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Gerardo Mello Mourão

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á uma ciência (às vezes arte) de morrer.

H A ciência-arte da morte se chama poesia.


Não se contém na morte escatológica,
mas na morte limite, rápido contorno da beleza,
cúmplice do vinco que une e separa o ser em suas
desinências, nesta nossa vida de cada dia: o des­
linde lindo e também o transbordamento. Gerar-
do Mello Mourao é um sábio desta ciência, ao
mesmo tempo arte ilimitada, ao mesmo tempo
transcendente e concisa: arte do verso ou univer­
so, versátil em sua última conversão, que alcança,
por uma secreta renúncia, sua dança e andança
exterior, numa conversão ao prístino em sua lon­
gínqua voz e em seus distantes gestos. Única dis­
ciplina que reúne o conhecimento abstrato mate­
mático à música do verbo floral. Eheu! Eheu! Mas
não é porque seus poemas abordem somente a
morte, como tema ou kata-tema — postema,
abcesso mesmo — do corpo da literatura, mas
porque a morte corta e corteja seu verso: é sua
cortesia.
Não vou fazer uma ronda nem uma caçada na
obra de Gerardo Mello Mourão. A mi no me im­
porta la obra, sino la zozobra. Basta-me assinalar
que já em Cabo das Tormentas desponta o fio de
uma inocência ou veemência que o poeta, galo já
feito alprimo canto, trata de esquecer, mais tarde,
em seus longos poemas, refinando-se no exercí­
cio de asceta para o studium e a mestria dos meios
necessários à busca da maldita virtú que criou o
pantanoso e imperioso lodaçal da Poesia em nos­
so Ocidente, desde Petrarca até cada um de nós.
Como neutralizar o studium> a mestria, a virtú,
para não ser um epígono de Camões e de Ezra
Pound? Pela inocência ou veemência da audácia,
que assume o ser inteiro, do polítes ao poeta e do
poeta ao polítes, desde sua mais tenra adolescên­
cia até agora, em sua imaculada velhice. A absol­
vição da habilidade verbal, astuta, dos exercícios
da retórica pura, do cotejo e da curiosa olhada
em tudo que diz respeito à triste tradição que se
arrasta ao longo da escandalosa longevidade do
Ocidente.
Gerardo Mello Mourão despojou-se da toga sa-
cral que vestiu na adolescência: é hoje o puro fi­
lho da terra, de uma terra, o Ceará, da qual é o
mero filho. Alcançou o Paraíso da candidez, com
o último Hõlderlin, que chega a ser japonês em
seus breves quartetos sobre as estações. Se é certo,
como creio, que o poeta, ao entregar-se ao no do
abando-no (the path o f ivithdrawal), ao nicho de
uma China secreta, de uma Grécia rumorosa, de
um Egito hipnótico, penetra o glifo e o hierógli­
fo de uma morte que o induz a uma comiseração
irremediável.
O homem de sua tribo, o verdadeiro, o com­
passivo como um Deus, é, na verdade, o homem
de todas as tribos. Como o rude e refinado filho
do país dorido e luminoso dos Cearás equatoriais,
o mais ecumênico, o mais universal dos poetas de
nossa pobre América. O homem de quem todos
são frères h um ain s, q u e p ro n u n c io u p a ra sem pre,
em nome de todos nós, o ritomello da vida e da
morte, moribundo e imortal, de um de seus can-
tares: “Morreu por mim”. Por tudo isto, digo em
meu testamento que já está escrito: “nel mezzo
dei cammin Gerardo é meu Virgílio”.

Paris, 7 de maio de 2001


EDISON SIMONS

Nota: algumas semanas depois destas linhas, Edison Simons mor­


reu. Este é, assim, um dos últimos, senão o último de seus textos.

Capa: Adriana Moreno


Proclamo aqui o furor admirativo que Gerardo Mello Mourão provoca neste leitor
enfastiado das mesmices poéticas nacionais e mesmo internacionais, apresentadas como
produtos vanguardistas ou experimentais, tão caducas de nascimento - enquanto Ge­
rardo, solitário e inventivo, realiza a fusão da áspera e sofrida alma sertaneja com o es­
pírito apolíneo, síntese estupenda que resultou em livro memorável, montanha na pla­
nície poética da atualidade.
C arlo s D r u m m o n d d e A n d ra d e

Ele é um pouco o albatroz baudelairiano da poesia brasileira contemporânea, impedi­


do do percurso terrestre por suas asas de gigante.
W il s o n M a r t in s

...Nosso mais original poeta maior (e aqui Drummond tinha toda razão) vem com­
pondo seu monumental e intrincado painel temporal à maneira de um bordado oblí­
quo, conduzido pela fina agulha eminentemente elegíaca da melhor lírica moderna.
B r u n o T o l e n t in o

ISBN 8 5 - 7 4 7 5 - 0 4 6 - 8

9 788574 750460 TOPB'OOKS


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ALGUMAS PARTITURAS
Obras do autor:

Cabo das Tormentas. Edições Atril, 1950.


O Valete de Espadas. GRD, 1965. Várias outras edições no Brasil e no exterior.
TrêsPavanas. GRD, 1961 e Masao Ohno, 1982.
OPaís dosMourões. GRD, 1964 e Paz e Terra, 1972.
Frey e a Revolução Latino-americana. Chile, Editorial dei Pacífico, 1966.
Tempo Brasileiro, 1966.
Peripécia de Gerardo. Paz e Terra, 1972.
Rastro de Apoio. GRD, 1977.
Piero delia Francesca ou As Vizinhas Chilenas. GRD, 1979.
Invenção do Saber. Paz e Terra, 1983; Itatiaia, 1990.
Dossiê da Destruição. GRD, 1967.
Susana — 3. GRD, 1996-1997.
Invenção do Mar. Record, 1997. Imprensa Nacional, Lisboa, 1998.
Canon e Fuga. Record, 1999.
Um Senador de Pernambuco. Topbooks, 1999.
O Bêbado de Deus. Green Forest do Brasil, 2001.
Gerardo Mello Mourão

ALGUMAS PARTITURAS
Copyright© Gerardo Mello Mourão, 2002

Revisão
Jaqueline Holanda

Capa

Adriana Moreno

Todos os direitos reservados pela


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Impresso no Brasil
Partitura Número 1

SUÍTE DO COURO
ou
LOUVAÇÃO DO COURO
Este poema teve sua primeira partitura composta e impressa
pelo autor em HP Laser Jet, numa pequena tiragem H.C. de
setenta exemplares distribuída a amigos, em jantar íntimo,
no dia do aniversário de Léa, Maura e Tunga, a 9 de feverei­
ro de 2000. O couro é presença elementar do quotidiano
nordestino na região sertaneja. Ali prosperaram boiadas,
criando-se, desde os meados do século XVII e inícios do
século XVIII, até as primeiras décadas do século XX, a civi­
lização do couro, estendida dos sertões da Bahia às ribeiras
do Piauí e do Maranhão. A caça ao boi, nos pastos bons e
nos currais, era, na verdade, uma caça ao couro, artigo de
consumo interno primordial e expressivo produto de expor­
tação. Já não urram bois nas soltas e nas serras silenciosas.
Acabaram-se os chocalhos plangentes da rês que caminhava
vagarosa por campina e vale. Acabaram-se os vaqueiros
encourados que andavam pela chã ou pelo monte, escoteiros
ou em bando. Acabaram-se os rebanhos bovinos sertanejos,
numa predação ecológica cruel, prenuncio da predação que
hoje ameaça os pés de pau da mata atlântica. Mas o boi é
um fantasma. E é também a memória mais viva do sertão,
até nas festas do bumba-meu-boi e do boi-bumbá. Quem
sobrevoa a região, em vôo baixo, sob o céu claro do sertão,
ao contemplar o chão malhado tem a impressão de que ele é
feito de couro estendido na terra desolada. Por ela vagueiam
penadas as almas dos bois que nos deram para sempre o
couro — com o qual se inaugurou naquele tempo nosso
duro trabalho de viver. Em seu trato oficinal balbuciamos a
beleza da arte criada em nossas mãos por modos de artesa-
nia singular e vária.

Gerardo Mello Mourão


Rio, janeiro e fevereiro de 2000
memória de

Alípio Goulart * Dantas Mota * Emani Sil­


va Bruno * Gustavo Barroso * José Lou-
renço Mourão * Luís da Câmara Cascudo *
Mário Mazzei Guimarães * Nertan Macedo
* Rômulo de Almeida — amigos inesquecí­
veis, sabedores do mito e da história do cou­
ro e dos bois, que hoje pastoreiam nos cam­
pos do céu, de onde também os contemplam
o cabra Gonçalo Saturnino curtidor famoso,
e o avô capitão José Ribeiro, Mello, ferrador
de bois.

Entre os vivos,
a Vírgilio Maia, poeta,
por (A)mo®de
de bois e couros.
' m m 1-
SUÍTE DO COURO — 1
CHÃO DO PAÍS

Do alto destes céus aeronáuticos o poeta


Contempla o chão da capitania— província, país,
[país hereditário, digamos—
Onça, leopardo seria — é um boi ou boi— fora boi—
Couro duro esticado— malhas malhadas
Secando ao sol ao vento à solidão.

De couro é aquele chão aquela chã


Couro estendido em varas
Pontudos marmeleiros vão secando também —-
O couro estende
Suas manchas de pêlo sobre
Matos magros de campina caatinga tabuleiro
Ravinas e barrancos — sobre
Serranias de antigos nomes.

De olhos secos uns viventes de couro


Cabras novilhas éguas e outras pessoas
Caminham sobre
Chão de couro entre cinza e carvão
De apagadas coivaras.

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Gerardo Mello Mourão

A mancha ao longe água sem — poço


De rio adormecido — miragem de areia seca
Crescida à lágrima nos olhos:

Esperança de súbitos sertões por onde


Urram saudosos bois nos alagados
E na memória de seus pastos bons.

Em maranhões emaranhados
No chão de couro pelas paraíbas
Piauís pernambucos siarahs até
As bahias malhadas onde

Seca ao sol o couro cru: — ali


Sobre couro marcado a ferro de algum santo ou paróquia
No lombo do chão uns fantasmas passeiam.

Das alagoas de Tanque dArcá ao sergipe antigo


Até Geremoabo até
O Raso da Catarina. Talvez ladeiras de outros lados
Mombaças Araripes Contendas Borboremas até
Neste país nosso— de couro nosso— toda esta
América nossa— Argentinas e Chiles, Paraguais —
América de couro e couro
De cada um de nós
Nicaráguas e Texas e Méxicos além.

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AlgumasPartituras

SUÍTE DO COURO — 2

Antônio Avelino trabalhava a própria mão, dedos, unhas —


[e a mão
Trabalhava o couro: cosia vivo sobre corpo morto
A memória da morte costura sempre a vida.

Era vaca era bode era garrote


Era cobra veado galheiro jacaré:
Correia cinturão gibão vaqueiro

Chapéu de couro luva peitoral


Loro sela selim chibata rédea
Bezerro capivara ovelha onça

As galas do enxoval quotidiano


Enfeitam a quermesse da matriz
A feira a praça o patamar da igreja:

As perneiras reiúnas do soldado


Polainas do tenente da polícia
Talabartes de festa do major.

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Gerardo Mello Mourão

A sovela a fivela as alpercatas


As tachas de ouro a sabedora mão
Alisa, dobra, floreando os couros.

Na água grossa soldada a sola grossa


Curtida à casca dos angicos roxos
Guardava um cheiro forte a couro e sexo.

Maria Lina abre o baú de sola tacheada


E a casa cheira a cedro cheira a couro cheira
Ao cheiro da madressilva em suas coxas:

A vaqueta a pelica o bezerril


Cinto sandália sapatilha bolsa:
Maria Lina passeia na calçada

Argolas de ouro em marroquins vermelhos


Toda a graça dos couros trabalhados
Opulência da rica pobreza elementar.

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Algumas Partituras

SUÍTE DO COURO — 3

EmmemóriadasbibliotecasdeMonsenhorNabuco
e de GustavoBarroso, viciadosemcourospreciosos
de encadernação

Prateleiras, atril, estantes, anaquéis,


Liturgias e ritos de resinas e couros do velho Monsenhor:
Lombadas de Evangelhos, Bíblias,
Catecismos de Bizâncio— lembram
Ovelhas imoladas, sacrifícios
De novilhas e expiatórios bodes.

Das ribeiras do Jaguaribe o Conde, Barão


Conde das Marcas— Marquês
Pastor de suas histórias
Cobria de ouros os couros
Das prateleiras de mogno (ou cedro?)
O corte e o lombo dos livros
Douram o nome de Homero
Virgílio Camões e o Dante
Breviários de Cistér
Volúpias de Rabelais
Os Boccacios fesceninos
Decamerones e Sades
De iluminuras de alcova.
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Gerardo Mello Mourão

Encadernado em sangue e rosa um Satíricon erótico


Cartas de São Jerônimo ao lado de Petrônio
No cordovão castanho letras de ouro
Do missal de Aquisgrana
Saltérios de abadia carolíngia,
Livro de Horas de abadessas navarras.

Couros cinzelados celebram a invenção do livro quando


Linos inventou o Alpha e o Betha, o Lambda e as outras
[letras
Desenhadas na pele do borrego sagrado — quando
Pisístrato mandou esfolar as ovelhas de Pérgamo
E em suas peles secas sacerdotes e escrivães da ágora
Escreveram pela primeira vez o canto de Homero.

E Ezequiel e Habacuc, profetas de Israel,


Nos rolos secos de cabritos do Hebron
Lavraram em letra hebraica os salmos e as visões
E os monges nos mosteiros copiavam o poema a história
[e os hinos
Na redonda letra floreal florindo
As páginas de couro.

O Salmos de David, cantares de Salomão, lamentações


De Job e Jeremias guardadas nos couros enrolados!

O Monsenhor— dizem— e o doutor Barão da Porangaba


Assombrados ouviam vozes à noite na biblioteca sagrada
O último balido do cordeiro
Ao ferro em fogo no couro glorioso.

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Algumas Partituras

SUÍTE DO COURO — 4

Sei dos baús de Xerxes e Artaxerxes


Cheios de jóias sedas veludos
De suas concubinas persas — sei
Do baú da filha do Faraó
Feito da sola sagrada
Do couro do Boi Apis.

Sei dos baús de Ulisses no gineceu


Das raparigas de Licomedes onde
Folgava Aquiles vestido de mulher — e súbito
Ouve a trompa de guerra no baú das armas
Mete os socos de couro e couraça
Veste os couros machos — deixa a filha do rei
E seu baú de sedas e pérolas e ungüentos — rumo a Tróia.

E os baús de Úrsula, a Velha e Úrsula, a Moça,


E Nazária e Elisa e Elvina
Ana di Mello e Francisca e Eufrásia e as outras
As matriarcas e as moças velhas
Mortas em vida sepultadas inuptas
Nas camarinhas desoladas?

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Gerardo Mello Mourão

Ó sagrados baús de avós e bisavós!

O baú - el baúl, Raul, baúl baúles


Uns cheios de ossos e formigas, Pedro,
Outros de roupas e escrituras e papéis maduros
As vezes podres
Sedas colchas fraques, vestidos franceses
De noivos e noivas que já não são mais,
O baú de minha avó com vinte contos de réis
Nalguns a traça comeu os teréns guardados
Noutros o cupim comeu a memória
Noutros só resta o olvido - mas em todos
Ouvireis estremecer na sola morta
O suspiro do boi na juguleira em sangue.

20
Algumas Partituras

VAQUEIRO — SUÍTE DO COURO — 5

“O boi é um centauro”.
Francisco Carvalho

Da cabeça aos pés o couro


Borda rosto e queixo:
Onde começa o barbicacho
Onde terminam quatro cascos
Começa o chão a folha a pedra— começa acaba
A testa curta de Antônio Piauí
Com seu chapéu de couro— eo couro
Veste cavalo cavaleiro e boi;
Veste Antônio veste curral capoeira caatinga espinho
Veste o mandacaru veste
Tamarindos cajus cajás de ouro nos quintais frondosos
[veste
A sombra do juazeiro encourado de verde— veste
O sertão dos Inhamuns a memória
De Quintino Galdino e os outros
Sozinhos em seus couros seus facões na bainha
Seus estribos nos loros o súbito galope
O sumiço no chão da sombra de meu pai
No sertão dos Inhamuns

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Gerardo Mello Mourio

Onde eram uns Ribeiros, uns Lopes, uns Martins,


Uns Feitosas e Sampaios e Mourões e Mellos. E também
[uns Limas e uns Araújos, ditos Chaves, do alto da
serra,

Pequenos centauros morenos


Brotados de seus couros de seus cascos famosos
De cavalos inteiros éguas clamorosas,

Ginetes também inteiros — courudos nos estribos.


Naquele tempo
O boi era o centauro de Antônio e Antônio Piauí
Era o centauro do boi.

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Algumas Partituras

SUÍTE DO COURO — 6

No princípio era o couro


Navegavam nos couros o sertão de couro
E o sertão era o couro e o couro era o sertão.

E às vezes serras, Ibiapabas Borboremas Serra Azul


Onde o boi ensebado escorregava à mão couruda
Do vaqueiro encourado, ao laço, ao relho peludo.

No princípio era o couro — as caronas fofas


A guaiaca de anéis e patacões,
Peia, maneia, chincha e sobrechincha,
Dicionários curraleiros de laços e ligás,
Regeiras e lígários e fiéis, entre bruacas de mercado
Surrões de sola vermelha para a farinha branca
Manguás de açoite, patuás de rezas, atabaques de festa:

Na garupa
Das selas de vaqueta e alforges bordados
Era a paçoca pisada no pilão de pau-d’arco;
E as rações de água fresca viajavam
Na borracha de sola ao balanço da canga
Dos bois de carro.

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Gerardo Mello Mourão

Nos dados de osso de touro à pancada fatal


Bozós de sola dura em mesas e balcões
De pedra ou cepos de tabernas
Bodegas de beira-estrada de tropeiros
Decidem os dinheiros da sacola:

Os vinhos aguardentes e às vezes


A posse das mulas dos jumentos
E— último lance — a rapariga trêmula
Derradeiro amor e derradeiro bem
Perde-ganha na última batida do bozó de sola
Companheiro da fortuna da viagem dos homens
No jogo de viver.

Noutros mundos o vinho do senhor galego


Dormia fresco na bota de sola. Outros vinhos, antes,
Falemos, Kypros, Chios, talvez Corinto, dormiram
Nos odres de sola de Propércio e Horácio e Anacreonte.

Naqueles tempos, tempos de Virgílio


Tempos de Ovídio tempos de Horácio tempos
De Catulo e Propércio e tempos de Tibulo
Os poetas levavam couros de bois grandes
Estendiam na relva da fonte de Tibur — Tievole, dizem —
E o couro era chamado otium — ócio — na língua do Lácio
E deitados nele eram
A tarde de outono, o repouso, a lira de três cordas,
[a música

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Algumas Partituras

0 canto de amor e às vezes


As ancas de Cíntia e Lívia e Leuconoé — ó verões
[ó bosques do Trastévere!
E o exercício do amor e os rumores da água da fonte
Guardavam o nome sagrado do couro
E se chamavam ócio. E o couro
Era o ócio — deleite dos amantes — eamus ad otium —
[vamos

A delícia dos vinhos, das liras, das mulheres


Deitadas no couro do boi malhado da Sicília - no ócio
Peludo ruivo do boi mantuano da quinta — currais de
[Publius Virgilius
Com tocadores de flauta, poetas etruscos da Fescênia para
A canção fescenina.

E os eremitas na Tebaida e os monges cenobitas


Chamavam ócio o chicote de couro dos flagelos
E o cilício de couro de porco que açoitava os rins.

E era uma vez um adolescente moreno, de gentil aspecto


David chamado — dizem os Livros — Samuel 17 —
Meteu no surrão de couro pedras lisas apanhadas no rio
Armou com uma delas a concha de couro de sua funda
Girou no ar as tiras de couro de bode da certeira funda
Desferiu o corisco de pedra na testa de Golias
Arrancou a espada a cabeça do filisteu gigante
Levou-a ensangüentada ao rei Saul
E as mulheres de Israel dançaram e cantaram sua glória.

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Gerardo Mello Mourão

E a mão dos homens e a mão dos deuses se servia do


[couro.

Sobre o couro da funda de David de Bethlehem


Salvou-se o povo de Deus
As tiras do couro de cabra fizeram um rei em Israel:

E um dia o rei David


Olhou para a Casa de Deus, Santuário, Tabernáculo
Onde o Santo dos Santos se guardava— a Arca da Aliança
E a Casa de Deus era feita de couro — e no couro
Habitavam os homens e os deuses.

Dormiam no couro os elementos — a água o ar e o fogo


No fole soprador, as brasas, nas estrelas saltadas entre
Malho e bigorna do ferreiro Salú— Possidônio também—
Endemoniado entre as chamas — Hephaistos da beira do
[açude
Avental luvas grossas de sola e o pulmão de sola da
[oficina.

E o couro sustentava o ferro o ouro a prata


Bridas de freios tiras correias de esporas de prata chilena
Loros de estribos de ferro de vaqueiros, sapatilha
De prata e bronze lavrado das senhoras fidalgas
Estribos de ouro do Vigário Feitosa Padre e Senador e
[suas
Fivelas de ouro em borzeguins de charol na missa de
[domingo.

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Algumas Partituras

No princípio era o couro e o vivente estava no couro


E o couro estava em tudo
Da cabeça aos pés — desde
As alpercatas de rabicho de Eufrasino:

O chapéu de Zacarias, um primo das Vazantes,


Pesava oito libras de sola batida
Com suas mambucabas de pelica nas correias finas
O chapéu de couro do Coronel das Ipueiras — avô
De Mellos e Mourões
Cobria a cabeça de Napoleão na manhã de Waterloo
E pesava muito mais: pesava
O destino da Europa
E a grandeza do Imperador.

No princípio era o couro— não sabemos de peles


Luxo e frio de terras estrangeiras. Sabemos ao longe
Ojacaré a cobra o lézard cinturões de elefante
Couro de zebra girafa tigre de Bengala e galas
De casaco de astrakão, antílope de Tertuliano — a maleta
[de avestruz
Saia de camurça da menina do bairro, cinturão de enguia
Sapato de côngrio carteira chilena pulseira florentina
Do couro egrégio de galos de Livomo. Deles pouco sei.

Sei mesmo é da pele seca ao sol — bodes de Atanagildo


Das bandas da Canabrava, ovelha de Águas Belas de
[Hermenegildo

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Gerardo Mello Mourão

Às vezes caititus da serra ou veado galheiro das bandas


[de Josué na Água Verde —
Vaquetas pelicas de bezerros de Laureano, tabuleiros da
Macambira,
Até destes sei pouco:

— Sei mesmo o boi e a vaca do couro quotidiano


E o trevo de sapateiro de Leonardo da Vinci:
Uns primos batiam sola nesse artefato antigo,
Martelo e ferro de Afonso, no Alto das Ipueiras, Gonzaga
[e outros
Na cadeia de Crateús — e ainda hoje o filho do Doroteu
[dolpu—
Batiam sola lambiam raspa de sola de palmilhas finas
Para sandálias reiúnas, bainha de punhal matador
Coldre de 38 certeiro cartucheiras bordadas
Bandoleiras do rifle a tiracolo
Bridas de éguas bralhadeiras e chibatas
Para o punho viril dos varões do distrito.

O que sei bem é a vaca e o boi ô boi— êi boi, ô ô boi


Sola e couro mesmo e o aboio e a toada gemedeira:

Do pescoço da rês dolente pendurados pendem


O chocalho e o crepúsculo:

O couro canta — e como dói


As seis da tarde aquele som
Pendido do couro entre céus e terra.

28
Algumas Partituras

De mim mesmo isto sei:


Guardo este couro que me cobre— última dádiva à terra
[um dia
A embrulhar-me omoplatas e espinhaço:
Este couro há de ver a ressurreição da morte em sua hora
Moreno e limpo — e então
Exultarão os humilhados ossos
No dia dos dias da terra que foi minha
E minha pelos séculos dos séculos.

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Gerardo Mello Mourão

SUÍTE DO COURO — 7

“Andavam nestas montanhas uns Mourões cascudos”.


Dantas Motta

Pois, por ali andavam, Dantas, monte acima monte abaixo:


Courudos e implacáveis;
Caçadores eram, em seus couros cascudos,
Caçadores de bois e vacas — não caçavam bois nem vacas
Caçavam o couro da rês ou gorda ou magra.

Subiam todos os rios— Vasa-Barris, Acaraú,


Rio das Velhas, Rio das Mortes, Parnaíba
Atravessavam o sertão e o São Francisco — às vezes
Riscavam por coxilhas sangas banhados, Paranás além,
Pantanais grossos grossos Araguaias do Mato Grosso
[de Ponces e Buenos
E o país dos gaúchos — acampavam no pampa
Dormiam sob as estrelas do sul
A cabeça de couro peludo reclinada
Sobre o couro das selas e caronas bordadas— e o couro
Era a labuta e o repouso do guerreiro.

Caçavam o boi para a costela do almoço gordo


E para o couro elementar — os restos das alcatras
30
Algumas Partituras

Abandonavam à podridão — e o pampa inteiro


Era o cheiro da carniça da carnificina diária
Por uma costela e um couro a cada caçador de boi. Voltavam
[sempre a suas
Terras de sol
Pajeús, Crateús, Gilbuês talvez
Mossoró dos Rosados, Ingá do Bacamarte,
Seridó, sertão das Alagoas, Maroins do Sergipe
E o arraial celeste do profeta de couro e suas ladainhas
No Raso da Catarina. Ali umas tropas sangraram o Profeta
Em sua Jerusalém canicular, esfolaram seus diáconos
E os beatos cantadores de benditos e as beatas cantadeiras:

“Bendito, lòvado seja


ô ô Santí-issimo Sacramento
os anjos, todos os anjos
lòvem a Dê-eus para sempre amém”.

Tiraram o couro e a alma


do Profeta e de seus rudes presbíteros pre-santificados
Nos Pentecostes setentrionais de barro e sangue e couro
Da cidade santa.

Aos Mourões, Moirões courudos que saudaste


Negociando gado em tronqueiras de terras de Joaquina
Senhora do Pompéu e suas gentes, Serras do Rio Verde,
Ou nesses currais e pastos de Ayuruoca, Dantas — não
Não tiraram seus couros.

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Gerardo Mello Mourão

Eeles

Voltavam sempre, inteiros como seus cavalos estradeiros


Para a terra melhor do couro bom
A terra enxuta do couro seco
As camas de couro cru onde foram paridos
Onde pariam
As mulheres parideiras. Voltavam sempre

As botinas ringideiras de açafrão e ilhós de latão de cobre


Ao porta-orelhas de vaqueta lavrada e forro de camurça
Onde um Feitosa do Cococi
E Sebastião — dito seu Basto— filho de Dondon
Guardavam orelhas secas de gente ruim— butins
[dos acertos a faca.

Morriam matavam voltavam sempre, vivos ou mortos,


Ao seu país do couro, Dantas, esses Moirões errantes
[e courudos
De teus campos gerais, tuas montanhas— voltavam
As tendas de couro de suas casas. Ali eram
Selas selins cabrestos pendurados no armador de aroeira
Na parede das caiadas salas de apero real
Sala de arreios gerais, selas de macho e selins de sinhá
Na parede das rudes salas de arreios
Entre redes suspensas de correias trançadas
Entre cadeiras de peroba-do-campo
Enfeitadas de riscos e pregos de cabeça
No encosto e no assento de sola, para a glória do couro.

32
Algumas Partituras

Habitavam a Mesopotâmia dos rios secos


Esses caçadores de bois, de couro, digo,
Pisavam com a sola tenaz o chão de sol, solar de sempre.

Homero conta a história de Eumeo, fazedor


De sandálias de couro de touro — e
Tychios, o pai dos sapateiros, costurou
Sete peles de boi para o escudo de Ajax. — Outros
Fabricavam couraças para os capitães da Ilíada
Com o couro sagrado de Almatéia — a cabra celeste
Ama de leite de Zeus do Olimpo.

As almas dos touros de Creta cercavam a couraça de


[Ulisses
E os bois dos Inhamuns lambiam nas bainhas
A lâmina das parnaíbas da morte
Com seus punhos de chifre; e guardavam
No traseiro dos quartos ferrados
Chiando ao fogo
Brasão de couro vivo, escudo, marcas de letras
Dos arcontes de Tróias bravios príncipes
Marqueses de si mesmos no castelo reiúno
De currais soberanos.

O boi está no poder de seus couros e seus cornos


E o couro e os cornos são a ressurreição do boi
No ofício e no exercício; e o boi inteiro seu fenômeno urra
Na correia da tampa que abre e fecha
Comimboque de chifre, polvorim de lazarina.

33
Gerardo Mello Mourão

Não saíram, decerto, da oficina de couros de Antônio


[Avelino
Os escudos de Ajax e de Heitor nem os cantara Homero;

Saíram as danças do terreiro — êi bumba-meu boi-


[bumbá,
Saíram as chibatas os rebenques curtos — saíram
Flechas certeiras das bestas de arco reteso
Chiqueiradores, chicotes de vinte palmos
E silvavam e estalavam no ar o contraponto dos aboios
Êi boi ô boi— ô bumba-meu boi-bumbá.

Não os cantara Homero. Eram cantores seus


Uns viventes na noite dos alpendres:
Gemiam na viola gemedeira as excelências e louvações
De encourados e seus couros— e era
Numas cordas de couro de tripas
A cantoria dos cantadores à memória
Dos bois defuntos. Doridas rimas.

Lira cega, cego Homero, de aderaldos cegos


Dedos de couro dáctilos de calo grosso
Refinam, na palheta de chifre, redondas redondilhas de
[pelica
Ao coro do couro dos encourados
Camurças de sete sílabas.

O Capitão Albuquerque e seus guerreiros

34
Algumas Partituras

Das capitanias de Pernambuco, Siarah Grande, Alagoas


Rio Grande, Paraíba e Sergipe dei Rey
Rumo a Alcacerquibir, ao Rei dos Reis, Sebastião,
No sertão do mar cozinhavam cantando
— amargosas vozes —
Em seus tachos de cobre
Para a fome dos marinheiros da Nau Catarineta
As solas de boi de suas botas:

Couro do couro dos encourados


Que coso morto em couro vivo
Neste aboio
Ei boi ou boi êi boi.

35
Partitura Número 2

DE SIBILAS
&

LABIRINTOS
Para

Dora Ferreira da Silva


Algumas Partituras

PEQUENA ODE A UMA PÉTALA SECA OU


AESPERADARESSURREIÇÃODAROSA

para Dora

Entre folhas de versos de Propércio


jaz a pétala seca a flor enxuta;
a rosa úmida e inteira jaz na gruta
do amor e da memória do poeta.

O que era rosa agora é quase espinho


e na pétala seca o que se oculta
é uma rosa de sonhos insepulta
um pássaro do qual só resta o ninho.

Talvez um dia, amor, orvalho e aurora


à mão da musa que a colheu em flor
ressuscitem aroma e forma e cor
e rosa tome a ser o que foi rosa outrora.

Talvez um dia a flauta antiga sopre Orfeu


e à pétala fiel as que se foram, voltem
e da corola nunca mais se soltem
e o rouxinol torne a cantar no ninho seu.
Copacabana, 29/11/97

41
Gerardo Mello Mourão

SIBILA

(Ultimo oráculo)

Perdido nas veredas das palavras


tapa os ouvidos — canto sibilino
não se escuta: olha apenas estes olhos
apaga teus sentidos — só nos olhos
acharás o caminho; sem meus olhos,
somente os meus — redondos neste rosto —
morrerás entre os ínvios labirintos.

Sibila sou — Sibila, a Sâmia, a Délfica *


poetas e pontífices me seguem
olha meus olhos — não te perderás
olha meus olhos e estarás perdido
perdido neles morrerás de amor
e os que morrem de amor não morrem nunca
olha meus olhos — me verás inteira
em teus olhos de morto estarei viva
e minha vida espantará da tua
a morte para sempre — e para sempre
em tua vida há de viver a minha.
12/12/99
*A última Sibila grega, chamada Sibila Sâmia, e também Sibila Délfica, pois viera de
Samos e profetizava em Delfos, teve um longo encontro em Roma, outro em Veroli,
com o Papa Júlio III. A bela cabeça da Sibila Délfica, com seus olhos impressionantes,
está na Capela Sixtina.

42
AlgumasPartituras

TERROR DOS SONS E SILÊNCIOS


DO LABIRINTO

a Juan Raul Young em glosa à velha


história de “Jvany su laberinto”

Sem Ariadne, sem fio, uivos às vezes— lobos, cães.


De onde esses uivos? do quintal de Teresa? esperamos em
vão esse canto do galo na noite em que Araci
recortava os hinos no alpendre do Encantado.
De repente um silvo: de cascavel, de vento
nas folhas do canavial em várzea extemporânea
norte, sul?

E este som crepitante? Crepitavam assim


chamas erguidas
sobre alcatras de bois assadas em teu altar, Apoio:
pode ser tua voz, Apoio Lakeutès, o sacrifício, o odor *
das grelhas de carne assada, odor de sangue e gordura
grelhada
e espetos fumegantes no festim terrível quando

*Apolo Lakeutès — um dos títulos do Apoio — ”vox clamantis" — voz do que clama,
como de si mesmo dizia João Batista.

43
Gerardo Mello Mourão

em brasa e labareda estalam carnes gordas — quando


teu olfato dilatava as narinas do sacerdote de Pigmalião
nesse templo de Kypros entre os mantiarcas endemoniados
ao odor das costelas flambadas do sagrado boi.
Naquele tempo escrevias para teus diáconos e pitonisas
com a ponta do cutelo sangrento
a escritura — cifra de sangue cifra de fogo e entranhas
cor e forma de fiimos, labaredas e o chio
do lombo odoroso dos garrotes
emissários do sacrifício em Delfos.

E pétala a pétala sobre a estrofe de pedra


ias compondo o oráculo.
Onde estás que não lês para teu último profeta
o difícil versículo de semáforos
pendente de teus lábios?

Só tua voz ressoaria o coro das visões


nestes vales de lágrimas
setentriões, meridiões além.

Mas não há norte nem sul nem lésoeste— pétalas


da rosa-dos-ventos dispersas buscam
nos corredores a rosa
dos olhos de uma Rosa de outrora: — ouço passos
suspeitos— pisam devagar— e as folhas
secas chiam — de novo os uivos — e estremecem.

44
Algumas Partituras

Labirintos de Virgílio e Beatriz, labirintos


de musas e sibilas são rumos do delírio —
tento os olhos tento as plantas dos pés tento os cinco sentidos
tento o olfato— pentestrelo setestrelo
no labirinto dos cabelos azuis de Rosa
rolados sobre os ombros de Joana: — chegaria
ao caminho de Rosa ou de Joana?

Outros caminhos: onde donde por onde alaonde? O poeta


precisa chegar a Rosa e à rosa.

Serão os cães da Ibiapaba etrusca ou seria o arrulho


dos pombos rondando o amor no caminho de Tebas — o
gemido
talvez dos rouxinóis estrangulados na garganta de Rosa
canto da sereia ou canto da baleia moribunda
ao desolado espanto do príncipe da Aquitânia
abolido de torres e castelos?

Nos becos e no chão


todalas vozes e as vozes
são teto e chão do labirinto
e as vozes talvez nem vozes sejam
apenas ecos
de sílabas de Lúcia e de Salústia
do soluço de Rosa quando enlouqueceu (naquela noite)
da risada talvez naquela tarde;

45
Gerardo Mello Mourão

vozes sons — matéria-prima do labirinto


talvez nem vozes nem sons, apenas eco
de rumores nascidos da memória onde
também os sons — alguns — mergulham no chão das
lendas:
para sempre Araci recorta os hinos de Maldonado* —
para sempre e para quê?

Jaz perdida entre essas


paredes feitas de ecos e punhais lampejantes — a memória
rosa de outrora — aqui corola sem pétalas sem cor
de seu próprio desterro desterrada; cores também, algumas,
não existem senão nas lendas que aprendemos — lembro
de novo esse perfume no elevador vazio do hotel de
[Frankfurt:
era talvez a lenda do corpo de Salústia. (Salústia! Salústia!)

Já não guardam os pés a memória dos passos


o chão do labirinto é o chão das águas — e águas
não guardam rastros de andarilhos.

*Maldonado, Edgard Maldonado Bailey, velho amigo dos tempos de Buenos Aires,
morou na casa do poeta, no Rio, entre 1941 e 1942. Queria que alguns de seus poemas
fossem cantados por Araci de Almeida. Queria ouvi-los na cadência eólia de seu canto e
no instrumento raro de sua voz. Juntos levamos os poemas à casa da cantora, que se
encantou com o trabalho. Mas advertiu logo que ia “recortar os hinos”, escolhendo os
versos que queria, em espanhol, traduzindo outros para a gíria carioca. Gravamos da
aventura um pequeno disco numa cabine da Agência dos Correios, que então oferecia
esse tipo de serviço. Maldonado voltou a Buenos Aires, onde adotou o nome de Edgar
Bailey, para distinguir-se do arquiteto de Ulm, Tomás Maldonado, seu irmão. Tomou-
se poeta famoso e chefe de escola, o “creacionismo", depois o "invencionismo”. Mas
sempre me escrevia, como eu sempre repito: “é preciso levar todo o nosso trabalho a
Araci; só ela sabe recortar os hinos”.

46
Algumas Partituras

Talvez nos restem restos de algum sentido:


na gema dos dedos o tato
no pavilhão da orelha o assustado ouvido
nas narinas em pânico algum odor.

Nem Ariadne nem Virgílio neste Orco— ilha


cercada de perigos por todos os lados
tateia o tato em vão
os ouvidos temem indecifráveis vozes devoradoras:
restaria a esperança de um perfume esquecido
súbito lembrado: no rastro dos aromas— talvez
possa inventar o caminho da casa na ladeira
das roseiras mouras onde
a rosa rescendera e Rosa fora.

São muitos os labirintos: laberintos em labirintos


o teu, Raul, el laberinto de Juan en su laberinto
e o túmulo do Faraó e as paralelas implacáveis
inumeráveis entre diagonais hipotenusas losangos
trapézios enganosos
triângulos retângulos isósceles parábolas elipses
eclipses do roteiro aqui ali riscadas
por algumas pupilas de enxofre
do Minotauro e seus chifres.

Não só la diritta — ogni— tutta via


era smarrita— e a morte
é um pouco menos

47
Gerardo Mello Mourão

que o pavor dos caminhos indecisos


não-caminhos da cidade dolente e de cidade alguma:
o tempo não encontra seu lugar e não passa e não pára.

E súbitos labirintos marinhos entre as ondas


no fimil das ondas e as vozes
são agora dos ventos eólios, zéfiros euros boreais
e os vendavais uivam uivos de leões-marinhos
e de lobos-marinhos e as auras os favônios trazem
restos de cantos polifônicos
e as ninfas e as sereias oferecem amor e morte.
Iaras de Equadores atlânticos
ninfas nereidas iemanjás do Cabo Verde
essas fêmeas do mar mais numerosas
do que as fêmeas da terra
vão complicando o agouro o desenho
o compasso de hiatos os silêncios os sons
o canto oblíquo lancinante de um chamado
o órgão roto de canto-chão o súbito
clamor de tango sincopado
no labirinto de águas graciosas e cruéis
ondas chamadas ou abismos:

não perecemos de vez — erramos erradios


nas errâncias de golfos inclementes.

Maior— quem sabe?— na perdição dos dédalos malditos


que a voz deliberada e clangorosa

48
Algumas Partituras

é a síncope repentina do clamor


e a mortalha do espaço no silêncio pânico
à pancada da tampa do caixão do morto
o morto de Tegucigalpa no defunto tempo.

Todos os sons embaralham o caminho:


começa e não acaba a matraca da morte
por aeroportos por honduras desse mar de Honduras
na sexta-feira-santa da remota igreja:
vibra no coração o golpe desse malho
nas chapas chispas de cobre do ferreiro perneta.

Perdido o derelicto se interroga: este soluço


longe de quê e próximo de quê?—
nas profundas do labirinto da terra e nas profundas
do labirinto do mar é prólogo ou epílogo
do cur dereliquisti? do
lhama sabacthani?
do Primogênito quando
jorrou no flanco alanceado
a última gota de sangue a última
água da fonte
do agonizante coração?

Só viaja de mim a espuma de mim mesmo


ao estrondo dos ventos volumosos.
Para quê navegar para quê caminhar?
Nem navegar nem caminhar é mais preciso:

49
Gerardo Mello Mourão

a memória perdeu o peregrino


não há mais riscos
quando apodrecem os caminhos
e o perdido é perdido
sem fio de Ariadne sem Teseus
sem oráculo de Sibila sem Delfos e sem Cumes
no labirinto laberintos
do laberinto de Juan en su laberinto
e entre clamor e suspiros
nunca mais chegaremos à memória — nunca mais
nos lembraremos de nós mesmos
agora apenas
transeuntes do labirinto.
A saída é a entrada:
mas onde a entrada
quem revelaria a entrada? Perdidas
a fonte da vida e a fonte da morte
vida e morte são servidas a gotas.

Onde andarás, Apoio?


O deus emudecido ressuscitaria a voz oracular
dos ecos dispersos entre
fumaças rumores de chamas e gemidos roucos
dos sacerdotes sacrílegos mastigando
a carne sagrada de tuas oblações?

Copacabana, 02/12/97

50
Algumas Partituras

RONDÓ DA PRISÃO DE CAMÕES


NO PÁTIO DO TRONCO

Pelas bandas do Rossio


numa taberna de vinhos
guitarras e violões
levaram um dia preso
um Luís Vaz de Camões.

Foi preso por umas rixas


na Porta de Santo Antão
entre alguazis taberneiros
e fêmeas de ocasião.

Luís de Camões, Luís


fora à taberna da praça,
tomar uns vinhos do Douro
dar ares de sua graça

... e quem sabe mais o quê...

Foi contar suas histórias,


seus trabalhos nunca usados
Aljubarrotas e rotas
51
Gerardo Mello Mourão

sonhadas, depois vividas


a Calicutes e Goas
por Chinas Africas índias
de mares e terras boas

... e quem sabe mais o quê...


...beber seus vinhos do Douro
e quem sabe mais o quê...

Entre dois soldados d’armas


levado ao Pátio do Tronco
recebeu voz de prisão
do meirinho Sancho Bronco.

Quiseram tirar-lhe as armas


para deitá-lo no chão:
saltou à frente dos biltres
com sua espada na mão.

Passaram a pôr em termos


o processo da prisão,
à luz de fachos acesos
perguntou-lhe um escrivão
as perguntas de costumes
que fazem na ocasião:

Qual seu nome seu estado


sua idade e profissão

52
Algumas Partituras

onde morou onde mora


se tem pai se tem irmão
se é solteiro se é casado
ou se vive amancebado
com alguma barregã,
onde perdeu um dos olhos,
que coisa veio fazer
na Porta de Santo Antão.

“O que outros não navegaram


por terra e mar naveguei
e num mar de sangue em Ceuta
cinqüenta mouros matei
na ponta de alfanje mouro
um de meus olhos deixei.

Perguntem meu nome ao Tejo


e às águas que vou cruzar
português de Portugal
morei nas léguas do mar
elas conhecem meu nome
elas o sabem cantar.

Idade, tenho a que tenho


mais a idade que terá
o reino de Portugal:
enquanto eu mesmo existir
este reino existirá

53
Gerardo Mello Mourão

se morrer um de nós dois


o outro também morrerá.

Escrivão de suas lendas


curador de seus defuntos
destino meu e do reino
é viver e morrer juntos.
Moro no mar e na terra
nem casado nem solteiro
sou servido em meus serviços
pelas sereias do mar.

De profissão fui soldado


e marinheiro do rei
e o reino sempre chegou
onde eu primeiro cheguei.
Hoje sou cantor das ondas
das velas em seus veleiros
das armas de Portugal
e seus barões cavaleiros”.

Perguntado por seus bens


disse que tinha uma espada
uma lira uma guitarra
e um copo para beber
e que estes bens — sua espada,
o copo e a lira — sabia
manejar como ninguém,

54
Algumas Partituras

nas índias na Costa d'África


ou nas tascas de gaudérios
entre o Restelo e Belém.

De tudo isso vão dar conta


umas rumas de papel
que irá trazer de Macau
molhadas no sal das águas
em naufrágio no Mecongo;
com seus versos de dez sílabas
limados em boa lima
na língua melhor da terra
de estrofes de oitava rima.

Tinha também umas glosas


em sonetos escandidos
sôbolos rios e mares
na língua de Portugal
e nestes versos guardava
o seu melhor cabedal
e o nome de uma senhora
dona de seu coração
mas não diria este nome
diante duma ralé
no pátio de uma prisão.

“Agora saiam da frente


que a espada que matou mouros
mata qualquer alguazil”.

55
Gerardo Mello Mourão

E pela porta de pedra


abriu caminho entre os biltres,
o fero ferro na mão;
saiu cantando, de volta
à Porta de Santo Antão,
onde esperavamjograis
e vinhos verdes do Dão
os marinheiros das índias
e as fêmeas de ocasião.

Fortaleza, 10/12/98

56
Algumas Partituras

OS POMOS DE OURO

HÉRCULES — 1

Nove golpes de citara— e o poeta


viu abrirem-se, Hércules, num sopro, as portas
do Jardim das Hespérides:

das árvores nem peras nem romãs


nem as limas da Pérsia as maçãs e as laranjas:

Elas, sim, guardavam-se a si mesmas:


dos ramos verdes pendiam
nas águas do regato se espelhavam
três pomos de ouro entre as virilhas — e eram
Aglaia e Aretusa e Hespéria.

Copacabana, 29/12/98

57
Gerardo Mello Mourão

HÉRCULES — 2

Matador de serpentes e de deuses


mataste Linos:— só um golpe de lira o mataria —
mataste assim esse filho de Apoio e da Musa
e ainda hoje os que viemos depois
cantamos os hinos e os linos
a lamentosa elegia onde ele mora — onde
moramos todos os que viemos depois
liravivos, liramortos,
a golpes de lira mortos — a golpes
de lira vivos: sempre Linos em nós
sempre os poetas
repetem um poeta para sempre.

Copacabana, 01/01/99

58
Algumas Partituras

HÉRCULES — 3

Doze trabalhos fizeste


só um— que não souberas —
pude aprender com Linos— e com Linos
trabalho meu trabalho dia e noite.

Não consegui matar o Leão do Vale de Neméia


e nenhum dos leões que amaria matar;
não matei a Hidra de Lerna e não ganhei os chifres de ouro
da corça da Arcádia e não cacei
o javali de Erimanto;
tentei em vão nos palácios da cidade
limpar as estrebarias de Augias e o reino
atolado em estrumes;
minhas flechas não flecharam abutres
comedores de carne humana no lago de Stymphalos
nem à beira de outros lagos;
não arrastei o Minotauro de Creta a Maratona
não abati Diomedes nem outros que nutriam cavalos
com a carne dos homens de Bistônia,
não dei à filha de Euristeu o cinturão de ouro
da rainha das Amazonas,
não atravessei o mar em jangada de casco de ouro do sol

59
GerardoMelloMourão

até as praias da Eritéia onde cortaste


o pescoço tricéfalo de Gerion;
enganado por Plutão em seu labirinto
não dominei o carcereiro do inferno.

Terás entrado no Jardim das Hespérides?


Não soubeste completar o último
de teus doze trabalhos.

Meu é o Jardim é meu; só meu: à sombra


de suas fruteiras lavro a minha lavra— e só eu tenho
na concha destas mãos a beleza— e trabalho a beleza
— uns pomos de ouro:
— Aretusa e as outras. E elas são meu trabalho
e meu trabalho se chama Aretusa e Salústia
e Rosa e Helena e moram nas quatro partes do dia e da noite
no jardim de Susana— e as contemplo entre as folhas— este
é meu trabalho— trabalhar a musa —
nas quatro estações — e atravesso primaveras e outonos
trabalhando a musa— e sei
seu nome verdadeiro — e sei
compor coroas de flores e espondeus e verdes anapestos
e digo Eudora Pandora Kalidora
e Linos me ensinou estes nomes e outros nomes
e trabalho a beleza— estes seus nomes, Linos,
tal e qual trabalhavas, Safo,
um trabalho de aurora.
Copacabana, 01/01/99

60
AlgumasPartituras

O POÇO

Todo homem é uma ilha (arquipélago às vezes)


sempre pélago:
todo homem é um poço e neste poço
ninguém mergulha: — o caminho
do fundo do poço é um labirinto.

Chega-se a ele— chegar-se-ia—


por uma gruta e ali ninguém
possui a chave o abre-te-sésamo
dessa caverna de Ali Babá.

Quem abriria os seus baús? Pois algum dia


Todo homem foi algum pirata
Todo homem, alguma vez, náufrago foi
no poço do mar
com sua proa seu galeão.

Jazem ali cobertos de águas


velhos cadernos jamais escritos
talvez escritos— lidos jamais
de sua história suas vergonhas
glórias de sonhos e pesadelos.

61
Gerardo Mello Mourão

Jazem histórias jazem cardumes dos outros homens


tempos e espaços de encruzilhada
também mulheres— muitas— algumas
uma talvez também um poço.

Homem nenhum sabe a história


sabe as histórias de outro homem.

Todo homem é um poço


se alguém chegar ao fundo dele
pode encontrar o ouro e a lama
baú de ossos com seus destroços:

levanta a tampa — ali ainda


sua bravura nunca cumprida
sua tristeza sua alegria:
não é preciso saber de quem
ali ainda estremecera— ainda dói—
o rosto mudo— pureza pura
de um pobre herói.

Copacabana, 09/01/99

62
Algumas Partituras

0 CARACOL

Um taumaturgo pregava aos peixes


outro pregava aos pássaros
bate o poeta sino de bronze
mas para ouvidos de cera— muitos—
toca o poeta sino de pau
ao som sem ondas a voz centrípeta
enrosca a sílaba — é um caracol
vive o poeta com sua voz
no labirinto do caracol.

Copacabana, 09/01/99

63
Gerardo Mello Mourão

LAURÊNCIA

De minha tia Laurência


de tantas boas lembranças,
aos vinte anos de idade
herdei herdades e heranças.

Deixou-me uns contos de réis


no Banco Melo em Lisboa
e um sobrado no arrabalde
por bandas da Madragoa.

E ainda umas terras verdes


no Concelho do Mourão
com seus vinhedos e as uvas
melhores da região.

Deixou uma quinta a meias


com minha prima Celeste
junto às várzeas cultivadas
pelo Senhor Arcipreste.

E também uma terrinha


na Quinta-Flor de Olivença

64
Algumas Partituras

herdada de um tio padre


segundo cartas de avença.

E lá na serra da Estrela
da velha tia Lourença
dez borregos vinte ovelhas
e os queijos feitos na prensa.

E nos bons ares do Algarve


um plantio de sobreiros
uns olivais em Valença
de azeites e lagareiros.

Meu tio Antônio Ribeiro


dos Reguengos do Ramalho
deixou-me sua paixão
pelos naipes do baralho.

Deixou-me um punhal de ouro


mais um baralho francês
e eu passei a morar junto
com damas valetes reis.

Volto aos vales do Alentejo


por norte sul e nordeste
ali sou rico e feliz
bem que nada mais me reste

65
Gerardo MelloMourão

a nao ser os ares puros


da paisagem agreste
e uma lembrança dos olhos
de minha prima Celeste

e da brisa das colinas


a suave rescendência
do doce e querido nome
de minha tia Laurência.

Copacabana, 12/01/1999

66
Algumas Partituras

OS ANJOS

Eram— éramos— seis anjos:


é noite de lua cheia e em noite de lua cheia
não se deve falar de Anael, Mirabel e Agaciel
embora seus nomes possam ser pronunciados
em voz baixa e recto tono
e eu asssim os repito—Anael Mirabel Agaciel.

Os outros três éramos Miguel, Rafael e Gabriel.


Miguel tinha o relâmpago da espada na cintura
degolava demônios—um dia
viu um mágico engolir no circo a espada nua
sorriu, meteu a sua pela garganta abaixo e a garganta
nunca mais a devolveu

Rafael desvendava os pontos cardeais na bússola dos olhos


— sabia
conduzir Tobias e os viajantes emgeral por todos os caminhos
— um dia
encontrou o poeta
entrou num labirinto e segue para sempre
as parábolas ób-vias as elipses ín-vias
perdido para sempre ou para sempre fascinado

67
Gerardo Mello Mourão

pela abundância dos caminhos inesgotáveis


errâncias de para lá da rosa-dos-ventos.

Gabriel anunciava às mulheres a chegada dos filhos — um


dia
anunciou a uma Virgem a graça de sua criança
e emudeceu para sempre.

Vina dei Mar; Chile


Algumas Partituras

ÚLTIMA ELEGIA

Moradora da última elegia


só através do véu do madrigal diáfano
verso por verso, süaba por sílaba
te contempla o poeta a aparição do rosto.

Não houve nunca alguém que contemplasse um rosto de


mulher:
só o cantor da madrugada o vai compondo
ao tom da serenata e à janela fechada (não precisa abrir-se)
bosqueja a luz a sombra do semblante amado.

Buscarias o espelho e ali e só ali


imersa e emersa em todas as auroras
os redondos olhos hão de ver
a romã da primeira madrugada.

Eras uma vez e serás uma vez uma romã de ouro e cristal
e à sombra de suas folhas ouvirás um sopro entre os cabelos
e verás com sua flauta de dois furos te fitando
entre seus cornos de marfim— os olhos do sileno.

E aquém e além do tempo através desses véus


da última elegia, do primeiro madrigal,
69
Gerardo Mello Mourão

poderias, formosa,
reconhecer a própria voz — a que compõe e afaga
as linhas para sempre de teu mero rosto
moradora que moras para sempre
na primeira manhã
na rosa de cristal e na maçã de ouro
na pupila e nos chifres de marfim do tocador de flauta
erguidos sobre a testa entre as folhas do bosque.

La Serena, Chile

70
Algumas Partituras

LABIRINTO — 9
:Sipf
Homem nenhum é uma flecha;
de coração a coração
da alma tua à minha alma
o caminho mais curto não é a linha reta:
é o labirinto
e o labirinto em linhas retas mastros velas curvas ondulantes
e precipícios e vulcões.

E me encontro e me encontras para lá


das colinas do tempo.

Sem o prisma indeciso dos caminhos ambíguos


perdem-se paisagens, as ribeiras do rio
os acidentes da viagem; — a viagem
não é a chegada nem a partida:
viajamos viajando o desfrute
desse bosque e outro bosque— umas árvores uns frutos
e vales e montanhas uns abismos de pedra
e abismos de águas salgadas e águas doces;

homem nenhum é uma flecha


habitamos rodeios e polígonos
serras planaltos cordilheiras:
Gerardo Mello Mourão

cada passo tem seu tempo e há tempos, muitos,


entre alegria e dor no coração que caça
o tempo da cobiça
o tempo do desejo de uma alma azul
afagada através do cristal de sua alma longínqua.

A caça e o caçador deixam seus rastros


no caminho do bosque
e ali se afinam e refinam
todos os sentidos: e o rastro encontra rastros
de caçador, de caça:

de suas
sombras apalpadas
pode erguer-se o sopro de uma voz
o sabor do pêssego maduro— pêssega—
e o aroma— teu aroma— perdido e achado
em relva e gruta — e ali estremeceras trêmula
ao beijo de uma estrela.

Homem nenhum é uma flecha


todo homem é uma estrela e busca a estrela
no labirinto de sua órbita — no arco
azul do firmamento.

Salerno, Itália, 2000

72
Algumas Partituras

LABIRINTO DA VOZ

Erguem-se curvam-se os matizes


das vogais de teu corpo nesse labirinto
das vogais— o arco-íris
sete cores e cordas coloridas
entre seios I lábios e garganta

essas luas nos banham


e eii te perco e me perdes— aqui azul
ali dourada ou verde a violeta
da sílaba a que chegamos:

quem serás, quem não és


na rosa das vogais em botão
que sopras ou dedilhas ao crepúsculo. Viriam
nessa voz
umas pétalas — da aurora ou do crepúsculo?

Aguarda minha voz— aguardo a tua


na orelha a mão em concha
espera sem saber o quê— e o labirinto
arrulha e canta — às vezes uiva -r-
e os véus e as púrpuras e os celestes mantos

73
Gerardo Mello Mourão

de ditongos e sílabas dissüabos


vestem os corpos nus dos que repousam
da orgia da esperança.

As vezes se põe mais bela a noite em tua voz — e sempre


te pões mais bela em tua voz na noite.

E à noite recomeça de novo a orgia da esperança


o sonho.

Beja, Alentejo

74
Alguma$Partituras

AFLECHADEEROS

Areo de Eros flecha de ouro


ensinou-te Afrodite, a sabedora
dos caminhos do amor
e dos leitos dos deuses:

o caminho da flecha é a figura do arco


da corda na curva tenaz:
a desfechada seta busca o alvo
pelos arcos balenos e as balísticas
arco ela mesma no recurvo espaço
e ao vento eólio baila na viagem
e leva a elipse aventureira
ao coração do desejado amor
em rumo de parábolas, cones e helicônios.

Só teu punhal, Benevenuto,


conhece a reta cruel
de ponto a ponto
a viagem da morte:

o caminho que sabemos,


dança a dança de roda dos infantes.

75
GerardoMelloMourão

Os amantes não habitam tempos nem espaços


moradores do mito andamos de mãos dadas
pelos quintais da aurora— e nunca
se desfolham ou murcham as pétalas mancebas
na corola dos rostos que guardamos:
esta é a viagem de nossa própria história
ondulosa de seios e serpentes de água.

E por esses caminhos de redondos seios


de redondos olhos
a teu rosto se chega: ele foi feito um dia
de material de aurora —* e essas matérias de aurora
torneiam para sempre forma e formosura.

Aos que encontram, formosa,


o amor no rosto do crepúsculo:
a flecha de Eros desenha voz e risco
e estratagemas gemas desse amor
na mão subitamente sabiamente curva
de Cellini.

Nápoles

76
Algumas Partituras

MEU PAI, MEU BEM, MEUJESUS

Naufraga em poço de tédio


agoniza na agonia
este que amaste e chamaste
e à beira da perdição
só tem a noite e o silêncio
que rompe para clamar-te
meu pai, meu bem, meu Jesus.

Tenho o corpo em chaga viva


e um mapa de cicatrizes
cobre-me a pele da alma:
só me resta a voz intacta
da língua despedaçada
na poeira da garganta,
meu pai, meu bem, meu Jesus.

Já não há sol não há lua


nos dias ladeira abaixo
talvez no túnel da noite
estremeça ainda a estrela
guardada pela neblina
das memórias da inocência,
meu pai, meu bem, meu Jesus.
77
Gerardo Mello Mourão

Se vivo, quero viver


lembranças das alegrias
daqueles tempos primeiros
quando era o primeiro amor
quando inventei o teu nome
na manhã da infância em flor,
meu pai, meu bem, meu Jesus.

E na hora da partida
as palmas das mãos ungidas
dos santos óleos — e acesa
a vela benta a monção
da viagem derradeira
quero dizer com ternura
meu pai, meu bem, meu Jesus.

Se no mármore ou granito
sobre meus ossos transidos
levantarem uma esteia,
sobre ela escrevam meus filhos:
“o poeta que aqui jaz
morreu dizendo baixinho
meu pai, meu bem, meu Jesus”.

Muro Lucano, Itália, 2000

78
Algumas Partituras

FUGADECAPRI

De Tróia resta Helena


do rosto resta a ruga
de Tróia resta Helena
de Capri resta a fuga

do vinho resta o sono


de Tróia resta Helena
de Lúcia resta a carta
do sonho resta a pena

de Capri resta a fuga


da morta resta um cravo
de Tróia resta Helena
do gosto resta um travo

dos dois resta um retrato


de ti resta a açucena
do beijo resta a boca
de Tróia resta Helena

do canto resta um verso


de Tróia resta Helena
de Capri resta a fuga
do olhar resta uma pena

79
Gerardo Mello Mourão

de Capri resta a fuga


do amor resta a balada
da viva resta a morta
de tudo resta nada.

Firenze, 1954

80
Algumas Partituras

GLOSA E CONTRAPONTO
DE ANTÔNIO BOTTO*

“Eu quisera dar-te um beijo,


eu quisera dar-te um beijo
onde o teu brinco os vai dando”.

* * *

“E eu quisera, Praxiteles,
pôr a mão onde puseste
a mão de tua Afrodite:
sobre esses pêlos ocultos,
na palma daquela mão
pôr meus olhos meu desejo
e ao desespero de um beijo
naqueles lábios abertos
meus lábios meu coração”.

* Em noite de vinhos e um memorável risoto de borrego, em 1954, em minha casa, eram


convivas o poeta Antônio Botto, o Conde Edmondo di Robilant com sua bela Helena,
Efrain Tomás Bó, José Francisco Coelho, Almeida Salles e José Geraldo Nogueira
Moutinho, que lhe ofereceu uma bela gravura da famosa Afrodite de Praxiteles, com a
mão casta encobrindo o delta das virilhas. A um movimento de cabeça da Condessa
Helena di Robilant, meneando uns longos brincos venezianos, o poeta recitou os três
versos acima, de um de seus poemas. O Conde tomou-lhe das mãos a Afrodite de
Praxiteles, e improvisou em italiano a glosa que aqui traduzo literalmente. - GMM
Ricordo de 1954

81
GerardoMelloMourão

AMPHION CONSTRÓI TEBAS

E assim, pedra por pedra, as sonoras muralhas


de Tebas engrinaldaram a cidade da rainha Antíope
antes das ghirlandas
de Ghirlandaio em muros de Florença:

Era belo o punhal de Amphion entrejorros de sangue


do coração do rei e sua cortesã:
e na lira de cipreste ensangüentada—feita por Hermes, dizem,
cordas montadas afinadas por Apoio
dedos úmidos de sangue do amoroso filho
as canções e os hinos inundavam os campos
dançavam animais e arvoredos
e as pedras caminhavam compunham a harmonia
dos muros melodiosos da cidade.

Assim anunciara Orfeu assim brotavam


as casas os muros as cidades
naquele tempo
pentâmetros, hexâmetros de pedra
das ágoras aos muros:
tempo de amor e morte.
Rio, 2000
82
Partitura Número 3

LIRA DA CHINA
Algumas Partituras

DO ALTO DA TORRE DE YU-CHOU

Ch’en Tsu-Ang *

No passado não vejo os antigos.


No futuro não vejo os outros.
Penso no infinito imenso céu e terra.
Estou só, com minha dor lágrimas descem.

*Ch’en Tsu-Ang, poeta chinês da dinastia Tang (661-702), que foi conselheiro da
imperatriz Wu Hou. Esta e outras traduções chinesas aqui apresentadas foram feitas
com a ajuda do Padre Joaquim Angélico Guerra. O texto poético aqui tentado resulta
da tradução literal, que me era feita “verbum ad verbum" pelo saudoso jesuíta por­
tuguês, talvez o mais erudito dos sinólogos ocidentais, com quem convivi intensa­
mente em Pequim, em Shanghai, em Guanshu e em Hong Kong e Macau, onde fui seu
hóspede na velha residência dosjesuítas, do século XVII, entre 1980 e 1982. Devo-lhe
também aquilo que ele chamava a “acústica"dos versos, cujo ritmo original a transfigu­
ração na língua e linguagem aqui experimentadas busca o eco pentatônico da limpa e
sonora musicalidade da poesia chinesa da idade de ouro.

85
Gerardo Mello Mourão

LUA DA FRONTEIRA

LiPo*

De para lá de Tien-shan veio chegando o luar,


já agora ao longo do mar das nuvens.
Sopra, caminha sobre o Passo das Pérolas
um vasto vento de mais de dez mil li.**

Os Han descem pelo caminho de Po-teng,


os hunos espreitam desde o golfo de Ch’ing hai.
Desde os tempos primeiros jamais se viu alguém
voltar à casa dos campos de batalha.

Os homens olham as terras da fronteira,


dói a saudade na amargura do rosto.
Na alta torre anoitecidas pela noite longa
gemem sua tristeza as mulheres desoladas.

* Li Po será, decerto, o m ais fam oso poeta chinês. Nos dias da dinastia Tang era
chamado “o ano da poesia", enquanto Tu Fu, o outro grande poeta que figura a seu
lado, era chamado “o anjo bêbedo".
* * M edida chinesa de itinerário.

86
Algumas Partituras

PENSAMENTO NOTURNO

LiPo

Levanto-me da cama — o mundo é claro e transparente


estaria a terra coberta de neves e geadas?
Ergo os olhos:— é a lua.
Baixo as pálpebras: sonho com minha terra.

87
Gerardo Mello Mourão

TEMPLO NO ALTO

LiPo

Templo no outeiro alto, é noite: hora


de levantar a mão e acariciar as estrelas:
recolho a mão, silêncio, medo
de despertar os moradores do céu.
Algumas Partituras

FLORES NA BEIRA DO RIO

T\iFu

Uma flor valeria uma vida? Morrer por ela?


Tenho medo: apaga-se a beleza ao chegar a velhice!
Quebram-se os ramos carregados: caem as flores
[despetaladas.
Novos botões de flor se consultam e se abrem docemente.

89
Gerardo Mello Mourão

POEMA ENVIADO A TU FU, MENTOR


DA CHANCELARIA IMPERIAL

Ts’en Shen*

Juntos descíamos às pressas a escadaria vermelha,


cada um a seu escritório cercado de rosas escarlates,
entrava-se ao amanhecer, em fila, no cortejo do imperador
saíamos ao crepúsculo impregnados do incenso imperial.

Agora tenho os cabelos brancos e sofro quando caem as


[flores
tu vives nas nuvens azuis, admiro teu vôo de pássaro.
Não tens processos a censurar no trono sagrado,
bem sei, são poucos os papéis para censura.

* Tsen Shen, muitas vezes chamado Ts’en Tssan, era funcionário imperial, como a
maioria dos poetas chineses, que entravam para o serviço da corte depois de diSceis
concursos. E considerado um mestre de quadras breves, mas muito admirado por seus
poemas de peripécia das batalhas. Em muitas delas tomou parte, como mandarim
guerreiro.

90
Algumas Partituras

O CANTO DE LUN-TAI

dedicadoao GeneralFengna expediçãodo Oeste

De Lun-t’ai, de sua muralha alta


o som do como rompe a noite
nas bandas do norte de Lun-t’ai:
o sol dos bárbaros se põe.
Chega a mensagem de Ch’u-li
durante a noite,
o chefe dos hunos já se acampou
no oeste dos Montes de Chin.

Já da torre da guarda bem se avista


poeira escura e fumaça a oeste.
As tropas dos Han se ajuntam
a norte de Lun-t’ai.
O general empunha a bandeira
busca a batalha a oeste.
Amanhece o clarim
o grande exército está em marcha.

Chega de todos os cantos o rufo dos tambores


seu eco ressoa no mar de neve
ergue-se sobre o monte Yan

91
Gerardo Mello Mourão

o clamor dos três exércitos.


Urram os bárbaros à frente das tropas
rugem nuvens pesadas,
ossos brancos no campo de batalha
cobrem as ervas e as raízes.

Num Rio de Espadas uivam os ventos


caminham as nuvens
escorregam os cascos dos cavalos
nos bancos de areia entre pedras de gelo.
Mas tu, vice-ministro, fiel a teu rei
amargas fadigas agüentas,
juraste salvar o país
e levar a paz às fronteiras atribuladas.

Quem não teria lido


as histórias das façanhas antigas?
Mas hoje teus feitos gloriosos
cobrem de sombra os homens do passado.

92
Algumas Partituras

ADEUS

Wang Wei*

Me apeio do cavalo, te ofereço vinho:


Para onde irás, querido amigo? —
Meu coração — disseste — está vazio.
Quero voltar à paz dos vales no país do sul.

E vais partindo. Nada mais te pergunto.


Somente as brancas nuvens são infinitas no tempo.

* Wang Wei (699-759) era poeta, pintor e médico. Vale lembrar que a profissão de
médico, em seu tempo — e ainda hoje, de certo modo — se confunde na China com as
artes da magia. Exerceu altos cargos políticos, participou de revoluções, e sua poesia,
como a de tantos de seus contemporâneos da dinastia T’ang, canta as batalhas, as guer­
ras e os heróis militares, num tom que não é comum no Ocidente. Pois lembram, aci­
ma de tudo, os sofrimentos dos guerreiros, a nostalgia da pátria distante e das aldeias
de onde partiram.

93
Gerardo Mello Mourão

SUL DO RIO

Wei Chuang*

E quem não sonha com Chiang-nan?


Ver Chiang-nan e morrer! morrer nas águas da primavera!
ó águas de esmeralda mais vivas do que o céu e ali
na corola de um barco ouvir a chuva e adormecer...

A lua diáfana de tua beleza entre as dornas de vinho


nessa alvura macia de teus braços de neve.
Não deixes o sul do rio antes da noite de teus anos
pois ao partir de Chiang-nan se parte o coração no peito.

* Viveu nos anos de 900. Natural do norte, encantou-se com as baladas do sul de que

este texto é uma amostra antológica da pauta da poesia Tz'u, feita para ser cantada.

94
Algumas Partituras

ESCUTANDO TS’UNG TAI TOCAR


A “ÁRIA DA FLAUTA TÁRTARA”

dedicadoaograndeSecretárioFang

Li Ch’i*

Faz muito tempo— no tempo antigo— um dia


a bela Ts’ai compôs “A ária da flauta ”,
a longa canção
de dezoito estrofes.
O pranto dos Hunos
orvalhava a erva dos caminhos,
o mensageiro dos Han, o coração partido,**
buscava de volta sua casa.

Olhava os velhos postos de guarda cobertos de folhas


as águas apagaram os fogos
no grande deserto as sombras profundas

* Li Ch’i, nascido em Tung-chuan, é um mestre da estrofe de sete versos. Não se sabe


muito de sua vida. Era vice-prefeito, portanto mandarim, em Honan, em 725. A biblio­
grafia da poesia Tanglbe consagra três livros de poemas. Sua poesia se distinque por
um tom especial de música e de dança, e lembra freqüentemente as fronteiras e as guer­
ras de seu tempo.
* * Os Han são a raça chinesa propriamente dita.

95
Gerardo Mello Mourão

na candidez da neve flutuavam.


Aqui, agora, vibra a segunda corda,
depois a terça, a quarta do alaúde,
e por todas as bandas as folhas do outono
em trêmulo sussurro vão caindo.
És tu, meu mestre, Tung, cheio de divino sopro,
os pinheiros te escutam em silêncio
chegam almas enfeitiçadas.
As palavras voam de seu casulo
todos se movem ao longo de tua mão
ora longe, ora ao lado,
ao vai-e-vem dos sentimentos.

Centenas de pássaros na abóboda do monte


se perdem e se acham,
longe, as neves errantes
ou escuras ou brancas.
Canta plangente o pássaro indefeso,
Perdido à noite de seu bando
o menino tártaro abandonado
lança um grito desesperado à mãe perdida.

Súbito o rio amaina suas águas


os pássaros seu canto silenciam.
Das raças de Wu-chu,
longe de sua pátria e de seus lares
entre as areias e a poeira de Lhassa
elevam-se queixas e lamentos.

96
Algumas Partituras

Já muda seu compasso o triste canto


e agora é um turbilhão de vozes
um grande vento sopra na floresta
a chuva se despeja nos telhados
a água rola em borbotões
desce torrencial dos altos troncos
chega das selvas até as casas assombradas
o uivo das feras selvagens.

Na cidade de Ch’ang-na,
nos muros ocidentais do palácio
frente ao lago da Fênix
na porta de Ch’ing-so
altos portais majestosos e ricos
esperam dia e noite que tu chegues
com teu alaúde na mão.

97
Partitura Número 4

CARTÕES POSTAIS
Algumas Partituras

ATENAS

paraDanai

Para lá do epitáfio ditirambo epitalâmio — para lá


dos louros na testa dos heróis
Péricles, Tlicídides,
ó céu, ó mar
ó mármores
o azul o verde o branco — todas as cores
estão no azul e são de azul
e são aqui
o azul azul,
ó rosa azul!

No tálamo das mãos da voz ou da pupila —


pode o poeta possuir
despetalar a rosa—
desmanchar a rosa de Atinaia:
nosso ofício, Diônisos.

Compor e recompor essa corola


nosso ofício, Apoio— nosso.

101
Gerardo Mello Mourão

0 efebo tira da beleza do pé o espinho e a dor,


para o passeio pelas ruas onde
passeiam musas e em silêncio
Alcibíades dobra a esquina
um orvalho de sangue ou de rubi goteja
a gema dos dedos: — sombras
(Platão? Orfeu?)
passeiam pelo oitão
da casa de Danae ou Galathea
sentam-se às vezes nessa escada de pedra
ao pé do Parthenon— contemplam tempos, transeuntes:
mercadores da Anatólia uns padres de Bizâncio
outeiros de monges desse Monte Athos
mulheres de Alexandria, Christos Klairis e Kavafis,
A&nvai— AGtivtüv —Athenae— Athenarum— nas Atenas
tantas
à brisa da manhã, ao silêncio do céu ao burburinho da ágora
fazem — desfazem
de novo e sempre
dessa abóbada de Zeus, desse mar de Poseidon, deste
[mármore
a rosa de Pieria — rosa a mesma
de Afrodite e Helena e algumas putas de Kypros
entre mesas e saxofones de night-clubs arcaicos.

E vez por outra, na calçada acaso da Rua de Orfeu,


te encontro os olhos, sibila e musa — ninfa também:
boa noite, Dora da Grécia,
tu, notícia e saudade da Grécia — tu,

102
Algumas Partituras

alegria da Grécia.
Homero, o Cego —, oferece aos deuses
a beleza de Heitor
as crinas de seu cavalo e seu elmo de prata;
Briseidas indóceis
tomam banho de lua pelas bandas do mar— dos mares
teus, Homero,
mares cor de rosa —
até que um sol de aurora venha
fulgurar entre a lança e o escudo de Aquileu— e tua voz,
Cassandra,
ao longe, sopra
os cílios ruivos de Odisseu: gota de sangue, espinho
rosa para sempre— pois, o azul os ares lava e tudo
ali está na rosa
e a rosa em tudo—
ó rosa azul em talo vertical na cauda
e na garupa, Dora,
de teu cavalo azul, da nave calipígia: —

sobre as espumas
cavalgava à lua, calipígia também, nossa amiga Melpômene.

És a cidade andante: sobre ti mesma caminhas pelas ruas


como o mar em suas ondas.
Penélope de ti mesma te teces e desteces
na colina dos tempos, mãe das cidades,
amante insaciável arrastas pelas ruas teus poetas

103
Gerardo Mello Mourão

és a fêmea da noite és a virgem dos sonhos


a adúltera das janelas suspeitas e teus amantes
te conhecem pelos nomes das troianas, das gregas,
das rainhas das ilhas, das mulheres de Homero:
Ninfa nua, Ninfa de túnica diáfana
te vestes e te despes
e as mesmas águas mostram e ocultam as curvas de teu corpo.

£ um dia eu te chamei de Pallas numa esquina


e eras Afrodite e eras Helena e caminhavas
com teus mantos azuis e sem teus mantos longos
nas areias agora do Piréu— e eras
a menina do bordel e as inscrições dos muros
anunciavam, Phrynéia, tua casa no beco e os drachmas
da eternidade de uma noite contigo:

e eu te dei o nome insensato de Rita — (Rita Hayworth?)


e eras ela e eras às vezes a ginandra o andrógino
tinhas o olhar lacustre dos efebos — a graça
de Ganimedes no banquete dos deuses e todas
as formas da beleza.

Os heróis de todas as cidades plantadas por Apoio


entre parreiras e oliveiras — as mulheres de todas as
aldeias
cobertas pelo céu de teus deuses — e os deuses e as deusas
nasceram em teus bairros antigos e modernos e sustentam
a adolescência prístina de tuas

104
Algumas Partituras

ruínas juvenis.
E ergues o punho viril de um general do mar
e os marinheiros helenos — que a vaga iônia criou
belos piratas morenos— do mar que Ulisses cortou
cruzam nos cafés da avenida com Temístocles, Tucídides,
e os heróis te aclamam com o povo da ágora.

Tua beleza, Alcibíades,


ilumina olhos de Sócrates
palavras de Platão e o manto
do silêncio cobre as praças: o silêncio
da morte de Diônisos e Orfeu: — de dentro dele
a palavra sagrada rompe os tempos— hinos de Píndaro
orvalham coroas de louros de mancebos olímpicos
contempla Xenofonte o rosto formoso desse avô
o mais belo dos homens ao subir e descer
as colinas do tempo e as colinas do mar.

Chegam cantos das ilhas cantos vesperais; — alegres ritmos:


celeste amor de Safo e suas anjas querubinas em transe
e nas tabernas o coro dos bêbados trinca o crater espumante
de Anacreonte — o canto da sagrada orgia de Diônisos.

Súbito o oráculo de Apoio fiilgura seu relâmpago


Péricles preside a anfictiônia para lá do epitáfio, Tucídides,
ouve-se a Oração da Coroa, ouvem-se os goles
da cicuta na garganta de Sócrates e as lágrimas geram
o nomos eterno de Antígona e o nomos dos tiranos

105
Gerardo Mello Mourão

e começamos a conversar de musas helicônias


a esse rio de vinhos de teus cabelos
crinas de Aretusa ao vento jônio
no jardim das Hespérides entre a cintura e os ombros
ao teu longo perfil as ancas ondulantes
égua de Parmênides,
teu derradeiro amante embriagado
arrasta-se clamando teus nomes insensatos.

Apxo|XETOU aieiSeiv — Rita —


Rita Hayworth e teu nome adriático, Teresa, condessa
Guiccioli e os nomes
de deusas negras Magna Grécia além, Jonathan Boulting além,
Sulamitas, Cleópatras, Josefinas de insensatas ilhas e Áfricas
[antigas
todos os teus nomes, Athenae Athenarum:
ó Polis de Apoio!
E depois de escrever todos os teus nomes
nas águas do Helesponto a nado o desvairado inglês
sílaba por sílaba os repete—EleuEqeria— e dos lábios que
roçam
a orelha de todas as amantes, murmuramos
todos os teus nomes, de cítaras brotados
nessas noites de Safo e Anacreonte:

no delírio da febre e da agonia os exalaste, Georges,


junto à orelha das ondas e da morte em Missolonghi —

106
Algumas Partituras

ao som de flautas e cítaras à sombra


dos últimos loureiros me ensinaste
e o nome das nove musas e de todas as deusas
e todas as mulheres.

e desses nomes vivo


e desses nomes morro entre colinas — morro
e ao canto de Danae Stratigópolos
tiro o chapéu curvo a testa
nesta esquina de tua rua, Orfeu,
e anos e anos depois te volto a repetir
a saudação dorida:
Boa noite, Melpômene Mourão.

Ricordo, Atenas, 1967

107
GerardoMello Mourão

BELÉM DE JUDÁ

paraLilia eJoão

Meninos voltam da escola


jogam pedras
contra carros de guerra
os infantes Davids e os Golias blindados:

no alto da basílica do Menino


uma estrela estremece e sangra
soldados surram meninos
coronhas e pontapés e bofetões
e a bota pisa o lírio
e o campo de batalha ensangüenta
santuário e tabernáculo— e o inocente morre de novo
perpetuamente morre
no próprio berço.

Tomamos sorvetes e refrescos de laranjas palestinas


no bar— outra estrela persiste— há condessas ainda —
e aos olhos da Di Robilant— e aos teus, Lilian,
condessa uns tempos
de teus condados, João,
brota o olho da estrela no cristal do vinho.
108
Algumas Partituras

Ares de Belém por onde um sino


busca a janela da loja— e o vendedor em árabe
vende estrelas de latão além do tempo.

Padres gregos diáconos armênios bispos de Bizâncio


levitas de São Petersburgo frades franciscos
colhem da pedra o menino— a baioneta escreveu-lhe
uma estrela de sangue na testa— passa um velho entre
mulheres da Samaria, Galiléia,
Gálias, Galícia, Gales, Galácia, Galápagos e Galibis — nezireus
galileus galos gaulos gauleses gálatas galegos galaicos
gaélicos galeses e outras galáxias
romanas, nazarenas, a mulher de Urias e as de Salomão
a harpa de suas pernas entre linhos de túnica:

flutuam
no poço de seus olhos anjo e estrela— estrela dalva
sobre esteias perenes de deuses e de heróis.

Cruzam anjos e satãs pelas calçadas.

Nosso olhar nosso ouvido esperam no ar alguma coisa


(não sabemos bem o quê)
esperamos a esperança talvez— pois
toda espera é a espera da esperança
bêbados somos na orgia da esperança
e a esperança é a orgia em que vivemos
e um Deus pode nascer em qualquer madrugada:
e somos todos cavaleiros galantes da mesma tribo
ao canto galiambo do Galo de Israel ali nascido
no Cantagalo da Estrela d’Alva.

109
Gerardo Mello Mourão

Jerônimo e Isaías espreitam, às vezes ladram, na gruta,


e há um choro nas esquinas— choro
de um menino uma açucena um pastor um rei sem reino
e de todos os reinos.

Ali cantam estremecem gemem


pedras da rua— sagradas pedras
corações pisados.

Ali nascemos todos, Maria, e ali— meu céu, meu chão,


teu poeta hei de ser e também teu menino,
filho de Judá, corda da lira de David, verso de seu salmo,
entôo threnos de Jeremias. Hoje leio, Baruch, a carta dorida
de Babilônia, notícias de Jechonias e Joachim:

E destas ruas onde eram os príncipes de Israel


e seus vestidos de ouro e suas filhas morenas
canto e saúdo a pétala,
tua província, Jerusalém, Jerusalém! Flor das províncias

eu te saúdo
na flor do lírio de teu regaço, rosa rosarum
virgo virginum preclara
mihi jam non sis amara
apoiada ao ombro humano de José, vergine madre
filha de teu filho.

Ricordo, 25/12/96

110
Algumas Partituras

BELÉM DO PARÁ

paraAntônioAmaral

Das mangueiras de ouro pende o outono de Capricórnio


e o vento do capim-de-cheiro
rescende a cajás e lençóis — e a lua espalha
na volúpia da tarde de alecrins e arruda-de-quintal
e essas damas-da-noite esses jasmins e aloendros — oleandros
donde chegam
um cheiro de mulher e um cheiro de cidreiras.

A inconsútil blusa aderida à água da pele


cabelos pesam— lisos, fluviais — ruas empinam bustos
das janelas que arrulham e arfam
entre a selva e as águas:
elas, filhas de águas e terras estarão flutuando
com seus corpos dourados entre folhas sobre
igarapés azuis.

“Adeus, meu pai, minha mãe,


adeus, Belém do Pará”.

l li
Gerardo Mello Mourão

Chegados de longes terras,


cansados de muitas guerras— forasteiros
adormecem nas betânias morenas
e acordam aos clarins da banda em galas
de dobrados e valsas nos coretos em flor.

Vai tudo amadurar— está tudo já de-vez


as mangas as raparigas os cremes de palmeira
os sumos do açaí, os sumos das meninas,
os sumos dos frutos da terra e dos frutos do mar
nas cuias das vendedoras da esquina.

Santa Maria de Belém do Grão-Pará


queima em seus círios de Nazaré
grãos e peles de amantes:— nesse equinócio não se peca: —
o pecado rescende a fumaças de incenso
entre as águas e folhas de macela e as praças onde
gemem as noites, se espreguiçam as tardes
e as auroras cantam seu canto elementar
à volúpia da cidade e seu olor: e as raparigas banhadas de
[lua
farejam o cheiro do talictro e o poeta guarda na língua
um tremor de jambu —
adeus, boca madura de Nazaré dos cheiros,
adeus, Belém do Pará.

Ricordo, 28/12/1996

112
Algumas Partituras

PRAGA

Canta o Moldava cântico das águas


e as pedras cantam pelas
ladeiras do castelo e o canto ressoa
na que foi a ponte de Judith ponte
de Carlos ponte das meninas e elas
dançam de nariz empinado
a dança de seus olhos de ouro e narinas desejosas farejam
e cabelos ondulam ao longo de seu rio.

Também ando, poeta, pela Malvasinka e toco o rosto


dos anjos de asa quebrada e — aqui
o vetusto é novo e o novo se envelhece e o gótico
se faz barroco e o barroco é gótico e Santa Inês repousa
ao lado da sinagoga e a sinagoga nova se chama
Nova Sinagoga Velha: — o corpo do tempo e o corpo das
casas
ocupam espaços de outros tempos tempos de outros espaços.

Desfilam apóstolos na torre e o galo canta


na torre de São Galo e compõe a primavera na praça
nas naves das catedrais passeiam
Mozart de casaca azul e Beethoven

113
Gerardo Mello Mourão

de zimarra preta:
uma loura cantarola Smetana um rapaz assobia Dvorak,
e João de Huss cruza com João Nepomuceno e no cemitério
estremecem cantam os ossos dos judeus na cidade judia
e os reis cantam o hino de ferro das armas de Venceslau:

uns rapazes forjam o bronze cunham moedas de velho cunho


de reis antigos
na praça republicana e carolíngia
e o poeta, Sócrates, é o rei,
e o rei Vaclav é o poeta, Platão.

Cantam as ruas e nas ruas desfilo


nas falsas carruagens nostálgicas —
turista da cidade e das eras
e o cocheiro subitamente antigo anuncia as alquimias reais
e as casas são chamadas por seus nomes:
esta é a Casa do Sino de Pedro, ali a Casa das Três Rosas
a Casa do Cavalo Negro a Casa do Lírio de Ouro, a Casa
da Chaleira de Ouro, a dos Ursos Dourados,
a da Fonte de Ouro a da Coroa Francesa
a dos Leões de Ouro, da Balança de Ouro,
da Águia Vermelha, dos Teatinos —

busco tua casa,


Rainer Maria, e a tua, onde a inscrição estulta de teu pai
em muros melancólicos
indica a casa e o túmulo do “Doutor Franz” —

114
Algumas Partituras

e Franz Kafka caminha perdido


emsua cidade— também eu, sem Mylène, perdido
com Peralva e Yuko
no celeste labirinto de Praga. Caminhamos sobre
ladeiras de sinfonias tempos sinfônicos séculos
de empoeiradas flores
e nosso corpo ocupa o espaço
do corpo de Franz e Rainer e outros.

Ricordo, 1997

115
Gerardo Mello Mourão

RIMINI

Treme a boca da noite treme a boca da lua


treme a rosa azul do mar
e a folhagem ao vento — sempre podem amantes
morrer de amor e estremecer
beijados pelo beijo
de tua boca. — Assim, Francesca,
em sua espuma à boca da areia lívida
morre o azul do Adriático.

A turista alemã e a turista romana


conversam à porta do hotel
saúdam o poeta e não sabem:
saúdam amor e morte — e
este é o tempo este é o sítio de amar e de morrer.

Os sapatos repetem no mármore da praça


os coturnos de César e o som
dos cascos dos cavalos, dos soldados da Gália:
venho de longe
rubicões dos bárbaros, tapuias, celtas, também helenos,
Euclides.

116
Algumas Partituras

Na laje da igreja dos Franciscos de joelhos


entrego em vão os dízimos ao frade il resto dei carlino
resto, rastro, rosto de amante entrego
à lâmina de Malatesta — medo em vão de morte e amor:

aqui alcovas são alcovas de amar deveras e morrer deveras.


— “Minha passagem, signorina,
qualquer destino, Düsseldorf, Águas Belas, Túnis, que importa?
ida-sem volta, pelas Linhas de Amor, vôos de morte, vôos
de Paulo e de Francesca”.

Tremia a mão; também a boca, os olhos:


Tutto tremante comecei viagem
na velha praça — sob o céu de teus olhos daquele tempo,
Antonella Lualdi: (a outra e a outra)
jamais te lembrarás, jamais vos lembrareis
do viajante pálido,
inesquecíveis querubinas.

E amor e morte espreitam


cada esquina de rua o fascínio a falésia— ao longe
parapeitos de pedra — San Leone e San Marino
e a loja de turismo e as lanças entre colunas
coturnos de soldados golpes em rochas
livros galeottos o tremor o beijo o sangue, amada,
em leitos e cortinas
a grinalda de sangue na rosa de teu nome
o vôo a queda a perdição do amor
a doçura da morte.

117
GerardoMelloMourão

Os anjos talvez aqui também sejam cruéis. Talvez.

Talvez os anjos venham vindo:


Boa noite, Antonella.

Ricordo—Rio, abril de 64

118
Algumas Partituras

NOVA YORK

Morar no álibi da morada— morar


nas moradas do nômade — habitar
o itinerário.

Nômade, romeiro às vezes,


habitante do próprio itinerário,
pasta o poeta rumina o orgulho de ser forasteiro
peregrino ancorado
nesta selva selvaggia

o náufrago inventa nesta praia— East-West —


a memória de seu naufrágio e sua perdição e a memória
do porto de sua duvidosa salvação:

O medo hesita nas esquinas


Walk
Don’twalk
a última tristeza:
de apenas ser— não ser —.
o grão de areia, Príncipe, e não chegar
nunca chegar.

119
Gerardo Mello Mourão

O itinerário correto não tem bússola


e à invenção dos pés e ao milagre
faz falta o labirinto.

O poeta é um pássaro um pombo:


o olho direito
vê a direita
o olho esquerdo
só a esquerda

e o horizonte?
e o labirinto?

Onde a miragem?
O oásis onde?

Sem rota o itinerário


é um risco outro risco
o mesmo risco — a geometria —
e as andorinhas e os javalis
e o poeta ornitológico se perdem:
entre árvores, lobos: — sátiros em saxofones de barro
entristecem a noite — e as varejeiras azuis
põem o ovo de seus bernes
na omoplata das pontes e das águas do Hudson
e no tronco dos postes de Manhattan
na cabeça nos cornos dos touros de Wall Street.

120
Algumas Partituras

Na selva das avenidas


sou caça e caçador
e aguardo a flecha da morte
e preparo a flecha da morte
emplumada de azul em meu arco implacável.

Eu te amo, grande prostituta do Apocalipse


tuas madeixas de asfalto teus seios de bronze
tuas virilhas fosforescentes
teus golfíns leste-oeste

tuas ruínas erínias— amo


com todo o meu ódio
e estremeço à luz de tua lâmpada — Vestal de Gomorra,
ao chamado de tua luz nos lugares altos
do bordel dos tempos,
Messalina.

Um dia, alguma noite,


açularei meus cães
para rasgar-te o ventre,
Jezebel.

Eu te amo e te odeio
e não me esqueço de ti, Jerusalém,
da carícia de tua mão devassa e virgem
do chicote no lombo do Marquês— Donatien. —
121
Gerardo Mello Mourão

Podes cantar: no ar os cantos de teu culto, Baal,


rumor dos festins de Baltazar e a orgia bárbara
dos forasteiros no caravançará das praças:
mas às vezes modulam as noites esses sons plangentes
estranhas cascatas que não descem — sobem aos céus
desde a janela do sobrado do Haarlem e ondulam
sobre as colinas da noite doridos cantos
a Jesus, the Divine,
na melodia sem fim das músicas de um negro:

teu rosto no vitral


desabrocha os azuis e os vermelhos
meretriz e mártir
e às vezes te amo
e durmo em tua cama o sono do adultério.

Raquel e Jezebel
Babilônia Babel e Babelônia
e ribeira azul dos rios do mundo
onde os poetas tocamos viola
com saudades de Jerusalém— a outra— e
entre ossos de defuntos de todas as mortes
cantamos uns versos de Daniel
de oito pés em quadrão.

Ricordo, Nova York, 1997

122
Algumas Partituras

ISTAMBUL

para ChristosKlairis

Nestas bandas do mundo rodarias a chave de ouro à porta


[do planeta onde
todas as cidades nasceram
das quatro cidades calipígias
na virilha de suas sete colinas
e em suas sete velas se navega
a navegação do mundo: Atenas, Roma, Lisboa e tu,
Bizâncio-Constantinopla-Istambul— una e trina
e sete vezes calipígia.

Calipígia e azul —* lava no Bósforo os dois seios celestes


todos os azuis em teu azul e mais o azul turquesa
entre o Mar Negro e o Mar de Mármara
e o mar do céu da Grécia turca e as ondas
do crepúsculo — a partida do último sol e o rosto
da primeira lua:— ali o adeus do sol ali — boa-noite, dizemos
às princesas de Bizâncio às mulheres de Tróia às raparigas
búlgaras, eslavas, persas, assírias, filhas da Caldéia.

Armênias outonais,
curdas às vezes na moldura dos cabelos negros
123
Gerardo Mello Mourão

erigem a primavera do claro rosto - e o rosto lunar


das raparigas turcas anuncia
Eurásia em núpcias.

Vives e sobrevives, rainha e cortesã,


degolada por espadas cravejadas de esmeraldas
nos salões de quermesse
do palácio etéreo de Topkapi.

Judeus de Salônica nos saúdam


num espanhol precioso de Sevilhas mortas.

As agulhas de mármore e marfim cúpulas de ouro


orações que plangem dessas torres onde um sino de bronze
vibra na garganta do cantor das horas.

Basileus de Bizâncio e o mercador Ulisses


atravessam o bazar suas espadas suas mulas e malas de alfaia
e chegamos, Aquiles, arrastados
do gineceu ao caminho de Tróia:

entre lojas mesquitas azuis minaretes castelos otomanos


e viúvas de luto e mulheres de rostos encobertos
e raparigas urânias — filhas de Afrodite e do Profeta
embalsamam no ar o estrangeiro atônito:

o canto dos patriarcas coroados de Bizâncio


o brado dos Basileus os uivos

124
Algumas Partituras

de Cassandras anatólias, o pranto clamoroso


da viúva de Heitor
rasgam a aurora de teus céus diáfanos:

não te decifro — devoram-me os azuis,


tuas flores da noite me devoram
por duzentos dólares libras turcas com a efígie de Ataturk
no divã do Hotel do Divã se adormece mascando
o seio malva de Malvina e as sementes de haxixe
entre goles de absinto verde:

na mesma nuvem danço e dança


o ventre dessa odalisca dourada e entre efebos macedônios
senhoras alexandrinas— aqui sou morador
tenho sobre as águas meu castelo
neste Bósforo. Flutuam
sobre o azul as ameias de dois mares.

Destes mármores também nativo sou


e também forasteiro
o peregrino azul do azul
em Istambul —

e na cerúlea tarde
estendo o meu cartão e informo soldados assustados:
“sou o Conde do Azul”.

Ricordo, 1997

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