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OS CINCO NOS ROCHEDOS DO DEMÓNIO

ENID BLYTON

Série Os Cinco - 19

Editorial Notícias

Digitalização e Arranjo

Agostinho Costa

Este livro foi digitalizado para


ser lido por Deficientes Visuais

OS Cinco NOS ROCHEDOS DO DEMÓNIO.


Numa noite de tempestade, um sino toca nos Rochedos do Demónio... Uma luz brilha
na torre do farol. E os moradores da beira-mar ficam alarmados. Haverá gente em
perigo no velho farol, há tanto tempo abandonado?
Quem conhecer os famosos Cinco logo supõe que eles não devem estar alheios ao
caso.
Sim! São mesmo os Cinco que se encontram no farol... os Cinco que procuram um
tesouro escondido... os Cinco que uma vez mais se encontram envolvidos numa das
suas perigosas aventuras. No entanto, depois de várias peripécias, têm a satisfação de
descobrir um tesouro escondido - arcas e arcas cheias de moedas de ouro que os
piratas guardaram num túnel submarino.
E tudo acaba tão bem que mesmo o Tim terá como recompensa da sua ajuda uma
moeda de ouro pendurada na coleira.

ENID BLYTON

OS CINCO NOS ROCHEDOS DO DEMÓNIO

Ilustrações de EILEEN SOPER


Tradução de Maria da Graça Moctezuma

Colecção JUVENIL - nº 19

EMPRESA NACIONAL DE PUBLICIDADE

Nota: Neste livro a paginação é superior

Índice

Capítulo I - CHEGAM TRÊS VISITAS ................. 7


Capítulo II - UMA CERTA CONFUSÃO ................ 15
Capítulo III - O BUZINA, O DIABRETE E O TIM! .... 23
Capítulo IV - O BUZINA TEM UMA IDEIA MARAVILHOSA 33
Capítulo V - O FAROL DO BUZINA .................. 41
Capítulo VI - FAZENDO PLANOS .................... 49
Capítulo VII - FINALMENTE A CAMINHO! ............ 58
Capítulo VIII - LÁ ESTAVA O FAROL ............... 66
Capítulo IX - DENTRO DO FAROL ................... 75
Capítulo X - OS PEQUENOS INSTALAM-SE ............ 84
Capítulo XI - JEREMIAS BOOGLE ................... 92
Capítulo XII - A HISTÓRIA CONTADA PELO JEREMIAS 101
Capítulo XIII - UMA MANHÃ AGRADÁVEL E UM SUSTO . 110
Capítulo XIV - UM MAPA MUITO, MUITO ANTIGO ..... 120
Capítulo XV - O JACOB EM APUROS ................ 131
Capítulo XVI - NAS GRUTAS ...................... 139
Capítulo XVII - VOLTA O DIABRETE E UMA SURPRESA! 150
Capítulo XVIII - NOVAMENTE NO FAROL
E UMA CONVERSA ANIMADA ..... 159
Capítulo XIX - UM GRANDE SUSTO! ................ 168
Capítulo XX - PELO ALÇAPÃO ATÉ AO TÚNEL ........ 178
Capítulo XXI - UMA IDEIA MARAVILHOSA ........... 191
Capítulo XXII - O FIM DA AVENTURA .............. 202

Capítulo I - CHEGAM TRÊS VISITAS.

- CLARA! - gritou o Dr. Kirrin, correndo pelas escadas acima, com uma carta na mão. -
Clara! Onde estás?
- Estou aqui, ajudando a Joana nas limpezas - disse a senhora saindo de um dos
quartos. - Não é preciso gritares dessa maneira. Bem sabes que não sou surda. Que
aconteceu?
- Chegou uma carta dum velho amigo meu, o Professor Hayling, - disse o Dr. Kirrin.
-Recordas-te dele, não é verdade?
- Referes-te àquele senhor que veio aqui passar uns dias, há alguns anos, e que se
esquecia de comparecer às refeições? - perguntou a senhora, sacudindo o pó do
casaco do marido.
- Clara, não me comeces a sacudir dessa maneira - disse o Dr. Kirrin, zangado. - Até
parece que ando coberto de pó. Escuta: o Professor chega hoje para aqui passar uma
semana.
A senhora fitou o marido apavorada.
- Mas não pode ser! - exclamou ela. - A Zé chega daqui a pouco, com os seus três
primos. Tu bem sabes.
- Oh! Tinha-me esquecido, - disse o Dr. Kirrin. - Bem, telefona à Zé pedindo-lhe que
fique onde está. Não podemos cá tê-los enquanto o Professor Hayling aqui se
encontrar.

Quero o maior sossego pois temos que conferenciar sobre uma invenção sua. Não
olhes assim para mim, minha amiga, é um assunto muito, muito importante.
- Mas também é muito importante para os Cinco que os seus planos não fiquem
estragados - disse a senhora. - Afinal a Zé foi para casa do Júlio, David e Ana porque tu
tinhas um trabalho urgente e não querias ser perturbado e tu sabias perfeitamente que
eles chegariam hoje. Alberto, é preciso telefonar ao teu amigo Professor dizendo-lhe
que não pode vir por enquanto.
- Está bem, está bem - respondeu o Dr. Kirrin. - Mas ele vai ficar aborrecidíssimo.
Foi para o escritório onde estava o telefone e a Senhora voltou a subir as escadas,
tencionando preparar os quartos para as quatro crianças.
- A Ana pode dormir no quarto da Zé, como de costume. - disse ela à Joana. - E os dois
rapazes ficam no quarto de hóspedes.
- Estou satisfeita por voltarmos a ter aqui os Cinco reunidos - disse a Joana,
manejando o aspirador do pó. - Tenho saudades deles. Vai ver os biscoitos que eu fiz
ontem, minha senhora! Duas latas cheias!
- Estraga aquelas crianças com mimos, Joana. Não admira que sejam tão seus amigos.
Agora... Oh meu Deus, o Sr. Dr. está novamente a chamar-me. Já vou! Já vou!
Correu pelas escadas abaixo até ao vestíbulo e entrou no escritório. O Dr. Kirrin
encontrava-se ali,

de pé, com o auscultador na mão.


- Que hei-de fazer? - disse ele, quase a gritar. - O Professor Hayling já saiu de casa e
vem a caminho. Agora não o posso impedir de aparecer. E traz o filho com ele. Por isso
são duas pessoas.
- Só faltava mais esta! - exclamou a pobre senhora. - Não haverá lugar para todos,
contando com as quatro crianças, Alberto. Bem sabes isso.
- Então telefona à Zé e pede-lhe que fique com os primos por mais uma semana - disse
o Dr. Kirrin, zangado. - Não há nenhuma razão para que venham todos agora.
- Mas tu sabes perfeitamente, Alberto, que os tios da Zé fecham hoje a casa e vão
fazer um cruzeiro não sei aonde. - respondeu a senhora. - Mesmo assim vou telefonar
á pequena tentando evitar que partam já.
E assim mais uma vez se serviram do telefone; a mãe da Zé tentava ansiosamente pôr-
se em contacto com a filha.
Mas por muito tempo ninguém respondeu; por fim ouviu-se uma voz.
- Está? Quem fala?
- Posso falar com a Zé? Sou a mãe.
- Tenho muita pena mas os Cinco já partiram nas suas bicicletas; - disse a pessoa. - Só
aqui estou eu que sou uma vizinha e vim verificar se ficou tudo bem fechado.
- Muito obrigada. Não tem importância - disse a mãe da pequena, desligando. Deu um
grande suspiro. Que iria fazer agora?

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O Professor Hayling e o seu filho estavam a caminho do Casal Kirrin. O mesmo


acontecia com os Cinco. E nenhum deles podia ser interceptado. Que confusão seria
naquela casa.
- Alberto - disse ela, entrando no escritório, onde o marido punha em ordem um enorme
maço de papéis. - Ouve, Alberto. A Zé e os primos vêm a caminho. E não faço a menor
ideia de como vou instalar todos. Parece que tenho de pôr alguém a dormir no canil do
Tim e bastante me apetece pôr uma cama para ti no depósito do carvão.
- Estou ocupado - disse o Dr. Kirrin, ouvindo distraidamente. - Tenho que pôr todos
estes papéis em ordem antes que chegue o Prof. Hayling. E a propósito, minha
querida, POR FAVOR diz aos miúdos que não façam barulho enquanto o Professor
aqui se encontrar. Ele exalta-se com facilidade e...
- Alberto, eu também começo a sentir-me um tanto exaltada - disse a senhora. - E se...
mas parou de repente, ficando a olhar para a janela do escritório, horrorizada. Depois
apontou naquela direcção.
- Repara! O que é aquilo na janela?
O marido voltou-se e também ficou perplexo.
- Parece um macaco. - disse ele. - Como
terá aparecido ali?
Uma voz veio do fundo das escadas. Era a
Joana.
- Minha Senhora! Está um carro em frente da porta. Deve ser o amigo do Sr. Doutor.

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- Repara! O que é aquilo na janela?


A senhora ainda estava a olhar admiradíssima para o macaco que começava a
arranhar no caixilho da janela, soltando uns pequenos guinchos bastante curiosos e
encostando o nariz aos vidros tal como uma criança.
- Não me digas que o teu amigo possui um macaco e resolveu trazê-lo também! -
exclamou a pobre senhora. Depois sobressaltou-se ao ouvir uma forte pancada na
porta principal e foi abrir.

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Sim, ali estava o Prof. Hayling, o mesmo que tantas vezes se esquecera das refeições
quando ali passara uns dias, havia alguns anos. E ao seu lado encontrava-se um
rapazinho duns nove anos, com uma cara um tanto parecida com a do macaco que
agora se encontrava no seu ombro!
O Professor entrou dirigindo-se ao motorista. - Pode trazer a bagagem. Como está ,
minha senhora? Tenho muito gosto em tornar a vê-la. Onde está o seu marido? Tenho
notícias muito interessantes para ele. Olá, Alberto! Tem os seus apontamentos para
mim?
- Meu querido amigo! - exclamou o Dr. Kirrin, apertando-lhe a mão. - Que prazer tornar
a vê-lo! Ainda bem que conseguiu vir.
- Este é o Buzina, o meu filho - disse o Prof. Hayling dando uma palmada nas costas do
pequeno que o ia deitando ao chão. - Esqueço-me sempre do seu verdadeiro nome.
Chamamos-lhe Buzina porque tem a mania dos automóveis. Cumprimenta estes
senhores,
Buzina. Onde está o Diabrete?
A pobre senhora não pudera dizer uma palavra. O Professor entrara para o vestíbulo e
continuava a falar. O macaco saltara do ombro do rapazinho e baloiçava-se num cabide
do bengaleiro.
- Até parece um circo! - pensou a pobre senhora. E os quartos ainda não estavam
preparados. E o almoço? Santo Deus, os pequenos também deviam estar prestes a
chegar.
O macaco entretinha-se a fazer caretas em frente do espelho do vestíbulo.

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As visitas lá foram andando para a sala, onde se sentaram. O Dr. Kirrin estava tão
ansioso por discutir problemas importantes com o Professor que foi buscar uma grande
porção de papéis, espalhando-os sobre a mesa.
- Aqui não! É favor irem para o teu escritório - disse a senhora com firmeza. - Joana!
Leva as malas para o quarto de hóspedes. E faz a cama no sofá para o menino. Não
há lugar noutro sítio.
- E o macaco? - perguntou a Joana, olhando-o atentamente. - Também precisa duma
cama.
- Dorme comigo - participou o Buzina num tom de voz muito alto, pondo-se a subir as
escadas aos pulos e fazendo um barulho estranho como se fosse um motor. A Sr.a
Kirrin ficou a olhar para ele, pasmada.
- Dói-lhe alguma coisa?
- Não, não, está apenas a fingir que é um carro - explicou o pai do pequeno. - Como já
lhes disse tem a mania dos automóveis. Anda sempre a fingir que é um deles.
- Sou um carro, sou um Jaguar! - gritou o Buzina do alto das escadas. - Oiçam o meu
motor. B-R-R-R-R-R-R-R-R! Anda Diabrete, anda dar um passeio!
O macaquito subiu as escadas e saltou para o ombro do dono guinchando duma
maneira especial e inconfundível. O Jaguar foi então dar uma volta por todos os
quartos de dormir,

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dando de vez em quando uma grande buzinadela.


- O seu filho é sempre assim? - perguntou a Sr.a Kirrin, intrigada. - Como consegue
trabalhar, Sr. Professor?
- Oh, tenho o escritório à prova de som, no jardim - explicou o Professor. - Espero que
o seu escritório também seja à prova de
som.
- Não é, não - disse o pobre Dr. Kirrin, ainda a ouvir o "carro" no andar superior. Que
rapaz! Seria possível que alguém o aturasse por mais de dois minutos? E pensar que
passaria ali alguns dias!
Fechou a porta do escritório depois de entrar o Professor, mas nenhuma porta do
mundo conseguiria isolá-los do barulho do "motor" lá de cima!
A pobre senhora olhava para a bagagem que haviam trazido. Porque não fora o
professor para um hotel? Como iria ser a vida naquela casa, com os Cinco, o Professor
e um miúdo que estava convencido de ser automóvel. Para não falar num macaco
chamado Diabrete! E onde iria encaixá-los a todos para dormirem?

Capítulo II - UMA CERTA CONFUSÃO.

AZé e os seus três primos já iam a caminho de Kirrin. Pedalavam pela estrada
acompanhados pelo Tim, o cão da Zé que corria a seu lado.
- Como vai ser divertido encontrarmo-nos de novo no Casal Kirrin! - exclamou a Ana. -
É tão bonito chegarmos a uma janela e vermos a Baía Kirrin, azul como o céu!
Proponho irmos fazer um piquenique na ilha.
- Gostas de voltar de novo ao teu canil, Tim?
- perguntou a Zé e o Tim deu-lhe uma rápida lambedela no tornozelo, soltando um
latido.
- O Casal Kirrin é sempre tão sossegado,
- comentou o David. - E a tua mãe é tão simpática e alegre, Zé. Espero que não
perturbemos o Tio Alberto com as nossas conversas e brincadeiras.
- Julgo que o meu pái agora não tem em mãos nenhum trabalho muito importante -
disse a Zé. - De qualquer maneira só lá ficamos uma semana. É uma pena que o tal
Professor amigo do pai chegue daqui a oito dias. Se assim não fosse vocês podiam
ficar mais tempo.
- Uma semana ainda é bastante. - disse o Júlio. - Reparem, começa a ver-se a Baía
Kirrin, tão azul como de costume!
Todos ficaram satisfeitos ao avistarem a baía azul,com a Ilha Kirrin no meio, coberta de
sol.
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- Tens muita sorte, Zé, por possuíres uma ilha só tua - disse a Ana. - Uma ilha que é
realmente tua.
- Na verdade tenho sorte. - concordou a Zé. - Nunca tive uma alegria tão grande na
minha vida como no dia em que a mãe me ofereceu a ilha. Já pertencia à nossa família
há muitos anos mas agora é só minha. Amanhã podemos lá ir.
Entardecia.
- Já vejo as chaminés do Casal Kirrin! - exclamou o Júlio, levantando-se nos pedais da
sua bicicleta. - Devem estar preparando o jantar!
- Até já sinto o cheiro, - gracejou o David, de nariz no ar. - São salsichas.
- Palerma! - exclamaram os outros três ao mesmo tempo e puseram-se a rir.
Pedalaram até à porta das traseiras e saltaram das bicicletas. Deixaram-nas no
alpendre e a Zé gritou:
- Mãe! Chegámos! Onde está? Mal acabara de falar a Ana agarrou-lhe num braço.
- Zé, o que é aquilo? Olha para ali! A espreitar na janela!
Olharam todos e a Zé exclamou muito admirada: - É um macaco! Um MACACO! Não,
Tim, não. Volta para aqui. TIM!
Mas o Tim também vira aquela cara estranha espreitando pela janela e correra para
identificar do que se tratava. Seria um cãozinho? Ou um gato esquisito?

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Fosse o que fosse estava resolvido a fazer uma perseguição. PÔs-se a ladrar o mais
alto que podia e desatou a correr para dentro de casa. Esbarrou logo com um rapazito
que ia caindo. O macaco, aflito, saltou para o lambril.
- Deixa o meu macaco em paz, desastrado! - gritou o rapaz furioso. E pela porta aberta
a Zé viu o garoto dar uma grande palmada ao Tim. Correu lá para dentro e deu outra
palmada ao rapazinho, tão forte como a que ele dera ao Tim. Depois olhou para ele
muito zangada.
- Que estás a fazer aqui? Como te atreveste a bater no meu cão? Tiveste muita sorte
que ele não te mordesse. E a que propósito se encontra aqui este animalzinho?
O macaco estava aterrado. Tremia todo, parecendo chorar. O Júlio entrou no momento
em que a Joana chegava do andar de cima.
- Que aconteceu? - perguntou ela. - O seu pai não tarda a sair do escritório, furioso.
Pára de ladrar ao macaco, Tim, por amor de Deus. E não chore mais, menino Buzina.
Leve o seu macaco antes que o Tim o engula.
- Não estou a chorar - afirmou o Buzina, esfregando os olhos. - Vem cá, Diabrete. Não
deixarei que esse cão te faça mal. Eu vou... eu vou...
- Leva o teu macaco daqui para fora, rapazinho - interrompeu o Júlio, com voz amável,
achando que o pequeno tinha muita coragem para se atrever a ameaçar o Tim. - Vai-te
embora.

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O Buzina fez um barulho especial e o macaco saltou logo para o seu ombro. Pôs as
patas à volta do seu pescoço e soltou uma espécie de soluço.
- Coitadinho, está a chorar - disse a Ana.
- Não sabia que os macacos podem chorar. Tim, não o amedrontes, por favor. Não
deves brigar com um bicho tão pequeno.
- O Tim nunca briga com ninguém - disse a Zé aborrecida com a Ana. - Mas que
queriam vocês que ele fizesse se ao chegar a casa encontrou um rapaz desconhecido
com um macaco. Quem és tu, rapazinho?
- Não te direi. - respondeu o Buzina saindo da sala com o macaco sempre agarrado ao
pescoço.
- Joana, quem é ele? - perguntou o David.
- E que faz aqui?
- Já sabia que os meninos não iam gostar - disse a Joana. - Chegou o tal Professor
amigo do seu Pai, menina Zé, o que devia vir na próxima semana. Telefonou esta
manhã dizendo que afinal vinha hoje e trazia o filho, mas não falou no macaco.
- Estão aqui instalados? - perguntou a Zé horrorizada. - Como consentiu a minha Mãe?
Bem sabia que nós chegávamos hoje! Como pôde fazer uma coisa assim?...
- Está calada, Zé - pediu o Júlio. - Deixa a Joana explicar tudo.
- Eles chegaram antes que se pudesse fazer qualquer coisa para os impedir - disse a
Joana. .- E agora o Sr. Doutor está fechado no escritório com o Prof. Hayling -

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o pai do garoto - e a senhora e eu andamos numa aflição, sem sabermos onde os


instalar. O miúdo e o pai e suponho que o macaco também, ficam no quarto de
hóspedes.
- Mas aí costumam dormir o Júlio e o David! - exclamou a Zé outra vez irritada. - Vou já
dizer à mãe que esse miúdo não pode cá ficar. Eu...
- Não sejas palerma, Zé - disse o Júlio. - Havemos de nos arranjar. Agora não podemos
voltar para a minha casa porque está fechada.
- Só se dormirem no sótão - lembrou a Joana, sem grande convicção. - Mas está cheio
de pó e tem muitas correntes de ar. Podia lá pôr uns colchões para os meninos.
- Está bem - disse o Júlio. - Nós ajeitamo-nos no sótão. Obrigado, Joana. Onde está a
Tia Clara? Está muito aborrecida com tudo isto?
- Está bastante maçada - disse a Joana. - Mas bem sabem como é a tia. Sempre
simpática e boa, nunca pensa em si. Aquele Prof. Hayling! Entrou cá em casa como se
fosse o dono, trazendo a bagagem, aquela criança tão extraordinária e um macaco!
Embora o macaco seja muito bem apanhado. Foi ver-me lavar a loiça e vejam lá que
até tentou limpar -me os pratos!
Abriu-se a porta da cozinha e apareceu a mãe da Zé. - Olá queridos. - exclamou ela,
sorrindo. - Pareceu-me ouvir o Tim ladrar.

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Espera, Tim, até veres u macaco!


- Já o viu - disse a Zé, com cara zangada. - Mãe, não percebo como recebeu outras
pessoas, sabendo que nós vínhamos hoje.
- Cala-te Zé - disse o Júlio que percebera como a tia estava preocupada. - Tia Clara,
nós não lhe trazemos nenhuma complicação. Andaremos fora de casa a maior parte do
dia, podemos fazer-lhe as compras, daremos grandes passeios até à Ilha Kirrin para
nos afastarmos daqui...
- És sempre simpático, Júlio. - disse a tia Clara, sorrindo-lhe. - Vamos ter umas certas
dificuldades, principalmente porque o Prof. Hayling nunca se lembra de vir para a mesa
a horas e vocês bem sabem como é o vosso tio! É capaz de se esquecer do pequeno
almoço, do almoço e do jantar durante um ano inteiro e depois fica muito admirado por
sentir fome.
Todos se riram. O Júlio deu um abraço à tia. - Nós vamos dormir para o sótão - disse
ele. - Até vai ser divertido. As pequenas ajudam nos trabalhos da casa e o David e eu
fazemos as coisas mais pesadas. Nem pode imaginar como eu fico bem com um
avental à roda da cintura e uma vassoura na mão.
Até a Zé sorriu ao pensar no Júlio de avental. Nessa altura o Tim correu para a porta e
pôs-se a ladrar. Farejava outra vez o macaco. Ouviu um barulho e abriu logo a porta.
Seria o macaco a chamar-lhe nomes feios?
O animalzinho estava sentado na ponta do corrimão ao fundo das escadas.

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Viu o Tim e pôs-se ás cambalhotas, parecendo que estava a rir. O Tim correu para as
escadas e começou a dar saltos, ladrando furiosamente.
A porta do escritório abriu-se e apareceram não apenas um, mas os dois Professores
zangados.
- QUE VEM A SER TODO ESTE BARULHO? NÃO PODEMOS TER UM MOMENTO
DE SOSSEGO?
- Santo Deus! - exclamou a tia Clara, prevendo que tudo aquilo iria acontecer umas
vinte vezes por dia, agora que o Tim e os pequenos tinham chegado. Tentou acalmar
os dois senhores.
- Tenham paciência, o Tim ainda não está habituado ao macaco. Voltem para o
escritório, por favor, e fechem a porta. Farei o possível para que não sejam
incomodados outra vez.
- Béu! Béu! - fez o Tim com força e o Prof. Hayling voltou para o escritório a toda a
velocidade.
- Se o Tim continuar a portar-se mal, mando-o embora - ameaçou o tio Alberto
desaparecendo também.
- Mãe, que quis o pai dizer com aquilo? - perguntou a Zé, vermelha de zangada. - Se o
Tim se for embora eu também vou. Olhem para o macaco! Agora está em cima do
relógio de pêndulo! Ele é que devia ser mandado embora, horrível animal, e não o Tim!

Capítulo III - O BUZINA, O DIABRETE E O TIM!

O Júlio e o David levaram para o sótão dois colchões, alguns cobertores e duas
almofadas. O sótão era desconfortável e cheio de correntes de ar. Mas que haviam de
fazer?
Ainda estava muito frio lá fora para dormirem numa barraca de campanha. A Zé
continuava aborrecida.
- Acabas por ficar com essa cara mal humorada para toda a vida, se não tiveres
cuidado - disse o David. - Anima-te, por favor. A tua mãe sofre mais do que todos nós.
Vai andar ocupadíssima, durante esta semana.
E realmente assim era! Refeições para nove pessoas, entre elas cinco crianças cheias
de apetite, não era tarefa fácil de realizar.
A Joana passava o dia à volta dos cozinhados, as pequenas ajudavam a arrumar a
casa e os rapazes iam de bicicleta à vila todas as manhãs, fazer as compras.
- Porque razão o Buzina não pode ajudar? - perguntou a Zé no segundo dia. - Olhem
para ele, no jardim, correndo dum lado para o outro, fazendo um enorme barulho!
Buzina, cala-te! Podes incomodar o teu pai e o meu.
- Cala-te tu! - respondeu o Buzina, mal educado. - Não vês que sou um carro da marca
Bentley com um motor potente? E repara como pára bem quando eu travo.

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Nem precisa derrapar. Ouve a buzina; é uma maravilha!


Na verdade imitou muito bem a buzina dum carro. A janela do escritório abriu-se logo e
os dois senhores, igualmente zangados, gritaram:
- Buzina! Que barulho é esse? Já te dissemos que deves estar sossegado.
O Buzina começou a explicar a história do Bentley,

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mas como parecia não satisfazer nenhum dos senhores zangados, sugeriu
transformar-se num carro pequenino.
- Querem ver, anda assim... - disse o Buzina pondo-se a correr e fazendo o barulho
dum motor fraco. - E eu...
Mas a janela fechou-se com estrondo e por isso o carrinho utilitário foi até à cozinha
dizendo que tinha muita fome e que queria comer pãosinho de leite.
- Não alimento automóveis. - respondeu a Joana. - Não tenho gasolina. Vá-se embora.
O carrinho saiu da cozinha e foi procurar passageiros. O Diabrete agarrou-se ao
pequeno e subiu-lhe até ao ombro.
- És o meu passageiro. - disse o Buzina e o Diabrete agarrou-se à cabeça do pequeno
enquanto este corria pelo jardim a grande velocidade, mas sem fazer grande barulho.
- É uma criança engraçada, - disse a Joana à tia Clara quando esta entrou na cozinha.
- Não é mau pequeno, ele e o carro! Nunca vi um garoto tão maluco. Um destes dias
ainda acaba por se transformar num automóvel a valer.
No dia seguinte começou a chover e o Buzina não podia sair. Ia tornando todos loucos
com aquela mania de buzinar e imitar um motor de automóvel.
- Oiça uma coisa. - disse a Joana quando ele entrou pela vigésima vez na cozinha. -
Não me interessa que o menino seja um Morris Mini, ou um Austin, um Cônsul ou
mesmo um Rolls Royce.Mas por favor não entre mais na cozinha.
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É engraçado pensar que um carro tão bom como um Rolls Roice pode roubar bolachas
da minha lata; devia ter vergonha!
- Ora, se não consigo arranjar gasolina, é natural que arranje qualquer outra coisa para
poder andar, não acha? - disse o Buzina.
- Olhe para o Diabrete. Está na despensa a tirar maçãs e a Joana não lhe diz nada.
- Palavra que ele está outra vez na despensa?! - exclamou a pobre Joana, saindo da
cozinha a correr. - Quem deixou a porta aberta, sempre gostaria de saber.
- Foi o Tim - disse o Buzina.
- Seu malandro! - gritava a Joana enquanto expulsava o diabrete da despensa. - O Tim
nunca faria uma coisa dessas. Nunca tira nada, não é como esse ladrão do macaco do
menino.
- Não gosta dele, Joana? - perguntou o Buzina, tristemente. - Ele gosta muito de si.
A Joana deu uma olhadela ao macaco. Estava sentado num canto, com os braços a
cobrirem o focinho parecendo muito pequeno e triste. Pelo canto de um olho espreitava
a cozinheira.
- És um grande intrujão - disse a Joana. - A fingires que te sentes o macaco mais infeliz
do mundo e durante todo o tempo a pensar na próxima diabrura que queres fazer. Vá,
apanha lá um biscoito, malandro, e esta manhã não te atrevas a aproximar do Tim. Ele
está muito, muito zangado contigo.
- Que fez o Diabrete ao Tim? - perguntou o Buzina surpreendido.

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- Foi ao prato do Tim e roubou-lhe um osso - contou a Joana. - O Tim pôs-se a rosnar
que nem um trovão. Até pensei que ia morder a cauda do macaco. Havia de ver como
fugia o Diabrete!
O macaco aproximara-se da Joana com cautela olhando para o biscoito que ela
segurava.
A cozinheira dera-lhe uma ou duas palmadas quando o encontrara a roubar e o
Diabrete tinha um certo respeito pela sua rápida mão direita.
- Aqui tens. Toma lá um biscoito - disse a Joana. - E não faças essa cara triste que
ainda sou capaz de te dar outro biscoito sem querer. Agora para onde vais?
O macaco agarrara o biscoito com uma das patas e fugira para a porta. Esta estava
fechada e por isso o Buzina abriu-a. O Tim entrou logo. Estivera deitado junto à porta,
farejando o bom cheiro da sopa que estava a ferver ao lume.
O Diabrete saltou para as costas duma cadeira e fez um barulho estranho como se
estivesse a pedir desculpa. O Tim parou arrebitando as orelhas. Percebia muito bem a
linguagem dos animais.
O Diabrete continuava a agarrar o biscoito. Saltou para o assento da cadeira e então,
para enorme surpresa da Joana, entregou o biscoito ao Tim. Ia dizendo qualquer coisa
numa voz muito fininha e o Tim ouvia, muito sério. Depois o canzarrão pegou no
biscoito amavelmente, atirou-o ao ar e engoliu-o.

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- Alguma vez se viu uma coisa destas! - exclamou a Joana, maravilhada. - Tenho a
certeza de que o Diabrete pediu desculpa ao Tim por lhe ter roubado o osso, e
ofereceu-lhe o biscoito para fazer as pazes. O que dirá a Zé quando souber!
O Tim lambeu os beiços para ver se ainda restariam algumas migalhas de biscoito e
pondo a cabeça à banda deu uma lambedela ao macaco na ponta do seu ridículo
narizito.
- O Tim está a agradecer! - exclamou o Buzina encantado. - Agora vão tornar-se
amigos, até aposto.
A Joana estava admirada e satisfeita. Que engraçado, pensar que o macaco tivera a
esperteza de presentear o Tim com o biscoito quando tanto lhe apetecia comê-lo! Tinha
bom coração. Resolveu ir lá acima, contar à Zé.
Mas a Zé não queria acreditar.
- O Tim nunca aceitaria um biscoito do idiota do macaco - disse ela. - Nunca. Tu
inventaste tudo isso, Joana, só porque te tornaste amiga do Diabrete. Espera até que
ele volte a fugir com a tua faca das torradas!
Apesar de tudo a Zé desceu as escadas com a Joana só para ver se os dois bichos se
tinham tornado amigos e deparou com uma cena muito curiosa!
O Diabrete estava montado nas costas do
Tim e este andava ás voltas na cozinha, como se o passeasse a cavalo. O macaco
parecia encantado e o Buzina ria às gargalhadas.
- Mais depressa, Tim! Mais depressa! És um belo cavalo! Podias ganhar uma corrida.
Continua a galopar.
- Não quero que o Tim ande a passear o macaco - disse a Zé - Pára, Tim! Pareces um
idiota.
O macaco inclinou-se para a frente e abraçou o Tim à volta do pescoço. Depois
escorregou para o chão e olhou para a Zé como quem diz: - Está bem. Não quero que
o teu cão pareça um idiota.
O Tim percebeu que a Zé estava zangada e foi deitar-se no tapete. O macaco seguiu
logo atrás dele e instalou-se entre as patas dianteiras do Tim, sem nenhum receio. O
Tim abaixou a sua grande cabeça e lambeu-o com simpatia.
A Joana até ficou com lágrimas nos olhos! Aquele Tim! Era o cão melhor do mundo.
- Olhe para aquilo - disse ela à Zé. - O cão da menina é uma bondade. Agora não lhe
ralhe por se tornar amigo do animalzinho que lhe roubou o osso.
- Eu não vou zangar-me! - disse a Zé admirada e toda orgulhosa. - Ele é uma
maravilha. O melhor cão do Mundo! Não és, Tim querido?
E aproximando-se do Tim fez-lhe festas na cabeça. Ele ficou muito contente e pôs-se a
ganir, como quem diz. - Agora está tudo certo. Somos todos amigos.
O Buzina estivera a observar a cena dum canto da cozinha e não dissera palavra.
Receava um pouco a Zé e o seu mau génio. Ficara encantado ao ver a pequena fazer
festas ao Tim,

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sem mesmo embirrar com o macaco. Na sua alegria pôs-se a buzinar como um camião
e assustou tanto os outros que começaram a gritar-lhe:
- Cala-te, Buzina!
- Esteja quieto, seu barulhento!
- Béu! - fez o Tim.
- O Sr. Doutor ainda aparece aqui se continua a buzinar dessa maneira - disse a Joana.
- Não pode ser outra coisa para variar? Uma bicicleta por exemplo.
O Buzina achou que era uma boa ideia. Pôs-se a correr pela cozinha e pelo vestíbulo
fazendo um barulho sibilino como o de uma bicicleta, com toda a força. E era realmente
tão parecido que a tia Clara saiu da sala, pensando que chegara alguém à porta da
frente.
Então a porta do escritório abriu-se de par em par, aparecendo o pai da Zé e o pai do
Buzina. O pobre pequeno foi apanhado e o pai agarrou-o com tanta força que lhe
caíram dois lápis do bolso, rolando pelo chão.
O Buzina pôs-se a gritar e de que maneira gritava! A Zé saiu da cozinha correndo a
saber o que se passava e o David e o Júlio e a Ana vieram pelas escadas, numa
correria e a Joana também foi ao vestíbulo, esbarrando com a pressa no dono da casa.
Então a Zé fez um grande disparate. Desatou a rir e quando a Zé se ria com vontade
as suas gargalhadas ouviam-se à distância! Mas nem o pai nem o Prof. Hayling lhe
acharam graça. Acharam uma falta de educação.

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Pensaram que estava a rir-se deles, o que não se admitia.


- Isto é único! - berrou o Dr. Kirrin, furioso. - Primeiro este rapaz a tocar campainhas e
a buzinar e a Zé encorajando-o, rindo-se desta maneira. Não admito! Não sabem que
estamos a fazer um trabalho muitíssimo importante, um trabalho que pode trazer
grandes benefícios para o Mundo? Clara, manda estas crianças embora para qualquer
sítio. Não as quero cá em casa a incomodarem-nos enquanto estamos a fazer
trabalhos importantes. Estás a ouvir? MANDA-AS EMBORA! É a única coisa que eu
quero.
E o tio Alberto e o Professor voltaram com grandes passadas para o escritório e
fecharam a porta com força.
E agora? Que iriam fazer?

Capítulo IV - O BUZINA TEM UMA IDEIA MARAVILHOSA.

A tia Clara aparecera durante a discussão e soltara um suspiro ao ouvir o seu marido
aos gritos. Santo Deus, aqueles cientistas que gostavam de fazer coisas maravilhosas
para o mundo, faziam tantas vezes as suas famílias infelizes!
Sorriu ao ver a cara zangada da Zé e pegou-lhe por um braço.
- Vem para a sala de estar, minha querida e traz os outros contigo. É preciso
decidirmos o que se deve fazer. Realmente o teu pai tem um trabalho muito importante
e concordo que o Buzina, o Diabrete e o Tim não ajudam muito. Está bem, está bem,
Zé, eu sei que a culpa não é do Tim, mas ele ladra muito alto.
Levou as cinco crianças e o Tim para a sala de estar. O macaco, assustado com a
confusão foi-se esconder e não conseguiram encontrá-lo. A tia Clara chamou a Joana.
- Joana, venha ajudar a resolver o que devemos decidir. Não podemos continuar
assim.
Sentaram-se todos, com ar muito sério. O Tim deitou-se por baixo da mesa com o
focinho entre as patas. Onde estava aquele macaquinho que lhe oferecera o biscoito?
A discussão começou. A Zé falou primeiro, muito indignada.

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- Mãe, esta casa é nossa. Porque devemos sair só porque o pai convidou um amigo
cientista? Quando eu tenho que fazer os meus trabalhos escolares não desato aos
gritos cada vez que o pai atira com a porta, enquanto estou a estudar. Mas se eu...
- Não digas mais, Zé - interrompeu a mãe. - Tu devias compreender o teu pai. Vocês
têm exactamente o mesmo feitio, impacientes, com mau génio, gostando de bater com
as portas e no entanto são ambos muito bons. Agora deixa-me ver se descubro uma
saída para este caso.
- Quem me dera que pudéssemos voltar para a minha casa - disse o Júlio, sentindo-se
embaraçado. - Mas está tudo fechado agora que os meus pais andam a viajar.
- Não podíamos levar as barracas de campanha para a Ilha Kirrin? - perguntou a Zé. -
Já sei o que vai dizer, mãe. Estamos apenas em princípio de Abril e ainda está muito
frio e tudo isso...
- O boletim metereológico anuncia um tempo péssimo - disse a mãe. - Chuva, chuva e
mais chuva. Não podem ir acampar chovendo a cântaros. E remarem para cá e para lá,
ficando ensopados a toda a hora. Daqui a três dias estavam todos na cama com
bronquite e então é que seria bonito!
- Está bem, Mãe. Tem alguma ideia? - perguntou a Zé, ainda zangada.
- Olhe, o que está o macaco a fazer? - perguntou o David de repente.
- Está a espertar o lume - explicou o Buzina. - Acha que está frio aqui.
- Só faltava mais esta! - exclamou a Joana tirando o atiçador das patas do macaco. -
Queres pôr a casa a arder, meu... meu...
- Macaco! - acabou o David, rindo. - O Diabrete está sempre pronto a fazer diabruras.
Não se pode tirar os olhos dele nem um momento.
- Então se não podemos ir para a Ilha Kirrin, nem voltar para a minha casa, nem
ficarmos aqui... para onde vamos então? - disse o Júlio muito sério. - Os hotéis são
muito caros e qual dos nossos amigos estaria pronto a receber-nos, aos cinco mais um
macaco
endiabrado mais um canzarrão cheio de apetite?
Fez-se um silêncio. Que problema! De repente o Buzina falou.
- Eu sei para onde podíamos ir e era bem divertido! - disse ele.
- Onde fica esse maravilhoso lugar? - perguntou a Zé, incrédula.
- Bem, estava a pensar no meu farol -respondeu o Buzina, para surpresa de todos. E
como ninguém dizia nada fez um sinal afirmativo. - Disse o meu farol. Não sabem o
que é um farol?
- Não sejas parvo, por favor - disse o David. - Não é altura para brincadeiras.
- Não estou a brincar - afirmou o Buzina, indignado. - É verdade. Perguntem ao meu
pai.

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- Mas, querido Buzina, tu não podes ser o dono dum farol - disse a tia Clara, sorrindo.
- Mas sou - disse o Buzina, com vivacidade. - O meu pai precisava de fazer um
trabalho muito especial, que não podia ser feito em terra e por isso comprou um farol
velho e vazio onde completou o seu trabalho. Eu fui com ele. Estava-se ali lindamente,
com o vento as ondas rebentando todo o tempo.
- Mas... mas certamente o teu pai não te ofereceu o farol, pois não? - perguntou o Júlio
sem acreditar.
- Ofereceu, sim senhor. Porque não o teria feito, se eu gostava tanto do farol? - disse o
Buzina. - Já não precisava dele e ninguém o queria comprar. Como eu o desejava
tanto, deu-mo no dia dos meus anos. E é meu. Posso afirmá-lo.
- Deus seja louvado! - exclamou o Júlio. -A Zé tem uma ilha oferecida pela mãe e o
Buzina tem um farol dado pelo pai. Gostava que os meus pais me dessem um vulcão
ou qualquer coisa assim!
Os olhos da Zé brilhavam ao fitar o Buzina.
- Um farol só teu! Onde fica?
- A cerca de dezasseis quilómetros ao longo desta costa, para oeste - disse o Buzina.
- Não julguem que é grande. Mas é formidável. A velha luz ainda lá está, mas já não se
acende agora.
- Porque não?
- Porque construíram um farol novo e grande, um pouco mais longe num sítio melhor
para
avisar os navios - explicou o Buzina. - Foi por isso que puseram o velho à venda. Era
óptimo para o meu pai trabalhar. Ninguém o importunava embora às vezes ficasse
muito zangado com as gaivotas. Dizia que "miavam" como os gatos durante muito
tempo seguido e até quase se sentia na obrigação de pôr lá fora o leite para elas.
Isto fez com que todos começassem a rir e o Buzina sorriu, todo orgulhoso. Como
devia ser inteligente para conseguir que todos os miúdos se rissem e até a Joana e a
tia Clara!
Mas interrompeu os risos batendo com a mão na mesa.
- E agora já me acreditam? - perguntou. - É absolutamente verdade. O farol é meu.
Perguntem ao meu pai. Vamos para lá até que os nossos pais acabem o trabalho.
Podemos levar o Tim e o Diabrete. Há muito espaço.
Esta proposta era tão espantosa que ninguém respondeu durante alguns momentos.
Depois a Zé deu-lhe uma palmada amigável nas costas.
- Eu quero ir. Que divertido, viver num farol! Até aposto que as meninas da minha
escola nem vão acreditar.
- Tia Clara, podemos ir? - perguntou a Ana, com os olhos a brilhar.
- Bom, não sei - disse a tia. - É uma ideia muito extraordinária. Tenho que consultar o
vosso tio e o pai do Buzina.
- O meu pai vai dizer que sim, tenho a certeza - disse o Buzina. - Deixámos lá alguns
mantimentos e vários cobertores.

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Não acham que vai ser animado vivermos sozinhos num farol?
A ideia claro que agradava aos Cinco e até mesmo o Tim batia com a cauda no chão
como se tivesse percebido tudo. E talvez tivesse pois nunca perdia nada do que se
passava à sua volta.
- Eu tenho um mapa que mostra onde fica o meu farol. - disse o Buzina procurando
numa das suas algibeiras. - Está um bocado estragado e sujo porque olhei para ele
muitas vezes. Aqui está o mapa da costa e ali, construído nas rochas, fica o meu farol.
Está marcado com uma pinta negra, reparem.
Todos se inclinaram sobre o mapa usado. Todos tiveram a certeza de que estava ali a
solução para os seus problemas. O David fitava o entusiasmado Buzina. Que sorte ele
tinha em possuir um farol! O David nunca encontrara na sua vida o dono dum farol e
pensar que aquele, o pequeno meio maluco chamado Buzina, possuía um.
- As rochas onde o farol foi construído causaram muitos naufrágios - contou o Buzina. -
Os afundadores costumavam trabalhar junto do mar como vocês sabem; acendiam
uma luz como se fosse para guiar os barcos ao longo da costa e em vez disso faziam-
nos ir dar aos rochedos. Ali ficavam todos desfeitos, as pessoas morriam afogadas e os
afundadores esperavam que os barcos fossem dar à costa e depois tiravam-lhe tudo o
que podiam.
Todos se inclinaram sobre o mapa usado
- Os afundadores eram umas pestes - disse o David, indignado.
- Existe ali a Gruta dos Afundadores, onde eles guardavam as coisas que roubavam
nos navios afundados - disse o Buzina. - Eu fui lá dentro mas não me afastei da
entrada. Tive medo. Dizem que ainda lá vivem dois ou três velhos afundadores.
- Disparate - disse a tia Clara, rindo. - Naturalmente é só uma história para conservar
as crianças afastadas das grutas perigosas e das rochas.

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Realmente, meus queridos, não vejo razão que os impeça de irem para o farol do
Buzina, se o pai dele concordar.
- Obrigada, Mãe! - exclamou a Zé e deu-lhe um abraço tão apertado que ia sofocando
a senhora. - Que bom! Viver num verdadeiro farol. Até custa a crer. Vou levar o meu
binóculo para ver passar os barcos.
- E o Júlio pode levar o gira-discos - lembrou a tia Clara. - Se estiver mau tempo deve
ser mais triste do que pensam, viver num farol solitário.
- É MARAVILHOSO! - afirmou o Buzina e de repente transformou-se num carro de
corridas, andando ás voltas e a grande velocidade, fazendo um barulho impossível. O
Tim ladrava e o Diabrete pôs-se a guinchar.
- Chiu! - fez a tia Clara. - Não faças o teu pai zangar-se, Buzina, pois pode ser o fim da
vossa boa ideia. Desliga o motor e senta-te sossegado. Vou falar com o teu pai logo
que possa.
Capítulo V - O FAROL DO BUZINA.

A tia Clara resolveu ir imediatamente ao escritório para ver se o marido e o Prof.


Hayling poderiam falar com ela, sobre a ida das crianças para o farol. Bateu
discretamente à porta. Ouvia vozes lá dentro mas ninguém a mandou entrar. Bateu
outra vez.
- Que vem a ser agora? - gritou o tio Alberto. - Se és tu, Zé, vai-te embora e não voltes
aqui. E se é o Buzina, é melhor ir para a garagem e ficar lá guardado. Acho que foi ele
quem fez todo o barulho desta manhã.
A tia Clara sorriu. Santo Deus, se todos os cientistas eram como o marido e o Prof.
Hayling parecia-lhe extraordinário que arranjassem calma suficiente para fazerem
qualquer trabalho!
Foi-se embora. Talvez conseguisse falar sobre o assunto do farol à hora do jantar. Que
alívio seria ter a casa em sossego durante alguns dias!
Foi à cozinha procurar a Joana. Lá estava o macaco, ajudando a cozinheira. Fugira ao
Buzina para ir ver se encontrava algumas migalhas. A Joana conversava com ele
enquanto estendia com o rolo a massa tenra.
- Estás a ver como eu faço? É assim... é assim! E aqui tens um pedacinho para ti!

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Ofereceu ao Diabrete uma apara da massa, ficou muito satisfeito e saltou para o ombro
da Joana. Afastou-lhe o cabelo e segredou-lhe ao ouvido. A Joana fingia perceber.
- Está bem, Diabrete. Se te portares com juízo dou-te mais um pedacito de massa
daqui
a pouco. Agora sai do meu ombro e não me fales ao ouvido que me fazes cócegas.
- Olhe, Joana, nunca imaginei que ainda a veria estender massa tenra com um macaco
ao ombro - disse a tia Clara, rindo. - Oiça uma coisa, que lhe parece esta ideia do
farol? Ainda não consegui entrar no escritório. O Sr. Doutor julgou que era o Buzina e
mandou-me para a garagem.
- Uma boa ideia! - aprovou a Joana estendendo a massa com força. - Não é ele que
está no vestíbulo? Parece-me ouvir um carro. Olhe, minha senhora, se o farol é
habitável porque não hão-de ir os Cinco para lá, com o menino Buzina e o macaco?
Devem divertir-se e o Tim tomará conta de todos. É o género de coisas que as crianças
gostam. Ir viver para um farol! Cá por mim, Deus me livre! Um lugar isolado com as
ondas a bater à volta e o vento a assobiar sem descanso!
- Mas acha que não haverá perigo, ficando lá sozinhos? - perguntou a tia Clara.
- Oh minha senhora, o menino Júlio e o menino David já têm idade para tomarem conta
dos outros. Embora deva acrescentar que não me agradaria a tarefa de olhar pelo
Buzina - disse a Joana.

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- Só espero que ele não resolva ser avião e de repente não levante voo do alto do farol.
A tia Clara riu-se. - Não lhe diga isso! - pediu. - A ideia de ser automóvel já é bastante
má. Tenho muita pena de mandar embora a menina Zé e os primos quando ainda mal
chegaram, mas com dois cientistas em casa, tão irritáveis, acho que não há outra coisa
a fazer. Atenção ao macaco. Encontrou o saco das passas.
- Oh seu Diabrete! - exclamou a Joana, alcançando-o com a mão. Mas ele saltou para
o alto dum armário com o saco das passas bem seguro nas patas. Soltou uns guinchos
fininhos, como se estivesse a ralhar com a Joana.
- Já para baixo com essas passas! - disse a Joana, avançando para o armário. - Se
não eu amarro-te a uma cadeira pela cauda, macacão.
O Diabrete disse qualquer coisa na sua vozinha engraçada que parecia muito
manhosa. Depois meteu a pata no saco de papel e tirou uma passa. Mas não a comeu.
Fez pontaria e atirou-a à Joana. Acertou-lhe na cara e ela ficou a olhar para o Diabrete,
muito admirada.
- Esta é boa! Atirar-me com as minhas próprias passas. Isso é que não!
Foi ao lava-loiças e encheu um púcaro com água, enquanto o Diabrete lhe acertava, e
à tia Clara também, com mais passas, pondo-se a dançar no alto do armário,
guinchando todo satisfeito.
Uma tijela que estava em cima desse armário caiu,

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enquanto o macaco dançava e veio partir-se no chão. O barulho assustou-o e dando


um grande salto foi parar ao cimo da porta que se encontrava meia aberta. Daí
continuou a atirar passas à senhora e à cozinheira, guinchando com toda a força.
A porta do escritório abriu-se mais uma vez saindo o tio Alberto seguido pelo professor.
- Que barulho foi esse? Que se passa? Como podemos nós...
Foi uma pouca sorte a Joana resolver naquele momento atirar água ao Diabrete. Como
ele estava no alto da porta e a água lhe caiu em cima, escorregou pela porta até à mão
do pai da Zé quando este a abria!
A Joana ficou aterrada. Sumiu-se logo para a copa sem saber se devia rir ou pedir
desculpa.
O tio Alberto ficou perplexo ao perceber que estava todo molhado. Pôs-se a olhar fu
rioso para o Diabrete, muito convencido de que fora o macaco quem atirara a água
sobre ele.
Nessa altura os Cinco saíram da sala de estar para verem donde vinha o barulho.
- É o Diabrete - disse o Buzina. - Naturalmente atirou água.
- Desta vez fui eu que atirei a água - começou a Joana saindo da copa com ar
embaraçado. - Porque...
- A Joana é que deitou água? - perguntou o tio Alberto confuso. - Mas que se passa
nesta casa?

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As coisas chegaram a um lindo estado se a própria Joana resolveu pôr-se a deitar


água às pessoas. Devia ter vergonha! Terá enlouquecido?
- Ouve, Alberto - disse a tia Clara. - Ninguém enlouqueceu mas não tarda que todos
fiquemos malucos se isto continuar assim. Estás a ouvir, Alberto? Tenho uma coisa
importante para te dizer, e a si também, Professor.
O Prof. Hayling nessa altura lembrou-se que devia ser bem educado. Fez uma leve
inclinação de cabeça na direcção da senhora. -Faz favor - disse ele delicadamente e
depois vacilou, ao apanhar com uma passa na cara. O Diabrete encontrara uma no
chão e fizera pontaria ao Professor. O David olhou para o macaco com admiração.
Realmente tinha uma grande pontaria!
- O que está a atirar aquele insuportável macaco?-perguntou o tio Alberto zangado,
mas logo percebeu ao ser atingido com uma outra passa no nariz. - Tirem-no daqui!
Metam-no no caixote do lixo! Que tenho eu a ver com macacos que atiram coisas às
pessoas e miúdos com a mania de serem automóveis? Já te disse, Clara, não suporto
isto!
A tia Clara, olhou para ele, severamente.
- Ouve, Alberto, quero dizer-te uma coisa. OUVE! O Buzina afirma que o pai lhe deu um
farol e ele lembrou que podia ir com os outros lá passar uns dias. Alberto, estás a
ouvir?
- Um farol? Estão doidos? A que propósito resolveu o miúdo dizer que tem um farol?

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- perguntou o senhor, admirado.


- O Buzina tem razão - afirmou o Professor. - Comprei um farol para lá trabalhar pois
precisava do mais absoluto sossego, e quando acabei o trabalho não consegui vendê-
lo. Por isso, como o Buzina passava a vida a pedir-me o farol, ofereci-lho, mas não foi
para lá viver.
- Um farol para trabalhar! - disse o pai da Zé achando uma ideia maravilhosa. - Posso
comprá-lo. Eu...
- Não, Alberto, não vais fazer nada disso - disse a tia Clara com firmeza. - POR FAVOR
ouçam-me. Prof. Hayling, quero saber se o farol tem condições para os cinco pequenos
se instalarem até o Professor e o meu marido acabarem o vosso trabalho. Eles só
incomodam e para falar verdade os senhores também os incomodam a eles.
- Clara! - exclamou o marido, escandalizado.
- Oiça, pai. Não os aborrecemos mais se nos deixarem ir para o farol do Buzina - disse
a Zé enfrentando o pai, com toda a firmeza.
- Diga só uma palavra - SIM. - É tudo o que nós queremos.
- Sim! - gritou o tio Alberto cansado de tanta discussão, ansiando por voltar aos seus
papéis, com o professor. - SIM! Vão para o farol, vão para a Torre de Londres, vão viver
para o Jardim Zoológico se quiserem! Os macacos hão-de receber bem essa
impossível criatura que está sentada a sorrir em cima do armário.

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Mas DEIXEM-ME EM PAZ!


- Obrigada, Pai! - disse a Zé, satisfeita. - Partiremos para o farol o mais depressa
possível. Viva! VIVA! VI...
Mas antes que pudesse continuar, a porta do escritório fechou-se com estrondo atrás
dos dois desesperados cientistas.
A Zé abaixou-se, pegou nas duas patas dianteiras do Tim e pôs-se a dançar com ele,
na sala de estar, gritando. - Viva! Viva! VIVA O FAROL!

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A tia Clara sentou-se numa cadeira e desatou a rir. A Joana também se ria.
- Se não nos rirmos acabaremos por chorar. - Que confusão! Ainda bem que se vão
embora, minha senhora. O sótão é demasiado ventoso para os meninos. Repare no
pobre Julinho. Tem o pescoço empenado, mal o pode voltar.
- Não me ralo! - disse o Júlio. - Em breve estaremos de partida, os Cinco reunidos e
mais dois para fazerem companhia. Vai ser uma aventura!
- Aventura? - perguntou o Buzina, surpreendido. - Não é possível ter aventuras num
farol o mais isolado possível. Ali não pode surgir nenhuma aventura.
Espera e verás, Buzina! Ainda não conheces bem os Cinco! Se anda alguma aventura
por aquelas paragens arranjarão maneira de se envolverem nela!

Capítulo VI - FAZENDO PLANOS.

ERA muito divertido fazerem planos acerca do farol. O Buzina contava-lhes muita
coisa.
- É muito alto e tem uma escada de ferro em caracol, que vai até lá acima. E mesmo no
fim há um quartinho com a lâmpada que costumavam acender para avisar os navios
que não deviam aproximar-se.
- Parece-me formidável - disse a Zé. - E quanto ao Tim, achas que ele conseguirá subir
a escada de caracol?
- Se lhe custar subir pode ficar lá em baixo - disse o Buzina. - O Diabrete sobe-a
facilmente, a correr!
- Se o Tim tiver de ficar sempre lá em baixo eu ficarei com ele - declarou a Zé.
- Porque não vemos primeiro o farol antes de fazermos planos sobre os sítios onde
vamos dormir? - propôs o Júlio, dando-lhe uma palmada amigável. - Primeiro temos de
saber exactamente em que lugar fica e como se vai para lá. É uma pena o Buzina não
se poder transformar num carro verdadeiro para nos levar num instante.
O Buzina imaginou logo ser um grande camião, levando os Cinco e toda a bagagem ao
longo da estrada. Pôs-se a correr, fazendo o habitual barulho de motor e buzinando tão
alto

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que sobressaltou todos. O Júlio agarrou-o com firmeza.


- Se continuas assim deixamos-te cá ficar - declarou ele. - Agora onde está o mapa?
Quero examiná-lo e depois vamos buscar o grande mapa da tia Clara para traçarmos o
caminho até ao farol.
Em breve o Buzina e os Cinco estudavam um grande mapa da costa, com o Diabrete
sentado no ombro do David.
- Olhem, este é o melhor caminho - disse o Júlio. - Indo pelo mar não era nada distante,
reparem, aqui à volta da costa cortando pela baía em redor do promontório. Ali estão as
rochas onde fica o farol. Mas por estrada é bastante longe.
- Então é melhor irmos de automóvel - propôs o David. - Temos muita bagagem. Não
só as nossas roupas mas loiças e coisas assim. E alimentos.
- Ainda lá ficaram alguns - disse o Buzina, com vivacidade. - O pai deixou-os quando
viemos do farol.
- Naturalmente já estão estragados - disse o Júlio.
- Mas não levem muita coisa - aconselhou o Buzina. - O caminho pelas rochas até ao
farol é terrível. Não há estrada até lá. Temos que levar tudo à mão, desde o cais. E
podemos comprar coisas frescas na aldeia, que não é muito longe. Mas em certos dias
nem se consegue sair do farol. As ondas batem nas rochas quando há vento forte. E
temos que ir de barco na maré alta,

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porque as rochas ficam cobertas pelo mar.


- Isso parece-me muito divertido - disse o David entusiasmado. - Qual é a tua opinião,
Ana? Ainda não te manifestaste.
- Bem, sinto-me um pouco assustada - confessou a Ana. - Parece tão isolado. Espero
que não naufrague nenhum navio nessas horríveis rochas enquanto lá estivermos.
- O Buzina já disse que há um óptimo farol um pouco mais longe, na costa - disse o
Júlio. - A sua luz deve conservar todos os barcos afastados das rochas perigosas.
Ouve, Ana, tu gostas de ir? Caso contrário a tia Clara não se deve importar que aqui
fiques. És muito sossegada, não incomodarás o tio Alberto nem o Prof. Hayling.
- Nem pensar nisso! - exclamou a Ana, indignada. - Júlio, já não existem afundadores
naquelas paragens, pois não? Isso é que eu detestava!
- Já desapareceram há muitos anos - afirmou o Júlio. - Anima-te,, Ana. É apenas uma
visita que vamos fazer à casa de praia do Buzina. Ele recebe hóspedes esta primavera.
- Vamos continuar com os nossos projectos - propôs o David. - Está assente que
vamos de carro. E que disseste tu a esse propósito, Buzina?
- Disse que eu posso guiar se vocês quiserem - respondeu o Buzina. - Eu...
- Tu não tens carta de condução por isso não digas asneiras - interrompeu a Zé,
zangada.

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- Bem sei, mas apesar disso sei guiar! -declarou o Buzina. - Fartei-me de guiar o carro
do meu pai, no jardim. E...
- Cala-te! - ordenou o David. - Sempre a falares nos teus carros a fingir. Júlio, quando
vamos para o farol?
- Pode ser amanhã pela manhã - disse o Júlio. - Estou convencido de que todos
ficarão satisfeitos se formos o mais depressa possível. É muito trabalhoso para a tia
Clara e para a Joana ter aqui tanta gente. Vamos procurar um carro e alguém para o
conduzir e
depois faremos as malas e despedimo-nos.
- óptimo! - exclamou a Zé satisfeita, batendo na mesa o que fez o Diabrete saltar para
cima duma prateleira assustado. - Desculpa, Diabrete. Assustei-te? Tim, diz-lhe que
lamento muito mas não foi de propósito. Ele deve perceber a tua linguagem.
O Tim olhou para o Diabrete e ganiu duma maneira especial. O macaco ouviu com a
cabeça à banda e depois deu um salto indo parar às costas do Tim.
- Obrigada por lhe teres dado o meu recado, Tim - disse a Zé e todos riram.
Simpático Tim! Pôs-se a abanar a enorme cauda e deitou a cabeça nos joelhos da Zé,
olhando para ela com ar suplicante.
- Está bem, meu velho. Eu percebo a tua linguagem, e até entendo o teu olhar - disse
a Zé, fazendo-lhe festas. - Queres um passeio, não é verdade?
- Uuuf! - fez logo o Tim alegremente, correndo para a porta.

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- Vamos até à garagem ver se têm um automóvel ou uma carrinha que nos possam
alugar - propôs o Júlio. - Também precisamos de arranjar um motorista, porque alguém
tem que trazer o carro de volta! Vamos, Tim!
Partiram todos para a garagem da vila. A chuva parara por uns momentos, e o sol
aparecera fazendo brilhar a Baía Kirrin.
- Que pena não ser possível irmos para a minha ilha - disse a Zé. - Mas na verdade
está muita humidade para lá acamparmos. De qualquer maneira um farol será
divertido, para variar.
O homem da garagem atendeu o Júlio e o pequeno explicou-lhe que queria um carro
para ir ao farol. - É o velho farol dos Rochedos do Diabo e não o novo nos Penhascos
Altos -acrescentou. - Vamos ali passar uns dias.
- Num farol? - perguntou o homem. - Não estão a brincar comigo?
- Não. Por acaso pertence a um de nós -disse o Júlio. - Temos que levar algumas
coisas e gostaríamos de arranjar um carro com
motorista para amanhã de manhã. Nós depois quando resolvermos vir embora
mandamos dizer e então é favor mandar o mesmo carro buscar-nos.
- Está bem - disse o homem. - São do Casal Kirrin, não é verdade? São sobrinhos do
Dr. Alberto? Eu conheço aqui o menino Zé, mas não estava certo de quem eram os
outros meninos. Há pessoas de pouca confiança que querem alugar carros,

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por isso temos que tomar as nossas medidas.


A Zé estava satisfeita por o homem lhe ter chamado menino Zé. Gostava muito que a
tomassem por um rapaz. Meteu as mãos nos bolsos dos seus calções e resolveu logo
cortar o cabelo ainda mais curto, se a mãe consentisse.
- É melhor levarmos alguns cobertores e almofadas - lembrou o Júlio. - E uns casacos
de malha e umas camisolas. Julgo que não deve estar muito calor no farol.
- Existe lá um fogão a petróleo - disse o Buzina. - Podemos servir-nos dele para nos
aquecermos se tivermos frio.
- Que espécie de alimentos deixou lá o teu pai? - perguntou o David.
- Talvez seja melhor comprarmos algumas coisas na mercearia. E umas garrafas de
laranjada ou coisa assim. Podemos levar tudo no carro.
- Julgo que deixámos uma porção de comida enlatada - disse o Buzina tentando
recordar-se. - Ficou ali para o caso de o meu pai resolver trabalhar outra vez no farol
quando precisasse dum sítio sossegado.
- Foi uma pena que não combinasse com o tio Alberto encontrarem-se no farol - disse o
Júlio. - Assim toda a gente ficaria satisfeita.
Foram à mercearia e a Ana esforçou-se por comprar tudo o que lhe parecia que iria
fazer falta, além das latas de conserva.

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- Açúcar, manteiga, ovos... ajuda-me, Zé. Que porções devo pedir?


- Não esqueçam que podemos ir às compras na aldeia próxima - repetiu o Buzina. -Só
é maçada quando há muito vento porque o caminho por cima das rochas não é muito
seguro. Podemos ter que ficar no farol por um ou dois dias sem conseguirmos sair.
Mesmo de barco torna-se perigoso.
- Parece animado - comentou a Zé, imaginando-os a todos cercados pela tempestade,
esperando ser socorridos e em perigo de morrerem à fome. - Traz uns biscoitos, Ana. E
tabletes de chocolate. E uma grande quantidade de laranjada. E uma grande garrafa de
groselha. E...
- Espera um pouco; sabem quem vai pagar tudo isso? - perguntou o Júlio. - Sou eu.
Por isso não me arruinem.
Abriu o porta moedas. - Aqui está uma libra - disse ele. - De momento é tudo quanto
posso gastar. O David compra a próxima remessa de coisas que precisarmos.
- Também tenho dinheiro - disse o Buzina mostrando um porta moedas realmente bem
recheado.
- Não admira - disse a Zé. - Acho que o teu pai te entrega dinheiro sempre que tu lhe
pedes. Ele é tão distraído que nem deve notar se te der dinheiro três vezes por dia.
- O teu pai também parece bem distraído - disse o Buzina, com esperteza. - Esta
manhã deitou café no chá, em vez de leite. Eu bem vi.

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E o mais engraçado é que bebeu tudo sem dar pelo engano.


- Calem-se - disse o Júlio. - Não se contam histórias sobre os pais em público. Ouve,
Buzina, não queres levar nada especial para o Diabrete comer enquanto estivermos no
farol? A Zé comprou biscoitos para o Tim e vamos levar um fornecimento de ossos.
- Eu compro a comida do Diabrete com o meu dinheiro, muito obrigado,

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- respondeu o Buzina pouco satisfeito por ter sido repreendido pelo Júlio. Encomendou
um pacote de passas de uva, umas laranjas e algumas maçãs. O Diabrete olhava para
aquilo tudo muito satisfeito.
- Tira a pata - disse a Zé, severamente, quando o macaquinho foi meter a pata no
pacote dos biscoitos do Tim. O Diabrete saltou logo para o ombro do Buzina e
escondeu a cara, como se estivesse envergonhado.
- Vou comprar mais fruta - disse o Júlio. - E depois acho que ficamos com o suficiente.
Vamos pedir que entreguem tudo na garagem para meterem no carro em que
seguimos amanhã.
- Amanhã! - exclamou a Zé, radiante. - Espero que chegue depressa. Estou
impaciente!

Capítulo VII - FINALMENTE A CAMINHO!

NAQUELA tarde divertiram-se muito a falar sobre o dia seguinte. A vinda do carro para
os levar. O passeio ao longo da costa até aos Rochedos do Demónio. Conhecerem o
farol. Olharem para o mar sem fim e observarem as grandes ondas que rebentavam
nas rochas.
- Aquilo em que mais penso é na nossa primeira noite passada ali - disse a Zé. -
Completamente sós, lá em cima, no velho farol! Mais nada além das ondas e do vento!
Bem embrulhados nos nossos cobertores e acordando para voltarmos a ouvir o vento e
as ondas.
- E as gaivotas - acrescentou o Buzina. -Gritam todo o tempo. Podemos vê-las do alto
do farol. Gostava de ter asas como as gaivotas, todas abertas no espaço, sentadas no
vento enquanto deslizam.
- Sentadas no vento, tens razão. É exactamente o que elas fazem - concordou a Ana. -
Só preferia que os seus gritos não parecessem tão tristes.
A tia Clara, por fim não estava muito decidida a consentir que as crianças partissem. A
previsão do tempo era péssima e ela imaginava-os sentados a tremer de frio, muito
assustados, no farol ao abandono.

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Mas mal começou a expor as suas dúvidas e receios, as crianças levantaram as vozes
em protestos indignados.
- Já alugámos um CARRO!
- E comprámos montanhas de comida! A Joana arranjou uma lata com imensas coisas.
Até fez um bolo especial para nós levarmos!
- Mãe! Como pode voltar atrás se já deu o seu consentimento?
- Está bem, está bem! - disse a tia Clara.
- Eu não quero impedi-los de irem. Mas mandem-me um ou dois postais, sim? Se lá
houver correio.
- Há um pequeno posto de correio na aldeia
- disse o Buzina. - Podemos mandar um postal cada dia. Assim saberá que estamos
bem.
- óptimo, mas se o postal não chegar fico muito preocupada - disse a tia Clara. - Por
isso cumpram a vossa promesa. Não se esqueçam das gabardines, das botas de
borracha...
- Mãe! Já sei que a seguir vai falar em guarda-chuvas! - disse a Zé. - Mas palavra que
vamos parar ao mar se resolvermos abrir um guarda-chuva nas Rochas do Demónio. O
Buzina diz que há sempre vento naquela parte da costa.
- Pode imaginar-nos a jogar ao burro com o nosso baralho de cartas, muito distraídos,
enquanto a tempestade ruge lá fora como um louco! - disse o David. - Estaremos
sentados nos nossos cobertores, com as laranjadas, saboreando bolachas de
chocolate.

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- Uuuf! - fez o Tim, arrebitando as orelhas ao ouvir as palavras que tão bem conhecia.
- Ah! Julgas que te vais alimentar de bolachas de chocolate, Tim? - perguntou-lhe o
David passando-lhe a mão na cabeça. - Por favor não interrompas a conversa. Não é
bonito.
- Uuuf! - fez o Tim pedindo desculpa e deu uma lambedela no nariz do David.
- Acho que é melhor deitarem-se hoje bem cedo - aconselhou a tia Clara. - Amanhã
ainda têm que arranjar algumas coisas e disseram-me que pediram o carro para as
nove e meia.
- Desceremos para o primeiro almoço às oito horas em ponto - disse o Júlio. - Espero
que o Professor não desça antes das onze completamente esquecido do pequeno
almoço. Buzina, o teu pai chega alguma vez a comer alguma refeição quente? Quero
dizer, parece-me que ele esquece todas elas e lembra-se horas depois, não chegando
a saber se se trata do pequeno almoço, almoço ou jantar.
- Mas eu vou comendo o que fica, quando me convenço que ele se esqueceu de
aparecer
- disse o Buzina, muito razoável. - O Diabrete também ajuda. Vocês ficariam admirados
se vissem como ele gosta de presunto.
- Eu nunca fico admirado com o Diabrete. Dali há tudo a esperar - disse o Júlio. - Só
não sei como nos vamos arranjar com as suas partidas quando estivermos todos juntos
e apertados no farol. Nessa altura não o podemos mandar para o jardim. Tia Clara,

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sabe que ele tirou-me um lápis esta manhã e escreveu palavras de macaco no papel
da parede do meu quarto? Felizmente eu não sei ler a língua de macaco pois tenho a
certeza de que só escreveu frases pouco delicadas.
- Não devem dizer coisas dessas do Diabrete - pediu o Buzina, ofendido. - Tem muito
boas maneiras para um macaco. Haviam de ver como são alguns deles!
- Prefiro não saber - disse o Júlio.
O Buzina ficou zangado. Agarrou no Diabrete e saiu da sala. Em breve se ouvia vindo
do vestíbulo o motor dum carro que pelo som parecia avariado.
- Rrrrrrrrrr...o.o. o.PF! Rrrrr! Paaa! A tia Clara correu para a porta.
- Bem sabes que não deves fazer de carro aí no vestíbulo. Volta para aqui antes que o
teu pai te ouça, Buzina. Santo Deus, esta casa vai parecer outra quando se livrar de
todos os carros que para aqui têm andado desde que chegaste!
- Era só um tractor - explicou o Buzina, surpreendido. - Sinto sempre vontade de me
transformar num carro quando as pessoas são antipáticas para mim ou para o
Diabrete.
- Ora, não sejas criancinha - disse a Zé.
- Vou-me deitar - disse o Buzina, novamente ofendido.
- Acho boa ideia visto que amanhã tens que ser pontual - disse a tia Clara. - Boa noite
querido Buzina. Boa noite Diabrete.
O Buzina foi conduzido com doçura até à porta.

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Subiu as escadas, resmungando, com o Diabrete ao ombro. Mas em breve lhe passou
o mau humor quando se despiu e pensou no dia seguinte. Partiriam para o farol. O seu
farol. Isso faria com que a Zé e os outros se pusessem nos seus lugares. Meteu-se na
cama. A seu lado o Diabrete punha uma patita encostada ao pijama do pequeno.
Na manhã seguinte a Zé foi a primeira a acordar. Sentou-se na cama, receando que o
boletim metereológico estivesse certo e nesse caso choveria a cântaros. Felizmente
enganara-se. O sol brilhava e ela não ouviu o barulho do mar o que significava que não
havia vento bastante para formar grandes ondas rebentando na praia.
Acordou a Ana. - Dia de Farol! - exclamou. - Despacha-te! São sete e meia.
Desceram todos pontualmente para o pequeno almoço - todos menos o Prof. Hayling!
Como sempre não apareceu antes da refeição terminada e nessa altura pôs-se a
passear em frente da porta principal.
- Já se levantou? - disse a tia Clara. - Pensei que ainda estivesse na cama.
- Não. O Buzina acordou-me muito cedo - queixou-se o Professor. - Ou naturalmente foi
o macaco. Não sei bem. De manhã cedo não consigo distingui-los um do outro.
O tio Alberto já havia descido mas não aparecera à mesa. Estava no escritório como de
costume.
- Zé, vai buscar o teu pai - pediu a tia Clara.

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- O pequeno almoço em breve estará intragável.


A Zé foi bater à porta do escritório. - Pai! Não quer vir tomar o pequeno almoço?
- Já comi! - respondeu uma voz surpreendida. - Comi uns saborosos ovos quentes!
- Pai! Isso foi ontem! - disse a Zé, impaciente. - Hoje há presunto com ovos estrelados.
Esqueceu-se, como sempre. Venha depressa, por favor. Daqui a pouco partimos para o
farol.
- Farol? Qual farol? - perguntou o senhor. Mas não obteve resposta. A Zé voltara para a
sala de jantar sem saber se devia rir ou zangar-se.
Realmente o pai era tão esquecido que ainda acabaria por não saber o nome do sítio
onde vivia!
Houve uma enorme animação depois do pequeno almoço. Cobertores, casacos,
sobretudos - os mais quentes que encontraram - latas com bolos e empadas feitas pela
Joana, sanduíches para o caminho, livros, jogos. Como a Zé observara, toda a gente
julgaria que iam estar ausentes por mais de um mês.
- O carro vem atrasado - disse o David, impaciente. - Ou o meu relógio está adiantado.
- Lá vem ele - exclamou a Ana, entusiasmada. - Oh tia Clara, gostava que também
viesse. Onde está o Diabrete? Tim, vamos viver num farol! Tu nem sabes o que isso é,
pois não?

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O carro parou em frente do Casal Kirrin e o motorista tocou a buzina, fazendo com que
o tio Alberto apanhasse um grande susto. Voltou-se logo para o pobre Buzina. -
Continuas a fazer as tuas estúpidas brincadeiras fingindo que és um carro, a buzinar
outra vez!
- Não fui eu, garanto que não fui! - afirmou o Buzina já pensando que ia levar uma
bofetada. - Veja, é o carro!
- Pois vou perguntar ao motorista que significa isto de vir aqui buzinar assustando-nos
desta maneira! - exclamou o senhor indignado.
- Porque terá aqui vindo?
- PAI! É o carro que nos vai levar ao FAROL! - disse a Zé, entre zangada e divertida.
- Ai sim? Porque não me disseram antes?
- perguntou o tio Alberto. - Bem, adeus, adeus! Divirtam-se e não se esqueçam de se
limpar bem quando tomarem banho.
Meteram-se no carro e o motorista pôs a bagagem no grande porta-bagagens. Ficou a
olhar para o Tim e para o Diabrete quando os viu saltarem lá para dentro. - Acham que
cabem todos? - perguntou. - Que grande carrada!
Depois, com o Buzina acompanhando o som do motor do carro, este deu a volta e
afastou-se pelo caminho arenoso.
- Partimos! - disse a Zé em voz alegre. - Partimos outra vez sozinhos. É a coisa que
mais gosto. Também gostas, Tim?
- Béu! - fez o Tim concordando plenamente,

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deitando a cabeça sobre os pés da Zé. Estava a caminho dumas belas férias com a
sua dona. O Tim não se interessava para onde ia - mesmo que fosse para o fim do
mundo - desde que não se separasse da Zé!

Capítulo VIII - LÁ ESTAVA O FAROL!

QUANDO chegaram à estrada principal o Buzina pôs-se a falar com o motorista,


fazendo-lhe perguntas sobre todo o género de carros. Os outros ouviam divertidos.
- Não tenho grande impressão sobre os carros novos - disse o Buzina. - São todos uns
ronceirões.
- Alguns dos ronceirões são muito bons - disse o motorista, achando graça àquele
rapazito sabichão, e tocou numa alavanca a seu lado. A janela junto ao Buzina pôs-se
logo a descer, bastante devagar, fazendo um barulho especial. O Buzina ficou muito
admirado.
- Não abram essa janela - pediu a Ana, pois entrava um vento frio. - Fecha-a depressa,
Buzina.
O pequeno fechou-a e continuou a falar sobre automóveis. Mais uma vez o motorista
tocou na alavanca e a janela do Buzina pôs-se novamente a descer, entrando um vento
cortante.
- Buzina! Não mexas nas janelas - ordenou o Júlio.
- Não lhes toquei - afirmou o Buzina olhando para a janela cheio de suspeitas. - Esta de
repente fechou-se sozinha, deslizando suavemente. O Buzina começou a sentir-se
apreensivo.

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Não tirava os olhos da janela receando que ela recomeçasse com as mesmas
brincadeiras. Os outros, sabendo perfeitamente que o motorista podia abrir e fechar
qualquer das janelas automaticamente, do seu lugar, entreolhavam-se rindo.
- O pobre Buzina está atrapalhado! - murmurou o David.
E estava. Não disse nem mais uma palavra sobre carros modernos ou antigos durante
todo o percurso.
O passeio era muito agradável, quase sempre ao longo da costa, com linda vista.
- O vosso cão parece apreciar a paisagem - disse o motorista. - Tem vindo sempre com
a cabeça fora da janela.
- Bem, eu sempre pensei que fosse para apanhar ar - disse a Zé. - Tim, afinal é por
gostares da vista?
- Uuuf! - fez o Tim, voltando a cabeça para dar uma lambedela à Zé. E também deu
outra ao macaco. O pobre Diabrete não gostava dos solavancos do carro. Estava muito
quieto, com medo de enjoar. O carro ia avançando fazendo um barulho igualzinho às
imitações do Buzina.
Pararam para almoçar e saborearam as sanduíches cheios de apetite, sentados num
penhasco. O motorista também levava farnel e quando o Diabrete descobriu que parte
das suas sanduíches tinham tomate, sentou-se nos seus joelhos muito amigavelmente,
compartilhando as sanduíches deliciado.

68 - 69

- Devemos chegar daqui a uma hora - informou o motorista. - Em que ponto ficam, nos
Rochedos do Demónio? Na garagem não me disseram.
- No farol - disse o Júlio. - Conhece-o?
- Conheço. Ninguém pode lá viver! - disse o motorista pensando que o Júlio estava a
gracejar. - Para que hotel vão? Ou ficam em casa de alguns amigos?
- Vamos realmente para o farol - confirmou o Buzina. - Ele pertence-me. É só meu.
- Pois tem uma linda vista - disse o motorista. - Eu nasci nos Rochedos do Demónio. O
meu bisavô ainda vive na casa onde eu nasci. As histórias que ele me costumava
contar sobre esse velho farol! Como os afundadores lá entraram uma noite, agarraram
o faroleiro e apagaram a luz para que um grande navio fosse de encontro às rochas.
- Que horror! E naufragou realmente? - perguntou o David.
- Ficou desfeito em bocadinhos - contou o motorista. - Nada se aproveitava. - Devem
procurar o meu bisavô e pedirem que lhes conte essas histórias. Ele há-de mostrar-
lhes a Gruta dos Afundadores...
- Já ouvimos falar nela - disse a Zé. - Existe realmente? E ainda ali está alguém?
- Não. Todos os velhos afundadores desapareceram há muito - disse o motorista. -
Logo que construíram o novo farol acabaram-se os afundadores. O novo farol é muito
potente. A sua luz pode ser vista através da mais terrível tempestade.

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A luz do farol para onde vão não era grande coisa mas mesmo assim salvou muitos
navios.
- Como se chama o seu bisavô? - perguntou a Zé decidindo ir procurá-lo assim que
pudesse. - Onde vive?
- Perguntem pelo tio Jeremias Boogle - disse o motorista, passando com cuidado por
entre uma manada de vacas. - Devem encontrá-lo sentado no cais, fumando o seu
cachimbo e descompondo toda a gente que se aproxima. Mas ele gosta de crianças e
por isso não tenham medo das suas descomposturas. Há-de contar-lhes uma porção
de histórias. Santo Deus, não me digam que vem ali na curva mais outra manada de
vacas!
- Buzine-lhes - aconselhou o Buzina.
- Nunca ouviu os versos da vaca que saltou até à lua, meu menino? - perguntou o
motorista. - Alguém buzinou quando ela ia a passar e a desgraçadinha deu um salto até
á lua. Por isso nenhum bom motorista buzina às vacas. - Só serve para as assustar e
desatarem aos saltos como as lebres. Estão a ver aquele penhasco saliente ali na
costa? É o princípio dos Rochedos do Demónio. Em breve lá chegaremos.
- Porque tem esse nome? - perguntou a Zé.
- Os rochedos são de tal maneira perigosos que dizem que só poderiam ter sido ali
postos por um espírito demoníaco - continuou o motorista. - Alguns ficam por baixo de
água quase à superfície de maneira a prenderem a quilha dum barco

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e cortá-lo ao meio. Outros erguem-se pontiagudos como dentes afiados e há uma


grande quantidade de rochas onde um navio pode ser feito em pedaços pelas ondas.
Realmente são mesmo rochedos do demónio!
- Quando veremos o farol? - perguntou o Buzina. - Deve estar quase a aparecer.
- Espere até que surja mais uma parte da costa, logo que chegarmos ao alto deste
monte - disse o motorista. - E digam ao vosso macaco para tirar a pata do meu bolso.
Já não tenho mais rodelas de tomate.
- Porta-te bem, Diabrete - disse o Buzina com uma voz tão severa que o animalzinho
cobriu a cara com as patas e pôs-se a chorar.
- Seu intrujão! - exclamou a Zé. - Não deitas nem uma lágrima. Olhem, é aquele o
farol?
- É sim - disse o motorista. - Daqui desta montanha podem vê-lo bem. É bonito, não
acham, apesar de velho. Nesses tempos sabiam construir. É todo feito de pedra. Como
lhe bate o mar fizeram-no bem alto para que a espuma das ondas salpicando as
janelas não encobrisse a luz.
- Onde vivia o faroleiro? - perguntou o David.
- Há um compartimento bastante confortável mesmo por baixo do que tinha a lâmpada
- informou o motorista. - O meu bisavô levou-me lá uma vez. Nunca vi um espectáculo
de mar embravecido tão bonito.

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- O meu pai passou ali um verão inteiro - contou o Buzina, todo vaidoso. - Eu estive
com ele a maior parte do tempo. Era formidável.
- Porque razão quis o seu pai ir viver num farol? - perguntou o motorista curioso. -
Andava escondido, ou coisa assim?
- Claro que não. Ele é um cientista e precisava de grande sossego sem visitas nem
campainhas de telefone. - explicou o Buzina.
- E acha que ele tinha sossego estando ali o menino? - gracejou o motorista. - Admira-
me muito.
- Realmente não era assim tão sossegado - disse o Buzina. - As ondas faziam imenso
barulho e o vento também. Mas o meu pai nem dava por isso. Só o incomodam
barulhos tais como campainhas a tocar, pessoas falando ou o bater à porta. Esse
género de coisas enfurecem-no. Ele adorava o farol.
- Espero que também se divirtam - disse o motorista. - Não é o meu género, passar o
dia a ouvir as gaivotas e as ondas. Mas cada qual diverte-se a seu modo!
Desceram pelo outro lado da montanha deixando de ver o farol.
- Em breve chegaremos - disse o Buzina. - Diabrete, gostas de aqui voltar? Lembras-te
como subias e descias depressa pela escada de caracol?
O carro seguia quase à beira-mar. Agora o farol via-se perfeitamente, um tanto
afastado da praia. Um barquito estava amarrado a um molhe de pedra e o Buzina
apontou para ele,

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cheio de alegria. - É o nosso barco. O que nos servia para irmos e virmos ao farol
quando a maré estava alta. Chama-se Balance e vocês vão ver como balança!
- É teu? - perguntou a Zé com uma certa inveja.
- Foi vendido com o farol, por isso acho que me pertence - disse o Buzina. - De
qualquer maneira podemos servir-nos dele quando quisermos remar sobre as rochas.
- Deus queira que não apanhem nenhuma tempestade enquanto estiverem no farol -
disse o motorista parando o carro. - O mar entre os Rochedos do Demónio e o molhe
ficará demasiado bravo para esse barquinho.
- Sei remar muito bem - disse a Zé. - Tenho um barco desde pequena.
- Bem sei que é boa remadora - disse o motorista. - Chegámos. Vão já direitos para o
farol, no barquito? Querem que os ajude a levar a bagagem até lá?
- Agradeço-lhe - disse o Júlio e entre eles levaram tudo até ao barco. Um velhote
sentado ali perto veio cumprimentá-los. - Chegou um recado de Kirrin pedindo que lhes
trouxesse o barco - disse ele. - Qual dos meninos é filho do Prof. Hayling?
- Sou eu - disse o Buzina. - Este barco é meu, e o farol também. Venham todos! Vamos
remar até ao farol! Estou impaciente por lá chegar.

Capítulo IX - DENTRO DO FAROL.

AS cinco crianças saltaram para o barco que realmente bem merecia o nome de
Balance. O Tim saltou a seguir à Zé mas o Diabrete pôs-se a gritar, aterrado, quando o
Buzina o levou, agarrando-o com firmeza.
- Não te assustes, Diabrete - dizia o Buzina. - Não te lembras do meu barquito? Tu
nunca gostaste de andar de barco, pois não?
Havia dois pares de remos. O Júlio pegou num deles e a Zé ia pegar no outro mas o
David tirou-lhos com calma, sorrindo perante a cara zangada da prima.
- Desculpa, mas o mar está bastante agitado e teremos que passar algumas ondas
grandes. Sou um pouco mais forte do que tu, Zé.
- Eu remo tão bem como vocês - garantiu a Zé. Nessa altura o barco inclinou-se muito
para um dos lados e a pequena por um pouco não conseguia segurar uma das malas,,
que ia caindo ao mar.
- Salvaste-a a tempo - disse o Júlio. - E com muita perícia. Como o mar está agitado!
- Passaremos mesmo sobre as rochas? - perguntou a Ana, espreitando para dentro de
água. - Estão todas bem cobertas pelo mar. Não lhes tocaremos com o fundo do barco.
- Estas são as rochas por onde podemos

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caminhar quando a maré desce - explicou o Buzina. - E entre elas formam-se umas
poças simpáticas. Costumava brincar numa que ficava aquecida pelo sol e só me
apetecia abrir uma torneira de água fria quando a água aquecia demasiado.
A Ana riu-se. - Bem gostava que estivesse agora calor suficiente para tomarmos banho
- disse ela. - Reparem como as rochas têm um aspecto assustador, lá no fundo!
- Tens razão, naturalmente esfrangalharam mais de um barco nos velhos tempos -
disse o Júlio. - Não admira que lhes chamem Rochedos do Demónio. É esfalfante
remar aqui, não achas, David?
- Agora é a minha vez - disse a Zé, agarrando num dos remos do David.
- Nada a fazer - disse o David rindo. - Tu tomas conta das malas.
- O farol é muito antigo? - perguntou a Ana, enquanto balouçavam sobre as rochas
escondidas e o farol se aproximava cada vez mais. - Tem um aspecto antiquíssimo.
- Tens razão - disse o Buzina. - Foi construído por um homem rico há muitos anos. A
filha morrera afogada quando o barco onde viajava naufragou nestas rochas. Por isso
mandou construir o farol em parte em memória da filha e em parte para impedir que
outros barcos se afundassem.
A Ana fitou o farol. Era duma construção sólida e pareceu-lhe muito alto. A sua base
assentava firmemente numa plataforma de rocha. O David pensou que os alicerces
deviam ser muito profundos para que o farol se mantivesse firme durante as enormes
tempestades e ventanias. Uma espécie de varanda corria por toda a volta, quase no
alto mesmo por baixo das janelas onde em tempos brilhara a lâmpada. Que vista
maravilhosa deveria ter a varanda, pensou a Ana.
Chegaram perto do farol. Degraus de pedra iam desde os rochedos até á porta de
entrada,

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um pouco acima do sítio onde rebentavam as


ondas.
- A porta estará fechada à chave? - perguntou o David de repente. - Não me apetecia
nada remar todo este tempo para chegarmos à conclusão de que não podemos entrar!
- Claro que a porta está fechada - disse o Buzina. - Alguém trouxe a chave?
- Não sejas burro! - exclamou o Júlio, parando com os remos e olhando furioso para o
Buzina. - Queres dizer que no fim de tudo isto não podemos entrar?
- Não te exaltes! - disse o Buzina rindo da cara decepcionada do Júlio. - Queria só
pregar-lhes um susto. Aqui está a chave! Como o farol é meu, o pai deu-me a chave e
eu trago-a sempre comigo. É uma preciosidade.
Era uma chave enorme e a Zé ficou maravilhada como o Buzina conseguia metê-la
dentro do bolso. Ele continuava a exibi-la, sorrindo. - Estou ansioso pelo momento em
que hei-de abrir o meu farol com a minha chave - disse ele. - Até aposto que também
gostavas de ter um farol, Zé.
- Realmente gostava - concordou a Zé, olhando para aquela espécie de torre que
estava bem
perto.
- Agora é preciso ter cuidado - disse o Buzina aos rapazes. - Esperem até que venha
uma grande onda, aproveitem-na para remar sobre ela e dirijam-se para aquela rocha
que fica fora de água. Não sei porquê o mar é calmo ali atrás e podem remar até aos
degraus em segurança.

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Vê se descobres um pequeno pilar, ali perto e prende a corda à sua volta. Zé, Tu estás
numa posição melhor para fazer isso do que eu.
Tudo sucedeu com muito mais facilidade do que os Cinco esperavam. O barco deslizou
para um sítio onde o mar estava bastante calmo e os dois rapazes remaram com
energia até aos degraus. A Zé atirou a corda para o pilar e ali estavam eles em frente
do farol faltando-lhes apenas subir algumas rochas para chegarem aos degraus.
As crianças, uma por uma saltaram para fora do barco ficando a contemplar o farol.
Parecia muito maior agora que se encontravam perto.
- Vou abrir a porta - disse o Buzina, todo importante, subindo os degraus bem altos.
- Reparem nas enormes pedras de que é feito o meu farol. Não admira que tenha
resistido a tanta tempestade.
Introduziu a enorme chave na fechadura da maciça porta de madeira e tentou dar-lhe a
volta. Mas por mais esforços que fizesse nada conseguia. Virou-se para os outros com
uma cara assustada.
- Não consigo abrir a porta! - disse ele. - Agora que vamos fazer?
- Deixa-me experimentar - disse o Júlio. - Naturalmente está perra.
Segurou na chave, fê-la girar com força e abriu a porta!
Todos se sentiram muito aliviados. O Júlio
Virou-se para os outros com uma cara assustada

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empurrou os outros para dentro, pois lá fora estava uma grande ventania e fechou a
porta.
- Aqui estamos nós - disse ele. - Que escuridão! Ainda bem que trouxe a minha
lanterna de algibeira. Acendeu-a mas tudo o que havia para ver era uma escada de
caracol, em ferro.
- A escada vai lá para cima, até ao compartimento da lâmpada - explicou o Buzina. - No
caminho passa por várias outras divisões. Vou mostrar-lhes. Agarrem-se ao corrimão
pois podem sentir-se tontos ao andar sempre á roda.
O Diabrete ia à frente todo importante e a escada dava voltas e mais voltas. Chegaram
a uma abertura através da qual a escada passava para um compartimento escuro. - É
um quarto de arrumações - disse o Buzina, iluminando-o com a sua lanterna. -
Reparem, ali estão as latas de conserva que o meu pai aqui deixou. Agora vamos subir
até ao compartimento onde guardavam o petróleo. Não é muito grande.
- Qual petróleo? - perguntou a Ana.
- As latas de petróleo parafinado que usavam na lâmpada do alto do farol. A luz antiga
era a petróleo porque nessa altura não havia electricidade. Olhem, chegámos.
Aquele compartimento tinha um tecto muito baixo, Sem janela e estava cheio de latas
velhas. Tinha um cheiro desagradável e a Ana apertou o nariz com os dedos.
- Não gosto deste quarto - declarou ela.

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- Tem um cheiro horrível e um aspecto detestável. Vamos subir mais.


O compartimento seguinte tinha uma das poucas janelas do farol e como o sol lhe batia
em cheio era muito mais claro e alegre do que
os outros.
- Era aqui que dormíamos, o meu pai e eu,
- disse o Buzina. - Olha, esquecemo-nos de levar este colchão. Que sorte! Podemos
usá-lo.
Continuaram a subir pela escada de caracol e então entraram noutro quarto com o
tecto muito mais alto e uma boa janela, embora pequena. O sol também lhe batia em
cheio e tinha um aspecto acolhedor. Havia uma mesa, três cadeiras e um caixote.
Também tinha uma velha secretária e um pequeno fogão a petróleo para aquecer água
ou cozinhar qualquer coisa simples.
- Ali está a minha velha frigideira! - disse o Buzina. - Vamos achá-la muito útil. E uma
cafeteira e uma panela. E também aqui deixámos talheres, embora não cheguem para
nós cinco. E também há louça. Eu parti uma quantidade de pratos mas ficaram uns
copos e pratos de folha. Costumava lavá-los passando só com um pano. A água num
farol é preciosa.
- Onde fica o depósito da água? - perguntou
a Zé.
- O meu pai arranjou um depósito no lado Oeste do farol - disse o Buzina triunfante. -
Apanha a água da chuva. Esta passa por um cano e atravessa uma das janelas e vai
ter

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a um pequeno depósito mesmo por cima do lava-loiças. Esqueci-me de lhes mostrar.


Há uma torneira para abrir e fechar a água. Vocês sabem que o meu pai é muito
inteligente e uma coisa assim é tão simples como o A. B. C. Ele não estava disposto a
ir buscar água todos os dias para se lavar. Divertimo-nos a valer!
- E parece-me que desta vez também te vais divertir - disse o David. - Estás mais
acompanhado. Anteriormente o farol devia parecer-te muito só.
- Tinha o Diabrete - disse o Buzina. E ao ouvir o seu nome o macaco saltou para os
braços do dono, muito amigo.
- Qual é o compartimento seguinte, neste maravilhoso farol? - perguntou o Júlio.
- Só há mais um. É o que tem a lâmpada. Vou mostrá-lo. Era o quarto mais importante
deste sítio. Mas agora ninguém o usa, completamente esquecido! Venham ver.
E lá foi o Buzina subindo pelos últimos degraus da escada de caracol. O pequeno
sentia-se orgulhosíssimo.

Capítulo X - OS PEQUENOS INSTALAM-SE.

MAIS uma vez seguiram pela escada de caracol, o Tim bastante devagar pois achava
aqueles degraus difíceis de subir. O Diabrete corria à frente deles, como se fosse o
próprio dono do farol e estivesse mostrando a sua casa.
O quarto da lâmpada era alto, com grandes janelas a toda a volta. Era muito claro,
batido pelo sol. E que vista maravilhosa!
A Ana ficou encantada. O farol era tão alto que se via a quilómetros e quilómetros de
distância sobre o mar azul. Deram volta ao compartimento, olhando em todas as
direcções.
- Reparem, está ali uma porta! - exclamou o David. - Dá para a varanda em redor do
farol?
- Dá, sim. A varanda cerca completamente esta divisão - disse o Buzina. - Vocês nem
calculam como fica quando o mar está muito bravo e as gaivotas fogem á tempestade.
Abrigam-se nesta galeria ás dezenas! Mas vocês não devem ir lá fora a não ser com
tempo muito bom. Podem ser levados pelo vento. Nem conseguem imaginar como isto
é quando há tempestade! Para ser franco, uma noite que aqui passei com o meu pai
cheguei a pensar que o farol ia pelos ares.
- Nunca estive num sítio tão curioso - disse a Ana,

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muito entusiasmada. - Buzina, acho que és o rapaz mais feliz do mundo.


- Achas? - disse o Buzina, satisfeito. Deu à Ana uma palmada amigável.
- Eu tinha esperanças que vocês gostassem. O Diabrete adora este sítio, não é
verdade?
O macaco estava empoleirado no alto da grande lâmpada. Conversava com o Tim
contando-lhe o que sabia acerca daquele lugar. O Tim ouvia, de orelhas arrebitadas,
com a cabeça à banda.
- Até parece que está a perceber o que o macaco diz - comentou a Zé. - Buzina, agora
nunca acendem esta luz?
- Nunca - respondeu o Buzina. - Já lhes disse que há um novo farol a pouca distância.
Tem uma lâmpada eléctrica potentíssima. À noite vemos o seu facho luminoso.
- Porque será que as pessoas não mandam construir faróis para lá viverem? -
perguntou a Zé, contemplando o vasto mar azul.
- Ninguém sente fome? - perguntou o Buzina, apertando o estômago com as mãos. -
Eu estou "vazio".
- Oh! Valha-nos Deus! Ainda não tirámos a bagagem do barco! - lembrou o Buzina. -
Venham todos. Temos que trazer tudo cá para dentro. E depois preparamos uma
refeição. Que horas tens? Quatro e meia! Não admira que sinta apetite. Vamos
Diabrete. Mãos á obra! Tu também podes ajudar.
Correram pela escada de caracol, passando de compartimento em compartimento até
à porta.

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- Suponho que fizeram uma porta o mais espessa e forte possível por causa do mar lhe
bater durante as tempestades - disse o Júlio abrindo-a. Apanhou uma rajada de vento
que o ia deitando ao chão. Conseguiram sair lá para fora e saltaram pelas rochas até
onde haviam deixado o barco. Lá estava ele baloiçando-se para um lado e para outro,
no pequeno abrigo de mar calmo.
- Olá Balance! - disse o Buzina. - Já julgavas que não voltávamos? Guardaste bem
toda a nossa bagagem? És um belo barquinho!
- Palerma! - disse o David, rindo. - Anda, Júlio. Eu trago metade das coisas pesadas e
tu trazes o resto. As pequenas e o Buzina encarregam-se dos objectos mais pequenos.
E tu, Diabrete, que andas a fazer?
O macaco agarrara um ou dois embrulhos e saltava dum lado para o outro.
- Não faz mal. Está habituado a ajudar - gritou o Buzina. - Vai muitas vezes às
compras. Deixem-no ajudar. Ele gosta muito.
O macaco era na verdade bastante prestável. Ia transportando todos os objectos
pequenos, muito satisfeito. O Tim ficou a olhar para ele, com a cauda caída desejando
servir-se com as patas com tanta habilidade como o Diabrete. A Zé fez-lhe uma festa.
- Não te importes, querido Tim. Toma este cesto.
O Tim pegou no cesto pela asa com a boca e subiu todo contente pelos degraus do
farol. Não era capaz de levar as coisas pequeninas como o Diabrete,

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mas pelo menos sabia transportar cestos.


- Deixamos aqui o barco a balouçar-se - disse o Buzina. - Fica em segurança,
amarrado ao pilar, a não ser que o mar se torne muito bravo. Nesse caso teremos que
o puxar até meio das escadas.
- Vamos comer e depois arranjamos as nossas coisas - sugeriu a Ana. - Estou cheia de
apetite. Que género de refeição querem?

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Apetece-me mais qualquer coisa do que um simples lanche.


- Isso é o maior inconveniente de viver num farol! - disse o Buzina, muito sério. - Passa-
se a vida com apetite. Costumava ter cinco { ou seis refeições quando aqui estive com
o meu pai.
- Isso não me aflige - disse o David, rindo. - Vamos arranjar um lanche ajantarado, não
acham bem? Uma mistura de lanche e jantar.
Puseram alguma bagagem no quarto de dormir e a restante na sala.
Em breve o Buzina acendeu o fogãozinho a petróleo e pôs-lhe em cima uma panela
cheia de água para ferver. Como o tempo estava chuvoso o depósito lá de fora
fornecera imensa água para o outro lá de dentro, que ficava sobre o lava-loiças. Este
para mais comodidade estava na sala. Quando o Buzina abriu a torneira correu límpida
água da chuva!
- Que maravilha! - exclamou a Ana, encantada. - Até parece que estou a sonhar.
Puseram ovos na panela e em breve estavam cozidos.
- Três minutos e meio - disse a Ana, tirando-os com uma colher. - DOIS OVOS para
cada um. Se continuarmos a comer tanto, teremos que ir às compras todos os dias. Zé,
arranja umas fatias de pão com manteiga. Tenho a certeza de que a comprei.
- E se comêssemos também algumas das famosas empadas da Joana? - propôs o
David, tirando a tampa a uma grande lata quadrada.

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- Há imensas! E também aqui estão bolinhos de areia e pastéis de nata, a


especialidade da Joana. Mas que bela refeição!
- E que vamos beber? - perguntou o Júlio.
- Laranjada? Limonada? Ou fazemos chá?
Todos preferiram laranjada. Foi uma refeição muito agradável e divertida.
As gaivotas gritavam lá fora, e o vento de vez em quando soprava uma rajada contra o
farol e o ruído do mar misturava-se com todos os outros barulhos.
Um encanto! A Ana pôs as mãos em volta dos joelhos enquanto esperava pela sua
laranjada. Como lhe agradava pensar que ficariam ali vários dias seguidos, sempre
sozinhos.
Quando a refeição acabou, a Ana e a Zé lavaram a louça. - Não é preciso lavagens.
Basta passar com um pano! - disse o Buzina. - Assim!
- Isso não - protestou a Ana. - Isso é à maneira dos rapazes. É melhor deixares esse
assunto comigo. Eu gosto de trabalhar neste género de coisas.
- Uma autêntica menina - disse o Buzina, rindo.
- Não é nada - disse a Zé. - Eu detesto esses trabalhos e sou rapariga, embora
preferisse não o ser.
- Não te rales. Pareces mesmo um rapaz. És muitas vezes mal educada como um
rapaz e não tens uns modos nada bonitos - disse o Buzina, convencido de que estava
a consolar a Zé.

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- Tenho modos mais bonitos do que tu - disse a Zé, afastando-se furiosa, indo para
junto da janela. Mas ninguém conseguia conservar-se zangado por muito tempo,
perante aquele maravilhoso espectáculo. O mar estendia-se por quilómetros e
quilómetros, salpicado aqui e ali com cristas de espuma branca. A Zé deu um suspiro,
satisfeita. Esqueceu-se de que estava aborrecida com o Buzina e voltou-se para ele
sorrindo.
- Se possuísse esta vista sentia-me a pessoa mais rica do mundo - disse ela. - Tens
muita sorte, Buzina.
- Achas? - disse o Buzina, pensativo. - Então se quiseres podes ficar com metade da
vista. Eu não a quero toda só para mim.
O Júlio riu-se e deu uma palmada simpática nas costas do pequeno.
- Vamos todos compartilhá-la enquanto aqui estivermos - disse ele. - Chegou a hora de
desfazermos as malas e arrumarmos tudo. Vocês, meninas, é melhor dormirem aqui na
sala e nós dormiremos lá em baixo no quarto. Achas bem, Buzina?
- óptimo, desde que vocês não se importem que o Diabrete durma connosco - disse o
Buzina. - E julgo que o Tim dormirá com as meninas.
- Uuuf! - fez o Tim, concordando. Claro que não ia dormir longe da Zé!
Divertiram-se a desfazer as malas e a distribuir as coisas por diferentes lugares. - Isto é
para o quarto de arrumações - ia dizendo o Júlio.

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- Isto para a sala... Os cobertores para o quarto de dormir, mas é melhor estes dois na
sala porque as pequenas dormem ali.
- Baralhos de cartas para a sala - disse o David entregando-os à Ana. - E livros. E
revistas. Não nos podemos esquecer de mandar todos os dias um postal à tia Clara.
Prometemos-lhe.
- Hoje vai saber que chegámos bem, pelo motorista - disse a Zé. - Mas amanhã temos
que ir à aldeia comprar uma porção de postais e mandarmos um por dia. Bem sei que a
mãe ficará preocupada se assim não fizermos.
- Todas as mães se preocupam - disse o David. - Por um lado é uma maçada mas por
outro é uma das coisas mais simpáticas que elas têm. E se fôssemos jogar às cartas?
E lá estavam todos no farol, a jogar às cartas por entre risos e gargalhadas, com o Tim
e o Diabrete a assistirem. Quando os Cinco se encontram juntos é sempre divertido,
não é verdade?

Capítulo XI - JEREMIAS BOOGLE.


QUANDO começou a escurecer o Buzina deixou o jogo das cartas e foi buscar um
candeeiro a petróleo. Abanou-o.
- Ainda tem algum petróleo - disse ele. - Óptimo. Vou acendê-lo. Depois já vemos
melhor.
- Que pena não podermos acender a grande lâmpada no alto do farol - disse a Zé. -
Devia ser o grande momento da vida do faroleiro. Aquele em que acendia o farol para
avisar os barcos que se deviam afastar. Gostava de saber quem inventou os faróis.
Naturalmente foi alguém cuja família partindo de barco naufragou junto à costa.
- Um dos primeiros faróis importantes foi construído há muito tempo numa ilha
chamada Faros, na foz do Nilo, perto do grande porto de Alexandria. Do nome da ilha
vem a palavra farol - disse o Júlio.
- Era construído em pedra, como este? - perguntou o Buzina.
- Era todo em mármore branco - explicou o Júlio. - Hoje pensei nele quando íamos a
subir a escada de caracol pois o farol de Faros também tinha uma, mas muitíssimo
mais comprida do que esta.
- E como era a sua lâmpada? - perguntou o Buzina.- Ainda tem algum petróleo?

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- Não sei se teria realmente uma lâmpada - disse o Júlio. - Parece que acendiam todas
as noites uma enorme fogueira no alto do farol e as chamas podiam ser vistas pelos
navios a enorme distância.
- Então o farol devia ser enormissimo! - comentou o David.
- Julgo que tinha quase 200 metros de altura - disse o Júlio.
- o vento não o deitou abaixo

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- disse o Davíd. - Vamos lá vê-lo um dia, se ainda lá estiver.


- Palerma! - exclamou o Júlio. - Já desapareceu há muito tempo. Olha que foi
construído há cerca de 2.200 anos. Durante um tremor de terra o farol ficou
completamente destruído.
Fez-se um silêncio. Todos olharam para as paredes do compartimento onde estavam.
Um tremor de terra. Que catástrofe seria mesmo para um pequeno farol!
- Anima-te, Ana! - disse o Júlio rindo. - Não estamos à espera de nenhum tremor de
terra para esta noite. Esse velho farol da ilha Faros era uma das sete maravilhas do
mundo antigo. Mas não me perguntem quais eram as outras seis, pois estou com muito
sono para me lembrar.
- Gostava de acender a lâmpada deste farol - disse a Ana. - Ele não deve gostar de se
sentir às escuras depois de ter sido iluminado durante tantos anos.
- Olha Ana, se julgas que nos vamos meter naquele compartimento às voltas com a
lâmpada até conseguires acendê-la só porque tens pena que esteja apagada,
enganas-te - disse o David. - E de qualquer maneira deve estar completamente
estragada, depois de passarem tantos anos.
- Não vejo porque razão estará estragada - discordou o Buzina. - Nunca ninguém lhe
mexeu.
- Oiçam, continuamos com o nosso jogo de cartas ou não?

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- perguntou o Júlio. - Devo lembrar-lhes que ganhei quase todas as partidas. Se


continuarem a perder fico convencido de que estou a jogar com uma porção de idiotas.
Aquilo foi o bastante para que todos pegassem nas cartas, fazendo os possíveis para
derrotar o Júlio.
- Vamos jogar até tu perderes - declarou
o David.
Mas enganavam-se. Ninguém conseguiu ganhar ao Júlio, naquela noite. A sorte estava
sempre a seu lado. No fim do quinto jogo a Ana bocejou.
- Desculpem - disse ela. - Não julguem que estou aborrecida. Mas o bocejo veio tão
depressa que não pude reprimi-lo.
- Também me sinto quase a bocejar - declarou o David. - E se comêssemos qualquer
coisa e depois fôssemos para a cama? Lanchámos tanto que não me apetece uma
refeição completa. Mas uma ou duas bolachas de chocolate seriam bem recebidas.
- Uuuf! - fez logo o Tim, concordando plenamente e o Diabrete disse qualquer coisa na
sua voz fininha, puxando o Buzina pela manga.
- Vou-lhes arranjar uma pequena refeição - disse a Ana, levantando-se. Em breve
aparecia um tabuleiro onde pusera um jarro com limonada, fatias de bolo da Joana e
uma bolacha para cada um, incluindo o Tim e o Diabrete.
Saborearam tudo com gosto, sentindo-se
com boa disposição.

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- E agora para a cama! - propôs o Júlio. - Meninas, precisam de ajuda?


- Não, obrigada - disse a Ana.
Quinze minutos mais tarde todos se encontravam deitados, muito confortavelmente. Os
três rapazes enrolados em cobertores no quarto em baixo, com o Diabrete agarrado ao
pescoço do Buzina.
As duas pequenas e o Tim ficaram no colchão, tapadas com outro cobertor. O Tim
ficara ao lado da Zé e de vez em quando dava-lhe uma lambedela numa orelha.
- Querido Tim! - disse a Zé, sonolenta. - Sou muito tua amiga mas por favor guarda a
língua só para ti.
Em breve todos adormeciam, os rapazes, as raparigas, o cão e o macaco.
Lá fora o mar embravecido rebentava em enormes ondas e o vento assobiava tão alto
como as gaivotas durante o dia. Mas no farol tudo estava em sossego. Nem mesmo o
Diabrete se mexia, dormindo profundamente.
Foi divertido acordarem no dia seguinte e ouvirem as gaivotas a gritar. Foi divertido
arranjar o pequeno almoço de pão com manteiga, ovos e maçãs para mordiscarem
depois. Foi também divertido planear como deviam passar o dia.
- Proponho irmos fazer compras: mais ovos, pão fresco e uma ou duas garrafas de leite
- disse a Ana.
- E podemos ir procurar o bisavô do motorista para lhe perguntarmos algumas coisas

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sobre o farol e os afundadores dos outros tempos - lembrou o David.


- Talvez nos mostre a Gruta dos Afundadores - disse o Júlio. - Gostava de lá ir.
Despachem-se com as vossas tarefas, Ana e Zé e depois vamos pelas rochas até ao
molhe. A
maré deve estar a baixar e portanto poderemos caminhar pelos rochedos.
- Nesse caso teremos de voltar antes da maré subir - disse o Buzina. - Porque se
deixarmos o barco amarrado aqui ao pé do farol não podemos voltar logo que o mar
cubra os rochedos, cortando-nos a retirada.
- Tens razão - disse o Júlio. - Despachem-se o mais depressa possível, meninas.
As pequenas em breve estavam prontas e o grupo partiu pelas rochas que na maré
baixa separavam o farol da praia. Estas eram todas ponteagudas podendo rasgar um
barco num instante.
Em breve chegavam ao molhe de pedra.
- Qual é o nome do bisavô? - perguntou o David tentando recordar-se .
- Jeremias Boogle - respondeu a Ana. - Fuma um grande cachimbo e descompõe as
pessoas.
- Deve ser fácil de encontrar! - disse o Júlio. - Venham. Naturalmente está no cais.
- Lá está ele! - exclamou a Zé, avistando um homem com um grande cachimbo na
boca. - É o tio Jeremias. Até aposto!
E realmente ali estava um velhote sentado com as pernas estendidas, fumando um
grande cachimbo.

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Tinha uma linda barba branca, um boné de marinheiro na cabeça e umas sobrancelhas
tão espessas que mal se viam os olhos.
Os Cinco dirigiram-se para ele, com o Tim atrás e o macaco no ombro do Buzina. O
velhote deu logo pelo Diabrete.
- Olha um macaco! - disse ele. - Trouxe uma quantidade de macacos das minhas
viagens!
Deu uns estalos com os dedos e fez um barulho especial com a garganta.

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O Diabrete fitou-o, escutando. Depois saltou do ombro do Buzina para o do velhote,


esfregando o focinho no ombro do antigo marinheiro.
- Diabrete! - exclamou o Buzina admirado.
- Olha para isto, Zé. Ele nunca vai ter com uma pessoa estranha.
- Talvez eu conheça o avô do macaquito!
- disse o velhote rindo e fazendo festas no pescoço do Diabrete. - Todos os macacos
gostam de mim e eu gosto deles.
- O senhor chama-se Jeremias Boogle? - perguntou o Júlio.
- É esse o meu nome - disse o velhote levando a mão ao boné. - Como adivinhou?
- O Jaime, o motorista, contou-nos que era seu bisneto - disse o Júlio. - Nós estamos
instalados no velho farol e o Jaime afirmou-nos que o senhor podia contar umas
histórias muito curiosas sobre ele. E acerca dos afundadores que aqui viveram antes
do farol ser construído.
- Realmente sei muitas histórias - disse o tio Jeremias, expelindo uma nuvem de fumo
que fez o Diabrete tossir. - Sei muito mais do que esse palerma do meu bisneto. Ele
não sabe nada, mesmo nada, só entende de automóveis. Mas quem quer carros, essas
porcarias barulhentas a cheirarem mal? Pff! Aquele Jaime é um parvalhão!
- Não concordo. É o melhor mecânico das redondexas - afirmou logo a Zé. - Não há
nada que ele não saiba arranjar num automóvel.

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- Automóveis! Que disse eu ainda agora? Os carros são umas geringonças barulhentas
- teimou o bisavô do Jaime com impaciência.
- Bem, nós não queremos falar sobre automóveis - disse o Júlio. - Conte-nos coisas
sobre os tempos antigos, com afundadores e tudo isso!
- Belos tempos! - disse o tio Jeremias.
- Ainda conheci alguns afundadores. Uma vez o Bill da Orelha Ratada...
E então o velho Jeremias contou uma história em que os pequenos mal podiam
acreditar!

Capítulo XII - A HISTÓRIA CONTADA PELO JEREMIAS.

- QUANDO eu era rapaz - começou o velho marinheiro - um garoto não muito maior do
que este - e ele apontou com o dedo para o Buzina - não havia nenhum farol mas já
existiam aquelas terríveis rochas. Muitas vezes durante a época das tempestades os
barcos ficavam ali presos. Sabem como se chamam aqueles rochedos?
- Sabemos. São os Rochedos do Demónio - disse o Buzina.
- Pois naquele penhasco mais alto vivia um homem muito mau - disse o tio Jeremias. -
E tinha um filho que era tão mau como ele e também tinha um sobrinho. Chamavam-
lhe os Três Afundadores e eu vou contar-lhes porque tinham esse nome.
- Conhecia-os? - perguntou o David.
- Muito bem! Se estava escondido atrás dum arbusto quando passavam, atirava uma
pedra atrás deles - disse o tio Jeremias. - Eram maus e cruéis. Ao mais velho
chamavam-lhe o Bill da Orelha Ratada. Diziam que um macaco lhe comera a orelha
mas eu não censuro o macaco. Nem censuraria o vosso macaco se comesse a orelha
duma certa pessoa que eu cá sei. Mas não quero dizer o nome porque me podem
ouvir.
O velhote olhou para trás como se o homem a quem se referia pudesse estar perto.

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- Bem, havia o Bill da Orelha Ratada, o Narigudo, que era o filho e o Bart, o sobrinho. E
não se podia dizer que nenhum deles fosse melhor do que os outros. Só se
interessavam por uma coisa. Era por dinheiro. E arranjavam-no das piores maneiras. O
velhote interrompeu-se para cuspir, cheio de repugnância.
- Vou-lhes contar como enriqueceram. E também vou contar o que lhes aconteceu por
fim. Pode ser uma lição para os meninos ou para qualquer outra pessoa. Vêem aquele
penhasco muito alto, ali na costa? Aquele que tem um pau com uma bandeira a ondular
ao vento?
- Vejo - disseram todos, olhando para a bandeira.
- Os barcos não devem aproximar-se da costa em frente daquele ponto - disse o tio
Jeremias. - Se o fizerem serão arrastados pela corrente e atirados contra os rochedos,
os Rochedos do Demónio. E isso é o fim dos navios. Nenhum consegue escapar dos
dentes afiados daquelas terríveis rochas, uma vez que seja apanhado pela corrente.
Agora, para impedir que os barcos se aproximem demasiado do penhasco, arvoram
uma bandeira durante o dia e acendem uma luz no mesmo sítio, durante a noite. E
ambos querem dizer: Cuidado, Afastem-se, Perigo. Claro que todos os marinheiros
conhecem a bandeira e a luz e muitos as têm abençoado, desviando os barcos pelo
mar dentro,

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bem afastados dos Rochedos do Demónio. Mas isso não agradava ao Bill da Orelha
Ratada. Gostava que houvesse um naufrágio de vez em quando. Então ia à praia para
agarrar tudo o que pudesse se um navio viesse desmantelar-se nas rochas. E nem se
preocupava em salvar ninguém! Havia quem dissesse que ele era o próprio Demónio
dos Rochedos do Demónio!
- Que homem tão mau! - exclamou a Ana, horrorizada.
- Tem razão, menina - concordou o velhote. - Mas os naufrágios não eram tão
frequentes como eles queriam. Por isso puseram-se os três a imaginar o plano mais
terrível que se pode conceber.
- Qual foi? - perguntou o Buzina, com os olhos muito abertos.
- Numa noite de tempestade tiraram a luz, que era muito potente, do penhasco que
lhes apontei e o Bill da Orelha Ratada e o Narigudo levaram-na para os penhascos
mais pequenos, ali - disse o homem apontando para perto. - E os meninos bem sabem
o que fica ali por baixo, a toda a volta do farol!
- Rochedos! Os horríveis rochedos pontiagudos, os Rochedos do Demónio - disse a Zé
aterrada.
- Quer dizer que o Bill da Orelha Ratada e os outros levavam de propósito a luz para
ali, durante as noites de tempestade, com o fim de aproximarem os barcos das rochas?
- perguntou o Júlio.
- Qual foi? - perguntou o Buzina com os olhos muito abertos.

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- Era isso mesmo - disse o Jeremias Boogle. - E ainda mais. Uma noite eu próprio
encontrei o Bill da Orelha Ratada, durante a tempestade e sabem o que levava,
ajudado pelo Narigudo? A lâmpada! Tinham tapado a luz, claro está, mas com a minha
lanterna consegui ver o que levavam, garanto-lhes. E quando me descobriram
mandaram o Bart atrás de mim e queriam empurrar-me pelo penhasco para que eu não
pudesse denunciá-los. Mas eu consegui fugir e contar tudo o que sabia! O Bill da
Orelha Ratada foi preso, o que achei muito bem feito visto ser tão mau. Mas não se
ralou porque estava rico, riquíssimo!
- Mas como enriqueceu tanto? - perguntou o David.
- Bem vê, meu menino, os navios que passavam ao largo desta costa, nesse tempo,
vinham de longínquas terras e transportavam tesouros - explicou o tio Jeremias. - O Bill
da Orelha Ratada roubou tanta prata, ouro, pérolas e outras coisas dos navios
naufragados, que não precisava de trabalhar mais quando foi para a prisão. Era tão
rico que já nem tinha necessidade de fazer naufragar mais navios.
- Mas porque não lhe tiraram o que tinha roubado? - perguntou o Júlio.
- Porque escondera tudo! - respondeu o velhote. - Escondera muito bem, nem o
Narigudo, seu filho, nem Bart, seu sobrinho, sabiam onde estavam as riquezas. Tinham
a certeza de que as escondera numa das grutas dos penhascos,

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mas por mais que procurassem não conseguiram encontrar o tesouro. Também foram
para a prisão mas como saíram antes do Bill da Orelha Ratada fartaram-se de procurar
o ouro e a prata e tudo mais que o Bill escondera.
- E o Bill da Orelha Ratada foi buscar tudo quando saiu da prisão? - perguntou o David
achando aquela história mais curiosa do que as dos livros e ainda por cima verdadeira.
- Não, não foi - disse o tio Jeremias expirando uma nuvem de fumo. - Digo isso com
grande alegria. O malandro morreu na prisão.
- Mas sendo assim, que aconteceu ao tesouro proveniente dos barcos naufragados? -
perguntou a Zé. - Quem o encontrou?
- Ninguém - disse o velhote. - Ninguém. Ainda ali está, escondido onde o malandro o
deixou. Levou o segredo com ele. O Bart fartou-se de o procurar. O Narigudo também.
Vivia nas grutas, dia após dia e com uma lanterna, noite após noite. Mas nunca
encontraram nem mesmo uma pérola. Foi uma grande partida! Agora já morreram mas
ainda têm parentes que vivem nesta aldeia e bem gostariam de encontrar qualquer
parte desse tesouro pois são pobres como ratos de sacristia e têm dois miúdos,
magrinhos que até metem dó.
- Mas ninguém faz uma ideia de onde estará o produto dos navios afundados? -
perguntou o Júlio. - Não estará na gruta de que ouvimos falar,

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na Gruta dos Afundadores?


- Realmente existe a Gruta dos Afundadores - disse o velhote, batendo com o
cachimbo na pedra. - E sei de milhares de pessoas que lá têm entrado, procurando por
todos os cantos, esperando encontrar o que o Narigudo e o Bart nunca conseguiram.
Talvez mais de dez mil pessoas já lá tenham ido. E não me importo de lhes dizer que
eu próprio ali fui
mas nunca avistei nem uma moedazinha de ouro. Se quiserem posso ali levá-los um
dia. Mas oiçam bem, não pensem encontrar nada. Eu julgo que o velho Bill da Orelha
Ratada nunca ali escondeu as suas riquezas. Disse que lá estavam só para intrujar o
Bart e o Narigudo.
- Gostávamos muito de ir visitar a Gruta - declarou o David e a Zé fez um sinal
afirmativo, encantada. - Não tencionamos procurar o tesouro, pode crer, agora é
evidente que ali não está; talvez alguém o tenha encontrado e o levasse às
escondidas.
- Talvez - disse o tio Jeremias. - Muito bem, meus meninos. Previnam-me quando
quiserem lá ir. Estou sempre aqui sentado. E se tiverem um pouco de tabaco de que
não precisem, não se esqueçam de mim.
- Vamos já comprar-lhe o tabaco - disse o Júlio, não conseguindo manter-se sério. -
Que marca fuma?
- Digam ao Tom da tabacaria que é para o velho Jeremias Boogle. Ele há-de vender-
lhes o que eu gasto - disse o velhote. - E agora atenção!

108

Nada de irem meter o nariz nas grutas sozinhos. Podem perder-se. Elas são mesmo
um labi... labi...
- Labirinto - disse o Júlio, rindo. - Está bem. Teremos cuidado.
Os Cinco despediram-se e o Tim estava satisfeito por continuar o passeio. Não
percebera a história do velhote, claro está, e não entendia porque motivo a Zé não o
levara ao passeio habitual, a seguir ao pequeno almoço. Soltou um pequeno latido e a
dona fez-lhe uma festa.
- Desculpa, Tim - disse ela. - Aquele senhor contou uma história tão interessante que
me esqueci completamente que estavas a suspirar por um passeio. Mas podemos ir
agora.
- Primeiro devemos passar pela tabacaria, não acham? - disse o Júlio. - Aquele velhote
merece o tabaco pela sua história. Só Deus sabe o que teria de verdade, mas contou-a
muito bem.
- Claro que era tudo verdade - disse a Zé. - Porque havia de ter mentido?
- Talvez lhe apetecesse um pouco mais de tabaco - disse o Júlio, sorrindo. - Não o
censuro. Era uma bela história. Mas por favor, Zé, não penses que ainda está algum
tesouro escondido em qualquer parte. Não serve de nada acreditar nisso.
- Pois fica sabendo que acredito - afirmou a Zé. - Acho que disse a verdade, com
tabaco ou sem ele. - Não concordas, Buzina?
- Com certeza! - exclamou o Buzina.

109

- Vais ver as grutas que existem nestas paragens! Podiam lá meter montanhas de
tesouros e ninguém os encontrar. Já entrei numa delas. Mas as grutas são tão
assustadoras e quando eu tossi, ouvi o eco uma centena de vezes e fiquei tão aflito
que fugi com quantas pernas tinha, indo cair numa poça de água! Todos se riram.
- Vamos fazer as nossas compras sem demora - disse o David. - E depois proponho
irmos dar um grande passeio.
- Não me apetece andar quilómetros com o pão, os ovos e o leite - disse a Zé. - Acho
melhor começarmos por darmos um passeio e depois fazermos as compras e
comermos uns sorvetes. Em seguida voltamos para o farol.
- Tens razão - disse o Júlio. - Vamos, Tim. Vamos dar um PASSEIO! Esta palavra põe-
te a cauda a abanar, não é verdade? Olha para o Tim, Diabrete! Não gostavas de saber
abanar a cauda assim?

Capítulo XIII - UMA MANHÃ AGRADÁVEL E UM SUSTO.

- PARA onde vamos passear? - perguntou a Zé, enquanto caminhavam pela aldeia. -
Reparem, deve ter sido àquela tabacaria pequena que se referiu o tio Jeremias. Vamos
comprar o tabaco para não nos esquecermos.
O Júlio entrou. Apareceu um homenzinho de aspecto estranho, vindo de um canto
escuro.
- Queria tabaco para o tio Jeremias Boogle, se faz favor - disse o Júlio. - Julgo que o
senhor sabe qual é a sua marca preferida.
- Sei muito bem - respondeu o Tom, procurando numa prateleira. - A quantidade que o
velho Jeremias tem fumado desde que tenho a loja chegaria para uma fogueira arder
durante alguns anos. Aqui tem, meu menino.
- Ele conta histórias muito bem - disse o Júlio verificando o preço e pagando. O Tom
riu-se. - Naturalmente esteve a contar-lhe essa história do Narigudo, Bart e família -
disse ele. - É muito bem apanhado o velho Jeremias. Nunca se esquece de qualquer
coisa passada há oitenta anos. E também nunca perdoa. Há duas pessoas que ele
detesta. Velho teimoso!
- Mas que lhe fizeram, para as detestar tanto? - perguntou o David, surpreendido.
- São parentes do seu velho inimigo, o Bill da Orelha Ratada,

112

- explicou o Tom. - Ele falou-lhes sobre o Bill, não?


- Falou sim - disse o Júlio. - Mas toda essa história dos afundadores passou-se há
muitos anos. Certamente o velho Jeremias não transferiu a sua cólera para os
descendentes do famigerado Bill da Orelha Ratada.
- Está enganado! Foi isso mesmo que ele fez! - afirmou o Tom. - Esses homens que ele
detesta estão encarregados de mostrar as grutas às pessoas que vêm de fora,
especialmente a Gruta dos Afundadores. Calculo que o velho Jeremias ainda pensa no
tesouro do Bill da Orelha Ratada e receia que aqueles dois homens o encontrem; como
se fosse possível! Já passaram mais de oitenta anos desde que tudo aconteceu. O
farol foi construído à cerca de sessenta anos, depois de terminado o caso dos
afundadores. Ninguém encontrará agora nenhum tesouro.
- Mas é possível - disse a Zé. - Depende do lugar onde o esconderam. Se tiver sido
num sítio seco, onde não chegue a maré, pode estar intacto. O ouro e a prata não
envelhecem, pois não? Seja o que for ainda lá pode estar escondido.
- Isso dizem todos os nossos visitantes! - exclamou o Tom. - O mesmo pensam o Jacob
e o Tomé, os dois homens que mostram as grutas. Mas dizem isso só para entusiasmar
os visitantes, acho eu. Outro tanto faz o velho Jeremias. É preciso ver as coisas como
elas são. Acreditem no que quiserem, meus meninos,

113

na certeza de que nunca encontrarão nenhum tesouro. Penso que o mar o levou há
muitos anos. Desejo-lhes muito bom dia. Encarrego-me de entregar o tabaco ao
Jeremias, quando ele aqui vier.
- Bem, isto tudo é muito curioso - disse o David mal saíram da loja. - Acho que o Sr.
Tom deve ter razão. O tesouro não foi encontrado porque provavelmente o esconderam
num sítio onde o mar chegava. Nalguma cavidade da rocha ou qualquer lugar nesse
género.
- Eu continuo a pensar que ele se encontra ali, em sítio seguro - declarou a Zé. - O
Buzina acha o mesmo.
- Bem... naturalmente o Tim é da vossa opinião... - disse o David. - Também possui um
espírito acriançado.
O David recebeu logo uma boa palmada nas costas, dada pela Zé. Pôs-se a rir.
- Está bem! Vamos dar-te uma oportunidade para procurares o tesouro, não achas,
Júlio? Visitaremos a Gruta dos Afundadores logo que pudermos. Agora vamos passear
pelo alto dos penhascos para descobrirmos onde ficava a velha lâmpada, a que
avisava os navios que se afastassem da costa por causa dos Rochedos do Demónio.
Deram um agradável passeio ao longo dos penhascos. As celidónias e as violetas
bravas estavam lindas e viam-se tufos de primaveras por toda a parte. Havia bastante
vento e o Diabrete agarrava-se com força ao ombro do Buzina com medo de voar. O
Tim divertiu-se muito,

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saltando dum lado para o outro, com a cauda a abanar, farejando aqui e ali.
Chegaram ao sítio onde estava a bandeira vermelha batida fortemente pelo vento.
Havia em baixo uma nota explicativa. A Zé leu-a.
- Esta bandeira serve para avisar os navios que passem ao largo da costa. Durante a
noite existe com o mesmo fim um farol nos Penhascos Altos. Em tempos esteve neste
lugar uma lâmpada e mais tarde construíram um pequeno farol nos Rochedos do
Demónio. Este ainda existe, mas fora de uso.
- Isto está errado - comentou o Buzina apontando para a última frase. - Nós estamos a
usá-lo. Vou corrigir o dístico.
E o Buzina tirou um lápis do bolso para riscar as últimas palavras.
O Júlio deteve-o: - Não sejas palerma. Não se deve alterar as notas públicas. Não me
digas que pertences àqueles idiotas que gostam de escrevinhar por toda a parte. O
Buzina ficou arreliado. - Bem sei. Mas pareceu-me que esta nota precisava de ser
corrigida. Fica sabendo que não faço parte dos que escrevem nas paredes ou nos
avisos públicos.
- Ainda bem - disse o Júlio. - Olha, Buzina, conseguimos ver daqui os Rochedos do
Demónio com o nosso farol?
- Não - respondeu o Buzina. - Os penhascos vão-se dirigindo para a esquerda,
reparem, e os Rochedos do Demónio entram pelo mar dentro. Por isso nenhum navio
deve seguir a linha da costa, sendo necessário conservar-se bastante afastado

115

para não encalhar nos rochedos. Percebe-se perfeitamente que os afundadores


tirassem a lâmpada daqui e a pusessem mais longe, num dos penhascos por onde
passámos há pouco; os barcos aproximavam-se demasiado de terra e pouco depois
encalhavam.
- Se eu tivesse conhecido o Bill da Orelha Ratada detestava-o tanto como o velho
Jeremias - afirmou a Zé imaginando os lindos barcos a despedaçarem-se naqueles
velhos tempos, só por causa de um homem ambicioso que queria ficar com os
despojos dos naufrágios.
- É melhor voltarmos para trás - propôs o Júlio, consultando o relógio. - Ainda temos
que fazer compras, não se esqueçam! E é preciso despacharmo-nos pois parece-me
que vai chover dum momento para o outro.
Tinha razão. Quando chegaram à aldeia chovia a cântaros. Entraram numa pequena
loja chamada Café da Manhã e pediram uma chávena de café com leite para cada um
e arrufadas. Estas eram tão saborosas que compraram mais algumas para levarem
para o farol. Depois a Ana lembrou-se dos postais.
- Temos que comprar vários - disse ela. - E mandar o primeiro ainda hoje. Vamos
comprá-los, escrevemos já um e deitamo-lo no correio enquanto aqui estivermos.
O David saiu do café voltando com uma porção de postais de cores garridas.
- Em alguns vê-se o farol - disse ele.

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- Escolhe também um postal para mandares ao teu pai, Buzina.


- Não vale a pena - respondeu o Buzina - Nem sequer o leria.
- Então manda um à tua mãe - lembrou a Ana.
- Não tenho mãe. - disse o pequeno. - Morreu quando eu nasci. É por isso que o meu
pai e eu andamos sempre juntos.
- Tenho muita, muita pena. - disse a Ana, aflita. Os outros também ficaram com pena do
Buzina. Não admirava que ele não mostrasse bonitas maneiras e estivesse pouco
habituado a obedecer. Nunca tivera mãe para o ensinar. Pobre Buzina! A Ana sentiu
vontade de lhe comprar todos os bolos da loja!
- Come mais uma arrufada, Buzina - disse ela. - Ou um sorvete. Eu ofereço-te. E o
Diabrete também pode comer um.
- Vamos todos comer mais outra arrufada e gelados - declarou o Júlio. - O Tim e o
Diabrete também. Depois fazemos as compras e voltamos para casa, ou seja para o
farol. Está mesmo a apetecer!
Escreveram três postais. Um para os pais da Zé, outro para a Joana e outro para o
Professor.
- Agora ficam todos a saber que estamos felizes e contentes. - disse a Ana, colando os
selos.
A chuva parara, por isso foram fazer as compras; pão fresco, mais manteiga, duas
garrafas de leite, fruta e outras coisas.

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Depois partiram para o molhe.


- A maré em breve subirá - disse o Júlio, enquanto saltavam do molhe para a pequena
praia. - Teremos o tempo à justa de passar pelas rochas até ao farol. Por favor não
deixes cair os ovos, Buzina!
Seguiram pelos rochedos, saltando pequenas poças de água, aqui e ali, e evitando as
algas escorregadias que cobriam as rochas em certos pontos. O farol parecia muito
alto à medida que se aproximavam.
- É pequeníssimo, comparado com o novo, nos Penhascos Altos - disse o Buzina. -
Vocês devem lá ir! A lâmpada no alto anda à roda; é magnífica. Tem uma luz tão
potente que os barcos podem vê-la a muitos quilómetros de distância.
- Por agora este farol chega-me - disse o David, subindo os degraus de pedra que iam
ter à espessa porta de madeira. - Reparem! Duas garrafas de leite no alto das escadas.
Não me digam que o leiteiro veio aqui!
- Era costume ele bater, quando aqui estive com o meu pai - disse o Buzina. - Só
quando a maré estava baixa na parte da manhã porque ele não tem barco. Deve ter
ouvido contar que nós aqui estávamos e veio saber se precisávamos de leite. Deixou
duas garrafas quando percebeu que tínhamos saído. Naturalmente chamou pelo
postigo e como não respondemos resolveu deixar o leite à sorte.
- É pessoa sensata - disse o David. - Abre a porta com a tua chave, Buzina.

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- Não me lembro de a ter fechado á chave quando saímos esta manhã - disse o
Buzina, remexendo todas as algibeiras. - Devo tê-la deixado na fechadura, do lado de
dentro da porta. Ora deixa-me pensar. Fechámos a porta á chave na noite passada,
deixando-a na fechadura. Por isso devo tê-la aberto esta manhã para sairmos todos.
- Isso é verdade. Mas logo que a abriste correste pela escada abaixo com a Zé e nós
seguimos atrás. - disse o Júlio. - A Ana foi a última a sair. Fechaste a porta à chave,
Ana?
- Não. Nem me lembrei de tal coisa - confessou a Ana. - Limitei-me a puxar a porta com
força e corri atrás de vocês. Por isso a chave deve continuar no outro lado da porta.
- Bem, se a empurrarmos ela deve abrir-se - disse o Júlio, sorrindo. - E a chave estará
do outro lado á nossa espera. Vamos entrar.
Empurraram com força e claro que a porta se abriu. O Júlio meteu a mão para o lado
de dentro da fechadura, procurando a chave. Esta tinha desaparecido! O Júlio olhou
para os outros preocupado.
- Esteve aqui alguém. Encontrou a porta sem ser fechada, levou a chave e
naturalmente muitas outras coisas - disse ele. - Vamos passar tudo em revista. Entrem!
- Olhem, está uma coisa no tapete. - disse o David, apanhando uma carta. - O carteiro
também visitou o farol. É uma carta vinda de Kirrin.

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Portanto duas pessoas, pelo menos vieram aqui enquanto estivemos ausentes. Mas
com certeza nenhum deles levaria a chave ou qualquer outra coisa.
- Em breve saberemos - disse o Júlio, começando a subir pela escada de caracol,
cheio de pressa.

Capítulo XIV - UM MAPA MUITO, MUITO ANTIGO.

O Júlio e o David revistaram cada compartimento do farol correndo pelas escadas de


caracol e de uns para os outros. Como estavam aborrecidos por não se terem
lembrado de verificar se o Buzina fechara a porta à chave e a guardara!
Realmente tinham levado várias coisas.
- O meu cobertor! - exclamou a Zé. - Desapareceu!
- E a minha bolsa - disse a Ana. - Deixei-a aqui em cima da mesa. Também a levaram.
- E o meu pequeno despertador - resmungou o Júlio. - Porque havia de trazê-lo?
Chegava-me o relógio de pulso.
Faltavam mais algumas coisas, tudo objectos pequenos.
- É preciso ser um monstro, seja que pessoa for para se meter no farol, aproveitando a
nossa ausência, levando as nossas coisas - disse a Ana, quase a chorar. - Quem se
atreveria a cá vir? Pode ter sido visto do cais,não acham?
- Talvez - disse o Júlio. - Naturalmente o ladrão entrou aqui enquanto estava a chover e
por isso o cais encontrava-se deserto. Acho que é melhor irmos participar à polícia.
Vamos almoçar e depois meto-me no nosso barquito e vou até à aldeia.

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Nessa altura estará a maré alta e portanto não poderei caminhar pelas rochas. Diabos
levem o ladrão. Estava a preparar-me para uma agradável tarde de leitura.
Quando acabaram a refeição o Júlio meteu-se no barco e remou até ao molhe. Foi
direito ao posto da polícia, onde um guarda o ouviu, escrevendo o caso vagarosamente
num livro.
- Tem alguma ideia de quem possa ter sido o ladrão? - perguntou o polícia. - Ou sabe
se alguém foi ao farol enquanto saíram?
- Calculo que lá tivessem ido duas pessoas
- disse o Júlio. - O leiteiro, pois ficámos surpreendidos ao encontrar duas garrafas nos
degraus. E o carteiro. Estava uma carta para nós no tapete, do lado de dentro da porta.
E não sei se lá foi mais alguém.
- Posso afirmar-lhe que tanto o Guilherme, o leiteiro, como o carteiro, são muitíssimo
honestos - disse o polícia, coçando o queixo com o lápis. - Deve ter havido um terceiro
visitante, que não deixou leite nem qualquer carta. Vou informar-me se esta manhã
estava alguém no cais, que tenha visto o ladrão dirigir-se aos Rochedos do Demónio.
Ou... suspeita de alguém?
- Garanto-lhe que não - afirmou o Júlio.
- Não conheço ninguém neste sítio, a não ser o velho Jeremias Boogle ou o Sr. Tom, da
tabacaria.
- Nesses dois não precisamos de pensar - disse o polícia, rindo. - Vou fazer o que
puder e informo se houver alguma novidade. Muito boa tarde.

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E só mais uma coisa. Como agora não podem fechar à chave a porta do farol e é
evidente que andem ladrões nas redondezas, talvez seja melhor não deixarem o farol
sem ninguém.
- Já tinha pensado nisso - disse o Júlio.
- Posso trancar a porta com qualquer coisa quando estivermos lá dentro mas pelo lado
de fora é impossível.
- Parece que vai haver muita chuva - disse o polícia. - Por isso não será um grande
sacrifício ficar em casa. Espero que estejam bem instalados no farol. Parece-me um
sítio muito estranho para viver.
- Estamos muitíssimo bem instalados - garantiu o Júlio, sorrindo. - Porque não vai
fazer-nos uma visita?
- Muito obrigado - disse o polícia acompanhando o Júlio à porta.
O polícia tinha razão em prever mau tempo. Choveu toda a tarde e o grupinho do farol
passou o tempo a jogar às cartas.
O Júlio e o David encontraram no quarto das arrumações uma grande e forte trave com
que trancaram a porta. Depois todos se sentiram em maior segurança. Agora ninguém
lá podia entrar sem fazer um terrível barulho.
- Estou "empenada" - disse a Zé por fim.
- Preciso estender as pernas. Apetece-me correr pelas escadas acima e abaixo, uma
meia dúzia de vezes.
- Podes começar - disse o David.

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- Ninguém te impede.
- O farol ainda desce até muito fundo, Buzina? - perguntou a Zé. - Nós subimos sempre
pelo farol acima e nunca pensamos nos alicerces cavados na rocha. São muito
profundos?
- Muitíssimo - disse o Buzina levantando os olhos do seu livro. - O meu pai contou-me
que ao construírem o farol escavaram na rocha até muito fundo fazendo uma espécie
de alçapão. E ele explicou-me que por baixo destes rochedos há uma quantidade de
aberturas e túneis.
- Sim? - disse o David com interesse. - Nunca tinha pensado no que é preciso fazer
para tornar um farol à prova de tempestades e vendavais. Claro que são necessários
uns alicerces muito profundos.
- O meu pai encontrou aqui um mapa antigo - disse o Buzina. - Uma espécie de
projecto do tempo em que foi construído.
- Como os desenhos dos arquitectos antes de fazerem uma casa? - perguntou a Ana.
- Mais ou menos - disse o Buzina. - Não me lembro bem como é. Sei que mostra todos
os compartimentos do farol, comunicando pela escada de caracol e mostra o grande
quarto da lâmpada lá de cima. Nesse mapa também estão desenhados os alicerces.
- Pode descer-se pelo alçapão? - perguntou o David. - Tem uma escada ou coisa
assim?
- Não sei - respondeu o Buzina. - Nunca lá estive nem me passou tal coisa pela
cabeça.

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- Sabes onde está esse mapa, o que foi desenhado pelo arquitecto que fez os planos
de construção do farol? - perguntou o Júlio. - Onde o guardou o teu pai?
- Naturalmente deitou-o fora - disse o Buzina. - Esperem lá. Talvez esteja no
compartimento da lâmpada. Lembro-me que o levou para ali por ter um desenho sobre
o funcionamento da luz.
- Gostava de tentar encontrá-lo - disse o Júlio, interessado. - Vem lá acima comigo,
Buzina. Felizmente que perdeste a mania de ser automóvel. Estás a tornar-te mais
crescido.
Lá foram os dois pela escada de caracol até ao quarto da varanda, no alto da torre.
Mais uma vez o Júlio se maravilhou com a linda vista. A chuva parara e o mar, batido
pelo vento forte, estava cheio de ondas embravecidas .
O Buzina meteu-se no pequeno espaço escuro por baixo da lâmpada. Por fim saiu com
um rolo de papel e entregou-o ao Júlio. - Aqui está o mapa. Bem calculava que tivesse
ficado neste compartimento.
O Júlio levou-o lá para baixo, onde estavam os outros e desenrolaram-no. Mostrava o
plano do farol; estava muito bem desenhado e com clareza.
- Porque será que os arquitectos desenham maravilhosamente? - perguntou a Zé. -
Eles são arquitectos por serem capazes de fazer este género de trabalhos tão bem ou
desenham assim por serem arquitectos?

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- As duas coisas um pouco, naturalmente - disse o Júlio, inclinando-se sobre o projecto.


- Aqui estão os alicerces. Reparem, são muito profundos, escavados na rocha!
- As construções muito altas, como estas, têm sempre alicerces muito profundos - disse
o David. - No último período, no colégio, estudámos como...
- Não quero ouvir falar sobre estudos - disse a Ana. - Traz sempre recordações
aborrecidas. Buzina, alguém pode descer lá abaixo pelos alicerces?
- Já lhes disse que não sei - respondeu o Buzina. - De qualquer maneira acho que deve
ser um sítio horrível, lá no fundo. Escuro, mal cheiroso, estreito e...
- Vamos ver - interrompeu a Zé, levantando-se. - -Neste momento sinto-me tão
aborrecida que se não fizer qualquer coisa acho que ficarei a dormir cem anos.
- Palerma! - disse o David. - No entanto concordo com a ideia. Ficaríamos em paz
enquanto tu dormisses. Ai! Ai! Ai! Não me dês socos dessa maneira, Zé!
- Vamos - disse a Zé. - Descemos para ver o que fica por baixo do chão.
A Ana não quis ir, mas os outros correram pelas escadas, com o Tim, e em breve se
encontravam no piso onde ficava a porta da entrada. No lado oposto a esta, o Buzina
mostrou-lhe uma tampa redonda de alçapão que se via no soalho. - Se o abrirmos
ficam à vista os alicerces

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- disse ele.
Tiraram a grande tampa de madeira e olharam lá para baixo. Nada se via além de uma
enorme escuridão!
- Onde está a minha lanterna? - perguntou o Júlio. - Vou buscá-la.
Em breve a lanterna iluminava o alçapão redondo e viram uma escada de ferro, presa a
um dos lados. O Júlio desceu alguns degraus e examinou as paredes.
- São de cimento! - disse ele. - Acho que devem ser muitíssimo espessas. Vou até lá
abaixo.
Foi descendo cada vez mais, observando o compacto cimento que rodeava o alçapão.
Não percebia porque não tinham pensado em encher a abertura. Talvez o alçapão
vazio rodeado por cimento fosse mais forte do que de outra maneira. Não sabia ao
certo.
Chegou quase ao fundo mas não desceu os últimos degraus da escada de ferro. Um
barulho esquisito vinha lá de baixo. Um barulho cadenciado e monótono. Que poderia
ser?
Virou a lanterna para baixo e ficou muito admirado! Havia água no fundo do alçapão,
água que entrava e saía, fazendo aquele barulho. Donde viria?
Enquanto estava a observá-la, a água desapareceu voltando depois outra vez. Foi
virando a lanterna para vários lados, tentando descobrir como é que a água entrava no
alçapão.
- Deve haver um túnel ou uma passagem lá em baixo,

128

de maneira que o mar consiga entrar! - pensou ele. - Agora a maré está cheia, por isso
a água vem até aqui. Só gostava de saber se ficará completamente seco quando a
maré estiver vazia. Se assim for, onde irá dar este túnel? Ou ficará sempre por baixo de
água? Vou para cima, contar aos outros. E quero examinar outra vez o velho mapa.
Subiu, satisfeito por sair daquele alçapão escuro e mal cheiroso. Os outros estavam lá
em cima, olhando para dentro da cavidade um tanto apreensivos.
- Lá vem ele! - exclamou a Zé. - Viste alguma coisa interessante, Júlio?
- Vi - disse o Júlio, subindo. - Trouxeram o mapa? Quero ver uma coisa.
- Vamos para cima - propôs o David. - Ali vemos melhor. Que encontraste lá em baixo,
Júlio?
- Eu conto quando estivermos todos na sala - disse o Júlio.
Pediu o mapa ao Buzina logo que ali chegou e sentaram-se para o examinar. Foi
indicando com o dedo o alçapão até ao fundo e depois apontou para um sinal redondo
ali desenhado.
- Vêem aqui este ponto? Indica um buraco no fundo do alçapão por onde entra a água
do mar. Agora está a maré alta por isso a água passa para o alçapão mas só com um
meio metro de fundo. Na maré baixa não deve ali chegar nem uma gota. Gostava
imenso de saber onde vai dar esse túnel. Chegará até à superfície das rochas?Passará
através dos rochedos até muito longe?

129

Não faço ideia.


- Um túnel por baixo do mar! - exclamou a Zé muito entusiasmada. - Porque não vamos
examiná-lo quando estiver a maré baixa?
- Mas temos que nos assegurar se não ficaremos afogados de repente! - disse o Júlio,
enrolando o mapa. - É muito interessante, não acham? Julgo que a abertura foi deixada
para que o constante bater das águas quando a maré está cheia não desgaste os
alicerces.

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É melhor ter o alçapão com água até meio do que ir o farol abaixo por causa das
marés!
- Bem - começou a Ana mas, interrompeu-se assustada. Uma voz de trovão vinha
pelas escadas, sobressaltando todos.
- ESTá ALGUÉM EM CASA? ESTá AQUI ALGUÉM?

Capítulo XV - O JACOB EM APUROS.

- QUEM estará a gritar daquela maneira? - perguntou a Ana, amedrontada. - Espero


que não seja o ladrão.
- Claro que não é - disse o Júlio indo até à porta da sala. Gritou lá para baixo:
- Quem está aí? Que deseja?
- Polícia! - disse a tal voz.
- Oh! Faz favor de subir - disse o Júlio, aliviado. Ouviram-se passos subindo as
escadas, acompanhados duma respiração ofegante. Depois apareceu o polícia. Em
breve se encontrava na sala de estar, sorrindo para
o grupo surpreendido, respirando com custo devido ao esforço de subir tantos degraus.
- Como pôde entrar? - perguntou a Zé. - Nós trancámos a porta do lado de dentro.
- Consegui destrancá-la, menino - disse o polícia, limpando a testa e sorrindo.
Era o mesmo que o Júlio vira nessa tarde.
- Realmente não é grande protecção. Deviam mandar fazer outra chave.
- Como conseguiu cá chegar? A maré está alta - disse o Júlio. - Não pode caminhar
pelos Rochedos do Demónio.
- Vim no barco do Tio Jaime - explicou o polícia. - A propósito, o meu nome é António
Sharp.
- Muito prazer - disse o Júlio, sorrindo.
132

- Então já apanhou o ladrão que levou a nossa chave e as outras coisas?


- Ainda não. Mas tenho quase a certeza de quem foi - disse o polícia. - Não consegui
encontrar ninguém que estivesse no cais enquanto saíram do farol, mas por sorte falei
com uma senhora que mora numa casa com as janelas viradas para o molhe e ela viu
ali uma pessoa. A senhora diz que a pessoa veio pelas rochas até ao farol.
- Quem era? O leiteiro, o correio? - perguntou o David.
- Não senhor. Eu já disse ao seu amigo que eles são muito honestos - respondeu o
polícia
parecendo escandalizado. - Era... era um homem que me parece um grande patife.
- Quem é? - perguntou o Júlio, temendo que fosse o velho Jeremias. Ele não podia ser
um patife. Parecera-lhe tão bom!
- Não devem conhecê-lo - disse o polícia.
- É um homem chamado Jacob, Jacob Loomer. Pertence a uma família com um nome
pouco famoso. Noutros tempos foram afundadores...
- Afundadores! O velho Jeremias contou-nos muita coisa sobre os antigos afundadores
- disse o David. - Um deles chamava-se Narigudo, o outro Bart, parentes do conhecido
Bill da Orelha... Orelha...
- Ratada - disse o polícia. - Esse mesmo. O Bill da Orelha Ratada viveu há muitos
anos, quando o tio Jeremias ainda era novo. Este Jacob, o tal que viram hoje entrar no
farol, deve ser o seu trineto, calculo eu.

133

É a viva imagem do Bill da Orelha Ratada, segundo diz o tio Jeremias. Uma família
com más raízes, que parece não melhorar com o tempo.
- Então foi o Jacob que entrou no farol? E porque não o prende? - perguntou o Júlio. -
Porque não o obriga a devolver a chave e as outras coisas?
- Se vier comigo e identificar os objectos posso então agir - disse o polícia. - Talvez a
estas horas estejam bem escondidos, mas como ele é um mãos largas não me
admiraria nada que tivesse oferecido tudo. É tão maluco como ladrão. Gostaria do
ofício de afundar navios; é mesmo o seu género de trabalhos.
- Eu vou consigo - disse o Júlio. - Os outros não precisam de vir, pois não?
- O menino chega - disse o polícia, seguindo com o Júlio pelas escadas de caracol até
à entrada. Os outros ouviram a porta bater e entreolharam-se.
- Pensar que um trineto desse horrível Bill da Orelha Ratada ainda vive na mesma
aldeia do velho afundador! - exclamou o David. - E também é um patife! A mesma
história a repetir-se.
- Devemos ir amanhã ver a Gruta dos Afundadores, se pudermos - disse a Zé. - O tio
Jeremias prometeu que nos levava.
- Esperemos que não esteja lá escondido nenhum afundador, muito, muito velho - disse
a Ana. - Mais velho do que o Jeremias Boogle, com uma barba até aos pés. Uma
espécie de Monstro do Mar, com uma voz tremenda muito rouca e olhos de peixe.
134

- francamente, Ana! - disse a Zé admirada. - Acabo por ter medo de entrar nas grutas
se começas com essas parvoíces!
- Gostava de saber o que se está a passar com o Júlio - disse o Buzina. - Diabrete,
pára de saltar para cima e para baixo. Fazes-me falta de ar.

O Júlio encontrava-se na casa do Jacob e lá estavam as coisas que ele roubara. O


cobertor, o relógio, a bolsa da Ana, agora vazia!
- E a chave? - perguntou o polícia. - Bem sabemos que tiraste a chave da porta do
farol. Dá-ma imediatamente, Jacob.
- Não a tirei - disse o Jacob, carrancudo.
- Tenho que te levar para a prisão, bem sabes, Jacob - disse o polícia. - Vais ser
revistado no posto da polícia. É melhor dares já a chave.
- Pode revistar-me à vontade - disse o Jacob. - Não há-de encontrar a chave. Já lhe
disse que não a tirei. Para que queria eu essa chave?
- Pela mesma razão que em geral se deseja uma chave - disse o polícia. - Para entrar
nas casas e roubá-las. Está bem, Jacob. Se não deres a chave a este jovem vou
mandar-te revistar no posto da polícia. Acompanha-me.
Mas afinal nenhuma chave foi encontrada nos bolsos do Jacob e o polícia encolheu os
ombros, olhando para o Júlio desanimado.
- Se me permite um conselho, mande mudar a fechadura da sua porta.

135

O Jacob meteu a chave em qualquer parte. Voltará ao farol logo que todos se
ausentem.
- Pfff! - fez o Jacob, mal educado. - Sempre a falar na chave. Já lhe disse que não a
tirei. Não havia chave quando...
- Acompanha-me, Jacob, - interrompeu o polícia. Depois voltou-se para o Júlio. - Não
posso fazer nada. Deve ter escondido a chave em qualquer parte. É muito manhoso.

136

O Júlio voltou para o farol bastante aborrecido. Demoraria alguns dias numa aldeia
como aquela fazer uma fechadura nova. Entretanto teriam que passar todo o tempo no
farol ou deixá-lo com uma porta que qualquer pessoa podia abrir.
Quando ele voltou os outros ouviram a sua história bastante entusiasmados. Ficaram
satisfeitos por voltarem a ver o cobertor, o relógio e a bolsa, embora a Ana ficasse triste
por todo o seu dinheiro ter desaparecido.
- Temos que arranjar uma nova fechadura - disse o Júlio. - Este farol foi-nos só
emprestado e é da nossa responsabilidade todo o seu conteúdo. Ainda bem que
levaram só coisas nossas e não do Prof. Hayling.
- Já é bastante tarde - disse a Ana pondo-se em pé. - Ainda nem lanchámos! Vou
arranjar qualquer coisa. Apetece-lhes torradas com manteiga?
Todos acharam boa ideia e em breve a pequena sala cheirava a torradas quentes, o
que era uma delícia. Conversaram enquanto bebiam o chá e comiam as torradas.
- Proponho irmos procurar amanhã o Jeremias Boogle para ver se ele ouviu falar no
roubo e se tem alguma coisa interessante a dizer a esse respeito - disse a Zé.
- E também devemos pedir-lhe que nos leve à Gruta dos Afundadores - lembrou o Júlio.
- A propósito, quais são os nomes dos dois homens que têm a seu cargo mostrar as
grutas aos visitantes? Tenho quase a certeza de que um deles se chama Jacob.

137

- Tens razão, e o outro é Tomé - disse o David. - Bem, esperemos que o Jacob continue
na prisão ou bem longe, quando formos visitar as grutas. Se assim não for há-de
mostrar-se furioso connosco.
- Também sou capaz de lhe fazer má cara - disse a Zé franzindo o sobrolho de tal
maneira que até o Tim se pôs a ganir. Ela fez-lhe uma festa. - Não te assustes, Tim.
Não é nada contigo.
- Devemos ir à gruta pela manhã, com a maré baixa - disse o Júlio. - E o melhor é
procurarmos um homem que nos possa arranjar outra fechadura depressa.
- Porque não vais agora tratar disso? - propôs o David. - Eu posso ir contigo para
apanhar um pouco de ar fresco. Querem vir, meninas?
- Não, quero acabar de ler este livro - respondeu a Ana e a Zé disse o mesmo. O
Buzina estava a brincar com o Diabrete e também não quis sair.
- Vocês ficam em segurança e o farol também com o Buzina e o Diabrete a guardá-los -
disse o Júlio e lá saiu seguido de perto pelo David.

O serralheiro prometeu ir ver a porta no dia seguinte ou no outro. - Agora não posso
deixar a loja - disse ele. - Não tenho ninguém para tomar conta. Naturalmente aquilo
que pretendem vai-me levar alguns dias.
- Não me diga! - exclamou o Júlio. - Já entrou um ladrão no farol,

138

agora, não o podemos deixar sem ninguém de guarda.


Remaram novamente para o farol, fecharam e trancaram a porta o melhor que
puderam e foram ter com os outros. O Tim recebeu-os com grandes manifestações de
alegria e o Diabrete deu um enorme salto, das costas duma cadeira para o ombro do
David. , - Não haverá chave nem fechadura durante alguns dias - disse o David
sentando-se e fazendo festas ao macaco. - Gostava tanto de visitar as grutas amanhã!
Especialmente a Gruta dos Afundadores. Mas com certeza não podemos deixar o farol
sem ninguém.
- Uuuuf! - fez logo o Tim.
- Ele pergunta porque não o deixamos aqui de guarda - disse a Zé muito séria e o Tim
fez outra vez - Uuuuf!
Todos se riram. O David fez-lhe uma festa.
- Querido Tim, está bem. Ficas a guardar o farol. E terás um osso muito especial como
recompensa.
- Então fica combinado. Deixaremos aqui o Tim e iremos todos visitar as grutas - disse
o Júlio. - Amanhã deve faltar um dos irmãos que costuma mostrá-las. Receio que o
Jacob não esteja lá.
- Até aposto que o outro nos vai fazer muito má cara; como se chama ele? O Tomé -
disse a Ana. - Temos que ter cuidado não vá empurrar-nos para uma poça de água
muito funda.
- Talvez tenhas razão - disse o Júlio. - Nunca se sabe. Devemos estar de pé atrás!

Capítulo XVI - NAS GRUTAS.

NA manhã seguinte a Zé acordou em sobressalto. O Tim empurrava-a com o focinho.


- Que se passa, Tim? - perguntou a Zé. Ele soltou um latido e correu até ao sítio onde
descia a escada de caracol.
- Vai lá abaixo dizer o que pretendes - disse a Zé, ensonada. O Tim desceu então pelas
escadas até ao compartimento onde os rapazes dormiam. Foi com o focinho acordar o
Júlio. Mas o pequeno dormia tão profundamente que nem se mexeu.
O Tim tocou-lhe com a pata e o Júlio acordou sobressaltado. Sentou-se na cama. - Oh!,
és tu, Tim? que desejas? Aconteceu alguma coisa às pequenas?
- Béeeu! - fez o Tim, correndo para a escada. Desceu até lá abaixo, ladrando.
- Ouviu alguém - disse o Júlio, bocejando. - Se foi o Tomé ou o Jacob... Não, o Jacob
não pode ser... Gostava de lhe explicar o que penso sobre as pessoas que roubam.
Destrancou a porta da entrada e abriu-a. No alto das escadas de pedra estavam duas
garrafas de leite! - Imagina, Tim, que me acordaste só por causa do leiteiro! - disse o
Júlio, pegando nas garrafas. - Que simpático homem! Naturalmente teve que vir de
barco.

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A maré ainda está bastante alta, mas talvez ele conseguisse saltar por cima das
rochas.
Ao pequeno almoço todos se lembraram que tencionavam visitar as grutas naquela
manhã. Saborearam uma bela refeição; presunto frito, comprado no dia anterior, ovos,
torradas e doce de laranja. A Ana fizera um óptimo café e todos comeram com imenso
apetite.
O Diabrete ficou muito aflito pois meteu uma pata no frasco da compota e depois pôs-
se
a correr de um lado para o outro deixando por toda a parte marcas pegajosas de
compota.
- O melhor é levarmos um pano húmido quando andarmos pela sala - disse a Ana
desolada. - Passou por cima da mesa, da secretária e tudo. Diabrete endiabrado! Eu
detesto sentir uma coisa pegajosa!
O Diabrete estava triste por se zangarem com ele e lambia o ombro do Buzina,
rodeando-lhe o pescoço com as suas patas pegajosas.
- Quieto! Quieto! - exclamava o Buzina. - Estás a limpar as patas ao meu pescoço,
malandro!
- Vamos lavar a loiça e vocês, meninos, podem ir arrumar os quartos - disse a Ana. -
Depois saímos todos. Está um dia lindo.
- Parece-me que vem aí uma trovoada - disse o David. - Que achas, Tim?
O Tim concordou. Bateu com a cauda no chão, fazendo o Diabrete saltar sobre ela,
todo satisfeito. A Ana juntou os pratos e os talheres e levou-os para o lava-loiças.
Daí a uma hora estavam prontos para partir. - Vamos escrever um postal á Tia Clara
antes de sairmos - lembrou a Ana. - Para não termos que pensar mais nisso. Não
devemos dizer nem uma palavra sobre as coisas que nos roubaram. Pode ficar
preocupada e mandar-nos regressar. E então que diriam o Prof. Hayling e o Tio
Alberto?
- Até aposto que estão divertidíssimos, discutindo os seus problemas todo o dia,
fazendo contas e estudando papéis! - disse o Júlio.

142 - 143

- E tenho a certeza de que a Tia Clara deve chamá-los para as refeições pelo menos
vinte vezes antes deles aparecerem à mesa!
A Ana escreveu o postal e colou o selo.
- Agora estou pronta - disse ela, levantando-se. O Tim correu até à porta, satisfeito por
ver os pequenos preparando-se para sair. Apetecia-lhe tanto dar um passeio!
- Querido Tim - disse a Zé. - Parece-me que tens de aqui ficar, de guarda do farol! Bem
vês, não temos chave e não se pode trancar a porta pelo lado de fora. Por isso, peço-te
por favor, querido Tim, fica de guarda. Bem sabes o que significa, não sabes? DE
GUARDA! A cauda do Tim ficou toda caída. Soltou um
pequeno latido. Custava-lhe tanto não tomar
parte em tudo, e especialmente num passeio.
Fez uma festa com a pata à Zé, como quem
diz: Por favor, muda de ideias.
- De guarda, Tim, já! - disse a Zé. - Ficas a tomar conta do Farol. Não deixes
NINGUÉM entrar. É melhor sentares-te no tapete perto da porta principal.
O Tim foi andando devagar, atrás do Júlio e do David, parecendo na verdade muito
triste. - Fica aí - disse a Zé fazendo-lhe uma festa na cabeça. - Depois levamos-te a
passear enquanto um de nós guarda o farol. Mas agora todos queremos sair. DE
GUARDA!
O Tim deitou-se no tapete metendo o focinho entre as patas, com os grandes olhos
voltados para a Zé.
- Meu querido cão fiel - disse ela, passando-lhe a mão pela cabeça. - Não nos vamos
demorar.
Encostaram a porta e desceram os degraus de pedra. A maré estava suficientemente
baixa para saltarem por cima dos rochedos até ao molhe.
- Devemos voltar antes da maré encher - disse o Júlio. - Ou seremos obrigados a
continuar em terra até que ela desça outra vez. Não se esqueçam de que o nosso
barco ficou amarrado perto do farol!
Foram dar um passeio pelo cais e logo encontraram, sentado numa pedra, o velho
Jeremias Boogle, fumando o seu grande cachimbo. Contemplava o mar, muito sério.
- Bom dia, tio Jeremias - disse o David, delicadamente. - Espero que tenhamos
comprado o tabaco a seu gosto.
- Muito bom - disse o velhote, deitando uma grande bafurada de fumo. - Olá
macaquinho! Então vieste outra vez encarrapitar-te no meu ombro? Quais são as
notícias da Aldeia dos Macacos?
Os outros riram enquanto o Diabrete guinchava sem parar ao ouvido do velho
Jeremias.
- Gostávamos de ir hoje visitar as grutas - disse o Júlio. - Principalmente a Gruta dos
Afundadores.
- Então não se façam acompanhar por esse Tomé - disse logo o velhote. - Hoje não
encontrarão o Jacob. Sei o que lhe aconteceu. Foi bem feito. Nunca deixou de ser um
patife. E o Tomé é igual.

144 - 145

Seria capaz de lhes roubar os botões do casaco sem darem por isso! Agora oiçam! E
se eu lhes fosse mostrar as grutas? Conheço-as por dentro e por fora e posso mostrar-
lhes coisas em que essa peste do Tomé nem mesmo ouviu falar.
- Claro que gostávamos muito mais de ir com o senhor do que com o Tomé - afirmou o
Júlio. - Ele deve estar zangado connosco por eu ter participado à polícia o roubo do
irmão. Podemos comprar-lhe mais tabaco, se o tio Jeremias quiser servir-nos de guia.
- Vamos já - disse o tio Jeremias, levantando-se com incalculável agilidade. - Por este
lado!
E lá foram todos, o Diabrete também. O macaquinho deu a honra ao tio Jeremias de o
transportar ao ombro pela rua principal da aldeia. O velhote estava encantado ao ver
que todos olhavam para ele, rindo. Conduziu os pequenos pela praia, contornando uns
penhascos muito altos. Chegaram a uma outra praia, toda cheia de rochas.
- Ali está a entrada - disse o velhote apontando para uma larga abertura, no penhasco
mais próximo. - É o caminho para as grutas. Trouxeram uma lanterna?
- Cada qual tem a sua - respondeu o Júlio, batendo na algibeira. - É preciso pagar a
entrada?
- Não. As pessoas costumam dar ao Tomé uma gorjeta, quando lhes mostra as grutas -
disse o tio Jeremias. - Mas eu me encarrego do Tomé. Não gastem o vosso dinheiro
com
esse patife.
A abertura dava para a primeira gruta, que era bastante grande. Havia algumas
lanternas acesas, aqui e ali, mas davam pouca luz.
- Tenham cuidado onde põem os pés - avisou o velhote. - Nalguns sítios é muito
escorregadio. Por este lado, por esta abertura.
A gruta era fria e húmida e as crianças tinham que seguir com cuidado, desviando-se
das poças deixadas pelo mar. De repente, o velho Jeremias contornou uma parede,
caminhando numa direcção muito diferente. Começaram a descer imenso.
- Agora vamos para o lado do mar, não é verdade? - perguntou o Júlio, surpreendido. -
Não me diga que estas grutas seguem por baixo de água. Julgava que continuassem
pelos penhascos dentro.
- Esta costa é muito rochosa - explicou o tio Jeremias. - O caminho que estamos a
seguir vai ter a um túnel escavado nos rochedos e depois a grutas mais profundas.
Reparem no tecto de rocha sobre as nossas cabeças; se prestarem atenção podem
ouvir o barulho do mar que passa sobre este túnel.
Era uma ideia bastante estranha e um tanto assustadora. A Ana fitou receosa o tecto
rochoso, virando a lanterna para ali, quase esperando descobrir uma fenda deixando
passar água salgada para dentro do túnel.
Mas tudo quanto se via era uma ligeira humidade, a brilhar.
- Chegaremos em breve á Gruta dos Afundadores?

146

- perguntou a Zé. - Diabrete pára de fazer esses barulhos. Não há aqui nada que te
possa assustar.
Mas o Diabrete não gostava daquele passeio num subterrâneo frio e húmido. Pusera-
se a fazer uns ruídos esquisitos e de repente deu um guincho, muito aflito.
- Está calado! Pregaste-me um susto - disse a Ana. - Como é horrível o eco do grito do
macaco atravez do túnel. Parece uma centena de macacos a guinchar ao mesmo
tempo. E as nossas vozes também fazem eco!
O Diabrete ficou alarmado ao ouvir aqueles guinchos todos. Pôs-se a chorar, como um
bebé e agarrou-se com toda a força ao Buzina.
- Naturalmente julga que está num sítio cheio de macacos a guinchar - disse a Ana
sentindo pena do animalzinho. - É só o eco, Diabrete!
- Em breve estarás habituado - disse o Buzina, apertando o macaco nos braços.
- E vão ouvir o eco da segunda parte do túnel! - exclamou o tio Jeremias, fazendo
festas ao macaquinho. E sem pensar, deu um grito quando lá chegaram.
O grito repetiu-se dez vezes mais alto e o túnel de repente parecia cheio de gritos,
sobrepondo-se uns aos outros. Todos se assustaram muitíssimo e o Diabrete deu um
salto, aterrado. Caiu no chão, fugindo a toda a velocidade, guinchando sem parar. Foi
correndo pelo túnel e desaparecendo numa curva. O Buzina ficou aflito.
- Diabrete, volta para trás! - gritou. - Diabrete, volta para trás!

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Ainda te vais perder.


E logo veio o eco. - Vais perder, vais perder, vais perder... vais perder... perder...
perder... perder!...
- Não se preocupe com o seu macaco - consolou o tio Jeremias. - Tive uma quantidade
de macacos na minha vida e eles quando fugiam voltavam sempre.
- Então eu vou ficar aqui, até que o Diabrete volte. - disse o Buzina com uma voz pouco
firme.
Chegaram à outra gruta. Esta também estava iluminada com lanternas, embora muito
fracas.
Tinham todos ouvido algumas vozes e estavam com vontade de saber a quem
pertenciam.
Encontravam-se outras três pessoas nas grutas, só para as visitar, tal como as
crianças. Acompanhava-as um homem bastante forte, com o cabelo negro, olhos
também negros e uma boca retorcida. Era tão parecido com o Jacob, que o Júlio
percebeu logo tratar-se do irmão.
Mal o homem viu aparecer o tio Jeremias mostrou-se furioso.
- Vá-se embora daqui! Este é o meu ofício. Você vá-se embora. Eu mostro as grutas
aos meninos.
Seguiu-se uma terrível troca de palavras. Os pequenos iam ensurdecendo
principalmente porque o eco repetia tudo altíssimo! Os três visitantes fugiram
espavoridos pelo túnel fora,

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receando uma briga. A Ana estava muito amedrontada e agarrava-se ao braço do Júlio.
O Tomé aproximou-se do tio Jeremias, aos gritos, com a mão no ar.
- Não lhe disse mais de cem vezes que não se metesse nestas grutas? Não lhe disse
que sou eu e o Jacob, quem acompanha os visitantes?
- Não lhe liguem importância - disse o tio Jeremias, voltando as costas ao homem
zangado. - Ele não passa de um fala-barato e o irmão Jacob é outro.
- Cuidado! - gritou o Júlio, vendo o Tomé correr para o tio Jeremias, com o punho
fechado, para lhe bater. - CUIDADO!

Capítulo XVII - VOLTA O DIABRETE E UMA SURPRESA!

O tio Jeremias viu o homem furioso aproximar-se e deu um salto para o lado. O Tomé
não conseguiu parar e tropeçando numas algas muito escorregadias, estatelou-se no
chão!
- Olá - exclamou o tio Jeremias, encantado. - Muito bem, Tomé! Levanta-te e atira- te a
mim outra vez.
- É melhor não! - disse o Júlio, fazendo de pessoa crescida. - Se ele se atrever vou
queixar-me à polícia, o que fará um belo par, em dois dias. O Jacob foi ontem, hoje
será o Tomé.
O homem levantou-se, carrancudo, deitando um olhar furioso ao velhote que sorria,
deliciado. - Queres atirar-te outra vez a mim, Tomé? - perguntou. - É muito divertido
bater num velho, não achas?
Mas o Tomé receava que o Júlio fizesse aquilo que ameaçara, queixar-se dele à
polícia. Esfregava o ombro no sítio em que batera na rocha e ficou indeciso, sem saber
que resolução tomar.
- Vamos seguir por aqui - disse o tio Jeremias aos pequenos. - Quero levá-los à Gruta
dos Afundadores. O Tomé também pode vir se souber portar-se como deve ser, mas
talvez prefira ir para casa tratar do ombro!
Aquilo foi o suficiente para que o Tomé se resolvesse a seguir o grupo, passando todo
o tempo a fazer comentários grosseiros. Seguia-os a certa distância, gritando
insolências. Como os pequenos desejaram que o Tim estivesse presente! Ele
encarregar-se-ia num instante do insuportável Tomé!
- Não lhe liguem nenhuma importância -aconselhou o Júlio. - Sigam o tio Jeremias.
Santo Deus, como este túnel é escuro!

152 - 153

Ainda bem que todos temos lanternas potentes.


O túnel chegou ao fim, seguindo-se uma gruta muito estranha. O tecto era alto e as
paredes estavam cravadas de prateleiras de pedra. Nestas viam-se caixas velhas e
antigas,um ou dois caixotes e alguns sacos.
- Que vem a ser isto? - perguntou o David, virando a lanterna para ali.
- Oiça, meu menino. São apenas aquilo que parecem: sacas e caixotes vulgares - disse
o tio Jeremias. - Foram ali postas pelo Tomé e pelo Jacob para enganarem os
visitantes. Contam a toda a gente que foram trazidas pelos velhos afundadores. Tiradas
dos navios afundados, há muitos anos! Oh! Oh! Oh! Quem acredita em tais mentiras
merece ser intrujado! Vieram do quintal do Tomé. Eu próprio os vi lá! Oh! Oh! Oh!
As suas gargalhadas ressoavam em redor da gruta e o Tomé soltou uma exclamação,
furioso.
- Não vou intrujar estes meninos - disse o tio Jeremias. - Tu mais os teus sacos e
caixas! Mas eu sei onde estão as coisas antigas, as verdadeiras! Isso é que eu sei.
- Não prestam para mais do que as caixas e caixotes que aí estão! - vociferou o Tomé.
- Está a mentir, velho Jeremias. Não sabe nada.
- Leve-nos mais adiante - pediu o David.
- Deve haver outras grutas. Acho isto muito curioso. Era realmente aqui que os antigos
afundadores guardavam as riquezas que traziam
dos barcos afundados ou isso é apenas uma lenda?
- Era nesta gruta, isso é certo. Um pouco arranjada, ali pelo Tomé - respondeu o tio
Jeremias. - Mas eu conheço as grutas mais para diante. O Tomé nunca lá foi porque
tem medo de afastar-se, por baixo do mar; não
é verdade, Tomé?
O homem respondeu qualquer grosseria. O Júlio voltou-se para o Tio Jeremias, muito
animado. - Leve-nos mais adiante, por favor, se não achar perigoso.
- Pelo menos eu tenho que continuar - declarou o Buzina. - O Diabrete ainda não voltou
e pode-se ter perdido. Vou procurá-lo.
O Júlio percebeu que o Buzina estava firmemente resolvido. - Está bem- disse ele. -
Nós vamos contigo. Tio Jeremias, mostre-nos o caminho; mas não é realmente
perigoso, pois não? Ou seja, não queremos ver o mar enfiar-se pelas grutas até ao
ponto onde nós estivermos!
- A maré ainda não começou a subir - disse o tio Jeremias. - Por enquanto
encontramo--nos em segurança. Quando a maré enche, a água entra por este túnel
mas pára na Gruta dos Afundadores. É demasiado alta para a cobrir. O túnel agora
desce muito.
- Vamos mais adiante - pediu o David. -Vamos, tio Jeremias!
O velhote foi avançando com os pequenos, pelo túnel por baixo do mar. Era estranho e
um tanto assustador ouvir o barulho das ondas
154

passando sobre o tecto do túnel. As lanternas iluminavam paredes estreitas, uma


espécie de prateleiras nos rochedos e vários buracos.
- Sabem, este lugar seria muito bom para esconder um tesouro - disse o Júlio, olhando
para uma negra abertura no tecto do túnel -
embora eu não saiba como seria possível voltar a encontrá-lo. Há centenas de cantos e
recantos. Não acham que está imenso frio?
- Lembra-te que os raios de sol nunca chegaram aqui! - disse o David. - Escutem agora
o mar; ouve-se lindamente.
- Quem me dera encontrar o Diabrete - disse a Ana à Zé. - Repara no pobre do Buzina.
Está a chorar. Finge que não mas eu vi as lágrimas rolarem-lhe pela cara abaixo, a
última vez que voltei a lanterna para ele.
Pararam para ver uma coisa estranha. Tinha um aspecto gelatinoso e parecia uma
anémona do mar. O Tomé aproximou-se, esbarrando no David. Este voltou-se logo
para o homem.
- Pode seguir-nos, se quiser, mas à distância. Não se aproxime, porque não gostamos
de si!
O Tomé não respondeu, mas continuou a seguir o mais próximo possível. O David
calculou que naturalmente ele estava muito assustado. A certa altura, ao passarem por
mais uma curva do túnel, à vista de uma nova gruta, o Buzina deu um grito que fez
parar toda a gente, ressoando por toda a parte. - DIABRETE! OLHEM! ESTá ALI!
DIABRETE!

155

E ali estava o Diabrete, empoleirado numa prateleira talhada na rocha, tremendo de


susto. Nem mesmo conseguia correr para o Buzina. O pequeno teve que ir buscar o
macaquinho.
- Diabrete! Pobre Diabrete! Sentias-te muito aflito? - perguntou. - Estás todo a tremer.
Não devias ter fugido, podias perder-te para sempre!
O Diabrete, agarrava qualquer coisa com as patas. Ia guinchando baixinho, para o
Buzina, e pôs os braços à volta do pescoço do seu querido dono. Quando fez esse
gesto qualquer coisa caiu, rolando pelo chão de pedra.
- Que deixaste cair, Diabrete? - perguntou o David virando a lanterna para o chão da
gruta. Via-se um objecto a brilhar, um objecto redondo e amarelo. Todos olharam e o
Júlio, que estava mais perto, ficou muito surpreendido.
- Uma moeda de oiro! - exclamou ele, apanhando-a. - Tão brilhante como quando foi
cunhada! Diabrete, onde a encontraste? Repara David! Repara, Zé! É ouro verdadeiro!
Ficaram logo muito entusiasmados, pensando todos na mesma coisa.
O tesouro! O Diabrete devia ter descoberto o tesouro! Era uma moeda antiga, muito
antiga. Mas onde a teria encontrado o Diabrete?
- Vamos procurar! - exclamou o David. - Deve ser o tesouro, tio Jeremias! O Diabrete
pode-nos guiar!
Mas o Diabrete não estava pelos ajustes.
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Não queria voltar a perder-se. Não saía do ombro do Buzina com os braços à volta do
seu pescoço. Não gostara nada de andar perdido, sozinho, na escuridão.
O tio Jeremias também não queria ir mais longe. Abanou a cabeça. - Hoje não pode
ser, meus meninos. Em breve o mar entrará nestes túneis, mais depressa do que nós
podemos fugir. Vamos já voltar para trás para não sermos apanhados. Já muitos
visitantes têm corrido como desesperados quando a maré começa a subir de repente!
A Zé, que tinha muito bom ouvido, distinguia o barulho da água no fundo do túnel. A
maré estava realmente a subir.
- Vamos! - disse ela. - É melhor fazermos o que nos aconselha o tio Jeremias. O mar
começou a entrar e sair dos túneis. Em breve fará desaparecer a praia. Seremos
apanhados no meio e teremos que nos conservar aqui por imenso tempo!
- Não é preciso assustar-se, menina - disse o tio Jeremias. - Ainda temos tempo. Para
onde foi o Tomé?
- Naturalmente ouviu-nos falar sobre a moeda de oiro do Diabrete - disse a Zé. - Que
maçada! Tinha-me esquecido da sua existência. Agora sabendo que o Diabrete
descobriu uma moeda de oiro ficou certo que o tesouro está aqui escondido em
qualquer parte, e irá procurá-lo o mais depressa possível. Que pena termos falado no
caso à frente do Tomé!
- Esqueci-me de que ele vinha atrás de nós,

158

- lamentou o David. - Suponho que neste momento já toda a gente da aldeia deve
saber que o macaco encontrou o tesouro e amanhã aparecem montanhas de
visitantes, tentando encontrá-lo. Deve ter sido guardado num lugar muito seco para
aquela moeda se conservar tão brilhante.
- Despachemo-nos. É melhor voltarmos o mais depressa possível - disse o Júlio. -
Reparem no tio Jeremias. Parece animadíssimo. Está a planear descobrir o tesouro o
mais depressa possível.
- Proponho também fazermos uma tentativa, amanhã - disse o David sentindo-se
entusiasmado com a ideia. - Querido Diabrete! És superior a qualquer detective !
E lá foram eles pelos túneis, fazendo toda a espécie de planos. Que animação!

Capítulo XVIII - NOVAMENTE NO FAROL E UMA CONVERSA ANIMADA.

O velho Jeremias estava tão entusiasmado como os pequenos mas quase não falava.
Sentia-se furioso por causa do Tomé ter assistido à descoberta. Não confiava naquele
homem nem no irmão! Tinham andado como doidos à caça do tesouro. Como estariam
radiantes por saberem agora onde se encontrava!
Foram seguindo pelo túnel, o tio Jeremias muito pensativo e por fim apareceram à luz
do dia.
- Aqui tem, tio Jeremias, compre mais tabaco - disse o Júlio, metendo umas moedas na
mão do velhote. - Não tenho grandes ilusões sobre o tesouro. A moeda que o Diabrete
encontrou, devia estar sozinha, em qualquer canto seco.
- Obrigado meu menino - disse o tio Jeremias. - Eu não quero o tesouro para mim, mas
espero que o Tomé e o Jacob não o encontrem. Agora nunca mais deixarão de
procurá-lo.
Ficaram satisfeitos por estarem de novo ao ar livre. O sol desaparecera e o vento
soprava com mais força. Chovia imenso.
- Temos que nos despachar ou não conseguiremos ir para o farol saltando pelas rochas
- disse o Júlio preocupado.

160

Mas felizmente o vento soprava contra a maré e ainda tiveram tempo para passar até
aos degraus do farol.
- Ali está o nosso barquinho, baloiçando-se, - disse o Buzina. - E já ouço o Tim a ladrar!
Deve-nos ter ouvido.
Assim era. Ficara deitado no tapete, com os olhos postos na frincha por baixo da porta,
a escutar, a escutar. Ninguém se aproximara do farol e o Tim não ouvira mais nada
além do vento, do mar e de algumas gaivotas. "
- Voltámos, Tim! - gritou a Zé empurrando a porta. Esta abriu-se e o Tim deu um salto
tão grande para a dona que a ia deitando ao chão. O Diabrete pulou para as costas do
Tim, conversando com ele sem parar.
- Está a contar-lhe que encontrou uma moeda de oiro - disse o Buzina, rindo. - Tenho
pena que não tivesses ido connosco. Foi formidável!
- Dá-me ideia de que saímos há imenso tempo - disse a Zé. - Mas afinal não é tarde, a
não ser que o meu relógio esteja atrasado. Tenho um apetite! Vamos comer qualquer
coisa enquanto conversamos sobre os últimos acontecimentos e decidimos o que
temos a fazer.
E assim, saboreando bolachas, sanduíches e café, fartaram-se de conversar.
- Devemos voltar às grutas o mais depressa possível - disse a Zé. - Estou convencida
de que o Jacob irá procurar mais moedas logo que baixe a maré.
- Hoje já não podemos fazer mais nada,

161

isso é certo - disse o David. - Por um lado a maré está a encher e por outro vem aí uma
tempestade, com este vento insuportável!
O Tim estava sentado bem juntinho à Zé. Não gostara que ela saísse sem ele. A
pequena pusera um braço sobre o cão, comendo as suas bolachas e dando-lhe de vez
em quando uns pedacinhos. O Buzina fazia o mesmo com o Diabrete.
As crianças não paravam de conversar. Onde teria o Diabrete encontrado a moeda?
Seria uma moeda sozinha que o mar levasse pelo túnel dentro? Ou faria parte de um
tesouro? Teria vindo de um grande cofre de madeira apodrecida pelo tempo? Falavam
sem descanso, muito entusiasmados com a moeda de oiro que estava no meio da
mesa.
- Se nós encontrarmos o tesouro é considerado como pertencendo ao Estado? -
perguntou o David. - Quando se encontra um tesouro muito antigo é assim que
acontece. Não fica para ninguém em particular.
- Mas naturalmente dão-nos licença para guardarmos algumas moedas - disse a Zé. -
Se ao menos pudéssemos ir já ao túnel procurá-lo! Custa-me muito esperar.
- Uuuuf! - fez o Tim, concordando embora não fizesse bem ideia do que estavam a
falar.
- Oiçam as ondas rebentando perto do molhe! - exclamou o Júlio, admirado com o
barulho. - Está a aproximar-se uma tempestade.
- Foi anunciado mau tempo por alguns dias,

162

- disse o David, aborrecido. - Que maçada! Vai ser muito difícil remar de um lado para
outro no pequenino Balance! E duvido que consigamos saltar pelas rochas, mesmo na
maré baixa, com o mar embravecido pelo vento.
- Não sejas tão pessimista! - pediu a Ana.
- Queres que fiquemos presos aqui no farol?
- perguntou o David.
- Não tem importância. Há muita comida
- disse a Ana.
- Não acredito! Lembra-te de que somos cinco mais o Tim e o Diabrete - disse o David.
- Cala-te David - pediu o Júlio. - Estás a assustar a Ana e o Buzina. Em breve passará
a tempestade. Amanhã já conseguiremos sair lá para fora e irmos às compras.
Mas a tempestade foi aumentando e o céu tornou-se tão negro que a Ana acendeu o
candeeiro. A chuva batia contra o farol e o vento fazia um barulho ensurdecedor, o que
punha o Tim a rosnar.
A Ana foi espreitar à janela. Sentia-se amedrontada ao ver as grandes ondas que
rolavam pelas rochas, lá em baixo. Algumas rebentavam e a espuma subia tão alto que
salpicava a janela onde a pequena estava. Retirou-se, alarmada.
- Vocês sabem o que chega à janela? A espuma das ondas!
- Santo Deus! - exclamou o Júlio dirigindo-se também para a janela. Era um
espectáculo maravilhoso! O mar tornara-se cinzento em vez de azul

163

e corria para a praia com grandes vagas de crista branca. No mar alto também havia
ondas e o vento forte ao bater-lhes levantava a espuma. Só se viam algumas gaivotas,
gritando muito, vogando ao sabor do vento, com as suas grandes asas brancas bem
estendidas.
- Hoje não me importava de ser gaivota - disse o David. - Deve ser muito agradável
cavalgar numa tempestade; não admira que gritem contentes.

164

- Mi...oo!...oo!Mi...ooo!Mi...ooo! ...ooo!
- gritavam as gaivotas parecendo gatos esfomeados!
- Coitados dos barcos que estiverem lá fora com este tempo - disse o Júlio. - E pensar
nos barcos antigos, apanhados por esta costa rochosa, com um vento assim, que é
quase um furacão!
- E imaginar que o malandro do Bill da Orelha Ratada ficava radiante ao ver um barco
aproximar-se cada vez mais das rochas! - disse a Zé. - Tirando a lâmpada de aviso do
seu lugar nos penhascos e trazendo-a para aqui para os barcos se despedaçarem!
- Cala-te! - pediu a Ana. - Detesto pensar nessas coisas.
- Vamos jogar uma partida - propôs o Júlio. - Onde estão as cartas? Chega o candeeiro
um pouco mais para a mesa, David. Está tão escuro! Agora não se fala mais sobre os
Afundadores. Pensem em qualquer coisa alegre. Pensem no jantar, por exemplo, no
tesouro ou...
- Sabem, eu acho que deve ser muito fácil encontrar o tesouro - interrompeu o David,
chegando o candeeiro para perto da mesa. - O Diabrete é muito esperto. Tenho a
certeza de que se lembrará onde encontrou a moeda e poderá levar-nos direitos a esse
lugar.
- Pode tratar-se de uma moeda antiga, deixada cair pelo homem que guardou o tesouro
- sugeriu a Ana.
- Talvez, mas penso que a moeda não deve ter sido encontrada

165

muito longe do lugar do próprio tesouro - disse o David.


- Bem, se resolvermos ir procurá-lo deveremos fazê-lo quando a maré estiver
completamente vazia - disse o Júlio. - Não gostava nada de estar metido nos túneis e
grutas por baixo do mar, sabendo que a maré ao subir entra por ali dentro também.
O David estava muito pensativo. - Júlio, - disse ele por fim. - Lembras-te da direcção
que seguimos quando estivemos nos túneis esta manhã? Desviámo-nos para a
esquerda todo o tempo, não foi?
- Realmente assim foi - disse logo o Buzina. - Levei comigo a minha bússola, presa ao
meu relógio de pulso e fomos virando sempre para oeste.
- Na direcção do farol, devia ser - disse o Júlio, traçando um plano. - Oiçam, aqui fica o
farol e ali fica a entrada por onde fomos para as grutas. Aqui fica o caminho que
seguimos, dirigindo-se para o mar, por baixo da praia rochosa. Dá para a primeira
gruta. Depois seguem-se túneis e mais túneis e o caminho vai sempre virando para a
esquerda...
- Um pouco mais e estaríamos por baixo do farol! - exclamou o David, pasmado.
- Tens razão - concordou o Júlio. - E talvez antigamente, antes de terem construído
este farol, quando os navios iam de encontro ás rochas, havia um túnel principiando
aqui perto do farol que ia dar onde estivemos esta manhã. Por isso os afundadores
deviam achar facílimo

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trazerem tudo o que encontrassem


num navio naufragado, sem serem vistos!
- Estou a perceber. Eles esperavam até o barco se despedaçar; depois saltavam pelas
rochas, como nós fizemos, apanhavam o que podiam e desapareciam no túnel para
esconderem tudo.
- E saíam pelo outro lado! - disse a Ana. A Zé fitou o Júlio muito entusiasmada.
- Talvez o túnel ainda exista em qualquer sítio destas rochas - exclamou ela. - Nalgum
lugar perto da margem, pois sabemos que o mar entra pelo túnel, Júlio. Amanhã vamos
procurá-lo. Acho que tens razão. Deve haver uma abertura nas rochas que vai ter ao
túnel onde estivemos.
Depois daquela descoberta ninguém queria jogar ás cartas. Sentiam-se demasiado
entusiasmados. Estudaram o plano do Júlio com detalhe, satisfeitos por a bússola do
Buzina lhes ter indicado tão claramente que a passagem por baixo do mar era na
direcção oeste, até aos rochedos do farol.
- Vocês acham que todos se esqueceram da antiga abertura? - perguntou o David. -
Ninguém nos falou sobre ela, nem mesmo o tio Jeremias. Terá sido tapada?
O Júlio franziu o sobrolho, pensativo.
- Realmente pode ter acontecido isso mesmo - disse ele. - É estranho que o tio
Jeremias não nos tenha falado sobre o assunto. De qualquer modo amanhã havemos
de procurar bem.
- E se a encontrarmos, entramos por ali

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e vamos tentar descobrir o tesouro! - disse o Buzina, radiante. - Que grande decepção
para o Tomé e o Jacob se nós formos os primeiros a encontrá-lo!

Capítulo XIX - UM GRANDE SUSTO!

A tempestade prolongou-se pela tarde adiante mas no dia seguinte o tempo estava
muito melhor. O céu continuava cinzento e chovia de vez em quando mas foi possível
sair do farol pela manhã e descer os degraus até ás rochas.
- Vamos primeiro ás compras ou procuramos o túnel? - perguntou o Júlio.
- Antes de mais nada procuramos a abertura - respondeu logo o David. - O vento ainda
está muito forte e a tempestade pode surgir novamente. Olhem para o mar tão bravo!
Não conseguiremos andar pelas rochas, se embravecer ainda mais.
Foram saltando com cuidado sobre as rochas á volta do farol. Na maré baixa as rochas
ficavam bem fora de água. O farol fora construído na parte mais alta, erguendo-se
muito acima dos pequenos enquanto estes verificavam em cada buraco se poderia ir
dar a alguma passagem subterrânea.
- Está aqui uma abertura! - exclamou a Ana de repente, e todos se aproximaram,
entusiasmados, incluindo o Tim. O Júlio olhou para dentro da cavidade que a Ana
descobrira.
- Realmente pode ser o princípio do túnel - disse ele. - Tem tamanho bastante para
caber um homem. Vou lá dentro ver.
169

Escorregou pela abertura, agarrando-se na descida às pedras mais salientes. Os


outros ficaram a observá-lo, muito admirados. O Tim pôs-se a ladrar. Não gostava de
ver o Júlio desaparecer daquela maneira.
Mas antes que o pequeno desaparecesse por completo, gritou: - Acho que não vale a
pena! Chegou ao fim. Estou em pé sobre um duro rochedo e já vi que não tem
nenhuma abertura. Terminou aqui!
- Que grande decepção! - Que pena! - exclamou o David, deitando-se nas rochas para
ajudar o Júlio a subir. - Estava cheio de esperanças. Dá-me a mão, queres ajuda?
- Obrigado. É um pouco difícil - disse o Júlio. Subiu com bastante custo, saindo do
buraco. - Não gostava nada de ficar ali metido! - disse ele. - Especialmente com a maré
a subir.
- Recomeçou a chover - disse a Ana. - Fazemos já as compras ou esperamos um
pouco?
- Esperamos - propôs a Zé. - Tenho frio e estou toda molhada. Vamos para o farol,
aquecer café. Que grande desapontamento! Não faz mal. Sempre podemos ir pelos
túneis onde estivemos ontem e talvez o Diabrete nos mostre onde encontrou a moeda
de ouro!
Foram todos para o farol e mais uma vez o Júlio trancou a porta. - Tomara já que venha
o serralheiro - disse ele. - Se formos outra vez às grutas teremos que deixar o Tim aqui
de guarda. E não há direito.
- Uuuuf! - fez o Tim, concordando.

170 - 171

Foram todos para a sala e a Ana começou a fazer o café. Enquanto estavam sentados
a bebê-lo, o Tim de repente deu um salto e pôs-se a rosnar. Todos se assustaram e a
Ana entornou o café.
- Tim! Que se passa? - perguntou a Zé, aflita. O Tim estava quieto, com o focinho
virado para a porta, com o pêlo todo eriçado. Tinha um aspecto terrível!
- Mas que se passa, Tim? - perguntou o Júlio, levantando-se. - Não está ninguém na
entrada, pois eu tranquei a porta.
O Tim correu para fora da sala logo que o Júlio abriu a porta e foi pela escada abaixo
com tal velocidade que tropeçou, rebolando até ao patamar. A Zé deu um grito, muito
aflita. - Tim! Magoaste-te?
Mas o Tim levantou-se e correu para a porta da entrada, ladrando de tal maneira que a
Ana sentiu-se assustadíssima. O Júlio também correu pelas escadas. A porta
continuava bem trancada.
- Tim! Naturalmente é apenas o leiteiro que trouxe mais leite. - disse ele destrancando
a porta. Depois puxou pelo puxador para a abrir.
Não conseguiu! O Júlio bem a puxou de todas as maneiras. Era inútil. A porta NÃO SE
ABRIA!
Nessa altura já os outros pequenos estavam ao lado do Júlio.
- Deixa-me experimentar - pediu o David. - A porta deve estar empenada.
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Mas também o David nada conseguiu. O Júlio olhou em redor, muito sério. - Receio
que alguém nos tenha aqui fechado à chave, pelo lado de fora! - disse ele.
Fez-se um horrível silêncio. Depois a Zé gritou furiosa: - Fecharam-nos no farol! Quem
se atreveu a fazer uma coisa assim?
- Julgo que é fácil de calcular - disse o Júlio. - Foi a mesma pessoa que nos roubou a
chave, no outro dia!
- O Tomé! Não, o Jacob! - exclamou o David. - Um deles. Como se atreveram?"Que
vamos fazer? Não podemos sair. Porque nos teriam pregado esta estúpida partida?
- Devem recear que procuremos o tesouro e o encontremos. - disse o Júlio, muito
sério . - Nós estávamos convencidos de que o Diabrete se lembra do sítio onde
descobriu a moeda de ouro e nos levará até lá. Certamente eles pensam o mesmo. Por
isso este foi o único processo de se assegurarem de encontrar o tesouro antes de nós.
- Eles são maus, eles são maus! - gritou a Zé agarrando o puxador da porta com
violência. - Estamos prisioneiros!
- Não arranques o puxador, Zé - disse o Júlio. - Isso nada resolve. Vamos lá para cima
conversar sobre o assunto. Temos que descobrir maneira de sair desta inesperada e
difícil situação.
Subiram as escadas, cabisbaixos, e sentaram-se na sala de estar. Realmente
encontravam-se presos no farol!

173

- Que vamos fazer? - disse o David. - Estamos metidos num grande sarilho, Júlio.
- Tens razão - concordou o Júlio preocupado. - Não podemos sair do farol, isso é certo.
E por outro lado, como conseguiremos que nos venham socorrer? Não temos telefone.
Se gritarmos ninguém nos ouvirá! Não podemos servir-nos do barco. Ninguém chegará
a saber que nos encontramos prisioneiros. Têm-nos visto entrar e sair do farol e se de
repente deixarmos de aparecer as pessoas pensarão apenas"que fomos para casa e
que o farol ficou novamente desabitado!
- Vamos morrer de fome! - exclamou a Ana, assustada.
- Não digas isso. Havemos de ter alguma ideia - exclamou o David, vendo que a irmã
estava realmente aflita.
- De qualquer modo é bastante difícil. Nós não podemos sair e ninguém cá pode entrar.
Quem fechou a porta certamente levou a chave consigo.
Conversaram muito e por fim sentiram-se com apetite e resolveram arranjar uma
refeição embora achassem que deviam comer pouco, temendo que os alimentos
começassem em breve a escassear.
- E tenho tanta fome - lamentou-se a Zé. - Desde que aqui cheguei tenho um apetite
devorador.
- É como eu te expliquei. Quando sa vive num farol sente-se fome durante todo o
tempo - disse o Buzina.

174
- Amanhã de manhã tentaremos falar com o leiteiro - lembrou o Júlio de repente. -
Podemos escrever um bilhete e metê-lo por baixo da porta de forma a que ele o veja
quando amanhã aqui vier. Podemos escrever: SOCORRO! ESTAMOS FECHADOS à
CHAVE.
- O bilhete pode voar - disse a Zé. - É o que vai acontecer.
- Podemos prendê-lo por uma ponta cá dentro - lembrou a Ana. - Ficando só metade de
fora.
- Vale a pena experimentar --disse o David escrevendo logo as palavras numa grande
folha de papel. Foi a correr lá abaixo para a prender ao capacho, passando metade do
papel por baixo da porta para que se visse do outro lado.
voltou para cima. - Tenho quase a certeza de que o leiteiro não vem até aqui com este
tempo - disse ele. - Não deve ser possível passar. No entanto, tenhamos esperanças.
Parecia não haver mais nada a fazer. Escureceu cedo, pois o céu tornara-se outra vez
muito escuro e o vento forte assobiava assustadoramente. Até mesmo as gaivotas
tinham acabado com a sua brincadeira de vogar ao sabor da ventania.
Jogaram as cartas durante a tarde, rindo e contando anedotas. Mas no fundo todos
estavam preocupados. Se a tempestade continuasse e ninguém se apercebesse de
que eles estavam presos no farol? Se o leiteiro não levasse o leite e não visse o
bilhete? E se comessem os alimentos todos...

175

- Animem-se! - exclamou o Júlio vendo as caras preocupadas à volta da mesa. - Já


temos passado por situações mais difíceis.
- Não me parece! - disse a Ana. - Não vejo nenhuma maneira de sairmos desta.
Fez-se um silêncio bastante prolongado e o Tim respirou com força como se
concordasse também.
Só o macaco parecia bem disposto andando às cambalhotas à volta da sala esperando
que no fim todos se rissem. Mas os pequenos continuavam sérios. Pareciam que nem
davam pela sua presença. O Diabrete ficou muito triste e subiu para as costas do Tim,
para se consolar.
- Só vejo uma coisa que talvez dê resultado, - disse o Júlio por fim. - Tenho andado a
pensar nela há algumas horas, mas não sei se é viável ou não. Talvez possamos tentar
uma coisa, se não vierem socorrer-nos.
- Qual é? - perguntaram todos e o Tim arrebitou as orelhas e ganiu como se também
percebesse.
- Lembram-se quando eu desci pelo alçapão dos alicerces? - perguntou o Júlio. - E
lembram-se de eu ter visto água a entrar e sair, lá no fundo? Acham possível que o
alçapão tenha sido construído aproveitando uma abertura natural já existente? Talvez
os construtores do farol resolvessem fazer o alçapão dos alicerces de forma a
aproveitarem o túnel já existente, ou seja uma grande abertura que deve passar
através dos rochedos.

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Assim transformaram-na num alçapão cobrindo as paredes com cimento para que o
farol nunca caísse por causa do vento ou das vagas, continuando firme, acontecesse o
que acontecesse.
Esta ideia era completamente nova e demoraram alguns instantes a aprofundá-la.
Então o David deu uma palmada na mesa e todos se sobressaltaram.
- Júlio! Achaste! Sim, o alçapão de cimento vai dar a uma abertura natural!

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E esse buraco deve ser aquele que andámos a procurar! O que vai ter ao túnel onde
estivemos esta manhã. Não admira que não o encontrássemos quando o procurámos
nos rochedos! Os construtores do farol aproveitaram-no!
Fez-se um novo silêncio. Todos se puseram a considerar a nova ideia, até mesmo o
Buzina. O Júlio olhou em redor da mesa sorrindo. - Já perceberam a conclusão a tirar?
- perguntou. - Se aquela for a abertura que procurávamos um de nós deve voltar e
descer a escada de ferro do alçapão, para ver se sempre vai dar ao túnel onde
estivemos.
- E devemos seguir por ali até à passagem dos penhascos por onde entrámos esta
manhã!
- disse a Zé. - Júlio! Que ideia maravilhosa! Podemos fugir por aquele lado. Que grande
surpresa para o Tomé e o Jacob! Vamos fazer isso, seja como for!

Capítulo XX - PELO ALÇAPÃO ATÉ AO TÚNEL.

FICARAM todos muito entusiasmados ao pensar que a escada de ferro no grande


alçapão rodeado de cimento talvez fosse dar ao túnel onde haviam estado naquela
manhã. O Júlio vira água no fundo quando a maré estava alta. Se eles lá fossem com a
maré baixa talvez não houvesse perigo de serem apanhados pelo mar.
A tempestade agora tanto parecia acalmar como em certas ocasiões o vento soprava
com tanta força que até dava a impressão que o farol estava em perigo. Durante a
noite choveu a cântaros e nas primeiras horas da madrugada, com a maré alta,
grandes ondas rebentavam sobre as rochas, atirando espuma até ao cimo do farol. O
Júlio acordou e pôs-se a olhar lá para fora pela janela do quarto, pasmado.
- Espero que não esteja nenhum barco no mar por estas paragens - disse ele e de
repente Soltou uma exclamação pois qualquer coisa brilhara no céu!
- É a luz do novo farol nos Penhascos Altos - disse o David. - Já o tinha visto na noite
passada. Deve ter uma lâmpada muito potente, não achas, para se ver mesmo numa
noite destas.
Estiveram a olhar por mais algum tempo e depois o Júlio bocejou.

179

- Vamos tentar dormir - disse ele. - Pensámos que teríamos umas férias pacatas e, zás!
- estamos metidos em nova aventura!
- Esperemos que acabe bem - disse o David, embrulhando-se mais uma vez no seu
cobertor. - Neste momento sinto-me um tanto à parte da civilização. Boa noite, Júlio.
De manhã a tempestade continuava e o vento era aterrador. O Júlio correu à porta de
entrada para ver se o leiteiro teria lá ido e vira o bilhete pedindo socorro. Era evidente
que o leiteiro não se atrevera naquela manhã a atravessar as rochas, nem a pé nem de
barco.
O David espreitava pela janela, querendo certificar-se se o Balance continuava em
segurança amarrado ao poste e para sua surpresa e consternação verificou que ele já
ali não estava! O Buzina ficou muito preocupado.
- Onde teria ido parar o meu barquito? Acham que alguém o roubou?
- Talvez, ou então a tempestade fez partir a corda e o barco desfez-se de encontro às
rochas - disse o Júlio. - A verdade é que desapareceu. Pobre Buzina! Que pena!
O Buzina estava muito triste e o Diabrete tentava confortá-lo fazendo toda a espécie de
macaquices para o dono rir. Mas o Buzina não ria. Estava realmente muito
acabrunhado.
Tiveram um pequeno almoço bastante reduzido e quase nem falavam. A Ana levantou a
mesa e lavou a loiça e depois o Júlio juntou-os todos.

180

- Agora devemos decidir-nos sobre a descida pelo alçapão até ao sítio que nós
pensamos ser o túnel onde estivemos ontem - disse ele. - Eu vou lá abaixo sozinho.
- Não concordo - disse logo o David. - Não há nenhuma razão que me impeça de ir
também. E se fôssemos nós dois, para o caso de um de nós se ver aflito e precisar de
ajuda?
- Não é má ideia - aprovou o Júlio. - Só é aborrecido não ficar aqui ninguém para tomar
conta das meninas e do Buzina.
- Béeeu! - fez o Tim, indignado, levantando-se logo. O Júlio riu-se e fez-lhe uma festa.
- Está bem, Tim. Só queria ver se tu achavas que podias guardá-los bem. Então o
David e eu vamos descer pelo alçapão. Quanto mais depressa melhor. Temos que
aproveitar a maré baixa. E se partíssemos imediatamente, David?
Desceram a escada de caracol, todos muito sérios, até à entrada, onde ficava a tampa
do alçapão. O Júlio puxou-a e olhou para baixo, para o escuro. Voltou a lanterna lá
para dentro mas não conseguiu ver o fundo. - Bem, cá vou eu! - disse ele e foi
descendo pelo alçapão procurando com os pés os varões da escada de ferro. -
Animem-se, meninas! Metemo-nos pelos túneis até à entrada nos penhascos e em
breve iremos buscar quem as socorra!
- Júlio, por favor, toma cuidado - pediu a Ana,

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com a voz a tremer. - Por favor, por favor, tem cuidado!


O Júlio foi descendo, segurando a lanterna com a boca. A seguir desceu o David. As
pequenas também iluminavam o alçapão com as suas lanternas mas em breve os
rapazes estavam tão longe que não conseguiam vê-los.
Só ouviam as suas vozes de vez em quando parecendo muito esquisitas e cheias de
eco.
- Chegámos ao fundo! - gritou o Júlio por fim. - É de rocha e neste momento não tem
água. Podemos seguir sem dificuldade. Meti-me pela abertura aqui do fundo e
realmente existe uma espécie de túnel. Animem-se! Até já!
E então a voz esquisita parou e as pequenas e o Buzina não ouviram mais nada.
O Tim pôs-se a ganir. Não conseguia perceber onde iam os seus amigos.
O Júlio e o David sentiam-se bastante satisfeitos. Não tinha sido muito difícil meterem-
se pela abertura no fundo do alçapão. Agora encontravam-se num túnel estreito e
escuro cujo tecto por vezes se tornava tão baixo que tinham de se curvar imenso.
Cheirava a humidade e a algas, mas parecia ser bastante arejado. Na verdade de vez
em quando até corria uma ligeira aragem.
- Só me sentirei satisfeito quando chegarmos a um túnel que eu reconheça - disse o
Júlio por fim. - Devemos estar próximo dos lugares onde estivemos ontem. Olha, o que
é aquilo? Repara, David!

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O David olhou para o sítio onde batia a luz da lanterna do irmão e deu um grito. - Uma
moeda de ouro! Mais outra! Devemos estar perto do local para onde fugiu o Diabrete.
Olha mais outra e ainda outra. Donde virão?
Os pequenos voltaram as lanternas para todos os lados e finalmente descobriram o
sítio donde as moedas tinham caído. No tecto do túnel havia um buraco metido na
rocha. No momento em que iluminaram a abertura uma moeda escorregou caindo no
chão para se juntar às outras.
- Foi ali que o Diabrete encontrou a moeda!
- exclamou o David. - Deve haver uma caixa ou coisa parecida lá em cima que se
rompe e está a deixar cair aos poucos o dinheiro que contém.
- Quem se lembraria de tal esconderijo?!
- disse o Júlio maravilhado, virando a lanterna para ali. - Não se vê nada excepto um
buraco escuro. Não se vê a caixa nem qualquer outra coisa. Deve ter sido empurrada
para uma cavidade ao lado da abertura por alguém que sabia encontrar ali um bom
esconderijo.
- Dá-me uma ajuda para eu meter lá a minha mão e tocar com os dedos nas moedas -
disse o David. - Despacha-te. Isto é a coisa mais espantosa que se pode calcular.
O Júlio ajudou-o a subir e o David meteu a cabeça e os ombros na abertura. Estendeu
a mão para um dos lados e nada encontrou, estendeu-a para o outro e tocou numa
coisa dura e fria.

183

Talvez fosse alguma barra de ferro. Foi deslizando a mão sobre uma substância que
parecia desfazer-se. Devia ser madeira muito velha. Talvez uma arca de madeira
sustentada apenas pelas barras de ferro. Continuou a mexer na arca e de repente o
Júlio protestou.
- Cuidado! Estás a dar-me um banho de dinheiro! Nunca vi tantas moedas juntas, em
toda a minha vida.
- Júlio, acho que estão lá em cima em várias arcas - disse o David saltando para o
chão e olhando para o grande monte de moedas reluzentes que se encontrava a seus
pés. - Deve aqui estar uma fortuna. E ficará tudo para o Estado. Olha,, é melhor não
mexermos outra vez no esconderijo. Só nós é que o conhecemos. É preferível guardar
estas moedas não vá o horrível Tomé lembrar-se de vir até aqui.
Assim encheram os bolsos com moedas de ouro e continuaram o seu caminho. Em
breve reconheceram com grande alegria um dos túneis onde haviam estado no dia
anterior. - Agora é tudo fácil - disse o David, satisfeito. - Em breve chegaremos lá fora e
depois vamos buscar o serralheiro para arrombar a fechadura do farol e podermos
entrar.
- Shiu! - fez o Júlio, subitamente. - Parece-me que oiço qualquer coisa.
Puseram-se à escuta, mas continuaram, pensando que o Júlio se enganara.
Mas ele tinha razão! Ao virarem uma esquina que dava para uma gruta, alguém saltou
sobre os pequenos!

184

O Júlio foi logo parar ao chão e o David também. Teve apenas tempo de ver o Tomé
com outra pessoa, talvez o Jacob.
Quando o David caiu, algumas moedas saltaram-lhe do bolso. O Tomé deu um grito e
precipitou-se logo para as apanhar. O Júlio aproveitou a oportunidade para fugir mas o
outro homem apanhou-o e deu-lhe um soco.
- Onde encontraram o dinheiro? Se não o disserem hão-de arrepender-se! - gritou o
Tomé e ouviu-se logo o eco. - Arrepender-se, arrepender-se, arrepender-se!
- Foge, David, - gritou o Júlio. - Vê se consegues!
Deu ao Tomé um grande empurrão que o atirou para cima do outro homem que era
realmente o Jacob. E então ele e o David puseram-se logo a fugir, o mais depressa que
podiam, pelo caminho por onde tinham seguido. - Venham cá! - gritava o Tomé e
ouviam-no correr atrás deles.
- Depressa! - dizia o David, ofegante. - Se conseguirmos chegar ao alçapão, ficamos
livres de perigo.
Mas infelizmente tomaram um caminho errado e em breve se encontravam numa gruta
desconhecida. O Tomé e o Jacob passaram a correr, sem verem os pequenos. - É
melhor ficarmos aqui por algum tempo - disse o Júlio. - Deixa-os afastarem-se mais.
Pararam, muito quietos e calados e depois aventuraram -se a sair da escuridão para
tentarem encontrar o caminho certo.

186

- Sabes, se nos perdermos aqui estamos bem arranjados! - disse o Júlio. - E se a maré
começa a subir ficaremos numa péssima situação. Temos que sair ou pelo penhasco
ou pelos alicerces, aconteça o que acontecer.
Foram seguindo, sem saberem ao certo se caminhavam em boa direcção. Parecia-lhes
que atravessavam um número infinito de túneis e grutas. Que labirinto existia naquela
camada de rochedos! De repente ouviram vozes.
- É a voz do Jacob e do Tomé também - murmurou o Júlio. - Vêm por este lado.
Escondemo-nos aqui e ficamos muito quietos!
Esconderam-se sem fazer barulho, ouvindo o Tomé e o Jacob. - Eles têm que voltar
aqui! - dizia o Tomé. - Vamos esperar. Não faças barulho!
- Temos que dar uma corrida - segredou o Júlio ao irmão. - Vamos! Em breve seremos
apanhados pela maré, se não nos despacharmos.
Deram ambos uma corrida e passaram pelo Jacob e Tomé, como uns foguetes. Depois
continuaram a correr pelo túnel que ficava em frente com a maior velocidade, raspando
com os braços e as pernas nas paredes rochosas do túnel, mas segurando as
lanternas, sempre viradas para a frente. Continuavam a avançar e atrás deles quase
sem fôlego, seguiam o Tomé e o Jacob.
- Parece um pesadelo! - disse o David,ofegante. - JÚLIO! JÚLIO! Vem água pelo túnel
acima!

187

A maré está a subir!


- Vamos! - disse o Júlio. - Tenho o pressentimento que o alçapão não está longe.
Parece-me que conheço este túnel e esta gruta. Vamos David, não temos um minuto a
perder. É preciso chegarmos à escada de ferro!
- Olha! Está ali o alçapão! - exclamou o David por fim. - Teremos apenas tempo de
passar pela abertura do fundo. Depressa, Júlio, a água já nos chega aos tornozelos.
Alcançaram o alçapão e meteram-se pela pequena abertura que deixava passar a água
dum lado para o outro, no fundo rochoso. Começaram a subir a escada de ferro e
depois pararam para ver se ouviam o Jacob ou o Tomé.
- Ouviram gritar. - TOME! VOLTA PARA TRÁS! O mar já entra cá dentro!
E depois ouviu-se a voz zangada do Tomé.
- Já vou! Eles continuaram mais para diante e vão arrepender-se! Não tarda muito que
morram afogados!
O David sorriu. - Vamos, Júlio! Só falta subir as escadas. Já vejo a luz que vem lá de
cima. As pequenas tiveram boa ideia de deixar aberta a tampa do alçapão.
E em breve os dois rapazes saíram dali. O Tim ladrava como louco saltando à roda
deles e as pequenas e o Buzina estavam intrigadissimos.
- Que aconteceu?Não conseguiram sair do túnel para irem buscar quem nos pudesse
socorrer?Encontraram os homens?Que aconteceu?

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- Muita coisa! - exclamou o Júlio. - Mas infelizmente não conseguimos passar para lá
do Jacob e do Tomé que estavam à nossa espera. Por isso continuamos fechados no
farol sem ninguém que nos socorra. Mas...
- Mas, quê? - perguntou a Zé, abanando o braço do Júlio. - Pareces muito
entusiasmado. Que se passou?
- Encontrámos o tesouro! - disse o Júlio. - Venham! Nós contaremos tudo.
E o Júlio seguiu à frente, pela escada de caracol, com os outros atrás.
Em breve os pequenos contavam a sua aventura e a Zé, a Ana e o Buzina ouviam com
toda a atenção, soltando exclamações, maravilhados com aquela fantástica história.
- E com certeza o tesouro estava metido numa arca. Oh Júlio, não ficaste pasmado
quando as moedas começaram a cair?
- Foi um momento que não esquecerei - disse o Júlio. - Diabrete, pára de me puxar
pelo cabelo. Santo Deus, foi uma manhã cheia de peripécias! E se bebêssemos umas
limonadas? A propósito, que tal está o tempo? Lá em baixo não víamos nada!
- Continua péssimo, Júlio! - disse a Ana. - Vem aí outra tempestade. Olha para aquelas
nuvens negras.
- Têm muito mau aspecto - disse o Júlio, perdendo o entusiasmo, ao perceber que se
aproximava nova tempestade. - Não conseguiríamos sair do farol mesmo que
pudéssemos abrir a porta!

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- Júlio, o Buzina encontrou a telefonia de pilhas do pai, num armário - disse a Ana. - E
funciona bem. Ouvimos o boletim metereológico. Deram um aviso importante a todos
os barcos no mar alto ou perto da costa. Dizia que devem procurar abrigo o mais
depressa possível.
- Não sei que fazer - disse o Júlio, olhando pela janela. - Como conseguiremos chamar
a atenção das pessoas para perceberem que estamos aqui fechados no farol? Temos
que arranjar uma maneira!
Mas era mais fácil de dizer do que fazer. Como poderiam ser socorridos se não havia
processo de ir buscar socorro? Como seria possível fugir dum farol fechado se não
tinham a chave?

Capítulo XXI - UMA IDEIA MARAVILHOSA.

- ESTOU com sede - disse o Buzina. - Vou arranjar limonada. - Mas não bebas muita -
disse o David. - Não sabemos quanto tempo ainda estaremos aqui fechados. E a
comida, e as bebidas não duram para sempre. -
O Buzina ficou assustado. - Acham possível que continuaremos aqui presos durante
várias semanas? - perguntou.
- Se as pessoas pensarem que deixámos o farol e fomos para casa por causa do mau
tempo naturalmente ficaremos aqui bastantes dias
- disse o Júlio. - Ninguém se importará connosco pois devem julgar-nos seguros, em
casa.
- Mas a mãe há-de sentir-se preocupada, se não tiver notícias nossas - lembrou a Zé.
- Prometemos mandar-lhe um postal todos os dias e se não receber nada dois ou três
dias seguidos ficará em cuidado, e mandará aqui alguém, para saber o que se passa.
- Vivam as mães! - exclamou o David, aliviado. - No entanto não me agrada passar
aqui uma semana sem nada para comer. Só uma coisa não deve faltar, é água da
chuva!
- Existe com certeza uma maneira de sairmos daqui - disse o Júlio que estivera
sentado, muito silencioso, a pensar. - Não conseguiremos comunicar com as outras
pessoas?
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Não há aqui nenhuma bandeira, para fazermos uns sinais da janela?


- Não - disse o Buzina. - Nunca vi nenhuma. E se nos servíssemos de uma toalha de
mesa branca? Temos uma assim.
- Talvez sirva - disse o Júlio. - Vai buscá-la Buzina.
O Buzina tirou a toalha da mesa e entregou-a ao Júlio. Este foi até à janela e olhou
através do vidro que estava salpicado de espuma.
- Julgo que ninguém deve reparar numa toalha a esvoaçar nesta janela - disse ele. -
Mas vou tentar, Santo Deus, a janela é difícil de abrir. Parece que emperrou.
Por fim conseguiu abri-la e entrou uma rajada de vento, pondo-se tudo a voar, papéis,
livros, tapetes, etc. As cadeiras caíram e o pobre do Diabrete foi atirado dum lado da
sala para outro. O Tim ladrava assustado, tentando apanhar os papéis que passavam
perto do seu focinho. A toalha de mesa desapareceu logo.
O Júlio conseguiu fechar de novo a janela com muito custo e a sala voltou a estar em
sossego. - É fantástico! - exclamou o Júlio. - Nunca pensei que lá fora a ventania fosse
tão forte. A toalha agora já deve ir a muitos quilómetros de distância. As gaivotas vão
ficar surpreendidas, quando a virem voar no céu!
A Zé não pôde deixar de se rir, embora estivesse assustada. - Oh Júlio, foi uma sorte
não teres voado agarrado á toalha. Que ventania! Espero que o farol não vá abaixo.

194

- De vez em quando sinto-o estremecer - disse o David. - Ou são as ondas batendo nos
rochedos ou a espuma contra as paredes do farol.
- Aldrabão! - disse o Júlio, vendo a cara assustada da Ana. - Não comeces com
brincadeiras disparatadas.
- Têm a certeza de que o farol não pode ser levado pelo vento? - perguntou a Ana, em
voz baixa.
- Querida Ana, deves ser sensata - respondeu o Júlio. - Achas que se teria aguentado
todos estes anos se não pudesse passar por tempestades ainda muito mais fortes do
que esta?
- O Diabrete também se sente assustado
- disse o Buzina. - Foi meter-se num canto.
- Espero que ali se conserve - disse o Júlio.
- Ao menos não anda a tentar abrir a lata das bolachas ou a mexer na caixa dos bolos.
Gostava de saber quantos bolos dos nossos ele comeu até agora.
- Buuuuuuum!
Uma fortíssima rajada de vento soprou contra o farol fazendo o Tim rosnar. A chuva
batia na janela parecendo que alguém atirava pedrinhas.
O Júlio estava muito preocupado. Realmente dava ideia que a tempestade não tinha
fim. Talvez continuasse por alguns dias e os alimentos não durariam muito. Havia ainda
algumas latas de conserva e claro que tinham água bastante, devido á chuva,

195
mas o pior é que estavam sempre com apetite.
- Anima-te, Júlio - disse a Zé. - Pareces muito preocupado.
- É verdade - confessou o Júlio. - Não consigo arranjar uma maneira de sairmos daqui
ou de pedir socorro. Não temos maneira de fazer um sinal...
- É pena a lâmpada do farol já não trabalhar - disse o Buzina. - Seria um bom sinal. -
Para grande surpresa do Buzina, de súbito o Júlio deu um grito, pondo-se de pé.
Dirigiu-se ao Buzina e deu-lhe uma tal palmada nas costas que o pequeno, apanhado
de surpresa ia caindo da cadeira.
- Que... que se passa? - gaguejou o Buzina, esfregando o ombro.
- Não percebes que talvez consigamos fazer trabalhar a velha lâmpada, acendendo-a
como de costume, não para avisar os navios mas para fazer as pessoas perceberem
que estamos presos no farol - disse o Júlio, radiante. - Buzina, achas que é possível
acender a lâmpada?
- Talvez - disse o Buzina. - O meu pai mostrou-me como trabalha e julgo que ainda me
lembro. E há um sino que se pode tocar.
- Ainda melhor! - exclamou o Júlio. - Onde está o sino?
- Foi desarmado e guardado - informou o Buzina. - Costumava estar preso naquela
espécie de varanda que cerca o compartimento da lâmpada. Existe ali um grande
gancho para o suspender.

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- Isso quer dizer que um de nós tem que ir á varanda para prender o sino no gancho -
disse o Júlio. - Está tanto vento que vai ser um trabalho difícil e perigoso. De qualquer
maneira vamos buscar o sino para o examinarmos.
O grande sino estava no quarto de arrumações. Era feito de latão e em tempos tivera
um martelo que lhe batia a intervalos certos, accionado por um maquinismo muito
simples.
Os rapazes conseguiram entre os dois levar o sino,

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Mas o tal maquinismo estava todo desmantelado e já não prestava.


- Vamos levar o sino lá para cima - disse o Júlio. - É pesado como chumbo. David,
preciso da tua ajuda.
Os rapazes conseguiram entre os dois levar o sino para a sala e o Buzina levou o
martelo que costumava fazer de badalo. O Júlio e o David seguravam o sino pela
argola de ferro. - Bate-lhe com o martelo, Buzina. - pediu o Júlio. - É para ver se ainda
tem um som forte.
O Buzina bateu com toda a força e logo se ouviu um som fortíssimo que fez o Tim
quase morrer de susto. Ele e o Diabrete saíram da sala a toda a velocidade, caindo
junto da escada de caracol. Os pequenos também se sobressaltaram, entreolhando-se
admirados. O som do sino ressoou em volta metendo-se nos ouvidos de tal maneira
que os pequenos abanavam a cabeça para lhes passar aquela desagradável
impressão.
Por fim o Júlio pôs os braços à volta do sino e o som terminou. - Que sino
MARAVILHOSO! - exclamou encantado. - Reparem como é antigo. Diz aqui "Fundido
em 1896"! Se conseguirmos pô-lo no seu lugar, na varanda, o som das badaladas há-
de chegar á aldeia. Quantos barcos terão ouvido este sino nos velhos tempos!
O Buzina tornou a pegar no martelo mas o David interrompeu-o. - Bem viste como o
Tim e o Diabrete se assustaram. Se tocares o sino outra vez

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são capazes de saltar pelo vidro duma das janelas!


- Vamos esperar até que o vento abrande um pouco e depois tentaremos prendê-lo no
seu lugar - disse o Júlio. - Agora vamos ver
a lâmpada. Precisará de petróleo, Buzina?
- Talvez, embora eu julgue que ainda deve ter algum, deixado quando fecharam o farol
- disse o Buzina. - Mas há imenso petróleo no quarto de arrumações.
- Óptimo - disse o Júlio sentindo-se muito mais animado. - Se o vento abrandar
tentaremos suspender o sino. Podemos tocá-lo logo que esteja no seu lugar e nem
precisamos esperar até acender a lâmpada.
Mas a ventania cada vez era maior e o Júlio chegou a recear que o velho farol não lhe
resistisse. Seria melhor levar todos lá para baixo, para o quarto de arrumações, não
acontecesse alguma coisa. Decidiu que era isso que faria se o vento aumentasse. Mas
se o farol caísse, em sítio nenhum teriam grandes probabilidades de escapar!
Durante a tarde foram ao compartimento da varanda, examinar a lâmpada. O Buzina
explicou como trabalhava. - Costumava andar á roda automaticamente - explicou ele -
tinha uns painéis, aqui e ali, que cobriam a luz nalguns sítios enquanto ela andava à
volta. Por isso a luz parecia acender e apagar, observada pelos barcos. Era uma
espécie de relâmpagos, em vez de uma luz contínua. Os navios assim descobriam-na
mais depressa.

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Os painéis estavam todos estragados. Havia algum petróleo na lâmpada, mas o Júlio
juntou-lhe mais. O pavio encontrava-se em bom estado. Se conseguissem acendê-la e
conservá-la acesa, alguém a veria e estranharia aquela luz.
O Júlio procurou os fósforos na algibeira. Com o compartimento cercado de vidros, era
fácil conservar o fósforo aceso. Aproximou a chama do pavio e - maravilhoso! - a
lâmpada acendeu-se!
Era enorme e ao perto a luz tornava-se muitíssimo intensa. O David estava encantado.
- Conseguimos! Velho farol, esta noite ficarás iluminado mais uma vez! Agora vamos
pendurar o sino - disse o Júlio abrindo com cautela a porta que dava para a varanda,
esperando um momento em que o vento abrandasse. Ele e o David levantavam o sino
até ao gancho que ali estava, introduzindo-lhe a argola. Ficou pendurado, balouçando e
o Júlio levantou o martelo; mas nesse momento soprou uma forte rajada de vento, o
pequeno desiquilibrou-se e ia caindo da varanda abaixo!
O David agarrou-o mesmo a tempo e com a ajuda da Zé, puxou-o até ao
compartimento da lâmpada. Ficaram todos muito pálidos. - Salvaste-te por pouco! -
disse a Zé, com as mãos a tremer. - Precisamos de ter muito cuidado se voltarmos à
galeria. Talvez seja melhor servirmo-nos só da lâmpada.
- Proponho irmos todos lá abaixo, tomar um chá quente - disse o Júlio,

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sentindo um grande alívio por ter escapado. Tinha as pernas a tremer quando desceu
as escadas. Ficou muito surpreendido. O Júlio raras vezes sentia medo e era esquisito
sentir que as pernas se dobravam pelos joelhos!
Contudo todos se animaram quando beberam chá acompanhado com bolachas.
- Gostava que escurecesse depressa para vermos se a luz da lâmpada é realmente
bem forte - disse o David. - Hoje deve anoitecer cedo.
Tinha razão. Ficou tão escuro que a luz vinda do alto do farol parecia muito intensa. Era
como um facho de luz amarela, brilhando através da noite. E misturado com o barulho
do mar ouviam-se grandes badaladas, enquanto o Júlio, agarrado pelo David tocava o
sino pendurado na varanda.
- Escutem! - disse a Zé, agarrando o Tim pela coleira. - Escutem! Dão! DLÃO! DÃÃO!
Tim, aquele sino deve sentir-se feliz esta noite, por voltar a ter voz!
DÃÃÀÃÃÃO! Alguém ouviria o velho sino naquela noite de tempestade? Alguém veria a
luz da velha lâmpada?
DLÃÃÃÁÃÃããÁÃãO!

Capítulo XXII - O FIM DA AVENTURA.

NA aldeia, nessa noite, as pessoas correram as cortinas, acenderam o lume e


sentaram-se nas suas poltronas. Sentiram-se satisfeitas por não estarem lá fora, à
chuva e ao vento.
O velho Jeremias Boogle estava a acender o seu cachimbo, sentado junto da lareira
quando ouviu um barulho que fez com que ele deitasse ao chão o fósforo aceso,
pondo-se á escuta, muito admirado.
DLÃÃÃÃÃÃO! DLããÃãÃãO!
- Um sino! Um sino que já não ouvia há mais de vinte anos! - disse o velho Jeremias,
mal acreditando no que se passava. - Mas não pode ser o sino do farol. Esse já não
toca há muito tempo.
DLããÃããO! DLããÃãÃãO! O tio Jeremias foi até à janela e afastou a cortina. Pôs-se a
olhar lá para fora, e julgou que estava a sonhar.
- Emília! - chamou ele. - Vem cá ver. A luz do farol está acesa. Emília! Onde se meteu a
minha neta? Emília!
- Que se passa, avô? - perguntou uma rapariga gorda, entrando.
- Olha, Emília, estou a ver bem? Aquela é a luz do farol? - perguntou o velho Jeremias.
- Realmente está uma luz a brilhar no alto dos Rochedos do Demónio

203
- disse ela. - Durante a minha vida nunca vi aquela luz acesa no farol. E que barulho é
este, avô? Parece um sino a badalar.
- É o velho sino do farol - disse o Jeremias
- Não posso enganar-me. Noutros tempos ouvi-o muitas vezes badalando para avisar
os barcos que não se aproximassem dos Rochedos do Demónio. Emília, não pode ser!
O sino já não está ali pendurado. E a lâmpada, também já não se acende. Que
aconteceu?
- Não sei, avô - disse a Emília, assustada.
- Acho que não vive ninguém no farol.
O velho Jeremias, bateu com a mão no caixilho da janela, atirando ao chão um vaso
com flores. - Mas está ali gente! Três rapazes e duas meninas, um macaco e um cão!
- Essa agora! - exclamou a Emília. - E para que haviam de ali estar? Acha que foram
eles que acenderam a luz e estão a tocar o sino? Dlão! Está a badalar outra vez. E
bastante forte para acordar todas as crianças da aldeia.
A Emília tinha razão. Acordou os bebés e as outras crianças, intrigando toda a gente da
região, inclusive o Tomé e o Jacob. Estes levantaram-se ao ouvirem o sino e ficaram
pasmados quando viram a luz acesa do farol, brilhando na noite.
Ouviram várias pessoas saindo de casa, dirigindo-se ao pequeno molhe dos Rochedos
do Demónio. Ouviram também o vozeirão do Jeremias Boogle.

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- São as crianças do farol que tocam ú sino e foram elas que acenderam a lâmpada.
Qualquer coisa se passa! Devem precisar de ajuda! Qualquer coisa se passa!
O Tomé e o Jacob sabiam perfeitamente o que se passava. As crianças estavam
fechadas no farol e não podiam sair. Talvez estivessem doentes ou feridas ou a morrer
á fome. Mas não podiam sair, para buscar socorro. Naquela altura, já toda a aldeia se
sobressaltara, e logo que chegasse a manhã um barco venceria as grandes ondas,
para ir ver o que acontecera.
O Tomé e o Jacob desapareceram naquela noite! Não era a polícia que eles temiam
mas sim a gente da aldeia! Meteram-se à chuva, pelos caminhos mais escuros e
fugiram! Mas não tardarão a ser apanhados, Jacob e Tomé. E ninguém terá pena de
vocês! Ninguém.
Quando apareceu a luz do dia havia muitas pessoas no cais, prontas para irem até ao
farol. O vento estava tão forte que ondas enormes continuavam a correr sobre os
Rochedos. Em breve preparavam um barco, e o velho Jeremias, o polícia e o médico
da aldeia saltaram lá para dentro. O barco dava um baloiço terrível quando as ondas o
apanhavam.
Subiram os degraus para o farol e bateram à porta. Do outro lado ouviram a voz alegre
do Júlio. - É preciso arrombarem a porta. O Tomé e o Jacob fecharam-nos cá dentro e
levaram a chave. Não podemos sair, e já quase não temos alimentos.
- Está bem. Afastem-se - gritou o tio Jeremias.

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O sr. Guarda e eu vamos arrombá-la.
O tio Jeremias era velho mas tinha força e o polícia ainda era mais forte. A fechadura
de repente cedeu, depois de vários encontrões formidáveis, e a porta abriu-se de par
em par! O tio Jeremias e o polícia entraram lá para dentro, esbarrando no Júlio e nos
outros, atirando-os ao chão. O Tim pôs-se a ladrar, muito admirado e o Diabrete subiu
as escadas a correr.
Em breve se reuniam todos na sala e o Júlio contava a sua história. A Ana fez chá e
serviu-o. O Tio Jeremias ouvia de boca aberta e o polícia tomava notas. O médico,
satisfeito por ninguém estar ferido ou doente saboreava o seu chá e também escutava.
- Não sabíamos como sair daqui - disse o Júlio, concluindo a sua história. - Por fim
acendemos a velha lâmpada e pendurámos o sino, batendo-lhe com força; mal
conseguíamos estar na varanda por haver tanto vento. Fui batendo durante meia hora
e depois o meu irmão continuou até sentir muito frio. A lâmpada esteve acesa quase
toda a noite; apagou-se de manhã muito cedo.
- Mas tanto o sino como a luz fizeram bem o seu trabalho - disse o tio Jeremias,
parecendo vinte anos mais novo de entusiasmado que estava. - Pensar que a velha luz
tornou a brilhar e o sino tocou! Julguei que sonhava!

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- Vamos procurar o Tomé e o Jacob - disse o Polícia, fechando o livro de


apontamentos. - E parece-me que o melhor é voltarem para casa. Este tempo vai
prolongar-se por alguns dias, e já nada os prende aqui, pois não?
- Bem - começou o Júlio - ainda há qualquer coisa. Lembra-se do tesouro escondido de
que nos falou, tio Jeremias? Olhe, encontrámo-lo!
O tio Jeremias ficou tão pasmado que nem conseguia responder. Olhava para o Júlio e
abria e fechava a boca, como um peixe. O pequeno tirou algumas moedas de oiro da
algibeira e mostrou-as ao polícia ao médico e ao tio Jeremias.
- Aqui estão! - exclamou -, Sabemos onde se encontram milhares destas moedas.
Estão numas arcas, num dos túneis dos Rochedos. E que pensam sobre isto? Não
podemos sair daqui enquanto não pusermos o tesouro nas mãos da Polícia. Pertence
ao Estado, não é verdade?
- Assim é - confirmou o Polícia olhando para as moedas reluzentes. - Mas ficarão com
uma bela recompensa. Onde está o tesouro? É melhor irmos já buscá-lo.
- Têm que descer pelo alçapão dos alicerces do farol - disse o Júlio muito sério, mas
piscando o olho. - Depois passam pela abertura lá no fundo e seguem pelo túnel e
depois quando chegarem...
O polícia parou de escrever o que o Júlio dizia, parecendo confuso. O Júlio riu-se.

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- Não se apoquente; o David e eu iremos lá buscar o tesouro ainda hoje e entregar-lhe-


emos tudo completo, sem faltar uma moeda - disse ele. - E não precisam de ir pelo
alçapão. Há outro caminho, aquele por onde nos levou, tio Jeremias. Lá iremos esta
manhã, como ultimo divertimento. E depois partiremos para casa! Será possível Sr.
Guarda, telefonar para a Garagem Kirrin pedindo que mandem um carro buscar-nos ao
meio-dia?
- Óptimo! - exclamou a Ana. - Uma aventura é sempre agradável, mas por agora chega!
Continua um tempo péssimo. Cuidado, Sr. Guarda, o macaco tirou-lhe o seu assobio!
Na verdade assim acontecera e o Diabrete pôs-se a soprá-lo! O tio Jeremias ia
morrendo de susto, e o Diabrete recebeu uma palmada.
- Adeus tio Jeremias! - disse o Júlio. -Gostámos muito de o conhecer e muito obrigado
por nos ter vindo salvar. Voltaremos a ver-nos. Pode acompanhar-nos, Sr. Guarda?
Vamos buscar o tesouro agora mesmo.
- Parece-me que os espero aqui - disse a Ana. Na verdade não lhe agradavam túneis
escuros, e grutas húmidas. - Vou arranjar as malas.
- O Tim e eu ficamos a ajudar-te - disse a Zé, calculando que a Ana não gostaria de
ficar sozinha no farol.
Os rapazes partiram com o tio Jeremias, o médico e o Polícia, remando sobre as
rochas até ao molhe. O tio Jeremias e o médico despediram-se ali,

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e os pequenos acompanharam o polícia, para irem buscar o tesouro. Tiveram que abrir
caminho por entre muita gente que se aglomerara no cais, ansiosos por saber o motivo
porque a luz do farol brilhara durante a noite e porque tocara o sino.
- Deixem passar, se fazem favor - dizia o Polícia com delicadeza. - Está tudo bem.
Estes meninos encontraram-se fechados no farol e não podiam sair. Deixem passar,
por favor. - Não é preciso preocuparem-se!
- Está tudo acabado, não achas, Júlio? - perguntou o David. - Ainda passámos uns
maus bocados. Ficarei muito satisfeito ao encontrar-me de novo no Casal Kirrin, em
paz e sossego.
- Esqueces-te que o Tio Alberto e o Professor ainda lá estão - disse o Júlio rindo. -
Pode acontecer muita coisa enquanto lá se encontrarem. Naturalmente não vão ficar
nada satisfeitos ao verem-nos de volta!
Mas afinal todos se sentiram contentes, em especial quando ouviram a história que o
Júlio tinha para lhes contar. E divertiram-se ao ver uma das moedas de oiro. O Tim,
também ficou com uma que a Zé lhe prendeu na coleira, como prémio por guardar os
seus amigos tão bem. Como ficou orgulhoso!
E agora, adeus a todos! Adeus Júlio e David! Adeus Ana e Zé e também adeus ao
Buzina e ao Diabrete, macaquinho engraçado!
E adeus, caro Tim - o melhor dos amigos. Como gostaríamos de ter um cão como tu!
Voltaremos a encontrar-nos qualquer dia!

FIM

Série Os Cinco - VOLUMES PUBLICADOS

1 - Os Cinco na Ilha do Tesouro


2 - Nova Aventura dos Cinco
3 - Os Cinco Voltam à Ilha
4 - Os Cinco e os Contrabandistas
5 - Os Cinco e o Circo
6 - Os Cinco Salvaram o Tio
7 - Os Cinco e o Comboio Fantasma
8 - Os Cinco na Casa do Mocho
9 - Os Cinco e a Ciganita
10 - Os Cinco no Lago Negro
11 - Os Cinco no Castelo da Bela-Vista
12 - Os Cinco na Torre do Farol
13 - Os Cinco na Planície Misteriosa
14 - Os Cinco e os Raptores
15 - Os Cinco na Casa em Ruínas
16 - Os Cinco e os Aviadores
17 - Os Cinco nas Montanhas de Gales
18 - Os Cinco na Quinta Finniston
19- Os Cinco nos Rochedos do Demónio
20 - Os Cinco na Ilha dos Murmúrios
21- Os Cinco e a Torre do Sábio

Composto e impresso na Tipografia Anuário Comercial


de Portugal

Data da Digitalização

Amadora, Novembro de 2005

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