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Os CinCO livrOs

ã
da COnsideraçaO
São Bernardo de Claraval

Os Cinco livros da
Consideração

Traduzidos do latim
pelo Pe. Marinho
Os Cinco livros da Consideração
São Bernardo de Claraval

Reservados todos os direitos dessa obra. Proibida toda e qualquer reprodução


desta edição por qualquer meio ou forma, seja eletrônica ou mecânica, fotocópia,
gravação ou qualquer outro meio de reprodução, sem permissão expressa do
editor.

Preparação de texto
Gabriel Zavitoski

REVISÃO:
Eduardo da Silva Gomes, Thiago dos Santos Moraes

Capa e Diagramação:
Juscelino Silva

Os direitos desta edição pertencem a Editora Realeza


1ª edição – agosto de 2020 – Editora Realeza
SUMÁRIO

PREFÁCIO..............................................................................................11

PRÓLOGO..............................................................................................13

LIVRO I...................................................................................................15
CAPÍTULO I..............................................................................15
São Bernardo manifesta ao Papa a sua com-paixão, à vista das
múltiplas ocupações que o sobrecarre-gam.

CAPÍTULO II............................................................................16
Como a força do hábito conduz ao vício, e ao endurecimento do
coração.

CAPÍTULO III...........................................................................18
É indigno dos prelados da Igreja aplicarem-se de contínuo a ouvir
e decidir litígios.

CAPÍTULO IV...........................................................................20
Há uma escravidão digna e outra indigna dos servos de Deus.

CAPÍTULO V............................................................................22
Não se deve cuidar dos outros com incúria e negligência de si
mesmo.

CAPÍTULO VI...........................................................................24
O ofício de julgar incumbe menos aos bispos, que aos príncipes
temporais.

CAPÍTULO VII..........................................................................26
O primeiro cuidado deve dar-se à piedade e à consideração das
verdades eternas.

CAPÍTULO VIII........................................................................27
É da piedade e da contemplação que deriva a bela harmonia e
conexão das quatro virtudes cardeais.
CAPÍTULO IX..........................................................................31
Os antigos Papas cuidavam antes das fun-ções eclesiásticas que
das seculares, e não se devem a-bandonar temerariamente as
suas normas e exemplos.

CAPÍTULO X............................................................................32
Declama contra os abusos e falsidades dos advogados, juízes e
procuradores.

CAPÍTULO XI...........................................................................34
Devem ser punidos severamente os advoga-dos e procuradores
que procuram auferir lucros da sua malícia.

LIVRO II.................................................................................................37

CAPÍTULO I..............................................................................37
Deplora os males do seu tempo e desenvolve uma apologia
contra os que murmuravam do mau êxito da expedição à Terra
Santa.

CAPÍTULO II............................................................................41
Diferença entre a consideração e a contem-plação.

CAPÍTULO III...........................................................................42
Quatro pontos a distinguir na consideração.

CAPÍTULO IV...........................................................................43
O conhecimento próprio compreende três considerações
diferentes. Aqui se trata da primeira parte da consideração.

CAPÍTULO V............................................................................44
Segue-se a segunda parte da consideração: Quem sois e de onde
vindes?

CAPÍTULO VI...........................................................................45
Os príncipes da Igreja devem atender menos ao domínio que ao
ministério, que lhes foi confiado.

CAPÍTULO VII..........................................................................51
Volta a examinar com mais cuidado a pri-meira pergunta - quem
sois?

CAPÍTULO VIII........................................................................52
Da alta dignidade e poder do Pontífice.
CAPÍTULO IX...........................................................................54
Quanto importa em especial a consideração da própria natureza,
como guia da modéstia e de todas as virtudes.

CAPÍTULO X............................................................................56
Terceira parte da consideração, - qual sois?

CAPÍTULO XI...........................................................................58
Recomenda ao Papa que se examine a sério.

CAPÍTULO XII.........................................................................60
Ninguém se deve exaltar demasiado na prosperidade, nem baixar
ao extremo na adversidade.

CAPITULO XIII........................................................................61
Exorta o Pontífice a fugir do ócio, de ni-nharias e conversas
inúteis.

CAPÍTULO XIV........................................................................62
É necessário acima de tudo, no julgamento das causas, não fazer
aceitação de pessoas.

LIVRO III................................................................................................63

CAPÍTULO I..............................................................................68
É ofício do Pontífice procurar não tanto que todos se sujeitem ao
seu domínio, como fazer quanto possível para que todos entrem
no grêmio da Igreja.

CAPÍTULO II............................................................................74
Da ordem a guardar nas apelações para a Santa Sé

CAPÍTULO III...........................................................................77
Estão os Prelados da Igreja constituídos, não tanto para
presidirem e se apascentarem a si próprios, como para serem
úteis aos outros.

CAPÍTULO IV...........................................................................77
É necessário que não se confundam temera-riamente, nem se
per- turbem os graus das ordens e dignidades que há na Igreja.
De onde vem a propósito verberar os abusos dos privilégios e
isenções.

CAPÍTULO V............................................................................83
Incumbe ao sumo Pontífice fazer guardar por todo o mundo os
decretos apostólicos e os institutos dos nossos pais.
LIVRO IV................................................................................................87

CAPÍTULO I.............................................................................87
Trata das coisas ao redor do Pontífice e seus cuidados.

CAPÍTULO II............................................................................88
Trata dos costumes do clero e do povo de Roma, e recomenda o
cuidado e vigilância dos antigos pastores, que se sacrificavam
pelas suas ovelhas.

CAPÍTULO III..........................................................................93
Exorta-o com instância ao desempenho do seu ofício de
verdadeiro Pastor, usando menos do esplen-dor que de uma
inquebrantável firmeza de ânimo contra os rebeldes e
contumazes.

CAPÍTULO IV...........................................................................96
Quais os conselheiros e cooperadores que o Pontífice deve esco-
lher. Expõem-se aqui com toda a cla-reza as virtudes e costumes
requeridos nos prelados.

CAPÍTULO V..........................................................................101
Recomenda-se com exemplos a recusa de presentes e fulmina-se a
arrogância dos oficiais do Papa.

CAPÍTULO VI.........................................................................104
Visto que tem a seu cargo os deveres mais graves, não pode o
Papa distrair-se com os negócios do-mésticos, que deve confiar a
um ecônomo.

Capítulo VII.............................................................................110
Epílogo ou resumo das qualidades requeridas no Pontífice.

LIVRO V................................................................................................113

CAPÍTULO I............................................................................113
Em todo este livro se trata das coisas que estão acima de nós,
isto é, de Deus e das coisas divinas.

CAPÍTULO II..........................................................................115
Estabelecem-se vários graus e espécies de consideração.
CAPÍTULO III.........................................................................117
Os seres que estão acima de nós - Deus e os anjos – investigam-se
pela opinião, pela fé e pelo enten-dimento.

CAPÍTULO IV.........................................................................119
De que modo havemos de considerar e co-nhecer os espíritos
bem-
-aventurados, cidadãos do Céu.

CAPÍTULO V..........................................................................124
Graças e dotes derivados de Deus para os anjos.

CAPÍTULO VI.........................................................................126
O ser princípio e essência só convém propriamente a Deus.

CAPÍTULO VII.......................................................................129
Deus é simples e trino.

CAPÍTULO VIII......................................................................133
A pluralidade de Pessoas em Deus resulta das suas propriedades,
mas há nEle uma essência única e simples.
CAPÍTULO IX..................................................................................135
Assim como na natureza simples de Deus há três Pessoas, assim pelo
con- trário na Pessoa una de Cristo há pluralidade de naturezas.
CAPÍTULO X....................................................................................136
A parábola de São Mateus, a respeito das três medidas de farinha, é apli-
cável a Pessoa de Cristo.
CAPÍTULO XI...................................................................................138
Prossegue a consideração acerca de Deus.
Capítulo XII.......................................................................................139
Deus é pio remunerador das boas obras e justíssimo vingador dos crimes.

CAPÍTULO XIII......................................................................142
Discorre o autor profunda e elegantemente a respeito do compri-
mento, largura, profundidade e sublimidade de Deus.

Capítulo XIV............................................................................145
Mostra-se o modo como podemos compre-ender o que diz o
Apóstolo.
PREFÁCIO

P
ublicamos em 1917 os Seis livros do Sacerdócio, a
obra prima de São João Crisóstomo. Começamos depois a
pensar em traduzir do latim os Cinco livros da Consi-
deração, a mais sublime das obras de São Bernardo; mas pas-
saram-se aos que sem a isso nos decidíssemos. Quanto mais
admirávamos a doçura da forma e a elevação dos
pensamentos, menos coragem sentíamos para dar começo ao
trabalho. Por último, resolvemos traduzir o prólogo, ao qual
pouco a pouco, com intervalos por vezes de semanas inteiras,
se foi seguindo tudo o mais, em alguns momentos
disponíveis e no decurso de
uns dezoito meses.
Tanto nos agradou o texto latino, que introduzimos na
nossa Terceira Seleta Latina, os dois primeiros dos cinco
livros.
Resplandecia nele a humildade, a misericórdia e a bon-
dade. Tão absorto andava na contemplação, que a tudo
parecia estranho, menos às praticas de piedade, em que
revelava urna prudência inexcedível. Possuído deste santo
ardor, recusou o bispado de Genova, Milão e outros que lhe
foram oferecidos, confessando-se indigno de tão alto cargo.
Eleito abade de Cla- raval, fundou em vários lugares muitos
mosteiros, em que por largo tempo vigorou a santa vida e
disciplina, que neles estabele- cera. Em Roma, tendo sido
restaurado pelo Papa Inocêncio o II mosteiro de Vicente e
Anastásio, pôs nele Bernardo como abade
o que depois foi soberano pontífice sob o título de Eugênio III,
a quem dedicou o tratado da Consideração.
Escreveu muitas outras obras, em que se deixa ver que a
sua doutrina foi antes inspirada divinamente, que adquirida
pelo estudo. Graças ao renome das suas virtudes, os mais
altos prín- cipes demandavam a sua interferência para
dirimirem pleitos, e também por vezes teve de vir a Itália para
regular negócios eclesiásticos. Assim, foi de grande auxílio
ao soberano pontífice Inocêncio, na luta contra o cisma de
Pedro de Leão, pela sua influência, não só perante o
imperador e Henrique rei da Ingla- terra, mas também no
concílio reunido em Pisa. Adormeceu enfim no Senhor, aos
sessenta e três anos de idade. À vista da fama dos seus
milagres, foi canonizado pelo papa Alexandre
III. Depois o soberano pontifica Pio VIII, ouvido o parecer
da Congregação dos sagrados ritos, declarou e confirmou São
Bernardo Doutor da Igreja universal, mandando a todos
recitar a Missa e Ofício dos Doutores, e concedendo cada ano
uma indulgência plenária perpétua, a quem visitar no dito dia
as igrejas dos Cistercienses.
Os cincO livrOs da cOnsideraçãO de sãO BernardO
dirigidOs aO PaPa eugêniO iii

PRÓLOGO1

O
correu-me o pensamento, beatíssimo Papa Eugênio,
dizer-vos alguma coisa que vos edificasse, deleitasse
ou consolasse. Sinto-me, porém, como que hesitante
entre
o querer e não querer, impele-me o desejo e detém-me o aca-
nhamento; parece que o amor e a majestade me solicitam em
sentido contrário. Ele exorta-me, ela dissuade-me. Mas eis
que intervém a vossa bondade pedindo, em vez de ordenar,
uma coisa que melhor ficaria ser ordenada. Visto, pois, que a
majes- tade condescende tão generosamente, porque não há
de ceder o acanha mento? Que importa terdes subido à
cátedra máxima? Arrebatado que sejais nas asas dos ventos,
não escapareis ao meu amor. Não vos olha o meu coração
como senhor; reco- nhece vos por filho, este bem ligado a
vós; obedece-vos sem relutância, recebe complacente as
vossas ordens e rende-vos a homenagem do seu respeito, em
plena liberdade.
1
Temos presentes duas edições latinas das obras completas de São
Bernardo, uma de Basileia num só volume de l552, outra de Paris de
1558, em dois volu- mes, com algumas notas. Esta traz a divisão em
capítulo, com as respectivas epígrafes.
Nem sempre assim acontece, não, porque a uns domina-
-os o temor, a outros move-os o interesse. Estes prodigalizam
louvores no exterior e maldizem no seu coração: lisonjeiam
na prosperidade e abandonam na adversidade. A caridade
nunca esmorece (1 Cor 13, 8). Quanto a mim, para vos
confessar a verdade - se estou desobrigado do ofício de mãe,
não me dis- penso, contudo do carinho maternal para
convosco. Trouxe-vos outrora no meio seio; não conteis sair
dele facilmente. Quer vos alteeis até aos céus, quer desçais
até aos abismos, não me fugireis, porque vos hei de seguir
para onde quer que vades. Amei-vos quando éreis pobre por
voto, amar-vos-ei agora que sois pai dos pobres e dos ricos.
Como vos conheço bastante, posso crer com segurança que,
tornando-vos pai dos pobres, não perdestes o espírito da
pobreza. Estou certo de que se fez em vós esta mudança, mas
a vossa pessoa não mudou: a vossa nova dignidade não
sucedeu, acresceu antes a vossa primeira condição. Vou
admoestar-vos, pois, não como mestre, mas como uma mãe e
mãe extremosa. Parecerei até uma mãe louca, mas só a quem
não ama, a quem nunca experimentou a força do amor.
LIVRO PRIMEIRO

CAPÍTULO I

São Bernardo manifesta ao Papa a sua


compaixão, à vista das múltiplas ocupações que o
sobrecarregam.

P
or onde começarei agora? Pelas vossas ocupações con-
tínuas, que são o principal motivo da compaixão que
sinto por vós. Digo que me compadeço, se vós próprio
vos doeis, pois do contrário, deveria antes dizer que sofro,
porque não há lugar para a compaixão onde não há quem
sofra. Portanto, se vos doeis, ofereço-vos a minha
condolência. Se não vos doeis, ainda vos lamento, e tanto
mais quanto sei que um membro insensível está muito longe
de recobrar a saúde, e que corre grande perigo o enfermo que
perdeu os sentidos. Longe de mim, porém, fazer tal suspeita a
vosso respeito. Sei de que doce paz vós gozáveis ainda não há
muito na vossa que- rida solidão; e impossível que tão
depressa perdêsseis o hábito dela, e que de repente
esquecêsseis o mal que a sua perda vos causou: não se
conserva sem dor uma ferida recente. E essa ainda não
calejou até a insensibilidade, em tão pouco tempo. Tendes de
confessar que não vos faltam motivos de justa dor nas perdas
que dia a dia vindes experimentando. Se não me engano, é a
pesar vosso que sois arrancado aos braços da vossa Rachel, e
por certo se renova a vossa dor todas as vezes que
São Bernardo de Claraval

essa separação se repete. Mas, quando não se dá isso?


Quantas vezes propondes e não executais? Quantas pensais e
não chegais a propor? Quantas vos moveis e não dais um
passo? Tentais e nada conseguis? Como que sentis dores de
parto e não dais à luz? Tomais impulso para frente e recuais?
Mal começais, logo desistis, e tão depressa fazeis como
abandonais novos projetos? Estiveram os filhos prestes a
nascer, diz o profeta (Is 37, 3) mas a mãe não teve força para
os dar a luz. Conheceis isto? Ninguém melhor do que vós.
Estaríeis, no entanto, endurecido, e seríeis sábio à maneira da
novilha de Efraim, amante da debulha (Os 10, 11), se vos
conservásseis em paz, em circunstâncias tais. Queira Deus
afastar de vós essa sorte, que é a dos réprobos. Desejo na
verdade que as vossas ocupações vos tenham em paz, mas
não que façais as pazes com elas. Para vós nada receio mais
do que essa paz. Admirais talvez que isso possa acontecer?
Eu vos afirmo que pode, como é de costume, se por hábito
vos deixardes ir à negligência.

CAPÍTULO II

Como a força do hábito conduz ao vício,


e ao endurecimento do coração.

Não confieis demasiado nas boas disposições, em que


estais ao presente. Nada há tão fixo no coração humano que
não seja capaz de se apagar com o descuido e com o tempo.
Uma chaga antiga e desprezada, por via de regra, converte-se
num calo, e tornasse tão incurável como insensível. Depois,
uma dor contí- nua e acerba não pode ser de longa duração.
Se não se consegue aplacá-la, forçoso é que cesse por si
1
6
mesma. Em curto prazo,

1
7
Os Cinco livros da Consideração

ou os remédios a aliviarão, ou a continuidade a fará


insensível! De fato, que haverá que o hábito não destrua, a
assiduidade não endureça e o uso não gaste? Quantas coisas
que primeiro se repeliam como amargas, depois se volveram
doces pelo uso? Escutai a este respeito à lamentação de um
justo ( Jó 6, 7): As coisas que primeiro não ousava tocar,
tornaram-se agora o meu ali- mento no tempo de angústia.
Uma mesma coisa, que a princípio se vos afigurava
insuportável, com o andar do tempo se vos tornou, pelo
hábito, sucessivamente menos pesada, leve, indi- ferente, e
até por fim deleitável. É também assim, por degraus, que se
cai no endurecimento do coração e por ele no desprezo da
virtude. Tal é a dor aguda e contínua que, como disse, deve
terminar em breve, ou pela cura, ou pela insensibilidade.
Eis com franqueza o que sempre me fez e ainda faz temer
por vós, que por demorardes o remédio, por não sentirdes o
mal, ou por não poderdes já suportá-lo, vos deixeis vencer do
desalento irrevogavelmente. Temo, digo, que vós, ao passo
que hesitardes em levar a cabo os muitos negócios, em que
andais envolvido, vos endureçais, e pouco a pouco deixeis
perder o sentimento de uma dor justa e útil. Mais prudente
seria que os largásseis por algum tempo, em vez de serdes
arrastado por eles e levado com certeza, pouco a pouco, para
onde não quereis ir. Quereis saber para onde? Para o
endurecimento do coração. Nem me pergunteis qual é o
coração endurecido: se não vos encheis de pavor, é o vosso.
Só é coração duro o que não se horroriza de si mesmo,
porque se tornou insensível. Porque haveis de perguntá-lo
a mim? Perguntai-o ao Faraó. Nunca ninguém de coração
duro se salvou, senão talvez aquele a quem, segundo a
palavra de um profeta (Ez 36, 26), Deus por sua
misericórdia tirou o coração de pedra e deu um coração de
carne. Que será, pois, um coração duro? É o que nem a
compunção confrange, nem a piedade abranda, nem as
súplicas abalam; esse
São Bernardo de Claraval

não cede às ameaças, endurece-se com os castigos. É ingrato


aos benefícios, pérfido nos conselhos, cruel nos juízos, des-
vergonhado na impureza, arrojado nos perigos, desumano nas
coisas humanas, temerário nas divinas, esquecido do passado,
descuidado no presente e imprevidente quanto ao futuro.
Das coisas passadas, só conserva inteira lembrança das
injú- rias recebidas; do presente, nenhum proveito recolhe; e
do futuro nada antevê, senão talvez a perspectiva da vingança
que o ameaça. E, para resumir em poucas palavras todas as
feições hediondas deste monstro, o coração endurecido nem
teme a Deus, nem respeita os homens.
Eis até onde vos podem arrastar essas malditas ocupações,
se continuardes, como começastes, a dar-vos todo a elas, sem
nada reservardes para vós mesmo. A continuardes assim, per-
deis o vosso tempo, e, se me é lícito agora desempenhar para
convosco o ofício de Jetro (Ex 18, 18), dir-vos-ei que estais
a consumir a vossa vida em coisas que são apenas aflição do
espírito, definhamento da alma e desperdício completo da
graça. Observados quanto ao seu fruto, todos esses trabalhos
se redu- zem a teias de aranha.

CAPÍTULO III

É indigno dos prelados da Igreja aplicarem-se


de contínuo a ouvir e decidir litígios.

Dizei-me, - que vem a ser isso de pleitear e ouvir litigan-


tes, de manhã até a noite? E oxalá que para isso bastassem
os dias, mas o caso é que nem as noites ficam livres. Mal se
deixa a necessidade da natureza o suficiente para o repouso

1
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Os Cinco livros da Consideração

do corpo: importa levantar prestes do leito para os processos.


Um dia fornece novos pleitos ao outro dia e uma noite aponta
novas chicanas à noite seguintes, sem que seja possível respi-
rar um pouco em sossego, alternar o descanso com a fadiga,
ou intermear o trabalho com algum fôlego raro. Também vós
por certo deplorais isto mesmo, mas debalde, se não
cuidardes de emendar-vos. Entretanto, exorto-vos
encarecidamente que sejais firme nestes sentimentos, e
torneis as precauções contra a dureza do coração, a que o
hábito conduz. Feriste-los, e não se doeram, diz Deus ( Jr 5,
3). Nada de comum há entre vós e esses. Tomai, contudo,
para vós o sentimento e a linguagem do justo que diz ( Jó 6,
11-12): Que forças as minhas para suportar tão pesada
carga? Ou qual o meu fim, para ter tanta paciência? Nem a
minha força é a das pedras, nem a minha carne tem a
resistência do bronze.
Grande virtude é a paciência, mas eu não vo-la desejaria
no caso presente, em que por vezes mais é para desejar a
impaciên- cia. Porventura aprovaríeis vós a paciência
daqueles de quem São Paulo (2 Cor 11, 19) diz: Sois sábios e
suportais de boa vontade os que o não são? Sem dúvida, era
antes uma ironia que um louvor; era uma censura em tom de
mofa, aos que tinham a fraqueza de dar a mão aos falsos
apóstolos, que os seduziam, levando-os a receber as suas
novas e perversas doutrinas.
Por isso acrescenta: Sofreis que vos reduzam a escravidão
(IICor 11, 20). Não é boa paciência consentirdes em tornar-
-vos escravo, quando podeis ser livre. Não deveis dissimular
a escravidão, a que todos os dias vos vindes sujeitando, sem
dardes por isso. É próprio de um coração embotado não sentir
os males que continuamente o assaltam. Diz o profeta Isaías
(28, 19) que o sofrimento dá inteligência ao ouvido: isso é
verdade, contanto que não seja excessivo. Quando toca o
extremo, não dá
São Bernardo de Claraval

inteligência, gera desprezo. Finalmente, nos Provérbios (18,


3) se diz: Desde que o ímpio cai no abismo dos pecados,
despreza tudo. Despertai, pois, e não temais somente,
abominai o jugo dessa terrível escravidão, que pende sobre a
vossa cabeça e até já vos oprime bastante. Julgais acaso ser
menos escravo por servirdes a todos, e não a um só?
Nenhuma escravidão nem mais ver- gonhosa, nem mais
pesada que a dos judeus, porque sempre a transportam
consigo mesmos, e por toda a parte defrontam com os seus
senhores. Mas agora vos pergunto eu: onde é que sois livre,
ondes estais seguro, onde sois vosso? Por toda a parte
vos oprime o ruído, o tumulto, o jugo da escravidão.

CAPÍTULO IV

Há uma escravidão digna e outra indigna


dos servos de Deus.

Não venhais agora objetar-me o que o Apóstolo (1 Cor


9, 19) diz: quando eu era perfeitamente livre, fiz-me escravo
de todos. Não tem isto aplicação ao vosso caso. Sujeitara-se
ele porventura a servir os homens, por causa de algum lucro
vergo- nhoso? Não afluíam a ele de toda a parte ambiciosos,
avarentos, simoníacos, sacrílegos, concubinários, incestuosos,
e monstros humanos de todas as espécies, para que pela sua
autoridade apostólica lhes obtivesse honras eclesiásticas, ou
os mantivesse nelas? Sim, esse homem, que vivia em Cristo,
e para quem a morte era lucro, fez-se servo para atrair
muitos a Cristo, e não por motivo de avareza (Fel 1, 21). Não
é justo, portanto, que invoqueis a indústria admirável de São
Paulo e o seu zelo, tão livre como liberal, em defesa da vossa

20
vida servil.

21
Os Cinco livros da Consideração

Quanto mais próprio do vosso apostolado, mais salutar


para a vossa consciência e mais útil a Igreja de Deus seria que
escutásseis o que o mesmo Apóstolo diz em outro lugar (ICor
7, 23): Fostes resgatados por grande preço, não vos façais
escravos dos homens?
Que coisa mais servil e mais indigna - principalmente para
o sumo Pontífice - do que estar aplicado a tais negócios, ou
por causa de tais negócios, não digo todos os dias, mas quase
todas as horas? Depois disto, - que tempo restará para orar?
Para ensinar o povo? Para edificar a Igreja? Para meditar a lei?
É verdade que o que mais se ouve no palácio, todos os dias,
são citações de leis, mas das de Justiniano, não das do Senhor.
Também isto vos parecerá justo? Por certo que não, porque
a lei do Senhor é imaculada e converte as almas (Sl 18, 8).
As outras são antes origens de processos e chicanas, que
transtornam o juízo. Peço-vos, pois, que me digais: como é
que vós, pastor e bispo das almas, sofreis que na vossa
presença não se fale nas leis de Deus e se aleguem a todos os
instantes as profanas? Não me engano talvez em crer que este
procedimento indigno vos suscita remorsos. Penso que por
vezes vos há de obrigar a clamar ao Senhor com o Profeta-
rei: os ímpios me entretiveram com os seus negócios, mas a
vossa lei permaneceu longe deles (Sl 118, 35).
Ide agora e ousai proclamar-vos livre, sob esse fardo
esma- gador, que não vos deixa alevantar cabeça. Se podeis e
não quereis emancipar-vos, sois ainda mais escravo da vossa
própria vontade, tão pervertida. Não é escravo do vício quem
dele se deixa dominar? E é esta a pior escravidão. Não é de
supor que julgueis mais vergonhoso ser dominado por um
homem, que pelo vício. Que importa que sejais escravo por
vontade, ou contra vontade? Se bem que a servidão forçada
seja mais digna de compaixão, a voluntaria é mais miserável.
São Bernardo de Claraval

Mas, direis vós: que quereis que eu faça? Que vos alivieis
de algumas dessas ocupações. Respondereis talvez que vos é
impossível, que vos será mais fácil renunciar ao pontificado.
Teríeis razão para responderdes assim, se eu vos obrigasse em
absoluto a deixar essas ocupações, mas eu somente vos acon-
selho que as interrompais.

CAPÍTULO V

Não se deve cuidar dos outros com incúria


e negligência de si mesmo.

Escutai o que é que eu vos censuro e o que vos aconselho.


Se na condição em que viveis e no lugar que ocupais vos dais
todo a ação, e nada reservais a meditação, - poderei louvar-
vos? Não louvo. Creio mesmo que ninguém o pode fazer,
desde que ouça Salomão (Eclo 38, 25) a dizer-lhes: Quem
diminuir à vida ativa há de chegar à sabedoria. Não há
dúvida que a própria ação convém estar prevenida com a
consideração. Por outro lado, se quereis ser de todos à
imitação daquele que se fez tudo para todos, louvo a vossa
caridade, contanto que ela seja inteira: mas como o será, se
vos excetuais dela? Também vós sois homem: para que a
vossa humanidade seja inteira e plena, é necessário que sejais
recebido no mesmo seio que a todos recebe; do con- trário
que vos aproveitará, segundo a palavra do Senhor (1 Cor 9;
Mt 16), ganhardes todos os outros e só vós ficardes perdido? Por
isso, se todos vos possuem, justo é que também vós sejais um
dos possuídos. Por que haveis de ser o único excluído dessa
doação que a todos fazeis de vós mesmo? Até quando sereis
como um sopro que passa e não volta (Sl 77, 39)? Até quando

22
Os Cinco livros da Consideração

demorareis cuidar de vós próprio e assumir o lugar que vos


pertence entre os outros? Dais aos sábios e aos loucos quanto
julgais dever-lhes, e só a vós vos negais? Doutos e
ignorantes, servos e livres, ricos e pobres, homens e
mulheres, velhos e novos, clérigos e leigos, justos e
pecadores, todos participam de vós em comum, todos bebem
da fonte pública do vosso seio,
- e vós haveis de ficar de lado a morrer de sede? Se é maldito
quem faz sua a pior parte, - que dizer de quem se despoja dela
inteiramente?
Bom é que as vossas águas corram para as praças públicas
e delas bebam os homens, os jumentos e os rebanhos, que
nem mesmo aos camelos do servo de Abraão as recuseis; mas
bebei vós também entre os outros da nascente do vosso poço.
Não beba dela o estrangeiro, dizem os Provérbios (5, 17).
Acaso sois vós estrangeiro? Mas para quem não o sois, se
para vós mesmo o sois? Finalmente, para quem será bom,
quem para si próprio é mau?
Notai, pois, as minhas palavras: não digo que vos deis
sempre a vós mesmo, nem com muita frequência, mas apenas
algumas vezes.
Se não fordes vosso ao mesmo tempo que sois dos outros,
que ao menos o sejais em seguida a eles: Que maior
condescen- dência? É de suave indulgência, que não de
rigorosa justiça, este meu conselho. Inclino-me a crer que
nesta parte chego a ser ainda mais indulgente que o próprio
Apóstolo. Direis, portanto, que o sou mais do que é
necessário. Não contesto. Mas, e se realmente fosse
necessário transigir até este ponto? Espero de fato que não
vos contenteis com o meu aviso meticuloso, antes estejais
disposto a fazer mais. Na verdade, a ambos nós nos convém
assim: melhor vos fica a vós a muita generosidade, que a mim
a grande audácia. Também para mim, diante da vossa
majestade, me parece haver mais segurança na timidez que na
São Bernardo de Claraval

temeridade. Nem seria talvez a propósito proceder de outro


modo, ao dar conselhos a um sábio, conforme o que está
escrito (Pr 9, 9): Dá ocasião ao sábio, e ele se tornará mais
avisado.

CAPÍTULO VI

O ofício de julgar incumbe menos aos


bispos, que aos príncipes temporais.

É caso para ouvirdes o sentir do Apóstolo (i Cor 6, 5)


sobre este ponto. É possível, pergunta ele, que não haja, entre
vós, pessoa alguma capaz de julgar as questões, que se
levantam entre irmãos? E conclui: Para confusão vossa o
digo, se assim é, tomai para vossos juízes os últimos de toda
a Igreja (I Cor 6, 4). Segundo a opinião do Apóstolo, é
indigno de vós - Apóstolo - exercerdes um ministério vil, que
vos faz descer ao nível das pessoas mais desprezíveis.
Por isso também esse grande Bispo, dando as suas
instruções a outro Bispo (II Tm 2,4), lhe dizia: Quem está
alistado na milícia de Deus não deve envolver-se nos
negócios seculares.
Quanto a mim, porém, condescendo convosco: proponho-
vos máximas suaves, não severas. Que má impressão
causaríeis, nestes tempos que correm, aos que litigam pelos
bens terrenos e vos pedem justiça, se lhes respondêsseis
apenas com aquelas palavras de nosso Senhor (Lc 12, l4):
Quem me constituiu vosso juiz, ó homem? Que juízo se não
faria de vós? Como, diriam, é assim que este homem rústico e
ignorante desconhece o seu primado, desonra a sua sede
soberana e excelsa, e derroga a dignidade apostólica? E,

24
contudo, a meu ver, os que empregas- sem esta linguagem,
nunca poderiam mostrar o exemplo de

25
Os Cinco livros da Consideração

nenhum Apóstolo se tiver arrogado o papel de juiz dos


homens, de árbitro das suas partilhas, ou distribuidor das
suas terras.
Leio que os Apóstolos tiveram de comparecer nos
tribunais para serem julgados; não leio que se fizessem
juízes (At 5, 26). Há de vir, mas ainda não veio o tempo da
sua judicatura (Mt 19, 28). Acaso, pois, rebaixará a sua
dignidade o servo que não quer avantajar-se ao seu senhor, ou
o discípulo que não ambiciona ser maior do que quem o
enviou, ou o filho, porque não ousa ultrapassar as ordens de
seu pai? Aquele, que é Senhor e Mestre, pergunta: Quem me
constituiu vosso juiz? E o servo, o discípulo há de considerar
como uma injúria não julgar o mundo inteiro? Parece-me de
juízo bem ponderado quem reputa indigno dos Apóstolos e
dos seus sucessores, que se entretenham a julgar ninharias,
quando lhes incumbe o ofício de juízes em coisas mais altas.
Pois, como não darem de mão aos litígios mesquinhos dos
homens na terra, aqueles que hão de julgar os anjos no Céu?
Portanto, o vosso poder diz respeito aos pecados dos homens
e não aos seus bens, porque em razão daqueles e não destes
recebestes as chaves do reino dos Céus, para de lá excluirdes
os pecadores e não os proprietários. Para que saibais, diz o
Senhor, que o Filho do homem tem o poder de perdoar os
pecados na terra (Mt 9, 6). Então que poder, que dignidade
vos parece maior, - o de perdoar pecados, ou o de repartir
heranças? Não há comparação. Para estas coisas bai- xas e
terrenas têm os reis e os príncipes juízes seus. Para que
invadis os limites dos outros? Porque meteis a vossa foice em
seara alheia? Não sois vós indigno de cuidar dessas coisas,
mas são elas indignas dos vossos cuidados, visto que vos
deveis aplicar a outras muito mais importantes. Finalmente,
quando a necessidade o exige, ouvi o sentir do Apóstolo antes
que o meu: se o mundo há de ser julgado por vós, sois vós
indignos de julgar das coisas mínimas (I Cor 6, 2).
São Bernardo de Claraval

CAPÍTULO VII

O primeiro cuidado deve dar-se à


piedade e à consideração das verdades
eternas.

Uma coisa é dar atenção aos negócios seculares só de


passa- gem, por motivo de necessidade urgente, e outra muito
diferente abraçá-los de bom grado, como se fossem grandes e
dignos dos cuidados de um Papa. Na verdade, a estas coisas
que venho dizendo, teria de acrescentar muitas outras, se
visasse máximas mais severas, mais retas e extremas; mas,
como os nossos tem- pos são maus (Ef 5, 16), contento-me
com advertir-vos que não vos deis todo nem sempre à ação,
antes reserveis alguma parte do vosso coração, e do vosso
tempo para a dardes à meditação. Isto digo, em atenção antes
à necessidade que à justiça, embora não seja injustiça ceder à
necessidade. Porquanto, se fora pos- sível pôr em prática tudo
quanto as conveniências aconselham, a própria razão
demonstraria do modo mais irrefragável que a piedade - útil
para tudo - deve ser preferida em absoluto, acima de todas as
coisas e por toda a parte, e tornar-se ou a única, ou a principal
ocupação da nossa vida. Mas, perguntareis vós,
- o que é a piedade? - É praticar a consideração. Direis talvez
que nisto discordo de quem definiu a piedade, chamando-lhe
o culto de Deus. Se bem pensardes haveis de reconhecer que,
em parte, traduzi o mesmo significado dessas palavras. Pois
que haverá que toque mais de perto ao culto de Deus, do que
aquilo mesmo que Ele nos persuade no Salmo (45, 11):
Desocupai-vos e considerai que Eu sou Deus? É, com efeito,
a parte princi- pal da consideração. Enfim, que coisa mais
útil para tudo do que a consideração que, por uma certa
26
precaução de bondade, consegue até assegurar as vantagens
das suas próprias ações,

27
Os Cinco livros da Consideração

adiantando-se de algum modo e ordenando de antemão o que


há de fazer? Necessário é, de fato, que assim se proceda, para
que não se tornem contrárias pela precipitação, as mesmas
obras que podiam ser profícuas, se fossem previstas e
premeditadas. Arrisco-me a dizer que, se recordardes o
passado, haveis de verificar que isto mesmo com frequência
vos tem acontecido, na expedição das causas, nos grandes
negócios ou nas deliberações mais importantes.
A primeira coisa que a consideração faz é purificar a
própria fonte de onde deriva, isto é o espírito. Depois refreia
as paixões, dirige as ações, corrige os excessos, regula os
costumes. imprime na vida a honestidade e a ordem. Por
último, comunica ao mesmo tempo a ciência das coisas
divinas e das humanas. Põe em ordem o que estava em
confusão, reúne o que estava desu- nido, recolhe o que
andava disperso; penetra as coisas ocultas, investiga as
verdadeiras, examina as verossímeis, desmascara as fingidas
e postiças. É ela que ordena com antecipação o que se há de
fazer e repara o que se fez, para que nada reste no espírito que
não seja corrigido, ou careça de correção. Em conclusão, é
ela que na prosperidade prevê a adversidade, pela prudência;
e quando a adversidade chega, quase não a sente, por virtude
da sua fortaleza.

CAPÍTULO VIII

É da piedade e da contemplação que deriva a bela harmonia


e conexão das quatro virtudes cardeais.

Como irá ver, aqui também vos é dado admirar a harmo-


nia suavíssima das virtudes e a sua dependência recíproca. A
São Bernardo de Claraval

prudência é a mãe da fortaleza, que se volveria em


temeridade, a respeito de qualquer empreendimento, que não
fosse dado à luz pela prudência. É também ela que preside,
como juiz imparcial, às paixões e às necessidades, marcando-
lhes certos limites: a estas, dá-lhes quanto é bastante; àquelas,
tira-lhes o excessivo; e assim da prudência e da justiça resulta
uma terceira virtude, que se chama temperança. É a própria
consideração que taxa de intemperante tanto aquele que tira
com pertinácia ao necessário, como o que se deixa ir ao
excesso. A temperança, pois, não consiste somente em cortar
o supérfluo, mas ainda em não falar com o necessário. São
Paulo, além de seguir esta opinião, parece-me ser o autor
dela, quando diz que o cuidado, que devemos ter do nosso
corpo, não se satisfaz com desejos desordenados (Rm 13, 14).
Ao dizer que o cuidado da carne se não leva a efeito com
perfeição, condena o supérfluo, e acrescen- tando com desejos
desordenados, não exclui as coisas necessárias. Por isso, não
me parece má definição da temperança dizer que ela não deve
nem ficar aquém, nem passar além da necessidade: é o
axioma do filósofo - nada de excesso.
Quanto à justiça, que é também uma das quatro virtudes
cardeais, - não é sabido que a alma deve estar prevenida com
a consideração, para com ela se conformar? É necessário que
primeiro reflita sobre si mesma, para do seu intimo tirar a
norma da justiça: não fazer a outrem o que não quer que lhe
façam; não recusar a outrem o que desejaria que lhe dessem.
É nestes dois pontos que assenta todo o fundamento da
justiça. Esta virtude, porém, nunca se encontra só. Considerai
agora comigo a bela união desta virtude com a temperança, e
a liga- ção de ambas com a prudência e fortaleza, de que
acabamos de falar. Visto que o não fazer a outrem o que não
queremos que nos façam é apenas uma parte da justiça,
segue-se que a perfeição dela, como disse nosso Senhor (Mt
28
7, 12) consiste

29
Os Cinco livros da Consideração

nisto: Fazei aos outros o que quereis que vos façam a vós.
Ora, nenhuma destas duas coisas será possível, sem que a
vontade, que deve informar as virtudes, esteja bem ordenada,
do modo a nada querer de supérfluo e a nada recusar do
necessário por escrúpulo, - o que é próprio da temperança. De
mais, é a tem- perança que dá a medida à justiça para ser
justa. O Sábio (Ecl 7, 17) diz: Não sejais justo em demasia,
mostrando assim que não é louvável a justiça quo não for
moderada pela temperança. A mesma Sabedoria não recusa
seguir esta ordem da temperança, dizendo pela boca do
inspirado Paulo (Rm 13, 3): Não se deve saber mais do que é
necessário, mas saber com sobriedade. Noutro lugar nos mostra
o Senhor a necessidade que a temperança tem da justiça,
quando no Evangelho (Mt 6, 16) reprova a temperança dos
que se abstinham de comer, para aos olhos dos homens
parecerem jejuadores. Tinham esses a temperança nas
refeições, mas faltava-lhes a justiça na intenção; porque se
propunham agradar antes aos homens que a Deus. Deste
modo, também por sua vez a justiça e a temperança exigem
a fortaleza, que é necessária em grau não pequeno, para reter
a vontade num justo limite entre o insuficiente e o excessivo;
de maneira que ela se contente com esse meio termo, simples,
puro, isolado, constante, sempre igual a si mesmo, como que
limitado de todos os lados,- único em que consiste a virtude.
Peço-vos agora que me digais, se podeis, a qual dessas três
virtudes pretendeis que se deve atribuir aquele justo meio,
que as caracteriza com tanta precisão, que parece próprio de
cada uma? Credes porventura que ele é a mesma virtude, e
nada mais? Mas, sendo assim, todas as virtudes ficariam
reduzidas a uma só. Ou ao contrário, como não há virtude
sem esse meio, não só deverá dizer que ele é de algum modo
a força única, a medula e sustentáculo interior de todas as
virtudes; que as una a ponto de parecerem uma só,
principalmente porque não estão
São Bernardo de Claraval

ligadas entre si, gozando todas só de alguma das suas partes,


mas cada uma em particular o possui por inteiro e sem
divisão? Por exemplo, - que haverá de mais próprio da justiça
do que esse meio termo, que ela deve observar em todas as
coisas? Se ela deixar de o guardar, pouco que seja, já não
dará a cada um o que lhe pertence, como deve dar. Que coisa
mais essencial a temperança, que não se chama assim senão
porque nada admite de imoderado? Mas creio que vós próprio
haveis de confessar que a moderação não é menos própria da
fortaleza, porque é ela principalmente que a conserva pela sua
força e a arranca ilibada do meio dos vícios, que de todos os
lados procuram sufocá-la; é ela que a sustenta como sólido
fundamento do bem e sede da virtude. Conservar, pois, o
meio termo em todas as coisas é próprio da justiça, da
temperança e da fortaleza. Pertence às três, mas de modo
diferente: a justiça procura-o com amor; a fortaleza consegue-
o; a temperança toma posse dele e goza-o. Resta-nos agora
mostrar que a prudência não é excluída dessa união comum.
Pois, não é ela a primeira a encontrar e descobrir esse
meio, que há muito estava esquecido por incúria do espírito;
que jazia como que sepultado num abismo pela inveja dos
vícios e coberto de densas trevas? Por isso vos digo que
poucos o des- cobrem, porque a prudência é rara. Portanto a
justiça procura o justo meio, a prudência encontra-o, a
fortaleza mantêm-no, a temperança possuí-o. Não me
proponho tratar aqui das virtudes, mas o que digo de
passagem é para vos persuadir a considera- ção, pela qual se
descobrem estas verdades e outras semelhantes.

30
Os Cinco livros da Consideração

CAPÍTULO IX

Os antigos Papas cuidavam antes das funções eclesiásticas que


das seculares, e não se devem abandonar temerariamente as
suas normas e exemplos

Mas, como assim? Que acontecerá se vos derdes todo a


esta sábia prática, que alguns dos vossos predecessores não
usaram? Parecera sem dúvida que tendes em vista contradize-
los. Hão de aplicar-vos o provérbio popular: Quem faz o que
ninguém há feito, a todos causa surpresa, - como se
aspirásseis a fazer-vos admirar. Sim, não vos é possível, ao
mesmo tempo e de repente, corrigir todos os defeitos e
reduzir a uma justa medida todos os excessos. Com o tempo,
podereis trabalhar nisso pouco a pouco e com êxito, mediante
a sabedoria que Deus vos deu. Entretanto, aproveitai-vos do
mal alheio para fazerdes todo o bem, que puderdes. Se
tomarmos o exemplo dos Papas mais piedosos, e não dos
modernos, muitos se nos deparam que, no meio de negócios
da máxima gravidade, encontraram tempo para cuidarem de
si. Estava Roma em perigo de ser sitiada; a espada dos
bárbaros ameaçava a cabeça dos cidadãos; mas apa- vorou-se
com isso o Papa São Gregório, e deixou de se aplicar a
interpelação das Sagradas Escrituras? Então mesmo, como se
vê do seu prefácio, comentou ele com exatidão e elegância, a
parte mais obscura e última de Ezequiel.
CAPÍTULO X

Declama contra os abusos e falsidades dos advogados,


juízes e procuradores.

Mas dizeis vós: admitimos que assim fosse no passado, os


nossos tempos porém são outros e diferentes os costumes dos
homens; os tempos perigosos não ameaçam apenas, já se
fazem sentir. Abundam os caluniadores e são raros os
defensores; por toda a parte os poderosos oprimem os mais
fracos; não pode- mos recusar auxílio aos perseguidos, nem
falar com a proteção da lei aos que sofrem injustiças. Ora, se
não se pleitearem as causas, se não se ouvirem as partes, -
como se poderá julgar dos direitos de cada um?
Discutam-se as causas, estou de acordo, mas proceda-se
como convém. O que se pratica é execrável e de todo o ponto
indigno, não digo somente da Igreja, mas até do próprio foro.
Quanto a mim, chego a admirar como é que os vossos
piedosos ouvidos podem suportar essas disputas dos
advogados, essas contestações de palavras, que são mais
próprias para subver- terem a verdade, do que para a
descobrirem. Dignai-vos, pois, corrigir esse costume
depravado; refreai essas línguas incon- tinentes; imponde
silêncio a essas garrulices artificiosas. Tais faladores só
intentam advogar a mentira, são eloquentes contra a justiça e
sábios a favor da falsidade. São arteiros para pratica- rem o
mal, e eloquentes para impugnarem a verdade. São esses que
procuram ensinar aqueles de quem deviam aprender; fazem
sobressair, não o que encontraram de verdade nos processos
das partes, mas as suas próprias invenções; forjam calúnias
contra a inocência, destroem a simplicidade da verdade e
fazem quanto possível para impedirem a equidade da
sentença. E, contudo,
nada há que tão facilmente manifeste a verdade, como uma
exposição breve e simples.
Muito desejara eu, pois, que em todas as causas que neces-
sariamente têm de ir à vossa presença (pois não é preciso
que todas vão), vos acostumeis a dar a decisão com rapidez,
cortando todas as demoras ilusórias e insidiosas a respeito de
muitas outras. Apresentam-vos causas de viúvas, de pobres,
de pessoas que não podem entrar em pleitos. Grande número
dessas causas podeis confiá-las a outros juízes, para que lhes
ponham termo; a respeito de muitas outras, que as julguem
improcedentes. Pois, para quê é necessário admitir a juízo
aque- les, cujos crimes são notórios? A audácia de muitos
chega a tal ponto que, embora nos seus litígios só revelem
uma ambição desenfreada, não se envergonham de solicitar
audiência, com- parecendo eles mesmos com escândalo de
muitos, em julga- mentos, onde o testemunho da sua própria
consciência bastaria para os confundir. À falta de quem lhes
castigasse a insolência, cresceram em audácia e mais se
endureceram. Nem sei como é que um vicioso não se esconde
dos outros viciosos: e onde todos são imundos não se sinta o
cheiro pestilencial de um só! Quem já viu, por exemplo, um
avaro envergonhar-se diante de outro avaro, um sujo diante
de outro sujo, um luxurioso diante de outro luxurioso? Esta
cheia de ambiciosos a Igreja, já não há quem se horrorize dos
artifícios e intrigas da ambição, como de uma quadrilha de
bandidos apostada a despojar os transeuntes!
São Bernardo de Claraval

CAPÍTULO XI

Devem ser punidos severamente os advogados e procuradores


que procuram auferir lucros da sua malícia.

Visto que sois discípulo de Cristo, inflamai o vosso zelo e


usai da vossa autoridade contra esta impudência, contra esta
peste universal. Atendei ao exemplo do vosso Mestre e
escutai o que vos diz (Jo 12, 26): Quem me servir, há de
seguir-me. Não aplica os ouvidos a escutar os traficantes;
empunha o azorrague para castigá-los. Não lhes fala, nem os
ouve, nem se assenta para julgá-los; mas persegue-os com o
castigo. Contudo decla- ra-lhes a causa,- é que fizeram da
casa de oração uma casa de negócio. Procedei, pois, de igual
modo. Se possível for, que os traficantes se envergonhem de
aparecer na vossa presença, ou, ao menos, que se aproximem
com temor. E pela vossa parte conservai o azorrague na mão:
que os banqueiros se arreceiem de vós; que não confiem no
seu dinheiro, antes desconfiem dele; que o escondam da
vossa presença, certos de que estais disposto a lançá-lo por
terra, em vez de o receberdes. Se fizer- des isto com zelo e
persistência, haveis de converter muitos desses famintos de
lucros vergonhosos, encaminhando-os para empregos mais
honestos, e preservareis muitos outros de se entregarem de
futuro a esse tráfico infame. A estas vantagens acresce outra
não pequena, que é a de encontrardes para vosso proveito o
vagar que vos persuado. Deste modo, com efeito, não vos
faltarão ocasiões para vos dardes a consideração. Tudo
depende, como disse, de recusardes audiência a certos
negócios, remeterdes outros para juízes da vossa confiança, e
os que jul- gardes dignos da vossa atenção resolvê-los de um
modo fiel e sumário, conforme a importância da causa. Ao
3
4
que tenho dito

3
5
Os Cinco livros da Consideração

sobre a consideração, mais alguma coisa intento ajuntar, mas


será no princípio do segundo livro. Ponho aqui termo a este,
para que o meu discurso, já de si pouco agradável, não se vos
torne duplamente oneroso pela demasiada extensão.
LIVRO SEGUNDO

CAPÍTULO I

Deplora os males do seu tempo e desenvolve uma


apologia contra os que murmuravam do mau êxito da
expedição à Terra Santa.

A
inda que tarde, santíssimo Papa Eugênio, venho cum-
prir a promessa, a que de há muito me obriguei para
convosco e que nunca esqueci. Sentiria vergonha da
demora, se a consciência me arguisse de negligência ou des-
prezo. Não é isso o que se dá; o que aconteceu, como sabeis,
foi que nos encontramos em tempos tão adversos, que
ameaça- vam cortar-nos o fio da vida e com mais razão ainda
fazer-nos interromper o estudo; o próprio Deus, provocado
pelos nossos pecados, parecia de certo modo ter julgado o
mundo antes do tempo, com justiça sem dúvida, mas
esquecido da sua miseri- córdia. Não poupou, nem ao seu
povo, nem ao seu nome. Não perguntam os gentios (Sl 113,
10): Onde está o seu Deus? Não é para admirar. Os filhos da
Igreja e os que têm o nome de cris- tãos pereceram no
deserto, ou ao fio da espada, ou consumidos pela fome.
Surgiram contendas entre os príncipes, e o Senhor permitiu
que eles se transviassem, em vez de seguirem o reto
São Bernardo de Claraval

caminho (Sl 106, 40). O que encontraram nos seus desvios


foi aflição e miséria (Sl 13, 3). Até nos palácios dos próprios
reis entrou o pavor, a tristeza e a confusão (Sl 104, 30). Que
envergonhados se sentiam os que evangelizavam a paz, os
que prediziam venturas (Is 62, 7)! Proclamamos a paz e não
há paz: prometemos um êxito feliz e eis a confusão.
Aconteceu como se houvéramos procedido nesta obra com
temeridade e precipitação. É certo, contudo que não
corremos às cegas, mas obedecemos às vossas ordens, ou
melhor às de Deus, por intermédio vosso. Porque razão, pois,
jejuamos e não consegui- mos um olhar favorável?
Humilhamo-nos, e Deus permaneceu inflexível? É que a sua
cólera em tudo isto subsiste; ainda a sua mão se conserva
levantada para castigar. No entanto, com que paciência ouve
as vozes sacrílegas e as blasfêmias dos que o acusam de os ter
tirado astuciosamente do Egito (Ex 32, 12), para os fazer
morrer no deserto! E na verdade, quem poderá ignorar que os
juízos de Deus são verdadeiros? São, porém, abismos tão
insondáveis, que julgo poder exclamar com razão: ditosos os
que não se escandalizarem com eles.
Como é, porém, que a temeridade humana ousa censurar o
que de nenhum modo pode compreender? Recordemos os juí-
zos divinos do passado, e bem pode ser que neles
encontremos consolação. De fato, Davi, (Sl 118, 52) diz
assim: Lembrei-
-me, Senhor, dos vossos juízos de há um século e fiquei
consolado. Falo de uma coisa que ninguém ignora, mas de
que ninguém se vale na situação presente. Pois é tal a índole
dos nossos corações que, de ordinário, ignoramos na
necessidade o que conhecemos fora dela. Para fazer sair o
povo da terra do Egito, prometeu-lhe Moisés uma terra
melhor (Ex 3, 8). Se assim o não fizera, como o seguiria
aquele povo, que só tinha apego à terra? Tirou-os do Egito
38
sim, mas não os introduziu na terra que lhes prometera.
Todavia esse fato triste e inesperado não se

39
Os Cinco livros da Consideração

pode imputar à temeridade do chefe, que obedecia em tudo às


ordens do Senhor. Era o Senhor quem lhe assistia, e
confirmava com muitos milagres a sua assistência. Mas,
direis vós, era de dura cerviz esse povo, sempre rebelde
contra o Senhor e seu servo Moisés. Bem, aqueles eram
incrédulos e rebeldes, mas que fazem estes? Interrogai-os.
Que preciso eu dizer que eles pró- prios não confessem? Uma
só coisa perguntarei: que progressos podia fazer gente que na
sua marcha sempre pensava em voltar para trás? Em todo o
seu caminho não volviam os hebreus o seu coração para o
Egito? Ora, se eles caíram e pereceram por causa da sua
iniquidade, havemos de espantar-nos de que os nossos
tivessem a mesma sorte, seguindo-lhes os passos? Mas, foram
porventura os seus desastres contrários às promessas que
Deus lhes havia feito? Não: portanto nem os dos nossos.
Nunca as promessas de Deus vão de encontro à justiça. Ouvi
outro exemplo sobre o mesmo assunto.
Pecou Benjamim ( Jz 20) e não foi sem permissão divina
que as outras tribos se coligaram para a vingança. O próprio
Deus designou depois o general aos que haviam de combater.
Pelejaram, pois, confiados não só nas suas forças, e na justiça
da sua causa, mas ainda mais na proteção divina. Mas quanto
Deus é terrível (Sl 65, 5) nos seus juízos sobre os filhos dos
homens! Os vingadores, sendo superiores em número, tive-
rem de fugir diante dos culpados, que eram menos
numerosos. Recorreram, porém, ao Senhor e obtiveram esta
resposta: Voltai à carga. Combateram de novo, e segunda vez
foram batidos e derrotados. Assim, homens justos entraram
numa guerra justa, primeiro com a assistência de Deus,
depois por sua ordem expressa, e sucumbiram. Mas tanto
foram fracos no combate, como se tornaram mais fortes na
fé! Como julgais vós que estes me teriam tratado, se os
houvesse movido a uma segunda expe- dição, em que de
novo ficassem vencidos? Como se prestariam
São Bernardo de Claraval

a escutar-me, se eu voltasse pela terceira vez a instá-los para


uma empresa, já primeira e segunda vez frustrada? E, todavia,
os israelistas, duas vezes contrariados nas suas esperanças,
não dei- xaram de obedecer terceira vez e saíram vitoriosos!
Mas dirão talvez estes: Como podemos nós saber que foi
Deus quem nos falou? Que milagres fazeis vós para que
demos crédito à vossa palavra? Não tenho que responder a
isto; a vergonha impõe me silêncio. Respondei por mim e por
vós, conforme o que tendes ouvido e observado, ou antes,
conforme Deus vos inspirar.
Estranhareis talvez que eu me tenha alargado neste ponto,
deixando de lado o que me havia proposto. Não foi por me
haver esquecido da minha resolução, mas intencionalmente,
porque não julgo que os dois assuntos sejam divergentes.
Lem- bro-me bem que falei a sua Santidade da consideração.
E este negócio é na verdade grave e carece de não pequena
considera- ção. Se é próprio das grandes coisas serem
consideradas pelos grandes homens, - a quem com mais
justiça do que a vós, que não tendes igual sobre a terra,
poderá competir este ofício? Mas vós procedereis a este
respeito segundo a sabedoria e poder que vos foi dado do
alto. Não pertence a minha humildade ditar-vos que uma
coisa deve ser feita deste modo ou daquele. Basta-me lembrar
vos que é ocasião oportuna para se fazer alguma coisa, que
console a Igreja e feche a boca aos maldizentes. O pouco que
estou dizendo reveste a forma de uma apologia, para que da
minha parte a tomeis tal qual é, e ambos nos justifiquemos -
vós com certeza - se não perante os que julgam dos
acontecimentos pelo seu êxito, ao menos perante a própria
consciência. A jus- tificação mais perfeita e absoluta é para
cada um o testemunho da própria consciência. Quanto a mim,
nada se me dá de ser julgado por quem ao mal chama bem e
ao bem mal, olhando a luz como trevas e as trevas como luz.
40
E, se é forçoso que uma das duas alternativas se dê, antes
quero que murmurem

41
Os Cinco livros da Consideração

contra mim do que contra Deus. Por ditoso me teria eu, se


Ele se dignasse tomar-me como um escudo. Para que a divina
Majestade não seja ofendida, de bom grado receberei as
calúnias dos maldizentes e os dardos envenenados dos
blasfemadores. Não recuso ser desprezado, para que a glória
de Deus não seja diminuída. Que felicidade a minha, se
pudesse gloriar-me nesta palavra: Cobriu-se de confusão o meu
rosto, porque sofri opróbrios por vossa causa (Sl 68, 8)! É
uma glória para mim tornar-me consorte com Cristo,
conforme aquela expressão (Sl 68, 10; Rm 15, 3): Caíram
sobre mim os opróbrios dos que vos injuriavam. Mas é tempo
de regressar ao assunto começado, e prosseguir nele, segando
o propósito feito.

CAPÍTULO II

Diferença entre a consideração e a contemplação.

Em primeiro lugar, dignai-vos fixar o que eu entendo por


consideração. Pois não intento atribuir-lhe em tudo o
conceito da contemplação, porque esta consiste antes na
certeza das coisas e aquela na inquirição delas. Nesse sentido,
pode a contemplação definir-se: uma intuição verdadeira e
certa do espírito sobre alguma coisa, ou a percepção certa e
não dúbia da verdade. Pela sua parte, a consideração é um
pensamento intenso aplicado a inquirição da verdade, ou a
intenção de investigá-la, ainda que muitas vezes se tomam
indiferentemente uma pela outra.
São Bernardo de Claraval

CAPÍTULO III

Quatro pontos a distinguir na consideração.

Agora, quanto ao objeto da consideração, quatro pontos se


vos oferecem, a meu ver: vós mesmo, o que esta abaixo de
vós, em redor de vós, acima de vós. Deve a consideração
começar por vós, para que a não estendais debalde às outras
coisas, deixando-vos a vós no esquecimento. Que aproveita
ao homem lucrar o mundo inteiro, se a si próprio se perde
(Mt 16, 26)?
E, se sois sábio, alguma coisa falta à vossa sabedoria,
desde que não o sejais para vosso proveito. Que falta então?
Tudo, no meu entender. Embora conheçais todos os mistérios,
a exten- são da terra, a altura do céu e a profundidade do mar,
se vos ignorardes, sereis semelhante ao que edifica sem
alicerces: fareis obra de ruína, não construireis. Quanto
construirdes fora de vós será como um montão de pó, exposto
aos ventos. Logo não é sábio quem não o é para si mesmo. O
verdadeiro sábio será sábio para si, e será o primeiro a beber
da nascente do seu poço. Por vós comece, pois, a
consideração, mas não comece somente, acabe também por
vós. Por qualquer parte que ela divague, a vós a deveis
revocar com fruto de salvação. Sede para vós o primeiro, sede
também o último. Tomai o exemplo do Pai supremo de todos
os homens, que retém o seu Verbo ao mesmo tempo que o
produz no exterior. Seja a consideração o vosso Verbo: se se
puser em movimento para alguma parte, que não se afaste de
vós; que parta de vós de tal modo, que não saia para fora de
vós; se sair, que não vos abandone. Em assegurar a salvação,
ninguém vos deve ser mais caro que o filho único da vossa
mãe. Nada penseis contra a própria salvação. Pouco disse
42
dizendo contra; devia ter dito além da salvação. Tudo quanto

43
Os Cinco livros da Consideração

se oferecer à vossa consideração, que de algum modo não se


ordene para a vossa salvação, deveis desprezá-lo.

CAPÍTULO IV

O conhecimento próprio compreende três considerações


diferentes. Aqui se trata da primeira parte da consideração.

Consta de três partes a consideração de vós mesmo: o que


sois, quem sois e qual sois. O que sois quanto à natureza;
quem sois quanto a pessoa, e qual sois quanto aos costumes.
Exem- plo: que sois vós? - Um homem. Que pessoa sois? -
Papa, ou sumo Pontífice. Qual sois? - Bondoso, manso, etc.
Ainda que a investigação daquele primeiro conhecimento
incumba antes a um filósofo que a um homem apostólico,
está, contudo, na definição de homem, que se chama animal
racional e mortal: é conhecimento que podeis aprofundar, se
vos aprouver. Nada há nele que repugne nem à vossa
profissão, nem à vossa dignidade; pelo contrário, pode
aproveitar-vos a salvação. Porquanto, se considerardes a um
tempo estas duas propriedades - racional e mortal - sem
dúvida tirareis como fruto que a condição de ser mortal
humilha o dote de racional, e por sua vez o ser racional
conforta a condição de mortal: o sábio não despreza nenhum
destes aspectos. Outras reflexões que neste lugar se podiam
fazer serão expostas abaixo, e talvez com mais vantagem, a
propósito das outras partes.
São Bernardo de Claraval

CAPÍTULO V

Segue-se a segunda parte da consideração:


Quem sois e de onde vindes?

Deveis considerar agora quem sois e de que sois feito.


Pelo que respeita, porém, a este último artigo - de que sois
feito
- julgo que o devo passar por alto e deixá-lo antes ao vosso
cuidado. Apenas uma coisa vos digo: que é indigno de vós
descurardes a perfeição, depois de a terdes atingido em alto
grau. Como não corardes de vergonha ao ver-vos na grandeza
mínimo, lembrando-vos de ter sido grande nas pequenas?
Não estais ainda esquecido da vossa primeira profissão:
fostes arran- cado a ela, mas não se vos escapou da memória,
nem mesmo do coração. Não vos será inútil tê-la presente aos
olhos, em todos os vossos mandamentos, juízos e propósitos.
Esta consideração há de levar-vos a desprezar as honras,
mesmo na posse delas. É nisto que assenta a verdadeira
grandeza. Oxalá que não se vos apague do coração, que vos
sirva de escudo e até de seta a seguinte sentença (Sl 48, 13 na
Vulgata): Estando o homem na honra, não o compreendeu.
Dizei, pois, a vós mesmo: Eu era abjeto na casa do meu Deus.
Que é isso - de pobre e abjeto ser exaltado acima das nações e
dos reinos? Quem sou eu, ou que casa é a de meu pai, para
que eu me assente no trono mais alto? Sem dúvida contava
com a minha amizade quem me disse: Meu amigo, subi mais
alto (Lc14, 10). É necessário que eu não seja encontrado em
falta. Quem me exaltou, pode destituir-me. Viria então fora
de tempo esta lamentação (Sl 101, 10): Tendo-me vós
alevantado, tornastes a abater-me. Não temos motivo para
nos gloriarmos de uma alta dignidade, quando ela nos obriga
44
a maiores precauções. Aquela atende sempre ao perigo em
que

45
Os Cinco livros da Consideração

se encontra; estas demonstram a fidelidade de um amigo.


Acau- telemo-nos, pois, se não queremos que por fim nos
degradem vergonhosamente para o último lugar.

CAPÍTULO VI

Os príncipes da Igreja devem atender menos ao domínio


que ao ministério, que lhes foi confiado.

Não podemos dissimular que crescemos em superioridade,


mas de todo o modo devemos atender ao fim para que isto
se fez. Entendo que não foi para dominarmos os outros. Pois
o profeta Jeremias (1, 10), tendo sido elevado de um modo
semelhante, ouviu uma voz que lhe dizia: é para que
arranques e destruas, arruínes e dissipes, edifiques e plantes.
Que há de faustoso nesta linguagem? Nela antes se exprime o
labor espiritual, pela semelhança de um camponês, a quem o
esforço do trabalho faz suar. Para termos, portanto, num justo
apreço a nossa supe- rioridade, devemos considerar que ela
nos foi dada antes para servirmos que para dominarmos os
outros. Não sou maior que o profeta e, embora o igualasse no
poder, nos merecimentos é que não poderia haver
comparação. Meditai convosco estas reflexões e ensinai-vos a
vós mesmo, vós que ensinais os outros. Imaginai-vos profeta,
ou como algum dos profetas. Será pouco para vós? Será até
demasiado. Mas, o que sois, é pela graça de Deus que o sois.
Como então? Admito que sois profeta, sereis ainda mais que
profeta? Manda o bom senso que vos contenteis com a
medida, com que Deus vos medir. O que é de mais, é mau.
Aprendei do exemplo do profeta a presidir, não tanto para
mostrardes autoridade, como para exercerdes a propósito os
vossos ministérios. Sabei que, para imitardes a obra do
profeta,
São Bernardo de Claraval

careceis do alvião e não do cetro. Foi ele chamado na verdade


não para reinar, mas para arrancar os vícios. E pensais vós
que nada tendes a fazer, no campo do vosso Senhor? Tendes,
e muito. Não puderam os profetas expurgá-lo de todo:
deixaram obra para os Apóstolos, seus filhos; estes, que são
vossos pais, deixaram-na para vós. Nem vós mesmo sois
bastante para ela. Com certeza haveis de legar alguma parte
ao vosso sucessor, ele a outros, e estes aos que se lhes
seguirem, até à consumação dos séculos. Chega enfim a
undécima hora, em que alguns operá- rios são arguidos de
preguiçosos e mandados para a vinha. Os Apóstolos, vossos
predecessores, ouviram que a seara é grande e os obreiros
poucos (Mt 9, 37; Lc 10, 2). Tomai posse da vossa herança
paterna. Visto que sois filho, sois tãmbém herdeiro (Gl 4, 6-
7). Para provardes que sois seu herdeiro, vigiai com cuidado,
não vos deixeis entorpecer na preguiça, para que não se vos
diga também (Mt 20, 6): Por que estais aqui todo o dia
ocioso?
Com melhoria de razão, deveis renunciar ao atrativo das
delícias e enlevo das pompas. Em nada vo-las autoriza o tes-
tamento paterno. Mas então que diz ele? Se vos conformardes
com as suas disposições, haveis de ver que herdastes antes
cui- dados e trabalhos, do que glória e riquezas. Agrada-vos o
trono? É alto, para vigiardes ao longe. Desse posto de
observação, ten- des que superintender, conforme o nome de
Bispo, que significa ofício de vigiar, e não de domínio. Para
que estais num lugar tão eminente, senão para vigiardes todos
os movimentos, como sentinela postada acima de tudo? Sem
dúvida, essa vigilância universal importa fadiga, não favorece
o ócio. Que complacên- cia, pois, podeis ter num lugar, em
que não vos é dado repousar? Nem o repouso vos é pacífico,
quando tendes a oprimir-vos o cuidado constante de todas as
igrejas. Pois que outra herança vos legou São Pedro? Dou-
46
vos o que tenho, diz ele (At 3, 6). Que dadiva é? Estou certo
de que não é ouro nem prata, porque ele

47
Os Cinco livros da Consideração

próprio diz: Eu não tenho ouro nem prata. Se se der o caso de


vós o terdes, não podeis gastá-lo a vosso arbítrio, mas
segundo as necessidades. Assim usareis como que não
usando dos bens, que a respeito da alma nem são bons nem
maus: o uso deles é bom, o abuso mau, a solicitude pior, a
avidez assaz vergonhosa. Podereis amontoar, pois, sob
qualquer outro pretexto, mas não fundado no direito
apostólico. Porque não podia ele dar-vos o que não possuía.
O que possuía, o deu como já disse: o cuidado das igrejas.
Mas também o domínio? Escutai-o: Não pretendemos dominar o
clero, diz ele, mas fomos constituídos modelo do rebanho (1 Pd
5, 3). E, para que não imagineis que isso foi dito mais por
humildade que segundo a verdade, a voz do Senhor se faz
ouvir no Evangelho (Lc 22, 25): Os reis gentios governam
com império, e os que entre eles exercem a autoridade chamam-
se gran- des. E conclui: Mas não seja assim entre vós. Não
resta dúvida, portanto, que o domínio é interdito aos
Apóstolos.
Seria, pois, audácia que vos abalançásseis a juntar quer o
domínio com o apostolado, quer o apostolado com o domínio.
Ambas essas alternativas vos estão de todo vedadas. Se
quisés- seis fazê-las valer, ficaríeis sem nenhuma. Por outro
lado, não vos julgueis excetuado do número daqueles de
quem o Senhor se queixa (Os 8, 4), dizendo: Eles próprios
reinaram, mas não por mim: sobressaíram no principado, mas
não com a minha aprovação. Se agora vos aprouver governar
sem Deus, tereis glória, mas não diante de Deus. Cientes
assim do que nos é interdito, vejamos em seguida o que nos é
preceituado (Lc 22, 26): O que entre vós é o maior, diz o
Senhor, torne-se como o mais pequeno, e o que preside como
o que serve. Eis a regra prescrita aos Apóstolos: é-lhes
proibido o domínio e ordenado o minis- tério. É o que o
exemplo do próprio Legislador lhes persuade, acrescentando:
Eu, pois, estou no meio de vós, como quem serve os outros.
Quem haverá de futuro que se despreze de um título, de
São Bernardo de Claraval

que o Senhor da glória foi o primeiro a honrar-se? Também


dele com razão se gloria São Paulo (II Cor 11, 23), dizendo:
São eles ministros de Cristo? Também eu. E ajunta: (como
menos sábio o digo), mais eu o sou: em muitíssimos trabalhos, em
mais cárceres, em açoites sem medida, em perigo de morte
muitas vezes. Ó ministério inefável! Que principado haverá tão
glorioso? Se quereis, pois, gloriar-vos, atendes a regra dos
santos, que vos é prescrita, e a glória dos Apóstolos, que vos
é proposta. Parecer-vos-á pouco? Quem haverá que me
outorgue uma glória como a dos santos? O Profeta-rei clama
(Sl 138, 17 da Vulgata): Quanto a mim, ó meu Deus, os vossos
amigos têm sido singularmente honrados, e o seu principado
bem fortalecido. Pela sua parte escreve o Apóstolo (Gl 6, 14):
Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor
Jesus Cristo.
O meu desejo constante é que vos glorieis nesta espécie de
excelsa glória, que os Apóstolos e os Profetas escolheram
para si e vos legaram em herança. Reconhecei a vossa
herança na cruz de Cristo e nos muitos trabalhos. Feliz o que
puder dizer (I Cor 15, 10): Trabalhei mais que todos os
outros. Glória é essa em que nada há nem de vão, nem de
fraco, nem de altaneiro. Se o trabalho apavora, a recompensa
infunde coragem. Receberá cada um conforme o seu trabalho.
Se aquele trabalhou mais que todos, nem por isso ultimou o
trabalho: ainda resta muito a fazer. Entrai no campo do vosso
Senhor e considerai, com diligência, quantos espinheiros e
silvas da antiga maldição ainda hoje lá subsistem. Entrai,
digo, no mundo, porque o mundo é o campo que vos foi
confiado. Entrai nele, não como Senhor, mas como
administrador; para verdes o que lá se passa e pordes em
ordem as coisas, de que haveis de dar conta. Digo-vos que
vades, mediante os esforços de uma vigilância e de um
cuidado instantes. Nem os próprios que receberam ordem
48
para irem por toda a terra, foram em pessoa, mas somente
pela providência

49
Os Cinco livros da Consideração

do seu espírito. Quanto a vós, erguei os olhos da consideração


e vede quantas regiões, em vez de loirejarem com a messe, se
mostram antes secas e aptas para o fogo. Como são
numerosas as que julgáveis abundantes em frutos e que,
examinadas de perto, só vos hão de mostrar sarças! Nem
sarças sequer, mas árvores velhas e quase apodrecidas, que só
poderão produzir talvez glandes ou bolotas para engordar
suínos. Até quando ocuparão elas a terra? Se acaso sairdes, e
demorardes nelas os vossos olhos, não vos envergonhareis de
ter tido o machado ocioso? Tereis então pesar de não
haverdes feito uso da foice apostólica que recebestes.
Era para esse campo que outrora tinha saído Isaac (Gn 24,
62), quando pela primeira vez o encontrou Rebeca, como diz
a Escritura: tinha saído para lá meditar. Saiu ele para
meditar; vós deveis ir para expurgá-lo. Vós já deveis estar
prevenido com a meditação: urge por mãos à obra. Já é tarde
para vos demorar- des a pensar o que haveis de fazer. Devíeis
ter-vos assentado, conforme o conselho do Salvador (Lc 14,
8), para em primeiro lugar considerardes a obra a
empreender, medirdes as vossas forças, ponderardes a
sabedoria que vos era necessária, fazerdes provisão de
merecimentos, e deitardes balanço às vossas virtu- des.
Coragem, pois, pensai que o tempo do trabalho é chegado,
- se o da consideração precedeu. Se já movestes o coração,
deveis mover agora a língua e os braços. Cingi a vossa
espada, a espada espiritual, que é a palavra de Deus (Ef 6,
11): ponde a glória da vossa mão e do vosso braço direito em
exercerdes a justiça sobre as nações, em corrigirdes os povos,
reduzirdes os reis a obediência e encadeardes a sua nobreza
irrequieta. Se isto fizer, honrareis o vosso ministério e a vós
mesmo como bom ministro.
Não é um principado de pouca monta o vosso. Obriga-vos
a expulsar dos vossos territórios as bestas ferozes, para que
São Bernardo de Claraval

os vossos rebanhos vivam seguros nos seus pascigos. Deveis


domesticar os lobos, mas não dominar as ovelhas. Foram-vos
confiadas para as apascentardes, não para as oprimirdes. Se
bem considerardes quem sois, não ignorareis que estais
sujeito a estes deveres. Ora, desde que sabeis e não fazeis,
sois réu de pecado (Tg 4, 17). Ainda vos lembrais de ter lido:
O servo, que conhece a vontade do seu senhor e não a cumpre,
será punido com rigoroso castigo (Lc 12, 47); era o que
praticavam os Profetas e os Apóstolos. Eram fortes na luta,
não moles no meio das sedas. Se sois filho dos Apóstolos e
dos Profetas, imitai-os. Demonstrai a nobreza da vossa raça,
pela semelhança da vossa conduta, porque de nenhuma outra
origem deriva a excelência dela, senão da pureza de
costumes e do vigor da fé. Foi pela fé que eles triunfaram dos
reinos, praticaram a justiça e conseguiram as recompensas
prometidas (Hb 11).
Tal é o testamento da vossa herança paterna, que abrimos
na vossa presença, para que vejais a parte que vos cabe.
Revesti-vos de coragem e ficareis herdeiro. Possui a fé, possui
a piedade, possui a sabedoria, mas a sabedoria dos santos -
que é o temor de Deus - e tereis entrado de posse da vossa
herança. Tereis, sem nenhum detrimento, o vosso patrimônio
inteiro: é a virtude um fundo preciosíssimo. Bom fundo é a
humildade: todo o edifício espiritual, que sobre ela se
constrói, cresce mais e mais, até se converter em templo
santo, que o Senhor habita. Por meio dela estenderam alguns
as suas conquistas até as portas dos seus inimigos. Pois, que
outra virtude poderá como ela debelar a soberba dos
demônios e a tirania dos homens? Sendo, porém, para todas
as pessoas em geral, um forte baluarte contra os ini- migos,
mostra ela - não sei o porquê - maior força nos maiores
homens o maior esplendor nos mais ilustres. Para ornamento,
sobre tudo do Sumo Pontífice, nenhuma pedra preciosa mais
50
brilhante se pode encontrar. Quanto mais ele excede aos
outros

51
Os Cinco livros da Consideração

homens, tanto mais pela humildade se toma mais ilustre e se


alevanta acima de si mesmo.

CAPÍTULO VII

Volta a examinar com mais


cuidado a primeira pergunta -
quem sois?

Perecerá talvez digno de reparo que, sem vos haver


explicado bastante a primeira parte, como que distraído, eu
passasse à segunda, começando a mostrar-vos qual deveis
ser, antes de vos representar por completo - quem sois.
Afigura-se-me que, por ter vergonha de expor num lugar
muito elevado um homem desnudado, me apressei a cobri-lo
com os seus mais belos ves- tidos. De fato, sem eles,
pareceríeis tanto mais disforme, quanto mais ilustre. Pode
porventura encobrir-se a desolação de uma cidade assente
sobre um monte, ou deixar de se ver o fumo de uma lâmpada
extinta sobre um candelabro? Um bugio num teto é como um
rei insensato num trono. Escutai, pois, o que vos digo, na
certeza de que vos é salutar, embora não vos agrade. Coisa
monstruosa é uma dignidade suma e um espírito ínfimo: a
primeira sede, e a última conduta; língua sublime e mão
ociosa; discursar fluente e nenhum fruto; rosto grave e
ações levianas; autoridade suprema e decisão vacilante. Eis o
espelho diante de vós: que o rosto reconheça nele a má
fealdade; alegrai-vos de ser o vosso isento de tais defeitos.
Todavia não deixeis de vos examinar a ele: é possível que, a
par de coisas que com razão vos deem gosto, outras vejais
que vos devam desagradar. Quero que vos glorieis do bom
testemunho da vossa consciência, mas não desejo menos que
por ele vos humilheis. É de rara aplicação a palavra: A minha
consciência de nada me
São Bernardo de Claraval

acusa (I Cor 4, 4). Caminhais com bastante precaução no


bem, quando o mal não vos é desconhecido. Por isso mesmo,
como já disse, procurai conhecer-vos, para que no meio das
angústias que não vos abandonam, gozeis da boa consciência.
Isto ainda mais para regressar ao ponto de que há pouco nos
afastamos.

CAPÍTULO VIII

Da alta dignidade e poder do Pontífice.

Vamos, indaguemos ainda com mais diligência quem sois


e que pessoa representais hoje, na Igreja de Deus. Quem sois
vós? O grande sacerdote, o sumo Pontífice. Sois o príncipe
dos Bispos, o herdeiro dos Apóstolos; tendes o primado de
Abel, o governo de Noé, o patriarcado de Abraão, a ordem de
Mel- quisedeque, a dignidade de Aarão, a autoridade de
Moisés, o tribunal de Samuel, o poder de Pedro, a unção de
Jesus Cristo. Sois aquele a quem foram dadas as chaves, a
quem foram con- fiadas as ovelhas. Há de fato outros
porteiros do Céu e outros pastores de rebanhos, mas vós
herdastes o nome de ambos esses títulos, tanto mais
gloriosamente, quanto mais alteado vos encontrais acima dos
outros, Eles têm rebanhos, que lhes estão respectivamente
designados em particular; vós sois um só, e estão-vos
confiados todos os rebanhos, em geral. E não sois apenas
pastor das ovelhas, mas pastor único de todos os pastores.
Quereis que vos diga de onde deduzo a prova disto? Da
palavra do próprio Senhor. Pois a qual outro - não digo dos
Bispos, mas nem mesmo dos Apóstolos - foram confiadas
todas as ovelhas de um modo tão absoluto e indistinto? - Se

52
me amas, Pedro, apascenta as minhas ovelhas (Jo 21, 15).
Quais?

53
Os Cinco livros da Consideração

Os povos de uma certa cidade, de uma região, de um reino?


As minhas ovelhas, diz Ele. Para quem não será manifesto,
que não designou algumas em particular, antes as quis
abranger todas? Nada aí se excetua, nada aí se distingue. E
estavam talvez pre- sentes os restantes apóstolos, quando Ele
encarregou a um só esta comissão; assim recomendava a
todos a unidade num só rebanho e num só pastor, conforme
as seguintes palavras: A minha pomba, a minha formosa, a
minha perfeita (Ct 6, 9).
Onde está a unidade, esta a perfeição; os outros números
não têm a perfeição, mas sim a divisão, por se afastarem da
unidade. Como os outros apóstolos conheciam este Mistério,
cada um aceitou o povo, que lhe caíra em sorte. Até São
Tiago, que parecia ser a coluna da Igreja (Gl 2, 9), se
contentou só com Jerusalém, deixando a Pedro a
universalidade. E bom foi que São Tiago fosse estabelecido
bispo onde Jesus Cristo tinha sido morto, para ser o amparo
da família de seu irmão defunto, porque ele era chamado o
irmão do Senhor. À morte, porém, do irmão do Senhor, qual
dentre os outros se arrogou a prer- rogativa de Pedro?
Portanto, à face dos cânones, os outros foram chamados a
participar dos cuidados pastorais; vós tendes a plenitude do
poder. O poder dos outros está confinado em certos limites;
o vosso estende-se a esses mesmos que receberam autoridade
sobre alguns subalternos. Na verdade, se as circunstâncias o
exigirem, não podeis vós fechar o Céu a um bispo, depô-lo do
episcopado e até entregá-lo a Satanás? Permanece, pois, ina-
balável o vosso privilégio, tanto a respeito das chaves que vos
foram dadas, como das ovelhas que tendes de pastorear.
Eis outro exemplo que não confirma menos a vossa prer-
rogativa. Estavam alguns discípulos no mar, e o Senhor
apare- ceu-lhes na praia ressuscitado, de modo a enchê-los de
alegria. Apenas Pedro soube que era o Senhor, atirou-se ao
mar e assim
São Bernardo de Claraval

veio para Ele, antecipando-se aos outros, que vieram na


barca. O que era isso? Certamente um testemunho do
pontificado singular de Pedro, pelo qual recebeu, não como
cada um dos outros, o governo de uma só barca, mas o
governo universal de todo o mundo. Porque o mar dá a
entender o mundo todo: as barcas significam cada uma das
igrejas. Por isso mesmo também, caminhando Pedro de outra
vez sobre as ondas, a semelhança do Senhor, deu a conhecer
que era o único vigário de Jesus Cristo, que havia de presidir,
não a um povo em particular, mas a todos os povos. Assim se
diz no Apocalipse (17, 15): muitas águas, muitos povos. Ao
passo, pois, que cada um dos outros tem a sua barca
particular, a vós foi-vos confiada uma de enormes dimensões,
que é a Igreja universal, composta de todas as outras e
difundida por toda a terra.

CAPÍTULO IX

Quanto importa em especial a consideração da própria


natureza, como guia da modéstia e de todas as virtudes.

Vimos quem sois. Mas não esqueçais também o que sois.


Quanto a mim, não me esqueci da promessa que fiz de voltar
a este ponto, na primeira ocasião. E quão favorável se vos
depara ela agora para ajuntardes, à consideração de quem sois
ao pre- sente, a do que éreis antes! Que digo, - éreis? E sois
ainda agora. Pois, deixastes acaso de considerar o que não
deixastes de ser? Na realidade, a consideração do que fostes e
do que sois é uma só, muito embora quanto à pessoa sejais
agora diferente do que éreis. Não convém que no exame de
vós mesmo uma coisa exclua a outra. Porquanto, como venho
dizendo, ainda sois o que éreis: e não sois menos, antes talvez
54
mais, com o que vos

55
Os Cinco livros da Consideração

tomastes depois. Numa palavra, por nascimento tendes


aquilo; de empréstimo tomastes isto, não vos demudastes
nisto. Não foi eliminado aquilo, foi acrescentado isto.
Tratemos de ambas as coisas ao mesmo tempo, porque me
lembro de ter dito que, postas em confronto, se hão de tornar
mais úteis.
Como já disse acima, ao considerardes o que sois, logo se
vos apresenta a natureza, pela qual sois homem, porque de
fato nascestes homem. Mas a quem perguntar quem sois,
responde-se com o nome da pessoa, que é o de Bispo: fostes
feito Bispo, não nascestes tal. Qual destas duas coisas vos
parece mais propria- mente vossa e que vos pertença de um
modo mais particular?
- O que vos tornastes, ou o que sois por natureza? Não é o
que sois de nascimento? Aconselho-vos, pois que, de
preferência, considereis o que principalmente sois, isto é
homem, porque homem nascestes.
Se não quereis perder o fruto e utilidade da vossa consi-
deração, necessário é que considereis não só o que sois por
natureza, mas também qual nascestes. Agora, pois, despojai-
vos desses hábitos hereditários, que foram amaldiçoados
desde o princípio do mundo. Rasgai o invólucro desses
refolhos que escondem a vossa ignomínia e não curam as
vossas chagas. Quebrai o encanto dessa honra fugitiva e do
falso brilho dessa glória enganosa, para considerardes
nuamente a vossa nudez, porque saístes nu do ventre da
vossa mãe (Jó 1, 21). Saístes por- ventura de mitra?
Constelado de diamantes, coberto de sedas, coroado de
plumas, ou enriquecido de metais preciosos? Desde que, à luz
da consideração, dissipardes e expungirdes todas essas coisas,
que passam velozes como nevoeiros matutinos, e num
instante se desvanecem, vereis que sois um homem nu, pobre,
miserável e digno de lástima: um homem que tem pesar de
ser homem, que se envergonha da sua nudez, que se lamenta
de ter nascido, que se queixa de estar no mundo. Nasceu o
homem
São Bernardo de Claraval

para o trabalho ( Jó 5, 7), não para a honra. O homem nasceu


da mulher e por isso manchado de crime; vive pouco tempo, e
ainda assim com temor, repleto de muitas misérias ( Jó 14,
1), e por isso em lágrimas sempre. Com verdade se há de
dizer que são muitas as suas misérias, porque abrangem ao
mesmo tempo o corpo e a alma. De fato, que parte do seu ser
estará isenta de misérias, tendo ele nascido no pecado, sendo
frágil no corpo e estéril na alma?
Verdade é, pois, que se acha repleto delas, visto quo a
enfer- midade do corpo e loucura do coração são ainda
agravadas com a impureza hereditária e com a sujeição à
morte. Ser-vos-á salutar que considereis a um tempo estas
duas coisas: que sois Sumo Pontífice e que tendes sido e sois
ainda um pó vilíssimo. É necessário que na vossa
consideração imiteis a natureza, ou melhor ainda, o Autor da
natureza, associando o mais alto com o mais baixo. Não é
verdade que a natureza uniu na pessoa do homem o sopro
vital com o barro vil? Procedei assim: tomai o modelo tanto
da obra da nossa criação, como do mistério da nossa
redenção, para que, assentado acima de todos, não vos
exalteis no vosso espírito, antes vos abatais e conserveis em
sentimentos humildes.

CAPÍTULO X

Terceira parte da consideração, - qual sois?

Se considerastes quanto sois grande, não deixeis de con-


siderar também, e até de preferência, qual sois. Por certo esta
consideração vos reterá em vós mesmo; não permitirá nem
que vos afasteis para longe de vós, nem que vos exalteis em
sonhos de grandeza e excelência. Permanecei em vós. Não
56
desçais, não

57
Os Cinco livros da Consideração

vos eleveis; não vades nem ao longe nem ao largo. Conservai


o meio termo, se não quereis perder a justa medida. No meio
termo é que está a segurança. Esse meio é a sede da justa
medida e esta é a virtude. O sábio olha como exílio toda a
mansão que está fora do justo meio. Por isso não quer ele
demorar nem no longo, que esta além do justo meio, nem no
alto ou no profundo, dos quais um se eleva e outro rasteja.
Enfim, acontece de ordi- nário que o comprimento excede os
limites, a dilatação sofre partilha, a altura precede a ruína e a
profundidade se avizinha do abismo.
Vou explicar-me com mais clareza, para que saibais que
não quero falar aqui da longitude, largura, altura e
profundidade que o Apóstolo (Ef 3, 18) nos exorta a
compreender com todos os santos, e cujo tratado reservo
para outra ocasião (Liv. 5, cap. 13 e 14). Por longo, quero
aqui significar que o homem não se prometa uma vida assaz
longa. Por largo, que o espírito não se dê a cuidados
supérfluos. Por alto, que não presuma demasiado de si. Por
profundo, que não se deixe cair no desânimo. Não será,
portanto, verdade que quem se promete uma vida longa enve-
reda por um caminho de extermínio, ultrapassando os limites
da vida por cuidados excessivos? Daí resulta que os homens,
esquecidos de si mesmos e de viverem ao presente como em
um exílio, se afadigam em conseguir outras posições, que ou
não lhes hão de aproveitar, ou nem mesmo passarão de um
sonho. De um modo semelhante, forçoso é que o espírito se
veja assaltado de cuidados, desde que se aplique a muitas
coisas. Com efeito, a demasiada extensão produz a
extenuação, e a nímia extenuação aflige pela divisão. Pelo
que respeita agora a quem se acha alcandorado numa alta
presunção, - que lhe falta para se precipitar numa pavorosa
ruína? Assim lestes (Pr 18, 12): Exalta-se o coração diante
da sua ruína. Ao inverso, o que é o desalento numa alma,
demasiado tímida, senão o caminho
São Bernardo de Claraval

direito para o abismo da desesperação? Quem é corajoso não


sucumbe a esta tentação. O homem prudente não se confia às
incertezas de uma vida longa. O temperante regulará os seus
cuidados: nem se excedera nas coisas supérfluas, nem se pri-
vará das necessárias. O justo não presumirá de si demasiado,
antes dirá com o justo ( Jó 10, 15): Se eu for justo, não
erguerei a cabeça.

CAPÍTULO XI

Recomenda ao Papa que se examine a sério.

Necessário é, pois que, em vos considerardes a vós


mesmo, procedais com cautela e plena equidade, para nada
vos atri- buirdes além da verdade, e a nada vos poupardes
mais do que é justo. Ora, é atribuir-vos mais do que a verdade
permite, não só arrogar-vos o bem que não tendes, mas ter-
vos como senhor do que só tendes por empréstimo. Cuidai,
pois, de discernir bem qual sois de vós mesmo e qual sois por
dom de Deus, e não vos iludais. Só fareis uma partilha fiel,
quando tomardes para vós o que é vosso, e sem fraude derdes
a Deus o que é de Deus. Estais por certo persuadido de que o
mal procede de vós e o bem de Deus. No entanto, ao
considerardes qual sois, não deixeis de recordar também qual
tendes sido. Deveis comparar os primeiros tempos da vossa
vida com os últimos. Assim vereis se tendes aproveitado na
virtude, na sabedoria, na inteligência, na doçura de costumes,
ou se acaso - o que Deus não permita
- tendes perdido.
Importa-vos saber se sois mais sofredor ou mais
impaciente que de costume, mais colérico ou mais doce,
58
mais soberbo

59
Os Cinco livros da Consideração

ou mais humilde, mais afável ou mais severo, mais tratável


ou mais difícil, mais cobarde ou mais corajoso, mais sério ou
mais leviano, mais cauteloso ou talvez mais ousado do que
convém. Que vasto campo neste particular se oferece a vossa
consideração! Lembro-vos estas poucas coisas, a maneira de
uma semente, que eu próprio não semeio, mas vos apresento
para que a semeeis. Importa-vos conhecer o vosso zelo, a
vossa clemência e a vossa discrição, - reguladora destas
virtudes: qual haveis sido em perdoardes as injúrias; qual
haveis sido em as vingardes; e o cuidado que tendes posto
num e noutro caso, em observardes a justa medida, o tempo e
o lugar. Estas três condições de todo o ponto se devem
guardar na prática destas virtudes, que deixariam de o ser,
desde que ultrapassassem os limites estabelecidos. Pois não é
a natureza, mas a prática que lhes da o caráter de virtudes. De
si mesmas, é claro que são indiferentes. Em vós esta fazê-las
vícios pelo abuso e confusão, ou torná-las virtudes pela boa
ordem e uso legitimo. Por vezes acontece que, obscurecendo-
se o olho da discrição, uma usurpa o lugar da outra e lhe
invade os limites. Duas são as causas desse obscurecimento: a
cólera e a moleza do coração. Esta enerva a decisão do
julgamento, aquela precipita-a. De que modo então a piedade
da clemência e a retidão do zelo deixarão de estar em perigo
de um dos dois lados? Um olhar perturbado pela cólera nada
vê com clemência; um espírito, imbuído de uma moleza
covarde e efeminada, nada vê com retidão. Não sereis
inocente se punirdes quem talvez deve ser perdoado; também
não o sereis se perdoardes a quem deve ser punido.
São Bernardo de Claraval

CAPÍTULO XII

Ninguém se deve exaltar demasiado na prosperidade,


nem baixar ao extremo na adversidade.

Desejo também que não dissimuleis como é que vos


encon- trais no tempo das tribulações. Se sois constante nas
contra- riedades próprias, e compassivo com as alheias, então
alegrai-
-vos. É isto próprio de um coração reto; ao contrário, mostrar
impaciência nas misérias próprias e não ter compaixão das
do próximo é próprio de um coração mui perverso. Que pen-
sais vós da prosperidade? Nada há nela que demande a vossa
consideração? Há, sem dúvida, se considerardes atentamente
quão raras são as pessoas, que na prosperidade não se tenham
relaxado do resguardo e zelo da sua perfeição.
Quantas vezes, para a vida dos incautos, a prosperidade
tem sido como o fogo para a cera, como os raios do sol para a
neve e para o gelo? Sábio era Davi, mais sábio ainda
Salomão, e, contudo, as demasiadas carícias da boa sorte
perverteram-lhes o juízo: ao primeiro em parte e ao segundo
por completo. É grande aquele que, a braços com a
adversidade, nada perde da sua sabedoria. Não é menor o que
não se desvanece com a felicidade que lhe sorri. É mais fácil
até encontrar pessoas que tenham conservado a sua sabedoria
na adversidade, do que outras que não a tenham perdido na
prosperidade. É princi- palmente grande aquele que na
prosperidade não deixa trans- parecer nem uma alegria mais
desabrida, nem uma linguagem mais insolente, nem um
cuidado excessivo no vestido e sustento do corpo.

60
Os Cinco livros da Consideração

CAPITULO XIII

Exorta o Pontífice a fugir do ócio, de ninharias


e conversas inúteis.

Ainda que o Sábio (Eclo 38, 25) aconselha com razão que
da sabedoria se escreva num tempo de repouso, é necessário,
contudo, que nos acautelemos do ócio, no próprio repouso.
Deve-se evitar, pois, a ociosidade, que é mãe das frivolidades
e madrasta das virtudes. Os gracejos que entre os seculares
são facecias, na boca dos sacerdotes tornam-se blasfêmias.
Deve- rão talvez sofrer-se, se alguém incidir neles, mas
reproduzi-los nunca.
O que mais convém é preveni-los com cautela e prudên-
cia. Encaminhe-se a conversa para coisas sérias, não só úteis,
mas que agradem aos ouvintes e fechem a boca aos ociosos.
Consagrastes a vossa boca ao Evangelho: abri-la agora a tais
desmandos seria ilícito; acostumá-la a eles seria um
sacrilégio! Os lábios do sacerdote (Ml 2, 7), são os guardas
da ciência, e da sua boca procuram os outros ouvir a lei, não
com certeza cho- carrices ou fábulas. Nem basta que a vossa
boca seja estranha a esses gracejos, que se inculcam como
ditos espirituosos de bom gosto, é necessário que não vos
presteis a ouvi-los. Seria vergonhoso que soltásseis
gargalhadas a essas inconveniências, mais vergonhoso ainda
que as provocásseis. Pelo que toca ao detrator e ao que escuta
a detração, sinto-me embaraçado para dizer qual dos dois é
mais criminoso.
São Bernardo de Claraval

CAPÍTULO XIV

É necessário acima de tudo, no julgamento das causas,


não fazer aceitação de pessoas.

Com respeito à avareza, não tenho que cansar-vos a


atenção, porque é sabido que não fazeis mais caso do
dinheiro que de uma palha. Nada absolutamente há que
temer, desse lado, nas vossas sentenças. Mas há outro vício
que não ocorre menos vezes, nem costuma armar aos juízes
emboscadas me nos peri- gosas, e que eu não quero que
subsista oculto na vossa cons- ciência. Perguntais-me qual é?
A aceitação de pessoas. Não vos julgueis réu de pequena
responsabilidade, se nos vossos juízos considerardes antes a
pessoas dos culpados, que as suas obras. Há ainda outro vício
que, se não existe em vós, me leva a crer que sois único
entre todos os juízes, que tenho conhecido, porque então
verdadeira e singularmente, como diz Jeremias (Lm 3), vos
elevastes acima de vós mesmo: é crer de leve. Nunca
encontrei nem um só dos grandes homens, que estivesse bas-
tante precavido contra as astúcias desta refinada raposinha.
Dali tantos arrebatamentos por um nada, tantas condenações
injustas, tantos prejuízos contra ausentes. Felicito-vos (pois
não receio ser olhado por vós como adulador), felicito-vos,
digo, por terdes até ao presente administrado a justiça sem
queixumes dos súditos; se também sem nenhuma culpa vossa,
a vós pertence sabê-lo. Por agora, deve a vossa consideração
aplicar-se ao que vos vai ser proposto. Mas será isto assunto
para começar outro livro, que deve ser bastante resumido por
causa das vossas ocupações.

62
LIVRO TERCEIRO
CAPÍTULO I

É ofício do Pontífice procurar não tanto que todos


se sujeitem ao seu domínio, como fazer quanto
possível
para que todos entrem no grêmio da Igreja.

O
final do livro anterior deve ser o principio deste. Por-
tanto, segundo a promessa que lá vos fiz, deveis con-
siderar as coisas que tendes diante dos olhos. Não é
necessário que me pergunteis quais são, com mais razão
talvez, ó Eugênio, augusto sacerdote, me perguntaríeis quais
não são. Teria de sair do mundo quem quisesse explorar
algumas que não pertençam ao vosso cuidado. Os vossos
antepassados não se propuseram a conquista de algumas
nações, mas a do mundo inteiro. Foi-lhes dito: Ide por toda a
terra (Mc 16, 15). Eles pela sua parte, vendidas as suas
túnicas, compraram espadas, isto é, imbuíram-se de uma
eloquência de fogo e de um espírito ardente, que são as
grandes armas de Deus. E até onde não chegaram esses
vencedores ilustres, filhos de conquistadores (Sl 126, 5)? Até
onde não penetraram as setas do valoroso, aceradas com
carvões devoradores (Sl 119, 4)? E de fato a voz deles fez eco
por toda a terra, as suas palavras chegaram até aos confins do
mundo
São Bernardo de Claraval

(Sl 18, 5). Essas palavras inflamadas, que o Senhor mandou a


terra (Lc 12, 49), penetravam e abrasavam. Aqueles generais
sempre intrépidos caíam, mas não sucumbiam: até depois de
mortos triunfavam. Foi fortalecido em demasia o seu principado
(Sl 138, 17 na Vulgata); foram constituídos príncipes em
toda a terra (Sl 44, 17 na Vulgata).
Sois vós sucessor deles na herança. De tal modo herdeiro,
que tendes como herança o mundo. Mas até que ponto esta
herança vos pertença a vós, ou lhes tenha pertencido a eles, é
o que agora convém examinar com exata consideração. Pois,
quanto a mim, não entendo que vos tenha sido dado sobre ela
um poder absoluto, mas que só vos foi confiada uma
administra- ção salutar. Se quisésseis usurpar esse poder,
irieis de encontro Àquele que diz (Sl 49, 12): Toda a
redondeza da terra é minha, e toda a sua plenitude. Não é de
vós que o Profeta-rei (Sl 103, 4) diz: E toda a terra será
possessão sua. É Jesus Cristo, que a possui não só pelo
direito da criação e pelo mérito da Redenção, mas também
por doação de seu Pai. Pois, a qual outro foi dito (Sl 2, 8):
Pede-me, e dar-te-ei as nações para tua herança e os confins do
universo para tua possessão? Deixai-lhe, portanto, a posse e
o domínio, e contentai-vos com o cuidado vigilante. É esta a
vossa parte, não estendais a mão para além.
- Mas que dizeis? Não me negais o direito de presidir, e
contestais-me o de dominar? É exatamente. Demonstro assim
que estar à frente por um cuidado vigilante, não é presidir em
absoluto.
Por ventura não está uma casa dependente do caseiro, e
não está um inferior sujeito ao seu superior? Todavia, nem o
caseiro é senhor da casa, nem o superior tem poder absoluto
sobre o seu subordinado. Assim, vós presidis ao mundo para
prover- des as suas necessidades, para o aconselhardes,
favorecerdes e conservardes. Presides, para lhe serdes útil,
64
presides como servo

65
Os Cinco livros da Consideração

fiel e prudente que o Senhor estabeleceu sobre a sua família.


Para que? Para lhe dardes o alimento no tempo devido (Mt
24). Quer dizer, para governardes, mas não para dominardes
com impé- rio. Procedei, pois, assim e não procureis dominar
os homens, sendo homem como eles, para que não venha a
dominar-vos o cúmulo da injustiça. Mas sobre este ponto já
disse bastante acima, ao discutir quem sois. Aqui, pois, só
ajuntarei isto: que não há veneno nem arma que tanto devais
temer como a paixão de dominar. Se não vos quereis enganar
muito, tende como certo que não recebestes mais que os
grandes Apóstolos, por maiores que sejam os bens que vos
atribuais.
Lembrai-vos agora destas palavras de Paulo (Rm 1, 14):
Sou devedor aos sábios e aos loucos. E, se entenderdes que
elas vos são aplicáveis, não esqueçais que o molesto nome de
devedor convém mais a quem serve, que a quem domina.
Escutai o servo do Evangelho (Lc 16, 5): Quanto deves ao
meu Senhor? Logo, se vos reconheceis, não como dominador,
mas como devedor, tanto aos sábios como aos loucos, deveis
empenhar todos os esforços e exercer a máxima vigilância,
para que os que não são sábios se tornem tais, e os que se
acham pervertidos volvam a melhores sentimentos. De todas
as loucuras, porém, nenhuma há, se assim me posso
expressar, tão extravagante como a infi- delidade. Também,
portanto, sois devedor aos infiéis, aos Judeus, aos Gregos o
aos Gentios.
É por consequência do vosso dever empregar todos os
esfor- ços, para que os incrédulos se convertam a fé; os
conversos não se transviem, os transviados sejam
reconduzidos; os perversos entrem no reto caminho; os
desgarrados voltem à verdade; os dogmatizantes sejam
convencidos com razões invencíveis, para que se convertam,
se possível for, ou no caso contrário percam a autoridade e
prestígio para seduzirem os outros. Há principalmente uma
espécie de insensatos perversos, que de
São Bernardo de Claraval

nenhum modo deveis descurar. Quero referir-me aos


heréticos e cismáticos, que são corruptos e corruptores:
mordem como cães e são manhosos como raposas. São esses,
digo, que vos devem merecer o máximo cuidado, quer para os
corrigirdes, a fim de não perecerem; quer para os reprimirdes,
a fim de não serem a ruína dos outros.
Quanto aos Judeus, concordo que o tempo vos escusa de
cuidar deles: têm o seu tempo próprio, que não se pode ante-
cipar. O que convém é prevenir a conversão dos gentios. Mas
a respeito dos gentios, que respondeis vós? Ou melhor, que
responde à vossa pergunta a vossa consideração? Como,
pensa- ram os nossos pais em por limite ao Evangelho, em
suspender a pregação da fé enquanto a infidelidade subsiste?
Com que razão julgamos nós deter essa palavra que corre
com tanta velocidade (Sl 147, 4)? Quem será o primeiro a
interromper esse curso tão salutar? É possível que alguma
causa ou necessidade, de nós desconhecida, a isso tenha
obstado.
Quanto a nós, porém, que razão temos para dissimular esse
ponto? Com que segurança de consciência podemos deixar de
oferecer Jesus Cristo aos que não o têm? Não será isto reter a
verdade de Deus na injustiça? Deve sem dúvida chegar algum
dia a conversão dos gentios. Esperamos que a fé venha
alumiá-
-los. Mas onde já se viu que alguém cresse por acaso? Como
acreditarão sem se lhes pregar (Rm 10, 14)? Pedro foi
enviado a Cornélio (At 10), Filipe a Eunuco (At 8); e, se
queremos um exemplo mais recente, Agostinho foi
destinado por São Gregório para dar a regra da fé aos
Ingleses.
Eis o que, acerca dos infiéis, pode ser objeto da vossa
consi- deração. Tenho também que referir-me a pertinácia dos
Gregos, que estão e não estão conosco: estão unidos a nós
66
pela fé e separados pelo cisma. Ainda mesmo quanto à fé, se
acham trans- viado do reto caminho. E também se pode dizer
que a heresia,

67
Os Cinco livros da Consideração

que quase por toda a parte serpeia entre alguns, às ocultas,


exerce o seu furor às claras, pois a cada passo o publicamente
se apressam a devorar os filhos da Igreja. Perguntais-me
acaso onde é que isto acontece? Bem o sabem e vos podem
informar os encarregados, que muitas vezes enviais a visitar
as regiões do sul. Vão e voltam pelo meio deles, passam perto
do seu país, mas o que ainda não ouvimos dizer é que por lá
lhes tenham feito bem algum. E talvez o tivéssemos ouvido,
se eles não tivessem estimado menos a salvação dos povos
que o ouro da Espanha. A vós pertence remediar este mal.
Outra loucura há que tem estado prestes a lançar na extra-
vagância a sabedoria da fé. E como é que este veneno tem já
inficionado quase toda a Igreja? Apenas procuramos os
nossos próprios interesses, logo se acendem entre nós as
invejas e os ódios recíprocos, rompemos em injúrias,
instauramos processos, armamos emboscadas, caímos em
detrações, fazemos censuras, somos vítimas dos mais fortes e
algozes dos mais fracos.
Ó, quão digna e plausível será a meditação do vosso cora-
ção, se se aplicar a reprimir esta loucura pestilenta, que já se
apoderou do corpo místico de Jesus Cristo, que é a multidão
dos crentes! Ó ambição, como és a cruz dos ambiciosos!
Como podes tu agradar a todos, sendo o tormento de todos?
Nada há que torture com mais crueldade, nada que origine
maiores inquietações, e, contudo, nada mais comum entre os
pobres mortais, que as negociações ambiciosas. Não é
verdade que na sede dos Apóstolos é já mais frequentada a
ambição que a devoção? Não é a sua voz que se faz ouvir
todo o dia no vosso palácio? Não é em proveito dela que
trabalha toda a disciplina das leis e dos cânones? Não é por
uma avidez insaciável que toda a rapacidade dos Italianos
aspira a encher-se com os seus despojos?
São Bernardo de Claraval

Que coisa há que vos faça interromper e até deixar mais


vezes os vossos exercícios espirituais? Quantas vezes esse
mal, que não tem repouso, nem o deixa ter aos outros, faz
abortar as vossas vigílias santas e fecundas? Uma coisa é que
os oprimidos apelem para vós, e outra que os ambiciosos se
sirvam de vós para reinarem na Igreja. De nenhum modo
deveis nem falar aqueles, nem condescender com estes. Que
injustiça, porém, favorecer os primeiros e desprezar os
segundos! E, no entanto, sois devedores a uns e a outros: aos
oprimidos para os liber- tardes, e aos ambiciosos para os
reprimirdes.

CAPÍTULO II

Da ordem a guardar nas apelações para a Santa Sé.

Visto que veio a propósito falar das apelações, convém tratá-


-las com algum desenvolvimento. Assunto é este que
demanda uma alta e pia consideração, para que não se torne
de todo inútil uma instituição providencial, que foi imposta
por uma grande necessidade. Parece-me que as apelações se
podem volver em grave ruína, se a elas não presidir a máxima
regularidade. De todas as partes do mundo se apela para vós,
- o que é uma prova irrefragável do vosso primado singular.
Mas, nos vossos sentimentos, menos vos deveis alegrar
com o vosso primado, que com as vantagens dele para os
fiéis. Foi dito aos Apóstolos (Lc 10, 20): Não é por vos
estarem sujeitos os espíritos malignos que deveis regozijar-vos.
Como disse, apela-se para vós, e praza a Deus que seja com
tanta vantagem como necessidade. Praza a Deus que, quando
o oprimido clamar, o opressor o sinta, e que a miséria do

68
pobre não faça subir de

69
Os Cinco livros da Consideração

ponto a soberba do ímpio. Que coisa mais bela do que ver que
a invocação do vosso nome serve de asilo a inocência
oprimida e afugenta a malícia artificiosa? Pelo contrário, que
perversidade, que coisa mais contraria a retidão do que ficar-
se alegre o que fez o mal, e o que o sofreu ver baldadas as
suas fadigas? Por um lado, mui desumano serieis se não
tivésseis compaixão de um homem que, além de ser saturado
de amargura pelas afrontas recebidas, fez penosas caminhadas
e grossas despesas, mas, pelo outro lado, tocaria o extremo a
vossa covardia, se deixásseis de proceder contra aquele que
em parte foi autor e em parte causa de tantas misérias. Vigiai,
pois, ó homem de Deus: quando isto acontecer, movei-vos à
compaixão, movei-vos também à indig- nação. Uma coisa é a
que deveis ao ofendido, outra a que deveis ao ofensor. Seja
aquele consolado pela compensação dos seus danos, reparação
das suas injúrias, ou termo das suas misérias, mas proceda-se
com este de modo que ele se arrependa do que não temeu
fazer, e não escarneça dos sofrimentos do inocente. A meu
ver, de igual modo deve ser tratado o que apelou sem
motivo. É a norma imutável da justiça divina e, se não me
engano, a própria lei das apelações que vos dita esta prática
equitativa, para que uma apelação ilicitamente usurpada não
aproveite ao apelante, nem seja prejudicial ao apelado. Pois,
para que se há de permitir que um homem seja forçado a
trabalhos inutilmente? Quanto é mais conforme com a justiça
que a lesão recaia sobre quem desejou lesar o seu próximo. É
injustiça ter apelado injustamente, mas apelar injustamente,
sem ser punido, é fomentar apelações injustas. Ora, será
injusta toda a apelação, a que a falta de justiça não obrigue. É
licito apelar-se quando se sofre, não para fazer sofrer. Pode
apelar-se de uma sentença; antes da sentença sempre a
apelação se presume de todo o ponto injusta, a não ser que
se trate de uma opressão manifesta. Portanto, quem apela sem
estar ofendido dá a intender ou que
São Bernardo de Claraval

intenta ofender, ou que pretende ganhar tempo. Deve a


apelação ser um refúgio e não um subterfúgio. Quantos
sabemos nós terem recorrido a apelações, para, entretanto,
poderem fazer o que noutro tempo lhes não seria permitido?
De alguns até sabe- mos que, a pretexto de uma apelação,
passaram no crime toda a sua vida, por exemplo, em incesto e
adultério. O que é isto, pois, senão favorecer a
desmoralização, quando se devia incutir terror nos
desmoralizadores? Até quando haveis de dissimular ou
desatender essas murmurações gerais? Até quando dormireis
vós? Não despertará ainda a vossa consideração para
remediar tanta desordem e abusos nas apelações? É contra o
direito e a justiça, contra os costumes e a razão que elas
funcionam. Não se faz discernimento nem de lugar, nem de
meio, nem de tempo, nem de causa, nem de pessoas.
Interpõem-se a cada passo as apelações sem motivo, e as
mais das vezes com muita malícia. Não era por este meio
principalmente que outrora se continham aterrados os que
queriam fazer mal aos outros? Hoje são os maus que se
servem dele para alterarem os bons. Demudou-se o antidoto
em veneno, mas esta mudança não foi a destra do Altíssimo
que a operou.
Apelam os ímpios contra os homens de bem, para que não
pratiquem o bem, e eles de fato retraem-se, com receio das
vossas fulminações. Recorre-se também dos Bispos, para que
não ousem dissolver ou proibir os matrimônios ilícitos; apela-
se das suas sentenças, para que não possam castigar nem
reprimir as rapinas, os furtos, os sacrilégios e outros crimes
semelhantes. Apela-se deles para que não possam repelir ou
remover dos ofícios e benefícios sagrados as pessoas indignas
e infames.
Que remédio vós encontrais para esta enfermidade, a fim
de que o meio que se tinha descoberto para a cura não dê
70
antes a morte? Indignou-se outrora o Senhor por lhe terem
convertido a sua casa de oração em caverna de bandidos
(Mt 21, 13). E

71
Os Cinco livros da Consideração

vós, ministro seu, sabeis que o que foi dado para refúgio dos
miseráveis sirva de defesa a injustiça! Vede como são usurpa-
dos a cada passo os direitos dos oprimidos, e os apelantes são
menos os que sofrem as injúrias, que os que querem infrin-
gi-las. Que mistério é este? É do vosso dever examiná-lo, não
do meu discuti-lo. E por que razão, dizei-me, os que apelam
indevidamente se não apresentam a defender a sua inocência,
provando a malícia dos seus adversários? Dou-vos a resposta
que eles costumam dar: Não queremos ser vexados em vão,
dizem eles, há na cúria romana quem favoreça os apelantes,
quem fomente as apelações, mais nos aproveita voltar as
costas a Roma e estar em nossa casa.
Confesso que não me repugna acreditá-los. Apesar de
serem tão frequentes nestes tempos as apelações, pergunto-
vos: onde encontrareis um apelante que tenha sido condenado
a restituir uma só moeda pelas despesas de viagem, a que
obrigou o seu contendor! É extraordinário, que examinadas
as razões das partes, sempre no vosso juízo os apelantes
tenham sido encon- trados inocentes e os apelados réus! Amai
a justiça, diz o Sábio (Sb 1, 1), vós que fostes estabelecido para
julgardes o mundo. Não basta que guardeis a justiça, é
necessário que a ameis. Os que têm a justiça guardam-na, os
que a amam zelam-na. Quem ama a justiça procura a justiça e
segue-a, e demais disso persegue toda a injustiça.
Bem sei que não sois dos que olham as apelações como
uma caça abundante. Sinto vergonha da máxima que já corre
como proverbio entre os pagãos: Descobrimos dois veados
gordos. Para falar nos devidos termos, há nisto muito mais de
chocar- rice que de justiça. Se amais a justiça, apenas
sofrereis as ape- lações, não votareis por elas. Mas que apoio
pode dar as Igrejas de Deus a justiça de um só homem na
vossa pessoa, quando a opinião dos contrários prevalece?
Terá lugar este assunto,
São Bernardo de Claraval

quando tratarmos das coisas que vos cercam. Por agora não
julgueis de somenos utilidade aplicar-vos a esta consideração
de reformardes as apelações, fazendo-as entrar na boa ordem,
se possível for. E, se me pedis a minha opinião, ou melhor se
ela vos serve para alguma coisa, digo-vos que as apelações
nem se devem desprezar por completo, nem abusar delas.
Qual destes dois extremos seja mais prejudicial, teria eu
dificuldade em o dizer, se o abuso não parecesse acarretar
consigo o desprezo, devendo por isso atacar-se de preferência
o pior mal. Ou. não será verdade que o abuso, assaz mau em
si mesmo, será pior nos seus efeitos? Não enfraquece ele o
direito natural, chegando até a extingui-lo? Não deprecia e
aniquila por vezes o valor das coisas mais preciosas? Que
haverá de mais precioso que os sacramentos? Perdem, porém,
toda a estima desde que os indignos os usurpam ou profanam.
Tornam-se então em meio de ruína, por não serem tidos na
veneração devida.
Confesso que as apelações são um grande bem, um bem
geral para todo o mundo, e tão necessário como o sol para os
mortais. Em verdade, é o sol da justiça como um juiz
prudente que descobre e reprova as obras das trevas. De um
modo abso- luto, devem conservar-se e manter-se as
apelações, quando a necessidade as reclamar, não quando a
má fé as sugerir. São abusivas todas as apelações que não
remedeiam necessidades, antes favorecem a malícia dos
apelantes. Como não redun- darão elas em desprezo?
Quantas pessoas, tendo recorrido a tais apelações, desistiram
depois dos seus direitos, para não se fatigarem debalde em
longas viagens? Muitos outros, que não estavam resolvidos a
perder o que era seu, julgaram a propósito desprezar as
apelações frívolas e os grandes nomes.
Para exemplo, vou referir um caso, que tem aqui
cabimento. Um certo homem tinha desposado publicamente
72
uma mulher; chegou o dia aprazado das núpcias.

73
Os Cinco livros da Consideração

Estava tudo preparado, os convidados eram muitos. Nisto,


outro homem que desejava a mulher do seu próximo, começa
de repente a clamar que apelava, porque aquela noiva lhe
tinha sido prometida antes, e de preferência devia ser sua. O
esposo fica espantado, os assistentes entreolham-se, o
sacerdote não se atreve a prosseguir, todo aquele aparato se
volve inútil, parte cada um para sua casa, a tornar lá a sua
refeição; a noiva per- manece separada da mesa e do tálamo
do seu esposo, até que venha de Roma a decisão. Este fato
deu-se em Paris, capital das Gálias e sede dos reis!
Mais, na mesma cidade outro homem, tendo-se desposado,
marcou o dia para o seu casamento. Entretanto, surgiu uma
calúnia: apareceram algumas pessoas a dizer que havia
impedi- mento. Foi a questão levada ao tribunal eclesiástico,
mas não se esperou pela sentença: apelou-se para Roma, sem
motivo, sem cerimônia, só com o intuito de retardar o
matrimônio. Pela sua parte o noivo, ou para não perder as
despesas feitas, ou para não ser privado por longo tempo do
desejado consórcio, levou a efeito o casamento, desprezando
ou fingindo desconhecer a apelação. E que direi do que um
jovem ultimamente tentou fazer na igreja de Auxerre? Tendo
morrido o santo bispo, achando-se reunido o clero, como de
costume, para eleger outro, interpôs o jovem apelação e
proibiu que a eleição se fizesse, sem que ele fosse a Roma e
regressasse. Não chegou, porém, a efetuar a apelação. Ao ver
que o não tomavam a sério, por ter apelado sem razão, reuniu
dos seus o maior número que pôde e, três dias depois de
realizada a eleição dos outros, fez a sua!
Destes exemplos, pois, e de outros semelhantes, que são
inumeráveis, se manifesta que não é o abuso das apelações
que deriva do desprezo delas; é ao contrário do abuso que
vem o desprezo: agora vos peço que considereis a razão por
que o vosso zelo quase sempre se insurge contra o desprezo
São Bernardo de Claraval

e dissimula o abuso. Quereis coarctar o desprezo com melhor


exilo? Procurai que o mau filho seja sufocado no seio da sua
perversa mãe, - o que acontecerá se punirdes o abuso com a
severidade merecida. Tirai o abuso e ficará sem escusa o des-
prezo. Ficará desde então inexcusável e não ousara mostrar-
se. Que ninguém abuse das apelações e ninguém ou mui
raro aparecerá quem as despreze. Bem procedeis quando,
recusado o voto e até o pretexto, as apelações, remeteis os
negócios para os peritos, ou para os que podem mais depressa
tomar conheci- mento deles. Onde o conhecimento é mais
certo e fácil, lá pode ser a decisão mais segura e a expedição
mais rápida.
Ó, que graça extraordinária deste modo dispensaríeis as
partes, e a quantos trabalhos e despesas as pouparíeis!
Deveis, porém, atender de um modo muito particular as
qualidades das pessoas, a quem confiardes tais encargos.
Muito poderia acres- centar com vantagem ao exposto, mas,
lembrado como estou do meu propósito, contento-me com
vos propor um ponto de meditação e passo a outras coisas.

CAPÍTULO III

Estão os Prelados da Igreja constituídos, não tanto para


presidirem e se apascentarem a si próprios, como para
serem úteis aos outros.

Tenho para mim, que de nenhum modo devo passar em


silêncio o primeiro assunto, que se me depara. Não há dúvida
que presidis a toda a Igreja, e como único. Para quê? É o que
necessitais de considerar, vos digo eu. Será por ventura para
vos engrandecerdes, à custa dos vossos súditos? Longe disso;

7
4
é

7
5
Os Cinco livros da Consideração

ao contrário, para que eles recebam de vós. Fostes constituído


soberano, mas para eles, não para vós. De outro modo, como
poderíeis julgar-vos superior àqueles de quem mendigais favo
res? Escutai o Senhor (Lc 22, 25): Os que têm autoridade
sobre os outros chamam-se benfeitores. Mas isto diz-se dos
que estão fora da Igreja. Que aplicação, pois, tem a nós? Só
com mentira se poderia isso dizer de vós, desde que a vossa
intenção fosse antes presidir aos que vos beneficiassem, do
que tornar-vos ben- feitores deles. É próprio de um espírito
mesquinho e abjeto não procurar antes o bem dos súditos, que
o interesso próprio. Em suma: nada mais vergonhoso, sobre
tudo no Pontífice universal. Que bela sentença a do doutor
das gentes dizendo, que são os pais que devem entesourar
para os filhos e não estes para seus pais (2 Cor 12, 14)! Mas
não lhe é de menor glória ter dito: Não procuro dádivas, mas
fruto (Fl 4, 17).
É tempo agora de passarmos a outras coisas, para que a
minha demora nestas não faça suspeitar que vos acuso de
ava- reza, ainda que já no segundo livro fiz ver quanto sois
estranho a este vício, conforme o conhecimento que tenho das
grandes quantias que haveis rejeitado, mesmo em vossas
grandes neces- sidades. O que sobre este ponto vos escrevo,
não é por vossa causa que o escrevo. Nem é razoável que o
que se vos dirige por escrito só a vós aproveite. Falo aqui da
avareza, que é o vício de que a opinião geral vos exime;
pertence-vos examinar se de fato estais inocente. Sem
falarmos das oferendas dos pobres, nas quais nem sequer
haveis tocado, vimos sacos cheios, não de massa, mas de
ouro, vindos dos alemães. Foi olhado esse dinheiro como se
fora palha: os portadores não se aliviaram do peso; mal grado
seu, voltaram para a sua pátria carregados, como tinham
vindo. Caso digo de admiração! Porventura, Roma já tinha
recusado ouro alguma vez? E cremos bem que não foi por
conselho dos Romanos que assim se procedeu.
São Bernardo de Claraval

Eis um fato: vieram a Roma dois homens, ambos ricos e


ambos culpados. Um era de Moguncia, o outro de Colônia; a
um foi concedida gratuitamente a graça solicitada; ao outro,
que não pareceu digno dela, foi respondido - Vós tendes de
sair com o mesmo vestido com que entraste (Ex 21, 3). Ó
linguagem magnifica! Ó palavra digníssima da liberdade
apostólica! Em que foi ela inferior a esta outra (At 8, 20):
Que o teu dinheiro seja para tua ruína? Apenas naquela
transparece mais zelo e nesta mais modéstia.
E que aconteceu àquele simoníaco de além-mar, lá quase
dos confins do mundo, que veio através de continentes e
oceanos para comprar pela segunda vez um bispado, com
dinheiro seu e dos seus amigos? Ele trouxe grossa quantia,
que tornou a levar, mas não integralmente, porque teve a
desgraça de cair em mãos, mais prontas para receberem do
que para darem. Bem procedestes vós, que em ambos os
casos conservastes limpas as vossas mãos: nem vos
abaixastes a impô-las sobre a cabeça do ambicioso, nem as
abristes para receberdes o preço inique. Nem foi menos
louvável o vosso procedimento com um pobre bispo, a quem
facilitastes recursos, para que ele não passasse por ser pouco
liberal. Recebeu ele as ocultas o que deu as claras. Assim
provestes do vosso bolso a vergonha desse prelado. Assim
também, pela vossa liberalidade segundo a praxe da cúria,
escapou ele ao ódio dos que gostam de presentes. É uma
verdade que não podeis ocultar, porque conhecemos tanto o
fato como a pessoa.
Custa-vos ouvir isto? E quanto mais vos custa, mais folgo
eu de proclamá-lo. Se vos convém o vosso modo de sentir, a
mim me apraz o meu. Não devo eu cuidar menos de
proclamar a glória de Jesus Cristo, do que vós de ocultar a
vossa. E, se ainda não vos rendeis, responder-vos-ei com as
palavras do
7
6
Os Cinco livros da Consideração

Evangelho (Mc 7, 36): Quanto mais lhes intimava a


proibição,
mais eles gritavam, dizendo: Fez bem todas as coisas.

CAPÍTULO IV

É necessário que não se confundam temerariamente,


nem se perturbem os graus das ordens e dignidades que
há na Igreja. De onde vem a propósito verberar os abusos dos
privilégios e isenções.

Ouvi-me agora sobre outro assunto - se ele de fato é dife-


rente do anterior. A vossa consideração o julgará. Quanto a
mim, entendo que não se afasta da verdade quem procurar
inclui-lo nas espécies da avareza. Não posso negar que, se
não é uma espécie de avareza, tem pelo menos a aparência
dela. E a perfeição do vosso estado importa não só evitar o
mal, mas até a aparência dele. No primeiro caso provedes a
vossa consciência, no segundo a vossa fama. Tende como
certo que nenhum mal, por mais disfarçado que se apresente,
vos é licito, embora em alguns casos o seja a outros e não vá
de encontro a vossa consciência. Em confirmação disto,
interrogai os vossos maiores e eles vos dirão (1 Ts 5, 22):
Abstende-vos de tudo quanto tenha aparência de mal. É justo
que o ministro do Senhor imite o seu Mestre que diz: quem
me serve, siga-me (Jo 26). E do qual está dito: reinou o
Senhor, revestiu-se de beleza e de força (Sl. 92, 1). Sede vós
também forte na fé, na glória decoroso, e assim provareis que
sois imitador de Deus. Deve a vossa fortaleza ser o
testemunho da vossa boa consciência ; o vosso decoro o
esplendor de uma reputação ilibada.
São Bernardo de Claraval

Assim vo-lo peço: revesti-vos da fortaleza, pois que ela faz


a alegria do Senhor. Não se compraz Ele tanto no vosso
esplendor e formosura, como na sua própria semelhança.
Tomai as vestes da vossa glória, as vestes duplas com que a
mulher forte tem de costume entrajar os seus domésticos (Pr
31). Não haja na vossa consciência nenhuma vacilação, que
revele falta de fé; não haja na vossa reputação nenhuma
mancha, nem aparência de mal, e assim tereis duplos
vestidos, e o vosso esposo tomará as suas complacências na
vossa alma, que é sua esposa, e o vosso Deus se alegrará em
vós. Estais talvez admirado por não saberdes ainda o que
quero dizer com esta linguagem. Não vos deixo por mais
tempo em suspensão. Falo das murmurações e quei- xas das
Igrejas. Clamam elas que as mutilam e desmembram.
Nenhumas ou mui poucas há que não se lamentem dessa
chaga, ou não a temam.
Quereis saber qual é?
Negam-se os abades a dependência dos bispos, os bispos
as dos arcebispos, os arcebispos a dos patriarcas ou primazes.
será um mal só aparente, que oculte algum bem? Nem o
próprio fato em si pode encontrar desculpa. Verdade é que,
procedendo assim por vezes, demonstrais que tendes a
plenitude do poder, mas não talvez a da justiça. Fazeis o que
podeis, mas resta saber se é também o que deveis. E tais
estabelecido para conservardes a todos os seus graus e ordens
de honras e dignidades, não para os invejardes, como algum
dos vossos há dito (Rm 13, 7): a honra para quem pertence.
O homem espiritual que julga de tudo, de modo a não ser
jul- gado por ninguém (I Cor 2, 15), faz três considerações
antes de qualquer obra, que empreenda: 1.ª se é licita; 2.ª se
convém; 3.ª se é útil. Porquanto, embora a filosofia cristã
ensine que nada é conveniente que não seja lícito, e nada útil
que não seja
7
8
Os Cinco livros da Consideração

conveniente e lícito, - não se segue, como consequência


neces- sária, que tudo o que é licito seja também conveniente
e útil.
Vamos agora, apliquemos, se é possível, estas três
reflexões ao nosso caso. Então, como não vos ficara mal
tomardes como lei a própria vontade, e exercerdes o vosso
poder, sem escutardes a razão, porque não há outro juiz para
quem se possa apelar de vós? Sois acaso maior que o vosso
Senhor que diz (Jo 6, 38): Não vim fazer a minha vontade? E
(Mt 5, 17): não vim destruir a lei, mas completá-la? Não é
por certo menos próprio de um espírito baixo que de um
orgulhoso seguir antes o capricho que a razão, antes o apetite
que o juízo. Que desmando haverá tão brutal? E, se é indigno
de qualquer homem viver como irracional, - quem poderá
sofrer que vós, o guia de todos os homens, façais uma tal
afronta à natureza humana e uma tal injúria à vossa
reputação? Degenerando até este ponto (o que Deus não
permita), volitaríeis contra a vossa própria pessoa o opróbrio
geral (Sl 48, 13): Estando elevado em honra, o homem
fraquejou no entendimento, comparou-se e tornou-se semelhante
aos animais destituídos de razão.
A par disto, que coisa mais indigna de vós do que, tendo
tudo, não estardes ainda contente, senão que vos afadigais,
não sei de que modo, em adquirir certas miudezas e porções
exíguas, como se ainda as não possuísseis na universalidade
que vos foi confiada? Desejo que a este propósito recordeis a
parábola de Natan (2 Rs 12, 1-4) com respeito ao homem que
tendo muitas ovelhas ainda assim cobiçou a única, que um
pobrezinho possuía. Não vos esqueça também o crime do rei
Acab (3 Rs 21, 2), que sendo senhor de tudo usurpou uma
pequena vinha. A Deus peço que afaste de vós o que ele
ouviu: Mataste e pos- suíste (Ibid. id., 19). Nem me faleis do
fruto de tais emancipa- ções, que é somente tornarem-se os
bispos mais insolentes e os monges mais dissolutos. Porque
não direi também mais pobres?
São Bernardo de Claraval

Examinai por toda a parte com um pouco de atenção os


haveres e os costumes de todos esses emancipados, e
encontrareis nuns uma indigência de todo o ponto
vergonhosa, noutros uma vida inteiramente secular.
São estas as duas filhas dessa mãe sinistra que é a falsa
liberdade. Pois, como não pecara com mais desenfreamento
um povo vagabundo e dado a licença, que não tem quem o
reprima? Como também a religião inerme, sem ter quem a
defenda, dei- xará de ser assaltada e espoliada com mais
licença? Para onde se voltarão os que procurarem algum
refúgio? Talvez para os bispos, magoados com a injúria que
se lhes há feito? Por certo que eles olham com prazer tanto
para os males que fazem como para os que sofrem. Que
utilidade enfim na perda desses infeli- zes? Receio que só
haja aquela com que Deus ameaça pelo seu Profeta (Ez 3,
18): Ele há de morrer no seu pecado, eu porém te pedirei
contas do seu sangue. Se o que se emancipa da autoridade se
torna orgulhoso, e aquele de quem se emancipa se exaspera,
- como será inocente o causador de tudo isso? É pouco
cobrir- mos o fogo. Ouvi com mais clareza. Se o que
murmura está morto quanto à alma, - como poderá ter vida o
que se toma causa? Como é que quem ministrou a espada,
com que dois foram mortos, não será réu da morte de ambos
e igualmente da sua? É o que eu disse: Mataste e possuíste (3
Rs 21, 19). Acresce que os que ouvem escandalizam-se,
indignam-se, murmuram e blasfemam, isto é, são feridos de
morte. Não é boa árvore a que tais frutos produz, -
insolências, dissoluções, estragos, dissimulações, escândalos,
ódios, e, o que é mais deplorável, inimizades graves entra as
igrejas, discórdias perpétuas. Vedes quanto é verdadeira a
sentença: Tudo me é lícito, mas nem tudo me aproveita (I Cor
10, 22)? Mas que dizer, se as coisas nem lícitas são?
Desculpai-me, custa-me a crer que seja lícita uma coisa de
80
onde derivam tantas ilícitas.

81
Os Cinco livros da Consideração

Julgais vós que seja lícito mutilar os membros das igrejas,


confundir a ordem, mudar as balizas postas por vossos pais?
Se pertence à justiça manter ileso o direito de cada um, -
como poderá tirar-se a alguém o que é seu e permanecer
justo? Estais em erro se pensais que a vossa autoridade
apostólica foi ins- tituída por Deus tão suprema como única.
Se assim o credes, dissentis de quem escreveu (Rm 13, 1):
Não há poder que não venha de Deus. Mais o que se segue:
Quem resiste ao poder, resiste à ordem de Deus. Finalmente:
Todos se devem sujeitar aos pode- res superiores (Ibid. id.,
2). Não diz ao superior, como único, mas aos superiores,
como sendo muitos. Logo, nem só a vossa autoridade deriva
de Deus, há outras menores e inferiores que também derivam
dEle. Ora, assim como não se devem sepa- rar os poderes que
Deus uniu em conjunto, também não se devem pôr em
paralelo os que Ele pôs em ordem subalterna. Faríeis um
monstro se cortásseis um dedo da mão e o unísseis à cabeça,
tornando o superior à mão e colateral ao braço. É o que
aconteceria no corpo místico de Cristo, se désseis aos seus
membros uma ordem diferente da que Ele dispôs.
Não estais por certo no erro de pensar que foi outro quem
na Igreja pôs - uns Apóstolos, outros Profetas, outros
Evangelistas, outros doutores e pastores, para a consumação
dos santos, para o exercício do ministério, para a edificação do
corpo de Cristo (Ef 4, 11-12). É este mesmo corpo que São
Paulo, com uma eloquên- cia verdadeiramente apostólica,
representa maravilhosamente unido a cabeça: composto de
todas as suas partes, ligado por todas as junturas de
subordinação, obrando à proporção de cada membro, tomando o
crescimento de um corpo perfeito, para se edificar na
caridade (Ibid. id., 16). Nem reputeis vil esta forma, por estar
na terra, o seu exemplar é do Céu. Porque não pode o Filho
fazer coisa alguma, que não tenha visto fazer a seu Pai (Jo 5,
19), prin- cipalmente depois que lhe foi dito sob o nome de
Moisés: Toma
São Bernardo de Claraval

cuidado de fazer tudo conforme o exemplar, que te foi mostrado


no monte (Ex 25, 40).
Tinha visto este exemplar quem dizia: Vi a cidade santa
da nova Jerusalém, a descer do Céu vinda de Deus (Ap 21, 2).
Quanto a mim, creio que isto foi dito por semelhança, porque
assim como no Céu os serafins, querubins e restantes
espíritos, até aos arcanjos e anjos, estão ordenados sob uma
só cabeça que é Deus; também na terra, sob um só Pontifica
supremo, estão dispostos por sua ordem os primazes ou
patriarcas, arcebispos, bispos, presbíteros ou abades e assim
os restantes. Não se deve ter em pouco apreço uma ordem
que tem a Deus por autor e traz do Céu a sua origem. Que
diga um bispo: eu não quero depender do arcebispo; ou um
abade: não quero obedecer ao bispo; isto não se pratica no
Céu. Acaso ouvistes já que algum dos anjos dissesse: ou não
quero depender dos arcanjos? Ou alguma das ordens
inferiores dizer que não consentia estar sujeito senão a Deus?
- Que dizeis? Desse modo quereis impedir-me de dar
dispensas. - Não, mas de a dardes fora de propósito. Não sou
tão ignorante que não saiba que estais estabelecido para ser-
des dispensador, mas para edificação e não para destruição.
Finalmente, diz o Apóstolo (1 Cor 4, 2): O que se requer dos
dispensadores é que eles sejam fiéis. Quando a necessidade
obriga é desnecessária a dispensa. Torna-se louvável quando
há nela utilidade comum e não particular. Quem ignora que
em diversos bispados há mosteiros que de um modo especial
estão sujeitos à santa Sé, desde a sua fundação, e por vontade
dos seus fun- dadores? Mas uma coisa é o que a devoção faz
e outra o que uma ambição insofrida de independência
maquina. E isto basta sobre tal assunto.

82
Os Cinco livros da Consideração

CAPÍTULO V

Incumbe ao sumo Pontífice fazer guardar por todo o mundo


os decretos apostólicos e os institutos dos nossos pais.

Resta ainda que a vossa vigilância se estenda a toda a


Igreja, para ver se os povos se sujeitam, como devem, aos
clérigos, os clérigos aos sacerdotes e os sacerdotes a Deus; se
nos mos- teiros e casas religiosas se guarda a ordem e
observa a disci- plina; se está em vigor a censura eclesiástica,
sobre os maus costumes e más doutrinas; se as vinhas do
Senhor florescem pela honestidade e bom exemplo dos
sacerdotes; se as flores produzem frutos pela obediência dos
fiéis; se, finalmente, os vossos decretos e determinações
apostólicas são observados com a exatidão devida, de modo
que no campo do vosso Senhor nenhuma parte se encontre,
nem inculta por negligência vossa, nem roubada por artifício
dos inimigos. Não duvideis que isso possa acontecer.
Sem falar de muitas e muitas coisas que a cada passo são
descuradas, é-me fácil demonstrar-vos que se acham destruí-
das algumas, que a vossa mão havia edificado. Acaso não
pro- mulgastes por vossos próprios lábios no concílio de
Reims os artigos que vão adiante? Quem há que os pratique?
Quem os há praticado? Se pensais quase observam, enganais-
vos. Se pensais que não se observam, sois culpado, ou por
fazerdes lei para não serem cumpridas, ou por permitirdes
que não se cumpram. “Ordenamos, dissestes vós, tanto aos
bispos como aos cléri- gos, que nem pelo luxo, nem pela
diversidade de cores imodestas e artifício dos seus vestidos, nem
por uma tonsura inconveniente, escandalizem os fiéis que os
observam, e aos quais devem servir de regra e exemplo, pelo
contrário, que a sua vida seja a condenação
São Bernardo de Claraval

dos desvarios públicos, e a sua conversação testemunhe o amor


que têm pela inocência, conforme o exige a dignidade da ordem
clerical. Porém se, advertidos pelos seus bispos, não
obedecerem dentro de quarenta dias, por autoridade dos mesmos
bispos sejam privados dos seus benefícios. E se os bispos forem
negligentes na aplicação da pena estabelecida, - como de ordinário
as faltas dos inferiores derivam da incúria e pouco zelo dos
superiores -, declaramo-los suspensos dos seus ofícios, até que
imponham aos clérigos da sua jurisdição a pena por nós
decretada.
“Julgamos a propósito ajuntar também a este artigo - que
nin- guém seja nomeado arcediago2 ou deão3, sem ser já diácono
ou pres- bítero. Os arcediagos, porém, deãos e prepostos que
não tiverem as sobreditas ordens e desobedecerem, recusando-se a
recebê-las, sejam privados da dignidade recebida. Proibimos que
as sobreditas honras sejam conferidas a adolescentes, ou a
ordinandos que ainda não tenham ordens sacras; queremos sim
que essas dignidades sejam con- feridas a pessoas recomendáveis
por sua prudência e merecimentos”. São vossas estas palavras,
vós as sancionastes, mas como é que elas se cumprem? Ainda
na Igreja são promovidos às digni- dades adolescentes e
pessoas não constituídas em ordens sacras. Pelo que respeita
ao primeiro artigo, é verdade que o luxo dos vestidos foi
interdito, mas não reprimido: foi decretada a pena, mas não
aplicada de nenhum modo. Já se passaram quatro anos, desde
que ouvimos publicar esses decretos, e ainda não vimos que

algum eclesiástico tenha sido privado do seu benefício, ou


2
Um Arcediago ou Arquidiácono é um vigário-geral encarregado, pelo
bispo, da administração de uma parte da diocese. Na hierarquia da Igreja,
o arcediago está acima dos clérigos e abaixo do bispo. O termo é
geralmente referido a um dignitário de um cabido.
3
Deão é, com generalidade, o dignitário ou responsável máximo de um
orgão colegial da Igreja. O termo é geralmente referido ao dignitário de

84
um cabido. O termo é por vezes usado para referir um deão em particular,
o líder do chefe do Colégio de Cardeais, título criado pelo Papa Adriano I.

85
Os Cinco livros da Consideração

algum bispo suspenso do seu ofício. Mas o que daqui se tem


seguido é digno de se chorar com lágrimas mui amargas.
O que? A impunidade filha da incúria, mãe da insolência,
raiz do desaforo, estímulo de toda a prevaricação. Grande
fortuna a vossa se empenhardes todos os esforços para obstar
a esta incúria, que é a primeira mãe de todos os males. Espero
que vos dediqueis a isto. E por agora erguei os olhos e vede
se as cores variadas não continuam a desonrar as ordens
sacras, e se as aberturas excessivas nos vestidos cobrem
melhor a nudez do que antes. Costumam dizer: Não atende
Deus antes aos costu- mes que aos vestidos? É que esta forma
de vestidos manifesta a deformidade das almas e dos
costumes.
Porque motivo querem os eclesiásticos parecer o que não
são? Tal procedimento nem é casto nem sincero. De fato, são
militares pelo habito, eclesiásticos pelos rendimentos, e pelos
atos nem uma nem outra coisa. Pois, nem como militares vão
a guerra, nem como eclesiásticos evangelizam. A que ordem
pertencem então? Porque cobiçam possuir as duas, largamnas
ambas e confundem-nas. Cada um, diz São Paulo (1 Cor 15,
23) há de ressuscitar na sua ordem. Em que ordem
ressuscitarão estes? Os que pecaram sem ordem, não
perecerão sem ordem
? Se se ere com toda a verdade que Deus, sabedoria infinita,
nada há de deixar em desordem, desde o mais alto até ao
mais baixo, temo que estes só encontrem a ordem, onde não
há nenhuma ordem e onde reina um horror sempiterno. Ó
desgraçada Esposa, confiada a padrinhos tais, que não
receiam usurpar para si os bens destinados a sustentação dela!
Não são na verdade amigos do Esposo, são seus rivais. E, a
respeito des- tas coisas, que estão abaixo de vós, é isto
bastante, não quanto a matéria, assaz abundante de si mesma,
mas em vista do meu desígnio. Vejamos agora as coisas que
estão em redor de vós, e para as quais nos abrirá a porta o
quarto livro.
LIVRO QUARTO
CAPÍTULO I

Trata das coisas ao redor do Pontífice e seus cuidados.

M
eu caríssimo Eugênio, se eu houvera conhecido bem
de que modo receberíeis as primeiras partes da
minha obra, isso me serviria de norma para
prosseguir no
resto com mais confiança, ou com mais cautela, ou
certamente para desistir por completo. Como, porém, a
distância dos lugares de nenhum modo me permite esse
conhecimento, não estranheis que o meu estilo prossiga
frouxo, nesta incerteza em que estou; confesso que tenho
vergonha de me apresentar em público. Tendo tratado nos três
livros precedentes, das três primeiras partes da consideração,
tenho que falar agora das coisas que estão em redor de vós.
É certo que também essas estão abaixo de vós e se volvem
tanto mais difíceis quanto mais de perto vos tocam, porque se
apresentam a vossos olhos, não admitem incúria, nem
dissimu- lação, nem esquecimento. Apertam com mais
insistência, preci- pitam-se com mais fúria: é para temer que
tudo subvertam. Não duvido que, por experiência própria,
conheçais suficientemente quanto a vossa consideração
precisa de ser exata e discreta neste ponto. Se assim não for,
se a consideração não ocorrer cautelosa e oportuna, os
trabalhos continuarão e nem a agitação
São Bernardo de Claraval

terá limite, nem as inquietações termo. Não tereis tempo vago


nem coração livre: Muito trabalho e pouco proveito. Falo de
todos esses cuidados quotidianos, que vos assaltam da parte
da cidade, da vossa corte e da vossa Igreja particular. São
coisas, digo, que estão em volta de vós, - o vosso clero e o
vosso povo, do qual especialmente sois bispo, e a quem por
isso mesmo deveis um cuidado especial.
A estes se ajuntam também os anciãos do povo, que todos
os dias vos assistem, que são juízes do orbe, igualmente todos
os vossos domésticos e comensais, capelães, camareiros e de
mais oficiais, destinados ao vosso serviço: são estes que vos
visitam com mais familiaridade, procuram com mais
frequência e soli- citam com mais instância. Deles se pode
dizer que não receiam despertar a esposa dileta antes da hora
marcada.

CAPÍTULO II

Trata dos costumes do clero e do povo de Roma,


e recomenda o cuidado e vigilância dos antigos pastores,
que se sacrificavam pelas suas ovelhas.

Em primeiro lugar, convém que viva com a máxima regu-


laridade aquele clero, que deve servir de modelo e exemplo
para toda a Igreja. Demais, sobre vós recairá a vergonha do
mal que se praticar na vossa presença. Muito interessa a gló-
ria de vossa santidade que os que tendes debaixo de vossos
olhos, de tal modo sejam ordenados e instruídos, que sirvam
de espelho e modelo de honestidade e boa ordem em todas as
coisas. É necessário que eles se mostrem mais zelosos que os
outros no cumprimento dos seus deveres: mais idôneos para a

88
Os Cinco livros da Consideração

administração dos sacramentos, mais cuidadosos em instruir


os povos e mais circunspectos em se conservar numa casti-
dade perfeita. Que direi do povo? É o povo romano. Não
pude empregar menos palavras, nem, contudo, ser mais
expressivo, no que sinto dos vossos diocesanos. Que coisa
mais conhecida nos séculos passados, que a insolência e
fausto dos romanos? É gente estranha à paz, acostumada à
sedição. É áspera e intratável; e até ao presente ainda não deu
mostras de sujeição, senão quando não pode resistir. Eis a
chaga; pertence-vos tratar da sua cura, não vos é licito
dissimulá-la. Sorrides talvez na persuasão de que ela é
incurável. Não percais a confiança: o que se vos exige é o
cuidado e não a cura. Enfim, tendes ouvido estas palavras (Lc
10, 35): Tem cuidado dele, e não: cura-o ou dá-lhe a saúde.
Com verdade disse um poeta (Ovídio, Eleg. 10): Nem sempre
está no poder do médico curar o doente.
Mas julgo melhor citar um dos vossos. É São Paulo (I Cor
15, 10) quem diz: trabalhei mais que todos os outros. Não
diz: aproveitei mais que todos os outros, ou produzi mais
frutos que todos os outros; evitou com o máximo escrúpulo
uma expres- são tão insolente. Instruído pelo próprio Deus,
esse homem sabia que cada um há de receber a recompensa
segundo o seu trabalho, e não segundo o êxito alcançado. Por
isso entendeu que lhe era dado gloriar-se antes dos seus
trabalhos, que dos seus resultados, como vedes que também
ele declarou noutro lugar (II Cor 11, 23): Muito mais pelos
trabalhos. Rogo-vos, pois, que façais o que de vós depende,
que Deus da sua parte há de concorrer com auxílio
abundante, sem as vossas solicitudes e ansiedades. Plantai,
regai, ponde o vosso trabalho, e tereis cumprido o vosso
dever. O crescimento pertence a Deus, e não a vós, dá-lo
quando lhe aprouver. E, quando não lhe aprouver, nada
perdereis da vossa parte, conforme diz a Escritura (Sb 10,
17): Deus há de retribuir aos seus santos, conforme os seus
trabalhos.
São Bernardo de Claraval

Seguro é o trabalho, que a falta de êxito não pode inutili-


zar. Isto digo sem ofensa do poder nem da bondade de Deus.
Sei que o coração deste povo esta endurecido, mas pode Deus
suscitar dessas pedras filhos de Abraão. Quem sabe se estará
nos seus decretos mudar a ordem das coisas e perdoar lhes,
convertê-los e curá-los? Não me proponho, porém, delinear o
que Deus tem a fazer, desejo apenas persuadir-vos o que pela
vossa parte deveis fazer, e de que modo convém fazê-lo.
Mas eis um ponto mais melindroso e que me oferece não
pequena dificuldade. Por onde começarei a expor o meu
modo de pensar? Vejo bem que a resposta não se fará esperar.
Há de proclamar-se que é uma coisa que não esta em uso, por
não se poder negar que é justa. Pela minha parte, nem sequer
ousaria afirmar que ela não está em costume. Pois sei que o
tem estado, e por isso podia dizer-se que cessou de existir na
prática, mas não que caíra em desuso. Quem poderá dizer que
não está em uso uma coisa, que não só se estabeleceu de fato,
mas tem sido praticada por tempo considerável? Vou dizer o
que é, embora o faça debalde. E porque? Porque é coisa que
não há de agradar aos maiorais, mais amantes das grandezas
que da verdade.
Houve antes de vós pontífices que se dedicavam por com-
pleto a apascentar as ovelhas; que se gloriavam do nome e
ofício de pastores; que nada julgavam indigno da sua
majestade, senão o que era contrário a salvação das almas;
que não buscavam os próprios interesses, antes se
sacrificavam em proveito dos outros. Deram o seu trabalho,
deram os seus bens e deram-se a si próprios. Por isso um
deles disse: Eu próprio me entregarei pela salvação das
vossas almas (II Cor 12, 15). Como se dissera: Não viemos
para ser servidos, mas para servir os outros. Propu- nham-se
evangelizar gratuitamente, sempre que fosse oportuno. Um só
proveito, uma só glória, um só prazer pretendiam colher dos
90
seus súditos, - era encontrar algum meio de dispor esses

91
Os Cinco livros da Consideração

povos para servirem a Deus perfeitamente. Era neste intuito


que eles trabalhavam de todos os modos, e também com
muita contrição de coração e sofrimentos do corpo, em
fadigas e angústias, em fome e sede, em frio e nudez.
Que é feito deste costume, pergunto eu? Introduziu-se
outro muito diferente: mudaram-se profundamente os
intentos, e oxalá não fosse para pior. Confesso, no entanto,
que o cuidado, a ansiedade, à emulação e a solicitude ainda
persistem. Foram deslocados, mas não diminuídos. Posso
afirmar-vos que não se gasta menos que antes. A diferença
consiste apenas no emprego do dinheiro. Grande abuso!
Poucas pessoas olham para a boca do legislador, todos lhe
têm os olhos fixos nas mãos. Não é sem razão. São eles os
gerentes de todos os negócios papais.
De toda essa grande cidade, que vos reconheceu por Papa,
quem me apontareis que o haja feito sem dinheiro ou sem
esperança de recebê-lo? E deste modo, quando eles prome-
tem serviços, o que querem, sobretudo, é dominar. Tomam o
compromisso de ser fiéis, para terem ocasião mais oportuna
de prejudicar os que se fiarem neles. Desde então, não haverá
para vós conselho de que eles julguem dever ser excluído,
nem negócio secreto, em que não queiram tomar parte. Se
aconte- cer que algum deles se apresente porta e o porteiro se
demore, pouco que seja, não quereria eu então estar no lugar
dele.
E agora, por esta amostra, vede até que ponto eu conheço
os costumes desta nação. Primeiro que tudo são sábios para
prati- carem o mal, mas não sabem praticar o bem. Odiosos à
terra e ao Céu, contra ambos têm levantado as mãos: são
ímpios para com Deus, temerários a respeito das coisas
santas, sediciosos entre si, invejosos dos vizinho , desumanos
com os estrangeiros. Como não amam a ninguém, de
ninguém são amados; e, como querem que todos os temam,
forçoso é que de todos tenham receio. Não sofrem o jugo da
obediência, não sabem mandar;
São Bernardo de Claraval

são desleais aos superiores e insuportáveis aos inferiores. São


desvergonhados em pedir, obstinados em recusar. São
importu- nos para receber, impacientes até que recebam,
ingratos depois que recebem. Ensinaram a sua língua a
alardear muito, mas fazem pouco. Prometem este mundo e o
outro, mas são mui remissos em cumprir. Mostram-se
insinuantes em adular e são mordacíssimos em detrair;
rebuçam a simulação na máxima simplicidade e a traição na
mais refinada malícia.
A digressão que acabamos de fazer obedece ao
pensamento de vos informar nesta parte, mais amplamente e
mais a fundo, das coisas que estão em redor de vós. Voltamos
sem demora ao assunto.
Que detestável costume o de se assalariar gente, à custa
das igrejas, para vos fazer aclamações públicas! Semeia-se a
subsis- tência dos pobres diante da porta dos ricos. Brilha o
ouro na lama; corre-se de todos os lados e não é o mais pobre
que o apanha, mas o mais forte, ou quem correu mais veloz!
É verdade que este costume, ou antes esta morte não
começou no vosso tempo, mas oxalá que acabe nele.
Passemos a outras coisas. No meio de tudo isto, vós pros-
seguis coberto de ouro e todo resplandecente de brilhantes
ornamentos, apesar de serdes pastor. Que aproveitam com
isso as vossas ovelhas? Se eu ousasse falar, diria que tais
pastagens são antes de demônios que de ovelhas. Era assim
que procedia Pedro, era assim que se regozijava Paulo? Vedes
vós que todo o zelo eclesiástico se encaminha apenas a
sustentar a dignidade? Dá-se tudo a honra e pouco ou nada a
santidade. Se em algum caso oportuno tentardes ser um
pouco mais modesto e familiar, logo vos dirão: longe disso,
não convém, não é ao gosto do tempo, não se amolda a vossa
majestade; considerai a pessoa que representais. O
beneplácito de Deus trata-se de resto, não se lamenta a perda
92
da salvação, a não ser que se chame salutar

93
Os Cinco livros da Consideração

ao que é sublime e justo ao que é glorioso. Assim, entre os


pala tinos tudo o que é humilde é tido por desonroso, a tal
ponto que é mais fácil encontrar quem queira ser humilde do
que quem deseje parecê-lo. Olha-se o temor de Deus como
simplicidade, para mio dizer como loucura. Acusa-se de
hipócrita um homem discreto e de boa consciência. Chama-se
inútil quem ama o silêncio e o retiro.

CAPÍTULO III

Exorta-o com instância ao desempenho do seu ofício


de verdadeiro Pastor, usando menos do esplendor que de uma
inquebrantável firmeza de ânimo contra os rebeldes
e contumazes.

Que dizeis vós a tudo isto? Vigiais atento para que os que
vos cercam não vos envolvam nos laços da morte? Aturai-me
por um pouco e sofrei-me, eu vo-lo peço. Melhor ainda, per-
mita-me que vos diga estas coisas assim, com mais temor do
que temeridade. Amo-vos com amizade sincera, e praza a
Deus que ela vos utilize na mesma medida em que a sinto.
Sei onde habitais; tendes na vossa companhia incrédulos e
revolucio- nários. São lobos e não ovelhas, e, contudo, sois
Pastor deles. Grande descoberta fareis, se chegardes a
encontrar meio de os converter, para que eles não vos
pervertam. Porque razão desconfiamos nós que se possam
tornar em ovelhas os que de ovelhas puderam converter-se
om lobos? É aqui, é aqui que eu não quero poupar-vos, para
que Deus vos poupe. Ou negai que sois pastor deste povo, ou
mostrai que o sois. Não o negareis, com receio de que aquele,
de quem tendes a sede, não vos negue
São Bernardo de Claraval

por herdeiro. É Pedro, que nunca se viu andar nem ornado de


pedras preciosas, nem vestido de seda, nem coberto de ouro,
montado num cavalo branco, cercado de soldados, com um
séquito aparatoso de numerosos oficiais.
Sem dúvida entendeu ele que podia, desprovido de tudo
isso, cumprir o mandato do Salvador (Jo 21, 15): Apascenta
as minhas ovelhas. Nesse fausto não sucedestes a Pedro, mas
sim a Constantino. Aconselho-vos a sofrer esse luxo por
algum tempo, não a procurá-lo como uma coisa que vos seja
devida. Ao que vos exorto de preferência é a desempenhar-
vos dos vossos deveres. Embora vestido de púrpura, embora
coberto de ouro, nem por isso deixais de ser o herdeiro do
Pastor: não deveis ter horror às funções pastorais, nem
envergonhar-vos do Evangelho. Pelo contrário, se pregardes
o Evangelho de boa vontade, participareis da glória dos
Apóstolos. Evangelizar é apascentar. Fazei o ofício de
evangelizador e tereis cumprido
o dever de pastor.
- Aconselhais-me, direis vós, que apascente dragões e
escor- piões, e não ovelhas. - Por isso mesmo, vos digo eu,
importa usar com eles antes da palavra que da espada. Como
tenta- reis voltar a servir-vos da espada, que já uma vez
tivestes de embainhar? Dado o caso, porém, que alguém
negasse que tal espada vos pertença, parece-me que esse não
atenderia bastante a palavra do Senhor que diz assim: Mete a
tua espada na bainha (Jo 18, 11). É pois vossa, podeis usar
dela a vossa vontade, embora não devais desembainhá-la pela
vossa mão. Caso contrá- rio, se de nenhum modo vos
pertencesse, quando os Apóstolos disseram ao Senhor - Eis
aqui duas espadas (Lc 22, 38) - não teria Ele respondido: É
bastante, mas é demais. Ambas perten- cem, pois, à Igreja, a
espiritual e a material, mas esta deve ser desembainhada em
defesa da Igreja, aquela por autoridade da Igreja; a espiritual
94
pela boca do sacerdote, a material pela mão

95
Os Cinco livros da Consideração

do soldado, mas à vontade do sacerdote e sob o comando do


imperador. Mas disto trataremos em outra ocasião. Por agora,
lançai mão da que vos foi dada para castigardes os rebeldes,
e, se não podeis feri-los a todos ou a maior parte, para a
salvação, intentai ao menos curar quantos puderdes.
- Dir-me-eis talvez: “Não sou melhor que meus pais.
Quem houve dentre eles que não fosse desatendido e até
escarne- cido?” - Pois é por isso mesmo que mais deveis
porfiar, para que vos ouçam e encontrem a paz: insisti
também com os que vos resistem. Parecerei talvez exagerado
nesta minha lingua- gem. Mas é porventura minha a voz que
diz: Insiste oportuna e importunamente (II Tm 4, 2)?
Censurai esse excesso a São Paulo, se tanto ou sais. Ao
Profeta é ordenado (Is 58, 1): Clama em alta voz. Mas a
quem, senão aos celerados e pecadores? Anuncia, diz-se, ao
meu povo os seus crimes, e à casa de Jacó os seus pecados.
Notai prudentemente que ele fala em geral dos celerados e
do povo de Deus. De todos afirma a mesma coisa. Embora
sejam celerados e iníquos, tomai cuidado que não vos diga: O
que não fizeste ao mais pequenino dos meus, também a mim o
não fizeste (Mt 25, 45). Confesso que até ao presente este
povo se tem mostrado de dura cerviz e coração indômito,
mas que não seja capaz de se domar, não descubro de que
modo possais sabê-lo. Pode ele vir a ser o que ainda não foi.
Se pela vossa parte vos falta a confiança, para Deus é que
nada há de impossível (Lc 1, 37). Se são de dura cerviz,
redobrai também de esforços pela vossa parte. Nada há tão
duro que não ceda a outra dureza maior. Por um seu Profeta
diz o Senhor: Dei-te uma fronte mais dura que as deles (Ez 3,
8). Tereis satisfeito em absoluto ao vosso dever para com esse
povo, desde que possais dizer: “Que pude eu fazer por ti, ó
povo meu, que não tenha feito ?”. Se assim o houverdes feito,
mas sem proveito, ainda uma coisa vos resta a fazer e a dizer:
“Saí de Ur dos Caldeus”: E dizei-lhe: “É necessário que eu
São Bernardo de Claraval

vá evangelizar outras cidades” (Lc 4, 43). Estai certo de que


não vos arrependereis do vosso exílio, tomando por cidade
vossa toda a terra.

CAPÍTULO IV

Quais os conselheiros e cooperadores que o


Pontífice deve escolher. Expõem-se aqui com toda
a clareza as virtudes e costumes requeridos nos
prelados.

Falemos agora dos que estão ao vosso lado e são vossos


coad- jutores. São vossos privados, vossos íntimos. Por isso
mesmo, se forem bons, para vós o serão de preferência; se
forem maus, a ninguém como a vós será nociva a sua malícia.
Assim como não diríeis que estáveis de saúde, se vos
doessem as ilhargas; tam- bém vos não diríeis homem de
bem, pondo a vossa confiança nos maus. Ou, por outro lado,
se fordes bom, que fruto poderá produzir a vossa bondade
privativa? Como no livro anterior me recordo de ter
apontado, que proveito, repito, pode trazer à Igreja a vossa
justiça de um só homem, quando a opinião dos contrários tem
o predomínio? Nem é mais segura a vossa bondade assediada
pelos maus, que a vossa saúde na vizinhança de uma
serpente. Não vos é fácil estar de prevenção contra um mal
intestino. E, ao contrário, um bom doméstico ajuda tanto mais
quanto se recorre a ele com mais frequência. Mas quer vos
ajudem quer vos desgostem, a quem com mais razão caberá a
responsabilidade do que a vós, que assim os escolhestes ou
admitistes? Não falo de todos, porque alguns não os
escolhestes vós, foram eles que vos escolheram. Certo é,
porém, que eles só têm o poder que vós lhes dais ou permitis.
96
Voltamos, pois, sempre ao mesmo ponto: a vós mesmo
deveis imputar tudo

97
Os Cinco livros da Consideração

quanto sofreis, da parte de quem nada pode fazer sem


permissão vossa. Postas agora de lado estas coisas, bem vedes
que ninguém deve ser escolhido nem aceito
inconsideradamente para car- gos desta ordem. A exemplo de
Moisés (Nm 11) cumpre-vos chamar de toda a parte e fazer
vossos adjuntos anciãos e não jovens; anciãos que o sejam
não tanto pela idade como pelos costumes, e que vós
conheçais como anciãos do povo. Pois, não se deverão
escolher de todas as partes do mundo os que hão de ser juízes
do mundo?
Na verdade, cargo é este em que ninguém se deve ingerir
por empenhos. Neste negócio se deve proceder não sob a
influência de pedidos, mas com discreto conselho. Há coisas
que, ou a impertinência dos pedidos nos arranca, mau grado
nosso, ou a necessidade nos impõe. Isto se entende quanto às
nossas coisas particulares. Mas, quando me não é lícito fazer
o que quero, que lugar poderá ter um pedido? Salvo se quem
me pede fizer o seu pedido sob a condição de me ser lícito
satisfazê-lo. Alguém há que pede para outrem, mas aparece
talvez quem peça para si próprio. Tende por suspeito aquele
por quem vos podem. Quem pede por si e para si já está
julgado. Nem importa que um peça por si mesmo, ou por
intermédio de outrem. Todo o eclesiástico que frequenta a
cúria sem ser da cúria, pertence à classe dos ambiciosos; estai
certo disso. Vede como ele se mos- tra adulador e fala ao
paladar de todos a respeito de podidos, embora nenhum faça.
Nada há na cabeça do escorpião que vos amedronte, é com a
cauda que ele pica.
Se reconhecerdes que o vosso coração se comove com tais
adulações, como de ordinário acontece, lembrai-vos do que
está escrito: Todos os homens apresentam primeiro o bom vinho,
e depois que os convivas já estão inebriados, servem-lhes outro
inferior (Jo 2, 10). Tanta estima deveis fazer da humildade
como do temor de quem espera. É próprio de um manhoso e
embusteiro aparentar
São Bernardo de Claraval

muita humildade, quando quer conseguir alguma coisa; desse


diz a Escritura: Há pessoas que se humilham maliciosamente,
cujo coração está cheio de embuste (Eclo 19, 23). De vós
mesmo tomo exemplo evidente e familiar desta verdade.
Quantos haveis recebido na condição de suplicantes e que
pouco depois se têm tornado importunos, insolentes,
contumazes e rebeldes? Manifestam os últimos tempos o mal
interior que os primeiros nos haviam ocultado. Olhai como
inimigo da justiça um jovem falador, que presume de
eloquente e se mostra falho de pru- dência. É desses falsos
irmãos que vos fala o Mestre, quando pelo Apóstolo diz: A
ninguém imponhas as mãos com precipitação (1 Tm 5, 22).
Excluída, pois, por completo esta raça pestilenta de
homens, ponde o máximo cuidado em fazer escolhas de que
mais tarde não tenhais de arrepender-vos. Será assaz
vergonhoso para vós terdes de retratar o que fizestes; e mal
vos ficaria mostrar com frequência inconstância nas
resoluções. Por consequência, tudo quanto houverdes de
fazer, examinai-o bem por vós mesmo e em conselho com os
vossos amigos. Pensai bem antes de obrar, porque depois das
coisas feitas reconsiderar é voltar atrás. É conselho do Sábio:
Nada faças sem conselho, e não terás que te arrepender
depois das coisas feitas (Eclo 32, 24). E persuadi-vos de que é
difícil fazer experiência, na cúria, dos que para ela devem ser
escolhidos: e por isso, quanto possível seja, importa escolher
homens provados e não provandos.
Nos conventos recebemos de todas as classes, na
esperança de os regenerarmos, mas a praxe da cúria é antes
recebê-los bons, do que torná-los tais. Como sabemos que são
em maior número os bons, que se têm pervertido na cúria, do
que os maus que lá se têm melhorado, justo é que se
procurem pessoas, em quem a corrupção seja menos para
temer e a emenda para desejar, isto é, pessoas perfeitas.
98
Os Cinco livros da Consideração

Não aceiteis, pois, os que pedem e andam atrás dos empre-


gos, mas os que hesitam, os que recusam. Excitai-os a entrar,
constrangei-os mesmo. A meu ver, pode o vosso espírito des-
cansar seguro nestes, que não são desvergonhados, antes se
mos- tram honestos e comedidos, são homens que só a Deus
temem e só em Deus esperam. Não olham esses para as mãos,
mas para as necessidades dos que veem de longe. Porfiam em
advogar a causa dos aflitos e julgam com equidade a favor
dos mansos da terra. São exemplares nos seus costumes,
recomendáveis pela sua santidade, dispostos para a
obediência, exercitados na paciência, dóceis a disciplina,
severos na censura, católicos na fé, fiéis nos seus ministérios,
unanimes na paz e conformes na unidade. São - ou devem ser
- retos nos seus juízos, providen- tes nos seus conselhos,
discretos nas suas ordens; industriosos na disposição das
coisas, corajosos em executar; modestos nas palavras,
constantes na adversidade; devotos na prosperidades,
moderados no seu zelo; não devem ser mesquinhos na
compai- xão, preguiçosos no repouso; dissolutos em sua casa,
dissipados nos festins, inquietos a respeito dos cuidados
domésticos, ávidos do alheio, e pródigos do seu; em toda a
parte e em tudo devem ser circunspectos.
Quando for necessário exercer uma legação por amor de
Jesus Cristo, não se recusem desde que sejam mandados, nem
finjam que não receberam ordem alguma. É necessário que
não recusem com obstinação aquilo mesmo de que se
escusam por modéstia. Uma vez mandados, não vão atrás do
ouro, mas sigam a Jesus Cristo. Não ponham a mira nos
lucros da lega- ção, nem busquem presentes, mas sim o
proveito das almas. Aos reis devem os legados apresentar-se
como um João Batista, aos Egípcios como um Moisés, aos
luxuriosos como Píneas, aos idólatras como um Elias, aos
avaros como um Eliseu; aos mentirosos como São Pedro, aos
blasfemadores como um São
São Bernardo de Claraval

Paulo, aos negociantes como um Jesus Cristo. Instruam o


povo sem o desprezarem ; aterrem os ricos, sem os
lisonjearem; não sobrecarreguem os pobres, antes os
favoreçam; desprezem as ameaças dos príncipes, em vez de
as temerem. Não entrem nas assembleias com tumulto, nem
saiam delas em cólera; não despojem as igrejas, trabalhem em
reformá-las. Não sangrem as bolsas, antes refaçam os
corações e corrijam os crimes; zelem a própria reputação e
não invejem a alheia. Tenham em alta estima e pratiquem a
oração e, para todas as coisas, confiem mais nela do que na
sua indústria e trabalho. Se a sua entrada for pacífica, não
será molesta a sua saída. Com uma linguagem edificante e
uma vida justa, tornarão agradável a sua presença e
abençoada a sua memória. Mostrem-se amáveis, antes pelas
obras que pelas palavras; atraiam o respeito por suas virtudes
e não pelo fausto. Sejam humildes com os humildes,
inocentes com os inocentes, mas repreendam severamente os
endurecidos, reprimam os maus e retribuam aos soberbos o
que merecem. Tomem cautela, não corram a enriquecer-se a
si próprios ou aos seus com os bens das viúvas ou com o
patrimônio do crucifixo, dando gratuitamente o que de graça
receberam, julgando sem prestarem atenção aos que sofrem
injúria, tirando vingança das nações e gritando contra os
desvarios dos povos.
Em conclusão, que a exemplo dos setenta, façam ver a todo o
mundo que receberam do vosso espírito os santos
movimentos que os levam, quer ausentes quer presentes, a
trabalhar segundo a vossa vontade e o beneplácito de Deus.
Que regressem a vossa presença fatigados dos seus trabalhos,
sim, mas não carregados de despojos, que ao mesmo tempo
se gloriem, não de traze- rem consigo tudo quanto há de mais
singular e precioso nos países estrangeiros, mas de terem
deixado a paz aos reinos, a lei aos bárbaros, o repouso aos
100
mosteiros, a ordem às Igrejas,

101
Os Cinco livros da Consideração

a disciplina aos eclesiásticos, e a Deus um povo aceitável,


exer- citado em boas obras.

CAPÍTULO V

Recomenda-se com exemplos a recusa de presentes


e fulmina-se a arrogância dos oficiais do Papa.

Vem agora a propósito referir aqui o exemplo do nosso


amigo Martinho 4, de grata memória. Tiveste conhecimento
desse exemplo, mas não sei se o tendes na lembrança. Este
cardeal presbítero, tendo sido por algum tempo legado na
Dacia, voltou tão pobre, de dinheiro e de cavalos, que a muito
custo pôde chegar a Florença, onde o bispo lhe deu um cavalo
que o transportou a Pisa; estávamos lá nessa ocasião. Creio
que foi no dia seguinte, o bispo que tinha litígio com um
particular - litígio que tinha de ser julgado num dia próximo -
começou a recorrer a proteção dos seus amigos. Feitas as suas
instâncias, a cada um destes por sua vez, apresentou-se a
Martinho. Nele punha a sua maior confiança, por considerar
que não podia estar já esquecido de um benefício tão recente.
Então Martinho respondeu-lhe: “Vós enganastes-me, não
sabia que tínheis uma questão para ser julgada em breve.
Tomai o vosso cavalo que esta no estabulo”. E no mesmo
instante entregou-o.
Que me dizeis a isto, meu caro Eugênio? Não é uma histó-
ria de outro século, que um legado voltasse sem ouro da terra
do ouro? Que passasse pela terra da prata e não conhecesse a

4
Martinho foi criado Cardeal em 1.130. Se chamava “nosso” não por ter
per- tencido a Ordem Cisterciense, senão apenas por ser um amigo
São Bernardo de Claraval

prata? Que rejeitasse de pronto um presente que lhe podia ser


suspeito? Mas bendigo este incidente que me dá ocasião de
recordar um homem de excelente reputação: é Gofredo, bispo
de Chartres, que por muitos anos exerceu gloriosamente à sua
custa o cargo de legado apostólico na Aquitânia. Falo do que
eu próprio observei.
Achava-me com ele naquela terra, quando um sacerdote
lhe fez presente de um peixe, vulgarmente chamado esturjão.
O legado, depois de lhe perguntar quanto tinha custado,
acrescen- tou: não o recebo, sem que aceiteis o preço, e logo
lhe entregou o dinheiro, que o sacerdote envergonhado e
confuso teve de receber. Doutra vez, estávamos numa certa
aldeia; uma dama da localidade ofereceu-lhe por devoção
duas ou três travessas de madeira, mas belas, com uma
toalha. O santo olhou-as por algum tempo, elogiou o
trabalho, mas não as aceitou. Seria capaz de aceitá-las de
prata quem as recusava de madeira? Ninguém houve que
pudesse dizer ao legado: Enriquecemos Abraão (Gn 14, 23).
Mas podia ele com toda a liberdade dizer a todos, como
Samuel: Falai de mim diante do Senhor e do seu Cristo, vede
se me apossei do boi ou do jumento de alguém; se calu- niei ou
oprimi alguma pessoa; se recebi de alguém qualquer presente,
porque estou pronto hoje a largá-lo e fazer-vos a restituição (1
Rs 12, 3 na Vulgata) dele.
Ó, se fossem em grande número esses homens de que aca-
bamos de falar! Que felicidade então para vós, e que alegria
nestes nossos tempos! Se para qualquer lado que vos
voltásseis, sempre vos vísseis rodeado de uma tão ilustre
multidão de bem-aventurados, não vos parecia a felicidade
deste mundo semelhante a da eternidade?
Pelo conhecimento que tenho de vós, herdeiro das chaves,
imagino que arrancais um suspiro profundo e dizeis
convosco: Como será possível isto que se diz? Estaremos
10
2
neste mundo até

10
3
Os Cinco livros da Consideração

que isto aconteça? Quem me fará a graça de viver e ver estas


maravilhas? Ó, se na minha vida visse a Igreja do meu Deus
firmada em tais colunas! Ó, se visse a esposa do meu Senhor
confiada a pessoas de tanta fé e dotadas de tanta pureza! Que
maior felicidade, que maior segurança do que ver-me cercado
ao mesmo tempo de tão fiéis guardas e testemunhas da minha
vida? Seriam os confidentes de todos os meus segredos,
tomariam parte nos meus desígnios e neles descansaria como
noutro eu. Se algum dia eu quisesse extraviar-me, não me
consentiriam; se me vissem prestes a cair, haviam de lançar-
me a mão; se dormitasse, haviam de despertar-me. Esses
tomariam bastante autoridade e liberdade para me
reprimirem, se eu me exaltasse, para me corrigirem se eu me
excedesse. A sua constância e for- taleza me sustentaria
quando vacilante, me reanimaria quando desalentado.
A sua fé e santidade me estimularia a tudo quanto há de
santo, honesto, casto, amável e de boa recomendação. E
agora, meu caro Eugênio, lançai os vossos olhos para o
estado presente da Cúria, isto é da Igreja, e para as aspirações
dos prelados, principalmente dos que vos rodeiam.
Basta sobre este ponto. Apalpei a parede, não a perfurei.
Como filho de profeta, vos é lícito a vós penetrá-la e ver (Ez
8). A mim não me é dado avançar mais. Limito-me a dizer-
vos uma coisa que está sob os olhos de todos: é ridículo que
os vos- sos ministros procurem antepor-se aos vossos com
presbíteros. Isto não tem razão de ser, nunca se praticou, nem
a dignidade do caráter o consente. E, se a calúnia quer
autorizar-se com o seu costume, melhor faria em se abater,
que em transtornar a ordem suprema. De mais, é bem frívola
a razão em que princi- pal mente querem apoiar-se. - Somos
nós, dizem eles, que em todas as cerimônias assistimos mais
de perto ao santo Padre: se ele se assenta, assentamo-nos
junto dela; se caminha, somos
São Bernardo de Claraval

os primeiros a acompanhá-lo. - Tudo isto não é um privilégio


da sua dignidade, mas um dever do seu cargo, que o nome
de diácono significa, no mesmo ministério solene que exerce.
Responde-se-lhes: nas assembleias regulares, tomais assento aos
pés dos presbíteros que rodeiam a majestade do Papa. Assistis
mais de perto, para estardes mais prontos.
No Evangelho lemos que se levantara grande disputa entre
os discípulos, para saberem qual deles parecia ser o maior
(Lc 22, 24). Bem ditoso seríeis se todas as coisas em volta de
vós se conservassem assim.

CAPÍTULO VI

Visto que tem a seu cargo os deveres mais graves,


não pode o Papa distrair-se com os negócios domésticos,
que deve confiar a um ecônomo.

Já estou enfastiado da Cúria: é necessário que saiamos do


palácio e voltemos para casa, onde nos esperam. Os que lá se
encontram não estão somente em volta de vós, mas de certo
modo dentro de vós. Não é supérflua a consideração de
pordes em ordem a vossa casa, e proverdes aos que estão no
vosso convívio e no vosso grêmio. Digo até que ela vos é
necessária. Escutai São Paulo: Quem não é capaz de
governar a sua casa, como terá o cuidado necessário no
governo da Igreja (1 Tm 3, 5)? E noutro lugar: Quem não tem
cuidado dos seus, e principalmente dos seus domésticos,
renegou a fé e é pior que um infiel (1 Tm 5, 8). Dizendo isto,
não pretendo que vos ocupeis das coisas ínfimas, vós que
estais obrigado a cuidar das mais altas; nem que vos
rebaixeis, a ponto de dardes aos negócios mínimos, o

104
Os Cinco livros da Consideração

tempo que deveis aos máximos. Porque voltaríeis a enredar-


vos em embaraços de que Deus vos libertou? Todas estas
coisas, diz, vos serão acrescentadas (Mt 6, 33). É necessário,
todavia, fazer umas sem omitir as outras. Ao fazerdes por vós
mesmo umas, também vos incumbe escolher quem por vós se
encarregue das outras. Com efeito, se um só criado não basta
para se encarregar simultaneamente da cavalariça e da mesa,
como podereis vós dar-vos ao mesmo tempo aos negócios da
vossa casa e aos da casa do Senhor da qual esta escrito: Ó
Israel, coma é grande a casa do Senhor (Br 3, 24)? É
necessário que um espírito, preocupado com negócios tão
altos e tão numerosos, esteja desembaraçado da solicitude das
coisas baixas e vis. De tal modo deve ele estar livre que não
tenha de sofrer o assalto de nenhum cuidado importuno.
Deve ser muito natural, para não ceder a nenhum sentimento
indigno do seu caráter. Importa-lhe ser justo, para evitar o
extravio de qualquer intenção sinistra; cauleoso, para não
fazer suspeitas temerárias; vigilante, para não se distrair com
pensamentos estranhos e curiosos; constante, para que
nenhuma perturbação repentina o abale; invencível, para não
sucumbir a fadiga, no meio das tribulações contínuas; e
enfim, tão grande que nenhuma perda temporal o contriste.
Estai certo de que haveis de ser privado de todos estes
bens e acabrunhado de todos estes males, se dividirdes o
vosso espírito, querendo reparti-lo entre os negócios de Deus
e os vossos interesses domésticos. Deveis procurar quem
tome o vosso lugar nesses trabalhos. Digo quem tome o vosso
lugar, e não quem trabalhe convosco. Há coisas que devem
ser feitas por vós mesmo, outras simultaneamente por vós e
por outros; outras por pessoas particulares e sem vós. Quem
será bastante sábio, para compreender todas estas coisas?
Não é razoável que a vossa consideração dormite sobre isto.
Creio que deveis colocar os vossos negócios domésticos na
última categoria,
São Bernardo de Claraval

que acabo de apontar. Como disse, deveis administrá-los por


intermédio de outrem.
Esse pela sua parte, se não for fiel, há de enganar-vos; se
não for prudente, há de ser enganado. Deveis procurar, pois,
um ecônomo fiel e prudente, a quem confieis o governo da
vossa casa.
Mas ainda tudo isto será inútil, se falar uma terceira coisa.
– Qual?, perguntareis vós. Autoridade. De fato, que lhe apro-
veitará querer e saber dispor tudo como é necessário, se não
puder executar o que sabe e quer? Necessário é, portanto, que
lhe deis a faculdade de obrar a seu arbítrio. Se pensais que
este procedimento pode ir de encontro a razão, lembrai-vos
que um ecônomo fiel nunca quererá fazer coisa alguma
contra a razão; e atendei que, sendo prudente, saberá obrar de
perfeito acordo com a razão. A sua vontade fiel e engenhosa
será capaz de ope- rar prodígios, desde que se reconheça
emancipada de todos os obstáculos, e com recursos
abundantes, para levar de pronto a efeito os seus planos.
Todos se lhe hão de sujeitar. De ninguém terá de sofrer
contradição. Ninguém ousara dizer-lhe: “porque fizeste
assim?”. Tenha ele o poder de despedir e admitir quem
quiser, de mudar os empregados, de transferir os cargos para
quem quiser e quando lhe aprouver.
Deste modo a todos incutira temor, para a todos ser útil.
Governe-os a todos, com tal arte, que a todos e em tudo lhes
aproveite. Guardai-vos de dar ouvidos a delações secretas e
queixumes particulares contra ele; vede antes nelas os detra-
tores. E quereria que tomásseis para vós como geral esta
regra
- terdes por suspeito quem quer que tema dizer-vos em
público o que vos diz em particular. Se ele, porém, se recusar
a dizer em público o que, no vosso juízo, convier ser
publicado, tende-o como delator e não como acusador. É,
106
portanto, necessário que um só mande aos outros o que
devem fazer, e todos lhe prestem

107
Os Cinco livros da Consideração

contas. Tende confiança nele, e cuidai de vós, e dos negócios


da Igreja de Deus. Se vos deparar com algum que não seja a
um tempo fiel e prudente, confiai-vos de preferência ao fiel.
Das duas soluções é esta a mais segura.
À falta de um ecônomo digno, aconselho-vos a sofrer
antes alguma coisa a um menos fiel, do que meter-vos nesse
labirinto. Lembrai-vos que o Salvador teve por ecônomo
Judas.
Que coisa mais vergonhosa para um Bispo do que tomar
cuidado da sua mobília e das mais pequenas coisas: informar-
se de todas em geral e de cada uma em particular, deixar se
mor- der de suspeitas e irritar-se ao saber de quaisquer perdas
ou negligências? Isto digo para confusão de alguns, que todos
os dias passam revista aos seus haveres, fazem cálculos e
exigem conta minuciosa até das mínimas coisas! Não
procedia assim aquele egípcio (Gn 39) que tendo confiado
todos os seus bens a José, não sabia o que tinha em sua casa.
Envergonhe-se um cristão de não confiar em outro cristão.
Um homem sem fé teve fé no seu servo, a ponto de lhe dar a
intendência sobre todos os seus bens. E esse servo era um
estrangeiro.
É extraordinário! Têm os Bispos gente bastante a quem
con- fiem as almas, - e não encontrarão quem lhes administre
os proventos? Ótimos avaliadores das coisas, na verdade,
esses que dispensam grande cuidado a ninharias, e pouco ou
nenhum aos negócios da mais alta importância! Mas, como se
deixa ver as claras, o caso é que suportamos com mais
paciência as perdas de Jesus Cristo do que as nossas!
Examinamos com atenção as despesas de cada dia, e
desconhecemos os danos contínuos, que se dão no rebanho do
Senhor! Todos os dias se ajusta com os vendedores o preço
dos gêneros e o número dos pães, mas raras vezes, em
conferência com os sacerdotes, se trata dos pecados dos
povos! Se cai uma azêmola, há quem a alevante. Perece uma
alma, e não há quem tome cuidado dela! Nem isto
São Bernardo de Claraval

nos pode causar espanto, quando até nos mostramos


insensíveis aos defeitos próprios, em que caímos com
frequência. Pois, não é verdade que a cada conta que nos dão
nos iramos, exalamos e afligimos? Quão mais vantajoso nos
seria suportar a perda dos bons que a das almas? Porque
razão, pergunta São Paulo, não sofreis mais que vos enganem
(1 Cor 6, 7)?
A vós, pois, que ensinais os outros, peço-vos que vos
ensineis a vós mesmo, se é que não aprendeste ainda a fazer
mais estima de vós próprio, do que dos vossos bens
temporais. Procedei de modo que estas coisas transitórias,
que não se podem fixar em vós, por nenhum pacto, passem
além de vós e não por dentro de vós. Rio que transborda
escava a terra: assim a passagem das coisas temporais rói a
consciência. Se uma torrente pode passar pelos campos, sem
prejudicar as searas, crede que também vós podeis ocupar-vos
de todos estes negócios, sem detrimento para a vossa alma.
Aconselho-vos que empenheis todos os esforços para
afastardes de vós o concurso destas coisas. Muitas delas,
ignorai-as; o maior número dissimulai-as; algumas esquecei-
as. Contudo, algumas há que eu desejo não ignoreis: são os
costumes e disposições dos vossos domésticos. É necessário
que não sejais o último a saber das desordens da vossa casa, -
o que sabemos ter acontecido a muitos dos vossos
predecessores. Por isso, como já disse, confiai a alguém a
administração das outras coisas; a morigeração tomai-a a
vosso cuidado, a ninguém a confieis. Se na vossa presença se
proferir alguma palavra mais insolente, ou alguém se
apresentar com menos decência no vestuário, não poupeis o
castigo; vingai a injúria que vos é feita. Da impunidade
nasce a audácia, da audácia a insolência. À casa do Bispo
convém a santidade, convém a modés- tia, convém a
honestidade, das quais a disciplina é guarda. Os sacerdotes
108
que vivem com o Bispo ou hão de ser mais honestos que os
restantes, ou se tornarão objeto de mofa para todos.

109
Os Cinco livros da Consideração

Aos que estão em volta de vós, nada lhes consintais nem de


imprudente, nem de menos correto, tanto no rosto, como no
vestir no andar. De vós devem aprender os vossos irmãos no
episcopado, a não terem na sua companhia servos de cabelos
frisados e adolescentes vestidos à mundana. Claro é que os de
cabelos frisados não ficam bem no meio de mitrados. E lem-
brai-vos do aviso do Sábio: Tens filhas? ... não lhes mostres
rosto muito alegre (Eclo 7, 26).
Também não vos persuado que sejais severo; grave é que
deveis ser. A austeridade afugenta os fracos; a gravidade
reprime os levianos. A presença de aquela inspira ódio; a fala
desta gera desprezo: o meio termo é em geral o melhor.
Desejo, pois, que não sejais nem demasiado severo, nem
demasiado transi- gente. Que coisa mais agradável do que o
meio termo, que nem pela severidade vos torne insuportável,
nem pela familiaridade desprezado?
No palácio, mostrai-vos Papa; em casa, pai de família.
Fazei que os vossos domésticos vos amem; pelo menos, que
vos temam. Há sempre vantagem em falar pouco, contanto
que não se fale a graciosa afabilidade. Em toda a parte, pois,
se deve evitar a incontinência da língua, mas principalmente
nos banquetes. O melhor hábito, que podeis adotar, é fazer
trans- parecer a severidade nas vossas ações, a alegria no
rosto e a ponde ração nas palavras.
É necessário que os vossos capelães, e os que de ordinário
vos acompanham nos ofícios divinos, sejam respeitados. É do
vosso dever providenciar para que sejam dignos de tais
honras. Todos os devem honrar como a vós, e eles de vós
devem receber as coisas necessárias. Contentem-se com as
que lhes derdes, e pela vossa parte vede que nada lhes falte.
Se encontrardes algum que peça qualquer coisa aos que
veem a cúria, igualai-o a Giezi (4 Reg. 5, 27). Assim deveis
proceder
São Bernardo de Claraval

com os porteiros e restantes oficiais. São, porém, supérfluos


estes avisos, pois estamos lembrado de que já outrora,
assentas- tes esta boa ordem. Que coisa mais digna do vosso
apostolado? Que coisa mais salutar para vossa consciência,
mais honrosa para a vossa fama, e mais vantajosa para
exemplo de todos os povos? É uma regra excelente a que não
somente arranca a avareza do coração, mas o liberta das
arremetidas da calúnia.

CAPÍTULO VII

Epílogo ou resumo das qualidades requeridas no Pontífice.

Apraz-me concluir agora este livro, mas quero primeiro,


ou recapitular em epílogo as coisas anteriormente expostas,
ou acrescentar as omitidas.
Primeiro que tudo, considerai que a Santa Igreja Romana,
de que Deus vos fez chefe, é mãe e não dona de todas as
igrejas, e que vós não sois senhor dos bispos, mas um deles,
irmão dos que amam a Deus e confrade dos que o temem.
Depois, lembrai-vos que deveis ser a regra da justiça, o
espelho da santidade, o modelo da piedade, o sustentáculo da
verdade, o defensor da fé, o doutor das nações, o chefe dos
cristãos, o amigo do esposo, o paraninfo da esposa; diretor do
clero, pastor dos povos, mestre dos ignorantes, refúgio dos
opri- midos, advogado dos pobres, esperança dos miseráveis,
tutor dos órfãos, juiz das viúvas, olho dos cegos, língua dos
mudos; apoio dos velhos, vingador dos crimes, terror dos
maus, glória dos bons; vara dos poderosos, flagelo dos
tiranos, pai dos reis, moderador das leis, dispensador dos
cânones; sal da terra, luz

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0
Os Cinco livros da Consideração

do mundo, sacerdote do Altíssimo, Vigário de Cristo, e final-


mente o deus de Faraó.
Ficai certo do que vos digo; nosso Senhor vo-lo fará com-
preender. É necessário que vos armeis de sentimentos mais
que humanos, quando virdes a força associada à malícia.
Fazei que a vossa presença apavore os maus. Temam o
espírito da vossa cólera os mesmos que não temem nem os
homens nem a espada. Aproveite com a vossa prece quem
desprezou a vossa repreensão.
O mesmo contra quem vos irais julgue que não é um
homem, mas o próprio Deus que está irado contra ele. Quem
não vos tiver escutado tema que Deus vos escute contra ele.
Resta agora tratar das coisas que estão acima de vós: é o
que, com o auxílio de Deus, espero concluir no livro seguinte,
desempenhando-me assim ao mesmo tempo da promessa
feita.
LIVRO QUINTO
CAPÍTULO I

Em todo este livro se trata das coisas que estão


acima de nós, isto é, de Deus e das coisas divinas.

A
inda que os livros anteriores se intitulam - Da Con-
sideração - também, de mistura, muito se diz neles a
respeito da ação, quando se advertem e expõem algu-
mas coisas que não só devem ser consideradas mas postas em
prática.
O livro, porém, que agora temos nas mãos só trata da con-
sideração. Como é sabido, as coisas que estão acima de nós
não carecem de ação, precisam ser consideradas. Àquilo que
perma- nece e há de permanecer eternamente o mesmo, não
tendes que lhe dar andamento, como não o dais ao que existe
desde toda a eternidade. E isto, sagacíssimo Eugênio,
quereria eu que o notásseis bem, porque a vossa
consideração há de afastar-se do seu objeto todas as vezes
que descair das coisas divinas para as inferiores e visíveis;
quer seja para as conhecerdes e desejardes o seu uso, quer
para as dispordes e ordenardes segundo o dever. Se, todavia,
só olhardes as coisas terrenas, como meios para procurardes
as divinas, não será muito longo o desvio. Consi-
derá-las e usar delas assim é repatriar-se.
São Bernardo de Claraval

Em conformidade com a sabedoria de São Paulo, o uso


mais sublime e mais digno que se pode fazer das coisas
presentes é este: As coisas invisíveis de Deus tornam-se visíveis
pelo conheci- mento das coisas criadas (Rm 1, 20).
Por certo, não são os cidadãos, mas os exilados deste
mundo que necessitam desta escada. Bem o sentia o autor
desta sen- tença que ao dizer que as coisas invisíveis se
conhecem pelas visíveis, ajuntou expressamente: desde a
criação do mundo. Em verdade, para que precisa de degraus
quem já subiu ao trono? Tais são os bem-aventurados que já
veem a toda a luz o que antes só viam imperfeitamente: veem
o Verbo e no Verbo o que foi feito pelo Verbo. Não têm
necessidade de mendigar nas cria- turas o conhecimento do
Criador. Nem para o conhecimento das criaturas precisam
descer, porque na visão beatifica as veem de um modo
imensamente mais perfeito que em si mesmas.
Não têm, pois, que servir-se do intermédio dos sentidos
cor- porais, de si mesmos tiram o conhecimento. Excelente
modo de conhecer é esse, em que não só precisa de auxílio,
para atingir quanto se queira. Esse conhecimento
superabunda em consola- ção; os conhecimentos, que
carecem de auxílio são imperfeitos e menos livres.
Porque estais vós também dependente das coisas
inferiores? Não será isso contra a ordem, e indigno da vossa
categoria? É de fato uma certa injúria para as coisas
superiores torná-las depen- dentes das inferiores; mas
ninguém esta isento disso enquanto não entrar na liberdade
dos filhos de Deus. Então sim, esses serão ensinados de Deus
e ditosos só pela posse de Deus, sem a interferência de
criatura alguma. Será então o regresso à pátria, a saída do
mundo dos corpos para a região dos espíritos. Essa região é o
nosso Deus, espírito supremo, mansão suprema dos bem-
aventurados; e, para que o sentimento ou a imaginação nada
11
4
só atribua, é a verdade mesma, a sabedoria, o poder, a

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5
Os Cinco livros da Consideração

eternidade, o sumo bem. Mas por enquanto vivemos ausentes


da pátria, neste vale de lágrimas, em que reina a sensualidade
e a consideração permanece desterrada.
Aqui leem liberdade de ação os sentidos corporais, ao
passo que os espirituais se encontram em trevas. Que admira,
pois, que um estrangeiro careça do auxílio dos habitantes do
seu país? Feliz, contudo, esse viajante de breves dias, que
pode converter em utilidade própria o benefício de seus
concidadãos, de que não podia prescindir; feliz sim, se antes
usou do que gozou desse benefício; se foi antes sofredor que
pedinte, antes exator que suplicante.

CAPÍTULO II

Estabelecem-se vários graus e espécies de consideração.

Grande homem é aquele que se esforça por fazer servir


tanto o uso dos sentidos, como os recursos dos seus
semelhantes, sua própria salvação e de muitos. Não é menor
o que, me diante a meditação, se serve disso mesmo como de
um degrau para se atear ao conhecimento das coisas
invisíveis; a diferença deixa-se ver em que no primeiro há
mais de agradável, no segundo mais de útil: um é mais feliz,
outro mais forte. O maior de todos, porém, é aquele que,
desprezando o uso das coisas e dos sentidos, tanto quanto a
fragilidade humana lhe permite, tomou o hábito de se elevar
algumas vezes pela contemplação as coisas celestes, sem
acesso por degraus, mas por arroubos instantâneos. A esta
última espécie pertencem, creio eu, os arre- batamentos de
São Paulo: eram arroubos e não elevações. Pois, ele próprio
diz, não que subira, mas que fora arrebatado. Por
São Bernardo de Claraval

isso usava destes termos: Seja que nós tenhamos sido


transportados
a Deus em espírito (II Cor 5, 13).
É assim que estas três coisas se dão, quando a
consideração, mesmo neste lugar de exílio, - tendo-se tornado
senhora, pelo desejo da virtude e com o auxílio da graça, - ou
reprime a sensualidade para que não se faça insolente, ou a
obriga para que não se lhe escape, ou foge dela para não se
manchar. No primeiro estado é mais poderosa, no segundo
mais livre, no terceiro mais pura. É com efeito a um tempo,
nas asas da pureza e da alegria, que esse voo se opera.
Quereis que vos distinga pelos seus próprios nomes estas
espécies de consideração? Se vos apraz, chamamos a
primeira dispensativa, a segunda estimativa e a terceira
especulativa. Nas definições se manifestará a razão dos
nomes. A dispensativa é uma consideração que se serve dos
sentidos e das coisas sensí- veis com ordem e ligação para se
elevar até Deus. A estimativa é uma consideração, que
examina e pesa todas as coisas com prudência e exatidão,
para procurar a Deus. A especulativa é uma consideração que
se recolhe em si mesma e, ajudada quanto possível da graça,
se isola das coisas humanas para contemplar a Deus. Notais
bem, creio eu, que esta é o fruto das outras que, se não se
referirem a ela, poderão parecer, mas não ser o que lhes
atribuem. A primeira, desde que a perca de vista, semeara
Muito sem nada colher. A segunda, se não se dirigir para ela,
pôr-se-á a caminho mas não fará viagem. Portanto, o que a
primeira deseja, a segunda o sente e a terceira o gosta. Ainda
que também as outras conduzam a este gosto, é mais
tardiamente: a primeira chega lá com mais trabalho, a
segunda com mais lentidão.

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6
Os Cinco livros da Consideração

CAPÍTULO III

Os seres que estão acima de nós - Deus e os anjos –


investigam-se pela opinião, pela fé e pelo entendimento.

Agora me direis vós: tendes-me apontado bem por onde se


sobe, mas resta-vos ainda mostrar-me até onde é necessário
subir. Se o esperais, enganais-vos, porque não se pode dizer.
Pois, - julgais que eu possa dizer-vos o que nunca olhos
viram, nem ouvidos ouviram, nem ao coração do homem
assomou? Mas Deus, diz São Paulo, no-lo revelou pelo seu
espírito (I Cor 2, 10). Logo as coisas que estão acima de nós
não nos são ensi- nadas pela palavra, mas reveladas pelo
espírito. Porém, o que o discurso é incapaz de explicar,
importa que a consideração
o procure, a oração o peça, a santidade da vida o mereça e a
pureza o obtenha. Não imagineis que, falando-vos dos seres
que estão acima de nós, eu vos convide a considerar o sol, a
lua, as estrelas, o firmamento, ou as águas que pairam acima
dos céus. Todos esses seres, embora superiores quanto ao
lugar, vos são muito inferiores em valor e dignidade de
natureza, porque são corpóreos. Quanto a vós, a melhor parte
do vosso ser é espiritual, e debalde procurareis algum ser que
lhe seja superior e não seja espírito. Espírito é Deus, espíritos
são os anjos e por isso estão acima de vós, mas Deus por
natureza e os anjos por graça. É verdade que, em vós e no
anjo, uma coisa há excelente - a razão, mas em Deus não há
somente alguma coisa excelente, todo Ele é perfeição infinita.
Para se elevar a Deus e aos espíritos bem-aventurados que
estão com Ele, tem a consideração três processos que são
como três caminhos, - a opinião, a fé e o entendimento.
Destes três, o entendimento funda-se na razão, a fé na
autoridade e a opinião só se apoia
São Bernardo de Claraval

na verossimilhança. As duas primeiras possuem a verdade


com certeza, mas a fé como obscura e velada, o entendimento
às claras e manifesta. A opinião, como nada tem de certo,
procura a verdade pela verossimilhança antes de atingi-la.
Neste ponto, o que acima de tudo se deve evitar é a
confusão, para que nem a fé se detenha na incerteza da
opinião, nem a opinião ponha em dúvida o que se acha fixado
e definido pela fé. E isto importa que se faça, porque a
opinião é temerária, quando se crê em segurança; por sua
vez, a fé é fraca, quando hesita. De um modo análogo o
entendimento, desde que tente invadir os limites da fé,
torna-se réu por querer perscrutar os segredos da Majestade.
Muitos tomaram a sua opinião como entendimento, e
enganaram-se. Em verdade, a opinião pode passar por
entendimento, mas não o entendimento por opi- nião. Qual
a razão disto? É que a opinião pode enganar-se e o
entendimento não. Se este pudesse enganar-se, deixaria de ser
entendimento para ser opinião, porque o verdadeiro entendi-
mento não tem como certa a verdade, mas a notícia da
verdade. Podemos dar as suas respectivas definições do
seguinte modo.
A fé é um certo antegosto voluntário e certo de uma verdade
que ainda não é evidente. O entendimento é um conhecimento
seguro e evidente de coisas invisíveis. Opinião é a crença de
que é verdadeira alguma coisa, que não se sabe se é falsa.
Como disse, pois, a fé nada tem de incerto, ou, se o tem, não
é fé, mas opinião. Em que se diferencia, portanto, do
entendimento? Em ser obscura, ao contrário do entendimento,
embora como ele nada tenha de incerto.
Finalmente, o que entendestes bem não é o que
procuráveis de mais alto, ou, se o é, não o entendestes. Nada
há, porém, que tanto desejemos saber, como o que já sabemos
pela fé. Quando essas coisas, de que já estamos certos pela fé,
11
8
se nos tornarem evidentes, nada nos falará para a nossa
felicidade.

11
9
Os Cinco livros da Consideração

CAPÍTULO IV

De que modo havemos de considerar e


conhecer os espíritos bem-aventurados,
cidadãos do Céu.

Expostas assim estas coisas, é tempo de alevantarmos a


con- sideração para a Jerusalém celeste, que é nossa mãe, e
investi- garmos com tanta prudência como atenção, por todas
as três mencionadas vias, as coisas que nos são
desconhecidas; isto, porém, na medida em que nos for
permitido, ou antes, que aprouver a Deus ensinar-nos. E, em
primeiro lugar, conside- raremos que esses cidadãos são
espíritos poderosos, cheios de glória, bem-aventurados,
distintos em pessoas, dispostos em dignidades, fixos desde o
princípio na sua ordem, perfeitos no seu gênero, etéreos
quanto ao corpo5, imortais, impassíveis, não criados, mas
feitos, isto é, pela graça, não pela natureza; puros de espírito,
benignos de afeto, piedosos na religião, íntegros na castidade,
indivisíveis na sua união, inalteráveis na paz; e que Deus
produziu, para se dedicarem ao seu serviço e divinos
louvores. Tudo isto sabemos pela leitura e cremos pela fé.
Mas quanto aos corpos desses espíritos duvidam alguns não
só de onde foram formados, mas se de fato os possuem.
Se alguém, pois, julgar discutível esta questão, não me
opo- nho a isso6.
5
No tempo de São Bernardo era impossível a questão de se os anjos tem
corpo ou não. Agora não é mais, posto que é absolutamente certo que são
comple- tamente incorpóreos
6
Nota do Tradutor - Contra os Albigenses e outros hereges definiu o 4.º
con- cílio de Latrão que Deus por sua virtude onipotente tirou ao mesmo
tempo do nada, desde o princípio, todas as criaturas, as espirituais e as
corporais, isto é as angélicas e as mundanas; e depois a criatura humana,
constituída como de comum com o espírito e o corpo. Não há, pois, margem
para discussão, visto que só o homem encerra
São Bernardo de Claraval

Que são inteligentes sabemo-lo nós, não pela fé nem pela


opinião, mas pela nossa própria inteligência, porque não
podiam gozar de Deus, sem ao mesmo tempo O conhecerem.
Também de ouvido sabemos alguns nomes, pelos quais
podemos con- jecturar e discernir os ofícios, méritos,
hierarquias, e ordens desses espíritos bem-aventurados;
embora os mortais pela audi- ção não tenham disso inteira
certeza. Mas o que não temos recebido pelo ouvido não pode
ser da fé, porque o Apóstolo diz: A fé pelo ouvido (Rm 10,
17). Logo é emitindo opinião que assim falamos. Com efeito,
a que propósito teriam vindo ao nosso conhecimento os
nomes desses espíritos celestes, se não nos fosse lícito, salva
a fé, raciocinar a respeito dos seres que tais nomes
representam? Os nomes são: anjos, arcanjos, virtu- des,
potestades, principados, dominações, tronos, querubins e
serafins.
Que significam eles? Acaso nenhuma distância vai dos
sim- ples anjos aos chamados arcanjos? Qual a razão de ser
desta distinção gradual?
Podemos crer - se não haveis cogitado alguma explicação
mais razoável - que se chamam anjos os que foram dados
como guardas a cada homem em particular, conforme a
doutrina de São Paulo: Enviados a serviço dos que recebem
a herança da salvação (Hb 1, 16). Deles diz o Salvador: Os
seus anjos veem sempre a face de meu Pai (Mt 18, 10).
Podemos crer que os arcanjos são superiores a estes,
participam dos divinos misté- rios e só são encarregados das
missões extraordinárias e mais importantes. Do número
destes era o arcanjo Gabriel (Lc 1), enviado a Maria, para
uma missão incomparável.
Cremos que acima destes estão as virtudes, que têm o
poder e liberdade de operar prodígios nos elementos, e servir-
se deles
12
0
as duas substâncias.

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1
Os Cinco livros da Consideração

para terror dos mortais. Daí talvez a razão de se ter nos evan-
gelhos: Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas, e pouco
depois: porque as virtudes dos céus serão abaladas (Lc 21,
26), isto é os espíritos que produzem os sinais. Seguem-se
mais acima as potestades, que encadeiam os poderes das
trevas e obstam a malignidade deste ar empestado, para que
não faça todo o mal de que é capaz, ou o faça com vantagem
nossa. Podemos crer que lhe são superiores os principados,
por cuja virtude e sabedo- ria todos os principados da terra
são estabelecidos, governados, limitados, transferidos,
cerceados e mudados.
As dominações excedem tanto a todas as ordens
precedentes, que estas categorias, à vista delas, parecem
espíritos destinados apenas a servir; e às dominações se deve,
como a senhores, dar conta do governo dos principados, da
proteção das potestades, das operações das virtudes, da
revelação dos arcanjos, do cui- dado e providência dos anjos.
Muito mais acima se alteiam os tronos, assim chamados
porque estão sentados, e estão sentados porque Deus repousa
neles. Pois não poderia repousar neles, se não estivessem
sentados.
Perguntar-me-eis o que entendo por essa posição? Uma
tranquilidade suma, uma serenidade placidíssima, uma paz
que excede todo o entendimento. Tal é o Senhor dos exércitos
que repousa nos tronos, a julgar todas as coisas com
tranquilidade,
- placidíssimo, sereníssimo, pacatíssimo. E estabeleceu os tronos
similíssimos a si mesmo. Entendamos que os querubins
haurem da própria fonte, que é a boca do Altíssimo, as
torrentes da sabedoria, para as difundirem por todos os seus
concidadãos. será talvez dessas torrentes que fala o
Profetarei: Uma torrente impetuosa que alegra a cidade de
Deus (Sl 45, 5). São os serafins espíritos, totalmente
abrasados no fogo divino, que por toda a parte o comunicam,
para que os seus concidadãos sejam outras
São Bernardo de Claraval

tantas lâmpadas ardentes e luminosas: ardentes em caridade,


luminosas em conhecimento.
Ó meu caro Eugênio, como nos faz bem esta consideração
aqui, e quanto melhor nos será se um dia entrarmos de todo,
onde agora só penetramos em parte! Transportamo-nos até lá
em espírito, mas nem sequer o espírito lá se eleva todo, -
apenas em parte e parte demasiado pequena.
Definham os nossos afetos, sob o peso da carne, e
permane- cem os desejos apegados ao todo; só a consideração
árida e fraca se alevanta até lá. E, contudo, graças a essa
pequena satisfação que já nos é dada, apraz-nos exclamar:
Senhor, tenho amado a beleza de vossa casa e o lugar em
que habita a vossa glória (Sl 25, 8). Que será se a alma se
recolher em si mesma, se retirar todos os seus afetos das
prisões em que jazem cativos, temendo o que não é para
temer, amando o que não convém amar-se, doendo-se em
vão, gozando ainda mais em vão: se soltar o seu voo para o
Céu, com todas as suas forças e em plena liberdade, se até lá
se transportar com todo o ardor e irromper com a abundância
da graça? Quando começar a percorrer as man- sões da luz, e
a perscrutar mais de perto esse glorioso seio de Abraão, e a
visitar sob o altar, qualquer que ele seja, as almas dos
mártires que, revestidas já da primeira estola, esperam com a
máxima paciência a segunda, - então porventura não
exclamará veemente, dizendo com o Profeta: Uma só coisa
tenho pedido ao Senhor e continuarei a pedir com instância, é
que todos os dias da minha vida permaneça na casa do Senhor,
para que conheça a sua vontade e visite o seu templo (Sl 26,
4)? Como ai se verá o coração de Deus? Como ai se provará
quanto a vontade de Deus é boa, complacente e perfeita?
Vontade boa em si mesma, aprazível nos seus efeitos, doce
para os que a gozam, perfeita para os perfeitos e para os que
a ela aspiram. Lá estão patentes as entranhas de misericórdia,
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2
Os Cinco livros da Consideração

os pensamentos de paz, as riquezas de salvação, os mistérios


da boa vontade, os segredos de benignidade, que são ocultos
aos mortais e suspeitos aos próprios escolhidos. Isto, porém,
lhes é salutar, para que não cessem de temer, até que se
tornem capazes de amar dignamente.
Nesses que se chamam serafins, pode ver-se como ama
Aquele que não tem razão de amar, mas que nada odeia do
que fez; como acaricia os que fez para serem salvos; como os
exalta e abraça; como aquele fogo, consumindo os pecados da
juventude escolhida e as palhas da sua ignorância, a torna de
todo o ponto límpida e digníssima do seu amor!
Nos querubins, que são chamados a plenitude da ciência,
pode reconhecer-se que é Deus o Senhor das ciências, único
estranho à ignorância, que é todo luz e exclui todas as trevas;
que é todo olho, que nunca se engana, porque nunca se fecha;
não procura fora de si a luz, nem precisa de se aproximar para
ver: vê por si, é a luz de si próprio.
Nos tronos, se pode ver que o juiz que neles se assenta não
pode ser suspeito à inocência; não quer surpreender ninguém,
e não pode ser surpreendido, porque ama e vê. É uma
judicatura que não se interrompe: eis a prova da sua perfeita
tranquilidade. Desejo que o meu julgamento seja feito por um
tal Juiz, tão amante, tão isento de erro e de perturbação.
Nas dominações, se pode ver quanto é excelsa a majestade
de Deus, cujo império subsiste só pela sua vontade, e cujo
poder só tem por limites o universo e a eternidade.
Nos principados, se pode ver o princípio de todos os seres,
e como pela sua providência é governado todo o universo, à
semelhança da porta regida pelo gonzo.
Nas potestades, se pode ver com que autoridade o mesmo
Príncipe protege os que governa, afastando e repelindo os
pode- res contrários.
São Bernardo de Claraval

Nas virtudes, se pode ver que há uma força que por toda a
parte se difunde igualmente, que da o ser a tudo, que vivifica,
que opera, que é invisível, que é imóvel o, no entanto, move
todas as coisas e as sustenta com firmeza. Algumas vezes esta
força faz surgir aos olhos dos homens efeitos extraordinários,
que se chamam milagres ou prodígios.
Finalmente, nos anjos e arcanjos, pode ver-se e admirar-se
a verdade, e prática daquela expressão de São Pedro: Ele
próprio cuida de nós (1 Pd 5, 7), porque não cessa de nos
consolar com as visitas de tais e tantos espíritos, de nos
instruir com as suas revelações, de nos advertir com seus
avisos, de nos solicitar com suas instâncias.

CAPÍTULO V

Graças e dotes derivados de Deus para os anjos.

O mesmo Espírito único e supremo, que deu o ser a estes


espíritos, lhes conferiu todas estas prerrogativas, repartindo-
as e dando-as conforme lhe apraz: neles opera estas coisas e
lhes da faculdade de as realizarem, ainda que de modos
diversos. São abrasados os serafins, mas do fogo de Deus, ou
antes, do fogo do amor, que é o próprio Deus. O que neles há
de maior é o amor, mas não amam, nem tanto como Deus,
nem do modo que Deus ama.
Resplandecem os querubins o avantajam-se pela ciência,
mas só participam da verdade, e por isso não são como a
verdade, nem tanto quanto a verdade. Estão assentados os
tronos, mas por benefício de Quem neles se assenta. E
também eles julgam com tranquilidade, mas não na medida
e a maneira da paz

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4
Os Cinco livros da Consideração

pacificante, da paz que excede todo o entendimento. Têm as


dominações o senhorio, mas dominam sob as ordens do
mesmo Senhor, a quem servem. Que comparação, pois, a
deste domínio particular, com o domínio supremo e
sempiterno?
Presidem e governam os principados, mas eles próprios
são governados; se cessassem de ser governados, cessariam
também de governar.
Excedem as potestades pela fortaleza, mas o que lhes dá a
força é forte de outro modo e mais, porque é a própria
fortaleza. As virtudes, conforme o seu ministério e poder,
procuram excitar os corações dormentes dos homens, pelo
movimento dos astros, mas operam pela força que nelas
existe. Obram elas de fato, mas cm comparação de Deus
nada fazem. Enfim, a diferença é tal que o Salmista diz
singularmente a Deus: Sois vós o Deus que operais
maravilhas (Sl 77, 4). E em outro lugar: Só Ele é quem opera
grandes prodígios (Sl 135, 4). Estão próximos de nós os anjos e
os arcanjos; mais ainda o anjo custódio, que não só está
próximo de nós, mas em nós. Se me disserdes que um anjo
pode estar em nós, não o negarei. Recordo-me de que esta
escrito: E o anjo que falava em mim (Zc 1, 13). O modo de
estar é diferente. O anjo que existe em nós inspira-nos o
bem, não o traz de fora: exorta-nos ao bem, não produz o bem
em nós. Pelo contrário, Deus esta de tal modo em nós, que
nos comunica e infunde o bem, ou antes infunde-se em nós e
compenetra-nos tão intimamente que o Apóstolo não hesitou
dizer - que Ele é um mesmo espírito com o nosso, embora
não seja uma mesma pessoa, nem uma mesma substância:
Quem se une a Deus é com Ele um só espírito (1 Cor 6, 17).
O anjo, pois, está com a alma, Deus está na alma. O anjo está
na alma como tabernáculo, Deus como vida dela. Portanto,
assim como a alma vê pelos olhos, ouve pelos ouvidos, sente
o olfato pelo nariz, experimenta o gosto pelo paladar, e o
tato em todo o
São Bernardo de Claraval

resto do corpo, assim Deus opera coisas diversas nos diversos


espíritos: em uns, por exemplo, manifesta o amor, em outros
o conhecimento, em outros a ação; assim a manifestação do
seu espírito é dada a cada um para sua própria utilidade (1
Cor 6). Quem é, pois, aquele que nos é tão familiar nas
palavras e tão afastado nas coisas? De que modo é esse a
quem falamos por palavras nossas, quando está escondido na
sua majestade, e se escapa inteiramente as nossas vistas e
afetos? Escutai o que Ele próprio diz aos homens: Tanto os
céus estão acima da terra, como as minhas vias se acham
distância das vossas, e os meus pensamentos dos vossos (Is 55,
9).
Diz-se que amamos e o mesmo se diz de Deus; diz-se que
conhecemos e o mesmo se diz de Deus. E deste modo nos
exprimimos a respeito de outras coisas. Mas Deus ama como
caridade, conhece como verdade, julga como equidade,
domina como majestade, dirige como princípio, defende
como salvação, opera como virtude, revela como luz, assiste
como piedade. Tudo isso fazem os anjos e nós também, mas
de um modo muito mais inferior, não pelo bem que somos,
mas por aquele de que participamos.

CAPÍTULO VI

O ser princípio e essência só convém propriamente a Deus.

Elevemo-nos agora de pronto acima desses espíritos, e


pela vossa parte, se podeis, dizei como a esposa do cânticos:
Poucos passos adiante, depois de me avistar com eles (com
os guardas da cidade), encontrei o Amado da minha alma (Ct
3, 4). Quem é ele? Por certo, nada posso encontrar de melhor
12
6
do que Aquele que

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Os Cinco livros da Consideração

é. Foi a resposta que Ele próprio quis que se desse do si, foi o
que por Moisés mandou dizer ao povo; foi o que acrescentou:
Aquele que é mandou-me para vós (Ex 3, 14). Com toda a
razão. Nada mais conforme com a eternidade, que é o próprio
Deus. Se dissermos que Deus é bom, grande, ditoso, sábio,
etc., tudo esta incluído nesta palavra - É o que é. Porque ser
tudo isso é o seu próprio ser. Se lhe ajuntardes mais cem
títulos semelhantes, não vos afastastes do seu ser. Com o que
lhe atribuir, nada lhe acrescentais; com o que deixais de lhe
atribuir, nada lhe dimi- nuis. Ao considerardes este Ser, tão
singular e soberano, não pensais acaso que, em comparação,
tudo quanto não é Ele vos parece antes não ser do que ser?
Mas o que é Deus? Aquilo sem o que nada é. É tão
impossível que alguma coisa exista sem Ele, como Ele existir
sem o seu próprio ser. Ele próprio é o seu ser, e o de todos os
seres. De certo modo, pois, é ser único, visto que é o ser de si
próprio e o de todas as coisas. O que é Deus? O Princípio. E
foi isto o que Ele próprio respondeu de si ( Jo 8, 25).
Enumeram-se nas coisas muitos princípios, mas secundários.
Desde que se olhe para o passado, é esse Princípio que se
encontra. Por conse- quência, quem procurar um princípio
verdadeiro e simples é forçoso que encontre um Princípio
sem princípio.
De nenhum modo pode ter tido começo um Ser em quem
tudo começou. Se tivesse começado, havia de ter começado
em outro, porque nada começa a existir por si mesmo; salvo
se se imaginar que aquilo que não existia se podia dar a si
mesmo a existência, ou que uma coisa existira antes de
existir. Como, porém, ambas estas hipóteses são contrárias à
razão, segue-se que nenhum ser pode dar o princípio a si
mesmo. Logo o ser que leve princípio não pode ser primeiro
Princípio: o primeiro Princípio nunca começou, antes foi ele
o começo de tudo.
São Bernardo de Claraval

O que é Deus? É Aquele de quem os séculos nunca se


apro- ximaram nem distanciaram, sem todavia lhe serem co-
eternos. O que é Deus? Aquele de quem, e por quem e em
quem foram feitas todas as coisas (Rm 11, 36). Por quem ou
pelo qual - do qual todas as coisas saíram por criação, e não
por geração. Por quem - para que não se pensa que há outro
autor ou arquiteto do universo. No qual, não como num lugar,
mas pelo seu poder. Ex quo omnia, - como Princípio único,
Autor de tudo. Per quem omnia, - para não se introduzir um
segundo princípio operador. In quo omnia, - para que não se
admita um terceiro princípio localizado. Do qual e não de
que, porque Deus não é matéria, é a causa eficiente e não
material. Debalde inquirem os filósofos uma matéria; Deus
não carece de matéria. Não procurou Ele nem oficina nem
artista. Por si, em si próprio fez todas as coisas. Mas de quê?
Do nada. Se as houvera feito de alguma coisa, essa não seria
feita por Ele, por isso mesmo as não teria feito todas. Não
imagineis que Ele tenha feito da sua substância incor- rupta e
incorruptível todas as criaturas, boas, mas corruptíveis.
Perguntais-me acaso: se todos os seres estão nEle, onde esta
Ele próprio? Não vo-lo posso dizer. Que lugar poderá
contê-lo? Perguntais onde é que Ele não está? Nem isso vos
posso dizer. Deus é incompreensível, mas já não
compreendeis pouco, se isto compreenderdes: que não está
em nenhuma parte, que não se encerra em nenhum lugar e de
nenhum lugar é excluído. De um modo sublime e
incompreensível, assim como todas as coisas estão nEle, Ele
está em todas as coisas. Finalmente, como diz o evangelista:
Ele estava no mundo (Jo 1, 10). Por outras palavras, está
agora onde estava antes que o mundo fosse feito. Não se
pergunte mais onde estava; fora dEle nada existia por si
mesmo.

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Os Cinco livros da Consideração

CAPÍTULO VII

Deus é simples e trino.

O que é Deus? - O que se pode conceber de mais


excelente. Se estais de acordo nisto, não é necessário que
admitais que haja alguma coisa que seja Deus, e que coisa
excelsa Deus não seja, pois sem dúvida essa coisa será o que
se concebe de melhor. E como não seria isso alguma coisa de
melhor que Deus, se Deus não fosse essa mesma coisa que
lhe desse o ser? Ora nós confessamos que, melhor que aquela
divindade a que7 eles chamam Deus, nada existe senão Deus.
Logo em Deus só há Deus. - Como assim, replicam eles:
negais que em Deus haja a divindade? - De nenhum modo,
mas é Ele próprio que a possui; Ele é isso mesmo. - Negais
que a divindade é Deus? - Não, o que negamos é que haja
nEle alguma outra coisa que Ele próprio. Quanto a vós, se
alguma outra coisa encontrastes, contra ela ou contra a
quaternidade, mediante o auxílio de Deus trino, ousamos
protestar com toda a nossa contumácia.
A quaternidade divide o mundo, mas não assinala a divin-
dade. Deus é a Trindade; em Deus há três Pessoas distintas.
Se vos apraz ajuntar uma quarta divindade, cremos pela nossa
parte que de nenhum modo devemos adorá-la, porque essa
não é Deus. Cremos que também vós conosco adorareis o
Senhor vosso Deus, e só a Ele servireis (Lc 4, 8). Que
gloriosa divindade a que não o usasse atribuir-se nenhuma
honra divina! Quanto a nos, antes abominamos essa quarta
divindade, do que nos prestamos a recebê-la sem honra.
Mesmo no sentido católico
7
Esta argumentação era contra hereges que admitiam a quater-
nidade na divindade.
São Bernardo de Claraval

se diz em verdade que há em Deus muitas coisas, mas todas


são uma só. Se as olhássemos como diversas, não teríamos
uma quaternidade, mas uma centenidade.
Aí vai um exemplo: dizemos que Deus é grande, bom,
justo, e uma infinidade de coisas semelhantes; mas, se não as
consi- derarmos como uma só coisa em Deus, e com Deus,
teremos um Deus múltiplo.
Nem nos faltam razões para pensar que nada de melhor se
pode conceber que um Deus assim.
- E como então, perguntareis vos? - Uma pura
simplicidade. No exato juízo das coisas, a natureza simples é
preferível a múltipla. Sabemos o que a isto se costuma
responder. - Não afirmamos, dizem, que todas as coisas se
congregam em Deus, mas que há uma só divindade em que
elas estão todas. - Logo admitis um Deus, se não múltiplo,
ao menos duplo, e não chegastes ainda ao ser puramente
simples, ao melhor que se pode conceber. O que está sujeito a
uma só forma tem tanto de simples, como teria de virgem
uma donzela que tivesse sido conhecida por um só homem.
Ouso dizê-lo: nem sequer um Deus que fosse duplo, seria o
nosso, porque nós temos outro melhor. Confessamos que
preferíamos o que só fosse duplo a outro mais extenso em
número e mais múltiplo, mas votamos-
-lhe inteiro desprezo, em presença do Deus simples.
É este o nosso Deus catolicamente. Tanto não tem isto e
aquilo, como não tem estas e aquelas coisas. É o que é, e não
é essas coisas. É puro, simples, íntegro, perfeito, subsistente
por si mesmo, nada tomando para si nem dos tempos, nem
dos luga- res, nem das coisas; nada de si depondo nelas, nada
tendo em si, que se divida quanto ao número, nem que se
possa reduzir a unidade. Porque é um, e não uma coisa unida.
Não consta de partes, como os corpos: não muda de
sentimentos, como a alma: não subsiste em formas, como
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tudo o que é criado, e

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1
Os Cinco livros da Consideração

nem mesmo reveste um só forma, como alguns têm pensado.


Na verdade, seria tributar a Deus um grande louvor, dizer que
Ele se contentava com uma só forma para se isentar de muitas
outras. Seria dizer que Deus a uma só coisa deve o que é, ao
passo que os outros o devem a muitas.
Como, pois! Aquele a quem todas as criaturas devem o seu
ser, terá de reconhecer algum benfeitor do seu ser? Esta lin-
guagem - como vulgarmente se diz - vale por uma blasfêmia.
Porventura não vale mais não carecer de nada, do que carecer
de uma só coisa?
Prestai, pois, a Deus a reverência de lhe tributardes o que é
mais excelente. Se o vosso coração pode erguer-se até lá,
como deixareis abaixo o vosso Deus? Ele próprio é a sua
forma, Ele próprio é a sua essência. É neste degrau supremo
que nós o contemplamos; e, se outro mais elevado
conhecêssemos, de preferência lhe daríamos. Seria acaso
para temer que o pensa- mento subisse ainda acima dEle? Por
mais alto que o pensa- mento suba, sempre Deus lhe fica
muito mais acima. É ridículo procurar o Altíssimo abaixo do
que o homem pode conceber; mas assentá-lO ai é uma
impiedade. É necessário procurá-lO além, não aquém.
Alteai-vos ainda mais, se vos é possível, nos voos do
vosso pensamento, e Deus vos ficará ainda mais alto. Deus
não tem forma, Ele próprio é a forma. Não tem amor, Ele
próprio é amor. Não é composto, é a pura simplicidade. E,
para melhor vos fazer compreender o que entendo por
simples, - é o mesmo que uno. Deus é tão simples como uno.
É, porém, de tal modo uno, como nada o é. Se possível fosse,
dir-se-ia uníssimo. O sol é uno porque não há outro além
dele; a lua é una, porque não há outra além dela. E Deus é na
verdade uno, mas ainda mais. - Como ainda mais? - É uno
por Si mesmo. E quereis que vos ponha isto a claro? É
sempre o mesmo e do mesmo modo.
São Bernardo de Claraval

Não são assim nem o sol nem a lua: ambos mostram que não
são unos por si mesmo. Ele o mostra pelos seus movimentos,
ela pelas suas fases. Deus ao contrário não só é uno por Si,
mas uno em Si. Nada há nEle senão Ele. Não há nEle
alterações, nem quanto ao tempo, nem quanto à substância. É
o que dEle diz Boécio: é verdadeiramente uno aquilo em que
não há número algum; em que nenhuma outra coisa há além
do que é; em que nem sujeito se pode conceber, porque é
forma. Se comparardes a este uno tudo quanto se pode dizer
uno, deixará ele de ser uno. Contudo há em Deus a Trindade.
Com o assim ? Destruímos acaso quanto deixamos assente
a respeito da unidade, porque introduzimos a trindade? Não,
antes estabelecemos a unidade. Dizemos Pai, dizemos Filho,
dizemos Espírito Santo; mas dizemos também um só Deus, e
não três deuses.
Que quer significar este - para assim dizer - número sem
número? Se há três, como é que não há número? Se há
unidade, onde esta o número? Temos, dizeis vós, alguma
coisa a enume- rar, e alguma coisa a não enumerar. Há uma
só substância e três Pessoas. Que admiração ou que
obscuridade nisto? Nenhuma, se se concebessem as Pessoas
em separado da substância.
Mas, como as três Pessoas são a mesma substância, e essa
única substância as três Pessoas, quem poderá negar que haja
um número? De fato aí se encontra o número três. Mas quem
fará a enumeração? Pois a verdade é que os três são um só.
Ou, se julgais fácil a explicação deste mistério dizendo três,
explicai o que contastes. As naturezas? Em Deus só há uma.
As essências? Só tem uma. As substancias? Só tem uma. As
divindades? É uma só. - Mas, direis, não são essas coisas as
que enumeramos; são as Pessoas. - Negareis que essas três
Pessoas são uma só natureza, uma só essência, uma só
substância, uma só divindade? De nenhum modo, visto que
13
2
sois católico.

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Os Cinco livros da Consideração

CAPÍTULO VIII

A pluralidade de Pessoas em Deus resulta das suas


propriedades, mas há nEle uma essência única e simples.

Confessa a fé católica que as propriedades das Pessoas não


são mais que as mesmas Pessoas, e que estas são um só Deus,
uma só substância divina, uma só natureza divina, e uma
Majes- tade suma. Contai, pois, se podeis: ou sem a
substância as Pessoas que são a mesma substância, ou sem as
Pessoas as pro- priedades, que são essas mesmas Pessoas. Ou
ainda, se alguém tentar dividir, ou da substância as Pessoas,
ou das Pessoas as propriedades, esse não sabemos como
possa confessar-se ado- rador da Trindade, lançando-se em
tão excessivo número de coisas.
Nomeemos, pois, o número três, mas sem prejuízo da uni-
dade. Digamos - um - mas sem confundirmos a Trindade,
porque nem os nomes são vãos, nem as vozes sem
significado. Talvez alguém pergunte de que modo é possível
esta doutrina, que dizemos católica? Basta-lhe saber que é
assim. Está acima da razão e das opiniões - ambíguas, mas é
persuadida pela fé; é um grande mistério, que se deve venerar
e não perscrutar.
De que modo existe a pluralidade na unidade, e por esta
unidade, ou esta na pluralidade? Inquiri-lo é temeridade, crê-
lo piedade, conhecê-lo vida, é vida eterna.
Agora, Eugênio, se julgais que vale à pena, divagai em
cogi- tações acerca da pluralidade na unidade, para que a
culminância desta unidade singular avulte mais. Há uma
unidade que se pode chamar coletiva, por exemplo, quando
muitas pedras fazem um só acervo. Há outra unidade
constitutiva, quando muitos mem- bros formam um corpo
único, ou muitas partes constituem um
São Bernardo de Claraval

só todo. Há uma terceira conjugativa, pela qual se foz que


dois já não sejam dois mas uma só carne. A nativa faz da
alma, e da carne um ser humano, mediante o nascimento. É
potestativa a unidade pela qual o homem de virtude sólida se
esforça sempre, não por se mostrar diferente do que é, mas
sim identificado consigo mesmo. É consentânea, quando pela
caridade o coração de muitos homens se torna uno e a sua
alma una. Diz-se votiva quando a alma aderindo a Deus com
os votos de todos forma um só espírito. É dignativa a unidade
pela qual o barro do nosso corpo se converteu numa só
pessoa, graças ao sopro de Deus. Mas que relação têm todas
estas coisas com aquele Sumo (direi até), aquele unicamente
Uno, em que a consubstancia- lidade faz a unidade? Se se
trata da semelhança com este Uno, qualquer dessas coisas é
de certo modo una; se se trata de comparar, então não há
comparação possível. Portanto, entre todas as coisas que com
razão se dizem unas, cabe à supremacia a Unidade da
Trindade, na qual existem três Pessoas numa só
substância.
Em segundo lugar, sobressai ao contrário aquela, pela qual
na única Pessoa de Cristo existem três substâncias. Depois
disto, quaisquer outras coisas se podem dizer unas, à imitação
da Unidade suma, mas não por comparação: a consideração
verdadeira e prudente permite que se chamem unas. Não dei-
xamos de professar esta Unidade, pelo fato de admitirmos a
Trindade, desde que desta Trindade excluímos a
multiplicidade, como da unidade a solidão. Por isso, quando
dizemos Uno, não nos perturba o número da Trindade, que
não multiplica, nem muda, nem fraciona a essência. Por outro
lado, quando dizemos Três, não nos assombra o esplendor da
unidade, que não é capaz nem de lançar na confusão, nem de
reduzir à singularidade as coisas ou pessoas que por natureza
forem três.
13
4
Os Cinco livros da Consideração

CAPÍTULO IX

Assim como na natureza simples de Deus há três


Pessoas, assim pelo contrário na Pessoa una de Cristo
há pluralidade de naturezas.

Devemos confessar que pensamos de um modo análogo


a respeito da unidade que, entre as restantes, colocamos no
segundo lugar de honra, depois da de Deus. Dizemos que em
Cristo o Verbo, a alma e o corpo existem numa só Pessoa,
sem confusão das essências, e permanecem igualmente no
seu número, sem prejuízo da unidade da Pessoa. Nem
negaremos que esta unidade pertence também à espécie, já
mencionada, pela qual a alma e o corpo é um só homem.
Convinha de fato que um mistério adequado à salvação
do homem, por uma espécie de familiaridade e semelhança,
se harmonizasse com a constituição do mesmo homem. Por
uma congruência recíproca, a suma unidade está em Deus e
Deus nela: em Deus existem três Pessoas numa só essência, e
em Cristo, por uma contrariedade convenientíssima, existem
três essências numa só Pessoa. Não admirais como entre as
duas unidades fica bem esta: Jesus Cristo-Homem constituído
mediador entre Deus e o homem?
Belíssima conveniência, sim, a deste mistério salutar cor-
responder a ambos: ao Salvador, e ao salvado, por uma certa
congruência de semelhança. Reconhece-se, pois, que esta uni-
dade, constituindo um meio de união entre as duas, cede a
uma e excede à outra, e tanto cede com relação a unidade
superior, como excede com respeito à inferior.
Finalmente, é tamanha e tão expressa a força de união na
Pessoa do Filho, na qual Deus e o homem é um só Cristo, que
São Bernardo de Claraval

não erra quem afirmar dessa Pessoa o ser Deus e ser homem:
quer dizer, é verdadeiro e católico afirmar-se que, na Pessoa
única de Jesus Cristo, Deus é homem e o homem é Deus. Mas
não se poderia afirmar por semelhança, sem cair no maior
dos absurdos, que o corpo é a alma e a alma o corpo, embora
semelhantemente a alma e o corpo sejam um só homem. Nem
é para admirar que a alma, com toda a sua vitalidade não seja
capaz de encadear a sua vontade a carne e uni-la a si com os
seus afetos, como a divindade uniu a si aquele homem que foi
predestinado na virtude do Filho de Deus (Rm 1, 4). A
predes- tinação divina é como uma cadeia longa e forte para
adstringir, porque é ab aeterno. Que há de mais longo que a
eternidade? Que poder maior que o da divindade? Eis a razão
por que nem a morte pode quebrar esta união hipostática,
apesar da alma se separar do corpo. Reconheceu talvez isto
aquele que se confes- sou indigno de desatar ao Messias a
correia das suas sandálias.

CAPÍTULO X

A parábola de São Mateus, a respeito das três


medidas de farinha, é aplicável a Pessoa de Cristo.

Não nos parece fora de propósito que se apliquem, as três


referidas unidades, as três medidas de farinha do Evangelho
(Mt 13, 33), misturadas, fermentadas e convertidas num só
pão.
Como soube fermentá-lo bem aquela mulher, de modo que
até separada a alma do corpo, o Verbo se não separasse nem
da alma nem do corpo? Até, feita essa separação, a unidade
permaneceu inseparável. A separação, que tocou o mistério
por um lado, não pode ofender a unidade, que subsistiu em
13
6
todas as três medidas. A unidade pessoal perseverou nas
três, quer

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7
Os Cinco livros da Consideração

duas delas estivessem unidas, quer separadas. Assim, num só


Cristo e numa só Pessoa, mesmo morto o homem, perdurou o
Verbo, a alma e o corpo.
Segundo cremos, foi no seio da Virgem que se fez esta
mis- tura e fermentação: foi Ela a mulher que misturou e
fermentou. Pois não nos faltam talvez razões para chamarmos
fermento à fé de Maria. Foi ditosa em toda a extensão da
palavra Ela que creu, porque nela se realizou tudo quanto lhe
tinha sido anun- ciado pelo Senhor (Lc 1). Ora não se teria
realizado isso em toda a sua plenitude, se o Verbo do Senhor
não houvera sido todo fermentado, perfeita e perpetuamente,
conservando-se para nós, tanto na vida como na morte,
sempre mediador uno e íntegro de Deus e dos homens com a
sua divindade, - Homem Jesus Cristo.
Conforme o número das medidas de farinha, devem notar-
-se neste mistério inefável três graus de distinção admirável
e convenientíssima: o novo, o antigo e o eterno. O novo é a
alma, que se crê ter sido criada do nada, quando foi
infundida. O segundo é a carne, que se reconhece como
procedente do primeiro homem, isto é de Adão. O eterno é o
Verbo, que com toda a verdade se afirma gerado ab aeterno
do Pai e coeterno com Ele.
Se pensarmos atentamente, revelam-se nestes três graus
três operações divinas: do nada fez-se alguma coisa, do
antigo o novo, e de um condenado e morto a eterna bem-
aventurança. Mas que aproveita isto para a nossa salvação?
Muito e por todos os modos.
Em primeiro lugar, tendo nós sido como que reduzidos ao
nada pelo pecado, por este poder divino somos de certo modo
criados segunda vez, para sermos algum princípio de criatura
sua (Tg 1). Em segundo lugar, somos resgatados da antiga
São Bernardo de Claraval

escravidão, para a liberdade de filhos de Deus, e andamos


ani- mados de novo espírito.
Enfim, emancipados do poder das trevas, entramos no
reino da claridade eterna, onde nos é dado confiar em Cristo.
Para longe a doutrina dos Novacianos, que nos querem
roubar o corpo de Cristo, afirmando impiamente que ele não
fora tomado da Virgem, mas criado de novo na Virgem. De
um modo brilhante e muito de longe, o espírito profético se
anteci- pou a esta opinião, ou melhor a esta blasfêmia dos
ímpios: Há de brotar uma vergôntea da raiz de Jessé e dessa
raiz desabrochara uma flor (Is 11,1). Podia ter dito que da
vergôntea nasceria a flor, mas preferiu dizer da raiz, para
demonstrar que de onde nascesse a vergôntea, também
nasceria a flor. Foi, portanto, tomado o corpo de onde a
Virgem nasceu; não foi criada de novo na Virgem a carne que
procedia da raiz.

CAPÍTULO XI

Prossegue a consideração acerca de Deus.

Ao verdes que ainda insistimos em perguntar o que Deus


é, haveis de sentir-vos talvez enfastiado, por uma dupla
razão: por já termos repetido muitas vezes a mesma pergunta,
e por anteverdes que não será satisfatória a resposta. Pois nós
vos dizemos, ó Padre Eugênio, que só Deus é que não pode
ser procurado nem encontrado em vão. Basta a vossa própria
expe- riência para vo-lo dizer, e se nela não acreditais, não
acrediteis também em nós, mas no santo que diz: Bom é o
Senhor para os que esperam nEle, para a alma que o
procura (Lm 3, 25).
13
8
Os Cinco livros da Consideração

O que é, pois, Deus? Com respeito ao universo, é o fim.


Quanto aos eleitos, é a salvação. Quanto a Si mesmo, Ele o
sabe. O que é Deus? A vontade onipotente, a virtude benevo-
lentíssima, a luz eterna, a razão imutável, a felicidade suma,
- que criou as almas para as tornar participantes do Seu ser;
que as vivifica para se lhes fazer sensível; que as dispõe para
que O procurem; que as dilata para que O recebam; que as
justifica para que mereçam; que as afervora para o zelo; que
as fecunda para o fruto; que as dirige para a equidade; que as
forma para a benevolência; que as encaminha para a
sabedoria; que as fortalece para a virtude; que as visita para a
consolação; que as ilumina para o conhecimento; que as
perpetua para a imortalidade; que as enche para a felicidade;
que as rodeia para a segurança.

CAPÍTULO XII

Deus é pio remunerador das boas


obras e justíssimo vingador dos
crimes.

O que é Deus? É não menos o castigo dos perversos, que a


glória dos humildes. Porquanto a razão exige que exista uma
norma de equidade imutável e inflexível, que impera por toda
a parte; é necessário que toda a injúria, a quem quer que seja
infligida, tenha a sua reparação. Porque não se há de abater
toda a soberba, ou corrigir toda a iniquidade, segundo essa
norma? Ai do universo, que a retidão não sabe capitular com
a desordem, porque é também fortaleza! Que coisa mais
contrária e adversa à vontade dos réprobos do que esgrimirem
sempre, estarem sempre em revolta, e sem resultado algum?
Como são infelizes
São Bernardo de Claraval

essas vontades obstinadas que, no seu afastamento de Deus,


manifestam o seu justo castigo! Que maior pena que quererem
sempre o que jamais hão de conseguir? Que condenação mais
terrível do que estar a vontade fixada na necessidade de
querer e não querer, mas não já para obrar deliberadamente,
sob o impulso da malícia ou da misericórdia? Jamais
conseguirá o que quer por toda a eternidade, e por toda a
eternidade sofrerá o que não quer. É de todo o ponto
condigno que quem se apega de coração ao que não deve,
fique privado de gozar o que deseja.
Quem estabeleceu esta ordem? O Deus Senhor nosso, que
é reto. Quem se lança fora do caminho extravia-se. Jamais a
retidão se há de coadunar com a malícia, porque são diame-
tralmente opostas, embora se não lesem reciprocamente. É de
um só lado a injúria e não do lado de Deus, longe disso. É
duro para ti recalcitrar contra o aguilhão (At 9, 5): isto é,
não duro para o aguilhão, mas para o que recalcitra. Assim
Deus é o castigo dos maus, porque é luz. E que haverá de
mais odioso para os impuros e dissolutos? Na verdade, todo
aquele, que obra mal aborrece a luz (Jo 3, 20). Mas não
poderão desencontrar-se? De nenhum modo: a luz oferece-se
por toda a parte, posto que nem todos a recebam. Enfim,
resplandece nas trevas, e as trevas não a compreendem (Jo
1, 5).
A luz vê as trevas - quem vê tem luz - mas não vice-versa,
a luz não é vista pelas trevas, porque estas não a compreen-
dem. Os réprobos, pois, são vistos para se confundirem, mas
não veem para serem consolados. E não só são vistos pela
luz, mas vistos à luz. Por quem ou por que expectadores? Por
todo aquele que vê, para que a multidão dos expectadores
faça crescer a confusão. Por maior, porém, que seja o número
de expectadores, a ninguém é mais molesta a vista que ao
próprio réprobo: nem no Céu nem na terra há olhar que a
14
0
consciência tenebrosa mais queira e menos possa evitar.

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1
Os Cinco livros da Consideração

Nem a si próprias as trevas são ocultas: veem-se a si


mesmas e não veem o que é estranho. Seguem as obras das
trevas os condenados, que não podem furtar-se a elas, nem
mesmo nas trevas. Está ali o verme que não morre (Is 66, 24),
a lembrança do passado: incutido, ou antes, nascido pelo
pecado, esse verme permanece de futuro inerente e jamais se
pode arrancar. Não cessa de remorder a consciência, em que
se apascenta com um alimento eterno, que lhe perpetua a
existência. Causa-me horror esse verme mordaz, essa morte
sempre viva. Tremo de cair nas mãos dessa morte que vive, e
dessa vida que morre.
É esta uma segunda morte, que nunca mata de todo, antes
mata sempre. Bem quiseram esses infelizes morrer uma só
vez, para não morrerem por toda a eternidade! Dizem aos
montes: cai sobre nós, e aos outeiros: cobri-nos (Lc 23, 30):
que desejam eles como benefício senão a morte da morte,
serem aniquilados ou libertados? Finalmente, chamarão pela
morte, e ela não virá (Ap 9, 6).
Vede isto com mais clareza. Sabe-se que a alma é imortal
e que não pode deixar de viver com consciência de si mesma,
como não pode deixar de ser alma: logo, enquanto durar a
alma, durará também a sua lembrança.
Mas qual? Lembrança vergonhosa das torpezas, dos
crimes horríveis, das vaidades enfatuadas, dos desprezos
revoltantes e desdenhosas. Passaram e não passaram as coisas
idas: passaram quanto à ação, mas não passaram da mente. O
que se fez não podo deixar de estar feito. Portanto, se o fazer-
se pertenceu ao tempo, o ter sido feito permanece
eternamente.
Não passará com o tempo o que se passou no tempo. Logo
forçoso é que vos atormente eternamente a lembrança eterna
do mal que fizestes. Há de conhecer-se por experiência a
verdade da seguinte sentença: te repreenderei e porei todos os
teus pecados diante do teu rosto (Sl 49, 21): Foi o Senhor que
assim falou:
São Bernardo de Claraval

Quem é contra Deus, é contra si próprio, de modo a fazer tar-


dia esta lamentação: Ó Libertador dos homens, porque me
puseste contrário a ti, e me fiz pesado a mim mesmo? (Jó 7,
20).
É assim, ó Eugênio, ninguém pode estar de mal com Deus
e de bem consigo próprio: quem é arguido por Deus, é
também arguido por si mesmo. Já não é tempo, nem para a
razão dis- simular a verdade, nem para a alma, arrancada aos
membros corpóreos e concentrada em si própria, desviar o
testemunho evidente da razão. Pois, como seria possível isso,
adormecidos e fechados na morte os sentidos, pelos quais
costumava dar-se as curiosidades extremas, e sair de si para
se comprazer na figura deste mundo que passa? Vês que aos
réprobos nada lhes há de faltar para confusão sua, sendo
dados em espetáculo a Deus, aos anjos, aos homens e a si
mesmos? Ó quão mal se encontram todos os maus, em
oposição com esta torrente de equidade ime- xível, e expostos
a esta luz de verdade plena! Não é isto serem perpetuamente
pisados, perpetuamente confundidos? O Senhor nosso Deus
os esmaga com uma dupla contrição ( Jr 17, 18).

CAPÍTULO XIII

Discorre o autor profunda e elegantemente a respeito


do comprimento, largura, profundidade e sublimidade de Deus.

O que é Deus? Longitude, latitude, sublimidade e profun-


didade. - Que dizeis? Estais acaso partidário da quaternidade
que tendes abominado? - De nenhum modo: continuamos a
abominar o que temos abominado. Têm-nos ouvido dizer
muitas coisas, mas acerca de uma só substância. É Deus um

14
2
só, mas faz-se significar para conhecimento nosso e não
para realce

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3
Os Cinco livros da Consideração

do seu ser. São divisíveis as suas manifestações, não o é a sua


essência. São variadas as vozes, muitos os caminhos, mas um
só o significado, um só o procurado.
Neste quaternário não há divisão da substância; não se
veem dimensões como nos corpos; não adoramos a distinção
pessoal como na Trindade; não confessamos o número das
proprieda- des, tal qual existe nas mesmas pessoas, embora
essas proprie- dades não discrepem das pessoas. De algum
modo, em Deus, esta singularidade é ao mesmo tempo
quaternidade, como a quaternidade é singularidade; nós,
porém, que não podemos atingir a simplicidade de Deus,
quando tentamos apreender a unidade, logo nos ocorre a
quadruplicidade. Só através deste espelho e enigma nos é
dado ver agora a Deus. Quando O vir- mos face a face, então
o veremos como é (1 Jo 3, 2).
A penetração da nossa inteligência, que agora é tão frágil,
então avançará impetuosa a sua vontade, como que aos saltos
e em digressões pelo mundo da pluralidade. Então a alma se
há de concentrar mais, se há de adunar e conformar à unidade
daquele Senhor, ou antes aquela unidade, de modo que uma
face una corresponda à face una. Pois lhe seremos semelhantes,
porque havemos de vê-lo conforme é (Ibdem, id.). Ditosa
visão essa pela qual suspirava o que dizia: A minha face vos
tem procurado, ó Senhor, eu hei de procurar a vossa face (Sl
26, 8). E como ainda estamos no tempo de procurar, vamos,
entretanto, subindo nesta quadriga8, como enfermos e
imbecis, que carecem de tal veículo; vejamos se ao menos
assim apreendemos Aquele, por quem somos apreendidos; é a
razão deste mesmo veículo. Pois

8
Quadriga era um carro ou carroça conduzida por quatro cavalos lado a
lado, utilizada nos jogos olímpicos antigos e em outros jogos. É
considerada como a carruagem dos deuses e heróis na mitologia grega,
aparecendo esculpida em vasos e em baixos relevos. A quadriga foi
adotada na Roma antiga nas corridas de carruagens, sendo o Coliseu palco
de muitas delas.
São Bernardo de Claraval

do próprio condutor e primeiro guia deste carro temos esta


advertência -que nos esforcemos por compreender com todos os san-
tos qual seja a longitude, latitude, sublimidade e profundidade
(Ef 3, 18). Disse compreender e não conhecer: não aconteça
que nos contentemos com a ciência curiosa, e deixemos de
aspirar ao fruto com todo o empenho. É na compreensão e
não no conhe- cimento que esta o fruto. Por outro lado diz
São Tiago: quem conhece o bem, e o não pratica, peca (Tg 4,
17). E o próprio São Paulo em outro lugar, diz: Correi de tal
modo que compreendais (I Cor 9, 24). Abaixo mostraremos o
que significa compreender. Portanto, o que é Deus?
Longitude, diremos. E o que é lon- gitude? Eternidade. Esta,
porém, tão longa que não tem limite, nem no espaço nem no
tempo. É também latitude. E esta o que é? Caridade. E pelo
que respeita a Deus, que não odeia nada do que fez, - em que
limites se poderá comportar a sua caridade? É Ele quem faz
nascer o sol sobre os bons e os maus, quem faz cair a chuva
sobre os justos e os injustos (Mt 5, 45), e quem portanto
aperta ao seu peito até os inimigos. Nem se contenta com isto;
estende a sua caridade até ao infinito. Transcende a sua cari-
dade não só todo o afeto, mas todo o conhecimento, ajuntando
o Apóstolo esta expressão: Conhecer também a caridade de
Jesus
Cristo, que excede todo o entendimento (Ef 3, 19).
Que mais diremos? É eterna. É porventura por ser eterna
que a caridade mais sobre excede. Vedes que tamanha é a
latitude como a longitude? Praza a Deus vejais do mesmo
modo que ela não é tamanha, mas que uma é o mesmo que a
outra: que uma não é menos que as duas, nem as duas mais
que uma. Deus é eternidade, Deus é caridade, longitude sem
extensão, latitude sem largura. Uma e outra estão acima dos
limites locais e tem- porais, mas pela liberdade da natureza,
não pela enormidade de substância.
14
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Os Cinco livros da Consideração

Deste modo, é imenso Aquele que tudo fez com medida, e,


ainda que imenso, é também a regra da mesma imensidade.
Mais uma vez, o que é Deus? Sublimidade e profundidade.
Em uma tudo acima, na outra tudo abaixo. É manifesto que
na Divindade nunca falta a igualdade, que permanece firme
por toda a parte, imanente por si mesma. Considera que a
sublimi- dade de Deus é poder, profundidade e sabedoria. Em
um estado de igualdade, estas coisas correspondem a si
mesma: a subli- midade reconhece-se inatingível, e a
profundidade igualmente imperscrutável; por isso São Paulo
exclamava com admiração: Ó altitude das riquezas da
sabedoria e da ciência de Deus, quão imperscrutáveis são os
seus juízos e investigáveis os seus caminhos (Rm 11, 33)!
Ao contemplarmos em Deus a unidade simplicíssima, bem
podemos fazer nossa a exclamação de São Paulo: Ó sabedoria
potente que por toda a parte dominas vitoriosa (Sb 8)! Ó
potência sábia que tudo dispondes sabiamente! Realidade
una, afetos múltiplos, operações diversas. E aquele Ser uno é
longi- tude por causa da eternidade, latitude por causa da
caridade, sublimidade por causa da majestade, profundidade
por causa da sabedoria.

CAPÍTULO XIV

Mostra-se o modo como podemos compreender


o que diz o Apóstolo.

Conhecemos as coisas expostas. Mas pensamos nós tê-las


também compreendido? É a santidade e não a discussão que
nos dá a compreensão delas, - se é que de algum modo nos é
dado compreender o incompreensível. Se não nos fosse dado,
São Bernardo de Claraval

não teria dito o Apóstolo: Para que compreendamos com todos


os santos (Ef 3, 18). Logo os santos compreendem.
Perguntareis de que modo? Se sois santo, tendes conhecido e
compreendido; se o não sois, sede-o, e sabereis por
experiência própria. O santo amor faz o santo. E este amor é
duplo: santo é o temor de Deus e santo o amor.
Armada assim perfeitamente a alma, como de dois braços
seus, compreende, abraça, aperta, segura o amado e diz: Rete-
nho-o e não o largarei (Ct 3, 4). O temor corresponde ao
sublime e profundo; o amor ao largo e longo. Que coisa mais
para temer do que o poder, a que não se pode resistir, e a
sabedoria, a que nada pode se esconder? Poderia Deus ser
menos temido, se carecesse do poder ou da sabedoria.
Necessário é, porém, que o temais perfeitamente, porque
nada escapa aos seus olhos e tudo podem as suas mãos. A par
disto, que coisa tão amável como o próprio amor com que
amais e sois amado? Com a caridade torna-se mais amável o
amor, que quando não se entibia lança fora toda a suspeita.
Se amardes, pois, com perseverança e longanimidade
tereis a longitude. Se dilatardes o vosso amor até aos
inimigos, tereis a latitude. Se fordes timorato com toda a
solicitude, atingireis o sublime e o profundo.
Ou, se antes quereis que, nas vossas obras sobrenaturais,
qua- tro correspondam precisamente a quatro, podeis
consegui-lo se vos sublimardes, se temerdes, se vos
afervorardes, se sofrerdes. É de todo o modo estupenda a
sublimidade da majestade, são de apavorar os abismos dos
juízos; a caridade exige fervor, a eternidade demanda
perseverança, em sustentar o com bate. Quem se enche de
estupefacção senão quem contempla a glória de Deus? Quem
se sustenta e persevera no amor, senão quem zela a caridade
eterna? Certamente a caridade traz diante de si
a imagem da eternidade.
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6
Os Cinco livros da Consideração

Em conclusão, só a ela é dada a eternidade, ou antes é ela


que restitui o homem à eternidade, conforme a palavra do
Senhor: Quem perseverar até ao fim será salvo (Mt 10, 22).
E agora notai estas quatro espécies de contemplação. A
pri- meira e a mais alta é a admiração da majestade. Esta
exige que o coração esteja expurgado dos vícios, e
descarregado dos peca- dos, para se possa alevantar
facilmente às coisas sobrenaturais; por vezes até, aquele que
admira fica por momentos suspenso na estupefacção e no
êxtase.
A esta contemplação é necessário ajuntar a segunda, que
vê os juízos de Deus. Desde que essa intuição de pavor
penetra a fundo a alma contemplativa, afugenta os vícios,
assenta as virtudes, inicia a sabedoria e conserva a
humildade. É de fato a humildade o fundamento seguro e
estável das virtudes. Quando ela fraqueja, desaba o edifício
das virtudes.
A terceira espécie de contemplação ocupa-se, ou antes,
repousa na lembrança dos benefícios e, para que o
beneficiado não se tome ingrato, solicita-o a amar o seu
benfeitor. É o pen- samento de Davi, falando ao Senhor: Farão
memória larguíssima da abundância da tua suavidade (Sl 114,
7).
A quarta espécie de contemplação esquece as coisas
passadas, para só repousar na expectativa das promessas.
Consistindo, pois, na meditação da eternidade - visto que as
coisas pro- metidas são eternas - alimenta a longanimidade e
dá vigor à perseverança.
Julgamos que já é fácil reduzir estas quatro às que o
Apóstolo assinala: a longitude compreende a meditação das
promessas; a latitude a recordação dos benefícios; a
sublimidade a contempla- ção da majestade; a profundidade a
intuição dos juízos.
Conviria procurar ainda Aquele que até aqui ainda não foi
bastante encontrado e nunca pode ser procurado em demasia;
mas procura-se talvez com mais dignidade e encontra-se mais
São Bernardo de Claraval

facilmente pela oração que pela disputa. Seja, pois, este o fim
do quinto livro, mas não o final da procura.

Este livro foi impresso no mês de outubro de


dois mil e vinte, pela Editora Realeza.