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DESAFIOS DA EFETIVAÇÃO DOS OBJETIVOS CONSTITUCIONAIS -

A ÉTICA EMPRESARIAL E O ABUSO DO PODER DE DIREITO FRENTE A


EXCEÇÃO PREVISTA NO ART. 62,II DA CLT1

ROBERT CARLON DE CARVALHO2

SAMIRA ZEINEDIN CHWEIH3

ORIENTADORA: Prof.ª Dr.ª VIVIANE COÊLHO DE SÉLLOS KNOERR4

RESUMO: Este trabalho trata do estudo da ausência do controle de jornada para os


profissionais que exercem de cargos de gestão, sua forma de aplicação na relação
de emprego, bem como do instituto do abuso do poder de direito trazido pelo código
civil de 2002, ambos frente ao princípio constitucional da dignidade da pessoa
humana.

Palavras-chaves: cargo de gestão, abuso, dignidade da pessoa humana, direito


constitucional, direito do trabalho, sociedade.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS:

O mundo vivencia um período de transação global, complexo e indefinido.


Observa-se, cada vez com mais frequência o surgimento de sociedades
semiperiféricas e periféricas com um modelo de desenvolvimento social caótico,
cujas trocas e diferenças sociais são desiguais e excludentes.

A globalização influenciou uma nova forma de organização institucional,


transacional que, por si só, conduz às desigualdades existentes em todo o mundo.

As noções de direitos sociais, bem como as realidades sociais, políticas,


econômicas e culturais atravessam profundas transformações.

O mundo tem se tornado cada vez mais capitalista, e egoísta, com foco
exclusivamente na acumulação de capital, deixando de lado os valores éticos,
sociais, e a família, base essenciais e fundamentais da sociedade, e,
consequentemente, do próprio mundo capitalista globalizado.

A medida em que se avolumam os sinais de transformação e de crise


econômica, florescem propostas políticas, e, práticas organizacionais, não

1
Projeto de Pesquisa a ser apresentado na disciplina de Ética Empresarial do Mestrado em Direito Empresarial e
Cidadania do Centro Universitário Curitiba – UNICURITIBA.
2
Especialista em Direito e Processo do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná no ano de
2010. Mestrando em Direito Empresarial e Cidadania pelo Centro Universitário de Curitiba (UNICURITIBA).
Consultor e Advogado em Curitiba/Pr. E-mail: robert@decarvalhoadvogados.com.br
3
Especialista em Direito Civil e processo Civil pela Univel - União Educacional de Cascavel. Mestranda em
Direito Empresarial e Cidadania pelo Centro Universitário de Curitiba (UNICURITIBA). Consultora e
Advogada em Foz do Iguaçu/Pr. E-mail: samiraadv@superig.com.br
4
Advogada, Professora, Doutora e Coordenadora do Mestrado em Direito Empresarial e Cidadania do Centro
Universitário Curitiba – UNICURITIBA. E-mail: coordenacao@unicuritiba.com.br
necessariamente ilegais, que prejudicam à efetivação dos direitos sociais e
fundamentais.

Propõe-se, pois, avaliar teses e hipóteses que habitualmente são


apresentadas acerca do tema proposto, e, realizar uma reflexão sócio-jurídica,
preocupada com uma política progressista e emancipatória para tentar fazer face à
degradação atual da sociedade. Para tanto, avaliar-se-á a normativa do artigo 62, II
da CLT frente ao abuso do poder de direito do empregado ao determinar o exercício
de atividades em jornadas de semiescravidão e os reflexos causados por este abuso
à efetivação eficaz dos dispositivos constitucionais de direitos sociais e à dignidade
da pessoa humana.

METODOLOGIA: Para a realização da pesquisa será utilizado o método teórico-


bibliográfico.

ANALISE E DISCUSSÃO:

Faz-se cada vez mais notório que a sociedade vem construindo e


reproduzindo uma classe de abandonados e desclassificados sem qualquer chance
de participação na competição social em qualquer esfera da vida. Esse sentido
parece ser construído, em parte, na reprodução de famílias desestruturadas, fruto do
abandono político social da família.

É certo que o fenômeno da globalização transformou-se na Nova Ordem


Mundial, afastou as famílias, e desestruturou a sociedade.

O constante aumento no uso de drogas e bebidas alcóolicas, jovens de classe


média e alta ateando fogo em índios e mendigos, agressões homofóbicas e racistas,
são alguns dos reflexos do afastamento das famílias causado pelo labor em
jornadas excessivas, e, consequentemente pelo afastamento dos familiares em
detrimento à efetivação de seus direitos sociais.

A Globalização é um fenômeno que alterou as relações entre Estado-nação, e


provocou alterações na sociedade moderna. Profundas mudanças ocorreram a partir
da introdução do modelo de globalização. O capitalismo não tem permanecido igual
a si mesmo ao longo do tempo, exigindo cada vez mais de seus empregados e
colaboradores. Há uma evolução e crises de períodos fundamentais.

O crescimento da economia e o maior bem-estar da sociedade assentam no


livre empreendimento privado, na auto-determinação individual, na procura da maior
vantagem, na defesa do interesse pessoal. É do livre desenvolvimento das
faculdades pessoais, movidas pelo interesse (lucro), por parte de todos e de cada
um dos membros da sociedade, que tem resultado a máxima vantagem do conjunto
da sociedade.

Por outro lado, esta concorrência num mercado aberto e sem restrições,
garante o menor custo social possível e, ainda, impede ou permite regular as
eventuais distorções da vida.
A incapacidade do sistema para responder por si às perturbações do aparelho
econômico provocadas por crises cada vez mais agudas, de absorver os conflitos
sociais que se radicalizavam até ao ponto de rotura, de responder às novas
exigências do progresso técnico, tudo isso obriga o estado a procurar disciplinar a
economia e as condutas organizacionais no seu conjunto.

Necessário, novamente, a intervenção do Estado por meio da prática de


assistência às massas operárias, como em Bismarck na década de 80 e as medidas
anti-truste na década de 90, a fim de regular e equilibrar as mais flagrantes
distorções do aparelho econômico.

É certa a constitucionalidade e a licitude das práticas do empregador ao


deixar de controlar a jornada dos empregados que exercem cargo de gestão. Sim. A
exceção é lícita e constitucional. Porém, perde sua licitude quando realizada de
modo abusivo, eis que afronta os princípios e direitos constitucionais da dignidade
da pessoa humana e dos direitos sociais.

É latente os prejuízos que tais práticas causa à sociedade como um todo.

Por força da lógica da acumulação capitalista e por exigências do


desenvolvimento das forças produtivas e nomeadamente da técnica, a concentração
e a centralização do capital prossegue a ritmo cada vez mais acelerado e
exploratório.

A concorrência deixa cada vez mais de ser efetuada sobre os preços no


mercado, para se passar progressivamente para outros domínios (acesso a
mercados, encomendas do governo, meios de financiamento, etc.).

Assim, neste estado de coisas, nenhuma mão invisível poderia ressurgir para
lançar ordem no processo econômico e social. Reconhecida definitivamente a
incapacidade da economia para se regular a si mesma, em absorver ou neutralizar
os conflitos que a dilaceram, em corresponder às exigências que lhe são feitas por
uma sociedade que reclama o aproveitamento integral das suas potencialidades.

A ascensão do capitalismo, após o colapso do socialismo, como mecanismo


de regulação e regulamentação das forças econômicas internacionais, deu origem à
atual conjuntura econômica mundial, configurando-se como paradoxal frente ao
progresso declarado e vivido nas décadas seguintes ao pós-guerra, onde os capitais
se acumularam seguidos de rápida prosperidade. Onde quer figure a chamada
economia de mercado são observadas taxas de desenvolvimento decrescentes e
níveis de desemprego nunca vistos5.

Após a Grande Depressão e até os anos 70, o capitalismo viveu seus


denominados anos dourados, anos de desenvolvimento econômico, de regulação
dos mercados, de diminuição das desigualdades. No entanto, este ciclo foi

5
SILVA, Leonardo Rabelo de Matos Silva. A crise no contexto da globalização e seus efeitos nos direitos
sociais e humanos. P.3
interrompido com a crise dos anos 70, levando ao fim do sistema de Bretton Woods,
gerando uma nova fase: a fase neoliberal da financeirização.6

Assim ocorreu a liberalização dos mercados financeiros, que desta forma


deixaram a porta aberta para os especuladores, para a criação de mecanismos
novos de investimentos, surgindo um capitalismo baseado na financeirização.

Neste contexto o que se presenciou foi um forte aumento da riqueza fictícia,


daquela que cada vez mais não corresponde à realidade da riqueza real, e uma
enorme degradação da sociedade como um todo.

CONCLUSÃO:

A Constituição Federal de 1988 elenca em seu texto os direitos fundamentais


e, dentre eles, os direitos sociais expressos no artigo 6º da CF/88: são direitos
sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social,
a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desempregados.

Também, o artigo 170 da CF/88 aduz que a ordem econômica, fundada na


valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos
existência digna, conforme os ditames da justiça social.

Dessa maneira, é preocupante o distanciamento dos preceitos fundamentais


constitucionais, das políticas adotadas pelo Estado pela influência da globalização
sobre os direitos de ordem econômica social, principalmente nos países marcados
pela desigualdade como o Brasil.

O impacto da globalização está se fazendo sentir de forma cada vez mais


forte e difusa. A sua recepção inicial foi marcada pelo entusiasmo otimista, mas com
o ocorrer do tempo este foi sendo substituído pelo temor e pelo desencanto. O
mundo globalizado tornou-se mais aberto e receptivo, mas, além das novidades
consumíveis, o exterior está nos mandando quebra de empresas, corte de postos de
trabalho e crises financeiras.

Diante desses fatores, põe-se o Direito de forma quase “ineficaz”, ainda mais
no tocante aos direitos sociais dispostos na CF/88, uma vez que atualmente
preocupa-se muito com a legalidade, com o cumprimento da ordem e da lei, mas
não garante a eficácia do direito à dignidade humana, do direito ao lazer, ao
trabalho. É crescente a gama de excluídos sociais que se formam todos os dias por
conta dos avanços tecnológicos, da alta competitividade do mercado, das
disposições governamentais somente acerca da conquista e manutenção do poder e
principalmente, em razão do abandono familiar.

O exercício prático acerca do tema proposto, reside muito na capacidade de


conscientização e sensibilização da sociedade como um todo. Tarefa árdua. Assim,
enquanto esta questão permanecer aberta, a efetivação dos objetivos
constitucionais não terá sido resolvida.

6
BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. A crise financeira global e depois: um novo capitalismo? Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002010000100003&lang=pt>. Acesso em 24
nov. 2012. p.54.
BIBLIOGRAFIA

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Paulo: Ltr, 2003.
BARROS, Alice Monteiro de. Curso de Direito do Trabalho. 6. ed. São Paulo: Ltr,
2010.
CARRION, Valentin. Comentários à Consolidação das Leis do Trabalho. 35. ed.
São Paulo: Saraiva, 2010.
DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de Direito do Trabalho. São Paulo: LTr,
2008.
DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. 8. ed. São Paulo: Saraiva,
1994.
GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade Civil. 9. ed. São Paulo: Saraiva,
2005.
IHERING, Rudolf Von. A luta pelo direito. Rio de Janeiro: Forense, 1992, p. 1.
JORGE NETO, Francisco Ferreira, e, CAVALCANTE, Jouberto de Quadros Pessoa.
Direito do Trabalho. 5. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010
MARTINS, Sergio Pinto. Direito do Trabalho. 26. ed. São Paulo: Atlas S.A., 2010.
MAURUS, John. Cultive sua auto-imagem. São Paulo. Paulinas 1989.
NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho. 25. ed. São Paulo:
Saraiva, 2010.
SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos
Fundamentais. 9ª ed. Porto Alegre - RS: Do Advogado editora, 2012
SEN, Amartya. A ideia de justiça. 1ª ed. São Paulo - SP: Companhia das Letras
editora, 2012.
VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: parte geral. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2003.

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