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Rev. eletrônica Mestr. Educ. Ambient. ISSN 1517-1256, v. 22, janeiro a julho de 2009.

Universidade Federal do Rio Grande - FURG

Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental

Revista do PPGEA/FURG-RS ISSN 1517-1256

Programa de Pós-Graduação em Educação Ambiental

FENOMENOLOGIA E MEMÓRIA: Novos aportes para a práxis da EA1

Fernanda Alexandre2
Sandra de Fátima Oliveira3

RESUMO: Com este artigo objetiva-se discutir e refletir como podemos a partir da valorização da
memória, alicerçada em uma vertente sócio ambiental da pesquisa fenomenológica, pensar o processo
de Educação Ambiental (EA). Ressalta-se nossa intenção em refletir e dialogar, buscando contribuir
com as pesquisas que perpassam esta abordagem. Ao se trabalhar com as informações contidas na
memória, por meio da narrativa dos antigos moradores de uma determinada localidade prioriza-se a
historicidade do ambiente local. Esses sujeitos acompanharam a idealização e a concretização do novo
arranjo sócio-espacial e atualmente guardam as lembranças de como esse processo aconteceu e quais
foram as mudanças (materiais ou simbólicas) ocorridas no âmbito do lugar, além de terem imbuídas na
subjetividade simbologias do imaginário social dos lugares. A memória é um importante instrumento
de análise ambiental, pois, dentre outas caracteristicas é um nivél da consciência, assim como a
imaginação, a lembrança e a representação social, sendo que a memória é capaz de revelar o ambiente
local, de dar significados e valores aos lugares e de despertar o sentimento de pertencimento, um dos
pilares da EA.
Palavras-Chave: Memória, Fenomenologia, Educação Ambiental.

ABSTRACT: This article aims to discuss and to reflect how we can, from the memory
valuation, based in a environmental social slope of the phenomenological research, think the
Environmental Education (EA) process. It highlights our intention in reflecting and
dialoguing, searching to contribute with the researches that permeate this approach. When we
work with the informations contained in memory, trough the narrative, of the previous
residents of a determined location the priority is the local environment historicity. These
subjects followed the new socio-spatial arrangement idealization and completion and
currently they keep the memories of how this process took place and what were the changes

1
Artigo proveniente das discussões embasadoras da disciplina Tópicos em Educação Ambiental, oferecida no
Programa de Pós-Graduação em Geografia – IESA, no ano de 2008.
2
Licenciada em Geografia pela UFMS/CPTL, mestranda do programa de Pós-Graduação em Geografia IESA –
Goiânia – Go. Email: nanda_allexandre@yahoo.com.br
3
Prof.ª Drª. Docente do IESA – Graduação e Pós-Graduação – Goiânia – GO. Email: sanfaoli@ufg.br.

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(material or symbolic) occurred in the lieu extent, also they have them imbued on the
symbolic subjectivity of the places social imaginary. Memory is an important tool to the
environmental analysis, because, among other characteristics, it is a conscience level as well
as the imagination, the remembrance and the social representation, and memory is capable of
revealing the local environment; of giving meanings and values to the places and of arouse the
belonging sentiment, one of the EA pillars.
Keywords: Memory, Phenomenology, Environmental Education.

Introdução

As questões ambientalistas no mundo emergem coditianamente de diversas realidades


complexas, interligadas e compostas por diferentes sujeitos e acontecimentos. Seguindo essa
tendência é necessário buscarmos indicativos metodológicos para a realização de pesquisas
capazes de enfocar essas realidades. Desta forma, propõe-se neste artigo uma reflexão de
como podemos a partir da valorização da memória ambiental, alicerçada na vertente sócio
ambiental da pesquisa Fenomenológica, pensar o processo de Educação Ambiental (EA)
individual, comunitário e coletivo.
A utilização da fenomenologia, enquanto abordagem metodológica e a memória como
categoria de análise e apreensão de mudanças ambientais, dentre outros resultados, permitem
o entendimento do ambiente como um sistema formado de elementos unitários que estão
interligados, além de revelar as realidades circustânciais, históricas e geográficas dos sujeitos
que a compõem.
É necessário pensarmos como as pesquisas ambientais são realizadas e acrescentarmos
a elas, o fator social como condutor de processos; ocupacionais, aglutinadores, degradadores,
interacionistas e valorativos em relação ao ambiente. Dependendo da forma como a realidade
local é pesquisada, os resultados poderão servir de base para ações educativas conservadoras
para a valorização de determinados ambientes. Uma vez que se considera que a EA busca a
sensibilização dos sujeitos com uma ligação afetiva, e tem como desafio o envolvimento dos
sujeitos locais para o despertar da consciência ambiental, por meio do sentimento de
pertencimento.
Ao se trabalhar com as informações contidas na memória, por meio das narrativas, dos
antigos moradores de uma determinada localidade, se prioriza a historicidade local, pois, estes
sujeitos acompanharam a idealização e a concretude do novo arranjo sócio-espacial, e
atualmente reteem as lembranças de como esse processo aconteceu e quais foram às
mudanças ocorridas no âmbito do lugar. A opção pelos antigos moradores como
colaboradores para as pesquisas ambientais deve-se ao fato deles serem os sujeitos que

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vivenciaram o processo de mudança material e simbólica nos seus lugares. Sob essa ótica, são
aptos portadores dos historicos válidos para a percepção das mudanças e dos impactos
ambientais encontrados nos lugares.
A pessoa idosa é detentora de um saber guardado na memória, uma memória, por sua
vez coletiva. Com isso, ela se destina a ser a guardiã do passado do grupo social no qual está
inserido, uma vez que as mudanças que ocorrem nas relações sociais e que refletem na
paisagem, são percebidas e capturadas pela mémoria por meio das representações sociais de
forma parcial ou totalizada. As transformações vivenciadas no ambiente não são armazenadas
em compartimentos, como ocorre muitas vezes com a maioria das pesquisas científicas.

O ambiente sob a perspectiva Fenomenologia: possibilidades de pesquisa em EA

Os estudos sobre a temática ambiental emergiram em um campo técnico, por isso,


apresentam defasagens concernentes às reflexões metodológicas e epistemológicas,
especialmente por não se encaixarem nos paradigmas tradicionais e não terem um
delineamento ontológico específico. Nos trabalhos relacionados ao ambiente, não se tem
apenas um método de análise como descreve Moraes (2005, p. 47) que também ressalta a
importância do dialogo entre os diferentes métodos: “sabemos que há uma grande diversidade
de métodos nas ciências contemporâneas, cada um trazendo formas próprias de abordar a
realidade, com visões distintas a cerca da natureza, acerca da sociedade e acerca da relação
sociedade-natureza”.
Nas abordagens ambientais existem possibilidades de diferentes enfoques para se
trabalhar com pesquisas na Educação Ambiental: o materialismo dialético histórico, a análise
integrada, a interdisciplinaridade, e dentre outros o fenomenológico, o qual se constitui na
nossa opção metodológica.
A Fenomenologia nasceu na Alemanha no final da idade moderna, primeiramente
como uma filosofia. Inamaneul Kant (1724-1804) foi o primeiro pensador a romper com a
tradição cartesiana, inaugurando um novo modo de fazer filosofia. Tempos depois, a
fenomenologia foi retomada com Edmund Husserl que definiu a essência e não o fato como o
objeto da fenomenologia. Esta tem como meta “ir-à-coisa-mesma” tal como ela se manifesta,
tal como o fenômeno se apresenta. Bicudo (2000) sugere como deve ser a investigação
fenomenológica.

A investigação fenomenológica trabalha sempre com o qualitativo, com o


que faz sentido para o sujeito, com o fenômeno posto em suspensão, como

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percebido e manifesto pela linguagem; e trabalha também com o que se


apresenta como significativo ou relevante no contexto no qual a percepção e
a manifestação ocorrem. (...) O sujeito expõe aquilo que faz sentido, ou seja,
ele relata, descreve o percebido (p.74).

Na Fenomenologia cada fenômeno tem que ser analisado individualmente em sua


conexão com os demais. E esses fenômenos relacionam-se à historicidade humana, visto que,
os seres humanos são estruturalmente históricos e estruturalmente temporais. Suas vivencias
nunca são fixas e estagnadas.

Na fenomenologia, o conceito de sujeito tem significado de uma estrutura


essencial pura que tem vivencias. Estas são estruturas do seguinte tipo:
percepção, memória, impulsos... . A descrição destas estruturas é feita por
um sujeito empírico, que examina a si mesmo no momento em que está
realizando determinada operação (...) redutível a uma invenção deste sujeito,
na medida em que se trata de estruturas que ele compartilha com outros
(BELLO, 2004, p. 161).

Ressalta-se ainda que a fenomenologia possibilita uma valorização do subjetivo e do


intersubjetivo apreendido como condição essencial do humano ao afastar a errônea concepção
de que a busca da essência nos distanciaria da vivência. Na intersubjetividade se pode chegar
a dizer “nós”, “eu”, “ser humano”; nela o exame da própria experiência pode revelar algo de
estrutural compartilhado por todos, nela a particularidade não vem a ser abandonada no
exame das vivências compartilhadas coletivamente. (BELLO, 2004).
Dentre as propostas epistemológicas e metodológicas para desenvolver pesquisas
relacionadas à temática ambiental temos as pesquisas bibliográficas, as pesquisas
etnográficas, os estudos de caso, as pesquisas biorregionalistas, a pesquisa ação, a
diagnóstico-avaliativa e aquelas com abordagens que relacionam a Fenomenologia com a
Educação Ambiental. Estas últimas enfocam principalmente os trabalhos com a percepção
ambiental e as representações sociais. Este enfoque descreve significados das experiências de
vida sobre uma determinada concepção ou fenômeno, explorando a estrutura da consciência
humana. “As pesquisadoras e os pesquisadores buscam a estrutura invariável (ou essência),
com elementos externos e internos baseados na memória, imagens, significações e vivências
(subjetividade)”. Há uma ruptura da dicotomia “sujeito-objeto” e dos modelos
exageradamente “cientificistas”. (SATO, 2001, p. 27).
Nessa linha de pesquisa se pode acompanhar na década de 1990, uma série de
publicações relacionadas à temática ambiental, pois se observou a passagem da vertente
extremamente preservacionista, na qual, o ideal defendido não englobava o social e sim o

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radicalismo protecionista da natureza, mantendo-a intacta e protegida de qualquer


alteração/interação provocada pelo ser humano, à vertente conservacionista, a utilização e o
manuseio dos recursos da natureza, seriam de forma racional, e o social passou a ser incluído
à EA com os elementos culturais e sociais.
Na abordagem fenomenológica, direcionada à vertente sócio-construtivista o
conhecimento é generativo, emergente e dialético, as pesquisas buscam a transformação das
realidades, com sujeitos no processo histórico de realidades diversas.

Mergulhados nas abordagens fenomenológicas, diríamos que tentaremos


compreender o significado que os acontecimentos e o ambiente têm para as
pessoas. Afinal, a natureza de nossa percepção nos leva a viver uma
condição humana universal, irredutível à privacidade. E das malhas destas
relações praxiológicas resultaria consequências imediatamente ético-
políticas, das quais como sujeitos irremediavelmente livres, somos
responsáveis (SATO & SANTOS, 2002, p. 4).

As pesquisas com abordagens fenomenológicas ressaltam especialmente a


subjetividade dos colaboradores/participantes ao transcorrerem a objetividade aparente. Em
sua maioria essas pesquisas são de ordem qualitativa, enfocando diretamente o social
permeado por abordagens históricas, fenomenológicas, observacionais e participativas. O
método fenomenológico se destaca por tratar dos fenômenos subjetivos derivados da realidade
vivida dos sujeitos com suas experiencidades. Como nos pontua Moreira (2002, p. 108) “o
que interessa é a experiência vivida no mundo do dia-a-dia da pessoa”. Assim, se enfatiza a
importância de se conhecer a história como possibilidade de desenvolvimento humano nas
pesquisas sobre E A.

É claro que dentro de um projeto de pesquisa, conhecer o local de


intervenção faz-se fundamental. Podemos desenvolver um inventário dos
recursos de um determinado local de intervenção usando informações de
alguma tese, dissertação, ou dados coletados pelas instituições de pesquisa,
apreendendo sobre as espécies que compõem a rica biodiversidade, a
dinâmica dos fluxos e refluxos das águas, as condições climáticas ou os
estudos de impactos ambientais, mas conhecer a história como possibilidade
humana também é essencial, pois cada lugar oferece possibilidades de
desenvolvimento das pessoas e das comunidades que nele habitam. (SATO
& SANTOS, 2002, p. 13).

Essa historicidade dos sujeitos que é narrada, descrita, com o auxílio da linguagem
falada, revela a complexidade da relação existente entre signo/significado/significante e
contexto cultural. A Fenomenologia, dentre outras atribuições, contribui para compreensão

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linguística. A linguagem transmite o que está sendo dito a luz da experiência vivida, a
descrição é um texto à espera da interpretação.
O método fenomenológico procura apreender, por meio dos acontecimentos e dos
fatos empíricos, as essências, ou seja, as significações ideais percebidas diretamente pela
intuição. Trabalha com os dados fornecidos através da descrição. No entanto, vai além dos
dados, propõe análise e interpretação dos mesmos, sendo que estes são vistos, sentidos,
vividos e experiênciados pelos sujeitos. Na pesquisa de pressuposto fenomenológico -
quantitativo, de acordo com (TRIVINOS, 1987, p. 122) “o comportamento humano tem mais
significados do que os fatos pelos quais ele se manifesta. Com ênfase na idéia dos
significados latentes do comportamento humano”.
Essas pesquisas são eminentemente sociais e relacionadas ao interacionalismo
simbólico que segundo Moreira (2002, p. 47) “pode ser visto como o estudo dos modos pelos
quais as pessoas enxergam o sentido nas situações que vivem” (...). Não se trabalha com
hipóteses, porém com dúvidas que apenas os colaboradores poderão explicar. Por isso, deve-
se ir ao encontro do fenômeno como naquilo que se manifesta por si através do sujeito que
experiencia a situação. E como nos indica o autor a seguir o dado qualitativo é uma
representação simbólica.

O dado qualitativo é a representação simbólica atribuída à manifestação de


um evento qualitativo. É uma estratégia de classificação de um fenômeno
aparentemente imponderável que fixando premissas de natureza ontológica e
semântica, instrumentaliza o reconhecimento do evento, a análise de seu
comportamento e suas relações com outros eventos (PEREIRA, 2001, p
21).

As realidades simbólicas e topofílicas são instrumentos para a EA por se pautar no


local, à medida que a EA busca a sensibilização dos sujeitos com uma ligação afetiva em
relação ao lugar. Um dos grandes desafios da EA pauta-se em conseguir envolver os sujeitos
locais para o despertar da consciência ambiental por meio do sentimento de pertencimento.

O ambiente local revelado pela memória

A memória é capaz de revelar os significados do ambiente local, as dinâmicas das


relações que formaram determinado espaço. As relações dos seres humanos com o ambiente
resultam do processo de dar significados e valores aos lugares. Dessa forma, os sujeitos
imbuem na subjetividade simbologias do imaginário social dos lugares, resultados de espaços
culturalmente formados. “O espaço não é somente apreendido através dos sentidos, ele

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referenda uma relação estabelecida pelo ser humano emocionalmente de acordo com as suas
experiências espaciais. Assim, o espaço não é somente percebido, sentindo ou representado,
mas também vivido”. (KOZEL, 2007, p. 117).
A memória da sociedade guarda seu próprio passado. Na memória, as imagens das
paisagens, dos espaços e dos lugares estão em processo dinâmico e são marcadas por tensões,
sucessos e fracassos, ou seja, formam o registro da história de uma sociedade. Nela podemos
encontrar marcas significativas da transformação histórica de um povo, reconstruindo assim, o
espaço dos fixos e fluxos que já se foram.
Segundo Bosi (1987) existem dois tipos de memórias, um que está relacionado à
denominada memória hábito e faz parte de nosso contexto cultural e da percepção, presente e
incorporada às práticas do dia-a-dia e outro que está relacionada mais à imagem lembrança de
caráter não mecânico, mais evocativo, ligada mais ao inconsciente, tem data certa, se
referindo a uma situação definida, individualizada.
Meinhy (2005) por sua vez menciona três tipos de memórias: as individuais, as sociais
e as coletivas. O autor trás a idéia de que as memórias individuais primeiramente se
diferenciam das memórias grupais, sendo que a memória individual serve apenas para dar
sentido ás situações sociais, convém lembrar que esta é prevalecente a grupal. Ressalta ainda
que a memória social/coletiva é sempre relativa a um grupo muito amplo, reunido em torno de
fatores afins, e por sua vez a memória cultural é mais restrita.
Com a apreensão da memória de sujeitos, constituída por longo período e lugar
específico, podemos entender como esses sujeitos perceberam e registraram como imagens as
lembranças e as modificações desse lugar que compõe o seu imaginário. Pela memória, o ser
humano registra e transmite os elementos de transformação do espaço no tempo, esses
interligam uma estrutura cronológica com outra espacial.
A memória é formada e influenciada pela percepção do meio físico e social. No
entanto, ela não é apenas uma percepção pura, e sim concreta e complexa. A percepção é o
filtro da lembrança. Para (HALBAWACHAS, 2006). “A Lembrança é a sobrevivência do
passado. O passado, conservado no espírito de cada ser humano, aflora à consciência na forma
de imagens-lembranças. A sua forma pura seria a imagem presente nos sonhos e nos
devaneios”. (grifo nosso). A memória seria a reconstituição do passado.
Para Bachelard (1993) a memória é discutida em relação com a imaginação,
ressaltando que, a imaginação pode ter dados captados pelos sentidos no momento presente e
evocar imagens do passado. E Meinhy (2005, p.63) nos apresenta o conceito de memória
como sendo “lembranças organizadas segundo uma lógica subjetiva que seleciona e articula

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elementos que nem sempre correspondem aos fatos concretos, objetivos e materiais”. A
memória liga a interação do ser humano com o ambiente, na medida em que a contemplação
de determinadas paisagens induz às relações nostálgicas que despertam valor afetivo.
Podemos dizer que a memória é um dos componentes da topofilia, pois, se constrói da
experiência histórica de interação.
Marin (2003) argumenta que Maciel (2000) “considera que não é possível pensar o
espaço habitado sem levar em conta o fato de que ele se constitui no mesmo movimento em
que se dá a organização social, e que esse movimento, por sua vez, é inseparável da
memória”. A memória tem influência direta na maneira como o ser humano entende e se
relaciona com o meio, pois, os processos estão profundamente inter-relacionados, desenhados,
tanto no discurso proferido pelos sujeitos mergulhados em suas concretudes, quanto nas ações
empreendidas na configuração do ambiente.
A memória é definida por Bello (2004) assim como outras ações do ser humano, como
vivências, podem ser ao mesmo tempo fenômenos culturais e (ou) sociais, ressalvando que
estas estruturas possuem conteúdos diferenciados:

Temos consciência das vivencias. Temos concebidas como vivencias: a


reflexão, a lembrança, a memória, a imaginação e a fantasia. “Estes são
exemplos de atos e vivencias presentes nos sujeitos humanos, portanto, são
estruturas próprias de todos os homens”. No entanto o conteúdo de cada ser
é diferenciado do outro (BELLO, 2004, p. 50).

O relato da memória só é permitido devido aos sujeitos que experiênciaram situações


das quais trazem marcas espaciais, perpetuadas no tempo. Esses sujeitos são as pessoas com
mais idades, as quais atravessaram um determinado tipo de sociedade, vivenciaram diversas
experiências e são as mais hábeis e preparadas para transmitir esse conhecimento e
socialmente possuem a função de lembrar. A relação do idoso com o espaço é evidenciada no
“lugar”, uma vez que, ele permaneceu muito tempo na mesma localização, dando-lhe
condições de informar sobre as modificações locais.

O idoso tem uma forte ligação com o lugar. Afinal, todas as lembranças
estão enraizadas em seu espaço, em sua paisagem habitual. A modificação
da paisagem do qual faz parte sua vida – a velha casa do velho amigo, que
não resistiu as velhas paineiras que se enfileiravam na rua de sua casa, onde
ao entardecer os pássaros faziam algazarra, o velho rio, hoje morto, que
rendia boas pescarias e boas prosas com os amigos nos finais de semana,
todos continuam vivos, preservados em sua memória, na memória de seu
grupo (ALMEIDA, 2004, p. 43).

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Com as informações contidas na memória poderemos ter o conhecimento e o


significado das ações empreendidas pelos sujeitos de um determinado lugar e como as
mudanças ocorreram naquele determinado ambiente, já que, os acontecimentos vividos e
contados pelos narradores, articulam passados e presente, espaço e tempo. Desta forma, a
memória do lugar, transforma, assim, os lugares vividos em “lugares de memória”.
(SEEMANN, 2002/2003).
A memória se refere aos lugares vividos no espaço, onde os sujeitos estabelecem
relações específicas. Estas relações são objetos da memória porque fazem sentido para
aqueles que a realizam e lhes dão noção de pertencimento, seja ao local ou ao grupo social no
qual o individuo está inserido. Mesmo sendo individual, a memória é representativa daqueles
que a lembram, desta forma, apesar de ser individual se torna articulada.
Os lugares vividos passam a ser concebidos como espaços representados de um
ambiente sociocultural que envolve também uma construção repleta de expressões simbólicas.
Dentre estas podemos encontrar a memória geográfica, como elucida Rodrigues (1999, p. 45).
“Os elementos desse parâmetro são os de distância, de tempo e os meios de transportes
utilizados (...). As lembranças referem-se à caminhos, estradas, morros e outros aspectos
físicos do lugar em que viviam”.
Toda a memória é um produto social baseado em experiências passadas dos sujeitos.
Os elementos da memória se relacionam com a formação social-cultural do lugar e essa
formação está intrinsecamente conectada ao imaginário vivido ou não, vinculado à essência
do ser. Desta forma, (PITTA, 2005, p. 15) enfatiza que: “o imaginário, pode ser considerado
como essência do espírito, à medida que o ato de criação (tanto artístico quanto o de tomar
algo significativo) completo (corpo, alma, sentimentos, sensibilidade, emoções...), é a raiz de
tudo aquilo que para o homem, existe”.
O imaginário é composto de imagens provenientes das representações sociais. Ele
obedece a processos regrados e a organismos vivos. Para Durand (1997) “o imaginário nasce
na confluência do subjetivo e do objetivo, do mundo pessoal e do meio cósmico ambiente”.
Desta forma, o imaginário apresentado na memória revela lugares vividos como também
idealizados ou imaginados.
A imaginação por sua vez é a capacidade de formar imagens fornecidas pela percepção
das representações provindas do social, ela é, sobretudo, a faculdade de nos libertar das
imagens primeiras, de mudar as imagens. Outra característica da imaginação se refere ao fato
da mesma alterar a dimensão da imagem e anteceder à representação, obedecendo a interesses
primordiais do sujeito. As imagens são simbólicas e possuem um semantismo próprio com

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carga de afetividade. É vista também como um refugio da realidade exterior, ligando-se aos
pensamentos. “Também o fato de que não há pensamento sem imagem nos convida a entender
as imagens que estão em construção em nós e em nossas obras” (...). (PITTA, 2005, p.103).
As imagens são datadas pelo trajeto antropológico de cada sujeito que é influenciado
por fatores do biologismo, psiquismo, da pulsão e sócio-culturais. Pode ser designada também
como uma faceta da representação social referendada por signos, que por sua vez também são
construções sociais.
As representações sociais possibilitam “compreender como o indivíduo ou a
coletividade interpreta a realidade de uma sociedade, expressando o conhecimento de cada
pessoa ou grupo sobre um determinado tema”. (ROCHA & AMORAS, 2006, p. 149). Elas
podem nos revelar os conhecimentos dos ambientes locais e as formas de relações dos sujeitos
com o ambiente, considerando a ligação das mesmas com os seguintes fatores: experiências
remetentes à memória, ao imaginário e as simbologias, as vivencias cotidianas na interação
social e ao conhecimento popular.
A apreensão dos elementos armazenados nas memórias, narrados pelos anciões
históricos da sociedade, nos revela as faces dos processos que ainda não estão expostos. Os
valores ambientais de uma sociedade capitalista são constituídos pela lucratividade e a busca
da reprodução do capital não equipara e avalia se as conseqüências de uma determinada
atividade são ou não apropriadas para determinada comunidade. Os reflexos do global
atingem cada vez mais os locais, e os sujeitos em formação cultural se constituem sujeitos-
todo, sem particularidades, sem histórias e sem elementos para relembrar sua historicidade.
A transmissão das experiências dos sujeitos é possível se fazendo uso da narração,
como enfatiza (BOSI, 1987) “a arte na narração não está confinada nos livros, seu veio épico
é oral”. O narrador tira o seu conteúdo ao narrar sobre a própria experiência e a transforma em
experiência dos que escutam. Entender como essas experiências de vida se configuram por
meio das representações dos sujeitos que a vivenciaram é um recurso a ser utilizado com os
idosos , pois, “quando os velhos se assentam à margem do tempo já sem presa - seu horizonte
é a morte –floresce a narrativa” (BOSI, 1987).
Em estudos pautados em narrativas da memória, não se analisa a narrativa enquanto
composição sintática ou semântica das palavras, e sim a interpretação do que ficou registrado
na mente da pessoa. O conteúdo de uma narrativa deve ser analisado considerando-se as
circunstâncias e sendo composto pelos seguintes elementos: “a narrativa, que sempre nasce da
memória e se projeta na imaginação, que, por sua vez, depois de articular estratégias

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narrativas, se materializa na representação verbal que pode ser transformada em fonte


escrita”. (MEINHY, 2005, p. 61).
A narrativa dos elementos percebidos e armazenados na memória evidencia as
modificações concernentes ao ambiente local, visto que, mostram temporalidades e ações
diferenciadas evidenciadas nas categorias geográficas de paisagem, lugar e espaço. A
paisagem é uma modalidade da pesquisa de representação sócio-ambiental. Na geografia
humanística, a paisagem recebe caráter de “vivida”, pois as pessoas desenvolvem leituras,
reinterpretações e experiências afetivas. A paisagem transpassa a estaticidade ao envolver os
aspectos objetivos e subjetivos do espaço e mundo vivido, das dimensões espaço-temporal.
Ela é construída pelas dimensões do real e imaginário, imprimindo marcas entre a
racionalidade e a afetividade e originando complexos sistemas simbólicos.
O lugar segundo Tuan (1979) possui um espírito uma personalidade, havendo assim
um sentido de lugar que se manifesta pela apreciação visual ou estética e pelos sentidos a
partir de uma longa vivência. Lugar é definido como segurança algo ao qual estamos ligados.
“Os lugares são centros aos quais atribuímos valor e onde são satisfeitas as necessidades
biológicas de comida, água, descanso e apropriação (TUAN, 1979, p.04)”. Segundo Tuan o
lugar é um espaço dotado de valor, segurança e estabilidade.
Em Tuan (1980) o lugar é visto como o lar, o lócus de remaniscência e o meio de
ganhar a vida, (...) é o veículo de acontecimento emocionalmente forte ou é percebido como
um símbolo. E aonde o homem pode estabelecer relações profundas. “O homem moderno
conquistou a distância, mas não o tempo. Durante sua vida, o homem agora como no passado,
somente pode estabelecer raízes profundas em uma pequena parte do mundo”. (TUAN, 1980,
p. 115).
No espaço enfocado por Tuan (1979), se consideram os sentimentos espaciais e as
idéias de um grupo a partir das experiências com o espaço que está intrinsecamente
relacionado ao lugar. Tuan também relaciona vários tipos de espaços como o espaço pessoal,
outro grupal, o mítico conceitual, e especialmente o espaço vivido.
Essa compreensão de espaço também é apropriada por Santos (1996). Destarte, o
espaço é resultado de pensamentos e ações, do ideal e do material do ser e do ter, o ter se
caracteriza mais como forma material espacial que rouba a essência do sujeito e o transforma
em mais uma coisa constituinte como parte do todo no objeto do ter e ser mutuamente.
No entanto, consideramos, com base na nossa opção teórica metodológica, a
abordagem fenomenológica, que o ser humano não é objeto em si, e sim sujeito intencional

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que por sua característica define o espaço enquanto projeta uma ação, que só é consolidada
como ação em um espaço, pois é este que dá forma á ação complexa e dinâmica.

Breves apontamentos

A memória é um importante instrumento de análise ambiental, oferece condições de


compreender os processos e as consequências, oriundos da composição das relações espaciais.
Ela é um nível da consciência, assim como a imaginação, a lembrança e a percepção. Pelo
viés dos estudos das representações, se tem um esforço de compreender a maneira como o ser
humano se relaciona com o seu meio.
A memória é capaz de revelar o ambiente local, as dinâmicas das relações que
formaram determinado espaço. As relações dos seres humanos com o ambiente resultam no
processo de dar significados e valores aos lugares. Dessa forma, os sujeitos imbuem na
subjetividade simbologias do imaginário social dos lugares, resultados de espaços
culturalmente formados.
Entender quais os elementos, da relação dos idosos com o ambiente, nos possibilita
compreender como estes veem as transformações ocorridas e como elas ocorreram, uma vez
que as vivenciaram. Assim, suas lembranças carregam experiências e transformações pessoais
e de seu grupo social.
A abordagen fenomenologica, possibilita que as pesquisas considerem a importancia
subjetiva e representacional dos sujeitos, propõe análise da realidade com enfoque além das
aparências e, por isso, pode subsidiar reflexões sobre as mudanças ocorridas no local e na
sociedade em geral.
As pesquisas e intervenções realizadas com as informações reveladas na memória
contribuem com o intuito de conhecer a historicidade do ambiente local. As propostas de EA
originárias de realidades conhecidas dos sujeitos, provocam sensibilização nos mesmos, no
ato de valorizar o lugar e os elementos que o compõem.

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Recebido em 29/04/2009
Aprovado em 18/06/2009

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