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Ciências Sociais - Sociologia da Educação

O pensamento de Comte tinha forte aspecto empirista, por levar em conta apenas os fenô-
menos observáveis e considerar anticientíficos os estudos dos processos mentais do observador.
Na educação, isso acarreta ênfase na aferição da eficiência dos métodos de ensino e do desem-
penho do aluno.
No Brasil, a influência do positivismo ocorreu a partir da relação exercida da doutrina so-
bre o conhecimento e sobre a natureza do pensamento científico; influenciou também outras
tendências políticas, além das políticas públicas e até a bandeira nacional com o lema “ordem e
progresso”.
A influência do positivismo na educação brasileira se deve ao fato de que a filosofia positiva
tem um caráter pedagógico muito grande, pois além de procurar reorganizar a sociedade através
do estudo da ciência positiva também busca no ensino científico o suporte para que as ciências
especializadas se desenvolvam. Deste modo, a área da educação foi, sem dúvida, a que mais re-
cebeu a influência do positivismo.
Seus seguidores pregavam a liberdade de ensino, provavelmente como uma forma de rea-
ção ao tipo de educação jesuítica predominante na época. Com isso, ao mesmo tempo que as
escolas particulares confessionais exerciam uma ação contrária ao positivismo, conseguiram, gra-
ças à atuação positivista, a abertura do mercado brasileiro. São as escolas livres, como as de Di-
reito, a Politécnica e as escolas e academias militares que se destacam pela formação de grande
número de positivistas brasileiros. Desse modo, a criação de escolas técnicas esteve associada
a uma orientação positivista, que via no ensino científico a base de uma educação racional, en-
quanto as instituições religiosas dedicaram-se a uma educação humanística.
Ainda segundo Tambara (2005, p.173), além da ação pessoal de alguns positivistas nos di-
versos estabelecimentos de ensino, com destaque para a Escola Politécnica, Colégio Pedro II, Es-
cola Militar do Rio de Janeiro, Colégio Militar, Escola Naval do Rio de Janeiro, Escola de Medicina,
Escola Livre de Direito do Rio de Janeiro e Instituto Lafayete, encontramos a influência do po-
sitivismo também nas reformas de ensino elaboradas por Benjamin Constant, em 1890, e pelo
Ministro Rivadávia Correia, em 1911. (citado por MOTTA e BROLEZZI, 2008, p. 4664-4665)

1.4 A teoria de Karl Marx e


apontamentos para a educação:
recuperando a discussão teórica
em Marx
Karl Marx (1818-1883), juntamente com Friedrich Engels (1820-1895), ocupou-se de criticar
radicalmente a sociedade capitalista, propondo uma nova leitura da economia política burgue-
sa até então fundada no pensamento econômico liberal. Na visão de Marx, o conhecimento e a
ciência deviam assumir um papel político, absolutamente crítico em relação ao capitalismo, de-
vendo ser instrumento de compreensão e de transformação radical da sociedade.
Aqui, apresentamos resumidamente alguns aspectos da teoria de Marx de forma a buscar o
melhor entendimento sobre a educação.
Para esse autor, os homens são produtos das circunstâncias, pois criam e alteram suas bases
de existência social, quando a ação humana pode alterar o conjunto das relações sociais. A divi-
são social do trabalho ou a distribuição de tarefas entre os indivíduos ou grupos é produto da so-
ciedade e expressa as condições históricas e sociais de acordo com a posição que cada um deles
ocupa na estrutura social e nas relações de propriedade.
Dessa maneira, a forma de propriedade capitalista ocorre quando a divisão do trabalho cor-
responde à divisão entre proprietários e não proprietários dos meios de produção (ou do capi-
tal). As duas principais classes sociais que se formam são a burguesia e o proletariado. A primeira
é detentora do capital, a segunda é proprietária da força de trabalho que é vendida como merca-
doria no sistema capitalista.
A força de trabalho é a mercadoria que possui a propriedade única de ser capaz de criar va-
lor, ingrediente essencial para a produção capitalista e criação do lucro. Na perspectiva marxista,
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a burguesia, para afirmar-se como capitalista, precisa não só apropriar-se do produto do trabalho
excedente (não pago/mais-valia), mas também reconhecer o produtor do trabalho excedente, a
mais-valia, que aparece na sua consciência como lucro.
O que Marx buscava entender? A questão diz respeito à condição do homem realizar-se
através do trabalho, criar sociedade, mas que acabou transformando-se numa realidade opressi-
va, em que a divisão social do trabalho no capitalismo se impõe de forma alienada.
Alienação para Marx é o processo pelo qual (ou estado no qual) um indivíduo ou grupo so-
cial se afasta de sua real natureza, torna-se alheio, estranho, separado, enfim alienado aos resul-
tados ou produtos de sua própria atividade produtiva. Alienação para Marx nasce da forma como
a força de trabalho é utilizada no sistema de produção capitalista, pois esta é uma mercadoria.
A ideologia, como consequência da alienação, é a consciência falsa, equivocada da realida-
de, não deliberada, mas necessária ao pensamento de determinada classe social, a burguesia,
sob determinadas condições de sua posição e função em relação às demais classes.
Assim, os detentores do poder econômico usam a ideologia dominante (conservadora) e ti-
ram proveito dela para controlar a sociedade e para atenuar ou neutralizar os movimentos de
inconformismo da classe trabalhadora.
Uma classe só pode agir com êxito se adquirir consciência de si mesma da maneira prevista
pela definição de transformar-se de “classe em si” para “classe para si” e se, ao contrário, isso não
se realizar, sua ação política fracassará.
Portanto, a participação política ativa e consciente do proletariado seria uma condição ne-
cessária para a transformação da sociedade capitalista e a construção de uma nova sociedade,
em que

O reino da liberdade só começa, de fato, onde cessa o trabalho, que é determi-


nado pela necessidade e pela finalidade exteriormente fixada. [...] Por sua pró-
pria natureza, portanto, o reino da liberdade fica além da esfera da produção
material (MARX, 1988, p. 255)

Para Konder (2004, p. 19), essa ideia da passagem do reino da necessidade ao reino da liber-
dade é muito importante em Marx e contribui decisivamente para o entendimento da sua filoso-
fia e sociologia da educação.

1.4.1 A educação polítécnica


Na realidade, Marx não elegeu a educação como objeto central do seu pensamento, mas suas
teorias subsidiaram estudiosos nas análises da educação no contexto da sociedade capitalista.
A preocupação maior da teoria de Marx e Engels sobre a educação foi orientada pelos efei-
tos da Revolução Industrial. Ao elaborar a concepção de educação, esses pensadores denuncia-
ram a inserção da criança no processo de produção capitalista, considerado elemento singular
de suas preocupações.
A Educação Politécnica, junção direta entre a educação e o trabalho, é a indicação apresen-
tada por Marx e Engels. Na visão de Tomazi (1997, p. 7), a proposta advém “da experiência e dos
escritos, de Robert Owen (1771- 1858), um dos ‘socialistas utópicos’ que muito contribuíram para
o desenvolvimento do pensamento socialista”.
Marx notou que as crianças que permaneciam na escola durante metade do dia e trabalha-
vam durante o tempo restante tinham desempenho igual ou melhor que as crianças que ficavam
na escola em tempo integral. Propôs, então, a educação politécnica, considerando-a como muito
importante para a educação socialista, na preparação das pessoas para os novos papéis a elas
destinados na sociedade socialista. (GOMES, 1989, p. 37)
Para Marx, a contribuição da “instrução escolar com o trabalho produtivo” constitui, “um dos
mais poderosos meios de transformação social”. (TOMAZI, 1997 p. 7-8). O autor resumiu em três,
os fatores relacionados à Educação Politécnica:
1. O Ensino Geral, que deveria compreender língua e literatura materna e estrangeira, além do
ensino das ciências, pois isso elevaria o nível cultural da classe trabalhadora e lhe propiciaria
uma visão universalista;
2. A Educação Física, compreendendo os exercícios físicos coordenados, conforme o conheci-
mento da época, que visavam salvaguardar a condição física dos meninos e futuros adultos.
Em determinado momento propõem a instrução militar, pois, dessa forma, os trabalhadores
já estariam habilitados também para a luta contra os opressores;

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3. Os Estudos Tecnológicos deveriam incluir os princípios gerais e científicos de todos os ramos


industriais. Isso permitiria a aquisição de um saber fazer que, de um lado, exigia conheci-
mentos científicos e, de outro, o aprendizado da manipulação de instrumentos, possibili-
tando aos trabalhadores o conhecimento e a apropriação das condições de organização do
processo de trabalho e, consequentemente, o seu controle.
A educação na ótica de Marx e Engels ajudaria na formação do sujeito político, através de
uma “base científica e tecnológica” e na “transformação social e de autotransformação dos sujei-
tos.” O box abaixo resume a proposta da Educação Politécnica.
BOX 1
Educação Politécnica

A perspectiva da educação politécnica insere-se na busca da articulação dialética entre


educação e trabalho, de tal maneira que a educação não seja reduzida a um mero instrumen-
to útil de preparação para o trabalho. Não compreende o vinculo trabalho-educação como
uma simples demanda do processo de produção de atributos a serem formados no sujeito
pela educação. Compreende a educação como processo inserido na busca de superação da
alienação do trabalho. Dessa forma, pode ser entendida como uma educação capaz de for-
necer uma sólida base científica e tecnológica aos educandos, necessária à compreensão dos
modernos processos de trabalho e da realidade natural e social. Visa contribuir para a síntese
entre teoria e prática, fundamental para o processo de transformação social e de autotransfor-
mação dos sujeitos. Não se restringe a um mero domínio de técnicas, pois busca desvelar os
princípios científicos que as embasam, relacionando humanismo e ciência nesse processo. Do
ponto de vista do trabalho pedagógico, uma perspectiva politécnica apóia-se na concepção
de que as relações pedagógicas, e que, para tanto, elas devem se basear na cooperação, no
coletivismo e na solidariedade e não da competitividade e no individualismo. Nesse sentido, a
gestão democrática do processo educacional é fundamental. Alunos e professores de ensino
-aprendizagem, portanto nem o aluno é objeto ou matéria a ser trabalhada, nem o professor
é o único a direcionar os rumos do ensino. O conhecimento do aluno, nessa perspectiva, é
valorizado e integrado ao processo pedagógico. O currículo se organiza a partir de um núcleo
unitário, capaz de captar a essência do conhecimento científico e dar condições aos educan-
dos de acompanharem e entenderem o vertiginoso avanço científico da época, levando em
consideração a tendência ao mesmo tempo de especialização e de integração das diversas
áreas da ciência. Busca realizar tais anseios sem, no entanto, eliminar outros aspectos e áreas
que compõem a formação da subjetividade, tais como a arte e a educação física.
Fonte: ARANHA, 2000b, p.130.

E qual seria o papel do Estado na condução da Educação? Para Marx e Engels, o Estado deveria
limitar-se em “fornecer as condições materiais”, especialmente “a dotação de recursos para educação”,
e também a ”inspeção e fiscalização do cumprimento das leis de ensino.” (TOMAZI, 1997, p. 8)
A formação omnilateral, preocupação de Marx e Engels, é um dos aspectos relevantes da
Educação Politécnica e da Escola Unitária, concepção que será discutida por Antonio Gramsci.
Por isso, também apresentamos sua definição.
BOX 2
Formação integral - formação omnilateral

Integral vem de integralis, de integer, que em latim e significa “tudo”. Assim, “inteiro”. O
elemento omnis também vem do latim e significa “tudo”. Assim, educação ou formação om-
nilateral quer dizer desenvolvimento integral, ou seja, por inteiro, de todas as potencialidades
humanas. Significa a livre e potencialidades humanas. Significa a livre e plena expansão das
individualidades, de suas dimensões intelectuais, afetivas, estéticas e físicas, base para uma
real emancipação humana. Uma formação integral (por inteiro) objetiva o alcance da omni-
lateralidade (a formação completa). Contrapõe-se, portanto, à educação instrumental, espe-
cializada, tecnicista e discriminatória. Busca o alcance da relação dialética entre teoria e práti-
ca, visa incrementar as ciências, as humanidades, as artes e a educação física na formação do
educando. A formação do educando. A formação omnilateral é reivindicada pela concepção
de educação politécnica e de escola unitária, como meio para a consolidação da perspectiva
do amplo desenvolvimento e emancipação do sujeito.
Fonte: ARANHA, 2000a, p.126. 15
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Destacamos, ainda, os principais pensadores que, sendo marxistas, discutiram e por vezes
implementaram as ideias de educação de Marx e Engels, entre eles: Lênin (1870-1924), Nadejda
Kuspskaya (1869-1937), Anton Makarenko, (1888-1939) e Antonio Gramsci (1891-1937).
Por fim, chamamos a atenção para o fato de que inúmeros outros pensadores manifestaram
suas preocupações com a educação, fundando a chamada Sociologia da Educação.
Algumas indagações são apresentadas: quais são estes pensadores? Quais suas propostas
de estudos? São compreensíveis as questões porque se faz necessário uma indicação destes es-
tudiosos, já que tantas influências exerceram e ainda exercem no campo educacional.
No entanto, é importante lembrar que foi no final da década de 60 e começo dos anos 70
que a sociologia da educação conduziu seus trabalhos orientados pela crítica marxista.
A inspiração na teoria marxista apontou novos aspectos ou novas análises no campo edu-
cacional. Os principais trabalhos desses períodos, alguns de teóricos americanos e europeus, po-
dem ser assim apresentados:
Quadro 1
Principais trabalhos orientados pela critica marxista: final da década de 60 e começo dos anos 70
Autores Temas Ano de publicação
Pierre Bourdieu e Jean- Estudo sobre os estudantes universitários 1964
-Claude Passeron de Paris 1970
A reprodução: elementos para uma teoria
do sistema de ensino
Estudo da ação pedagógica e violência
simbólica
James Samuel Cole- Enquete nacional em que documenta as 1966
man desigualdades escolares
Alain Touraine e Sey- Movimento estudantil na França e nos EUA 1967
mour Martin Lipset
Pierre Dandurand Mobilidade – saber, a educação como con- 1971
trole simbólico e reprodução social.
Louis Althusser Aparelho ideológico escolar como principal 1971
rede de difusão da inculcação da ideologia
dominante
Aparelhos ideológicos do Estado
Samuel Bowles e Her- Defendem a tese de que a escola serve para 1971 e 1972
bert Gintis manutenção da divisão social do trabalho
ou em última análise da divisão de classes.
Christian Baudelot e Escola capitalista na França 1971
Roger Establet
Fonte: Dandurand e Olivier, 1991, p. 122-125.

Na realidade, aqui listamos apenas alguns autores e temas, sabendo que, na atualidade, existe a
urgência de estudos mais aprofundados das teorias educacionais e, acima de tudo, a necessidade de
uma política educacional que tenha como prioridade o homem integral, o homem em sua totalidade.
O desafio apresentado é que, ao eleger como principal referência o ser humano, é preciso alargar nos-
sa visão de mundo, isto é, relacionar teoria e prática com vista à educação para o sujeito e sua garantia
de ampliação dos horizontes através do conhecimento crítico e responsável.

1.5 Émile Durkheim e a sociologia


da educação
Como vimos na disciplina Sociologia Geral uma discussão específica sobre a sociologia dur-
kheimiana, apresentaremos aqui uma breve síntese para caracterizar a educação em sua pers-
pectiva teórica.
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