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“Estas terras precisam ser manchadas de sangue


É assim desde o início dos tempos
E é assim que reacendemos a Forja
Para que haja equilíbrio, deve haver sacrifício.”
-- Trecho da carta do general Held aos Altos Sábios.

A neve trazia recordações a Deoga, lembranças de um passado que ela não viveu,
imagens de uma vida que ela não sabia se podia dizer que era sua. O ar carregava um frio
sobrenatural que gelava a carne de Deoga e trazia a sua mente imagens de um corpo
feminino imerso em águas claras. Era o corpo dela. As roupas estavam rasgadas,
arranhões e hematomas estavam espalhados por toda parte, o sangue que saia dela
dissolvia-se na água formando um manto de fumaça vermelha a volta dela.
Duas grandes mãos entraram na água, agarraram firme seu pescoço e a puxaram para a
superfície, o dono dos braços fortes era um sujeito com o rosto coberto por cicatrizes. Ela
vestia uma roupa abarrotada e falava algo que Deoga não conseguia entender por causa da
água nos ouvidos. O sujeito parecia gritar furioso até que a imagem começou a embaçar e
ela foi voltando a realidade.
— A primeira vez vendo neve? — o barão Lazare perguntou cavalgando ao se lado.
— Não é isso — ela respondeu tirando os olhos do chão coberto pelo tapete branco. —
Eram lembranças do que aconteceu comigo antes da “volta”. Talvez de como eu morri.
— Isso é bem natural. Você vivia aqui em Semprenverno?
— Não. Eu estava na água e tinha alguém… não sei ao certo.
— Não se esforce querendo lembrar — Lazare disse. — Às vezes sua mente pode acabar
criando as memórias para preencher os espaços vazios da sua vida passada. Você poderia
ser o assassino ao invés da vítima, ou alguém que estivesse vendo o ocorrido.
— Parece saber muito mais sobre mim do que eu mesma — ela colocou os olhos no
barão.
— Anos estudando os Guarda-Mácula — ele respondeu secamente.
Mesmo cavalgando ao pé da montanha, na camada mais fina de neve, os cavalos
reclamavam do frio e lutavam para obedecer os comandos que recebiam. Lazare
enrolava-se em sua capa cinza que parecia mais clara quase que uma camuflagem no meio
de todo aquele branco. A pele cor de borralho de Deoga começava a adormecer e sua
respiração tornava-se pesada. Uma brisa leve soprou em sua cabeça careca umedecendo
os fios ralos que começavam a nascer, fazendo-a levar instintivamente os dedos finos e
calejados ao crânio para limpar o fino véu de água que formava-se.
— Maldito inferno branco — Deoga murmurou. — Como pode haver um frio como este
em pleno Estio?
— Está é a terra de Ôedar — Lazare respondeu. — O Construtor de Muros é um péssimo
anfitrião, lançou sobre este lugar um frio eterno. Não bastasse isso ainda há um clã de
assassinos e uma tribo de gigantes guardando Semprinverno.
— O que há na montanha que necessite de tanta proteção?
— Documentos de Sur’Tak afirmam que Ôedar guardou os tesouros que recolheu pela
Vastidão aqui.
— Acredita nisso? — um arrepio subiu a espinha de Deoga e ela abraçou o próprio
corpo.
— Não, mas acredito que algo muito poderoso mantém este lugar assim.

As paredes que compunham o Templo do Abismo lembravam um grande pedaço de


carvão colocado no meio da neve. Pedras velhas e escurecidas levantadas ali séculos atrás
pelas primeiras campanhas imperiais para desbravar o até então: Lado Selvagem do
Continente. A única coisa na entrada do templo que não era uma relíquia de tempos idos,
eram as portas de madeira que não resistiram tão bem a passagem dos anos. A madeira
era trocada, mas o aspecto soturno perdurava desde a criação daqueles muros.
Deoga aproximava-se do templo imaginando que tipo de sacerdote vivia ali. Ela já ouvira
falar dos Sussurrantes, adoradores de Ur, o Insaciável, mas nenhuma das histórias parecia
ter algum fundamento. Nas vilas de Naritar falam que os sacerdotes do Pai dos Lobos
entoavam cantos silenciosos em uma língua proibida pelos outros deuses e no Templo do
Abismo havia uma brecha por onde podia-se espiar entre os dentes de Ur. Lá uma multidão
de demônios e espíritos condenados tentava escapar dos lagos ácidos, das torturas e
principalmente da Besta de Mil Nomes. Dos nove deuses maiores, Ur era o que menos
parecia um dos moldadores do mundo, ele era caos destruindo caos. Era abismo.
— Chegamos — disse Lazare Turvosangue descendo do cavalo.
Os portões abriram-se e de dentro do templo saiu um homem vestindo uma tûnica preto e
branca. Ele não portava nenhum anel ou colar como era costume dos membros de outras
ordens clericais e no rosto esboçava um sorriso simpático desalinhando os traços suaves
do rosto rechonchudo.
— Já fazia tempo que não o via, Lazare — o Sussurrante disse enquanto caminhava na
direção dos dois visitantes.
— Ando muito ocupado para suas orações Termen — o barão respondeu descendo do
cavalo.
Os dois abraçaram-se e Deoga também desceu da montaria observando a cena.
— És um homem rude, Turvosangue — o sacerdote afirmou. — Não me apresentou sua
companheira de viagem — ele olhou para Deoga.
— Esta é Deoga Guarda-Mácula — Lazare disse dando alguns passos na direção dela.
— Ela é o motivo de nossa vinda.
— Ótimo — o Sussurrante baixou levemente a cabeça como um comprimento. — Agora
vamos entrar e tomar algo para esquentar o sangue.
Deoga e Lazare acompanharam Termen até o interior do templo, mais dois clérigos
surgiram para levar os cavalos pelas rédeas enquanto os visitantes eram levados até os
bancos de madeira mais próximos do púlpito. Nas paredes, de uma ponta a outra do
templo, que parecia maior por dentro, havia tapeçarias narrando parte dos eventos das
guerras primordiais. Deoga observava as cores fortes dos desenhos enquanto imaginava as
cenas em sua cabeça, dos dois gigantes de luz ao lado de um grande lobo lutando contra
uma massa amorfa de pura escuridão e caos. “A Besta de Mil Nomes”, Deoga pensou e um
arrepio escalou sua espinha.
— O frio não parece a incomodar tanto, Deoga? — perguntou Termen.
— Antes o frio do que o calor da fogueira — ela respondeu secamente.
Ela olhou em volta e viu que além deles e dos clérigos que haviam recolhido os cavalos
não havia mais ninguém no templo.
— Parece que não vem muitos fiéis pela manhã — ela disse.
— Tem razão — Termen respondeu em um tom divertido. — Mas para ser sincero,
dificilmente recebemos algum fiel. A maioria dos que vêm aqui são curiosos querendo
comprar alguma lembrança do templo ou mercadores querendo vender grãos e carne seca.
— Parece uma vida difícil.
— Creio que não tanto quanto a sua — Lazare disse.
Deoga lançou um olhar irritado sobre o barão, acabara de chegar no Templo do Abismo
que já queria sair o quanto antes do local.
— Então como os Sussurrantes vão me tornar humana? — ela disse irritada e ficou ainda
mais quando Termen começou a rir.
— Desculpe querida — o sacerdote disse retomando o fôlego. — As vezes esqueço que
nos chamam assim. Pode nos chamar de Algares, é o título que recebemos quando
ingressamos na ordem, mas fique a vontade. Detesto essas formalidades.
— Não se preocupe, Deoga — Lazare falou. — A noite começaremos. Certo Termen?
— Sim. A noite as estrelas brilham mais forte perto da montanha e Oedar poderá nos
enxergar nitidamente.
O sacerdote sentou-se em um dos grandes bancos de madeira, o barão e a
Guarda-Mácula o acompanharam. Deoga passou sua breve vida sendo caçada por
“homens de fé” e não conseguia confiar naquele adorador do Insaciável, mas estava muito
curiosa para saber onde tudo aquilo iria resultar.

Vaniza Turvosangue estava diante do trono, a mãe do rei Rurik mantinha o queixo
erguido como se ainda ostentasse a coroa de Sur’Larik sobre a cabeça, com o olhar ela
perfura o conselheiro Denakos como uma lança pronta para a guerra. Os dois mantinham
um ódio mútuo que era alimentado a cada encontro, principalmente os que aconteciam na
sala do trono.
— Rurik, meu filho — ela disse voltando os olhos para o rei. — Se está pensando em
interferir nos assuntos de Naritar, saiba que desaprovo qualquer ato de guerra. Não traga
tempo de desgraça para o povo do norte, deixe que o oeste lide com seus próprios
problemas.
O rei Rurik debruçado em seu trono abriu a boca e Denakos baixou a cabeça para ouvir.
— Fale diretamente a mim — a Enraizada disse irritada.
Os olhos baixos do filho encontraram os altivos da mãe e ele disse com uma voz
cansada:
— Os assuntos da coroa já não lhe dizem mais respeito minha mãe. O que faço é para o
crescimento do reino.
— Por acaso há uma maldição sob esta coroa que faz com que todo homem debaixo
dela haja como um tolo?
— É tolice pensar mais alto que meus antecessores?
— Para no fim tornar tudo ruína — Vaniza rebateu.
— Serei o rei destas ruínas então — Rurik disse tirando as costas do trono. — Agora se
não tiver nada de importante para me falar peço que se retire.
O Guarda-Mácula abriu um leve sorriso.
— Você demônio — a Enraizada apontou para Denakos. — Juro em nome de Van que
arrancarei sua língua de cobra com minhas próprias mãos.
A expressão diabólica de Denakos não a intimidava, mas ele não esperava que a fizesse,
ter Vaniza Turvosangue como inimiga era um desafio prazeroso e ele adoraria esmagá-la.
— Que seja, senhora Vaniza — disse em tom sarcástico. — Só não deixe que o veneno
caia sobre a senhora.
— Então terei que queimá-lo antes — ela deu as costas e caminhou para a saída.
Portadores de Raios abriram as portas da sala do trono para que a Enraizada saísse. O
vestido verde de tecido grosso arrastava as bordas pelo tapete sujo do corredor, ele
dançava levemente ritmado pelas passadas firmes da dona cujo os olhos claros estavam
estáticos e a mente vagava em pensamentos. “Agora sei o que estava acontecendo e o que
quer fazer, filho”, ela virou um corredor e ajustou a pulseira frouxa no braço fino e delicado.
“As noites estão ficando cada vez mais longas”.

Dargnal Forcas caminhava pelas vielas da Fortaleza Tempestuosa, atrás dele o palácio
erguia-se imponente com suas torres despontando para o céu e seus muros inabaláveis na
terra. A três capitais dos povos tementes aos verdadeiros deuses eram obras magníficas,
construídas durante décadas de guerra e paz depois da morte do Profeta que designou os
primeiros reis. O feitor de escravos do rei Rurik já lutou em uma dessas guerras, uma sem
propósito e que tirou dele tudo o que tinha em troca ele recebeu o que é hoje.
Os moradores chamavam de Rua das Correntes o local onde eram negociados escravos.
Haviam homens, mulheres e crianças exibidos como mercadoria, o que de fato eram. Uns
com a pele escura como carvão vindos do País de Areia, outros bronzeados pelo sol que
banha a Costa do Negrume. Garotos vindos das Terras Tribais que tiveram os pais mortos
pela espada, meretrizes de Naritar enganadas por nobres do norte e camponeses que não
tiveram como pagar suas dívidas. “A escravidão não faz distinção de homens”, Dargnal
pensava enquanto observava uma garotinha que vestia trapos imundos brincando com uma
boneca velha de pano, no pescoço dela um grilhão frouxo que estava ali desde que ela
poderia lembrar. “Assim como a morte”.
Mercadores da Rua das Correntes iam e vinham oferecendo seus produtos que de
cabeça baixa não ousavam reclamar, um dos escravos a mostra era um sujeito de grande
porte, cabelo desgrenhado, músculos fortes e inúmeras cicatrizes. Era um selvagem das
tribos a sudoeste, guerreiros ferozes que lutavam como bestas famintas, por isso
receberam o apelido de homens-fera. Ele chamou a atenção de Dargnal, lembrava alguns
de seus irmãos de armas, com os quais enfrentou os perigos da Terra Umbral, no outro lado
do continente, em expedições suicidas e juntou escudos para combater Marteladores em
disputas por território, que ele não lembra se venceu. Entretanto lembra quem morreu e os
fantasmas gélidos da noite não o deixam esquecer.
— Nara — Dargnal sussurrou de cabeça baixa, seus olhos estavam estáticos nas pedras
que pavimentavam a rua.
— Disse algo senhor? — um mercador próximo perguntou, na mão do homem de rosto
idoso uma corrente de anéis finos ligava-se ao grilhão nas mãos de uma jovem seminua
sentada no chão.
— Saia da minha frente — o feitor disse irritado e continuou a caminhada acelerando o
passo.
Odiava lembrar do passado, principalmente em público, pois parecia fazer suas feridas
doerem mais, mesmo as já fechadas. Logo arrependeu-se do esforço da quase corrida,
sentiu o peito comprimido e a respiração ainda mais dolorosa. Dargnal sabia que aquilo
tudo era o preço que pagava por algo que fez e quis esquecer, lembrava do tempo em que
era um soldado, lembrava das atrocidades que fizera ao lado do irmão na juventude.
Pilhagem, assassinato, tortura, lembrava de tudo isso, mas se não era aquilo então o que
ele teve que esquecer que o deixou naquele estado? Por que haviam tantos espaços em
branco em sua memória? Quem era Nara?
— Senhor! Senhor! — um garoto escravo pessoal de Dargnal veio correndo na direção
do feitor.
— Diga, peste — ele resmungou.
— Portadores de Raios aguardam o senhor na porta da sua casa — o menino disse
agitado.
— E o que querem? — perguntou e continuou a descer a rua.
— Não sei, eles apenas chegaram perguntando pelo senhor. Acha que o rei quer alguma
coisa?
Dargnal levou a mão de cinco dedos ao queixo e pensou por um breve momento.
— Se Rurik quisesse falar comigo enviaria serviçais não soldados. Isto deve ser obra de
Denakos, aquele maldito Guarda-Mácula. Talvez queira me prender.
— Sob qual acusação, senhor?
— Apenas ameaças, pirralho. Acha que há algum mal nisso? — ele baixou a cabeça para
olhar nos olhos do garoto.
— Claro que não, senhor. Mas o senhor não acha que pode ter sido a rainha-mãe?
— Vaniza? Não, ela me odeia, não iria querer nada comigo nem mesmo tramar minha
morte.
Virando a esquina, Dargnal pôde ver três Portadores de Raios montando guarda na porta
de sua casa. Os três usavam armadura de placas, no peito estava gravado a caveira
coberta de raios, em seus ombros pousava uma capa branca e debaixo do braço
carregavam os elmos fechados com uma viseira pequena. O feitor escondeu-se detrás de
uns caixotes velhos deixados ali por algum feirante, ainda havia muita movimentação
aquela hora do dia então ele não seria visto facilmente.
— Maldição — ele não sabia o que os soldados queriam, mas sabia que não seria nada
bom.
Portadores de Raios recebiam um treinamento cruel e gostavam de partilhar da dor do
aprendizado em seus atos. Eles acreditavam que a guarda pessoal do rei deveria ser
formada por guerreiros que não exitariam em matar ou em morrer, Dargnal precisava
livrar-se deles, só não sabia como.
— O que fará, senhor? — o garoto sussurrou agachado ao lado do feitor.
— Você vai tirá-los de lá.
— Como?
— Engane-os como eu te ensinei.
O menino levantou-se sabendo que não teria como discutir com o mestre e seguiu na
direção dos Portadores de Raios, virou o rosto para trás uma última vez, nervoso esperando
alguma reação de Dargnal que continuou observando. Quando o escravo chegou aos
soldados só então o feitor percebeu que mesmo sem escutar o que eles falariam o pobre
garoto não conseguiria distrair eles o suficiente para que pudesse tentar entrar na casa pela
janela lateral. A única entrada na casa de fácil acesso era a porta de entrada justamente
porque Dargnal temia a tentativa de invasão por críticos do seu trabalho, mas agora isso o
impediria de entrar e pegar suas coisas para esconder-se em outro lugar. Pedir explicações
ao rei seria inútil com o Guarda-Mácula de pé ao lado do trono, o demônio mandaria
decapitá-lo assim que pisasse no palácio. Ninguém na Fortaleza Tempestuosa poderia
ajudá-lo.
“Pelo estômago de Ur”, ele praguejou. “Tenho que sair daqui”, olhou para trás e se
recompôs para dar a volta pela Rua das Correntes até os portões da fortaleza, conhecia
alguns guardas lá que poderiam deixá-lo passar sem ser notado. “E depois?” Ele deixou
para trás o menino e os Portadores de Raios. “Sim. Irei a Córina”, aumentou o passo
mesmo sabendo que isso intensificaria as dores no peito. “O barão de lá com certeza me
ajudará a acabar com o Guarda-Mácula”, abriu um sorriso amarelo e depois tossiu.
Conseguiria água e comida fácil nas cercanias perto da entrada da fortaleza, já os guardas
não dariam falta de uma espada, pelo menos não antes que o feitor já estivesse longe.
“Posso sentir correntes me puxando”, pensou. “Para perto de algo que em vão tentei
fugir”, tentou rir, mas a falta de fôlego não permitia. Uma pedra solta da rua quase o fez cair,
no entanto ele continuou a fuga. “Ou seria liberdade?”
“Claro que não… Isso não existe.”

As orações noturnas dos Algares eram como um coral fúnebre, as palavras eram
recitadas na língua do Império em tom sussurrante, foi daí que originou-se o apelido pelo
qual eram conhecidos mais ao sul. Quatro sacerdotes estavam diante do púlpito, cada um
expressava-se com frases diferentes, mas que complementavam a do homem ao lado.
Deoga assistia curiosa. Ela não falava a língua antiga, mas conseguia entender
brevemente algumas palavras. A língua comum originou-se da mistura do dialeto do antigo
império com o idioma do País de Areia nos Dias do Profeta, algumas palavras foram
mantidas, mas com significado ou pronúncia diferente. Deoga acreditava que eles estavam
orando para que Ur, o Insaciável jamais libertasse a escuridão em suas entranhas, a
Guarda-Mácula duvidava que o deus-lobo estivesse se contendo por causa dos homens,
não importava o tamanho Ur ainda era uma fera selvagem e como tal não cederia por causa
do apelo de criaturas insignificantes como os homens, pelo contrário. O Pai dos Lobos só
estava interessado em acabar com a sua fome e se a Escuridão não bastasse, ele engoliria
o mundo inteiro também.
— Vamos — Termen juntou-se a Deoga e Lazare que logo levantaram-se.
— Já estava cheia — a Guarda-Mácula disse.
Desceram uma escada que ficava nos fundos do templo, Termen ia na frente carregando
uma tocha enquanto Lazare vinha logo atrás seguido por Deoga. As paredes do corredor
não eram de tijolos, mas rocha bruta, feita durante anos de escavação. No fim da escadaria
um corredor irregular de pedra úmida era o único caminho a seguir, a escuridão além do
que a chama da tocha conseguia iluminar poderia guardar qualquer coisa.
“O Abismo”, Deoga pensou e um arrepio subiu sua espinha. “Será que pretendem me
lançar de volta aos demônios?”
— Pensa tão alto que quase posso ouvir o que passa pela sua cabeça, Deoga — a voz
do barão Lazare ecoou pelo corredor de pedra.
— Não se preocupe — Termen disse. — Aposto minha tûnica como não é nada o que
imagina.
Deoga preferiu não responder, para o que quer que fosse, queria estar preparada.
A caminhada não durou mais que alguns minutos e logo podiam ver uma luz azulada no
fim da passagem. A Guarda-Mácula jamais vira algo parecido, o brilho azulado parecia ficar
mais intenso à medida que aproximavam-se e ela sentiu as mãos adormecerem como se
atingida por uma brisa gélida.
O caminho então abriu-se em uma galeria e Deoga pôde ver o que a aguardava. Mais a
frente um pequeno lago tinha seu espelho d’água ondulado por gotas que caíam da fonte de
luz do local, uma gema pouco maior que uma mão fechada. O cristal brilhava intensamente
pulsando a luz azul que nascia em seu interior, mas o que atiçou a curiosidade de Deoga foi
o fato da pedra está parada a altura do olhos sobre o lago, levitando como se segurada por
uma força invisível.
— O que é isso? — ela perguntou.
— Um Olho de Oedar — Termen respondeu.
Lazare virou-se para Deoga, no rosto um sorriso de empolgação e nos olhos um brilho
diferente de tudo que ela já tinha visto no barão. Ele pôs a mão sobre o ombro dela e disse:
— A fonte de energia que precisamos para fazer o impossível — ele voltou os olhos para
o cristal. O que precisamos para mudar tudo.

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