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Sociologia Clínica e Administração: Possibilidades e Aproximações.

Autoria: Fernando Gastal de Castro, Ludmila de Vasconcelos Machado Guimarães, Valéria Quiroga Vinhas

Propósito Central do Trabalho:


Os estudos no campo da gestão orientam-se para o entendimento e melhora da performance
produtiva e dos negócios, visando recomendações, restruturações e soluções de problemas
pontuais que melhorem a eficácia organizacional. Estamos, neste caso, tratando de área da
gestão enquanto ciências aplicadas. Por outro lado, podemos abordar as ciências da gestão no
nível das pesquisas básicas, que por seu turno têm como maior preocupação o
desenvolvimento de fundamentos teóricos e o avanço de longo prazo das disciplinas de
gestão. Este artigo ocupa-se fundamentalmente com este segundo nível da pesquisa científica.
Frequentemente considera-se as ciências de gestão como predominantemente quantitativas e
baseadas em uma postura positivista de observação da realidade social (Gaulejac, 2005). Para
os defensores e adeptos desta postura, incentivar um diálogo de diferentes disciplinas e adotar
uma aproximação clínica para compreender os fenômenos sociais pode parecer uma
incongruência. Entretanto, o que se pretende com o presente trabalho é mostrar que, uma vez
que a ciência da gestão e a sociologia clínica (Gaulejac, 1987) têm em comum o estudo das
organizações, não se pode dizer que ambas encontram-se em lados opostos. No entanto, a
Sociologia Clinica relaciona-se com o campo das ciências da gestão de uma forma crítica,
buscando reorientar seus fundamentos epistemológicos e suas possibilidades metodológicas.
Segundo o entendimento deste artigo, esta abordagem permite avançar na compreensão da
lógica organizacional atual e de suas contradições, bem como, fornece novas bases para
abordar as relações entre sujeitos e organização.

Marco Teórico:
Nesse ensaio de três pontos fundamentais que permitem ver quais as críticas e contribuições
da Sociologia Clínica relativamente ao campo das ciências da gestão,: (1) a crítica ao modelo
de ciência positivista, (2) as bases epistemológicas da sociologia clínica para compreender o
sujeito e as organizações e (3) algumas possibilidades metodológicas para uma abordagem
clínica no âmbito do campo das ciências da gestão. Inicialmente é importante destacar que
existe uma questão epistemológica no que diz respeito à ciências da gestão caracterizada pelo
predomínio de uma razão analítico-matemática colocada muitas vezes como sinônimo de
rigor científico, bem como um modelo para estudar o homem (Castro, 2010). Tal questão não
se encontra no âmbito metodológico onde poderia ser discutido a validade dos instrumentos
de medida para entender a ação humana no âmbito organizacional, mas muito mais ligada a
um mainstream, ou seja, um predomínio de uma forma de pensamento que nos remete ao
funcionalismo e gerencialismo, baseada nessa razão analítico-matemática, herdeira das
ciências da natureza (Comte, 1907). Como contraponto à hegemonia positivista e
intencionando contribuir para as ciências da gestão com abordagens que acrescentam na busca
do entendimento da constituição da subjetividade, e, ao mesmo tempo destacando a
complexidade desse intento, é importante resgatar de forma breve, as “clínicas do trabalho” já
que estas representam um conjunto de teorias que tem como interesse comum o estudo da
relação entre trabalho e subjetividade. Essa abordagem leva em consideração níveis
“estreitamente correlacionados” (do indivíduo, da interação, da organização, da sociedade e
do mundo) e que, dialeticamente, são dissociáveis e indissociáveis. Como forma de
intervenção, este ensaio apresenta o organidramaidealizado por Gaulejac (1987) como um
dispositivo de trabalho em grupo orientado para explorar ""a ligação entre os conflitos vividos
e as contradições que atravessam as organizações"" (Vandevelde-Rougale, 2011: p. 247). Sua
origem encontra-se no sociodrama (cujo expoente é Jacob L. Moreno), no psicodrama
emocional (a partir de Max Pagès, que por sua vez inspira-se nos trabalhos de Carl Rogers e

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Wilhelm Reich) e no teatro do oprimido (de Augusto Boal). Este dispositivo permite que se
faça uma articulação, a partir de uma dramatização, entre a implicação de cada participante
com o conflito dramatizado e revivido e sua distanciação reflexiva em uma etapa subsequente,
com o objetivo de co-construir hipóteses de interpretação sobre determinados fenômenos. Sua
finalidade é compreensiva e não terapêutica e se baseia na ideia de que a organização
constitui-se num processo de regulação de contradições onde a vivência emocional dos
sujeitos é na verdade um indicador significativo de um processo social em curso.

Resultados e contribuições do trabalho para a área:


Gaulejac e Roy (1993) defendem a interdisciplinaridade, por ser a única abordagem que
permite diminuir a sensação de impotência dos pesquisadores frente a situações reais, em
especial quando se deparam com mudanças aceleradas cujo sentido é de difícil interpretação.
(p.310). A clínica, da sociologia clínica, pode ser vista como de inspiração multidisciplinar
em função da forma de apreensão do objeto de pesquisa. Sua eleição para ajudar a avançar em
algum projeto de pesquisa desta deve resultar desta riqueza, afinal, “os fenômenos de
transmissão, de reprodução, de construção da identidade, são processos complexos de
articular entre os processos sociais e processos psíquicos. São estas articulações que nós
devemos compreender” (Gaulejac e Roy, 1993. p. 318). Chanlat (2005, p. 27) considera que
“o ser humano, acima da diversidade das disciplinas que o estudam, é uno. Ele é único
enquanto espécie. Ele o é igualmente enquanto indivíduo.” Apesar da ciência fragmentar o
saber em diversas partes como a biologia, a psicologia social, a psicanálise, a sociologia (e
outras), o homem aparece como um todo cujos diferentes elementos estão intimamente
ligados. Assim sendo, continua o autor, “todo reducionismo, quer seja de ordem biológica,
psicológica ou sociológica, não tem nenhum sentido”. Contudo, o que se observa é uma
deterioração da condição humana, uma redução do sujeito a recursos em um contexto
econômico em que a empresa é a personificação do sistema capitalista e a rentabilidade se
sobrepõe a qualquer outra instância de análise o que conduz a uma cegueira geral frente ao
sofrimento e adoecimento no trabalho. Ainda que diversos fenômenos como assédio moral,
burnout, entre outros, traduzam-se, frequentemente por sintomas individuais, eles devem ser
vistos também como resultantes das condições de trabalho. Suas fontes não são, ou não se
resumem à dimensão psicológica, mas são inscritas em um modo de funcionamento da
organização (que também reflete o contexto social). A interdisciplinaridade é fundamental
para que as ciências da gestão acessem esse sujeito a partir de um novo olhar. A
epistemologia predominante nesse campo que remete à perspectiva positivista, elimina talvez
qualquer possibilidade de voz desse sujeito já que a razão analítica matemática evoca um
rigor científico que distancia o acesso á subjetividade. Dessa forma, a Sociologia Clínica, se
apresenta como uma tentativa de se reduzir os espaços esquecidos (convenientemente?) pelas
ciências da gestão já que ela coloca um registro diferente da abordagem funcionalista e
gerencialista considerados como o mainstream desse campo. Enquanto a análise
psicossociológica das organizações se apresenta como uma perspectiva consistente que
reconhece a sua própria estranheza e tem consciência das impossibilidades (Freitas, 2007); as
ciências da gestão, muitas vezes, tem ignorado a complexidade das relações para se fixar no
distanciamento objetivo perdendo o olhar mais aprofundado das relações
sujeito/organização/sociedade e, com isso, as possibilidades de articulações mais
aprofundadas próprias de sua origem que é essencialmente interdisciplinar.

Referências bibliográficas:
Bendassolli, P. F.; Soboll, L. A.(2011) Introdução às clínicas do trabalho: aportes teóricos,
pressupostos e aplicações. In: Bendassolli, P. F.; Soboll, L. A . Clínicas do trabalho. São
Paulo: Atlas. ; Gaulejac, V., Hanique, F. e Roche, P. (diréction) (2007) La Sociologie

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Clinique : enjeux théorique et méthodologique. Paris: Érès. ; Gaulejac, V. (1987) La névrose
de classe. Paris: Hommes et groupes éditeurs. ; Bachelard, G. (2002) A formação do espirito
cientifico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. São Paulo: Contraponto. ;
Chanlat J-F. (coord.) (2001). O Indivíduo na organização: dimensões esquecidas, São Paulo,
Atlas.

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