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BENZIMENTOS Varias doenças

Se as simpatias podem ser executadas por qualquer pessoa que delas tenha necessidade, a realização dum benzimento exige a presença
ou a intervenção de uma pessoa conhecedora da matéria.

Há benzedores para todos os males e doenças. Alguns se especializam só em doenças de animais ou plantas e há os que se dedicam só à
cura de um único tipo de mal. Assim, na zona rural e mesmo em alguns bairros citadinos encontramos os que curam torceduras e
eczemas; dor-de-barriga e quebranto de criança; só reumatismo; broca e empazinamento de cavalo; vacas cocoteiras e lambevu de
cachorro, etc., etc.

Agradecemos, aos benzedores e macumbeiros que com o risco de perder suas "forças", nos ensinaram alguns benzimentos.

Benzimento da bicheira:

"Te benzo bicheira, com o nome de Deus e de Nossa Senhora. Assim como o serviço de domingo ou de dia santo não vai pra frente, esta
bicheira pra frente não há de ir." – Fazer uma cruz, rezando três padres-nossos e três ave-marias. – Chama-se o animal pelo nome e diz-
se no seu ouvido: "Dizem que você está com sete bichos, é mentira, você só tem seis, é mentira, você só tem cinco", etc. até dizer que
não há bicho algum.

Benzimento de lombriga:

"Santos Reis tinha dozes filhos, de doze morreu um ficaram onze, de onze morreu um ficaram dez, de dez morreu um ficaram nove, de
nove morreu um ficaram oito, de oito morreu um ficaram sete, de sete morreu um ficaram seis, de seis morreu um ficaram cinco, de
cinco morreu um ficaram quatro, de quatro morreu um e ficaram três, de três morreu um ficaram dois, de dois morreu um ficaram um e
esse um se arrebentou graças a Deus". Rezar três padre-nossos e três ave-marias.

Benzimento de íngua:

O benzedor manda que se coloque a mão do braço que está doente sobre um monte de cinza e, simulando dar golpes com uma faca,
pergunta ao paciente: - "O que é que eu corto?" – "Íngua", deve responder o doente. "É isso mesmo que eu corto", retruca o curandeiro,
e corta pelo meio o monte de cinza sobre o qual ficou a marca da mão. Reza um padre-nosso, um credo e repete o tratamento três dias
seguidos.

Benzimento para endemoniados:

O curandeiro deve ir escondido detrás do doente e, sem que este perceba, rezar mentalmente: "São Marco que te marque, São Brando
que te abrande e São Amâncio que te amanse". Faz o sinal da cruz três vezes sobre as costas do doente e termina a oração: "Jesus
Cristo que te amarre e abençoe."

Benzimento de cobreiro:

Munido de três raminhos de arruda e um pouco de toicinho sem sal, o curandeiro benze o cobreiro, dizendo: - "Ele arando e lavrando
esta. A meu par o levei no monte de Gomel com raminhos de sarmiento e unto sem sal. E que te seques, que te seques, que te seques e
que não voltes mais".

Benzimento da impigem:

O benzedor, pela manhã, em jejum, procura o doente. Passa-lhe saliva e cinza sobre a impigem, desenhando cruzes e diz:

"Empige rabiche
a Senhora Santana
te manda secar
com cuspe da boca
e cinza do lar".

Repete-se o benzimento três manhãs seguidas.

Benzimento de semioto (doença de macaco):

O benzedor, por três madrugadas, faz que levem a criança doente para um gramado orvalhado. Deita a criança no chão e com uma faca
recorta a sua figura ou forma na terra. Em seguida, retirando a criança, com uma enxada revira no próprio lugar a terra recortada,
dizendo: "Que a doença fique do lado de lá, que Deus e a saúde conosco fica do lado de cá". Repete essas palavras três vezes e reza um
credo. Dá-se leite de égua à criança.

Benzimento de dor-de-cabeça:

Coloca-se o doente assentado numa cadeira, na frente duma porta aberta para o terreiro e, com três raminhos de arruda ou de alecrim
molhado numa tijela d'água, benze-se em cruz a sua cabeça, começando pelo cocoruto e terminando no queixo. Recita-se um credo.
Assim que o benzedor começar a bocejar, sinal evidente de que a dor saiu do doente e passou para o seu próprio corpo, realiza-se a
parte final da cruz. Com um machado, o benzedor traça cruzes nos batentes das portas da casa, murmurando: "Corto, tiro e mando
embora", por três vezes, ao que o doente responde: "a dor-de-cabeça".

Benzimento de quebranto:
Durante três dias a fio o curandeiro reza três vezes o credo, fazendo o sinal da cruz sobre a criança. Quando começa a bocejar diz estas
palavras: "Deus te fez, Deus te criou, Deus te tire o mal que no corpo entrou".

Todos são mais ou menos secretos e o benzedor esforça-se por não os revelar. No entanto, podem ser transmitidos em ocasiões
excepcionais e permitidos pela crença tradicional. São quatro as ocasiões em que o benzimento pode ser ensinado, sem que isso redunde
em perdas de "forças" para quem os ensina: 1) Quando o benzedor percebe que vai morrer; 2) Na véspera de Natal; 3) Na noite de
Sexta-Feira Maior; 4) No dia de Todos os Santos.

Contra as doenças "incuráveis" a que chamam doenças do "mal", cujos os nomes são "secos", isto é, malditos (morféia, tuberculose e
câncer) e impronunciáveis, não nos foi possível conhecer nenhum benzimento.