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Psicologia USP http://dx.doi.org/10.

1590/0103-656420135013

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Heidegger: o estudo dos fenômenos humanos baseados na existência humana
como ser-aí (Dasein)
Ida Elizabeth Cardinalli*
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde. São Paulo, SP, Brasil

Resumo: O presente artigo pretende esclarecer a posição crítica do filósofo Martin Heidegger, explicitada no
livro Seminários de Zollikon, em relação à transposição do método da ciência natural moderna para o estudo dos
fenômenos humanos e apresentar sua proposição de um método mais pertinente ao estudo da existência humana. O
autor propõe indicações de um método baseado na compreensão do existir humano como “ser-aí” e “ser-no-mundo”
e também nos existenciais descritos em Ser e tempo, tais como espacialidade, temporalidade, ser-com-o-outro e
corporeidade. Ao mesmo tempo, destaca que os fenômenos humanos não deveriam ser submetidos e circunscritos
às descrições ontológicas dos existenciais, quando o método visa ao esclarecimento das experiências específicas e
singulares de cada ser humano.

Palavras-chave: Heidegger, ciência natural, ciências humanas, ser-aí e ser-no-mundo.

Introdução sentido de Ser, afirmando que sua análise precisa focalizar


primeiro o ser do homem, uma vez que esse ente, que em
Neste artigo serão apresentadas algumas ideias cada caso somos nós mesmos, tem entre outras possibilida-
prin­cipais de Martin Heidegger presentes em Ser e tempo des de ser, a de perguntar, por isso é quem poderá respon-
(1927/1988, 1927/1989) e seus desdobramentos expostos em der a essa questão.
Seminários de Zollikon (1987/2009). Pretendemos mostrar a Desse modo, Heidegger inicia sua analítica do ser-
crítica do filósofo ao método da ciência natural moderna para -aí (Daseinsanalitik) por meio de uma interpretação on-
o estudo dos fenômenos humanos, procurando ainda explici- tológica do ser do ser-aí. Nesse livro elabora também a
tar sua proposição, considerada por ele como o modo mais Daseinsanalyse, que ainda pertence à analítica do ser-aí,
adequado para a investigação das experiências humanas. pois ela é o desdobramento dos temas indicados na analí-
É importante sublinhar que o pensador entende tica, ou seja, é o desenvolvimento de uma interpretação do
a palavra crítica em seu sentido grego, significando ser-aí. O método de análise utilizado pelo pensador é consi-
prioritariamente diferenciar. Desse modo, Heidegger derado uma Fenomenologia hermenêutica, pois ele retoma
(1987/2009) considera que sua reflexão crítica ao método o método fenomenológico husserliano e o reinterpreta à luz
da ciência natural moderna positiva, uma vez que ela per- da hermenêutica.
mite destacar e refletir criticamente sobre as concepções Ser e tempo desenvolve a ontologia fundamental por
subjacentes aos procedimentos de pesquisa e aos critérios meio de uma descrição detalhada dos “existenciais”. Essas
de verdade e realidade dessa ciência. No decorrer dessa ela- são estruturas interpretativas, que, segundo Nunes (1986),
boração crítica, pode extrair também indicações de novas “se resumem na ideia de que o homem, como Dasein é um
possibilidades de compreensão dos fenômenos humanos. ser-no-mundo, e como ser-no-mundo é temporal e históri-
Portanto, mostra claramente a distinção entre sua reflexão co” (p. 10). Assim, do ponto de vista heideggeriano, a expli-
e a crítica negativa, na medida em que esta última apenas citação ontológica desvela uma estrutura de realização, isto
“diz que algo no tema não está certo” (p. 173). é, aquilo que possibilita as várias maneiras de algo tornar-
Inicialmente, faz-se necessário tecer alguns escla- se manifesto, enquanto a dimensão ôntica mostra tudo o
recimentos para situar o pensamento filosófico relativo à que é percebido, entendido ou conhecido de imediato pelo
compreensão do ser humano como ser-aí1 (Dasein) e suas homem.
indicações para o estudo e a compreensão das experiências Seminários de Zollikon (1987/2009) sugere também
humanas. outros dois sentidos para a palavra Daseinsanalyse, confor-
A questão que perpassa a trajetória do pensamento me já destacamos em trabalho anterior (Cardinalli, 2004,
heideggeriano é o esclarecimento do que significa a pala- pp. 64-76). O primeiro que denominamos Daseinsanalyse
vra Ser. Ser e tempo dá início às suas reflexões sobre o clínica, uma vez que corresponde à descrição e comprova-
1 Dasein é traduzido por “pre-sença” no livro Ser e tempo na versão em
ção dos fenômenos fatuais, que se mostram em cada caso
português. No entanto, optamos pela tradução mais literal do alemão na relação entre o analista e o analisando; no entanto, a
para o português “ser-aí”, exceto nas citações da referida tradução. análise desses fenômenos é necessariamente orientada pe-
* Autora correspondente: idaec@uol.com.br los existenciais descritos na analítica do ser-aí.

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Na Daseinsanalyse clínica, segundo Heidegger Dessa forma, as características fundamentais do ser
(2009), a compreensão do paciente que ocorre na situação humano não são propriedades ou qualidades, mas modos
terapêutica precisa ter base no “paciente concreto em ques- em que é possível ser. O ser-aí é compreendido sempre com
tão, a partir de si em seu conteúdo fenomenal, e não seja base em sua existência, isto é, uma possibilidade de ser ele
simples e genericamente subordinado a um existencial” mesmo ou não. Ao elucidar que a essência do ser-aí é sua
(p. 163). Portanto, isso significa que os fenômenos con- própria existência e não as suas propriedades, Heidegger
cretos e singulares são experienciados e tratados à luz do (1987/2009) destaca que a essência não está referida aos
ser-homem como Dasein, mas eles são compreendidos com conteúdos materiais ou à substância, pois o ser-aí não é
base no paciente específico em questão. “algo passível de objetivação” (p. 33).
Ele também propõe a elaboração de uma disciplina Em trabalho anterior (Cardinalli, 2004), salientou-
daseinsanalítica que intitula antropologia ôntica daseinsa- se que Heidegger denomina o ser do existir humano como
nalítica, isto é, os estudos dos fenômenos humanos situados ser-aí (Dasein) para explicitar que “o ser humano é um
em um contexto histórico-social específico e orientados acontecer (Sein) que ocorre no aí (Da), lançado no mun-
pela compreensão do existir humano como ser-aí, indican- do e, assim, ek-sistere, isto é, existe nesse movimento para
do, por sua vez, a subdivisão da daseinsanalyse antropoló- fora” (p. 58). Desse modo, Heidegger (1927/1988) conside-
gica em antropologia normal e patologia daseinsanalítica. ra que a compreensão do ser-aí “inclui a compreensão de
Lembramos que Ludwig Binswanger foi o primeiro estu- mundo e a compreensão dos entes que se tornam acessíveis
dioso que utilizou o termo daseinsanalyse fora do contexto dentro do mundo” (p. 40). Casanova (2009) elucida que,
filosófico, ao aproximar o pensamento heideggeriano da para Heidegger, o mundo designa “a amplitude total do ho-
compreensão da existência concreta de seus pacientes e rizonte a partir do qual o ser-aí incessantemente se relacio-
da psiquiatria, todavia consideramos que a elaboração das na com os entes intramundanos, com os outros seres-aí e
proposições sugeridas anteriormente ainda não foi plena- consigo mesmo”. (p. 106)
mente desenvolvida por seus seguidores. Nesse sentido, ser-no-mundo é um traço funda-
Tendo em vista a apresentação de suas ideias mais mental do ser homem e se apresenta como uma unidade,
importantes presentes nessas duas obras, no próximo tó- “embora em sua unidade possa ser interpretado sob vários
pico serão explicitados os existenciais heideggerianos, aspectos” (Heidegger, 1987/2009, p. 179). A expressão “ser-
em especial, descritos em Ser e tempo. Outros livros, as- -no-mundo”, destaca Carneiro Leão (1988), não é um fato,
sim como de estudiosos de sua obra, serão mencionados e sim “uma estrutura de realização” (p. 20). Desse modo, a
quando favorecerem a elucidação das ideias contidas nessa explicitação heideggeriana do ser-aí como “ser-no-mundo”
obra. Em seguida, serão expostas as ideias presentes em revela que ele é ao mesmo tempo junto das coisas (objetos)
Seminários de Zollikon, desde a discussão da ciência natu- e junto dos outros e consigo mesmo.
ral moderna até sua proposição para o estudo, a pesquisa e Ser-no-mundo significa preliminarmente “morar,
a compreensão dos fenômenos humanos. habitar, ser familiar a” (Nunes, 1986, p. 86) com o que se
O segundo livro foi escolhido por ser o resultado apresenta, por sua vez, a familiaridade com algo do mundo
do trabalho de Heidegger com o psiquiatra suíço, Medard emerge em virtude de um projeto de realização do ser-aí
Boss, que organizaram os seminários proferidos, duran- (Casanova, 2009). Portanto, nessa perspectiva, o existir hu-
te 10 anos (1959 a 1969), para um grupo de médicos psi- mano é compreendido como uma totalidade significativa,
quiatras e psicanalistas em Zollikon, Suíça. Nessa obra, uma vez que a compreensão de si mesmo e do que se apre-
também foram incluídas cartas e diálogos entre eles, tanto senta do mundo é impregnada por uma trama significativa
sobre questões filosóficas quanto reflexões sobre a possibi- e orientada por um projeto de realização.
lidade de elaborar uma compreensão da experiência sadia e Quando Ser e tempo se dirige ao ser-aí no modo
patológica, assim como a psicoterapia e a pesquisa baseada como ele se mostra em sua cotidianidade, salienta que o
no pensamento heideggeriano. ser-aí se expõe habitualmente em um movimento de obs-
curecimento de si próprio. Essa maneira de existir na coti-
O pensamento filosófico de Heidegger dianidade é denominada como impessoal, pois não reporta
a alguém específico e sim, a todo mundo ou “a gente”,
Ser e tempo ressalta sua tarefa de interpretar o referindo-se às maneiras de ser com os outros, nas quais
sentido de ser, o ser-aí (Dasein) não é apenas o ente a ser um não se diferencia do outro. Além de promover o dis-
interrogado primeiro, pois é “o ente que, desde sempre, tanciamento, a uniformidade e o nivelamento de todas as
se relaciona e se comporta com o que se questiona nessa possibilidades de ser por meio do caráter público da inter-
questão” (p. 41). Heidegger esclarece, sobretudo, que suas pretação do mundo e do ser-no-mundo, o impessoal retira
indagações nessa obra explicitam uma questão inteiramen- a responsabilidade de cada ser-aí, pois prescreve todo jul-
te diferente da apresentada pelo pensamento metafísico. A gamento e decisão, assim, “todo mundo é outro e ninguém
metafísica questiona o ente com referência a seu ser, en- é si próprio” (Heidegger, 1927/1988, p. 181). Por outro lado,
quanto nessa obra “a pergunta não é mais pelo ente como se o impessoal é o modo básico e habitual do ser-aí se apre-
tal, mas pelo ser como tal, pelo sentido do ser em geral, pela sentar no cotidiano, o modo mais próprio corresponde a
manifestação [Offenbarkeit] do ser possível” (p. 158). “uma modificação existenciária do impessoal” (Heidegger,

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1927/1988, p. 183), ou seja, revela-se como um movimento totalidade significativa específica, que sustenta, ao mesmo
em direção a si mesmo, que permite a aproximação e apro- tempo, uma dada compreensão de si, do outro e do mundo.
priação de si mesmo. O sentido orienta não somente as escolhas, mas também
Heidegger (1927/1988) esclarece, além disso, que o como a pessoa vivencia as situações específicas de sua
aí (Da) do ser-aí é a abertura ou clareira que possibilita ao vida, não aparecendo em geral de modo explícito no viver,
mundo se apresentar ao ser-aí e não se refere a algo interior mas se revela pela maneira como alguém se relaciona con-
ao homem nem simplesmente a um lugar do mundo, portan- sigo mesmo, com os outros e o mundo em que vive.
to, o ser-aí não tem como qualidade estar aberto, mas ele é Heidegger (1927/1988), para mostrar a totalidade da
esse estar aberto que possibilita apreender as significações estrutura ontológica do ser-aí, destaca que as caracterís-
daquilo que aparece, seja dos entes do mundo, seja dele mes- ticas ontológicas fundamentais são a existencialidade ou
mo para si mesmo. Dessa maneira, a abertura (aí) do ser-aí ser-à-frente-de-si-mesmo, facticidade ou já-ser-em-um-
é descrita por meio das estruturas existenciais intituladas de -mundo e decadência ou ser-junto-a, enfatizando, assim,
compreensão, disposição, interpretação e discurso. que essas características se apresentam interligadas em um
A compreensão não se refere a processos cognitivos nexo estrutural, não podendo ser apreendidas como partes
que permitem saber de si ou do mundo, mas se apresenta separadas, quando afirma: “o ser da pre-sença diz preceder
como poder ser, isto é, como desdobramento de possibili- a si mesma por já ser em (no mundo) como ser junto a (os
dades de ser em cada contexto de referência. Ao mesmo entes que vêm ao encontro dentro do mundo)” (p. 257).
tempo o âmbito de abertura da compreensão da existência Esse ser é denominado cura ou cuidado (Sorge) e,
humana se encontra sempre em um modo possível de dis- como ser-no-mundo em sua essência é cura, pode-se com-
posição, que remete, por sua vez, “a tonalidades afetivas preender o ser junto ao manual como ocupação (Besorgen)
que afinam radicalmente o espaço existencial da abertu- e o ser com os outros como preocupação (Fürsorge), por-
ra e perpassam a própria convivência entre os seres-aí em tanto, a cura se encontra em toda atitude e situação.
geral” (Casanova, 2006, p. 50). Casanova (2009) ressalta A cura não se refere a uma atitude isolada do eu
que Heidegger tem clareza quanto à “impossibilidade de consigo mesmo nem significa uma atitude especial para
um acesso teórico ao mundo enquanto um descerramento consigo mesmo “porque essa atitude já se caracteriza onto-
globalizante” (p. 107), e, assim, busca um acesso prático logicamente como preceder a si mesmo; nessa determina-
a essa totalidade. Desse modo, tudo que se apresenta do ção, porém, já se acham também colocados os outros dois
mundo para alguém é acolhido por meio de uma dada dis- momentos estruturais da cura, a saber, o já ser-em e o ser-
posição ou uma tonalidade afetiva específica, e tudo o que -junto-a” (Heidegger, 1927/1988, p. 257).
aproxima, sejam as pessoas, sejam as coisas, aparece entre- Para ele, a temporalidade é uma dimensão funda-
laçado aos significados e sentido. mental para a reflexão do sentido de ser do ser humano.
Para Heidegger (1927/1988), na compreensão, o Inicialmente, questiona a noção temporal da ciência natural
ser-aí projeta seu ser para possibilidades, e o ente se abre moderna, visto que o tempo é concebido como algo quan-
em sua possibilidade. A interpretação permite elaborar as titativo e externo ao existir humano, como o tempo crono-
possibilidades projetadas na compreensão, mas essa arti- lógico. Salienta que, mesmo cotidianamente, o homem não
culação não é necessariamente uma proposição temática apenas conta o tempo, mas também conta com o tempo
ou racional. Ao mesmo tempo a compreensão se baseia em para realizar e decidir suas atividades. Assim, a dimensão
um referencial prévio, pois o “sentido é a perspectiva em temporal não é ocasional ao existir humano, uma vez que o
função da qual se estrutura o projeto pela posição prévia, ser-aí já é e está aberto temporalmente. É a temporalidade
visão prévia e concepção prévia. É a partir dela que algo se que mostra o movimento ek-stático da existência, isto é, o
torna compreensível como algo” (p. 208). O sentido susten- movimento para fora de si e para si mesmo.
ta, portanto, a compreensibilidade de alguma coisa, articu- A temporalização envolve sempre os três êxtases:
lando a interpretação e o discurso. É importante destacar o futuro (advir), o passado (retrovir) e o presente (apresen-
também que, para Heidegger (1927/1988), “o fundamento tar). Eles não se mostram de modo sequencial, um após o
ontológico-existencial da linguagem é o discurso” (p. 219) outro, uma vez que são indissociáveis e interdependentes,
e, nesse caso, a linguagem é o pronunciamento do discurso. revelando a inter-relação passado-presente-futuro. Nunes
Como o discurso é a articulação dessa compreen- (2004) evidencia essa interdependência, quando diz: “o
sibilidade, na articulação do discurso se estrutura a totali- Dasein só retrovém (passado) advindo (futuro) a si e por-
dade significativa, que, por sua vez, pode se desmembrar que retrovém ao advir, é que gera o presente” (p. 25).
em significações, das quais brotam as palavras, revelando Ao mesmo tempo, para Heidegger, há uma pri-
algo. Heidegger (1987/2009) salienta, assim, que o “decisi- mazia do futuro, uma vez que a temporalização do com-
vo da linguagem é o significado. . . . O essencial da lingua- preender (poder ser) tem por base o futuro, apesar de ser
gem é o dizer, que uma palavra diga algo e não que tenha também determinado com igual originalidade pelo passa-
um som. Que uma palavra mostre algo” (p. 223). do e pelo presente. O futuro pode se revelar por meio dos
Nessa perspectiva, o sentido de existir de alguém projetos existenciários que solicita o ser-aí para sua realiza-
específico, conforme aponta Critelli (1996), “é mais ção, mas como projeto, ainda não se concretizou, e, assim,
um rumo que apela” (p. 132), que está apoiado em uma pode ou não acontecer. É necessário lembrar que, segundo

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o pensador, a dimensão existenciária se refere ao exercício Para Heidegger (1927/1988), a angústia não é um
fatual de existir de alguém específico, que corresponde à sintoma ou uma condição patológica, é um estado funda-
dimensão ôntica do existir. mental da existência humana, que aproxima do ser humano
Nesse sentido, o futuro apela e solicita o ser-aí, a sua condição de precariedade e provisoriedade. Nunes
quando o compreendemos como ser lançado no movimento (1986) diz que “a angústia situa-nos no mundo, que se
de vir a ser, possibilitando, desse modo, tanto as mudanças torna infamiliar e inóspito. Angustiar-se é não mais nos
nas maneiras de existir quanto a aproximação das incerte- sentirmos em casa” (p. 110). Desse modo, cotidianamente
zas e a instabilidade no viver. o homem evita o desabrigo da angústia, mergulhando nas
O futuro também pode aproximar a possibilida- solicitações do mundo e se envolvendo com seus afazeres e
de de morrer, isto é, do seu ser mortal. Para Heidegger com seus compromissos.
(1927/1989), o morrer pertence como possibilidade à exis- A angústia, ao aproximar a sensação de estranheza
tência humana, assinalando sua condição de finitude e de e de inospitalidade, do não se sentir em casa, pode propi-
limitação e não se restringe à noção biológica da morte. É ciar ao ser-aí a apropriação de suas possibilidades, tornan-
uma possibilidade destacada do existir humano, dado que do-se mais livre para assumir a si mesmo. Assim, abre a
não é ultrapassável e cada um de nós tem que realizá-la oportunidade para o ser-aí, que na decadência compreende
por si próprio, cada um tem de morrer, uma vez que nessa a si mesmo a partir do mundo e da interpretação pública
possibilidade somos insubstituíveis. O homem encontra-se aproximando-se de si e de suas possibilidades mais pró-
com sua morte diante de seu mais íntimo poder-ser. Morrer prias. Segundo Heidegger (1927/1988):
é a possibilidade de não mais poder estar aqui que faz par-
te da existência: logo que nasce o homem está lançado à A angústia revela ao ser o poder-ser mais próprio,
possibilidade de morrer e assim é consti­tuído por ela. ou seja, o ser-livre para a liberdade de assumir e
Na visão cotidiana, a morte é compreendida como escolher a si mesmo. A angústia arrasta a pre-sença
algo que falta, isto é, como o último componente a ser para o ser-livre para . . . (propensio in . . .), para a
acrescentado; é entendida como algo que acaba, por exem- propriedade de seu ser enquanto possibilidade de
plo, a máquina que chegou ao fim de seu funcionamento. ser aquilo que já sempre é. A pre-sença como ser-
Outras vezes, a morte é pensada como o amadurecimento no-mundo entrega-se, ao mesmo tempo, à responsa-
de uma fruta ou a etapa final do amadurecimento. Porém, bilidade desse ser (p. 252).
essa analogia também é problemática, pois em alguns ca-
sos a vida chega ao fim sem que, do nosso ponto de vista, Boss (1975) esclarece a inter-relação da angústia
o amadurecimento tenha se completado, por exemplo, a com a possibilidade da morte, quando aponta que o “do
morte de uma criança ou de um jovem. quê de cada angústia é sempre um ataque lesivo à possibi-
Em geral, o homem se esquiva e evita encarar a lidade do estar-aí humano. O pelo quê da angústia huma-
morte e a finitude. Ele vive como se fosse eterno ou per- na é por isto o próprio estar-aí” (p. 26). Assim, podemos
manece em um saber abstrato e genérico, no qual a morte ver nas diversas situações de angústia, o medo da destrui-
é percebida como a mais certa de todas as possibilidades ção de sua situação humana já conhecida, pois, segundo
como aparece nos ditados populares: “A morte é certa”; Heidegger (1927/1988), remete o ser-aí “para aquilo pelo
“Nossa vez há de chegar”; “Só fica velho quem não morre que a angústia se angustia, para o seu próprio poder-ser-
cedo”. Assim, o homem no seu cotidiano mantém uma con- no-mundo” (p. 251).
duta de fuga caracterizada pela indiferença e tranquilidade Ao diferenciar a disposição da angústia e do te-
no saber da morte como um fato inevitável. No entanto, mor, Heidegger assinala que, na angústia, a ameaça é in-
como evidencia Nunes (1986), “aqui a evidência teórica determinada, não está referida aos entes intramundanos,
aparente é um estratagema da razão em luta contra o inde- enquanto no temor a ameaça provém de algo determinado.
terminado, tentando esconjurar o fantasma de algo possível Na angústia, o medo é diante de si mesmo, do seu próprio
que se tornou certo” (p. 122). ser-no-mundo, “a angústia se angustia pelo estar no mundo
Haar (1990) deixa claro que Heidegger não encara a ele mesmo” (p. 251), uma vez que o mundo não possibi-
morte como possibilidade de destruição, nem como “degra- lita mais que o ser-aí se compreenda a partir do mundo
dação das faculdades físicas e mentais no envelhecimento, e da interpretação pública. No temor, o medo é dos entes
perda dolorosa dos seres amados, absurdo possível da mor- intramundanos, isto é, as pessoas ou as coisas do mundo
te que interrompe precocemente uma vida, prendendo-a aparecem como ameaçadoras e, desse modo, o temeroso
a um inacabamento radical” (p. 33). Haar esclarece que o fica retido por aquilo que o amedronta.
morrer é uma possibilidade do ser, do ser-aí, que reflete Heidegger (1929/1983) destaca também que a an-
em todas as suas estruturas: “A fuga perante a morte não é gústia, como disposição fundamental, não corresponde à
mais do que a fuga perante o próprio Dasein. . . . A angús- ansiedade, pois considera que esta “em última análise per-
tia da morte é a angústia perante o poder ser mais próprio, tence aos fenômenos do temor que se mostram com tanta
absoluto e inultrapassável” (p. 36). Assim, a aproximação facilidade” (p. 39). Nunes (1986), por sua vez, esclarece
da finitude pode possibilitar a apropriação de si mesmo, ao que “o temor revela a sua essencial vulnerabilidade, do
contrapor a fuga absorvente no cotidiano. que a angústia é o fenômeno fundamental. . . . Pois, só um

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ente em que o ser está em jogo é capaz de atemorizar-se.” estar-relacionado com aquilo que se nos fala a par-
(p. 109). Nesse sentido, Heidegger (1927/1988) afirma que tir do aberto de nosso mundo como o que, aberto,
“o temor é angústia imprópria, entregue à de-cadência do existimos. (Heidegger, 1987/2009, p. 39)
‘mundo’ e, como tal, angústia nela mesma velada” (p. 254),
dessa forma, o temor é uma maneira imprópria da angústia As considerações que faz sobre corpo e corpo-
se manifestar, e, assim, o temeroso se sente inseguro em reidade são no mínimo instigantes, pois é muito difícil
relação ao que se apresenta do mundo. Além disso, com- pensar o corpo sem privilegiar sua materialidade. Dessa
plementa que: maneira, salientamos que a proposição heideggeriana
não exclui a dimensão corpórea, mas propõe que o corpo
Nós nos atemorizamos sempre diante deste ou da- seja considerado em sua dimensão humana e não apenas
quele ente determinado que, sob um ou outro aspec- como objeto da natureza, destacando que o corpo material
to determinado, nos ameaça. O ‘temor de’ sempre é uma condição necessária, mas não suficiente para o
teme por algo determinado. . . . Ao esforçar-se por entendimento das realizações humanas.
se libertar disto – de algo determinado –, torna-se,
quem sente o temor, inseguro com relação às outras O método de pesquisa da ciência natural
coisas (Heidegger, 1929/1983, p. 39). moderna e a compreensão dos fenômenos
humanos
Heidegger apresenta uma posição original sobre o
entendimento do corpo. No entanto, em Ser e tempo mos- No decorrer dos Seminários de Zollikon desenvol-
tra apenas breves indicações dessa temática, que foi mais vem-se reflexões minuciosas sobre a ciência natural, repor-
bem desenvolvida em Seminários de Zollikon em decor- tando, em especial, à Física, com o objetivo de esclarecer
rência das indagações dos profissionais de saúde, médicos como a ciência moderna está baseada nos pressupostos e
e psiquiatras que deles participaram. no método da ciência natural. Para ilustrar a maneira como
Inicialmente, é questionada pelo filósofo são conduzidas essas meditações, apresentamos a seguir,
(1987/2009) a concepção de corpo da ciência natural mo- a elucidação do filósofo sobre a definição do método de
derna, que enfoca apenas o organismo ou corpo físico e o pesquisa da Física, esclarecendo qual é seu objetivo de pes-
estuda segundo os critérios de objetividade e mensuração, quisa, seja na elaboração, seja na revisão de suas teorias:
ou seja, como uma dimensão independente da existência
humana. Em trabalho anterior, Cardinalli (2003) salientou A pesquisa na Física não consiste apenas de ex-
que, para Heidegger, a corporeidade não tem o “sentido periências, mas faz parte dela também, necessa-
mais habitual do mero ‘corpo físico’, isto é, corpo fisica- riamente, a física teórica. Entre ambas há uma
mente presente, mensurável, constituído de órgãos e com relação mútua, tendo em vista que, de acordo com
seus contornos delimitados pela epiderme” (p. 48). Desse o resultado das experiências, a teoria é modificada,
modo, a dimensão corporal não é concebida como um fun- respectivamente, a experiência tem a incumbência
cionamento independente do existir humano, sendo com- de comprovar empiricamente as afirmações feitas
preendida como coparticipante das realizações humanas. pela teoria. Isso significa, por sua vez, que o re-
Nesse sentido, Pompéia (2003) diz que “fazer uma feno- sultado factual da experiência prova a exatidão da
menologia da corporeidade não é descrever o corpo, mas afirmação teórica. A “exatidão” é a validade das
é buscar a qualidade de uma experiência que está intima- suposições estabelecidas segundo um processo que
mente relacionada com a questão do corpo” (p. 31). obedece às leis. Por meio da experiência a afirma-
Heidegger compreende a corporeidade como um ção teórica é examinada de acordo com os chama-
existencial e ressalta que o ser corpóreo é um caráter fun- dos fatos. . . .
damental do ser-aí que integra todas as suas relações com A experiência e a construção teórica são modos de
o mundo e participa de todas as realizações humanas, em proceder mutuamente copertencentes da pesquisa
que o homem é solicitado pelas coisas do mundo e pe- da natureza, e a estas duas maneiras de investi-
los seus projetos de realização. Assim, a corporeidade é gação chama-se método. Método na pesquisa é a
compreendida como indissociável dos outros âmbitos da maneira do processo, o modo pelo qual uma pes-
existência, ao ser considerado o ser humano como uma quisa procede no exame do seu âmbito de objeto
totalidade. A corporeidade, por sua vez, “co-responde”, ou (Heidegger, 1987/2009, p. 167).
seja, responde a uma solicitação ou a algo, em que o corpo
participa diretamente dessa solicitação e de sua resposta Nessa reflexão, assinala que, na ciência natural
no âmbito do poder perceber as significações do que vem moderna, o conceito de objeto já demonstra um tipo es-
ao encontro, conforme destaca: pecífico da relação sujeito-objeto, uma vez que a nature-
za “é representada segundo seu modo de ser conforme a
não poderíamos ser corporais, como de fato so- lei. Dessa maneira, ela se torna em primeiro lugar objeto
mos, se o nosso ser-no-mundo não consistisse – na verdade objeto da mensurabilidade e previsibilidade
fundamentalmente de um já sempre perceptivo de todos os processos” (Heidegger, 1987/2009, p. 166).

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Desde Husserl (1954/2012), a Fenomenologia ques- da natureza, quando afirma que “a natureza só se mostra
tiona os conceitos de sujeito e objeto da ciência natural ao físico, no sentido de objetos, que ele pesquisa pelo seu
moderna, quando visa ao esclarecimento da relação do su- método, quando o caráter de ser da natureza é a priori
jeito que conhece e do objeto a ser conhecido, assinalando determinado como objetividade” (Heidegger, 1987/2009,
que, seja no processo de conhecimento, seja na vida co- p. 168). Portanto, para ele, o método da ciência natural
tidiana, a relação sujeito-objeto é indissociável, e, dessa moderna é caracterizado pela maneira como a natureza é
maneira, essa inter-relação é esclarecida pelas noções de vivenciada e tematizada, ou seja, quando a natureza é re-
intersubjetividade e consciência intencional. presentada como objeto e quando busca sua objetivação.
Seminários de Zollikon discute o pensamento Salientamos que Heidegger não assume uma
científico moderno para diferenciá-lo de sua explicitação posição contrária ao método da ciência natural moder-
ôntico-ontológica sobre o espaço, o tempo, o corpo etc. na para o estudo dos fenômenos da natureza, mas sim à
Nos seminários de 6 de julho de 1965, de 23 e 26 de no- transposição desse método ao estudo do ser humano, pois
vembro de 1965 e de 1 e 3 de março de 1966, sistematiza considera que “o resultado inevitável desta ciência do ho-
mais detalhadamente o pensamento da ciência natural mem seria a construção técnica da máquina = homem”
moderna, ao descrever o conceito de ciência e de método. (Heidegger, 1987/2009, p. 176). E, para destacar a diferen-
Salienta, assim, que o método da ciência natural moder- ça entre essas duas proposições, esclarece que “o tema da
na é apenas uma das maneiras possíveis de se investigar Física é a natureza inanimada. O tema da Psiquiatria e da
os fenômenos humanos e da natureza, e que por meio psicoterapia é o homem” (Heidegger, 1987/2009, p. 176).
de uma reflexão crítica dessa ciência poderá também es- Nesse sentido, afirma que é necessário abordar os
clarecer outro modo de aproximação e compreensão dos fenômenos da existência humana de um modo particular,
fenômenos humanos, quando aponta: considerando aquilo que é mais específico ao próprio exis-
tir do homem e entende que suas explicitações desenvolvi-
Quando se trata, pois, de abrir caminho para âm- das em Ser e tempo, isto é, as características ontológicas do
bitos do ente inteiramente diferentes, dos quais faz ser-aí, denominadas existenciais, poderão fornecer funda-
parte a existência do homem na época da domi- mentos mais pertinentes que os da ciência natural moderna
nação desta ciência, é necessário, principalmen- para a compreensão do existir humano.
te, ganhar uma compreensão da singularidade Destacamos, desse modo, que a proposição hei-
da ciên­cia moderna e manter em vista, incessan- deggeriana, ao compreender a existência humana como
temente, o compreendido para pesar em sentido ser-aí, implica uma mudança paradigmática do entendi-
verdadeiramente crítico, isto é, diferenciando a mento do homem, do mundo e da relação homem-mundo
objetivização científico-natural do mundo em relativa aos conceituados pela ciência natural moderna.
confronto com o mostrar-se de fenômenos intei- Sua compreensão do homem como ser-aí significa o rom-
ramente diferentes que se opõem à objetivização- pimento com as teorias e os modelos conceituais mais
natural. (Heidegger, 1987/2009, pp. 144-145) habituais da Psicologia e da Medicina, que estão apoiados
nas noções de ser vivo, de sujeito, de razão, de vontade
Heidegger (1987/2009) reflete sobre o significa- ou de impulso.
do da palavra método em vários momentos de sua me- Conforme já mencionado, Heidegger (1987/2009)
ditação, dizendo, por exemplo, que é “o caminho que assinala as diferenças entre a Daseinsanalyse desenvolvida
leva a algo, uma área, o caminho pelo qual estudamos em Ser e tempo, elaboração de uma interpretação do ser
um assunto.” (p. 139), ou “o caminho no qual o caráter -aí, e a Daseinsanalyse clínica, baseada na explicitação do
do campo a ser conhecido é aberto e limitado” (p. 143). existir humano como ser-aí, mas que visa à compreensão
Desse modo, conclui “que toda ciência é fundamentada da experiência humana concreta e específica de cada
numa ontologia implícita de seu objeto” (p. 161) e tam- paciente. Essa compreensão se refere ao fenômeno que sur-
bém que “o significado moderno de método não tem só o ge na relação analista e analisando, devendo partir de seu
sentido de um procedimento do tratamento dos objetos, conteúdo fenomenal e, assim, a descrição dos fenômenos
mas também da suposição transcendental da objetividade se mostra factualmente em cada caso.
dos objetos” (p. 169). Ele sugere ainda a possibilidade de uma antro-
Ao aprofundar sua reflexão sobre a ciência natural pologia ôntica daseinsanalítica que seria o estudo dos
moderna, mostra a especificidade do conceito de objeto des- fenômenos humanos situados em um contexto histórico-
sa ciência ao esclarecer que existem pelo menos três defini- -social específico e orientados pelos existenciais. No en-
ções para a palavra objeto: 1. Objeto (Gegenstand) significa tanto, considera que uma análise antropológica do ser-aí
o mesmo que objeto (Objekt) das ciências naturais; 2. Objeto e seus fenômenos saudáveis e patológicos “precisa ser
(Gegenstand) refere-se às coisas simplesmente presentes, que orientada para a existência histórica concreta do homem
podem ser usadas e observadas; 3. Objeto é algo ou aquilo contemporâneo, isto é, do homem que existe na socie-
sobre o qual o sujeito pode fazer alguma afirmação. dade industrial contemporânea” (Heidegger, 1987/2009,
Desse modo, destaca que a noção mais habitual de p. 165), pois uma mera classificação desses fenômenos
objeto está comprometida com os pressupostos da ciência não seria suficiente.

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Acompanhando as indicações do filósofo expli- Para ilustrar sua proposta, o pensador reflete so-
citadas nos Seminários de Zollikon (1987/2009), inicial- bre um artigo da Revista para Medicina Psicossomática
mente, podemos resumir em três pontos os aspectos mais [Zeitschrift für Psychosomatische Medizin] que examina
gerais que caracterizam a proposição heideggeriana para o fenômeno de estresse, apresentando sua compreensão
a elaboração de uma ciência do homem: “1. É necessário desse fenômeno em uma perspectiva existencial. Ou seja,
ter uma explicação clara dos fundamentos do modo de propõe que o estresse seja compreendido à luz da expli-
ser homem; 2. O homem não deve ser representado como citação da existência como ser-aí e, desse modo, assinala
objeto da natureza; e 3. O método não visa à objetivação, que é importante tornar acessível a pluralidade de signifi-
à mensurabilidade e à determinação causal” (Cardinalli, cados de estresse, pois pode significar solicitação excessi-
2004, p. 70). va, opressão e mesmo desopressão.
Nesse sentido, para o filósofo, a compreensão dos Heidegger (1987/2009) destaca ainda que as di-
fenômenos humanos em uma ciência ôntica deveria visar, versas formas de solicitação podem ser fundamentadas
sobretudo, à experiência específica e concreta de cada pes- na relação ekstática, uma vez que essa é uma estrutura
soa em sua singularidade situada em seu contexto históri- fundamental do ser humano, “nela fundamenta-se
co-social específico e, assim, não deveria ser submetida e aquela abertura de acordo com a qual o homem sempre é
circunscrita às descrições ontológicas dos existenciais uma interpelado pelo ente que ele mesmo não é. Sem este ser
vez que apenas codeterminam as maneiras de existir espe- interpelado o homem não poderia existir” (p. 178) e escla-
cíficas de cada ser humano. Heidegger (1987/2009) mostra rece que o estresse pode ser compreendido baseado nas
a importância da diferenciação das dimensões ontológicas solicitações que são dirigidas a cada um de nós, e que, ao
e ônticas na elaboração de estudos no campo da Medicina mesmo tempo, as solicitações são orientadas pelas “res-
e da Psicologia, ao afirmar que: “a Medicina, como ciência pectivas situações, isto é, para o respectivo ser-no-mundo
ôntica do homem que é assim ou assim, experiencia este factual a que, em cada caso, o homem não chega, mas em
ente assim e assim à luz de um ser homem, cujo caráter que sempre já está” (p. 178). Desse modo, evidencia que o
fundamental é determinado ontologicamente como Da- estresse também pode ser esclarecido segundo a explicita-
-sein” (p. 262). ção do existir humano como ser-aí e ser-no-mundo, isto é,
Heidegger esclarece ainda que não é suficien- como um fenômeno situado em contextos específicos da
te que o método de pesquisa quando referido à ciência vida de alguém e referido ao existir humano.
ôntica, tanto na Psicologia quanto na Medicina, seja me- Esse exercício de esclarecimento do fenômeno de
ramente qualificado como fenomenológico, uma vez que estresse, por sua vez, é denominado como “hermenêutica
a Fenomenologia em Ser e tempo visou ao esclarecimento de investigação”, conforme indica a carta de 24 de abril de
ontológico permitindo descrever os existenciais ineren- 1967 (Heidegger, 1987/2009, pp. 333-334), na qual comen-
tes ao ser-aí. Dessa maneira, destaca as diferenças do ta exatamente o seminário de 1 e 3 de março de 1966, em
método fenomenológico ontológico desenvolvido nessa que se discutiu o fenômeno de estresse, dizendo: “o tema
obra (Heidegger, 1927/1988, pp. 56-70) e do método de ‘hermenêutica da investigação’ é muito oportuno uma vez
estudo fenomenológico mais habitualmente utilizado no que se move no campo intermediário e não corre peri-
campo psiquiátrico e psicológico, isto é, a descrição dos go de tornar-se muito filosófico” (Heidegger, 1987/2009,
fenômenos humanos concretos e específicos, pois nesse p. 334, itálico do original).
caso o termo fenomenológico é usado em sentido ôntico Vê-se que o filósofo inicialmente utiliza a expres-
e visa apenas à compreensão do “ente que se mostra, res- são hermenêutica da investigação para esclarecer o estresse
pectivamente, assim e assim – isto é que na Medicina é como um fenômeno humano baseado no entendimento do
examinado e tratado” (Heidegger, 1987/2009, p. 262). existir como ser-aí. Ao mesmo tempo, propõe que a com-
Na perspectiva de esclarecer a distinção do método preensão de estresse focalize a maneira como alguém é in-
fenomenológico ontológico de um método fenomenológi- terpelado e assinala que essa interpelação necessariamente
co ôntico, ele sugere que também se considere a dimensão é situada em contextos de referência específicos, em que
hermenêutica da investigação, pois essa acentua que a in- se apresentam como uma totalidade significativa. Desse
vestigação ôntica dos fenômenos humanos deve focalizar modo, destaca que também o estresse pode ser compreen-
a experiência concreta de alguém específico que está si­ dido situado em contextos de significado e sentido, o que
tuada sempre em contextos de significados e sentido rela- permitirá focalizar a compreensão de suas experiências
tivos à totalidade significativa dessa existência. singulares.
Desse modo na pesquisa ôntica destacamos ain-
da que os existenciais decorrentes da compreensão do Considerações finais
existir humano como ser-aí, uma vez que estão referidos
à dimensão ontológica, não devem ser meramente trans- No decorrer deste artigo foram apresentadas de
formados em categorias de análise, pois essa transposi- maneira sucinta as ideias principais de Heidegger sobre o
ção mostra uma falta de discernimento dos dois níveis de entendimento do existir humano como ser-aí em Ser e tem-
análise, ôntico e ontológico, distorcendo a apreensão dos po e as críticas desenvolvidas em Seminários de Zollikon
fenômenos humanos ônticos. sobre o método de ciência natural moderna. Ao focalizar o

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método da ciência natural moderna e desenvolver suas crí- do paciente concreto é compreendida em sua totalidade,
ticas, pôde esclarecer também as diferenças entre esse mé- ou seja, em seu contexto de referência que é circunscrito
todo e de um possível método baseado em sua explicitação pelo contexto histórico-social em que se vive.
do ser humano como ser-aí, que considera mais pertinente Considerando que o existir humano é entendido
ao estudo dos fenômenos humanos. como ser-no-mundo, o foco da compreensão é o modo
Para Heidegger (1987/2009), como já foi indicado de existir no mundo de uma determinada pessoa, isto é,
anteriormente, método não significa procedimento, pois o modo como ela está se relacionando consigo mesma,
é, sobretudo, a maneira com o que o ente é tematizado, com os outros e com o mundo. Assim, a compreensão
afirmando enfaticamente: “os senhores precisam afas- do modo de ser no mundo de alguém ocorre a partir das
tar-se do conceito comumente dado de método enquanto várias maneiras como ele se mostra, se apresenta, se des-
uma simples técnica de pesquisa” (p. 148). vela, se torna presente para o outro.
Os esclarecimentos dele sobre a palavra método Heidegger (1987/2009) afirma também que na pes-
assinalam que se refere ao caminho que leva ao fenôme- quisa ôntica é preciso esclarecer, inicialmente, sobre o que
no e, assim, já faz parte do próprio método uma com- se quer pesquisar, respondendo à pergunta “o que se quer
preensão prévia de seu objeto de estudo. O método da dizer” (p. 177) com esse fenômeno. Lembra ainda que ao
ciência natural moderna contém uma noção subjacente procurar focalizar o assunto que será tratado pode-se en-
de objetividade de seu objeto de estudo, que estabelece os contrar uma pluralidade de significados que corresponda
critérios científicos necessários ao procedimento de sua ao perguntado, não precisando encontrar uma única defini-
pesquisa, como mensurabilidade e previsibilidade. O fi- ção à exigência de uma ciência voltada à mensurabilidade.
lósofo mostra que a noção prévia de seu objeto determina O fundamental é que a forma de pesquisa corresponda a
seu caminho, isto é, seu método de pesquisa, portanto, seu objeto, por exemplo, “um medo ou temor não é um
considera ainda que em cada método há uma ontologia objeto. No máximo posso tematizá-los” (p. 172).
específica, que já estabelece a amplitude e os limites do Assim, percebe-se que o filósofo apresenta indi-
que será estudado. cações para a compreensão do existir do homem, sadio e
Desse modo, a proposição heideggeriana para o mé- patológico, que oferecem um escopo para o entendimento
todo de estudo dos fenômenos humanos, por sua vez, está das várias maneiras de existir concretas, possibilitando, as-
baseada na explicitação do existir humano como ser-aí e sim, diversas formas de atuação profissional, entre elas, a
nos existenciais descritos em sua ontologia, diferindo da psicoterapia. No entanto, considera que o estudo filosófico
ciência natural moderna por não estar comprometida com e teórico do pesquisador e do terapeuta não são suficientes,
sua concepção de objetividade do objeto nem com seus cri- pois, além disso, é preciso também que estes profissionais
térios científicos, estabelecendo, assim, outro caminho de possam experienciar a compreensão do homem como ser-aí
aproximação dos fenômenos humanos. para que efetivamente consigam compreender as experiên-
Heidegger apresenta algumas indicações para um cias singulares e particulares de cada ser humano que se
possível método ôntico de compreensão dos fenômenos hu- apresenta em contextos clínicos ou de pesquisas, afirman-
manos, que denominamos fenomenológico hermenêutico, do que “parece-me necessário como indicação do nosso
quando destaca que este difere de sua explicitação onto- método totalmente diferente, o nome ‘envolver-se especial-
lógica, pois visa à compreensão dos fenômenos humanos mente em nossa relação com o que encontro’, em que já nos
singulares de cada caso específico e não à explicitação das encontramos sempre” (Heidegger, 1987/2009, p. 148).
características ontológicas do ser do ser-aí. Para finalizar, destaca-se mais uma vez a dificul-
Como esse método é fenomenológico deve se ater dade do homem ocidental em se aproximar dos fenômenos
à regra fundamental da interpretação fenomenológica humanos à luz da compreensão de ser homem como ser-aí,
que “exige tornar visível cada fenômeno, especialmen- mesmo para aqueles que estão familiarizados com esse
te em sua singularidade” (Heidegger, 1987/2009, p. 98). pensamento. Segundo ele:
Assim, aponta que na Daseinsanalyse clínica, por exem-
plo, “é decisivo que cada fenômeno concreto que surge Exige-se do pesquisador, justamente isto, o mais
na relação do analisando e analista seja discutido em sua difícil, a passagem do projeto do homem como
pertinência ao paciente concreto em questão a partir de ente vivo dotado de razão para ser homem como
si em seu conteúdo fenomenal” (Heidegger, 1987/2009, Dasein. . . . O “deixar” [Lassen], isto é aceitar
p. 163, itálicos meus), enfatizando que a compreensão do [Zulassen] o ente, assim como ele se mostra, só
paciente tenha como referência o próprio paciente deno- se tornará um deixar-ser apropriado se este ser,
minado “paciente concreto”. Ao mesmo tempo, como este o Dasein, ficar antes e constantemente à vista.
método é também hermenêutico, a experiência singular (Heidegger, 1987/2009, p. 263)

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Heidegger: a study of the human phenomena based on the human existence as Dasein

Abstract: This article aims at clarifying the critical position of the philosopher Martin Heidegger in the book Zollikon Seminars,
concerning the conveyance of the Natural Science Method to the study of the human phenomena and present its proposition
of a more relevant study of the human existence. The author proposes indications of a method based on the comprehension of
the human existence described in the book Being and Time such as spatiality, temporality, being-as-the-other and corporality.
At the same time the author points out that the human phenomena should not be taken and limited to the to the ontological
descriptions of the existentials since the method aims at clarifying specific and peculiar experiences of each human being.

Keywords: Heidegger, natural science, human science, Dasein, being-in-the-world.

Heidegger: l’étude des phénomènes humains basés sur l’existence humaine en tant qu’ “être-là” (Dasein)

Résumé: Le présent article vise à élucider la position critique du philosophe Martin Heidegger, présente dans le livre Séminaires
de Zollikon (titre de la traduction française: Séminaires de Zurich), par rapport à la transposition de la Méthode de la Science
Naturelle dans l’étude des phénomènes humains, et exposer sa proposition d’une méthode plus pertinente à l’étude de
l’existence humaine. L’auteur propose indications d’une méthode basée sur la compréhension de l’existence humain comme
« être-là » (Dasein) et comme « être-dans-le-monde »; est basée aussi sur les existentiaux décrits dans l’oeuvre Être et Temps, tels
que la spatialité, la temporalité, l’être-avec-autrui et la corporalité. En même temps, le philosophe souligne que les phénomènes
humains ne devraient pas être soumis et circonscrits aux descriptions ontologiques des existantiaux, lorsque la méthode vise à
developper des expériences spécifiques et singulières de chaque être humain. 

Mots-clés: Heidegger, science naturelle, science humaine, Dasein, être-là et être-dans-le-monde.

Heidegger: estudio de los fenómenos humanos basados en la existencia humana como (Dasein)

Resumen: Este artículo pretende aclarar la visión crítica del filósofo Martin Heidegger presente en Seminarios de Zollikon,
relacionado a la transposición del método de la ciencia natural moderna al estudio de los fenómenos humanos, y introducir
su propuesta de un método más pertinente al estudio de la existencia humana. Este autor propone un método basado en la
comprensión del existir humano como “Dasein” y “ser-en-el-mundo”, y también en los existenciales descritos en Ser y tiempo,
tales como espacialidad, temporalidad, ser-con-el-otro y corporeidad. Además, enfatiza que los fenómenos humanos no
deberían someterse y circunscribirse a las descripciones ontológicas de los existenciales, cuando el método tiene por objetivo
la clarificación de las experiencias específicas y singulares de cada ser humano.

Palabras clave: Heidegger, ciencia natural, ciencia humana, Dasein, ser-en-el-mundo.

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Aceito: 24/10/2014

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