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Ernesto “Che” Guevara e

a Revolução Cubana, por


Rui Costa Pimenta
História Econômica e Social

Just now·32 min read

Um grupo de pesquisadores cubanos e argentinos


confirmou a descoberta da ossada do líder guerrilheiro
Ernesto “Che” Guevara, enterrada em uma vala comum na
cidade boliviana de Vallegrande junto aos restos mortais de
outros seis combatentes da guerrilha, próximo ao local onde
foram capturados e mortos pela CIA e pelas forças de
repressão da ditadura Barrientos na Bolívia. O fato coincidiu
com o aniversário de 30 anos de seu assassinato e tem dado
lugar a um verdadeiro processo de canonização do dirigente
da Revolução Cubana de 1959.

Chama a atenção, embora não surpreenda, a insistência dos


meios de comunicação em destacar a grande popularidade
de “Che” entre a juventude de todo o mundo, não em geral,
mas particularmente o caráter mais despolitizado desta
popularidade. Guevara teria se transformado em mais um
logotipo, sem qualquer significado, para o consumo
transitório de uma juventude ávida de novidades.

A campanha “a favor” do “Che” contrasta tanto com a


situação política atual, onde qualquer manifestação de
insubmissão — particularmente as armadas — são
reprimidas com uma selvageria sem precedentes, como
vimos recentemente no caso dos integrantes do
agrupamento peruano Tupac-Amaru, que foram
literalmente executados pelo governo de Fujimori, como
com o silêncio sobre a participação do imperialismo norte-
americano no seu assassinato a sangue-frio no interior
boliviano depois de ferido, desarmado e capturado pelas
forças de repressão há 30 anos.

O papel de Guevara na história merece ser analisado pela


denúncia que representa o seu sacrifício na luta contra o
imperialismo, o seu combate até certo ponto pela expansão
internacional da revolução e o seu idealismo e
desprendimento dos privilégios e das benesses materiais tão
característicos das burocracias cubana, soviética e dos
demais estados do leste europeu, posições estas tão
contrastantes com as de uma expressiva parcela da esquerda
latino-americana e dos países atrasados, que cada vez mais
transforma-se em pilar de sustentação do imperialismo em
seus países (PT no Brasil, FSLN na Nicarágua etc.). A
canonização de “Che” pela imprensa burguesa procura
colocar um enfeite na guinada pró-imperialista de boa parte
da pequena-burguesia dos países atrasados.

Mais importante que tudo, o papel político do líder


guerrilheiro deve ser avaliado sobretudo com olhar crítico
frente aos seus brutais erros políticos, que contribuíram
para desencaminhar toda uma geração de militantes latino-
americanos que ingressaram no caminho desastroso da
guerrilha nas décadas de 60 e 70.

Cuba e o domínio espanhol

Do ponto de vista prático, a atividade política de Ernesto


“Che” Guevara começa com sua participação no processo
que resultou na Revolução Cubana de 1959, iniciado
efetivamente com a partida do iate Granma do porto de
Tuxpan no México, de onde 82 homens liderados por Fidel
Castro, que formavam o

Movimento 26 de Julho, saíram em direção à Província do


Oriente, no extremo sudeste de Cuba, por onde planejaram
invadir a ilha caribenha e derrubar o ditador Fulgêncio
Batista. Cuba ainda estava submetida ao colonialismo
quando a maioria dos países latino-americanos, no início do
século XIX, já haviam se tornado independentes.

A luta pela independência começou em 1868, quando o


fazendeiro Carlos Céspedes organizou um exército de
libertação que chegou a agrupar dezenas de milhares de
homens sob o comando militar do ex-escravo negro Antonio
Maceo e lutou por um período de 10 anos sem no entanto
conseguir alijar os espanhóis do poder.

Em 1895, José Martí, poeta e nacionalista cubano,


desembarcou na Província do Oriente — a mesma em que
Fidel e seu Movimento 26 de Julho desembarcariam 61 anos
mais tarde — com um punhado de homens para tentar a
independência de Cuba. Morto um mês depois numa
batalha com os espanhóis, Martí tornou-se o herói nacional
do país.

O domínio norte-americano

Já nesta época os Estados Unidos estavam interessados em


estabelecer sua própria zona de influência em Cuba, mais
em função da sua localização geográfica, próxima à costa
norteamericana e portanto uma importante zona estratégica
para a defesa do Canal do Panamá, do que econômica, se
bem as belezas da ilha caribenha oferecessem grandes
possibilidades para a exploração imobiliária e do turismo.
Utilizando como pretexto a explosão de um navio
norteamericano no porto de Havana, os Estados Unidos
acusaram os espanhóis e após uma curta batalha da qual
saíram vitoriosos e declararam a independência de Cuba em
1902, com a retirada de suas tropas e a nomeação de Tomás
Estrada Palma como o primeiro presidente do país.

Contudo esta independência era apenas formal. Através de


uma legislação chamada Emenda Platt, os Estados Unidos
tinham o direito perpétuo de manter bases militares em
Cuba, assim como intervir nos assuntos do país sempre que
considerassem necessário.

Nos 23 anos que se seguiram à independência de Cuba, por


três vezes os norte-americanos enviaram tropas para
reprimir revoltas e assegurar a lealdade cubana aos seus
interesses. Nesse período, durante sete anos o governo de
Cuba foi controlado diretamente por representantes dos
Estados Unidos.

Fulgêncio Batista

De 25 a 33 a presidência esteve nas mãos do general


Gerardo Machado, governo marcado pela corrupção, fraude
eleitoral e por uma profunda repressão e miséria econômica.
Em 1933 uma onda de manifestações e greves varre o país e
derruba Machado, cujo sucessor fica pouco tempo no cargo,
derrubado por um sargento líder de um grupo de oficiais
que se apodera do comando do exército. Seu nome era
Fulgêncio Batista.
Nos sete anos seguintes sucedem-se presidentes civis e
militares, todos controlados por Batista e em 1940 o próprio
Fulgêncio Batista elege-se presidente, sobre a base da
elaboração, no mesmo ano e por ele mesmo, de uma
constituição que nunca viria a ser cumprida. A corrupção, o
servilismo diante dos norte-americanos, o aprofundamento
da miséria das massas cubanas e a repressão aos
trabalhadores continuaram sendo a marca registrada desses
governos.

Os sucessores de Batista, Ramón Grau San Martín e Carlos


Prío Socarrás, ambos do Partido Autêntico, um partido
burguês que agrupava setores conservadores pró-
imperialistas e grupos liberais-burgueses. É deste partido
que vão sair, em 1947, vários integrantes desta última ala
para formar um novo partido, o Partido Ortodoxo, fundado
por Eduardo Chibás e depois integrado por Fidel Castro.

Os governos do Partido Autêntico não resolvem os


problemas mais fundamentais das massas cubanas e com
isso Chibás torna-se um político bastante popular. Em 1951
sua eleição para a presidência da república era dada como
certa quando ele suicida-se.

Mas o fato não impede o crescimento dos ortodoxos que, no


entanto, vêem-se frustrados no início de 1952, quando, a
três semanas da eleição, Fulgêncio Batista, que havia
retornado de Miami, dá um golpe, depõe Carlos Prío
Socarras e implanta uma violenta ditadura militar. O
Partido Ortodoxo capitula e dezessete dias depois os Estados
Unidos reconhecem oficialmente o governo de Batista, cuja
camarilha estava associada a fortes grupos capitalistas
norte-americanos, que haviam convertido Havana em um
centro de investimento imobiliário e turístico. Batista
também contava com o apoio dos latifundiários açucareiros.

A única voz de oposição veio do setor juvenil do Partido


Ortodoxo. Os estudantes liderados por Fidel que vão
organizar “grupos de ação” evoluindo para a luta armada
contra a ditadura, cuja primeira atividade é o fracassado
ataque ao Quartel de Moncada em 26 de julho de 1953.
Preso e condenado a 15 anos de prisão, Fidel é anistiado dois
anos depois. Tenta fazer oposição governo, mas não
encontra respaldo nos partidos de oposição que passam a
colaborar abertamente com o ditador e decide deixar a ilha
indo para o México junto com alguns combatentes de
Moncada. Lá conhece Ernesto “Che” Guevara e organiza o
Movimento 26 de Julho, que quatro anos depois tomaria o
poder em Cuba.

O programa de Fidel

O ambiente universitário na Cuba dos anos 40 era marcado


por uma efervescência e uma radicalização política
extremas, onde dominavam grupos como o Movimento
Revolucionário Socialista e a União Insurrecional
Revolucionária. Fidel ingressou na Universidade de Havana
em 1945 e à partir daí ingressou na política alinhando-se
posteriormente com os setores da burguesia democrática
cubana.

Forma-se advogado em 1950 e filia-se ao Partido Ortodoxo,


uma cisão do partido Autêntico de Grau e Socarrás.

Pouco tempo depois Fidel vai desiludir-se com os ortodoxos


e fundar o Movimento 26 de Julho. Desde o golpe de Batista
em 53 Fidel tenta derrubar o ditador cubano, primeiro
recorrendo aos tribunais de justiça e depois adotando o
caminho da luta armada.

No ataque ao Quartel de Moncada, o único programa da


operação era a queda de Batista e a entrega do governo ao
Partido Ortodoxo. No famoso discurso pronunciado por
ocasião de seu julgamento pela ação de Moncada, Fidel
deixa claro o caráter liberal-burguês de seus objetivos. “No
sumário desta causa constam as cinco leis revolucionárias
que seriam proclamadas imediatamente após tomar o
Quartel de Moncada” (…) “A primeira lei revolucionária
devolveria ao povo a soberania e proclamava a Constituição
de 1940 como a verdadeira lei do Estado”. Ou seja, Fidel não
postulava sequer a reivindicação de uma nova Constituição,
aceitando a de 1940 elaborada pelo próprio Batista. Mas
neste mesmo discurso o líder cubano torna ainda mais
explícitas suas idéias. “É sabido que na Inglaterra, no século
XVIII, foram destronados dois reis, Carlos I e Jaime II, por
atos de despotismo. Estes fatos coincidiram com o
nascimento da filosofia política liberal, essência ideológica
de uma nova classe social que lutava então para romper as
cadeias do feudalismo. Frente às tiranias de direito divino
esta filosofia opôs o princípio do contrato social e o
consentimento dos governados, e serviu de fundamento à
revolução inglesa de 1688 e às revoluções americana e
francesa de 1775 e 1789. Estes grandes acontecimentos
revolucionários abriram o processo de libertação das
colônias espanholas na América, cujo último eslabón foi
Cuba. Nesta filosofia se alimentou nosso pensamento
político e constitucional (…)”.

II. Revolução e contra-revolução

Em 1925 assume a presidência de Cuba o general Gerardo


Machado, formando um governo ligado à oligarquia
latifundiária e totalmente submisso aos americanos. Os EUA
pretendiam desta forma estabelecer uma etapa de maior
estabilidade política após as crises das duas primeiras
décadas do século que se seguiram à “independência” do
país.

No entanto, o crash na Bolsa de Valores de Nova Iorque em


1929 provoca uma profunda depressão econômica no
coração do regime capitalista. Cuba, totalmente atrelada aos
Estados Unidos, sente os efeitos da crise e ingressa
novamente em um período de grande instabilidade. O
governo subserviente de Machado desmorona e abre-se um
vazio político no país.
Em 1930 inicia-se uma onda de manifestações estudantis e
greves de trabalhadores e no dia 8 de agosto de 1931 começa
a revolução proletária com a eclosão de uma verdadeira
guerra civil. O movimento é reprimido violentamente mas a
instabilidade é tamanha que em 1933 uma nova insurreição,
dirigida por setores da burguesia nacionalista sob a
liderança de Antonio Guiteras, importante liderança da
juventude estudantil, ocorre em meio a um aprofundamento
da crise econômica.

O governo de Machado decompõe-se rapidamente, a tal


ponto que é enviado a Cuba um novo embaixador americano
para tentar uma mediação com o apoio do setor mais
conservador da oposição. A sublevação popular faz fracassar
a mediação e uma greve dos transportes transforma-se em
uma greve geral revolucionária. Diante da situação, os EUA
passam a conspirar contra Machado e derrubam-no. Carlos
Manuel de Céspedes y de Quesada é nomeado presidente
como produto de um acordo entre os EUA e a oposição
conservadora cubana. Guiteras repudia o acordo. Um mês
depois Céspedes é derrubado por uma rebelião nas forças
armadas. Um sargento de nome Fulgêncio Batista lidera um
grupo de oficiais, apodera-se do comando do exército e dá
um golpe militar. O movimento teve o apoio de Guiteras.
Batista é designado chefe militar mas não toma o poder,
entregando-o nas mãos de uma coalizão entre a pequena
burguesia nacionalista revolucionária (Guiteras) e a
oposição burguesa direitista, na pessoa de Ramón Grau San
Martín.
Esse governo inclina-se para uma política nacionalista e os
Estados Unidos negam-se a reconhecê-lo, começando a
conspirar contra ele. Para tanto, cooptam Batista e passam a
utilizá-lo com este propósito. Pressionado pelo ex-sargento,
Grau abandona o governo em 1934, o que precipita a queda
de Guiteras, que tenta reagir através de um novo levante
popular mas é assassinado pelo Exército no dia 8 de maio de
1935.

A crise é abafada e abre-se um período de contra-revolução e


sobre a base de uma violenta repressão, de maior
estabilidade, de distensão política. A questão, no entanto,
não estava resolvida e a situação política voltará a esquentar
poucos anos mais tarde. A contra-revolução, como tantas
vezes ocorreu na América Latina dará lugar a um
parlamentarismo dominado pelas oligarquias e pelo
imperialismo. O árbitro fundamental do novo regime saído
da contra-revolução são as Forças Armadas e, dentro delas,
Fulgêncio Batista.

Em 1940 o próprio Fulgêncio Batista elege-se presidente,


sobre a base da elaboração, no mesmo ano e por ele mesmo,
de uma constituição demagógica que nunca viria a ser
cumprida.

Autênticos e Ortodoxos

Os sucessores de Batista, Ramón Grau San Martín e Carlos


Prío Socarrás, ambos do Partido Autêntico, um partido
burguês que agrupava setores conservadores pró-
imperialistas e grupos liberal-burgueses, representavam a
incorporação da oposição ao regime político articulada pelo
governo fantoche de Batista.

Em 1947 uma ala da oposição racha para formar um novo


partido, o Partido Ortodoxo, fundado por Eduardo Chibás,
que já não procurava apresentar uma plataforma claramente
nacionalista, substituindo-a por colocações democráticas e
de fundo moral para fazer frente à gigantesca corrupção dos
governos a qual era apenas o aspecto mais secundário de
uma política totalmente submissa ao imperialismo
americano. O Partido fora depois integrado por Fidel Castro,
quando jovem estudante universitário. A nova oposição,
pelas suas colocações políticas, é obviamente uma expressão
do profundo retrocesso ideológico e político das tendências
revolucionárias que dominaram a cena política nos anos 30,
resultado da vitória da contra-revolução.

Os governos do Partido Autêntico, porém, não resolvem os


problemas mais elementares das massas cubanas,
mergulhando em uma profunda corrupção, e com isso
Chibás torna-se um político bastante popular. Em 1951 sua
eleição para a presidência da república era dada como certa
quando ele suicida-se em meio a um discurso transmitido
pelo rádio.

Novamente Batista

O suicídio de Chibás precipita uma nova onda de


manifestações e de intensa agitação política. Os ortodoxos
continuam crescendo mas vêem-se frustrados no início de
1952, quando, a três semanas da eleição, Fulgêncio Batista,
que havia retornado de Miami, dá um golpe, depõe Carlos
Prío Socarrás e implanta uma violenta ditadura militar. Era
o fim do papel político exercido pela burguesia democrática
na contenção das massas, que aceita a situação e segue para
um confortável exílio em Miami.

O Partido Ortodoxo fica paralisado diante do golpe,


posteriormente dividindo-se em várias frações. A única voz
de oposição veio do setor juvenil do partido. Os estudantes
da Universidade de Havana, liderados pelo jovem estudante
de direito Fidel Castro Ruiz vão organizar “grupos de ação” e
realizar inúmeras manifestações, evoluindo depois para a
luta armada contra a ditadura, cuja primeira culminação é o
fracassado ataque ao Quartel de Moncada em 26 de julho de
1953. Preso e condenado a 15 anos de prisão, Fidel é
anistiado dois anos depois. Tenta fazer oposição ao governo,
mas não encontrando respaldo nos partidos de oposição que
passam a colaborar abertamente com o ditador, decide
deixar a ilha indo para o México para organizar do
estrangeiro um movimento armado para derrubar a
ditadura. Lá conhece Ernesto “Che” Guevara e organiza o
Movimento 26 de Julho, que quatro anos depois derrubaria
Fulgêncio Batista.

“Che”: Bolívia, Guatemala, México e Cuba

Ernesto Guevara de La Serna, o “Che”, nasceu no dia 14 de


junho de 1928 em Rosário, Argentina, em uma família de
classe média. Seus pais, Ernesto Guevara Lynch e Célia de
La Serna, tiveram alguma participação política em
acontecimentos importantes, como a guerra civil espanhola
nos anos 30, a segunda guerra mundial e a oposição ao
governo de Juan Perón na Argentina, sempre em torno de
posições políticas tradicionais da pequena burguesia
argentina.

Em 1944, a família muda-se para de Córdoba para Buenos


Aires, quando Ernesto, então com 16 anos, já havia se
decidido a estudar medicina. Já com 21 anos, Guevara não
tinha ainda nenhum tipo de compromisso político,
preferindo a vida de viagens e aventuras de um jovem
despreocupado com a vida. É com esse espírito que, em
1949, resolve fazer uma longa viagem de moto em
companhia de um amigo para conhecer vários países da
América Latina. Passa pelo Chile, Peru, Colômbia e
Venezuela, onde conhece a miséria dos camponeses e da
população pobre desses países, todos com a mesma
característica de Cuba, o país que mais tarde viria a
revolucionar: o controle despótico de países imperialistas
que lhes impunham um selvagem atraso econômico e
cultural.

Voltando a Buenos Aires, depois de uma rápida passada por


Miami, Guevara retoma o curso universitário e em 1953
forma-se em medicina. Então com 25 anos, “Che” prefere
não exercer imediatamente a profissão, decidindo viajar
novamente com outro amigo, desta vez para a Bolívia. Em
julho do mesmo ano, momento em que seu futuro
companheiro, Fidel Castro, atacava sem sucesso o Quartel
de Moncada em Cuba, seu batismo de fogo na luta armada
contra Batista.

Na capital boliviana de La Paz, “Che” Guevara encontra a


revolução proletária de 1952, onde as massas operária
haviam destruído as Forças Armadas e criado as milícias
operárias e camponesas, estatizado as minas e proposto o
controle operário da principal indústria do país. Estes
acontecimentos decisivos da revolução latino-ameicana,
porém, não causam uma profunda impressão no futuro líder
guerrilheiro. Durante a estada na Bolívia, fez amizade com o
advogado exilado argentino Roberto

Rojo, que o convence a desistir dos seus planos de ir à


Venezuela para acompanhá-lo até a Guatemala. Neste
pequeno país da América Central, o governo estava nas
mãos do coronel Jacobo Arbenz Guzmán desde 1950, um
governo nacionalista com o qual a classe dominante local e
os norte-americanos não estavam dispostos a conviver em
função do receio de ter seus interesses econômicos
prejudicados.

No caminho, “Che” passa pela Costa Rica, onde encontra-se


com exilados cubanos, vários do quais remanescentes de
Moncada, que lhe garantem voltar a Cuba para derrubar
Fulgêncio Batista.
Segundo Rojos, que escreveria uma pequena biografia do
“Che”, nenhum dos dois os levaram à sério.

Já na Guatemala, Guevara conhece a peruana Hilda Gadea


Costa, com quem se casaria mais tarde, e Nico Lopez, um
dos líderes da revolta de 1953 em Cuba, que no futuro o
apresentaria a Raúl Castro, irmão de Fidel.

O país vivia um período de grande efervescência política. A


poderosa United Fruit, por exemplo, empresa norte-
americana que explorava o plantio e a exportação de frutas
tropicais em diversos países da América Central, já havia
perdido 91 mil hectares de terra. O governo norte-americano
conspirava abertamente contra o governo guatemalteco.

Sob as ordens do presidente Dwight Eisenhower, a CIA — o


serviço secreto dos Estados Unidos — armou um pequeno
exército de mercenários e “exilados” que no dia 18 de junho
de 1954 invadiu a Guatemala. Guevara, que vinha
simpatizando com as reformas sociais do governo, decidiu
aderir à resistência ao golpe. No entanto, uma semana
depois Arbenz capitulara à investida e estava deposto e
substituído por uma ditadura militar.

A facilidade com que os norte-americanos derrubaram o


governo impressionou muito “Che”. “A última democracia
revolucionária da América caiu como resultado da fria e
premeditada agressão conduzida pelos EUA (…) Isto foi
visivelmente encabeçado pelo secretário de Estado Dulles,
um homem que, não por coincidência, é também acionista e
advogado da United Fruit Company”, escreveu. Segundo sua
esposa, “foi a Guatemala que o convenceu da necessidade da
luta armada, de tomar iniciativa contra o imperialismo”.

Por sua participação na resistência ao golpe, “Che” estava


correndo sérios riscos ficando na Guatemala. Decidiu então
ir para o México, onde se aglomeraram os simpatizantes do
governo deposto, e, após um período trabalhando como
fotógrafo de rua, conseguiu emprego no Hospital geral da
Cidade do México e como professor na Universidade
Autônoma do México.

Certo dia, no hospital, encontra com Ñico Lopez, que havia


conhecido na Guatemala e que o apresenta Raúl Castro,
irmão de Fidel. Guevara e Raúl tornam-se amigos e este
último, em julho de 1955, o leva a conhecer o irmão, Fidel
Castro.

Assim “Che” descreve o primeiro encontro com o futuro


principal líder da revolução cubana: “eu o encontrei em uma
dessas noites frias da Cidade do México e lembro que nossa
primeira discussão foi sobre política internacional. Algumas
horas mais tarde — na madrugada — eu era um dos futuros
expedicionários. Depois das minhas experiências de viagem
por toda a América Latina e depois da Guatemala, seria
preciso muito pouco para me convencer a me juntar a
qualquer revolução contra a tirania. Mas Fidel provocou
uma grande impressão em mim. Ele estava absolutamente
certo de que nós iríamos a Cuba, que chegaríamos lá; que,
uma vez lá, nós lutaríamos; e que, lutando, venceríamos.
Seu otimismo era contagiante. Nós tínhamos que agir, lutar
para consolidar nossa posição. Parar de cogitar e começar a
luta real. E para provar ao povo cubano que podia confiar
em sua palavra, fez seu famoso discurso: ’Em 1956, nós
seremos livres ou mártires’, anunciando que, antes do fim
do ano, ele desembarcaria em algum lugar de Cuba no
comando de uma força expedicionária”.

Do México à Sierra Maestra

Com seu amigo Ricardo Rojo, “Che” acompanhava atento o


panorama político da Guatemala. O país vivia um período de
grande efervescência política. O presidente nacionalista
Arbenz Guzmán levava adiante uma reforma agrária que se
defrontava com a oposição dos EUA. A poderosa United
Fruit, por exemplo, empresa norte-americana que explorava
o plantio e a exportação de frutas tropicais em diversos
países da América Central, já havia perdido 91 mil hectares
de terra.

Sob as ordens do presidente Dwight Eisenhower, a CIA — o


serviço secreto dos Estados Unidos — armou um pequeno
exército de mercenários e exilados guatemaltecos que no dia
18 de junho de 1954 invadiu a Guatemala. “Che” Guevara,
que vinha simpatizando com as reformas sociais do governo,
decidiu aderir à resistência ao golpe. No entanto, uma
semana depois Arbenz estava deposto e substituído por uma
ditadura militar.
A facilidade com que os norte-americanos derrubaram o
governo impressionou muito “Che”. “A última democracia
revolucionária da América caiu como resultado da fria e
premeditada agressão conduzida pelos EUA (…) Isto foi
visivelmente encabeçado pelo secretário de Estado Dulles,
um homem que, não por coincidência, é também acionista e
advogado da United Fruit Company”, escreveu. Segundo sua
esposa, “foi a Guatemala que o convenceu da necessidade da
luta armada, de tomar iniciativa contra o imperialismo”.

Por sua participação na resistência ao golpe, “Che” estava


correndo sérios riscos ficando na Guatemala. Decidiu então
ir para o México, onde, após um período trabalhando como
fotógrafo de rua, conseguiu emprego no Hospital Geral da
Cidade do México e como professor na Universidade
Autônoma do México.

Certo dia, no hospital, encontra com Nico Lopez, que havia


conhecido na Guatemala e que o apresenta Raúl Castro.
Guevara e Raúl tornam-se amigos e este último, em julho de
1955, o leva a conhecer o irmão, Fidel Castro.

Assim “Che” descreve o primeiro encontro com o futuro


principal líder da revolução cubana: “eu o encontrei em uma
dessas noites frias da Cidade do México e lembro que nossa
primeira discussão foi sobre política internacional. Algumas
horas mais tarde — na madrugada — eu era um dos futuros
expedicionários. Depois das minhas experiências de viagem
por toda a América Latina e depois da Guatemala, seria
preciso muito pouco para me convencer a me juntar a
qualquer revolução contra a tirania. Mas Fidel provocou
uma grande impressão em mim. Ele estava absolutamente
certo de que nós iríamos a Cuba, que chegaríamos lá; que,
uma vez lá, nós lutaríamos; e que, lutando, venceríamos.
Seu otimismo era contagiante. Nós tínhamos que agir, lutar
para consolidar nossa posição. Parar de cogitar e começar a
luta real. E para provar ao povo cubano que podia confiar
em sua palavra, fez seu famoso discurso: ’Em 1956, nós
seremos livres ou mártires’, anunciando que, antes do fim
do ano, ele desembarcaria em algum lugar de Cuba no
comando de uma força expedicionária”.

O primeiro programa de Fidel

A contra-revolução organizada pelos Estados Unidos e


conduzida por Fulgêncio Batista após 1935 vai propiciar um
período de maior estabilidade política, mas não por muito
tempo. Os governos dos sucessores de Batista (1940), Grau
San Martín (1944) e Prío Socarrás (1948), ambos do Partido
Autêntico, representavam a incorporação da oposição
burguesa ao regime e a continuidade da corrupção e da
submissão cubana aos interesses norte-americanos.

O ambiente universitário na Cuba da segunda metade dos


anos 40 era marcado por uma grande radicalização política,
onde dominavam grupos como o Movimento Revolucionário
Socialista e a União Insurrecional Revolucionária. Fidel
ingressou na Universidade de Havana em 1945 e à partir daí
ingressou na política alinhando-se posteriormente com os
setores da burguesia democrática cubana.

Forma-se advogado em 1950 e filia-se ao Partido Ortodoxo,


fundado em 1947 à partir de uma cisão do partido Autêntico
de Grau e Socarrás.

Pouco tempo depois Fidel vai desiludir-se com os ortodoxos


e fundar o Movimento 26 de Julho. Desde o golpe de Batista
em 52 Fidel promovia ações para tentar derrubar o ditador
cubano, recorrendo aos tribunais de justiça e realizando
manifestações estudantis. Sem obter grandes resultados,
decide adotar o caminho da luta armada. Como ocorrerá
durante toda a duração da Revolução Cubana, a evolução
política e programática de Fidel vai ocorrendo
empiricamente, à luz da sua própria experiência.

No ataque ao Quartel de Moncada, o único programa da


operação era a queda de Batista e a entrega do governo ao
Partido Ortodoxo. No famoso discurso pronunciado por
ocasião de seu julgamento pela ação de Moncada, que
depois foi publicado em forma de livro com o título A
história me absolverá, Fidel deixa claro o caráter liberal-
burguês de seus objetivos iniciais, apresentando aquilo que
viria a ser conhecido como o primeiro programa da
revolução cubana. “No sumário desta causa constam as
cinco leis revolucionárias que seriam proclamadas
imediatamente após tomar o Quartel de Moncada” (…) “A
primeira lei revolucionária devolveria ao povo a soberania e
proclamava a Constituição de 1940 como a verdadeira lei do
Estado”. O caráter não apenas burguês, mas inclusive
moderado do programa é evidente: Fidel não postulava
sequer a reivindicação da democracia revolucionária através
da convocação de uma assembléia constituinte apoiada nas
massas populares, aceitando a Constituição de 1940
elaborada pelo próprio Fulgêncio Batista. Mas neste mesmo
discurso o líder cubano torna ainda mais explícitas suas
idéias. “É sabido que na Inglaterra, no século XVIII, foram
destronados dois reis, Carlos I e Jaime II, por atos de
despotismo. Estes fatos coincidiram com o nascimento da
filosofia política liberal, essência ideológica de uma nova
classe social que lutava então para romper as cadeias do
feudalismo. Frente às tiranias de direito divino esta filosofia
opôs o princípio do contrato social e o consentimento dos
governados, e serviu de fundamento à revolução inglesa de
1688 e às revoluções americana e francesa de 1775 e 1789.
Estes grandes acontecimentos revolucionários abriram o
processo de libertação das colônias espanholas na América,
cujo último elo foi Cuba. Nesta filosofia se alimentou nosso
pensamento político e constitucional (…)”.

O desembarque do Granma

No ano de 1956, enquanto Fidel organiza, sob o treinamento


militar do coronel Alberto Bayo, veterano da guerra civil
espanhola, a força expedicionária que no final do ano
partiria para invadir a ilha, Cuba vive momentos de intensa
agitação política, que estão assinalando o esgotamento do
regime de Batista.
Em dezembro de 1955 já havia ocorrido uma greve dos
trabalhadores açucareiros e várias manifestações estudantis.
Em abril de 56 há uma tentativa de tomar de assalto o
quartel de Goicuría na província de Matanzas e as forças de
repressão do governo ocupam a Universidade de Havana.

Não obstante ter sofrido uma batida policial que resulta na


prisão de vários combatentes e no confisco de várias armas,
o Movimento 26 de Julho continua o treinamento no México
e Fidel segue com os planos iniciais.

A idéia era fazer coincidir, no dia 30 de novembro, a invasão


de Cuba pela Província do Oriente dirigida por Fidel com
um levante popular conduzido pelo líder estudantil Frank
País na cidade de Santiago de Cuba.

No dia 27, um telegrama em código ordena o início dos


preparativos na cidade e a partida do grupo de Fidel, que
havia levantado fundos e comprado um iate velho,
o Granma, para conduzir seus 81 homens, entre eles “Che”,
até o local combinado para o desembarque, onde o
esperariam na praia armas, munições e suprimentos.

Conforme combinado, no dia 30 começa o levante popular


dirigido por Frank País em Santiago de Cuba. Membros do
Movimento 26 de Julho da cidade lutam contra o exército e
a polícia.
No entanto, a travessia do Granma atrasa quase quatro dias.
Péssimas condições de navegação e erros de rota fizeram
com que a força expedicionária de Fidel não apenas
atrasasse, mas desembarcasse no local errado, não na praia,
mas num mangue a 16 quilômetros ao sul. Na cidade, os
combatentes liderados por País eram esmagados pelas
tropas de Batista. Vários morrem e muitos são presos.

Após sete dias no mar passando enjôo, fome, frio e sede — ,


Fidel e seus combatentes enfrentavam agora a passagem
pelo extenso mangue, no qual foram obrigados a deixar,
pouco a pouco, o que restava de armas e suprimentos, para
somente três dias depois pisar em terra firme, onde uma
nova surpresa, bem mais desagradável, os aguardava.

O “Che” e a Revolução Cubana

Após o fiasco da viagem e do desembarque do Granma,


Castro e seus homens dividiram-se em dois grupos e foram
“caminhando” pelo mangue em busca de terra firme.
Segundo “Che”, eles estavam “desorientados e andando em
círculos, um exército de sombras, de fantasmas caminhando
como se estivessem sendo impelidos por algum mecanismo
psíquico”. Os dois grupos encontram-se dois dias depois e
marcharam para um lugarejo chamado Alegría del Pío, onde
fizeram uma pausa para descansar em meio a um canavial.

Mal sabiam eles que o Exército de Batista já sabia de sua


presença, através de duas fontes: uma patrulha da
guardacosteira que os havia visto desembarcar e o próprio
guia que contrataram para levá-los à Sierra.

À tarde o exército atacou. Apanhados de surpresa, os


rebeldes quase foram aniquilados. Dos 82 homens
desembarcados muitos foram mortos e outros presos e
executados, restando cerca de 15, que se reencontraram
somente no dia 21 de dezembro de 1956, após vagarem
dispersos pela Sierra e serem posteriormente ajudados pela
rede de camponeses do 26 de Julho, organizada pela
dirigente do Movimento na cidade, Célia Sanchez.

Situação revolucionária

O ano de 1957 é marcado pela crescente ação das massas


cubanas e pela veloz decomposição do regime político de
Batista, ao mesmo tempo em que evidencia as divergências
existentes no Movimento 26 de Julho entre sua ala direita,
burguesa e pró-EUA (Huber Mattos, Armando Hart), o
centro (Fidel), que buscava uma orientação também
democrático-burguesa porém independente do
imperialismo norte-americano, e a ala esquerda (Raúl
Castro, “Che” Guevara), de tendência socialista, ainda que
confusa e menos experiente.

A guerrilha de Fidel permaneceu durante meses vagando,


isolada da massa camponesa — os guajiros, camponeses
pobres, em sua maioria analfabetos, que somavam 60 mil e
viviam em casebres espalhados ao longo dos 160
quilômetros da cadeia de montanhas chamada Sierra
Maestra.

Por outro lado, na cidade de Santiago, próxima à Sierra,


vivia-se um clima de grande agitação política. Quase todos
os dias havia manifestações e greves massivas, bem como
explosões de bombas em prédios governamentais e
atentados contra personalidades do regime. Sob a liderança
de Frank País — o jovem estudante que Fidel incorporara ao
Movimento em 1955 logo após sair da prisão e pouco antes
de ir para o México -, o 26 de Julho havia se convertido em
uma organização popular e vinha desenvolvendo-se
rapidamente. Também em Havana crescia a agitação
revolucionária à medida em que a ditadura corrupta,
violenta e subserviente aos interesses dos grandes
proprietários cubanos e do imperialismo norte-americano
tornavase cada vez mais insuportável para o conjunto da
população. Fidel exercia sua autoridade política e do campo
comandava as ações do Movimento na cidade, de onde
provinha a subsistência da guerrilha na Sierra através do
envio de dinheiro, armas, mantimentos, medicamentos e
inclusive a quase totalidade dos militantes.

Contatos com os EUA

O governo Batista tentava propagandear a insignificância da


guerrilha e dizia que os rebeldes haviam sido dizimados no
desembarque. Mas ao mesmo tempo em que nas cidades a
situação tornava-se cada vez mais insustentável, a imprensa,
inclusive internacional, vinha dando um certo apoio a Fidel
Castro. Num certo momento, um veterano jornalista do The
New York Times, Herbert Mathews, vai até a Sierra e fala
com Fidel. Sua reportagem cai como uma bomba em Cuba:
“Fidel Castro, o líder rebelde da juventude cubana está vivo
e lutando duramente e com êxito nas profundezas quase
impenetráveis da Sierra Maestra (…) Centenas de cidadãos
altamente respeitáveis estão com o senhor Castro (…) [e] um
feroz antiterrorismo do Governo levou o povo a ficar ainda
mais contra o General Batista. Pelo jeito que tomam as
coisas, o General Batista não tem possibilidade de esperança
de eliminar a revolta de Castro.”

O Ministro da Defesa de Batista ataca dizendo que a


entrevista era uma farsa e desafia Mathews a publicar uma
foto sua com Fidel, o que ocorre poucos dias depois,
desmoralizando ainda mais Batista. Tais acontecimentos
demonstravam que os EUA já haviam percebido a
decomposição do governo e faziam jogo duplo, mantendo o
apoio à Batista mas também dialogando com o setor mais
direitista, de tendências pró-imperialistas, do 26 de Julho. O
governo norte-americano era favorável à incorporação da
oposição burguesa ao regime, o que exigia a sua
“democratização” e traria como resultado ou a cooptação da
burguesia dos partidos Autêntico e Ortodoxo e também do
grupo de Fidel, ou então provocaria o isolamento político
deste último.

Em seu diário, “Che” faz referência a uma carta de Armando


Hart, dirigente do Movimento na cidade, que estaria
“sugerindo um acordo com a Embaixada ianque”. Numa
carta à Fidel de 5 de julho, Frank País faz outra referência ao
fato: “A muito meritória e valiosa Embaixada norte-
americana veio a nós e ofereceu qualquer tipo de ajuda em
troca de pararmos de furtar armas de sua base”. Em outra
carta, País afirma-lhe que “María A. me contou que o vice-
cônsul norte-americano queria falar com você (…). Já estou
farto de tantas idas e vindas e de conversas com a
Embaixada, e acho que seria vantajoso para nós cerrar
fileiras um pouco mais, sem perder contato com eles, mas
não lhes atribuindo tanta importância como estamos
fazendo atualmente”. Em sua resposta, Fidel escreveu: “Não
vejo porque deveríamos levantar a mais leve objeção à visita
do diplomata norteamericano. (…) Se eles desejam ter laços
mais estreitos de amizade com a triunfante democracia de
Cuba? Magnífico! Isso é um sinal de que reconhecem o
desenlace final desta batalha”.

Greve Geral

O 26 de Julho começa a fazer propaganda de uma greve


geral, mas esta vai ocorrer como resultado de um fato
imprevisto: o assassinato de Frank País aos 23 anos de idade
em 30 de julho. País tinha sido preso e quando foi libertado
passou vários dias escondendo-se da polícia. Mas seu
esconderijo foi encontrado e, em plena luz do dia, ele e um
companheiro foram sumariamente executados na rua.
O assassinato desencadeou enormes manifestações
antigovernistas, com greves que se espalharam por toda a
ilha. A situação revolucionária amadurecia em todo o país.

A erupção produzida pela greve geral traduz-se em um


rápido fortalecimento da guerrilha urbana e rural,
demonstrando que era a ação insurgente das massas o
verdadeiro motor da revolução e não as “ações armadas”,
ensaiadas primeiro em Moncada, nem as ações fulgurantes
como o desembarque do Granma. Em meados de 57 o grupo
de Fidel enfrenta com êxito a primeira grande batalha com o
exército na guarnição militar de El Uvero, conquistando
uma grande quantidade de armas.

Os rebeldes vão pouco a pouco conquistando a confiança


dos camponeses, ao mesmo tempo em que, na cidade, o 26
de Julho ampliava sua base de recrutamento entre a
juventude e conquistava a simpatia de setores da pequena
burguesia democrática, de onde o Movimento arrecadava
importantes somas de dinheiro através da criação de um
ramo, a Resistência Cívica. Também vinculou-se a grupos da
oficialidade militar e participou do fracassado motim naval
na cidade de Cienfuegos.

“Che”: de médico a Comandante

A esta altura “Che” Guevara já havia se tornado um


respeitado dirigente da guerrilha na Sierra. Sua nomeação
como Comandante ocorreu de forma totalmente inesperada
para ele. Num determinado momento, todos os oficiais do
Exército Rebelde foram chamados a assinar uma carta que
Fidel enviaria para Frank País expressando suas
condolências pela morte do irmão. Quando chegou a vez de
“Che”, Fidel lhe disse que colocasse “comandante” como seu
posto, o mais alto do exército, que até então somente Fidel
detinha.

Desde o México “Che” vinha demonstrando uma


extraordinária dedicação à causa revolucionária. Superando
sua debilidade física, a asma que tanto o atormentava,
tornou-se um dos melhores combatentes e o que mais
prezava e assegurava a disciplina, superando inclusive Fidel
no rigor com que a defendia. A conduta de “Che” cumpriu
um papel fundamental na formação do exército rebelde. O
compromisso ideológico dos novos recrutas, incorporados
entre os guajiros da Sierra ou jovens estudantes enviados
da cidade, para com a revolução e seus objetivos era frágil ou
mesmo inexistente. As deserções e traições eram constantes
e “Che” as punia com todo o rigor, executando e ordenando
execuções sumárias. Estes recrutas incorporavam-se à
guerrilha motivados por sua miséria ou pelo apego
superficial à causa democrática ou socialista. Esta situação
era o resultado inevitável da ausência de militantes com
maior firmeza política e ideológica, ou seja, pela ausência de
um verdadeiro partido revolucionário. Na revolução, a ação
radicalizada das massas vai superar muito parcialmente esta
debilidade fundamental, mas após a tomada do poder este
será o principal limitador do desenvolvimento da economia
cubana e da própria revolução latino-americana.
Com relação às divergências das facções do 26 de Julho,
“Che” assumia claramente uma posição de esquerda,
fustigando constantemente a ala direita do Movimento e
exercendo uma pressão sobre Fidel, embora não tivesse um
programa político alternativo. Em certa ocasião, Fidel
aliara-se a dois líderes do Partido Ortodoxo, representante
da oposição burguesa, Raúl Chibás e Felipe Pazos, para
publicar o “Manifiesto de la Sierra Maestra”, cujo objetivo
era repudiar a manobra governista de convocação de
eleições presidenciais para 1º de junho de 1958.
Comentando o pacto, “Che” disse que “não estávamos
satisfeitos com o acordo, mas ele era necessário. Na ocasião,
foi progressista. Ele não poderia durar além do momento em
que representasse um freio para o desenvolvimento da
revolução”. Sobre os próprios líderes do Movimento 26 de
Julho na cidade, “Che” dizia em fevereiro de 57, por ocasião
de uma reunião da Direção Nacional na Sierra que “Através
de conversas isoladas, descobri as evidentes inclinações
anticomunistas da maioria deles, sobretudo de Hart.”

As massas dominam a cena política

o regime do ditador Fulgêncio Batista decompunha-se a


toda velocidade e gerava, como conseqüência, o crescimento
da guerrilha na Sierra e na cidade. Um sinal agudo desta
decomposição eram as diversas conspirações militares: os
norteamericanos, percebendo a incapacidade de Batista em
debelar a crise e restabelecer a estabilidade do Estado, o
pressionavam para que aceitasse a incorporação da oposição
burguesa, os partidos Autêntico de Prío Socarrás, Ortodoxo
de Felipe Pazos e Raúl Chibás e “um Movimento 26 de Julho
controlado”, ao regime. Era a repetição da manobra que
havia sido realizada após o período revolucionário
inaugurado no início da década de 30, com a diferença de
que, agora, ao invés de estar apoiada em uma etapa de
refluxo e esmagamento da revolução, dava-se no seu
momento de ascenso.

Nas cidades, continuavam as campanhas de sabotagem e de


lançamento de bombas em prédios públicos. Batista havia
imposto a censura da imprensa, ao mesmo tempo em que
procurava difundir a idéia de que as tropas de Castro eram
reduzidas a “bandidos insignificantes”, mas cada vez mais
esta versão dos fatos parecia fantasiosa para o conjunto da
população.

A desmoralização do governo crescia a tal ponto que alguns


cartunistas de Havana furavam o cerco e encontravam
formas de satirizar o regime. Uma ilustração famosa
mostrava uma longa fila de pessoas, esperando para
embarcar em um ônibus com o número 30. Os leitores
perceberam que o ônibus dirigia-se a uma localidade
próxima chamada La Sierra, para se juntar ao 26 de Julho.

Para ter informações sem censura sobre as últimas batalhas,


os habitantes da cidade simplesmente viravam o botão de
seus rádios para sintonizar a Rádio Rebelde e
os guajiros da Sierra ainda tinham a opção do jornal El
Cubano Livre, ambas criações de “Che”.
Nas batalhas, conforme o Exército Rebelde ia derrotando as
tropas desmoralizadas de Batista, diversos oficiais
passavam-se para o lado da revolução, que cada vez mais
acumulava um grande número de homens e armas.

A Junta de Miami

Porém, esta situação também forçava a oposição burguesa a


articular uma alternativa não apenas a Fidel Castro, mas
principalmente à revolução em marcha.

Em 1º de novembro, em Miami, foi constituída a “Junta


Cubana de Liberação”, com as assinaturas de representantes
da maioria dos grupos de oposição. No encontro, através de
uma manobra concertada com os membros direitistas do 26
de Julho. O líder dos ortodoxos, Felipe Pazos, negociou
representando o Movimento.

O acordo fora realizado com a visível intenção de estabelecer


uma frente comum com Washington. Não havia uma única
declaração se opondo à intervenção estrangeira no país e
nem mesmo à idéia de que uma junta militar sucedesse
Batista. Propunha ainda a incorporação “pós-vitória” das
tropas de Fidel às forças armadas, assegurando assim a
futura dissolução do exército rebelde. Não continha, por
outro lado, nenhuma proposta concreta em relação à
situação econômica da população cubana, apenas promessas
de criação de mais empregos e elevação do padrão de vida. O
acordo ea, sobretudo, uma tentativa de suplantar a iniciativa
de Fidel, para então negociar uma saída política de
conciliação com o ditador e o governo dos EUA. “Che”
Guevara passa a exercer uma forte pressão sobre Fidel para
que ele emitisse uma declaração condenando o pacto. Em 9
de dezembro, lhe envia uma carta acusando o Diretório
nacional do 26 de Julho de sabotá-lo intencionalmente,
opinando que este deveria exigir permissão para adotar
severas providências a fim de corrigir a situação, caso
contrário deveria renunciar.

Quatro dias depois, Fidel responde. O conteúdo da carta de


resposta nunca foi divulgado, mas a reação de “Che” dá a
medida do seu conteúdo: “Neste exato momento, chegou um
mensageiro com sua nota de treze. Confesso que (…) ela me
encheu de paz e felicidade. Não por qualquer razão pessoal,
mas sim pelo que esse passo representa para a revolução.
Você bem sabe que eu não confiava de forma alguma no
pessoal do Diretório Nacional — nem como líderes nem
como revolucionários. Mas não pensava que chegariam ao
extremo de traí-lo de forma tão aberta (…).” “Che”
continuava insistindo para que Fidel rompesse o silêncio e
condenasse o pacto. Disse que ele próprio faria 10 mil cópias
da declaração e as distribuiria por toda a província Oriente e
em Havana — a ilha toda se pudesse. Dizia ainda que,
“depois, se ficar mais complicado, com a ajuda de Célia,
podemos demitir todo o Diretório Nacional.”

Confrontado com o desafio da oposição burguesa e da sua


própria ala direita, Fidel conservou-se em um terreno de
independência do regime político. No mesmo dia, emitiu
uma declaração contra o Pacto de Miami: “A liderança da
luta contra a tirania está e continuará a estar em Cuba e nas
mãos dos combatentes revolucionários (…) O Movimento 26
de Julho reivindica para si o papel de manter a ordem
pública e reorganizar as forças armadas da república”.
Contra a tentativa de Felipe Pazos de tentar assegurar para
si próprio a presidência de um futuro governo de transição,
Fidel designava o seu próprio candidato, o idoso jurista de
Santiago, Manuel Urrutia, declarando ainda: “Estas são as
nossas condições (…) Se forem rejeitadas, então
continuaremos a luta por nossa própria conta (…) Para
morrer com dignidade, não se precisa de companhia.”

Nesse tempo, o 26 de Julho preparava uma nova greve geral,


desta vez incluindo Havana e de comum acordo com os
stalinistas do Partido Socialista Popular, que não apoiavam
a revolução. A greve começa em abril de 1958, mas não tem
êxito, em função das ilusões de “Che” e Fidel nos stalinistas,
da sabotagem do PSP e da ala direitista do Movimento, que
eram favoráveis à saída eleitoral negociada em Miami.

No entanto, o fracasso da greve foi uma derrota secundária e


transitória, incapaz de fazer retroceder as tendências
revolucionárias das, que continua a ser impulsionada, em
particular com as vitórias do exército rebelde na Sierra e
acaba fortalecendo a guerrilha no campo, convertendo-a no
centro indiscutido de todo o movimento revolucionário.
Fidel e “Che” aproveitam para desfechar um novo golpe na
ala direita do Movimento. Convoca-se uma reunião do
Diretório Nacional, na qual “Che” faz uma análise da
situação e propõe a destituição de alguns dos principais
líderes da cidade, David

Salvador, “Daniel” e Faustino. Em 1964, “Che” escreve um


artigo intitulado “Uma Reunião Decisiva”, onde afirma que
“nessa reunião se discutiu e se decidiu sobre duas
concepções que se tinham entrechocado durante toda a
etapa anterior quanto à direção a ser dada à campanha. A
concepção da guerrilha sairia vitoriosa dessa reunião”.

Batista tenta então uma desesperada contra-ofensiva,


mobilizando 10 mil soldados divididos em 17 batalhões e
apoiados por tanques e carros blindados em direção
à Sierra. Mas a decomposição moral das tropas, as
emboscadas guerrilheiras e particularmente a hostilidade
dos camponeses transformam o ataque em uma debandada.
A afluência de trabalhadores, camponeses e soldados das
tropas de Batista para a guerrilha ia se convertendo em um
fenômeno massivo. O amadurecimento da situação
revolucionária transformava o exército de Fidel em um
irresistível movimento de massas.

O Pacto de Caracas

A comoção revolucionária que sacudia a ilha havia


transformado a Junta de Miami em um fantasma. Era o
sintoma agudo não apenas do completo esvaziamento do
regime de Batista, como do completo esvaziamento do
próprio regime político burguês pelo profundo
deslocamento das massas para posições revolucionárias. As
massas ocupavam as cidades e os campos e só reconheciam
a autoridade política do 26 de Julho, o qual se transformava,
assim, em um instrumento da dualidade de poderes.

Privados de qualquer sustentação social, os partidos da


oposição burguesa e ala direita do Movimento abrem
negociação com Fidel e articulam um novo acordo, o Pacto
de Caracas, no qual os signatários obrigavam-se a adotar
uma estratégia comum para derrotar Batista por meio da
insurreição armada e a formar um governo provisório de
curta duração. Embora o “Manifesto de União da Sierra
Maestra” reconhecesse a autoridade de Fidel castro como
“comandante-em-chefe das forças revolucionárias”, era mais
uma etapa na manobra — consentida pela ala revolucionária
do castrismo — para tentar frear o desenvolvimento da
revolução. A oposição burguesa adaptava-se formalmente à
política de Castro apenas para tentar recuperar alguma
sustentação popular, mantendo alguma iniciativa política
enquanto esforçavam-se para criar as condições de um golpe
militar.

Cai Fulgêncio Batista

Em agosto, as colunas de “Che” e Fidel avançavam cada vez


mais, cercando importantes cidades como Santiago e o oeste
do país. Após a derrota da contra-ofensiva de Batista, Fidel
planeja o ataque final. À partir daí, as colunas de “Che”,
Camilo Cienfuegos, Raúl e Fidel Castro vão tomando cidade
por cidade até a vitória final.

O enviado da embaixada norte-americana, General Cantillo,


tenta então dar um golpe militar, mas a tentativa fracassa
em função da intervenção final e decisiva de milhões de
cubanos no aniquilamento da ditadura. Castro convoca uma
greve geral que paralisa o país, em meio à qual ocorre uma
nova tentativa golpista, desta feita pelo general Barquin, que
é derrotada em poucas horas. O Estado burguês desaparecia
e dava lugar ao predomínio da dinâmica revolucionária e as
massas retém toda a iniciativa política no país.

Após a tomada da cidade de Santa Clara pelas tropas de


“Che”, Batista finalmente desistiria. Às 3 horas da
madrugada do dia 1º de janeiro de 1959, ele e um punhado
de íntimos colaboradores embarcaram num avião para a
República Dominicana, abandonando Cuba para sempre.

Em 1º de janeiro, a coluna de “Che” conquista a cidade de


Havana e a de Fidel ingressa em Santiago. As multidões
cercavam os guerrilheiros e se iniciava outra etapa da luta
política dentro do 26 de Julho que definiria o rumo da
revolução.

Fidel demorou uma semana para chegar em Havana. A


longa marcha, durante à qual parava inúmeras vezes para
fazer inflamados discursos, permitia um intervenção
generalizada das massas, que iam desmantelando todo o
Estado ditatorial.

Ocupavam-se os edifícios públicos, delegacias de polícia,


tribunais. Os funcionários de Batista eram destituídos, os
torturadores presos, enquanto juízes, governadores e
militares fugiam para Miami.

Escrito em 1997. Publicado em 2013 pela Revista Textos.