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Para melhor

amar a Nossa
Senhora
J. M. Dayet

Para melhor
amar a Nossa
Senhora
Com São Luís Maria Grignion de Montfort
Para melhor amar a Nossa Senhora
J. M. Dayet

Reservados todos os direitos dessa obra. Proibida toda e qualquer reprodução


desta edição por qualquer meio ou forma, seja eletrônica ou mecânica, fotocópia,
gravação ou qualquer outro meio de reprodução, sem permissão expressa do
editor.

Editor-chefe
Eduardo S. Gomes

Preparação de texto
Gabriel Zavitóski

REVISÃO
Eduardo S. Gomes

Diagramção e Capa
Juscelino H. Silva

Os direitos desta edição pertencem a Editora Realeza


1ª edição – novembro de 2020 – Editora Realeza
Sumário
APROVÇÃO E BENÇÃO......................................................................07
PREFÁCIO...............................................................................................09

CAPÍTULO I............................................................................................11
São Luís Maria Grignon de Montfort começou contemplando a
dependência de Jesus em relação a Maria.

CAPÍTULO II...........................................................................................19
São Luís Maria concluiu que Nossa Senhora nos é necessária.

CAPÍTULO III........................................................................................25
Pois que Maria nos é necessária, devemos honrá-la por uma ver-
dadeira devoção.

CAPÍTULO IV.........................................................................................34
A verdadeira devoção a Nossa Senhora compreende diversas
Práticas.

CAPÍTULO V...........................................................................................42
São Luís Maria escolheu a Pratica mais perfeita.

CAPÍTULO VI.........................................................................................52
Consagremo-nos inteiramente a Nossa Senhora, a exemplo de
São Luís Maria.

CAPÍTULO VII......................................................................................65
Com São Luís Maria de Montfort consagramo-nos totalmente a
Nossa Senhora.

CAPÍTULO VIII.....................................................................................78
Com São Luís Maria, vivamos numa constante dependência de
Nossa Senhora.

CAPÍTULO IX.........................................................................................92
Com São Luís Maria, vivamos em uma constante dependência de
Nossa Senhora.

CAPÍTULO X.........................................................................................108
Nossa Senhora fará reinar Jesus Cristo nos corações e no mundo.

CONSAGRAÇÃO DE SI MESMO A JESUS CRISTO, SABEDORIA


ENCARNADA, PELAS MÃOS DE NOSSA SENHORA
........................................................................................................................................123
Aprovação e Benção

Eis um livro que realmente nos faz “amar melhor a Nossa


Senhora”. Seu autor, filho espiritual de São Luís Maria Grignon de
Montfort, nos apresenta de maneira especialmente feliz a
suavíssima e profunda doutrina da Escravidão Marial.
Para os que não conhecem ainda esse “caminho de
santificação”, será por certo um venturoso descobrimento, e, quem
sabe, a traça da Divina Providência, num convite à verdadeira
perfeição cristã.
Para os que já se consagraram a Nossa Senhora e procuram
viver essa Consagração, esta leitura é das mais proveitosas, pois
não se trata apenas de “páginas novas sobre assuntos antigos”,
senão de uma verdadeira “interpretação autêntica”, rica e atraente,
pontilhada de exemplos e aplicações sumamente práticas, do
exercício marial mais perfeito e mais santificador que o Divino
Espírito Santo se dignou manifestar às almas desejosas de uma
união segura e total ao amor de Deus.
Seguindo uma progressão lógica, o itinerário desta obra parte da
misteriosa realidade que, dentro da liberdade de Deus, fez o Verbo
Encarnado depender de Maria. De tal sorte, que Nossa Senhora se
tornou o elo necessário para o retorno ao Senhor.
Voltados para Ela, não nos basta, assim, honrá-La de qualquer
maneira, mas com uma profunda, santa, sólida e verdadeira
devoção que a Ela nos prenda, total e santificadoramente. A Ela
nos escravi- zarmos por amor, em tal arte que nEla encontremos o
roteiro firme e suave para Jesus, cujo Reinado é o maior desejo e a
grande obra da Rainha dos corações.

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J. M. Dayet

Um livro que é uma graça do céu. Que renova inefáveis


convites. Cuja leitura nos traz a doce responsabilidade de melhor
correspon- dência ao amor de Nossa Senhora.
Recebamos esta graça, com fiel atendimento. Não nos faltarão,
por Maria, os favores do alto que hão de iluminar e enriquecer os
que editaram este livro e o publicam, aos que o traduziram e
difundem, bem como a todos os seus pios leitores.
São Paulo, 8 de Dezembro de 1954.
Prefácio

Este livro, cujos capítulos se encadeiam em ordem progressiva,


tem por fim esclarecer primeiramente as pessoas piedosas - almas
cristãs ou almas consagradas - não iniciadas ainda na Perfeita
Consagração proposta por São Luís Maria Grignon de Montfort.
Não poderia ser de utilidade a essas almas, colocá-las, sem
preparação e cuidado, diante de uma tal via ascendente, como não
seria bom para nossos olhos abri-los, ao sair de um quarto escuro,
à luz do sol em seu zênite.
A Devoção a Nossa Senhora, que São Luís Maria pretende
descobrir às almas desejosas de realizarem em si totalmente o plano
divino, não é um modo qualquer de honrar a Maria.
Essa devoção é o desabrochamento normal de tudo quanto os
séculos cristãos lhe têm testemunhado em amor e generosidade.
Sem a mínima pretensão de se apresentar como uma espécie de
receita nova, aparece, ao contrário, como a mais alta manifestação
da Devo- ção tradicional que a Igreja sempre professou à Mãe de
Deus.
E se nosso santo a apelida, algumas vezes, um “Segredo” -
segredo de perfeição e santidade -, não quer isto dizer que seja essa
Devoção coisa oculta ou reservada, mas porque, de fato, é
conhecida e prin- cipalmente praticada pela minoria das almas.
Será aceita e adotada por um número maior, à medida em que se
compreender que seu fim é, apenas, reproduzir do melhor modo
possível o amor que o Sagrado Coração de Jesus sempre consagrou
e consagrará à sua Mãe Santíssima. Tudo irradia desse foco
deslumbrante.

9
***

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J. M. Dayet

Quanto às almas já versadas e mesmo adiantadas nesse caminho


de perfeição, aproveitarão sempre, refletindo de novo na forma
especial pela qual São Luís Maria foi levado a amar Nossa Senhora
tão trans- cendentalmente. A luz pode aumentar, de modo
indefinido, em uma inteligência afeita aos mistérios de Maria.
Dessa luz brotará, então, uma convicção mais esclarecida, um surto
cada vez mais vigoroso e o sentimento profundo da alegria
espiritual que a alma experimenta ao mergulhar-se na verdade.
Além disso hão de lucrar ainda, renovando-se ao contato de
uma apresentação diversa de nossas teses e fórmulas as mais
conhecidas. Não se pode negar que, mesmo em assuntos
espirituais, o costume acaba enfraquecendo o amor e o entusiasmo
com que, a princípio, os aceitamos.
E se acrescentarmos o tédio, cansaços, sobrecarga que nos pro-
porcionam os afazeres exteriores, quantas e quão terríveis tentações
de tudo deixar e de desanimar nos assaltarão!
O meio mais eficaz para não permitir que essas tentações nos
invadam, será o recurso atento à leitura e à meditação de páginas
novas sobre assuntos antigos que não podem deixar de nos
interessar incessantemente.
Desta sorte sentiremos nossas forças aumentadas e uma
resistência até então por nós desconhecida.
Confiadamente apresentamos nosso trabalho a todas as almas
que já deram ou pretendem dar a Nossa Senhora, em sua vida
espiritual, a posição central que Ela ocupa com Jesus e,
dependentemente de Jesus, no plano da redenção.

JOSEPH-MARIE DAYET,
Montfortino.

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Para melhor amar a Nossa Senhora

Capítulo I
São LuÍS Maria Grignon de Montfort começou contemplando
a dependência de JESUS em relação a Maria

São Luís Maria Griignon de Montfort, que viveu de 1673 a


1716, é hoje universalmente reconhecido como o Apóstolo por
excelência da Devoção a Nossa Senhora. Dizem que o seu Livro1 é
«o mais belo que Nossa Senhora tenha inspirado»2. É, pois, do
santo que devemos aprender o modo mais perfeito de amar a
Maria. Seu método atrai suavemente as almas que, na realidade,
desejam viver a vida de Cristo, pois nosso santo missionário
começou contemplando o Coração de Jesus e quis modelar o seu
amor pelo amor que aí resplandece.
A maravilha, com efeito, que ele não se cansa de meditar é a
dependência inefável de Nosso Senhor a respeito de sua santa Mãe.
Essa dependência, soberanamente livre, revelou-se na Anunciação
a Maria; continua desde então, e não terá fim.
O Filho de Deus, nosso dulcíssimo Redentor, teria podido salvar-
-nos sem se tornar Filho da Virgem Maria. Poderia aparecer neste
mundo em estado de homem perfeito, como apareceu Adão ao sair
das mãos do Criador. Ainda mesmo nascendo de Maria, pequenino
como nós nascemos de nossas mães, Jesus poderia, por Sua onipo-
tência, livrar-Se bem cedo das fraquezas da infância. Teria podido
ao menos, na idade de doze anos, emancipar-Se legalmente, como
tantas vezes faziam os adolescentes da Palestina, e escolher para Si
1
“O Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora”. Librairie mariale.
Calvaire de Pont-Château (Loir-e-Infér.) et 23, rue de Fleur,us, Paris.
2
“Os cadernos de São Francisco”. (V., VI) p. 328.
J. M. Dayet

um gênero de vida de acordo com a idéia que seus compatriotas


formavam do Messias.
Já que nesta idade havia Ele maravilhado os mais sábios
Doutores de Israel, no Templo de Jerusalém, nada O impedia de
iniciar desde então uma vida brilhante de pregações e milagres,
projetando-Se até muito além dos limites de Sua terra natal.
Desta sorte apresentar-Se-ia como Salvador independente, e
Maria desapareceria da cena evangélica. Jesus não o quis assim.
Verbo eterno, preexistindo a todas as coisas, não Se encarnou e não
Se uniu à nossa natureza humana, senão depois de ter solicitado o
consentimento da humilde Virgem de Nazaré.
E desde o instante de sua encarnação, diz São Luís Maria, Ele
quis, fez questão de glorificar Sua independência e Sua majestade,
dependendo dessa amável Virgem em todos os mistérios que agora
vão se suceder. (Trat V. D. nº 18.)

***

O mistério da Encarnação contém em si, já em resumo, todos os


outros. Oculto no seio de Maria, e tendo consciência plena de seus
mínimos atos, Jesus glorifica o Pai Celeste.
Nesse santuário Ele O adora, agradece, oferece-Lhe amor, satis-
fações, reparações, súplicas de um valor infinito.
Aí, Jesus oferece ao Pai seu Coração, Coração apenas de alguns
dias, de alguns meses, ardendo já em desejos veementes de ser
imo- lado para expiar nossas faltas.
Nesse seio virginal, como em um paraíso terrestre animado,
Jesus se delicia. Aí contempla com alegria os seus eleitos, seus
predesti- nados, todos os que vão ser membros vivos de seu Corpo
místico. Elegeu-os de acordo com Maria, assegura-nos São Luís
Maria (nº 248), encerrando-os assim com Ele em sua Mãe
Santíssima. O seio da Virgem é o primeiro altar onde Jesus se
imola à vontade de seu Pai, para nossa salvação. Tudo se passa sob
a dependência de Maria.

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Para melhor amar a Nossa Senhora

Tendo assim plena consciência de Sua missão redentora, Jesus


arde em desejos de Se dar efetivamente às almas, de santificar
realmente as almas.
Eis porque, logo depois da Anunciação, o Espírito Santo inspira
a Maria partir às montanhas da Judéia para levar a João, o
Precursor, ainda então oculto no seio de sua mãe, a graça de um
milagroso batismo, e à própria Isabel a graça de um Pentecostes
íntimo.
Nossa Senhora aparece aqui como o primeiro sacramento do
Cristo, seu sacramento vivo. Por meio dEla, na dependência de sua
maternidade, e pelo sinal sensível de sua voz, Jesus faz passar a
graça santificante que transforma João - até então pecador,
manchado pelo pecado original - num justo que transborda e irradia
a vida sobrena- tural. Da mesma forma, por intermédio de Nossa
Senhora Ele enche Isabel - já em estado de justiça e de santidade -
de uma tal plenitude dos dons do Espírito Santo, que esta descobre
e penetra imediata- mente o mistério do Verbo feito carne em
Maria e comunicando sua vida divina em Maria.
Esta dupla santificação, nota São Luís Maria, é seu primeiro e
maior milagre da graça (nº 19).

***

No mistério de Natal a mesma dependência manifesta-Se aos


nossos olhos. Não somente Jesus tem precisão de sua Mãe para os
cuidados necessários a um recém-nascido, mas visa principalmente
santificar Seus primeiros adoradores, pastores e magos, através da
pureza do olhar desta Mãe admirável, carregado nos seus braços ou
reclinado nos seus joelhos. Que fé magnífica projetou assim nas
suas inteligências! Fé que os anos e as distâncias não poderão
enfraquecer; fé que se há de afirmar com o testemunho do sangue,
se assim for necessário.
No quadragésimo dia depois de Seu nascimento, Jesus foi
apresen- tado no Templo de Jerusalém. Nesse dia renovava,
ostensivamente, o oferecimento que fizera a seu Pai no segredo do
seio materno desde
J. M. Dayet

o primeiro instante da Encarnação: Ecce venio. . . “Eis que eu


venho, ó meu Pai, para cumprir tua vontade”. Este oferecimento
solene Ele não o faz ainda senão na dependência de Nossa
Senhora. Ela O apresenta com suas mãos virginais, como o
sacerdote eleva a Hóstia consagrada. Maria O imola na sua alma de
mãe, aceitando anteci- padamente todo o querer do Pai dos céus.
Oferece verdadeiramente este sacrifício matutino, prelúdio daquele
que, no Calvário, será o sacrifício vespertino.
Jesus se sente feliz oferecendo-Se desta forma. Como Ele é
feliz, entregue por uns momentos pela sua Mãe a este santo velho
Simeão, que sempre vivera na esperança de ver com seus olhos o
Messias prometido! Consegue mais do que O ver: ele O possui.
Está satisfeito. Não é isto uma espécie de graça eucarística antes da
instituição do sacramento? Simeão pode estreitar junto ao seu
coração o corpinho de Jesus, tão cheio de encantos, e êste corpo lhe
transmite as riquezas da alma santíssima de Jesus e de Sua
divindade. Se o cântico de ação de graças de Simeão sobe para
Deus, que gratidão não terá testemu- nhado, antes, Aquela que lhe
obtém este presente inestimável e que ele profeticamente proclama
a Mãe dolorosa, associada ao Redentor de Israel!
O último mistério gozoso se abre sobre uma aparente emancipa-
ção de Jesus adolescente. Fica três dias na cidade de Jerusalém,
sem que Maria e José o saibam. Se age deste modo, é unicamente
para obedecer a seu Pai dos céus, como Ele mesmo o dirá no
momento em que é encontrado. Não era necessário dispor, muito
tempo antes, o Coração de Maria a suportar todo o peso das dores
redentoras? Eis o sentido desses três dias de separação e de procura
ansiosa! Prepararam
o grande abandono dos três dias a partir da Sexta-feira Santa até a
madrugada da Páscoa. Nesta ocasião, Maria sofreu
antecipadamente. Obtido isto secretamente, Jesus de novo dá
provas de Sua depen- dência filial e do modo mais expressivo. Ele
que, de ora em diante, poderia se libertar legalmente da tutela dos
seus, manifesta, pelo contrário, que há de depender deles ainda
durante toda a Sua adoles- cência e mesmo na idade madura, tal
qual uma criança que depende
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Para melhor amar a Nossa Senhora

dos seus progenitores. Diz-nos o texto sagrado: Jesus voltou a


Nazaré “sujeito” como antes a Maria, sua Mãe, e ao representante
visível de seu Pai dos céus. Subditus. Mais do que qualquer outra,
esta palavra do santo Evangelho impressionou São Luís Maria de
Montfort. Con- siderou-a como a única luz projetada sobre a longa
vida escondida de Nazaré. Tantas coisas nos teriam podido ser
reveladas a respeito desta vida! Não, ela deve guardar o seu
mistério. Há, porém, uma coisa que não se pode calar, que o
Espírito Santo não pôde passar em silêncio, para mostrar-nos o seu
valor e glória infinita: a sujeição de Jesus, Sabedoria encarnada, a
Maria sua Mãe, durante trinta anos (nº 18).

***

Poderíamos julgar, então, que esta sujeição vai se deter no


limiar da vida pública? Não será assim. Jesus, diz ainda São Luís
Maria, quis começar Seus milagres por Maria (nº 19).
Vemo-lO operar em Caná Seu primeiro milagre na ordem
natural, como outrora em Hebron fizera Seu primeiro milagre na
ordem da graça. A pedido de sua Mãe, muda a água em vinho. E
esta mudança, que pressagiava outra ainda mais estupenda, a da
última refeição de família, teve imediatamente a imensa
repercussão sobrenatural de estabelecer a fé, uma fé inabalável, no
coração dos primeiros discí- pulos de Nosso Senhor, que daqui a
pouco serão Seus apóstolos e Seus sacerdotes mais amados. Estes
jamais esquecerão, principalmente todas as vezes que terão de mudar
o vinho no sangue de Jesus, que Nossa Senhora esteve no início de
sua vocação, isto é, no momento em que deviam dar ao chamado
do divino Mestre sua resposta firme e definitiva.
Graças preciosas jorrando do Coração de Jesus, obediente a
Maria. Montfort concluiu logicamente que, se Jesus começou e
continuou, Seus milagres por Maria, é por Maria que Ele os
continuará até o fim dos séculos. Porque estes dois prodígios,
mencionados pelo Evangelho, são exórdios, e, por conseguinte,
sinais indicando o modo de agir que Nosso Senhor há de
observar sempre. O princípio se estende,
J. M. Dayet

pois, imediatamente aos três anos da Sua vida pública. Jesus


curava, convertia, perdoava, derramava em profusão Suas graças
na irradiação da discreta presença de Nossa Senhora. Não sentimos
esta presença no perdão concedido à pecadora, a Simão Pedro, ao
bom ladrão e a muitos outros?
Chegamos assim aos dias da Paixão. É o tempo em que se
desen- cadeia o poder do príncipe das trevas. O puríssimo corpo de
Jesus é posto sob o lagar e Seu sangue corre em abundância para a
expiação dos pecados de todos os homens. Assim deve ser, para
que a Justiça divina fique satisfeita e o céu nos seja reaberto.
Porém, ainda então Jesus não pôde contentar seu Pai dos céus,
senão na dependência de Maria. Esta carne imolada, este sangue
derramado, condição absoluta de nosso resgate, de quem os
recebeu, senão somente de sua Mãe? Oferece, pois, em
homenagem de expia- ção, de reparação, o que Ela lhe deu. Ainda
mais. Jesus quer que Ela ofereça com Ele este corpo e este sangue,
matéria de Seu sacrifício supremo. Ele a quer perto de si, de pé
junto à cruz, Seu altar. Não é bastante que Ela tenha, outrora,
consentido em ser a Mãe da Vítima divina; que Ela tenha
amamentado, alimentado, cuidado, modelado este corpo em
previsão do sacrifício; que tenha preparado o Cordeiro para a sua
imolação. É necessário agora que O imole no seu coração de Mãe
Corredentora, que coloque nas mãos do Pai, por um ato de sua
vontade, esta vida humana que lhe transmitira e que termina nesta
hora em sacrifício de Redenção.
São Luís Maria de Montfort afirma, com uma palavra: Maria
SACRIFICOU Jesus por nós (nº 18). E assim Ele estende a
sujeição de Nossa Senhora até nesta ação capital, que centraliza a
obra redentora, a morte na cruz: Factus obediens usque ad mortem,
mortem autem crucis. Pai, exclama Jesus moribundo, minha
obediência está consumada. Eu a estendi tão longe quanto possível
aqui na terra, até à minha morte, e à minha morte na cruz. E Jesus
deu o último suspiro inclinando a cabeça do lado onde estava
Nossa Senhora.

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Para melhor amar a Nossa Senhora

***

Sua obediência da terra está consumada. Porém, eis que Jesus


ressuscita cheio de uma nova Vida. Entra na série dos mistérios
gloriosos. Mostrar-se-á ainda dependente de Maria? Não devemos
duvidar disto, responde Montfort, e dá a seguinte explicação no nº
27 de seu “Tratado”: Visto que a graça aperfeiçoa a natureza, e a
glória aperfeiçoa a graça, é certo que Nosso Senhor é ainda no
céu tão Filho de Maria como o era na terra, e, por conseguinte,
conservou a sujeição e a obediência do mais perfeito de todos os
filhos em relação à melhor de todas as mães.
Jesus não a conservou senão para a exercer em nosso favor.
Vol- tando ao céu, seu único desejo é de nos aplicar os frutos da
Redenção. Com este fito não prometera Ele aos seus apóstolos a
vinda do Espí- rito Santificador? Cumpre a Sua promessa. Na
manhã do Domingo de Pentecostes o Espírito Santo desce sobre os
apóstolos e os fiéis, reunidos no Cenáculo, formando o berço da
Igreja nascente. Porém, antes de tudo, como o ensinaram São Pedro
Damião e Santo Tomás de Vilanova, Ele se derrama em plenitude
sobre a Virgem Santís- sima, presidindo no meio da augusta
assembleia, verdadeira Mãe e formadora desta Igreja nascente. Por
meio dEla o Espírito Santo se difunde, em seguida, parcialmente,
sobre cada uma das pessoas pre- sentes: sobre os apóstolos e os
discípulos; sobre os levitas, que serão amanhã os primeiros
diáconos, os primeiros sacerdotes ordenados pelos apóstolos; sobre
as primeiras almas que prometeram seguir a Cristo na virgindade e
sobre as outras que o hão de seguir no cami- nho dos Seus
mandamentos. Todos recebem sua medida dos dons do Espírito
Santo por Maria, visivelmente unida ao divino Paráclito enviado
por Jesus.
Este Pentecostes do Cenáculo era também um começo, e, por-
tanto, o símbolo que indicava antecipadamente todas as
santificações que se hão de realizar no decorrer dos séculos, todos
os Pentecostes invisíveis que sobrevirão no recôndito das almas.
Realizar-se-ão na dependência da ação maternal de Maria.
J. M. Dayet

Precisamente se alguns anos após esta primeira festa cristã de


Pentecostes Jesus chama sua Mãe para ir reunir-se a Ele, em corpo
e alma, na glória do Paraiso; se, no Cenáculo da Jerusalém celeste,
Ele a coroa, à Sua destra, Soberana de todos os eleitos, não é por
que Ele a quer a Seu lado, como oficial distribuidora de todas as
graças da Redenção? Sendo assim, nem uma graça jorrará de seu
Coração às almas sem passar antes pelo Coração de Maria. Sua
vida divina nos será comunicada por meio de quem Ele recebeu sua
vida humana.
A sujeição filial de Jesus nos aparece, pois, como um mistério
de amor que não terá fim. Sim, mesmo quando o número dos
eleitos esti- ver completo e que os tempos tenham passado, seu
Coração guardará os mesmos sentimentos. Eternamente Jesus nos
dará a glória, como presentemente nos dá a graça, por meio de Sua
sagrada Humanidade que Ele recebeu de sua Mãe, e por meio desta
mesma divina Mãe associada num lugar à parte no Seu triunfo.

***

Eis, portanto, a maravilha que antes de tudo Montfort nos


convida a contemplar, apoiando-se unicamente no EVANGELHO:
nosso bom Jesus dependente de Maria no tempo e na eternidade.
Este ponto de vista lhe é muito pessoal. Na sua Carta coletiva,
fixando para o dia 28 de março de 1943 a Consagração de todas
as dioceses da França ao Imaculado Coração de Maria, os
Cardeais, Arcebispos e Bispos o faziam notar. Depois de terem
mencionado entre as glórias mariais francesas São Bernardo e São
João Eudes, acrescentavam: No século XVIII o Bem-aventurado
Grignon de Mont- fort sentiu prazer em insistir sobre o estado de
dependência em que Nosso Senhor quis viver em relação à sua
Mãe...
Uma devoção que apresenta no seu início um tão sublime
Exem- plar, não pode deixar de ser uma devoção vigorosa,
possuindo qua- lidades capazes de satisfazer tanto os espíritos mais
elevados como os simples fiéis. As almas profundamente
fascinadas pelo Cristo, sentir-se-ão ávidas de se apoderar dela.
18
Para melhor amar a Nossa Senhora

Capítulo II
São LuÍS Maria concluiu que NOSSA Senhora NOS é NECESSÁRIA

Em duas linhas apenas, apresentou-nos São Luís Maria as suas


conclusões: a Santíssima Virgem, sendo necessária a Deus, Ela o é
muito mais aos homens para chegarem ao seu último fim (nº 39).
Maria é necessária a Deus no sentido que acabamos de ver, não
falando de modo absoluto, porém só em conseqüência de Sua von-
tade misericordiosa. Para melhor nos socorrer, o Verbo, Sabedoria
do Pai, quis precisar da Santíssima Virgem: Por Maria, Ele
começou e acabou Suas maiores obras... Não mudará Seu modo de
agir na duração dos séculos, porque é Deus e não muda nem os
Seus sentimentos nem a Sua conduta (nº 15). Bossuet,
contemporâneo de São Luís Maria, não falava de outro modo:
“Deus, tendo querido uma vez nos dar Jesus Cristo por Maria, esta
ordem não muda mais, sendo os dons de Deus sem arrependimento”
(sermão sobre a Devoção a Nossa Senhora).
No plano divino atual encontramo-nos, pois, em presença de
uma realidade concreta, da qual devemos tomar consciência. Maria
é necessária a todos os homens sem exceção. São Luís Maria de
Montfort afirma que Ela nos é muito mais necessária do que a
Deus, porque não é permitido a ninguém modificar o plano divino.
Deus podia passar sem Maria; quanto a nós, é impossível.
Feliz impossibilidade! Na ordem natural temos todos
necessidade de uma mãe e não há pessoa que pense em se queixar
disto. Sejamos agradecidos a Deus, de nos ter também dado uma
Mãe para comu- nicar às nossas almas uma vida que é, aqui na
terra, um começo da vida eterna. Sem Maria não teríamos esta
vida em nós.
J. M. Dayet

Por conseguinte, São Luis Maria nos põe imediatamente de


sobrea- viso contra o perigo de confundir a Devoção à Santíssima
Virgem com as devoções aos outros santos, como se não fosse mais
necessária do que a destes (nº 39). Hábito assaz freqüente nas
pessoas mal esclarecidas, que se contentam em considerar Nossa
Senhora como a primeira na lista dos santos, quando, na realidade,
Deus a elevou bem acima de todos. Maria pertence a uma ordem
especial, única no mundo sobrenatural, devido à sua Maternidade
divina corredentora. Não se pode, pois, considerar sua Devoção
num plano inferior, entre as que são facultativas ou de super-
rogação. Podemos dispensar-nos de recorrer à intercessão de um ou
outro santo canonizado, mas temos obrigação de honrar e recorrer
Aquela que recebeu missão de conduzir os eleitos ao céu e da qual
depende continuamente nossa vida sobrenatural.

***

Eis porque a Devoção a Nossa Senhora é, antes de tudo,


NECES- SARIA A TODOS OS HOMENS PARA OBTEREM SUA
SALVAÇAO.
Esta afirmação deve ser compreendida como necessidade de meio,
resultando do plano divino estabelecido. “A Santíssima Virgem é o
meio ao qual se serviu Nosso Senhor para vir a nós; é, também, o
meio ao qual nós devemos servir para ir ter com Ele’’ (nº 75).
Deve ainda entender-se de uma devoção ao menos implícita em
certos casos. Encontram-se almas retas, sinceras, vivendo em
meios heréticos, pagãos ou simplesmente indiferentes, que não
conhecem a Nossa Senhora. Nunca ouviram falar dEla. Sua
sinceridade, porém, é tal, que, se tivessem a felicidade de a
conhecer, lançar-se-iam ime- diatamente nos seus braços. Tais
almas dedicam um culto implícito a Nossa Senhora; estão prontas a
empregar todos os meios de salvação estabelecidos por Deus. E
isto é bastante para salvá-las. É o mesmo que se dá com aqueles
que têm o desejo implícito do batismo, ou a fé implícita no
Redentor, embora não conheçam o Evangelho.

20
Para melhor amar a Nossa Senhora

“Nosso Senhor morreu pelos pagãos que não O conheciam; sua


Mãe intercede pelos cristãos que não a conhecem”, dizia o Cardeal
Newman. Pertencem a Maria que os conhece, como pertencem à
alma da Igreja.
Quanto às almas que conhecem Nossa Senhora e estão cientes
da importância de sua missão, devem dedicar-lhe uma devoção
explícita. Não ter nenhuma estima, nenhum amor por Maria;
desconhecê-la, rejeitá-la de sua piedade pessoal; ainda mais, odiá-
la, considerá-la com desprezo e indiferença, seria colocar-se fora
do caminho da salvação. Por isso, São Luís Maria de Montfort,
cercando-se da autoridade de vários santos e sábios, dos quais cita
os nomes, não hesita em dizer que não estimar, não amar a Maria é
sinal infalível de reprovação (nº 40).
Precedentemente escrevera: “O sinal mais infalível, o mais fora
de dúvida para distinguir um herege, um homem de má doutrina, um
réprobo de um predestinado, é que o herege e o réprobo não têm
senão desprezo ou indiferença para com a Santíssima Virgem...” (nº
30).
Devemos, pois, sem receio afirmar de Maria o que o Catecismo
nos diz da Igreja: Fora de urna como fora de outra, não há
salvação. Fora de Maria não há salvação. A salvação nos veio não
só do Cristo, como o querem os protestantes, porém do Cristo e da
Virgem Santís- sima. Separar Jesus dAquela que permanece sua
Mãe e sua Associada, é destruir a ordem estabelecida pelo próprio
Deus, é apresentar aos homens uma religião que não traz o Seu
selo.
“Quando eu me quero representar a origem, o primeiro instante
da religião, escrevia o Cardeal Billot, eu me afiguro nossos
primeiros pais depois do seu pecado. Escuro o céu diante deles,
escuro também o futuro. Porém Deus faz brilhar aos seus olhos, em
eras afastadas, como um arco-íris, a imagem da Virgem Santíssima
sustentando o seu Filho nos braços e aos pés a serpente infernal
que Ela esmaga com o seu calcanhar; tanto é certo que Nossa
Senhora não ocupa no cristianismo lugar acessório, porém, aí
desempenha papel essencial e que se nos afastamos disto,
alteramos a fisionomia do cristianismo”.
J. M. Dayet

Longe de se afastarem deste modo de pensar, as almas verdadei-


ramente cristãs têm a peito aderir com todas as suas forças a Maria,
apesar de suas misérias e fraquezas. Acham-se, portanto, no cami-
nho do céu. Junto a Maria não há condenação. Sua Devoção, diz
São Luís Maria, é um sinal infalível de predestinação (nº 40). São
João Damasceno afirmava que é um penhor seguro de
predestinação. Mais suavemente ainda, São Boaventura gostava de
dizer: “Há uma nona bem-aventurança que podemos acrescentar às que
foram proclamadas por Nosso Senhor: Felizes as almas que se
confiaram a Nossa Senhora; seu nome está registrado no Livro da
vida!”.
Mesmo almas presentemente pecadoras, acabarão saindo de
seus pecados se perseverarem em invocar a Maria. “Aquele que
recorre a Nossa Senhora, seja ainda o maior pecador da terra,
jamais perecerá”, escrevia Santo Hilário no 4° século.
Quantumcumque quis fuerit pec- cator, si Mariae devotus extiterit,
nunquam peribit.
“Como é isto, perguntava-se a si mesmo São Pedro Damião,
doutor da Igreja, que o bom ladrão não se converteu quando
acompanhava Jesus levando a Sua cruz?... Felizmente achava-se ao pé
da cruz de Nosso Senhor a Santíssima Virgem, do mesmo lado em
que estava a cruz deste pobre ladrão. Os olhares de Jesus para ele e
dele para Jesus, passavam pela Mãe de Misericórdia, que, intercedendo
por ele no momento em que ia cair do suplício temporal nos suplícios
eternos, lhe obteve a graça de entrar no céu”. Desde o Calvário, nunca
se ouviu dizer que um pobre pecador, tendo implorado seu perdão
através de Nossa Senhora, não tenha sido atendido. Com maioria
de razão os cristãos, fiéis em interceder
a Maria, jamais hão de perecer. Servus Mariae nunquam peribit.

***

São Luís Maria acrescenta: Se a Devoção a Nossa Senhora é


necessá- ria a todos os homens, para alcançarem simplesmente sua
salvação, ela o é ainda muito mais àqueles que são chamados a uma

22
perfeição particular (nº 43).

23
Para melhor amar a Nossa Senhora

O que se deve entender não somente das almas consagradas,


mas também de muitas outras vivendo no meio do mundo, quer no
matrimônio quer no celibato. É um fato que em todos os estados de
vida encontram-se almas perfeitas; porém nenhuma o conseguiu
sem Maria. Não creio, afirma o santo, que uma pessoa possa
adquirir união íntima com Nosso Senhor e uma perfeita fidelidade ao
Espírito Santo, sem uma grandíssima união com a Santíssima Virgem
e uma grande depen- dência de seu socorro.
A união íntima com Nosso Senhor é o termo da vida espiritual.
A docilidade ao Espírito Santo designou sempre os verdadeiros
filhos de Deus. Seus progressos são evidentes. Apóstolo
experimentado, Montfort não julga possível estes resultados sem
uma intimidade com Nossa Senhora que ultrapasse a devoção do
comum dos fiéis.
Para justificar sua afirmação, São Luís Maria lembra a pleni-
tude de graças com que foi cumulada a alma de Maria. Plenitude
inicial absolutamente privilegiada, plenitude sempre crescente, ple-
nitude superabundante no momento da Encarnação, atingindo em
seguida proporções imensas, inconcebíveis. Enriquecendo assim Nossa
Senhora, Deus pensava nas almas que Ela teria de santificar no
decor- rer dos séculos. Ele a constituía a ÚNICA Tesoureira de
seus tesouros e a ÚNICA Distribuidora de suas graças, para enobrecer,
elevar e enriquecer a quem Ela quiser; para fazer entrar quem Ela
quiser no caminho estreito do céu... e para dar o trono, o cetro, a
coroa a quem Ela quiser (nº 44).
A missão de Maria não é a de povoar o céu de santos, preencher
os lugares vazios pela queda dos anjos apóstatas? Todas as almas
que aspiram à perfeição, à santidade, não se santificarão, pois,
senão na medida em que dEla receberem as graças abundantes de
que precisam. Quanto mais unidas a Maria, mais dependerão
conscientemente de seu socorro e tanto mais dEla hão de receber.
Maria lhes é necessária. Aquelas que pensarem poder passar sem
Ela, estão na ilusão.
É conhecida a história referida nas crônicas de São Francisco de
Assis. São Luís Maria faz alusão a esta quando fala sobre a
devoção a Nossa Senhora, necessária à salvação. É mais eloqüente
ainda, quando se trata da devoção das almas alistadas nos caminhos
da perfeição.
J. M. Dayet

Um dia, arrebatado em êxtase, viu São Francisco duas escadas


que subiam da terra até ao céu. Bem no cimo da primeira, que era
vermelha, estava Nosso Senhor. Na outra, que era branca, estava a
Virgem Maria. Os Filhos do santo subiam com ardor pela escada
vermelha para ir ter com Nosso Senhor, julgando assim andarem
mais depressa. Porém, baldados eram seus esforços: caiam todos
por terra, desanimados. Vendo isto, São Francisco começou a
chorar amargamente e a se queixar amorosamente a Jesus, que lhe
respondeu: “Manda os teus irmãos irem para a minha Mãe e
subirem pela escada branca”. Imediatamente o fundador transmitiu
esta ordem aos seus religiosos. E estes subiram, com facilidade, a
escada virginal. Foram recebidos no céu por Maria, que os
conduziu a Jesus.
Por céu deve-se aqui entender o lugar eminente, assinalado a
cada um por seu estado de perfeição. Sem Maria, não teriam
atingido esse lugar; nem antes aqui na terra a intimidade com
Nosso Senhor, que deve ser a característica das almas consagradas.
Tanto é verdade, que “só a Maria Deus entregou as chaves dos
celeiros do amor divino e o poder de entrar nas vias mais sublimes e
mais secretas da perfeição e de aí fazer entrar os demais” (nº 45).
“Todos os ricos dentre o povo, para me servir da expressão do
Espírito Santo (Sl 44, 13), exclama São Luís Maria seguindo a São
Bernardo, todos os ricos do povo suplicarão vossa face de século em
século... Isto é, os maiores santos, as almas mais ricas em graça e em
virtudes, serão as mais assíduas em recorrer a Nossa Senhora, tendo-
a sempre presente como seu perfeito modelo para imitá-la e sua
auxiliar poderosa para as socorrer” (nº 46).
E se isto é uma verdade de todos os tempos, sê-lo-á, principal-
mente, à medida que nos aproximarmos do fim. “Porque o
Altíssimo, com sua Mãe Santíssima, devem então formar para si
grandes santos, que ultrapassarão mais em santidade a maioria dos
outros quanto os cedros do Líbano ultrapassam os pequenos
arbustos” (nº 47).
Serão necessários, efetivamente, santos desta envergadura para
se oporem vitoriosamente aos falsos cristos e aos falsos profetas
que devem surgir, segundo o que anuncia o Evangelho, e que hão
24
de

25
Para melhor amar a Nossa Senhora

realizar tais prodígios que, se fosse possível, seduziriam os


próprios eleitos.
Maria revestirá com sua força estas grandes almas, para
esmagar a cabeça da serpente infernal até o último dia do mundo.
Fará destas almas seus apóstolos, os apóstolos de seu Reino e do
Reino de seu divino Filho.
Razão a mais para todos os verdadeiros cristãos, e
principalmente para aqueles que aspiram à perfeição, de se
colocarem resolutamente do lado de Nossa Senhora, com a firme
convicção de que sem Ela, como sem o Cristo, e porque o Cristo
assim quis, nada poderão fazer que deva durar eternamente.

Capítulo III
POIS que Maria NOS é NECESSÁria, DEVEMOS honrá-la
por uma verdadeira devoção

Depois do que ficou dito no capítulo precedente, não parece


desnecessário acrescentar que devemos honrar a Maria por uma
verdadeira Devoção? Já não está entendido? Sem dúvida.
Entretanto, há tantas pessoas batizadas e fiéis cuja devoção a Nossa
Senhora não apresenta esta nota. É preciso, pois, esclarecer este
ponto.
Por sua vez, o demônio - como um falsário que só se aplica a
contrafazer documentos de valor ou notas grandes - ataca de pre-
ferência a Devoção a Nossa Senhora em razão de sua excelência e
de sua necessidade. Quantas almas não enganou e condenou, ador-
mecendo-as por toda uma vida no pecado, sob pretexto de certas
J. M. Dayet

práticas ilusórias que lhes inspirava, tais como as de salvá-las no


momento da morte!
É pois importantíssimo, diz Montfort, assinalar as falsas
devoções à Santíssima Virgem, para serem evitadas, e em seguida dar
os sinais da verdadeira, para ser seguida (ns. 90 e 91).

***
Entre as falsas devoções, há a dos espíritos ESCRUPULOSOS,
ou acanhados, que têm medo de fazer demais pela Santíssima
Virgem, “que receiam desonrar o Filho honrando a Mãe, diminuir
um elevando a outra” (nº 94). Dirão que exagerais, colocando
Nossa Senhora no lugar de Deus. Para que todas estas orações
diante de um altar de Maria? Procurem o Santíssimo Sacramento!
De que servem tantos terços, tantas confrarias e devoções
exteriores? Não será complicar, embaraçar, sobrecarregar,
ridicularizar mesmo a Religião? Não deve ser bastante Jesus
Cristo? Não é Ele nosso único Mediador?...
Conceitos perigosos, perniciosos. Parecem as sugestões daquele
que Nosso Senhor denomina “o mentiroso e pai da mentira” ( Jo 8,
44). A Devoção a Nossa Senhora seria, pois, contrária à honra e ao
amor que devemos a Jesus? Rogando à Santíssima Virgem, não é a
Nosso Senhor que o entendemos fazer por meio dEla? Não é a
Jesus que queremos, assim, honrar mais perfeitamente? Maria não
é, aliás, o caminho que conduz a Jesus? Porque, então, querer
assinalar limites à nossa devoção para com Nossa Senhora? Quanto
mais a amarmos, mais Ela nos fará amar seu divino Filho, tanto
mais Ela fará de nós almas famintas do Cristo Jesus.
O Pe. Garrigou-Lagrange, professor de teologia no Colégio
angé- lico dos Dominicanos, em Roma, termina sua recente obra
sobre A Mãe do Salvador e nossa vida interior, dando uma
resposta sua a esta pergunta de um. “Pequeno catecismo marial”,
que o Revmo. Padre declara muito bem feito: PODEMOS AMAR
DEMAIS NOSSA SENHORA? Não; se MARIA é um caminho para
Deus, quanto mais a

26
Para melhor amar a Nossa Senhora

amarmos mais amaremos a Deus, e o verdadeiro amor à Santíssima


Virgem que é um amor, não de adoração, porém de veneração, deve
sempre crescer. Eis porque Jorge Goyau, da Academia Francesa,
escrevia, fazendo voltar o argumento dos devotos escrupulosos
contra eles mesmos: O que tiramos a Jesus, seja o que for que tenha
dito a teologia jansenista, não é o que damos a Nossa Senhora;
porém, muito ao contrário, o que é tirado à Virgem Maria ocasiona
uma deficiência nas nossas homenagens a Jesus. Medir nosso amor
por Maria é, pois, amar menos o próprio
Nosso Senhor.
- Os devotos EXTERIORES demonstram igualmente um defeito
em seu modo de julgar. Aceitam com gosto as práticas habituais de
devo- ção a Maria, mas se detêm no que ela tem de exterior. Tudo
o que se vê os atrai: festas, cerimônias, procissões, peregrinações,
reuniões de confrarias, etc... Sua sensibilidade acha-se, com isto,
satisfeita. Não vão além. Falta-lhes o espírito interior. Vedes que
“recitam muitos terços às pressas, assistem várias missas
distraídos, acompanham as procissões sem devoção, filiam-se em
todas as confrarias sem mudarem de vida, sem resistirem às suas
paixões e sem imitarem as virtudes da Santíssima Virgem” (nº 95).
Como observais que são hoje, tais os encontrareis mais tarde. A
alma não retirou nenhum fruto de práticas tão santificadoras por si
mesmas.
“O mundo está cheio desses devotos exteriores”, observa judi-
ciosamente São Luís Maria. São reconhecidos por seu espírito de
curiosidade e de maledicência. Porque “não há pessoas que
critiquem mais as almas de oração que se aplicam ao interior como
à coisa mais essencial”. Suas conversas são faltas contínuas de
caridade. Por isso prejudicam muito a religião. Que valem estas
pessoas que freqüentam a igreja?, dirão. Não são melhores do que
as que não praticam.
Como poderia Nossa Senhora aceitar um tal simulacro de
devoção?
- Outra categoria é a dos devotos PRESUNÇOSOS. Nestes, a
von- tade se tornou profundamente má. Trata-se não de pobres
pecadores, vítimas de suas fraquezas, deplorando suas quedas e
recorrendo a Maria para se erguerem e saírem deste miserável
estado; porém de
J. M. Dayet

pecadores abandonados, sem remorsos às suas paixões, cometendo


conscientemente o pecado mortal e recusando toda emenda
enquanto lhes sorrir a vida presente.
O que acontece é o seguinte: como são instruídos e guardam a
fé, temem uma coisa: a condenação eterna. Pedem então a Nossa
Senhora uma certeza contra este desastre irremediável. Eis porque
rogam-na, invocam-na, recorrem mesmo às práticas de piedade
reco- mendadas pela Igreja e pelos santos. Imaginam poder assim
descansar na bondade de Maria como na misericórdia de Deus, que
não nos criou, dizem, para nos condenar. E continuam a pecar com
toda a calma, a saborear todos os frutos proibidos. Maria os salvará
na hora da morte. Salvou tantos outros!, dir-vos-ão ainda. A prova
que dão: a relação de inúmeras proteções milagrosas, concedidas
por Nossa Senhora no último momento.
São Luís Maria não se mostra sensível para com esta classe de
falsos devotos, porque são os piores. “Nada é tão condenável, no cris-
tianismo, como esta presunção diabólica. Pode-se dizer, com verdade, que
se ama e se honra a Santíssima Virgem quando, por seus pecados, se
crucifica e se ultraja sem compaixão Jesus Cristo, seu Filho? Se Maria
fizesse para si uma lei de salvar por sua misericórdia esta casta de
pessoas, autorizaria o crime, ajudaria a crucificar e ultrajar seu Filho;
quem ousaria pensar isto? Digo o seguinte: que abusar de tal forma da
devoção à Santíssima Vir- gem, é cometer um horrível sacrilégio.
Depois do sacrilégio da comunhão
indigna, é o maior e o menos perdoável” (ns. 98 e 99).
Séria advertência de um santo àqueles que pensam que hão de
se salvar continuando a cometer pecados graves com o capcioso
pretexto de que se abrigaram sob o manto de Maria.
- Existe ainda os devotos INCONSTANTES e os
INTERESSEIROS. Muito menos culpados que os precedentes,
demonstram, no entanto, uma vontade fraca no serviço de Nossa
Senhora. Nos primeiros predomina a leviandade; nos segundos, o
egoísmo matou a piedade verdadeira.
Os inconstantes amam a Santíssima Virgem por intervalos e
capri- chos. Ora são fervorosos, ora tíbios. Por vezes parecem
decididos a
28
Para melhor amar a Nossa Senhora

tudo empreender, em favor de Nossa Senhora, e daqui a pouco já


não são os mesmos. Filiam-se em todas as confrarias e não seguem
os estatutos de nenhuma. À menor tentação abandonam suas
práticas de devoção, prontos a retomá-las quando lhes aprouver.
Como poderá a Virgem fiel contá-los entre os seus servos? São
indignos desta graça. Vale mais assumir menos compromissos e
cumpri-los.
Os devotos interesseiros recorrem a Maria quando a
necessidade os obriga a isto e sempre para negócios de ordem
temporal: processos a ganhar, doenças a superar, perigos a evitar,
etc... Não estão atentos, senão aos males físicos e à perda dos bens
materiais. Se a saúde é boa, o comércio próspero, os negócios a
caminho de progresso, não cogitarão nunca em recorrer a Nossa
Senhora, nem lhe dar graças. Sobrevenha, no entanto, uma
dificuldade, logo uma vela no altar de Maria ou então a troca de
uma medalha.
A Santíssima Virgem não pode atender tais devotos, tão descui-
dados de sua eternidade. Não é Ela antes de tudo Mãe das almas e
seu primeiro papel não é o de nos obter graças espirituais?
É preciso, pois, tomar bem cuidado para não cair numa ou nou-
tra destas categorias. Do contrário, poderíamos acreditar andar no
caminho da salvação; na realidade, o demônio nos levaria por uma
trilha larga, conduzindo-nos ao abismo.

***

A Verdadeira Devoção é fácil de ser reconhecida: tem sinais


que não enganam.
Primeiramente, é interior: provém do espírito e do coração. Do
espírito que formou para si uma alta idéia das grandezas de Maria;
do coração, que lhe dedica um amor a toda prova. Uma vez
conquistadas a inteligência e a vontade, a alma lhe é inteiramente
devotada. Por conseguinte, esforça-se em manifestar exteriormente
esta estima e amor por diferentes práticas de piedade, deixadas à
iniciativa de cada um, e também por um zelo pronto em não deixar
passar nenhuma ocasião de fazer conhecer a Nossa Senhora e
estender o seu Reino.
J. M. Dayet

Várias práticas serão as mesmas que as de muitos falsos


devotos: terços, jejuns, peregrinações, etc... Porém desta vez o
fervor as ani- mará; não a rotina ou o desleixo.
- A verdadeira Devoção é terna, isto é, cheia de confiança em
Maria, como a de um filho na sua boa Mãe. A alma recorre então
à sua intercessão, com uma grande simplicidade, em todas as suas
precisões, tanto nas do corpo como nas do espírito. Pede o seu
auxí- lio, sua assistência em todo o tempo, em todo lugar e em tudo
mais: nas suas dúvidas, para ser esclarecida; nos seus desvios, para
voltar ao reto caminho; nas suas tentações, para ser sustentada; nas
suas fra- quezas, para ser confortada; nas suas quedas, para ser
levantada; nos seus desânimos, para ser animada; nos seus
escrúpulos, para ficar livre deles; nas suas cruzes, trabalhos e
aflições da vida, para ser consolada. Maria é o seu recurso
ordinário e jamais lhe vem à idéia de que está importunando esta
boa Mãe ou desagradando a Jesus Cristo (nº 107).
Admirável simplicidade! Esta alma dá provas de que ama
verdadeiramente.
- A verdadeira Devoção é Santa: induz a alma a evitar o pecado
e a imitar as virtudes da Santíssima Virgem. Evitar o pecado não é
bastante: é o lado negativo da santidade. É necessário
principalmente aplicar-se de modo positivo em reproduzir as
virtudes do Coração de Maria. Virtudes amáveis e acessíveis,
porque praticadas por uma pessoa humana, irmã de nossas almas,
que andou pelos nossos cami- nhos e que, agora, facilita nosso
acesso ao Cristo.
São Luís Maria enumera aqui as dez principais virtudes de
Nossa Senhora. O que quer dizer que não devemos negligenciar
nenhuma. Mas, ao menos para começar, poderemos nos aplicar a
imitar parti- cularmente sua humildade profunda, virtude básica e
insubstituível; em seguida, sua obediência cega, sua paciência
heróica, sua mansidão angélica. Quando estas virtudes florescem
numa alma, as outras tam- bém estão em bom caminho e o
progresso espiritual se afirma.
- Enfim, a verdadeira Devoção a Maria é constante e
desinteressada. Não seria bastante ser interior, terna e santa, se
30
todas estas belas qualidades durassem apenas algum tempo. A
constância é um elemento

31
Para melhor amar a Nossa Senhora

necessário. A alma devotada a Maria se consolida de dia para dia


no seu caminho de santidade e se aperfeiçoa cada vez mais às suas
práticas de piedade. Estas práticas, repousando sobre uma
convicção profunda e não sobre impressões fugitivas, são já, por si
mesmas, garantias contra os assaltos que podem sobrevir da parte
do demônio, do mundo ou da carne.
O demônio sabe matizar suas tentações: a alma constante saberá
frustrar seus planos. O mundo se aplica em variar seus prazeres
como suas modas, o que lhe obtém seu triunfo; a alma constante
ficará fechada para o mundo. A carne também gosta de se inclinar
ora para tal satisfação, ora para outra; a alma constante lhe oporá
uma vontade firme. Ficará assim na sua felicidade espiritual.
No entanto, como não é impecável, nem puro espírito, pode lhe
acontecer às vezes cair ou sofrer na sensibilidade de sua devoção.
Se, porém, ela cai, levanta-se imediatamente, estendendo a mão à
sua boa Mãe; se ela ficar sem gosto nem fervor sensível, não se
importa, porque na sua inteligência a fé continua a projetar luzes.
O desinteresse acrescenta uma última perfeição, que consiste
em não se buscar a si próprio, porém Deus só em Maria.
Não buscar a própria satisfação no serviço de Nossa Senhora.
Não colocar na frente as vantagens que dele se pode auferir, nem
no temporal nem mesmo no espiritual. Não que devamos rejeitar a
intenção pessoal, sobretudo a de nossa salvação, porém esforçar-
nos-
-emos em servir Maria porque Ela merece ser servida: antes de
tudo sua honra, antes de tudo sua glória. Não a amaremos porque
Ela nos faz bem, ou porque esperamos dEla alguma coisa, mas
porque é amável e é uma felicidade amá-la.
Chega-se então a ponto de a servir tão fielmente na aridez como
na consolação, nos períodos de secura como nos momentos de
fervor. A vida espiritual conhece estas alternativas. Ama-se a
Maria tanto no Calvário como nas bodas de Caná. Sua visão íntima
permanece sempre atraente (nº 110).
Atingimos aqui um alto grau da devoção marial: o grau do
‘’puro amor”: amar a Deus por Ele mesmo, amar Maria
por
J. M. Dayet

Deus, segundo a bela fórmula de São Luís Maria de


Montfort: “Deus só em Maria”. O que é promover a eterna
glória de Deus na realização de nossa própria felicidade.

***

Tais são os traços essenciais da verdadeira Devoção a Nossa


Senhora: a vida interior é o seu ponto de partida, a ternura filial a
expressão, a santidade o fruto, a constância o testemunho
permanente, o desinteresse do coração que ama e vive no objeto
amado, forma seu coroamento. Um belo exemplo ilustrará tudo o
que acabamos de explicar.
André Bellessort, da Academia Francesa, numa viagem oficial
ao Japão contou, na “Revista dos Dois Mundos” de 15 de julho de
1931, a visita que fez ao leprosário de Koyama, localidade vizinha
de Gotemba. Diz o seguinte: “O Pe. José Bertrand reunira ali os
pobres seres que, expulsos pelos habitantes das cidades e aldeias,
arrastavam pelos caminhos e aldeias sua decomposição viva. Para
dar uma idéia de seu estado, na primeira sala em que entrei senti
um forte cheiro de carne queimada. Um leproso apoiara seu pé
descalço na lareira de estanho, altamente aquecida. Era no inverno.
Insensível ao fogo, como à crepitação, continuava o infeliz a
cochilar.
Depois da minha visita, o padre me deteve para almoçar...
Interro- guei-o não sobre seus doentes, mas sobre ele próprio.
Vivia, pois, só com eles? Sim, só, salvo nos dias em que um
confrade, desviando-se do caminho, vinha apertar-lhe a mão.
E não conhecia, o padre, horas sombrias e desânimos amargos?
Não; nestes refugos humanos, entre estes cadáveres que se moviam
e respiravam ainda, fazia sua pequena messe de almas.
Confessei-lhe minha admiração. Não me admireis, respondeu-
me, não estou tão só como parece. Tenho uma proteção, um refúgio
contra todas as tristezas. E mais de uma vez, durante a conversa,

32
fez alusão

33
Para melhor amar a Nossa Senhora

a este refúgio, a esta proteção. Era de uma simplicidade


encantadora. Conservava sua alegria no meio de imagens
espantosas, de uma morte que seria provavelmente a sua.
Terminado o almoço, disse-me: ‘Quero que saibais de onde me
vem o meu conforto. Compreendereis quando o tiverdes visto e que
não devo ser lamentado’. Conduziu-me, então, ao seu jardim, que
era verdadeiramente japonês, porém um pouco descuidado. Assinalou-
me nele algumas singularidades interessantes e belas; enfim, por
detrás de uma cortina de árvores mostrou-me uma estátua de Nossa
Senhora, de pé sobre pedrinhas, com a veste semeada de estrelas,
como se vê nas lojas de São Sulpício.
- Como é bela!, disse-me. Cada vez que tenho um desgosto,
cada vez que me sinto prestes a desanimar, venho ter com Ela, olho
para Ela, rezo e volto com mais coragem e entusiasmo do que
nunca. Não a acha bonita? - É belíssima!, respondi-lhe. Mas o que
eu achava belíssimo era ele; o que eu achava maravilhoso era toda
a beleza consoladora que ele encontrava nesta pobre estátua de
gesso... Eis um homem que tinha consagrado todos os momentos
de sua vida a infelizes que me faziam recuar de horror; e quando
este homem receava sentir um desfalecimento, recuperava sua
energia contem- plando uma Virgem de São Sulpício”.
Nesta estátua de gesso a alma do missionário descobria os
encan- tos daquela cuja incomparável formosura está
principalmente no interior. Sua piedade era interior, atirando-se em
linha reta para o Coração de Maria.
Era terna, exatamente tal como a descreve São Luís Maria. Que
candura, que confiança, que simplicidade de criança! Maria era seu
refúgio ordinário, e não tinha medo de a importunar. Eis porque ele
nunca se achava só.
Sua devoção era santa, e até ao heroísmo. Viver com o sorriso
num tal meio, que plenitude de fé, de abnegação, de mortificação,
de caridade, de paciência, de bondade nos revela!
Era constante a ponto de progredir em força, de dia em dia,
apesar das contínuas repugnâncias da natureza.
J. M. Dayet

Era, principalmente, desinteressada. Este pobre sacerdote,


isolado do mundo como os seus leprosos, nunca pensava em si.
Não fazia caso de sua pessoa e de sua vida. Colhia almas em
corpos testemunhas de sua própria decomposição. Povoava o céu.
Dilatava o Reino de Deus num canto de nossa terra, cuja posse
ninguém lhe disputava. Revelava a doçura de Maria a infelizes,
capazes, tanto como outros, de se santificarem. E trabalhando
assim para Maria e para Deus, só em Maria preparava a si mesmo
um céu belíssimo. No meio em que vivemos não será mais fácil a
cada um de nós amar a Maria e dar-lhe provas de uma verdadeira
devoção?

Capítulo IV
A verdadeira devoção a NOSSA Senhora
compreende DIVERSAS PráticaS

Se encontramos falsas devoções a Nossa Senhora, é porque não


existe e não pode existir senão uma verdadeira: aquela da qual
descre- vemos os caracteres. Daí a expressão tradicional:
Verdadeira Devoção a Nossa Senhora.
Somente no seu exercício e nas suas manifestações é que ela
oferece às almas numerosas Práticas, cuja variedade acrescenta um
encanto à piedade marial da grande família dos filhos de Deus.
Entre estas Práticas, umas são interiores, outras exteriores. As
pri- meiras partem da alma e permanecem principalmente no
íntimo desta. As segundas vêm também da alma, sem o que não
teriam nenhum valor aos olhos de Deus, que considera o interior;
porém manifes- tam-se exteriormente, apresentam um elemento
visível, tangível, que as distingue das outras.

34
Para melhor amar a Nossa Senhora

É injustamente que certos espíritos procuram criticar e ridicula-


rizar estas Práticas externas.
Não se deve criticá-las, afirma São Luís Maria (nº 226), por-
que, se são bem feitas, ajudam poderosamente as Práticas
interiores. Um terço, recitado em comum, anima ao fervor. O
fervor de cada um está no íntimo da alma mais ou menos variado,
mais ou menos intenso, porém sempre susceptível de progresso.
Este não deixará de se patentear se todos empregarem, na sua
recitação, a devida aplicação. Na Introdução aos seus
Entretenimentos sobre os Mistérios do Rosário, Monsenhor Gay se
compraz em referir uma recordação pessoal que confirma esta
asserção. Numa bela tarde de outono, quando visitava, na
campanha romana, veneráveis ruínas, junto a uma colina coberta
de abundantes vinhas, de repente ouviu, por um grupo de moças
que trabalhavam nesse vinhedo, a recitação do Rosário em dois
coros. Muito mais do que a frescura e harmonia das vozes, o surto
de piedade que subia e crescia com as Ave-Marias comoveu,
sobretudo, o atento bispo-peregrino. “Fiquei profundamente
emocionado, anotou Monsenhor Gay, e não sei se concerto humano algum
dia mais me tocou”3.
Da mesma forma qual foi a pessoa, em visita ou em retiro, numa
ou noutra das Trapas francesas, que não sentiu esse ardor da prece
que se eleva toda a tarde na igreja do mosteiro, quando os irmãos
leigos vão se juntar, no meio do coro, aos religiosos sacerdotes,
para cantarem, todos reunidos, no fim do Ofício, a antífona da
Salve Regina diante da estátua iluminada de Nossa Senhora? Se
este invariável canto tem o dom de impressionar sempre, não será
precisamente porque todas as vozes vêm aí se juntar e transportar
mais os cora- ções numa santa emulação de amor? É, pois, um fato
incontestável: as Práticas exteriores contribuem poderosamente
para aumentar o fervor íntimo.
Além disso, lembra-nos o que fizemos ou devíamos ter feito.
Consignei, no meu regulamento, a obrigação de rezar cada manhã a
Coroinha de Nossa Senhora para honrar seus privilégios e da
mesma forma, no
3
Págs. 40 e 41
J. M. Dayet

fim do dia, um dos terços do Rosário com a meditação dos


mistérios correspondentes. Fui hoje fiel a esta obrigação? Não
esqueci ou omiti uma destas orações? Não as fiz com negligência
ou por costume? Empreguei na sua recitação toda a minha alma?
Minha oração foi uma oração fervorosa ou uma fórmula sem vida?
Podemos julgar por estes exemplos quanto os dois elementos, o
interior e o exterior, são necessários um ao outro. Compenetram-se
e caminham juntos. Será sempre assim enquanto peregrinarmos
neste mundo em corpo e alma.
Finalmente, acrescenta Montfort, as Práticas exteriores são
próprias a edificar o próximo que as vê. O que dissemos acima
prova-o bem. Uma pobre mulher que vemos recitando seu Rosário
com grande recolhimento, num canto da igreja, não nos incita a
imitá-la ou, então, não é ela uma secreta repreensão à nossa
precipitação habitual? Quantas vezes não fomos conquistados por
certas manifestações de sólida piedade, observadas nos outros?
Fomos feitos para viver com nossos semelhantes e não nos
podemos edificar mutuamente senão por sinais exteriores. Que os
homens vejam vossas boas obras, disse o divino Mestre, e
glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5, 16).
A divisão das Práticas da Verdadeira Devoção a Maria em
interiores e exteriores é, pois, excelente, profundamente baseada
nas exigências de nossa natureza humana. É necessário tanto mais
acolhê-la, quanto ela nos deixa uma grande latitude - para honrar
Nossa Senhora segundo nossos atrativos e nossos desejos de
perfeição.

***

Antes de tudo, expomos aqui as Principais Práticas Interiores,


segundo São Luís Maria:

1.º “Honrar a Nossa Senhora, como a digna Mãe de Deus, pelo


culto de hiperdulia: o que quer dizer... estimá-la e honrá-la
acima de todos os outros santos, como a obra prima da graça e

36
a primeira depois de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro
homem”.

37
Para melhor amar a Nossa Senhora

Já fizemos notar isto precedentemente: a Santíssima Virgem


per- tence a uma ordem especial, única no mundo sobrenatural:
à ordem da Maternidade divina. Estamos aqui, diz o Pe.
Régamey,
O. P., “diante de uma mulher cujo filho é Deus. É assombroso!
Seu Filho é Deus. Experimentemos pesar estas palavras ou,
antes, dei- xemo-nos arrebatar por elas. Para que abismos?...”4.
Devido a esta supereminente dignidade, Deus - Criador Onipo-
tente - devia formar Nossa Senhora como lhe convinha. Ele a
fez, diz São Luís Maria, a obra prima da graça e a primeira
após o Verbo encarnado. Tenhamos gosto de venerá-la nesta
grandeza e elevação. Isto é para nós mais fácil, já que a Igreja
estabeleceu o mistério da Maternidade divina como o
fundamento inabalável do culto que professa a Nossa Senhora.
No Concílio de Éfeso, em 431, definiu solenemente este dogma
de nossa fé. Foi então que à saudação do Arcanjo e às palavras
de Isabel foi acrescentada, segundo uma opinião antiga, a
invocação que daí por diante não cessou de ser repetida: Santa
Maria, Mãe de Deus, rogai por nós. Honrar em primeiro lugar
o privilégio constitutivo das grandezas de Maria é, pois, colocar
nossa devoção ao lado daquele que lhe presta a Igreja. Todas as
almas cristãs reconhecem na Virgem Santíssima este título
fundamental de um modo mais ou menos esclarecido. Existiram
almas que levaram este reconhecimento aos esplendores da
piedade, como, por exemplo, o Cardeal de Bérulle. Leremos
sempre com grande proveito as Elevações magníficas que nos
deixou. Elevações estas em que o próprio Bossuet se inspirou.

2.º Outra Prática interior consiste em meditar as virtudes, pri-


vilégios e ações da Santíssima Virgem. Prática luminosa e
santifi- cadora. Coloca-nos de modo habitual em face do
Modelo ideal mais acessível à nossa fraqueza. Modelo ideal,
pois que nenhuma outra criatura foi tão cumulada por Deus e
correspondeu mais plenamente às suas graças. Modelo
acessível, no entanto, porque Nossa Senhora permanece
simples pessoa humana como nós. Por
4
“Les plus beaux textes sur la Vierge Marie”, pág. 1. (Paris. La Colombe.)
J. M. Dayet

elevada e grande que seja pelos seus privilégios - sua


Imaculada Conceição, por exemplo -, continua a ser de nossa
linhagem, filha de nossa raça e de nosso sangue. Nos é
permitido vê-la muito próximo de nós, perto de nosso coração,
de nossas misérias e das ásperas realidades da vida. Não
caminhou ela ao longo de nossas estradas? Não executou,
como nós, a maior parte de nossas ocu- pações materiais? Não
teve que praticar as virtudes quotidianas de humildade, de
paciência, de mansidão, de misericórdia?
Vê-la agir, rezar, trabalhar, sofrer, sempre na plena posse de si
mesma e para o agrado de seu Senhor e Deus, só nos poderá
induzir a percorrer um caminho espiritual, infalivelmente
ascen- dente. A Ordem da Anunciada, fundada por Santa Joana
de França, filha de Luís XI, apresenta esta fisionomia peculiar:
tende eficaz- mente a reproduzir, na vida de seus membros, as
dez principais virtudes que o Evangelho assinala na Santíssima
Virgem: pureza, prudência, humildade, fé, piedade, obediência,
pobreza, paciên- cia, caridade e compaixão. Daí, para essa
Ordem, a designação graciosa. “Ordem das dez Virtudes”, ou,
ainda, “das dez Alegrias de Nossa Senhora” - as virtudes de
Maria sendo as alegrias que Ela oferecia ao seu Amado.

3.º Outra Prática interior: a contemplação das grandezas da


Santís- sima Virgem. Certos espíritos são levados
instintivamente a isto, sob a ação de uma graça, proveniente
bem assinalada. De sua contemplação nos chegaram as mais
belas obras sobre o mistério de Maria. Gostar de lê-las será
sempre fonte incomparável de enriquecimento.
São Luís Maria confessava ter lido quase todos os livros que
tra- tam da Devoção a Nossa Senhora. As páginas que servem
de lntro- dução ao seu magistral Tratado, nos revelam o enlevo
que deixou na sua alma a leitura desses livros. “O olho não viu,
o ouvido não ouviu, nem o coração do homem compreendeu as
belezas, grandezas e excelências de Maria, o milagre dos
milagres da graça, da natureza e da glória” (nº 12). E, excedendo
todos os seus predecessores, ele
38
Para melhor amar a Nossa Senhora

nos descreverá a maternidade espiritual de Maria e sua Realeza


no mais íntimo dos corações, como brotando das grandezas da
Maternidade divina integralmente compreendida.

4.º Outras almas, menos aplicadas à contemplação, fazem con-


sistir sua devoção a Nossa Senhora em atos de amor, de louvor
e de gratidão.

5.º Outras ainda, talvez mais detidas pelas ocupações de uma


vida muito ativa, contentam-se de a invocar de coração nas
suas orações como no meio de seus trabalhos. São LuÍs Maria
diz “cordialmente”, para indicar que se trata menos de orações
vocais determinadas do que de surtos habituais da vontade.
O santo acrescenta, finalmente, três outras Práticas interiores
que denotam progresso sobre as precedentes e das quais ele
retém com satisfação a última.
6.º Oferecer-se e unir-se a Maria. O que é mais, certamente,
que recorrer a Ela por intervalos, quer se trate de meditações e
atos de louvor, ou de simples surtos do coração. Aqui nos
encami- nhamos claramente para uma dependência amada, que
será de todos os instantes.
7.º Fazer suas orações em vista de lhe agradar, isto é, em
espírito de desinteresse pessoal e com uma grande pureza de
intenção. Motivo nobilíssimo e elevadíssimo.

8.º Começar, continuar e terminar todas as suas ações POR


Maria, COM Maria, EM Maria e PARA Maria, a fim de fazê-las
POR Jesus Cristo, COM Jesus Cristo, EM Jesus Cristo e PARA Jesus
Cristo, nosso último fim. Esta Prática, que coroa as precedentes,
possui a vanta- gem imensa de oferecer às almas um programa
de espiritualidade marial, em harmonia com a grande oração do
Cânon da Missa. Mais adiante explicá-la-emos.

***
J. M. Dayet

Quanto às Práticas exteriores da Verdadeira Devoção a Nossa


Senhora, Montfort nos assinala também as principais:

1.º Inscrever-se nas suas confrarias e Congregações. Estas continuam


a fazer muito bem nas nossas paróquias e nas nossas
associações da juventude.

2.º Entrar nas Ordens e Institutos que lhe são consagrados.


Coloca-se desta forma, ostensivamente, toda a sua vida sob o
patrocínio de Nossa Senhora.
3.º Publicar seus louvores por meio de escritos, sermões,
poemas, cânticos, etc., o que tem constituído a glória das mais
belas inte- ligências de nossos séculos cristãos.

4.º Dar esmolas, fazer jejuns e mortificações em sua honra,


especial- mente aos sábados e em certos dias que nos recordam
um ou outro de seus mistérios.

5.º Trazer consigo suas librés, como sejam: o terço, o


escapulário, a cadeinha, e também sua medalha ou uma de suas
imagens, arma sempre poderosa contra o demônio.

6.º Gostar de recitar as Orações mariais em uso na Igreja:


Rosário, Coroinha, Ofício Parvo, Saltério de São Boaventura,
Antífonas litúrgicas dos diferentes tempos do ano, o
Magnificat, assim como certos hinos que nos legaram os
santos.

7.º Enfeitar suas capelas e seus altares; inscrever o nome de


Nossa Senhora, seu monograma, ou colocar suas estátuas
acima das portas das cidades, das igrejas e das casas, porque
aquilo que Nossa Senhora guarda está bem guardado.

40
Para melhor amar a Nossa Senhora

8.º Consagrar-se a Ela de um modo especial, como adiante


será aconselhado.

Todas estas Práticas exteriores são boas e eficazes, com a


condição, todavia, que a elas nos entreguemos com as disposições
que a Igreja recomenda aos seus sacerdotes para a recitação do
Breviário, isto é:
- Com uma intenção reta de honrar Jesus Cristo por sua Mãe e
de edificar os que nos cercam;
- Com a intenção de todo o nosso espírito entregue ao que faz,
cuidando, por conseguinte, de evitar as distrações voluntárias;
- Com a devoção de um coração que se dedica por aquilo que
ama, com entusiasmo e presteza;
- Com a modéstia, enfim, que exige uma atitude digna e
respeitosa
diante da Rainha do céu e da terra.

***

Acima de tudo, importa notar todo o motivo desta dupla enume-


ração das principais Práticas da Verdadeira Devoção a Nossa
Senhora. Montfort não as discrimina no seu Tratado somente pelo
prazer de no-las dar a conhecer ou de no-las lembrar. Seu escopo é
bem mais elevado. Unicamente preocupado com o progresso do
Reino de sua Soberania nas almas, pretende convidar-nos a
ESCOLHER a Prática interior e exterior mais perfeita. Escolher é
privilégio de todo ser inteligente. Escolher entre vários bens, com
conhecimento de causa, com plena e inteira liberdade. Escolher
entre tantas Práticas diversas aquela que se nos apresenta como
sendo a mais agradável à Santíssima Virgem, a mais gloriosa para
Deus e a mais santificadora para nós (nº 91).
No espiritual, sobretudo, não devemos escolher o que há de
melhor? Quem não vê que uma Devoção assim escolhida será uma
Devoção não cega, rotineira, sentimental, porém esclarecida,
pessoal, racional, capaz de satisfazer os espíritos desejosos de vida
interior sólida e profunda?
J. M. Dayet

Teresa de Lisieux, muito antes de entrar para o Carmelo,


pronun- ciou a seguinte palavra, que deve ser colocada no ponto de
partida de sua vida heróica: “Pensei que uma alma é livre de
responder aos convites de Jesus, de fazer pouco ou muito por Seu
amor, de ESCOLHER, numa palavra, entre os diversos sacrifícios que
Ele pede: Meu Deus, escolho tudo, porque não quero ser santa pela
metade”.
Do mesmo modo quando se trata de fazer valer a Verdadeira
Devoção a Nossa Senhora. Cada um é livre de corresponder aos
convites de nossa divina Rainha, livre de fazer pouco ou muito por
seu amor, livre de escolher entre as diversas Práticas em uso na
comunidade cristã. Se, porém, não nos queremos contentar de amar
Nossa Senhora pela metade, devemos subir com São Luís Maria de
Montfort até à Prática mais perfeita, aquela que nos faz entregar
tudo a Maria e viver no espírito desta doação.

Capítulo V
São LuÍS Maria ESCOLHEU a Prática maIS perfeita

Para determinar sua escolha, nosso santo partiu deste princípio,


baseado no ensinamento de São Paulo, a saber: toda a nossa
perfeição consiste em sermos conformes, unidos e consagrados a
Jesus Cristo (nº 120).
O importante será, pois, encontrar entre as diversas Práticas
enu- meradas no capítulo precedente, aquela que nos há de
conformar, unir e consagrar mais perfeitamente a Jesus Cristo.
Para São Luís Maria é a DOAÇAO TOTAL DE SI MESMO A
NOSSA SENHORA.
Doação a Nossa Senhora, porque de todas as criaturas Maria é
a mais conforme a Jesus. Ela nos conformará perfeitamente a Ele.

42
Para melhor amar a Nossa Senhora

Doação total, e não parcial ou fragmentária, porque quanto


mais uma alma for consagrada a Maria, tanto mais o será a Jesus.
Esta doação compreende duas coisas: o Ato em si mesmo e o
Estado inaugurado por este ato. Temos, assim, o duplo elemento -
exterior e interior -, do qual a união íntima e constante permitirá
atingir infalivelmente o termo desejado.
O ato exterior é a CONSAGRAÇÃO a Nossa Senhora. No dia
fixado, e depois de uma preparação adequada, entregamos nossa
pessoa com todos os bens que lhe pertencem: bens do corpo e bens
da alma. Nada é excetuado.
O estado, que tal ato inaugura, será o de uma DEPENDÊNCIA
de todos os instantes. São Luís Maria determinou com exatidão
esta dependência, na riquíssima fórmula: fazer todas as nossas
ações por Maria, com Maria, em Maria e para Marta.
Explicaremos, nos capítulos seguintes, o que isto tudo
comporta. Procuremos, antes, verificar que este modo de praticar a
Verdadeira Devoção a Maria é realmente a mais perfeita.

***

Relativamente ao ato externo, devemos concordar que uma con-


sagração total excederá sempre, em excelência, àquelas nas quais
se subentendem reservas. Nas diversas associações da juventude,
como nas diferentes Comunidades de homens ou de mulheres,
consagram-
-se à Santíssima Virgem, e as fórmulas em uso traduzem um amor
sincero. Na maioria das vezes, entretanto, não se chega ao ponto de
entregar efetivamente toda a sua pessoa, até ficar inteiramente
dispo- nível entre as mãos de Nossa Senhora. Não se lhe entrega,
tampouco, todos os bens que afetam a própria pessoa, sejam os
bens de fortuna, sejam, principalmente, os bens da graça, de modo
a deixar-lhe a livre administração destes.
É um fato que, colocadas em presença de um tal abandono,
grande número de almas se recusa, se encolhe, fecha-se em
cálculos mais ou menos interesseiros. Sem dúvida, algumas destas
almas hão de se
J. M. Dayet

render com o tempo; por isso, nada se deve precipitar e, sim,


esperar melhores disposições. Porém atualmente recusam o dom
total.
São Luís Maria não entende reserva alguma no seu ato de
doação. Abandona a sua pessoa: Maria faça dela o que quiser.
Quanto a ele, não discute, não negoceia, não apresenta nenhuma
condição. Entrega todos os bens que pode possuir: bens materiais e
bens espirituais. Entrega à guarda e à gerência de Maria o valor de
suas boas ações passadas, presentas e futuras. Deixa a esta
Soberana um inteiro e pleno direito de dispor de si e de tudo o que
lhe pertence, mesmo o que há de mais precioso e de mais caro,
segundo o seu bel-prazer, para a maior glória de Deus no tempo e
na eternidade. Desta forma, atinge o mais alto grau na doação. Não
se pode ir mais longe.
Distinguimos logo a diferença que existe entre a devoção a
Nossa Senhora, comumente aceita, e esta Prática especial. Não é
mais parte do tempo ou parte das boas ações que se consagra à
Santíssima Vir- gem. Não é só uma oração, um Lembrai-vos, um
terço recitado cada dia; nem um sacrifício, uma esmola, um dom,
oferecidos em dias certos; nem uma peregrinação a tal santuário,
nem as festas de Nossa Senhora santamente celebradas; depois
disto, dispomos livremente de nossas horas e de nossas ações.
De ora em diante não haverá mais uma oração, um trabalho,
uma fadiga, um sacrifício, um sofrimento do espírito ou dos
membros, um ato de virtude, uma ocasião de mérito que,
antecipadamente, não lhe seja dado, entregue em mão-própria,
confiado com a generosidade de um amor sem limites. Velando ou
dormindo, ao comer e beber, no trabalho ou no descanso, não há
mais, para a pessoa que assim se consagrou a Maria, um só
momento vazio em seu dia e na sua vida. A pessoa está ao seu
serviço para sempre.
- Além disto, São Luís Maria encara sua Consagração total
como uma perfeita renovação das promessas do santo batismo (Verd.
Dev., ns. 126-130). No batismo fizemos, uns e outros, profissão de
completa e perpétua dependência de Jesus Cristo. Por intermédio
de nossos padrinhos e madrinhas nós O escolhemos por único
44
Senhor, Ele e não Satanás, inimigo temível. Estas promessas
permanecem na base

45
Para melhor amar a Nossa Senhora

de toda vida cristã. Importa de as ter constantemente diante dos


olhos; porque esquecê-las, desprezá-las, rejeitá-las, não pode senão
conduzir à eterna condenação.
A desordem universal que Montfort constatava no seu tempo,
e que não faz senão crescer em nosso mundo laicizado, origina-se
precisamente de que os cristãos vivem no esquecimento dos com-
promissos contraídos e de que não se incomodam de os ratificar
por si mesmos, ao menos em épocas notáveis.
Nossa Consagração vem lutar poderosamente contra esta desor-
dem. Exige em primeiro lugar, no dia de sua emissão e cada ano no
dia aniversário, a renovação das promessas do batismo. Renovação
pessoal, refletida e voluntária, após uma preparação de trinta dias
na primeira vez e, em seguida, durante três semanas; o que supõe
madureza de espírito, plena posse de si e contato com a realidade,
que ultrapassam tudo o que se poderia ter feito anteriormente.
Renovação emitida expressamente pelas mãos de Maria.
Colocamos Nossa Senhora neste ato solene como Ela deve estar na
graça de nosso batismo. Nesse momento não tínhamos nenhuma
consciência disto. Fomos gerados à vida divina por Maria, quando
então nossa alma adormecida era incapaz de apreciar um tal
benefício. Porém, agora reconhecemos a cooperação da Santíssima
Virgem desde o instante de nossa regeneração sobrenatural;
sabemos que Ela mesma, unida ao Espírito Santo, fez-nos membros
vivos de seu Filho. Eis porque desejamos fazer corresponder nossa
vontade amante com esta ação de Nossa Senhora, introduzimo-la
no âmago de nossos compromissos pessoalmente ratificados,
colocamo-la no desabrochar de nossa vida cristã do modo como
Deus o desejou desde a sua origem.
Existe aí um aperfeiçoamento em harmonia com o plano divino,
que reveste um grandíssimo valor aos olhares de todo aquele que
quiser bem refletir nisto. Nossa dependência do Cristo acha-se aí
imediatamente reforçada. Da mesma forma, este trabalho indispen-
sável de nossa conformação com Ele, encarado desde o começo por
São Luís Maria, ficará de ora em diante singularmente facilitado.
Porque sempre ganhamos em reconhecer a intervenção real de
Maria
J. M. Dayet

na nossa vida da graça; pois que a sua missão, seu papel materno é
de formar-nos à imagem e semelhança do Primogênito. Que se
saiba ou não, Maria está agindo em nós; porém o resultado não será
nunca o mesmo para aquele que regula sua vida cristã em
conformidade com esta verdade e aquele que a ignora. São Luís
Maria nos oferece o meio de a viver plenamente.

***

A Prática interior montfortina se apresenta, assim, como sendo


a mais perfeita entre todas as enumeradas. Sem contradição, tem
para si uma força incomparável de catolicidade, pois que se inspira
dire- tamente na fórmula do Cânon da Missa, no momento mais
íntimo e de maior glória para Deus durante a Santa Missa:
É PELO CRISTO, COM ELE e NELE que vos são dados, ó
Deus Pai onipotente em unidade com o Espírito Santo, toda a honra e
toda a glória nos séculos pelos séculos...
Esta fórmula tão plena, tão amada das almas interiores, expressa
exatamente a homenagem em relação a Jesus - Mediador de nossa
vida e de nossas atividades para a glória da Trindade Santíssima.
São Luís Maria apoderou-se dela avidamente. Entende bem que
todas as nossas ações, mormente após o dom total de nossa pessoa,
serão feitas:
POR Jesus Cristo: Ele é o Caminho que nos leva ao Pai;
COM Jesus Cristo: Ele é a Verdade que alumia nossa estrada;
EM Jesus Cristo: que é a Vida que faz de nós membros seme-
lhantes a Ele.
Então verdadeiramente tudo será PARA ELE, endereçado à
maior glória da Trindade Santíssima: omnis honor et gloria. Mas,
fiel à sua graça de integralizar-nos sempre ao plano redentor, São
Luís Maria nos pede que façamos todas as nossas ações POR
Maria, COM Maria, EM Maria e PARA MARIA, a fim de as fazer
mais perfeitamente POR JESUS CRISTO, COM JESUS CRISTO,
EM JESUS CRISTO E PARA
JESUS CRISTO (Tratado Verd. Dev., nº 257).

46
Para melhor amar a Nossa Senhora

Deste modo, ele faz penetrar Maria Medianeira no centro de


nossa vida espiritual e nos pormenores de nossos dias, como vere-
mos quando determinarmos o valor destas preposições. Tudo será
impregnado da doçura de sua presença e da eficácia de sua inter-
venção. E, então,
Por Maria, Jesus será nosso Caminho mais fácil, nossa vereda
mais atraente;
Com Maria, Ele se fará nossa Verdade mais accessível;
Em Maria, principalmente, Ele será nossa Vida transformante,
aquela que nos fará perfeitos filhos do Pai dos céus, bem
semelhantes ao Filho primogênito.
Para Maria e Jesus tudo terminará, como no Sacrifício da Missa,
na glorificação da Santíssima Trindade.
Não é a eflorescência normal de nossa vida sobrenatural? Não
temos, desta vez, a Verdadeira Devoção a Maria no que ela possui
de mais perfeito, de mais acabado, de mais definitivamente
realizador? Que poderíamos encontrar que fosse mais capaz de nos
unir, de nos consagrar e conformar a Jesus Cristo?
Aqueles que Deus na sua presciência conheceu, dizia São Paulo,
pre- destinou-os para serem conformes à imagem de seu Filho (Rm
8, 29). Somos destes; eis porque nos colocamos sem restrições nem
reservas nas mãos dAquela que, tendo formado a Cabeça, deve
formar os membros. Votamos-lhe uma dependência, amada, nunca
interrompida, estendendo-se a todo o nosso ser, a todos os nossos
movimentos, de modo a atingir com perfeição o fim desejado. A
alegria mora numa alma assim entregue e consagrada; é o sinal de
que nada mais lhe falta no seu caminho para a casa do Pai.

***

Aliás, neste modo de amar a Maria voltamos a encontrar o que


nos podia atrair nas diversas Práticas, tanto interiores como
exteriores, enumeradas por São Luís Maria.
J. M. Dayet

- Honramos a Maternidade divina bem entendida, isto é,


compreen- dendo na sua realidade concreta a Maternidade
espiritual. A San- tíssima Virgem é Mãe do Cristo Total, do
Primogênito e de todos os seus irmãos. Ela consentiu em o ser no
próprio dia da Anunciação. Muitas vezes estes dois conceitos são
apresentados como não tendo, por assim dizer, nenhum laço
entre si. São Luís Maria não os separa nunca. Deus Pai, ensina o
santo, comunicou a Maria sua fecundidade tanto quanto é capaz de
a possuir uma simples criatura, para lhe conferir o poder de produzir
seu Filho e todos os membros de seu Corpo
místico (V. D., nº 17).
E ainda: com Maria e em Maria o Espírito Santo produziu sua
obra prima, que é um Deus feito homem; com Ela e nEla produz todos
os dias, até o fim do mundo, os predestinados e os membros do Corpo
desta adorável Cabeça. Eis porque quanto mais encontra Maria, sua
amada e indissolúvel esposa, numa alma, mais Ele se faz operante e
poderoso para produzir Jesus Cristo nesta alma (nº 20).
Que de mais claro e convincente? Maria continua a exercer sua
função materna, até dar à luz da glória o último dos predestinados.
A cada um cabe receber, tão docilmente quanto possível, o influxo
vital que deve assegurar o seu crescimento. Eis o que fazem, de
modo excelente, as almas que vivem na dependência contínua de
Nossa Senhora. Glorificam a cada instante sua Maternidade única;
colaboram para o seu desabrochar definitivo.
- As pessoas cujos atrativos ou uma espiritualidade particular
orientaram para a meditação habitual das virtudes de Maria,
podem igualmente entregar-se sem medo à Consagração
monfortina. Aco- lherão com entusiasmo a Prática interior “agir
com Maria” -, que nos pede cumprir todas as nossas ações como
Maria as praticou outrora, ou, então, as praticaria hoje, se
estivesse em nosso lugar.
Para atingir este ideal, o santo considera para nós uma
obrigação: examinarmos e meditarmos as Grandes Virtudes que Nossa
Senhora prati- cou durante a sua vida, particularmente sua FÉ VIVA,
pela qual creu, sem hesitar, na palavra do anjo, creu fiel e
constantemente até ao pé da cruz, no Calvário; sua HUMILDADE
48
PROFUNDA, que a fez se esconder, calar, se

49
Para melhor amar a Nossa Senhora

submeter em tudo e colocar-se no último lugar; sua PUREZA


INTEIRA- MENTE DIVINA, como jamais houve igual e jamais haverá
debaixo do céu; e, enfim, TODAS AS DEMAIS VIRTUDES (Verd.
Dev., nº 269). Alhures enumerou mesmo as dez principais
virtudes de Nossa Senhora (nº 108), conformando-se assim,
deliberadamente, Santa Joana de França. Não há que temer
empobrecimento algum. Muito pelo contrário, pois que esta
forma particular de vida interior irá encontrar-se, agora,
encerrada no conjunto da fórmula ajustada por
São Luís Maria à Doxologia do Cânon da Missa.
- Quanto à contemplação das Grandezas de Nossa Senhora, para
ela, mais do que nunca, ficaremos inclinados com toda a força de
nossas faculdades. Cada um não é atraído pelo que ama? Amando
Nossa Senhora até o dom total vivido dia por dia, queremos ficar
sob a fascinação de seu mistério. Faremos nossa a queixa de São
Luís Maria, quando exclamava que Maria não é bastante conhecida, e
que, por isso, Jesus não é bastante amado. Como o santo, daremos
nossas preferên- cias às obras sólidas com referências a Nossa
Senhora. Acima de todas, teremos em maior consideração o seu
próprio Tratado, que condensa as demais, e a estas, acrescenta
dados pessoais muito empolgantes.
Longe de nos contentarmos com uma primeira leitura, mais ou
menos superficial, voltaremos ao Tratado muitas vezes, até fazer
dele nosso livro de cabeceira e saborear nele alegrias íntimas
sempre novas e sempre crescentes. “Eis que há trinta anos - dizia-
nos uma fervorosa cristã, porteira de um imóvel numa de nossas
grandes cidades -, só, na minha casa, faço o meu mês de Maria
com o Tratado da Verdadeira Devoção, e cada ano encontro nele
novas luzes”.
Por que nos admirar? A divina Maria, escrevia São Luís de
Mont- fort, é... o grande e divino mundo de Deus, onde há belezas
e tesouros inefáveis. É a magnificência do Altíssimo, onde Ele escondeu,
como em seu Seio, seu Filho unigênito, e nEle tudo o que há de mais
excelente e de mais precioso; ó que coisas grandes e escondidas este
Deus poderoso fez nesta criatura admirável! Como é obrigada a
confessar, apesar de sua profunda humildade: Fecit mihi magna qui
potens est! O mundo não as conhece, porque é incapaz e indigno
delas (V. D., nº 6). Cabe-nos preencher, na
J. M. Dayet

medida do possível, neste interior de beleza e de santidade. Quanto


mais descobrirmos as grandezas de Maria, tanto mais se confirmará
e irradiará nossa completa dependência.
- As outras Práticas interiores, mencionadas por São Luís Maria
de Montfort, são, antes, preparações para a sua Prática perfeita.
Para ela encaminham as almas de boa vontade. Um dia tudo se
iluminará. Compreenderemos que não é um lugar, por
preponderante que seja, que devemos dar a Nossa Senhora na nossa
vida espiritual, porém todo o lugar, o mesmo, como extensão,
daquele que se dá ao Cristo Jesus. Dizemos: como extensão, não
como importância; isto já está entendido. Eis porque São Luís
Maria nos pede que façamos todas as nossas ações por Maria, com
Ela, nEla e para Ela, a fim de praticá-las mais perfeitamente por
Jesus Cristo, com Ele, nEle e para Ele, pois que é nosso último
Fim. Esta Luz confere, àqueles que a tiverem acolhido,
uma soberana tranqüilidade, um contentamento definitivo.

***

No que concerne às diversas Práticas exteriores da Verdadeira


Devoção a Maria, cada um ficará livre, uma vez emitida a Con-
sagração de conservar as suas habituais manifestações de piedade.
Todavia, São Luís Maria de Montfort aconselha festejar daqui por
diante, com fervor crescente, o mistério da Encarnação do Verbo,
cada 25 de março.
Ele a considera nossa festa principal. Não convém que sejamos
os primeiros a honrar especialmente a Maternidade divina de
Maria, assim como a dependência humana de Jesus, que
resplandece neste mistério? Não percamos jamais de vista que esta
dependência, amo- rosamente contemplada por nosso santo,
permanece o modelo do qual ele mesmo, em primeiro lugar, se
apoderou para si, em seguida a fim de conquistar para a Virgem
Santíssima inúmeros corações.
Isto não virá sobrecarregar nossos exercícios de devoção. Tam-
pouco, aliás, como a recitação do Terço, ou da Coroinha, ou do
Magni- ficat, que São Luís Maria recomenda igualmente. Toda
50
alma amante,

51
Para melhor amar a Nossa Senhora

no mundo ou no claustro, recorre a estas orações pela inclinação de


sua ternura e sem ver aí uma obrigação. Não se trata agora senão
de manifestar mais o nosso amor.
Não sei, acrescenta São Luís Maria, como acontece isto, nem por
que, no entanto, é verdade; e não tenho melhor segredo para conhecer
se uma pessoa é de Deus, do que examinar se ela gosta de recitar a
Ave Maria e o terço. Digo: se ela gosta, porque pode acontecer que
uma pessoa esteja na impossibilidade de o recitar; porém, ela o
estima sempre e o inspira aos outros (V. D., nº 251).
Quanto ao trazer sobre si a cadeinha benzida, geralmente as
almas, que acabam de fazer a sua Consagração, a pedem
espontaneamente. Fazem questão de oferecer aos olhares de sua
Soberana este sinal exterior de amorosa dependência.
É coisa muito louvável, de nenhuma forma essencial. Pode-se
muito bem ficar sem ela, diz São Luís Maria (V. D., nº 236). Toda-
via, aconselha instantemente esta Prática às pessoas que tiveram a
coragem de romper as cadeias do pecado, para se entregarem de
novo inteiramente a Jesus Cristo pelas mãos de Nossa Senhora; e
da mesma forma às almas que não tiveram que romper semelhantes
laços.
As primeiras se recordarão mais facilmente deste ato de
renovação das promessas do batismo que livremente fizeram e da
estrita obriga- ção em que se acham de a elas se mostrarem mais
fiéis. As outras se sentirão santamente ufanas de testemunhar
assim, com o apóstolo São Paulo, “o prisioneiro de Cristo” (Ef 3,
1; Fl 9), sua eterna dependência.
Sabemos que São Luís Maria, ferido de morte em pleno
trabalho de missão, pediu, antes de morrer, que o sepultassem com
as cadei- nhas de ferro que trazia nos braços, nos pés e no pescoço.
Entendia assim proclamar, além da morte, sua fidelidade a uma
doação jamais desmentida.

***

Temos, agora, uma vista de conjunto da Verdadeira Devoção a


Nossa Senhora na sua Prática mais perfeita. Seria, pois, falso alguém
J. M. Dayet

imaginar esta Prática, tão preconizada por São Luís Maria, como
qual- quer devoção à parte, ou, ainda, uma espécie de domínio
reservado. Na realidade, ela é termo normal e definitivo, a forma da
Devoção tradicional da Igreja, a mais clara e mais elevada desse
amor que testemunharam à Mãe de Deus as gerações cristãs.
Eis porque ela conduz infalivelmente as almas, todas as almas
que a ela forem fiéis, à mais autêntica santidade. Não conheço,
afirma São Luís Maria, Prática de devoção para com a Santíssima
Virgem que exija de uma alma maior soma de sacrifícios para Deus,
que a esvazie mais de si mesma e de seu amor-próprio, que a conserve
mais fielmente na graça e a graça nela, que a una mais
perfeitamente e mais facilmente a Jesus Cristo, enfim, que seja mais
gloriosa para Deus, santificadora para a alma e útil ao próximo (V. D.,
nº 118).
Em cada uma destas palavras ouvimos bem o tom do
Evangelho. Por isto, longe de se dirigir exclusivamente a uma parte
escolhida de pessoas, nosso santo missionário escreveu seu
Tratado para todas as almas cuidadosas de cumprirem plenamente
as exigências de seu batismo.
De fato, esse livro já é popular, sendo a obra clássica por
excelên- cia, que nos revela de modo definitivo o método perfeito
de amar a Maria, nossa divina Mãe e Senhora, isto é, a geradora e
formadora de todos os membros do Corpo místico de Jesus.

52
Para melhor amar a Nossa Senhora

Capítulo VI
CONSAGREMO-NOS inteiramente a NOSSA Senhora,
a exemplo de São LuÍS Maria

O cunho particular da Consagração monfortina, já o dissemos, é


de ser absolutamente total. Ela nos faz entregar nossa pessoa com
todos os bens que dela dependem e que são como o seu
prolongamento.

A. DOAÇÃO DE NOSSA PESSOA

Antes de tudo, a nossa pessoa. Ela se compõe essencialmente de


um corpo e de uma alma. O corpo, perecível, tem seus sentidos e
membros a serviço da alma imortal. Se soubermos fazer uso dele,
segundo a lei de Deus, um dia este corpo recuperará tudo o que a
morte lhe tiver feito perder e. participará eternamente da felicidade
da alma.
A doação de nossos sentidos e de nossos membros a Maria, vai
contribuir em larga escala para a sua futura glorificação. Com
efeito, se quisermos conservar-nos na altura desta doação,
cuidaremos, de ora em diante, em nos servir dele como a Virgem
Santíssima nos inspira fazê-lo.
Quantos aos NOSSOS OLHOS em particular, que são dentre os
nossos órgãos do sentido os mais nobres, que comportamento isto
supõe! A que horizontes de pureza isto nos arrasta! Ouvimos às
vezes dizer, de tal ou tal alma interior: “conservou os olhos do
batismo” - significando que coisa alguma impura ou manchada,
nenhum consen- timento mau empanou o seu brilho. Sabemos que,
desde pequenina,
J. M. Dayet

Teresa de Lisieux gostava de considerar longamente as belezas da


natureza, tais como nos oferece a magnificência do Criador: o céu
estrelado, o mar, o campo, as planícies e colinas da Normandia, as
belas vegetações, os campos de trigais, as flores dos prados e
jardins, as rosas, principalmente suas rosas queridas, emblema de
um amor que se dá com profusão. Por isto, seu olhar refletia a
pureza de um coração perfumado da inocência batismal.
Se não cedemos sempre aos mesmos atrativos, agora ao menos
uma maior disciplina imposta aos nossos olhos, em conseqüência
de nossa consagração, lhes deverá restituir algo da primitiva
claridade. Gostaremos de os fazer convergir também, muitas e
muitas vezes, para o nosso interior, onde habita o Hóspede divino.
Se para isso forem necessários sacrifícios - e sê-los-ão, certamente
-, a Santíssima Virgem nos ajudará a afastar nossos olhares de tudo
o que nos poderia fazer cair, a fim de dirigi-los para os cimos.
Desta forma teremos alcançado maior facilidade de nos recolher
na oração. Porque a maioria das distrações provêm da demasiada
liberdade que deixamos aos nossos olhos. Não são eles as janelas
da alma? Se os abrimos indistintamente sobre o que se apresenta,
se principalmente prendemos nossos olhares ao que dissipa,
evapora, espalha, todos estes objetos penetram em nossa
imaginação e aí ficam terrivelmente turbulentos. Nossa vida
interior perde outro tanto de sua força; nossa Consagração não nos
conserva mais nas disposi- ções do Coração de Maria. Saibamos
respeitar as suas puríssimas exigências.
- Com os nossos olhos entregamos e consagramos à Santíssima
Virgem este outro dom do Criador, que são NOSSOS OUVIDOS.
Seu uso é, para nós, soberanamente precioso. Não foi por meio
deste sentido que as verdades da fé penetraram na nossa alma?
Fides ex auditu. Não foi com este fim que, no dia do batismo, o
sacerdote disse, assinalando com a cruz: Ephpheta, abri-vos? Abri-
vos ao ensinamento do Evangelho, único capaz de conduzir à vida
eterna.
Pois que, sendo a nossa Consagração a renovação consciente do
que comporta a graça batismal, ficaremos, de ora em diante, mais

54
Para melhor amar a Nossa Senhora

atentos em captar toda palavra, toda melodia susceptível de


enrique- cer e de regozijar a nossa fé. As alegrias auditivas de
Nossa Senhora eram: saborear, no Templo, o canto dos salmos e os
comentários dos Livros sagrados; em Nazaré, as palavras de Jesus;
mais tarde, Suas pregações; depois de Pentecostes, durante os
últimos anos, o anúncio dos progressos do Evangelho ou da
caridade fraterna que reinava nas comunidades nascentes.
Acaso não poderemos saborear as mesmas alegrias? Alegria dos
cânticos da Igreja, pregações ouvidas, conferências ou círculos de
estudos de nossas associações especializadas; alegrias de notícias
reli- giosas que interessam à cristandade, ou tal porção da
cristandade; beatificações, canonizações, jubileus, centenários
notáveis, congressos eucarísticos e mariais, grandes assembléias
católicas, missões longín- quas, publicações de obras ou periódicos
portadores de mensagens edificantes, indicações de métodos
eficazes de apostolado no meio em que a Providência nos colocou,
etc., etc...
Conservaremos, assim, este sentido do ouvido orientado para
tudo aquilo que eleva, engrandece, dilata nosso horizonte, antes
que invariavelmente desviado para a política, para as futilidades e
para as maledicências. A alma que se colocou ao serviço absoluto
de Maria
- sem alarde nem ostentação -, deve salientar-se no que concerne a
estas diversas manifestações da vida e pensamento cristãos; sinta,
ao nosso contato, uma elevação propositada em nosso modo de
falar e de julgar, uma habitual disposição de irradiar a luz.
Nós podemos imaginar até que ponto, grande número de
pessoas, pouco capazes de estudos pessoais, vibram, exultam
interiormente, ouvindo uma palavra reveladora das belezas do
mundo sobrenatural. Os fiéis, em geral, são ávidos de ouvir falar
bem de Nossa Senhora. Seu mistério os atrai. Proporcionando-lhes
este gozo, quando se apresentar a ocasião, nossos próprios ouvidos
se hão de encher dos sopros do Espírito santo.
- Entregamos e consagramos a Maria nosso sentido do
OLFATO. Desta forma, bendiremos sua ternura cada vez que
respirarmos o bom odor de nossos santuários ou o perfume de
nossos jardins e de
J. M. Dayet

nossos campos floridos. Quanto aos perfumes fabricados pela mão


dos homens, sabemos quantas pessoas frívolas e levianas deles
abu- sam. Para nós, o melhor será imitar Madalena após a sua
conversão. Regiamente sacrificou, em favor de Cristo, o que até
então tanto lisonjeara sua vaidade.
Nossa Senhora nos ensinará a espiritualizar um sentido menos
aproximado da inteligência que os dois anteriores. Com Ela
gostare- mos de descobrir símbolos nos perfumes espalhados pelo
Criador no seio da natureza. O autor do Livro do Eclesiástico (cap.
24), coloca estas palavras nos lábios da Sabedoria eterna:
“No meio de Israel, meu povo predileto, difundi um perfume como
o cinamomo e o bálsamo aromático, e como mirra escolhida exalei
suave cheiro como o gálbano, o ônix e estoraque, e como o vapor do
incenso no tabernáculo”.
Mais que ninguém Maria saboreou estas comparações. Experi-
mentou em si mesma sua significação profunda. Quando a
Sabedoria se comunica às almas atentas, à Sua ação, ela penetra
suas faculdades mais intimamente que as essências odoríferas
penetram nosso sentido do olfato. Diz-se então, destas almas que
exalam agradável perfume, que suas virtudes embalsamam. Assim,
a Igreja convida-nos a seguir Nossa Senhora no odor de seus
perfumes: ln odorem unguentorum tuorum (Ct 1, 3); e São Paulo
felicitava-se de difundir, entre os que evangelizava, o bom odor de
Jesus Cristo (2 Cor 2, 15). Longe, pois, de nos deleitar como os
mundanos, no que lisonjeia grosseiramente o sentido do olfato.
Servir-nos-emos deste sentido para transpor o sensível e respirar,
através de nossas faculdades superiores, as virtudes da Imaculada,
assim como os bons exemplos de nossos irmãos que se esforçam
por se parecer com Ela.
De outro lado muitas ocasiões podem apresentar-se, que serão
matéria de mortificação para este sentido: certas visitas aos pobres,
aos indigentes, em casebres pouco limpos; certos cuidados
prestados aos doentes ou enfermos. Não recuemos nunca diante de
tais sacri- fícios: nossa alma ganhará com isto, enchendo-se com o
perfume da caridade.

56
Para melhor amar a Nossa Senhora

- Entregamos e consagramos a Nossa Senhora este outro sentido


que se chama GOSTO. Deus nos presenteou com ele a fim de nos
obrigar a conservar nossa saúde. Não sentiríamos nenhum atrativo
pelo alimento, se não pudéssemos saboreá-lo. É, pois, legítimo
satis- fazer este sentido, já que o exige o bom entretenimento de
nossa vida física. Peçamos com toda a confiança, ao Pai dos céus, o
pão de cada dia e não esqueçamos nunca de Lhe agradecer.
Tomemos nossas refeições dos dias comuns, como as dos dias de
festa, com gratidão e alegria.
Aqui, também, nos será fácil transpor o sensível. Da suavidade
encontrada nos alimentos, havemos de nos elevar à suavidade
expe- rimentada no serviço de nossa divina Rainha. Este
pensamento nos guardará dos excessos tão freqüentes que se
cometem no beber e no comer. “A gula, escreveu Monsenhor Gay,
é um dos pecados mais comuns de nossa pobre humanidade”
(“Vida e virtudes”, Cap. I, pág.
407) . Quantos se deixam arrastar, neste ponto, bem
ostensivamente! A mortificação do paladar é de preceito nos dias
de jejum e de abstinência. Não procuremos nos eximir dele, se
temos boa saúde. Admiremos antes esta sabedoria da Igreja, que
vigia para conservar nos seus filhos, na força da idade, um
equilíbrio benéfico. O jejum reprime a tendência de nos satisfazer
além do necessário. A abstinên- cia é um aviso contra o abuso dos
alimentos e, além disto, um esti- mulante para que se honre a
Paixão de nosso divino Salvador. Estes motivos não nos deixarão.
No sábado, dia especialmente consagrado a Nossa Senhora, em
lembrança do Sábado Santo, faremos questão também de lhe
oferecer tal ou tal privaçãozinha, da qual Ela saberá utilizar o
máximo do valor em favor de nossos interesses espirituais.
- Entregamos e consagramos a Maria o sentido do TATO. Este
sentido é, em nós, o mais extenso, pois que o corpo inteiro é o seu
órgão. Por este mesmo motivo é também o mais grosseiro. A
quantas satisfações moles e culpáveis arrasta ele uma vontade
vacilante! Sua mortificação será sempre a salvaguarda de nossa
castidade.
Uma ascese generosa se impõe aqui, evidentemente, pelo fato
de nossa consagração. Contentar-se de evitar pecados graves ou
leves,
J. M. Dayet

não é bastante. Havemos de suportar de boa vontade, sem queixas


nem murmurações, tudo que se apresenta naturalmente aflitivo para
a natureza. Particularmente as intempéries das estações, os calores
do verão, o frio do inverno, os sacrifícios e constrangimentos pro-
venientes das restrições ou privações. Façamos bom acolhimento a
qualquer tempo, temperatura ou penitência que não escolhemos. É
o momento e ocasião de provar a Nossa Senhora que nossa doação
não é fingida.
Nada nos impedirá mesmo, segundo nosso grau de fervor ou
nossa precisão de reparar o passado, acrescentar, às vezes, outras
penitências aflitivas, tais como vigílias santas e disciplinas, depois
de haver pedido para estas as permissões a quem de direito.
- Com nossos sentidos, entregamos e consagramos a Nossa
Senhora todos os nossos MEMBROS. Estes membros podem ser
sãos ou enfermos. Se estão sãos, motivo maior para não lhes
poupar o esforço inerente a cada um de nossos dias. Amemos o
nosso trabalho; amemos o santo labor de mãos, seja qual for. Não
temamos nunca o cansaço. Não recuemos diante de trabalhos
pesados ou diante de certas longas caminhadas, principalmente
quando estiver em jogo o serviço do próximo. Sintamo-nos felizes
de ter para oferecer, cada noite, um corpo verdadeiramente
cansado, que soube suportar o peso do dia e da atmosfera.
“Meu bom Senhor, dizia uma alma reparadora, obrigada por
este cansaço que sinto todas as noites, precisamente na hora em que
os mun- danos começam a divertir-se”. Possamos nós dizer a
mesma coisa, no momento de tomar nosso repouso à noite!
Teremos ainda maior mérito quando for necessário oferecer a
Nossa Senhora membros padecentes, membros doentes ou
acidenta- dos, cheios de dores lancinantes e por vezes ardendo em
febre; ou membros enfermos que não se podem mais mover nem se
aquecer como outrora; braços quase sem força, pernas atingidas de
paralisia; e também sentidos que perderam sua acuidade: olhos cuja
visão se enfraqueceu notavelmente, ouvidos que não podem mais
seguir uma conversação. Estas misérias são sempre penosas à
natureza; pertence

58
Para melhor amar a Nossa Senhora

à graça, saber tirar daí proveito. Quão rica, purificadora e tranquili-


zadora nos aparecerá então nossa Consagração!
Certa mãe de família nos confiava: “Quando sofre o pobre
corpo, minha doação total se torna, para mim, particularmente
presente e é com ações de graças que eu suporto, nesses dias, o mau
jeito que dei no joelho”. Outra alma, muito provada, escrevia: “Há
trinta anos que não mais percebo nenhum som da voz humana;
porém agradeço à Santíssima Vir- gem, que me conservou os olhos,
o que me permite ler tudo o que canta
suas grandezas”.
Por nossos sofrimentos físicos, santamente suportados, Maria se
aplica em espiritualizar nosso corpo; Ela começa esta
transformação, cujo termo glorioso será o dia da ressurreição.
Compreendemos agora melhor tudo o que damos a Nossa
Senhora, quando dizemos que lhe entregamos e consagramos o
nosso corpo? Pronuncia-se bem depressa a palavra; o oferecimento
em conjunto pode parecer fácil; mas quando se entra nos
pormenores práticos, a obrigação que se assume de uma
vigilância maior sobre si apa- rece então, e inúmeros sacrifícios
muito meritórios se apresentam, sacrifícios estes que, à primeira
vista, talvez não suspeitávamos que existissem.
***

A doação de nosso corpo a Maria é, pois, coisa séria; a de nossa


alma o deve ser mais, em razão de sua superioridade incontestável.
Sintamo-nos felizes de entregar e consagrar muito especialmente
estas duas faculdades, que nos assemelham aos anjos: nossa
INTELI- GÊNCIA e nossa VONTADE. A inteligência é, em nós, a
faculdade de conhecer, de penetrar o íntimo das verdades naturais e
dos mistérios revelados. Ela é, na fronte do homem, o sinal da
puríssima luz da face de Deus. Eis porque gostaremos de a encher
de luzes. A Santíssima Trindade, nossos irmãos os anjos, tudo o
que toca o mundo espiritual, estas maravilhas que são as almas dos
santos, serão para nós amáveis assuntos de contemplação. Isto não
nos impedirá de guardar nossa predileção habitual pelo mistério de
Maria, o qual aliás nos ajuda a
J. M. Dayet

penetrar melhor todos os outros. Nossa imaculada Soberana não é


uma altitude, de onde o olhar mergulha sobre o criado e o incriado?
Tendo-nos entregue totalmente a Ela, queremos também aprofun-
dar os motivos de nossa doação. O primeiro e o mais convincente
será sempre o exemplo do Verbo encarnado, Sabedoria eterna do
Pai. Não nos cansemos de deixar nosso espírito entregar-se a esta
reflexão. Livros, sermões, retiros especializados, conversações,
tudo o que há de nos descobrir mais a extensão da dependência
marial do Coração de Jesus, será avidamente procurado, acolhido,
meditado, anotado se for necessário e reproduzido em nossas ações
mais comuns de cada dia. Desta procura amorosa havemos de
retirar nossas melhores ale- grias da vida. Ocupar nosso
pensamento com Nossa Senhora é a prudência perfeita. Que
superioridade sobre tantos pobres seres humanos que adormecem
espiritualmente, ou, então, só alimentam sua inteligência de jornais
e de romances, preferindo as trevas à luz!
- Acima de nossa inteligência, que vê, existe a nossa vontade,
que decide e escolhe. É a faculdade mestra. Ela é em nós a fonte do
mérito e do demérito. Segundo nossa correspondência à graça, ela
faz santos ou medíocres. O Bem-aventurado Padre de la
Colombière dizia: “Quando temos um grande desejo de ser santos,
podemos sê-lo por toda a parte”.
Ofereçamos a Nossa Senhora uma vontade firme, intransigente,
em face do mal. Saibamos não condescender nunca à tentação e ao
pecado. Explicavam certo dia, a Bernadette Soubirous, que, para
cometer um pecado mortal, era necessário querer cometê-lo.
“Nunca eu quis”, respondeu simplesmente.
Ofereçamos a Nossa Senhora uma vontade obediente que sabe
dizer “sim” a todas as suas inspirações, desde o nosso acordar até à
noite. Quanto mais dependência houver no nosso querer, tanto mais
Nossa Senhora reinará pacificamente sobre todo o nosso ser.
Compreenderíamos vontades que, depois de se terem entregues,
se retomam em uma multidão de coisas pequeninas? Do momento
que escolhemos livremente seguir a Jesus neste caminho de depen-
dência, que EIe mesmo escolheu em primeiro lugar, caminhemos

60
Para melhor amar a Nossa Senhora

resolutamente, seguindo os seus passos. Será o triunfo de nossa


Consagração.
- Chegaremos aí tanto mais facilmente, porque entregamos tam-
bém nossa IMAGINAÇÃO e nossa SENSIBILIDADE, faculdades inter-
mediárias entre as duas faculdades espirituais e os sentidos de
nosso corpo. A imaginação está a serviço da inteligência; a
sensibilidade, a serviço da vontade. Enquanto as conservarmos no
seu verdadeiro papel de servas, nossos progressos estão seguros.
Do momento em que as deixarmos dominar, perderemos o domínio
de nós mesmos. Nossa imaginação recolhe e guarda tudo o que os
olhos vêm. Ela nos permite reproduzir as paisagens, as visões
desaparecidas. Façamos de modo que ela não possa evocar senão
visões tranqüilizadoras. De
uma só vez nós lhe impedimos a investida do tentador.
A vista das coisas que nos são mais familiares, pode ser um
lucro espiritual para a nossa imaginação. Não foi delas que o
divino Mestre retirou o ensino de suas admiráveis parábolas? Tudo
era, para Ele, assunto de comparações: as humildes ocupações
caseiras e, também, os trabalhos do campo. Eram outras tantas
imagens transferidas por Ele para um mundo superior. Imitemo-lO;
das aparências visíveis elevar-nos-emos, sem obstáculo, para as
realidades invisíveis.
Empenhemo-nos da mesma forma em ver, nas belezas da natu-
reza, evocações da Virgem Santíssima... A Igreja a isto nos anima.
Utiliza as mais poéticas passagens de nossos Livros inspirados para
denominar Maria o Lírio do vale, a Rosa de Saron, o Jardim
fechado, a Fonte selada, o Muro inexpugnável, a Sarça ardente, a
Arca da aliança, a Nuvem de Elias, o candelabro de ouro, a Estrela
que se levanta dos pavilhões de Jacó, a Porta oriental, o Velo todo
banhado de orvalho, etc.. A visão de Maria, assim, nos estará
sempre presente.
Gostemos de cantar esta divina Mãe, se a inspiração a isto nos
impele. Saibamos, ao menos, aproveitar daquilo que outros produ-
ziram neste gênero. Quem não ficará enlevado ouvindo um belo
poema, um cântico em que, sob palavras simbólicas, se escondem
idéias profundas?
J. M. Dayet

Apreciemos o esplendor de nossos templos, as cerimônias


incom- paráveis do culto católico. Festas religiosas, ofícios
litúrgicos deverão sempre determinar nossas preferências. Seja-nos
grato recolher-nos diante dos quadros, das gravuras em que os
mestres quiseram fixar os traços do Cristo e de Nossa Senhora.
Mais ainda que os nossos olhos e a nossa imaginação encontrem,
aí, alegrias de ordem supe- rior. Ficará, assim, menos tentado de se
evadir para as regiões dos sonhos e das quimeras, longe do
domínio da razão, enriquecida com as luzes da fé.
- Disciplinaremos, da mesma forma, a nossa sensibilidade.
Maria, sendo a Rainha de nosso coração, com seu amor presidirá a
todas as nossas afeições. Que nobres alegrias experimentaremos
então! Sen- tir-nos-emos apaixonadamente livres para amar as
almas, todas as almas: as de nossos irmãos, com quem vivemos ou
das quais temos o encargo; as dos jovens, para levá-las ao Coração
Imaculado de Maria; as dos pequeninos, dos pobres, dos
abandonados, dos deserdados deste mundo; as dos enfermos,
doentes, dos aflitos, daqueles cujo fardo de trabalho e de miséria
pesa-lhes fortemente nos ombros. Iremos ter com elas, nós as
acolheremos como o faria Nossa Senhora, com bondade, mansidão,
paciência, misericórdia.
Suportaremos os defeitos, os caprichos, as manias, as palavras
desagradáveis, as reflexões pouco sensatas de certas pessoas.
Quantas vezes nossa sensibilidade se irritou a estes contatos!
Outras tantas ocasiões de mérito, das quais devemos saber
aproveitar.
Prestaremos, também, atenção para dominar as impressões que
sobem tantas vezes da parte inferior de nosso ser; nuvens
passageiras que se dissipam por si mesmas. Se a elas nos
agarramos, há perigo imediato de nos redobrar sobre nós mesmos;
de manifestar caprichos, exigências, susceptibilidades cujo
resultado mais evidente será de nos fazer taciturnos e fazer sofrer
os que nos cercam. Saibamos elevar- nos acima destas
mesquinharias. Procuremos banir corajosamente toda preocupação
excessiva de nossas comodidades, de nossa saúde, de nossa
alimentação, de nosso bem-estar. Para isto coloquemo-nos de vez
62
em quando diante daqueles cuja existência é um heroísmo

63
Para melhor amar a Nossa Senhora

contínuo, como, por exemplo, os missionários que vivem nos gelos


polares ou sob o fogo do Equador. Que são nossas penas, em com-
paração de suas privações? Pensemos também nos sofrimentos, nas
torturas suportadas pelos deportados de Dachau, Buchennald e
outros campos de concentração durante a guerra. Estes exemplos
obriga- rão nossa sensibilidade a não atender e nem se enternecer
sobre si mesmos, nem se desmandar em vivacidades, queixas,
murmurações, recriminações, porém, em conservar toda a sua força
de amor e de dedicação a serviço de uma vontade, desejosa
unicamente de se fundir com a santa vontade de Deus.
- No número das faculdades de nossa alma devemos, enfim,
colo- car a MEMÓRIA. Sua função própria é de conservar e de
fazer reviver as idéias anteriormente adquiridas, assim como os
acontecimentos do passado. É o santuário de nossas lembranças.
Tenhamos o firme propósito de a guardar sempre rica das luzes
recebidas sobre Maria e dos benefícios de que fomos objeto.
Quantas vezes aconteceu-nos ouvir pessoas amigas referirem
diante de nós, com emoção visível, tal sermão, tal retiro ou tal
encontro que lhes revelou profundezas, até então não percebidas,
do mistério de Nossa Senhora!
Estas lembranças podiam datar de longe; seu encanto, porém,
não tinha envelhecido. Continuavam a viver dele, adiantando-se
assim, com passo mais ágil, nos caminhos do exílio. Quem, dentre
nós, não poderia evocar idênticas reminiscências? Em todo o caso,
os bene- fícios de Maria aí estão povoando nossa memória.
Quantas graças obtidas, quantas quedas evitadas, quantos perdões
concedidos, quantas reabilitações misericordiosas! Como sob os ex-
votos das paredes de uma capela, não lemos no decurso dos anos
de nossa vida graças de vocação, graças de conversão, graças de
cura, graças de preservação, graças de predileção? Privilégios
sobre privilégios que cantam a gra- tidão, sentimento delicado que
não se cultiva nunca demais.
Todas estas lembranças não são uma capacidade de conforto,
quando sobrevêm os dias de provação e de luto? No seu Carmelo
de Lisieux, a vida da pequena Irmã Teresa esteve longe de ser o
que se
J. M. Dayet

poderia imaginar à primeira vista: uma vida uniforme, sem


obstáculos nem abalos, nem dificuldades de nenhuma espécie.
“Não passei um só dia sem sofrer”, confessou a santa. Somente
acima dos sofrimentos pai- rava sempre uma lembrança viva: a da
aparição da Virgem do sorriso, quando, na idade de dez anos,
Teresa esteve a ponto de morrer. Era o raio de sol que não cessava
de iluminar seus dias e suas noites. Por isso, quando apesar de ser
tão jovem sentiu aproximar-se - não lhe restava mais, de verdade,
dúvida nenhuma - o fim de sua existência na terra, um cântico se
elevou das profundezas de sua alma, do qual a antepenúltima
estrofe continha estes belos versos:

Tot qui vins me sourire au matin de ma


vie, Viens me sourire encor ... Mère, voici
le soir.

Sua memória conservara, numa frescura intacta, a impressão do


rosto encantador.
É conhecida igualmente a palavra de Bernadette, quando, certo
dia, lhe perguntavam se a Virgem que lhe tinha aparecido era
muito bela: “É tão bela, respondeu esta alma pura, que quando a
vimos uma vez, desejaríamos morrer para vê-la -sempre”. Também
ela podia atra- vessar dias ásperos e muitas vezes mesmo cruciantes,
mas a visão de Massabielle continuava a projetar, como no
primeiro dia, sua doçura e força.
Imitemos estas almas privilegiadas. Não tivemos parte nas suas
graças? Nossas peregrinações a Lourdes, a Lisieux, não
permanecem em nosso passado como outros tantos sorrisos do céu?
Vivamos deles, e que estas reconfortantes lembranças nos ajudem
também a triunfar de certas outras que se podem apresentar e que
Nossa Senhora não admitiria, tais como as que entretêm
ressentimentos, rancores, inimi- zades, até mesmo ódios
persistentes e recusas de perdão. Guardemos nossa memória livre e
como virgem de tudo o que possa atingir a caridade fraterna.

***
64
Para melhor amar a Nossa Senhora

Verdadeiramente, então, por todas as suas faculdades, nossa


alma respirará a graça de uma Consagração leal e sincera. Quantas
deli- cadezas, generosidade e devotamento podemos apresentar a
Maria, quando nossas potências estão assim perfeitamente
equilibradas e saturadas de seiva sobrenatural? Ouvimos dizer e
nós mesmos dize- mos das pessoas que souberam conciliar para si
a estima de todos: É uma bela alma, é uma alma que se esquece,
que se dá sem contar, é uma alma que não se detém diante de
nenhum sacrifício; ou ainda: É uma alma apagada, silenciosa,
profunda... Como se poderia dizer, infelizmente, de outras: É uma
alma comum, vulgar, insignificante, mesquinha...
Que possam dizer de cada um de nós: É uma alma consciente de
sua doação total, que colocou nas mãos de Nossa senhora a riqueza
de todas as suas faculdades.

Capítulo VII
Com São LuÍS Maria de Montfort CONSAGRaMO-NOS
totalmente a NOSSA Senhora

B. DOAÇAO DE NOSSOS BENS

Embora nos tenha parecido longa a enumeração pormenorizada


do que comporta o oferecimento a Maria de nosso corpo e de nossa
alma, devemos examinar igualmente o que compreende a doação
de nossos bens.
Quais são os bens que possuímos? Os bens exteriores de ordem
temporal e principalmente bens interiores de ordem espiritual. Os
J. M. Dayet

primeiros afetam sobretudo nosso corpo; os segundos constituem à


riqueza de nossa alma. Por isso, todos estes bens reunidos formam
como que o prolongamento de nossa pessoa e estão
necessariamente incluídos no oferecimento desta... Não nos
entregaríamos totalmente, se reservássemos a disposição dos
próprios bens.

***

Os BENS EXTERIORES estão ordenados à vida presente. Seja o


ali- mento, ou vestimenta, habitação, nossas economias, terras e
casas que possuímos neste mundo, nada levaremos de todas estas
coisas para a outra vida. Nossa Consagração exige de nós que as
consideremos, de ora em diante, como pertencendo a Nossa
Senhora em primeiro lugar. Na realidade, Maria já as possui,
porque o universo inteiro é seu domínio. Porém queremos que Ela
as possua também a título particular de nossa doação pessoal.
Reconhecemos expressamente que são sua propriedade; que
guardamos delas apenas o uso e gerência; que nos serviremos delas
dependentemente de sua vontade. Vemos logo que elevação de
espírito supõe tal procedimento.
Aparentemente, aos olhos daqueles com quem convivemos,
conti- nuamos nossas compras e despesas segundo as precisões da
existência e as exigências de nossa situação. É preciso. Mas, no
íntimo, aí está uma nova luz projetando seus raios sobre cada um
de nossos passos. Nossa Senhora me fará ver, acima de minhas
satisfações pessoais, os interesses do caro próximo. Ela me
aconselhará a socorrer tal família vizinha na indigência, a ajudar
mais as obras católicas, missionárias, diocesanas ou paroquiais. Ela
me recomendará de contribuir mais, generosamente, para o bem
geral da comunidade cristã. Não será a melhor colocação de meus
bens de fortuna, se a Providência me favoreceu mais com eles do
que a outros? Não será me aproximar deste cristianismo praticado
no tempo da Virgem e dos Apóstolos?... Quantas pessoas de
fortuna, alistadas na Consagração monfortina, ouviram esta
linguagem, seguiram esta luz e juntaram tesouros de eternidade!
66
Para melhor amar a Nossa Senhora

Assim também, seja eu rico ou pobre, quando compro ou recebo


uma veste, um alimento, um remédio, um livro, uma gratificação,
um aviamento; também quando recebo os honorários de meus
serviços, o salário de meu trabalho, ou que me beneficio de uma
liberalidade, meu primeiro provimento deve ser sempre o de aceitar
estes bens como vindos das mãos de Nossa Senhora. Devo
agradecer-lhe ime- diatamente, oferecer-lhe o uso que deles farei e
considerar antes a sua glória que o meu proveito. Este hábito se
adquire facilmente.
O Revmo. Pe. Olier, fundador de São Sulpício, seguia-o
pontual- mente. “Nunca ousei, confessou ele, servir-me de alguma coisa,
como, por exemplo, chapéus, roupas, sem antes ter consagrado a Maria o
primeiro uso deles... Vendo que eu era a única pessoa que agia desta
forma, cheguei a crer que era uma fraqueza, uma tolice e sujeição
excessiva. Quando, porém, faltava a estas práticas, no mesmo dia, ou
pouco tempo depois, perdia as minhas roupas: ou se queimavam ou se
rasgavam; e este castigo visível advertia-me de que me corrigisse de
minha falta e nela não mais recaísse”5.
Existe, pois, uma virtude especial nesta prática de oferecer cada
vez a Maria até os menores objetos que adquirimos.
- No número dos bens exteriores devemos contar igualmente
nossos momentos de descanso, as recreações permitidas, nosso
sono. Nossos membros cansados pedem um repouso, nossos nervos
por demais estirados têm necessidade de afrouxar. É bom para eles
que se refaçam durante horas tranqüilas. Ofereçamos a Maria este
benefício, em vista de retomar com um novo ardor a tarefa
começada.
Quanto aos prazeres legítimos, convém usá-los moderadamente
e saber delimitar-lhes o tempo. Porque antes de qualquer
denominação, o prazer por si mesmo, pelo fato de sua natureza e da
nossa, comporta um perigo contra o qual, por virtuosos que
sejamos, temos que nos premunir. Não esqueçamos nossas
propensões nativas e a fascinação que exerce sobre nós aquilo que
agrada contra aquilo que é dever. Muito facilmente e muito
depressa chegamos a nos conceder mais do que é razoável.
5
M. Letourneau, “Pensées choisies de M. Olier, 2° édition, 1915, p. 143.
J. M. Dayet

Aqui, ainda, nossa Consagração será a regra da prudência.


Posso eu, com toda a sinceridade, oferecer este prazer ou sua
prolonga- ção à minha divina Rainha? Ela o aceitará? A voz
interior não me dirá, antes, que dele se afastará? Não caí na
inutilidade, no abuso, no excesso, na satisfação egoísta?
Abstenhamo-nos então, detenha- mo-nos, saibamos fazer intervir o
espírito de mortificação. Senão, de concessões em concessões, eis-
nos arrastados para o declive do relaxamento e da defecção.
Apliquemos isto, de modo concreto, àquilo que sabemos favorecer
diariamente nossas inclinações naturais. Se não nos colocamos em
face de nossa Consagração, quantas sujeições acabamos por criar a
nós mesmos! Quantas perdas de tempo, também!
- Precisamente nosso tempo, que passa de minuto a minuto; é
um bem preciosíssimo para ser oferecido a Nossa Senhora. Por
meio dele compramos a eternidade. Não o desperdicemos nunca.
Façamo-lo render cento por cento. Mesmo quando nossas mãos se
detêm, ou os nossos braços descansam, conservemos desperto
nosso espírito. Em nossas idas e vindas, é tão fácil ainda recolher
méritos, recitar uma Ave Maria, pronunciar baixinho algumas
invocações, dizer um obrigado ou pedir perdão!
É surpreendente o bem que se pode praticar num só dia, sabia-
mente ordenado. De modo geral, ganhemos tempo para tudo desde
o despertar, mas principalmente para nossos exercícios de piedade.
Não os deixemos para o fim do dia. A noite não se está mais tão
disposto: predomina o cansaço.
Há ainda outro tempo, o tempo atmosférico, que varia com as
esta- ções, e, na mesma estação, nos dá ora sol, ora o nevoeiro ou o
vento forte. Admiremos nestas mudanças a Providência do Pai
celeste, que vela assim sobre a saúde de nossos corpos como sobre
a produção dos frutos da terra. Tomemos os dias conforme se
apresentam: ensoleira- dos e alegres ou chuvosos e aborrecidos.
Não nos queixemos quando o dia está menos belo. “É sempre o
tempo de Nossa Senhora”, dizia certo dia, ouvindo queixas, uma
alma invariavelmente sorridente. Outra alma tinha se habituado a
dizer, principalmente quando se prolongava o mau tempo: “Chuva e
orvalho, ventos e tempestades, neves
68
Para melhor amar a Nossa Senhora

e geadas, bendizei ao Senhor, bendizei a Rainha!”. Não é o melhor


modo de aceitar, de suportar, de passar assim horas, dias, cujo calor
ou frio, umidade ou secura não dependem de nós?
- Assinalemos enfim um último bem exterior, que está longe de
nos deixar indiferentes: a estima que o próximo nos dedica. Visto
que este bem, como os precedentes, deve ser oferecido à santíssima
Virgem, nós lhe abandonaremos totalmente, preocupados, antes de
tudo, de caminhar à sua luz.
Uma alma que ama Nossa Senhora do modo que descrevemos,
não deixa de exercer em volta de si uma irradiação de virtudes.
Aproximamo-nos dela e a acolhemos com prazer. Vamos ter com
ela porque reflete algo da doçura, da bondade de sua Soberana.
Uma piedosa emulação daí se segue, e quem sabe o bem que
poderá daí resultar? Grande número de conversões ou de vocações
não tiveram outro começo.

***

Chegamos assim aos nossos BENS INTERIORES, que são todos


de ordem espiritual. Eis porque são mais preciosos. São estes,
acima de tudo, que importa entregar e consagrar a Maria com plena
confiança: toda a riqueza de nossa vida sobrenatural, nossa graça
santificante, nossas virtudes, as graças atuais docilmente acolhidas
sob a moção dos dons do Espírito Santo, nossos méritos, todas
estas ações santas que não cessam de aumentar de dia para dia,
desde a participação ativa no Sacrifício da Missa até a menor de
nossas orações jaculatórias e ao mais despercebido serviço
prestado ao próximo.
Na sua fórmula de doação total, São Luís Maria assinala estes
bens em primeiro lugar: Entrego-vos e consagro-vos... meus bens
INTERIO- RES e EXTERIORES... em razão, evidentemente, de sua
importância. Em seguida, volta imediatamente a eles,
especificando que aban- dona, entre as mãos de Maria, O VALOR
MESMO DE SUAS BOAS AÇÕES PASSADAS, PRESENTES E
FUTURAS. Este membro de frase
J. M. Dayet

tem grandíssima importância: ele nos conduz aos últimos limites


do desapego e do despojamento.
Nem as promessas do batismo, nem os votos de religião exigem
semelhante sacrifício. “Fica-se, depois do batismo, inteiramente livre
de aplicar o valor das próprias boas obras a quem se quiser, ou de o
conservar para si” (V. D., nº 126). “Dá-se a Deus, nas religiões, os
bens de fortuna pelo voto de pobreza, os bens do corpo pelo voto de
castidade, a própria vontade pelo voto de obediência, e, às vezes, a
liberdade do corpo pelo voto de clausura; mas não se lhe dá a
liberdade ou o direito de dispor do valor de suas boas obras, não se
despoja, tanto quanto possível, daquilo que o homem cristão tem de
mais precioso e mais caro” (V. D., nº 123).
Nossa Consagração vem coroar todas as imolações já
consentidas. Leva ao auge a maior felicidade das almas generosas,
a felicidade de dar. Entregamos a Maria o tríplice valor do
merecimento, da oração e do sacrifício de todas as nossas boas
obras, feitas em estado de graça, no passado como as do futuro.
Seu valor como merecimento, no sentido estrito da palavra,
perma- necerá nosso. A Santíssima Virgem não se servirá dele
absolutamente em favor de outrem. Trata-se aqui de um bem
rigorosamente pessoal, inalienável, incomunicável. Nossos
merecimentos são os títulos com os quais compramos nosso lugar
no paraíso. Porém, estes títulos não estão mais seguros nas mãos
de Nossa Senhora que nas nossas? Não julgamos que Ela os saberá
defender, se for preciso; e também geri-los, valorizá-los quanto
possível para nosso maior interesse? Confiemos-lhe, pois, com
grande alegria, nosso tesouro de eternidade. O valor, como oração
e sacrifício, não é coisa inalienável. Nossa capacidade de
impetração é um título para obter favores espirituais ou temporais
para si ou para outrem: a libertação de uma tentação, a conversão
de uma alma que nos é cara, o bom andamento de uma vocação; o
feliz êxito de uma viagem, de uma peregrinação, de uma operação;
a cura de uma pessoa doente, o bom resultado de um
negócio, etc...
Nossos sacrifícios, nossas satisfações, são títulos à remissão da
pena temporal devida aos pecados perdoados; e aqui, ainda, para si
70
ou para

71
Para melhor amar a Nossa Senhora

o próximo; para os pecadores, para os moribundos, para as almas


do purgatório. As missas que gostamos de assistir, as indulgências
que procuramos ganhar, encerram em primeiro lugar este muito
apreciá- vel valor. Para ouvir missas extraordinárias, para lucrar
indulgências
- as da Via Sacra, do Rosário, das visitas ao Santíssimo
Sacramento, etc. - não se deve temer o esforço que custa, saber
impor-se corajosos esforços da vontade, disciplinar a hora do
levantar, economizar o tempo, observar as condições requeridas.
Deste valor especial de impetração e de satisfação, fazemos a
Nossa Senhora um completo abandono. Deixamo-la inteiramente
livre de dispor dele segundo a sua vontade e como bem lhe parecer.
Oh, sem dúvida ser-nos-á sempre permitido recomendar ao seu
Coração misericordioso tal intenção, tal apostolado que nos é caro,
tal pessoa viva ou defunta; e Maria se prestará sempre a atender o
que lhe expõe nosso coração. Porém, recomendar não é ordenar nem
dispor. Em suma, deixamos-lhe o cuidado de agir segundo o seu
bel-prazer. Damos-lhe toda a nossa confiança. Descansamos na sua
sabedoria e no seu amor. O uso que fará de nossos bens espirituais
será certamente o melhor. Não sabe Ela, melhor do que nós, o que
pode ser mais proveitoso a uns e a outros? Não vê todas as coisas na
Luz de Deus? Não age Ela sempre de conformidade com a sua
santa vontade?
Que temeremos nós? Longe de nós a idéia de qualquer perda.
Porque, pensando bem, ganharemos, ao contrário, o belo mérito da
caridade perfeita para com Deus e para com o próximo.
Como assim? Porque deixamos a Maria toda a liberdade de se
servir do que lhe damos para a maior glória de Deus e também para
a maior vantagem do próximo, conhecido e desconhecido.
- A GLÓRIA DE DEUS. É o fim mais elevado e mais nobre. No
céu, os eleitos não fazem outra coisa senão glorificar a Deus. Infe-
lizmente, na terra, relativamente pouco numerosas são as almas que
se preocupam com este fim primordial. São Luís Maria constatava
isto e se lamentava: “Quase ninguém, dizia, trabalha para este nobre
fim,
J. M. Dayet

embora esteja a isto obrigado; quer porque não se saiba onde está a
maior glória de Deus, quer porque não se a deseja” (V. D., nº
151).
A Santíssima Virgem sabe o que pode promover mais a glória
de Deus, e Ela quer esta glória antes de qualquer outro fim. Quem
nos dera penetrar nas suas grandes intenções! Uma só alma que
escapa ao inferno, uma só alma que sai do purgatório já
proporciona tanta glória a Deus! E o que dizer, então, dos milhares
de convertidos nos países de missões, dos milhares de criancinhas,
às portas da morte, que recebem o batismo embora pertencendo a
famílias pagãs! Junto a estes convertidos encontram-se sacerdotes
vindos de muito longe, e dos quais Maria favoreceu a partida. A
cabeceira daquelas criancinhas encontrou-se uma religiosa cuja
vocação missionária seja talvez devida às orações e sacrifícios, que
deixamos a Maria a livre disposição. Muitas vezes nos citaram
casos de religiosas que tinham cada uma, na sua folha de ofício,
milhares de batizados por elas administrados. São, estes, exemplos
eloqüentes.
Pouco importa, no entanto, que saibamos ou não o que fará
Nossa Senhora daquilo que lhe damos; o certo é que o valor de
todas as nossas ações, pensamentos e palavras será empregado por
Ela à maior glória de Deus. “Poderemos encontrar algo de mais
consolador, acrescenta São Luís Maria, para uma alma que ama a
Deus com amor puro e desinteressado e que preza mais a glória de
Deus e os interesses de Deus que os próprios?” (nº 151).
Eis bem a caridade perfeita em relação a Deus.
- Eis também a CARIDADE PERFEITA PARA COM O PRÓXIMO.
Deixamos a Nossa Senhora socorrer, em nosso lugar, com os
nossos pequenos bens espirituais, nossos irmãos conhecidos e
desconhecidos. Nossos irmãos conhecidos: nossos parentes, nossos
amigos, nos- sos benfeitores, todos aqueles que vivem conosco
em família ou permanecem no círculo mais ou menos extenso de
nossas relações. Mesmo para este próximo mais próximo, não é
preferível deixar Maria agir? Não conhece Ela do que ele necessita
tanto no espiritual como no temporal? Nossas vistas, nossas
intenções não são sempre
72
Para melhor amar a Nossa Senhora

interesseiras? Pedindo para os outros, pelos nossos, não é ainda


para nós que secretamente pedimos?
Enquanto que deixando Nossa Senhora agir, perdendo nossas
intenções nas Suas, nossa caridade não fica imediatamente
purificada de todo o egoísmo?
E nossos irmãos desconhecidos: o próximo afastado, infeliz,
aquele que tem maior precisão de socorros espirituais, aquele que
não entra no círculo de nossas habituais preocupações: tantas
crianças que não recebem uma educação cristã, tantos cristãos que
vivem em pecado, tantas almas em perigo imediato de se
perderem! E os inimigos da Igreja, os perseguidores, todos os
adeptos de Satanás, dos quais Maria Imaculada deve triunfar
segundo as predições de São Luís Maria. Seu império não se deve
estender sobre o dos cismáticos, ímpios, idólatras, maometanos?
(V. D., ns. 50 e 59). E isto, graças ao zelo de seus Apóstolos, que
serão os dos últimos tempos. Aliás, desde um certo número de
anos, os Soberanos Pontífices não pediram que se celebrassem
missas e se recitassem orações para a conversão da Rússia? Nossa
Senhora, em Fátima, não recomendou com insistência esta
intenção? Dilatemos, pois, nossas vistas nas dimensões das suas.
Pensemos que Ela é e quer ser reconhecida Mãe de uma infinidade
de almas que vivem, sofrem, gemem, e que estão longe do nosso
pequeno horizonte; e demos-lhe com que ajudar a salvar essas
almas. Sim, isto é caridade perfeita. É amar o próximo, todo o
próximo, como a si mesmo, pelo amor de Deus, em nos servindo
da suave e onipotente mediação de Maria.
Todas as coisas bem consideradas, é necessário, pois, reconhecer
que por esta entrega sem reservas de nossos bens espirituais entre
as mãos da Santíssima Virgem, ganhamos o mérito do exercício da
caridade. É o que há de maior. E este merecimento, como qualquer
outro, é inalienável. Quantas pérolas, quantos diamantes acrescen-
tados à nossa coroa!

***
J. M. Dayet

Por que, então, se encontram almas mesmo aplicadas ao seu


pro- gresso que recuam, diante desta entrega, quando isto lhes é
proposto? É que, mais ou menos conscientemente, deixam-se
prender com razões de egoísmo. Temem que uma tal doação lhes
seja prejudicial durante a vida e principalmente depois da morte.
Não colocam sua confiança em Maria. Não se atiram nos seus
braços de olhos fechados e com o coração inteiramente aberto. Um
interesse pessoal, muito sutil, as detêm.
De um modo geral, e em todos os meios, as almas de franca
simplicidade evangélica, que amam sem raciocinar, aceitam
esponta- neamente e com entusiasmo este abandono total, como a
libertação de uma multidão de preocupações que antes lhes eram
obstáculos. Seus haveres espirituais estão, de ora em diante, nas
mãos de Maria. Ei-las tranqüilas.
Encontramos muitas almas desta envergadura; uma, em
particular, que chegou por si mesma à Doação total, fora de
qualquer influência, de qualquer pressão estranha, movida
unicamente por uma inspira- ção fortíssima do Espírito Santo. Sem
nenhum cálculo, num 31 de maio - era um sábado - havia tudo
entregue de uma só vez e para sempre, abandonando absolutamente
a Nossa Senhora sua vida no tempo e na eternidade.
Vivia esta doação uns dois anos, quando, por ocasião de um
retiro, veio-lhe a idéia de confiar sua alegria ao pregador. Este, por
felicidade, admirou e aprovou. Mas, como para a animar e mais
tranqüilizar, procurou explicar-lhe o tríplice valor contido em
nossas boas ações. Contou-nos, mais tarde, esta pessoa: ‘’Ele me
apresentou toda uma teo- ria sobre o que é alienável e o que não é.
Ah!, acrescentou, o que Nossa Senhora me havia pedido era bem
mais simples. Ela me pediu tudo, eu lhe dei tudo. Por isso, dentro de
meu coração contentei-me de lhe dizer, depois deste entretenimento:
Minha boa Mãe, o que eu vos dei está dado”. Eis uma alma que não
quis mesmo se embaraçar com distinções legítimas. O amor tem
plena confiança. O amor se abandona. O puro amor, sem mesclas,
sem nenhum olhar sobre si mesmo. Que liberdade
interior se adquire de um só golpe!

74
Para melhor amar a Nossa Senhora

Tudo o que pode sobrevir, será imediatamente confiado a Nossa


Senhora: tentações, desolações, desânimos por vezes, inquietações,
sofrimentos morais, certas incompreensões, certas provações inte-
riores; aridez, securas, desolações; fracassos nas obras de
apostolado, fracassos na obra mesmo de nossa própria santificação:
fica-se ainda tão longe do ideal entrevisto! Sim, nossa indigência
espiritual, por vezes nossos desgostos e as trevas de nosso espírito,
a insensibilidade de nosso coração, as incapacidades de nossa
vontade. Tudo isto como também, em certos dias principalmente,
nossa paz, nossa alegria exu- berante, nossa dilatação de alma,
quando voltam as grandes festas da Igreja com suas inebriantes
oitavas; e as consolações de cada manhã, ao contato do Pão
eucarístico. De antemão, nossa morte, o gênero de morte que for do
agrado de Nosso Senhor nos enviar; e nosso purgatório, se é que
ainda existe para as almas que viveram fielmente sua Consagração;
e, enfim, nosso céu, o lugar que aí ocuparemos no seio da visão
beatífica.
Acontece perguntarem se nós devemos oferecer igualmente
nossas faltas, nossos desfalecimentos de cada dia, a Nossa
Senhora. Sem hesi- tar, respondemos afirmativamente. Porque
Maria nos obtém então, mais eficazmente, a graça da contrição e
do perdão destas faltas; e Ela retira para nós, de sua acusação, de
sua persistência reconhecida, o bem de uma maior humildade.
- Não me deste TUDO, dizia um dia Nossa Senhora a Santa
Ger- trudes, que a Ela se consagrava por um oferecimento total e
porme- norizado, não me deste os teus pecados.
- Não pensei nisto, e não o teria ousado, respondeu Gertrudes.
- Dá-os, para que eu os tire e os apague.

***

Nossa Consagração não excetua, pois, coisa alguma. É absolu-


tamente total. É libertadora; de nenhuma forma pesada. É bastante
dar-se. Para quem ama, é coisa fácil.
J. M. Dayet

Compreendemos que um batizado, um consagrado, desprendido


a este ponto, possa ser denominado escravo de amor de Maria.
Esta palavra, que de propósito evitamos pronunciar até agora,
aparece tão suave ao seu coração como profundamente justa ao seu
espírito. Expressa a verdade do que é: uma completa dependência,
querida, amada, sem condições, sem procura de interesses, que
deixa a Maria o inteiro e pleno direito de dispor de nossa pessoa e
de nossos bens, no tempo e na eternidade.
Não assusta, à primeira vista, senão porque ainda não
averiguamos a realidade que encerra. Por isso, quisemos começar
explicando esta realidade: o dom total de nós mesmos a Maria.
Erram muito, como por vezes acontece, aqueles que opõem a
palavra “escravo” à de filho, como se - na nossa Perfeita Devoção -
os dois termos fossem incompatíveis. Filhos de Maria nós o somos
desde o nosso batismo, pois que nesse dia, em união com o Espírito
Santo, Ela nos gerou para a vida daquele que é nossa divina
Cabeça. Agora, que tomamos consciência desta geração batismal,
queremos que Maria possua inteiramente nossa vida sobrenatural,
que Ela a governe segundo a sua vontade, que Ela a conduza ao seu
bem-aven- turado termo. Eis porque nós nos consagramos a Ela em
qualidade de escravos, deixando-lhe toda a liberdade de ação,
oferecendo-lhe uma submissão de cada instante, uma dependência
que não terminará nunca, que jamais há de querer a menor
emancipação. Só o escravo de amor pode querer depender até este
ponto. Nós nos tornamos, então, os perfeitos filhos de Nossa
Senhora.
Para não deixar subsistir nenhuma dúvida, nenhuma sombra em
nosso espírito, consideremos a Virgem, em Nazaré, na manhã da
Anunciação. Que outra criatura, angélica ou humana, poderia,
como Nossa Senhora, denominar-se filha de Deus? Não era Ela
Filha do Eterno Pai, sua Filha imaculada, a mais privilegiada e a
mais agra- ciada? E, no entanto, solicitada pelo Anjo para dar seu
livre consenti- mento à Encarnação do Verbo, não hesitou em se
proclamar a escrava deste Pai muito amado. Escolheu suas
palavras: Ancilla Domini, isto

76
Para melhor amar a Nossa Senhora

é, segundo a força do texto original, não somente serva, mas


escrava de seu Senhor e único Dono, Deus.
Que solene profissão de dependência total! Maria é filha de
Deus pela vontade amante do Pai; porém, Ela se considera a
escrava de Deus por sua própria vontade amante.
Ainda mais. Notemos que Ela pronuncia esta palavra no
instante mesmo em que aceita esta graça supereminente da
Maternidade divina. Ei-la, pois, Mãe de Deus e escrava de Deus ao
mesmo tempo. Tudo isto combina harmoniosamente nEla. Por que,
então, o título de escravo não estaria de acordo com nosso título de
filho da Santíssima Virgem? Fomos gerados por graça, dom
gratuito, sem o concurso de nossa vontade. Sem deixarmos de ser
os filhos de Nossa Senhora, e para sê-lo de dia para dia mais
perfeitamente, nós nos consagramos agora na qualidade de
escravos por livre escolha. Nada se opõe a este ato e tudo nos
impele para isto.
As objeções e falsos raciocínios não surgem senão porque se
persiste em colocar-se em face dos homens e diante de si mesmo,
quando seria necessário colocar-se unicamente em face de Deus,
como o fez Nossa Senhora. Se olharmos para baixo, aos nossos
pés, quadros de violência, de constrangimento, de tirania, de
ultrajes à dignidade humana apresentar-se-ão fatalmente; abusos
condenáveis e condenados, que nada têm que ver com a Perfeita
Devoção a Nossa Senhora.
Olhemos para o alto, bem acima dos homens e de nós mesmos;
consideremos a eminente dignidade de Maria, Mãe de Deus,
Soberana do universo, Mãe e Formadora dos predestinados, Rainha
pacífica dos corações que se entregam e se abandonam à sua ação
maternal. Que benefício poder constituir-nos seus escravos, para
lhe pertencer o mais possível!
Da amantem et sentit quod dico, diremos com Santo
Agostinho6. Tomai uma alma que ama intensamente: ela
compreenderá nosso modo de falar. Compreenderá que esta palavra
“servus”, quando nós a aplicamos como complemento à pessoa de
Maria, Servus Mariae,
6 Homília: 4ª feira de Pentecostes.
J. M. Dayet

vem a ser, então, sinônimo de liberdade (tibi servire, libertas), de


grandeza, de nobreza, ao mesmo tempo de felicidade e de
segurança. A abjeção, a ignomínia, aqui não tem razão de ser. Tal
conceito nem se apresenta mais ao espírito.
O apóstolo São Paulo não experimentava senão orgulho - um
orgulho pessoal muito acentuado em se denominar escravo do
Cristo Jesus: Servus Jesu Christi (Rm 1), e isto em face da
sociedade pagã de Roma, em pleno reinado de uma escravidão
humana aviltante. Que frêmitos de alegria não deviam sentir os
cristãos aos quais o santo dirigia sua epístola! Após dezenove
séculos de cristianismo experi- mentamos a mesma alegria,
exultamos do mesmo orgulho; porque se somos os escravos de
amor de Maria, não é senão para sermos mais perfeitamente os
escravos de amor do Cristo Jesus, seus mem- bros mais dóceis,
aptos, no grande Corpo místico, em captar todas as influências que
nos vêm dEle, de seu Espírito Santo, por meio de sua santa Mãe,
que é também a nossa.

Capítulo VIII
Com São LuÍS Maria, vivaMOS numa CONSTAnte dependência
de NOSSA Senhora — Por Maria e com Maria

O que acaba de ser explicado, concernente à doação a Nossa


Senhora de nossa pessoa e de nossos bens, já nos fez entrever que
vida de união íntima podia daí resultar. Para favorecer o seu
desenvolvi- mento, São Luís Maria não hesita em propor
PRÁTICAS INTERIORES de um surpreendente poder de
santificação.

78
Para melhor amar a Nossa Senhora

A fórmula que as expressa já nos é conhecida: fazer todas as


nos- sas ações, as que preenchem o quadro habitual de nossos dias,
POR MARIA, COM MARIA, EM MARIA e PARA MARIA. O que
significa:

 Mostrar-nos dóceis às suas inspirações,


 Aplicar-nos em reproduzir suas virtudes,
 Haurir em Seu Seio nossa vida divina,
 Sentir-nos honrados em a servir e glorificar.

O que de mais accessível e, ao mesmo tempo, de realizador?

***

A. PROCUREMOS AGIR POR MARIA E COM MARIA

Fazer por Maria nossas ações mais comuns, consiste em nos


mos- trarmos constantemente dóceis às suas inspirações. Não
percebe- mos estes sopros que vêm do alto e nos convidam a subir,
a sair de nós mesmos, desde o momento do despertar até o de
descan- sar? É a Virgem Santíssima que passa nestes sopros. Ela
nos pede com instância que a escutemos, que a sigamos, que lhe
obedeçamos, que nos deixemos tomar, transportar pelo movimento
que Ela nos imprime, de não resistir à sua influência de graça e de
produzir desta forma atos sobrenaturais, verdadeiramente bons,
meritórios para o céu.
São Luís Maria define isto deixar-se conduzir pelo espírito de
Maria, que é o Espírito Santo de Deus. E como se esta afirmação
pudesse cau- sar espanto ou surpresa, volta a esta idéia algumas
linhas adiante: “Disse que o espírito de Marial era o Espírito de
Deus, porque nunca Ela se guiou por seu próprio espírito, mas sempre
pelo Espírito de Deus, que se tornou de tal forma o Seu Senhor, que
veio a ser seu próprio espírito” (V. D., nº 258.)
J. M. Dayet

Admirável e confortadora doutrina. Obedecendo a Maria,


estamos certos de obedecer ao próprio Espírito Santo. A tal ponto,
que São Luís Maria se apodera imediatamente da frase de São
Paulo tão cara aos místicos: Qui Spiritu Dei aguntur, ii sunt filii
Dei (Rm 8, 14). “Os que são movidos pelo Espírito de Deus, estes
são filhos de Deus”. O santo marializa a fórmula e afirma: Os que são
movidos pelo espírito de Maria, são filhos de Maria, e, por
conseguinte, são filhos de Deus; pois que, no plano divino de nossa
santificação, não se pode vir a ser filho de Deus sem Maria.
Da mesma forma, pois, que o Espírito Santo se tornou o próprio
espírito de Maria, é necessário agora que este espírito de Maria
venha a ser o próprio espírito de cada um de nós, nosso animador,
nosso iluminador, nosso condutor. A Virgem Santíssima será
então, em nós, a Dona e Soberana, e seremos seus escravos de
vontade amorosa, isto é, seres dependentes e dóceis por profissão.
Seremos seus perfeitos obedientes, os verdadeiros filhos de seu
Coração. Em outros termos, nossa tão santa Escravidão fielmente
vivida vai permitir-nos atingir a plenitude de nossa filiação divina e
marial.
Eis porque, continua São Luís Maria, entre tantas pessoas que
se dizem ter devoção a Nossa Senhora, somente os que lhe professam
devoção interior são os que se conduzem por seu espírito em tudo.
Os demais param nas Práticas exteriores e dão-se por satisfeitos. A
fim de chegar a nos deixar conduzir desta forma por Marta, São
Luís de Montfort indica a seguinte conduta:

1. Renunciar ao nosso próprio espírito;


2. Entregar-nos ao espírito de Maria;
3. Renovar muitas vezes este ato de oferecimento e ele união.

1º Importa, antes de tudo, RENUNCIAR ao nosso próprio espí-


rito no momento de começar uma ação. Quase sempre, neste
momento, uma voz se faz ouvir, inteiramente diferente da voz
de Nossa Senhora: é a da natureza em oposição à da graça. Está
mais ou menos carregada de pretextos, de aparências de razão.

80
Para melhor amar a Nossa Senhora

Reclama, exige que se lhe conceda, incontinente, tal prazer, tal


satisfação. Por exemplo, quando chega a hora do levantar, hora
marcada pelo regulamento ou indicada pelo som do sino, esta
voz da natureza reclamará o cansaço, o deitar retardado, a insô-
nia, o frio do aposento no inverno, uma enfermidade qualquer...
Se a ouvirmos e seguirmos, nosso levantar será o de um senhor
agindo segundo sua vontade e nunca o de um escravo
voluntário. Ganharemos um pequeno gozo momentâneo e
teremos perdido o mérito da recompensa eterna.
O necessário é renunciarmos a ouvir a voz da natureza. Aba-
femo-la desde que se faz ouvir. Porque voltará no decurso das
diferentes ações do dia, mesmo as mais santas, como, por
exem- plo, no exercício das obras de caridade. Ela apresentará
vistas egoístas, interesseiras, sentimentos de vaidade, de
ostentação, de complacência em si mesmo; sentimentos de
inveja, de rancor, de amor-próprio melindrado. Que infinidade
de coisas senti- mos subir das profundezas desta tríplice
concupiscência, que permanece em todos nós precisamente
para que tenhamos o merecimento da luta!
Renunciar-nos é a vitória. É a nossa generosa resposta à grande
palavra do divino Mestre: “Se alguém me quiser seguir, que se
renuncie”. Não escolhemos de O seguir de mais perto que
muitos outros, até no caminho de sua dependência marial?
Aceitemos, pois, com um coração magnânimo, colocar o
sacrifício do eu que quer gozar no ponto de partida de nossas
ações. Se assim não fizermos, poremos obstáculos aos convites
de nossa Soberana.

2º A este ato de renúncia devemos unir um ato de


ABANDONO. Ficar em luta com a renúncia a si mesmo não
será nunca uma coisa atraente. Ninguém renuncia a si mesmo
pelo gosto da renúncia. Fazemo-lo para entregar-nos e
abandonar-nos às influências que nos vêm do Alto. Ao
sacrifício do eu segue-
-se então, imediatamente, a alegria de uma alma libertada de
si mesma, aberta à graça, enveredada para o caminho da união.
J. M. Dayet

É necessário, diz São Luís Maria, entregar-se ao espírito de


Nossa Senhora para sermos por ele movidos e conduzidos do
modo que Ele quiser. Deixemo-la dirigir-nos. Será sempre do
melhor modo para nosso progresso espiritual. Consintamos
apenas em ser um instrumento dócil nas suas mãos, como uma
cítara nas mãos de um bom artista. A cítara deixa passar nas
suas cordas a virtuosidade do artista. Deixemos passar em
nossas faculdades a maternal moção de Maria. Juntos, a cítara e
o músico emitem uma harmonia agra- dável aos ouvintes.
Nossa alma e a Virgem Santíssima oferecem juntos, ao Pai dos
céus, uma ação que lhe é agradável e que Ele recompensará um
dia. Eis-nos elevados bem acima do pequeno sacrifício inicial,
em plena altura sobrenatural, transportados por Nossa Senhora
até o Seio da Trindade.
Para entregar-se e abandonar-se assim, é bastante um olhar do
espírito, um leve movimento da vontade ou uma palavra dita
em voz baixa, por exemplo: Renuncio a mim mesmo; entrego-me
a vós, minha Mãe querida! O que se faz simplesmente num
momento, quer se esteja só ou acompanhado.
Pouco importa experimentar ou não uma doçura sensível neste
ato de união, não deixa de ser verdadeiro. Não será senão mais
meritório nos dias de provação e nas horas de desolação.

3º Recomenda enfim, nosso santo, que não nos contentemos


de emitir o ato de união só no ponto de partida das diferentes
ações de nossos dias. Estas ações - oração, missa, terço, tra-
balho, refeição, recreações - têm seu prolongamento e muitas
vezes apresentam-se distrações, tentações, ocasiões que
enervam, impaciências, atritos, susceptibilidades... Que fazer,
então, senão RENOVAR DURANTE A AÇÃO o mesmo ato de
renúncia e de oferecimento? Guardamos assim o contato com a
graça oferecida e aceita; permanecemos em comunicação com
o espírito, com a alma de Maria; não cessamos de captar o
fluído divino, as ondas invisíveis que sustentam e
sobrenaturalizam nossos esforços.

82
Para melhor amar a Nossa Senhora

Mesmo DEPOIS DA AÇÃO, nas nossas idas e vindas, nestes


momentos de descanso concedidos aos nossos membros ou às
nossas faculdades, será sempre excelente entregar-se de novo a
Maria pelo mesmo ato imperceptível de vontade, pela mesma
palavra balbuciada amorosamente. Porque, explica São Luís
Maria, quanto mais o fizermos, mais depressa nos santificaremos
e mais depressa chegaremos à união com Jesus Cristo, que segue
sempre necessariamente à união com Maria, visto que o espírito
de Maria é o espirita de Jesus (V. D., nº 259).
Com efeito, a alma chega a respirar Maria como nosso corpo
res- pira o ar. Respirar Maria, a mais santa dentre todas as
criaturas, é necessariamente santificar-nos sem perder a
mínima parcela de tempo. É chegar, pois, mais depressa a este
fim ambicionado por todas as almas verdadeiramente cristãs e,
com maioria de razão, de todas as almas consagradas: a união
ao Cristo Jesus.
Porque - guardemos esta palavra de ouro - a união ao Cristo
segue sempre forçosamente a união a Maria. A razão disto é
clara: Maria respira Jesus, pensa Jesus, diz Jesus. Quanto, pois,
mais a respirarmos antes, durante e após as nossas ações, tanto
mais respiraremos o próprio Jesus.
Constatemos que esta primeira fórmula, “Por Maria”, torna a
nossa vida interior suavemente dependente da Santíssima
Virgem.

***

A fórmula “Com Maria” convida-nos a reproduzir as virtudes


de nossa divina Rainha, no cumprimento das mesmas ações de
nossos dias.
Já que nos colocamos entre as suas mãos, como instrumentos
dóceis, olhemo-la e esforcemo-nos de olhar para Ela e imitá-la. Não é
Ela o Modelo acabado de toda virtude e perfeição que o Espírito
Santo formou numa pura criatura, isto é, numa simples pessoa
humana, irmão de nossas almas? Permanece, pois, o Modelo ao
mesmo tempo ideal e accessível, feito para os nossos olhos, sem
perigo de ofuscá-los.
J. M. Dayet

Não tenhamos medo de fixar nEla nossos olhares e de caminhar na


sua companhia, nossa mão na sua.
É necessário, diz São Luís Maria, que em cada ação
consideremos como Maria a fez quando Ela vivia na terra, ou a
faria, se estivesse presentemente em nosso lugar (V. D., nº 260).
De nenhuma sorte há necessidade, para isto, de grandes esforços de
imaginação. A vida da Santíssima Virgem decorreu toda unida e
inteiramente simples no seio de ocupações como as nossas ou das
quais somos testemunhas todos os dias. Trata-se, apenas, de a
colocar diante de nossos olhos.
Nosso santo pede-nos, então, que EXAMINEMOS e
MEDITEMOS as grandes virtudes que Nossa Senhora praticou no
cumprimento de suas ações quotidianas.
“Examinar” é o olhar atual de nossa alma, o olhar do momento
presente. “Meditar” será o olhar habitual, o de nosso atrativo inte-
rior em todo tempo. Estes dois meios, perseverantemente
utilizados, devem fazer de nós imagens semelhantes, cópias vivas
do amável Modelo, colocado por Deus ao nosso alcance.
- O OLHAR DE EXAME dirige-se à ação presente. Retomemos
o mesmo exemplo que precedentemente: nosso levantar. Considero
Maria no momento de seu despertar, quer no Templo de Jerusalém,
quer na tranqüila casa de Nazaré. Impossível de m’a representar
com uma natureza rebelde à graça. Não a posso ver senão
Imaculada, atirando-se de um salto para o coração de seu Amado,
desde este primeiro instante do dia. Para Ele as primícias do novo
dia, para Ele o fervor de amor destes minutos, destes segundos que
marcam o tempo do merecimento e do progresso.
Ó minha divina Mãe e Mestra, estou longe de possuir vosso
privilégio de tal forma sinto nos meus membros o peso do pecado.
No entanto, nada me impede de experimentar introduzir, no meu
levantar, algo do fervor do vosso; por neste primeiro ato de
abandono entre as vossas mãos a intensidade de amor de que sou
capaz com o auxílio de vossa graça. Quero fazê-lo hoje, amanhã e
em cada dia que recomeça.

84
Para melhor amar a Nossa Senhora

Então meu levantar não é mais simplesmente meritório, porque


obedeci ao primeiro sinal; é ainda solidamente virtuoso porque eu
o impregnei deste amor fervoroso, desta caridade por Deus, que
brotava do Coração de Maria desde o instante de seu despertar. O
mérito é maior.
O que dissemos do levantar, apliquemo-lo às outras nossas
ações. Contemplemos Maria durante nossa oração, missa,
comunhão, tra- balho; durante nossas refeições, conversações,
recreações, passeios, peregrinações... A ação que praticamos neste
momento quadra quanto aos sentimentos íntimos, quanto às
disposições do coração, com a mesma ação de Nossa Senhora?
Examinemo-la e examinemo-nos. Se formos sinceros conosco,
ganharemos cada vez em humildade, de tal forma nos acharemos
afastados do Modelo ideal proposto pelo Espírito Santo à nossa
imitação; e ganharemos também em santa emulação, pois que este
Modelo fica accessível. Desejaremos apro- ximar-nos do
recolhimento de Maria, sua intimidade de oração, sua penetração
do Santo Sacrifício, sua fome eucarística, sua atividade silenciosa e
disciplinada, seu espírito de mortificação, seu espírito de caridade
fraterna, seu sentimento da presença de Deus que a não deixava, o
surto de fé nas suas subidas a Jerusalém cada ano, no tempo da
Páscoa...
Observamos isto: há outra coisa aqui mais do que uma renúncia
às nossas distrações, preocupações, tentações de preguiça ou de
sen- sualidade aos nossos movimentos de amor-próprio e de vã
compla- cência; há, mesmo, muito mais que o abandono de nossas
faculdades às diferentes moções e influências da Santíssima
Virgem. É que as nossas ações se elevam progressivamente e
tendem a revestir a pureza, a beleza, o virginal resplendor das
suas.
- Este progresso irá sempre se acentuando, se acrescentarmos ao
olhar do exame que se dirige sobre a ação presente, o OLHAR DA
MEDITAÇÃO que vai alcançar as grandes virtudes de Nossa
Senhora. Uma alma interior não pode viver sem meditação.
Estamos con- vencidos disto. Quantas vezes, porém, nossas
meditações e orações giram no vago, sem objeto determinado! Não
sabemos que alimento
J. M. Dayet

lhes fornecer. Não conseguimos nos fixar sobre um assunto que nos
retenha e nos prenda. Perdemos muito tempo.
Sigamos o conselho de São Luís Maria. Tomemos como tema
habitual de nossas orações as grandes virtudes do Coração de
Maria. Virtudes, não mais num estado abstrato, consignadas num
livro, porém concretas, vivas, atraentes, desabrochadas na criatura
mais amada de Deus e que o próprio Jesus colocou entre a nossa
miséria e Sua infinita santidade. Como aí não encontrar um encanto
duradouro, um encanto para toda a vida, que há de permanecer
mesmo como alegria acidental ou de acréscimo na bem-aventurada
eternidade!
Nosso santo qualifica-as de “grandes”, porque Nossa Senhora
as possuía coroadas pelos dons do Espírito Santo sempre numa
bela atividade em sua alma. Vejamo-las assim.
Meditemos SUA FÉ VIVA. “Viva”, isto é, reforçada por esta
chama que foi o dom de inteligência na sua alma imaculada. Por
isso vemo-la crer, sem hesitar, no mistério da Encarnação e, em
seguida, cons- tantemente até ao pé da cruz, no Calvário, quando
então em volta dela não havia senão desfalecimento e abandono
universal. Só ela, depois da morte e sepultura de Jesus, dizia em
seu coração: “Creio na ressurreição de meu Filho”.
No meio de um mundo que se paganiza e materializa cada vez
mais, que volta às trevas daquele tempo em que vivia a Senhora,
como é confortador para nós refugiarmo-nos nesta fé luminosa e
sem eclipse, bem decididos não somente em prosseguir o trabalho
de nossa santificação pessoal, mas ainda em estender o mais
possível, em nosso raio de ação, o conhecimento e o reino de
Maria! Como aos Apóstolos dos primitivos tempos da Igreja, a
vitória sobre o mundo nos é assegurada. Ela o é mesmo de modo
mais brilhante, pois que
- segundo as vistas proféticas de São Luís Maria - “Nossa Senhora
deve brilhar mais do que nunca em misericórdia, em fortaleza e em
graça nesses últimos tempos” (V. D., nº 50). Sintamo-nos felizes de
poder combater em favor dessa Rainha, que deve triunfar!
Meditemos sua HUMILDADE PROFUNDA. Justamente por
causa desta virtude, Maria é a mais terrível inimiga do Príncipe
86
deste

87
Para melhor amar a Nossa Senhora

mundo. Satanás, sendo orgulhoso, sofre infinitamente mais ao ser


vencido e punido por uma pequena e humilde serva de Deus que
pelo próprio Deus. Do mesmo modo, ele sofrerá de se ver
combatido pelos humildes escravos, os pobres filhos que a Virgem
Santíssima há de suscitar para lhe fazerem guerra (V. D., ns. 52 e
54).
Revistamo-nos, pois, da humildade de nossa Rainha, humildade
“que a leva a se esconder aqui na terra, calar-se, sujeitar-se em
tudo e colocar-se no último lugar” (V. D., nº 260). Que abismo em
cada uma destas palavras!
- “Esconder-se”. Nossa Senhora não teve na terra atrativo mais
poderoso e mais contínuo que se esconder a si mesma e a toda cria-
tura, para não ser conhecida senão de Deus. De fato, para atendê-la
nos seus pedidos, Deus achou prazer em a esconder na sua
conceição, no seu nascimento, na sua vida, nos seus mistérios, na
sua ressur- reição e assunção, a respeito de quase toda criatura
humana. Seus próprios pais não a conheciam; e os anjos,
acrescenta São Luís Maria, perguntavam-se muitas vezes: Quae est
ista?... Quem é esta criatura tão acariciada por Deus? (V. D., ns. 2 e
3).
- “Calar-se’’ durante toda a sua vida. É notável que o
Evangelho nos refira unicamente sete palavras da Santíssima
Virgem. Falou duas vezes ao Arcanjo Gabriel, duas vezes à sua
prima Isabel, duas vezes ao seu divino Filho, uma vez aos servos
nas bodas de Caná. Por que este número «sete”, que corresponde
aos dons do Espírito Santo, senão para indicar-nos que Nossa
Senhora nunca falou, a não ser sob o influxo do divino Paráclito?
De outro lado, São Lucas se compraz em repetir (2, 19 e 51) que
a Virgem Santíssima conservava, meditava, repassava em seu
coração todas as lembranças de Jesus. Era sua contemplação
habitual. As almas meditativas se nutrem de silêncio. Vivem no
seu interior. Outras exteriorizam-se e se dispersam numa
infinidade de palavras inúteis. Muitas vezes nosso silêncio será um
apostolado. Não é sempre necessário falar para fazer o bem. Os
humildes irradiam. “Frei Leão, vamos pregar”, dizia São Francisco
de Assis ao seu companheiro de pobreza. E iam ambos pelas ruas
da cidade, olhos baixos, o coração
J. M. Dayet

cheio de oração. Voltavam ao convento sem ter pronunciado uma


palavra.
- “Sujeitar-se em tudo”. Toda a vida de Nossa Senhora não foi
senão obediência às vontades do Pai Celeste. Desde o instante de
sua Ima- culada Conceição até o de seu bem-aventurado trânsito,
não cessou de se mostrar escrava do amor de seu Senhor: Fiat
mihi secundum verbum tuum. Seus lábios não pronunciaram senão
uma vez esta palavra, porém seu coração a repetia a cada uma de
suas pulsações.
Sim, Fiat sempre, à medida que se desenrolavam as
conseqüências de sua divina Maternidade corredentora: na gruta de
Belém, na pro- fecia do velho Simeão, na travessia dos desertos do
Egito, diante da resposta de Jesus no momento do encontro, no
trabalho de Nazaré, diante da hostilidade dos judeus e do suplício
da cruz...
Pesquisemos a humildade que esconde uma tal sujeição: a do
entendimento, feita de abandono às únicas luzes de Deus.
Sabemos, por experiência, que é a mais difícil de ser praticada:
tantas vezes se prefere as próprias vistas! A obediência exterior
suprime o pecado, não é bastante, ou ao menos é pouca para o
mérito. A obediência interior revela a virtude aperfeiçoada pelos
dons de inteligência e de sabedoria.
- Apagamentos, silêncio, sujeição manifestaram-nos como por
degraus a humildade do coração da Virgem Santíssima. São Luís
Maria acrescenta, ainda, um degrau: “colocar-se no último lugar”,
isto é, unicamente ao serviço de outrem. Porque não somente
Maria quer servir porém Ela não quer fazer senão isto.
No Evangelho, como na Tradição, cada uma de suas presenças
concorda com um serviço. Se Maria se encerra no Templo, é com
um coração desinteressado, sem outra preocupação senão a de aí
servir a Deus. Ao anúncio de sua Maternidade divina, não se alegra
senão de uma coisa: o serviço entrevisto, ancilla Domini. Por
ocasião da Visitação, Santo Ambrósio sublinha com força este
passo da que é superior para a inferior com o único fim de servir.
Superior venit ad, inferiorem, ut inferior adjuvetur. Não é se
colocar no último lugar?
88
Para melhor amar a Nossa Senhora

No estábulo de Belém a Virgem Santíssima recebe o divino


Menino, enfaixa-o, deita-o, apresenta-o aos seus primeiros adora-
dores. No dia da purificação legal, vemo-la entre as demais filhas
de Adão como qualquer uma delas. Em Nazaré não está a serviço
de Jesus, de José, dos fregueses que se apresentam? No início do
minis- tério público, ainda não aparece a serviços dos convidados
de Caná? Não fica, daí por diante, à disposição dos pobres, dos
doentes, dos enfermos que assaltam o seu Filho e suplicam-lhe sua
mediação? O que faz no Calvário, senão servir com toda a
compaixão os pecadores mais desesperados? Após a Ascensão,
toda a sua solicitude se dirige sobre os apóstolos, os evangelistas,
as cristandades nascentes, sobre os primeiros mártires e os
primeiros perseguidos por amor de seu Filho. Tal é a grande lição
que Ela nos dá. Mãe de Deus, Rainha do mundo, Ela entende não
ser servida, porém servir. A maior do Reino se. faz a menorzinha; a
primeira, se coloca no último lugar. Não é o
grau mais elevado da virtude da humildade?
Diante de um tal exemplo perseverantemente meditado, como
não nos aplicar em crescer nesta virtude básica, caráter essencial
dos escravos voluntários?
- São Luís Maria assinala, em seguida à nossa meditação, a
PUREZA INTEIRAMENTE DIVINA de Nossa Senhora, pureza que
não teve nem terá jamais uma semelhante sob o céu.
Pureza diz mais que castidade. Esta concerne principalmente ao
nosso corpo. A pureza permanece na alma. Supõe o afastamento
de toda falta, mesmo leve. Procura uma nitidez, uma limpidez de
consciência sempre maior. Tende a aproximar-nos do anjo. O anjo
é puro; é a primeira pureza depois de Deus.
A pureza de Nossa Senhora ultrapassa em graça a pureza do
anjo. É «toda divina”. Maria está e tal forma penetrada,
compenetrada de Deus, que nEla não se vê mais que a luz de Deus.
Nenhum ponto obscuro, nenhuma sombra, nenhuma opacidade.
Deus transparece nas faculdades de sua alma. Ela não é senão
pureza, lucidez, transparência, beleza. Poder-se-ia defini-la o
esplendor da beleza de Deus.
J. M. Dayet

Nada detém, nada obscurece nEla a divina luz; nenhum apego,


nenhuma introspecção, nenhum vestígio de egoísmo. Eis porque a
pureza de Nossa Senhora “não teve nunca nem jamais terá outra
igual debaixo do sol”.
Aqui, ainda, que atrativo para este ideal que Maria viveu! Que
estimulante, para nos arrancar à nossa mísera pessoa e atuar-nos
para as ascensões! Com Maria, tão pura, nossa alma pode elevar-se
na pureza, sem determinação de limites, até fazer-nos imaculados,
não em nosso começo, porém em nosso caminhar para o termo:
Beati immaculati in via.

***

A meditação destas três virtudes de Nossa Senhora: fé,


humildade, pureza, nos pedirá algum tempo; sua imitação, muitos
esforços. Será necessário, no entanto, não estacionar aí. São Luís
Maria se apressa em acrescentar que devemos meditar “TODAS
SUAS OUTRAS VIR- TUDES” (V. D., nº 260).
No número 108 de seu Tratado, enumerara as dez principais: as
que acabamos de ver e, além disto, a obediência cega de Maria, sua
oração contínua, sua mortificação universal, sua caridade ardente,
sua paciência heróica, sua mansidão angélica e sua sabedoria
divina.
Seguiremos, pois, o mesmo método, aprofundando uma após
outra cada uma destas virtudes. Mesmo nos dias das grandes festas
litúr- gicas, embora aplicando o olhar de nossa meditação ao
mistério que lhes é próprio, ser-nos-á fácil aí descobrir o lugar de
Nossa Senhora, seu papel, sua ação, a virtude que aí predomina, e
continuar assim a seguir o movimento dado à nossa alma.
Este movimento progressivo é para nós de importância capital;
porque o que importa em matéria de espiritualidade não é a virtude
considerada em conjunto, porém a virtude considerada em porme-
nores e passada do mesmo modo para as nossas ações de todos os
dias. O método de nosso guia espiritual se verifica, pois, excelente.
Meditar e imitar incansavelmente cada uma das virtudes de Maria,

90
é

91
Para melhor amar a Nossa Senhora

o que ele denomina “guardar os caminhos da santíssima Virgem”,


seguir seus passos, progredir no seu caminho sempre ascendente.
Chega mesmo a afirmar, servindo-se de um texto dos Livros
sapienciais (Pr 7, 32), que esta marcha para a frente com Maria é o
sinal infalível de nossa predestinação: Beati qui custodiunt vias meas.
Bem-aventurados aqueles que praticam minhas virtudes e
caminham nos vestígios de minha vida com o socorro da divina
graça (V. D., nº 200).
Mais fortemente ainda ele faz dizer o Espírito Santo, querendo
formar para si eleitos em colaboração com Nossa Senhora: ln
electis meis mitte radices. Lançai, minha amada e minha Esposa, as
raízes de todas as vossas virtudes nos meus eleitos, a fim de que
cresçam de virtude em virtude e de graça em graça. Tive tantas
complacências em vós, quando vivíeis na terra, na prática das mais
sublimes virtudes, que desejo ainda encontrar-vos sobre a terra
sem que deixeis de ficar no céu.
Reproduzi-vos, por isto, nos meus eleitos: que eu veja neles,
com complacência, as raízes de vossa fé invencível, de vossa
humildade profunda, de vossa mortificação universal, de vossa
oração sublime, de vossa caridade ardente, de vossa esperança
firme e de todas as vossas virtudes. Sois sempre minha Esposa tão
fiel, tão pura e tão fecunda! Que a vossa fé me dê fiéis; vossa
pureza me dê virgens; vossa fecundidade me dê eleitos e templos
(V. D., nº 34).
Por isso quando São Luís Maria vai descrever, pelo fim de sua
obra, os Efeitos maravilhosos que a sua Perfeita Consagração
produz numa alma fiel a esta prática, estes efeitos não são outros
que a comunicação das virtudes de Nossa Senhora.
“A humilde Maria vos dará parte em sua profunda humildade...
Ela vos dará parte na sua fé... Esta Mãe do belo amor tirará de vosso
coração todo escrúpulo e todo temor servil desregrado... para aí
introduzir o puro amor do qual Ela tem o tesouro... Ela vos há de
encher de uma grande confiança em Deus e nEla, e vos há de
comunicar suas virtudes, vos há de revestir com os seus
merecimentos” (V. D., ns. 213-216).
De sorte que o ponto final desta Prática interior “com Maria” é
de fazer de nós “cópias vivas” da Santíssima Virgem. A expressão
é
J. M. Dayet

ainda de nosso santo (nº 217). O escravo fiel veio a ser escravo
semelhante. Com toda a verdade ele pode apropriar-se da palavra
que descreve melhor o interior da divina Mãe: Ancilla Domini: ele é
bem com Ela o escravo de amor de Nosso Senhor (V. D., nº 216).
Que perspectiva animadora! Que íntimo reconforto poder dizer
a si mesmo: posso vir a ser, aos olhos de minha divina Formadora,
como uma outra Ela mesma, como uma Maria em miniatura; uma
Maria começada, esboçada; da mesma forma que a Virgem era o
esboço de seu Filho, um Jesus Cristo começado, segundo a palavra
ousada de Bossuet!

***

Durante as dezoito Aparições com que foi agraciada a pequena


Bernadette de Lourdes, a alma e o corpo da menina estavam como
que presos com esta única ocupação: olhar a celeste Visitante.
“Olhava para a Senhora; tanto quanto podia”, disse ela. Considerá-la
e, por con- seguinte, rezar com Ela, admirar a sua beleza, ouvir as
suas palavras, receber os seus segredos, reproduzir seus menores
gestos, estremecer com suas emoções, sorrir quando Ela sorria,
chorar quando Ela derra- mava lágrimas, aniquilar-se quando Ela
parecia se humilhar, expressar no seu rosto uma dor
incomensurável quando Nossa Senhora parecia sofrer como no
Calvário, entregar-se a todas as penitências que Ela pedia; e, enfim,
saciar-se de sua glória, abrir-se amplamente à sua beatitude,
penetrar o mais possível no seu triunfo.
De sorte que as testemunhas, atentas e ansiosas, os olhos
cravados sobre Bernardette, seus corações inebriados com os
êxtases da vidente, tinham a impressão de ver, a seu modo, a
mesma bela Senhora. Não se enganavam. Não era a Senhora,
certamente, porém era o seu reflexo, sua irradiação, sua
transparência, sua imagem refletida como em um puro espelho.
Daí por diante, antes, e principalmente depois de sua entrada
para o Convento de Nevers, a confidente da Imaculada não deixará
de dar, aos que a cercam, a mesma deliciosa impressão. Sua

92
humildade

93
Para melhor amar a Nossa Senhora

lembrava a humildade de Nossa Senhora, sua sede de imolação res-


pirava os desejos veementes da Virgem corredentora. Sua própria
morte, tão suave e tão tranquila na poltrona da enfermaria, sem
dúvida ofereceu às religiosas que a assistiam uma idéia exata do
que foi o bem-aventurado trânsito de Nossa Senhora.
Eis para onde nos convida e nos conduz a bela Prática interior
que acabamos de explicar.

Capítulo IX
Com São LuÍS Maria, vivaMOS em uma CONSTAnte
dependência de NOSSA Senhora — Em Maria e para Maria

B. PROCUREMOS AGIR EM MARIA E PARA MARIA

A Prática “em Maria” reserva-nos alegrias ainda mais profun-


das. Por misteriosa que possa parecer à primeira vista, esta fórmula
pede-nos, no entanto, só uma coisa: tomar consciência de um fato
existente, de uma realidade sobrenatural desconhecida do maior
número, a saber, que todos haurimos nossa vida divina no seio
materno de Maria.
Para nos fazer melhor compreender esta verdade, São Luís
Maria recorre à comparação do paraíso terrestre. Assim como o
Éden da criação era a habitação do primeiro Adão, assim, e
incomparavelmente mais - porque a coisa figurada excede sempre
aquilo que a simboliza -, o seio de Maria é a habitação do novo
Adão, Jesus Cristo. O Éden da criação, com efeito, é um paraíso
perdido. Maria, ao contrário, é um paraíso conservado. Jesus,
Sabedoria encarnada, aí morou nove meses com Seu corpo físico;
aí mora sempre com o seu Corpo místico. O que acontece é que aí,
onde Ele hauriu sua vida segundo a natureza,
J. M. Dayet

nós - seus membros haurimos nossa vida de graça. Em Maria, no


seio espiritual de Maria, Jesus nos comunica Sua vida divina. É Ele
nossa vida: “Eu sou a vida”, disse Jesus. Mas Ele quer que
recebamos Sua vida como recebemos a de nossos corpos: no seio
de uma mãe. Sua Mãe vem a ser a nossa. É o mistério da
Encarnação que se prolonga e se prolongará até o nascimento do
último dos eleitos.
Em Maria somos concebidos, somos formados, somos
fortalecidos e alimentados, somos constantemente purificados; por
nossa vez, podemos tornar-nos fecundos segundo a carne ou
segundo o espí- rito; somos protegidos, defendidos contra os
assaltos do demônio, principalmente contra o seu assalto supremo
no momento de deixar este mundo; finalmente, somos gerados para
a glória eterna.
Ó Jesus, vivendo em Maria, Vosso paraíso terrestre, Vossa
mansão de Verbo encarnado: sem deixardes Vossa Mãe, vinde
viver e morar em nós!
Maravilhado com este mistério de graça, São Luís Maria convi-
da-nos a contemplar com ele as riquezas, as belezas, as maravilhas
e as doçuras inefáveis que Jesus deixou em Maria para a felicidade
dos membros de seu Corpo místico. Sob imagens de coisas
materiais mais agradáveis aos nossos olhos, ele nos faz a descrição
(ns. 261-262) do paraíso terrestre da Encarnação, isto é, do
magnífico interior de Nossa Senhora, com o fim de estimular, de
avivar sempre mais o nosso desejo de viver em Maria,
estreitamente unidos a Jesus como o são os membros à cabeça.
Na explicação desta Prática interior, não nos pede outra coisa.
Não propõe meios, como das duas Práticas precedentes, porém se
contentou de dizer: ó que riquezas! Que glória! Que prazer! Que
honra a de poder entrar e morar em Maria!

***

ENTRAR EM MARIA de um modo consciente, à semelhança de


Jesus. É uma graça particular que se deve obter do Espírito Santo; a
Virgem Santíssima sendo guardada “não por um Querubim, como
94
no

95
Para melhor amar a Nossa Senhora

antigo paraíso terrestre, mas pelo próprio Espírito Santo, que se fez o
seu Dono absoluto” (V. D., nº 263).
Obtemos esta graça como recompensa de uma grande fidelidade
em praticar todas as nossas ações por Maria e com Maria. Nossa
perfeita docilidade regozija, então, o Hóspede íntimo e mais ainda
nossa constante aplicação em reproduzir, uma após outra, as vir-
tudes amáveis de sua Esposa indissolúvel. Encontrando em nós a
semelhança desejada, Ele nos abre a entrada do jardim de delícias.
A alma percebe esta graça de ordem mística. Sente-se viver
num lugar cheio de encantos. Despertai em Maria. Ora em Maria.
Comunga em Maria, trabalha em Maria. Ela se recreia e passeia em
Maria. Em Maria supera as provações que se apresentam, domina
as misérias e enfermidades inerentes à natureza, ela se eleva acima
das contingências humanas.
Embora entregando-se às suas ações acostumadas, banha-se
numa atmosfera de pureza que não é atravessada por nenhuma
infecção; caminha à claridade de um dia que não conhece noite
espiritual. Os méritos que obtém são lançados, tal como um metal
sem valor, na fornalha de caridade do Coração de Maria e ei-los
transformados no ouro do puro amor.
Cada noite, no momento de adormecer, pode repetir,
marializando a palavra do salmista: ln pace in idipsam, dormiam et
requiescam. Tran- qüilamente, em Maria, durmo e descanso (Sl 4,
9) .
- “Depois de ter merecido, por nossa fidelidade, esta insigne graça
de entrar em Maria, é necessário MORAR neste belo interior com
compla- cência”, isto é, aí fixar-nos de um modo estável e
permanente, para saborear as delícias da vida de união com Jesus
Cristo. A habitação amada de nosso Chefe divino vem a ser a de
Seus membros.
São Luís Maria recomenda que “aí descansemos em paz, que aí
nos apoiemos com confiança, que aí nos escondamos com segurança
e aí nos percamos sem reservas” (nº 264). Assim, pois, o seio
virginal de Nossa Senhora será para nós:
J. M. Dayet

1º Mansão de repouso. Nada nos faltará, assim como não falta


coisa alguma à criancinha no seio de sua mãe. Nosso alimento
é constantemente servido: “o leite de sua graça e de sua
misericórdia maternal”. Este alimento é o próprio Jesus, Jesus
formado da substância de sua Mãe, nutrido com seu leite, tal
como Ele se dá misericordiosamente a nós no sacramento da
Eucaristia, chamado Justamente pelos Padres da Igreja o
sacramento da Virgem. A santa filha do Carmelo de Lisieux
não se enganava quando can- tava, numa de suas mais
graciosas poesias: Minha Hóstia branca é o leite virginal.
Sem pensar nisto, ela se encontra com a doutrina de nosso
santo: “...Aos seus fiéis escravos, Maria dá a comer o pão de
vida que Ela formou. Meus caros filhos, lhes diz Ela sob o nome
da Sabedoria (3, 8), enchei-vos de minhas produções, isto é, de
Jesus, o fruto de vida que eu dei ao mundo. Vinde, repete-lhes num
outro lugar (Pr 9, 5), comei meu pão, que é Jesus, e bebei o
vinho de Seu amor, que eu misturei para vós com o meu leite”
(V. D., nº 208).
Eis porque “por toda a parte, fora de Maria, o Verbo de Deus é o
Pão dos fortes e dos anjos; mas em Maria Ele é o Pão das
criancinhas” (Segredo, nº 20) . Sabedoria eterna do Pai, o
Verbo é, efetiva- mente, um pão substancial. Assim, competia
somente a criaturas grandes e fortes de o comer, isto é, aos
Anjos. Quanto a nós, que somos pequenos, não éramos aptos a
tomar um alimento tão forte; vivendo na terra, não podíamos
atingir este Pão do céu. O próprio Verbo desceu então ao seio
da Virgem e, aí, Ele se fez o nosso pão, o pão das criancinhas.
A que graus de fervor subirão nossas comunhões, assim feitas
conscientemente em Nossa Senhora! E que delicioso descanso
daí resultará!

2º O seio de Maria será para nós, além disto, uma mansão de


con- fiança. Não é a mansão do puro amor? E o puro amor não
expulsa todo temor servil? Nossa alma se encontrará, pois,
libertada de suas perturbações, escrúpulos, inquietações,
apreensões e medos
96
Para melhor amar a Nossa Senhora

infundados, perpétuos obstáculos ao seu progresso. Encontrar-


-se-á de súbito dilatada, aberta às alegrias do amor e livre da
santa liberdade dos filhos de Deus para correr no seu caminho
de perfeição, seguindo a Jesus.
Por conseguinte, consideraremos sempre mais Deus como
nosso bom Pai, esforçar-nos-emos de Lhe agradar
incessantemente, con- versar com Ele confiadamente, como
verdadeiros filhos cheios de afeição, e, apesar de nossas
ofensas, continuaremos a caminhar para Ele sem desânimo (V.
D., nº 215).
Não nos espantemos de encontrar semelhantes frases na pena
de São Luís Maria. Não nos dizia, no começo de seu Tratado:
“Todos os verdadeiros filhos de Deus e predestinados têm a Deus
como Pai e Maria como Mãe; e quem não tem Maria como Mãe,
não tem a Deus como Pai”? (nº 30). Agora, que nos mostrou a
Santíssima Virgem trazendo em seu seio os predestinados e
aplicando-se em dar a cada um sua definitiva fisionomia de
eleito, que de mais natural também que a apresentar
trabalhando, a fim de fazer desabrochar neles este amor filial,
flor do dom de piedade, que devem ter para com o Pai dos
céus? Nossa Senhora poderia dar-nos outra coisa que uma
formação completa?

3º O seio de Nossa Senhora será ainda, para nós, mansão de


segurança contra todos os nossos inimigos. Não ficamos aí ao
abrigo de suas malícias e maldades? Nunca o demônio, o
mundo, o pecado, tiveram entrada em Maria imaculada e Maria
corre- dentora. Jamais entrarão naqueles dos quais é a absoluta
Senhora e Soberana.
Eis porque Ela nos diz, sempre pela boca da Sabedoria: aqueles
que trabalham em mim para a sua santificação, não farão
pecado considerável. Qui operantur in me non peccabunt (Ecl
24, 30). Terão certamente que gemer por motivo de fraquezas,
desfa- lecimentos, inevitáveis surpresas, que são a partilha da
pobre natureza humana enquanto caminhar aqui na terra:
mas não
J. M. Dayet

sobre faltas deliberadas, cometidas com plena advertência e


pleno consentimento.
Não é isto mesmo que constatamos em certas almas que vivem
sob a fascinação eficaz de Nossa Senhora? Não admiramos
secre- tamente sua humildade, seu apagamento, sua paciência
diante dos pequenos desgostos de cada dia, sua habitual
bondade em relação ao próximo? A exemplo da régia carmelita
do Convento de São Dionísio, D. Luisa de França, estas almas,
por coisa alguma deste mundo consentiriam em cometer um
pecado venial deliberado. Escondidas em Nossa Senhora,
gozam de uma certeza, de uma, segurança tais, que coisa
alguma as pode afastar do trabalho de seu progresso.

4º Enfim, o seio espiritual da Virgem Santíssima será a casa de


nossa transformação no Cristo Jesus.

Já o dissemos: onde foi formada a nossa divina Cabeça, aí são


formados seus membros vivos. Esta doutrina é tão cara ao nosso
santo, que ele não tem medo, seguindo alguns padres, entre outros
Orígenes e São Boaventura, de aqui aplicar um versículo - o quinto
- do Salmo 86: “Homo et homo natus est in ea - Um homem e um
homem nela nasceu”7. O primeiro é Jesus Cristo: foi formado
Homem per- feito. O segundo é todo predestinado, membro do
Corpo místico de Jesus Cristo. Em Maria somos ligados à nossa
Cabeça; tornamo-nos seus membros perfeitamente adaptados.
Vimos a ser Ele mesmo. Eis porque o verbo do texto citado
conserva o singular: Maria não gera senão um Cristo, o Cristo
total, Ele e nós.
Compete-nos tomar diariamente consciência deste mistério des-
conhecido da maioria dos homens. A nós pertence “perder-nos sem
reserva”, como o pede São Luís Maria, no seio da Virgem-Mãe, a
fim de aí receber amorosamente nossa transformação em Jesus
Cristo (V. D., ns. 264 e 119).

7 A Igreja colocou este Salmo: Fundamenta ejus in montibus sanctis, no se-


gundo noturno do Ofício das Festas da Santíssima Virgem.
98
Para melhor amar a Nossa Senhora

Há pessoas, explica o nosso santo, que querem formar Jesus


Cristo em si mesmos ou nos outros, a modo desses escultores que
depositam sua confiança na própria habilidade, nas suas indústrias
e na sua arte. Dão uma infinidade de golpes com o martelo e o
cinzel numa pedra dura ou numa peça de madeira mal polida - o
que somos todos para dela fazer a imagem do divino Modelo.
Porém, na maioria das vezes não conseguem reproduzir este
Modelo ao natural, quer por falta de conhecimento aprofundado e
de experiência prática da Pessoa de Jesus, quer devido a um golpe
desajeitadamente dado a tal e tal alma, o que estragou toda a obra.
Empregaram muito tempo e fizeram esforços consideráveis. O
resultado obtido está longe de ser o que tinham desejado.
Quanto àqueles que abraçaram este segredo de graça que preco-
niza São Luís Maria, compara-os a fundidores e oleiros. Estes
últimos obtêm mais rapidamente e com menos fadiga uma estátua
perfeita- mente parecida, com a condição bem certa de que a forma
mesma seja conforme ao modelo que deve reproduzir e que a
matéria que aí se lança esteja convenientemente liquefeita.
Nossa Senhora é, na verdade, a grande e única forma de Deus,
como a denomina Santo Agostinho: forma Dei (sermão 208) e
onde foi formado Jesus Cristo, que O representa ao natural e que,
portanto, é próprio a reproduzir imagens vivas de Jesus com poucas
despesas e em pouco tempo.
Lançados e perdidos nesta forma divina, estamos infalivelmente
certos de nos tornar semelhantes a Jesus Cristo. O importante será
conservar este metal bem fundido e bem líquido, apto a penetrar
todos os contornos. A contínua aplicação às nossas Práticas
interiores assegura este resultado. Dóceis e maleáveis sob as
moções de nossa Soberana, explorando a riqueza das ações de sua
vida, imitando as virtudes de sua alma, obtemos sua semelhança;
vivemos nEla escon- didos, no seu seio virginal; aí crescemos até
atingir nossa estatura de eleitos, aquela que nos conforma
definitivamente ao Cristo e nos assinala para a eternidade.
J. M. Dayet

Deste modo tudo se acha bem unido, bem ligado na nossa vida
espiritual. O que podia, a princípio, nos parecer como dividido e de
realização difícil, aparece agora muito simplificado e de
rendimento maravilhoso. São Luís Maria nada mais faz do que nos
ajustar intei- ramente ao plano divino, redentor.

***

A fórmula “PARA MARIA” pede-nos que acrescentemos às


nossas ações uma última perfeição: a de as referir todas
imediatamente à glória de nossa Soberana muito amada.
Engendrados, formados, alimentados, crescidos nEla, haurindo
incessantemente em o seu seio, esperando o dia de nosso
nascimento, a graça santificante, princípio de nossos
merecimentos; não será justo de lhe agradecer e glorificar, assim
como Ela mesma, investida da Maternidade divina, agradeceu e
glorificou o seu Senhor? Ela o fez com um coração tanto mais
sincero que, mesmo então, seu olhar não queria descobrir senão
sua qualidade de escrava neste adorável Senhor. A Ele só toda a
honra e toda a glória: omnis honor et gloria. Embora nossa filiação
divina e marial esteja em via de crescimento, também devemos
lembrar-nos que mais do que nunca estamos entre- gues e
consagrados “em qualidade de escravos”, que nos colocamos por
estado a serviço desta augusta Rainha, que devemos, pois,
trabalhar para Ela, para sua utilidade, para seu proveito, para sua
glória, sem pensar em retirar de nossos serviços algum benefício
ou vantagem pessoal. Esta fórmula, vivida como o deve ser, vem
imprimir sobre
cada uma de nossas ações o selo de nossa doação total.
Consideraremos, portanto, suma honra estar votados ao serviço
de Nossa Senhora. Desta forma, aproximar-nos-emos o mais
possível destes espíritos bem-aventurados que no céu formam sua
corte.
No capítulo preliminar de seu Tratado, São Luís Maria mostra-
-nos, segundo São Boaventura, todos os coros angélicos clamando

100
incessantemente à sua Rainha: Sancta, Sancta, Sancta Maria... e
ofere- cendo-lhe, milhões de vezes por dia, a saudação angélica:
Ave, Maria,

101
Para melhor amar a Nossa Senhora

prostrando-se diante dEla e pedindo-lhe, por favor, de os honrar


com algumas de suas ordens.
Até São Miguel, acrescenta ele com Santo Agostinho, que,
embora sendo o Príncipe de toda a corte mostra-se o mais zeloso
em lhe prestar e fazer com que lhe sejam prestadas todas as honras.
Está sempre de sobreaviso para ter a honra de ir, à sua palavra,
prestar serviço a qualquer um daqueles que a servem aqui na terra
(V. D., nº 8).
Querendo servir Nossa Senhora como a servem os Anjos,
teremos cuidado de ter a maior pureza de intenção em cada um de
nossos empreendimentos. Tão facilmente desliza o amor-próprio,
de modo imperceptível, mesmo em nossas mais santas ações! Eis
porque será bom repetir muitas vezes do fundo do coração: ó
minha divina Mãe e Senhora, é bem por vós que eu me entrego a
estas ocupações que compõem a trama de meus dias. Para vós, o
merecimento de meu levantar fervoroso. Para vós o recolhimento
de minha oração. Para vós o tesouro de minha missa, de minha
comunhão. Para vós este tra- balho que recomeça e constitui meu
dever de estado quotidiano. Para vós estes serviços grosseiros aos
quais devo, por vezes, me entregar. Que importa a qualidade dos
trabalhos? O que vale aos vossos olhos é o espírito que os anima.
Se apesar de minhas repugnâncias eu os faço verdadeiramente para
vós, aumento esta glória que vos obtêm vossos mais fiéis escravos.
Para vós este acréscimo de trabalho, que me chega no momento
em que esperava respirar um pouco. Para vós esta desorganização
imprevista, esta provação que sobrevém sem se fazer anunciar, esta
doença que me detém em plena atividade. Para vós estes
sofrimentos íntimos, provenientes do meio em que devo viver. Para
vós estas incompreensões, estas advertências injustificadas, estas
faltas de con- sideração que se renovam freqüentemente.
Para vós principalmente o bom resultado deste trabalho, o bom
êxito nos exames e no apostolado. Para vós estes louvores que eu
julgo sinceros, estas honras que não busquei, estas recompensas
que são o fruto de vossas bênçãos. Não fui senão instrumento nas
vossas mãos, e o instrumento nunca se vangloria.
J. M. Dayet

Não há nenhuma fadiga, nenhum acréscimo de trabalho,


nenhuma complicação, nenhum embaraço que não se possa contar
a Nossa Senhora. E isto conserva, aumenta, reforça a corrente
purificadora, introduzida desde o começo em cada uma de nossas
ações. Nossas Práticas interiores completam-se, aperfeiçoam-se
uma na outra em se fusionando.
Além disto, que não se intrometa aqui nenhum escrúpulo. Não
acreditemos fazer injúria a Nosso Senhor ou faltar-Lhe o respeito,
dirigindo imediatamente a Maria o que fazemos de bom. São Luís
Maria tem cuidado de nos tranqüilizar: não tomamos Nossa
Senhora como último fim de nossos serviços, mas só como nosso
fim próximo, “o meio misterioso” que nos conduz, nos liga e une a
Jesus Cristo.
Meio misterioso, meio cheio de mistérios, pois que o Verbo,
Sabe- doria eterna, escolheu Maria para realizar por Ela e nEla as
mara- vilhas da encarnação, da redenção e da santificação de
nossas almas. Livremente nos estabelecemos para sempre neste
meio, neste san- tuário, neste tabernáculo vivo da Divindade.
Trabalhando, sofrendo, merecendo aí, para Maria temos a certeza
de trabalhar, de sofrer, de merecer para Jesus. Continuamos a
ajustar-nos ao plano divino. Nossa Senhora não faz outra coisa
senão referir a seu Filho toda a glória que lhe oferecemos. Faz
parte de seu oficio, faz parte de sua função de medianeira. E
sabemos com que amor Ela o faz e quanto Jesus é feliz e mil vezes
mais glorificado de receber, assim, todas as nossas homenagens por
intermédio de sua Mãe.
Por sua vez Jesus dirige novamente toda a honra e toda a glória
a seu Pai, na unidade de seu comum Espírito Santo: in unitate
Spiritus Sancti, omnis honor et gloria; de sorte que, em última
instância, todas as nossas ações cantam magnificamente a glória
de Deus, só.
Não somente temor algum pode perpassar levemente o nosso
espírito; porém o pensamento de que Nossa Senhora glorifica a
Deus em nosso lugar deve encher-nos de uma alegria espiritual,
análoga à sua quando cantava o seu sublime Magnificat.
- Sendo enfim como anjos ao serviço de nossa Rainha, à pureza
102
de intenção acrescentaremos um grande espírito de zelo. Não se

103
Para melhor amar a Nossa Senhora

conceberia escravos de amor tranqüilamente sentados na


ociosidade. São termos que não estão de acordo. O amor, no seu
mais elevado grau, é um fogo devorador. O Espírito Santo é fogo:
fons vivus, ignis, caritas... Os anjos são espíritos de fogo. São
Luís Maria não compreende os escravos de Maria, principalmente
os dos últimos tempos da Igreja - e estamos compreendidos neste
número - senão como apóstolos de fogo, os apóstolos do Reino
refulgente e triunfal. Para Maria e seu Reino queremos, pois,
trabalhar com todas as nossas forças, cada qual segundo as
próprias aptidões e meios. Há pessoas que poderão empreender e
levar a cabo grandes empresas: tais como os pregadores,
escritores, organizadores de Congressos, conferencistas
solidamente preparados para exaltar e defender os pri- vilégios de
Nossa Senhora, para sustentar sua glória quando alguns a
pretendem diminuir, denunciar por toda a parte as doutrinas
errôneas assim como a falsa piedade. Outros estarão especialmente
armados para fazerem conhecer e espalhar de cidades em cidades,
de paró- quias em paróquias, de seminários em seminários, de
comunidades em comunidades, esta perfeita Consagração da qual
São Luís Maria
se fez o incomparável apóstolo.
Mais modestamente, outras pessoas, cujas ocupações as retêm
no seu lugar, sentir-se-ão felizes de atrair, de conquistar, pelo
exemplo e pelo conselho, as almas mais fervorosas com quem
convivem, para Maria, Rainha dos corações; e também as almas de
crianças, de jovens que, visivelmente, a Eucaristia preservou da
malícia do mundo. As diversidades de apostolado são inúmeras.
Doentes, enfermos, os aca- mados dos nossos sanatórios, se
contentarão de rezar, sofrer, ofere- cer-se para a extensão do Reino
da Santíssima Virgem; e seu mérito será grande. Nos claustros,
imolar-se-ão para que Nossa Senhora seja mais conhecida e mais
amada; para que a grande voz de Roma defina solenemente sua
Maternidade espiritual, o que seria a réplica da definição de sua
Maternidade divina nos primeiros séculos.
Durante longos anos, no seio da cristandade, rezaram,
trabalharam, suplicaram, sofreram para obter a Consagração do
mundo inteiro ao Coração imaculado de Maria. Hoje é fato
consumado, e as nossas
J. M. Dayet

ações de graças partem, alegres, para o nosso muito amado


Pontífice Pio XII, gloriosamente reinante. Rezaram da mesma
forma para a instituição de uma festa universal em honra do
Coração imaculado de Maria. Esta graça foi obtida.
Entre as almas que particularmente se dedicaram a esta dupla
causa, devemos nomear a Madre Maria de Santa Teresa Larcher, do
Mosteiro de Nossa Senhora da Caridade do Refúgio de Besançon,
fundadora da Guarda de Honra do Coração imaculado de Maria, e
o Revmo. Pe. Clovis de Provin, guardião do Convento dos Frades
Capuchinhos de Blois, que, durante trinta anos, publicou as glórias
da Santíssima Virgem sob o vocábulo de Nossa Senhora da
Trindade. Estes dois apóstolos, conquistados de há muito à Perfeita
Consagra- ção, morreram no momento em que, pela primeira vez, a
Igreja inteira ia celebrar esta festa do Coração Imaculado, alvo de
seus ardentes desejos. E mesmo, por uma coincidência
providencial, o Pe. Clovis de Provin foi sepultado em Blois no
mesmo dia da festa, 22 de agosto de 1945. Cumuladas e
agradecidas, suas almas tinham podido cantar o Nunc dimittis, e,
visivelmente, Nossa Senhora da Assunção as acolhia no seu
Paraíso.
Imitemos este zelo magnificamente desinteressado. Da manhã à
noite rezemos e trabalhemos para a glória de Maria. Nossos
freqüen- tes pedidos quase na totalidade, para nós e para outros,
são graças de ordem temporal: saúde, negócios, comércio,
viagens... Procuremos pois, em primeiro lugar, a extensão do Reino
de Maria; tudo o mais nos será dado por acréscimo.
Na sessão de encerramento do Congresso Marial de Bruxelas
(8-11 de Setembro de 1921), no salão “Pátria”, regurgitando de
um seleto auditório, Sua Eminência o Cardeal Mercier, de saudosa
memória, suplicava aos seus ouvintes que não pedissem nada para
si mesmos, que se esquecessem, principalmente no momento em
que, no dia seguinte, colocaria uma coroa na fronte da estátua de
Nossa Senhora da Paz; e que não pensassem senão na glorificação
de Maria, a fim de obter a proclamação, em fórmula dogmática, de
sua função corredentora, de sua maternidade espiritual, de sua
participação ativa
104
Para melhor amar a Nossa Senhora

na aquisição, e, por conseguinte, na distribuição de todas as graças


que apraz à Divina Providência derramar sobre a humanidade.
Sentiram passar então, sobre a assembleia vibrante de emoção,
como um sopro de Pentecostes que a transportava além, muito
além da procura dos pequenos interesses pessoais, para estas altas
regiões de espírito em que só importa a glória de Deus e de sua
Mãe Santíssima.
Elevemo-nos até estas regiões, permaneçamos aí fixados pelo
lado superior de nossa alma, oremos e trabalhemos para Maria,
não espe- rando de sua misericórdia, como recompensa de nossos
serviços, senão a honra de lhe pertencer e a felicidade de estar, por
meio dEla, unidos a Jesus, seu Filho, com um laço indissolúvel, no
tempo e na eternidade (V. D., nº 267).

***

Parece bem, agora, que a nossa vida marial tenha atingido a sua
perfeição. Seguimos esta marcha ascendente indicada por São Luís
Maria de Montfort no seu Tratado, nº 119: Como o essencial desta
devoção (a Perfeita Consagração) consiste no interior que deve
formar, não será igualmente entendida por todos.
Alguns se hão de deter na parte exterior (ao seu ato de doação
total) e não passarão além, e este será o maior número. Alguns,
em pequeno número, entrarão no seu interior (na sua Prática
interior), porém aí não subirão senão um degrau.
Quem subirá ao segundo? Quem chegará até o terceiro? Enfim,
quem se estabelecerá por estado?
Poderíamos crer que o nosso guia espiritual se tivesse
contentado em fazer estas perguntas, na aparência bem misteriosas,
e que as tivesse deixado sem resposta. Porém, não. São Luís Maria
responde-as imediatamente, nas poucas linhas seguintes:
Somente aquele a quem o Espírito de Jesus Cristo REVELAR este
segredo (que tiver, pois, compreendido e discernido esta graça da
Perfeita Consagração).
J. M. Dayet

(O Espírito Santo mesmo) para ali conduzirá a alma bem fiel


(o escravo muito dócil que se deixa guiar).
Para PROGREDIR de virtudes em virtudes, de graça em graça, de
luzes em luzes (o escravo que progride, que é solidamente virtuoso,
que considera, imita, reproduz o interior de Maria).
Para CHEGAR até a transformação de si mesmo em Jesus
Cristo (o escravo escondido no seio de Maria, saboreando cada vez
mais a união vital que o fez um membro perfeito de sua divina
Cabeça).
Chegará, então, à plenitude da idade do Cristo na terra e de sua
glória nos céus, isto é, que vivendo por estado, através de Maria,
para o serviço de Deus só, como o Verbo encarnado para o serviço
de seu Pai, atinge esta plenitude de semelhança determinada para
ele, em virtude de sua predestinação. Ela é o seu termo aqui na
terra. Ela lhe dará sua fisionomia distinta durante a eternidade.
Esta resposta não quer dizer que se deva praticar
separadamente, como uma após outra, as quatro fórmulas “por,
com, em e para Maria”. Desde o começo convém aplicar a vivê-las
todas, porque andam em conjunto.
Mas, segundo o nosso progresso, poderemos esforçar-nos sobre
uma fórmula mais que sobre as outras; e esta aplicação progressiva
nos fará transpor os degraus de que fala São Luís Maria.
Sob outra forma, no fim do Segredo de Maria (nº 78), São Luís
Maria de Montfort indicará a mesma gradação ascendente:
Feliz uma alma na qual Maria, Árvore de vida (isto é, a Perfeita
Consagração), é plantada pelo Espírito
Santo; MAIS FELIZ aquela onde cresceu
e floriu;
Felicíssima aquela em que produz o seu Fruto, isto é, o amável e
ado- rável Jesus que sempre foi e será o único fruto de Nossa
Senhora;
Porém A MAIS FELIZ ENTRE Todas é aquela que saboreia e
conserva seu Fruto até a morte e pelos séculos sem fim.
Compreende-se que sacerdotes e religiosos, amando já muito a
Santíssima Virgem, se apoderem desta fórmula de espiritualidade
marial no dia em que a descobrem. Um grande exemplo foi o do
106
Pe. Henrique Ramière, da Companhia de Jesus, primeiro Diretor
geral

107
Para melhor amar a Nossa Senhora

do Apostolado da Oração e fundador do “Mensageiro do Coração


de Jesus”, em 1861.
Na sua vida, profundamente marcada pelo Espírito de Jesus, é
extremamente instrutivo realçar o progresso constante, prosseguido
com tenacidade, de sua doação a Maria, até que enfim lho foi des-
vendado de um modo perfeito.
Primeiramente, no dia 8 de dezembro de 1854 - trinta anos
antes de sua morte e precisamente no dia da proclamação do
dogma da Imaculada Conceição - o Pe. H. Ramière sentiu-se
impelido a se dedicar a Maria; e eis que redige, em latim, um ato
de doação. Este ato é assinado por ele e firmado por seu Instrutor
do terceiro ano, o Revmo. Pe. Fouillot.
Nesta mesma folha, em 1856, em 1858 (ano das Aparições de
Lourdes) e em 1862, o padre se acusa de infidelidades ao pacto e
de novo o renova e o assina.
Em 1878 este pacto é, ainda, retomado; porém, desta vez a fór-
mula é recomposta inteiramente. Traz, agora, o sinal visível da
Perfeita Consagração de São Luís Maria de Montfort. Sem
nenhuma dúvida teve em mãos o Tratado da Verdadeira Devoção,
que não conhecia.
Foi, para ele, uma revelação. Agora compreende, depois de
tantos anos, como filho amantíssimo de Maria Imaculada, que a
doação total, feita em qualidade de escravo de amor, será a
homenagem verdadei- ramente perfeita que possa oferecer à sua
Soberana.
Eis porque não hesita em abandonar a sua primeira fórmula,
tantas
vezes assinada e firmada. Compõe nova fórmula. Ei-la:
Santa Maria, cheia de graça, de cuja plenitude todos somos
tributários; Mãe do Cristo total, isto é, do Cristo nossa cabeça e de
todos nós, seus membros; Medianeira necessária junto do Mediador
supremo; Vós, por quem Deus veio aos homens e pela qual somente a
Ele podem estes chegar, suplico-vos EU QUE A VÓS FUI DADO
COMO FILHO PELO CRISTO AO MORRER, DIGNAI-VOS
ACEITAR-ME COMO VOSSO ESCRAVO
VOLUNTÁRIO; abandono-me a vós inteiramente, com tudo o que
me pertence, a fim de que em troca eu mereça que sejais minha.
J. M. Dayet

A vós, pois, ó minha Soberana, pertence dispor de mim; a vós


pertence fornecer-me a armadura de justiça e de fortaleza divina,
para combater os combates do Cristo; a vós pertence conceder-me,
segundo vosso bel-prazer e o dEle, o bom resultado ou o fracasso, a
honra ou a humilhação. Quanto a mim, minha única preocupação
será a de vos servir fielmente, DE AGIR EM TUDQ POR VÓS,
CONVOSCO, EM VÓS E PARA VÓS.
A fim de que eu vos possa fielmente servir, eu a quem minha
mãe gerou pecador, mostrai que sois minha verdadeira Mãe fazendo-me
nascer novamente até que o Cristo seja formado em mim e que o
homem velho estando morto, só viva em mim aquele que gerastes
para que seja a nossa vida (1.º de Abril, Quinta Feira Santa, 1878).
O Pe. Ramière viverá ainda seis anos, porém sua fórmula de
doa- ção não mudará mais. A redação é definitiva. Nossa Senhora
ocupa, daqui por diante, o centro de sua vida e de seu apostolado.
É conhecido o bem imenso que fez e continua a fazer o
“Mensa- geiro do Coração de Jesus”, cujo fim direto, imediato, é o
Reino, em todo o universo, deste divino Coração: adveniat Regnum
tuum. E eis que as notas íntimas do Fundador nos fazem conhecer,
em conseqüência da doação de sua pessoa, a entrega incondicional,
nas mãos de Maria, desta obra maravilhosa. Não será assegurar-lhe
infalivelmente o êxito? Pois que - e é o que nos resta dizer no
capítulo seguinte, o último - o conhecimento e o Reino de Jesus Cristo
serão sempre conseqüência neces- sária do conhecimento e do Reino
da Santíssima Virgem (V. D., nº 13).

108
Para melhor amar a Nossa Senhora

Capítulo X
NOSSA Senhora fará reinar JESUS CRISTO NOS coraÇÕES
e no mundo

Não nos podemos impedir de reconhecer, na pessoa de nosso


santo, um apóstolo apaixonado pelo Reino de Nosso Senhor Jesus
Cristo e muito especialmente de seu Reino triunfante, que deve
caracterizar os últimos tempos da Igreja. São Luís Maria não prega,
não escreve, não trabalha por implantar entre os cristãos a Perfeita
Devoção a Maria, senão conservando diante de si a clara visão
deste Reino.
Ignoramos o Título que dera à sua obra magistral; esta página
do manuscrito, tendo sido despregada, perdeu-se no momento da
Revolução. Talvez fosse o título que deram, quando da primeira
edi- ção de 1842, e conservaram em seguida; porém, o que é certo
é que São Luís Maria encara o conteúdo de seu Tratado
unicamente como “uma preparação ao Reino de Jesus Cristo”. Isto
nos é dito textualmente no número 227.
Aliás, a primeira frase não é suficientemente reveladora? Num
estilo condensado, o autor nos dá seu pensamento dominante, ver-
dadeira chave da abobada onde virão terminar as linhas essenciais
de seu ensino:
PELA SANTÍSSIMA VIRGEM VEIO JESUS CRISTO AO
MUNDO; É TAMBÉM POR MEIO DELA QUE ELE DEVE
REINAR NO MUNDO.
J. M. Dayet

Continuando o seu escrito, ainda em várias ocasiões 8 São Luís


Maria denominará a vinda de Jesus ao mundo “o primeiro
advento” e seu Reino na terra “o segundo advento”, isto é, seu
advento de graça e de glória, conseqüência de seu advento segundo
a natureza.
Este deve realizar-se como o primeiro: por intermédio de Nossa
Senhora. Eis porque o nosso santo missionário não se cansa de
repe- tir que se ele estabelece nas almas com todas as suas forças a
sólida devoção a Maria, não é senão para estabelecer mais
perfeitamente a de Nosso Senhor. Tal era o estímulo tenaz de seu
apostolado: “Formar um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo” (nº
111).
Se a devoção a Nossa Senhora, dizia, afastasse de seu divino
Filho, seria necessário rejeitá-la como uma ilusão do demônio;
longe disto, muito ao contrário... é Ela que nos faz encontrar Jesus
Cristo perfei- tamente, amá-lO ternamente e servi-lO fielmente (V.
D., nº 62); em outros termos, é Ela que o entroniza, Rei Soberano
no mais íntimo de nós mesmos.
Por isto seu maior sofrimento de apóstolo era constatar a igno-
rância, as trevas, os preconceitos de tantos católicos mesmo muito
instruídos, a respeito de Nossa Senhora, precisamente porque coisa
alguma pode causar maior prejuízo ao amor que devemos tributar
a Nosso Senhor. Com que tristeza ele os via rejeitar, inferiorizar,
reduzir ao nada e mesmo criticar os testemunhos de piedade dos
corações simples para com Maria!
Ó meu amável Jesus, exclama, estas pessoas terão, por acaso, Vosso
espí- rito? Agindo desta forma, Vos darão prazer? Será desagradar-Vos,
empregar todos os esforços para agradar à Vossa Mãe? A devoção à
Vossa Mãe impe- dirá a Vossa? Será que Ela Vos faz oposição? Será
uma pessoa estranha, que não tem nenhuma ligação conVosco? Será,
por acaso, separar-se ou afastar-se do Vosso amor entregar-se a
Maria e imitá-la?
Preservai-me, Senhor, preservai-me de seus sentimentos e de suas prá-
ticas e dai-me alguma parte nos sentimentos de gratidão, de
estima, de respeito e de amor que dedicais à Vossa santa Mãe, A FIM
DE QUE EU
110
8
Verd. Devoção, ns. 22, 49, 50, 158 e 272.

111
Para melhor amar a Nossa Senhora

VOS AME E GLORIFIQUE QUANTO MAIS VOS IMITAR E


SEGUIR DE MAIS PERTO (V. D., ns. 64 e 65).
Imitar Jesus Cristo no seu primeiro advento, que é senão ir ao
alcance do segundo? Seguir o caminho virginal e maternal que Ele
escolheu para vir a nós, é expressar-Lhe do melhor modo nosso
grande desejo de O ver reinar em nós: adveniat Regnum tuum! É
dizer a Maria: continuai, consumai a obra que começastes. Não
introdu- zistes Jesus Cristo no mundo senão para O dar a cada um
de nós e para fazer de nosso coração seu Reino de predileção,
assim como Ele mesmo o deseja ardentemente.

***

Eis até onde nos conduz em linha reta nossa Doação total, inte-
riormente vivida.
Prestamos bem atenção que São Luís Maria de Montfort
denomina esta Doação total a PERFEITA CONSAGRAÇÃO A JESUS
CRISTO? Ele que não se mostra pródigo em subtítulos, no
cabeçalho dos capítulos de sua obra, embora no texto sua marcha
lógica seja sempre indicada, colocou em bela evidência, no número
120, aquele que acabamos de citar. É o lugar em que ele trata da
explicação desta grande e sólida Devoção que todas as páginas
precedentes anunciaram e prepararam. Do mesmo modo, quando
nos apresenta a sua fórmula de Doa- ção teve igualmente cuidado
de a intitular: CONSAGRAÇÃO DE SI MESMO A JESUS CRISTO,
SABEDORIA ENCARNADA, PELAS MÃOS
DE MARIA.
E começa por esta invocação tão plena, tão rica de doutrina:
ó Sabedoria eterna e encarnada! Ó amabilíssimo e admirável
Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Filho unigênito do Pai
eterno e de Maria sempre Virgem!
Em seguida, percorrendo na sua ordem os quatro grandes fins do
sacrifício da Missa, continua:
J. M. Dayet

1. ADORO-VOS profundamente no seio e nos esplendores de vosso


Pai durante a eternidade e no seio virginal de Maria no tempo
de vossa encarnação. São as duas mansões de amor nas quais
se compraz o Verbo, segunda pessoa da Santíssima Trindade.

2. RENDO-VOS GRAÇAS de que vos aniquilastes tomando a


forma de um escravo (semetipsum exinanivit, formam servi
accipiens9), para arrancar-me da cruel escravidão do demônio, eu
Vos louvo e glorifico de que quisestes sujeitar-Vos a Maria, Vossa
santa Mãe, em todas as coisas, a fim de me constituir por Ela
Vosso fiel escravo.
Noutros termos: recebei, ó Jesus, Sabedoria eterna, minha
grati- dão mais ardente por Vossa dependência de natureza e
por Vossa dependência de vontade.
A primeira é vossa própria encarnação. Quando assumistes
nossa natureza humana, nossa natureza criada, fizestes-Vos
dependente de Vosso Pai Celeste. Desta forma pudestes operar
nossa reden- ção, arrancar-nos da tirânica escravidão de
Satanás.
A segunda é Vossa filial obediência a Maria. Obediência que se
manifesta nos mistérios de Vossa infância, nos de Vosso
sacrifício, nos de Vosso triunfo e de Vossa glória. Esta sujeição
amorosa, nunca interrompida, vai ordenar a minha a ponto de
me obri- gar suavemente a entregar-me e consagrar-me em
qualidade de escravo. Benefício que jamais Vos agradecerei
suficientemente.

3. Após esta homenagem de adoração e de gratidão, eis a


SATIS- FAÇÃO: Mas infelizmente, ingrato e infiel como sou, não
guardei os votos e promessas que eu Vos fiz tão solenemente no
meu batismo. Não cumpri minhas obrigações. Não mereço ser
chamado Vosso filho, nem Vosso escravo. E como não há nada em
mim que não mereça Vossas repulsas e Vossa cólera, não ouso
mais, por mim mesmo, aproximar-me de Vossa santa e augusta
Majestade.
Admiráveis sentimentos de um coração contrito, humilhado,
112
arre- pendido, que mede o abismo cavado pelo pecado entre
nossa alma
9
Epístola aos Filipenses 2, 7.

113
Para melhor amar a Nossa Senhora

e Deus, que procura por que meio poderá apresentar-se


novamente diante da Santidade divina. Este meio é Maria,
oficial medianeira de amor e de misericórdia; por isso apressa-
se em recorrer a Ela pela oração ou IMPETRAÇÃO, quarto fim
do Sacrifício...

4. Eis porque recorro à intercessão e à misericórdia de Vossa


Mãe Santíssima, que me destes por Medianeira junto de Vós; e
é por seu intermédio que espero obter de Vós uma dupla graça
que me é absolutamente indispensável; antes de tudo, a
contrição e o perdão de meus pecados, isto é, a graça que
purifica e cura; em seguida a aquisição e a conservação da
Sabedoria, isto é, a graça que trans- forma e é a comunicação
que Jesus, Sabedoria eterna, nos faz de Si mesmo, de sua
Pessoa e dos dons de seu Espírito Santo, parti- cularmente do
dom de sabedoria, coroamento de todos os outros.

Tal é o magnifico exórdio de nossa fórmula de Consagração.


Dirigimo-nos a Jesus e temos em vista entregar-nos a Ele para estes
mesmos grandes fins pelos quais Ele se imolou na cruz e continua
a oferecer-Se sobre os nossos altares.
Então, entre as mãos de Maria, depois de ter saudado sua
tríplice Coroa de Grandezas, renovamos e ratificamos os votos de
nosso batismo, nossa profissão de absoluta dependência de Jesus,
desejosos como estamos de levar nossa cruz em Seu seguimento
todos os dias de nossa vida e de Lhe permanecer mais fiéis do que
no passado.
Entregamos a Nossa Senhora nossa pessoa, nossos bens, o valor
de nossas boas ações, tudo o que nos é possível entregar assim
como o vimos. Depois disto, São Luís Maria declara
imediatamente o primeiro e principal motivo de um tal abandono:
honrar, glorificar, ó Virgem benigna, a sujeição que Jesus Cristo,
Sabedoria eterna, quis ter à vossa Maternidade; unir-me tão
fortemente quanto me for possível a esta sujeição, continuar esta
amorosa dependência, de modo a apresentar ao Pai dos céus a
semelhança perfeita com o Primogênito.
E, como última graça, suplicará ainda à Virgem fiel de o fazer o
perfeitíssimo discípulo, imitador e escravo da Sabedoria encarnada, Jesus
J. M. Dayet

Cristo, seu divino Filho. Assim chegará no que o concerne,


enquanto membro do Corpo místico, à medida da estatura perfeita
de Nosso Senhor, segundo a forte expressão de São Paulo: in
mensuram aetatis plenitudinis Christi (Ef 4, 13).
Como, pois, melhor do que por esta Consagração, querer
instaurar em si mesmo este Reino anunciado pelo anjo a Nossa
Senhora e que não deve ter fim?
Não voltaremos sobre a sua Prática interior, já longamente
expli- cada. Teremos constatado que cada uma das quatro fórmulas
termina infalivelmente em Jesus. São Luís Maria não nos enganou.
Se ele nos pedia “começar, continuar e acabar todas as nossas ações
por Maria, com Ela, nEla e para Ela, não era senão de as fazer mais
perfeitamente POR JESUS CRISTO, COM ELE, NELE e PARA
ELE” (V. D., ns. 115 e 257).
Deste modo, realizaremos o melhor possível, na nossa vida coti-
diana, esta doxologia do Cânon da Missa “em que se encontra con-
densada toda a Devoção cristã”, dizia o Cardeal Mercier10, e da
qual as últimas palavras cantam, através do Reino de Cristo, a
honra e a glória do Pai, em unidade do Espírito Santo, na
perpetuidade dos séculos: Omnis honor et gloria per omnia saecula
saeculorum. É já nossa união ao sacrifício do Cordeiro, no Reino
eterno.

***

Constatando ser esta Perfeita Devoção a Nossa Senhora a


melhor preparação ao Reino do Senhor Jesus aqui na terra,
devemos não somente praticá-la para nosso proveito pessoal mas
ainda fazê-la conhecer e difundi-la. O triunfo de Cristo-Rei na
Igreja nos últimos tempos está logicamente ligado a este
conhecimento e difusão; em outras palavras, ao Reino de Maria
universalmente difundido nos corações.
Quando virá esse feliz tempo, pergunta o santo, em que a divina
Maria será estabelecida Senhora e Soberana dos corações PARA
SUJEITÁ-LOS

114
10
Carta-prefácio da edição belga do Tratado da Verdadeira Devoção.

115
Para melhor amar a Nossa Senhora

PLENAMENTE AO IMPÉRIO DE SEU GRANDE E ÚNICO


JESUS?
Quando virá esse tempo feliz, esse SÉCULO DE MARIA, em que
várias almas, escolhidas e obtidas do Altíssimo por Maria,
perdendo-se no abismo de seu interior, virão a ser cópias vivas de
Nossa Senhora, para amar e glorificar Jesus Cristo?
Este tempo não virá senão quando se conhecer e praticar a
Devoção que ensino: UT ADVENIAT REGNUM TUUM,
ADVENIAT REGNUM MARIAE (V. D., nº 217).
Ora, para o nosso santo, a época em questão é a que deve
preceder, num lapso de tempo mais ou menos longo, o fim da
Igreja militante. É por isto que ele o denomina segundo advento,
ou, ainda, o último advento de Jesus Cristo, querendo significar
assim sua prolongação até o momento da manifestação de Nosso
Senhor, na glória de Seu triunfo (V. D., ns. 22 e 158).
Durante este período, o conhecimento da Virgem Santíssima
atin- girá progressos por assim dizer desconhecidos até o presente.
Deus quer revelar e manifestar Maria, obra prima de Suas mãos
nestes últimos tempos (V. D., nº 50). Deus quer que sua Mãe
Santíssima seja presente- mente mais conhecida, mais amada, mais
glorificada do que nunca (nº 55). Escondida, apagada, “não tendo quase
aparecido” no advento de Jesus segundo a carne, e mesmo por uma
disposição particular do Espírito Santo, “não tendo sido revelada
senão muito pouco desde a pregação do Evangelho”, Maria “deve ser -
no segundo advento de Jesus Cristo - conhe-
cida e revelada, pelo próprio Espirita Santo” (nº 49).
Estas palavras, ditas com autoridade num tom profético,
anunciam, não se pode duvidar, para os tempos em que vivemos,
uma revelação de Nossa Senhora que ultrapassará aquilo que
conheceram os séculos precedentes. Poder-se-ia dar como ponto de
partida: 1854-1858. No dia 8 de dezembro de 1854, o Soberano
Pontífice Pio IX definia solenemente o dogma da Imaculada
Conceição. Quatro anos mais tarde, no dia 25 de março de 1858, a
própria Nossa Senhora, por um prodígio inaudito, vinha confirmar
em Lourdes a definição romana. Esta definição tinha ocasionado,
na Igreja universal, alegria idêntica
J. M. Dayet

àquela que irrompeu espontâneamente entre o povo de Éfeso, em


431, quando da proclamação da Maternidade divina.
Abriu, sobre o mistério de Maria, perspectivas que os teólogos,
desde então, não se cansaram de explorar. A questão da
Maternidade divina corredentora, isto é, adequadamente
compreendida, lhe está intimamente ligada. Foi o que, sem dúvida,
Nossa Senhora de Lourdes quis reafirmar, escolhendo o dia 25 de
março para se denominar: Eu sou a Imaculada Conceição. Não
seria dizer-nos: Deus me quis ima- culada em vista de gerar o
Salvador com todos os seus resgatados, aquele que o arcanjo
declarava dever chamar-se “Jesus”?
Sob este ângulo de luz, a Maternidade espiritual de Nossa
Senhora aparece inseparável de sua Maternidade divina e formando
com ela o ponto central do qual derivam todos os outros
privilégios.
Faz-nos compreender sua Mediação, que Ela manifesta por toda
a parte na aquisição como na distribuição das graças. Maria é
Media- neira pelo fato de sua Maternidade divina e humana.
Descobrimos então o lugar único que Nossa Senhora ocupa na
constituição do Corpo místico. Coração deste organismo
sobrenatural de que o Cristo é a Cabeça e o Espírito Santo a alma,
Ela recebe como num reservatório mais vasto que o imenso oceano
toda a vida que desce de Jesus, e a distribui, a impele para os
membros, que somos nós, até atingir o último dos pobres
pecadores: aquele que parece mais distante da divina Cabeça.
Estes pontos de vista são chamados a conhecer belos
desenvolvimentos.
Muito recentemente, Sua Santidade Pio XII não projetou
também uma grande luz sobre a Realeza universal de Maria,
consagrando ao seu Coração imaculado a Igreja e o mundo inteiro?
Pela voz de Roma, Nossa Senhora tomou-se oficialmente Rainha
do universo e Rainha dos corações, “Rainha de cada pessoa em
particular”, como o dizia a mesma Virgem Santíssima a Santa
Catarina Labouré.
Esta Consagração tão desejada, vindo após as Aparições de
Fátima, que continuam as de Lourdes11, pareceu a muitos uma
116
das coisas
11
“Eu sou Nossa Senhora do Rosário”, disse a Virgem Santíssima em Fátima.

117
Para melhor amar a Nossa Senhora

maravilhosas que São Luís Maria anunciava como devendo acon-


tecer no tempo do Reino de Maria: “Hão de acontecer, então,
coisas maravilhosas” (V. D., nº 217). Em todo o caso, responde
plenamente aos seus ardentes desejos de ver a Perfeita Devoção a
Nossa Senhora conhecida e praticada no mundo inteiro. É o
convite, emanando da mais alta autoridade, a que nos consagramos
pessoal e totalmente. Porque é de toda a evidência que o gesto do
Soberano Pontífice Pio XII, visando o conjunto da humanidade,
peça de nosso lado uma rati- ficação individual. É como a realizar
melhor do que estabelecendo, à maneira do santo, a divina Maria,
Senhora e Soberana de nosso coração, a fim de que Ela o submeta
plenamente ao império do seu grande e único Jesus? (V. D., nº 217).
Na verdade, veremos então verificar-se, ao pé da letra, a
profecia de São Luís de Montfort: O Reino de Maria não virá
senão quando se conhecer e praticar a Devoção que eu ensino (nº
217).
O santo o descreve não só como um Reino de luz, mas ainda de
doçura e de misericórdia.
Nesse tempo os predestinados, entrando, com a graça e a luz do
Espírito Santo, nesta prática interior e perfeita, verão claramente,
tanto quanto a fé o permite, esta bela Estrela do mar; chegarão a
um porto feliz, apesar das tempestades e dos piratas, seguindo a sua
direção.
Conhecerão as grandezas desta Soberana e consagrar-se-ão
inteira- mente ao seu serviço, como seus súditos e seus escravos de
amor.
Experimentarão suas doçuras e bondades maternais, e a amarão
ter-
namente como filhos muito amados.
Conhecerão as misericórdias de que Ela está cheia e as precisões
em que se acham de seu socorro, e hão de recorrer a Ela em tudo
como à sua querida advogada e medianeira junto de Jesus Cristo.
Saberão que Ela é o meio mais fácil, mais curto e mais perfeito
para ir a Jesus Cristo; entregar-se-ão a Ela de corpo e alma, sem
partilhas, para, da mesma forma, pertencerem a Jesus Cristo’ (V.
D., nº 55).
Imediatamente, por uma conseqüência necessária, tocaremos ao
Reino de Cristo no mundo; pois que um é o precursor do outro: Ut
adveniat Regnum tuum, adveniat Regnum Mariae (nº 217).
J. M. Dayet

Pio XII, aliás, falou como São Luís Maria, porque é exatamente
para apressar este Reino de Cristo sobre as nações reconciliadas,
após a guerra mais sangrenta, que Sua Santidade consagrou o
gênero humano ao Coração imaculado de Maria.
“Consagramo-nos para sempre a Vós, ao vosso Coração
Imaculado, ó nossa Mãe e Rainha do mundo, a fim de que vosso amor
e vossa proteção apressem o triunfo do Reino ele Deus”.
E ainda: “Dai ao mundo a paz das armas e a paz das almas, a
fim de que na tranqüilidade da ordem se diante o Reino de Deus”.
Maravilhado com esta realização profética, o monge beneditino
que acaba de nos dar um livro notável sobre Nossa Senhora da
Grande Conversão diz: “A Arca de Nossa Aliança” vê no Soberano
Pontífice presentemente reinante, cujo nome quer dizer a Paz do
céu, cuja divisa é a Paz, obra de justiça, cujas armas são a pomba
trazendo no bico um raminho de oliveira, um dos apóstolos
preconizados por São Luís Maria de Montfort.
Parece bem - continua o dito monge - que Pio XII seja um
destes apóstolos de Maria, um apóstolo dos tempos modernos
preparados pela instituição da festa de Cristo-Rei, ao tempo do seu
predecessor Pio XI”12.
Falando dos “Apóstolos dos últimos tempos”, o mesmo autor
dissera já, algumas páginas acima:
Acontecimentos previstos e que se deram em nossos dias, fazem
pensar na profecia de São Luís Maria:
A Consagração do gênero humano ao Coração imaculado de Maria...
O recrutamento magnífico em poucos anos, no mundo inteiro, da sur-
preendente Legião de Maria. Esta Legião de Maria nasceu
precisamente da doutrina de São Luís Maria. Ela é a encarnação
de suas mais altas
aspirações, do seu amor luminoso e forte para com a Virgem Maria.
Enfim, os Apóstolos de Nossa Senhora de Boulogne, que há quatro
anos pelos caminhos de França, debaixo da chuva, da neve, do calor,
muitas vezes esgotados a mais não poder..., conduzem o carro de
Nossa Senhora até o lugar de seu Santuário, recolhendo alegremente,
pelos caminhos, as “conversões” obtidas por seu Coração Imaculado.

118
12
Página 140, nas Editions de la Source, 5, Rue de la Scource, Paris XVI.

119
Para melhor amar a Nossa Senhora

Não são eles também, estes apóstolos de Maria, anunciados


profetica- mente por São Luís Maria de Montfort? E não contribuem,
por seu zelo ardente, em tornar mais viva, mais próxima nos nossos
corações a Profe- cia de Nossa Senhora de Fátima: “Finalmente, meu
Coração Imaculado triunfará”?
De fato, são os missionários da Companhia de Maria, filhos
autên- ticos do santo, que, em maior número até o dia de hoje,
conduziram os carros de Nossa Senhora de Boulogne por todas as
estradas da França13.
Por um conjunto de circunstâncias providenciais, viu-se mesmo
o carro da Via marítima parar longos meses, durante o inverno de
1943-1944, em São Lourenço-sobre-o-Sêvre, na Vendéa, onde veio
morrer o grande apóstolo de Maria. A Arca da Aliança descansava
junto ao sepulcro do santo e diante da estátua de Nossa Senhora
que recebeu suas últimas Ave-Marias. São Luís Maria acolhia na
sua casa, na sua Basílica, a Rainha, da qual anunciara o triunfo e
que chegava agora como Conquistadora dos corações, solicitando,
de diocese em diocese, nossa completa conversão para Deus.
Sim, todos estes fatos dão testemunho, apesar das tristezas e das
angústias que ainda perduram, que o Reino de Maria e de Cristo
está erguido sobre o mundo e que os Apóstolos deste Reino estão
em ação.

***

Que serão estes Apóstolos?


“Serão, responde São Luís Maria, um fogo ardente; ministros
do Senhor, que introduzirão o fogo do amor divino por toda a
parte.
Serão como flechas aceradas na mão da poderosa Maria, para
atingir seus inimigos.
Serão filhos de Levi, bem purificados pelo fogo de grandes
tribulações e bem apegados a Deus; levarão o ouro do amor no
coração, o incenso
13
Entre eles, vários percorreram caminho durante 22 meses, por assim
dizer, sem parar. Calculam caminhadas de 6.000 quilômetros e às vezes
mesmo mui- to além desta cifra.
J. M. Dayet

da oração no espírito, a mirra da mortificação no corpo; e serão por


toda a parte o bom odor de Jesus Cristo para os pobres e para os
pequenos, enquanto serão odor de morte para os grandes, para os
ricos e orgulhosos mundanos.
Serão como nuvens que trovejam e voam pelos ares ao menor
sopro do Espírito Santo, que, sem se apegarem a coisa alguma nem se
afligir, der- ramarão a chuva da palavra de Deus e da vida eterna.
Trovejarão contra o pecado e contra o mundo, ferindo o demônio e seus
adeptos; atravessarão de lado a lado, com sua espada de dois gumes
da palavra de Deus, todos aqueles aos quais serão enviados da parte
do Altíssimo.
Serão os verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, a quem o
Senhor dos exércitos dará a palavra e a força para operar maravilhas
e conseguir despojos gloriosos sobre os seus inimigos...
Serão verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, caminhando nos
vestígios de sua pobreza, humildade, desprezo do mundo e caridade;
ensinando o caminho estreito de Deus na pura verdade, segundo o
santo Evangelho e não segundo as máximas do mundo; sem se
incomodar nem fazer acepção de pessoas; sem poupar, sem ouvir nem
temer nenhum mortal, por poderoso que seja.
Levarão aos ombros o estandarte ensanguentado da cruz, o crucifixo
na mão direita, o terço na esquerda, os nomes sagrados de Jesus e de
Maria no seu coração, e a modéstia e mortificação de Jesus Cristo em
toda a sua conduta” (V. D., ns. 56-59.)
Esta descrição dos apóstolos do Reino lembra a da Oração
abra- sada, em que São Luís Maria pede a Deus missionários para
sua Companhia de Maria:
“Senhor Jesus, lembrai-Vos de dar à Vossa Mãe uma nova
Companhia, a fim de renovar por Ela todas as coisas, e para
terminar, por Maria, os anos da graça, como Vós os começastes por
Ela...
Da Matri tuae líberos... É para Vossa Mãe que eu Vos rogo...
Lem- brai-Vos de quem sois Filho, e atendei-me; lembrai-Vos do que
Ela é para Vós e do que Sois para Ela, e satisfazei os meus desejos.
O que Vos peço? Nada em meu favor, tudo para Vossa glória...

120
Para melhor amar a Nossa Senhora

Liberos: sacerdotes livres de Vossa liberdade, desprendidos de tudo;


sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem irmãs, sem parentes segundo a
carne, sem amigos segundo o mundo, sem bens, sem embaraços, sem
preocupações e mesmo sem vontade própria.
Liberos: Escravos de Vosso amor e de Vossa vontade; homens
segundo o Vosso coração, que, sem própria vontade que os macule e
os detenha, cumpram todas as Vossas vontades e derrubem todos os
Vossos inimigos, como outros novos Davi, com o bastão da Cruz e a
funda do santo Rosário nas mãos.
Liberos: Nuvens elevadas da terra e carregadas de orvalho celeste,
que, sem empecilhos, voem para todos os lados, conforme o sopro do
Espírito Santo...
Liberos: Pessoas sempre nas Vossas mãos, sempre prontos a
obedecer-
-Vos, à voz de seus superiores, como Samuel: Praesto sum; sempre
prontos a correr e a tudo sofrer conVosco e por Vós, como os
Apóstolos...
Líberos: Verdadeiros filhos de Maria, Vossa santa Mãe, que sejam
engendrados e concebidos por seu amor, carregados no seu seio, presos
ao seu colo, alimentados com o seu leite, criados por seus cuidados,
sustentados nos seus braços e enriquecidos com suas graças.
Liberos: Verdadeiros servos da Santíssima Virgem, que, como
outros tantos São Domingos, andem por toda a parte o facho brilhante
e ardente do santo Evangelho na boca, e o santo Rosário nas mãos,
ladrando como cães, ardendo como chamas e iluminando as trevas do
mundo como sóis; e que, por meio de uma verdadeira devoção a
Nossa Senhora..., esmaguem, por toda a parte onde estiverem, a
cabeça da antiga serpente, a fim de que a maldição que pronunciastes
sobre ela seja inteiramente cumprida...”. Se, nestas linhas ardentes, São
Luís Maria tem em vista aqueles que devem continuar sua missão,
no entanto aqui, como no Tratado, seu pensamento vai mais longe.
Por isto vemos instar com todos os sacerdotes, conscientes do
poder de seu sacerdócio, a que se unam
a ele:
“Que todos os bons sacerdotes espalhados pelo mundo cristão, quer
este- jam atualmente na liça, quer se tenham retirado da peleja para
os desertos e solidões; que todos venham e se unam a nós: Vis
unita fit fortior, a fim
de que organizemos, sob o estandarte da Cruz, um exército bem formado
em linha de combate e bem disciplinado, para atacar em conjunto os
inimigos de Deus que já deram o alarme... “.
Este desejo de nosso heroico missionário realizou-se pela
Associa- ção dos Padres de Maria, Rainha dos corações. De todos os
lados, com efeito, das dioceses da França e do estrangeiro, das mais
longínquas missões e das clausuras monásticas, milhares de
sacerdotes vieram inscrever-se. Todos os dias, oram, sofrem, lutam,
santificam-se para o progresso do Reino de Jesus por Maria.
Sabem, assim como o recomendava o Revmo. Pe. Lhoumeau 14,
que estando em face dos últimos tempos de suas provações, de seu
apostolado particular, que exigem uma têmpera d’alma pouco vul-
gar, uma coragem invencível, é a Mulher forte que, lutando contra
o dragão, lhes sustenta e sustentará sua coragem e quaisquer que
sejam os triunfos aparentes das forças do inferno; finalmente, Ela
lhes assegurará a vitória.
São Luís Maria preveniu-nos que estas forças do inferno ata-
cariam mesmo e perseguiriam de modo especial todos aqueles que
abraçassem amplamente seu modo de amar a Nossa Senhora.
“Mas, que importa! Tanto melhor! - acrescenta - Esta perspectiva
me anima e me faz esperar um ótimo resultado, isto é, um grande
esquadrão de intré- pidos e valentes soldados de um e de outro sexo,
para combater o mundo, o demônio e a natureza corrompida, nos
tempos perigosos que vão chegar mais do que nunca” (V. D., nº
144).
Glória, pois, aos escravos de amor de Maria! Glória aos legio-
nários de Maria! Glória a todos os sacerdotes, apóstolos de Maria!
Que eles se considerem felizes de viver nos tempos em que
vivemos. Jamais ocasião tão bela foi oferecida de promover a
glória de Deus pela Virgem Rainha e pelo Cristo, Rei e centro de
todos os corações.

14
“La Vierge Marie et les Apôtres des derniers temps” (Tours, Mame, 1919,
página 120).
CONSAGRação de SI MESMO a JESUS CRISTO,
a Sabedoria encarnada, pelaS mãOS de Maria15

Ó Sabedoria eterna e encarnada! Ó amabilíssimo e adorável


Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Filho unigênito do Pai
eterno e de Maria sempre Virgem! Adoro-Vos profundamente no
seio e nos esplendores de Vosso Pai, durante a eternidade, e no seio
virginal de Maria, Vossa Mãe digníssima, no tempo de Vossa
Encarnação.
Dou-Vos graças de que Vos aniquilastes em tomando a forma de
um escravo para me retirardes da cruel escravidão do demônio. Eu
Vos louvo e glorifico de que houvestes por bem sujeitar-Vos a
Maria, Vossa santa Mãe, em tudo, a fim de me constituir por Ela
Vosso fiel escravo.
Porém, infelizmente, ingrato e infiel como sou, não guardei os
votos e promessas que solenemente Vos fiz no meu batismo; não
cumpri minhas obrigações; não mereço ser chamado Vosso filho,
nem Vosso escravo; e, como não há nada em mim que não mereça
Vossa repulsa e Vossa cólera, não ouso mais por mim mesmo
aproximar-me de Vossa santíssima e augusta majestade.
Eis porque recorro à intercessão e à misericórdia de Vossa Mãe
Santíssima, que me destes por medianeira junto de Vós; e é por seu
intermédio que espero obter de Vós a contrição e o perdão de meus
pecados, a aquisição e a conservação da Sabedoria.
Saúdo-Vos, pois, ó Maria Imaculada, tabernáculo vivo da divin-
dade, onde a Sabedoria eterna escondida quer ser adorada pelos
anjos e pelos homens.

15
Composta por São Luís Maria Grignion de Montfort.
123
J. M. Dayet

Saúdo-Vos, ó Rainha do céu e da terra, ao império de quem está


sujeito tudo que existe abaixo de Deus.
Saúdo-Vos, ó refúgio seguro dos pecadores, cuja misericórdia,
não falta a ninguém; ouvi os desejos que tenho da divina Sabedoria
e recebei para isto os votos e oferecimentos que minha pequenez
vos apresenta.
Eu N..., pecador infiel renovo e ratifico hoje nas vossas mãos
os votos de meu batismo: renuncio para sempre a Satanás, às suas
pompas e às suas obras, e me dou inteiramente a Jesus Cristo,
Sabe- doria encarnada, para levar minha cruz, em Seu seguimento,
todos os dias de minha vida e a fim de que eu Lhe seja mais fiel do
que fui até agora.
Escolho-vos hoje, ó Maria, em presença de toda a corte celeste,
por minha Mãe e Senhora; entrego-vos e consagro-vos em qualidade de
escravo meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores e
mesmo o valor de minhas boas ações passadas, presentes e futuras,
deixando-vos um inteiro e pleno direito de dispor de mim e de tudo o
que me pertence, sem exceção, segundo vosso bel prazer, para a
maior glória de Deus no tempo e na eternidade.
Recebei, ó Virgem benigna, esta pequena oferta de minha
escravi- dão, em honra e união à sujeição que a Sabedoria eterna
houve por bem praticar em relação à vossa maternidade; em
homenagem ao poder que tendes ambos sobre este vermezinho e
miserável pecador e em ação de graças pelos privilégios com que a
Santíssima Trindade vos favoreceu.
Protesto querer de ora em diante, como vosso verdadeiro
escravo, promover vossa honra e obedecer-Vos em tudo.
Ó Mãe admirável, apresentai-me a vosso caro Filho em
qualidade de escravo eterno, a fim de que tendo-me resgatado por
vós, Ele, por vós, me receba!
Ó Mãe de misericórdia, concedei-me a graça de obter a
verdadeira Sabedoria de Deus e que, para este fim, eu seja
colocado no número daqueles que amais, ensinais, conduzis,
alimentais e protegeis como vossos filhos e vossos escravos!
Para melhor amar a Nossa Senhora

Ó Virgem fiel, fazei-me em tudo um tão perfeito discípulo,


imita- dor e escravo da Sabedoria encarnada, Jesus Cristo, vosso
Filho, que eu chegue, par vossa intercessão, a vosso exemplo, à
plenitude de sua idade na terra e de sua glória nos céus! Assim
sela.

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Este livro foi impresso no mês de novembro
de dois mil e vinte, pela Editora Realeza.

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