza a matéria, é que
sabe criar-se vim lugarzinho triunfante e durável
no meio das potências tremendas e inertes do nada
e da morte.

(*) O cerebro da abelha, segundo os cálculos de Dujar­


din, constitue a 174.a parte do peso total do inseto; o da formi­
ga, a 296.a. Em compensação, os "corpos pedunculados” que
parecem aumentar conforme a inteligencia vai superando o ins­
tinto, são mais desenvolvidos na formiga do que na abelha.
Uma coisa compensando outra, talvez possamos concluir que
o valor intelectual das abelhas e das formigas devem equi-
valer-se.
70 MAUR1CE MAETERLINCK

X X IX

Mas voltemos à nossa colmeia, que se pre­


para para a enxameação e não esperou o fim des­
tas considerações para dar começo ao exodo. No
momento em que soou o sinal da partida, parece
que todas as portas da cidade se abrem ao mesmo
tempo, movidas de um impulso repentino e insen­
sato; e a multidão alada se evade, ou, antes, se
projeta, em jactos, segundo o numero de abertu­
ras — dois, tres, quatro — tensos, vibrantes, inin­
terruptos, que se fundem no espaço em sonora
nuvem de cem mil freneticas asinhas transpa­
rentes. Durante alguns minutos flutua assim sa­
bre a colmeia, num prodigioso murmurio de gases
diafanás que mil dedos eletrizados esgarçassem e
recompusessem continuamente. Ondula, hesita,
palpita como um veu d’alegria que mãos trans­
parentes sustentassem no ar, dobrando-o e desdo­
brando-o desde as flores até o azul, à espera dum
acontecimento augusto. Por fim parte desse veu
se abaixa e outra parte se eleva, os quatro cantos
cheios de sol do radioso veu sonoroso se juntam
— como esses tapetes inteligentes que para satis­
fazer a um desejo atravessam o horizonte nos
contos de fadas — e se dirige todo, e já dobrado
afim de recobrir a sagrada presença do futuro,
rumo à tilia, à pereira ou ao salgueiro em que a
Rainha acaba de se fixar com uma tacha de ouro
A VIDA DAS ABELHAS 71

— e ali uma a uma pousam aquelas ondinhas mu­


sicais.
Sobrevem o silencio. Aquele veu temivel
que parecia urdido da inumeráveis ameaças, de
incontáveis coleras, e aquele ensurdecedor chuvi-
lho de ouro que, sempre em suspenso, vibrava
sem parar sobre todos os objetos dos arredores,
tudo isso se transfez, um minuto depois, no gordo
cacho inofensivo e pacifico suspenso a um galho
de arvore, cacho formado de milhares de bagas
vivas, mas imóveis, que pacientemente esperam a
volta das investigadoras partidas em procura dum
abrigo.
xxx
E’ a primeira etapa da enxameação, o “ enxa­
me primário” , à frente do qual sempre se encon­
tra a Rainha velha. Pousa geralmente sobre a
arvore ou arbusto mais proximo, porque, pesada,
com seus ovos e não tendo tornado a ver a luz de­
pois do vôo nupcial ou da enxameação do ano an­
terior, a Rainha ainda hesita em lançar-se no es­
paço, como ignorante da função das asas.
O apicultor espera que o cacho esteja bem cer­
rado no ramo onde pousou, e com a cabeça coberta
por um chapeirão de palha (a abelha mais inofen­
siva inevitavelmente recorre ao ferrão quando se
embáraça em nosso cabelo, supondo-o um laço),
mas sem mascara ou veu (se tem experiencia),
72 MAURICE MAETERLINCK

depois de haver mergulhado em agua fria os bra­


ços nus até aos cotovelos, recolhe o enxame com
fortes sacudidelas do ramo para dentro dum cor­
tiço. O cacho cai pesadamente na caixa, como um
fruto maduro. Ou então, se o ramo não se deixa
sacudir, raspa-o com uma colher para dentro da
caixa. Nada tem a temer das que lhe revoam em
redor ou lhe cobrem o rosto e os braços.
O zumbido, agora, inebriado, não lembra o
zumbido da colera. Tambem não ha a recear que
o enxame se divida, se irrite e se dissolva na dis­
persão. Naquele dia as misteriosas obreiras mos­
tram um espirito de festa e confiança que nada
consegue alterar. Como se desligaram dos bens
que tinham de defender, já não reconhecem ini­
migos. Tornam-se inócuas de tanto que se sen­
tem felizes — e são felizes sem saber por que: ou
porque cumprem a lei. Todos os seres gosam
assim dum momento de felicidade cegá que a na­
tureza lhes proporciona quando quer atingir seus
fins. Não nos admiremos que as abelhas se dei­
xem iludir; nós tambem nos deixamos iludir, ape­
sar de dispormos de um cerebro mais perfeito, e
ignoramos se a natureza é benevolente, indiferen­
te ou cruel.
O enxame ficará onde a rainha pousou; e se
ela cair sozinha no recipiente, assim que as abe­
lhas o perceberem todas para lá se dirigirão; e
enquanto a maior parte entra precipitadamente,
A VIDA DAS ABELHAS 73

inúmeras se detêm à entrada, formando os circulos


de alegria solene com que costumam saudar os
acontecimentos felizes. O “ toque de caixa” , di­
zem os camponeses. Aquele inesperado abrigo é
aceito e explorado em todos os seus recantos; sua
posição no colmeal, sua forma e sua côr são regis­
trados na memória de milhares de criaturinhas.
Os pontos de referencia dos arredores são anota­
dos. A nova cidade já está inteira naquelas cora­
josas imaginações, com a localização marcada no
espirito e no coração de todas. Ressoa em intra-
muros o hino do amor à Rainha e o trabalho co­
meça.
XXXI

Se o homem o não recolhe, a historia do en­


xame já é outra. O cacho de abelhas fica ali no
ramo até que voltem as que no começo partiram
em todas as direções em procura do abrigo ade­
quado. Uma a uma voltam essas investigadoras
e dão conta da sua missão; e como nos é impossi-
vel penetrar o pensamento das abelhas, temos’que
interpretar à humana a cena. E’ pois provável
que as que ficaram com a Rainha ouçam atenta­
mente o relato das investigadoras. Uma preconi­
zará as vantagens dum oco de arvore que ela des­
cobriu em tal parte; outra gabará uma fenda de
muro, ou cavidade em gruta, ou fojo abandonado.
Acontece às vezes que a assembleia hesita e per­
74 MAURICE MAETERLINCK

manece em deliberação até o dia seguinte. Mas


afinal a escolha se faz, firma-se o acordo, e em
certo momento o cacho se agita, formiga, entra a
desagregar-se, expande-se — e num vôo impetuo­
so e continuo, que não conhece obstáculos, vara
vedos, corta campos de trigo ou linho, galga la­
goas, aldeias, rios e vai em linha reta rumo a um
ponto determinado, sempre muito longe. E’ raro
que o homem possa seguir um enxame nesta se­
gunda etapa. As abelhas voltam à natureza e ele
perde o traço de seu destino.
LIVRO III

A FUNDAÇÃO DA CIDADE

I
Vejamos agora como age o enxame que o api­
cultor recolheu numa caixa, mas antes relembre­
mos o sacrificio realizado pelas cincoenta mil vir­
gens que, segundo Ronsard,

Pottent un gentil coeur dedans un petit corps


e admiramos tambem a coragem que demonstram
nesse recomeçar a vida no deserto, onde se lega­
lizaram. Esquecem-se da cidade opulenta onde
o nectar de todas as flores amigas do sol lhes per­
mitia sorrir das ameaças do inverno. Lá deixaram
em seus bercinhos de cera as milhares de irmãs
que nunca mais tomarão a ver. E, alem do enor­
me tesouro em cera, em própolis e polen por elas
acumulado, deixaram mais de 50 quilos de mel,
isto é, doze vezes o peso de todas elas somadas, ou
perto de 6000 mil vezes o peso de cada uma delas.
Isso representa em escala humana 42 mil tonela-
76 MAURICE MAETERLINCK

das de viveres, ou toda umã frota de grandes na­


vios carregados do alimento mais precioso e per­
feito que existe, pois o mel representa para as abe­
lhas uma espécie de vida liquida — substancia ime­
diatamente assimilavel e que quasi não deixa re-
siduos.
Ali na morada nova não ha nada — nem uma
gota de mel, nem uma isca de cera, nem um ponto
de referencia ou de apoio. E’ a triste nudez dum
monumento imenso com apenas o teto e as pare­
des. Aquelas paredes circulares e lisas só encer­
ram sombras, e lá em cima a abóbada.
Mas as abelhas não perdem tempo com lamú­
rias inúteis, ou pelo menos não se detêm. Seu ar­
dor, em vez de abater-se diante de uma prova para
qualquer outro ser desalentadora, aviva-se ainda
mais: Assim que a colmeia se firma e o tumulto
da mudança enfra a sossegar, uma divisão de tra­
balho muito nitida e inesperada se estabelece. A
maior parte, como um exercito bem disciplinado
que atende a ordens precisas, põe-se a subir em
colunas cerradas pelas paredes da morada nova.
Chegadas ao topo, as primeiras que o alcançam a
ele se aferram com as patas anteriores; as que che­
gam em seguida agarram-se às primeiras e assim
por diante até que se formem pontes para a mul­
tidão que vai subindo sempre. Pouco a pouco es­
sas pontes se multiplicam, se reforçam, se entre­
laçam; fazem-se guirlandas que com a ascenção
A VIDA DAS ABELHAS 77

ininterrupta se transformam por sua vez em cor­


tina espessa e triangular, ou, antes, numa especie
de cone invertido e compacto, cujo apice se prende
ao teto e cuja base desce, alargando-se, até metade
ou dois terços da altura total da colmeia. E então,
depois que a ultima abelha, como que chamada
por uma voz interior, se integrou no cone erguido
nas trevas, o movimento para; e durante horas,
num silencio religioso e na mais impressionante
imobilidade, as abelhas se absorvem no mistério da
elaboração da cera.
Durante esse tempó, sem se preocupar com
aquilo, as abelhas que ficaram na base examinam
a situação e empreendem as tarefas mais urgentes.
O chão é cuidadosamente limpo; todas as fo­
lhas secas, cisquinhos e grãos de areia são lança­
dos fora. As abelhas levam o asseio até à mania,
chegando a ponto de, no inverno, quando o frio
extremo as impede de efetuar o que os apiculto-
res chamam “ o vôo de asseio” , chegam a perecer
em massa, vitimas de horríveis doenças intesti­
nais, só para não sujar a colmeia com suas deje-
ções. Já os machos se revelam incorrigivelmente
desleixados, sujando os favos que freqüentam e
obrigando as obreiras a segui-los constantemente,
para efetuar a limpeza.
Depois da varrição, as operarias que não to­
mam parte na cerimonia da cera começam a exa­
minar minuciosamente as bases das paredes do
78 MAURICE MAETERLINCK

abrigo. Todas as fendas são obturadas com o pró-


polis, todas as paredes envernizadas. Organiza-se
a guarda da porta — e as disponiveis partem para
os campos em busca do primeiro nectar e do pri­
meiro polen.
ii

Antes de mais nada atentemos na inteligência,


na justeza do golpe de vista, na industria e nos
cálculos necessários para adequar o abrigo, traçar
os planos da cidade nova, marcar logicamente o
lugar das estruturas a serem construidas o mais
economica e rapidamente possivel, porque a Rai­
nha, congesta de ovos, já começa a derramá-los
pelo chão. E*'preciso, alem disso, naquele dedalo
de construções varias, ainda apenas imaginadas,
não perderem de vista as leis da ventilação, da
estabilidade e da solidez; hão que considerar a re-
sistencia da cera, a natureza dos viveres a arma­
zenar, a facilidade dos acessos, os hábitos da Rai­
nha, a localização (de algum modo preestabele-
cida, porque é organicamente a melhor) dos depo-
sitos, dos recintos de moradia, das ruas e passa­
gens, e tantos outros problemas que seria longo
enumerar.
Ora, a forma dos cortiços que os homens pro­
porcionam às abelhas varia ao infinito, desde os
ocos das arvores ou a vasilha de barro ainda em
uso na Africa e na Asia, e o velho cortiço de palha
A VIDA DAS ABELHAS 79

em forma de campana, que vemos debaixo das


janelas ou nas hortas da maior parte de nossas
quintas, até às verdadeiras usinas da apicultura
moderna, onde se acumulam às vezes mais de
150 quilos de mel contido em tres ou quatro an­
dares de recipientes moveis. O apieultor os tira
como a gavetas, e depois de extraido o mel pelos
processo da centrifugação os recoloca de novo,
como fazemos nas bibliotecas com os livros lidos.
O capricho ou industria do homem introdu­
ziu um dia o enxame, tão docil, numa dessas ha­
bitações para elas inéditas, e as abelhas tiveram
de avir-se ali, de se orientarem, de modificar seus
velhos planos na aparência imutáveis e de marcar
naqueles recintos imprevistos a situação dos ar­
mazéns de inverno, que não podem sofrer mais
que um certo grau de calor; tiveram enfim de pre­
ver, sob pena de desastre, o ponto de concentra­
ção das larvas e ninfas, o qual não pode ficar
muito alto nem muito baixo, nem muito perto nem
muito longe da porta. Aquelas abelhas teriam
saido talvez dum tronco de arvore caida, onde a
colmeia se desdobrava em horizontal, estreita e
como esmagada, e ei-las agora numa estrutura
vertical como uma torre, e cujo teto se perde nas
trevas. Ou então já estavam ha séculos acostu­
madas a viver sob a cupula de palha dos velhos
cortiços dos nossos camponios e ei-las metidas
muna especie de armario ou cofre grande, tres ou
80 MAURICE MAETERLINCK

quatro vezes maior que a colmeia anterior e no


meio duma superposição de gavetas ora paralelas,
ora perpendiculares à entrada, formando um con­
junto de andares que rompem todas as superfí­
cies da morada nova.

m
Não importa. Não ha exemplo de enxame
que haja recusado pôr-se ao trabalho ou desani­
mado diante da bizarria das circunstancias, sem­
pre que a habitação nova é aceitavel e não está
impregnada de mau cheiro. Nestes casos a razão
do abandono não é o desanimo, a renuncia ao de­
ver, sim a inhabitabilidade do abrigo que lhe
deram. Tambem não ha caso das abelhas exe­
cutarem um trabalho absurdo ou pueril; ou que,
tendo perdido a cabeça, ou não sabendo que par­
tido tomar, hajam empreendido ao acaso constru­
ções sem razão de ser. Colocai-as numa esfera,
num cubo, numa pirâmide, num cesto oval ou po­
ligonal, num cilindro ou numa espiral e visitai-as
dias depois; vereis que, aceita a estranha morada,
a multidão de pequenas inteligências independen­
tes soube sem demora entrar em acordo para a
escolha do ponto mais propicio e às vezes o unico
lugar utilizável naquele habitaculo absurdo; e isso
com um metodo cujos principios parecem inflexi-
veis mas cujos resultados são vivos.
Quando as instalamos num grande cortiço
moderno, elas só pedem àqueles tabuleiros moveis
pontos de partida e de apoio para seus favos, e é
bem natural que não se preocupem com os desejos
ou as intenções do homem. Mas se o apicultor
teve o cuidado de forrar com cera o teto dos ta­
buleiros, elas imediatamente compreenderão as
vantagens daquele trabalho iniciado, afeiçoando-
se à cera ali posta e irão metodicamente construin­
do no plano indicado. Do mesmo modo —•como
é tão freqüente na apicultura de hoje — se todos
os tabuleiros do cortiço estiverem guarnecidos de
cera moldada, elas não perderão tempo em cons­
truir ao lado ou de revés; e ncontrando o trabalho
já começado, prosseguem nele, limitando-se a re­
tificar o que não estiver na mais rigorosa vertical;
e desse modo conseguem em menos de uma se­
mana uma cidade tão bem cíonstruida como a que
abandonaram, realizando assim, nesse curto es­
paço de tempo, o que de outro modo requereria
de dois a tres meses de trabalho.
IV

Parece que este espirito de aproveitamento


excede de muito os limites do instinto — alem de
que nada mais arbitrario que as nossas distinções
entre instinto e inteligencia. Sir John Luuu^J-,
que fez sobre as formigas, as vespas e as abelhas
observações tão pessoais e curiosas, é levado, tal­
vez por uma predileção inconsciente pelas formi­
gas, justamente o inseto que ele mais observou
— porque cada observador quer que o da sua
predileção seja mais notável que os outros, e é
bom levarmos em conta este favoritismo — Lub-
bock inclina-se a recusar às abelhas qualquer dis­
cernimento ou faculdade raciocinante quando elas
saem de seus trabalhos habituais. E demonstra
isso com uma experiencia que todos podemos re­
petir. Introduzindo-se numa garrafa meia duzia
de moscas e meia duzia de abelhas, e voltando-se
o fundo da garrafa para a janela, as abelhas ficam
horas, até que morram de cansaço ou inanição, a
lutar para sair pelo fundo, ao passo que as moscas
em menos de dois minutos escapam pelo gargalo.
Disso conclui o sabio inglês que a inteligencia da
abelha é extremamente limitada, e que a mosca é
muito mais habil em descobrir o verdadeiro ca­
minho. Esta conclusão' não me parece inataca-
vel. Se mudardes vinte vezes a posição da garra­
fa, vinte vezes as abelhas se voltarão para o lado
da luz. O que as perde nessa experiencia é o
amor à luz; evidentemente imaginam que em to­
das ás prisões a saida está sempre do lado da luz
mais forte, e em consequencia agem com muita
logica. Não conhecem esse mistério sobrenatural
que para elas é o vidro transparente, essa atmos­
fera impenetrável que não existe na natureza; e
aquele misterioso obstáculo deve ser-lhes tão inad-
A VIDA DAS ABELHAS 83

missivel quanto mais inteligentes elas forem. Já


as moscas, tontas que são, sem se preocuparem
com a logica, com o apelo da luz ou com o enigma
do vidro, debatem-se na garrafa às tontas, e com a
sorte dos simples que muitas vezes se salvam onde
perecem os sabios, acabam necessariamente por
encontrar saida pelo gargalo.
v
O mesmo naturalista dá outra prova da falta
de inteligencia das abelhas com a citação duma
pagina do venerando e paternal apicultor ameri­
cano Langstroth. “ Como as moscas, diz Langs-
troth, não foram chamadas a viver sobre as flores
e sim sobre substancias nas quais se podem afo­
gar, elas pousam com precaução a beira dos vasos
contendo alimentos liquidos e sugam-nos pruden­
temente, ao passo que as abelhas a eles se lançam
e perecem. O trágico fim das primeiras que pe­
recem desse modo não detem as que vêm em se ­
guida, pois que pousam como loucas sobre os ca-
daveres boiantes ou as moribundas, e perecem
tambem. Só quem viu uma confeitária assaltada
por milhares de abelhas famintas pode fazer ideia
da extensão da loucura das abelhas. Vi milhares
retiradas de xaropes em que se haviam afogado,
vi outras tantas pousarem em calda de açucar em
ebulição, e vi o chão coberto, e as vidraças obs-
eurecidas, de abelhas a se arrastarem ou se deba­
84 MAURICE MAETERLINCK

terem, outras tão completamente empegajadas de


melaço que nem podiam se arrastar; nem uma em
dez consegue sair dali com a sua carga de açucar,
e no entanto o ar vibra continuamente de legiões
de novas abelhas tão insensatas como as vindas
antes.”
Imagine-se um observador extra-humano que
quisesse medir o nosso grau de inteligencia com
base em observações dum campo de batalha ou
nos destroços que faz nos homens o alcoolismo. A
situação da abelha, se a comparamos à nossa, é es­
tranha neste mundo. Seu destino é viver no seio
da natureza indiferente e inconsciente, e não ao
lado de um ser extraordinario que em redor delas
revoluciona as leis naturais mais constantes e cria
fenomenos grandiosos e incompreensiveis. Den­
tro da ordem natural, na vida monotona das flores­
tas, o delirio que Langstroth descreve não seria
possivel, salvo no caso de um acidente que der-
ruisse uma colmeia e derramasse todo o mel. Mas
nesse caso não haveria as janelas mortais, nem
caldas de açucar muito grossas ou a ferver, e pois
nada das mortes e outros desastres que vitimam
todo ser que persegue uma presa.
Guardaríamos o nosso sangue-frio se uma po­
tência insólita tentasse a cada momento a nossa
razão? E’-nos pois muito dificil julgar as abe­
lhas que por artes nossas enlouquecem e cuja in­
teligencia não se acha armada para aprender os
A VIDA DAS ABELHAS 85

nossos embustes, do mesmo modo que a nossa não


estaria armada para penetrar os de um ser supe­
rior que hoje não existe mas pode vir a existir.
Não conhecendo nada que o domine, o homem
conclui que ocupa o posto supremo da vida na
terra — mas isto não é indiscutivel. Não digo que
quando praticamos loucuras ou infamias estamos
sob o dominio dum genio superior — mas não é
inVerossimil que isto um dia pareça verdadeiro.
Por outro lado não se pode razoavelmente susten­
tar que as abelhas sejam destituidas de inteligen­
cia pelo fato de ainda não nos distinguirem do go­
rila ou do urso e nos tratarem como tratariam es­
ses ingênuos habitantes das florestas virgens. Ha
em nós e em redor de nós influencias e potências
tão dissemelhantes que nós tambem não estabele­
cemos a distinção.
E para terminar esta apologia, na qual eu
tambem incido no defeito que atribui a Sir John
Lubbock, pergunto se não é necessário ter inteli­
gencia para ser capaz de tão grandes loucuras. E’
o que sempre se dá nesse dominio incerto da inte-
gencia, que é o estado mais precário e vacilante
da matéria. No mesmo campo da inteligencia está
a paixão, da qual não sabemos dizer se é o fumo
ou a mecha da chama. E no caso das abelhas a
paixão é bastante nobre para esculpar as vacilações
da inteligencia. O que as impele à imprudência
não é a ansia animalesca de se refartarem de mel.
86 MAVRICE MAETERLINCK

Podiam-no fazer à vontade nos celeiros da colmeia.


Observai-as, segui-as em uma circunstancia ana-
loga, e as vereis, logo que têm o papo cheio, irem
à colmeia, largarem lá a colheita e voltarem à fon­
te maravilhosa, trinta vezes numa hora. Temos
aqui o mesmo movei de tantas obras admiraveis:
o zelo em carrear para a cidade de suas irmãs, com
vistas no futuro, a maior quantidade de provisões
possivel. Quando a loucura dos homens revela
uma causa assim desinteressada, nós lhe damos
um nome diferente.

VI

Mas digamos toda a verdade. No meio dos


prodigios de sua industria, de sua politica e de suas
renuncias, uma coisa nos surpreenderá sempre nas
abelhas, interrompendo a nossa admiração: a indi­
ferença pela morte ou desgraça das companheiras.
Ha no caráter desses insetos uma estranha dupli­
cidade. No seio da colmeia todas se amam e se
ajudam. São tão unidas como os bons pensamen­
tos duma mesma alma. Se maltratais a uma de­
las, mil se sacrificarão para vingar a ofensa. Mas
fora da cidade não se conhecem. Mutilai, esmagai
num favo colocado a alguns passos da colmeia dez
ou vinte abelhas; as outras que nada sofreram vêm
retirar do favo a substancia que lhes é mais pre­
ciosa que a vida, com a mais absoluta indiferença
pelas que foram vitimadas. E quando o favo esti-
A VIDA DAS ABELHAS 87

ver vazio, retirarão tambem o mel que estiver ade­


rido às vitimas, sem se convencer com a dor que as
tortura. Não revelam nesse caso nem o temor do
perigo que destruiu suas irmãs nem o menor sen­
timento de piedade ou solidariedade. Quanto ao
perigo, não é de admirar, porque no mundo a abe­
lha só teme a fumaça. Ao sair da colmeia aspira,
ao mesmo tempo que o azul, a longanimidade e a
condescendencia. Afasta-se do que a incomoda e
afeta ignorar a existencia do que a não molesta
muito de perto. Dir-se-ia que sabe estar num uni­
verso pertencente a todos, onde cada qual tem o
seu lugar e pois onde convem mostrar-se discreta
e pacifica. Mas sob essa indulgência oculta-se um
coraçãozinho tão seguro de si que nem sequer pro­
cura afirmar-se. Desvia-se se alguem a ameaça,
mas não foge nunca. Já na colmeia não se limita
a esta passiva ignorancia do perigo. Projeta-se
com inaudita impetuosidade contra qualquer ser
vivo — formiga, homem ou leão — que ouse tocar
na arca santa. Conforme a nossa disposição de
espirito, chamamos a isto colera, encarniçamento
estúpido ou heroismo.
Mas quanto à falta de solidariedade fora da
colmeia, e mesmo à falta de simpatia dentro, não
ha nada que dizer. Deveremos acaso admitir que
ha desses limites imprevistos em qualquer espécie
de inteligencia, e que a pequena chama que brota
com tanto custo de um cerebro, através da com-
88 MAVRICE MAETERLINCK

bustão de tantas matérias inertes, seja sempre tão


incerta que não ilumina bem vim ponto senão com
prejuizo de muitos outros? Podemos dizer que
a abelha, ou a natureza na abelha, organizou dum
modo mais perfeito do que em nenhum outro ser
o trabalho em comum e o culto e o amor ao futuro.
Será então por este motivo que ela perde de vista
tudo mais? As abelhas amam o futuro e nós ama­
mos sobretudo o presente que nos rodeia. Talvez
que o amar aqui não deixe sobras de amor para o
alem. Nada mais variavel que a direção da cari-
dade ou da piedade. Nós mesmos outrora nos te­
ríamos impressionado menos que hoje desta in ­
sensibilidade das abelhas, e talvez muitos antigos
não se lembrassem de acusá-las. Ademais, po­
deríamos nós prever todas as surpresas dum ente
que nos observasse como nós observamos as abe­
lhas?
VII

Para fazermos uma ideia mais nitida da inte­


ligencia das abelhas temos de examinar de que
modo se comunicam entre si. Claro que se en­
tendem, pois uma republica tão numerosa e cujos
trabalhos variam tanto e são tão maravilhosamen­
te combinados, não poderia subsistir sem esse en­
tendimento. Elas devem pois ter a faculdade de
exprimir seus pensamentos ou sentimentos por
meio duma linguagem fonica ou, mais provável-
A VIDA DAS ABELHAS 89

mente, por meio duma linguagem tactil, ou duma


intuição magnética que exija sentidos ou proprie­
dades da matéria que em absoluto desconhecemos
— intuição cuja sede talvez se localize nas miste­
riosas antenas que apalpam e compreendem as
trevas e que, segundo os cálculos Cheshire, são
formadas de doze mil pêlos tácteis e cinco mil ca­
vidades olfativas. O que prova que não só se en­
tendem quanto aos trabalhos habituais, mas tam­
bem quanto às coisas extraordinarias, é a maneira
pela qual uma noticia boa ou má, comesinha ou
sobrenatural, se espalha na colmeia: a perda ou
o regresso da Rainha, a queda dum favo, a entra­
da de um inimigo, o aparecimento de uma rainha
estrangeira, a aproximação dum bando de inva­
sores pilherengos, a descoberta de um tesouro,
etc. Diante de cada um destes acontecimentos, a
atitude é a zoada das abelhas são tão diferentes,
tão características, que o apicultor de longa ex-
periencia adivinha o que se está passando dentro
da colmeia.
Se quereis uma prova mais precisa, observai
a abelha que descobre umas gotas de mel no pei­
toril de vossa janela ou num canto da mesa. De
começo se regalará tão avidamente que podereis
marca-la na cintura com uma pinta. Mas aquela
gulodice é aparente. Aquele mel não vai para o
seu estomago individual: fica no papo, ou no pri­
meiro estomago, que podemos considerar o esto-
J

90 MAURICE MAETERLINCK

mago da comunidade. Logo que esse reserva-


torio se enche, a abelha afasta-se, mas não preci­
pitadamente como faria a mosca ou a borboleta.
Afasta-se aos recuos, num vai-e-vem atento, em
redor da mesa ou no quadro da janela, o rosto sem­
pre voltado para a sala. E’ que está prestando
atenção àqueles lugares e fixando na memória a
posição exata do tesouro. Depois vai à colmeia,
esvasia o papo nos celeiros e volta minutos depois
para colher nova dose na sala providencial. De
cinco em cinco minutos, enquanto houver mel, e
até ao cair da tarde, se for preciso, ela, sem inter­
romper-se, sem descansar, fará assim viagens re-
gulares da janela à colmeia e da colmeia à janela.

VIII

Não desejo colorir a verdade como o têm feito


muitos que escrevem sobre as abelhas. As obser­
vações neste campo só têm interesse quando ab­
solutamente sinceras. Eu podia admitir que as
abelhas são incapazes de compreender certas coi­
sas, e em troca desta pequena decepção me rega­
laria com o prazer de verificar mais uma vez
que é o homem, afinal de contas, o unico ser de
fato inteligente que habita o nosso globo. Mas
chegados a certa idade temos mais gosto em dizer
coisas verdadeiras do que surpreendentes. Se a
verdade nua e crua parece, no momento, menos
nobre, menos interessante do que a ornamentada
A VIDA DAS ABELHAS 91

com todos os enfeites, isso vem de ainda não po­


dermos apreender a relação sempre admiraveí en­
tre ííosso ser e as leis do universo; e neste caso
não é a verdade que precisa ser engrandecida e
nobilitada , sim a nossa inteligencia.
Confessarei, pois, que muitas vezes as abelhas
marcadas voltam sozinhas, o que nos leva a admitir
que ha entre elas as mesmas diferenças de carater
que notamos entre os homens: uns são discretos,
outros palradores. Alguem que assistia às minhas
experiencias sustentava que era, evidentemente,
por egoismo ou vaidade que muitas não revelavam
às outras a fonte daquele mel imprevisto e que lá
na colonia deviam achar miraculosa. Falhas, pois,
que maream a lealdade da colmeia. Mas tambem
acontece que a abelha marcada retorna à fonte de
mel acompanhada de duas ou tres companheiras.
Sei que Sir John Lubbock, no apendice de seu li­
vro Ants, Bees and Wàsps, traça longos e minu­
ciosos quadros de observações, das quais conclui
que quasi nunca outra abelha segue a marcada.
Ignoro a que especie de abelhas se refere o natu­
ralista inglês, ou se as circunstancias eram parti­
cularmente desfavoraveis. Meus quadros, feitos
cuidadosamente e depois de tomadas todas as pre­
cauções para que as outras não fossem atraidas
pelo cheiro do mel, mostraram que em quatro ve­
zes sobre dez a abelha marcada voltava com ou­
tras companheiras.
92 MAVRICE MAETERLINCK

Certo dia uma abelhinha italiana que marquei


na cintura com uma pinta azul voltou com duas ir­
mãs. Retive a estas, deixando sozinha a marca­
da, a qual levou sua segunda carga de mel à col­
meia e voltou com mais tres amigas — e assim
prossegui na experiencia até que à tarde me vi
com 18 prisioneiras — ou 18 companheiras às
quais ela havia comunicado a existencia daquela
fonte de mel.
Em resumo, se fizerdes as mesmas experien-
cias verificareis que a comunicação, se não é cons­
tante, é pelo menos freqüente — fato notorio entre
os caçadores de abelhas americanos, que dele se
utilizam para localizar colmeias selvagens.
Diz Josiah Emery, citado na Inteligencia dos
Animais de Romanes, t. I. p. 117: “ Os caçadores
escolhèm um campo ou floresta longe de qualquer
criação de abelhas domésticas, e apanhando as que
encontram por ali a visitar as flores encerram-nas
em um recipiente com mel; depois que elas se re-
pastam, soltam-nas. Um momento de espera,
maior ou menor, conforme a distancia em que se
acha a colmeia selvagem, e por fim aquelas abelhas
voltam, seguidas de varias companheiras. O ca­
çador repete a manobra; apanha-as, encerra-as no
recipiente com mel para que se fartem e solta-as
em pontos diferentes, tendo o cuidado de observar
a direção que tomam. O ponto para onde elas con­
vergem designa aproximadamente a posição da
colmeia procurada.”

IX

Observareis tambem nessas experiencias que


as amigas chamadas pela descobridora do mel não
vôam sempre juntas, havendo muitas vezes um
intervalo de segundos entre as diversas chegadas.
Seria conveniente, neste ponto, formular a questão
que Lubbock resolveu quanto às formigas.
As companheiras que aparecem depois que a
descobridora do mel surge na colmeia com a pri­
meira carga, seguem-na apenas ou vem por indi­
cação da portadora? A diferença é grande. O
sabio inglês, com ajuda dum aparelho complicado
e engenhoso, composto de corredores, passadiços,
poças d’agua e pontes suspensas, conseguiu esta­
belecer, no caso das formigas, que estas apenas
seguem a pista da indicadora. Esta experiencia
é possivel para as formigas, que podemos fazer
passar por onde queiramos, mas as abelhas vôam
e pois têm todos os caminhos abertos. Cumpre
recorrer a outro expediente. Vou referir um que
usei e não deu resultados decisivos, mas que aper­
feiçoado pode ser de bom proveito.
Meu gabinete de trabalho, no campo, encon­
tra-se no primeiro andar, acima dum andar terreo
bastante elevado. Fora do tempo da floração das
tilias e castanheiros, as abelhas raro vôam àquela
94 MAURICE MAETERLINCK

altura, de modo que conservei em minha mesa,


por mais de uma semana, um favo de mel com as
células abertas sem que uma só aparecesse a visi­
tá-lo. Tomei então de uma colmeia envidraçada
não longe dali uma abelha italiana e a levei para
meu gabinete, onde a depus sobre o favo e a mar­
quei enquanto se regalava.
Logo que encheu o papo, voltou à sua colmeia,
seguida por mim, e lá a vi mergulhar a cabeça nu­
ma celula, deixar cair o mel e dispor-se a sair no­
vamente. Ali de tocaia, apanhei-a logo que apa­
receu à entrada e armou vôo. Repeti vinte vezes
a experiencia, com vinte abelhas diferentes, sem­
pre aprisionando a “ marcada” afim de que as ou­
tras não lhe pudessem seguir a pista. Para maior
comodidade coloquei na porta da colmeia uma
caixa de vidro dividida por um alçapão em dois
compartimentos. Se a abelha marcada saía só, eu
a aprisionava, como havia feito com a primeira, e
voltava para meu gabinete para esperar a chegada
de outras às quais ela podia ter comunicado a sua
descoberta. Se ela saía acompanhada de uma ou
duas, eu a retinha no primeiro compartimento, se­
parando-a assim de suas amigas, e depois de mar­
car a estas com pinta de côr diferente, soltava-as
e seguia-as. Nada mais claro que se uma comuni­
cação verbal ou magnética tivesse sido feita, com
indicação dum roteiro, eu tinha de encontrar em
meu gabinete as abelhas desse modo instruídas.
A VIDA DAS ABELHAS 95

Mas devo confessar que só vi chegar uma. Puro


acaso ou teria recebido informações da descobri-
dora? A observação era insuficiente, mas as cir­
cunstancias não me permitiram prosseguir. Li­
bertei então as abelhas descobridoras e imediata­
mente meu gabinete se encheu dum banho ao
qual elas haviam ensinado, segundo seu metodo
habitual, o caminho do tesouro descoberto. ' (*)
x
Sem nada concluir desta experienciá incom­
pleta, muitos outros traços nos obrigam a admitir
que as abelhas mantem entre si relações espiri­
tuais que vão alem do “ sim” ou do “ não” , ou des­
sas relações elementares que um gesto ou o exem­
plo determinam. Podemos citar, entre outros, a
movimentada harmonia do trabalho na colmeia,
a surpreendente divisão das tarefas e a faina regu­
lar tão característica. Muitas vezes verifiquei
que as operarias que eu tinha marcado pela ma­
nhã se ocupavam ao meio-dia — salvo se as flores
fossem muito abundantes — em aquecer ou ven­
tilar a incubadeira, quando não as descobria na
(*) Recomecei essa experienciá nos primeiros dias desta
primavera ingrata, e obtive o mesmo resultado negativo. Por
outro lado um apicultor meu amigo, observador muito habil e
sincero, ao qual submeti o problema, me escreveu que havia
obtido quatro casos de comunicação irrecusáveis. O fato exige
mais verificação, porque o problema ainda está de pé. Receio
que meu amigo tenha errado em consequencia de seu desejo
muito natural de ver bem sucedida a experienciá.
96 MAURICE MAETERLINCK

misteriosa elaboração da cera. Observei tambem


que as operarias que eu vira recolher polem du­
rante um dia ou dois, deixavam de o fazer no dia
seguinte, passando a carregar nectar— e vice-
versa.
Podemos citar ainda, neste ponto da divisão
do trabalho, o que o celebre apicultor francês
Georges de Layens chama distribuição das abelhas
sobre as plantas meliferas. “ Cada dia, às primei­
ras horas do sol, logo que chegam as investigado­
ras saidàs com a aurora, a colmeia ouve as boas
noticias de lá fora: “ As tilias à beira do canal
estão em flores” — “ o trevo branco ilumina a bei­
ra dos caminhos” — os lirios e resedás estão car­
regados de polen” Depressa! E’ preciso se orga-
nizarem, tomarem medidas, partirem para a fai­
na. Cinco mil das mais robustas irão esvoaçar
sobre as tilias; tres mil das mais jovens, sobre o
trevo branco. Estas, que ontem sugavam o mel
nas corolas, irão hoje, para descansar a lingua
e as glandulas do papo, recolher o polen vermelho
dos resedás ou o polen amarelo dos lirios — por­
que nunca vereis uma abelha recolher polen de
côres ou especies diferentes; e a metódica acomo­
dação nos celeiros dessa bela farinha perfumada
é uma das preocupações das abelha. Logo depois
as trabalhadoras saem em longas filas e voam di­
retamente para a sua missão. Parece, diz Layens,
que as abelhas são perfeitamênte esclarecidas
A VIDA DAS ABELHAS 97

quanto à localidade, valor melifero e distancia de


todas as plantas numa certa distancia da colmeia.
“ Se notarmos cuidadosamente as varias di­
reções que tomam as trabalhadoras, e se obser­
varmos em detalhe a colheita operada nas plan­
tas dos arredores, verificaremos que elas se dis­
tribuem proporcionalmente ao numero de plan­
tas duma mesma especie e à sua riqueza nectari-
na. E, mais: medem cada dia o valor do melhor
nectar que possam colher.
Se, por exemplo, na primavera, depois da flo-
rada dos salgueiros, no momento em que ainda
não se abriram as flores do campo, as abelhas só
dispõem das primeiras flores da floresta, ve-las-
emos visitar ativamente as anemonas, as pulmo-
narias, os junquilhos e violetas. E quando dias
depois florescem os campos de couve ou de colza,
as abelhas abandonam completamente a flores­
ta, embora lá não faltem flores, para se consagra­
rem às couves e à colza.
Cada dia elas se distribuem assim sobre as
plantas, de modo a recolher o melhor nectar no
menor espaço de tempo que possam.
Podemos dizer que na colonia das abelhas,
tanto nos trabalhos de campo como nos de interior,
elas sabem estabelecer uma distribuição racional
de trabalhadoras e aplicam o principio da divisão
do trabalho.”
7
98 MAURICE MAETERLINCK

XI

Mas, dirão, que nos importa que as abelhas


sejam mais ou menos inteligentes? Por que mo­
tivo pesar assim com tanto cuidado essas partí­
culas de matéria quasi invisíveis, como se se tra­
tasse de algo de que dependesse o destino dos ho­
mens?
Sem nada exagerar, acho que o interesse que
temos nisso é de bastante valor. Se encontrar­
mos fora de nós inteligencia verdadeira, experi­
mentaremos um pouco da emoção de Robinson ao
descobrir pegadas humanas na praia da sua ilha.
Sentir-nos-emos menos sós do que o supunhamos.
Quando estudamos a inteligencia das abelhas, é
a mais preciosa da nossa substancia que nelas es­
tudamos — atomo dessa matéria extraordinaria
que onde quer que opere tem a propriedade mag­
nífica de transfigurar as necessidades cegas, orga­
nizar, embelezar e multiplicar a vida, manter em
suspenso a força obstinada da morte e a grande
onda que rola quasi tudo quanto existe numa in­
consciência eterna.
Se fossemos os unicos a possuir e manter uma
parcela de substancia nesse estado de floração e
incandescencia que chamamos inteligencia, tería­
mos algum direito de nos supor privilegiados, ha­
vendo a natureza atingido em nós uma especie de
fim; mas ha outra categoria de. seres, os hime-
A VIDA DAS ABELHAS 99

nopteros, onde ela atinge um fim idêntico. Isto


não resolve nada, se querem, mas esse fato não
deixa de ocupar um lugar honroso na multidão de
pequenos fatos que contribuem para esclarecer
nossa situação neste mundo. Existe nesse fato,
dum certo ponto de vista, uma contraprova da
parte mais indecifrável do nosso ser — ha nele
superposições de destino que nós dominamos
dum ponto mais elevado que nenhum dos atingi­
dos na contemplação dos destinos do homem. Ha
ali, em redução, linhas grandes e simples que ja ­
mais teriamos ocasião de perceber e seguir até o
fim, em nossa desmesurada esfera humana. Ve­
mos ali o espirito e a matéria, a especie e o indivi-
duo, a evolução e a permanencia, o passado e o fu­
turo, a vida e a morte, tudo acumulado numa par­
tícula que nossa mão ergue no ar e nós abarcamos
dum volver d’olhos; e podemos nos pergutar se a
potência dos corpos e o lugar que ocupam no tem­
po e no espaço modificam, na proporção que su­
pomos, a ideia secreta da natureza — ideia que nos
esforçamos por apreender tanto na historia da col­
meia, secular fem alguns dias, como na grande his­
toria dos homens, entre os quais tres gerações já
ocupam todo um longo seculo.
xn
Voltemos à historia de nossa colmeia, onde as
abelhas arrumadas em cone começam a enxamear
100 MAURICE MAETERLINCK

uma substancia quasi tão branca como a neve e


mais leve que a penugem. Porque a cera ao nas­
cer não lembra a que conhecemos: é imaculada,
seín peso, parece verdadeiramente a alma dò mel,
o qual é por sua vez o espirito das flores. A alma
do mel surge numa evocação encantada, imóvel,
para transformar-se mais tarde em recordação
sem duvida da sua origem, onde ha tanto azul,
tanto perfume, tanta pureza e magnificência — na
perfumada luz dos cirios de nossos últimos altares.
xrn
Muito dificil seguir as diversas fases da se­
creção da cera e seu emprego, num enxame que
começa a construir Uma cidade nova. Tudo se
passa no intimo da aglomeração das abelhas, bas­
tante densa para produzir o calor necessário a
essa exhudação que é um privilegio das mais jo­
vens. Huber, o primeiro que estudou o fenome-
no, com paciência- incrivel e correndo perigos às
vezes serios, a ele consagra mais de 250 paginas
interessantes, embora forçosamente confusas. Co­
mo não estou escrevendo uma obra técnica, limi-
tar-me-ei, apoiando-me em Huber quando tiver
necessidade, a contar o que todos que recolhem um
enxame num cortiço de vidro podem ver.
xrv
Cumpre confessar, antes de mais nada, que
ignoramos por meio de que alquimia o mel se
A VIDA DAS ABELHAS 101

transforma em cera no corpo todo enigma de nos­


sas abelhas suspensas em forma de guirlanda.
Apenas podemos verificar que ao cabo de 18 a 24
horas, em temperatura tão elevada que parece ha­
ver fogo dentro da colmeia, surgem finas escamas
brancas e transparentes na abertura de quatro
bolsinhas situadas lado a lado do abdômen das
abelhas.
Quando a maior parte das que formam o cone
invertido se mostram assim como o abdômen aga-
loado de escamasinhas côr de marfim, uma delas,
subitamente e como que tomada de inspiração,
destaca-se do bloco, sobe rapida por ele acima até
à abóbada do cortiço e lá se apeia solidamente,
afastando com a cabeça as visinhas que lhe estor­
vam os movimentos. Toma então com as patas
uma das oito escamasinhas do abdômen e a amas­
sa com a boca, misturando-a com a saliva —
amassa, amassa; e quando sente que a substancia
está bem malaxada e da consistência requerida,
gruda-a na aboboda, dando assim começo à estru­
tura da nova cidade — uma cidade que ao contra­
rio das nossas se forma de cima para baixo.
Depois faz o mesmo às outras escamasinhas
de seu abdômen; concluido o trabalho, retoca-o
com a lingua e as antenas — e tão apressada como
veio volta e se perde na multidão.
Logo a seguir, outra abelha a substitui e con­
tinua a obra no ponto em que a primeira deixou,
102 MAURICE MAETERLINCK

corrige-a no que não lhe parece conforme com a


planta ideal da colmeia e por sua vez se some na
multidão. E vem uma terceira, uma quarta —
e assim por diante, numa serie de aparições inspi­
radas e súbitas, nenhuma concluindo a obra, to­
das lhe trazendo a sua contribuição.
xv
Um grumo de cera ainda informe vai desse
modo crescendo na abóbada de cortiço. Quando
chega a certo tamanho, destaca-se do cone uma
abelha de aspecto sensivelmente diverso. Diante
de sua determinação e da deferencia das que a ro-
deam lembra uma especie de engenheira ilumina­
da que marca ali o lugar da primeira celula, da
qual dependerão matematicamente todas as ou­
tras. Essa abelha pertence à classe das esculto­
ras ou cinzeladoras, que não produzem cera mas
constroem com o material que lhe fornecem. Es­
colhe o ponto da primeira celula, escava a cera ali
e afeiçôa os rebordos básicos da primeira celula
da cidade nova. Depois faz como as outras: re-
tira-fse apressada e uma obreira impaciente a subs­
titui, retomando a obra que uma terceira acaba­
rá, enquanto outras atacam a construção dos ou­
tros lados, sempre naquele revesamento continuo.
Parece que é lei da colmeia a divisão do orgulho
de trabalho, para que toda obra seja comum e anô­
nima e não deixe de ser fraternal.

A VIDA DAS ABELHAS 103

XVI

Breve estará visivel o favo nascente. E’ ain­


da lenticular, porque os pequenos tubos prismá­
ticos que o compõem, desigualmente prolongados,
espandem-se, em degradação regular, do centro
para as extremidades. Naquele momento aquilo
tem a aparência e a espessura duma lingua huma­
na, formada, nas duas faces, de células hexago-
nais justapostas e encostadas.
Construidas as primeiras células, as “ funda­
doras” fixam na abóbada um segundo grumo de
cera, e terceiro, e um quarto. Esses grumos se
distribuem calculadamente, de modo que quando
os favos estiverem construidos, o que só aconte­
cerá muito mais tarde, as abelhas terão espaço
para circular entre as paredes paralelas.
E’ preciso pois que em seu plano elas preve-
jam a espessura definitiva de cada favo, que é de
22 a 23 milimetros, e ao mesmo tempo a largura
das ruas que os separam, mais ou menos 11 mili-
metros, isto é, o dobro da altura de uma abelha,
já que entre os favos terão de se cruzar, costas
com costas.
As abelhas, entretanto, não se mostram infa-
liveis — não revelam certeza maquinai. Em cir­
cunstancias dificeis cometem às vezes grandes
erros, como o de deixarem entre os favos espaço
demais ou de menos. A esses erros elas atendem,
104 MAVRICE MAETERLINCK

no segundo caso fazendo inclinar o favo, e no pri­


meiro intercalando um favo irregular. “Acontece-
lhes às vezes se enganarem, diz Réaumur, e isso
constitue uma das provas de que raciocinam e de­
liberam.”

XVII

As abelhas constroem quatro tipos de célu­


las. As reais, que constituem exceção e se asse­
melham a uma bolota de carvalho; as grandes, re­
servadas à criação de machos e armazenamento de
provisões quando as flores superabundam; as pe­
quenas, que servem de berço às operarias e de de-
positos comuns, ocupando normalmente cerca de
oito décimos da superfície construída da colmeia;
e, finalmente, para ligação harmoniosa das gran­
des com as pequenas, constroem um certo nume­
ro de células de transição. À parte a inevitável
irregularidade destas ultimas, as dimensões das
outras células são tão bem calculadas, que quan­
do foi do estabelecimento do sistema decimal e os
sabios procuravam pelo mundo um padrão fixo,
Réaumur propos o alvéolo da abelha. (*)

(*) Foi rejeitado e não sem motivos. O diâmetro dos


alvéolos é duma admiravel regularidade, mas como tudo quanto
sai dum organismo vivo, não é matematicamente invariavel na
mesma colmeia. Alem disso, como observou Maurice Girard,
as diversas especies de abelhas apresentam um apótema de
alvéolo distinto, o que faria que o padrão variasse de uma
especie para outra.
A VIDA DAS ABELHAS 105

Cada um desses alvéolos tem a forma de um


hexágono assente em base piramidal, e cada favo
é constituído de duas camadas de tubos opostos
pela base, de modo que cada um dos tres lozangos
que formam a base piramidal de uma celula de
um lado, forma ao mesmo tempo a base piramidal
de tres células do outro lado.
E’ nestes tubos prismáticos que armazenam o
mel; e para evitar que escorra durante o periodo
da maturação, o que inevitavelmente aconteceria
se fossem perfeitamente horizontais, as abelhas
os inclinam levemente, num angulo de quatro a
cinco graus.
“ Alem de economia de cera, diz Reaumur ao
considerar o conjunto dessa maravilhosa constru­
ção, resultante da disposição das células, e do fato
das abelhas encherem daquele modo o favo sem
deixar nenhum espaço vazio, ha ainda a vantagem
da solidez da obra. O angulo do fundo de cada
celula, o vertice da cavidade piramidal, é susten­
tado pela aresta que formam os dois lados do he­
xágono de outra celula. Os dois triângulos ou
prolongamentos das faces hexagonais, que enchem
um dos ângulos reentrantes da cavidade compre­
endida pelos tres lozangos, formam um angulo
plano no lado em que se tocam; cada um desstes
ângulos, que é concavo dentro da celula, süstenta
do lado da sua convexidade uma das laminas em­
pregadas para formar o hexágono de outra celula,
106 MAURICE MAETERLINCK

e a lamina que se apoia sobre este angulo neutra­


liza a força que tende a empurrá-los para fora, de
modo que os ângulos assim se fortalecem. Todas
as vantagens desejáveis quanto à solidez de cada
células são obtidas pela sua própria figura geomé­
trica e pelo modo como as células são dispostas
umas em relação às outras.”

XVIII

“ Os geometras sabem, diz o Dr. Reid, que só


existem tres tipos de figuras adotaveis para divi­
dir uma superficie em pequenas seções semelhan­
tes, de forma regular e do mesmo tamanho, sem
que sobrem interstícios. São o triângulo equila-
teral, o quadrado e o hexágono regular, sendo este,
no relativo à construção das células, a forma de
maior vantagem quanto à comodidade e resisten-
cia. Ora, é justamente a hexagonal a forma que
as abelhas adotam, como se conhecessem todas as
suas vantagens. Assim tambem o fudo das célu­
las se compõe de tres planos que se encontram
num ponto, forma que — está demonstrado — é
o sistema de construção permissor de maior econo­
mia de trabalho e material. Ha ainda a questão
de saber que angulo de inclinação redunda em
maior economia; este problema de alta matematica
foi resolvido por varios sabios, entre eles Maclau-
rin, cuja solução se acha nos anais da Sociedade
Real de Londres. (*) Ora, o angulo determinado
por esses cálculos corresponde ao escolhido pelas
abelhas.”

X IX

Não creio que as abelhas se entreguem a estes


cálculos dificeis, mas tambem não creio que o aca­
so ou a simples força das coisas produza tão pro­
digiosos resultados. Para as vespas, por exemplo,
qúé tambem constroem favos de células hexago-
nais, o problema era o mesmo e foi resolvido dum
modo bem menos engenhoso. Seus favos só têm
uma camada de células, em vez de duas como as

(*) Reamur havia proposto ao celebre matematico Koenig


o problema seguinte: “ Entre todas as células hexagonais de
base piramidal, composta de tres lozangos semelhantes e iguais,
qual a que pode ser construída com maior economia de mate­
rial?” A solução de Koenig foi que uma tal celula tinha a base
composta de tres lozangos, com ângulos maiores de 109° 26’ e
ângulos menores de 70° 34’. Ora, outro sabio, Maraldi, ha­
vendo demido com a maior exatidão possivel, os ângulos dos
lozangos construídos pelas abelhas, encontrou 109° 28’ para os
grandes e 70° 32’ para os pequenos. Ha entre a solução dos
sabios e a das abelhas uma diferença de só 2 minutos. E ’ pro­
vável que o erro — Se erro existe — caiba a Maraldi, porque
nenhum instrumento permite medir com precisão infalível os
ângulos das células, os quais não são perfeitamente definidos.
Cramer, outro matematico ao qual propuseram igual pro­
blema, apresentou uma solução que se aproxima ainda mais
da das abelhas: 109° 28’ e meio para os grandes e 70° 31* e meio
para os pequenos. Maclaurin, retificando Koenig, dá 109° 28*
e 20° 32'; e Leon Lalanne encontrou 109° 28’ 16” e 70° 31’ 44” .
Ver sobre a questão: Maclaurin, Philos. Trans. of London, 1743;
Brougham, Rech. anal. et exper. Sur les alv. des abeilles; L.
Lalanne, Note sur VArch, des abeilles, etc.
108 MAURICE MAETERLINCK

das abelhas. Daí menos solidez, mais irregulari­


dade e uma perda de tempo, material e espaço,
avaliavel no terço do esforço e do espaço necessá­
rios. Tambem as trigonas e as meliponas, verda­
deiras abelhas domesticas mas de civilização me­
nos adiantada, constroem suas células de criação
à maneira das vespas, e apoiam seus favos hori­
zontais e superpostos sobre colunas de cera infor­
mes e dispendiosas. Quanto às células de provi­
sões, não passam de grandes odres reunidos sem
ordem; e nos pontos de intersecção, onde.podiam
realizar economias de material e espaço, as meli­
ponas inserem ineptamente paredes planas entre
os odres esfericos. De modo que quando com­
paramos seus ninhos às cidades matematicamente
construídas pelas nossas abelhas, temos a impres­
são duma aldeia de casebres ao lado dessas me-
tropoles impecavelmente regulares que são o re­
sultado, talvez sem encanto mas logico, do genip
humano em luta, hoje mais estrenua que outrora,
contra o tempo, o espaço e a matéria.
xx
A teoria corrente, oriunda em Buffon, susten­
ta que as abelhas de nenhum modo têm intenção
de construir hexágonos de base piramidal; querem
simplesmente cavar na cera alvéolos redondos,
mas suas visinhas e as que trabalham do outro
lado cavam ao mesmo tempo e com as mesmas
A VIDA DAS ABELHAS 109

intenções, de modo que os pontos onde os alvéo­


los se encontram tomam forçadamente a forma he-
xagonal. E’ o que acontece com os cristais, as
escamas de certos peixes, as bolhas de sabão, etc.;
e é ainda o que acontece com a experiencia pro­
posta por Buffon: “ Se enchermos um vaso com
ervilhas ou outro qualquer grão redondo, preen­
chendo com agua os interstícios, depois de uma
fervura todos os grãos tojnam a forma hexagonal
por força da reciproca compressão. Causa, como
se vê, puramente mecanica: cada grão redondo
tende, ao inchar com a fervura, a tomar o maior
espaço possivel no recipiente; tornam-se pois ne­
cessariamente hexágonos pela compressão recipro­
ca. Entre as abelhas cada qual procura ocupar
o maior espaço possivel num espaço dado; é pois
necessário tambem, já que o corpo das abelhas
tambem é cilíndrico, que suas células sejam hexa-
gonais, por força dos obstáculos recíprocos.”
xxi
Temos aqui obstáculos reciprocós que produ­
zem uma maravilha, como os vicios dos homens,
pela mesma razão, produzem uma virtude geral,
o que é suficiente para que a especie humana, mui­
tas vezes odiosa nos indivíduos, não o seja em seu
conjunto. Poderíamos objetar, como o fizeram
Brougham, Kirby, Spencer e outros, que a expe­
riencia das bolas de sabão e das ervilhas não prova
110 MAURICE MAETERLINCK

coisa nenhuma, porque num e noutro caso o efeito


da pressão não produz formas regulares e não ex­
plica a razão de ser do fundo prismático das cé­
lulas.
Poderíamos sobretudo responder que ha mais
de um modo de tirar partido das necessidades ce­
gas. A abelha papelifera, o moscardo peludo, as
meliponas e trigonas do Mexico e do Brasil, em ­
bora as circunstancias e os fins sejam os mesmos,
chegam a resultados muito diferentes e muito in­
feriores. Poderíamos ainda dizer que se as célu­
las das abelhas obedecem à lei dos cristais, da ne­
ve, das bolas de sabão e das ervilhas de Buffon,
obedecem ao mesmo tempo, pela sua simetria ge­
ral, pela disposição em duas camadas de células
opostas, pela inclinação bem calculada, etc., a mui­
tas outras leis que não as da matéria.
Poderíamos ajuntar que todo o genio do ho­
mem está tambem na maneira como ele tira par­
tido de necessidades analogas, e que se essa ma-*
neira nos parece a melhor possivel é que somos
nós mesmos os julgadores. Mas o debate tem que
ceder diante dos fatos, e para afastar uma objeção
com base experimental, nada como outra expe­
riência.
A fim de verificar se a arquitetura hexagonal
está realmente inscrita no espirito das abelhas, re­
cortei no centro dum favo, em ponto onde havia
ao mesmo tempo células com ovos e células com
A VIDA DAS ABELHAS 111

mel, um disco do tamanho duma moeda de cem


sous. Secionando em seguida o disco pelo meio
da espessura de sua circunferencia, no ponto onde
se juntam as bases piramidais das células opostas,
apliquei sobre a base duma das seções uma rodela
de estanho do mesmo tamanho e recoloquei aque­
la seção no lugar de onde a havia tirado. Uma das
faces do favo não oferecia, pois, nada de anormal,
visto que o dano fôra reparado, mas na outra fi­
cara aquele grande buraco, tendo lá no fundo a
placa de estanho, a qual ocupava o espaço de umas
trinta células. As abelhas a principio mostraram-
se desconcertadas; vieram em bando examinar
aquele abismo inconcebivel e durante varios dias
permaneceram sem tomar deliberações. Mas como
eu as alimentasse abundantemente, momento che­
gou em que ficaram sem células disponiveis para
armazenar tanto mel, e é provável que nesse ins­
tante as engenheiras, escultoras e modeladoras
tenham recebido ordem para aproveitar o espaço
do buracão inutil.
Uma roda de fabriçantes de cera o cercou para
manter o calor necessário, enquanto outras desciam
ao fundo do abismo e começavam a fixar solida­
mente a rodela de estanho por meio de pequenas
garras de cera, regularmente distribuidas, e que
prendiam o rebordo do metal às arestas das células
circunjacentes. Depois atacaram a construção so­
bre o estanho de tres ou quatro células, ligando-as
112 MAURICE MAETERLINCK

à garrinhas. Cada celula de transição, ou de re­


paração, tinha a parte superior mais ou menos de­
formada para se soldar ao alvéolo contiguo do favo;
mas a sua metade inferior desenhava sempre sobre
o estanho tres ângulos bastante nitidos, donde já
saíam tres pequenas linhas retas: esboço da pri­
meira metade da celula seguinte.
Ao termo de 48 horas, e apesar de que só tres
ou quatro abelhas podiam trabalhar juntas no bu-
ração, toda a superfície do estanho estava coberta
de alvéolos esboçados. Esses alvéolos eram me­
nos regulares que os de um favo comum, e porisso
a Rainha, tendo-os examinado, sabiamente se re-<
cusou a usá-los para berço de seus ovos — não
queria que viesse ao mundo uma geração atrofia­
da. Mas eram todos perfeitamente hexagonais;
não se encontrava ah uma linha curva, nada arre­
dondado. Temos, pois, que nesta experiencia em
que as condições habituais sofreram mudança, as
células não foram cavadas num bloco de cera, se­
gundo a observação de Huber, ou num capuz, se­
gundo a de Darwin, começando circulares e, em
seguida, se tornando hexagonais pela pressão das
células visinhas. Não vemos aqui os “ obstáculos
recíprocos” , pois que as células nasciam uma a
uma e projetavam sobre uma especie de tabula
rasa as pequenas linhas de péga.
Parece bem certo, portanto, que o hexágono
não resulta de necessidades mecanicas, mas, encon-

ã
A VIDA DAS ABELHAS 113
I

tra-se no plano, na experiencia, na inteligencia e


na vontade da abelha. Outro curioso traço da saga­
cidade das abelhas é que o fundo das células não
foi revestido de cera, ficando em metal nu. As
diretoras do serviço decidiram que evidentemente
aquela substancia não era porosa. Mas depois de
depositadas as primeiras gotas de mel, notaram,
provavelmente, que êle se alterava, e então volta­
ram atrás da primeira decisão e forraram com um
verniz transparente toda a superfície do estanho.
XXII

Se pretendessemos esclarecer todos os segre­


dos desta arquitetura geometrica, teríamos ainda
de examinar varias questões interessantes, como a
da forma das primeiras células erguidas na abó­
bada do cortiço e que é modificada de modo a pren­
der-se ali pelo maior numero de pontos possivel.
Teríamos tambem de notar não tanto a orien­
tação das ruas principais, determinada pelo para­
lelismo dos raios, como a disposição das passagens
abertas aqui e ali, através òu em redor dos favos,
para assegurar o trafico e a circulação de ar, e
sempre localizadas de modo a prevenir longos ro­
deios ou possiveis congestionamentos. E teríamos
enfim de estudar a estrutura das células de tran ­
sição, o instinto unanime que, em dado momento,
impele as abelhas a aumentarem as dimensões da
cidade, ou porque a colheita fora do comum exige
8
114 MAVRICE MAETERLINCK

mais recipientes, ou porque considerem muito


grande a população, ou porque se faz necessária
a vinda de machos. E teriamos ao mesmo tempo
de admirar a economia engenhosa e a harmoniosa
precisão com que, na hipótese acima, elas passam
do ponto pequeno para o ponto grande ou vice-
versa; e passam da simetria perfeita para uma
assimetria inevitável, voltando em seguida à re­
gularidade ideal. E tudo sem que se perca um
a ly e o lo , sem que haja na serie das estruturas um
quarteirão sacrificado, mal construido ou hesitan­
te, ou fique alguma zona sem utilização, Mas
creio que já muito me alonguei em detalhes sem
grande interesse para um leitor que talvez jamais
seguisse com os olhos um vôo de abelha, ou que
por elas apenas se haja interessado de passagem,
como nos interessamos de passagem por uma flor,
um passaro, uma pedra preciosa, sem pretender­
mos outra coisa senão uma certeza superficial, e
sem nos assaltar a ideia de que o menor segredo
na natureza extra humana participa talvez mais
diretamente do enigma de nossos fins e de nossas
origens, que o segredo de nossas paixões mais for­
tes e mais complacentemente estudadas.
xxin
I
Para não tornar pesado este estudo deixarei
de tratar do surpreendente instinto que as leva
muitas vezes a adelgaçar ou demolir a extremi-
A VIDA DAS ABELHAS 115

dade dos favos quando querem prolongá-los ou


aalrgá-los; e temos de convir que isso de demolir
para reconstruir, de desfazer o que está pronto
para o refazer com mais regularidade, pressupõe
um singular desdobramento do instinto cego.
Tambem deixo de lado as notáveis experien-
cias feitas para forçá-las a construir raios circula-
res, ovais, tubulares ou bizarramente contornados,
e ainda a maneira engenhosa que elas usam para
obter a correspondencia das células alargadas das
partes convexas com as células estreitadas das par­
tes côncavas do favo.
Mas antes de abandonarmos este tema cumpre
deter-nos, ainda que por um instante, na conside­
ração do modo misterioso como sintonizam o traba­
lho quando modelam ao mesmo tempo, e sem se
verem, as duas faces opostas de um favo. Exa­
minai por transparência um desses favos, e vereis,
desenhados por sombras nitidas na cera diafana,
toda uma rede de prismas com arestas tão defini­
das, e um sistema de concordancia tão infalivel,
que parecem estampadas no aço.
Não sei se os que nunca viram o interior de
uma colmeia podem figurar-se a disposição e o
aspecto dos favos. Imagine-se um sino de palha
ou vime (tomo o cortiço clássico de nossos campo­
neses, porque neles a abelha está mais entregue
a si mesma); este sino está dividido de alto a bai­
xo em cinco, seis, oito e às vezes dez andares de
116 MAURICE MAETERLINCK

cera, perfeitamente paralelos e muito semelhantes


a grandes fatias de pão, os quais descem do ver-
tice do sino e adaptam-se estritamente à forma
ovoide das paredes. Entre os andares ha um in­
tervalo medio de onze milimetros onde vivem e
circulam as belhas. No momento em que no alto
do cortiço tem começo a construção dum dos anda­
res, a parede de cera que é o inicio e será mais
tarde estirada, está ainda muito espessa, e isola
completamente as 50 uu 60 abelhas que trabalham
na face superior das que trabalham na face infe­
rior; não podem ver-se as dos dois grupos, a não
ser que a visão das abelhas se opere mesmo atra­
vés de corpos opacos. Pois apesar disso a que
trabalha numa face não abre um buraco, não apli­
ca um fragmento de cera, que não corresponda
exatamente a um buraco ou aplicação de cera
equivalente na outra face. Como se dá isso? . Por
que tuna não cava demais ou de menos que a ou­
tra? Por que os ângulos dos losangos coincidem
tão magicamente? Que é que as faz começar aqui
e acabar ah?
Temos de nos contentar mais uma vez com
uma resposta que não responde a coisa nenhuma:
“E’ um dos mistérios da colmeia” — mistério que
Huber tentou solver dizendo que talvez pela pres­
são das patas e dos dentes elas provoquem uma li­
geira saliência na face oposta do favo; ou então
que elas medem a espessura da parede por meio
A VIDA DAS ABELHAS 117

da flexibilidade, elasticidade ou outra qualquer


propriedade fisica da cera ou ainda que suas an­
tenas parecera prestar-se ao exame das partes mais
delgadas e contornadas dos objetos e lhes servem
de compasso invisivel; e, finalmente, que a relação
entre todas as células deriva matematicamente da
disposição e dimensões das iniciais, sem que haja
necessidade de outras medidas. Mas não são ex­
plicações suficientes: as primeiras não passam de
hipóteses inverificaveis e as outras apenas deslo­
cam o mistério. E se ha conveniencia era deslo­
car o mais frequentemente possivel os mistérios,
isso não basta para solvê-los.
XXIV

Deixemos a zona monotona da geometria das


células. Os favos já estão começados e em parte
se tornam habitaveis. Ainda que o pequeníssimo
se vá juntando ao pequenissimo de ura modo im­
perceptível aos nossos olhos tão pouco penetrantes,
a construção de cera prossegue dia e noite, com
uma rapidez extraordinaria. A Rainha, impacien­
te, já percorreu mais de uma vez a obra que alveja
na escuridão; e agora que os primeiros favos estão
prontos, ela os ocupa, seguida de seu cortejo de
guardiãs, conselheiras e servas (não sabemos se
ela é seguida ou conduzida, venerada ou vigiada).
No ponto que julga propicio — ou que suas con­
selheiras lhe impõem — a Rainha arqueia-se e in-
118 MAURICE MAETERLINCK

troduz a extremidade de seu comprido abdômen


em uma das células vazias, enquanto, com as ca-
becinhas muito atentas, as abelhas da comitiva a
cercam carinhosamente, sustêm-lhe as patas, aca­
riciam-lhe as asas e vibram sobre elas as antenas
febris, como para animá-la, estimulá-la ou felici­
tá-la.
Esse quadro nos recorda os imponentes bro­
ches que nossas avós usavam — lembra uma espe-
cie de estrela confusa com um grande topázio oval
no centro. O que ha ali de mais notável é que sis­
tematicamente as abelhas evitam voltar as costas
à Rainha. Quando ela se aproxima de um grupo,
todas se voltam de frente, e diante dela andam às
arrecuas. E’ um sinal de respeito ou, antes, de
solicitiude que, por inverossimil que o pareça, se
revela constante e geral.
Mas a Rainha está pondo, e muitas vezes, du­
rante o leve espasmo que acompanha a emissão do
ovo, uma de suas filhas a toma nos braços — é,
fronte contra fronte, boca na boca, dão-nos a im­
pressão de se falarem baixinho. Bastante indife­
rente a essas demonstrações um pouco excessivas,
a Rainha não perde tempo, não se comove, toda
entregue àquela missão de postura, que mais pa­
rece volúpia amorosa do que trabalho.
Por fim, ao cabo de alguns segundos, ela se
apruma com muita calma, dá meia volta sobre si
mesma e antes de introduzir o oviduto em outra
A VIDA DAS ABELHAS 119

celula verifica se está em ordem ou se não ha ovo


dentro; enquanto isso duas ou tres abelhas da es­
colta se alternam precipitadamente na inspeção da
primeira celula para ver se não falta nada e arru­
mar em boa posição o ovo azulado que a Rainha
ali botou. A partir daquele momento até aos pri­
meiros frios do outono a Rainha não pára de bo­
tar, e bota ovos ainda quando a alimentam e quan­
do está adormecida — se é que dorme. Represen­
ta nesse periodo o poder avassalador do futuro,
que invadirá todos os recantos do reino; e vai se­
guindo passo a passo as pobres obreiras, que se es­
gotam em construir os berços que a fecundidade
da soberania exige. Vemos aí a convergencia de
dois poderosos instintos, fato que, se não resolve
pelo menos acentua diversos enigmas da colmeia.
Acontece às vezes, por exemplo, que naquela
corrida entre a construção e a postura, a constru­
ção ganha um certo avanço; e como as boas donas
de casa que pensam nas provisões para os maus
tempos, as obreiras se apressam em encher de mel
as células vasias. Mas a Rainha se aproxima; é
preciso que os bens materiais cedam diante do
imaterial — e as obreiras, afobadamente, retiram
dali o mel que puseram. E se o avanço da cons­
trução sobre a postura foi muito grande, tambem
acontece que fica às vezes todo um favo vasio; e
de medo que de subito apareça aquela que repre­
senta a tirania do futuro, as obreiras apressam-se
120 MAURICE MAETERLINCK

em construir uma zona de células grandes — a


dos machos, de feitura muito mais facil e rapida.
Chegada àquela zona ingrata a Rainha bota com
pesar uns ovos, e vai para a beira da obra exigir
das construtoras novas células comuns. Elas a
atendem; diminuem gradualmente o tamanho das
células — a competição recomeça, e vai até que a
mãe inesgotável, flagelo fecundo e adorado, seja
reconduzida das extremidades da colmeia para a
zona onde começou a postura. As células naquele
ponto já foram abandonadas pela primeira gera­
ção que vem de nascer, e que breve irá revoar so­
bre as flores dos arredores e animar as horas agra-
daveis do dia, para em seguida, a seu turno, se sa­
crificar pela geração que já a substitui nos berços.
xxv
E a Rainha, a quem obedece? Ao alimento
que lhe dão; porque a Rainha não toma por si mes­
ma os alimentos, é nutrida, como criança nova, por
aquelas mesmas operarias que sua fecundidade
atropela. E esse alimento que as operárias lhe
oferecem é proporcionado à abundancia de flores
e à colheita arrecadada. Aqui, pois, como por toda
parte, um segmento do circulo mergulha nas tre­
vas; aqui, pois, como por toda parte, é de fora,
duma potência desconhecida que vem a ordem su­
prema; e do mesmo modo que nós, as abelhas se
submetem ao motor anonimo da roda que gira so­
A VIDA DAS ABELHAS 121

bre si mesma, esmagando as vontades que a fazem


mover.
Certa pessoa a quem eu mostrava em uma das
minhas colmeias de vidro o movimento dfcssa
roda, tão visivel como a roda grande de um relo-
gio, certa pessoa que via a nu a agitação incontá­
vel da colmeia, a vibração perpetua, enigmatica e
louca das amas nas zonas de incubação, e as pon­
tes e escadas animadas que formam as “ cereiras” ,
as espirais invasoras da Rainha, a variada e inces­
sante atividade da multidão, o esforço inexorável
e inutil, as idas e vindas naquele ardor, a ausên­
cia de sono exceto nos berços onde dorme o traba­
lho de amanhã, o proprio descanso da morte sem o
consolo dum eden, essa pessoa que tudo isso viu,
depois de passado o espanto desviou os olhos, nos
quais se lia um terror triste.
Vemos com efeito na colmeia, depois da ale­
gria do primeiro contacto e das agradaveis recor­
dações dos belos dias em que as abelhas enchem
seus cofres com as joias do verão, e do inebriado
vai-e-vem que as liga às flores, às aguas vivas, ao
azul, à abundancia tão calma de tudo quanto re­
presenta a beleza e a felicidade, vemos na colmeia
um dos espetáculos mais tristes que possamos ima­
ginar. *E, cegos que somos, dotados que somos de
olhos obscurecidos, quando observamos aquelas
inocentes condenadas, sentimos muito bem que
não são só a elas as dignas de dó, não só elas que
122 MAURICE MAETERLINCK

não compreendemos — mas uma forma dolorosa


da grande força que nos anima e tambem nos de­
vora.
Sim, isto será triste, como tudo é triste na na­
tureza quando a vemos de perto. E será assim
enquanto não lhe desvendarmos o seu segredo —
se é que ela tem um. E se viermos a saber um
dia que a natureza não tem nenhum segredo, ou
o tem horrível, nesse dia nascerão outros deveres
que talvez ainda não tenham nome. Enquanto
isso, que o nosso coração murmure, se o quer:
“ Isto é triste” , mas que nossa razão se contente
em dizer: “ Isto é assim.” Nosso dever hoje é
indagar se não ha nada atrás dessa tristeza; e
para tal cumpre que delas não desviemos os olhos,
sim que as encaremos fixamente e as estudemos
com tanto interesse e coragem como se fossem
alegrias. Nada mais justo que antes de nos la­
mentar, antes de julgarmos a natureza, nós con­
cluamos o nosso trabalho de interrogação.

xxvi
Vimos que as obreiras, quando a ameaçadora
fecundidade da Rainha não as atormenta, se dedi­
cam à construção de células para mel e polen, de
feitura mais economica e de capacidade maior.
Vimos tambem que a Rainha prefere deitar seus
ovos nas células pequenas e está sempre a recla-
A VIDA DAS ABELHAS 123

má-las. Só quando não as encontra é que se re­


signa a pô-los nas células grandes.
As abelhas que se desenvolvem nestas células
são machos ou zangãos, bem que vindos de ovos
iguais aos que produzem obreiras. Ora, ao con­
trario do que sucede na transformação de uma
obreira em rainha, não é a forma ou capacidade
do alvéolo o que neste caso opera a mudança, pois
que um ovo botado numa celula grande e depois
transportado para uma pequena dará um macho,
atrofiado, porem indiscutivel. (Consegui fazer
quatro ou cinco vezes esta transferencia, operação
dificil por causa da extrema pequenez e delicade­
za do ovo.) E’ preciso pois que na postura a Rai­
nha tenha a faculdade de reconhecer ou determi-
nár o sexo do ovo, já que os põe segundo o tipo
de celula. E é raro que se engane. Como o con­
segue? Como entre os milhares de ovos contidos
em seus dois ovários faz ela a separação entre
machos e femeas? E como faz passar estes ou
aqueles, à vontade, pelo seu oviduto unico?
Temos aqui um dos enigmas da colmeia e dos
mais impenetráveis. Sabe-se que a rainha vir­
gem não é esteril, mas só põe ovos machos. S6
depois de fecundada é que passa a pô-los dos dois
sexos; fica até à morte na posse dos espermatof
zoarios arrancados ao infeliz amante. Estes cor-
pusculos, que o Dr. Leuckart avalia em 25 mi»
lhões, conservam-se vivos num recipiente especial
124 MAURICE MAETERLINCK

colocado sob os ovários, à entrada do oviduto, e


chamado espermateca. E’ de crer que a estreiteza
do orificio das células pequenas, e a maneira como
a forma desse orificio obriga a rainha a curvar-se,
exerce sobre a espermateca uma certa pressão,
em consequencia da qual os espermatozoarios sai-
dos fecundam de passagem o ovo. Oturos su­
põem, ao contrario, que a rainha realmente gover­
na os müsculos que abrem e fecham a esperma-
teca — e de fato esses musculos são extremamente
numerosos, podejosos e complicados.
Sem pretender decidir qual das duas hipóte­
ses é a melhor, porque quanto mais estudamos
mais nos vemos naufragos no oceano sem fim da
natureza, confesso inclinar-me pela segunda.
Alem disso, as experiencias dum apicultor de
Bordeus, Drory, mostram que se todas as células
grandes forem retiradas da colmeia, a rainha não
hesitará em pôr os ovos machos nas células pe­
quenas; e inversamente porá ovos femeas em cé­
lulas grandes, se não encontrar pequenas à sua
disposição.
Tambem as belas observações de Fabre sobre
as osmias (abelhas selvagens e solitarias da famí­
lia das gastrilegidas) provam de modo perfeito
que a Rainha osmia conhece com antecipação o
sexo do ovo que vai pôr. E provam tambem que
a Rainha tem a faculdade de determinar o sexo do
ovo conforme o espaço de que dispõe — “ espaço
A VIDA DAS ABELHAS 125

frequentemente fortuito e não modificavel” , colo-1


cando um ovo macho aqui, uma femea ali. Não
entrarei na analise das experiencias do grande en-
tomologista francês. São extremamente minucio­
sas e nos levariam muito longe. Mas qualquer que
seja a hipótese adotada, ambas explicam muito bem
a propensão da rainha para pôr ovos nas células
operarias — isto fora de qualquer consideração
para com o futuro.
Essa mãe-escrava, que somos levados a lamen­
tar, talvez seja uma grande voluptuosa, que expe­
rimenta na união dos princípios macho e femea,
que s eopera em seu imo, um certo prazer, relem-
brativo da ebriedade do vôo nupcial, unico em sua
vida. Ainda aqui" a natureza, sempre tão enge­
nhosa, previdente e varia no conceber as armadi­
lhas do amor, teria tido o cuidado de unir o prazer
ao interesse da especie. Entendamo-nos, porém,
e não sejamos iludidos pela nossa explicação.
Atribuir assim uma ideia à natureza e crer que
isso basta, é lançar uma pedra no fundo de uma
grota e admitir que Ò barulho da queda responde
a todas as nossas perguntas e nos revela algo mais
do que a profundidade do abismo.
Quando repetimos: “ a natureza não quer
isto” , “ organiza esta maravilha” , “ apega-se a este
fim” , estas expressões querem dizer que uma pe­
quena manifestação de vida consegue manter-se
cobre a enorme superfície de matéria que nos
126 MAURICE MAETERLINCK

parece inativa e que nós, erradamente, chamamos


o nada ou a morte. Um concurso de circunstan­
cias, que nada tinha de necessário, deu sobrevi-
vencia a esta manifestação de vida entre mil ou­
tras, talvez tão interessante e por igual inteligen­
tes, mas que não gosaram das mesmas chanças e
desapareceram sem terem ensejo de nos maravi­
lhar. Seria temerário afirmar outra coisa; e tudo
mais — as nossas reflexões, a nossa renitente teo­
logia, as nossas esperanças e admirações — tudo
no fundo não passa do desconhecido que nós en-
trechocamos com o mais desconhecido ainda para
produzir um pequennio ruido. Ruido que nos dá
consciência do mais alto grau da existencia par­
ticular que possamos atingir nessa mesma super­
fície muda e impenetrável — como o canto do
rouxinol ou o vôo do condor tambem lhes reve­
lam o mais alto grau da existencia própria a es­
sas especies. E um dos nossos deveres é produ­
zir esse pequeno ruido, cada vez que a ocasião se
apresenta — sem nos desalentar com o fato de ser
coisa provavelmente inutil.
LIVRO IV

AS RAINHAS NOVAS

I
Ponhamos de lado a cidade nova — que o en­
xame formou e onde a vida, retomando o seu mo­
vimento circular, se expande, para depois, a seu
turno, quando estiver no apogeu da força e da
felicidade, dividir-se em nova enxameação — e
vamos ver o que se passa na cidade velha.
Cessado o tumulto da partida, com dois ter­
ços de seus habitantes irrevogavelmente emigra­
dos, a cidade sacrificada lembra um corpo que per­
deu o sangue: está cansada, deserta, quasi morta.
Não obstante, milhares de abelhas ah permanece­
ram, as quais, firmes, embora um tanto melancó­
licas, retomam o trabalho, substituem como po­
dem as ausentes, suprimem os traços da orgia,
acondicionam as provisões salvas do saque, vão
visitar as flores, velam pelo futuro, sempre cons­
cientes de sua missão e fieis ao dever que um
destino preciso lhes impõe.
128 MAVRICE MAETERLINCK

Mas se o presente parece melancolico, tudo


ali é esperança. Sentimo-nos num desses castelos
de lenda alemã cujas paredes são formadas por
miíÉares de frascos onde estão as almas dos ho­
mens que vão nascer. Estamos na morada da vida
que precede a vida. Em seus bercinhos fechados
— aqueles alvéolos que aos milhares se superpõem
nos varios andares de favos — inúmeras ninfas,
brancas como leite, os braços dobrados e a cabeça
caída sobre o peito, esperam a hora do despertar.
Ao ve-las em seus esquifes de cera, inumeráveis e
quasi transparentes, vem-nos a ideia de gnomos
em meditação, ou de legiões de virgens deforma­
das pelas dobras do sudario, sepultas nos prismas
hexagonais multiplicados até ao delirio por uma
geometra inexorável.
Naquele mundinho que cresce e se transfor­
ma, que regira sobre si mesmo, que muda de ves­
tuário quatro ou cinco vezes e fia sua mortalha na
sombra, vibram as asas e dançam centenas de
obreiras, para manter o grau de calor necessário
e tambem para um fim qualquer que não sabe­
mos; ha naquela dança movimentos extraordiná­
rios e metodicos que devem corresponder a um
objetivo.
Ao cabo de alguns dias, as tampas de miriades
de urnas (nas boas colmeias, de 60 a 80 mil) se
fendem e dois grandes olhos negros e serios apa­
recem em cada uma, encimados por antenas que
A VIDA' DAS ABELHAS 129

apalpam em redor, enquanto as maxilas em ati­


vidade alargam a abertura do alvéolo. Acodem
as amas e ajudam-nas a sair do esqúife, amparam-
nas, escovam-nas, arrumam-nas e oferecem-lhes
na ponta da lingua o primeiro mel. As novas abe­
lhas emergiram de outro mundo e estão ainda ton­
tas, palidas, vacilantes. Têm o ar debil de velhi­
nhos, escapados da sepultura. Lembram viajan­
tes cobertos da poeira macia dos ignorados cami­
nhos que levam ao nascimento. Mas mostram-se
perfeitas dos pés à cabeça, e sabem tudo o que
lhes é preciso saber. E como as crianças do povo
que quasi nascem cientes que não terão tempo de
rir nem de brincar, aquelas recem-vindas ao mun­
do dirigem-se aos alvéolos ainda fechados e põem-
se a vibrar as asas e a se agitar em cadência para
aquecer as irmãs ainda encerradas nos esquifes.
Não perdem tempo em meditar no prodigioso enig­
ma do seu destino e da sua especie.
n
Nos primeiros dias estão livres de serviços
pesados. No oitavo saem para o “ vôo de asseio”
e para encherem de ar os sacos traqueanos, os
quais se expandem e as tornam desde aquele mo­
mento esposas do espaço. Feito isto, as abelhi-
nhas novas voltam, ê só depois de uma semana
saem de novo — todas juntas, em meio duma agi­
tação especial que os apicultores chamam sol de
9
130 MAURICE MAETERLINCK

artificio — e que não passa de um sol de inquieta­


ção, Sente-se, com efeito, que elas têm medo,
elas, filhas dà sombra e da vida congestionada, têm
medo ao imenso abismo azul e à solidão infinita da
luz — e sua alegria tacteante é entretecida de ter­
rores. Agitam-se ali no limiar da colmeia, voam
e voltam vinte vezes. Boiam no ar com as cabe-
cinhas sempre voltadas para a cidade materna,
descrevem grandes circulos ascensionais e de re­
pente descem rapidas, como tomadas de pesar; e
simultaneamente seus trezes mil olhos interro­
gam, refletem e retêm todas as arvores, e a fon­
te, e os vedos, as latadas, os tetos e as janelas dos
arredores; e isso até que o caminho aereo pelo
qual voltarão para o cortiço esteja tão firmemen­
te traçado na memória como se riscos de aço o
marcassem no eter.
Temos aqui um novo mistério. Interrogue-t
mo-lo, e se se mantiver impenetrável como os ou­
tros, o seu silencio aumentará de mais alguma né­
voa o campo da nossa ignorancia consciente — o
mais fertil que a nossa atividade possui. Como .
encontram a colmeia, tantas vezes impossível de
ser vista, oculta que está entre a vegetação, e cuja
entrada não passa dum ponto imperceptível no es-;
paço imenso? Como, transportadas numa caixa
a dois, tres quilometros de distancia, quasi que in­
falivelmente voltam para casa?
A VIDA DAS ABELHAS 131

Percebem-na através dos obstáculos? Des-


cobrem-na por meio de pontos de referencia, ou
possuem esse sentido da direção, para nós incom-
preensivel, de certos animais, como as andorinhas
e os pombos? As experiencias de Fabre e Lub-
bock, e sobretudo as de Romanes (Nature, 29 de
outubro de 1886), parecem indicar que não são
guiadas por este estranho sentido. Por outro lado,
pude mais de uma vez verificar que não prestam
atenção à forma ou à côr da colmeia. Parecem
antes atentar no aspecto geral do tabuleiro onde
a cidadezinha de cera repousa, e na disposição do
patamar da entrada. (*)
Mas se durante a ausência das abelhas modi­
ficarmos completamente a fachada da colmeia,
nem porisso elas deixam de, ao virem de longe,
só manifestarem alguma hesitação no momento
de transpor o solio modificado. Seu metodo de
orientação parece baseado, segundo nòssas obser­
vações, numa memorização extremamente minu­
ciosa dos pontos de referencia. Não é a colmeia
que reconhecem; ,é de muitíssimo perto, a tres ou
quatro milímetros de distancia, a posição da col­
meia relativamente aos objetos em redor. E esta
orientação é de tal modo gravada na memória das
abelhas, que depois de cinco meses de hibernação
num lugar escuro, se recolocamos a colmeia em sua
(*) Este patamar não passa muitas vezes de prolonga­
mento do tabuleiro sobre o qual está assente a colmeia.
132 MAURICE MAETERLINCK

plataforma, mas um pouco mais à direita ou à es­


querda do ponto em que estava antes, todas as
obreiras de retomo da primeira caça ao mel, virão
ter em linha reta ao ponto exato onde esteve a col­
meia, e só depois de algum tacteamento é que a
encontram no ponto novo em que foi colocada.
Dir-se-ia que durante todo o inverno se conservou
preciosamente gravada no ceu a marca indelevel
do caminho.
Tambem, quando mudamos o lugar duma col­
meia, muitas abelhas se perdem, salvo se a mu­
dança não for para ponto muito distante e não
houver completa modificação da paisagem; ou se
tivermos o cuidado de por uma tabua, um caco
de telha, um obstáculo qualquer diante do “ bu­
raco de vôo” , que as advirta de que qualquer coi­
sa mudou, e lhes permita orientarem-se de novo
e refazer seus pontos de referencia.
m
Dito isto, voltemos para a cidade em restau­
ração, onde aquela serie enorme de berços não
cessa de produzir abelhas novas. Mas a cidade
ainda está sem rainha. Sobre os bordos dum dos
favos centrais sete ou oito protuberancias bizarras
se alteiam na planicie das células comuns, lem­
brando o aspecto fotográfico da lua. São capsu-
las de cera rugosas, perfeitamente fechadas, que
ocupam o espaço de tres ou quatro células comuns.
A VIDA DAS ABELHAS 133

Em geral se agrupam no mesmo ponto, sob uma


guarda numerosa, singularmente inquieta e aten­
ta. E’ a região sagrada onde se formam as rai­
nhas. Antes da partida do enxame, em cada uma
daquelas capsulas foi posto um ovo em tudo igual
aos que dão nascimento às operarias; foi posto ah
pela Rainha ou para ah trazido duma celula co­
mum pelas amas solicitas.
Tres dias depois sai uma larvazinha que as
amas alimentam abundantemente e dum modo es­
pecial — e aqui vamos ver, um por um, os mo­
vimentos dum metodo vulgar na natureza e ao
qual, se se tratasse dos homens, dariamos o nome
augusto de Fatalidade. Graças àquele regimen, a
pequena larva toma um desenvolvimento excep-i
cional, e suas ideias, do mesmo que seu corpo, se
modificam a ponto de não mais lembrar abelha e
sim um inseto diferente.
Viverá quatro ou cinco anos, em vez de seis
ou sete semanas como vivem as outras. Tem o
abdômen duas vezes maior que o das obreiras, e
a côr mais clara, mais dourada; o aguilhão é re- •
curvo em vez de reto. Já os olhos ela os possui
com menos facetas que as operarias: de oito a nove
mil em vez de doze a treze mil. Cerebro mais aca­
nhado, e ovários enormes, dotados dum orgão es­
pecial, a espermateca, que a torna por assim dizer
hermafrodita. Nada dos utensílios das operarias:
nem bolsas de secreção de cera, nem escovas, nem
134 v MAUR1CE MAETERLINCK

recipientes para recolher polen. Tambem não terá


os hábitos e as paixões que julgamos inerentes às
abelhas. Não sentirá o desejo do sol, nem a neces­
sidade do espaço, e morrerá sem ter visitado uma
flor. Passará a vida na sombra e na agitação da
colmeia, sempre em busca de berços onde largar
os ovos Em compensação, só ela entre tantas mil
conhecerá as inquietudes do amor. A rainha não
tem certeza de gosar dois momentos de luz em
toda a sua vida — porque o vôo com o enxame
nem sempre ocorre — e muitas só usam das asas
uma vez, por ocasião do vôo nupcial. E é curioso
observar que tanta coisa, tantos orgãos, ideias,
desejos, hábitos, todo um destino, se acham assim
latentes não digo em uma semente — como é o
caso miraculoso da planta, do animal e do homem
— mas numa substancia inerte: numa gota de
mel. (*)
IV
Uma semana já se passou do exodo da velha
rainha à testa do enxame. As ninfas principescas
adormecidas em suas capsulas especiais não têm
(*) Certos apidologos sustentam que tanto as operárias
como as rainhas, depois de saidas do ovo, recebem o mesmo
alimento, uma especie de leite, muito rico em azoto, que uma
glandula especial da cabeça das amas secreta. Mas passados
uns dias as destinadas a ser obreiras são postas no regimen do
mel e do polen, ao passo que a escolhida para o trono continua
no regimen do precioso leite — ou “caldo real”, como dizem
alguns.
»
A VIDA DAS ABELHAS 135

todas a mesma idade, porque é do interesse das


abelhas que os nascimentos reais se sucedam à
medida que elas forem decidindo outras enxa-
meações. Já de algumas horas as amas vêm adel-
gaçando a tampa da capsula onde está a princesa
mais madura, a qual lá dentro faz a mesma coisa;
subito a jovem rainha emerge meio corpo; é en­
tão ajudada pelas amas, que a escovam, e limpam
e acariciam; e depois de totalmente desembaraça­
da dá o primeiro passeio por cima dos favos. Vem
ao mundo palida e vacilante como as operarias,
mas após uma dezena de minutos já está com as
pernas firmes; e inquieta, sentindo que é a rai­
nha unica e ha mais princesas escondidas por
ali, entra a percorrer a colmeia em procura das ri ­
vais. Aqui a sabedoria, as misteriosas injunções
do instinto ou do Espirito do Colmeia — ou da as-
sembleia das operarias intervem. O mais curioso,
quando em colmeia de vidro acompanhamos a
marcha dos acontecimentos, é que não ha nunca
a menir hesitação, a menor divergencia. Nem
sinal de discórdia ou discussão. Reina a mais
completa unanimidade. Cada abelha parece sa­
ber antecipadamente o que todas as outras vão
pensar. E o momento é muito serio; é o instante
por assim dizer vital da cidade. Elas têm que es­
colher entre tres ou quatro decisões suscetíveis de
consequencias remotas e muito diversas entre si
— e que um nada pode tornar funestas. Têm que
136 MAURICE MAETERLINCK

conciliar a paixão ou o dever inato da multiplica­


ção da especie com a conservação do tronco e seus
rebentos. Às vezes se enganam e lançam sucessi­
vamente tres e quatro enxames — e, esgotada as­
sim a cidade-mãe, muitas fracas as que ficaram
para uma rapida organização nova, se são surpre­
endidas pelo nosso clima, que não é o seu clima de
Origem, por elas guardado na memória, as abe­
lhas sucumbem à entrada do inverno. Tornam-
se vitimas da “ febre da enxameação” — febre que
como todas as outras é uma especie de reação mui­
to ardente da vitaldiade, reação que passa alem do
alvo, fecha o circulo e encontra a morte.
v
Nenhuma das decisões que elas vão tomar pa­
rece impor-se, e quem as observa não pode prever
a escolha. Mas ha uma indicação de que a esco­
lha é sempre produto do raciocinio: o fato do api-
cutor poder influenciá-la, e mesmo determiná-la,
aumentando ou diminuindo, por exemplo, o espa­
ço utihzavel, substituindo favos cheios de mel por
favos vasios mas guarnecidos de alvéolos de ope­
rarias.
O caso é que elas não sabem se lançarão ime­
diatamente um segundo e um terceiro enxame —
nisso não haveria senão uma decisão cega, obe­
diente aos caprichos e sohcitações estouvadas de
uma hora favoravel — mas tomam imediatamente
A VIDA DAS ABELHAS 137

e por unanimidade medidas que lhes permitem


lançar um segundo enxame tres ou quatro dias
depois do nascimento da primeira rainha à frente
do segundo enxame. Como negar que ha aqui
todo um sistema, toda uma combinação de previ­
sões abrangendo um espaço de tempo bastante con­
siderável, dado o pouco que vivem as abelhas?
VI

Estas previsões dizem respeito às jovens rai­


nhas ainda encerradas em seus esquifes de cera.
Suponhamos que as abelhas julguem preferível
não lançar um segundo enxame. Neste caso duas
hipóteses são possiveis: permitirem que a virgem
real, que vimos nascer, destrua suas irmãs rivais,
ou esperem que ela tenha realizado a perigosa
cerimonia do vôo nupcial, do qual pode depender
o futuro da colmeia. Frequentemente as abe­
lhas autorizam a matança imediata; outras vezes
a ela se opõem — mas não podemos saber se é em
previsão dum segundo enxame ou por causa dos
perigos do vôo nupcial. Ha casos em que depois
de decidida uma segunda enxameação, elas subi­
tamente mudam de parecer e destroem toda a
descendencia predestinada — ou porque o tempo
se tomou impropicio, ou por outra causa qualquer.
Mas tomemos a hipótese de que elas hajam
decidido renunciar à enxameação, aceitando os
riscos do vôo nupcial. Neste caso a jovem rainha,
138 MAURICE MAETERLINCK

impelida pelas molas de seu desejo, vai ter à zona


das células grandes. As guardas abrem-lhe pas­
sagem — e num ciume desvairado ela se precipita
sobre a primeira celula que encontra, e com as pa­
tas e os dentes começa a arranhar a cera do oper-
culo. Consegue-o, despedaça o casulo que envolve
a princesa adormecida e freneticamente a espeta
com o dardo venenoso. Só ao senti-la morta sos­
sega, porque a morte põe um misterioso limite ao
Òdio de todos os seres. Recolhe o aguilhão. De­
pois ataca outra celula, abre-a — e passa adiante
se ali encontra apenas uma larva ou ninfa imper­
feita — e assim prossegue de celula em celula até
que, exhausta, seus dentes e suas unhas já não
possam romper a cera dos operculos.
As abelhas em redor, muito atentas, acompa­
nham a cena, mas sem se associar à sua colera, e
se afastam para lhe deixar o campo livre; à medi­
da, porem, què uma celula é varejada e sua habi­
tante assassinada, elas afluem, retiram e lançam
fora da colmeia o cadaver ou a moribunda e avi­
damente sorvem o caldo real encontrado no fundo
do alvéolo. Em seguida, vendo que a Rainha, por
cansaço, já não pode prosseguir na matança, com­
pletam a obra — e toda a geração de princesas de­
saparece.
Esta execução de princesas, do mesmo modo
que a muito mais desculpável execução dos ma­
chos, representa a hora terrível da colmeia, a unica
»
A VIDA DAS ABELHAS 139

em que as operarias permitem que a discórdia e a


morte invadam os seus dominios. E como tantas
vezes sucede na natureza, justamente as privile­
giadas do amor são as que atraem a morte violenta.
Às vezes duas rainhas saem ao mesmo tempo
— caso aliás pouco freqüente porque as abelhas
tomam precauções para evitá-lo. Saem do berço
ao mesmo tempo e travam imediatamente a luta
da qual Huber foi o primeiro a assinalar uma par­
ticularidade curiosissima: cada vez que em seus
movimentos de duelo as duas rainhas se encon­
tram em posição de simultanea e mutuamente se
atravessarem com o aguilhão, um deus ou uma
deusa — como nos combates da Iliada — o deus
ou a deusa da raça, talvez, interpõe-se entre as
duas guerreiras, e ambas, tomadas de espanto, se
separam e fogem num desvairo — para se atraca­
rem logo depois, e fugirem de novo, se de novo fi­
carem em posição de se matarem mutuamente, caso
desastroso para o futuro da colmeia; e ficam assim
até que uma surpreenda a mais imprudente e a
mate num golpe feliz, sem correr o risco do troco.
A lei da raça só exige um sacrificio.
VII

Depois que a jovem soberana destroi as prin­


cesas em estado de ninfa ou mata a rival nascida
ao mesmo tempo que ela, o povo apicola a aceita;
e à nova soberana só resta, para imperar como im­
140 MAUR1CB MAETERLINCK

perou sua mãe, que realize o vôo núpcial, porque


as abelhas não se preocupam com ela, nem lhe
rendem homenagens, enquanto a vêem infecunda.
Mas muitas vezes a historia é menos simples,
porque as operarias raramente renunciam ao de­
sejo de uma segunda enxameação. Neste caso o
que acontece varia muito. Quando a rainha vai
ter à zona das células grandes, a guarda não lhe
abre alas, como no primeiro caso, mas barra-lhe o
caminho. Irritada, e sempre conduzida pela sua
ideia fixa, a rainha tenta forçar a passagem, ou
procura um rodeio, mas esbarra sempre nas senti­
nelas das princesas adormecidas. Obstina-se, vol­
ta à carga, é repelida de novo e mesmo maltratada,
até que de um modo infprme compreende que
aquelas pequenas obreiras inflexíveis representam
uma lei, diante da qual a lei que o governa deve
ceder. E afasta-se, e percorre os favos fazendo
ressoar o seu canto de guerra, ou uivo ameaçador,
que lembra o som distante duma trombeta de prata
— uivo tão potente que se ouve, sobretudo à noite,
a tres ou quatro metros de distancia, através das
paredes duplas da colmeia mais bem fechada.
Esse uivo real exerce sobre as obreiras um
efeito unico. Mergulha-as numa especie de ter­
ror, ou estupor respeitoso, e quando desferido dian­
te de células bem defendidas, as guardas que a
rodeam e procuram conte-la, baixam a cabeça e
esperam imóveis que o uivo cesse. E ha mesmo a
»
A VIDA DAS ABELHAS 141

crença de que é devido ao prestigio desse uivo, imi­


tado pela Sphinx atropos, que sem a menor resis­
tência por parte das abelhas esta mariposa pene­
tra nas colmeias para o saque do mel.
Durante dois ou tres dias, e mesmo cinco, os
gritos da rainha ultrajada ressoam na colmeia, de­
safiando para a luta as princesas protegidas. En-
trementes as ninfas reais chegam a termo e come­
çam a roer os operculos de suas prisões. Grande
desordem ameaça a republica. Mas o genio da
colmeia prevê todas as consequencias e toma uma
decisão; as guardiãs, bem instruídas, sabem de
hora em hora o que devem fazer para aparar os
golpes do instinto contrariado, e conciliar as for­
ças opostas. Sabem que se as princesas que insis­
tem em deixar seus alvéolos realizarem tal inten­
to, aeábarão todas destruídas pela rainha; e assim,
à medida que cada uma vai do lado de dentro adel-
gaçando a tampa da celula, vão as guardiãs do lado
de fora reforçando-a com mais cera. A.princesa
impaciente esfalfa-se no roer um obstáculo encan­
tado que mantem sempre a mesma espessura, e lá
da sua prisão ouve os uivos e as provocações da
rainha. E como mesmo antes de ter saído da ce­
lula e dado a primeira vista d’olhos na colmeia já
sabe do seu destino e conhece os seus deveres reais,
responde heroicamente aos desafios. Seus gritos
no fundo da prisão de cera soam muito mais aba­
fados e cavernosos que os da rainha solta; e o api'
142 MAURICE MAETERLINCK

cultor que à noite, depois de cessados os rumores


do dia, vai observar a colmeia, ouve e compreende
o que quer dizer aquele dialogo entre a rainha a
desvairar por sobre os favos e a virgem ainda en­
cerrada em sua celula.
vra
Esta prolongada reclusão é aliás favora-
vel às prisioneiras, que dela saem mais amadure­
cidas, já vigorosas e prontas para tudo. E como o
tempo que se passou tambem fortaleceu a primeira
rainha, acha-se ela em condições de afrontar os pe­
rigos da viagem — e o segundo enxame, ou o en­
xame secundário, abandona a cidade. Imediata­
mente depois da partida as operarias que ficaram
libertam uma das prisioneiras — e a cena se re­
pete, com as mesmas tentativas assassinas, os
mesmos uivos de colera. Aos tres dias tambem
abandona a colmeia à frente dum terceiro enxa­
me — e assim por diante, no caso de febre de en-
xameação, até ao completo esgotamento da cida-
de-mãe.
Swammerdam cita o caso duma colmeia que
por meio de seus enxames, e dos enxames desses
enxames, produziu trinta colonias em uma só es­
tação.
Esta multiplicação extraordinaria acontece so -
bretudo depois dos invernos muito rigorosos, como
se as abelhas, sempre em consonancia com as von­
tades secretas da natureza, tivessem consciência
do perigo que lhes ameaça a especie. Mas em tem­
po normal raramente acontece nas colmeias robus­
tas e bem governadas. Muitas só produzem um
enxame, e outros nem isso.
Comumente, depois do segundo enxame, as
abelhas desistem de mais divisões, ou porque te­
mam o enfraquecimento excessivo da colmeia ou
porque uma mudança desfavoravel do tempo lhes
imponha precaução. E neste caso as operarias
permitem que a terceira rainha destrua as prin­
cesas cativas. A vida retoma o seu curso normal
e a reorganização se opera com tanto mais ardor
quanto mais jovens são as obreiras e mais empo­
brecida e despovoada está a cidade, havendo, por­
tanto, muitas lacunas a preencher antes do inverno.
IX

A saída do segundo e do terceiro enxames as­


semelha-se à do primeiro, apenas com a diferença
de ser menor o numero das que neles tomam par­
te. Nota-se tambem menor circunspeção e ausên­
cia de estudo preliminar por meio do reconheci­
mento das investigadoras; a jovem rainha virgem,
ardente e leviana, vôa muito mais longe, arrastan­
do o enxame para ponto muito distante da colmeia
abandonada. Essa temeridade faz que a vida do
segundo e terceiro enxames corra mais perigos.
Têm eles à frente uma rainha infecunda, de modo
144 MAURICE MAETERLINCK

que todo o seu futuro fica na dependencia do vôo


nupcial. Uma ave que passe, uma chuva repen­
tina, um vento frio, um erro qualquer, e o desas­
tre será irremediável. Tão bem sabem disso as
abelhas que, depois de encontrado o abrigo e ini­
ciados os trabalhos de fixação, muitas vezes tudo
abandonam para acompanhar a jovem rainha in­
teressada na caça ao amante — e não a perdem de
vista, e a velam devotadamente — ou com ela se
perdem quando por falta de pontos de referencia
naquele territorio desconhecido elas não conse­
guem voltar ao abrigo eleito.
x
Mas a lei do futuro é tão forte, que nenhuma
abelha hesita diante dessas incertezas e perigos
de morte. O entusiasmo dos enxames secundá­
rios e terciários é o mesmo do primeiro. Logo que
a colmeia tomou sua desisão, cada tuna das jovens
rainhas perigosas encontra um bando de operarias
prontas a segui-las no revôo onde ha muito que
perder e pouco que ganhar, afora a plena satisfa­
ção dum instinto. Que é que lhes dá essa energia,
essa coragem inexistente na grei humana, para
romper com o passado como se este fosse um ini­
migo? Quem decide sobre as que devem partir
e as que vão ficar? A divisão não se faz por ida­
de — aqui as mais velhas, ali as mais jovens; em
redor de cada rainha vemos operarias velhas em
A VIDA DAS ABELHAS 145

confusão com abelhinhas que pela primeira vez


vão afrontar a vertigem do azul. Não se faz tam­
bem por força do acaso, da ocasião, do impulso
passageiro dum pensamento, dum sentimento ou
dum instinto que avulte ou reduza a força propor­
cional do enxame. Muitas vezes avaliei a rela­
ção de numero entre as que partem e as que fi­
cam; e, embora sem precisão matematica, pude ve­
rificar que essa relação (tomando-se em conta os
nascimentos proximos) é tão constante que nos
leva a admitir um verdadeiro e misterioso calculo
por parte do genio da colmeia.

XI

Não vamos seguir as aventuras desses enxames


— muito numerosas e complicadas. Às vezes dois
enxames se misturam; outras vezes, na confusão
da partida, duas ou tres rainhas prisioneiras esca­
pam à fiscalização das sentinelas e se juntam ao
grupo emigrante. Outras vezes ainda uma das
jovens rainhas aproveita o vôo da enxameação para
fazer-se fecundar, e então arrasta todo o seu povo
a distancia e alturas extraordinarias. Na pratica
os apicultores fazem voltar à colmeia esses enxa­
mes secundários; e as rainhas, vendo-se de novo
em casa, travam a luta pela hegemonia, sob os
olhares serenos das operarias, as quais, depois do
triunfo da mais apta, deitam fora o cadaver da
10
146 MAURICE MAETERLINCK

vencida, fecham a porta à violência, esquecem o


passado e retomam a fàina da colheita do mel.'

XII

Para simplificar nossa exposição, voltemos ao


caso da rainha autorizada a destruir as princesas
nas células. A esse morticinio quasi sempre se
opõem as operarias, mesmo quando parece não
haver intenção dum segundo enxame. Mas ou­
tras vezes o permitem, porque o espirito politico
da colmeia de um colmeal é muito diverso do das
nações humanas dum mesmo continente. E nessa
hipótese o certo é que cometem uma imprudência.
Se a rainha perecer ou extraviar-se durante o vôo
nupcial, não resta outra para a substituir, e as
larvas de operarias já estarão muito adiantadas
para serem transfeitas em larvas reais. Mas, afi­
nal, a imprudência foi cometida e lá está a colmeia
com uma soberana unica, reconhecida por todo o
povo. Conserva-se ainda virgem, entretanto. Para
tornar-se igual à Rainha-Mãe que vai substituir,
tem que encontrar um macho nos vinte primeiros
dias depois de seu nascimento. Se por uma cau­
sa qualquer esse encontro não ocorrer dentro de
tal prazo, sua virgindade se perpetuará. Não
obstante já vimos que apesar de virgem essa rai­
nha não é esteril. Dá-se o caso da grande anoma­
lia, precaução ou estranho capricho da natureza
A VIDA DAS ABELHAS 147

que tem o nome de partenogenese, fenomeno co­


mum a certo numero de insetos, como os pulgões,
os lepidopteros do genero Psique, os himenopte-
ros da tribu dos Cinipedes, etc. A rainha-virgem
é, portanto, capaz de pôr tantos ovos como os
poria se estivesse fecundada, mas desses ovos, pos­
tos tanto nas células grandes como nas pequenas,
só sairão machos; e como os machos não traba­
lham, vivem à expensas das femeas, não indo vi­
sitar as flores nem sequer para se regalarem com
o nectar, teremos ao cabo de poucas semanas, de­
pois da morte das ultimas obreiras, a ruina e ex­
tinção total da colmeia.
Da rainha virgem sairão milhares de machos,
cada um deles portador de milhões de espermato-
zoarios, dos quais nem um só pôde penetrar em
seu organismo. Isto não é mais surpreendente,
se querem, do que mil outros fenomenos analogos;
porque quando atentamos em tais problemas, so­
bretudo no campo da geração, onde o maravilhoso
e o inesperado brotam de todos os lados mais abun­
dantes que nos contos de fadas, a nossa surpresa
se repete tanto que acaba por embotar-se. Mas
nem por isso deixa o caso das abelhas de merecer
menção. Por outro lado, como tirar a limpo o ob­
jetivo la natureza ao favorecer assim os machos
— tão nocivos, em detrimento das obreiras — tão
necessarias? Receará que a inteligencia das fe­
meas as leve a reduzir excessivamente o numero
148 MAURICE MAETERLINCK

desses parasitas calamitosos, mas indispensáveis à


perpetuação da especie? Será uma reação exa­
gerada contra a desgraça da rainha infecunda?
Será uma dessas precauções muito violentas e ce­
gas que não alcançam a causa do mal e para evitar
um acidente incomodo acarretam uma catastrofe?
Na realidade — realidade artificial criada pelo
homem, porque na realidade natural das-florestas
primevas as colmeias deviam existir bem mais dis­
persas do que as temos hoje — na realidade, quan­
do uma rainha permanece infecunda não será nun­
ca por falta de machos, os quais são sempre nu­
merosos e vem de muito longe. E’ antes o frio e
a chuva que a retem por muito tempo na colmeia,
e mais ainda por causa de suas asas imperfeitas,
defeito que as impede de acompanhá-los no gran­
de revôo exigido para a conjunção. A natureza,
entretanto, sem levar em conta estas causas mais
reais, procupa-se apaixonadamente com a multipli­
cação dos machos. Chega a desatender a outras
leis para alcançar este resultado. Encontram-se
às vezes nas colmeias orfãs duas ou tres obreiras
tão interessadas na manutenção da especie que,
apesar de terem os ovários atrofiados, se esforçam
por produzir ovos — e sob o império da vontade
exasperada chegam a deitar alguns — ovos que
como dos da rainha virgem tambem só produzem
machos.
A VIDA DAS ABELHAS 149

xm
Temos aqui a intervenção dum fato, duma
vontade superior, mas talvez imprudente, que con­
traria de modo irresistível a vontade inteligente de
uma vida. Iguais intervenções se reproduzem
aihiude no mundo dos insetos. E como é esse
mundo mais povoado e complexo que os outros,
muitas vezes nele aprendemos certos desejos da
natureza, revelados em experiencias que parecem
inconclusas. A natureza, por exemplo, manifesta
em tudo um desejo geral de melhoria de cada
especie por meio do triunfo do mais forte. E a
luta é bem organizada. A hecatombe dos fracos
revela-se enorme, o que pouco importa, contanto
que a recompensa do vencedor seja eficaz e segura.
Mas ha casos em que aparentemente a natureza
ainda não teve tempo de desdobrar todas as suas
combinações, casos em que a recompensa é im­
possível e a sorte do vencedor tão funesta quanto
a do vencido. E voltando às nossas abelhas, não
sei de nada mais impressionante que a historia dos
triongulinos do Sitaris cólletis, da qual alguns por­
menores lembram a historia humana.
Esses triongulinos são as larvas primarias do
parasita de uma abelha silvestre, obtusilingue e
solitaria, que faz seu ninho em forma de galerias
subterraneas. Ficam eles de tocaia à entrada des­
sas galerias, e em numero de tres, quatro, cinco e
às vezes mais agarram-se ao pêlo da abelha que ali
aparece e se instalam em seu dorso. Se a luta
dos fortes contra os fracos se realizasse naquele
momento, não haveria nada a dizer e tudo se pas­
saria de acordo com a lei universal. Mas não sa­
bemos porque o instinto desses parasitas quer, e
por consequencia a natureza assim o ordena, que
eles permaneçam tranqüilos durante o tempoi em
que se acham sobre o dorso da abelha. Enquanto
ela visita as flores, aperfeiçoa as células ou as
abastece, eles saltam-lhe em cima e ficam aderi­
dos, de modo que a desprevenida mãe guarda o
ovo na celula sem desconfiar que com ele tambem
guardou a morte de sua progenitura.
Fechada a celula, o salutar combate da sele­
ção natural começa entre os triongulinos em redor
do ovo unico. O mais forte agarra o seu adversa-
rio por um defeito da couraça e o mantem ^rguido
nas mandibulas durante horas, até que expire.
Mas durante a luta um terceiro triongulino, que fi­
cou só, ou já venceu seu contendor, apodera-se do
ovo e começa a come-lo. E’ preciso então que o
ultimo vencedor dê tambem cabo deste novo ini­
migo, o que lhe é facil, porque o triongulino que
está matando a fome pré-natal se agarra tão tei­
mosamente ao ovo que não pensa em defender-se.
O mais forte, ou mais apto, mata assim o ulti­
mo concorrente e se vê afinal sozinho diante dum
ovo tão precioso e tão bem ganho. Mergulha avi­
damente a cabeça na abertura feita pelo vencido
A VIDA DAS ABELHAS 151

e empreende a lpnga refeição que o deve transfor­


mar em inseto perfeito, dotado de todo o aparelha-
mento necessário para romper a prisão de cera
onde está seqüestrado. Mas a natureza, que quis
ess^i luta, por outro lado calculou o premio doi
triunfo com precisão de avarento: um ovo dá exa­
tamente para a nutrição dum triongulino. “ De
modo que ao nosso vencedor (diz Mayet, a quem
devemos o relato destas desconcertantes aventu­
ras) vai faltar a quantidadezinha de alimento que
o seu ultimo inimigo absorveu antes de morrer
— e, incapaz de ir mais longe, morre tambem ele
— fica suspenso na pele do ovo esvasiado ou vai
aumetar, no liquido açucarado que ha no fundo
das células, o numero dos mortos.
xiv
Este caso não é unico em historia natural, em­
bora poucos exemplos se nos apresentem assim cla­
ros. Nele vemos a nu a luta entre a vontade cons­
ciente do triongulino que procura viver e a von­
tade obscura e geral da natureza que igualmente
deseja que ele viva, e mesmo que fortifique e me­
lhore sua vida mais que a sua vontade própria o
impeliria a fazer. Mas por uma estranha inadver-
tencia o melhoramento imposto suprime até a vida
melhor, e o Sitaris colletis já de ha muito teria de­
saparecido do mundo, se alguns individuos, por um
acaso contrario às intenções da natureza, não es-
152 MAVRICE MAETERLINCK

capassem à excelente e previdente lei natural do


triunfo do mais forte. *
Será então que o grande poder que nos parece
inconsciente, mas necessariamente assisado, por­
que a vida que ele organiza e conserva lhe dá sem­
pre razão, tambem erra? Sua razão suprema, que
nós invocamos quando atingimos os limites do nos­
so ser, tem tambem ela seus desfalecimentos? E
se os tem, quem os corrige?
Mas voltemos à intervenção irresistível que
toma o nome de partenogenese — e não esqueça­
mos que estes problemas de um mundo tão distan­
te do nosso nos interessam muito de perto. Pri­
meiramente, é provável que em nosso corpo, do
qual tanto nos envaidecemos, as coisas se passem
do mesmo modo. A vontade ou o espirito da na­
tureza a atuar em nosso estomago, em nr^so cora­
ção e na parte inconsciente de nosso cerebro não
deve diferir do espirito e da vontade que ela põe
nos seres mais rudimentares, nas plantas e nos pro-
prios minerais. E depois, quem ousará afirmar
que intervenções mais secretas, mas não menos
perigosas, não se produzem na esfera consciente do
homem? No caso que nos ocupa, quem tem razão,
afinal, a natureza ou a abelha? Que sucederia se
esta, mais docil ou mais inteligente, compreenden­
do o desejo da natureza, a seguisse até às ultimas?
e já que ela imperiosamente pede machos, os mui-
A VIDA DAS ABELHAS 153

tiplicasse ao infinito? Não seria precipitar-se na


destruição da especie? Teremos de admitir que
ha na natureza intenções que é perigoso apreen­
der e funesto seguir com muito ardor? e que um
dos seus desejos é que não penetremos e não siga­
mos todos os seus desejos? Não está aí, talvez, um
dos perigos que corre a raça humana? Tambem
sentimos em nós forças inconscientes, que querem
o contrario do que a nossa inteligencia reclama.
Será vantajoso que esta inteligencia se reuna a
essas forças, acrescentando-lhe o seu peso inespe­
rado — essa inteligencia de ordinário depois de
dar a volta em redor de si mesma não sabe para
onde ir?

xv

Teremos o direito de concluir, do perigo da


partenogenese, que a natureza nem sempre sabe
proporcionar os meios aos fins? que o que ela juln
ga manter, é mantido muitas vezes graças a outras
precauções, e muitas vezes graças a circunstancias
estranhas que ela não previu? A natureza, dirão,
é uma palavra com que designamos o incognosci-
vél, e poucos fatos decisivos nos induzem a lhe
atribuir um fim ou inteligencia. Es verdade. Nós
manuseamos aqui os vasos hermeticamente fecha­
dos que constituem o mobiliário da nossa concep­
ção do universo. Para não apor invariavelmente
154 MAURICE MAETERLINCK

o rotulo de DESCONHECIDO, que desanima e im­


põe o silencio, empregamos, conforme as circuns­
tancias, as palavras “ Natureza” , “ Vida” , “ Morte” ,
('“ Infinito” , “ Seleção” , “ Genio da Especie” e mui­
tas outras, como os que nos precederam emprega­
vam as palavras “ Deus” , “ Providencia” , “ Desti­
no” , “ Recompensa” , etc. E’ isto, creio, e nada
mais. Mas embora a coisa permaneça obscura,
temos pelo menos a vantagem de, como os rotulos
são menos ameaçadores, podermos no aproximar
dos vasos tocá-los e aüscutá-los com uma curio­
sidade salutar.
Mas seja qual for o nome empregado, o certo
é que pelo menos um dos vasos, o maior, o que tem
o rotulo de “ Natureza” encerra uma força bastan­
te real — a mais real de todas, e que sabe manter
em nosso mundo uma quantidade enorme, de vida,
de qualidade maravilhosa, por meios tão engenho­
sos que sem exageração podemos afirmar que
excedem a tudo quanto o genio do homem é capaz
de organizar. Esta quantidade e esta qualidade,
será que se manteriam por outros meios? Será
que nos enganamos crendo ver precauções lá onde
não ha, talvez, senão um acaso feliz que sobrevi­
ve a um milhão de acasos desastrosos?
XVI

Pode ser; mas esses acasos felizes nos dão li­


ções de admiração iguais às que teriamos em zo-
na acima do acaso. Não consideremos unicamen­
te os seres que possuem um clarão de inteligencia
ou conciencia, e podem lutar contra as leis cegas;
nps inclinaremos sobre os primeiros e nebulosos
representantes do reino animal, os protozoarios.
Mas as experiencias do celebre microscopista H.
J. Carter mostram que vontade, desejos, preferen­
cias se manifestam ainda nos embriões mais Ínfi­
mos, como os mixomicetos; mostram que ha mo­
vimentos astuciosos em infusorios privados de
todo organismo aparente, como a ameba que es­
preita com dissimulada paciência as jovens acine-
tas à saida do ovario materno, porque sabem que
nesse momento ainda estão destituidas de tentá­
culos venenosos. Ora, a ameba não possue siste­
ma nervoso nem nenhum orgão perceptivel à nos­
sa observação. Passemos agora ao reino das plan­
tas, que são imóveis e parecem sujeitas a todas as
fatalidades, e vemos as droseras, por exemplo, que
na realidade agem como animais: estudemos o
genio empregado pelas flores mais simples afim
de que a visita de uma abelha acarrete inevita­
velmente a fecundação cruzada que lhe é indis­
pensável. Vejamos o jogo maravilhosamente bem
combinado do rostelio, retinaculos, da aderencia
e da inclinação matematica e automatica das poli-
nias na Orchis morio, a humilde arquidea das nos-
156 MAURICE MAETERLINCK

sas zonas. (*) Desmontemos a infalível bascula


dupla das anteras da sálvia, que toca em dado pon­
to exato duma flor visinha. Sigamos tambem os
“ disparos” e cálculos da Pedicularia Sylvatica; e
veremos que à entrada da abelha todos os orgãos
dessas flores se põem em movimento, à maneira
dessas engenhocas complicadas que no tiro ao
alvo das nossas feiras só entram em ação quando
o atirador atinge o centro do alvo.

(*) Impossível dar aqui detalhadamente esta cilada mara­


vilhosa descrita por Darwin. Vá um resumo apenas. O polen
na Orchis morio não é pulverulento, mas agrumado em forma
de pequenas massas chamadas polinias. Cada uma dessas mas­
sas (são duas) termina a sua extremidade inferior por uma
rodela viscosa (o tetinaculo) , encerrado numa especie de saco
membranoso (o rostelio) que, ao menor contato, rebenta.
Quando uma abelha pousa na flor, sua cabeça, ao avançar
para colher o nectar, esbarra no saco membranoso, o qual re­
benta e põe a nu as duas rodelas viscosas. As polinias, graças
ao visgo das rodelas, apega-se à cabeça da abelha, qual, dei­
xando a flor, leva-as consigo como dois chifrinhos bulbosos.
Se esses dois chifrinhos carregados de polen permanecessem
retos e rigidos, no momento em que a abelha penetrasse numa
orquídea vizinha eles tocariam e fariam simplesmente rebentar
o saco membranoso dessa flor, mas não alcançariam o estig-
mate ou orgão femeo que tem de ser fecundado e está situado
abaixo do saco membranoso. O genio da Orchis morio previu
a dificuldade e ao cado de trinta segundos, isto é, o pequeno
espaço de tempo necessário para que a abelha acabe de sorver
o nectar e passe a outra flor, a haste da pequena maçã emur-
chece e retrai-se, sempre do mesmo lado e no mesmo sentido;
o bulbo que contém o polen inclina-se e o seu grau de inclina­
ção está calculado de modo que no momento da abelha pousar
na flor vizinha se achará justamente ao nivel do estigmata so­
bre o qual deve espalhar o pó fecundante. (Ver o admirável
estudo de Darwin sobre a "fecundação das orquídeas pelos
insetos e seus bons efeitos no cruzamento” ).
A VIDA DAS ABELHAS 157

Poderíamos descer mais baixo ainda e mos­


trar, como fez Ruskin na Ethics of the Dust, os
hábitos, 0 carater e a astúcia dos cristais suas con­
tendas, o que eles fazem quando um corpo estra­
nho vem perturbar seus planos, que são mais an­
tigos que tudo quanto a nossa imaginação possa
conceber, e o modo como admitem ou repelem um
inimigo; a vitoria possivel do mais fraco sobre o
mais forte, como no caso do Quartzo onipotente
que cede diante do humilde e astuto Epidoto e
lhe permite sobreposição; a luta, ora terrível, ora
magnífica, do cristal de rocha com o ferro; a ex­
pansão regular, imaculada, e a intransigente pu­
reza dum bloco hilino, que repele de antemão to­
das as maculas, e o crescimento doentio, a imo­
ralidade evidente de seu irmão, que as aceita e se
torce miseravelmente no vacuo; poderíamos invo­
car os estranhos fenomenos da cicatrização e da
reintegração cristalina de que fala Claude Ber-
nard___ Mas aqui o mistério nos é muito estra­
nho. Fiquemos em nossas flores, que são as ulti­
mas formas de vida com alguma relação com a
nossa. Não se trata aqui de animais ou insetos
a quem atribuímos uma vontade particular e in­
teligente, graças à qual sobrevivem. Certos ou
errados, não lhes atribuímos nenhuma. Ou pelo
menos não podemos encontrar nas flores o menor
traço desses orgãos onde habitualmente nascem
òü tem sede a vontade, a inteligencia, a iniciativa
158 MAURICE MAETERLINCK

de uma ação. E por consequencia o que nelas age


de um modo tão maravilhoso vem diretamente do
que chamamos Natureza. Não é mais a inteligen­
cia do individuo, mas a força inconciente e indivi-
sa que arma ciladas a outras formas de si mesma.
E concluiremos nós que não passam essas ciladas
de puros acidentes fixados por uma rotina tam­
bem acidental? Ainda não temos direito de che­
gar a esse ponto. Poder-se-ia dizer que à falta
de tais combinações miraculosas essas flores não
teriam sobrevivido, e outras, desnecessitadas da
fecundação cruzada, as teriam substituido, sem
que ninguém tivesse dado pela existencia das pri­
meiras — sem que a vida que ondula sobre a terra
nos tivesse parecido menos incompreensível, me­
nos variada e menos prodigiosa.
xvn
E entretanto seria dificil não reconhecer que
os acasos felizes são provocados e sustentados por
atos com todos os aspectos de atos inteligentes.
Donde emanam? Do proprio individuo ou da
força de onde recebe vida? Não direi que pouco
importa; ao contrario, é coisa que nos importa
enormemente. Mas enquanto não sabemos se é a
flor que se esforça por conservar e aperfeiçoar a
vida que nela pôs a Natureza, ou é a natureza que
se esforça por conservar e melhorar a parte de vida
que a flor tomou, ou, enfim, se é o acaso que aten-
de ao acaso, uma multidão de aparências nos in­
duzem a crer que alguma coisa semelhante aos
nossos mais altos pensamentos sai dum fundo co­
mum, que podemos admirar mas não sabemos on­
de se encontra.
Parece-nos às vezes que um erro sai desse
fundo comum. Mas o que sabemos é nada — e
muitas vezes temos ensejo de reconhecer que tal
erro é um ato de prudência acima do alcance da
nossa percepção. Mesmo dentro do reduzido raio
de alcance de nossos olhos podemos perceber que,
se a natureza parece enganar-se aqui, é que julga
util corrigir lá adiante uma presumida inadver-
tencia. Se as tres flores acima referidas ela as co­
locou em condições tão dificeis que não podem fe­
cundar-se por si mesmas, é porque julgou conve­
niente, sem que saibamos a razão, que se fizessem
fecundas pelas visinhas; e o genio que não mostrou
à nossa direita ela o manifesta à esquerda, ativan­
do a inteligencia de suas vitimas. Os rodeios desse
genio apresentam-se-nos inexplicáveis, mas o seu
nivel é sempre o mesmo. Parece baixar ao come­
ter um erro, mas imediatamente se eleva no orgão
encarregado de o corrigir. De qualquer lado que
nos voltemos esse genio alteia-se acima de nossas
cabeças. E’ o oceano circular, o imenso lençol de
aguas sem vazante sobre o qual nossos pensamen­
tos mais audazes e independentes não passam de
simples bolhas submissas, Hoje damos-lhe o nome
160 MAURICE MAETERLINCK

de Natureza; amanhã lhe daremos um nome mais


terrível'ou mais suave. Enquanto isso, esse genio
reina equanimemente sobre a vida e a morte, e
fornece a essas duas irmãs irreconciliaveis as ar­
mas comuns ou magníficas que elas manejam.
xvin
Quanto a saber se esse genio toma precauções
para manter o que se agita à sua tona, ou se temos
de fechar o mais estranho dos círculos dizendo que
o que se agita à sua tona toma precauções contra
o genio que a tudo faz viver, constituem questões
reservadas. É-nos impossível saber se uma forma
de vida sobreviveu apesar dos perigosos cuidados
da vontade superior, ou sobreviveu independente
deles, ou enfim se sobreviveu graças s si própria.
Tudo quanto podemos verificar é que tal for­
ma de vida subsiste, e que por consequencia a na­
tureza parece ter razão nesse ponto. Mas quem
nos dirá quantas outras formas de vida, que não
chegaram ao nosso conhecimento, foram vitimas
de sua inteligencia descuidada ou inquieta? Tudo
que nos é dado constatar são as surpreendentes e
às vezes antagônicas formas que, ora com a maior
inconsciência, ora com uma especie de consciên­
cia, toma esse fluido extraordinario a que chama­
mos Vida, que nos anima a nós e a tudo mais, e
produz este nosso pensamento que o julga e esta
nossa voz que se esforça por comentá-lo.
I

LIVRO V

O VÔ O N U P C I A L

I
Vejamos agora como se processa a fecundação
da Rainha. Ainda aqui a natureza toma medidas
extraordinarias para favorecer a união de machos
e femeas oriundos de cepas diferentes; lei estra­
nha, que nada a obrigava a decretá-la, capricho,
ou talvez inadvertencia inicial para cuja reparação
ela emprega as mais maravilhosas forças de sua
atividade.
Se para dar segurança à vida, e atenuar o so­
frimento, e lenir a morte, e afastar dos seres as
calamidades, se para conseguir isto a Natureza
empregasse metade do genio que consagra aos pro­
blemas da fecundação cruzada e a alguns outros
desejos arbitrarios, o universo nos ofereceria um
enigma menos incompreensivél, menos doloroso
que o que procuramos solver. Mas não é no que
teria podido ser e sim no que é, que convem con­
centrar nosso interesse pela vida.
ii
162 MAURICE MAETERLINCK

Em redor da rainha virgem, com ela conviven­


do na congestão da colmeia, vemos centenas de
machos exuberantes, sempre ebrios de mel e cuja
unica razão de ser é a potencialidade dum ato de
amor. Mas apesar do contacto diario de duas in­
quietações amorosas, coisa que por toda parte des-
troi todos os obstáculos, nunca a união se realiza
na colmeia, e jamais conseguiu o homem tomar
fecunda uma rainha cativa. (*) Os machos que
a rodeam ignoram quem ela é enquanto a rainha
permanece entre eles. Sem perceber que convi­
veram com ela sob o mesmo teto, que talvez nela
esbarrassem quando a rainha impetuosamente
deixou a colmeia, lá se vão eles em revôos pelo es­
paço em sua procura. Dir-se-ia que aqueles admi-
raveis olhos que revestem toda a cabeja dos zan-
gãos como dum capacete fulgurante, só a reconhe­
cem quando a Rainha plana em pleno azul. Cada
dia, das onze horas às tres da tarde, quando a luz
está em todo o seu esplendor, e sobretudo quando
o meio-dia desdobra por todo o ceu as suas gran­
des asas azues, como para avivar a flamá do sol, a
horda empavezada dos zangãos se precipita pelo
espaço em procura da esposa mais realenga que
as de todos os contos de princesas inacessiveis, pois

(*) O professor McLain conseguiu recentemente fecundar


artificialmente algumas rainhas, por meio de uma verdadeira
operação cirúrgica, delicada e complicada. Mas obteve uma
fecundidade restrita e efemera.
A VIDA DAS ABELHAS 163

que vinte ou trinta bandos a perseguem, saidos


de todas as colmeias das redondezas, num cortejo
de roais de dez mil pretendentes dos quais vim só
será eleito. Perseguem-na para o contacto unico
de um só minuto, que o casará com a felicidade e
aO mesmo tempo com a morte, enquanto todos os
outros esvoaçarão inutilmente em redor do par en­
laçado e breve perecerão sem tornar a ver a apa­
rição magica e fatal.
n
Não estou exagerando esta surpreendente e
louca prodigalidade da natureza. Nas melhores
colmeias existem habitualmente quatrocentos ou
quinhentos machos. Nas colmeias degeneradas ou
mais fracas esse numero sobe a quatro e cinco mil,
porque quanto mais degenera uma colmeia, maior
numero de machos produz. Pode-se dizer que em
media um colmeal composto de dez colonias espa­
lha no ar, num dado momento, uma legião de dez
mil machos, dos quais dez ou quinze, no maximo,
terão ensejo de realizar o ato unico para o quel<
existem.
Enquanto não chega esse dia, eles depredam
as provisões da cidade; o trabalho incessante de
cinco ou seis operarias mal basta para nutrir a ocio­
sidade voraz e gorda desses parasitas que de in-
cansavel só têm a boca. Mas a natureza mostra-se
sempre magnifica em se tratando das funções e
164 MAURICE MAETERLINCK

dos privilégios do amor. Só se revela economica


em se tratando de orgãos e instrumentos de traba­
lho, e é particularmente aspera. para o que os ho-i
mens chamam virtude. Não mede as suas joias
nem os seus favores quando prepara o caminho do
amor, ainda o menos interessante. Parece gritar
para todos os lados: “ Uni-vos, multiplicai-vos;
não ha outra lei, não ha outro fim senão o amor”
— e como que acrescenta a meia voz: “ E aguen­
tai-vos depois, porque isso já não me interessa.”
Por mais que procuremos ver outra coisa, o que
encontramos por toda parte é esta moral tão di­
ferente da nossa.
Mesmo nos seres mais minusculos ressaltam a
sua avareza injusta e o seu fausto delirante. Des­
de o nascimento até à morte tem a austera opera­
ria de sair para longe e penetrar em todos os re­
cantos em busca das flores que se dissimulam.
Deve descobrir nos labirintos dos nectarios e nas
sendas secretas das antenas o mel e o polen ali
ocultos. E no entanto os olhos dessas abelhas e
seus orgãos olfativos são como atrofias compara­
dos com os dos zangãos, esses machos que ainda
que fossem cegos e privados do olfato não dariam
por isso, já que nada fazem, nenhuma tarefa têm
a desempenhar. Seus alimentos já lhe aparecem
preparados, de modo que passam a vida a sugar
o mel recolhido nos favos, ali na obscuridade da.
colmeia.
Mas como são os agentes do amor, os maiores
dons, inúteis, lhe são lançados a mancheias no
abismo do futuro. Um deles apenas em cada mi-
lheiro terá de descobrir, uma vez na vida, na vas­
tidão do azul, a presença da virgem real. Um em
cada mil deverá acompanhar por um instante no
espaço a pista da femea que não procura fugir.
Basta um. A natureza, tão parcial, vai aos extre­
mos do delirio na oferta de seus inauditos tesou­
ros. A cada um desses amantes improváveis, dos
quais 999 serão chacinados alguns dias depois das'
núpcias fatais do milésimo feliz, a natureza dá
treze mil olhos de cada lado da cabeça, enquanto
às operarias só dá seis mil. E provê suas ante­
nas, segundo os cálculos de Cheshire, de 37.800
cavidades olfativas, enquanto as operarias ape­
nas possuem cinco mil. Temos aqui um exemplo
da desproporção observada em quasi todos os se­
res entre os dons que ela concede ao amor e os
que regateia ao trabalho; entre o favor que espa-,
lha sobre o que dá surto à vida dentro do prazer
e a indiferença com que abandona os que pacien­
temente vivem no sofrimento. Quem pintasse o
carater da natureza com base em aspectos como
este, produziria um retrato muito estranho e sem
nenhuma concordancia com nosso ideal — o qual,
entretanto, deve proceder dela tambem. Mas a
ignorancia do homem é muito grande para que
possa tentar este retrato, no qual não poderia pin-
V
\

166 MAURICE MAETERLINCK

tar mais que uma grande sombra com dois ou tres


vacilantes pontos luminosos.
ih

Ninguém, suponho, ainda violou o segredo das


núpcias passadas nos infinitos do azul, mas pode­
mos surpreender a partida hesitante da noiva e a
volta da esposa tragica.
Apesar da sua impaciência, a Rainha escolhe
o dia e a hora das núpcias, e espera à sombra da
porta que uma esplendorosa manhã desdobre no
espaço nupcial suas gases azues. Dá preferencia
ao momento em que um pouco de orvalho rocia
duma recordação as folhas e as flores; em que o
ultimo frescor da aurora moribunda luta, em sua
derrota, com o ardor do dia — como uma virgem
nua nos braços de um solido guerreiro; em que o
silencio e as rosas do meio-dia proximo ainda dei­
xam transparecer, aqui e ali, o perfume das viole­
tas matinais ou algum transparente gemido da au­
rora.
E então surge a rainha no limiar da col­
meia, em meio à indiferença das caçadoras de
mel entregues à faina, se na colmeia ainda restam
ninfas dé rainhas, ou rodeada de obreiras aflitas,
se não ha possibilidade de substituição em caso de
desastre. Arma o vôo, às arrecuas, parte e volta
duas ou tres vezes, e só depois de bem marcados
na memória o aspecto e a situação exata da col-
A VIDA DAS ABELHAS 167

meia é que parte definitivamente — parte como


uma flecha para o alto. Alcança assim uma zona
luminosa que as outras abelhas jamais afrontam
em qualquer epoca de sua vida.
Ao longe, em redor das flores onde flutua sua
preguiça, os machos percebem a aparição e fare­
jam o odor magnético que se vai espalhando.
Breve as hordas se reunem e desferem vôo na di­
reção que ela tomou. Embriagada com o movi­
mento de suas asas e obedecendo à magnífica lei
dâ especie que já lhe escolheu o amante e quer que
Unicamente o mais forte atinja a solidão do eter,
a Rainha sobe sempre. O ar da manhã penetra
pela primeira vez em seus estigmatas abdominais,
e ressoa como sangue do ceu nas mil radiculas li­
gadas aos dois sacos traqueanos que lhe ocupam
metade do corpo e se nutrem de espaço. E sobe
sempre. Tem que galgar uma zona deserta, livre
de passaros que possam perturbar o mistério.
Sobe ainda mais, e já o bando que a persegue di­
minui e se rarefaz abaixo dela. Os fracos, os
doentes, os velhos, os malformados, os subnutridos
das colmeias miseráveis, renunciam à persegui­
ção e desaparecem no espaço. Só fica em ascen­
são, na opala infinita, o pequeno grupo dos infa-
tigaveis. Ela ainda exige um ultimo esforço de
suas asas, e eis que o eleito das forças incompreen-
siveis a alcança, a enlaça, a penetra e, levado de
168 MAURICE MAETERLINCK

um duplo enlace, o par turbilhona um segundo no


delirio hostil do amor.
IV

A.mór parte dos seres tem a sensação confusa


de que o amor está separado da morte por algo
muito precário, uma especie de membrana trans­
parente, e que a ideia profunda da natureza quer
que o ser morra no momento em que transmite a
vida. Talvez seja este temor hereditário que dá
tanta importancia ao amor. Neste caso das abe­
lhas, pelo menos, concretiza-se em sua simplicida­
de primitiva esta ideia que ainda pervaga na união
humana. Realizada a união, , o ventre do macho
entreabre-se, o orgão se destaca, arrastando a mas­
sa das entranhas, as asas se distendem — e, ful­
minado pelo raio nupcial, o seu corpo esvaziado
regira e começa a cair no abismo do espaço.
O mesmo pensamento que na parteno'genese
sacrifica o futuro da colmeia à absurda multiplica­
ção dos machos, aqui sacrifica o macho ao futuro
da colmeia.
Este pensamento nos espanta sempre; mais o
aprofundamos, mais nossas certezas diminuem, e
Darwin, por exemplo — para citar o homem que
mais metódica e apaixonadamente estudou o caso
— perde o equilibrio a cada passo, e volta atrás,
diante do inesperado e do inconciliável. Vede-o,
se quereis assistir ao espetáculo nobremente hu-
A VIDA DAS ABELHAS 169

milhante do genio humano a braços com a potên­


cia infinita, vede-o a tentar a destrama das leis
bizarras, incrivelmente misteriosas e incoerentes
da esterilidade e da fecundidade dos hibridos, ou
as da variabilidade dos caracter específicos e ge-
nericos. Apenas formula um principio, e já nu­
merosas exceções o assaltam, e o pobre principio
agredido dá-se por feliz de, a titulo de exceção,
conservar um resto de existencia.
E’ que na hibridação, na variabilidade (so­
bretudo nas variações simultaneas, chamadas cor­
relação de crescimento), no instinto, nos proces­
sos da luta pela vida, na seleção, na sucessão geo­
lógica, na distribuição geografica dos seres orga-j
nizados e nas afinidades reciprocas, o pensamento
da natureza é cuidadoso e negligente, economico e
esbanjador, previdente e descuidado, inconstante
e inabalavel, agitado e imovel, uno e inumerável,
‘grandioso e mesquinho — tudo no mesmo feno-
meno e ao mesmo tempo. Quando a natureza ti­
nha diante de si o campo imenso e virgem da sim­
plicidade, povoou-o de pequenos erros, de peque-
nas leis contraditorias, de pequenos problemas di-
ficeis que se tresmalham na existencia como reba­
nhos cegos. E’ verdade que tudo isso é assim para
nossos olhos, que só refletem uma realidade con­
soante ao nosso vulto e às nossas necessidades; e
nada nos autoriza a crer que a natureza perde de
vista suas causas e seus efeitos tresmalhados.
Não obstante é raro que a natureza permita a
esses desvios irem muito longe, aproximando-se de
regiões ilógicas ou perigosas. Ela dispõe de for­
ças que sempre dizem a ultima palavra, e quando
os fenomenos passam de certos limites, ei-la ace­
nando para a Vida ou para a Morte para que ve­
nham restabelecer a ordem e traçar de novo o ca­
minho.

v
A natureza nos escapa de todos os lados, des­
conhece a maior parte das nossas regras e rompe
todas as nossas medidas. Aqui, mostra-se muito
abaixo do nosso pensamento, mas já ali o domina
qual uma montanha. A cada momento nos parece
que ela se engana, tanto no mundo de suas primei­
ras experiencias como no das ultimas — p mundo
dos homens. Vemo-la sancionar o instinto da
massa obscura, a injustiça inconsciente do nume­
ro, a derrota da inteligencia e da virtude, a moral
sem elevação que guia a grande onda da especie
e é manifestamente inferior à moral do pequeno
numero dos eleitos. Estará errado, portanto, per­
guntarmos hoje se o nosso dever não é procurar
toda a verdade, isto é, tanto as morais como as
outras, neste caos do mundo antes que em nós
mesmos, onde elas parecem relativamente claras
e precisas?
\

A VIDA DAS ABELHAS 171

Não pensamos em renegar a razão e a virtude


do nosso ideal consagrado por tantos herois e sá­
bios, mas às vezes nos acode que talvez esse ideal
se haja formado fora da massa enorme de que ele
pretende representar a beleza difusa. Seria de
temer que adaptando nossa moral à da natureza
aniquilassemos o que nos parece a obra prima des­
sa mesma natureza. Mas hoje que a conhecemos
um pouco melhor, e que algumas respostas, ainda
obscuras de imprevista amplitude, nos fazenti en­
trever um plano e uma inteligencia mais vastos
do que os poderíamos imaginar se não saissemos
de nós mesmos, já temos mais coragem e não sen­
timos imperiosamente a necessidade de refugio
em virtudes e razões particulares. O que é tão
grande não podia ensinar-nos a diminuir-nos. E
queremos saber se não é chegado o momento de
sujeitar a um exame mais judicioso os nossos prin-
cipios, as nossas certezas e os nossos sonhos.
Repito que não pensamos em abandonar o
nosso ideal humano. Aquilo mesmo que a prin­
cipio nos dissuade desse ideal nos ensina depois a
retomá-lo. A natureza não poderia dar maus con­
selhos a um espirito para o qual toda verdade que
não for tão alta quanto a verdade de seu proprio
desejo não parece bastante alta para ser definitiva
e digna do plano que ele se esforça por abraçar.
Nada muda de lugar em sua vida, senão para
subir com ele; e por muito tempo ainda esse espi-
172 MAUR1CE MAETERL1NCK

rito sentirá que sobe sempre que se aproxima da


antiga imagem do bem. Mas em seu pensamento
tudo se transforma com maior liberdade, e ele
pode descer impunemente na sua apaixonada con­
templação, até amar, tanto quanto ama as virtu­
des, as contradições mais crueis e imorais da vida
— porque tem o pressentimento de uma serie de
vales sucessivos conducentes ao platô que espera
alcançar. Esta contemplação e este amor não o
impèdem de que, procurando a certeza, e mesmo
quando sua procura o leve ao oposto do que ama,
ele baseie sua conduta na verdade mais humana­
mente bela e se mantenha no provisorio mais alto.
Tudo quanto aumenta a virtude benfazeja penetra
imediatamente em sua vida; tudo quanto a dimi-
nue fica em suspenso, como esses sais insolúveis
que só reagem no momento da experiencia deci­
siva. Poderá aceitar uma verdade inferior, mas
para agir de acordo com esta verdade esperará —
séculos sé for necessário — até perceber a relação
que essa verdade deve ter com verdades bastante
infinitas para envolver e dominar todas as outras.
Em uma palavra, ele. separa a ordem moral da
ordem intelectual e não admite na primeira senão
o que é mais belo e maior que outrora. E se é con­
denável separar estas duas ordens, como acontece
tantas vezes na vida, agindo de um modo e pen­
sando de outro, ver o pior e seguir o melhor ou so­
brepor a ação à ideia é sempre salutar e racional,
s s
A VIDA DAS ABELHAS 173

porque a experiencia humana cada vez mais nos


permite esperar que o nosso pensamento mais alto
permanecerá ainda por muito tempo abaixo da
misteriosa verdade que procuramos. Ademais,
quando nada fosse verdade de tudo quanto disse­
mos, resta-nos uma razão simples e natural para
não abandonarmos o ideal humano. Quanto mais
ele reconhece as leis que parecem acenar com o
egoismo, a injustiça e a crueldade, mais fortalece
as leis que aconselham a generosidade, a piedade,
a justiça. Porque desde o momento em que co­
meçam a igualar e proporcionar as partes que
atribuímos ao universo e a nós mesmos, encontra­
mos nestas ultimas leis algo tão profundamente
natural como as primeiras, já que elas se acham
tão profundamente inscritas em nós como as ou­
tras se acham inscritas em tudo que nos rodeia.
VI

Voltemos às núpcias tragicas da rainha. Nes­


te exemplo a natureza quer, em vista da fecunda­
ção cruzada, que o enlace só seja possivel nas al­
turas. Mas os desejos da natureza se entrelaçam,
e suas leis mais queridas têm que passar continua­
mente através das malhas de outras leis, que de­
pois, a seu turno, passarão através das malhas das
primeiras.
Havendo povoado de perigos inumeráveis
aquele ceu, de ventos frios, correntes de ar, tem­
m r

174 MAURICE MAETERLINCK

pestades, vertigens, insetos, aves, gotas d’agua que


obedecem tambem a leis irredutiveis, toma-se ne­
cessário que tome medidas para que essa união seja
muito breve. E o consegue com a morte imediata
do macho. Basta aquele amplexo — e em seguida
o himeneu passa a processar-se no proprio seio
da esposa.
Daquelas alturas azulejantes desce a Rainha
à colmeia, arrastando consigo, qual uma aurifla-
ma, as entranhas desdobradas do amante. Alguns
apidologos pretendem que a essa volta, rica de
promessas, as operarias se expandem em grandes
demonstrações de alegria. Buchner, entre outros,
pinta detalhadamente a cena. Mas a mim não me
foi dado ver agitação especial senão quando se
trata duma rainha nova saída à frente dum enxa­
me, e pois representativa da unica esperança da
cidade nascente e ainda deserta. Todas as obrei­
ras se mostram afobadas e se precipitam ao seu
encontro. Mas fora desse caso, embora o perigo
para o futuro da cidade seja quasi tão grande, as
abelhas não parecem dar importancia à volta da
rainha, e como que a esquecem. Tudo elas pre­
viram até ao momento em que facilitaram a chaJ
cina das rainhas rivais. Mas daí por diante há
como uma lacuna em seu instinto. As abelhas
mostram-se indiferentes à volta da rainha; talvez
percebam os sinais da tragica fecundação, mas,
ainda desconfiadas, não manifestam a alegria que
\

A VIDA DAS ABELHAS 175

nossa imaginação prevê, Positivas e rebeldes à


ilusão, antes de se rejubilarem muito naturalmen­
te esperam outras- provas da fecundação.

vn
Ha erro no quererem tomar logicos, e huma­
nizados até às ultimas, todos os sentimentos des­
ses pequeninos seres tão diferentes de nós. Com
as abelhas e todos os animais que revelam um re­
flexo da nossa inteligencia raro chegamos a ver o
que aparece nos livros. Muitas circunstancias nos
são sonegadas. Por que apresentá-las mais perfei­
tas do que são, dizendo o que não é? Se muitos jul­
gam que as abelhas seriam mais interessantes se
fossem iguais a nós, é que ainda não formam uma
ideia justa do que deve despertar o interesse dum
espirito sincero. O fim do observador não é pro­
vocar espantos, mas compreender; e é tão curioso
assinalar simplesmente as lacunas duma inteli­
gencia e os indicios dum regimen cerebral dife­
rente do nosso, como atribuir-lhe maravilhas.
Mas a indiferença das abelhas não é unanime,
e quando a rainha ofegante chega ao patamar da
colmeia, alguns grupos se formam e a rodeam.
Todavia a recem-vinda não parece lhes dar aten­
ção, como se não houvesse lugar para muitas emo­
ções no seu cerebro estreito de mãe pratica e bar­
bara. Só mostra uma preocupação: desembara­
çar-se o mais depressa possivel das importunas en­
tranhas do esposo que lhe atrapalham os movi­
mentos. Senta-se ali no limiar da colmeia e cui­
dadosamente arranca de si aqueles orgãos já inú­
teis, que as abelhas tomam e removem para longe
— porque o macho deu àquela esposa tudo quanto
possuia e mais do que era necessário. Só retem
em sua espermoteca o liquido seminal onde nadam
milhões de germens. Durante toda a sua vida de
rainha esses germens, um a um, virão ter à pas­
sagem dos ovos para realizar o misterioso contacto
do elemento masculino com o feminino, do qual
nascem as obreiras. Dois dias depois da fecunda­
ção surgem os primeiros ovos, que as abelhas ro-
deam dos maiores cuidados. E dotado assim dos
dois sexos, pois tem encerrado em si um macho
inesgotável, a rainha dá começo à sua verdadeira
vida e não deixa mais a colmeia; não volta a ver a
luz do dia a não ser quando parte à frente dum
enxame — e sua fecundidade só fraqueia a apro­
ximação da morte.
Temos aqui a mais maravilhosa das núpcias, as
mais feericas que possamos imaginar, tecidas de
azul e tragédia — fulminantes e impereciveis, des­
lumbrantes e unicas, solitárias e infinitas. Pro-
digiosá ebriedade em que a morte, sobrevinda no
que ha de mais limpido em redor de nosso planeta
— o espaço virginal e sem limites — fixa na trans­
parência augusta do ceu imenso um segundo de
felicidade; purifica na luz imaculada o que o amor
tem sempre de prosaico; torna inesquecível aquele
contacto; e contentando-se dessa vez com um di­
zimo indulgente, com suas mãos tomadas mater­
nais a natureza tem o cuidado de introduzir e unir
para um logo futuro, inseparaveis num mesmo
corpo, duas vidinhas frágeis.
A verdade profunda não tem esta poesia —
terá outra que ainda não podemos apreender mas
que talvez acabaremos por compreender e amar.
A natureza não se preocupou em proporcionar
àqueles dois “ raccoursis d’atome” , como dizia Pas­
cal, um casamento esplendoroso, um minuto ideal
de amor. Só teve em vista a melhora da especie
por meio da fecundação cruzada. Para consegui-
la dispôs o orgão do macho dum modo tão parti­
cular que ele só pode usá-lo no espaço. E’ preci­
so, primeiramente, que por efeito dum vôo prolon­
gado se dilatem completamente suas grandes ve­
sículas traqueanas. Essas enormes ampolas, que
se enchem de azul, comprimem as partes baixas do
abdômen e permitem a inserção do orgão masculi­
no. Está aqui todo o segredo fisiologico — muito
vulgar, dirão uns, quase desagradavel, afirmarão
outros — da deslumbrante corrida destas núpcias
esplendorosas.
V III

“ E devemos — pergunta um poeta — compra-


zer-nos sempre acima da verdade?”
12
Sim, a proposito de tudo e em todos os mo­
mentos, rejubilemo-nos, não acima da ■verdade,
pois que a ignoramos, mas acima das pequeninas
verdades que entrevemos. Se algum acaso, algu­
ma recordação, alguma ilusão ou o que seja apre-
senta-se-nos com mais beleza que aos outros, de­
vemos prezá-lo. Talvez trate-se dum erro, mas o
erro não impede que o momento em que o objeto
nos parece mais admiravel seja o em que temos
mais chanças de descobrir a verdade. A beleza
que lhe atribuímos encaminha a nossa atenção
para a sua beleza e a sua grandeza reais, dificeís
de descobrir e que se acham nas relações que todo
objeto tem necessariamente com leis e forças ge­
rais e eternas. A faculdade de admirar que uma
ilusão nos deu terá uso na verdade que sobrevirá
cedo ou tarde. E’ com as palavras, com os sen­
timentos e o calor desenvolvidos por antigas be­
lezas imaginarias que a humanidade acolhe hoje
as verdades que talvez não tivessem nascido, ou
podido encontrar um meio favoravel, se as velhas
ilusões hoje sacrificadas não nos houvessem pre­
parado para acolhê-las. Felizes os olhos que não
têm necessidade da ilusão para ver como é gran­
dioso o espetáculo! Para os outros é a ilusão o
que lhes ensina a olhar, admirar e rejubilar-se. E
por mais que se rejubilem, não o farão nunca no
vacuo, nem acima da verdade desconhecida e eter­
A VIDA DAS ABELHAS 179

na que paira sobre tudo, como beleza em sus­


pensão. .
IX

Vale isto dizer que nos apegamos a fantasias,


a uma poesia voluntaria e irreal, e que por falta
de melhor só com ela nos rejubilamos? Vale di­
zer que no caso das núpcias da rainha nada existe
em si, mas que nós aí nos detemos porque repre­
senta mil outros casos e tambem toda a nossa ati­
tude em face de diversas ordens de verdades? E
que despresamos a explicação fisiologica para fi­
carmos na emoção desse vôo nupcial que, qual­
quer que seja a sua causa, nem porisso deixa de
ser um dos mais belos atos liricos dessa força de­
sinteressada e irresistível à qual obedecem todos
os seres vivos e tem o nome de amor? Nada seria
mais pueril e mais impossível, diante dos exce­
lentes hábitos que manifestam hoje todos os es­
píritos de boa fé.
Esse pequenino fato do destacamento do or-
gão macho, que só pode dar-se em consequencia da
inflação das vesículas traqueanas, nós o admitimos
porque é incontestável. Mas se com isso nos con­
tentássemos, se não vissemos mais nada alem, se
dele induzíssemos que todo pensamento que vai
muito longe ou muito alto é necessariamente erra­
do, e que a verdade se acha sempre no detalhe ma­
terial; se não procurássemos seja lá onde for —
180 MAURICE MAETERLINCK

nas incertezas muitas vezes mais extensas que as


que a pequenina explicação nos forçou a abando­
nar, no estranho mistério da fecundação cruzada,
por exemplo, ou na perpetuidade da especie e da
vida, ou no plano da natureza; se aí não procurás­
semos um seguimento a essa explicação, um pro­
longamento da beleza no desconhecido, ouso quasi
afirmar que passaríamos nossa existencia a uma
muito maior distancia da verdade que os que se
obstinam cegamente a permanecer na interpreta­
ção poética dessas núpcias maravilhosas. Eles se
enganam evidentemente quanto à forma ou a
nuança da verdade; mas, muito mais que os que
julgam te-lo em seu poder, vivem sob sua impres­
são e em sua atmosfera. Estão preparados para
recebe-las; e se não a vêm, pelo menos voltam os
olhos para a zona de beleza e grandeza onde é bom
crer que ela se encontra.
Ignoramos o fim da natureza, que é a verda­
de que a todas as outras domina. Mas por amor
a essa verdade ou para conservar em nossa alma
o ardor da sua procura, é necessário que a consi­
deremos grande. E se por acaso um dia reco­
nhecermos que estamos em senda errada e que a
verdade não é grande, sim pequena e incoerente,
terá sido graças à animação dada pela sua gran­
deza presumida que teremos descoberto, sua pe­
quenez; e essa pequenez depois de comprovada
nos ensinará o que devemos fazer. Enquanto isso,
\

A VIDA DAS ABELHAS 181

não será demais pormos em movimento tudo o que


a nossa razão e o nosso sentimento possuem de
mais forte e audacioso. E quando a ultima pa­
lavra de tudo isto fosse mesquinha, não terá sido
coisa insignificante o termos posto a nu a peque­
nez ou a inanidade dos fins da natureza.
x
“ Ainda não apreendemos a verdade” , me di­
zia um dos grandes fisiologistas de hoje num pas­
seio pelo campo que fizemos juntos. “ Não temos
ainda a verdade, mas ha por toda parte boas
“ aparências de verdade” . Cada um faz sua es­
colha, ou antes tem-na imposta; e esta escolha,
imposta ou feita muitas vezes sem refletir, e à
qual nos apegamos, determina a forma e a con­
duta de tudo quanto penetra em nós. O amigo
que encontramos, a mulher que para nós abre o
coração, a morte ou a tristeza que o fecham, o ceu
de setembro que contemplamos, esse jardim en­
cantador no qual vemos, como na Psyché de Cor-
neille, “ berços de verdura sustentados por caria-
tides douradas” , o rebanho que pasta e o pegu-
reiro que dorme, as ultimas casas da aldeia e o
oceano visto por entre as arvores, tudo se abaixa
ou se levanta, tudo se enfeita ou se desnuda antes
de entrar em nós, de acordo com o pequenino si­
nal que lhe faz a nossa escolha. Aprendemos a es­
colher entre aparências. No declinio de uma vida
182 MAUHICE MAETERLINCK

durante a qual tanto procurei a minuscula verdade


e a sua causa física, começo a prezar, não o que se
afasta dela, mas o que a precede e sobretudo o que
a ultrapassa um bocadinho.”
Havíamos chegado ao alto dum plaino da re­
gião de Caux, na Normandia — suave como um
gramado inglês, mas um gramado natural e sem
limites. É ali um dos raros pontos do globo onde
o campo se mostra perfeitamente são, sem uma
descaída no verde. Um pouco mais ao norte o
agreste o ameaça; um pouco mais ao sul o sol o
castiga. No extremo da planura que vai ter ao
mar camponeses construíam um moinho.
— “ Olhai, disse o meu amigo. Visto daqui
são belos. Constróem essa coisa tão simples e
importante, esse monumento feliz e quasi inva-
riavel da vida humana: um moinho de trigo. A
distancia, o ar da tarde, fazem de seus gritos de
alegria uma especie de canto sem palavras que
responde aos nobres cantos das frondes por sobre
nossas cabeças. Acima deles o ceu está magni-
fico, como se gnomos benfazejos, munidos de pal­
mas de fogo, tivessem varrido toda a luz para os
lados do moinho afim de iluminar por mais tempo
o trabalho — e o traço das palmas ficou no azul.
Vede a humilde igrejinha que òs domina e fisca­
liza, a meia encosta, entre tilias arredondadas, e
a relva do pequeno cemiterio que olha para o
oceano. Aqueles homens erguem harmoniosa­
»
A VlbA DAS ABELHAS 183

mente seu monumento de vida ao lado dos monu­


mentos de seus mortos, os quais fizeram as mes­
mas coisas e não estão ausentes.
“ Abarcai o conjunto: nenhum detalhe muito
especial, muito característico, como o encontraría­
mos na Inglaterra, na Provença ou na Holanda. E’
o quadro amplo, e muito vulgar para ser simbóli­
co, duma vida natural e feliz. Vede a euritmia da
existencia humana em seus movimentos uteis.
Vede o homem que conduz os cavalos, e aquelei
que apoia no forcado todo o peso do corpo... E
as mulheres inclinadas sobre o trigo, e as crianças
que brincam ... Eles não moveram uma palha
para embelezar a paisagem; não deram um passo,
não plantaram uma arvore, não semearam uma
flor que não fosse necessaria. Todo este esforço
do homem para subsistir um momento nà nature­
za — e entretanto aqueles dentre nós que só se
preocupam de imaginar e crear espetáculos de paz,
de graça ou de pensamento profundo, nada en­
contram de mais perfeito, e vem simplesmente
pintar ou descrever esta cena quando querem re­
presentar a beleza e a felicidade. Temos aqui a
primeira aparência que muitos denominam a ver­
dade.”
XI

“ Aproximemo-nos. Tudo muda. Aquele can­


to dos homens, que se harmonizava tão bem com o
184 MAUR1CE MAETERLINCK

sussurro das frondes, é formado de palavrões e in­


jurias; e quando a gargalhada soa é que um ho­
mem ou uma mulher disse uma sujeira ou mote-
jou do mais fraco — dum pobre corcunda que não
pôde com o seu fardo, do coxo que eles fizeram;
cáir ou do idiota que maltrataram.
“ Observo-os já de varios anos Estamos na
Normandia, região de terra gorda e facil. O bem-
estar nas redondezas daquele moinho não sugere
uma cena dessas, e entretanto a maior parte dos
homens são beberrões e as mulheres tambem não
desdenham do alcool. Outro veneno que não te­
nho necessidade de nomear tambem corroi a ra­
ça. A esse veneno, como tambem ao alcool, se
devem aquelas crianças que vemos ali: aquele
anãozinho, aquele escrofuloso, e o cambaio, e o
de beiço partido e o de barriga d’agua. Todos,
homens e mulheres, velhos e moços cultivam os
vicios comuns do camponês. São brutais, hipó­
critas, mentirosos, rapaces, maldizentes, descon­
fiados, invejosos, malandros, aduladores do mais
forte. A necessidade os reune e os obriga á aju­
da mutua, mas o gosto secreto de cada um é fazer
mal ao outro, se o pode fazer sem perigo. A des­
graça do visinho é o unico prazer serio na aldeia.
Um grande infortúnio é um deleite longamente
acariciado. Todos se espiam, invejam-se, despre-
sam-se, detestam-se. Enquanto são pobres, nu­
trem contra a dureza e avareza dos patrões um
A VIDA DAS ABELHAS 185

odio concentrado; mas se viram patrões aprovei­


tam das experiencias do mau tempo e se revelam
ainda mais duros e avarentos que seus antigos
amos.
“ Eu podia detalhar as mesquinhezas, as ve­
lhacarias, as tiranias, as injustiças, os rancores
que refervem naquele lindo quadro de paz e sol.
Ninguém suponha que a vista deste ceu admira-
vel, do mar que desdobra atrás da igreja outro
ceu mais sensivel, que corre sobre a terra como
um grande espelho de conciencia e sabedoria, ele­
ve a alma dessas criaturas. Ninguém os vê. Na­
da os move senão quatro medos — da fome, da
força, da opinião e da lei, e na hora da morte o
medo ao inferno. Para mostrar o que eles são eu
teria de tomá-los um por um. Aquele grandão,
lá, à esquerda, que tem o ar jovial e trabalha tão
bem. O verão passado seus amigos lhe quebra­
ram um braço numa rixa de tavema. Reduzi a
fratura, que era má e complicada. Tratai-o por
muito tempo, e sustentei-o enquanto não podia
trabalhar. Vinha à minha casa todos os dias.
Pois andou espalhando que me tinha surpreendi­
do nos braços de minha cunhada, e que minha
mãe bebia. Ele não é mau e não me quer mal,
ao contrario, seu rosto se ilumina de um sorriso
sincero sempre que me vê. Tambem não é o odio
social o que o move. O camponio não odeia o ri­
co; respeita até em excesso a riqueza. Mas creio
Í8 6 MAÜR1CÉ MAEfERLlNCR

que o meu bom ceifeiro não compreendia por que


eu o tratava gratuitamente. Suspeitava alguma
peça e não queriá “ cair” . Outros, mais ricos ou
mais pobres já haviam feito isso com ele, e até
peor. Não cria estar mentindo ao espalhar in-
vencionices; obedecia a uma ordem confusa da
moralidade envolvente. Atendia, sem o saber e
talvez a contragosto, ao desejo onipotente da ma-
levolencia geral... Inutil concluir um quadro
que todos que viveram algum tempo no campo
conhecem. Temos aqui a segunda aparência que
a maior parte de nós chama verdade. E’ a verda­
de da vida necessaria, e indubitavelmente repou­
sa sobre os fatos mais precisos e os unicos que
qualquer homem pode observar e comprovar.

xn
“ Sentemo-nos nestes feixes, prosseguiu ele,
e continuemos nossa observação, sem rejeitar
nenhum dos pequeninos fatos formadores dessa
realidade a que me referi. Deixemo-los se afas­
tarem no espaço. Eles congestionam o primeiro
plano, mas temos de admitir que ha atrás deles
uma grande força, bem digna de admiração, a qual
mantem aquele conjunto. Mantem-no apenas ou
o eleva tambem? Aqueles homens que estamos
vendo não são totalmente os animais ferozes de
La Bruyère, “ que tem como nós uma voz articula­
A VIDA DAS ABELHAS 187

da e se retiram a noite para seus antros, onde vi­


vem de pão negro, agua e raizes. . . ”
“ A raça, direis, está neles mais fraca e menos
sã — e é possivel. O alcool e outro flagelo são
acidentes que a humanidade deve vencer, são tal­
vez provas das quais alguns dos nossos orgãos —
os orgãos nervosos, por exemplo — tirarão pro­
veito, já que em regra vemos a vida aproveitar
dos males por ela superados. Ademais, qualquer
coisinha que descubramos amanhã pode tomá-
los inofensivos. Não é pois isso o que nos emba­
raça. Esses homens têm pensamentos e senti­
mentos que não havia nos de La Bruyère. “ Pre­
firo o animal simples e nu ao odioso meio-ani-
mal” , murmurei. — “ Falas assim com base na pri­
meira aparência, a dos poetas, como já vimos; mas
cumpre não confundir essa aparência com a que
estamos agora examinando. Esses pensamentos
e sentimentos serão pequenininhos e baixos, se o
quiseres, mas o que é pequenino e baixo já é me­
lhor do que o que não existe. Eles não os usam
senão para se prejudicarem e persistirem na me-i
diocridade — mas é assim muitas vezes na natu­
reza. Os dons que ela concede são aproveitados
primeiramente para o mal, para peorar o que ela
parecia querer melhorar; mas no fim das contas
ha sempre um saldo de bem. Não pretendo de
nenhum modo demonstrar a lei do progresso, o
qual progresso conforme o ponto de vista de onde
188 MAURICE MAETERLINCK

é considerado, vale por coisa muito grande ou


muito pequena. Tomar um pouco menos servil
ou um pouco menos penosa a condição humana
já é algo enorme, e talvez o ideal mais seguro; mas
medida por um espirito desatento das consequen-
cias materiais, a distancia entre o homem que
marcha à testa do progresso e o que se arrasta às
cegas atrás dele é bem pequena. Entre esses rús­
ticos de cerebro só trabalhando pôr ideais infor­
mes, diversos haverá com possibilidade de atin­
gir em pouco tempo o grau de conciencia em que
vivemos nós dois. Surpreende muitas vezes o pe­
queníssimo intervalo que separa a inconciencia
dessas criaturas, que supomos completa, da con­
ciencia que se crê a mais elevada.
“Ademais, de que é feita essa conciencia de
que tanto nos orgulhamos? De muito mais som­
bra do que luz, de muito mais ignorancia adqui­
rida do que ciência, de muito mais coisas que te­
mos de desistir de conhecer do que de coisas que
conhecemos. E não obstante' ela constitui toda
a nossa dignidade — constitui a nossa maior gran­
deza, e talvez o fenomeno mais surpreendente do
mundo. Ela, que nos permite erguermos a cabe­
ça em face do desconhecido e dizer: Eu te igno­
ro mas qualquer coisa em mim já te circunda.
Tu me destroes talvez, mas se não é para formar
de meus destroços um organismo melhor, então
tu te mostras inferior ao que sou, e o silencio que
A VIDA DAS ABELHAS 189

seguirá à morte da especie a que eu pertenço te


fará ver que fostes julgado. E se não te preocupar
de seres julgado com justiça, que nos importa o
teu segredo? Não merece que tentemos devas­
sá-lo. Será um segredo estúpido e hediondo.
Terás produzido por acaso um ser que não tinhas
qualidade para produzir. E feliz será ele de que
o tenhas suprimido por um acaso contrario, antes
de haver medido a extensão da tua inconciencia;
q mais feliz ainda por não ter sobrevivido à se­
rie infinita de tuas horríveis experiencias. Nada
tinha ele a fazer num mundo onde sua inteligen-
cia não refletia nenhuma inteligência eterna, e
onde o seu desejo do melhor não podia conseguir
nenhum bem real.
Ainda uma vez: o progresso não é necessá­
rio para que o espetáculo nos apaixone. Basta o
enigma, e esse enigma é tão grande e tem tantq
brilho misterioso naqueles camponios rudes como
em nós mesmos. Encontramo-lo por toda parte,
quando seguimos a vida até seu principio onipo­
tente. De seculo em seculo modificamos o nome
desse principio onipotente. Nomes houve que
que eram categoricos e consoladores, mas com o
tempo reconhecemos que essa categoricidade e
essas consolações eram ilusórias. Mas chamemos-
lhe Deus, Providencia Natureza, Acaso, Destino,
Vida, o mistério permanece o mesmo; e tudo quan­
to milhares de anos de experiencia nos ensinaram
190 M A U RI CE MAETERLINCK

se resume em dar-lhe um nome mais amplo, mais


proximo de nós, mais flexivel, mais docil à es-
pectativa e ao imprevisto. E’ o nome que lhe da­
mos hoje — e porisso que nunca nos pareceu tão
grande. Eis aqui um dos numerosos aspectos da
terceira aparência — e é a ultima verdade.”
LIVRO VI

A CHACINA DOS MACHOS

Depois da fecundação da rainha, se o ceu está


claro e o dia quente, se o polen e o nectar abun­
dam nas flores, as obreiras levadas por uma espe-
cie de condescencia, ou talvez por uma previden-
cia excessiva, toleram ainda por algum tempo a
presença importuna e dispendiosa dos machos.
Conduzem-se eles na eolmeia como os pretenden­
tes á mão de Penelope na casa de Ulisses. Levam
uma boa vida de amantes honorários, prodigos e
grosseiros. Satisfeitos de si proprios, ventrudos,
obstroem as passagens, atrapalham os serviços,
andam por ali aos encontrões, muito importantes,
cheios de si e sem malicia, mas despresados. Vi­
vem inconscientes da exasperação que se vai
acumulando nas abelhas e do destino que os
aguarda. Escolhem para cochilar os recantos mais
tépidos da cidade, levantam-se indolentemente
192 MAURICE MAETERLINCK

para irem sugar o melhor mel das células abertas,


e sujam com seus excrementos os favos freqüen­
tados. As pacientes operarias, sempre com os olhos
no futuro, vão silenciosamente reparando aqueles
distúrbios. Do meio-dia às tres horas, quando o
azul se queda num cansaço feliz sob o olhar vibran­
te dum sol de Julho ou agosto, eles aparecem à
entrada da colmeia. Na cabeça, um capacete de
pérolas negras e dois penachos movediços; gibão de
veludo fulvo onde a luz põe reflexos; um tosão he-
roico; um manto quádruplo, rigido translúcido.
Fazem uma azoada terrível, afastam as sentinelas,
derrubam as ventiladoras, reviram as que entram
carregadas de nectar e polen. Têm o ar afobado,
extravagante e insolente, de deuses indispensáveis
que saem da congestão da colmeia para um gran­
de feito ignorado das abelhas. E um a um afron­
tam o espaço, gloriosos, irresistíveis. Vão tran­
quilamente pousar nas flores mais próximas, on­
de cochilam até a frescura da tarde os despertar.
Voltam então para a colmeia no mesmo turbilhão
imperioso; e, sempre com o ar dos que têm um
grande plano na cabeça, correm aos celeiros, mer­
gulham a cabeça até ao pescoço nas cubas de mel
e se enchem como anforas para reparar as forças
esgotadas. Depois recaem no bom sono sem so­
nhos e sem cuidados em que se conservam até à
próxima refeição.
A VIDA DAS ABELHAS 193

n

Mas a paciência das abelhas não é a dos san­
tos. Certa manhã uma senha circula pela colmeia,
e as pacificas obreiras se transfomam em juizes e
carrascos. Não se sabe de onde procede a senha;
emana subitamente da indignação fria e calculis­
ta das operarias e, dado o genio da republica una­
nime, breve enche todos os corações. Uma parte
daquele povo abandona o trabalho para se consa­
grar à obra de justiça. Os gordos mariolas ador­
mecidos pelas ruas meliferas são bruscamente ar­
rancados da lombeira por um exercito de virgens
irritadas. Despertam, tontos e incertos; não acre­
ditam no que os olhos vêem, e na preguiça costu­
meira seu espanto custa a se tornar claro, como
um raio de luar custa a atravessar a agua dum
pantano. Imaginam-se vitimas dum erro, olham
em redor com estupefação — e a ideia central que
os anima fa-los se moverem rumo às cubas de mel
para um reconforto. Mas já não é o tempo do mel
de maio, do vinho-flor das tilias, da doce ambro­
sia da salva, do serpol, dos trevos brancos, das
manjeronas. Em vez de livre acesso às com­
placentes cubas de mel encontram-se num cerco
de venenosos dardos em riste. A atmosfera da ci­
dade mudou. O perfume amavel do mel cedeu o
lugar ao odor acre do veneno que cintila na ponta
dos ferrões e propaga o rancor e o odio. E antes

13
que se dêem conta do inaudito desmoronamento
de seu planturoso destino naquele terremoto das
leis felizes da colmeia, cada qual é agarrado por
tres ou quatro abelhas que se afanam em lhes cor­
tar as asas, serrar o peciolo que liga o abdomem ao
torax, amputar as antenas febris deslocar-lhe as
patas, descobrir uma brecha nos aneis da couraça
para ali introduzir o veneno glaivo. Enormes,
mas sem armas, desprovidos de aguilhão, não pen­
sam em defender-se; procuram esquivar-se ou só
opõem sua massa bruta aos golpes das atacantes.
Derrubados de costas, repelem desajeitadamente
com as fortes patas as atacantes, as quais não lar­
gam da presa; ou reagindo sobre si mesmos arras-
tam-nas num turbilhão louco, mas que logo se es­
gota. Ao cabo de pouco tempo vêem-se em tal es­
tado, que a piedade — que nunca está muito lon­
ge da justiça em nossos corações — viria apressa­
damente pedir misericórdia, se as duras operarias
reconhecessem outra lei que não a profunda e in­
flexível lei da natureza. Com as asas laceradas,
os tarsos arrancados, as antenas rotas, os seus
magníficos olhos negros, reverberos do azul e da
inocente arrogancia do estio, agora apagados pe­
lo sofrimento, só refletem a agonia do fim. Uns
sucumbem aos ferimentos e são imediatamente le­
vados dali para os cemiterios distantes. Outros,
menos atingidos, refugiam-se num desvão, onde
se amontoam, diante de uma guarda inexorável
que os conserva ali até que eles morram de -misé­
ria. Muitos conseguem alcançar a porta e esca­
par, arrastando suas perseguidoras; mas à tarde,
urgidos pela fome e o frio, reaparecem à entrada
da colmeia, implorando abrigo. São barrados pe­
las sentinelas irredutíveis. No dia seguinte cedo
as operarias varrem o patamar da colmeia onde
se amontoam os cadaveres dos gigantes inúteis —
e a lembrança da raça ociosa se vai apagando até
à primavera do ano seguinte.
m
Muitas vezes a chacina se realiza no mesmo
dia em muitas colonias dum colmeal. As mais
ricas, as mais bem governadas, dão o sinal. Dias
depois são imitadas pelas menos prosperas. Uni­
camente nas colmeias mais pobres, mais raquíti­
cas, de rainhas muito velhas e quasi estéreis, é
que as abelhas, na esperança da fecundação duma
nova que ainda não nasceu, poupam os machos até
à entrada do inverno. E por fim vem a desgra­
ça inevitável, e toda a tribu — rainha, obreiras,
parasitas se aglomeram num grupo esfaimado e
estreitamente unido que perece em silencio na
sombra da colmeia antes dos primeiros frios.
Depois da execução dos ociosos, o trabalho re­
toma o seu curso, mas com ardor decrescente, pois
que o nectar já se vai tornando mais raro. Está
passado o tempo das grandes festas e dos grandes
196 MAURICE MAETERLINCK

dramas. Aquela concentração de miriades de al­


mas, o nobre monstro que não dorme e se nutre
de flores e orvalho, a gloriosa colmeia dos belos
dias de julho, gradualmente adormece, e seu há­
lito quente e carregado de perfumes se vai apa­
gando. O mel do outono, que veio completar as
provisões indispensáveis, acumula-se na cidade, e
os últimos odres são fechados com a incorruptível
cera branca. Interrompem-se as construções, os
nascimentos diminuem, os mortos se multiplicam,
as noites vão se alongando e os dias diminuindo.
A chuva e os ventos inclementes, a bruma das ma­
nhãs, os perigos das sombras que chegam muito
depressa, fazem que centenas de obreiras não rea­
pareçam na colmeia — e todos aqueles seresinhos
avidos do sol como as cigarras da Atica, sentem o
avanço ameaçador do frio.
O homem já retirou a sua parte na colheita.
Cada uma das colonias do colmeal lhe deu 80 ou
100 libras de mel, e as melhores chegaram a 200,
o que significa enormes lençóis de luz fluida,
imensos campos de flores visitadas uma a uma mil
vezes por dia. E agora lança um ultimo olhar às
colonias que se entorpecem. Tira das mais ricas
o supérfluo para o . dar às que se empobreceram
por infortúnios, sempre imerecidos naquele mun­
do laborioso. Abafa do melhor modo os cortiços,
entrefecha as portas, tira as gavetas inúteis e dei­
xa-as entregues ao seu longo sono liberal. As
A VIDA DAS ABELHAS 197

abelhas se juntam no centro da colmeia, aconche­


gam-se e se suspendem dos favos de cujos odres
vão tirar durante os dias glaciais a substancia do
verão feita mel. A rainha fica no meio, rodeada
de suas guardiãs. A primeira camada de obrei­
ras agarra-se aos favos fechados, uma segunda ca­
mada recobre a primeira, e assim até à ultima, que
é o envoltorio. Quando as abelhas do envoltorio
se sentem afetadas pelo frio, mudam de lugar: pe­
netram naquela massa de corpos e outras lhe vem
ocupar o posto. O cacho suspenso forma uma bo­
la tepida que se move lentamente à medida que
vão esvasiando as paredes de mel a que estão
apegadas. Porque ao contrario do que comumen-
te se crê, a vida das abelhas em hibernação ape­
nas diminui de intensidade, não adormece. (*)
Pela vibração harmônica das asas, que aumenta
ou diminui conforme a temperatura lá fora, elas
mantem na bola viva um calor sempre o mesmo,
igual ao de um dia de primavera. A primavera
artificial ali mantida sai do belo mel, o qual por
sua vez já foi calor e volta a ser calor novamente.
Calor que circula na bola viva como vim sangue
generoso. As abelhas da primeira camada, a que
fica sobre os odres de mel, oferecem-no às da se­
gunda camada, e estas às da terceira e assim por

(*) Uma boa colmeia consome em media vinte a trinta


libras de mel durante uma hibernação de seis meses, que é a
usual em nossas zonas.
diante. Desse modo o mel caminha assim de bo­
ca em boca até às da camada exterior, porque na­
quele grupo só ha um pensamento e um mesmo
destino espalhado em milhares de corações. Re­
presenta ah o sol e as flores, até que o sol de ver­
dade da grande primavera, coando pela porta en-
trefechada os seus primeiros raios, os que fazem
brotar as violetas desperte docemente as abelhas,
para que vejam que o azul já retomou seu lugar
no mundo, e que o circulo ininterrupto que liga
a morte e a vida já deu mais uma volta sobre si
mesmo.
LIVRO VII

O PROGRESSO DA ESPECIE

Antes de fechar este livro, como fechamos a


colmeia ao aproximar-se o torpor do inverno, de­
sejo dar resposta a uma objeção infalivel na boca
dos que ouvem falar da ordem e da surpreenden­
te industria das abelhas. Sim, dizem eles, tudo
isso é prodigioso — mas imutável. Ha milhares
de anos que elas constroem esses maravilhosos fa­
vos dos quais nada ha a ajuntar ou suprimir, e
onde se casam harmonicamente a ciência do qui-
mico, do geometra, do arquiteto e do engenheiro;
mas esses favos são exatamente iguais aos revela­
dos nos sarcofagos egipcios ou aparecem em pedras
e papiros daquele tempo. Citai-me um só fato
que marque entre as abelhas o menor progresso;
apresentai-me ,um detalhe no qual hajam inovado
qualquer coisa, um ponto em que se hajam afas­
tado da rotina secular: e nós nos inclinaremos e
reconheceremos que nelas não ha só um admira-
vel instinto, mas uma inteligencia que tem o di­
reito de se aproximar da nossa e esperar um desti­
no mais alto que a da matéria inconsciente.
E não são só os profanos que falam assim, até
entologistas de valor, como Kirby e Spence, lan­
çaram mão desses argumentos para negar às abe­
lhas outra inteligencia alem da que vagamente se
agita na estreita prisão dum instinto surpreenden­
te, mas invariavel. “ Mostrai-nos, dizem eles, vim
só caso em que, apertadas pelas circunstancias,
elas tenham tido a ideia de substituir pela argila
ou pelo cimento a cera ou o propolis que empre­
gam — e nós nos convenceremos de que são capa­
zes de raciocinar.”
Este argumento, que Romanes chama the
question begging argument e poderia chamar-se
tambem “ argumento insaciavel” , é dos mais peri­
gosos; e aplicado ao homem nos levaria muito lon­
ge. Bem considerado, emana do “ simples bom
senso” , que frequentemente faz muito mal ao
mundo, como quando respondia a Galileu: “ Não
é a terra que gira em redor do sol, pois que eu ve­
jo o sol caminhar no ceu, nascendo de manhã e se
pondo à noite — e nada pode prevalecer contra o
testemunho de meus olhos.” O bom senso é coi­
sa excelente e necessaria, mas com a condição de
A VIDA DAS ABELHAS 201

que uma nobre inquietude o fiscalize e em cer­


tos momentos lhe faça ver o infinito da nossa igno-
'rancia; do contrario não passa da rotina do que
ha de inferior em nossa inteligencia.
Mas as abelhas se encarregaram, elas - mes­
mas, de responder à objeção de Kirby e Spence.
Havendo o naturalista Andrew Knight obturado
com um cimento feito de cera e terebentina as le­
sões da casca de umas arvores, observou que as
abelhas haviam desistido de recolher o própolis
para efri vez dele usarem aquela substancia nova,
que experimentaram e adotaram — e tinham já
pronta e em abundancia nas proximidades da col­
meia.
Ademais, a metade da ciência e da pratica
apicola se resume na arte de dar curso ao espiri­
to de iniciativa da abelha, fomecendo-lhe à inte­
ligencia o ensejo de fazer verdadeiras descober­
tas e produzir verdadeiras invenções. Assim,
quando o polen rareia nas anteras, os apicultores,
afim de favorecer a criação das larvas, que o con­
somem em grande quantidade, espalham certa fa­
rinha nos arredores da colmeia. Nada mais evi­
dente que no estado natural, no seio das florestas
natais ou dos vales asiaticos onde elas surgiram
na epoca terciaria, nunca as abelhas viram uma
substancia daquele genero. Não obstante, se o
apicultor tem o cuidado de “ iscar” algumas, fa­
202 MAURICE MAETERLINCK

zendo-as pousar sobre a farinha espalhada, elas


a tacteam, provam, reconhecem-na como equiva­
lente ao polen e voltam à colmeia para anunciar o
encontro — e eis que todas acodem para recolher
aquele alimento inesperado e incompreensivel,
que na memória hereditaria da raça deve ser coi­
sa exclusiva do calice das flores.

ii

Ha apenas cem anos, só depois dos trabalhos


de Huber, é que começamos a estudar seriamente
as abelhas e ao descobrir as primeiras verdades
importantes, com base nas quais podemos obser­
vá-las com proveito. E pouco passa de meio sé­
culo que graça às gavetas ou favos moveis de
Dzierzon e Langstroth nasceu a apicultura racio­
nal. A colmeia deixou de ser a moradia inviolá­
vel onde tudo sé passava no maior mistério e na
qual só podiamos penetrar quando a morte a re­
duzia a ruinas. E faz menos de cincoenta anos
que os aperfeiçoamentos do microscopio e do la-
boratorio entomologico revelaram o segredo dos
principais orgãos da obreira, da rainha e dos ma­
chos. Não é de espantar que a nossa ciência se­
ja tão curta como a nossa experiencia. As abe­
lhas existem ha milhões de anos e nós as observa­
mos apenas de uns dez ou doze lustros para cá,
Ainda que estivesse provado que nada mudou na
A VIDA DAS ABELHAS

colmeia depois que a devassamos, teríamos nós o


direito de induzir que nela nada se modificou du­
rante os milênios e melenios anteriores? Na evo­
lução das especies um seculo se perde como uma
gota d’agua no turbilhão dum rio, e na vida da
matéria universal os milênios passam como anos
na historia dum povo.

m
Não está provado que nada tenha mudado nos
hábitos das abelhas. Examinando-as sem pre­
conceitos e sem sair do pequeno campo iluminado
pela nossa experiencia atual, vemos logo varia­
ções muito sensiveis. E que dizer das que nos
escapam? Um observador que tivesse 150 vezes
a nossa altura e cerca de 700 mil vezes o nosso pe­
so (são as relações entre o nosso tamanho e peso
e os de uma abelha) e nada entendesse de nossa
lingua, e que fosse dotado de sentidos diferentes
dos nossos, verificaria muitas transformações ma­
teriais curiosas ocorridas na setima parte deste
seculo, mas comó poderia fazer ideia da nossa
evolução moral, social, religiosa, politica e econo-
mica?
Hoje, a mais verossímil das hipóteses nos per­
mite ligar a nossa abelha domestica à grande tri-
bu dos apianos, a qual compreende todas as abe­
MAURICE MAETERLINCK

lhas selvagens. (*) Nelas observamos transfor­


mações fisiologicas, economicas, sociais, industri­
ais e arquitetônicas mais extraordinarias que as
da nossa evolução humana, mas no momento nos
ateremos apenas à nossa abelha domestica.
A abelha domestica está dividida em dezes­
seis especies suficientemente distintas; mas no
fundo, desde a Apis dorsata, a maior de todas, até
a Apis florea, a menor, trata-se sempre do mesmo
inseto, mais ou menos modificado pelo clima e pe­
las circunstancias a que teVe de adaptar-se. Todas
estas especies não diferem entre si mais que o in­
glês difere do espanhol ou o japonês do europeu.
Limitando assim nossas primeiras observações,
apresentaremos aqui o que os nossos proprios
olhos vêem e sem o recurso a nenhuma hipótese
por mais verosimil que seja- Não passaremos em
revista todos os fatos que poderíamos invocar, só
enumeraremos os mais significativos.

(*) Eis o lugar que ocupa a abelha doméstica na classi­


ficação cientifica:
Classe ............................. Insetos
Ordem ........................... Himenopteros
Familia ......................... Apidias
Genero ........................... Apis
Especie ........................... Melifica
O termo m elifica é o da classificação de Linneu, e nada fe­
liz, porque todas as apidias, salvo algumas especies parasitas,
são melificas. Scopoli adota o termo c erifera ; Réaumur, o d o­
m éstica; Geoffroy, o gregaria. A A p is ligustrica , a abelha ita­
liana, é uma variedade da A p is m ellifica .
N

mtÊm

A VIDA DAS ABELHAS 205

IV

Comecemos pela proteção exterior da col­


meia, detalhe da maior importancia e que no ho­
mem corresponde a imensos trabalhos realizados.
As abelhas não habitam, como nós, cidades a ceu
aberto entregues aos caprichos dos ventos e das
chuvas; moram em cidades totalmente recober­
tas dum involucro protetor. Ora, em seu estado
primitivo e num clima ideal não seria assim. Se
elas só atendessem aos instintos construiriam ho­
je favos a ceu aberto. Nas índias a Apis dorsata
não procura avidamente as arvores ocas ou as ca­
vidades das rochas. O ‘ enxame pendura-se na
f&rquilha dum galho, e os favos se expandem, a
rainha põe, as provisões se acumulam, sem outro
abrigo alem do proprio corpo das operarias.
Acontece que às vezes a nossa abelha setentrio­
nal, iludida por um verão muito suave, volta a es­
te instinto, de modo que encontramos enxames a
viverem ao ar livre no seio duma moita. (*)
Mas mesmo nas índias este habito, que pare­
ce inato, tem consequencias desastrosas. Imobi­
(*) O caso chega a ser freqüente entre os enxames secun­
dários e terciários — menos prudentes e experientes que os
primários. Têm a chefia-los uma rainha virgem e leviana e
são compostos quasi exclusivamente de abelhinhas jovens nas
quais o instinto primitivo fala tanto mais alto quanto mais
ignoram o rigor e os caprichos do nosso ceu barbaro. De resto,
nenhum destes enxames sobrevive às primeiras aragens frias

a
do outono — e vão se juntar às inumeráveis vitimas das obs­
curas experiencias da natureza.
206 MAURICE MAETERLINCK

liza um tal numero de operarias, unicamente


ocupadas em manter o calor necéssario às qúe tra­
balham na produção da cera e zelam pèla incuba­
ção dos ovos? que a Apis dorsata suspensa de ga­
lhos só constrói um favo. Já o menor abrigo lhes
pérmite construir quatro, cinco e mais, desse mo­
do reforçando a população e promovendo a pros­
peridade da colonia. Em consequencia, todas as
especies das regiões frias e temperadas abandona­
ram quasi que completamente o sistema primiti­
vo. E’ evidente que a seleção natural sancionou
a inteligente iniciativa do inseto, não deixando so­
breviver em nossos invernos senão as tribus mais
numerosas bem protegidas. O que não passava
duma ideia contraria ao instinto se tornou pouco
a pouco um habito instintivo. Mas temos de con­
vir que no começo foi uma ideia audaciosa, oriun­
da de muitas observações, experiencias e racioci-
nios — a ideia de renunciar à vasta luz natural e
adorada para viver nos ocos escuros dum tronco
ou duma pedra. Podemos até dizer que esse fa­
to foi tão importante para os destinos da abelha
domestica como a invenção do fogo para os des­
tinos do homem.
v
Depois deste grande progresso, que apesar
de antigo é bastante atual, temos uma serie de de­
talhes infinitamente variaveis, reveladores de
» A VIDA DAS ABELHAS 207

que a industria e a própria politica da colmeia não


estão congelados em formas irredutíveis. Já nos
referimos à inteligente substituição do polen pela
farinha dos apicultores, e do propolis pelo cimen­
to de Andrew Knight. E vimos com que habili­
dade elas apropriam às suas necessidades as mo­
radas às vezes desconcertantes que os apidologos
lhes proporcionam; e tambem vimos com que
pressa tiram partido dos favos artificialmente ini­
ciados da apicultura moderna. Neste caso, a en­
genhosa utilização dum fenomeno miraculosamen-
te feliz, mas incompleto, constitui um fato deve­
ras extraordinario. Elas compreendem a suges­
tão do apicultor. Suponha-se que já de séculos
construímos nossas casas, não com pedra, cal e ti-,
■ jolos, mas uma substancia maleavel, penosamente
secretada por orgãos especiais do nosso corpo.
Um dia um ser onipotente nos larga dentro duma
cidade fabulosa. Apenas reconhecemos que é
feita da substancia que secretamos; tudo mais nos
parece sonho, cuja própria logica, deformada, é
mais absurda do que a incoerencia. Nosso modo
comum de vida ali transparece; tudo é como espe-
ravamos, mas em estado potencial e por assim di­
zer esmagado por uma força que o deteve em esbo­
ço, impedindo-o de desenvolver-se. As casas, que
deviam ter quatro ou cinco metros de altura, são
uma caixa que nossas duas mãos cobrem. Mi­
lhares de alicerces de paredes são marcados por
I

208 MAURICE MAETERLINCK

u mtraço feito com a substancia com que serão


construidas. E ha ainda grandes irregularidades
que cumpre retificar, abismos que é preciso en­
cher e ligar harmoniosamente ao conjunto, vas­
tas superfícies vacilantes que é preciso escorar.
Obra inesperada, apenas esboçada e perigosa.
Foi concebida por uma inteligencia soberana, que
adivinhou a maior parte dos nossos desejos mas
que, estorvada pela própria enormidade, só os pô­
de realizar grosseiramente. E’ preciso, pois, de­
sembaraçar tudo aquilo, tirar partido das meno­
res intenções do ser onipotente, edificar em alguns
dias o que de comum exige anos, renunciar a há­
bitos orgânicos, modificar completamente os mé­
todos de trabalho. Claro que num caso destes tò-
da a atenção do homem Seria pouca para resolver
os problemas que surgiriam e para nada perder
da ajuda proporcionada pelo ser onipotente.
E’ exatamente o que acontece com as abelhas
postas em nossas colmeias modernas. (*)

vi
A própria politica da abelha não parece imu­
tável — ponto obscuro e o mais difícil de esclare­
cer-se. Não me deterei na maneira variavel como
(*) De passagem citarei uma curiosa particularidade da
Apis florea. Certas paredes das células grandes são cilíndricas
em vez de hexagonais. Parece que ainda não acabou de pas­
sar de uma forma a outra, adotando definitivamente a melhor.
A VIDA DAS ABELHAS 209

elas tratam as rainhas, nem nas leis da enxamea-


ção próprias de cada colmeia e que parecem trans-
mitir-se de geração em geração. Mas ao lado des­
tes fatos, ainda não bem determinados, outros
existem, constantes e precisos, reveladores de
como varia o grau de civilização das varias espe-
cies da abelha domestica, algumas havendo em
que o espirito publico ainda tactea, talvez em pro­
cura de outra solução para o problema da rainha.
A abelha siria, por exemplo, produz cento e
vinte rainhas e às vezes mais. Já a nossa Apis
mellifica só produz dez ou doze. Cheshire nos fa­
la duma colmeia siria, perfeitamente normal, on­
de descobriu 21 rainhas mortas e 90 vivas e livres.
Teremos aqui o ponto de partida ou o ponto de
chegada de uma evolução social bastante estra­
nha e que merece ser estudada a fundo? A abe­
lha de Chipre tambem se aproxima muito da si­
ria. Será um retomo ainda tacteante à forma oli-
garquica depois de experimentada a forma mo-
narquica, com a maternidade múltipla em vez de
unica? Ha o fato de que as abelhas da siria e de
Chipre, muito próximas da egipcia e da italiana,
serem, provavelmente as primeiras que o homem
domesticou.
Uma ultima observação nos faz ver, com mais
clareza ainda, que os costumes e a previdente or­
ganização da colmeia não resultam de um impul­
so instintivo, mecânico, seguido através dos se-
14
210 MAURICE MAETERL1NCK

culos e na variedade dos climas, e sim que o espi­


rito diretor dessas pequenas republicas sabe aten­
tar nas circunstancias novas e a elas ajeitar-se ou
delas tirar partido — como aprendeu a livrar-se
dos perigos nas circunstancias antigas. Trans­
plantada para a Australia ou a Califórnia, a nossa
abelha negra muda completamente de hábitos.
Já no segundo ou terceiro ano percebe que o ve­
rão é perpetuo e as flores existem permanente-1
mente — e passa a viver dia a dia, só recolhendo
o mel e o polen necessários ao consumo quotidia­
no. Havendo a observação recente superado a ex-
periencia herdada, deixa de fazer provisões para
um inverno inexistente — e o meio do apicultor
mantê-la em atividade é ir-lhe roubando gradati-
vamente o fruto do trabalho.-
VII

Isto são coisas que podemos ver com os nossos


olhos. Temos de convir que ha aqui fatos decisi­
vos, em condições de abalar a opinião dos crentes
em que toda inteligencia é imovel, e todo futuro
imutável, exceto a inteligencia e o futuro do ho­
mem.
Mas se por um instante aceitamos a hipótese
do transformismo, o espetáculo se dilata e seu
grandioso'clarão ainda incerto alcança nossos pro-
prios destinos. Não é evidente, mas verossímil,
a existencia na natureza duma vontade que pro­
A VIDA DAS ABELHAS 211

cura elevar parte da matéria a um estado mais


sutil, e talvez melhor; a penetrar pouco a pouco
a sua superfície dum fluido cheio de mistério, ao
qual chamamos a principio vida, depois instinto
e por fim inteligencia; a assegurar, organizar e
facilitar a existencia de tudo que assim se anima
rumo a um fim desconhecido. Não é certo, mas
muito provável, que se nos fosse possivel avaliar
a quantidade de matéria que desde os começos
assim se elevou, verificaríamos que essa quanti­
dade nunca deixou de crescer. Reconheça a fra­
gilidade da observação, mas é a unica que possa­
mos fazer sobre essa força oculta que nos conduz;
e é bastante, num mundo em que, o primeiro de­
ver do homem, enquanto não surge uma certeza
contraria, é ter confiança na vida, ainda mesmo
quando nela não víssemos nenhuma luz anima­
dora.
Sei tudo quanto se pode dizer contra o trans-
formismo. A teoria apresenta provas inúmeras
e argumentos muito fortes, mas que a rigor não
produzem convicção. Perigoso entregar-se sem
resistencia às verdades da epoca em que vivemos.
Talvez que em cem anos muitos livros impregna­
dos das verdades de hoje pareçam velhos, como
nos parecem velhas as obras filosoficas do seculo
passado, cheias dum homem muito perfeito e que
não existe, e tantas paginas do seculo 17, que ate­
nuam o pensamento do deus aspero e mesquinho
212 MAVRICE MAETERL1NCK

da tradição católica — pensamento deformado


por tantas vaidades e mentiras.
Mas quando não se pode saber a verdade de
uma coisa, o certo é aceitar a hipótese que no mth
mento se impõe mais suasoriamente. Poderemos
apostar que é uma hipótese falsa, mas enquanto
a julgamos verdadeira nos é util — estimula-nos
e leva as investigações para rumos novos. À pri­
meira vista parece que para substituir estas hi­
póteses engenhosas o melhor seria confessar du­
ma vez que não sabemos. Mas esta confissão sc
seria salutar se estivesse provado que não sabere­
mos nunca; fora daí nos conservaria numa imo­
bilidade mais funesta que as mais irritantes ilu­
sões. Nada leva o homem mais longe ou mais al­
to que o impulso de seus erros. No fundo, o pou­
co que sabemos provem de hipóteses sempre arris­
cadas, muitas vezes absurdas e pela maior parte
menos circunspectas que as de hoje. Eram in­
sensatas, mas mantiveram o ardor da investiga­
ção. Ao viajante que tem frio e vem sentar-se à
lareira, que importa que o zelador do fogo na hos­
pedaria humana seja muito velho e cego? Se o
fogo sob a sua guarda não se extinguiu, ele fez o
melhor que podia fazer. Transmitamos este ar­
dor, não apenas intacto, mas acrescido — e nada
pode acresce-lo mais que a hipótese do transfor-
mismo, a qual nos força a interrogar, com um mé­
todo mais severo e uma paixão mais constante, tu­
A VIDA DAS ABELHAS 213

do que existe sobre a terra, nas suas entranhas,


na profundidade dos mares e na amplidão dos
ceus. Que é que a ela se opõe, e que temos para
substitm-la, se a rejeitamos? Só a grande confis­
são filosbfica da nossa ignorancia, atitude inativa
e refreadora da curiosidade — dessa curiosidade
mais necessaria ao homem que a própria sabedo­
ria; ou então a hipótese da fixidez das especies e
da creação divina, muito menos demonstrada que
a nossa. Tem o defeito de afastar para sempre
as partes vivas da questão e desembaraçar-se do
inexplicável de um modo muito simples: proibin­
do que o interroguem.
VIII

Certa manhã de abril, no meio do jardim to­


do a renascer sob um divino orvalho verde, dian­
te de canteiros de rosas e prímulas com moldura
de tlaspio branco (que ainda chamam de “ alys-
se” ou corbelha-de-prata) tornei a ver as abelhas
selvagens, avós da que se submeteu aos nossos de­
sejos — e me vieram à memória as lições do ve­
lho apicultor da Zelandia. Mas de uma vez me
levou ele por entre seus canteiros multicores, de­
senhados e tratados como no tempo de Cats, o bo-
nachão poeta holandês, prosaico e inexgotavel.
Formavam rosaceas, grinaldas, estrelas e girando-
las, com suas arvores ornamentais talhadas em
forma de pirâmide, com os baixos da cercadura,
vigilantes como um cão de pastor, ao impedirem
que as flores se derramassem para as ruas.
Aprendi ali o nome daquelas franco-atirado-
ras a que nunca damos tento, tomando-as por mos­
cas vulgares, vespas malfazejas ou colepteros es­
túpidos. E no entanto cada uma delas traz sob o
duplo par de asas (o que a caracteriza no mundo
dos insetos) um plano de vida, utensilios proprios
e a ideia dum destino diferente e muitas vezes ma­
ravilhoso. Em primeiro lugar temos aqui os
mais proximos parentes de nossas abelhas domes­
ticas, os zangões peludos e atarracados, às vezês
pequenos, quasi sempre enormes, e cobertos, co­
mo os homos primitivos, dum saio informe, com
cercaduras de aneis côr de cobre ou cinabrio. São
ainda semi-barbaros; violentam o calice das flo­
res, despedaçam-n’os se resistem, e penetram sob
os veus setineos das corolas como um urso-das-ca-
vernas penetraria na tenda, toda seda e pérolas,
de uma princesa, bisantina.
Ao lado, maior que o maior dos zangões, um
monstro vestido de preto, como que a arder num
fogo sombrio, entre verde e violaceo: é a xilóco-
pa roi-pau, o gigante da tribu melifica. Depois
dela, por ordem de tamanho, vem as fúnebres ca-
licódomas, ou as pedreiras vestidas de luto que
constroem com argila e areia moradas resisten­
tes como as de pedra. Depois em mistura, re­
voam as dasipodas è as halictas, semelhantes às
A VIDA DAS ABELHAS 215

vespas; as andrenas, muitas vezes empolgadas por


parasita fantastico; a estilope, que transforma
completamente o aspecto de suas vitimas; as pa-
nurgas quasi nanicas e sempre esmagadas por pe­
sadas cargas de polen; as osmias multiformes que
fazem as coisas de cem modos diferentes. Uma
delas, a Osmia papaveris, não se contenta com pe­
dir às flores o pão e o vinho necessários às suas
vidas; tambem pedem ornatos: recortam as péta­
las rubras das papoulas para forrar o palacio de|
suas filhas. Outra abelha, a menor de todas, ver­
dadeiro grão de polvora equilibrado no centro de
quatro asinhás eletricas — a magachile centun-
cular — recorta na folha das roseiras semicírculos
perfeitos, dobra-os e ajusta-os de modo a produ­
zir minu3culos dedaisinhos, admiravelmente re-
gulares, para servirem de células às suas larvas.
Um livro inteiro não bastaria para enumerar os
hábitos e os inúmeros talentos da multidão sequi­
osa de mel que revoa por sobre as flores passivas
— essas noivas encadeadas à espera da mensagem
de amor que os insetos lhes trazem.
IX

, Conhecem-se cerca de 4.500 especies de abe­


lhas selvagens. Está claro que não vamos pas­
sá-las em revista. Talvez que um dia surja al­
gum estudo exaustivo, com observações e expe-
riencias que ainda não foram feitas e exigem mais
i f i

216 MAURICE MAETERLINCK

de uma vida de homem; e esse estudo lançará luz


decisiva sobre a história da evolução das abelhas.
Essa historia, que eu saiba, ainda não foi metodi­
camente empreendida. E’ de desejar que o seja,
pois ventilaria mais de um problema tão grandé
como os da historia humana. Da nossa parte,
sem nada afirmar porque nos reconhecemos na
zona nebulosa das suposições, contentamo-nos
com seguir uma tribu de himenopteros em sua
marcha para uma vida mais inteligente, dotada
de mais bem estar e segurança. Refiro-me à tri­
bu dos apianos (*), cujos traços essenciais se
acham tão bem distintos, que impõem a conclusão
de todos os seus membros descenderem dum an­
cestral unico.
Os discipulos de Darwin, entre eles Hérmann
Muller, consideram uma pequena abelha selva­
gem, espalhada por todos os continentes e chama-
prosopis, como a representante atual da abelha
primitiva, tronco de todas as variedades conheci­
das hoje.
A infeliz prosopis está para a abelha das nos­
sas colmeias como o troglodita para os homens

(*) Cumpre não confundir os termos apianos, apideas e


apitas, aqui empregados muitas vezes e que tomamos da clas­
sificação de Emile Blanchard. A tribu apiana abrange todas
as famílias de abelhas. As apidas formam a primeira dessas
familias e se subdividem em tres grupos: as maliponitas, as
apitas e as bombitas (zangãos). E por fim as apitas enfeixam
as diversas variedades de nossas abelhas domesticas.
felizes de nossas grandes cidades. Talvez já a
tenhais visto nalgum recanto mal cuidado de vos­
so jardim, mas sem lhe dar atenção. E’ entretan­
to a venerável avó a quem devemos a maior par­
te das nossas flores e frutas (calcula-se que mais
de cem mil especies de plantas não sobreviveriam
iie as abelhas as não visitassem) — e, já que tudo
se encadeia neste mundo de mistérios, quem sabe
se a não devemos tambem a nossa própria civili­
zação? Trata-<se duma abelhinha bonita e vivaz;
a variedade mais abundante entre nós é elegante­
mente pintalgada de branco em fundo negro.
Mas essa elegancia encobre uma penúria grande.
A prosopis não só leva uma vida de fome, como
anda quasi nua enquanto suas irmãs se trajam de
vélos quentes e suntuosos. Tambem não possui
nenhum instrumento de trabalho. Faltam-lhe as
corbelhas de recolher polen como as possue as api-
dias, a popa coxal que vemos nas andenas ou a
escova ventral das gastrilegidas. São obrigadas
a penosamente juntar o polen com as garrinhas e
levá-lo para casa na boca. Não possuem outro
utensilio alem da lingua, da boca, e das patas —
mas a lingua é muito curta, as patas muito debeis
e as mandibulas muito fracas. Não podendo pro­
duzir cera, nem furar a madeira, nem escavar o
chão, ela abre buracos na medula macia de mati-
nhos secos e nelas afeiçoa umas células mal feitas,
providas de um pouco de alimento, destinado aos
218 MAVR1CE MAETERLINCK

filhos que não verá nunca. Uma vez cumprida


a sua pobre missão — que ela não sabe qual é, nem
nós tão pouco — vai acabar num cantinho, só na
morte como foi só na vida.

x
Pularemos por cima de muitas especies in-
termediarias, nas quais poderiamos ver o progres­
sivo alongamento da lingua afim de alcançar o
nectar em maior numero de cálices, e desenvol­
ver-se do aparelho coletor de polen, dos pelos,
das popas, das escovinhas coxais e ventrais, e ver
tambem as mandibulas se- fortificarem, secreções
uteis se formarem, e o genio que preside à cons­
trução das colmeias procurar de todos os lados, e
achar, soluções surpreendentes. Tal estudo exi­
giria todo um tratado. Vou apenas esboçar um
capitulo — menos ainda, uma pagina que revele,
através de hesitantes tentativas da vontade de vi­
ver e ser feliz, o nascimento, o desenvolvimento
e a afirmação da inteligencia social.
Acabamos de nos referir à infeliz prosopis,
que em silencio arca neste vasto mundo cheio de
forças terrificantes com o seu destinozinho solitá­
rio. Certo numero de suas irmãs, pertencentes a
raças mais habeis e mais bem dotadas de utensí­
lios, como a maravilhosa cortadora de pétalas de
papoula, vivem num igual isolamento; e se por
acaso outra vidinha vem compartilhar de sua ca-
sa, é um inimigo ou mais frequentemente um pa­
rasita. Porque o mundo das abelhas é povoado
de fantasmas ainda mais estranhos que os nossos;
muitas especies são parasitadas por um “ duplo”
misterioso e inerte, tão igual na aparência, que
parasita e parasitado se confundem; a preguiça
imemorial fez que esse duplo perdesse um a um
todos os seus instrumentos de trabalho, de modo
que só pode subsistir à custa do irmão que traba­
lha. (*)
Não obstante, entre as abelhas tão categori­
camente denominadas apides solitários já despon­
ta o instinto social, sufocado sob o montão de ma­
téria que abafa toda vida primitiva. Aqui e ali
em direções inesperadas, em rebrilhos timidos e
às vezes bizarros, a brasa consegue varar a maté­
ria que a oprime e um dia servirá para nutrir o
seu triunfo.
Se tudo no mundo é matéria, temos aqui o
movimento mais imaterial da ,matéria. Trata-se
de passar da vida egoista, precaria e incompleta,
para a vida fraternal, um pouco mais segura e fè-

(*) Os zangãos tem como parasitas as psítiras, e as esté-,


lidas vivem à custa das antidias. "Somos obrigados a admitir,
escreve J. Perez (Les Abeilles) tratando da identidade do
parasita e de sua vitima, que os dois generos não passam de
formas dum mesmo tipo, unidas pela mais estreita afinidade.
Para os adeptos do transformismo esse parentesco não é pura­
mente ideal, e sim real. O genero parasita seria apenas uma
linhagem do genero trabalhador, que perdeu os orgãos do tra­
balho em consequiencia da adoção da vida parasitica.
liz. Trata-se de unir idealmente pelo espirito o
que na realidade está separado pelo corpo, e de
obter que o individuo se sacrifique pela especie
— em suma, de substituir as coisas que vemos pe­
las que não vemos. Será acaso de estranhar que
as abelhas não realizem de golpe o que nós, que
nos encontramos no ponto maravilhoso em que o
instinto converge de todos os lados para a cons­
ciência, ainda não temos esclarecido? Parece-
me curioso, quasi tocante, ver como nos começos
a ideia nova tactea, nas trevas que envolvem tu­
do quanto nasce neste mundo. Emerge da maté­
ria e é ainda toda material. Não passa de fome,
frio e medo transformados numa coisa ainda sem
forma. Agita-se confusa diante dos grandes pe­
rigos, das noites longas, da aproximação do inver­
no — e dum sono equivoco que é quasi a morte.

XI

As xilócopas, como já vimos, são abelhas ro­


bustas que abrem ninhos na madeira seca. Vi­
vem sempre solitarias. À entrada do outono en­
contram-se às vezes varios individuos da especie
Xylocopa cyanescens agrupados friorentamente
num galho de asfódelo para passarem o inverno
em comum. Esta fraternidade tardia, rara nas
xilócopas, já se tornou habito fixo entre suas pa-
rentas próximas, as ceratinas. E’ a ideia que des-
• A VIDA DAS ABELHAS 221

ponta. Mas entrepara, e até hoje nas xilócopas


não passou dessa obscura primeira linha do amor.
Entre outras apianas a ideia que procura fir­
mar-se toma formas diferentes. Às calicódomas
dos galpões, que são pedreiras, e as dasípodas e
as halictas, que cavam na terra reunem-se em nu- '
merosas colonias para a construção dos ninhos.
Mas é um ajuntamento ilusorio de vidas solitarias.
Nenhum entendimento comum nenhuma ação co­
mum com fins coletivos. Cada uma delas, pro­
fundamente isolada no ajuntamento, constroi sua
morada para si só, sem pensar na visinha. “ E\
diz Perez, um simples aglomerado de indivíduos
com os mesmos gostos, as mesmas aptidões, pra­
ticando com o maior rigor a maxima de cada um
por si; uma multidão de trabalhadoras que lem­
bra as abelhas duma colmeia unicamente por cau­
sa do numero e do ardor. Tais reuniões não pas­
sam de simples consequencia de grande numero
de individuos morarem no mesmo lugar.” ,
Mas entre as panurgas, primas das dasipodas,
um debil traço de luz rebrilha e esclarece a apari­
ção dum sentimento novo nesses aglomerados for- j
tuitos. Reunem-se à maneira das precedentes e
cada uma abre por sua conta sua galeria subterra-
nea; mas a entrada e o gargalo que vai da super­
fície do solo aos terreiros separados é comum.
“ Assim, diz ainda Perez ( em tudo que diz respei­
to ao trabalho das células cada uma se comporta
222 MAURICE MAETERLINCK

como se vivesse sozinha, mas todas se utilizam do


mesmo gargalo de acesso; todas pois, se aprovei­
tam do trabalho de uma só dessé modo ganhando
o tempo e o trabalho que exigiria a abertura de
uma saida para cada uma. E seria de interesse
para nós verificarmos se na abertura da saida tra­
balha uma só ou varias com revezamento na
faina.”
Seja como for, a ideia da fraternidade rom­
peu o muro que separava dois mundos. Não é
mais o inverno, a fome e o horror da morte o que
arranca essa ideia ao instinto — é a vida ativa.
Mas ainda desta vez a ideia não foi alem, não che­
gou a passar daquilo.Pouco importa. A ideia não
desanima. Tenta outras investidas — e nos zan­
gões amadurece, toma corpo numa atmosfera di­
ferente e realiza os primeiros grandes milagres
decisivos.

XII

Os zangões, essas enormes abelhas peludas,


barulhentas mas pacificas, são no começo solita-
rias. Nos primeiros dias de março a femea fe­
cundada que sobreviveu ao inverno começa a
construir o seu ninho debaixo da terra ou em moi­
tas, conforme a especie a que pertence. Está so­
zinha no mundo, naquele despertar da primavera.
Limpa o chão, escava, forra o lugar escolhido.
A VIDA DAS ABELHAS 223

aperfeiçoa em seguida células de cera muito infor­


me:! •' ns guarnece de mel e polen — e põe, choca
os ovos e nutre as larvas que saem, encontan-
do-so logo rodeada dum bando de filhas- que a aju­
dam em todos os trabalhos caseiros ou de fora, e
das quais algumas começam por sua vez a pôr.
O bem-estar aumenta, a construção das células
melhora, a colonia se expande. A fundadora fi­
ca sendo a sua alma e a mãe principal, sempre à
testa de um reino que é como um esboço das nos­
sas colmeias. Esboço aliás grosseiro. A prosperi­
dade não é grande, as leis se mostram mal defi­
nidas, o canibalismo e o infanticidio primitivos re­
aparecem a intervalos, a arquitetura é informe e
dispendiosa; mas o que acima de tudo extrema
as duas republicas é o fato de uma ser permanente
e outra efemera. A dos zangões perecerá inteira
outono; seus 300 ou 400 habitantes perecerão sem
deixar traços de sua passagem; todo aquele, es­
forço estará perdido, só se salvando uma femea,
que na primavera proximà repetirá sozinha o mes­
mo trabalho de sua mãe. A ideia, entretanto, vai
adquirindo consciência de sua força. Não passa
desses limites nos zangões, mas, por uma especie
de metempsicose infatigavel, e ainda fremente de
seu primeiro triunfo, vemo-la incarnar-se, pode­
rosa e quasi perfeita, em outro grupo — o ante­
penúltimo da raça, o que precede imediatamente
a nossa abelha domestica. Refiro-me ao grupo
224 MAURICE MAETERLINCK

das meliponitas, o qual compreende as meliponas


e as trigonas tropicais.

xra
Nas meliponitas tudo está organizado como
em nossas colmeias. Existe a mãe unica, as obrei­
ras estereis e os machos. (*)
E certos pormenores são mais bem atendidos
que entre as abelhas domesticas. Os machos, por
exemplo, não permanecem em perpetua ociosida­
de; tambem trabalham na faina de produzir cera.
A entrada da cidade é mais cuidadosamente de­
fendida; durante as noites frias obturam a porta,
e nas noites quentes fecham-na com um rendado
de cera, que deixa passar o ar.
Mas a replublica é menos forte, a vida geral
menos assegurada, e a prosperidade menos que
na abelha domestica; e em qualquer zona em que
estas sejam introduzidas, as meliponitas tendem
a desaparecer. A ideia fraterna está igualmente
e magnificamente desenvolvida nas duas raças,
exceto num ponto, no qual as meliponitas não
vão alem do que realizou a familia dos zangãos.
Esse ponto é a organização mecanica do trabalho
em comiam, a exata èconomia do esforço, donde
resulta ser a arquitetura de suas cidades manifes-
(*) Não está assente que o principio da realeza ou da ma­
ternidade unica seja rigorosamente respeitado entre estas abe­
lhas.
A VIDA DAS ABELHAS 225

tamente inferior. Reporto-me ao que disse no


capitulo XVIII do livro III, acrescentando que nas
colmeias de nossas apitas todas as células são in­
diferentemente próprias para a incubação ou o
armazenamento de provisões, e duram tanto
quanto a própria colmeia, ao passo que entre as.
meliponitas só tem um fim; as que servem de ber­
ço são destruidas depois que as ninfas as abando­
nam.
Temos pois que é nas nossas abelhas domes­
ticas que a fraternidade tomou sua forma mais
perfeita, e podemos traçar um rapido quadro dos
movimentos dessa ideia. Serão esses movimen­
tos fixos de uma vez para sempre em cada espe-
cie, de modo que a linha que os liga só existe em
nossa imaginação? (*)
Ainda não podemos construir um sistema em
região tão mal explorada. Fiquemos em conclu­
sões provisorias, com liberdade de inclmar-nos
para as mais cheias de esperança, porque se ti-
vessemos forçosamente de escolher, alguns cla­
rões já nos indicam que as mais desejadas serão
as mais certas. E antes de mais nada admitamos

(*) Blanchard, muito razoavelmente, pensa que, sendo


desprovidas de aguilhão e porisso não podendo se entremata-
rem como as nossas rainhas, diversas femeas convivem prova­
velmente na mesma republica. Mas esse ponto não pôde ser
verificado em consequencia. da grande semelhança entre as
femeas e as operarias, e da impossibilidade de criar as meli-
ponas em nosso clima.

15
226 MAVR1CE MAETERLINCK

que nossa ignorancia ainda é profunda. Mal


aprendemos a abrir os olhos. Mil experiencias
que podem ser feitas ainda não foram atentadas.
As prósopis, por exemplo. Poderiam, se fossem
forçadas a cohabitar com suas semelhantes, aban­
donar o habito da solidão absoluta e sentir prazer
em se reunir, como as dasipodas? ou fazer um eá-
forço para a fraternidade, como as penurgas? E
submetidas a circunstancias anormais iriam estas
alem da entrada em comum, chegando à casa co­
mum? A femeas dos zangões, se fossem hiberna­
das em comum, criadas e alimentadas no cativeiro
não chegariam porventura a entender-se e a di­
vidir o trabalho? E como reagiriam as meliponi-
tas na presença de favos moldados? Quem já se
lembrou de oferecer-lhes odresinhos artificiais em
substituição às suas curiosas amforas de mel?
Aceita-los-iam? Saberiam tirar partido da ino­
vação? E como adaptariam seus hábitos a essa
inesperada arquitetura? São problemas propos­
tos a entesinhos minusculos, e que no entanto en­
cerram a solução de nossos grandes mistérios. Mas
nada podemos dizer porque nossa experiencia da­
ta de ontem. A partir de Réaumur, faz seculo e
meio que começamos e estudar algumas abelhas
selvagens. Réaumur conheceu muito poucas e
nós estudamos algumas mais; existem entretanto
centenas, ou milhares, talvez, que só foram refe­
ridas por viajantes apressados. As que viemos a
A VIDA DAS ABELHAS 227

conhecer depois dos belos trabalhos de Réaumur


em nada mudaram seus hábitos; e os zangões que
em 1730 se polvilhavam de ouro, vibravam como
o proprio murmurio do sol e se embriagavam de
mel nos jardins Charenton, não se diferenciam
dos que zumbem hoje a poucos passos dali no bos­
que de Vincennes. Mas de Réaumur até nós o
espaço de tempo é minimo. Varias vidas huma­
nas emendadas apenas formam um segundo na
historia dum pensamento da natureza.

xiv
Se a ideia que acabamos de seguir tomou sua
forma suprema em nossas abelhas domesticadas,
isso não quer dizer que tudo seja perfeito na col­
meia. A obra prima que é a celula hexagonal ne­
la atinge sob todos os pontos de vista a perfeição
absoluta, sendo insuscetível de melhora mesmo
que todos os genios humanos se reunissem para
tentá-lo. Nenhum ser vivo, inclusive o homem,
realizou na sua esfera o que conseguiu a abelha;
se uma inteligencia estranha ao nosso globo vies­
se interrogar-nos sobre o objeto mais perfeito da
logica da vida, tínhamos de lhe apresentar um hu-
milde favo de mel.
Mas tudo não é perfeito na colmeia. .IA
apontamos algumas falhas e erros, às vezei evi­
dentes, às vezes misteriosos: a superabundânoil
e a ociosidade dos machos, ambas ruinosas; a par-
228 MAURICE MAETERLINCK

tenogenese; os riscos do vôo nupcial; a enxamea-


ção excessiva; a falta de piedade; o quasi mons­
truoso sacrificio do individuo à republica. Ajun-
temos a isso a estranha propensão para armazenar
quantidades excessivas de polen, as quais, não
utilisadas, acabam por ficar rançosas, e endurecer,
atulhando os favos no longo interregno esteril que
vai do primeiro enxame a fecundação da segunda
rainha, etc., etc.
O mais grave destes defeitos, o unico que em
nosso clima é quasi sempre fatal, temo-lo na enxa-
meação muito repetida. Mas não devemos esque­
cer que neste ponto a seleção natural da abelha
domestica vem sendo ha milhares de anos contra­
riada pelo homem. Do Egito dos faraós aos nos­
sos camponeses de hoje, o apicultor tem sempre
agido de viés quanto aos desejos e vantagens da
especie. As colmeias mais prosperas são as que
só deixam sair um enxame no começo do verão.
Satisfazem assim o desejo maternal, asseguram a
sobrevivencia da cepa e o indispensável renova-
mento da rainha, alem de que os enxames numero­
sos e precoces têm tempo de construir boas cida­
de e de bem provêl-as antes da chegada do outo- t
no. Se fossem deixadas sobre si mesmas só essas
colmeias e seus enxames sobreviveriam aos rigo­
res do inverno, as outras pereceriam; de modo que
a enxameação restrita ir-se-ia fixando nas nossas
raças setentrionais. Mas são justamente essas
A VIDA DAS ABELHAS 229

colmcias prudentes, opulentas e bem aclimadas


que p homem sempre destruiu para apoderar-se
do mel. E não deixava — e ainda não deixa na
pratica rotineira — sobreviver senão as colonias
delas saidas, fontes exgotadas, enxames secundá­
rios e terciários que conseguem mais ou menos o
necessário para o inverno ou aos quais o homem
ajuda com uns residuos de mel. Disso resulta que
a especie provavelmente se enfraqueceu, que a
tendencia para a enxameação excessiva se desen­
volveu hereditàriamente e que hoje quasi todas
as abelhas, sobretudo as nossas abelhas negras,
dela abusam. De alguns anos a esta parte os no­
vos métodos da apicultura “ mobilista” procuram
combater esse perigoso habito; e quando atenta­
mos na rapidez com que a seleção artificial age
sobre a maior parte dos nossos animais domésti­
cos, os bois, os cavalos, os carneiros, os pombos,
etc., somos levados a crer que breve teremos uma
abelha que renunciará completamente à enxame­
ação natural, dedicando toda a sua atividade à
colheita do mel e do polen.

xv
Uma inteligencia mais clara quanto ao obje­
tivo da vida comum não poderia libertar-se dos
outros defeitos? Muito ha que dizer desses defei­
tos; que ora decorrem dos misteriosos da colmeia,
ora são simples consequencias dos erros da enxa-
230 MAURICE MAETERLINCK

meação — erros em que o homem tem sua parte


de culpa. Mas do que já vimos até aqui, cada um
é livre de outorgar ou negar inteligencia à abelha.
Não procuro defendê-la. Parece-me que em mui­
tas circunstancias elas mostram entendimento,
mas ainda que fizessem às cegas tudo quanto fa­
zem, minha curiosidade não seria menor. Nada
mais interessante que ver um cerebro tirar de si
recursos para a luta contra o frio, a fome, a morte,
o tempo, o espaço, a solidão, e todos os inimigos da
matéria animada; mas que um ser consiga manter
a sua complicada e profunda vidinha sem sair do
instinto, sem nada fazer senão o muito comum, is­
to é bem interessante e igualmente extraordina-
rio. O comum e o maravilhoso se confundem
quando dentro da natureza os pomos em seu ver­
dadeiro lugar. Já não são eles que trazem nomes
usurpados; o incompreendido e o inexplicado é
que devem deter nossos olhos e alegrar nossa ati­
vidade — e dar uma forma nova e mais justa aos
nossos pensamentos, aos nossos sentimentos e às
nossas palavras. E haverá sabedoria em não nos
apegarmos a outra coisa.
XVI

Ademais, não temos o direito de em nome da


nossa inteligencia julgar as falhas das abelhas.
Não têm a nossa consciência e a nossa inteligen­
cia vivido tanto tempo em meio de erros sem o
A VIDA DAS ABELHAS 231

perceber? e mais tempo ainda sem corrigi-los?


Se ha um ser cujo destino o urge dum modo es­
pecial e quasi organicamente a adquirir consciên­
cia, a viver e organizar a vida em comum de acor­
do com a razão pura, é o homem. E no entanto
sabemos como está organizada essa vida; não na
comparação possivel entre os erros das colmeias
e os da nossa sociedade. Se as abelhas observas­
sem os homens, grande seria o espanto delas ao
examinar, por exemplo, a injusta e o ilógica orga­
nização do trabalho entre seres que lhes parece­
riam dotados de razão. Veriam a superficie da
terra, unica fonte da vida comum, penosa e insu­
ficientemente cultivada por dois ou tres décimos
da população total; veriamos um decimo absoluta­
mente ocioso absorver a melhor parte dos produ­
tos desse primeiro trabalho, enquanto os sete dé­
cimos restantes, condenados à meia-fome perpe­
tua, se esgota em esforços estranhos e estereis dos
quais não se aproveitam nunca e que só servem
para tomar mais complicada e inexplicável a exis-
tencia dos ociosos. Teriam de concluir que a ra­
zão e o senso moral desses pertencem a um mun­
do diferente do delas e que eles obedecem a prin-
cipios acima da compreensão apicola. Inutil levar
mais longe esta visão das nossas falhas, aliás
sempre presente ao nosso espirito — sem que isso
adiante grande coisa. Só de seculo em seculo vim
desses erros se levanta, espanta por um momento
232 MAUR1CE MAETERLINCK

o sono, estira o braço dormente sobre o qual apoia­


va a cabeça, muda de posição, reclina-se e ador­
mece até que uma nova dor, nascida da longa per-
manencia naquela nova posição, o faça novamente
acordar.
XVII

Admitida a evolução das apianas, ou pelo me­


nos das apitas (pois que a evolução desta familia
é fato mais verosimil que a sua fixidez), em que
rumos se processa? Parece seguir a mesma cur­
va da evolução humana. Tende visivelmente a
diminuir o esforço, a insegurança, a miséria, e a
aumentar o bem-estar, as chanças favoraveis e a
autoridade da especie. E para alcançar este fim
a evolução não hesita em sacrificar o individuo,
trocando compensatoriamente a independencia da
solidão individual, aliás ilusória e desgraçada, pe­
la força e a felicidade da vida em comum. A na­
tureza parece concordar, com a ideia de Pericles,
citada por Tucidides, de que os individuos, sen­
tem-se mais felizes pobres numa cidade prospe­
ra, do que prosperos numa cidade que deperece.
A natureza protege o escravo trabalhador na cida­
de prospera; mas abandona a todos os inimigo
sem forma e sem nome que permanentemente ne-
gaceam todos os seres do universo, os individualis­
tas que se sentem sem deveres para com o grupo.
Não vamos aqui debater este pensamento da natu­
A VIDA DAS ABELHAS 233

reza, nem ponderar se ao homem convem seguí-


lo; mas o certo é que em todos os setores o cami­
nho da evolução parece ser este — embora
não saibamos para onde leva. No que nos diz
respeito, basta verificar o cuidado da natureza em
conservar e fixar na raça humana tudo quanto re­
presenta conquista sobre a inércia da matéria.
Ela marca um ponto a cada esforço feliz, e não sa­
bemos com que leis especiais e benevolentes de­
pois de cada esforço impede o recurso que sem isso
seria inevitável. Esse progresso, claro sobretudo
nas especies mais inteligentes, não tem talvez ou­
tro fim senão o seu proprio movimento, e ignora
para onde vai. Em todo caso, num mundo em que
nada ou muitos poücos fatos deste genero indi­
cam uma vontade precisa, é de muita significação
ver certos Seres elevarem-se gradual e continua­
mente; e ainda que as abelhas não nos tivessem
revelado senão esta misteriosa espiral de clarões
nas trevas espessas, bastaria isso para justificar
o tempo que consagramos ao estudo de sua peque­
na agitação e de seus humildes hábitos — tão afas­
tados e ao mesmo tempo tão proximos das nossas
grandes paixões e dos nossos orgulhosos destinos.
xvra
Bem pode ser que tudo isto seja fantasia, e
que a espiral de clarões do homem e das abelhas
só se acenda para divertir trevas. Tambem po­
234 MAUR1CE MAETERLINCK

de ser que um fenomeno novo ou um enorme cho­


que vindo de fora, de outro mundo, dê inespera­
damente um sentido a esse esforço — ou o des­
trua. Seja como for, temos de seguir nosso cami­
nho como se nada de anormal tenha de sobrevir.
Ainda que estivessemos seguros de que uma re­
velação, ou por exemplo, a comunicação com úm
planeta mais antigo, vai revolucionar toda a nossa
natureza, suprimir todas as nossas paixões e leis
e verdades da nossa era, a atitude mais sabia se­
ria consagrar todo o nosso hoje a essas paixões,
leis e verdades, harmonizando-as em nosso espi­
rito, de modo a manter-nos fieis ao nosso destino
— a esse destino que é dominar e elevar de alguns
graus, em nós mesmos e em redor de nós, as for-;
ças obscuras da vida. E’ possivel que nada disto
exista na revelação nova; mas é impossivel que,
aos que realizaram até o fim a missão por exce-
lencia humana deixem de encontrar-se na primei­
ra fila para acolher essa revelação. E ainda mes­
mo que essa revelação proclamasse o inutil da
curiosidade e a persistencia do incognoscivel,
esses da primeira fila estarão aptos a compreen­
der melhor que os outros a resignação daí decor­
rente é a dela tirar partido.

XIX

E, pois, não extendamos desse lado nossos so­


nhos. E’ bom que o aniquilamento geral não en­
A VIDA DAS A B E IçH A S 235

tre no calculo das nossas necessidades, nem entre


tão pouco a assistência miraculosa dum acaso.
Até aqui, apesar das promessas da nossa imagina­
ção, temos vivido sempre entregues a nós mesmos
e aos nossos recursos. Graças ao nosso humilde
esforço realizamos tudo que foi feito de util e du­
radouro sobre a terra. Temos a liberdade de es­
perar dum acidente de fora o melhor ou o peor;
mas com a condição de que essa espera não se
imiscua com a nossa tarefa humana. E ainda aqui
as abelhas nos dão uma lição magnífica — como
aliás todas as lições da natureza. Entre elas ocor­
reu de fato uma intervenção prodigiosa. Mais
claramente do que nós, acham-se as abelhas nas
mãos de uma vontade que pode aniquilar ou mo­
dificar a sua raça e transformar seus destinos.
Mas nem porisso deixam de seguir o dever primi­
tivo e profundo. E as que se mostram mais fieis
a esse dever são precisamente as que se acham
mais preparadas para tirar partido da interven­
ção sobrenatural e desse modo melhorar de sorte.
Ora é mais facil do que parece descobrir o dever
profundo de um ser. Podemos le-lo no orgão que
mais o distingue e ao qual todos os outros se su­
bordinam. E do mesmo modo que na lingua, na
boca e no estomago das abelhas está escrito que
elas devem produzir mel, tambem está escrito em
nossos olhos, nossos ouvidos, nosso cerebro e em
nosso sistema nervoso que existimos para trans-
formar as coisas materiais absorvidas em uma for­
ça especial e duma qualidade unica no mundo.
Nenhum outro ser, que eu saiba, está tão bem pre­
parado, como nós, para produzir esse estranho
fluido a que chamamos pensamento, inteligencia,
entendimento, razão, alma, espirito, poder mental,
virtude, saber, bondade, justiça — coisa que tem
mil nomes e uma só essencia. Tudo no homem foi
sacrificado em beneficio dessa coisa. Nossos mus-
culos, nossa saude, a agilidade dos nossos mem­
bros, o equilibrio das nossas funções animais, a
paz da nossa vida — tudo em nós sofre o castigo
recrescente da preponderancia da coisa nova. E’
o estado mais precioso e mais dificil a que pode
ser elevada a matéria. A chama, o calor, a luz,
a própria vida, o instinto mais sutil que a vida e a
maior parte das forças inapreciaveis que coroa­
vam o mundo antes do aparecimento do homem
empalideceram diante do espirito. Não sabemos
para onde ele nos leva, nem o que fará de nós ou
nós dele faremos. A esse efluvio compete esclare­
cer-nos quando alcançar a plenitude de sua força.
Entrementes, cumpre-nos dar-lhe tudo o que
ele pede, e sacrificar tudo o que lhe pode retardar
o desenvolvimento. Parece indiscutível ser esse,
no momento, o mais claro dos nossos deveres, e
o que nos esclarecerá sobre os outros. E os nu­
trirá e os prolomgará conforme nutrido for, como
a agua da montanha nutre e prolonga os riachos
A VIDA DAS ABELHAS 237

da planície conforme a alimenta o cimo da monta­


nha. Não nos atormentemos com a questão de
quem tirará partido da força desse modo acumu­
lada no mundo à nossa custa. As abelhas igno­
ram‘ se comerão o mel que fabricam. Nós tam­
bém ignoramos quem se aproveitará da força es­
piritual por nós introduzida no universo. Como
vão as abelhas de flor em flor em busca de mais
mel alem do que necessitam para si e os filhos,
assim vamos nós de realidade em realidade em
busca de tudo que possa servir de alimento a essa
chama incompreensivel, afim de estarmos prontos
para tudo e sempre na certeza de haver cumprido
o nosso dever orgânico. Alimentemo-la de nossos
sentimentos, de nossas paixões, de tudo quanto
vemos, compreendemos, ouvimos, apalpamos, e
tambem da sua própria essencia, que é a ideia que
ela tira das descobertas, experiencias e observa­
ções feitas sobre tudo quanto visita. Momento
chega em que tudo, de modo mais natural, rever­
te em bem para o espirito que de boa vontade, se
submeteu ao dever realmente humano. E a pró­
pria suspeita de que os esforços do nosso espirito
talvez não tenham um objetivo, torna ainda mais
claro, mais puro, mais desinteressado, indepen­
dente e nobre o ardor do vosso esforço.

F IM
OBRAS DO MESMO AUTOR

A SABEDORIA E 0 DESUNO g g
humanidade, o autor busca pacientemente a confiança, a sere-
nidade, motivos de alegria, expansão, am or... As páginas dêste
livro admirável, vivamente assinaladas de filosofia, apresentam
estudos importantes sôbre o antagonismo entre os esplendores
da Sabedoria e as incertezas do Destino, "destino de nossa al­
ma, que é um destino de purificação e de luz”, fazendo com
que os impulsos determinantes do modo de ação do ser huma­
no sejam melhor compreendidos, sob a luz da razão, que abre
as portas à Sabedoria. A tradução esmerada desta obra do
grande filósofo Maurice Maeterlinck, cuja celebridade percor­
re o mundo todo, foi confiada ao conhecido escritor patrício
Monteiro Lobato, uma das glórias da nossa literatura, o qual
também deu início ao livro com um brilhante prefácio de sua
autoria — o que representa um sucesso de livraria, pois a
Emprêsa Editora "O Pensamento” não poupa esforços para
apresentar a seus leitores o que de melhor existe, daqui e de
além-mar, em matéria de literatura transcendental de alto al­
cance espiritualista e filosófico.

0 TESOURO DOS HUMILDES


neste livro a grandeza de sua personalidade intelectual, que se
traduz na penetrante visão de sua amena e profunda filosofia.
O notável escritor, de infinitos recursos intelectuais e filosófi­
cos. aborda com rara felicidade variados estados emotivos que
a vida desdobra no ser humano. O silêncio, o despertar da
alma, a beleza interior, a moral mística, a tragédia cotidiana, a
bondade invisível e outros temas palpitantes são analisados pelo
autor, integrando-se harmoniosamente no significativo título de
sua obra, porém unificados pelo seu admirável espírito, cujos
reconhecidos méritos literários dispensam mais amplos comen­
tários. Pelo acima exposto, os nossos estimados leitores pode­
rão convencer-se perfeitamente que "O Tesouro dos Humildes”
é uma obra de grande valor literário e digna de figurar em
suas bibliotecas.

PEDIDOS À LIVRARIA "O PENSAMENTO ”


R ua R odrigo S ilva N.° 1 7 1 ---------------------------------------- —- S. P a u l o --- (B rasil )
Impresso nas oficinas gráficas da E m pr esa
E ditora “ O P e n sa m e n t o ” L tda ., em 1947.
A SABEDORIA E O DESTINO
-------------------------------M a u r ic e M a e t e r l i n c k --------------------------------

Nos ocultos refolhos do coração da humanidade, o


autor busca pacientemente a confiança, a serenidade,
motivos de alegria, expansão, a m o r ...
As páginas dêste livro admirável, vivamente assi­
naladas de filosofia, apresentam estudos importantes so­
bre o antagonismo entre os esplendores da Sabedoria e
as incertezas do Destino, “ destino de nossa alma, que
é um destino de purificação e de luz” , fazendo com que
os impulsos determinantes do modo de ação do ser hu­
mano sejam melhor compreendidos, sob a luz da razão,
que abre as portas à Sabedoria.
A tradução esmerada desta obra do grande filósofo
Maurice Maeterlinck, cuja celebridade percorre o mundo
todo, foi confiada ao conhecido escritor patrício Mon­
teiro Lobato, uma das glórias da nossa literatura, o qual
também deu início ao livro com um brilhante prefácio
de sua autoria — o que representa um sucesso de livra­
ria, pois a Emprêsa Editora “ O Pensamento” não poupa
esforços para apresentar a seus leitores o que de melhor
existe, daqui e de além-mar, em matéria de literatura
transcendental de alto alcance espiritualista e filosófico.

PEDIDOS À LIVRARIA “ O PENSAMENTO”

R ua R o d r ig o S il v a , 171 ------ SÃo P aulo — (B r a s il )

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