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1.

Byrusso
JACKSON DE FIGUEIREDO

CORRESPONDENCIA
Com um estudo de
TRISTÃO DE ATHAYDE
e uma introdução de
BARRETTO FILHO

Editora A. B. G.
JACKSON DE FIGUEIREDO

Correspondencia
Com um estudo de
TRISTÃO DE ATHAYDE
e uma introdução de
BARRETTO FILHO

.
EDITORA A. B. C.

Caixa Postal 1829 Rio de Janelro


PRESERVATION
COPY ADDED
mlf 2-12-92
P Q 9697
F45253
1939

INTRODUCÇÃO A' CORRESPONDEN


CIA DE JACKSON DE FIGUEIREDO

BARRETTO FILHO

Em carta de 27 de Janeiro de 1919, dirigida a


Mario de Alencar, Jackson affirmava : " si eu não
morrer, digo -lhe sem vaidade porque não se trata
de litteratura, si viver mais dez annos, deixarei ao
meu paiz uma historia singular, o que se poderia
chamar uma Summa Sentimental raciocinada ” .
Jackson não chegou a viver os dez annos que re
clamava : dois mezes antes de concluil-os era arre
batado pelo mar, na Barra da Tijuca, mas nos deixou
alguma cousa que, si quizermos submetter a uma clas
sificação, corresponderá de certa forma aquella ex
tranha promessa . E' a sua correspondencia.
E' atravez della que nós podemos colher o que
havia de original e profundo no pensamento de Jack
son , o verdadeiro eixo dos seus interesses vitaes, o
segredo de uma personalidade que exerceu a maior
influencia que já foi dado a alguem exercer entre
nós . Extraordinario centro de irradiação, é raro
aquelle dos nossos contemporaneos que se distinguem

338
6 JACKSON DE FIGUEIREDO

nas lettras, na politica ou nas artes, que, directa


ou indirectamente, não tenha penetrado o campo ma
gnético dessa personalidade, mesmo que fosse para
odial-a . E o mysterio dessa força está situado muito
além das posições exteriores que elle assumiu e de
fendeu, das suas luctas politicas, dos seus attritos
intellectuaes.
Quer para os que o amam, como para os que o
odeiam, a questão Jackson se propõe com uma
acuidade muito maior. Elle foi uma especie de fer
mento , cuja acção subrepticia se insinuava no meta
bolismo intimo das almas, um humor que provo
cava, ou uma dynamização surprehendente, ou uma
anaphylaxia violenta .
As suas relações com os homens possuiam algu
ma cousa que ia além do psychologico, propriedade
que elle definiu, como um dom involuntario, em va
rias passagens de sua correspondencia : “ Não sei ex
plicar as cousas mais singulares que se passam em
mim : mas eu tenho photographias de almas dentro
em mim, isto é, photographias de vidas, e logo do
primeiro encontro com ellas ” (carta a Alceu Amo
roso Lima de 3 de Abril de 1928 ) .
Comprehende -se que essa visão espectral, radio
logica das almas determinasse naquelles que se sen
tiam devassados , uma angustia obscura, uma sen
sação incommoda, que não chegava a ser consciente,
e ficava, por isso mesmo, carregada de toda a poten
cialidade affectiva, negativa ou positiva, pouco im
porta, da liberação de forças ontologicas, que for
mam o cerne da personalidade humana.
Esse nucleo central da personalidade perma
nece commumente , como a Bella Adormecida no
Bosque, completamente inactivo, e atravessa muitos
destinos sem nunca ter tido occasião de manifestar- se.
CORRESPONDENCIA 7

O que evolue em cada consciencia , no contacto com o


mundo, é um eu de superficie, determinado pela ada
ptação social, movimentado por leis mechanicas de
successão e de associação de idéas. Emquanto que o
verdadeiro nucleo da personalidade, esse é o que pos
sue as propriedades especificas do espirito, de liber
dade e creação, dotado de um valor eterno e investido
de responsabilidade moral.
A noção da estructura espiritual que Jackson
possuia, coincidia assim com a psychologia bergso
niana, nessa distincção entre o " moi de surface" e o
" moi profond". Apenas esse eu profundo para o
Jackson estava numa relação necessaria com o seu
Creador, de quem recebera , não somente o ser, mas
a capacidade de permanecer na existencia e não
valar para o nada, bem como a possibilidade e o modo
de suas operações.
O eu puramente psychologico, o eu de superficie,
só indirectamente participava dessa vida espiritual ;
os seus movimentos, para Jackson, tinham uma im
portancia secundaria e não o impressionavam muito .
No correr deste volume, nós assignalamos varias
passagens em que os movimentos, as duvidas de cons
ciencia, as formulações mentaes propriamente pouco
ou nada o interessam . Si o accesso ao eu ontologico
tem que ser feito atravez desses estados de conscien
cia , estes, muitas vezes, mesmo depois de attingida
e acordada a personalidade para a sua vida propria ,
continuam a boiar á tona, como formas illusorias,
que de modo algum exprimem a verdadeira situação
espiritual.
Evidentemente, quanto mais cresce a persona
lidade ontologica, mais ella tende a incorporar os
actos de consciencia e a tornal-os adequados á sua
vida propria ; o progresso da vida espiritual pode
8 JACKSON DE FIGUEIREDO

mesmo ser definido como uma prise de consciencia


sobre o eu e as suas relações com a sua origem e fim.
Não é menos verdade, porém , que esses dois planos
permanecem incommensuraveis, e que haverá sem
pre dentro de nós alguma cousa, além do que nos
é possivel exprimir ou mesmo perceber.
Sendo assim , todas as nossas propriedades es
pirituaes só operam verdadeiramente nesse plano on
tologico, num dialogo incessante com Deus, e muitas
vezes nem sabemos bem o que se passa nessas regiões
insondaveis : " Só Deus sabe de verdade, diz elle, o
porque agimos desta ou daquella forma, e muito mais
o porque nos sentimos taes como nos sentimos” ( carta
a Alceu Amoroso Lima de 1.º de Outubro de 1928 ) .
Jackson , por conseguinte, não era absolutamente
um joguete da apparencia illusoria, do eu de super
ficie ; elle não tomava os homens ao pé da lettra,
pelas suas declarações ou mesmo pelos seus actos.
Tudo isso possuia para elle um valor de symbolismo,
uma simples allusão á qualidade e á substancia do
eu ontologico, que elle podia attingir ao primeiro con
tacto .
Esse amor da personalidade foi o principio di
rector de todos os seus movimentos, o motivo de
todas as suas luctas, o seu soffrimento e tambem a
sua gloria. Instigado por elle é que Jackson, desde
a sua adolescencia, procurava ligar os homens, expli
cal-os uns aos outros, fazer com que se comprehen
dessem e se compenetrassem . A correspondencia de
1913 a 1915, a Xavier Marques, por exemplo, já nos
revela essa sua preoccupação incessante, no ar de
victoria com que elle annuncia a descoberta de Mario
de Alencar, de Farias Brito , de Nestor Victor, de
tantos outros emfim, como a acquisição de novos
exemplares para a sua collecção de almas , para a
CORRESPONDENCIA 9

sua " pequena Igreja ". E era tanto maior o prazer


dessas descobertas, quanto o thezouro estivesse mais
escondido e mais humilde : dominava então o prazer
da revelação, com que salvou de um completo es
quecimento alguns dos que elle denominava os hu
milhados e luminosos :
" Quem teve, porém , a sorte de encontrar uma
dessas joias, de brilho singular, deve, quanto lhe fôr
possivel, quando sabe que ella desappareceu ou está
para afundar-se na voragem do tempo, revelar quan
to de seu fulgor reflectia de eternidade, isto é, da su
prema luz creadora”. ( Humilhados e Luminosos, pa
gina 8 ) .
A critica litteraria não podia ser para elle um
julgamento objectivo dos productos intellectuaes:
“ muito ao contrario de Você, jamais separo o ho
mem do livro ou o quer que haja escripto ", declara
elle a Alceu Amoroso Lima, em carta de 2 de Se
tembro de 1928 ; era um instrumento de conheci
mento das almas, atravez as suas manifestações crea
doras, um modo de acção de uma personalidade sobre
outra .
A sua discussão com Alceu Amoroso Lima, que
marcou o inicio de uma correspondencia quasi dia
ria, que se prolongou até a sua morte, e que che
gou a algumas escaramuças pelas columnas do “ O
Jornal” , com a intervenção de Ronald de Carvalho,
era, no fundo, a defrontação de duas concepções dif
ferentes da personalidade: uma que se despreoc
cupava desse principio espiritual do ser, e por isso
podia pleitear uma esthetica objectiva , uma critica
dos productos da intelligencia e da sensibilidade como
destacados de seu autor, e obedecendo a criterios de
valor imparciaes e indifferentes; outra, inteiramente
centrada na personalidade profunda, exigindo, por
10 JACKSON DE FIGUEIREDO

conseguinte, dentro da esthética , um reflexo do mun


do moral, e considerando as obras como um prolon
gamento do homem .
Essa concepção, que Jackson incarnava, solici
tava o espirito a se destacar da fascinação da obra
como cousa , para inclinar -se á sua contemplação como
phenomeno humano, como signal das almas, como
expressão de sua riqueza, processo que integra a Arte
como valor excepcional, no destino do homem .
Essa voz possuia evidentemente alguma cousa
de seductor, porque vinha de uma região humana, e
podia assim revalorizar o principio esthético , a acti
vidade creadora, reduzida a um puro jogo, fasci
nante e inutil, como consequencia de sua deshuma
nização : ella acordava, em Alceu Amoroso Lima,
affinidades e echos adormecidos, suffocados pela
amarga experiencia de deshumanização da Arte de
após guerra.
O attrito em que se empenharam foi por isso
mesmo fecundo. Jackson lhe fallava uma linguagem
cifrada, que, atravez de sua consciencia , ia ser in
terpretada por uma personalidade moral esquecida
por longos annos de intellectualismo exasperado, mas
ainda não definitivamente estrangulada. Desperta
va ao echo dessa voz, e cresceu ininterruptamente,
para a sua maior completação, num dialogo continuo
que só veiu a cessar com a morte de seu interlocutor.
Esses dois homens de lettras, esses dois poetas,
reconstituiram toda uma synthese dos problemas hu
manos a partir da meditação da obra litteraria, do
seu valor como cousa humana, de seu sentido como
irradiação da pessoa. E ' das mais bellas aventuras
espirituaes que possuimos na historia de nossa in
telligencia, e illustra admiravelmente todas as affir
CORRESPONDENCIA 11

mações expressas ou implicitas que o pensamento de


Jackson teve a missão de installar no centro da cons
ciencia brasileira.

A EXPERIENCIA RACIONALISTA

Um dos ensaios mais significativos de Jackson


de Figueiredo, como dado sobre a sua evolução in
terior, é o ensaio sobre Farias Brito . O ensaio sobre
Pascal, que já é mais amadurecido e crystallizado
teve de soffrer uma serie de amputações, foi refeito ,
transformado, afim de conformal- o a uma philoso
phia orthodoxa, que elle já havia admittido em blóco .
A materia com que jogava o ensaio sobre Pascal exi
gia aliás uma maior attenção no seu trato : ella to
cava de perto pontos de theologia dogmatica, como
a natureza da fé, a predestinação e a graça , alguns
dos quaes já eram definidos pela autoridade da
Igreja .
Em " Algumas Reflexões sobre a Philosophia
de Farias Brito” deparamos porém o Jackson numa
phase de transição esse ensaio era apenas uma “ pro
fissão de fé espiritualista ”, e não propriamente ca
tholica . Ahi elle nos informa de varias circumstan
cias interessantissimas para a analyse de sua psy
chologia .
Elle narra, por exemplo , que ao primeiro con
tacto com um livro de Farias Brito – “ O Mundo
como actividade intellectual” - ocorrido em 1908,
tomou -se de um espanto indescriptivel e abandonou
o livro , que considerava falsa a theoria da evolução,
e chocava outros preconceitos da adolescencia mate
rialista, de " um candidatozinho ao mandarinato scien
tifico".
12 JACKSON DE FIGUEIREDO

Era elle um egresso " de um collegio protestante,


tivera que apprender a Biblia como se apprende Ari
thmética, fizera dezenas de perguntas e não tivera
respostas razoaveis ", e movido por essa curiosidade
devorou bibliothecas de philosophia e de sciencia ,
para saturar as exigencias de sua razão .
Desse periodo de dialectica exhaustiva, resultou
simplesmente uma crise de scepticismo. Que valor
existencial poderia têr essa Razão dos philosophos
e dos scientistas, que se propõe a atravessar impas
sivel o mundo onde se desenrola o drama do homem ,
com o fim de attingir objectivos claros, distinctos, e
indifferente a tudo o que não puder ser contido no
fóco limitado de sua claridade fria ? Que vale um co
nhecimento extravertido, todo elle debruçado para a
objectividade que nos circunda, e baseiado, por sys
tema, na eliminação de todos os aspectos que no pro
prio mundo exterior nos interessam de perto : uma
mathematica que se desinteressa da variedade das
formas ; uma physica que annulla as qualidades sen
siveis, justamente essas propriedades por intermedio
das quaes o mundo nos é communicado, determinan
do os nossos sentimentos de sympathia e de aversão ;
uma philosophia que omitte, no homem, tudo o que
não seja reductivel ás categorias inferiores da rea
lidade : a sua liberdade, a sua subsistencia como es
pirito , o instincto de infinito que anima a sua capa
cidade de comprehender e de amar ? Que vale um
conhecimento que não seja um " tratado da dor hu
mana ” , que não seja uma philosophia “ em que o phi
losopho demonstrasse a mais dolorosa experiencia ,
mostrasse a consciencia ignorada do delirio, a cons
ciencia ignorada do moribundo , a consciencia igno
rada do que foi decepado, a consciencia ignorada do
terror ?” (Vide Algumas Reflexões, pag. 23 ) .
CORRESPONDENCIA 13

Essa ennureração de situações espirituaes agu


das, já a esse tempo demonstrava a direcção em que
iria caminhar o pensamento de Jackson, depois de
uma crise que o fazia chegar á conclusão, “ á pri
meira vista paradoxal, de que certo scepticismo anda
mais perto da fé do que qualquer outro modo de ser
do espirito ".
O programma que elle traçava para a philoso
pnia se identifica com o que foi executado por Dos
toiewsky e Kierkegaard : mergulhar na personali
dade profunda, na sua liberdade tragica, principio
do bem e do mal, e isso atravez de seu unico canal
de accesso a dôr humana.
Quando o Principe Muichikine fascina extra
nhamente a familia Epantchine, descrevendo o es
tado de consciencia do condemnado, no minuto su
premo em que a guilhotina vae descer sobre o seu
pescoço ; quando o adolescente se debruça, per
turbado, sobre a alma enigmatica de Versilov ; quan
do Kierkegaard se tortura para penetrar no intimo
de Abrahão, no momento em que devia sacrificar
o proprio filho, realiza -se aquelle conhecimento es
sencial da Personalidade, do mysterio do homem ,
nesses modos supremos de sua manifestação.
A noção de que a dôr, a tortura mesmo, é o unico
conhecimento absoluto, aquelle que totaliza as no
ções parciaes e fragmentarias da razão abstracta,
Jackson não abandonará mais . Ella será dahi por
diante um leit -motiv de todas as suas reflexões sobre
a vida e sobre o destino humano.
Naquella epocha, isso era apenas um presenti
mento : “ a estas dôres como que desviadas da nossa ,
que se faz visivelmente consciente, quem sabe o que
está ligado do espirito na sua existencia mais pura,
14 JACKSON DE FIGUEIREDO

mais livre das apparencias já systematizadas no co


nhecimento vulgar ? ”
Esse presentimento, essa interrogação sobre a
qual não chegará nem mesmo a se detêr uma philo
sophia technica ou scientifica , obriga, entretanto ,
áquelle que sentiu profundamente a sua necessidade,
a uma variação brusca da sua attitude intellectual.
Sim, porque ella se resolve nessa questão importan
tissima : as condições affectivas do homem , a acui
dade excepcional de certos soffrimentos podem ser
em si mesmos uma fonte de conhecimento ? No caso
affirmativo (e todas as suas tendencias profundas
a isso o conduziam ) , duas consequencias gravissimas
se seguem : 1.° – a origem desse conhecimento , a
sua causa, não será estrictamente racional, logo é
possivel um contacto com o ser , e talvez o mais im
portante, que não se origina da razão ; 2.0 — a vida,
indeclinavelmente, offerece a cada homem a oppor
tunidade do soffrimento , e este é mais agudo jus
tamente na proporção em que é mais nobre a sen
sibilidade e mais profunda a intelligencia.
Nessas condições, não somente o soffrimento é
o verdadeiro contacto com o ser, mas a vida está
organizada para promover esse contacto incessante,
e o valor de nossa personalidade se define pela maior
ou menor capacidade de soffrer.
Não seria, por conseguinte, aos olhos frios da
Razão que o destino e a personalidade do homem des
vendariam o seu enigma. A sua crise de scepticismo
se prolonga, cobrindo os annos de 1913, 1914 e 1915.
E' uma phase dolorida e inquieta, de estagnação
apparente, mas de intensa ruminação : "creia que a
questão mais abstrata é capaz de me fazer soffrer
horas inteiras – causas primarias, religião, uma
duvida sobre o movimento da terra" ( carta a Mario
CORRESPONDENCIA 15

de Alencar, de 16 de Abril de 1913 ) . Sobre esse im


passe ; porém , o phenomeno da dôr que o acompanha,
vae subrepticiamente preparando a admissão, na
consciencia, de outras necessidades além daquellas
que a razão exigia : “ ao que me parece, o meu fim
na vida é ser consolado ” . ( carta a Xavier Mar
ques, de 20 de Fevereiro de 1916) .
A intuição de que o mais importante para o ho
mem é ser consolado, por isso que o seu ambiente
obrigatorio é o soffrimento, completou - se natural
mente com a noção de que o seu fim tambem é con
solar, Consolar, e encontrar nisso a propria conso
lação, eis o que Jackson nunca se cançou de fazer du
rante o resto de sua vida, num estylo complexo e
alto, que ia, desde o conforto ás intelligencias, por
meio de uma technica intellectual e de uma cultura
magnificas, até o mero soccorro sensivel, a inicia
tiva do amparo material, como ao simples gesto
de carinho humano. Jackson era excessivamente ávi
do " do leite da ternura humana ", e si Lady Mac
beth presenciasse alguns dos seus momentos de
exhaltação, olharia com desdem para essas velleida
des de violencia, percebendo com a sua perspicacia
que sob tudo aquillo corria um fluxo substancial da
quella ternura .
Muitas vezes, a vida intensa de Jackson era uma
compensação para a propria magua da vida. Por
occasião da morte de Moysés Marcondes, escrevia elle
a Alceu Amoroso Lima :
“quando me acontece uma cousa assim o meu
maior desejo é positivamente o de dansar, andar,
fallar, brincar, mas não como desejo — determina
ção : peior - como desejo expontaneo, vida. Mas
lá vem a hora do silencio, do contacto forçado com
o sobrenatural que envolve toda intelligencia acor
16 JACKSON DE FIGUEIREDO

dada, e um panico desse abysmo, e uma saudade


funda do que já se tem ido de mim nessas criaturas
queridas que se fôram (carta de 20-21 de Março
de 1928 ) .
Essa reacção em face da magua, que se caracte
riza por uma especie de fuga para dentro da vida,
já havia acontecido anteriormente, por occasião da
morte de Farias Brito . O contacto com esse grande
espirito viera como um acontecimento providencial,
quando já se esgotava no Jackson o seu periodo de
scepticismo. Alguns resultados estavam definitiva
mente adquiridos, e elle os exprimia vagamente :
“ continúo no mesmo estado de que lhe fallei ca
da vez mais me torno consciente de que nasci para
tirar da dôr a pureza intellectual de minha vida.
Esta convicção acabou por me dar, não direi a fe
licidade, mas uma enorme segurança dos meus fins
como homem ” (carta a Xavier Marquer de 31 de
Outubro de 1918 ) . " Certas horas, meu amigo, um
som longinquo, uma boa phrase, a religiosidade de
certos silencios, enche -me o coração de um grande
amor desconhecido, quero bem a todos os homens,
sinto um desejo immenso de agir bondosamente, de
fazer qualquer cousa pelos que soffrem " ( carta a
Xavier Marques de 20 de Fevereiro de 1916 ) .
Todas as suas meditações dessa epocha já se or
ganizavam , assim, em torno de um centro muito di
verso do que o primado do racional. Havia no Ho
mem alguma cousa de maior do que o raciocinio
era o soffrimento ; e uma necessidade mais imperio
sa do que a de ser instruido a de ser consolado.
O encontro com Farias Brito entreabrira para
o Jackson uma perspectiva deslumbrante : a possi
bilidade de fundar essas suas dolorosas acquisições
sobre o ser humano numa philosophia do espirito ,
restituindo á razão os seus direitos de cidade no des
CORRESPONDENCIÀ 17

tino humano, que ella havia perdido, quando evoluía,


isolada, como um instrumento de conhecimento in
differente .
Jackson chegava ao fim de sua lucta com o
cartesianismo immanente a todas as intelligencias de
sua epocha. Ao preço de seu repouso , de sua calma,
elle fez a experiencia tremenda do racionalismo, cuja
conclusão melancolica e árida se condensa nesse enun
ciado de Karl Jaspers: “ ser apta e utilizavel por
toda possibilidade de fé que tem a sua fonte em ou
tra parte, é a essencia da racionalidade pura ;
o mundo racional de Descartes se torna para outros
numa forma capaz de ser preenchida pelos conteu
dos de fé mais diversos ” .
Surgia-lhe porém como uma verdadeira revela
ção, do contacto com Farias Brito, a possibilidade
de realizar, tambem na sua experiencia pessoal, essa
outra affirmação de Jaspers, que transpõe o scepti
cismo : “ A racionalidade, uma vez isolada, permitte
tudo provar, emquanto que a verdade authentica
sob forma racional nasce sempre do contacto intimo
com o ser".
Esse contacto intimo com o ser não podia ser
outro senão o que se realiza atravez do soffrimento,
da consciencia do condemnado, da consciencia do
terror, e da necessidade angustiosa de ser consolado,
que lhe é complementar. Farias Brito representava,
para elle, uma experiencia pessoal viva, uma de
monstração de que esse contacto tragico com o ser
podia e devia ser expresso e vivido sob forma ra
cional.
Entre as formas racionaes que se lhe offereciam ,
havia uma que não podia deixar de attrahir absolu
tamente a sua attenção, porque todo o seu systema
decorria do soffrimento e do sangue, era deduzido
.
2
18 JACKSON DE FIGUEIREDO

de um acto de fé num acontecimento sangrento, pa


radigma universal de toda dôr humana : o episodio
do Calvario. Houve um homem que, com a maior
simplicidade, rompera tranquillamente os véus da
Razão humana, affirmando aquillo que elle, Jackson ,
havia constatado, não por força de um movimento
dialectico, mas na sua experiencia pessoal , nas en
tranhas de sua personalidade: o soffrimento é o fa
cto fundamental, ontologico , do destino humano. O
soffrimento tem por si só o dom de remediar ás li
mitações da creatura , de conferir - lhe um valor de
eternidade.
E esse homem affirmava ainda : o soffrimento
do homem, por maior que seja, ainda não é o soffri
mento supremo; tudo o que é supremo só pode ser
realizado por Deus, e por isso, mercê de sua infi
nita misericordia, Deus quiz assumir concretamente
a forma humana, para que o espirito do homem ,
ajudado por seus olhos materiaes, pudesse vêr o sof
frimento absoluto, e atravez delle redimir - se. E esse
Deus que padece, aqui está pregado numa Cruz. Eis
aqui a fonte do contacto mais intimo com o ser, de
onde podereis retirar o conteudo authentico para a
verdadeira vida da Razão.
E' difficil verificar em qualquer experiencia hu
mana, o ponto exacto em que ella transita para o
dominio da fé, e a razão sufficiente desse acto , nos
dominios da psychologia . Parece-me porém acertado
affirmar, que na multiplicidade de motivos que cons
tituiram a ultima disposição da alma de Jackson para
receber esse dom , está essa meditação do valor do sa
crificio sangrento. E' uma meditação que se encon
tra insistentemente integrada á sua apologetica e i
correspondencia com Alceu Amoroso Lima :
CORRESPONDENCIA 19

“ Terrivel, desequilibrante é, sim, o peccado, o


erro moral. Só elle faz medo, só elle póde trazer sob
a sensação de panico o homem christão, principal
mente quando este homem , por temperamento e edu
cação, se sente eternamente attrahido pelas maiores
alturas e pelos precipicios mais trevosos da vida de
tempestade, da vida passional, da vida mesma, que
vae se agitando em si propria como si não houvesse
Deus e o sangue de Jesus Christo misturado ás suas
espumas ” ( carta a Alceu , de 24-25 de Março de
1928 ) . “ Na imitação de Jesus Christo o homem pode
ir até o sacrificio da Cruz " ( carta a Alceu, de 11-12
de Maio de 1928 ) . " Realmente a sua alma, que V.
julga tão exangue e pallida, é uma das raras com
pletamente embebidas do sangue de Jesus Christo
alma que tem o sentido do sacrificio e a nitida
visão de que a vida é uma tremenda guerra " ( carta
a Alceu, de 1.0-2 de Outubro de 1928 ) .
Era natural que elle fosse avidamente buscar
as revelações da consciencia do condemnado, da an
gustia do moribundo, naquelle que viveu em si, como
para poder fixal- os em paradigmas universaes, todas
essas modalidades supremas do terror , e as expri
miu definitivamente : " Minh'alma está triste até a
morte ” ; “ meu pae porque me abandonaste ?”
Essas matrizes da dôr humana se transforma
ram rapidamente , no conteudo absoluto e definitivo
de sua experiencia da verdade . A vida, paixão e
morte de Christo apparecia -lhe assim , com uma força
de evidencia pungente, o schema universal do des
tino humano, de que cada destino particular não é
ou não deve ser, si quizer realizar a sua idéa, o seu
télos, senão approximações e imitações repetidas .
O que Farias Brito poude offerecer ao Jackson
foi uma luminosa e fecunda indicação, a de que, den
20 JACKSON DE FIGUEIREDO

tro desse drama, a razão poderia ser integrada har


moniosamente, depositando nessa experiencia angus
tiosa e violenta um germen de nostalgia pela orga
nização equilibrada da vida, que posteriormente iria
empolgal- o na estructura social da Igreja.
Essa estructura social, de uma solidez de linhas
incomparavel era, visivelmente uma extraordinaria
seducção para o Jackson ; a sua expressão, como apo
logéta , como polemista, costumava ter um caracter
maurraseano, podendo dar a illusão de que elle coin
cidía com Charles Maurras, numa simples admira
ção exterior da imponente architectura da Igreja
visivel.
Na realidade, o caso se apresenta muito di
verso : Jackson nada tinha de um attico ou de um
humanista ; a contemplação politico -social da Igreja
foi nelle um sentimento derivado, somente possivel,
para essa alma tempestuosa , porque lhe apparecia
como a crystallização luminosa e severa de um con
teudo interior palpitante do tormento da carne hu
mana .
Quizemos accentuar de proposito o papel que
Farias Brito desempenhou no seu destino, aliás con
fessado tantas vezes por elle proprio, porque a morte
do grande pensador cearense inaugura uma phase
nitidamente nova para o Jackson .
A correspondencia anterior a esse acontecimen
to nos revela um Jackson penetrando lentamente a
significação do soffrimento, mas todo inclinado a
um estado scismatico, de quietudo e retrahimento.
E sobretudo a phase em que elle procura ser apenas
consolado, e ainda não percebeu que a iniciativa da
consolação, a dadiva de si mesmo será talvez o re
medio supremo ao abandono interior.
Em dois documentos, sobretudo, deixou elle gra
CORRESPONDENCIA 21

vados os effeitos moraes da perda do grande amigo :


uma carta a Alcides Gentil de 27 de Janeiro de 1917,
e outra a Xavier Marques, de 29 do mesmo mez.
Ao primeiro, dizia elle : “ Por enquanto me é impos
sivel fallar -lhe de tão terrivel transe. Morreu sor
rindo, a conversar commigo, sem saber que ia che
gar o momento decisivo. O estado de profunda es
tupidez em que fiquei desde então não me permitte
te dar detalhes de tudo " ; e ao segundo : “ Si até hoje
não lhe escrevera ainda sobre o rude golpe com que
me feriu o destino, é que me sentia num estado de
quasi absoluta estupidez, marasmático, sem reacção
mental” ; “não sei mesmo si a morte de Farias Brito
não foi um desastre irremediavel para a minha exis
tencia aqui no Rio — nada sei. Sinto somente que
a cada dia que se passa mais se accentúa o isola
mento terrivel em que fiquei. De agora em diante
que será da minha obra sem a confiança que depo
sitava nelle, porque a via julgada e amada por aquel
le homem extraordinario, que tinha para commigo
o duplo carinho de um verdadeiro pae e de um gran
de Mestre ? ”
Como se vê, foi talvez o soffrimento mais mar
cante , mais decisivo da vida de Jackson . Farias Bri
to era para elle o que elle depois foi para muitos :
aquelle que, por assim dizer, vive e soffre um pouco
por nós, nos dispensa desse grande peso da auto
nomia pessoal exclusiva e existe lá onde nós o en
contramos sempre, uma existencia na qual se re
pousa, de cuja riqueza e merecimento participa
mos, mysteriosamente, numa extranha demonstra
ção da reversibilidade do merito . E' uma cousa
mais profunda do que um simples abalo moral essa
brusca cessação de uma existencia á qual estavamos
enxertados por compromissos humanos e transcen
22 JACKSON DE FIGUEIREDO

dentes. E um desses despedaçamentos que já se pas


sam no centro ontologico da personalidade, e que de
um só lance irremediavelmente a obrigam a cres
cer ou a mutilar-se, sem outra alternativa possivel.
A esse espicaçamento agudo de suas entranhas,
Jackson responde, porém , com aquelle processo que
elle confessava lhe ser habitual e expontaneo. As
mesmas cartas que narram a repercussão dolorosa
da morte, terminam num tom de victoria e de com
mando que ninguem ainda lhe conhecera, senão , por
uma analogia grosseira, com os processos desabusa
dos de sua vida de estudante irresponsavel.
Jackson surge dahi um verdadeiro chefe ! Não
é mais o espirito languido e scismatico, timido quasi
nas suas affirmações, com o qual se tem um pro
longado contacto na correspondencia anterior. E ' um
homem que sente, de repente , a necessidade de agir,
de projectar - se, de se fazer o interprete das cons
ciencias que morrem sem se terem exprimido, dos
heroismos desconhecidos, dos destinos ignorados. E
a sua acção, quando surge, já vem dotada de um
alcance espectacular : ella abraça todos os homens,
sobretudo aquelles que soffrem pela intelligencia,
que elle não estava longe de definir como a facul
dade de provocar e aguçar soffrimentos, inclúe todos
os planos e visa crear condições, no meio brasileiro ,
para a eclosão da grande vida interior de que essa
acção decorría, por superabundancia .
" Agora (continúa elle na carta a Alcides Gen
til ) o que é preciso é luctar pelos bons ideaes que
elle pregou e preciso de todos os meus amigos, de
todos os que me merecem seria confiança ”. E na
carta a Xavier Marques : " O Brasil é incontestavel
mente um país em dissolução. Eu não descreio do
nosso futuro como povo. A America que deu Farias
CORRESPONDENCIA 23

Brito, a America mais selvagem ainda, ha de ser


por força a arena das maiores luctas humanas no
correr dos seculos. Mas nós , como nação, tendemos
a desapparecer. O respeito á verdade está de todo
suffocado - a justiça não tem abrigo na conscien
cia dos que nos governam ”.
A partir dahi , Jackson ingressou definitivamen
te numa cruzada e combateu até a morte. Em favor
de que ?

ACTUAÇÃO POLITICA
Em favor da rechristianização da vida brasi
leira em todos os seus aspectos. Essa phrase exige
alguns commentarios, que não permittam que se des
cance na sua significação hoje tão superficial á força
de ser usada e reivindicada a cada momento , e que
lhe restitúa o sentido profundo e real que possuía ,
quando usada pelo Jackson. Essa rechristianização
não consistia, para elle, em nada do que fosse acci
dental , isto é , em acontecimentos exteriores, no pre
enchimento de certas formalidades do poder tem
poral em face da Igreja , no florescimento apparente
de um christianismo social para uso externo.
Não. Jackson desejou organizar uma elite, ex
tensiva a quantos fossem capazes de encontrar o
seu accesso, que vivesse intensamento aquella sua
experiencia da vida, paixão e morte de Jesus Christ:
como unica realidade digna de ser meditada e vivi
da ; mas uma elite aguerrida , que encontrasse nessa
contemplação os motivos e a força de imprimirem
o tom, o colorido, a toda a vida nacional .
A sua concepção possuía assim um principio
aristocratico, muito differente de um simples exclu
sivismo de casta, visto que a existencia desse nucleo,
24 JACKSON DE FIGUEIREDO

verdadeira alma do organismo social, o transforma


ria de tal sorte, que toda communhão nesse organis
mo, mesmo involuntaria e inconsciente, introduzi
ria aquelle que della participasse numa vida superior,
a que elle seria incapaz de ascender por suas pro
prias forças. Jackson queria preparar, no Brasil,
aquelle fermento de que falla o Evangelho.
A sua concepção de sociedade era de alguma sor
te uma transposição da idea de communidade ecume
nica, unico typo social que lhe parecia admissivel. O
problema do Estado se resumia para elle nisso : que
o Estado tenha todo poder ; si elle fôr illuminado por *

dentro, por uma vida espiritual de uma elite diri


gente, esse poder nunca degenerará em oppressão ,
e será sempre um instrumento de aperfeiçoamento.
Jackson se propõe activamente a preparar essa
elite, com urgencia, para que ella, assim formada,
possa ainda se oppôr á sensação de desagregação im
minente, que é o seu clima mental em relação ao
Brasil .
O presentimento de uma instabilidade essencial,
de uma especie de vicio occulto, de equilibrio insta
vel na estructura nacional, de um principio de auto
destruição aninhado em seu seio, tornou a sua po
sição entre nós muito semelhante á do russo Cons
tantino Leontieff, em relação a sua patria.
Leontieff, nos meiados do seculo passado, af
firmava que era preciso " congelar ” a Russia, para
que ella não apodrecesse. E' esse o sentido mais im
mediato da rigidez com que o Jackson reclamava
que se immobilizasse o Brasil, fortificando o prin
cipio de autoridade, contra a paixão revolucionaria
que pullulava no seu seio .
Elle proprio se preparava para fazer, no am
biente brasileiro, uma revolução muito mais radical,
CORRESPONDENCIA 25

porque vinha por dentro, substituindo os alicerces


mesmos da sociedade. Mas era preciso não permittir
que se abalasse a estructura apparente, afim de que
o processo degenerativo que lhe parecia minar oc
cultamente o organismo nacional não evoluisse.
A differença entre essas duas revoluções elle a
definia em carta a Alceu Amoroso Lima numa phra
se pittoresca :
“ Mas informe-me, até segunda feira proxima,
de alguns traços geraes do pamphletario (Julien
Green ). Quem é ? Sei que tem um livro no " Roseau
d'Or ” , mas é declaradamente catholico ? A conscien
cia delle é a de um catholico integral, perigosissimo.
Nós, catholicos de verdade, somos uma ameaça mui
to mais seria ao mundo moderno do que os mais
convictos bolchevistas. O que vale a este sarapatel
de oiro e de lama é que é mais facil ser bolchevista
do que catholico de verdade” (carta de 18-19 de ja
neiro de 1928 ) .
O perigo da consciencia catholica para o mundo
moderno, consistia em que ella se propunha, não a
transformar, de repente, os quadros da vida, mas
a modificar a taboa de valores em que assenta
a sociedade, num sentido totalmente diverso daquelle
que é o fundamento de todas as utopias politicas e
sociaes de nosso tempo. Essa affirmação de Jackson
se encontra , na correspondencia, precisamente numa
phase em que o problema da riqueza, da desigual
dade de condições materiaes, vem sendo passado em
revista sob todos os seus aspectos, como valor espi
ritual principalmente. Jackson se mostra intransi
gente adversario de uma concepção utopica da so
ciedade terrestre, baseada num criterio de felicidade
temporal: “ Desenvolver christãmente as suas ener
gias é problema bem mais difficil para o homem a
26 JACKSON DE FIGUEIREDO

quem a fortuna facilita o mal. E o que é preciso é


romper absolutamente com a concepção materialista.
No fundo, o que ainda o atormenta é a indefinida
idéa de que o importante é realizar a justiça na
terra. Mas não é. O importante é elevar - se á ordem
da caridade tal como a Igreja a comprehende, isto
é, a do amor por amor de Deus, o que não é pri
vilegio do pobre e é mais difficil ao rico. E mais
importante ainda é saber que a verdadeira justiça
tem que ser transportada para além da vida. E lá
estará ” ( carta de 11-12 de Maio de 1928 ) .
Além do sentido philosophico e doutrinario des
sa revolução na intimidade das almas, Jackson tinha
ainda que considerar os meios propriamente po
liticos, de assegural- a, e era apenas essa conside
ração de opportunidade, que imprimia á sua actua
ção o caracter reaccionario e conservador que re
vestia e que pode ser por engano identificado a qual
quer das doutrinas politicas que se fundam na con:
pressão do homem em favor de uma ideologia.
A sua reacção era simplesmente opportunista ,
e visava “ congelar ” provisoriamente o Brasil, afim
de que, tudo o que ainda lhe restava de organico,
de vivo, não fosse invadido pela “ paixão libertaria ” ,
pelo vago e violento prurido de individualismo, de
liberação de instinctos , que elle sabia ser o verda
deiro inimigo da expansão do homem como pessoa.
E só se comprehende perfeitamente a sua attitude,
quando se realiza essa ultima noção com todas as
suas consequencias.
A theoria da pessoa, como todas as convicções
do Jackson realmente profundas, não era um pro
ducto dialéctico, mas um resultado de sua experien
cia no soffrimento . E essa experiencia coincide de
tal forma com a de alguns outros de nossos contem
CORRESPONDENCIA 27

poraneos, pertencentes a uma mesma familia espi


ritual, que definil - a é fixar o thema mais importante
que se offerece á meditação da consciencia moderna.
Ella existia já rigorosamente fallando, no pen
samento tradicional, como a distincção entre o indi
viduo — categoria biologica, sujeita ao determinis
mo da especie ; e a pessoa, categoria espiritual e re
ligiosa , unica e original em sua especie, dotada de
liberdade e do poder de creação. O aprofundamento
desse conceito , porém , só se fez imperioso e urgente
nos nossos tempos, justamente em face da importan
cia que adquiriu o problema das relações entre o in
dividuo e o Estado .
A comprehensão de que a reivindicação do indi
viduo, constituida do impulso para a liberação dos
instinctos, era um principio mortal para as socieda
des organizadas, e contrariava as leis biologicas de
sobrevivencia da especie humana, levou a transferir
se o eixo das ideologias, do homem , para uma abs
tracção collectiva qualquer.
Ha qualquer cousa, porém, no homem, que r :
pudia , como monstruosa, toda organização que o não
leve em conta como tal, nos seus interesses pessoaes,
algo que se recusa a ser considerado como um meio
para a consecução de fins que o transcendam. O ho
mem sente que é, no fundo, a unica realidade, e que
The importa , antes de mais nada , realizar - se auto
nomamente, e que essa realização é que possue um
valor eterno e definitivo. “ Deus, que é a fonte de
todos os valores , não utiliza nunca a pessoa humana
como um meio. E, si acontece outra cousa na socie
dade, na nação, no estado, é unicamente por causa
do elemento sombrio, demoniaco, que elles encerram "
( Nicolas Berdiaeff
aeff — Cinco meditações sobre a exis
tencia , pag. 183 ) .
28 JACKSON DE FIGUEIREDO

Essa divergencia entre a pessoa e a collectivi


dade chegou ao seu auge nos nossos tempos. Por
toda a parte é essa a alternativa que se propõe ao
homem moderno, e dahi o ter passado ao primeiro
plano a analyse do conceito de pessoa, constituindo
se uma litteratura cuja riqueza começa a alimentar
o pensamento philosophico de nossa epocha.
A modernidade de Jackson consistiu principal
mente nisso, que elle preparou as bases doutrinarias
para o advento dessa concepção, que hoje se encon
tra claramente expressa na obra de Berdiaeff e no
“Humanismo Integral” de Maritain .
Si as doutrinas contemporaneas percebem que
a revolta do individuo deve ser suffocada, porque o
individuo, como tal, é todo orientado ao bem da es
pecie, o seu erro intrinseco, sombrio e demoniaco,
é a assimilação da pessoa ao individuo. Deve -se dis
tinguir , porém , o que no homem é tellurico, instinct -
vo, animal, integrado, por conseguinte na categoria
- individuo, muitas vezes e commumente existindo
como força de suffocação da propria personalidade,
principio de destruição e inclusive de auto destrui
ção ; e o que no homem é valor eterno, aspiração de
perfectibilidade, creação, autonomia. Todas as ma
nifestações da pessôa, confundidas com as manifes
tações do individuo, tendem igualmente a ser suf
focadas por uma collectividade que não as distingue.
Jackson, reaccionario em relação ao individuo,
era porém um adorador enlevado da pessoa humana,
incapaz de tocar no que ella tinha de original e de
unico. E isso porque a sua experiencia da pessoa
era muito viva, quer na sua propria interiorização,
quer no contacto intimo que elle mantinha com todas
as creaturas que atravessaram o seu destino. A sua
doutrina politica, no momento em que actuou, po
29
CORRESPONDENCIA

deria ser assim resumida : suffocar a revolta do


individuo, para crear condições interiores na socie
dade brasileira, que permittissem o completo flores
cimento da pessoa , nas suas manifestações livres,
em actos moraes, em actos estheticos e em actos re
ligiosos. O individuo, nessa theoria , estava orde
nado á collectividade, e subordinado á sua creação ;
mas a collectividade, que não é uma realidade por
si , estava ordenada ao bem da pessoa humana.
A communicação entre pessoas se realiza numa
ordem muito superior á das relações entre indivi
duos, na sociedade ; si, nesta ultima, o individuo pres
ta uma satisfacção de justiça a um outro individuo,
elle o faz com um acto ou uma omissão exterior,
sob a coacção de uma lei ; mas quando a pessoa rea
liza um desses actos, o faz em plena liberdade, pelo
principio do amor pela outra pessôa com a qual com
munica .
Todas as situações em que o amor intervem como
causa são operações da pessoa e não do individuo ;
este, é egoista, e só é sociavel por necessidade de col
laboração, um pouco no sentido do contracto social
de Rousseau ; aquella é eminentemente communica
tiva, tem a angustia do isolamento moral, a ancia
de communicar -se e unir - se a outra pessoa espiritual
e se inclina a formar uma especie de communidade
com todos os seres affins.
Essa idea de communidade espiritual dominou
todas as relações humanas de Jackson, e era o fun
damento mesmo de sua noção de amizade. Elle che
gava a dizer que " não comprehendia como podia exis
tir intelligencia sem amizade", o que bem demonstra
o que significava para o Jackson essa palavra . Longe
de ser um prurido sentimentalista superficial, uma
tolerancia distante, a amizade era uma inter - acção
30 JACKSON DE FIGUEIREDO

entre pessoas, o cimento de uma solidariedade inte


rior, um amor do ser ontologico, uma coparticipa
ção de destinos que fazia da intimidade com o Jack
son um alimento permanente para todos. Atravez
delle a personalidade se libertava do mal da solidão ,
do isolamento , e passava a viver numa outra dimen
são, em que a vida adquiria uma intensidade que
difficilmente, sem elle, é possivel reconstituir .
Commumente, nós vivemos todos fechados nos
nossos interesses, espiando os outros atravez da nos
sa attitude de defeza, offerecendo ao contacto exter
no a menor superficie possivel de nós mesmos. E
isso é justamente aquella estagnação, aquella auseri
cia de vida que elle tanto estigmatizava, porque essa
attitude deixa viver em nós simplesmente o indivi
duo, e suffoca a pessoa , que só se realiza na com
municação com outras , communicação essa que so
pode ser intima e essencial. Por isso é que elle pene
trava tão rapidamente em todos os nossos recantos
mais intimos, devassando -os, arejando-os, e estes,
assim chamados á luz do sol, enchiam-se de uma ten
são desconhecida, dilatavam - se numa expansão que,
mesmo quando é revivida pela memoria , nos appa
rece como coincidindo com o que deve ser realmente
a vida, livre, não da sua tragedia , mas do seu tedio .
A presença de Jackson era assim alguma cousa
que tinha um valor por si, porque , além do mais,
elle estabelecia essa mesma communicação absoluta
entre os que compunham o que elle chamava a sua
" pequena Igreja ”. E todos quantos o conheceram
nunca poderão ser sufficientemente gratos aos mo
mentos de riqueza humana excepcional que elle lhes
proporcionou e que talvez não lhes seja dado, por
incapacidade lou indolencia, reconstituir por suas
proprias mãos.
CORRESPONDENCIA 31

Nesse typo de sociedade sui generis, ness -


communidade,nada podia ser violencia ou oppressão,
e a ponta de romantismo do pensamento do Jackson
foi suppôr que elle pudesse ser extendido ou trans
posto para a organização do Estado. Não que elle
acreditasse numa realização utópica dessa transpo
sição, mas deixava que ella pairasse como uma as
piração inconfessada sobre a sua actividade politica.
A SUMMA SENTIMENTAL
No ultimo anno de sua vida, quando elle per
cebeu que as collectividades extensas encerram em
si um principio de animadversão contra a pessoa ,
quando elle se defrontou com o irracional da histo
ria, quando se convenceu de que o Brasil não po
deria mais ser “ congelado " , para aguardar, immovel,
uma lenta e segura transfiguração, volta a atormen
tal- o já agora como uma affirmação melancolica,
aquelle problema que já anteriormente elle abordava ,
como uma questão a ser resolvida : “ Não virá ahi
uma nova Idade Media antes de Carlos Magno (onde
houver um homem forte ahi está: a lei ) ? E não se
levantará amanhã burgo contra burgo, familia con
tra familia, na decadencia cada vez maior do sen
tido social ? A quem crê na Igreja, afora pensar
que tudo isso pode annunciar o fim do mundo, ainda
resta a hypothese de uma crise final , antecipando
melhores dias, e a outra de que, como já se tem
visto, um deslocamento no eixo moral da terra, a
civilização que avança para outro lado, deixará, mais
uma vez, a Europa e visinhanças na treva e na ruina .
Terá chegado pois o momento em que a salvação in
dividual somente se impõe ? Os povos não têm alma
que sobreviva ?” (carta a Alceu de 9 de Agosto
de 1927 ) .
32 JACKSON DE FIGUEIREDO

Essa desconfiança vai se accentuando nelle cada


vez mais, até que elle confessa numa de suas cartas:
“ O que o Brasil será ninguem sabe e é bem possivel
que elle não será, dentro em pouco, senão o nome de
uma cousa absolutamente diversa. Ora, eu, se pu
desse conservar intactos os principios moraes que
informam a minha doutrinação politica, usaria do
ferro e do fogo para conservar o que ahi está, talvez
sem razão.
O pensar assim neste momento ( momento que
começou em 1925 ) me tira todo e qualquer enthusias
mo para a lucta, e eu hoje tenho menos ambição po
litica ou mesmo material do que um mosquito. Nella
só estou porque não ha cousa mais seria do que um
passo dado para quem tem consciencia. Nella só
estou porque a consciencia me obriga a qualquer cou
sa a que chamarei deveres de estado. E isto já á
hora em que, com o mesmo ardor e o mesmo en
thusiasmo que levei aquella lucta , eu me sinto de
todo voltado para o problema do universal, do ca
tholico, do eterno, do que tanto pode existir existin
do o Brasil como não existindo (carta a Alceu de
2-3 de Outubro de 1928 ) .
Existem , ao longo de toda a correspondencia de
1928, uma serie de affirmações insistentes, denun
ciando no Jackson essa decepção. O seu espirito in
gressa nesse ultimo anno de sua vida terrena, ro
deado de sombras, e tocado ao mesmo tempo de um
vago estremecimento, de uma expectativa tremula
e diffusa, que o convida a recolher todas as energias
que elle havia projectado na actividade politica ex
terior, para concentrar - se no dominio que era emi
nentemente o seu : o aprofundamento da propria per
sonalidade, no contacto com aquellas outras que cons
tituiram a sua communidade.
CORRESPONDENCIA 33

E estas, não eram somente os amigos de carne


e osso, mas todos os seus escriptores, os seus poe
tas, os seus philosophos, depositarios da “tradição da
dôr humana " , ambiente natural de sua vida profunda.
E' durante esse tempo que o problema do universal,
dos valores eternos, que de resto sempre constituiu
a base de toda a sua actividade, começa a dominar,
absorventemente, as suas preoccupações. “ O erro
mais commum, diz elle, é suppôr que têm tanto valor
assim os 60 ou 80 annos que o homem vive nesta
lucta . Não . O que tem valor é o acto da creação
da alma. De onde só ter valor o que ella é para além
do tempo . De onde imaginar -se que um instante só
de contacto com a eternidade possa valer tudo o
mais que imaginamos" ( carta a Alceu, de 25-26 de
setembro de 1928 ). Ha aqui enunciada uma idéa
que não se deve deixar despercebida, porque é capaz
de esclarecer de muito as noções de amizade, de pes
soa humana, de communidade entre pessoas, que foi
o nucleo simples de irradiação de toda a sua activi
dade e tambem de sua singular influencia. A alma, a
pessoa, se cria , é um organismo espiritual que se
forma e cresce durante a vida, formando por assim di
zer a sua propria immortalidade, na medida em que
se torna mais espiritual. A creação da alma pelo ho
mem é a marcha para a existencia cada vez mais
perfeita e menos corruptivel, uma actualização cada
vez maior da possibilidade de ser. O erro moral lhe
apparecia assim como um crime ontologico, " o schis
ma do ser ", a marcha para o nada, mysterio sobre
o qual, a cada passo, reflecte a sua meditação.
E' por isso tambem que elle repete sempre que,
onde ha uma manifestação de vida, mesmo dentro
da paixão, ainda se está em contacto com alguma
cousa que pode vir a ser transformado num valor,
-
3
34 JACKSON DE FIGUEIREDO

e que a estagnação, a indifferença, a tranquillidade,


esses é que são os signaes verdadeiros da morte moral.
“ Regra singualr de apprehender a simplicidade das
minhas attitudes : amo tudo quanto é vivo ... porque
o vivo pode aspirar ao perfeito. O que eu não sup
porto é o morto, o artificial, os crystaes de palavras”
( carta a Alceu de 19-20 de Agosto de 1928) .
E mais adiante, na mesma carta : “ O que Jesus
Christo fez é o que deve ser repetido infinitas vezes,
de maneiras infinitas, porque parciaes : entrar pela
vida a dentro, comprehendel- a, sentil-a de todos os
modos, ora luctando (chicoteando ) ora soffrendo re
signadamente (Pae, si é possivel, afasta de mim este
calice ) , ora angustiado até quasi o desespero (Meu
Pae , meu pae porque me desamparaste ? ) , ora sor
rindo ás creanças, ora amparando a belleza, ora pro
mettendo a espada e o fogo, ora sustendo a violencia".
Pode - se dizer que Jackson cumpriu realmente
esse programma, vivendo essa variedade de momen
tos humanos cujos paradigmas fôram propostos por
Christo, e cujo conjuncto constitue uma como que
“ Imitação de Jesus” para os homens de um certo
estado e de uma certa epocha.
E ' uma via, entre tantas outras possiveis, de
desenvolver o organismo espiritual da pessoa, via de
inter - acção intensiva entre pessoas humanas, afim
de “realizar aquella proposição que nos encontramos
no ultimo livro de Berdiaeff : " toda a vida do homem
deve ser empregada em preparar ligações, conta
ctos com os outros homens, o universo e Deus, taes
que possam vencer a absoluta solidão da morte "
(Cinco meditações, pag. 110) .
Jackson , no anno de sua morte, sente -se tomado
da urgencia de activar essas ligações. A sua perso
nalidade viveu sempre empenhada em vencer a pro
CORRESPONDENCIA 35

pria solidão, e o phenomeno da morte é a suprema


experiencia do despojamento , do silencio, da perda
de contacto, um acto que, pelo menos num instante
adimensional do tempo , deve ser realizado pelo espi
rito sosinho , em face da eternidade. A approximação
desse momento como que Jackson o presente. As suas
imagens, de quando em vez, trahem em allusões mys
teriosas, a sensação do facto insolito, que o obriga a
interiorizar -se, a escutar dentro de si , a mergulhar
ainda mais na sua communidade, onde estão as li
gações mais fortes que a morte, com os seus amigos
e com os seus livros. E sobretudo, com uma pessoa
que mais do que todas é susceptivel de um commercio
intimo e consolador – a pessoa de Jesus Christo ..
Nós podemos agora ter uma approximação dos
motivos porque o Jackson não se propoz a escrever
uma obra de philosophia technica, elle que foi uma
das maiores cabeças especulativas que o Brasil já
possuiu, mas sim alguma cousa que, dez annos atraz,
elle definia como uma “ Summa Sentimental racio
cinada" .
A sua ambição era conduzir as forças da paixão,
analysal-as, descobrir as suas ligações com os valo
res eternos, fornecer ao homem instinctos que segu
ramente o desviassem do erro moral, e isto por amor
á vida em toda a sua intensidade, isso porque aquelle
erro " onde toca paralysa a vida " .
Não era sem razão que o problema da belleza
humana foi uma das suas constantes preoccupações :
“ E a imaginação, diz elle, talvez simplesmente amo
rosa , lyrica, talvez a mais profundamente religiosa,
me leva a pensar que, na vida, só a Belleza, e talvez
só a Belleza humana, merecerá um olhar meditativo,
e só ella contém o problema de felicidade” . ( carta
de 15 - 16 de Dezembro de 1927 ) . Uma carta pos
36 JACKSON DE FIGUEIREDO

terior, de 6 – 7 de Agosto de 1928 , repete o mesmo


motivo : “ A não ser uma pescaria quasi tragica que
fui fazer hontem lá para a garganta ou barra da
Tijuca, tudo, na minha vida, tem sido ultimamente
um lento trabalho de escavação interna, a ver si na
carta a Você consigo explicar, pelo menos, o proble
ma que mais me tem atormentado desde que me en
tendo . ( Note que elle se liga intimamente e quasi
que faz um com o problema da belleza humana, sobre
o qual talvez eu nunca chegarei a dizer tudo o que
penso ) ” .
A belleza corporal possuia para elle “ um valor
authentico, não podia deixar de ser um alto dado
metaphysico, de ter uma signicação universal e tra
cendente " ( carta de 20-21 de Outubro de 27 ) dado
o seu poder perturbante e o hybridismo de seus ef
feitos porque, si de um lado, é uma transparencia para
a personalidade, é uma expressão espiritual talvez a
mais concreta que se possa obter, agita , por outro
lado o mundodos instinctos, com uma violencia igual
mente especifica . Diante da belleza humana, o con
flicto entre a pessoa e o individuo se agrava e, por
conseguinte, o Eros, o poder funesto e ao mesmo
tempo purificador da belleza que o desperta , deve
ser o primeiro objecto de uma analyse que pretenda
revelar a economia entre o espirito e o corpo .
A ambição do Jackson era revelar que o erro
moral deve ser evitado não como uma negação da
vida, mas precisamente como uma dilatação da vida,
como a sua intensificação . O mal é absolutamente
illusorio, não possue nenhuma substancia real, e nós
nos alimentamos delle, por mera allucinação : na rea
lidade, não estamos absorvendo cousa alguma de nu
triente, que tenha sabor ou propriedades reaes. Para
que o acto do homem crie alguma cousa de novo e
CORRESPONDENCIA 37

que se lhe accrescente, é necessario que esse acto


possua um caracteristico especifico do acto determi
nado por uma finalidade livre : é necessario que elle
seja revestido do caracter de acto moral.
A éthica de Jackson era essencialmente dyna
mica e tinha um sentido de creação : agir, só é per
mittido para crear, e nada se cria com o acto sem
revestimento moral, apenas se distilla uma vă agi
tação que se perde no vacuo .
O grande drama, porém , do destino, para esse
philosopho dos actos humanos, é que o acto moral,
se definindo como a adequação da vontade a uma
finalidade intrinsecamente boa, a sua especificação
fica a depender em ultima analyse, da intelligencia,
que conhece essa finalidade. Entretanto , “nem sem
pre o conhecimento corresponde a um afastamento
do peccado ” . E isso elle considerava “monstruoso",
e só depois dessa dolorosissima constatação é que
elle admittia a reintegração do problema da intelli
gencia ( carta de 26-27 de Maio de 1928 ) .
E por isso que a sua theoria do homem devia
ser " raciocinada ", porque importava revestir a acção
de um caracter racional, conforme á finalidade, mas
seria antes de tudo uma “Summa sentimental ", isto
é, um mergulho experimental no mundo affectivo,
nos subterraneos obscuros onde estão aquellas forças
cegas da natureza humana que sympathisam com o
nada, e tantas vezes se oppõem á direcção da intel
ligencia .
Tomar o partido de interdictal-as simplesmente
seria, para o homem moderno, em que ellas se en
contram exasperadas, as mais das vezes inutil e
comportando um duplo perigo : o de que ellas, mal
dominadas, venham a perturbar definitivamente a
38 JACKSON DE FIGUEIREDO

personalidade espiritual ; ou de que, extirpadas,


carreguem tambem consigo pedaços dessa persona
lidade, que ficaria victoriosa , porém deformada .
Não . Jackson procurava fundar uma éthica em
que toda ascese possuisse um valor creador , e fosse
sempre um movimento de superação, de mudança de
plano, matando a vida com a propria viad, e esse é
o encanto que obscuramente estabelecia entre elle e
os seus contemporaneos uma sympathia mysteriosa,
ao primeiro contacto .
Esse encanto, nós esperamos que aquelles que
não o conheceram pessoalmente possam ainda pre
sentil - o atravez de sua correspondencia . Os extra
ctos que agora publicamos constituem uma pequena
parte da mais bella aventura intellectual que já oc
correu entre nós : a meditação dos problemas mais
graves do homem moderno feita por dois grandes
espiritos, com um resultado positivo, isto é, a lenta
approximação de um delles para o ponto de vista do
outro, por meio de uma attracção em que entraram
em jogo todas as forças que constituem o homem
integral.
Muitos dos nossos contemporaneos encontrarão
ahi um echo de suas angustias, de seus conflictos e
hão de sentir, ao lêr alguma dessas paginas em horas
de soffrimento agudo, de solidão interior, que en
traram em contacto com um typo de humanidade
superior, e se admirarão talvez de que o Brasil já
tenha podido produzil-o.
Comprehenderão, tambem , com essa illustração
viva, o que pode ser a communhão intima entre duas
personalidades, como ella permitte uma communica
ção que vence de todo o isolamento e que, nos perio
dos inquietos como o nosso, em que a pessoa humana,
CORRESPONDENCIA 39

com os seus privilegios inalienaveis de liberdade, au


tonomia e poder creador já não tem mais guarida,
constitue o unico typo de sociedade que nos per
mittirá supportar um pouco a compressão exterior .
Rio 1938.
BARRETTO FILHO
CORRESPONDENCIA
1
Rio , 15-12-1919 .
Alceu - Um abraço . Como vae esta força ?
Recebi os dados sobre I. de Souza e já seguiram
para Xavier .
Muito obrigado .
Que faz V., ou melhor, que julga V. do mundo
das letras ?
Hoje recebi dois livros novos do M. Lobato .
Está damnado o homem : dois de uma vez ! Valha-nos
isto. Nem só C. de Magalhães e os seus espirituosos
criticos nos apparecem .
Eu ando ás voltas com Afranio, bahiano dos
diabos que mal agarro a mãos juntas, dá dois saltos
e sahe pulando, toca aqui, bate ali, dá tres pinotes
acolá . Mas hei de ir com esta féra até o fim do mun
do — faremos um piquenique á beira dos abysmos .
Quando chegar a hora de estender a toalha hei
de pedir a sua presença .
Adeus !

Um abraço do
JACKSON
44 JACKSON DE FIGUEIREDO

Rio, 3-9-1920
Meu caro Alceu

O Afranio ( 1 ) aqui esteve, veio conversar com


o pobre e irritavel doente e me trouxe a sua carta .
Certo a que lhe fiz não tinha a pretensão de fazel - o
voltar atraz de tudo quanto externou em relação á
Cidade encantada . Já me satisfaz a honra da res
posta . Alguma palavra mais aspera para com V. de
ve ser perdoada pois, na verdade, estou entre os
seus mais sinceros admiradores . E ha mais o se
guinte : muito ao contrario de V. jamais separo o
homem do livro ou o que seja que haja escripto, a
ponto que se a Divina Comedia fosse publicada agora
pela primeira vez , sob a rubrica do Sr. João do
Rio, eu, de antemão , diria que o livro não era delle .
Prefiro tambem ver o livro com olhos de sympathia
e supponho que a sua regra de imparcialidade é um
pouco deshumana . Nós todos, mais do que imagina
mos, somos presas de paixões mais ou menos defi
nidas . Digo -lhe até : a paixão é a verdadeira, a REAL
atmosphera da vida social - e as lettras ahi se
movem .
Emfim , apezar do seu quasi convite para uma
discussão, onde eu quizesse, sobre a sua ultima chro
nica , devo repetir -lhe o que escrevi na minha pri
meira carta : não posso, neste momento, acceitar
qualquer debate prolongado. Continúo a julgar in
justissima a sua critica sobre A Cidade encantada e
lhe digo que, a meu ver, houve da sua parte, senão,

( 1) Afranio Peixoto .
CORRESPONDENCIA 45

como lhe disse, “ a escolha de um alvo para fazer


figura ”, uma certa e humanissima vaidade no des
fazer de um nome feito .
Quanto eu lhe disse do livro do Sr. Gustavo
Barroso não quiz significar que elle tem a pompa
como principal qualidade . Pode reler a minha carta .
Que o titulo é pastiche o é não porque se pareça com
o de um livro de V. Hugo – é pela pretenciosidade.
O titulo Cidade encantada ( 2 ) , pelo contrario, não
é feito pelo autor " cidade encantada ” é lenda de
todo o Est. da Bahia, creanças falam em "cidades en
cantadas ” , homens mais ou menos cultos creem nellas.
O personagem de Xavier foi, até certo ponto, dese
nhado sobre a vida de um padre illustre que acabara
ás voltas com aquella phantasia .
Meu valente sertanejo ! - Já se vê que V. nunca
viajou com aquelle homem do nosso sertão - e, como
lhe disse, V. esqueceu que o sertanista representa um
typo de aluado, tomado por uma idéa fixa, homem , é
evidente, de grande e desordenada imaginação . Não
li seu artigo com má vontade e dahi a surpresa . EO
li bem meditadamente . Não só este como o sobre a
Ronda e minha surpresa foi tal, ante a compara
ção, que cheguei a duvidar da sua realidade. Aliás
já lhe disse que leio sempre com a maior attenção o
que V. escreve e até tenho aqui guardada grande
maioria das suas chronicas . A Cidade encantada tem
a sua unidade justamente no elemento de maravi
Thoso que Xavier bebeu na vida do seu Estado natal.
V. com o seu amor ao real, levado a tal extremo, faz

( 2) Livro de Xavier Marques, uma velha amizade do


Jackson, adquirida nos seus tempos de estudante na Bahia, e
conservada até a sua morte , com aquelle carinho excepcional
com que elle cultivava todas as suas relações.
46 JACKSON DE FIGUEIREDO

taboa rasa de muito bôa litteratura universal. Aliás


que criterio adopta V. para assim montar - se na tão
larga e tão vaga noção do real ? Que pode ser o real,
não já direi para sua philosophia, mas para o exer
cicio da sua critica que será o real em materia
litteraria ? Já lhe não direi que a pura idealidade, a
pura imaginação seja a unica realidade verdadeira
da obra de ficção mas V. ha de concordar commigo
que o que ha de mais difficil e subtil em arte é justa
mente a fixação do que ha de imaginario, de sug
gestivo, de ideal na vida morta das cousas . Emfim ,
meu caro Alceu não posso discutir e não tenho
o menor desejo de tornar inacceitavel para V. o meu
acatamento .

Digo -lhe mesmo até : as nossas relações sociaes


e de amizade, propriamente, teem sido tão pequenas
que o seu desapparecimento, que eu sentiria , aliás,
profundamente, pois meu desejo é que se façam mais
intimas e mais confiantes pouco alterariam o
juiso que faço de V. como critico, o juiso que tenho
feito e continúo a fazer do papel que vae V. exer
cendo . Julgo que ninguem tem -se apresentado com
qualidades de caracter mais proprias do que as que
V. possue, neste estragadissimo dominio das nossas
lettras. Prefiro mesmo os seus peccados de rigor,
aos peccados de quase todos, de condescendencia ex
cessiva . V. tem , a meu ver, feito obra de sanea
mento . Quando peço a um homem olhos de sympa
thia no exercicio da critica, nem de leve desejo mala
barismos e arranjos com o que não presta . Sympa
thia é puro elemento de humanidade que, por isto
mesmo que é inclinação para julgar com bondade,
muitas vezes se transforma em revolta e indignação
ante o que é indigno . Em mim tem sido, mais de
CORRESPONDENCIA 47

uma vez, caminho mais curto para aquellas “ coleras


racionaes” de que fala de Maistre .
Vou fazer ponto aqui, pois estou realmente can
çado .
E acceite V. , sem o menor constrangimento , o
testemunho do meu acatamento .
Seu amigo e admirador que o abraça
JACKSON

Av . Pedro Ivo, 160 .


Entreguei hoje ao Afranio as notas sobre I. de
Souza ( 3 ) , que V. me confiara para o Xavier. Eu
as li tambem e são muito boas . De quem são ?

20 / 21-10-1922

Meu caro Alceu


Um abraço .
Só comprehendo completamente o meu christia
nismo quando estou só . Principio por ter então uma
grande pena de mim, desse outro Jackson de chapeu
preto , que anda pelas ruas, vae ás livrarias e fre
quenta os cafés , e acabo por ter pena de todos nós,
pobres homens, divididos , vaidosos da divisão, aman
tes do proprio orgulho e, todos, como dizia o velho

(3) O escritor e jurista Inglez de Souza, autor do “ O


Missionario ".
48 JACKSON DE FIGUEIREDO

Machado, ( 1 ) todos afinal ... pontuaes na sepul


tura ... Nem preciso recordar christãos. Relembro
certa pagina de Marco Aurelio, faço interrogações :
quantas dessas lutas de que já não ha nem memoria !
E me sobresalta , por fim, a unica verdadeira angus
tia digna do homem : a de pensar que assim elle viva
ainda , após o Supremo Sacrificio do Calvario ! Isto
me enche de tristeza mas me alivia de mim mesmo .
E' que é sempre assim : da meditação do Christo ao
sentimento do amor, a transição é quase impercepti
vel . Quero, sinto então que quero bem á desgraçada
raça dos homens, e nada ha que conforme mais que
o amor desinteressado nestes silencios, nestas soli
dões da vida espiritual, da vida interior .
Eis porque vim responder -lhe aqui de casa, alta
noite, tendo lido e relido tudo quanto V. , com a mes
ma delicadeza de sempre, me diz da impressão que
lhe deu a minha critica .
E devo, desde logo, lhe dizer, meu caro Alceu ,
que não vejo motivo para V. suppor que eu possa
me affastar de V. pelo simples facto de ser V. , como
critico, uma creatura , a meu ver, em erro ; como
intellectual, em opposição a tudo que amo, que é tudo
quanto penso . Pelo contrario : em primeiro logar
está que em todos os seus erros descubro eu a prin
cipal das verdades no trato humano que é tambem
uma ordem de conhecimentos ___

e esta é a sua sin


ceridade ( 2 ) . Isto para mim tem valor inestimavel.

(1) Machado de Assis.


(2) No dominio moral o modo de conhecimento se des
loca para a esphera da conaturalidade, para a sympathia e
adhesão ao objecto conhecido. As relações entre pessoas hu
manas, para Jackson , era, por excellencia o campo em que a
intelligencia se move guiada e solicitada pelas virtudes moraes
CORRESPONDENCIA 49

Se V. conhecesse um pouco a doutrina da Egreja,


saberia do alto valor moral que o catholico tem que
lhe dar, necessariamente, por mais que lhe combata
as ideas . Não é por favor, é por obrigação moral,
afora o que de natural ha no sentimento que nos
liga, tem ligado e espero em Deus ligará . Decorrente
ainda da sinceridade que lhe reconheço, e dada a
sinceridade minha propria, aclara - se a minha unica
attitude deante de V. , como deante de todos a quem
amo : quando os discuto, a cousa litteraria é secun
daria para mim, ou ainda menos ( 3 ) . Penso mais
na salvação de sua alma do que no seu livro, na sua
critica etc. E se o ridiculo não me attingirá nunca ,
eu tenho consciencia de porque não attinge : é que
me armo da tal couza secundaria, uso das mesmas
armas que V. , ou outro a quem ame, e me interessa
falar. Pois que me pode interessar a critica littera
ria no Brasil, se a considero em si mesma ? Poderá

que se constituem assim em verdadeiros instrumentos de co


nhecimento. O contacto da pessoa humana com outra pessoa
humana só pode ser realizado sob a especie de uma commu
nhão realizada atravez de movimentos e criterios moraes, e
nunca de uma analyse intellectual indifferente e objectiva . Essa
noção de pessoa, que nos encontramos hoje tão profunda
mente meditada por Berdiaeff ( Cinq méditations sur l'exis
tence ) era um dado fundamental do pensamento e da acção
jacksoniana. Era ella que o fazia erguer-se contra uma critica
literaria objectiva, que analysasse os productos do espirito des
prendidos da alma que os produziu, quando a pessoa humana
e as suas manifestações deviam , para elle, ser alcançadas dentro
de uma polarização interessada. A critica tinha de ser uma
resposta de alma para alma, fecunda e creadora de valores no
vos, como todo contacto succedido entre duas pessoas humanas.
( 3) Vê-se aqui claramente indicado o plano em que pre
tendia mover- se, de caracter humano , anthropologico , consi
derando que é no interesse humano que se synthetiza tudo o que
a intelligencia pode captar e conhecer.
50 JACKSON DE FIGUEIREDO

ella ser a finalidade do espirito menos ambicioso ?


Não . O que me interessa é a alma que ella revela,
e se esta alma pode ou não elevar -se á Verdade, fazer
bem ou fazer mal ás menos aptas e ajuisar das
cousas por si mesmas . Eis ahi toda a minha questão
com você, só producto do bem , do grande bem que
lhe quero . Tudo o mais não vale nada para mim .
E' logico que quando adivinho ou sinto ou observo qu .
um dado escriptor, um dado homem não é capaz de
elevar - se á verdade christã - deixo - o de lado ; quan
do muito defenderei delle, dos seus ataques, a socie
dade em que vivo ; elle em si é como a raiz torta,
que não posso endireitar. Não sou santo, não faço
milagres, e taes homens só Deus pode com elles e só
os santos lhes devem caridade especial. Eu só me
atrevo a chegar -me aquelles que naturalmente se po
dem irmanar a mim, pelos mesmos processos a que
cheguei aonde estou – feliz na pobreza, seguro do
meu destino, apezar do infeliz temperamento e dos
estragos que a pessima educação me deixou na al
ma . Pois não conhece V. o meu caso com o
Mario ? (4 ) Não é notorio ( não faço mesmo questão
que seja ?) que é o meu mais dilecto amigo, aquelle
com quem mais convivo e sinto ? Digo - lhe até que,
se a comparação não fosse blasphema, eu poderia
affirmar que o Mario é a minha pequena egreja ( 5 ) .
Irmão na fé catholica, só um homem, e humilissimo,
teve, até hoje, intimidade tão grande commigo . E
Deus o affastou para muito longe de mim, talvez
mesmo para que ainda ficasse em maior relevo a in

( 4) Mario de Alencar.
( 5 ) Jackson converteu depois essa formula nessa outra ,
que usava habitualmente: “ os meus amigos são a minha pe
quena igreja ".
CORRESPONDENCIA 51

timidade do Mario . Ora, você bem sabe que este já


mais me acompanhou em doutrina e eu posso até
dizer que sou, deante delle, o phantasma da Dis
cussão . Pois fique você sciente que a Egreja me
quer amigo delle, seu, do Afranio, de todos os seres
vivos, capazes, por conseguinte, de verdadeira Vida .
Outro caso , meu caro Alceu : um homem que tem
a sua intelligencia , não pode nunca ter a fé do car
voeiro, como eu poderia desejar que V. renunciasse
á sua liberdade de pensar ? Mas uma é esta, no bom
sentido, e V. não a tem mais do que eu, outra é a de
escrever tudo o que, um dia depois, relido, já lhe
merece duvida e até desgosto, conforme confissão
sua . Outra tambem é se confessar por preguiça e
conforto numa attitude não só prejudicial á sua alma,
como possivel causadora de mal a muitas creaturas .
Outra -
e terrivel é atacar o que confessa não
conhecer . V. diz que não ataca a Egreja . Eu lhe
digo : ataca e muito . A só attitude de indifferença
ante certos problemas não só equivale a um ataque
surdo á moral christã como até á Lei natural . E a
Egreja de Jesus Christo é tão grande na sua vida
exterior como na vida interior de cada homem . E se
V. , renunciando ás prerogativas do Baptismo, faz
um ideal todo seu , como se V. fosse um Deus, de um
mundo especial, seu proprio, se V. , vivendo na so
ciedade que a Egreja formou, passeia a sua linda
despreoccupação dos alicerces della, não só gasta per
dulariamente os seus proprios sapatos como gasta,
sem direito, as pedras do chão benefico . Ora, é isto
attitude digna de um coração como o seu ? Como se
arrisca V. a ferir, mesmo de leve, o que está em
sua frente, não é possivel evitar, e, no entanto, V, não
se deu ao trabalho de saber o que é?
.

52 JACKSON DE FIGUEIREDO

Tudo o mais não quero propriamente discutir .


Já lhe disse que não me interessa . O que quiz re
affirmar é meu horror á litteratura neste como em
outros casos , reaffirmar que só a amizade me leva a
discutir -lhe o papel, a acção de critico . E' porque
Tristão é Alceu que Tristão me interessa . Esta tem
sido minha attitude, esta será a de sempre . Nunca
pedi a V. que cresse . Pedi sempre, directa ou in
directamente, que se informasse para crêr ou não
crer ( 6 ) . Quer V. um exemplo , da sua carta mesmo,
da necessidade de que lhe falo ? Eil-a : diz que “ a evo
lução da philosophia religiosa tem sido , incontestavel
mente, no sentido de ceder, pouco a pouco, ao estreito
!

( 6) A confiança que Jackson manifesta nesse trabalho


de esclarecimento da razão, para o fim de obter a fé, não deve
ser interpretada no sentido de que elle considerava esse traba
lho uma condição necessaria e efficiente para aquelle resultado.
Necessaria elle sabia que o era, dado que se tratava de um
intellectual, para quem o movimento da fé suppõe normal
mente uma exhaustiva preparação dialectica ; sufficiente, não.
Jackson presentia as mysteriosas relações entre intelligencia e
vontade, e accentuava muito o papel desta ultima na applica
ção da intelligencia no seu objecto. Mesmo que a intelligencia
conseguisse uma informação completa sobre os dados do pro
blema, ainda assim a parte da vontade na adhesão e no assen
timento parecia - lhe decisiva. Ha, nesse sentido, uma carta muito
significativa que commentaremos adiante. A vontade, quando
se trata do bem sensivel, quasi sempre obedece á indicação da
intelligencia, mas, em relação ao objecto da fé, sobre o qual
a razão só pode fornecer motivos de credibilidade, os obsta
culos oppostos pela vontade são intransponiveis. jackson con
fiava, em ultima analyse, na sinceridade do seu interlocutor, e
no funccionamento da graça que, embora gratuita (“ o espirito
sopra onde quer ") nunca deixou, por uma coherencia myste
riosa, de corresponder ao esforço meritorio. A segurança pois
que Jackson manifesta, ao tratar com determinados casos, ba
seia -se num calculo transcendente em que entra uma incognita
absolutamente indeterminavel e é isso o que dava á sua apolo
gética um elemento apaixonante de imprevistos e de risco.
CORRESPONDENCIA 53

doutrinarismo, alargando - se a medida que alarga o


horizonte intellectual do homem ” . Pois tudo isto é
que é muito contestavel . Incontestavelmente ha um
progredir do homem em relação ao dogma, isto é,
este , conservando sempre o que tem de alem da razão ,
a esta se aclaram cada vez mais muitos dos seus
aspectos. Mas com isto só faz mais definida, mais
limitada, melhor demarcada a doutrina . Assim foi
em pleno seculo XIX que a Egreja achou que o dogma
da Immaculada C. de Maria podia já ser definido,
e tambem o da Infallibilidade Papal .
Diz mais você : “ A hypothese religiosa pode ser
hoje uma hypothese scientifica . Será essa affirmação
uma ingenuidade etc ? ” A meu ver, é . Não ha hypo
these religiosa ha affirmações, uma certa, todas
as mais erradas, mais -ou -menos o que pode haver
é hypothese scientifica no dominio religioso, assim
no terreno historico, como no de cada sciencia, que
se relacione com este ou aquelle aspecto da fé . E tal
facto em nada altera a Religião positiva . Assim
quando V. adeante pergunta : “ A propria religião
não acceita hoje a hypothese de Laplace quanto á
origem de nossa terra ?” “ E não é ella que reduz a
simples condição de symbolo a fabula de Adão e
Eva ? ", incide em erro gravissimo em relação á
Egreja . Não, a Religião não acceita ( no sentido ab
soluto ) nem a hypothese de Laplace nem a dos que
a vão reduzindo a quase nada . Podem acceital- a ou
não os homens que fazem a Egreja no sentido de
reunião de crentes , e não a Egreja como corpo de
doutrina . Se V. me mostrar em qualquer livro dou
trinario da Egreja, lei ou decreto della emanado,
uma só questão scientifica definida dogmaticamente,
isto é, obrigando a cada crente e á Egreja, eu, na
mesma hora deixarei de ser catholico . Meu caro
54 JACKSON DE FIGUEIREDO

Alceu : a Egreja Catholica não tem nem cosmologia ,


nem mesmo chronologia dogmatica . O seu tempera
mento conservador faz homens conservadores . Estes
podem se agarrar mais ou menos a estes ou aquelles
habitos mentaes, e resistirem mais ou menos a uma
hypothese scientifica . A Egreja não os obriga a na
da a este respeito . Quando V. quizer, por exemplo,
conhecer destas questões em geral e, do ponto de vista
historico, uma questão como a de Gallileu ou Colombo
eu aqui estou ás suas ordens para lhe fornecer livros
capazes de o aclarar sobre a attitude da Egreja . Em
verdade, são questões estas que não posso abordar
numa carta, nem mesmo me sinto competente para
o caso, mas confio no criterio com que escolheria
taes livros, que o obrigariam pela força mesma da
evidencia a não fazer perguntas que valem como pes
simas affirmações. Não, não pense que nós, catho
licos, abandonamos a fabula de Adão e Eva . Mesmo
scientificamente eu lhe poderia citar a favor della
nomes da mais alta estirpe scientifica . Entretanto,
devo dizer -lhe que neste ponto ha ampla liberdade
de discussão, sempre houve, e fez a historia de muita
luta intellectual, como faz hoje . Não é elle dogma
da Egreja . O que é dogma é a creação do homem
por Deus .
Olhe eu afinal acho graça ( perdốe a phrase, que
não é, no entanto, de ironia ) na maneira como voceis
se atufam dessa vaidade : a minha liberdade de pen
sar, o pensado por mim mesmo, etc.
Pois veja lá : não creio que voceis tenham mais
amplo campo em que corra á solta o pensamento do
que eu tenho, digo mais : do que eu tenho em derredor
mesmo de cada dogma da Egreja dogmas que
voceis quase todos maldizem e não sabem nem o que
são — peior : não sabem nem quaes e quantos são .
CORRESPONDENCIA 55

E o pensar por si ! Adoravel! Pois olhe, não é só


em materia religiosa que eu não penso por mim .
Primeiramente, a propria vida em derredor me forçu
a pensar, e a pensar nos aspectos que ella me apre
senta . Em segundo logar, que pensariam em mathe
maticas sem a experiencia passada e contemporanea ?
Você, por exemplo, saberá mesmo as razões de La
place, fez todos os seus calculos, acompanhou - o em
todos os seus pensamentos ? Nem isto . E' tão velho !
E foi tão grande quem o disse : cada verdade scienti..
fica contem massa enorme de crença , afora o que
possa haver de meu preconceito , orgulho, vaidade
etc. Que sabe V. de cosmologia , geographia , physica
ou chimica em que muito não repouse na crença , na
autoridade de mestres ? Pois é isto o que se pede em
Religião . “ A Revelação Divina é baseada em moti
vos externos de credibilidade ” . Em historia tambem
é assim, e assim em sciencias outras. Eu tambem só
teria medo do dogma se tivesse medo do ponto ou
do numero ou do atomo. O que faço é no mundo ou
ordem moral, acceitar o mysterio util, evidentemente
legitimo, evidentemente consolador não diminui
dor da razão, antes aguilhão seu tal como no
mundo physico, na ordem da natureza ( 7 ) . A ver
( 7) E ' evidente que a attitude de jackson não era a atti
tude pragmatica que elle insinua nesse trecho. A insinuação
surge como um recurso psychologico, porque elle sabe que ,
muitas vezes, a acceitação pragmatica da verdade revelada é
uma etapa necessaria, de que se passa insensivelmente para o
conhecimento da verdade revelada na obscuridade luminosa da
fé. Depois da vigorosa dissecação de um preconceito, qual o de
suppor que a razão se basta a si mesma em qualquer dominio,
esse terrivel psychologo conhecia os effeitos dessa meditação
devastadora que elle propunha, sobre a insufficiencia da razão,
sempre circundada, inevitavelmente, e em todos os dominios
em que se applica, de uma orla de mysterio, de alguma cousa
56 JACKSON DE FIGUEIREDO

dade, meu caro Alceu , é ainda sempre aquella não


sei se de Leibnitz : que a mais evidente verdade ma
thematica, se implicasse obrigações moraes, andaria
por ahi impugnada por meio mundo e poderia pro
vocar contendas e guerras . Bem , Alceu, vou parar,
e já é dia claro . Vou orar, pedir a Deus por todos
nós e, hoje, por V. , especialmente, e não me leve isto
a mal nem a conta de qualquer bijoterie de fim de
carta . Não . Eu lhe quero muito bem , e ha até actos
de sua vida para com entes que amo tambem muito ,
actos que ligaram muito sua vida á minha . De você
espero grande bem para o Brasil. Você é muito
moço e tem soffrido pouco . Que Deus lhe conceda a
graça da sua illuminação sem que seja o soffrimento
o seu mensageiro (8 ) . Tenho a consciencia tranquilla
de que por vaidade literaria seria e sou incapaz de
lhe causar o minimo desgosto . Só lhe desejo o bem ,
e o maior de todos elles : que V. possa consciente
mente fazer todo o bem de que Deus o fez capaz,
dando -lhe o coração que lhe deu . Tudo o mais, repito

que sempre a transborda , quer seja na realidade sensivel, quer


seja na realidade espiritual . A visualisação exhaustiva dessa pre
cariedade essencial da razão provoca um estado de aridez e de
angustia que o homem se apressa em querer preencher com
um movimento cego, pragmatico , por necessidade de subsistir ,
em direcção de alguma cousa que se offereça allegando com
verosimilhança uma autoridade superior á de sua razão vacil
iante . Jackson ia ao encontro desse phenomeno, e offerecia elle
proprio o apologista da fé visão mais ou menos obscura
porem certa do absoluto a solução provisoria da fé acceita
ção pragmatica, numa impaciencia de apressar o processo de
sua evolução.
( 8 ) Jackson não leva muito a serio essa possibilidade.
A não ser por uma especial solicitude divina, hypothese que elle
nunca abandona, o soffrimento é sempre para elle o verdadeiro
ę unico mensageiro da illuminação da graça.
CORRESPONDENCIA 57

lhe, não me interessa . Eu até reconheço que me vou


desliteralisando a passos largos. Neste ponto sou
mesmo talvez um barbaro . E por falar nisto : enga
nou -se redondamente quem suppoz que me resenti
com a sua classificação . Pelo contrario : senti bemo
elogioso da cousa, tive consciencia da sua bondade
no caso . O que eu disse foi por divagação do mo
mento e, sobretudo, para mostrar a inanidade destas
cousas, e lhe chamar a attenção sobre o que V. tão
bem exprime em sua carta : cada homem é um caso ,
quanto á sua attitude em face das mesmas cousas,
ás vezes compenetrado das mesmas verdades . Veuil
lot e Montalembert, José de Maistre para o publico
e José de Maistre intimo, são exemplos, e cada qual
mais complexo, na vida catholica . Montaigne, Sainte
Beuve, Renan , Paulo de Kock , são outros . Eu até
não tinha por original sua a classificação . Conheci- a
mais ou menos formulada como V. a formulou em
Saint Victor, Nietzsche e até, a pag . 49 da 2.a edição
de meu Xavier Marques já a combatera tal como a
encontrara em W. James ( Pragmatisme, trad . franc.
Isto não tem valor nenhum ) .
Mas outra vez adeus !
Vou enviar-lhe um livro que veio para que lhe
entregasse. Se o livro lhe aborrecer no principio
leia Mesa ? e sobretudo o Garrote e o boi. Neste
ultimo ha cousas que julgo indignas de um homem
intelligente e bom como é o autor mas todas revelam
a meu ver poesia . Talvez venha V. a discordar mas
sou tão desprevenido com V. , apezar de lhe ter dito o
que disse, que estou incidindo no peccado de dar
opinião sobre cousas desta ordem . Mas emfim , não
será nunca outra a minha attitude para com você :
franqueza, absoluta rudeza de alma – porque lhe
tenho séria , muito amada amizade. Digo -lhe até que
58 JACKSON DE FIGUEIREDO

ella me obriga a uma certa brutalidade, porque a


verdade, ás vezes, tem que apparecer arrastada pelos
cabellos, dado que a amizade mesma lhe é, ás vezes,
sinceramente contraria . Mas é preciso vencer isto
para que a amizade seja séria . Outro dia, por exem
plo, eu lhe disse que achava que V. não tinha gosto
literario ou poetico, gosto emfim . Se não temesse
tirar, na hora, o valor moral da franqueza, eu pode
ria ter accrescentado : quem escreveu certas paginas
do Affonso Arinos tem gosto , tem poesia n'alma e
medida no exprimil -a . E não lisongeava se dissesse
isto . Mas queria, como seu amigo, dizer - lhe que V. ,
no ardor de criticar e de ler maus livros, está se
cegando sem sentir o que faz. A novidade tem - lhe
parecido poesia, a audacia bom gosto . E com a auto
ridade que V. tão valentemente conquistou em nosso
meio, uma palavra sua, de animação a essas cousas,
pode produzir muitos males na mocidade. Quem tem
valor não precisa de animação para a liberdade e o
novo . Pelo contrario : precisa de quem lhe lembre o
valor da ordem e a belleza do passado . Mas é incri
vel ! Adeus ! Um abraço do seu velho
JACKSON

Rio, 29 de Março de 1927 .


Alceu ! Da ultima conversa que tivemos ficou
me a impressão do quanto V. tem ultimamente se
assenhoreado do movimento catholico, que affirma
as esperanças do homem moderno, ainda a esta hora
de tão singulares incertezas .
V. mesmo, que desejaria ir bater -se ao lado de
Chesterton , não sei até onde se deixou penetrar tam
bem por esse espirito de affirmação do Christianis
CORRESPONDENCIA 59

mo, pois sempre respeitei o recato de seu coração e


de sua consciencia nestas questões. Leio nos seus
olhos e nas suas palavras uma seria sympathia pela
obra da Igreja . Conheço, porém , exemplos dessa
atormentada complexidade contemporanea, que não
me dão direito a convencer -me do que não ouvi dos
seus proprios labios ( 1 ) .
Mas seja como fôr, de uma cousa estou certo, a
esta hora : e é que V. poderia collaborar commigo
na defesa do que chamo as obras avançadas da ver
dade social.
Como catholico, sei o respeito que se deve aos
temperamentos na hierarchia dos sacrificios, e eu
não desejaria nunca vel - o baixar aos dominios por
onde lucto commumente - a você, uma das poucas
creaturas a quem amo neste paiz, não, como a muitas
outras, pelas extravagancias do meu gosto ou más
tendencias de meu espirito, ou por esta ou aquella
isolada caracteristica , mas por aquillo que chamarei
de embevecimento ante a nobresa propria do homem .
Não, o que desejaria fazer com V. , como afastados
do publico, seria, primeiramente, um exame da reali
dade brasileira, em todos os seus aspectos. E como
ponto de partida, deveriamos adoptar as arestas das
duvidas mesmas que V. me expoz, razoabilissimas,
todas, confesso eu, que não poucas vezes tenho me
ditado a fundo que significação pode ter no Brasil,

( 1) A essa altura Jackson se convence de que o trabalho


dialectico , de informação e pesquiza racional em torno da Igreja ,
se acha concluido para o seu amigo, e chegou aquelle limite em
que a vontade precisa entrar com a sua iniciativa. jackson já
não o convida mais a pensar e sim a agir, suppondo que um
primeiro movimento pratico, imprimindo á vontade um estado
de tendencia, seria a unica medida salutar no momento . Com
effeito, nessas occasiões, ha sempre o perigo de que o espirito,
60 JACKSON DE FIGUEIREDO

deste momento , o que poderemos chamar (e V. me


entende) uma physionomia espiritual européa .
V. principiaria por me expor mais detalhada
mente as suas vacillações a este respeito . Eu lhe res
ponderia, sempre com a preoccupação, não de chegar
mos a um accordo, mas de descobrirmos se já é pos
sivel definir - se alguma cousa do que por ahi se agita
no solo brasileiro, ou a que ainda assim chamamos .
Quer V. fazer commigo este esforço ?
Seu de sempre pelo coração
JACKSON

Rio, 224-27 .
Alceu

Foi bom que V. acceitasse o meu plano e vamos


executal-o, sem mais rodeios, e assim mesmo, com
submettido a esse regimen de analyse e dissecação, fique
fascinado pelo proprio movimento dialectivo em si , e não o
ultrapasse. E ' uma ankylose que impede a marcha para diante.
Jackson não deseja mais que a discussão entre ambos continue
a se desenvolver com um caracter meramente especulativo. Elle
sabe que o especulativo é um novello que nunca tem fim , e
que não se resolve em si nem por si : elle é sempre um meio
para a posse da realidade, sensivel ou transcendente, e só essa
posse, acompanhada das operações da vontade o integra e
completa no ser humano. Jackson arrasta insensivelmente o
seu interlocutor do interesse puramente especulativo para o in
teresse que nós chamariamos existencial, para usar a expressão
de Kirkegaard, que é a verdadeira equação do ser humano.
Entre os termos dessa equação está a determinante racional,
terreno para o qual Jacksono convida, num esforço de con
crecção daquillo que fôra até aqui um jogo de pensamento
abstracto. Esse trabalho de concrecção irá cada vez mais se
operando até tocar o individuo Alceu, com todas as suas
condições individuantes. Niesse ponto realiza - se a condição
eminentemente propicia ao acto essencialmente intimo, singu
lar, isolado, o primeiro movimento da fé.
CORRESPONDENCIA 61

os recursos de que dispomos, com as armas que nos


são proprias, com os nossos dois eus taes quaes real
mente se sentem e se differenciam em meio da vida .
E foi até bom que V. falasse do seu eu, mesmo para
fallar mal. E' um bom ponto de partida esse do
eu ( 1 ) . Partindo - se delle, logo ficará conhecido um
largo trecho do terreno que vamos submetter á ana
lyse. Sejamos individuos que não se temem da rea
lidade, que não phantasiam isenções ou se imaginam
mortos, mesmo quando procuram o objectivismo, e a
imparcialidade, digamos assim, no julgamento das
cousas, que implicam eis o que se nos impõe sem
pre o julgamento de nós mesmos .
Estamos a julgar-nos quando julgamos do que
ha fóra de nós . E este modo de ser não decorre de
uma concepção puramente idealistica ou meramente
subjectiva do mundo . Eu , pelo menos (e penso que
é o seu caso ) creio na realidade objectiva do mundo .
Mas sei que essa realidade é, em nós, como activi
dade nossa . E creio que nisto estou muito bem com
S. Thomaz . " A realidade transborda do conceito "
mas é em conceitos que ella em nós se verifica , e
mesmo quando, para alem do conceito , presentimos
o mais que ella é, o certo é que nunca transpomos
os limites do nosso eu .

( 1 ) Nota-se ainda aqui a impaciencia de Jackson em


" brûler les étapes ”. Esse eu era o ponto final do processo de
concrecção que define o seu plano de estrategia psycologica .
Mas o seu amigo possue tambem o poder das abreviações no
tempo e vae directo a esse centro vivo de interesse existencial :
o individuo humano. jackson é agil nessas emergencias, e uti
liza maravilhosamente essas reacções imprevistas. Desde esse
momento, o vertice de convergencia de todas as suas medita
ções sobre o mundo e o homem em geral, e sobre o Brasil e
o homem brasileiro, já é implicitamente, o individuo humano
Alceu na sua posição na existencia.
62 JACKSON DE FIGUEIREDO

Não ha de facto temer o odioso eu, que não é


odioso senão quando se permitte julgar -se unico na
esphera em que se move, esquecendo, pois, que se
move, o que quer dizer, que não tem em si mesmo o
fim da sua propria actividade . Isso me leva mesmo
a esta altura da nossa discussão -
a confiar-lhe
as cogitações que tenho feito sobre um dos problemas
que mais têm angustiado a minha vida intellectual.
Quero referir -me ás idéas inatas ( 2 ) . Será real
a positiva condemnação dellas, por S. Thomaz ? Te
nho as minhas duvidas . Um dos seus mais autorisa
dos interpretadores modernos — Rousselot - diz que
o " principio fundamental da sua metaphysica intel
lectual é que toda pessoa espiritual é uma idéa , que
ha identidade perfeita entre Idéa e Realidade espi
ritual” XI ( Intr. ) .
Que argumentos poderosos não seria possivel
tirar dahi em favor das ideas inatas ? Em ultima ana
lyse, que é a actividade intellectual senão a activi

(2) Os philosophos chamados inneistas sustentavam a


doutrina de que as nossas ideas intelligiveis são infundidas na
alma humana, no momento de sua creação. A formação dessas
ideas , no decorrer da vida , não seria mais do que um lento
acordar, provocado pela experiencia e o contacto com os sen
tidos. Njuma theoria da abstracção, porem, como a Aristotelico
thomista, não ha lugar para essa theoria. O papel dos sentidos,
ahi , tem uma importancia maior do que essa de uma simples
opportunidade para a manifestação de ideas latentes . Elles são
impressionados directamente pela realidade objectiva, e a in
telligencia fórma, por abstracção, sobre os dados por elles for
necidos, as ideas de que nos servimos. Essa actividade suppõe
uma funcção formadora e não somente passiva na intelligencia,
o intellecto agente, que este sim, nos é innato, é uma luz per
manente, que se exprime pelo principio de identidade ou de não
contradicção, incidindo activamente sobre o conhecimento
sensivel.
CORRESPONDENCIA 63

dade ( reductivel a discurso ) da realidade espiritual,


que já é idéa quando se faz ver como pessoa ?
A questão, penso eu , é que sempre esquecemos
de distinguir entre a actividade intelectual , o que
ella é em si, em seus modos primeiros, immediatos, e
essa actividade tal como a retratamos em discurso,
pela nossa faculdade de vermo-nos a nós mesmos , já
“ á sombra de espaço e tempo", faculdade que é a um
tempo privilegio e signal certo de nossa insuffi
ciencia .
O ponto de vista de Ruysbroeck, por exemplo,
não poderia ser defendido por S. Thomaz ?
O Admiravel diz no seu “ Espelho da Salvação
Eterna ”, quando descreve as quatro maneiras pelas
quaes Deus, de toda a eternidade, nos sacrificou seu
Filho Unico :
"Premierement la Sainte Ecriture nous enseigne
que Dieu le Père céleste a créé tous les hommes á
son image et à sa ressamblance . Son image, c'est son
Fils, sa propre Sagesse éternelle : " Toutes choses y
ont vie, dit saint Jean, tout ce qui a été créé était vie
en lui” : et cette vie n'est rien autre que l'image de
Dieu, dans laquelle éternellement Dieu a connu tou
tes choses et d'où viennent toutes les créatures.
Ainsi donc cette image, qui est le Fils de Dieu,
est éternelle , antérieure à toute création . C'est en
relation avec cette image éternelle que nous avons
tous été créés.
Car dans la partie la plus noble de notre âme,
domaine de nos puissances supérieures, nous som
mes constitués à l'état de miroir vivant et éternel
de Dieu ; nous y portons gravée son image éternelle
et aucune autre image n'y peut jamais entrer . Sans
cesse, ce miroir demeure sous les yeux de Dieu et
64 JACKSON DE FIGUEIREDO

participe ainsi avec l'image qui y est gravée á l'éter


nité même de Dieu . C'est dans cette image que Dieu
nous a connus en lui-même, avant que nous fussions
créés, et qu'il nous connaît maintenant, dans le temps,
créés que nous sommes pour lui-même . Cette image
se trouve essentiellement et personnellement chez
tous les hommes, chacun la posséde toute entière et
indivisée, et tous ensemble n'en ont pas plus qu'un
seul. De cette façon, nous sommes tous un, intime
ment unis dans notre image éternelle, qui est l'image
de Dieu et la source en nous tous de notre vie et de
notre appel á l'existence. Notre essence créé et notre
vie y sont attachées sans intermédiaire, comme à leur
cause éternelle .
Cependant notre être créé ne devient pas Dieu,
pas plus que l'image de Dieu ne devient créature .
Car nous sommes créés á l'image, c'est- à -dire pour
recevoir l'image de Dieu ; et cette image est incréé,
éternelle, le Fils de Dieu même. Dans l'essence de
Dieu, elle est toute l'essence, et dans sa nature,
elle est toute la nature " .
( Sirvo -me da moderna Trad . Franc. dos Be
nedictinos de Saint- Paul de Wisques que, apezar de
não citar essa passagem , trás, na Intr . geral uma
justificação da sua orthodoxia ) .
E' preciso ter logo em vista a differença grande
que vae desta á concepção de Malebranche, por
exemplo .
A minha convicção, ou melhor, a minha intuição
segreda -me que não ha contradicção entre uma phi
losophia racional do discurso humano, toda fundada
no que se resolve em conceito , e vem por sensação,
e esta base, por assim dizer, dogmatica da nosso
natureza . (Dogmatica, quando já a temos reduzido
CORRESPONDENCIA 65

à conceito, divina, na sua realidade) (3 ) . Não pode


mos pôr em duvida que, quando nos sentimos já nos
sentimos um todo, como um feixe de idéas, com um
conjuncto de faces dando cada uma para uma dada
direcção, cuja paysagem reflecte e ahi temos o es
paço, o tempo, e, nas direcções moraes, todas as af
firmações que vão de encontro ao que só a natureza,
nas suas relações materiaes , nos ensinaria .
A theoria swendenborguiana, que Balzac esboçou
no seu mysterioso “ Seraphita -Seraphitus” explicará
com facil argumentação a differença entre Deus en
homem assim concebido, e explical- a -á pela differença
entre a natureza da unidade e a do numero . “ A
existencia do numero depende da unidade que, sem
ser um numero , a todos engendra .
Deus é uma unidade que nada tem de commum
com as suas creações e que, no entanto, as engendra" .
Mas as engendra á sua semelhança .
E o que vive no homem vive tambem á seme
lhança do que vive em Deus . Neste caso estarão as
idéas . A differença essencial estaria somente nas
leis proprias á vida creada, isto é, á submissão a es
paço e tempo, que são a semelhança da eternidade
o homem vê da sua propria condição, ao passo
que Deus vê em si mesmo, vê sem condição . E dahi
parecer um lento acordar o nosso conhecimento, e no
qual a força que nos desperta nos é exterior, quando

(3 ) Uma noção profunda do intellecto agente garante essa


conciliação . Elle é uma participação continua á Intelligencia
Suprema, um reflexo desta sobre a intelligencia creada. O pro
prio S. Thomaz concede que, si a luz do intellecto agente,
produz os intellegiveis em acto, si bem que os não contenha
previamente formados, pode-se dizer num certo sentido que
toda sciencia é innata. ( Vide Regis Jolivet Dieu soleil des
esprits pg. 133 ) .
-
66 JACKSON DE FIGUEIREDO

realmente é um lento acordar em nós mesmos, para


dentro de nós mesmos, como um pouco de barro que
por um processo interno adquirisse uma face espe
lhante e passasse a reflectir o que lhe ficasse em
frente . Si eu quizesse continuar esta explanação,
muito teria que dizer ainda sobre a identidade do
ser e da verdade, da existencia ou não do falso — е
portanto das relações do ser com a intelligencia di
vina ( concebivel) e com a intelligencia humana ( que
se conhece ). Creio que dahi ainda tiraria argumento
em favor das ideas inatas, por não ser possivel ex
periencia sobre o nada, sobre o não existente, (hu
manamente falando ) . Mas este tormento de S. Agos
tinho, de que, com muita facilidade, ao que me pa
rece , triumphou S. Thomaz, certo me levaria muito
longe . Todavia ainda quero dizer que se os thomis
tas, como Maumus, triumpham realmente do carte
sianismo quando este argumenta com a idéa de in
finito porque — afóra os argumentos fundamen
taes - basta attentar que não comprehender uma
cousa não é o mesmo que conhecer ou não se ella
existe - já não julgo assim quando o cartesiano joga
com a evidencia da idea de Deus . E todo o valor da
argumentação contraria está no esquecimento de
que, alem do processo logico da “ proposição " evi
dente ( identidade entre o sujeito e o attributo ) ha os
processos da relação evidente entre duas cousas vi
vas, nos puros dominios da vida ( a realidade trans
borda do conceito ) , ha a evidencia da relação entre
dois sujeitos para quem o attributo poderá ser mes
mo a relação creada .
Esse eu , pois, que, unico, tem a sua actividade
nos limites da actividade divina, e vae até sentil- a
em si, como se da mesma essencia fosse, por privile
gio de similitude, não é cousa que se desprese, se
CORRESPONDENCIA 67

queremos nos entregar ás supremas meditações no


dominio da vida de cada dia, em face de outros eus
que o amam ou hostilisam , ou melhor, que até no
amor o hostilisam , o limitam , o condicionam, mais
rudemente que tudo o mais do mundo exterior.
Engano, meu caro Alceu, deixe que lhe diga, ha
bem maior da sua parte a meu respeito. Eu sou ,
positiva, radicalmente, o opposto desse homem geo
metrico, desse homem que foi feito unicamente para
a acção, mesmo para a acção intelligente.
E' uma cousa que não padece duvida a grande,
a invulgar, a extraordinaria sympathia que nos liga,
desde que nos conhecemos. Mas não creia V. que isto
pudesse se dar em mim sem que eu sentisse muito
de mim em V. Eu explico com certa simplicidade
o que chamaremos o nosso caso .
Ha em mim algo de completo, que falta a V.,
quero dizer, quando eu o encontrei já era o catholico
que sou, isto é, já era um homem perfeitamente oc
cidental e perfeitamente universal, do ponto de vista
intellectual. Era , neste dominio , um poste firme.
V. ainda era uma cousa a mover-se desesperadamente
em busca do logar de repouso. Dahi lhe parecer que
eu sou a attracção e V. o attrahido. Mas, neste sen
tido, o que attrae não sou eu, e, sim, positivamente,
o mundo de ideas que obscuramente represento. O
facto , porem , de poder eu parecer assim na sua
vida implica uma outra ordem de relações, que ha
injustiça da sua parte em não ter ainda nellas at
tentado, e estas são as de sensibilidade, de tempe
ramento, de vida propriamente lyrica, ou melhor,
de vida scismatica, de imaginação e intuição, de sof
frimento espiritual, emfim, que é o que resume tudo
isto .
68 JACKSON DE FIGUEIREDO

Eu sei que a V. mesmo surprehenderá tudo


quanto lhe estou a dizer e o mais que vou dizer, mas
é certo que, desde que conversei com V. a primeira
vez , senti que o seu eu retratava perfeitamente o
meu eu verdadeiro, aquelle que a consciencia de uma
finalidade necessaria a toda a vida e circumstancias
de todo exteriores, me têm levado a abafar e estran
gular, da maneira mais rude, sem que jamais tives
se podido completar esta obra, como tristemente devo
confessal-o, e o confesso, porque o que me diz a cons
ciencia é que valem mais as minhas ideas que este
doloroso eu , a que amo tanto ( 4 ) . Em nossa vida,
meu caro Alceu , o que houve foi uma enorme dif

(4) Essa carta representa um momento capital da corres


pondencia com Alceu Amoroso Lima. E ' um ponto de ligação
entre duas phases na vida dessa sociedade espiritual que existiu
entre os dois desde 1919 até 1928. Era inevitavel que entre
dois intellectuaes do vigor de ambos, um dos quaes se consi
derava possuidor de “ alguma cousa de completo " que ao outro
fazia falta , da quella posição do homem “ perfeitamente occiden
tal e universal” , que para elle define o catholico, e á qual de
sejava attrahir o seu companheiro de aventura, era inevitavel
que entre elles se processasse de inicio uma vasta revisão ra
cional de todos os valores. A vastissima correspondencia exis
tente, e aquellas cartas que seleccionamos neste volume, são
o testemunho da profundeza e do vigor muitas vezes rude
desse periodo dialéctico. Jackson, porem , nunca foi um idolatra
da razão, sempre presentiu o seu caracter precario e a sua
dependencia do mysterio , não só do mysterio transcendente,
mas até do enigma intimo que cada uma conduz comsigo
mesmo, na sua vida affectiva e suas relações com a consciencia.
Elle não via no homem apenas uma abstracção, um objecto
de " geometria " moral , e por isso, já em 1919 , escrevia elle
a Mario de Alencar que se ainda vivesse dez annos, deixaria
ao Brasil “ uma summa sentimental raciocinada ”. E ' essa es
pecie de conhecimento, integrado e orientado para o homem
concreto, existindo, que Jackson aspira. Acceitando a discussão
abstracta, como technica apologética, quando elle sente que
chegou o momento de mergulhar no existencial, é com ver
CORRESPONDENCIA 69

ferença de plano objectivo, de sentido externo. Se


eu tivesse nascido no Rio, tivesse visto a Europa,
e, desde cedo, sentido a vida mais ou menos asse
gurada estou quasi certo que não estaria muito
longe do que V. ainda é hoje em dia , um homem
de placido aspecto, de labor intenso, mas regular,
cuja vida interior, porem , é o eterno drama passio
nal, a perpetua aspiração de perfectibilidade, a de
bater - se com os impulsos sentimentaes, e o gosto
amargo dos orgulhos recalcados, e a vaga descon
fiança, a Barnabooth , de que não ha dia de amanhã,
e a incessante lucta com as teias de aranha de um
quotidianismo mais ou menos acariciador . Note, po
rem, V. de onde vim, como aqui sempre me encon
trei e o que tive sempre que fazer para não succum
bir ao peso de mim mesmo. E ' certo que eu não
tinha vocação para o suicidio e que jamais esperei
escapar-me pela tangente da loucura. Era logico que
essa vida interior toda a que o equilibrio externo
da sua vida podia apresentar praias chãs, algumas
aridas , mas todas, até certo ponto, conciliadoras , apla
cantes – tinha que referver em mim e expandir -se,
fosse como fosse, mesmo de encontro á dureza das
rochas. E foi o que se deu.
Fala -me V., por exemplo, do seu amigo Amiel !
Eu tinha recebido ha dias da Suissa a ultima edição
do seu diario, a edição que já vae a trez grossos vo
lumes. Amiel ! E' para V. ver o que lhe digo ...
Amiel foi o tormento e a alegria da minha adoles
cencia, e nem mesmo a fé, e nem mesmo o convivio
com as geometrias moraes , e até com as grandes

dadeiro fervor que elle abre as portas á vida “ propriamente


lyrica, scismática , de imaginação e de intuição, de soffrimento
espiritual, emfim ”.
70 JACKSON DE FIGUEIREDO

vidas animadas do verdadeiro espirito de Deus, ja


mais m'o arrancaram de todo do coração, jamais
conseguiram crear entre mim e elle o desejado afas
tamento e porque ? porque, por mais que a
razão me dite e os compromissos de caracter me obri.
guem, eu não posso afastar -me completamente de
mim mesmo, desse outro eu, que entre o langor, a
duvida, e o sabor lyrico, e até o sorriso simplesmente
enigmatico, se agita continuamente, de vôo em vôo,
de queda em queda, de sonho em sonho de decepção
em decepção, de conciliação em conciliação, de des
esperança em desesperança . Esse eu, porém , tenho
consciencia que nunca escondi a V. Não, eu tenho
sido deante de V. o que sou deante de mim mesmo.
Porque falar a linguagem da lucta, a linguagem da
guerra, tornar bem clara a necessidade della , nem
é mesmo attrahir quem a pode esquivar, mas dizer
de maneira digna do homem, do ser decahido mas
vivificado pela palavra de ordem de Jesus Christo
ide, pregai dizer de maneira digna de quem
crê em Jesus Christo que a vida continúa triste e as
saltada de males, e que é preciso combatel- os, porque
ella, tão triste e tão assaltada de males , vale esse
esforço, merece o sangue que se derrame, pois é
evidente que se foi possivel florescer uma alegria em
meio de tanta desgraça ; se foi possivel ver - se uma
flor em meio deste paul ; se foi possivel corporisar
se um ceitil de belleza em face de tanta deformação,
é evidente, repito, que a verdadeira vida não pede
senão o senso da descoberta e o vigor do braço que
desbaste os blocos rudes e grosseiros ( 5 ) . Uma atti
(5) O pensamento religioso de Jackson não possue nunca
o caracter de consolação ; não é uma promessa de felicidade,
é um estimulo para o soffrimento, para a visão e o aprofunda
mento da tragedia que é inherente á vida humana.
CORRESPONDENCIA 71

tude como esta, em face da vida, não pode ser a de


quem não esteja á altura de sympathisar com essa
outra feição de dilaceramento , que é a sua. Não.
Não conheço mesmo um carinho maior na minha
vida de que o que tenho dedicado a sua alma, nem
maior nem mais isento de qualquer orgulho. Porque
é certo que eu, os soffrimentos que advinho em sua
vida, vejo -os sempre em mim, sob a grossa poeira
dessa individualidade conquistada ás covardias do
mundo e, que, no entanto , quasi nada conseguiu al
terar dos traços caracteristicos da endolorida Pes
sôa, que ha em face della e quasi sempre em lucta
com ella . Emfim, meu caro Alceu , recorde estes dois
trechos do nosso Amiel e em todas as contradições
que elles enfeixem num só verdadeirissimo tempera
mento , faça o possivel para reconhecer-me, porque
o certo é que ahi está muito do que constitue para
mim esse outro lado obscuro de mim mesmo.
O primeiro trecho é o de 18 de Novembro de
1851 :

“ L'énergique subjectivé qui s'affirme avec fai


en soi, qui ne craint pas d'être quelque chose de par
ticulier, de défini , et sans avoir conscience ou honte
de son illusion subjective, m'est étrangère. Je suis,
quant á l'ordre intellectuel, essentiellement objectif,
et ma spécialité distinctive c'est de pouvoir me mettre
á tous les points de vue, de voir par tous les yeux ,
c'est- à -dire de n'être enfermé dans aucune prison
individuelle. De là, aptitude à la theorie , et irréso
lution dans la pratique ; de là, talent critique et gêne
de production spontannée; de lá aussi , longue incer
titude de convictions et d'opinions, tant que mon
aptitude est restée instinct, mais maintenant qu'elle
est conscience et qu'elle se posséde, elle peut conclure
72 JACKSON DE FIGUEIREDO

et s'affirmer à son tour, en sorte qu'aprés avoir


donné l'inquiétude, elle apporte enfin la paix.
Elle dit : Il n'y a repos d'esprit que dans l'absolu,
repus du sentiment que dans l'infini, repos de l'âme
que dans le divin . Rien de fini n'est vrai, n'est in
téressant, n'est digne de me fixer. Tout ce qui est
particulier est exclusif, tout ce qui est exclusif me
répugne. Il n'y a de non exclusif que le Tout ; c'est
dans la communion avec l'Etre et par tout l'être que
se trouve ma fin. Alors, dans la lumière de l'absolu,
toute idée devient digne d'étude ; dans l'infini , toute
existence digne de respect ; dans le divin , toute créa
ture digne d'amour. L'homme complet et harmoni
que, l'homme -Christ, voilà mon credo .
L'amour, dans l'intelligence et la force, voilà
mon aspiration ".
O segundo é o de 8 de Novembro de 1852, quan
do elle explica :
"La responsabilité est mon cauchemar invisible .
Souffrir par sa faute est un tourment de damné,
car le ridicule y envenime la douleur, et le pire des
ridicules, celui d'avoir honte de soi à ses propres
yeux.
Je n'ai de force et d'energie que contre les maux
venus du dehors, mais un mal irréparable, fait par
moi, une résiliation pour la vie, de mon repos, de
ma liberté, cette seule pensée me rend déja fou .
J'expie mon privilège. Mon privilège, c'est d'assis
ter au drame de ma vie, d'avoir conscience de la
tragi-comédie de ma propre destinée, et plus que
cela d'avoir le secret du tragi-comique lui-même,
c'est- à -dire de ne pouvoir prendre mes illusions au
sérieux , de me voir pour ainsi dire de la salle sur
la scène, d'outre tombe dans l'existence, et de devoir
CORRESPONDENCIA 73

feindre un intérêt particulier pour mon rôle indivi


duel, tandis que je vis dans la confidence du poète
qui se joue de tous ces agents si importants, et qui
sait tout ce qu'ils ne savent pas. C'est une position
bizarre, et qui devient cruelle, quand la douleur
m'oblige à rentrer dans mon petit rôle, auquel elle
me lie authentiquement, et m'avertit que je m'éman
cipe trop en me croyant, après mes causeries avec le
poète, dispensé de reprendre mon modeste emploi de
valet dans la pièce.
Shakespeare a dù eprouver souvent ce senti
ment, et Hamiet, je crois, doit l'exprimer quelque part.
C'est une Doppelgängerei tout allemande, et qui ex
plique le dégout de la vie réelle et la répugnance pour
la vie publique si communs aux penseurs de la Ger
manie. Il y a comme une dégradation, une déchéance
gnostique, à replier ses ailes de génie et à rentrer
dans sa coque grossière de simple particulier. Sans
la douleur, qui est la ficelle de ce hardi cerf-volant,
ou le cordon ombilical par lequel cette pensée sublime
est rattachée à son humanité, l'homme s'éleverait
trop vite et trop haut, et les individus d'élite seraient
perdus pour l'espèce, comme des ballons qui , sans la
gravitation , ne reviendraient plus de l'empyrée.
Comment donc retrouver le courage de l'action ?
En laissant revenir un peu l'inconscience, la
spontanéité, l'instinct, qui rattache à la terre et qui
dicte le bien relatif et l'utile .
En croyant plus naïvement et plus simplement
la condition humaine, redoutant moins la peine, cal
culant moins, espérant plus ; c'est - à - dire diminuant,
avec la clairvoyance, la responsabilité, la timidité.
En acquérant plus d'expérience par les pertes
et les léçons.
74 JACKSON DE FIGUEIREDO

Eis ahi, meu caro Alceu , como nos falava aquel


le homem que, na minha vida moral, representou, de
certa forma, o que eu poderia chamar o meu mere
diano origem de longitudes. Mas o seu conselho , o
conselho que elle mesmo não conseguiu seguir, eu te
nho tentado, com mais solida vontade talvez, pôr em
pratica, isto é, simplificar o meu pensamento, ou
descobrir as formulas mais simples delle e, assim ,
por -me em contacto directo, não com a realidade pura
e simples, ( quero dizer : com a vida em toda a sua
complexidade ) mas com a realidade que se mostra
passiva á acção humana, com aquella parte que nos
é dada para que a dominemos, ou pelo menos, para
que, dentro della, nos orientemos no sentido da nossa
propria natureza.
E é por isso que V. me veio encontrar em pleno
dominio politico do meio em que Deus me fez nas
cer e crescer, e não para ser modelado por este meio ,
mas para, reconhecendo -me parte delle, reconhecen
do -me condicionado por elle, actuar ainda assim no
sentido de sua mais perfeita humanidade.
Essa mais perfeita humanidade, como fim de
todo esforço, é o que a V. , em minha obra, e com
muitas razões apparentes, se affigura um ideal ro
mantico. Dizia-me ha dias o Pde. Teissèdre, numa
carta que me escreveu da Italia, mais ou menos o
seguinte: e se o homem não fôra um ser decahido,
toda tendencia romantica poderia considerar -se bôa
tendencia ( 6 ) .

( 6) O Romantismo, como movimento caracteristico do


Seculo XIX , incarnou certamente um mal — o da libertação das
tendencias affectivas, o que suppõe a vida passional do homem
subtrahindo - se á synthese do humanismo classico. Na con
demnação do romantismo , porem, commumente se envolvem
tendencias legitimas do ser humano em direcção ao amor, á
CORRESPONDENCIA 75

E na verdade assim fôra . A exaltação do ser


na sua essencia inatacada não seria mais que “ a re
velação " mais nitida da imagem de Deus a que se
refere Ruysbroeck .
Mas, meu caro Alceu, não é por ahi que julgo
defensavel a minha cruel e quasi insustentavel at
titude (eu mesmo sei disto ) em face da vida nacional
brasileira .

1.0 — Chamo a attenção para o facto de ser eu


tão brasileiro como o mais desbragado dos nossos
revolucionarios ou o mais idealista dos nossos de
mocratas. E ' isto ou não é uma verdade, um facto ,
e um facto digno de nota se verificamos que, não
só eu , mas alguns individuos mais apresentam as
mesmas caracteristicas que apresento ?
2.0 Quando o erro de um povo já alcançou o
direito de ser chamado a verdade, e quando a ver
dade já perdeu o direito de ser acatada e defendida
por quem a conhece ?
Mas dirá V. que a verdade politica é sempre uma
verdade de experiencia e sujeita, mais que todas, ás
circumstancias de logar e hora. Estou de plenissimo
accordo com V. Ainda assim, porem, quero lembrar
lhe o seguinte :

belleza e ao mysterio. Jackson, o opposto do homem " geome


trico ”, não podia renunciar a esse romantismo, que é uma
funcção natural da alma humana, e que escapa á anarchia e
á desordem porque é “ soffrimento espiritual" e aspiração con
tinua de perfectibilidade. Um mundo sem tendencia romantica é
o mundo que se basta a si mesmo, que se organizou sob o
signo da renuncia de tudo o que não seja a realidade material a
mais grosseira. O que é realmente humano é romantico, e o
que transforma esse romantismo num mal é a quella degradação
da natureza que introduziu o mal na especie humana.
76 JACKSON DE FIGUEIREDO

3.° -
A verdade politica será uma só, como
parte de toda a Verdade, isto é, dos fins verdadeiros
do homem. As suas adaptações a circumstancias taes
ou quaes não lhe alterarão nunca a essencia, sob
pena de não ser mais verdade.
E, pergunto eu : não será o brasileiro um ho
mem como outro qualquer ? Parece -me que não so
mos uma especie á parte, e, se assim é, é claro, é
clarissimo que devemos ser regidos, em politica como
em tudo o mais, pelas mesmas leis geraes que regem
todos os homens .
Não ha pois, romantismo na defesa, entre nós,
do principio de autoridade, o esquecimento ou o des
preso do qual tem acarretado á vida de todos os
homens, em todos os tempos conhecidos, a des rdem ,
o aniquillamento, a negação mesma do seu " meio
universal" que é a sociabilidade, ( não sei si o termo
diz o que eu quero : vida em sociedade ) a coexis
tencia . Romantismo individual ou collectivo e, por
conseguinte, erro e erro fatal, erro que, mais tarde
ou mais cedo, ser-nos-á funesto, está na defesa de
todo e qualquer sentimento de toda e qualquer idéa
que fortaleça esse esquecimento ou esse despreso do
principio de autoridade.
Lembra -me bem a lição de Joseph de Maistre :
conheço o Francez, o Inglez, o Allemão, mas nunca
tive occasião de encontrar o Homem.
Esta é a verdade, mas esses homens todos, o
Francez , o Inglez, o Allemão, como o Brasileiro, se
poderão comprehender e sentir differentemente uma
porção de cousas, jamais poderão fugir ás leis da na
tureza humana, e uma dellas, a mais grave, é a de
ser eminentemente hierarchica, o que, do modo mais
imperioso, dá caracter de necessidade ao poder pu
blico, á autoridade, pois, do homem sobre o homem .
CORRESPONDENCIA 77

Assim não creio, meu caro Alceu , que eu esteja


incidindo em erro quando ouso bater -me pelo forta
lecimento da autoridade, e, pelo contrario , julgo que
o que ainda resta de normalmente humano , no Bra
sil, é o que me sustenta interna e externamente nesta
campanha. O que terá importancia, talvez , será o
exame do porque chegamos ao estado de cousas
actual, realmente desolador. Que explicará, a seu
ver, o desvio social que nos vae levando ao anniqui
lamento ? V. constata , verifica o facto da paixão li
bertaria . Não o nego. Pelo contrario. Affirmo que
elle existe, em proporções assustadoras, tão assus
tadoras, que, ás vezes, parece esmagar-me, tirar-me
toda a esperança , e é mesmo por isto que não posso
falar com grave suavidade, e, sim , com sombria gra
vidade desta questão. Mas, se viessemos a descobrir
a origem de uma tal molestia , não seria possivel, ou ,
pelo menos, não seria digno dos homens de bem a
tentativa de um tratamento racional ? O tratamen
to tentado pelo Bernardes , não penso que fosse mau
nem illegitimo. Foi simplesmente transitorio , de
occasião, o unico que podia fazer quem actuava em
piricamente, só preoccupado de que o doente não
The morresse ás mãos , se bem que devo dizer, em
honra de Bernardes, que elle comprehendia perfei
tamente a extensão do mal e tinha a patriotica in
tuição, ou melhor, tinha a convicção de que o tra
tamento acertado deveria ter uma dosagem de auto
ridade maior, de muito , que a de qualquer outra
droga.
Ficará para discutir depois o que V. entende por
democracia, para confessar, como confessa, que acre
dita na viabilidade della nos pequeninos agrupa
mentos .
78 JACKSON DE FIGUEIREDO

Eu tambem creio que a vida municipal, ou que


outro nome se der ao pequeno grupo social, é base
de toda a civilisação occidental, e requer , este sim,
uma grande amplitude de movimentos individuaes .
Será isso democracia ? Creio que então já a tivemos
em todo o periodo colonial, e discutir este ponto ser
me - á de grande utilidade.
Eis as perguntas que lhe faço. V. terá lido as
dez ou doze ultimas paginas do romance de Jack
London — "Martin Eden " : Lembra -se V. de cousa
mais formidavelmente triste que aquella bruta ne
gação da vontade de viver ? Pois bem : meu estado
de espirito, no meio da confusão nacional, tem to
cado, ás vezes, os limites daquella loucura .
Não exagero. Digo - lhe a verdade pura e sim
ples, e que, no entanto , poucos poderão ler na minha
face. Reajo, graças a Deus, porem , e tento uma nova
caminhada um combate a cada passo no sen
tido de conhecer o que me odeia e levar ás fontes
mesmas de tanta miseria um pouco de vida real e di
gna de ser vivida. Não é outra cousa o que estou
a fazer com V. Quero o testemunho de uma cons
ciencia honesta, a que serve uma intelligencia aguda
e penetrante, e livre nos seus movimentos. Quero
este testemunho, seja elle qual fôr, pois conto com
a sua ajuda reflectir melhor sobre o meu proprio
caso. E emquanto qualquer orgão da opinião brasi
leira não conseguir o meu já reclamado lynchamen
to, é certo que não descansarei das preoccupações de
que aqui lhe deixo uma summula.

Seu , pelo coração,


Jackson
CORRESPONDENCIA 79

Rio, 22-7-1927.

Meu querido Alceu : Sua ultima carta muito


me contentou porque subtrae á nossa discussão o
que de mais importante debatiamos. Realmente, a
não ser por simples paixão de discutir, creio que
nada mais temos a harmonisar quanto ao essencial
das nossas duvidas.
Chegamos a esta conclusão : é necessario re
forçar o principio de autoridade porque não pode
haver sociedade, e muito menos civilisação, onde
não houver autoridade. E concordamos que ha, de
um seculo a esta parte, esquecimento grave desta
necessidade.
Quanto ao que entendemos por autoridade, tam
bem estamos de plenissimo accordo. Acceito todas as
restricções, todas as " garantias " theoricas, que V.
pede. Autoridade não é força bruta em acção, mesmo
quando apparentemente organisada. Somos, neste
ponto, fidelissimos discipulos do illuminado e sen
satissimo S. Thomaz. E do que posso inferir de cer..
tas passagens da sua carta, não temos que discutir
nem mesmo quanto ao fundamento da autoridade
legitima, em seu exercicio normal. Basta que V. es
teja sempre attento á lei de finalidade moral para
que resalte o fundamento divino de qualquer cousa
que restrinja a liberdade humana. Deste ponto de
Nós estamos,
vista, Aristoteles ficou para traz. Nós
ambos, em pleno occidentalismo catholico . Nada de
arbitrio, e o dever de obediencia dignificado pelo
Creador , que nos deu o Exemplar da liberdade ma
xima no explendor da perfeita obediencia. As nos
sas ainda inegaveis dissenções estão, graças a Deus,
circumscriptas ao particular, a questões praticas, de
applicação , de methodo etc.
80 JACKSON DE FIGUEIREDO

Com V. é possivel , é agradavel discutir, até


mesmo neste terreno. Você não se aborrece com a
minha grosseria fundamental .
Vejamos, pois, o que ainda vale discutir :
1.0 — Creio que V. esquece a differença entre
o que a autoridade deve ser ( originaria e normal
mente ) e o que pode ser ou é forçada a ser (actual
mente, isto é, numa phase de generalisada pertur
bação, de universal subversão de principios, de re
volução enfim ) . Nos periodos iguaes ao que atra
vessamos ( o mundo todo, e o Brasil com elle ) a au
toridade, para salvar o essencia, tem que desistir de
muitas caracteristicas da sua identidade christã. Na
pratica, ás vezes, tem que ser como na philosophia
que, como dizia Joseph de Maistre, só se organisa
se sabe esquecer detalhes. O trabalho actual, penso
eu, é o de refazer o senso da autoridade. Só de forma
pratica será possivel: os homens que conquistaram
o poder têm que resuscitar a autoridade. O proprio
interesse e o medo pouco a pouco os levarão a se en
caminharem para lá. Mas pelo caminho , que será
longo, terão que arrastar comigo os males do meio
em que se formaram . Basta, porem , que elles par
tam com a consciencia de que é preciso impor a au
toridade como cousa legitima e imprescindivel. Che
garão ao fim da jornada. Levantarão a pedra do
sepulchro. Dizia Joseph de Maistre que a Contra
Revolução, para vencer a Revolução, terá que lançar
mão de processos revolucionarios. E esta a fata
lidade da humanidade decahida. E' o tributo do
suor do seu rosto, o trabalho amargo. E' com actos
do homem que chegaremos a actos humanos. E' atra
vez de erros, que são agora como tuneis entre o de
sejo de acertar e o acerto, que reconquistaremos a
verdade politica ( note que jamais lhe expuz clara
CORRESPONDENCIA 81

mente o que supponho ella seja, de tal modo temo


apresentar-lhe uma feição verdadeiramente catas
trophica da minha philosophia da quéda ) , porque o
certo é que o erro fundamental da insubmissão é
mesmo a aresta em que se encontram as nossas duas
naturezas. Um erro, por exemplo, como o que en
carna Mussolini , neste momento, já restringe muito
a acção de outros erros, ainda mais nefastos. A vi
ctoria delle foi o esmagamento de cem affirmações
com um seculo ou mais de vida, e que pareciam
eternas. Pouco a pouco , soberania popular, trez po
deres, liberdade de imprensa, imprensa confundida
com opinião publica, estarão reduzidas a cinza. Todos
esses erros eram e são mais perniciosos que os do
pessoalismo, ou cesarismo que se vae implantando,
porque mais indeterminados, com maiores garantias
de irresponsabilidade , mais inapprehensiveis no pla
no da punição regular ou violenta ,
Sem ter as virtudes que Maurras, em Anthinéa,
louvava na concisão dos gregos, o meu pensamento ,
assim como lhe confio, me faz medo. O que eu quero,
porem , é lhe dizer que toda geometria é, no campo
da vida, obra já morta . A doutrina, sim, tem que
expressar - se geometricamente porque disto lhe adven
grande forçae testemunho de que sae do seio mesmo
da Unidade. E' isto acto de fé na racionalidade do
mundo, enfim, obedece á lei que reduz todo acto ,
mesmo o principal, o da salvacão, a acto de intel
ligencia, acto de conhecer. Tudo, pois, tem de par
tir de acto intellectual , claro, testemunho do esforco
de conhecer, homenagem á verdade , á racionalidade
das cousas , á convicção de que fazemos parte de
uma ordem . Mas quando descemos a viver " actual
mente ” , -e eis , no plano moral , a vida politica,
"compromisso ( externo ) de egoismos " temos que
- 6
82 JACKSON DE FIGUEIREDO

levar a convicção da nossa deficiencia interna e da


mesma deficiencia de quase todos os homens, quan
to a transformar esse compromisso externo em as
sentimento interior, isto é, em comprehender todo
o interesse que haveria em ser bom , todo o bem
que adviria em seguirem todos o bem, quero dizer :
em serem conformes á ordem . A verificação dessa
deficiencia não é difficil, todos sabem que ella existe,
e é quanto basta para contarmos sempre com ella.
Quanto ao facto em si, ao que elie significa, isto
implica ( volto a dizer) encarar o problema da actua
lidade humana, o problema da queda, o maximo pro
blema da philosophia, porque abrange, não só o
Christianismo, mas toda a historia anterior como
marcha para o Christianismo.
Do que lhe venho dizendo, terá V. já apprehen
dido o porque da nossa 2.a divergencia. Eu creio na
benemerencia da dedução politica em toda obra de
“reconstrução”. A inducção é a pratica. Mas para
levar - se, seja o que fôr, á pratica é preciso primeiro
a affirmação vinda do alto, e até digo melhor : a af
firmação dogmatica, contundente, maltratante, ainda
mais aggressiva que persuasiva ou demonstrati
va ( 1 ) .

( 1 ) jackson combate o empirismo, no terreno da acção


moral e politica. Embora reconheça que o ultimo julgamento
pratico que precede uma acção immediata possue um caracter
extremamente contingente, condicionado á diversidade das cir
cumstancias que o envolvem, no plano da realidade. Jackson
desautoriza qualquer tendencia a considerar o acto moral e o
acto politico como desligados de principios theoricos, que
orientem a acção. A sua philosophia moral é estrictamente
thomista : a intelligencia attinge os primeiros principios da
ordem moral , julga de sua applicabilidade em determinadas
circumstancias e escolhe os meios de realizal-os, diante de
uma acção a cumprir. O julgamento ultimo, mediante o qual
CORRESPONDENCIA 83

Nasce dahi, immediatamente, a 3.a divergencia


nossa , mas que fica mais á conta da sua admiravel
conferencia do que na da sua carta. Ella é quanto
ao que se deve entender por politica. Não ha no
mundo moderno problema moral e economico a re
solver, mas, sim, penso eu, um problema politico.
A politica é, de facto, " a arte de crear e defender
a estructura social ” ( compromisso externo, e, por
isto , eu diria somente : defender ) . O problema mo
ral ( que abranje todos os mais e, por conseguinte,
o economico ) está resolvido ha vinte seculos. O que
é preciso é ser christão realmente.
Mas como o Christianismo não veio alterar a
natureza do homem (e nem mesmo negar a sua
decadencia ) mas lhe dar meios mais efficientes de
realisar os seus fins (o merito infinito do sacrificio
de Jesus Christo sobrepondo -se " sobrenaturalmen
te” ao “schisma do ser”) apresenta -se com um corpo
de doutrinas, é organico, é social, é Igreja militante
(tem o apparelhamento proprio do homem , daquel
le que foi condemnado a viver do suor do seu ros
to ) , e é assim que divina e humanissima é
a unica força capaz de informar de extremo a ex
tremo uma politica um compromisso externo en
tre os homens, conciliador da consciencia individual
com as leis da vida em sociedade, sendo assim um
passo " natural " para essa fusão em unidade de na

a acção se desencadeia (julgamento pratico -pratico ) é real


mente attingido por uma extrema contingencia, exactamente
porque elle é o ponto de intersecção da regra moral ( certa,
na sua generalidade ) ao plano da realidade, onde domina o
arbitrario das condições que se propõem ao ser em via de
agir. O acto bom , porem , é aquelle que consegue inserir o
principio moral dentro desse arbitrario, creando, no seio da
natureza, uma forma revestida de valor moral e normativo.
JACKSON DE FIGUEIREDO

tureza que requer a perfeita moralidade christã ,


moralidade essa que só se realisa na sociedade me
ramente espiritual ( das consciencias, quero dizer,
enquanto conhecem da Verdade e do Bem ) e é, em
cada individuo, sob a acção da graça, a conquista
da beatitude (thomisticamente : ver Deus por essen
cia ; " a beatitude absoluta que constitue a morali
dade no seu supremo gráo” ( Gilson ) , o que não é
possivel na vida presente, dado que o nosso fim ul
timo é transcendente da natureza, sendo o seu ob
jecto ou causa um bem increado ) . Para maior com
prehensão do que quero exprimir-lhe deixo aqui mais
estas notas, todas de rigoroso espirito thomistico :
“ A moralidade é de certo modo — um prolongamen
to da creação " “ A moral é apenas um caso par
ticular do governo divino e reduz -se ao problema se
guinte : como uma creatura racional e livre pode
e deve utilisar o movimento para Deus, cujo impulso
de Deus mesmo recebeu ? Isto quer dizer que a noção
central da moral será a noção de finalidade ou , mais
exactamente ainda, de finalidade livre etc.” ( Gilson
Saint Thomaz d'Aquin ).
Veja V. a que leva uma simples expressão que
interesse a vida moral do homem . Mas retomemos
o fio da nossa discussão.
A politica é, pois, o que nos falta , isto é, falta
nos a grande arte que resulta sempre de toda philo
sophia na sua plenitude. (Lembra -se V. do que diz
o detestavel A. Rey sobre sciencia e arte ? E só
mudar o sentido das palavras, que a elle falta o ver
dadeiro ) . V. faz bem quando a compara á Archi
tectura . Ha uma bella pagina de Simmel ( que já li,
faz muito tempo ) e em que aquella curiosa intelli
gencia proclama a Architectura como a primeira das
artes, por ser a que mais fortemente revela a força
CORRESPONDENCIA 85

do espirito, o seu dominio sobre a natureza , da qual


contraria lei principalissima. Pois a politica é tam
bem assim. Ella tem que ir de encontro, immediata
e impositivamente, a lei principalissima do espirito
decahido, que é a da consciencia da sua individua
ção, de ser á parte. E o que se está a ver no mundo
moderno ainda me lembra a mesma pagina de Simmel
quando fala da singular obra de arte que são as
ruinas testemunhos do esforço espiritual e das
reconquistas da natureza ...

Tudo o mais na sua carta me merece o maior


acatamento . Ainda talvez teriamos a discutir um
outro ponto a respeito da nossa formação politica .
Enfim, o que, a este respeito, poderei dizer -lhe é
muito pouco. Creio que no Brasil (que não se con
funde com os seus dois pervertidos grandes centros
urbanos ) ha uma tradição politica (e tradição nunca
se deve dizer do que é mau, negativo, etc. ) . O nosso
localismo, a nossa vida municipalista só é possivel,
porem , com um forte poder politico central. Afinal:
descentralisação administrativa ( enfraquecimento,
portanto , dos poderes politicos estaduaes ) e centra
lisação politica (fortalecimento daquillo que hoje se
chama governo federal).
Conheço os livros que V. me aponta. V. co
nhece os “ Apontamentos para a Hist. do Paraná "
do Moisés Marcondes ? Acaso lhe mereceu attenção
uma especie de balanço do Estado Brasileiro feito
pelo nosso penultimo Vice-Rei, e que o Armitage dá
em appendice ?
Uma cousa ainda quero dizer -lhe : se a demo
cracia é o que se pregou em vão na Europa, não creio
que acertasse Sardinha quando ficou na duvida se
86 JACKSON DE FIGUEIREDO

seria a nossa forma politica . Em primeiro lugar,


nunca se realisou aqui e não vejo como realisar-se,
isto é, não vejo como realisar - se de modo a se poder
dizer que nos faz bem . O mal , este, em qualquer
parte se realisa com larguesa, que não seja onde
haja o proposito de viver racionalmente , quero di
zer, de conformidade com a natureza do homem .
Se a democracia é simplesmente uma interven
ção maior do elemento popular no governo, na ad
ministração, creio que será possivel realisar - se me
lhor aqui que nos paizes de formação mais bellicosa,
em que, de inicio, se subentende uma élite. Mas,
este caso só nos assegura maior sombra de soffri
mento, até que conquistemos civilisação propria, ou
a nossa estabilidade propria .
O cesarismo democratico é, na Venezuela , go
verno tão bom quanto , nos Estados Unidos, o que lá
se organisou . E não creio que a intervenção popu
lar seja maior nos Estados Unidos do que onde im
pere um Cesar qualquer, mesmo porque o Cesar sup
põe sempre uma feição democratica na politica do
minante ( 2 ) .
Dahi , meu caro Alceu , eu ainda appellar para o
absurdo : Monarchia christã e, consequentemente , an
niquilamento das arestas revolucionarias ou pagas
- cesarismo ou populachismo ( perdôe ) .
Sei que falo para os astros, mas lhe affirmo :
não creio que estejamos condemnados á democracia .

(2) Curiosa accentuação do caracter demagogico dos


movimentos de cezarismo, de nossa epocha. Elles se fundam
numa polarização entre massas e chefes baseiada numa sug
gestão reciproca , segundo a qual, como diz Henri de Man , a
massa está ligada ao chefe pela confiança, e o chefe está li
gado á massa pela responsabilidade.
CORRESPONDENCIA 87

Ella não se realisou na Europa, e já foi ultrapassada


no sentido da anarchisação. O homem não quer
desapparecer do planeta e é um ser racional, isto é,
um ser capaz de vencer -se nas suas paixões mais
brutaes, pelo menos, por interesse de viver .
Creio firmemente que acertaremos de novo, mais
tarde ou mais cedo, com o nosso leito natural , ou
melhor, com o traçado hierarchico que Deus nos in
dicou ao fundir o paganismo e o mundo barbaro
numa sociedade com fins espirituaes tão bem defi
nidos .
Pode ser doidice tudo quanto lhe estou a dizer
mas é o testemunho de uma consciencia que se julga
sem preconceitos. Estará talvez cançada de lutar
com a realidade e assim tangencia para os lados do
sonho .
Não sei o que lhe digo . Doente, em luta cons
tante com um temperamento cada vez mais inimigo
da sua base de caracter ; desilludido de mim mesmo,
porque não posso conformar -me com desilludir -me
dos homens, penso certas horas que vou caminhando
para o silencio ou para peior do que isto : para a
accão instinctiva , como um animal ao lado de outros
animaes . Preferiria o silencio . Preferil-o -ia , se elle
pudesse ser assim como o silencio carlyleano ou mes
mo mais humilde, o de um simples homem de fé,
amante das cousas do espirito as mais indifferentes ,
as mais distantes das brutas, das grosseiras cousas
com que tenho luctado, gastando o sangue do coração
para trazer as mãos limpas e a consciencia segura
disto .
V. pode mostrar estas cartas a quem quizer ;
sei ave V. não convive com quem não as possa ler.
Não fosse o meu estado de saude ( aue aliás não
sei se será só estado de espirito ) eu muito tinha que
88 JACKSON DE FIGUEIREDO

lhe dizer, e andei até a tomar notas curiosas para


lh'as transmittir. Mas é o caso de lhe dizer que ando
brutalmente cançado de mim mesmo e das minhas
cogitações.
V. me deu as melhores alegrias destes ultimos
tempos, e sua conferencia ( 3 ) está entre ellas . Me
receria um longo commentario, mas limito-me a di
zer que V. poderá dar ao Brasil o que elle mais pre
cisa : uma escola de moderação, que nada tem de
medianice espiritual , e antes é feita do que ha de
mais profundo em harmonia com o que ha de mais
agudo e subtil .
O que V. precisa é entregar -se completamente
á eternidade destas verdades todas que V. por si
mesmo tem apprendido .
Quem affirma o imperio do fim em todas as
cousas humanas, está caminhando a passo firme para
Jesus Christo .
Vá até lá sem medo .
Eu só vivo por isto . Tudo quanto me escurece
o horizonte não consegue apagar esta luz na minha
vida . Sei que está para além de mim , e que caminhar
para Elle é chegar ao fim de tudo .
Adeus !

Receba, com o recado que lhe envio


pelo Perillo, um grande abraço deste seu velho
JACKSON

(3) Sobre “ Distributismo " ( Estudos 2.a serie) .


CORRESPONDENCIA 89

Rio, 9-8-27 .
Meu querido Alceu :
O privilegio da alegria, que tem sido de alguns
santos, não será talvez o maior dos privilegios de
que gozam, em cada ordem, as almas mais vivas e,
portanto, mais amadas de Deus. Eu , por exemplo, meu
amigo ( e talvez seja o amor de mim proprio o que
me leve a falar assim ) , eu, por exemplo, nem antes
nem depois de ter entrado os umbraes da Igreja,
jamais deixei de soffrer, e soffrer tremendamente ,
sobretudo da lucta commigo mesmo, inclusive com a
minha miseravel capacidade de crear e matar en
thusiasmos . Sou um homem , já lhe disse, em quem
a consciencia só procede bem quando procede ty
rannicamente, quando traz sob o guante das mais
rudes indignações os surtos lyricos do espirito, os
vôos passionaes do coração, as nuanças poeticas da
sensibilidade. E V. sabe que não ha jugos tyran
nicos sem interrupções, o que quer dizer : sem luctas
temiveis . Sim, meu caro Alceu, jámais foi a fé, para
mim, essa illuminação, ou essa voz do alto, ou esse
toque mysterioso , ou mesmo essa plenitude de paz
que V. , em lucta com os segredos da sua alma, parece
julgar caracteristicos da existencia de quem encon
trou a verdade ( 1 ) . Não e não . Principalmente para

( 1 ) Essa affirmação não surprehenderá a quem conhece


as vicissitudes da vida interior . De ordinario, a entrada na
vida da fé se apresenta como uma necessidade imperiosa des
coberta pelo espirito que experimentou longamente a insuf
ficiencia e a aridez da actividade racional, e pelo coração que
provou o que ha de essencialmente alterado em todo prazer e
em todo amor humano . Longe, porem, de constituir um re
pouso immediato, a fé cria problemas novos e complexos, e
90 JACKSON DE FIGUEIREDO

nós, os filhos da revolução e da anarchia , não da re


volução e da anarchia na ordem politica somente,
mas desta, bem mais larga e mais profunda, da inti
midade das consciencias e dos corações.
Note que esta revolução já se verificava antes
do Christianismo . Ella já era, como é hoje, a ten
dencia do homem para substituir á hierarchia que
Deus imprimiu ás cousas do mundo, o vago ou o tu
multuoso dominio das paixões, de que a mais forte é,
justamente, a liberdade: expressão puramente natu
ral de um favor divino e que jámais devera mover
se sinão em perfectibilidade, isto é, em busca da sua
perfeição, que só está em Deus . Dahi não haver
contradicção quando certos philosophos ousaram di
zer que não ha nem pode haver liberdade para o mal .
É evidente que só o mysterio da queda aclara
tudo isto . E a suggestiva imagem de Chesterton -
a unica luz que não podemos fitar é a luz pela qual
tudo vemos - mais uma vez acha applicação no
mundo moral.
Mas seja como for, após a revelação de Jesus
Christo, isto é, após ter -se tornado, e para sempre,
possivel a reconciliação, em base de sacrificio, do
homem com a sua primitiva ou verdadeira natu
reza — se a liberdade ganhou em força para o bem ,
a sua " figura " instinctiva , a sua contrafação pelo
orgulho e a sensualidade se fez , ao mesmo tempo,
mais violenta e imperiosa .

impõe uma vida de luctas mais atormentadas. Certamente que


o desenvolvimento da graça suppõe como ultimo termo o re
pouso e a paz ; mas todo o longo movimento para esse termo,
para o estado unitivo de que falla S. João da Cruz, é repas
sado de tempestades constantes e mesmo de tentações violentas
e agudas contra as proprias virtudes theologaes.
CORRESPONDENCIA 91

Esta hora é a dos resultados fataes de uma su


blevação geral dessas forças negativas, no imperio
do homem . E ante o numero dos males, perturba- se
nos a consciencia, pois que tambem é quasi fatal em
nós o esquecermos que um só acto bom tem mais
significação e valia que todos os maus, pois que, para
os lados de Deus, é o infinito da vida, e para os lados
do mal, tudo se resolve em nada . Mas, realmente,
se é assim possivel fazer frente philosophicamente a
tantas agonias do espirito, não é possivel deixar de
sentil-as, de temel-as, e lastimar a cada passo, a cada
momento da vida vivida, que se vae vivendo ...
E não é V. só, meu caro Alceu , quem soffre
destas opposições entre a consciencia, que lhe impõe
o valor da fé, e a sensibilidade, cansada ou demasia
do trepidante, que a distancia dessa sensação de con
forto, que devera corresponder á posse da verdade.
Mas basta imaginar que só intuitivamente limi
tamos ou sentimos o geral, ao passo que o particular
(e o erro, e a dor estão sempre neste caso ) , esse,
nos toca directamente . Não é a vida normal aquella
de que melhor temos consciencia . É das molestias,
das falhas, do que externa e internamente nos per
turba .
Ah ! meu caro Alceu, se eu lhe contasse a minha
vida, mas a contasse em seus detalhes · com V. en
trasse os meus subterraneas, descesse ás minhas
furnas, contornasse as minhas geleiras, atravessasse
as minhas dunas espirituaes, podesse dar -lhe uma
representação mais viva da minha paysagem inte
rior certo V. veria que tenho bem mais do que
V. o que esconder e sepultar, e que o meu orgulho
tem tido mais vezes do que o seu, occasiões de curvar
se em attitudes bem menos dignas que a da prece .
Mas nada disto invalida a força da fé, a força
92 JACKSON DE FIGUEIREDO

da verdade na consciencia . Não é verdade que Jesus


Christo tivesse promettido a felicidade aos povos e
aos individuos . A salvação é cousa muito diversa
do que geralmente ideamos como felicidade . Não,
Elle, o que veio attestar foi o valor das almas no
espantoso horror deste mundo decahido . Elle, o que
veio attestar foi a existencia de uma sahida para
a luz, de dentro destes muros de treva . Elle, o que
veio foi mostrar que o difficil caminho da humildade
e do sacrificio é o caminho certo para a gloria da
resurreição na vida real . Não ; não é preciso ser
feliz para sentir o valor da fé, isto é, o valor da
existencia como cousa que tem sentido, é conforme
á nossa limitada razão .
A hora em que vivemos ambos é, alem disto,
uma hora terrivel, ainda mais desorientadora que as
horas em que o mal parecia dominar tudo . O que
vemos é como uma cheia, uma inundação, cobrindo,
aplanando, confundindo tudo, limpidos rios de dou
trina e corregos de infamia, amazonas de hypocri
sias e sophismas, caudalosos rios da duvida e puros
mananciaes da verdade .
Uma creatura viva, que vivamente deseje a ver
dade, como V. , não poderia deixar de soffrer muito .
Mas, se eu pudesse, refaria com V. umas incri.
veis leituras a que me tenho entregue de um certo
tempo para cá . As viagens de Livingstone, de Stan
ley, de Serpa Pinto, Delagorgue, Casati etc., ao cen
tro da Africa, e mais livros, antigos e modernos,
sobre os costumes, o complexissimo estado social e
politico que, ao contrario do que geralmente se pensa,
se verifica naquellas regiões. Tem sido um dos tor
mentos da minha vida o pensar no drama africano .
“ Mas, eu, Senhor, eu , triste e abandonada” . Lembra
se ? Que significa aquelle grande inferno humano ?
CORRESPONDENCIA 93

No ultimo diario de Livingstone ha uma breve pala


vra que commove mais que tudo o mais que elle re
vela . É a do homem christão fazendo esta mesma
pergunta : que significa este espantoso castigo ? Por
que teriam sido condemnados estes povos a uma tal
degradação, a esta matança perpetua, a esta escra
vidão que se renova sempre, sob as formas mais
crueis ? Pois bem : o que se passou ha milhares de
annos ( pois que em materia de chronologia podemos
imaginar com toda a liberdade ) o que se passou na
Africa - e os mais preconceituosos " progressistas”,
como Stanley não negam que ha ali degradação
quem sabe se não se passará, mais dia menos dia,
entre os povos occidentaes ? Não estão elles perdendo
o senso da universalidade cultural por exagero de
cosmopolitismo material ? Não é facto que á hora em
que o mundo todo se sente ligado pelo ferro e a ele
ctricidade, todos nós somos mais ou menos victimas
de exacerbação nacionalista ? E , no momento de gene
ralisação democratico - socialista, não é que estão a
surgir poderosas expressões do poder pessoal? Não
virá ahi uma nova Idade Media antes de Carlos
Magno (2 ) (onde houver um homem forte ahi está
a lei ) ? E não se levantará amanhã burgo contra
burgo, e familia contra familia , na decadencia cada
vez maior do sentido social ? A quem crê na Igreja ,
afora pensar que tudo isto pode annunciar o fim do
mundo, ainda resta a hypothese de uma crise final ,
antecipando melhores dias, e a outra de que, como já
se tem visto , um deslocamento no eixo moral da
terra, a civilisação que avança para outro lado, dei
xará, mais uma vez, a Europa e visinhanças, na treva

(2) E' a these de Berdiaeff (Un nouveau Moyen -Age ).


94 JACKSON DE FIGUEIREDO

e na ruina . Terá chegado pois, o momento em que a


salvação individual unicamente se impõe ? ( 3 ) Os
povos não têm alma que sobreviva . Cada individuo
é, no seio da alma ephemera dos povos, uma eterni
dade . Será isto um pensamento consolador ? Não sei.
O que quero é lhe dizer que, dentro do circulo da
minha inabalavel certesa de que Jesus Christo nos
deu o sentido da vida e a forma perfeita da sociedade,
eu não tenho menos do que V. motivos de afflicção
no proprio terreno das idéas, afora o que me cabe de
soffrimento pelo caracter e a sensibilidade .
Ainda ha dias, ao acabar a leitura de um capi
tulo da recente obra de Bellessort sobre Sainte Beuve,
a que amargas aguas não me soccorri na ansia de
matar um pouco a sêde de illusão ? Passei um resto
de noite em que de momento a momento me sur
prehendia repetindo como estribilho, ás longas diva
gações da tristeza, os versos de Anthero :
“ E as torrentes da dor, que nunca param ,
em mim, como num mar, desapparecem '
Sim, a morte, eis o que afinal acaba por não
fazer medo, quando se pensa em tudo quanto a vida

(3 ) Essa pergunta é uma daquellas que são inevitaveis


á consciencia do homem moderno. Os acontecimentos na vida
social e politica tornam - se cada dia mais irracionaes, movidos
por forças obscuras, extranhas á razão e á vontade humanas.
O homem é conduzido e absorvido por ellas , mas sempre lhe
resta a possibilidade de uma evasão para dentro de si mesmo,
para o centro inviolavel de sua personalidade, diante de cujas
fronteiras lhe é sempre possivel erigir uma interdicção ás
forças invasoras do mundo exterior. Jackson porem, tempe
ramento eminentemente de acção, força especificamente social,
só a muito custo parecia se conformar com essa attitude de
salvação individual.
CORRESPONDENCIA 95

tem de temeroso . Nem o homem de genio, isto é,


nem o homem que é mais capaz de apprehender a
verdade, pode subtrahir - se ás vezes, ao erro que re
pugnaria ao selvagem mais bronco ... Ora, que é
isto ? Que terreno de maldição é este que pisamos ?
Mas voite -se a pensar em Jesus Christo, na signifi
cação da Cruz, no mysterioso encanto do seu ater
rorisador exemplo, e tudo de novo se faz calmo nas
regiões superiores do espirito . E é quanto basta .
A vida tem um sentido e, deste, se não sabemos o
que é, sabemos, pelo menos, que existe, e garantido o
valor da sua escolha pelo sangue do mais irresistivel
dos seres que já tomaram forma humana .
Você, meu querido Alceu, tem , pois, que con
tentar -se da sua dor, que satisfazer -se da sua ansie
dade : ella prova somente que V. não está morto do
lado justamente que dá para o Calvario , o que quer
dizer, para o ponto em que a vida teve a sua maxima
expressão .
Cada um de nós é, na realidade, após a passagem
de Jesus Christo , uma “ figura ” desse infinito moral,
e o dogma da reversibilidade, tanto quanto o de Jesus
na Eucharistia, tem em cada consciencia uma per
feita affirmação do que é .
Mande -me dizer se ha tempos lhe enviei um livro
de Buathier : Le sacrifice. Desejo que V. , como eu,
tão ás voltas sempre com os tormentos carnaes das
letras contemporaneas, contemple algum tempo esse
painel de espiritualidade christã . Mande-me dizer
isto sem falta . Mande -me dizer tambem se tem , por
acaso, a Historia da Philosophia Medieval de Wulf.
pois, apezar de jamais lhe ter devolvido o livro de
Dimier, preciso tomar -lhe este emprestado tambem ,
se bem que por pouco tempo .
96 JACKSON DE FIGUEIREDO

Não lhe mando as minhas notas porque não te


nho coragem de as copiar, e não posso lhe dar as
folhas como estão . Você não avalia como ando ado
entado e incapaz . Só para esta correspondencia com
V. é que me sinto com coragem , pois cada vez lhe
quero mais bem , e a consciencia, não menos que o
coração, me diz que V. tem sido, desde que o en
contrei, uma das mais altas provas da bondade de
Deus para commigo. Pois é raro, meu caro Alceu ,
é raro, no accidentado terreno da vida, uma sombra
tão larga e tão carinhosa de confiança e amisade .
Seu

JACKSON

Rio, 12-8-1927 .

Meu querido Alceu

Faz um homem o seu casulo, e os fios de sêda do


sentimento familiar nunca farão mais que esse quente
casulo . Mas dali, do seu socego, elle principia a cha
mar a si os raios da colera divina, e não fazemos
outra cousa nós os que, pela leitura constante, vive
mos em permanente contacto com todas as miserias
do mundo, e da peior forma, porque ellas, assim ,
vistas atravez outros soffredores, e não directamente,
trazem comsigo uma força de sympathia verdadeira
mente estonteante. Não sei se ouse, meu caro Alceu,
aconselhal-o, quando nada mais desejo que dizer - lhe
quanto o sinto digno de viver, de resistir heroica
mente a todas essas ondas de lassidão e de desgosto .
CORRESPONDENCIA 97

Mas V. talvez fizesse bem se désse um passo no ter


reno da acção, não um passo como V. deseja , grande
e nobre, mas um passo conforme á exiguidade, á me
diocridade do nosso meio ( 1 ) . Porque se doeria V. de
perder 10 ou 20 contos tentando uma revista , uma
publicação, uma cousa destas ? Que tenho feito eu
senão isto ? Em meio á minha compieta derrota po
litica, sob a sensação do absoluto isolamento que me
criei no dominio doutrinario , em face de difficuldades
materiaes que não ouso dizer até onde, algumas ve
zes, têm chegado creia V. que um dos meus pra
zeres ainda é o esforço em prol da “ Ordem " ou pela
publicação de um livro de gente moça, esforço al
gumas vezes irritante, humilhante, peço a um, lem
bro a outro , roubo uma hora á lida pelo pão quoti
diano, mas enfim, lá vejo um dia deante de mim uma
cousa feita , ás vezes mesquinha, quase ridicula, mas
positiva, ali bem patente, uma cousa que eu fiz, e
fiz desinteressadamente , para contento exclusivo da
consciencia e do coração .
V. se a vida, assim, phantasmatica, entre idéas
e espelhos convexos de sentimentos cruelmente ana.
lysados, se ella, aproveitando este seu estado de es
pirito , não lhe abriu aos pés o abysmo da paixão
amorosa , ou mesmo, sobre o flanco, não lhe plantou
o espinho de algum sentimento mais delicado, porem ,
não menos doloroso, creia que se pode considerar um
homem protegido por Deus . Então, sim, só mesmo
Deus poderá levantar um espirito assim alanceado,
porque, para a chamma da paixão, tudo o que ha de
mais nobre como o que ha de mais baixo , é alimento

( 1 ) Jackson insiste no appello para a acção ; esta


accrescenta alguma cousa ao conhecimento racional synthe
tizando e incorporando-o á vida.
- 7
98 JACKSON DE FIGUEIREDO

e animação . E nunca ninguem sentirá melhor a pre


sença do sobrenatural do que no anniquilamento de
uma paixão, mesmo porque, se é difficil comprehen
der como nasce um sentimento, é impossivel compre
hender como pode desapparecer.
V. meu caro Alceu , por mais que pareça o con
trario, está a approximar -se do realtivo equilibrio
facultado aos que vivem intensamente pela conscien
cia . Não deve, pois, nem por um minuto, atemorisar
se da " aridez ” que o atormenta . É signal certo de
vida interior realmente vivida ( 2 ) . Quando a con
sciencia affirma que a fé é necessaria , que a fé com
pleta o homem , podem rugir as tempestades da du
vida, pode crescer o areial dos subscepticismos, po
dem subir as hervas más... A situação conquistada
é forte demais , é impossivel deslocar a consciencia
que uma vez a conquistou . E ninguem cite o erro, o
desespero de heresiarchas, de Tertulianos e Lame
nais ... Não . Só a paixão os leva ao abandono do
que a consciencia lhes deu, e ainda ha a affirmar
que, se Deus tem a julgal-os, o facto é que, do ponto
de vista humano, jamais o essencial ao homem , isto
é, a certeza de uma finalidade sobrenatural jámais
lhes falleceu .

(2) E ' evidente que o dialogo entre esses dois espiritos


ultrapassou o campo puramente intellectual. O contacto de
Jackson torna-se cada vez mais intimo á vida interior do
amigo e começa a ser, francamente, uma direcção espiritual,
no sentido religioso. O que é commovente é que esse director
espiritual não parece ter obtido, elle proprio, aquella sereni
dade para a qual encaminha o amigo. O que parece, porem ,
é que elle espera os melhores resultados, sobre a psychologia
do outro, da manifestação de sua propria inquietude, dos
meandros de sua sensibilidade, da lucta obscura com as forças
romanticas e lyricas, que nelle, entretanto, já se processa sobre
um lastro inabalavel, um solido alicerce de fé.
CORRESPONDENCIA 99

Demais, meu querido Alceu , temos que reconhe


cer que é anormalissima a epoca que vivemos . Pas
sando a vista ultimamente numa nova edição da
“ Physica ” de Aristoteles, não podia conter o pensa
mento que me levava a esta severa meditação : este
homem não pode ter nascido e vivido num meio como
os que apresenta a sociedade contemporanea , a não
ser que se deva lançar mão do milagre para explicar
a sua obra. Mas então o Christianismo ? " De que foi
que Jesus salvar-nos veio ? ” Que é que os factos res
pondem á affirmação da Igreja ? Mais uma vez pe
netro o santuario do meu tenebroso philosophismo,
mas que, unico, me asserena a consciencia , me dá,
pelo menos, a sensação de não ser ridiculo o soffrer
como soffro .
Sim, eu lhe repito : a salvação não coincide ne
cessariamente com a felicidade nem dos povos nem
dos individuos . E é tambem uma verdade que o
homem pode ser feliz abraçado a uma illusão . “ A
hypothese " da Providencia é, na phrase celebre de
Brunetiére, “ a condição para a intelligibilidade da
historia” . Sobre isto não tenho a menor duvida . Mas
Jesus Christo, que foi e é o testemunho dessa Pro
videncia, não ensinou a felicidade e, sim, a attitude
de quem a ella se sobrepõe .
Você, por exemplo, me fala na sua melancolica
postura ante o somno da sua filhinha . Não será tal
vez mais monstruosa a confissão do crente, do crente
em Jesus Christo, que se tem surprehendido dezenas
de vezes na mesma alta dolorosa do mesmissimo
gesto de carinho ? Pois esta confissão lhe faço , sem
que se me perturbe a consciencia fiel ao ensinamento
de Jesus Christo . Eu desejava que o Senhor, ao vir
julgar-nos todos, encontrasse dormindo os meus fi
lhinhos . E é esse dado positivo da fé, o Juiso Final,
100 JACKSON DE FIGUEIREDO

o que sempre esquecemos, como se fossem eternos os


soffrimentos do mundo. E , no entanto, foi Jesus mes
mo quem deste modo resumiu a sua missão : “Para
um juiso vim eu ao mundo, afim de que os que não
vêem , vejam, e os que vêem se façam cegos ” . Eu
preferira ter, de facto , bastante fé para , vencendo
as fraquezas do coração, poder deixar dormir os
meus filhos, de um somno que os levasse até as por
tas da eternidade, sem maiores compromissos como
terrivel drama a que os vejo condicionados .
O que nós soffremos, Alceu , é a vibração de
uma consciencia perfeitamente mystica (3 ) - isto
é, com a intuição da finalidade sobrenatural do ho
mem — (e, nesta ordem , a intuição é mais do que a
razão ) sem que, no entanto , nem a educação, nem o
temperamento, nem as condições sociaes correspon
dam, em nós , a este formidavel privilegio . Nós so
mos, com todas as nossas miserias que são de todo
o mundo, somente em nós duplicadas pela refracção
da consciencia mystica nós somos verdadeiras
urnas desse amargo mas nutriente vinho da reversi
bilidade, que completa mysticamente a obra do Salva
dor .
Não , Você não deve desesperar por isso mesmo
que se sente infeliz . Figure se um homem pode
sentir -se bem num canil ou espojado na lama. Esse
homem já não é digno de voltar á vida que lhe era

( 3) Essa affirmação poderia escandalizar, como signifi


cando uma manifestação de orgulho intellectual. Entretanto, a
vida mystica, ao contrario de ser uma situação extraordinaria,
é o coroamento normal da vida interior alimentada pela graça .
Para ella se orienta , esssencialmente , o movimento espiritual,
desde que não seja confundida com os phenomenos extra
ordinarios que ás vezes a acompanham , mas que não a cons
tituem em proprio, como o extase, as visões, as prophecias.
CORRESPONDENCIA 101

propria . O mundo só offerece sahida aos que têm


horror ás suas estradas . Aquelle que soffre, aquelle
que realmente é infeliz, unico tem noção da felici
dade, e ter noção de uma cousa já é possuil-a huma
namente (4 ) . É preciso, porém , serenar o soffri
mento para que elle reflicta , de facto , a ordem, isto
é, seja imagem do soffrimento a que Jesus Christo
se sujeitou .
E eu tenho fé em Deus que chegará sua hora .
Não falo de diminuição das suas agonias. Não . Se
renar é, no sentido que aqui dou , a conformação da
intelligencia, da consciencia, ás intemperies, ás mi
serias da vida . Ninguem pode negar que comprehen
der uma cousa, apprendel- a em relação ao seu fim,
é ser senhor do que ella é . O seu trabalho, o trabalho
digno de sua alma é fazer -se senhor, dono absoluto
das suas tristezas e das suas dores .
E quanto possa V. imaginar que derramar seu
coração sobre o meu, seja um bem e um allivio,
faça - o, e faça - o como recompensa ao grande amor
que lhe dedico, e é de justiça que lhe dedique.

(4) E ' exprimir, em outras palavras, o conselho evan


gelico : “ Buscai antes de tudo o Reino de Deus e o resto vos
será dado por accrescimo " . Os pontos de contacto da expe
riencia de jackson com a de Kierkegaard são muitos, como
já fizemos notar. Aqui esse parentesco ainda se revela. Foi
Kierkegaard quem melhor aprofundou esse systema da
petição ”, pelo qual nos é restituido em dobro, mesmo na vida
humana, aquillo que renunciamos mas não desesperamos de
readquirir, como a Abrahão foi restituido o seu filho Isaac
e a Job as suas riquezas. A singular experiencia religiosa de
Kierkegaard, que hoje apaixona a tanto altos espiritos, como
Chesterton e Berdiaeff, encontra entre nós essa resonancia ge
nuina , e da testemunho da riqueza e da profundidade exce
pcionaes de um coração e de uma intelligencia que passou
junto de nós, nesse esquecido recanto dos tropicos .
102 JACKSON DE FIGUEIREDO

A mim mesmo que bem enorme me fez esta cor


respondencia .
Lembro os versos de Cesario Verde :
A alma humana ama os grandes horizontes
e tem marés de fel como um sinistro mar...
Imaginar que dei motivo a que rompesse mon
tanhas de silencio e de solidão , só isto como que di
gnifica um pouco a mesquinha e mediocrissima vida
que tenho vivido ultimamente . Mas eu mesmo, que
cousas não pude examinar em mim mesmo, no de
correr desta longa e carinhosa conversa ? Adeus , meu
querido Alceu !
Deus ha de lhe dar a perfeita consciencia dos
dons que lhe confiou, da belleza espiritual e christã
que V. representa, do bem que tem feito e póde
fazer . Adeus ! Um abraço do seu velho
JACKSON

Rio , 28-8-1927 .
Querido Alceu : Devo responder ainda á sua ul
tima carta, mesmo porque ella , sob uma forma mais
facil, não exprime menores amarguras . Entretanto,
ella tambem revela que V. está de posse de pode
rosos remedios, revela occultas, ignoradas forças do
seu espirito, e não importa que V. mesmo as des
conheça . Eu quero somente chamar a sua attenção
sobre ellas . Na differença que V. verifica entre
Henri de Montherlant e V. , por exemplo, creia que
toda vantagem está de seu lado . O "silencio carly
leano" é a atmosphera de todas as almas dignas da
CORRESPONDENCIA 103

vida . Confessar tem que ter sempre algo de um sa


cramento . O homem que ainda sente o santo orgulho
do silencio ; o homem que não faz das proprias mise
rias thema literario ou bandeira de revolta ; o homem
que se sabe miseravel mas não cynicalisa a voz da
sua dor esse homem , sendo ainda o homem tal
qual Jesus Christo baptisou de homem , esse homem ,
digo, é tambem o unico que se pode postar como
philosopho ou como artista em face de toda a mate
ria viva de cruezas e vilanias, que constitue, as mais
das vezes, a vida interior dos mais santos, dos mais
heroicos, dentre os seres pelos quaes o mesmo Jesus
Christo subiu o Calvario e conheceu mais que os cra
vos da Cruz, o frio do tumulo . Você, portanto, soffre
de excesso de vida real, e não de fraqueza. Porque
não caia , sem pensar, no erro commum do america
nismo : não confunda vida real com as realizações
da mecanica, do sport e mesmo da politica positiva .
Tudo isto não é nada . Tudo isto não pesa como uma
só palavra de S. Paulo, e foi este homem - cujo
espirito é ainda, a esta hora, como um mediterraneo
banhando todas as faces da actividade humana
foi este homem quem tambem sempre se viu como
um fraco , um atormentado da carne e do espirito .
Agora, nem tanto á terra, nem tanto ao mar .
Tambem S. Paulo confiou as suas dores, os seus
tormentos. A experiencia divina é a de um homem
multiplo que tende a unidade, de onde sahiu , e isto
sem que precisemos confundir -nos com Deus e ima
ginar -nos com direito á liberdade perenne . Todos
nós precisamos confiar no semelhante, e é assim que
vamos realisando as figuras da unidade em Deus .
A amizade, a confiança christã tem , pois, um funda
mento que é como uma lei natural na vasta hierar
chia da vida moral. Suas cartas não são fraqueza,
104 JACKSON DE FIGUEIREDO

repito . Ellas são a prova de uma exhuberancia de


vida real, que V. tem razão de temer e obrigação
de canalisar ou dar vasão, mas não para a lama dos
charcos, e, sim, para os corações que V. julgue dignos
de recebel-a . E eu sei avaliar perfeitamente quanto
me eleva aos meus proprios olhos a sua confiança .
E é por isso que, ás suas duvidas sobre a sinceridade
dos meus juizos sobre V. , nada respondo, senão re
petindo - os, pois vejo claro que, facto bem mais posi
tivo e certo que as suas duvidas, e bem mais difficil
tambem , é o da sua confiança, que se repete . Quanto
ao mais, Alceu, graças a Deus não ha uma palavra
das suas confissões que não esteja a affirmar o ex
plendor christão do seu espirito . Tudo angustia, du
vida, ondas e mais ondas de desgosto, de exasperação,
de anciedade ? É assim em todo o “ mar oceano" . Só
não é assim no mar morto , na agua parada, " na agua
lodosa e fria ” .
Jámais o quadro foi outro , e tudo o mais é de
talhe :

No mar tanta tormenta , tanto damno


Tantas vezes a morte apercebida...

Com um pouco de serenidade, compare V. o que


lhe digo de mim com o que V. me diz de Você . É a
mesma cousa . Miseria e miseria e não conformação
com a miseria . Eis tudo , e o essencial é a não con
formação . Note V. , porem , que eu ha dez annos
entrei os umbraes da Igreja , e não só creio em
J. C. mas recebo a Jesus Christo no sacramento do
altar ... Deixei de ser miseravel, deixei de me sentir
o mesmo triste frangalho agitado por todos os ven
tos máus, batido por todas as paixões ? Neste caso
o mais fraco quem é senão eu ? Bovarismo, a nossa
CORRESPONDENCIA 105

dupla face de existencia ? Não e não . É que são duas


mesmas as faces da cohorte : a que se volta contra
o que em nós é baixo e ruim, e a que se volta contra
o que é baixo e ruim fóra de nós . A arma da fileira
com face para o interior é a analyse . A arma la
outra é o esquecimento de nós mesmos, da nossa
mesquinhez, dos nossos defeitos, dos nossos erros .
E podemos fazer assim , agir assim, porque, real
mente, não luctamos por esse feixe de miseria, mas
pelo homem que Jesus Christo nos affirmou que
existe em nós .
Sua carta tem , na verdade, uma phrase terrivel,
que ficou vibrando em mim como um dardo de fogo :
o homem é uma experiencia que Deus abandonou .
Quantas vezes , meu caro Alceu , tenho tido a
tentação de expressal-a tambem ! Sei que é facil di
zer : não, foi o homem quem abandonou os caminhos
de Deus . Mas ainda o poder perturbante daquella
primeira palavra, se multiplica ao contacto de uma
vida tão depravada, tão degradada, tão infeliz ...
Mas note, Alceu , a resposta verdadeira tem que vir
desta mesma observação . Porque sentimos essa de
pravação, essa degradação, essa infelicidade ? Não é
isto a prova de que Deus está a ferir com a sua luz
este montão de treva ? Tudo o mais é sempre rolar
pelos abysmos do mysterioso drama da queda . Por
que é assim é que não se sabe . E a affirmação tre
menda não pode ser outra : até o natural desejo de
felicidade faz parte da dor . E a affirmação, não
menos tremenda , mas que, unica , se pode contrapor
áquella : não é preciso crêr na felicidade, como cousa
realizavel, para viver - se como Jesus Christo pregou
que se vivesse, isto é, como se deve viver, tendo a
certeza de que a vida vale ser vivida .
106 JACKSON DE FIGUEIREDO

Não li o romance de Duhamel e desejo lelo.


Não preciso explicar-lhe porque não fui á sua con
ferencia ( 1 ) . Não me foi absolutamente possivel.
E antes fosse somente por molestia . E que pagina,
meu caro Alceu, que pagina poderia eu confiar -lhe
agora, se quizesse lhe dizer, detalhadamente porque,
desde o momento justo em que V. sahiu da livraria,
até horas antes de lhe escrever esta, tenho vivido
como atordoado, como um espancado, no cumpri
mento de um dever de amizade e de christianismo !
Vi de perto a destruição de dois lares , e, um delles,
um lar verdadeiramente christão... Pois bem : que
respeita a paixão, neste mundo ? Não . Ella respeita
a consciencia christã . Parece esmagal-a, pode mes
mo esmagal -a, mas é com medo, ha de ser sempre
como a onda que se aproxima do rochedo . E eu
que estive entre a onda e o rochedo, pude ver, mais
uma vez, como essa lucta é formidavel mas, ao fim
de contas, confortadora . Não estamos abandonados.
Não . Estamos luctando . Que haja um só homem
casto sobre a terra , por exemplo, e é a prova da
sobrenaturalidade que envolve a vida natural . Em
todos os sentidos, a victoria nada tem que ver com
o numero dos victoriosos, porque o numero é do con
dicionado do homem e não alcança nem a origem
nem o fim humanos .
A Laura gostou muito mesmo da sua conferen
cia, e notou que ainda nesse dominio de veludo e
limo, eu e V. temos preferencias muito semelhantes.
Dou -lhe as impressões da Laura porque V. sabe o
que ella vale para mim como espirito . No convite
que V. me deu diz : " 4. & conf . de T. de Ath . sobre

( 1) Sobre “ Marcel Proust ” (Estudos, 2.a serie ).


CORRESPONDENCIA 107

o thema M. P. " Pergunto : V. já fez 4 conf. sobre


Proust ? Sahiram no J. do C. ? Mande -me dizer isto,
e em que dias appareceram .
Sim : importante. Moyses Marcondes, o meu
velho e querido Moyses, desejaria saber se V. es
creveu alguma cousa sobre o livro delle Pae e Pa
trono . Elle estava ausente . Aqui chegando disseram
lhe isto . Elle fez questão de ler o que V. escreveu,
se escreveu . E eu ha mezes me esqueço de lhe fazer
esta pergunta .
V. já leu Os Camponezes do L. Reymont ? (2 )
Livro difficil, ou melhor, poema difficil mas mages
toso , com uma inspiração religiosa verdadeiramente
natural e poderosa .
Agora vou durante um mez só ler livros que
me protejam um pouco desta maldição da arte .
Adeu !

Um abraço do seu
JACKSON

P. S. Mandei para o H. Pedro II os livros e


uma carta para o Sr. Georges . Elle lá não estava,
e não sabiam se voltava . Entretanto, elle me dissera
que só embarcava a 29. Vou mandar saber se elle
acaso passou de novo por lá . Se não passou, envia
rei os livros para a Europa . Mas é preciso que
V. me dê a direcção.
Seu

JACKSON

(2) Ladislas Raymond, romancista polonez.


108 JACKSON DE FIGUEIREDO

P. S. Peço - lhe que releia as 3 primeiras pa


lestras das Soirées de J. de M. ( 2 ) Não sei se me
engano . Mas ellas agora lhe farão muito bem .
Seu

JACKSON

30-8-27

Alceu Por acaso já tenho lido o ultimo n.º


do “ Roseau D'Or”, que é a obra de Maritain : “ Pri
mauté du Spirituel" . Desejo muito que V. o leia. Não
pelo que ali se diz das relações do Estado com a
Igreja que, a meu ver, melhor se resumem , quanto ao
que devem ser , nestas poucas palavras : " Que o Es
tado tudo possa, seja omnipotente mas sob a direc
ção espiritual da Igreja ”. Se V. não tiver o livro e
julga que não o receberá em breve, mande-me dizer
para que lhe envie um exemplar. Mas renovo - lhe o
pedido : leia as 3 primeiras palestras de J. de M. nas
Soirées. Não são remedios propriamente que lhe es
tou apontando. São meios de V. rever muita cousa
de V. mesmo, que vae ficando para traz sob o ne
voeiro das preoccupações de cada momento.
Seu
Jackson

P. S. Disseram -me agora que só sahiu um


resumo da sua conferencia. Quem me disse foi o

(3) Soirées de Saint Peterbourg Joseph de Maistre.


CORRESPONDENCIA 109

Muricy ( 1 ) com muito louvor. Vou mandar buscal- o.


Mas fica no resumo ou V. espera publical-a toda ?
Jackson

5 /6-10-27

Alceu :

Que finalidade tem o drama da paixão no gran


de, no infindavel drama da vida ? Foi o sexo a causa
da quéda ou a sua mais monstruosa consequencia ?
Lembra -me esta tremenda palavra que li num livro
de Roizic : de que o amor, a paixão puramente se
xual ainda é a ultima porta por onde communicam
com o não eu, com o alem de si mesmas certas al
mas de todo em todo fechadas no egoismo. Mas
figure : então este caminho pode ser um caminho de
salvação ? E a salvação implicará sempre a com
munhão das almas ? O só não pode salvar - se ?
Estas aggressivas interrogações e mais outros
pezares da minha vida me estavam tornando esta
noite uma noite de martyrio. Lembrei-me da sua
carta de hoje, e é uma alegria voltar a conversar com
Você, uma satisfação séria e profunda. Não resta
duvida, meu caro Alceu, se o isolamento não implica
perdição, o certo é que , dentro delle, o homem perde
os seus melhores recursos para a lucta contra a in
vasão do nada.
A sua explicação da 2.a parte do offerecimento

( 1) Andrade Muricy.
110 JACKSON DE FIGUEIREDO

é tão digna da sua bondade e tão natural, que tem


força de evidencia . Não posso duvidar delle. Entre
tanto, não tem razão de ser. Não sou , em cousa al
guma, um homem que V. devesse ser . Pelo contrario.
Imagine com a ajuda da fé um coração como o seu,
um caracter como o seu . A fé, uma viva fé me sus
tenta na vida, e, no entanto, attente bem em tudo
quanto lhe tenho dito que sou. Attente neste absur
do, neste incrivel poco de insatisfação e melancolia.
E' melhor nem falar. Creia, Alceu , eu sou por tem
peramento um anarchista ou um barão da baixa
feudalidade, e aquelle vago tio de Jean Christophe,
e Roudine, e Tonio Kröger, e Gösta Berling, e todos
og vagabundos, e todos os violentos deste mundo, mas
jamais um catholico , um homem de bom senso, livre
só para o bem , amando a Deus e aos seus deveres.
Mas Deus me deu uma consciencia que é como uma
canga chineza ou como chumbo nestas azas demo
niacas. Toda a incomprehensibilidade da vida não
me impede de crer na intelligibilidade do mundo.
Basta o facto da intelligencia , basta o facto da in
telligencia tender sempre a fundar em si mesma o
criterio da sua actividade, isto é, basta a sua cons
tante interiorisação. Isto já é de si uma ordem, mas
que não se poderia distender sobre o nada ou a de
sordem, mas sim, sobre um plano, uma ordem ex
terna. Logo : ha uma ordem. E como não é possivel
negar o facto do perpetuo alerta moral, esta ordem
se completa em finalidade moral . Eis o tormento. O
vagabundo, o sensual, o imaginoso estaca ante si
mesmo. E as horas de lucta se succedem . Eu pareço
luctar com os homens. Mas é um engano. Eu iria
cantando e dansando, no meio delles, ás profundas
do inferno. A lucta é commigo mesmo, que me revejo
multiplicado no descuido, na animalidade, na selva
CORRESPONDENCIA 111

geria dos outros . Juro, Alceu , que, no dia em que


a fé visitar seu coração, coração “ naturalmente
christão, Você poderá ser-me exemplo e espelho. E
eu só poderei ser exemplo para o vulgar, que me co
nheça de longe, e nunca para aquelles a quem fale
como falo a mim mesmo.
As tentações, que avalio o rodeiam, não me fa
zem medo. Um homem que chegou á acuidade de que
V. hoje gosa, isto é, que é o seu martyrio , não cae
mais nunca, a não ser por uma destas impulsões que
quase independem da vontade e levam logo ao ani
quilamento. Quero dizer : queda num homem com
a sua capacidade de soffrer é visinha da morte, e
destas só Deus é juiz, e aos homens só fica o direito
de medirem a altura de onde rolou o que cahiu. Por
que esta é a verdade : não ha nada que proteja mais
do erro vulgar que a verdadeira, a legitima agudez
de sensibilidade. Eu ainda não me rebentei com
pletamente pela graça de Deus que, é claro, me per
mitte ir, antecipadamente, com a sede dos labios , á
cinza que está sob toda illusão de ventura.
Bem , adeus !
Mande, sem falta, o seu livro a Almeida Maga
lhães ( Dr. ) ( Advogado ) em S. José do Rio Pardo,
S. Paulo. Já mandou a Plinio Barreto ?
Ahi vae o Gilson que principiava a ler. Mas não
tenho a menor pressa de acabar a sua leitura. Só a
recomeçarei após findar o Laforet, velho livro mas
digno de attenção, dado o que procuro neste momento.
Sei que o Pinto está com vontade que V. tome a
si a " Terra de Sol " . Não faça isto. Se quer chefiar
uma publicação, funde-a. E imprima-lhe immedia
tamente a sua personalidade. Parta para esta cam
panha certo de que vae ter os maiores aborrecimen
112 JACKSON DE FIGUEIREDO

tos. Mas estes não impedirão que V. se sinta bem , ao


fim de tudo.
Bem, adeus, de verdade !
Vou ler um pouco e tentar dormir .
Um abraço do seu
Jackson

16 / 17-10-27

Alceu :

Deixo de lado dois trabalhos urgentes, para


conversar com V. , apezar do calor terrivel. Deve
ser verdadeira a palavra de Bergson, tão admira
velmente posta em relevo por Chevalier. Chego a
não acertar como pode existir intelligencia onde não
haja amizade. Li, hoje, meu amigo, o seu artigo
sobre o meu velho Beyle ( admiravel , innocente ca
nalha !) e tive verdadeiros sobresaltos em face da
sua desabaladissima, louca, assombrosa carreira
Você, meu querido Alceu, está deixando-se intoxicar
pelas letras contemporaneas. E comprehendo sua
intenção. Mas creia que ellas não estão a reflectir as
experiencias para a vida , mas, sobretudo, as expe
riencias do que está morrendo. Quero referir -me,
antes do mais, aos casos que V. vae, de passagem ,
apontando. Isto tudo, meu cao Alceu, não vale nada.
Exprime somente a facilidade de impressão nos dias
que correm. Avalie Você, quanta gente não teve
colicas moraes e paralysias geraes, e paralysias par
ciaes do espirito , desde que o mundo é mundo. Mas
é claro que o mundo não caminha para um anniqui
lamento natural. O que se contem nas palavras de
CORRESPONDENCIA 113

Jesus Christo é outra cousa. E nós não devemos


descrer da normalidade de certas epocas, e da anor
malidade de outras, por isso mesmo que o sentimen
to intenso desta verdade, vivemos a exprimil-o sem
pre que falamos sobre um facto qualquer de ordem
geral. E basta pensar na uniformidade, nas linhas
geraes de periodos como o que vae do seculo IX ao
XIV , em que as tangentes ou as linhas dispares, de
verdadeiro relevo, são rarissimas, e a actividade, não
só philosophica mas artistica , politica e social, é vi
sivelmente dirigida, attenta a uma finalidade ( 1 ) .
Compare o esforço, em epoca de tantas facilidades
industriaes e mecanicas, para a construção da Ca
thedral de S. Paulo, e numa cidade com um milhão
de habitantes, rica e poderosa com o que levan
tou nas pequeninas cidades européas as cathedraes
que V. conhece. A nós, actualmente, falta o senti
mento do fim, substituido pelo dos meios, que é o
que levanta os monumentos do util, sempre variavel
e fugitivo. Mas nós não podemos descrer da vida.
Ella se refará.
Ora , eu me sinto , como V. , ( e talvez mais do que
V. pensa ) um homem irremediavelmente perdido pe
los livros, isto é, pelo contacto diuturno e noturno
com esses avantesmas da podridão moral do mundo
contemporaneo. Mas é por isto mesmo que não

( 1 ) E ' de notar, que numa epocha dirigida é a finali


dade da direcção o que funda o criterio de seu valor. A epocha
bolchevista da Russia é rigorosamente dirigida para uma fina
lidade anti-humana e anti-natural, o mesmo acontecendo com
o Estado racista allemão, duas formas extremas de finalidade
social que o pensamento de Jackson repudia, desde que este
se caracteriza , por uma finalidade de ordem , de hierarchia de
valores , cujo mais alto grao é reservado aos valores moraes
e espirituaes .
8
114 JACKSON DE FIGUEIREDO

concorrerei jamais com uma só palavra para alon


gar esse triste e miseravel espectaculo. Não. Basta
que se verifique este facto : ha, no homem, uma
vida moral , isto é, uma tendencia para a ordem, para
a harmonia, para o reconhecimento de uma hierar
chia de valores psychologicos. Não é preciso mais
nada. Reconhecido isto , nós não temos o direito de
arruinar o que se apresenta apostadamente desor
denado , desnudamente em lucta com aquella ten
dencia. E tenho receio que V. , tão bom e tão digno,
concorra com a sua palavra para a perpetuação de
tão crueis aberrações. Sofrel-as, reconhecel-as em si
mesmo, isto é outra cousa. E como lhe tenho dito,
ninguem mais do que eu se reconhece victima dellas.
Mas é preciso ter a coragem de renunciar - se em pu
blico , pelo menos , ao que ha em nós de evidente fra
queza. Olhe, Você não avalia o amor com que olho
para o meu pobre romance, e é tanto que o mais do
tempo vivo a pensar na hora em que poderei con
fiar a Você aquelle tecido de vida arrancado a mim
mesmo. ( E' claro que ignoro o seu valor propria
mente objectivo ) . Pois bem : tenho tido tentações de
queimal-o e é evidente que, para o publicar, ainda
luctarei muito commigo mesmo, apezar da alta si
gnificação moral que lhe empresto , e está no seu
plano , dado que este reflecte as verdadeiras linhas
mestras de uma vida realmente vivida, e que sempre
se caracterisou pelo horror ao nada. Mas tenho eu
o direito de levar ao meu semelhante conhecimentos
da ordem que ali revelo ? E ainda dizer -lhe, que é
possivel passar por taes e taes caminhos, e salvar -se ?
Não será isto tentar a fraqueza ? Se eu tivesse ca
lumniado alguem, desejaria que meus filhos ignoras
sem estas miserias de um homem que, deante de
Deus, elles devem respeitar. Porque, eu proprio, lhes
CORRESPONDENCIA 115

deixarei esse livro, o testemunho de outras não me


nores, e tentadoras ? Eis no que vivo pensando, e
creia que só por isto ainda não lhe levei a ler este
livro. Alias, o meu desejo de afastar -me da mili
tança das letras é, ás vezes, enorme. Mas isto é ou
tro problema, é o meu problema pessoal, do homem
a quem o mundo já fez tanto mal, e já se sente
esmorecer. Que raciocina assim : um trecho de mu
sica o mais doloroso é repetido por uma creança .
Ainda hontem assisti um caso como este aqui em
casa ! Minha filhinha de 4 annos incompletos can
tando (veja você o que é cantar para os homens)
umas notas da Cumparsita, uma composição tristis
sima que rola ahi por tudo quanto é disco de victrola.
Mas isto não é monstruoso ? Que tem a arte que
é capaz de ligar a infancia á dôr, e á sensualidade
dos homens ? Mas o peior, como lembro no Oasis
da Dor, é que nem mesmo a arte dá á belleza ou
ao soffrimento essa affirmação de eternidade, que
vivemos a procurar no amor como em tudo mais. O
trecho de musica mais ardentemente amado é, ao
fim de um mez, se o ouvimos repetidamente, uma
cousa morta . Dahi para exclamar : só ha Jesus
Christo , acredite que não é grande a distancia .
Mas sinto depois, que é o proprio Jesus Christo que
não me quer assim fechado para o mundo. E lembro
me de V., por exemplo, lembro -me da amizade, da
quella admiravel palavra de Bergson, e volto a vi
ver com desejo de dar á vida um testemunho de
amor ( 1 ) .

( 1 ) Jackson refaz a mesma experiencia de um perso


nagem de Dostoiewsky nos “ Possessos ” que affirma a exis
tencia de um ser infinito, pela necessidade de um objecto para
a capacidade infinita de amar que sente dentro de si. A scena
116 JACKSON DE FIGUEIREDO

V. , meu caro Alceu , pense no que acabo de lhe


dizer. Eu sei que V. não pode viver sem procurar
fazer bem , e o que V. está fazendo é com intenção
de fazel- o .
Mas quem terá razão entre nós dois ? Não é
seu artigo o que me preoccupa. E ' a revista . Se V.
vier a ajudar moral e materialmente as expressões
litterarias da nossa desordem , esta não augmentará ?
Desse augmento , poderá resultar algum bem ? Estou
ancioso para conversar com Você, mas creia que
me tem sido impossivel procural- o. Estou lidando
com muitas tristezas. Emfim , impossivel lhe dizer
em carta tudo com quanto venho luctando, pois pre
cisaria falar de mim mesmo com brutalidade supe
rior á resistencia do papel. Mas, Anteu da terra es
piritual , nunca esmoreço de todo. E hei de conquis
tar tempo e tudo para conversar com Você, como de
sejo , largamente.
Adeus !

Um abraço do seu velho


Jackson

30 / 31-10-27

Meu querido Alceu : Do seu ultimo bilhete de


prehendi que V. sahiu do Rio. Mas ou lh'a mandarão
ou V., quando voltar, deverá encontrar nesta carta
um testemunho da minha gratidão pelo seu artigo

formidavel da morte de Stepan Trophinovitch é a descoberta


da eternidade atravez do amor, unica propriedade do homem
que aspira a durar eternamente.
CORRESPONDENCIA 117

sobre o livro do Moyses. Que bem me fez, meu caro


Alceu , o ter assim a certeza de que você ainda pe
netrou melhor do que eu o santo, o magno problema
daquellas paginas, escriptas por um dos homens que
me tem feito mais bem nesta vida ! E eu ando pre
cisando destas alegrias. Preciso sentir desses conta
ctos directos com a bondade, não com a bondade
geral, ontologica, mas com a bondade psychologica,
com a bondade tal qual anda por este mundo, e tão
desconhecida, e tão maltratada por nós mesmos, que
vivemos a examinar deformações.
Quando V. ler estas linhas, leia -as com a con
vicção de que são a objectivação de uma intensa
alegria, tão intensa que poude romper as pesadas
cadeias de tristeza, que pareciam dominar-me com
pletamente de dois dias para cá.
Adeus ! Um abraço do seu
Jackson

22 / 23-11-27

Querido Alceu : Você traz como Amiel um ter


rivel detractor dentro de si . Não ha como evitar -lhe
as injurias. Mas quanto você diz contra si mesmo
é profundamente injusto. Você precisa reagir con
tra esse tremendo pendor. Não, a sua vida não apre
senta signal algum de decadencia . Pelo contrario.
Ahi estão as suas ultimas produções. Aqui estão, cou
sa mais seria, as suas cartas. Tudo revelador de uma
extraordinaria vida interior, torturante, sim, marty
risante, mas só por si capaz de dar significação á
vida de um grande meio social. Não creio mesmo
que haja alguma que fale mais alto do que o Brasil
já é e pode aspirar,
118 JACKSON DE FIGUEIREDO

Já lhe disse que V. se engana quando olha a fé


como porto de repouso. Essa é a concepção que se
apresenta ao vulgar, a quem é capaz de repouso. A
verdade para um homem como Você jamais será mo
notona. Nella, pela primeira vez, as cousas lhe appa
recerão como são, nos seus limites proprios, defi
nidos, até as nuanças e as relações entre nuanças.
Ora, ha a verdade das cousas, e a verdade que vae de
nós para as cousas , e as verdades que transcendem
de nós e das cousas. E a verdade que trabalha a ap
proximação da verdade Suprema, do Fim Supremo.
Avalie V. que variedade de relações, que subitos des
cobrimentos, que longas caminhadas, que vôos, que
quedas, que perpetua ansiedade ! Não , meu caro Al
ceu : você não tem razão . Quer ver uma cousa : Você
diz que o separa da Igreja a sua misanthropia, pois
a Igreja é eminentemente social. Sim, tão social que
tem logar até para os stylitas, para os que pro
curam o deserto, a solidão material e intellectual, dá
á vida de todos esses fugidos do homem uma finali
dade espiritual , na formidavel hierarchia de forças,
que ella é de facto.
Pois a Igreja tem logar para uma creatura como
eu e não terá para Você, tão mais egual, tão
mais identico, por mais que assim não pareça ? Por
que, meu caro Alceu , ainda Você diz seguidamente
algo do que pensa ser. Mas eu – juro -lhe que tenho
medo de falar de mim. E é incrivel que lhe escapem
os contrastes que se chocam no pouco que lhe tenho
dito .
Seja como fôr, não deixe de ir conversar com o
Leonel ( 1 ) . Elle, alias, não tem outro desejo senão
o de conhecel- o pessoalmente. Mas não diga que um
( 1) Padre Leonel Franca.
CORRESPONDENCIA 119

sacerdote como o Franca não lhe possa ser mais


util do que eu. Quando se chega, como V., a ser vi.
ctima de incidencias espirituaes , já a uma tal al
tura da ordem espiritual, não ha como fugir a ter
em conta o elemento sobrenatural . Ah ! meu caro
Alceu , você não avalia como certas desgraças que
tenho presenciado ultimamente me impõem á cons
ciencia a presença do baixo e alto não natural , do so
bre e do preternatural ( 2 ) ! Ainda quero confiar-lhe
uns documentos mais do que comprobatorios da acção
demoniaca .
Vá conversar com o Franca. A só presença
delle já é uma grande luz. E, no entanto, não creia
que haja nelle a ausencia de soffrimento. Não. Ha
de ser, no fundo, um irmão nosso ; um soffrimento,
porem , que sabe aonde termina.
Adeus ! Vou ler ainda o conto que V. publicou
no jornal .

Um abraço do seu
Jackson

24-11-27

Alceu : Li o seu conto, uma sinistra surdina do


espirito creador que ha em Você. ( Porque será que
o espirito creador ama de facto, e tanto, a destrui
ção ? ) . Do ponto de vista da execução é pagina que

(2) A expressão preternatural costuma ser empregada


para designar o que os theologos chamamı 0 sobrenatural
quoad modum , isto é, a producção de um effeito natural —
a vida de um corpo humano de uma maneira sobrenatural,
120 JACKSON DE FIGUEIREDO

revela as mesmas incertezas com que V., como cri


tico, ainda está a encarar o problema da arte. Mas
é uma grande promessa. Fico a imaginar o seguinte :
Você tem, até certo ponto, se apaixonado por umas
tantas feições exteriores da expressão litteraria con
temporanea : a simultaneidade, a interpenetração dos
factores da phrase logica. Mas não terá attentado
no seguinte : quase todos os autores que se reali
sam ” por esse processo , são autores que não têm
a sua cultura de idéas geraes, a sua cultura emfim .
São meras sensibilidades com leitura, não raro res
tricta ás expressões de outras méras sensibilidades.
Você não precisará lançar mão de tal processo , que,
no fundo, é uma subtração do mais difficil : a nuança
que vae de uma côr a outra, para realisar -se tal
qual é, na sua tremenda complexidade de pensamento
vivo e puro e sensibilidade dolorosa .
Gostei muito que V. resolvesse ir ao Franca.
Pouco importa o resultado formalmente religioso ( 1 ) .

quando ella é restituida a um cadaver, por exemplo. Usa - se


porem a expressão para designar tambem aquelles effeitos
que , não sahindo do dominio dos agentes creados , excedem a
possibilidade de acção puramente humana. E' nesse sentido
que está aqui empregada.
( 1 ) E ' que um effeito religioso, para jackson, era al
guma cousa de ontologico, processando- se na estructura intima
do ser humano, e podia mesmo não adquirir, desde logo, um
aspecto formal psychologico. Desde que a substancia intima
da alma estivesse tocada, pouco interessava, a esse director
de consciencia , que ella se exprimisse immediatamente numa
modificação de consciencia. Muitas vezes os nossos estados de
consciencia já estão anachronicos e retardados em relação á
erdadeira situação do nosso espirito profundo ; continuam
a subsistir por algum tempo obedecendo á lei de inercia do
nosso eu superficial , como folhas mortas boiando na super
ficie da agua parada, na expressão de Bergson.
CORRESPONDENCIA 121

O facto é que terá sempre significação uma appro


ximação de almas realmente vivas. Significação so
brenatural. Ha na philosophia de Feenerbach um filão
ainda não de todo explorado de sobrenaturalismo
irresistivel. Não ha nada de positivamente menos na
tural do que a força real, universal , com origem num
simples contacto entre duas consciencias, ás vezes
as mais distanciadas pela educação, as tendencias,
as circumstancias etc.

E isto e mais dez casos me leva a pensar


na fallencia social da Igreja no Brasil - o que nada
prova contra a sua missão no mundo. E' dessa fal
lencia que resulta a maior fraqueza das almas. Onde
o ambiente, o campo, por mais estreito, em que se
respire o puro ar da doutrina e haja o calor da so
lidariedade na fé ? Se ha alguma cousa de organico
na acção da Igreja, no Brasil, ha de ser como dado
historico e talvez, presentemente , nas camadas mais
baixas da sociedade. Para os homens de certa ele
vação cultural, não ha essa esperança. (Quando digo
como "dado historico " , quer dizer : que ella é um
ponto de partida, o unico que se apresenta a quem
quer julgar do Brasil socialmente, na sua formação ).
Vou parar, meu querido Alceu , e quase sem fa
lar de mim. De tal modo a sua carta me mostra que
Você sabe perfeitamente ver o meu mais que dolo
roso , irremediavel caso. " Somnambulo de tragicos
flagelos ” eu, em verdade, acho a unidade de mim
mesmo na fé em Deus , ou no que quer que seja que
me leva sempre a achar que o melhor, o mais certo
está para alem de mim , e até do mundo em que me
movo. Mas ainda no espaço que vae da agitação
somnambulica á rude expressão hierarchica da mi
nha actividade quanta cousa, meu caro Alceu !
122 JACKSON DE FIGUEIREDO

quanta cousa ! Quanto sonho, quanta illusão ingenua,


quanta melancolia, quanta mansidão humilhada,
quanto orgulho desorientado, quanto lyrismo, quanto
sentimentalismo, quanta ambição terra a terra, quan
ta humilde aspiração, quanta miseria, quanta nuança,
emfim !
Eu, certas horas, penso que ha um orgão especial
de não ver, de não ouvir, de não sentir, um orgão
de negação do conhecimento. Porque é assombroso
quanto o homem se desconhece, vivendo dentro de
si mesmo. E , no entanto, ha homens, como eu e
Você, que quase só vivem para se conhecer. Mas isto,
esta lucta, será talvez a prova mais clara da exis
tencia do demonio . O espirito de negação é, na
natureza decahida do homem, uma como outra face
do senso commum que, como V. sabe, é, para S. Tho
maz, “ um centro de convergencia das impressões sen
siveis". Se se pudesse falar de impressões do nada,
ter-se-ia bem claro o que quero exprimir. Um centro
de convergencia dessas impressões.
Bem , adeus, meu querido Alceu .
Todo seu pelo coração, o velho
Jackson

2-12-27

Meu querido Alceu : Sua ultima carta cahiu em


cheio sobre uma chaga viva . Digo - lhe com rudeza :
Você não sabe, graças a Deus , do que está falando.
Meu querido amigo : a lucta contra o que V. chama
o peccado intellectual não destroe ninguem . Porque
é o caso de repetir que só o doido, aquelle em quem
já se verificou o schisma do ser, só o doido não pecca
CORRESPONDENCIA 123

intellectualmente , neste sentido de que não vê alem


do que vê. Uns mais felizes, outros menos , o facto
é que só tem animo aventuroso quem crê na aven
tura, e por mais que a objectividade se apresente
varia e indefinivel, ou melhor, reductivel a distinc
ções perfeitas, o certo é que V. acredita na unidade,
na ordem, na possibilidade, pelo menos, de uma ade
quação entre sua intelligencia e o mundo. Quando
V. duvide muito duvida do seu proprio caso, da sua
propria intelligencia, mas note o subentendido : se
V. duvida de sí é porque crê no alem de si mesma
E o peccado intellectual não pode ir alem. Ademais
basta lembrar como a ordem é essencial á intelli
gencia : não é possivel a ninguem pensar certas cou
sas. Um exemplo banalissimo : não ha fugir á cer
teza de ser como não ha negar que o todo é maior
do que a parte. E veja que affirmações formidaveis
e a que distancia uma da outra !
Mas o outro lado da vida, meu caro Alceu ! O
erro moral ! Note que é o contacto ( se se pode falar
assim ) com o nada, a negação não só de quem erra
mas da propria vida, uma tendencia absolutamente
inacceitavel ( mais do que incomprehensivel ) . Por
que a sanção não tem outro sentido senão este mesmo :
morrer em si mesmo, naquillo que se é. E, no en
tanto , o peccado é sempre o que attrae como expres
são mais forte da vida. Creia, meu querido Alceu :
Deus o conserve nessas quentes regiões da lucta
sobre o firmamento da vida. E não o deixe cahir ja
mais no corpo a corpo dos grandes instinctivos a
quem Deus deu a graça do supremo martyrio da cons
ciencia viva .
Eu , por exemplo, não tenho o menor receio do
seu futuro, por mais longa e tortuosa que venha
124 JACKSON DE FIGUEIREDO

a ser a estrada que V. tem a percorrer. E não do


bro uma esquina sem o terror do que vou ver face
a face. Porque eu, sim, meu querido Alceu, sou um
terrivel inimigo de tudo quanto amo, adoro e acho
que deve ser amado e adorado. E não perco a fé !
Porque não esperar graças maiores ainda para Você ?
Adeus ! Um abraço do seu
Jackson
1

3-12-27

Alceu : Estive quase a não enviar -lhe esta carta


que escrevi hontem . Julgo que ella responde a quase
tudo quanto V. me diz mas de modo esoterico, e eu
não gosto de falar senão clara e positivamente. En
tretanto , fio-me tanto da sua intelligencia, que lh'a
envio. Mas poderei ajuntar este ou aquelle detalhe
esclarecedor ? Não sei. Você, por exemplo , vê na
tristeza que vae sentindo a medida que vae conhe
cendo melhor a Igreja (não digo aproximando
se ) ( 1 ) vê uma prova de seu erro psychologico . Nada
disto . A verdade é triste, e a tristeza é a prova

(1) Evidentemente é o que elle queria dizer, mas Jack


son sabe o poder de agastamento que possuem certas expres
sões em determinadas sensibilidades, na situação ambivalente
que se desenrolava : uma attracção e uma repulsa. A simples
fixação, por meio de uma palavra de um dos polos em jogo,
pode muitas vezes occasionar o deslocamento brusco e irre
mediavel para o outro. E' absolutamente notavel o instincto
infallivel , o senso psychologico manifestado nesses detalhes
que se encontram a cada passo nessa correspondencia.
CORRESPONDENCIA 125

mesmo da verdade absoluta ( para os que vivem ,


quando muito , inseridos no mundo de relações entre
ella e o passageiro das cousas ) . E Você é quem me
fala todos os dias na sua incapacidade para luctar,
na sua covardia, na sua tendencia para o diletantis
mo ! Nada disto tem correspondencia com a coragem
com que V. lucta com toda tentação de descanço.
Porque a Igreja se lhe afigura um descanço. Erro
profundo, erro immenso. Basta imaginar que a Igre
ja, se se apresentasse como a união dos homens per
feitos, estaria negando o mal e, por conseguinte, o
seu fim, que é combatel- o até a consumação dos se
culos. Não ha verdade obrigatoria. Leia S. Thomaz
sobre DEUS ! Ha, sim, verdade. E quando ella é
apprehendida não ha fugir della nem pelas portas
da morte. O que tenho procurado dizer a V. de mim
é o seguinte : Ah ! se não fosse a Verdade ! Ah ! se eu
não tivesse contra mim a certeza de que o espirito
de Jesus Christo e da sua Igreja deve reinar no co
ração dos homens, no meu coração, pois ! Porque
isto pode fazer sorrir aos victoriosos de um mundo tão
vil como o nosso, mas creia, Alceu , que eu sinto isto ,
sinto - o com uma força incrivel : eu seria uma ex
pressão de humanidade contemporanea das mais vio
lentamente distendidas e completas, entre as que
tenho visto florescer nesta hora de angustiosos con
trastes. Mas eu sinto tambem e com mais força
-

ainda — o erro de todas estas aspirações, a visi


nhança, o envolvimento do nada a essas realizações.
Emfim, eu creio em Deus e em Jesus Christo , e na
obra de Jesus Christo, por mais triste humanidade
que ella encerre e eu veja, palpe e nella me repugne.
Mas vamos ao fim . Li a carta tão intelligente e tão
carinhosa do Georges. Creia que tenho desejo de
escrever o artigo. Mas quase vae alem das minhas
126 JACKSON DE FIGUEIREDO

forças tomar qualquer compromisso. Entretanto , vou


ver o que me é possivel fazer.
Adeus, querido Alceu
Um abraço do seu
Jackson

15 / 16-12-27

Querido Alceu : Tudo quanto V. me diz nesta


ultima carta revela, como sempre em tudo quanto V.
escreve, esta fatal alliança de um grande coração a
uma grande intelligencia. A forma ondulante, fu
gitiva, agitada da chamma faz-se ver, e logo a sua
ansia de tomar todas as formas, de conhecer todas
as direcções. Não ha na chamma real consciencia
de que o viver é consumir-se. E é o que se dá com
você. Demais que chamma ha que não viva rodeada
de humidade ? E a acção propria da humidade é con
trapôr -se ao fogo. E ' a da mediocridade em relação
ás almas verdadeiras. V. fala de você como de um
pantano. Pantano é o que nos rodeia. O que me
tem protegido talvez é que sou como uma fogueira
que se deixou cahir , cujas melhores brazas foram
lançadas a distancia de si mesma, e incendiei muita
cousa em derredor, endureci o chão, e me apraz o es
pectaculo destas devastações, que eu julgo depura
doras. O que V. precisa, Alceu, é, de facto, sahir e
errar um pouco, sahir de si mesmo emfim, repito,
não importa que para errar um pouco. O que não é
possivel é V. entregar -se a esse ardor de duvidas
sobre si mesmo. Você precisa esquecer -se um pouco,
seja de que modo fôr. E é o que me vale : ás vezes ,
CORRESPONDENCIA 127

quando me vou abysmando em mim mesmo, lanço


me no exterior, lanço-me como se eu fosse uma pedra,
vá cahir onde fôr, pouco importa, fécho os olhos a
toda duvida, a toda subtileza, a todo senso de nuan
ça, de delicadeza, de gosto, atiro -me no duro chão,
na agua escura, debato-me no sólo, ou pareço afun
dar, e verdade é que me humaniso, não cresço (como
lhe parece ) nem valho mais por isto, mas adquiro
a crosta vulgar que é necessaria á vida.
As minhas transcendencias não me salvam nem
das minhas paixões nem das paixões dos homens.
O que me tem salvo é o exercicio da propria vi
da ( 1 ) . Já lhe tenho dito a angustia do peccado, a
minha tremenda lucta commigo mesmo. Mas não
vejo outro meio de fugir a tudo isto que não o de
procurar tudo isto na realidade viva, pois só esta
dá ás cousas as proporções que ellas na verdade
têm , e que a nossa ansia de analyse augmenta de
modo prodigioso.
Não sei em que pagina sobre Proust li esta ver
dade : só descrevemos bem o que não conhecemos.
Descrever bem está ahi no sentido de dar da cousa
a sua realidade esthetica , eterna por assim dizer .
Isto quer dizer tambem que nós, os romancistas na
tos, os dramaturgos natos ( e eu e V. não somos
outra cousa, como não o é todo homem que tem vi
são historica da vida ) somos os que verdadeiramen
te conhecemos toda a extensão do mal, das miserias,
das angustias , das paixões que corroem a vida. Pois
bem : só ha um meio natural de diminuir a nossa
capacidade de conhecel-as, isto é, de soffrel-as, e é ir

(1) O mesmo motivo que se repete durante essa phase.


O incitamento á acção , á vida , como resolução dos conflictos
creados pela intelligencia abstracta.
128 JACKSON DE FIGUEIREDO

a ellas , procural-as, penetral-as vitalmente e não só


em imaginação e pensamento .
V. , repito, precisa dispor -se a errar um pouco,
atirar-se em qualquer, não direi precipicio, mas em
qualquer atravancado terreno de acção. Já a funcção
de critico é um bem para V. Vá alem de qualquer
forma .
Se eu lhe pudesse narrar como venci, isto é,
como consegui harmonisar commigo um dos erros
mais serios da minha vida, você talvez ficasse horro
rizado da crueldade dos meus processos até para com
a minha propria consciencia. Mas é que tudo tem
que obedecer a uma hierarchia de principios e ne
cessidades. E eu julgo que enquanto Deus me man
da viver, devo viver. E como certas derrotas me
levariam ao suicidio (até antes de eu poder pensar )
eu as evito seja como fôr, não raro brutalisando,
despedaçando, destruindo totalmente tudo quanto de
nobre e bom está ligado, directa ou indirectamente,
ao que me expõe, ao que me pareça uma dessas der
rotas. E , no entanto, o que ha de mais curioso em
mim é tambem uma transcendente indifferença por
tudo quanto tenho a viver ( não assim pelo passado ) .
Posso até affirmar que esta indifferença deve se
parecer muito com o optimismo dos mysticos mais
sinceros. E por isso eu acceitaria a morte como um
verdadeiro premio, a esta altura da minha vida ( 2 ) .
E ' que estou certo que não alcançarei maior equi
librio que o que tenho presentemente e nada se
pode conseguir alem de um dado equilibrio disso que
todos nós chamamos felicidade. Deste meu modo de
pensar, meu querido Alceu, me nasce a convicção

(2) Teve -o , trazido pela Providencia, menos de um anno


mais tarde.
CORRESPONDENCIA 129

de que V. tem razão quando duvida que seja possi


vel a sinceridade neste mundo. Pelo menos ser com
pletamente sincero fôra realisar um polyedro in
finito ... mas impossivel . Mas, penso eu , talvez o
que não seja possivel é a externação da sinceridade,
mesmo das almas mais claras e mais ansiosas de sin
ceridade. Ou talvez a estas seja mais difficil do
que as outras. Emfim, o que me parece é que as
verdadeiras consciencias são as que conseguiram uma
sinceridade que transcende dos factos e é, na vida
dellas, como um firmamento, do alto , por cima de
todas as paysagens, com os seus abysmos de trevas
(que podem envolver soes e constellações ) e suas
luminosas estrellas , ( que podem mover-se em regiões
de ar podre e irrespiravel ) .

Seu

Jackson

Rio, 3 / 4-1.0-28
Alceu :

O Georges me escreveu com muita sympathia e


espero que elle fará mesmo alguma cousa pela Li
vraria. Volto á carga sobre o artigo. Não. Não o
farei . Falar sobre o Centro D. Vital é falar de mim
proprio. Falar, neste momento, do movimento geral
do catholicismo no Brasil é, repetindo algo do que
disse Perillo do artigo sobre os Estudos, reduzir a
zero toda a folhagem artificial dos artigos de La
Briére.
130 JACKSON DE FIGUEIREDO

A sua carta principia por aquelle elogio da po


breza , das suas vantagens moraes na hora presente.
E claro que vemos a cousa de pontos differentes.
Mas falo, creia, com imparcialidade. Já me conside
rei rico, e talvez mesmo tivesse sido, relativamente
ao meio em que vivi. A fortuna pessoal é uma gran
de confiança de Deus, e é tambem, para quem não
creia n'Elle, uma forma de dignidade. A propria
Egreja reconhece que a miseria, a pobreza é má
conselheira. São raros os caracteres que a suppor
tam dignamente. E todo orguiho que se tire da po
breza já é um reflexo de outros orgulhos. Eu , aliás,
não sei como, dentro da inflexibilidade dos dogmas
que acceito, tenho uma concepção innocentista do
mundo. Não creio em soluções sociaes . Só creio em
finalidade moral. Acceito, pois, as maiores differen
ças de fortuna etc. como parte necessaria do drama
da vida. Porque a vida é para mim um drama, com
epilogo nas mãos de Deus,
Emfim, meu caro Alceu , sei lá o que sou neste
mundo ! Só uma cousa posso dizer : não duvido, com
a alma tal qual se me revela , ás vezes, não duvido
que va acabar no inferno. Mas então serei o espanto
daquellas paragens ! Porque entrarei lá com uma
consciencia catholica absolutamente indestructivel,
resistente aos erros alheios a todos os meus erros ( 1 ) .

(1) Certos condemnados da Divina Comedia conservam,


com effeito, uma lucida consciencia metaphysica. No canto
XXV do Inferno, ao presenciar o supplicio de Angelo Bru
nelleschi Florentino , devorado e transformado em serpente,
dois espiritos exclamam : “ O’Angelo, por que transformação
nós te assistimos passar ! Não és nem uma só substancia nem
duas substancias distinctas !" Da mesmo forma, no canto XI
do Inferno, Dante se admira que Farinata, que prediz e co
nhece o futuro , ignore o presente. Ao que este lhe responde
CORRESPONDENCIA 131

Creio na hierarchia e na ordem , e me tenho, desde


já, como o espanto de mim mesmo, e vejo a minha
vida interior como uma “ figura " do que poderei ser
no inferno se, de facto , acabar por lá. Sei que V.
não rirá do que lhe está a dizer este inaudito ambi
cioso, que v. tem visto a transformar a pobreza
em ouro metaphysico e sentimental.
Seu velho
Jackson

Rio, 12 / 13-1.0-28

passei todo o dia 11 a fazer as


minhas extraordinarias gymnasticas financeiras
para que a Livraria honrasse os seus compromissos.
E ahi intervêm difficuldades creadas pela minha
propria maluquice, ou melhor, que eu soffro porque
gosto , não dellas, mas dos actos que as originam e
então, ás vezes, penso que vou cahir no desespero

explicando : “ nós somos como a quelle cuja vista é enfraque


cida e que ás vezes distingue melhor os objectos longinquos:
o supremo Poder ainda se digna de nos conceder esse bene
ficio. Quando as cousas se approximam ou existem, a nossa
intelligencia é vã ; e si não nos vêm informar sobre os factos,
nós ignoramos o que se passa na terra . Essa mesma intelli
gencia não terá mais acção, quando fôr fechada a porta do
futuro" . Os proprios demonios de Dante são dialectas subtis :
no Canto XXVII elle nos dá noticia de um, que disputa uma
alma, e consegue arrebatal- a com esse triumpho de logica :
" é impossivel querer o peccado e arrepender-se ao mesmo
tempo; ha contradicção nessa proposição ”. E quando lhe é
permittido arrebatar a presa, elle ainda se vangloria de sua
dialectica : “ Tu não imaginavas que eu fosse um logico !".
132 JACKSON DE FIGUEIREDO

ou no esmorecimento. Mas penso somente. A ver


dade é que, vou, não raro, falando, queixando -me em
voz alta, mas agindo em silencio, e acabo sempre
por me equilibrar. E só me fica o desgosto do tempo
perdido nestas cousas grosseiras da vida quotidiana.
Porque a realidade é que nasci poeta , poeta e va
queiro ( brasileiro, não mexicano) com tendencias
para bibliothecario e ditador. Como vê Você, um
animal de difficil classificação.
Sobre a fortuna insisto em lhe dizer : não ( ia
dizendo não se arrependa ) não deixe que ella o do
mine como motivo de tristeza ou de aborrecimento .
Faça della uma força viva de alegria, uma nobresa
de sua vida.
Explico-me : concordo com Você que a pobreza
é, hoje em dia , uma especie de nobreza . E' como
a antiga nobreza de fronteira — Gonçalves Mendes
da Maya ( fazem hoje noventa annos que recebi o
baptismo, oitenta que visto armas , setenta que sou
cavalleiro – lembra-se ? - ) . E a nobreza dos que
se julgam com direito de chegar de cabeça erguida
até junto dos thronos, porque são a defeza dos prin
cipios, do espirito, emfim, sobre que assentam os
thronos. Mas ai ! meu querido Alce
Alceu,
u, de quem ,
fronteiro a terras de mouro , sente -se capaz da guer
ra, tem musculos para os combates, mas allia a isto
o sentimento da belleza, das nuances, das cousas de
licadas, que estarão para alem da curva aspera des
tes montes, lá nas protegidas mansões da paz, nas
cidades que recolhem a fortuna de cada victoria .
Pois bem : é porque a pobreza é esta fidalguia
- a fidalguia dos guerreiros — que a fortuna pode
e deve ser uma aristocracia e com tanto direito, e
tão moralmente assentada, como a outra. A fidal
guia dos que fazem com que, em biologia geographi
CORRESPONDENCIA 133

ca, um ajuntamento humano seja sempre mais al


guma cousa que um ajuntamento de castores.
Eu, aliás , penso que Deus sabe o que faz quan
do me tem negado sempre, já não digo as occasiões,
mas o espirito de enriquecer. Porque eu, com di
nheiro, talvez acabasse no hospicio. Já lhe tenho
dito que me sinto, como catholico, um homem abso
lutamente liberto de todo medo e todo preconceito,
de todo respeito humano. Avalie Você, se eu me pu
desse mover ao sabor da imaginação. Seria um de
sastre, talvez. Está ahi a confissão plena do que
muita gente ignora : eu sou um grande ambicioso.
Somente a minha ambição é catholica, é integral,
como ambição. Deus me livre de vêr crescer uma
força da minha vida em detrimento de outra. Deus
me live de uma victoria material a custo de uma
derrota moral. Eis o terrivel problema.

Seu

Jackson

17 / 18-1-28

Alceu, que terrivel caso ! Você tem dentro dal


ma uma machina de afiar navalhas, com aquelles
mesmos movimentos. Simplesmente eu reaffirmo :
ha nesta sua tremenda lucta uma grande graça de
Deus. No fundo, ella está a preservar Você do salto
no escuro . Emquanto o ser se move em si mesmo,
isto é, em funcção da intelligencia — tristemente ou
com alegria ainda está em dominio de vida, e
134 JACKSON DE FIGUEIREDO

até o sabor da morte ainda é expessão de vida.


Quando, porem , seguimos a paixão, nos atiramos,
janella afóra, de nós mesmos para a escuridão do
alem de nós mesmos, então sim, mergulhamos no
nada. E creia você que ha mais entorpecimento na
furia das paixões do que na immobilidade de quem
sonda o seu proprio mysterio. Porque, é bom não
esquecer, o acto de salvação acto intellectual, e
ainda o mais desorientado acto de intelligencia é
figura do nosso fim supremo.
Eu hoje , por exemplo, sinto -me verdadeiramen
te sahareano . E só me resta mesmo, de esperança
em mim, esta tortura de analysar-me. E tão grande
hoje que não a sei exprimir. O caminho que Deus
lhe traçou, com tanto respeito á sua vontade, á sua
intelligencia, é, realmente, dos mais difficeis que eu
tenho visto. Mas por isto mesmo tenho uma grande
fé no seu destino. Você está fazendo e ainda ha de
fazer maiores bens a este paiz.
Adeus, querido Alceu !
Um abraço do seu
Jackson

Rio, 18 / 19-1.0-28
Alceu : Esta noite mesmo, no Café S. Paulo ( 1 ) ,
numa indizivel crise de solidão, li todo o pamphleto
do Julien Green . A parte critica não tem impor

( 1) O Café Gaúcho durante o dia , e o S. Paulo durante


a noite, eram os dois quarteis-generaes do Jackson. Uma varie
dade incrivel de pessoas de todas as classes sociaes, com as
quaes elle mantinha um permanente contacto, politicos, intel
lectuaes, ou mesmo simples vagabundos e bohemios, alli o
CORRESPONDENCIA 135

tancia senão secundaria para nós. Fére a massa


somente. O catholicismo só está vivo, como elle pro
prio reconhece, naquelles para quem a fé não é re
pouso de álma e, sim , de consciencia ; e ainda de um
ponto de vista absolutamente transcendente, esse re
pouso. O que no pamphleto é genial é a parte af
firmativa universal. Maistre com os nervos de após
guerra. Absolutamente verdadeiro : só ha verdadei
ro catholicismo em quem sabe apprehender, abstrair
de um perpetuo espanto , e até de uma perpetua in
dignação, uma lei de conformação e de humildade.
E' a " aposta " ( 2) , no fundo, após a verificação da
" queda" de toda a natureza. E ' confiar na secreta
affirmação da consciencia de que ha Deus, de que
ha uma justiça. Fecha- se os olhos na "noite obs
cura ", vêem -se mais claros os astros sobre o abysmo.
E o que a razão, ás vezes, não pode ver , é objecto

encontravam diariamente, para as interminaveis palestras em


que elle consumia as suas horas, entremeiadas de uma activi
dade febril. A vida de Café, com o Jackson , possuia alguma
cousa de permanentemente pittoresco e saboroso, tal a capa
cidade incessante de valorizar o momento que passa, que elle
possuia. A approximação de Jackson nos collocava immedia
tamente nessa outra dimensão, o rythmo da vida se acelerava
e crescia de intensidade, abolindo -se totalmente a sensação
natural e amarga que nos dá a repetição monotona do quoti
diano da vida.
(2) Refere -se á “ aposta " de Pascal, que nos convidava a
crêr como num risco, como num jogo, porque si a salvação
não existisse, teriamos perdido apenas, nesse jogo, o sabor
da vida terrena, que não é nada, ao passo que, si a salvação
existir, e fôrem verdadeiros os dogmas da Fé, ganhamos o
absoluto, com a vida eterna. jackson reconhecia que essa era
uma attitude imprudente, mas que é justamente essa impru
dencia que a valorizou aos nossos olhos , isto é, aos olhos do
homem moderno ”. ( Pascal e a Inquietação Moderna, pg. 76) .
136 JACKSON DE FIGUEIREDO

de pensamento , pois é acceitabilissima a distincção


que faz o Green .
Não lhe envio já o folheto porque quero que o
Hamilton ( 3 ) , o leia e quero até fazer com elle uma
malvadez, das que gosto de fazer. Mas informe-me,
até 2.a feira proxima, de alguns traços geraes bio
graphicos do pamphletario. Quem é ? Sei que tem
um livro no "Roseau d'Or ” , mas é declaradamente
catholico ? A consciencia delle é a de um catholico
integral, perigosissimo. Nós, catholicos de verdade,
somos uma ameaça muito mais seria ao mundo mo
derno do que os mais convictos bolchevistas. O que
vale a este sarapatel de oiro e de lama é que é mais
facil ser bolchevista do que catholico de verdade. E o
julgamento final não ha de separar muitos da massa
dos imbecis. O que não quer dizer que serão elles os
mais bem tratados. Porque a desgraça mais negra que
percorre o mundo, neste momento, ha de ser a da cons
ciencia verdadeiramente catholica, por sobrenatural
lucidez da intelligencia, ha de ser a dessa consciencia
como centro de um organismo espiritual, quero dizer
de uma unidade espiritual , absolutamente gangre
nada. Nem ha geito senão usar da linguagem ma
terial,
Julgo que V. tem razão quando pergunta se a
condemnação da Action ( 4 ) , etc. , não significará um
conselho em favor de mais contemplação. E , deste
ponto de vista, o livro de Benda fará bem. Como V.
mesmo terá visto o que nelle condemno é o erro,
do ponto de vista geral, relativamente á philosophia
da Igreja, que é, e não quer ser senão uma regra su
perior de actividade ( de onde impor sempre o equi
(3) Hamilton Nogueira.
(4) Action Française, de Charles Maurras.
CORRESPONDENCIA 187

librio entre acção e contemplação, equilibrio que está


a perder -se em detrimento desta ) ( 5 ) .
Escreverei o artigo para a revista. E' questão
de tempo .

Jackson

Rio, 25-1.9-28
Alceu : Ahi vae o “ Pamphleto ”. Fiz hoje a mal
dade de publicar, em nosso meio, algumas das suas
verdades . Agitar o universal é a minha maneira
mais commum de irritar o particular. Vamos ver o
que sae d'ahi.
Você tem as obras moraes de Plutarcho ? E em
que edição ? Basta me mandar dizer se tem e qual
a edição. Se eu precisar realmente, como me parece
que vou precisar, lhe pedirei.
Ainda não escrevi uma palavra do artigo para
o Georges. O calor tem -me feito mal. Ademais, a
verdade é que estou quase chegado ( já a avisto) a
uma seria encruzilhada da vida. Desejaria descan
çar um anno. Preciso, pelo menos ficar a sós com
migo mesmo durante quinze dias . Tendo ido a Pe
tropolis no Domingo - e recordando o seu conto
andei tentado a escrever - lhe pedindo um refugio no
meio da serra , onde ninguem soubesse que eu estava.
Você não avalia a saudade que eu tenho, ás vezes,
da voz da agua corrente. Mas o que mais necessito

( 5 ) Tanto mais quanto, segundo a doutrina thomista,


a acção deve provir da plenitude da contemplação, porque uma
das propriedades do amor é o de ser diffusivo, e o movimento
da caridade desce de Deus para as creaturas.
138 JACKSON DE FIGUEIREDO

é de pensar sobre minha vida. Que devo fazer, se


manter -me na guerrilha quotidiana, se affastar -me
para o centro florestal de mim mesmo. Mas tudo isto
é difficilimo. Como sahir da imprensa e do con
tacto com a vida fervente, se não tenho recursos etc. ?
Entregar -me á livraria de corpo e alma ? Mas não
é certo que não me deixarão quieto ?
Estarei mesmo condemnado a combater , ou é o
meu proprio temperamento que só acha sombra ao
sol dos descampados ?
Meu querido Alceu : você se lembra do soneto
de Rimbaud, creio eu, sobre o soldado morto . Nos
cantos do Hoggar ainda ha uma evocação mais se
vera e mais eloquente : a do guerreiro cahido no
deserto , aquelle sol ! Pois creia que eu rememóro
com volupia essas imagens de um bello fim ( 1 ) .
Estou medonho hoje, como você vê. Mas isto não
vale nada .

Adeus ! Um abraço do seu velho


Jackson

Alceu : Aqui chegando encontrei sua carta e os


livros do Green . Só fiz a trad. da Gazeta para ir
ritar a “ ignominia do espirito ”. A's vezes, resulta
bem , e eu, como lhe disse, sou completamente indif
(1) Como se vê, Jackson iniciava o anno de sua morte
com um presentimento que era quasi uma antevisão. Deante
dessa visitação previa, esse ser combativo experimenta viva
mente o desejo do recolhimento, e um lyrismo ingenuo e com
movido como que o obriga a voltar os olhos maravilhados
para a belleza mansa das cousas. “ A saudade da voz da agua
corrente" é a nostalgia de toda a belleza pacifica, de toda
quietude que elle deixou de realizar na sua vida atormentada.
CORRESPONDENCIA 139

ferente á opinião dos que me são indifferentes, em


tudo quanto essa opinião poderia interessar -me pes
soalmente .
Envio -lhe este env, chegado dos Est. Unidos. Po
derá talvez interessar o Jornal.
Vae o livro do Hamilton para o Afranio, que
eu acredito vivo em algum recanto de Petropolis. O
Afranio fez mal em se affastar de mim. Eu era
uma das poucas contrariedades sãs que elle encon
trava na vida, um dos raros inimigos da sua vo
lupia de viver, a que elle tinha dado o direito de
ser amigo do seu ser. Mas desappareceu completa
mente, e antes, sei bem, de um salutar envenena
mento .

Rio, 1 / 2-2-28

Meu querido Alceu : Você tem absoluta razão


na sua carta . Eu, aliás, supponho que o meu artigo
só pode ser entendido do ponto de vista do meu
temperamento . O que quiz foi explicar o porque
do meu não arrependimento ante o que a muitos se
afigura uma dupla derrota da minha vida : nem uma
obra intellectual ( como se julga que eu poderia fa
zer) nem a victoria politica (deputação, senatoria) .
Quanto ao que V. diz sobre “ vida integral ” etc.
- o que V. diz é o que a Igreja diz. E', pois, a
verdade.
Entretanto , como negar que ha uma nuança ?

Esse projecto de ir ao encontro da solidão não chegou porem


a realizar -se. Foi-lhe impossivel, antes de deixar o mundo,
reconciliar-se com elle, com o que elle contem de poesia natu
ral, num retiro serrano.
140 JACKSON DE FIGUEIREDO

Não é claro que ha uma differença, por assim dizer


especifica entre a vida de um Bonaparte e a vida
de um S. Thomaz ou de um Renouvier ?
Ademais : eu ainda condiciono tudo, em minha
vida, ao caso brasileiro . O paiz precisa, mais do que
de tudo o mais : de quem leve á acção, á pratica
um espirito de distincção, de definição, de doutrina.
Será horrivel que amanhã, com philosophos e poetas,
se faça no Brasil a pergunta que se faz na India
de Froster ( leu ? ) : Que é a Inida ? Onde está a
India ? Meu caro Alceu : Ainda não resolvi nada
sobre a minha reclusão do meio da serra. Atravesso
um mau periodo da vida. Não posso deixar o Rio.
A necessidade de fazel - o é grande, porem é maior,
talvez, a convicção de que devo vencer a necessidade.
Na livraria chegou a Hist, des Papes, de Pastor,
trad . franc. em 11 vols. Você a tem ?
Ahi vae o “ Mont-Cinère " onde sopra um
demonio adequado á poeira . Que asthma, que agua
morna á garganta do espirito ! E' impressionante a
alma deste Green . Elle me dá a impressão de um
cãosinho que matei numa sexta - feira da Paixão, em
Sergipe, já lá se vão 22 annos ! Furioso, louco de
raiva, quando viu que morria , sem perder de modo
algum a dignidade, fez - se de uma mansidão, que hor
rorisava. Este homem que, no Pamphleto, parece
um raio cortando com naturalidade a massa das nu
vens negras leva á arte, á sua suprema visão
da vida, uma coragem , uma dignidade de desillusão
e soffrimento , que são de horrorisar.
Um abraço do seu
Jackson
CORRESPONDENCIA 141

P. S. — Resolvi não lhe mandar hoje o " Mont


Cinère " . Vae o folheto do Pater, mas após lelo me
devolva .

Jackson

2/3-2-28

Alceu : Ahi vão as duas terriveis paginas de


Julien Green. V. não pode avaliar como estou no
caso de comprehender a " Adrienne Mesurat " . Este
homem , aliás, tem forte recordação do Balzac de " Eu
genie Grandet ” e de uma outra novella, não sei qual,
uma das primeiras que elle escreveu, em que appa
rece Buonaparte decretando um casamento . Mas o
peior é o tom . A ficção de Julien Green me dá a
mesma sensação de tristeza, que, em outra ordem ,
me deu a leitura do Futuro da Intelligencia de Maur
ras. E' como viajar num tunel , ou peior, viajar para
baixo, descer, cortando uma treva cada vez mais
densa .

Jackson

Rio, 12/ 13-2-28


Querido Alceu : Esta é para prevenil - o que adio,
por tempo indeterminado, a minha solidão no meio
da Serra . Preciso, francamente, de uma estação de
aguas espirituaes. Vou , pois, para Friburgo no sab
bado proximo, acompanhar de coração o Retiro dos
142 JACKSON DE FIGUEIREDO

meus companheiros, mas, em consciencia , conversar


com duas admiraveis consciencias. E Deus me aju
dará a rehaver -me, a reconciliar -me, ainda uma vez,
commigo mesmo. Porque, sob a placidez das minhas
attitudes, na vida , estes ultimos annos , creia V. que
se guardam gestos da mais desabrida colera e do
mais tremendo desprezo contra esta mesma colera.
Ora, eu preciso indagar a frio que solução devo dar
a esta minha crise espiritual, e vou, com real humil
dade de coração, graças a Deus, consultar gente mais
sabia do que eu . Ha dois annos, pelo menos, teço o
plano de uma seria campanha politica que, á primei
ra vista, parecerá monstruosa dentro do meu sys
tema de idéas, e a tal ponto que eu mesmo certas
horas me pergunto se não sou levado a ella, pura
e exclusivamente , por temperamento, por amor da
difficuldade, por gosto de luctar. Mas não é assim,
e, desdobradas as suas linhas geraes, ver - se - á que
nunca fui tão logico como catholico e como brasileiro.
Mas me arrisco em dois sentidos, e é isto que ne
cessito olhar de frente. Em primeiro logar – terei
que sacrificar, mais uma vez, e talvez por toda a
vida, as minhas velleidades litterarias, certos pra
zeres de espirito que amo acima de tudo, quando
fico a olhar somente para mim. Em segundo logar :
é uma lucta para a qual não tenho nenhum recurso
material, senão o que conto sacrificar dos pouquissi
mos recursos com que vou vivendo dia a dia. E,
olhando em derredor de mim, não vejo um só, um
só dos meus amigos, nas circumstancias de me aju
dar, pelo menos, á hora mais difficil, que é a pri
meira .
Tenho guardado, e até voltar de Friburgo, guar
darei segredo do que pretendo fazer. Mas será com
indizivel angustia que suffocarei dentro de mim este
CORRESPONDENCIA 143

desejo — que só a V. ainda confiarei, no caso que


me seja forçoso suffocal- o ( 1 ) .
Você pode bem avaliar que esta angustia eu não
a tenho isolada no mais profundo da minha vida in
terior . Muitas outras me levam a Friburgo. E, vi
ctorioso ou não da minha crise, procural-o -ei, pois
é certo que, para desmoralisal-a na plena liberdade
da meditação, ou para definir o plano que tenho
em mente, precisarei de mais alguns dias de con
versa a sós commigo mesmo.
Ultimamente, lendo aquella linda novella de
I. Sandy, “Andorre ", tive uma sensação agradavel:
a de comprehender como é facil e natural á vida
bem ordenada, em bases solidas, curar - se das pro
prias feridas , limitar o mal e o erro . E o processo
mais rude acaba por ser delicado, em harmonia com
a natureza geral.
Bem, adeus ! Você tem o Aristote de René Gos
selin ? Que bom livro ! E figurar a infancia de Aris
toteles, antes de partir para Athenas e saber que
o mar , o céo, a terra eram os mesmos de hoje ! Você
não avalia com que prazer li este pequeno livro ! Vou
ler L'Imposture .
Um abraço do seu velho
JACKSON

P. S.
Alceu ! Quando o preveni a respeito de minha
viagem á serra é para V. dispor do quartinho, pois

( 1) O tom em que elle se exprime, ao entrar nesse anno


fatidico de 1928, é o de quem tem urgencia em fazer depressa
o que tem a fazer. A reacção opposta ao seu enlanguescimento
do inicio, á nostalgia da serra e da agua corrente, “ a certos
144 JACKSON DE FIGUEIREDO

é quase certo que não l'ho pedirei ainda por todo o


mez de Fev . JACKSON .

Rio, 22 / 23-2-28 .
Querido Alceu ! Já aqui estou , de volta do retiro
em Friburgo . Mais contente com Deus, mais des
contente commigo, mais tranquillo com a consciencia,
mais desconfiado do coração .
Emfim, esta é a verdade : não se tem noção
vital do que é a Igreja (e até do que vale a sua força
meramente discursiva) sem mergulhar-se num re .
tiro . E, depois, como não se lucra na perda de il
lusões sobre nós mesmos ! Porque não é brinquedo
debruçar - se a gente durante tres dias e tres noites
sobre a propria miseria interior .
Eu, pelo menos, ganhei isto : a certeza - desta
vez de que só do sobrenatural posso esperar solução
do meu caso psychologico — pobre estragado por tan
tas perversidades do mundo. De mim mesmo, é impos
isvel . O mais que eu proprio poderei fazer em bem
de mim mesmo é manter-me, como até agora , em
attitude aggresiva contra tudo quanto , em mim, me
pareça amavel, delicado, nuançado, propriamente ly .
rico ( 1 ) .

prazeres do espirito que elle amava acima de tudo ", e aos


quaes tinha que renunciar, se crystallizava num plano de acção
de proporções immensas , a julgar pelo balanço de forças a que
procedia, antes de inicial-o. Jackson não deixou nenhum outro
esclarecimento em sua correspondencia sobre o que preten
dia fazer.
( 1 ) Entre essas cousas que deviam ser combatidas estava
incluida, certamente, para esse asceta violento, a velleidade de
um repouso na serra, a tendencia um tanto scismatica a que
não se permittiu ceder.
CORRESPONDENCIA 145

Entreguei o seu livro ao velho Madureira, fi


gura de santo . Com o Franca conversei muito sobre
Você.
Estamos, pois, de novo, face a face .
Adeus, meu querido Alceu !

Um abraço do seu velho


JACKSON

Rio, 14 / 15-3-28 .

Alceu ! Você tem alguma cousa do Ratzel em


francez ? Se tem , pode emprestar-me ? Mas — dada
a sua estadia em Petropolis estes meus pedidos
de livros não o estarão atrapalhando ? ( Está passan
do sobre este papel um bichinho tão pequeno , tão
incrivelmente pequeno e elegante que fiquei cinco
minutos quase como um doido, a seguir -lhe os movi
mentos . Vida, forma, portanto alma — que abysmo !
Valerá mais do que elle o proprio sol ? - E por falar
nisto V. já leu o livro de Chinard sobre S. Thomaz
e os Astros ? )
Mas voltando ao assumpto : não vá em casa
( a casa daqui do Rio ) só para buscar livro que lhe
pedir . O Ratzel, por exemplo, me interessa muito
mas posso - o ler amanhã ou d'aqui a um mez, não
altera .

JACKSON
10
146 JACKSON DE FIGUEIREDO

Rio , 16 / 17-3-28 .
Alceu ! Recebi o Vasco . Já o comprara quase
ha dias . Depois resisti á tentação . Logo que o leiu
lh'o devolverei. Estou indignado porque não acho o
Ratzel em francez . Você já leu o Foster ? Quando
o ler m'o devolva, porque o Hamilton vive a m'o
pedir . Mas não devolva antes de ler . (Falo assim
por estar convicto que está com você ) .
E por falar em Hamilton : elle quer conhecel - o .
Deve conhecel-o, e tenho a certeza de que vocês se
devem conhecer . O Hamilton , sendo um homem , é
uma moça . E o que lhe falta é o convivio com ho
mens de letras . Dado que eu, não me canso de dizer,
não o sou, absolutamente .
O enterro do Moyses tinha umas 15 pessoas .
Nem queria falar mais no Moysés . Sou dos que,
quase lucidamente, matam a vida com a vida, o que
a vida tem de doloroso com o estrepito da vida , o
grito com o som ou mesmo com os ruidos . Se não
fôra assim, penso que já aos 16 annos estaria doido
varrido . Acabei aquelle triste dia , em que me movi
como um demonio, acabei - o olhando durante mais
de tres horas as chammas que devoravam a com
panhia Lage. Vim para a casa quase sereno, certo
de que estava morto de cansado . Pois levei até seis
e meia da manhã escrevendo o artigo de fundo da
Ordem sobre o Moysés e pondo, a respeito delle, al
gumas cousas á vista . Com a morte do Moysés,
basta que eu lhe diga isto, perdi não pouco da con
fiança que tinha de não sossobrar materialmente
neste inferno . E se o Moyses vivesse mais tres ou
quatro annos é certo, certissimo que eu acabaria
sereno por este lado . Mas Deus não faz nada errado,
CORRESPONDENCIA 147

e, para terminar, venha o que vier, não tenho medo


de nada, e não o digo com orgulho, digo-o com fé
em Jesus Christo .

JACKSON

Rio , 20/21-3-28 .
Alceu : Talvez quando esta lhe chegar ás mãos
V. já tenha lido o meu horrendo artigo sobre Moy
sés . Já tinha experimentado isto quando morreu o
Mario . Dá -me a impressão de que não sei sahir de
certos soffrimentos. E outra cousa : quando me suc
cede uma cousa assim meu maior desejo é positiva
mente o de dansar, andar, falar, brincar , mas não
como desejo determinação, peior : como desejo
expontaneo, vida . Mas lá vem a hora do silencio,
do contacto forçado com o sobrenatural que envolve
toda intelligencia acordada, e um panico deste abys
mo, e uma saudade funda do que já se tem ido de
mim nessas creaturas queridas que se foram .

Que differença a do sentido da nossa moderni


dade em Proust, por exemplo ! Ainda hontem á noite,
para encontrar uma phrase, tive que folhear o 2° vo !.
das Jeunes Filles, e li de novo as paginas finaes .
Que geographo da physionomia , e que sentimento
do mysterio physico ( 1 ) , do sobrenatural que está
( 1 ) Um profundo senso da belleza litteraria reponta a
cada passo na correspondencia dessa epocha. Certas obser
vações criticas de uma admiravel lucidez , em que se conjugam :
o gosto das idéas geraes, a inquieta e pungente aspiração de
148 JACKSON DE FIGUEIREDO

animando tudo o que é humano . Eu já lhe disse e


repito : tinha desejo de escrever um ensaio sobre o
senso do divino, que descubro, intenso, naquella obra
de que Deus parece ausente . Mas ainda não li o
Temps retrouvé, que só ha dias pude comprar,
( folheei- o apenas ) , não sei quando poderei lel- o de
facto , e, além disto , ando sobrecarregado de trabalho .

JACKSON

Rio, 22 / 23-3-28 .

Alceu : Se eu tivesse tempo para escrever tudo


quanto tenho pensado sobre o que V. chama a dis
continuidade do mundo material etc., não sei onde
iria parar . Porque ha questões que é melhor evitar .
Aliás o que não ha a dizer sobre concepção pytha
gorica da formação do mundo ? Quem melhor a ex
põe, a meu ver, é o velho Laforet releia - o se o
tem . O Um opposto ao vacuo . A tendencia a unir - se
dos dois principios. A aspiração do infinito . Por
esta aspiração o vacuo que penetra o Um primitivo,
introduz a separação, mas tambem o espaço, o ri
thmo, a vida propriamente.
Mas ainda mais me impressionam as intuições
de Ruysbroeck e as de Blake sobre os estados, e as
deste ultimo, um pouco demoniaco , quanto á nossa
travessia ( atravez) delles .

lyrismo e a paixão da alma humana e de seu mysterio, tudo


isso comprimido infatigavelmente sob o guante de uma con
sciencia que desconfiava de todos os impulsos, forma o colo
rido proprio de seu estado de espirito, nessa marcha para a
morte .
CORRESPONDENCIA 149

Positivamente, porem, basta pensar em S. Tho


maz quanto á materia primitiva (que não pode exis
tir sem forma, logo, do nosso ponto de vista, não
existe por si mesma . Note V. ainda que, para Boecio,
as formas da materia, não são propriamente formas,
são imagens . Só o composto é por ellas . (Apud .
Sertillange ) . Sendo assim , a physica moderna não
traz surprezas ( 1 ) . Mas se attentarmos no mundo
da consciencia e do espirito (onde nome algum satis
faz) não se pode ficar somente com aquelle sub3
tracto de permanencia . Tomam novas feições abys
maes a que os mysticos chamaram estados . Sentimos
a multiplicidade, a discontinuidade etc., mas o que
perturba é que se as sentimos é porque o plano em
que se verificam é diverso, é o opposto . Logo vive
mos só apparentemente discontinuos (2) , mas o que
( 1 ) Jackson se refere á crise da physica mecanicista, que,
no intuito de explicar as propriedades dos corpos pela dispo
sição de particulas materiaes homogeneas, acaba por dissolver
essas mesmas particulas, subtrahindo -lhes uma existencia real
( pois que a posição e velocidade do electron são determinadas
pelas propriedades da onda a que se vê associado) . Jackson
percebia que um enunciado philosophico, baseiado nos resul
tados da physica moderna, teria de confessar, com a philo
sophia tradicional, que as propriedades dos corpos, e das par
ticulas materiaes de que se compõem , resultam de um outro
principio, resultam da forma, sem a qual a materia é um puro
não ser . A redescoberta da forma, no seio da propria sciencia,
ainda se observa em outros dominios, como, por exemplo, na
Psychologia, em que a noção de elementos subsistentes por si
é cada vez mais abandonada , pela pressão victoriosa da
Gestaltpsychologie.
( 2) Jackson assimilou definitivamente muitos aspectos da
psychologia bergsoniana, integrando-as ao pensamento tho
mista . Um desses é a constatação de dois eus : um socializado,
cujos estados de consciencia, productos de inércia e do habito,
vogam á tona, guiado pelas leis mechanicas da associação de
ideas ; o outro, nuclear, profundo, raiz da personalidade, centro
150 JACKSON DE FIGUEIREDO

alcançamos do mais profundo desta vida é a sua


unidade (e dahi o artista, o philosopho, que nada
mais são que individuos com o dom de tocar mais
constantemente esta unidade ) . E dahi a minha ten
dencia para que Proust, com o dom de ver a quarta
dimensão do detalhe, estava sempre, como um ver
dadeiro mystico, em relação com a unidade, isto é,
o que elle via em cada detalhe era mais do que este,
era este na sua raiz, este na sua relação de natureza
com a unidade . Será sempre, pelo menos, um vasto
roteiro de experiencias, e, a meu ver, bem menos
perigoso, bem menos depressivo que o Bernanos de
L'Imposture.
Quando sinto a morte, a desgraça de um ente
querido do modo como senti a morte de minha Avó
Materna ou a do Moysés é o mesmo estado de
espirito que provocam em mim certas musicas de
tristeza immensa . Mas outras vezes não tem sido o
contrario ? A desgraça entre os que amo, ás vezes ,
me parece estar sobre os meus hombros, e que vou
afundando numa praia deserta , morrendo na areia
( 3 ) . E quando o mal me toca directamente é que são
ellas ! Nenhuma, absolutamente nenhuma regra para
soffrer . Em mim, até hoje, só percebi uma certa
constancia na feição interna, essencial do soffri
mento : ou eu me mova na maior indifferença , e o

de irradiação da actividade livre e expontanea. Essa distincção


é um principio meramente a toda analyse psychologica de
jackson, e é sobre ella que elle funda a sua apologética, diri
gida mais para o centro , onde se realiza o phenomeno da
graça, do que para a peripheria.
(3) E ' de notar, que durante todo o anno, Jackson vive
acompanhado de um presentimento. Alguma cousa que se
conserva sempre á margem de sua consciencia, e frequente
mente se manifesta por meio de allusões as mais singulares.
CORRESPONDENCIA 151

que passou , passou, como se não tivesse passado, ou


eu me atire com raiva sobre a dor, sobre o mal etc.,
uma cousa é real : só me sinto realmente corajoso
quando soffro . Nunca fiquei para traz de nenhuma
experiencia dolorosa . Sempre passei adeante, sempre
dei com o estuario della no indefinido mar das outras
que virão - e onde espero encontrar ou a derradeira
ou a do eterno segredo, que liga o homem a Deus,
isto é, a aspiração da felicidade.
Seu
JACKSON

Rio, 24 / 25-3-28 .
Meu caro Alceu :

Não sorri, como V. suppoz , ao que me diz na


sua ultima carta . Pelo contrario . Fitei, attenta , se
riamente, a sua visão de mim proprio, desde que
vim a ficar mais perto de seus olhos . E não me é
pouco dolorosa a verificação, mais uma vez, de que
nunca serei, nem a mim nem aos outros, nunca serei
mais do que um dramatico problema psychologico.
É como V. sabe : para o vulgar, á distancia, um cer
béro ; para os homens como V. , á distancia, uma
segura machina de guerra, de linhas perfeitamente
romanas ; de perto o vulgar jamais terá de mim
conhecimento algum - de perto, para V. , um " se
meador de sombras e quebrantos”, um vertiginoso,
que mal se contem , que estará ás vesperas de atirar
se no vacuo, que outra cousa não é a vida sem Jesus
Christo. E eu não percebo outro Jesus Christo além
152 JACKSON DE FIGUEIREDO

do que está, ensanguentado, espectral mas victorioso,


na Cruz das egrejas catholicas .
Mas reconheço, meu querido Alceu , que é esta
mesma a fatalidade de minha vida . Nada mais dif
ferente da minha consciencia do que o meu tempera
mento, e é claro que será sempre difficil conhecer
a economia das suas relações, a tragica harmonia , o
desesperado equilibrio que consegui entre ambos no
amor de Jesus Christo .
E por isto, meu querido Alceu , ainda me resta
coragem para affirmar-lhe que, felizmente, desta vez,
V. se enganou sobre mim , ou melhor, que eu creio
estar V. enganado . É verdade que não sei se com
simplicidade lhe poderei dar ainda uma noção exacta
do que se passa em meu espirito . Mas releia em
cartas passadas o que eu lhe disse sobre o não valor
(quase ) do erro intellectual, emquanto a alma está
viva . Terrivel, desequilibrante é, sim, o peccado, o
erro moral . Só elle faz medo, só elle pode trazer sob
a sensação de panico o homem christão, principal
mente quando este homem, por temperamento e edu
cação, se sente eternamente attrahido pelas maiores
alturas e pelos precipicios mais trevosos da vida de
tempestade, da vida passional, da vida mesma, que
vae se agitando em si propria como se não houvesse
Deus, nem o sangue de Jesus Christo misturado ás
suas espumas .
Ora, eu sou o homem deste temperamento : un !
romantico, um lunatico, um sensual, um apaixonado ,
um musical, um desordenado, um sentimental, um
carlyleano, um lamartineano, um murgereano, um
bohemio, um antheriano, um prousteano, um vaquei
ro, um cantador de modinhas, um vagabundo, " neu
rasthenico physico e moral” ,
CORRESPONDENCIA 153

Mas basta que V. attente no que tem sido a


minha vida visivel, realisada, exteriorisada, objecti
vada, " socialisada ”, nestes ultimos quinze annos .
Você é logo forçado a reconhecer que eu, se não
deixo de ser eu para mim e para os que amo, sou a
somma das forças primitivas, instinctivas, violentas
deste eu, a serviço de uma consciencia de ferro, ob
jectiva , segura da verdade, e até calma e tranquilla .
É claro que para mim, que me vejo de dentro,
para os rarissimos como V. , a quem deixo penetrar
esse mais intimo de mim mesmo, é claro que o es
pectaculo dessa lucta de uma consciencia com um
temperamento é, não raro, aterrorisante . Pois não
é raro parecer tudo fundido numa só explosão de
selvageria ou numa só desesperança de salvação .
Mas, francamente, não creio que haja mais pro
babilidade de ser a Igreja vencida em mim, no con
juncto desta luta . Já lhe disse : se um erro me arras
tasse até o inferno (erro moral), eu levaria para la
a convicção de que a Igreja é, sobre a terra, deten
tora da verdade . Ademais, V. pouco a pouco irá
convencendo - se de que, á medida que vamos pene
trando a intimidade do pensamento catholico, da
espiritualidade christã, vamos vendo que os dogmas
( por si sós mundos de que só não podemos alterar
as linhas externas, as linhas que lhe dão forma ( e,
portanto, alma ) , mas que permittem , no seu interior,
viagens ainda mais surprehendentes que as de Julio
Verne ) que os dogmas, digo, estão nos extremos,
são marcos extremos do plano christão, e que, no
espaço que vae de uns para outros, ha direcções, ha
logar para as mais ardentes aspirações de liberdade,
para as mais furiosas carreiras da imaginação .
Imaginemos que dogmas como os da Immacula
da Conc , de Maria e o da Infallibilidade só foram
154 JACKSON DE FIGUEIREDO

postos á vida em nossos dias, e tiveram antecedentes


historicos nas duvidas de um S. Thomaz . Eu, por
exemplo, sou thomista de directriz, mas estou certo
( e não o estará menos Maritain como não o estava
Rousselot) que a pyschologia classica enriquecer - se- á
dentro em breve com o que ha de verdadeiramente
vivo no bergsonismo . Dahi o não me arreceiar de
indicar -lhe pontos diversos da minha interiorisação
de dados da fé, e em que tenho as maiores vacillações .
Em essencia , porém , só ha Jesus Christo , e a
graça de crêr, que é externa, não dependendo de
minha ruminação intellectual, de onde serem horri
velmente verdadeiros os dois typos de Bernanos, o
do santo quase imbecil ( de Sous le soleil de Satan )
e o do perfeito dominador de si mesmo, um demo
niaco ( no L'Imposture ) .
Mas Bernanos ainda erra, e erra jansenistica
mente, sem o querer talvez, por espirito geometrico,
por não saber ver que “ a vida transborda do con
ceito " , por não saber ver que a Igreja, como via de
salvação, é bem mais larga, bem mais ampla que tudo
quanto pode alcançar a actividade espiritual do ho
mem para o bem ou para o mal ( 1 ) . Porque Jesus
Christo é Deus vivo, seu sacrificio só por si bastando

( 1 ) A Igreja " como via de salvação ” é um conjuncto


de meios instrumentaes para a producção da graça. Quer as.
regras de sua ascese, tendentes a confirmar o homem no exer
cicio das virtudes moraes adquiridas, e preparal- o ao ingresso
da vida mystica , quer o progresso espiritual realizado pelas
purificações passiveis , vivem condicionadas á virtude santi
ficante dos sacramentos, symbolos que realizam o que signifi
cam . E o fazem , diz Maritain, “ em virtude de uma sorte de
superabundancia provinda da paixão de Christo, e porque o
principal, na Nova Lei , é a graça do Espirito operando por
dentro ” ( Signe et Symbole Revue Thomiste, Abril de
1938 ). A Igreja se apresenta, assim, como a actualização desses
CORRESPONDENCIA 155

para a salvação de todas as almas, e que, se tal não


se dará ( conforme palavra expressa d'Elle ) é justa
mente para não alterar, nem com a salvação, a natu
reza do homem , cuja essencia é liberdade .
Ter -me ei feito comprehender por V. e lhe dado
um pouco de serenidade a meu respeito ? Fale com
franquesa. Eu sei que é difficil comprehender como
resisto a mim mesmo . Mas ahi está : é de Jesus
Christo este segredo . Eu me desprezo profunda
mente só porque conheci Jesus Christo . A minha per
petua tentação de divinisar o homem , ou melhor, de
suppol-o bastante a si proprio, é uma das maneiras
mais subtis do demonio approximar - se de mim . Mas
taes são as decepções de toda tentativa neste sentido,
que, certas horas, imagino que é tentação vinda de
Deus .
E das minhas paixões não tenho medo, nem das
da carne nem das da ambição . E não argumento com
S. Affonso de Liguori, ao morrer com 92 annos,
sob as garras das tentações mais humilhantes . Não .
Ahi o que me anima a falar assim é o habito da
analyse, nascido, dolorosamente, da lucta interior,
creado, já quase como um terceiro ser á parte, na
nutriente amargura de todos os dias . Eu, em pe
queno, percorria trechos e trechos dos muros de Ara
cajú, e correndo, para assombro dos parentes mais
velhos, sem me cortar nos cacos de vidro de que
eram coroados . Que me protegia, como forma in
directa do amor de Deus ? Um habito . O habito da
analyse me faz cruel, desapiedado com as paixões.
E até, mais de uma vez, tenho soffrido muito com

meios sobrenaturaes de santificação, cuja efficiencia ultra


passa a simples boa vontade humana e os azares de sua
psychologia .
156 JACKSON DE FIGUEIREDO

a verificação de que não sou capaz de apaixonar-me


violentamente, como parece que pede um ardente
desejo de aprofundar a vida . Logo, meu querido
Alceu, o equilibrio instavel será o meu equilibrio,
torre Eifel, ou o que fôr, mas o unico que Deus me
concedeu . Dirá V. que o demonio poderia falar tal
qual como eu . Sim : eu sei o que é a verdade, sei de
que lado ella fica, mas eu fico deste lado . Que dizer,
porém , a uma duvida desta natureza ? Nada sei do
meu proprio mysterio . Sou isto que lhe estou dizen
do, sinto -me assim, e, dentro do sentimento geral,
até lhe digo que só no seio da Igreja imagino que
possa haver acolhimento e espaço bastante para uma
creatura assim, de tão oppostas exigencias e am
bições .

JACKSON

Rio, 28 / 29-2-28 .
Alceu :

Envio -lhe tambem o Vasco . Que obscuro horror


o que a vida vae inspirando por este mundo afora !!
Olhe, quando observo esses typos de sensibilidade
esmagada ao peso da propria capacidade de absor
ver tão premida de encontro á intelligencia que
até já se funde com ella e parece toda a alma
e depois me afundo dias e dias na leitura de um
Platão ou de um Cicero, chego a terriveis conclusões
que não se realisam em plano natural. A cor
rupção do optimo .

o pessimo, eis o que não cunhę


CORRESPONDENCIÀ 157

ceu talvez o periodo anterior ao Christianismo . Nós


ficamos acima da natureza — e ou alcançamos em
cheio o sobrenatural ou descemos violentamente ao
preternatural ( 1 ) . Dahi o que se vê — massa , mas
sas ignaras e individuos . Quase a perder -se o senso
da hierarchia, das divisões, das sub -divisões, classes,
grupos previlegiados etc. Emfim : um elephante com
pernas de barata – eis o mundo moderno . Essas são
todos esses individuosinhos intelligentes, agudos,
subtis, agitadinhos, complicadinhos, odiósosinhos, no
fim de contas . E eu tenho horror a me parecer com
estas pestes .
JACKSON

Rio, 30 /31-3-28 .

E que força formidavel já se revela em V. quan


do me pode dizer que realmente ha uma graça de
Deus trabalhando em sua alma !
É para V. ver, meu querido Alceu, até onde
chega a minha terrivel provação neste mundo ! Eu
sei que a graça é externa, não nasce de mim e que
não poderia crer, como creio, em Deus e em Jesus
Christo e em sua Igreja, sem que realmente a graça
trabalhasse em mim . Pois bem : jámais, em minha
vida (a não ser durante cinco minutos talvez ou tal
vez uma hora por duas vezes a 1 & numa
viagem , em trem, perto de S. João d'El Rey, outra
num automovel, sosinho, olhando a bahia , e, sobre

(1) No sentido de infra -humana como de demoniaco


( paranatural).
158 JACKSON DE FIGUEIREDO

a bahia , o céo pesado de estrellas) jámais tive a


sensação do sobrenatural sentido, eu que vivo , ao
que me parece, pensando o sobrenatural. E até lhe
digo que não sei mesmo o que se passou em mim
daquellas duas vezes, mas sei que estive fóra do
tempo e do espaço (e no entanto sentindo que me
movia e vendo as cousas ) e com uma infinita sen
sação de paz e de amor a tudo, ou melhor, talvez,
de indifferença a tudo .
Porque o certo é que só me sinto quando luto, e
até me dá vontade de lhe dizer que só me sinto viver
e viverem em mim cousas superiores a mim, quando
me tenta o que tantas vezes lhe tenho querido ex
primir como sendo uma especie de orgulho humano,
a tentação de achar que me resolvo em mim mesmo,
de que o homem se basta . Será a graça talvez esse
outro eu impassivel, quase, que, como o phantasma
do Mandarim de Eça, me espia, e acaba sempre por
me fazer fugir de mim mesmo, para o plano da catho
licisação, da hierarchisação da vida – que só então
comprehendo. Antes o que eu estava, penso eu, era
sentindo ou vivendo simplesmente . Mas isto é difficil
de comprehender porque a vida abrange com certeza
a comprehensão e portanto a hierarchia .
Você, meu caro Alceu, sem os temores de um
temperamento tão infeliz, vae fazer um grande bem
ao Brasil . Digo - lhe mesmo que a minha tentação é,
de tempos para cá, entregar a V. a obra que iniciei
e limitar -me mais para poder juntar, apanhar aqui
e ali, e normalisar mais um pouco os poucos germens
de bondade sã que ainda sinto no coração, e dedicar
me ao meu jardim .
Bem , adeus !
JACKSON
CORRESPONDENCIA 159

P. S.

Você já viu nas livrarias Les chasseurs de têtes


de L'Amazone do F. W. Up . de Graff - trad .
franc. ? Tem um cap. especial sobre o Pongo de Man
seriche .

Rio, 3 / 4-4-28 .
Alceu : Quando V. receber esta já terá lido o
horrivel artigo que escrevi sobre o José Americo de
Almeida, horrivel, sobretudo, porque é metade do
artigo. Não pude escrever o resto . Não tive tempo,
e até lhe direi que não tive gosto, pois achei, ou
melhor, acho que V. disse tudo sobre o livro . Eu
precisava pagar uma velha divida de admiração, de
admiração que o tempo cobrira de pó a ponto de
estar esquecida .
E por ter lido a Bagaceira , tenho mandado copiar
alguns capitulos da minha novella, que desejo lhe
enviar em breve .
Quando lhe escrevo esta não tenho espirito para
lhe falar das cousas difficilimas, que V. aborda na
sua carta . Todavia digo -lhe o seguinte : tudo o que
V. diz é certo, mas o problema da graça ( problema,
não , o facto ) o facto da graça , se o focalisarmos in
tellectualmente , ainda implica uma successão de ho
rizontes de experiencia e abstração - muito mais
para dentro do problema do ser, e, ao fim , se nella
ha alguma situação que se possa chamar de fim,
nada se terá resolvido nem definido. Só a verificação
do mysterio que impõe a fé (não raro por absurdo,
como V. a achou ) .
160 JACKSON DE FIGUEIREDO

Prefiro responder a sua pergunta sobre se já


me enganei com algum dos meus amigos . Respondo
lhe : absolutamente não . A vida ainda não me deu,
até hoje, um só desengano com relação á idéa que
faço dos individuos que ligo ao meu destino . Já
perdi, do ponto de vista externo, um amigo — Edgard
de Raggio Ribeiro Sanches – Pois bem : ainda, não
só lhe tenho a mesma amizade que tinha, sem a me
nor alteração de essencia ou mesmo de forma, como
tenho a certeza de que elle me quer o mesmo bem
que me queria . E eu sabia, bem antes do silencio em
que elle se afundou — eu sabia que, dado o seu tem
peramento , esse silencio poderia estabelecer -se de uma
hora para outra . Porque eu não tenho amizade por
este ou aquelle facto . Eu tenho estas ou aquellas
afinidades. E estas favorecem muito um juizo de
conjuncto . Depois, onde o amor desinteressado se
estabelece, ha como que uma luz sobrenatural . E não
é outro o fundamento da Igreja invisivel, que a prece
em commum figura . A seu respeito não posso, mes
mo se quizer, ter a menor duvida . Não lhe sei ex
plicar as cousas mais singulares que se passam em
mim : mas eu tenho photographias de almas dentro
em mim , isto é, photographias de vidas, e logo do
primeiro encontro com ellas . Você que arrastará
até o tumulo tantas gerarchias de almas extranhas
á sua, a ella como que cimentadas pela universalidade
do soffrimento, ou melhor, pela universal fraterni
dade do soffrimento, V. , digo, é uma creatura que
só se sente bem no bem , feita para amar a verdade
e os homens que estes, para V. , são, nos seus
erros, testemunhos da verdade - e timido, descon
fiado de si mesmo, é, no entanto , o verdadeiro typo
do homem de coragem , tal qual o quer o christia
nismo - da coragem da razão, da coragem como vir
CORRESPONDENCIA 161

tude, isto é, que não se faz fim de si mesma . Você,


com todas as suas duvidas, e bem mais rectilineo t
bem mais objectivo do que eu . E justamente o amo
por estas feições : a angustia do temperamento, e a
simplicidade do caracter , aando esta harmonia de
uma aguda comprehensividade . Lucta que V. em
prehenua , é victoria certa . Por isto mesmo que
V. só a emprehende após fortalecer -se, internamen
te, vencendo um a um todos os temores, e as vezes
vencendo -os já na experiencia da lucta .
Agora imagine : estes meus ultimos cinco dias
devem ter parecido, aos que me rodeiam , de absoluta
placidez . Pois bem : durante estes cinco dias eu con
solidei em mim esta resolução: matar ou mandar
matar um sujeito se elle fizesse uma dada cousa . E
certo de não ter depois o menor remorso . Porque
se este fosse possivel, isto é, se me fosse possivel
duvidar, ter a mais leve duvida sobre a justiça de
um tão grave acto , eu não chegaria mesmo a aga
salhal- o na consciencia cinco minutos seguidos . Tive,
pois, o espirito perfeitamente preparado para este
sacrificio do meu futuro . E só hoje me veio a con
viçcão de que não precisarei fazel-o . O caso não me
tocava , aliás, directamente, de um ponto de vista
puramente social. Mas me interessava o mais pro
fundo da consciencia e do coração e incidia, em
mais de um ponto , com a visão moral que eu tenho
do mundo .
A não ser a V. , ao Penna e ao Pedro, não
alludi sequer a esta crise que, penso eu, terminou
hoje . E só hoje tambem a elles falei disto . Vou dar
graças a Deus . Vou novamente para Friburgo me
ditar os mesmos problemas que já me levaram lá
este anno . Pessoalmente, um dia, lhe relatarei tudo,
sem silenciar nomes nem razões . Não quiz poupar
- 11
162 JACKSON DE FIGUEIREDO

me uma tal confissão porque julgo dever meu mos


trar -lhe, á mais viva luz da sinceridade, não só o que
sou, mas quanto é aspero e difficil o caminho que
escolhi . Deve parecer com elle o de todos os indi
viduos que tomam a si a defesa da verdade. So
mente os temperamentos decidem da vietoria ou não
em taes caminhos . Eu sou dos taes, infelizmente,
que preferem a derrota , se só a custa della posso
manter-me bem no meio da estrada .
São os taes versos da adolescencia :
E has de ver, se eu cahir, vencido emfim ,
Que hei de morrer, ao menos combatendo .
Envio - lhe “ A Bagaceira ” e o “ Parahyba e seus
Problemas ” . Já estou lendo Daphné Adeane ( 1 ) .
Depois delle vou esquivar -me de romances por algum
tempo .
Até a volta , pois, meu querido Alceu .
Peça sempre a Deus pelo seu velho
JACKSON

Rio, 12 / 13-4-28 .

Querido Alceu : Ainda ás voltas com um tre


mendo resfriado . Só agora posso enviar -lhe o " Da
phné Adeane ", pagina realmente repousante após
tanta miseria frenetica e abusiva . Terminado o Des
tins de Mauriac, que só vou ler para ser agradavel

(1 ) Romance de Maurice Baring.


CORRESPONDENCLA 163

o Schmidt, ( 1 ) passarei tres ou quatro mezes seis


ler um só romance moderno . Não quero nem ver
a capa . Horrivel, repugnantissima canalha de soffre
dores . Não . É preciso reconhecer que, sem pudor,
não é possivel viver -se moralmente . E isto tudo são
dôres despudoradas. Dahi o meu embaraço relativa
mente ás minhas novellas . Emfim , não estou dis
posto hoje a julgar seja o que fôr. O que eu dese
jaria föra um recolhimento de vinte ou trinta dias.
Já que isto não é possivel vamos falar de cousas
serias : quando vêm as suas meditações sobre espi
rito cath . e es . christão ?
Alceu : porque V. , a esta altura, não faz, du
rante tres ou quatro mezes, uma leitura systematica
de obras sobre a Igreja ? Uma cousa assim : uma bôa
Apologia ( cousa que parece inferior, no ponto em
que V. está, mas que é util) ; um livro bom ou dois
sobre Constituição (direito ) da Igreja . Uma vista
de olhos sobre uma Theologia dogmatica ( o Tanque
rey, por exemplo ) outra sobre uma Theologia moral
(o Gury, por exemplo ) . Não são das mais novas
mas são de origem thomista pura, e as ha à mão ,
até traduzidas em portuguez . Na livraria V. en
contrará a grande obra de Regnon sobre o Dogma
da Trindade, e esta leitura lhe fará um grande bem .
E tudo isto viria acompanhado com uma leitura me
ditada de uma boa historia da Igreja . Não o Mour
ret, ou o Pastor, obras mais para consulta, mas o
Alzog, por exemplo, em 4 vols . , de que tambem ha
traducção, e que ainda hoje é tido como autoridade .
Durante 3 ou 4 mezes V. só leria isto . Toda a
assombrosa massa de conhecimentos que V. tem iria

(1) Augusto Frederico Schmidt.


164 JACKSON DE FIGUEIREDO

ordenando - se ou melhor orientando -se por este fio


de bronze de uma leitura, assim, restricta e se
vera ( 2 ) .
Após esta travessia de regiões tão asperas ( c
Regnon somente lhe daria alguma sensação de al
tura e belleza ) você voltaria ao encanto da vida quo
tidiana das letras . Que tal ?
Bem, até breve . Abraços do seu velho
JACKSON

Rio, 14 / 15-5-28 .
Alceu : Se v . tem o livro de Carra de Vaux
sobre Gazali, peço - lhe que m'o envie com a urgencia,
que lhe fôr possivel.
Você tem por acaso o livro de Pierre Salet sobre
“ Omar Khayyam”, sabio e philosopho " ? Que cousa
curiosa, a attracção que exercem sobre mim os ho
mens sem norte, ou melhor, sem outro norte que o
seu proprio eu ! Talvez porque espectaculo algum me
dê sensação mais nitida da miseria da vida, e do que
é necessario para dar -lhe um pouco de dignidade.
Tambem preciso saber o seguinte : Você tem o
livrinho de Petitot : " Intr . a la philosophie traditio
nelle ou classique" ? – Pelo seguinte : acabo de re

( 2 ) E' um conselho de uma grande segurança e de um


extremo alcance psychologico. Jackson sabia que assim pro
vocava no seu amigo uma visão de conjuncto sobre enormes
conhecimentos acumulados dispersivamente. Ao mesmo tempo
determinava nelle um movimento ascético, de humildade intel
lectual, recambiando esse ledor infatigavel de todas as gran
des obras do espirito a um esforço por assim dizer escolar,
sobre tres ou quatro compendios cuidadosamente escolhidos.
CORRESPONDENCIA 165

ceber a autorisação para traduzil- o . Se V. o tem ,


isto me ajudará muito .
Não se esqueça da questão sobre espirito cath . e

sentimento christão . Verá que quanto mais a fôr


aprofundando, mais se irão identificando as duas
cousas .

JACKSON

26 / 27-5-28
Meu querido Alceu :

E o que você tem deante de si é a


Igreja, espectaculo maravilhoso, assombrosa archi
tectura viva, mas oceano de belleza moral , firma
mento que abraça os mais altos cimos. E tanto é pos
sivel vel- a assim da Europa, de Paris ou de Londres,
como do Brasil ou da Oceania , do Rio de Janeiro ou
da mais triste aldeia sertaneja. Tudo está em quem
attente para fóra de si , em procura da verdade, do
sentido da vida. Se este homem existe — esteja elle,
como S. Pedro crucificado de cabeça para baixo,
soffra como o d'Arnoux ( de que acabo de reler a in
genua mystica de heroismo christão ) ou como
limpador de sargetas, ou seja Bonaparte, ou seja
um frade solitario se este homem existe como
existe em você — de nada vale a verificação de mi
serias e miserias, de duvidas e duvidas, de crimes
e mais crimes. Porque existe a Igreja, senão por isto
mesmo ? Porque existe a affirmação senão porque
existem as duvidas e as negações ? Mas porque
existem estas ? Porque existe a vida tal qual se apre
166 JACKSON DE FIGUEIREDO

senta á nossa consciencia ? Porque existe a conscien


cia ? Porque um autor para este drama ? Saberemos.
E' justamente o que se promette, o que promette a
Igreja, no fim da extraordinaria aventura se , “ entre
raios, pedradas e metralhas”, sobrepondo ao panico
o sentimento da nossa propria dignidade, o sentido
do que nos é proposto : avançar! Já lhe disse, Alceu ,
e repito : a lucta que se trava em você, tal qual você
me revela , é a da vida que se faz crystalina. Nada
do que uma tal lucta subentende, faz medo ou apa
vora. Sinceramente : como é que um homem que
imagina em Jesus Christo pode preoccupar-se com
a felicidade, ou melhor, pode confundir a felicidade
com qualquer equilibrio antes da morte ? Repito :
só uma cousa é terrivel: o peccado, se, de facto , ha
outra vida , e elle corresponde, nessa outra vida , a
uma negação. E , no entanto, é tão infantil, sob cer
tos aspectos, o problema da intelligencia, que nem
sempre o conhecimento mesmo da verdade correspon
de a um afastamento do peccado. E isto , sim , isto
é monstruoso . Só após esta dolorosissima constata
ção é que admitto a reintegração do problema da in
telligencia. Dahi dizer-lhe : a minha preoccupação
é ontologica – duplamente ontologica - do ser em
quanto ser , e da sujeição da idéa ao ser, isto é, até
onde vae esta sujeição .
Ora, do que conheço de sua alma , este problema
ainda é mais proprio de você do que de mim, e você
verá que elle o deixará pairar a uma altura em que
só com difficuldade você tudo o mais, quanto mais
a mediocridade do ambiente catholico brasileiro,
que, aliás, não é tão grande como você suppõe
mas nem vale a pena que você o conheça melhor. Isto
não tem importancia . Todo combate catholico deve
ser feito sob angulo de eternidade. E tanto é assim
CORRESPONDENCIA 167

que eu, vivendo, sustentando -me desta amargura mais


alta, não desdenho do que se passa nesses planos in
feriores em que V. me tem visto. Repito : só tem
importancia o peccado, isto é, o schisma do ser ( 1 ) .
o tedio ? O tedio mais horrivel tem -me sido a sal
vação contra o enthusiasmo esteril, a que sou tão
sujeito. De tudo isto, de todas essas melancolias, esses
terriveis soffrimentos indefinidos e até das paixões
mais brutas, eu tenho feito , não o desespero lucido
que, certas horas, é, realmente, a somma de tudo
isto mas uma lucidez carinhosa uma luz que é
o contrario da " luz secca", uma luz christã, uni
versal, ou melhor, que procura vencer a nossa falta
de appetição pelo universal ( 2 ) . Quero dizer : accei
to -me com todos os meus erros vejo que elles , no
mundo, não são singulares e tenho esperança. Vejo
à Igreja como uma escola de surdos, mudos e cegos.
Mas sei que ella, se nem sempre chega aos resultados
da Symphonie Pastorale de Gide, é porque sabe com
quem trata . Não se lembra você do que resultou
áquella que abriu os olhos para a vida ? E ' melhor
chegar ao fim tacteando. E eu só peço a Deus a
força para luctar. Não peço a victoria no sentido
da felicidade terrena. Talvez para meu bem eu não

( 1 ) " Le mal n'est mal, que parce qu'il est supercherie,


mensonge, non-être. C'est pourquoi il est nécessaire de éla
borer une éthique de la véracité ontologique, de rechercher
en tout l'éternel i'originel, l'original, c'est à dire la source de
la vie et de la force. ( Berdiaeff De la destination de
l'homme, pg. 218) .
(2) O objecto adequado de nossa intelligencia é o ser
das cousas sensiveis, assim como o da nossa vontade é o bem
desses objectos. O conhecimento e a apetição do universal só
nos são suscitados mediante um esforço , seja de reflexão
intellectual, seja de aperfeiçoamento volitivo.
168 JACKSON DE FIGUEIREDO

deva conhecer toda a verdade, se é provavel que não


a posso ter toda no coração. E, tal é a economia das
nossas relações com a verdade, que já a conhecemos,
quando, por amor della, renunciamos á vaidade de
estylisal- a em nossa consciencia.
Se eu deixasse esta penna lhe dizer tudo o que
está a palpitar na sua ponta você teria uma
visão blakeana, pensaria que me faço de doido ou
que desejo me apresentar sempre a você como um
mysterio .
Ora, eu nada mais desejo ser do que o que V.
já disse : um homem , quase contente de ser homem ,
sem nenhuma pretensão a sahir do circulo da terra,
senão pela mão de Deus.
Adeus.
Você deve repousar um pouco o espirito em lei
turas de philosophia catholica. Já venci um mez
e tanto sem ler uma palavra dos magnetisados pelo
nada. Não juntei, pois, aos meus erros, nem o en
canto nem a angustia de erros alheios . A copia do
meu romance não me tem feito mal. Pelo contrario .
Olho para aquillo como para a mosca azul ...
Seu

Jackson

A 1.a parte só termina com estes dois capitulos


que ahi vão. Só agora verifiquei. Vae este exemplar
da Rev. de Hist. que tem uma nota sobre você.
Fique com elle.
Seu

Jackson
CORRESPONDENCIA 169

27 / 28-5-28

Alceu : Li o seu artigo de hoje no O Jornal.


Graças a Deus lá está a confirmação do que ha tan
tos annos predisse, com alguma rudeza, de 0. de
Andrade. Nem me engano nestas cousas. Sincera
mente , tenho pena de vel- o, a você, dando tanta im
portancia a essas brotoejas literarias.
Quando o velho de Bonald dizia que, em tudo,
é necessario resistir á novidade, mesmo quando se
trate de uma verdade exprimia, ao que me pa
rece, uma dessas verdades fundamentaes, que fazem
como que parte instinctiva da razão.
Aliás, meu caro Alceu, eu lamento que você viva
a perder tempo e a envenenar-se até com cousas su
periores como o hollandez ou suisso, que V. cita (e
eu não me lembro do nome ) e que dá a theoria do
homem como uma evolução frustra , cortada ou pa
rada ... isto , como uma evolução que parou. No
dia em que V. fizer o mesmo esforço, que fez até
agora para ler todos esses fazedores de theorias, no
sentido de apprehender o essencial da philosophia
classica ou tradicional (de Aristoteles a S. Thomaz )
você verá que cada phrase desses theoristas é uma
asneira, é uma idéa da apparencia de idéa feita
de meias ideas desconjuntadas.
Bem, adeus ! Estou a escrever-lhe isto como para
não ver ou não sentir um rio gelado que está a cor
rer sobre o meu coração. E' que, no fundo, sinto -me
profundamente revoltado conta toda e qualquer idéa
de renunciar a mim mesmo. E a vida mostra, ás ve.
zes, a salvação por este lado. O que me faz crêr que
difficilmente me poderei salvar. Porque a intelligen
cia é, sem a acção, quase nada. De novo de Bonald :
170 JACKSON DE FIGUEIREDO

“Ce sont moins les connaissances qui nous manquent,


que le courage d'en faire usage” .
E isto tambem serve para você. Você já, com o
que sabe, pode fazer muito bem . Deixe essas la
gartas de fogo fazerem os seus casulos. Se não pode
tocar fogo na ramaria ameaçante, passe ao largo.
Seu

Jackson

Rio , 31 / 1-6-28
Meu querido Alceu : Estou cansado, cansadissi
mo, exausto, exaustissimo, sobretudo porque, após le
var pescando umas tres horas , tive uma tremenda
raiva, por um motivo tão deslocado em minha vida
como se cahisse da lua. Mas sua carta não me sahiu
mais do espirito e é necessario que eu, a mim mes
mo, a recorde . E o melhor é assim, falando della a
você, nesta letrinha de serenidade solitaria , adqui
rida a muque, como consigo ás vezes, e agora con
segui. Alceu : O que me admira em você é a preocu
pação da felicidade . Você parece ligar este ideal
a todas as expressões da sua actividade. E , de certa
forma, a materialisou, ou , pelo menos, a quer como
um estado, ou como um plano em que V. se desen
volvesse. Neste ponto, sinto difficuldade de falar.
Porque o processo que temos adoptado no sentido
de aprofundarmos a nossa situação espiritual é o da
comparação. E repito , ahi não sei como lhe fale de
mim , tão incomprehensivel lhe deve ser o meu modo
de ser ... Porque, parece incrivel, mas é a verdade :
não tenho a menor preoccupação da felicidade, pelo
CORRESPONDENCIA 171

menos, não sinto que tenha. Sinto -me impellido a


viver, a viver quanto possa viver, o mais possivel ,
entre soffrimentos ou entre alegrias, e sinto, sim,
como adeante de mim, invisivel mas adivinhado, ou
um dardo ou uma lança , qualquer cousa que vibra e
attrae, e me pede que não descance, que avance o
mais que me fôr possivel. Sei que esse appello é o
do fim que Deus propoz a todas as almas. Sei tam
bem que, neste avanço continuo, ou que deve ser
continuo, devo ter sempre em conta que todo desvio
é perda de esforço e pode levar ao abysmo. E assim
vou vivendo . A's vezes são tantos os meus horrores,
os meus espantos, os meus vexames, os meus erros,
os meus desvios interiores, e, vejo de um lado e ou
tro tantas miserias, tantas desgraças, tantas provo
cações a novos erros , que tenho a sensação que vou
enlouquecer, sobretudo porque não comprehendo a
razão de tudo isto . Mas, até hoje, o que tenho feito
é, quase sem remorsos , passado adeante, gemendo ou
chorando, pouco importa , mas passado adeante. E ,
muito sensivel a toda limitação ou soffrimento , mas
quase liberto da idea de ser feliz . O que eu desejo
é realisar a minha tarefa e comprehendel-a o mais
que me fôr possivel. Não, absolutamente não pro
curei a Igreja como asylo de felicidade. Busquei- a
como “ templo de definição dos deveres " , como ca
thedra da verdade, como aquella que me diz rude
mente ou mansamente confome a occasião a
verdade amarga : - porque tudo o que vês e sentes,
ás vezes, te pareça incomprehensivel, não se segue
que tudo isto não seja ( 1 ) . Se é, basta esta ve
rificação ha uma verdade, isto é, uma equação

( 1 ) Um bello inicio para uma novella.


172 JACKSON DE FIGUEIREDO

entre ti e os objectos que estão deante de ti, o que


implica uma ordem, não só em ti como fóra de ti.
Esta ordem dar-te-á a comprehensão, mais tarde, ou
a autoridade, quando ella se enubla em ti. Logo é
preciso respeital-a, e ahi está a obrigação moral,
comprehensiva.
Ter -me-ei feito comprehender ? um exemplo con
creto : Deus me livre de fugir ao leito em que sonho
acordado, entre a vigilia e o somno, ao languor, á
sensualidade mesma de certas manhãs agonicas. Não
fujo. Sei que já é peccado não fugir á occasião. Mais
numa vida como a minha ha momento que não seja
occasião de peccado ? Por isto não fujo. Pelo con
trario. Acceito a lucta, e quantas vezes me tenho
levantado de tremendos combates num tunel, para
a luz do dia, para o mesmo combate á luz do sol,
mas já senhor de mim, quase certo de não ser mais
vencido ? Julgo que , para as grandes cousas, os pro
cessos são os da hora, os da inspiração, os da furia ,
um pouco no sentido do que prega o d'Arnoux. Para
as miserias quotidianas , o processo prousteano é le
gitimo : vivel-as intensamente no sentido interior ;
será talvez a maneira mais segura de ver para fóra
fazer -se " banal, nojento, vil " o que parecera o bri
lhante do Grão Mongol.
O que supponho, meu querido Alceu, é que V.
está vivendo mais intellectualmente que tudo o mais.
Pessima especie de desequilibrio. Quando lhe digo
que faça um estagio philosophico attendo a isto. A
philosophia é anti-orgiatica, e fala , sobretudo , da
vida tal como deve ser vivida. Aliás certas horas
me dá vontade de lhe dar peiores conselhos. Como
seria o de sahir deste “ chicote-americano ” ( não sei
se V. experimentou esta extravagancia na Exposi
ção de 22 ) seja como fôr, mesmo fazendo algumas
CORRESPONDENCIA 173

maluqueiras . Mas sempre escapa, ao mais intimo,


um nucleo de verdades supremas de cada alma. E
não sei até onde o seu temperamento está compro
mettido com a situação em que se acha. Todavia ,
repito : se o seu mal maior é de ordem intellectual,
ou melhor, espiritual , Você ainda tem privilegios for
midaveis. Só o erro moral, só o erro moral objectivo,
só o peccado vivo, mata realmente . Porque tudo o
mais não é propriamente desordem . E a ordem
que se faz, que procura definir -se, actualisar -se.

Agora o seu artigo, pois já o dia está amanhe


cendo ! Deus o traga !
Não, não houve incomprehensão minha das suas
intenções. Releia a minha carta . Gostei immensamen
te de seu artigo. O que lhe disse é que as leituras
de que se originou nada valem. O hollandez, por
exemplo, sem negar que V. possa leval- o a ser du
plamente apologetico etc., é uma simples negação
philosophica. Quando se aprofunda a união da alma
e do corpo, tal como se tem feito de Aristoteles a S.
Thomaz, vê -se o absoluto absurdo do evolucionismo.
Sendo o evolucionismo este absurdo, não é menor,
philosophicamente, a exclusão de evoluções particu
lares. Emfim , o que lhe quiz dizer é que a dis
cussão está abaixo de sua intelligencia . Quanto ao
artigo, repito, está excellente, e quantos me falaram
delle pensavam como eu.
Você me pergunta se acaso não desdenho dema
siado da sciencia experimental. Não. Somente pouco
tenho a ver com ella, e neste pouco só me interessa
o que ella já tem de ordenado á esphera superior
174 JACKSON DE FIGUEIREDO

da philosophia. O que é bom é não confundir a scien


cia experimental ou os factos scientificos, como taes
verificados, controlados, com as theorias scientificas
sobre esses factos, isto é, com o scientificismo, o phi.
losophismo sem origem nem fim.
Logo que veja o Muricy darei o seu recado.
Adeus , meu querido Alceu . O dia já ahi está .
Vou ter o gosto de contrarial- o . Vou dormir .
Se elle depois me pagar na mesma moeda, que hei
de fazer ?

Um abraço do
Jackson

4/6/28

Meu querido Alceu : Mas nem ha duvida que o


desejo de ser feliz não é só primordial, é funda
mental , é quase todo o homem , a sua direcção mesma,
do ponto de vista universal. Você deveria , neste pon
to, aprofundar o thomismo, e ver como S. Thomaz
completa com a doutrina da Graça ( sem o menor
exagero ) tudo quanto Aristoteles descobriu das re
lações entre o homem e o seu fim.
E eu não digo que em mim tambem não haja o
desejo incoercivel de ser feliz. Simplesmente, ve
rifico que o processo em mim é como que indepen
dente do voluntario e do pensado. Passar-se-á ou no
mais fundo do meu espirito ou de tal modo univer
salisado nelle, Ique não o schematiso , como diria
Bergson.
Alias creio que as minhas origens são muito dif
ferentes das suas, mas só tenho dellas uma noção
CORRESPONDENCIA 175

confusa. Minha avó paterna era uma assucorocrata,


filha de um temibilissimo senhor de engenho, que
morreu de raiva ( positivamente de raiva ) . Meu avô
paterno, figura de romance, como de romance foram
seus irmãos, principalmente o meu tio ( avo ) Anto
nio Martins de Almeida o meu avô paterno emi
grou de Portugal aos 14 annos , após ver a familia
mais ou menos despedaçada pela politica miguelista
a que estava presa. E uma parte desta familia foi
para a Austria. A outra, decahida , foi fundadora
ou reformadora do Real Theatro Portuguez , e um
dos seus membros apparece num romance de Camillo
como homem passional e violento. E o que me dizia
meu avô. Mas nunca tirei isto a limpo . Sei que o pri
meiro membro da mesma familia, que se fez notavel
em Portugal, após aquelle desbarato é o famoso
" Dreyfus portuguez ", como o chamavam os jornaes
do Rio : Alfredo Djalma Martins de Azevedo, pes
sima especie de republicano -fundador, como me pa
rece . Pelo lado materno : todas as violencias e todas
as nuances . Haverá sangue judeu no meu ? Creio
que não. Mesmo da parte da familia de que sahiu
Castro Alves, não ha judeu (como se pensa ) e, sim,
cigano, zingaro ( uma cigana, uma zingara formosa )
e dahi a reserva que sempre guardaram sobre esta
origem . 5/6/28. Não sei porque tambem ha na
minha familia a vaga tradição de que temos ascen
dencia hespanhola os Jorge. O que sei é que a
minha gente é pasmosamente inquieta e sentimental,
correndo nella, tanto da parte de pae como de mãe,
duas linhas parallelas, curiosamente distinctas de lou
cos e sensatissimos, de fortes caracteres e bagaços
humanos. Eu , sahido de tudo isto, tendo tido a edu
cação mais contradictoria deste mundo, que, chocada
com o meu temperamento, resultou em deseducação
176 JACKSON DE FIGUEIREDO

total ( pois supponho que muito mais que o Vasco


estive perto do desnudo, do primitivo — só eu o sei ))
juro a você que entendo tão pouco de mim em geral
como sou absolutamente certo do que sou a cada
momento ( 1 ) .
Assim, tenho que pôr de lado qualquer idéa de
comparação dos nossos eus relativamente ao proble
ma da felicidade. O que tenho a dizer-lhe é pura
mente de caracter universal, philosophico, religioso :
e ahi, não ha a menor duvida é dogma da Igreja,
é imposição do bom senso e da philosophia : nós ten
demos para um Bem Supremo.
E você deve aprofundar isto em qualquer trata
dista catholico. O Valencin, que V. tem , se bem
que não seja profundo, é muito claro a respeito, e
você pode na sua propria bibliotheca achar cousas
mais complexas e profundas. A felicidade é um fim.
Não pode ser peccado. Peccado só pode ser um meio.
Quando se faz do peccado um fim, o erro é sobretudo

( 1 ) A ethica viva de Jackson se funda nesse principio :


o ser é o bem ; o mal, é o não ser, o nada, o schisma da reali
dade , em todas as ordens onde a actividade humana se realiza.
A paixão desordenada, por exemplo, só é um mal, pela sua
capacidade de obcessão , de crear irrealidades, o que levou um
psychopathologista como janet a definir a psychose como
uma “perda da funcção do real”. Em toda a parte onde o
mal se insinua verifica- se esse afastamento do ser, a recusa
da realidade , a tentativa de modificar ou alterar a sua estru
ctura. Ora, quem comprehendeu esse mechanismo, e se sente
a braços com um temperamento fascinado pelo nada, e per
cebeu, ao mesmo tempo, a insufficiencia pratica da intelligen
cia , no conduzir os actos concretos da vontade , afim de in
seril-os , a cada passo , no schema da realidade, o que procura
sobretudo é uma definição de deveres, uma taboa de valores
uma vez por todas adoptada, á qual se possa referir, a cada
momento, em inteiro repouso.
CORRESPONDENCIA 177

intellectual. Agora, não me espanta que V. deseje


a felicidade dos outros e desconfie de tudo quanto
lhe parece felicidade pessoal sua propria. E' que V.
não pode ser feliz. Quero dizer : você não nasceu
para contentar -se com o passageiro. E, nos outros,
o que lhe parece felicidade esta, pelo menos, con
forme ao que " do exterior ” Você pensa que elles
aspiram .
Note este erro seu : não ha em mim (que eu
seja consciente ) o menor espirito de renuncia ou
de esquecimento de mim proprio. Interizmente, tudo
em mim desmente o meu ardente christianismo in
tellectual, e não sei até hoje como se formou no
meu coração algo de uma luz outra de sentimento
christão. Mas naturalmente eu sou um horrivel am
bicioso, incapaz da menor renuncia e incapaz de se
esquecer um só instante. O que ha, sim, é uma idéa,
um sentimento de mim mesmo absolutamente nietzs
cheano mas em relação a uma taboa de valores tanto
universaes como particulares inversa da que Nietzs
che parecia acceitar ou verificar. Para mim a vida
se apresenta como uma hierarchia de sentido chris
tão no alto a Cruz e os mundos illuminados por
Ella. Pois bem : o meu eu só se sente bem, só se
sente crescer, e subir quando (ás vezes, ou quase
sempre vencendo a si mesmo) toma aquella direcção.
Do problema entre a philosophia e a sciencia :
não tenho idéa alguma propria sobre o assumpto.
Acceito totalmente a concepção thomista, e, em geral
a catholica. No Lhar encontrará uma boa exposi
ção. Você tem o Richard, Introd. ao ensino da Es
cholastica ? Tem o Petitot, de que lhe tenho falado ?
Tem por acaso uma pequena apologia ( recommenda
bilissima a de Saint Projet ou Senderens ) ? Nas pri
12
178 JACKSON DE FIGUEIREDO

meiras 40 paginas está resumido todo o bom senso


humano sobre o assumpto. Ha uns tantos livros que
parecem bêstas, inferiores, mas que V. devia dar
se á ingenuidade de lel -os : 0 Schouppe por exemplo.
Você terá o seu Catecismo ? Hoje vou principiar a
lhe enviar algumas cousas referentes ao Brasil. En
tre esses livros irá um do Spaldak sobre Evolução.
Mas não já lh'o teria remettido na 1.a remessa ?
Você verificará .
Repare bem no que lhe disse sobre evolucionis
mo. Não nego evoluções particulares ( isto é, movi
mentos qualitativos de aperfeiçoamento ou degra
dações ). Nego a Evolução : nego que o Todo obe
deça a uma lei sua propria e se aperfeiçoe em si
mesmo. Quem nos diz mesmo que a vida ( tal como
a apprehendemos, nos limites em que a alcançamos)
seja uma evolução ? Quando Roma se faz imperio ?
Quando Roma se deixa invadir pelos barbaros ? Quan
a borboleta morre ?
Que é um drama, isto é, uma lucta , ou uma
agitação constante, não ha duvida. Mas nada me diz
que haja uma lei universal de evolução como aper
feiçoamento da vida em si mesma. Qual o typo ? O
que ha é Deus e o mundo. E Deus é quem sabe
o que quer do mundo. A lei suprema será , pois, ex
trinseca ao mundo. Porque de cada typo particular
pode conceber -se o perfeito em si proprio, mas desse
perfeito ao seu fim nada se sabe. Emfim, isto é ma
teria para debater - se em livros e mais livros ou em
conversa . Mas hoje ainda por cima estou cansadis
simo. E ainda quero lhe fazer dois pedidos :
1.° — Já pode Você devolver -me o Choisnard :
S. Thomaz e os Astros ? Preciso delle mas sem pressa.
CORRESPONDENCIA 179

Não devolva sem ler. Tambem preciso o Route des


Indes, pois desejo emprestal- o. Mas tambem só de
volva após ter lido.
E, mais serio :
No commercio em geral , desse que emprega se
nhoras, moças, etc., tem Você algum amigo a quem
possa recommendar uma pobre creatura romance
vivo, o mais infeliz que se possa imaginar ? Foi rica,
mas um casamento desgraçado lançou-a na extrema
pobreza com um filho — peior ainda. Se você puder
me mande carta ou recommendação. Eu não des
cansarei emquanto não a collocar. O filho, ao que
me parece, já colloquei.
Bem , adeus !

Um abraço do seu
Jackson

Rio, 11 / 12-6-28

Sobre o problema da evolução eu desejo ainda


conversar com você. Creio que elle é absolutamente
antiphilosophico, ou , pelo menos, absolutamente falso .
O livro de Rougier La scholastique et le thomis
me é pouco mais que esta these de que “ a christia
nisação de Aristoteles se fez inconscientemente pela
transformação subrepticia de uma distincção logica
do Stagirita entre essencia e existencia em distincção
ontologica e real ( feita por S. Thomaz )". Pois bem :
ahi está o nó da questão. Se o Aristoteles de Rou
180 JACKSON DE FIGUEIREDO

gier fosse o verdadeiro, e o Aristoteles de S. Thomaz


falso, a evolução seria problema legitimo. Mas não
se dá tal . Notar que o mundo não se limita a ma
teria e forma ( em fusão, digamos assim ) . E os es
piritos puros, os anjos, por exemplo ? A intelligencia
como forma não imergida na materia ? (Veja S. Tho
maz -
Trat . Deus Questão 7, art. 2. E na mes
ma questão veja V. que a materia não é creada e,
sim, concreada ( ser em potencia que para subsistir
é preciso ser em acto ) . Logo : quando mesmo fosse
possivel no todo material a evolução que differença
poderia ter da simples concepção de movimento ?
Emfim , só eu conversando com você. Note que
não me sinto capaz de resolver, de emprehender mes
mo a discussão cabal do problema. Mas creio que
negativamente dou com elle no chão, neste sentido
de que lhe mudo a physionomia de affirmação, com
que se apresenta, em pura negação.
Se você nunca leu o Gibbon deve ler. Muito anti
catholico ninguem melhor do que elle mostra a gran
deza natural das nossas origens occidentaes. Nunca
historiador moderno ( da Rev. para cá) me empol
gou mais a imaginação historica, principalmente pela
sobriedade. Você deve lel- o em inglez. Porque tal
vez eu tenha necessidade de fazer um controle da
trad . franceza. Mas para isto tem tempo. Mas não
deixe de lel - o .

. .

Desejava virar uma ostra, não


me mover mais, só viver em mim mesmo. Mas não
posso . E' uma fatalidade de um temperamento de
Ashaverismo, esse perpetuo caminhar (do ponto de
vista pratico , não sei para onde) .
CORRESPONDENCIA 181

Se V. conhecesse o que tenho feito com a Li


vraria Você ficaria talvez horrorisado . Pois bem :
não só não me arrependo mas tambem por mais que
ás vezes pense o contrario , tenho a certeza de que
estou acertando, de que vou para onde devo ir, e
tudo sei, menos parar.
Responda -me especialmente sobre este caso :
Você pode arranjar uma recommendação para a po
bre moça de que lhe falei ?
Bem , adeus !
Seu
Jackson

Rio , 13 / 14-6-28

Alceu :

O emprego para a desditosa moça de que lhe


falei não é só de escriptorio. Qualquer emprego. De
balcão ou do que fôr. Ella só não poderá ser ope
raria. Ha menos de dez annos era tida por miliona
ria e era realmente, não tanto , mas rica. Se Você vir
qualquer possibilidade de ajudal-a, ajude. E' uma
grande obra de caridade. E são as que sei fazer.
Sem ser por virtude. Por temperamento.
.

Agora só vivo pensando em discutir com você


a evolução. Já pensei até em ir com Você numa das
suas subidas a Petropolis. Problema que me irrita,
não porque eu lhe dê importancia, mas porque vejo
a importancia que tem para altos espiritos, até para
182 JACKSON DE FIGUEIREDO

um espirito como o seu capaz de interiorisar os as


pectos mais exteriores da vida .
Mas sinto que não posso escrever o que penso.
Mesmo porque não tenho tempo . Creia que estou
trabalhando incrivelmente na trad. do livro de Pe
titot e na factura ( diz -se assim ? ) de minhas reflexões
maistreanas .
E sou um homem que não sei deixar de ler um
só dia .
Seu

Jackson
?

19 / 20-6-28
Alceu :

Regra simples de apprehender a simplicidade de


minhas attitudes : amo tudo quanto é vivo ... porque
o que vive pode sempre aspirar ao perfeito. O que
eu não supporto é o morto, o artificial, os crystaes
de palavras. Tudo isto sob criterios naturaes : leio
uma pagina de Amiel. Tudo o que ella representa
de erro objectivo, de erro quanto á Verdade integral,
externa etc., eu lhe perdôo , ou simplesmente lastimo,
mas amo o que essa pagina contem de verdade inte
rior, subjectiva, de vida individual sincera, real, de
miseria, de illusão, de sonho, de desejo, de desespero,
de angustia.
Aquella sua pagina, o que ella representa de
angustia recalcada, de amarga ironia contra V. mes
mo e o mundo !
E creio, meu caro Alceu , que a attitude do ver
dadeiro catholico tem que ser esta, sob pena de re
CORRESPONDENCIA 183

duzir elle a Igreja, que é uma ordenação da vida,


a uma megéra que espia somente sem comprehender
cousa alguma. Não. O que Jesus Christo fez é o que
deve ser repetido infinitas vezes, de maneiras infi
nitas, porque parciaes: entrar pela vida a dentro,
comprehendel-a, sentil- a de todos os modos, ora !u
ctando ( chicoteando ) ora soffrendo resignadamente
( Pae, se é possivel, affasta de mim este calice ) ora
angustiado até quase o desespero ( Meu Pae, meu
Pae porque me desamparaste ?) , ora sorrindo ás
creanças, ora amparando a belleza, ora promettendo
a espada e o fogo, ora sustendo a violencia. E tudo
isto porque a vida é um dom divino, uma cousa que
nós sentimos transcender de nós mesmos, da nossa
vontade, de que somos como uns privilegiados admi
nistradores, zeladores .

Jackson
24 / 25-6-28 .

Mas, seu Alceu, a vida é mesmo um cipoal ani


mado, uma tremenda degradação ou um violento pro
cesso de depuração . Sinto que a fé me ampara a
consciencia, e sinto mais que véla por mim como uma
sentinella, fóra do campo em que a intelligencia faz
os seus calculos . Mas se fosse esta quem fosse olhar
sosinha a escuridão da noite, e as sombras que su
agitam na treva, creio que eu enlouqueceria . Por
que tenho a paixão da vida, gosto de seguil-a, de
penetrar os seus segredos, mas a vida é um perpetuo
convite á loucura .

JACKSON
184 JACKSON DE FIGUEIREDO

Rio , 25 / 26-6-28 .
Alceu : Como estou pensando em Você ponho
esta nota : releia, como quase lhe pedi hoje, o pri
meiro ensaio de Maritain no "Antimoderne", prin
cipalmente a 2.a parte . Quando se relê como que se
lê com olhos mais poderosos . Ou será o meu estado
de espirito que deu relevo novo a estas paginas . No
meio de tanta agitação de pura miseria, que belleza
a dessa affirmação serena do espirito !

O que sempre lhe digo : só ha um soffrimento


que mata : o do erro moral, que mata o todo ou a
parte, mas mata mesmo . Onde tóca paralysa a vida,
ou só permitte a vida da morte, a vida como ha num
apodrecimento. Poucas são as naturezas que contêm
um fogo interno capaz de crystalisar o peccado ou
reduzil- o a cinza naturalmente.

JACKSON

Rio, 17-7-28 .

Meu querido Alceu


Ha muito tempo que não me deixo afundar a
tal ponto nas mais grossas e escuras aguas da vida .
Ha muito tambem que não tenho tantas preoccupa
ções de caracter intellectual transcendentissimas. E
não lhe espante o contraste . Não é contraste . É ne
cessidade de voar em trapesios de ideas, de experi
mentar cordas bambas, de varar alturas incendiadas,
CORRESPONDENCIA 185

para me compensar das emanações venenosas dos


maus terrenos em que vou, cá em baixo, plantando
lembranças e saudades — que a vida é isto .

JACKSON

Rio, 22/23-7-28 .
Alceu :

Ademais só agora vejo geito de lhe enviar o ro


mance . Quero, aliás, que Você fique com uma copia
para Você . Se eu morrer, Você publical- o - á ( 1 ) .

JACKSON

Rio, 30 /31-7-28 .
Alceu :

Devolvo - lhe a trad . do Octavio Tarquinio e a


sua carta . Li o prefacio e a tradução . Esta tem
merito real. Tacto perfeito daquelle mundo de som
bras luminosas . Perfeita segurança naquelle jogo

( 1 ) Um outro presentimento da morte proxima.


186 JACKSON DE FIGUEIREDO

subtil de nuanças e violentas opposições. Porque é


bom notar que Khayyam se debate, bem mais do que
parece á primeira vista, entre terriveis opposições
espirituaes. O prefacio do Octavio é uma formosa
pagina de scepticismo bem mais sentimental que in
tellectual. Por conseguinte, sem maior consequencia
até mesmo na vida de quem a escreveu . Ella não evi
dencia nenhuma só das profundas tempestades, das
tremendas angustias que destroem na consciencia a
fé em si mesma, no seu poder de penetração univer
sal, ontologico . Não creio, aliás, que o trad . de Omar
Khayyam ignore quanto é debatido o scepticismo do
seu poeta . Veja em Carra de Vaux ou em P. Salet.
Tanto no Oriente como no Occidente tem sido pos
sivel dar á poesia de Khayyam um sentido mystico
extremamente exaltado .
A sua carta ao Octavio é uma poderosa pagina
de apologetica moderna . Tal como deve ser feita ,
com calor do coração, com sangue da intelligencia .
Ha de fazer -lhe bem , mesmo que elle não o reco
nheça no primeiro momento . E é para Você ver
como, sem parecer , V. é muito mais do que eu o
homem de Jesus Christo e da sua Igreja . Que teria
eu escripto ao Octavio dado que gostei da tradução ?
Uma apologia de Khayyam como typo de humani
dade . Porque não acceito as interpretações a que me
referi nem preciso dellas para amar esse grande e
luminoso verme da terra... Como elle me dá ao vivo,
num resumo de dolorosa belleza, a historia da ruina
da nossa alma ! Como elle me prova que fomos feitos
para reinar sobre o mundo e me dá testemunho de
que o mundo é um sepulchro de eterna formosura !
Como elle sabe revolver as cinzas da nossa innocen
cia, da nossa ingenuidade! Ora, se eu fosse falar
sobre Khayyam a um homem no estado de espirito
CORRESPONDENCIA 187

em que se acha o seu amigo certamente só lhe faria


mal . Porque ou elle comprehenderia o absoluto uni
versalismo em que me colloco ( até em relação ao
demonio -typo de belleza dramatica, de negação per
feita ) e então não seria quem é, ou me tomaria por
um catholico de fachada .
Bem , adeus ! Mande -me o endereço do Afranio .
Um abraço do seu
JACKSON

Rio, 2-8-28 .
Alceu : Com saudade de carta sua . E eu, meu
velho, na minha eterna derrubada do Morro do Cas
tello . Estou vendo a scena : os grandes reflectores,
a luz artificial, as machinas de toda especie prolon
gando pela noite a dentro os cansaços do dia . E
V. não avalia como me doeu ultimamente o fecha
mento do S. Paulo, meu quartel-general de melan
colias notivagas .
Ahi vão os livros . Achei melhor a Biblia que foi
minha e fica a V. por 140$ . Os 2 outros 8$ + 5$ .
Mande -me o endereço do Afranio .
Ha muito tempo não me sinto numa irritação
nervosa tão terrivel. E o que ha de horrivel é nunca
se saber bem porque . A ausencia da Laura ha de
concorrer em muito . Mas eu proprio sou incapaz
de fazer uma simples exposição das minhas pre
occupações neste momento . E quando me assalta
uma onda como esta se paralysam todos os meus
trabalhos e até a crença nelles . Fica só a leitura
como vicio .
JACKSON
188 JACKSON DE FIGUEIREDO

Rio , 6 / 7-8-28 .

Alceu : A não ser uma pescaria quase tragica


que fui fazer hontem lá para a garganta ou barra
da Tijuca ( 1 ) , tudo, na minha vida, tem sido, ultima
mente um lento trabalho de escavação interna, a ver
se na carta a V. consigo explicar, pelo menos, o pro
blema que mais me tem atormentado desde que me
entendo . ( Note que elle se liga intimamente e quase
que faz um com o problema da belleza humana, sobre
o qual talvez eu nunca chegarei a ter coragem de
dizer tudo o que penso ) . Mas avalie que ainda não
tenho tres paginas escriptas. Desejava até conver
sar com Você por causa disto mas estou sem tempo
para nada, maximé porque, a Laura estando ainda
em Santa Thereza, estou um pouco como que fora do
meu talweg . ( E note tambem que só quero escrever
este trabalho porque necessito de fazer uma elevação
( não sei se artificial, pois se trata do que ha de mais
intimamente eu ) para não ficar sob as aguas do
meu diluvio sentimental) .
JACKSON

Rio, 2 / 3-10-28 .
Alceu : Em primeiro logar : você não tem o di
reito de duvidar do que já lhe tenho dito tantas
vezes . Não faço com esta correspondencia obra de
caridade espiritual. Poderia até dizer o contrario .
Mas Você não me acreditaria . Digo - lhe comtudo :
ponho-me em contacto com uma realidade, como é
do meu temperamento ir a todas as fontes de vida .
( 1) Que, repetida tres mezes depois, concluiu a tragedia
com a sua morte.
CORRESPONDENCIA 189

E não conheço ninguem mais vivo do que Você .


Parece -me evidente que, de facto , o que não consegui
ainda foi penetrar alguma cousa de essencial da sua
vida . E por isto me escapa o porque dessa exaspe
rada angustia com que V. se olha a si mesmo . Estou
certo , porém , de que V. não tem razão, apezar de
saber que não é tudo a razão em certos problemas
da vida . Se tudo fosse a razão eu seria um dos
homens mais felizes do mundo, porque amo a razão,
as suas victorias e chego certas horas a achar que
ella me basta . Mas não tenho razão . Ha acima e
abaixo della forças terriveis e que, ás vezes, não a
deixam respirar livremente . Em todo caso , creio
que, pelo menos, milita a meu favor o que lhe disse :
Você não tem razão em olhar - se com tal despiedade
e desgosto. E raramente erro nesses dominios. Se eu
quizesse lhe mostraria até a evidencia que tambem
sinto todas essas soluções de continuidade que Você
sente entre a sua alma e a acção della propria . Sim
plesmente já não me apavoram esses mysterios ou
essas fraquezas . Eu vejo claramente certas horas
que nada posso com relação a minha vida e á vida em
geral. Pois bem , não me acovarda mais não saber
sobre o que piso . Vou para deante ou me deixo
levar .
Na mão de Deus, na sua mão direita é a mi .
nha oração dessas horas tempestuosas. E , afinal, sa
bemos nós se amanhã ou depois existirá ainda a
cidade do Rio, e tudo isto não será destruido por um
simples tremor de terra ? E não agimos sem pensar
jámais em tal possibilidade ? Porque o mundo espi
ritual, nelle, o ponto que occupo , estará menos firme,
merecer -me- á menos confiança ?
Releia o que lhe disse sobre o que constituiu o
exagero de Luthero mas é o ponto principal da dou
190 JACKSON DE FIGUEIREDO

trina da Igreja . Ademais, se eu sinto ou que me


escapa alguma cousa de essencial á sua vida ou que
V. tem a tendencia a martyrisar -se, agitando - se no
vacuo (isto é, na pura idealidade como quem a qui
zesse realisar ), ademais, digo, sinto, por outro lado,
que V. como que tem um prazer sadico em negar o
que já tem feito, o que já tem realisado, aos olhos
de todo o mundo , e, principalmente os meus, que
sigo com tanto cuidado o trabalho do espirito no
Brasil . Em nossa geração quem pode apresentar uma
folha de serviços egual a sua ? E isto não vale nada ?
E então, que é que V. vê com valor na minha vida ?
Quanto aos remedios para esse mal, isto é, para
esse estado de espirito seu, sou francamente pelo tra
balho ordenado ao fim unico do homem integrado,
que é V. hoje, á fé catholica . Você diz que não pode
materialmente ir á Europa fazer o curso de que fala
o Franca . Não se discute sobre o que não se pode.
Faz- se o que se pode . Eu achava que V. devia fundar
a revista . Aliás, sem abandonar a posição do O Jor
nal, que hoje não é sua mas da Igreja . E tudo isto
sem imaginar em perfeição e sem preoccupar- se de
qualquer especie de felicidade. Viver como Deus per
mittir, o mais possivel em extensão e profundidade .
Olhe, meu querido Alceu , não creio que haja hoje
no Brasil um homem que se sinta mais maltratado
do que eu em face de um impasse formidavel. Até o
fim do governo Bernardes, ou melhor, até a metade
delle, eu fui um dos homens mais ambiciosos que exis
tiam no Brasil . É que, sem um perfeito conheci
mento dos nossos homens e das nossas cousas ; sem
ter sondado ainda toda a extensão do nosso estrago
moral, eu imaginava que uma victoria minha seria
uma victoria do paiz, como nação christã . E isto me
dava uma prodigiosa força moral, um ardor invenci
CORRESPONDENCIA 191

vel, a coragem com que venci as maiores tentações


de interesse pessoal e todas as investidas do terror
e do medo . Hoje, porem, tenho a certeza de que uma
victoria pessoal minha seria talvez a morte em mim
dos principios que eu quizera sustentar e sem os
quaes não comprehendo que a vida valha a pena ser
vivida . Peior : penso que a victoria, mesmo podendo
eu conservar em actividade esses principios, seria
um mal para o Brasil. O que o Brasil será ninguem
sabe e é bem possivel que elle não será, dentro em
pouco, senão o nome de uma cousa absolutamente
diversa . Ora, eu, se pudesse conservar intactos os
principios moraes que informam a minha doutrina
ção politica, usaria do fogo e do ferro para conser
var o que ahi está, talvez sem razão ( 1 ) .
O pensar assim neste momento (momento que
principiou em 1925 ) me tira todo e qualquer gosto
para a lucta, e eu hoje tenho menos ambição politica
ou mesmo material do que um mosquito. Nella só
estou porque não ha cousa mais seria do que um
passo dado para quem tem consciencia . Nella só es
tou porque a consciencia me obriga a qualquer cousa
que chamarei deveres de estado . E isto já á hora
em que, com o mesmo ardor e o mesmo enthusiasmo
espiritual que levara aquella lucta, eu me sinto de
todo voltado para o problema do universal , do catho
lico, do eterno, do que tanto pode existir existindo

(1) Constantino Leontieff, nos meiados do Seculo pas


sado, fazia a mesma affirmação pathética em relação á Russia :
“ Congelae a Russia, afim de que ella não apodreça”. A sen
sação que Jackson tinha do Brasil era a mesma: um senti
mento de instabilidade, de elementos artificial e não organica
mente fundidos, de tal sorte que lhe parecia necessario im
mobilizar esse agregado, congelal-o, porque todo movimento
192 JACKSON DE FIGUEIREDO

o Brasil como não existindo ( 2 ) . Veja Você o im


passe, a angustia horrivel que sinto , aggravada pela
minha pobreza, pelas difficuldades, que não posso
deixar de ver, da minha situação material, de que não
cuidei, tendo, no entanto, como todo o mundo, cons
tituido familia, e amando- a como raros amarão, não
sei se feliz ou infelizmente . E não só a minha fami
lia do lar, mas tambem toda uma outra de bons ou de
infelizes, que, de modo algum , posso pensar -me sem
ella .
Pois bem : eu não posso saber o que vae ser .
Deus sabe muito mais do que eu o que eu posso
fazer .
Adeus! Você não avalia como me está pre
occupando o embarque do Penna amanhã .
Seu

JACKSON

lhe parecia ter como consequencia necessaria a desagregação


e o apodrecimento. O Brasil, como a Russia, não supportaria
uma evolução para outra forma social e politica, e a sua
alteração interna se manifestaria por occasião de qualquer
mudança que pudesse sobrevir. Toda a sua actividade politica
foi orientada por esse principio, e se explica, dessa forma e
seu caracter reaccionario e anti-revolucionario, que resultava
em apoiar um estado politico-social que ele era o primeiro a
estigmatizar.
(2 ) Elle acabou presentindo, nitidamente , que não era
possivel mais congelar o Brasil, e a sua aspiração politica
morreu no momento em que adquiriu essa convicção. E como
isso lhe parecesse algo de irremediavel, dentro dos criterios
temporais pelos quaes se mede a historia, é que elle escrevia
essa phrase melancolica : “ é bem possivel que o Brasil não
será, dentro em pouco , senão o nome de uma cousa absoluta.
mente diversa ",
CORRESPONDENCIA 193

Rio, 16/ 17-9-28 .

Alceu : Ahi vae a carta do Aug. Meyer . Deve


ser judeu, como pensei desde a primeira carta que
li delle . Mas é mesmo intelligente . E ninguem avalia
como um pouco de sangue judeu redobra a força da
intelligencia pela covardia em face da vida . O que
resulta quase sempre é um typo assim encantado, en
tre ousado e timido, todo espirito, dando a impressão
de ser todo coração . Não ha conversões mais diffi
ceis . E se V. fizer esta será uma grande victoria .
Porque o Meyer vale mesmo como typo humano .

JACKSON

Rio, 25 / 26-9-28 .

Meu querido Alceu :

Porque o erro mais commum é suppor que têm


tanto valor assim os 60 ou 80 annos que o homem
vive nesta lucta . Não . O que tem valor é o acto da
creação da alma . De onde só ter valor o que ella é
para alem do tempo . De onde imaginar -se que um
instante de contacto com a eternidade possa valer
tudo o mais que imaginemos .

JACKSON
13
194 JACKSON DE FIGUEIREDO

Rio, 1º /2-11-28 .
Meu querido Alceu
Realmente a sua alma, que V. julga tão exangue
e pallida, é uma das raras completamente embebidas
do sangue de Jesus Christo — alma que tem o senti
do do sacrificio e a nitida visão de que a vida é uma
tremenda guerra . E é mesmo . O que V. , porém ,
precisa , meu querido Alceu , é sobrepor a essa visão,
a certeza de que a guerra e o sacrificio só valem do
ponto de vista sobrenatural ( unico que se deve real
mente ter em conta) quando em tudo ( nas cousas ,
nos actos, ás vezes, mais apparentemente naturaes )
nos collocamos tambem do ponto de vista sobrenatu
ral. Os nossos proprios erros não nos podem fazer
medo desde que conhecemos Jesus Christo e a signi
ficação (ao menos approximada ) do seu sacrificio .
Temendo sempre o exagero ( que foi, afinal , o erro
de Luthero o seu erro foi o exagero ) a realidade é
que a verdadeira doutrina da Igreja é esta : assim
como perdoamos á creança ou assim como o medico
vê os actos do louco só Deus sabe de verdade o
porque agimos desta ou daquella forma, e muito mais
o porque nos sentimos taes como nos sentimos . O
peccado é o erro livremente praticado . Só Deus sabe
quando um pobre ser humano, no estado actual, de
entre os fios da trama hereditaria etc., age livre
mente .
Para lhe falar franco, cada vez odeio mais as
suas duvidas relativas á justiça da sua situação num
mundo que não foi feito por Você .
E não acredito que Deus tenha errado quando
fez do soffrimento (e o espiritual é bem mais terrivel
que o material ) quando fez do soffrimento, digo,
uma dignidade humana . ( Tanto que o deu requinta
CORRESPONDENCIA 195

do, com a propriedade de reflectir -se, aprofundar -se,


cultivar -se etc. ) .
Eu ouço os immensos soluços do seu coração, e
V. vem falar -me de se sentir errado, na posição em
que se mantem ! Não : a sua obrigação é a de fazer
todo o bem que, nesta posição possa fazer . Não lhe
cabe, porém , duvidar da justiça da Providencia na
distribuição das tarefas . E tanto é assim que um
homem que usurpe o poder e a fortuna, não está
aquem ou alem do que Deus quer que se faça no
mundo . A sua alma é responsavel se o bem que vier
a fazer não fôr maior que o mal que fez . Grande
risco, pois, mas é só o que nós podemos dizer . Que
vemos nós, Alceu , dos fios com que se tece a trama
da vida ? Não é claro que só Deus os tem todos nas
suas mãos ?
Fico vexado vendo - o soffrer tanto no vacuo,
quando V. tem tantos outros soffrimentos no plano
mesmo da realidade .
De mim , meu velho, nada mais posso affirmar
senão isto : que creio profundamente em Jesus Christo
e na Igreja . E quase que só me importo commigo
nos momentos de egoismo e de miseria . Mas os
venço facilmente . Creio nos fundamentos da terra .
Creio que a Cruz está bem firmada sobre ella . Basta
me isto . Sei que a minha ruindade e a ruindade dos
homens não a abalarão . E sinto como que uma ale
gria especifica, uma alegria da humanidade toda .
O meu pequenino cachorrismo individual não me im
pressiona . Vivo aqui, gano ali , cóço-me acolá , mas
tudo isto é passageiro . Vou para a frente atirado no
dorso da grande onda da vida - para onde Deus
quizer !
Seu
JACKSON
196 JACKSON DE FIGUEIREDO

Sabbado, 3 de Novembro de 1928 ( 1 ) .


Alceu :

Esteve agora aqui o Afranio . Trouxe-me da Eu


ropa duas lembranças realmente commoventes, e foi
commovente de bondade para commigo . Quer isto
dizer, graças a Deus, que não lhe ficou magoa da
franqueza com que me referi ao seu ultimo livro .
Estou tambem atrapalhado com os Filhos do
Waldemar ( 2 ) e avalio você !! Inacreditivel!
Vão os livros e mais outros de interesse sobre a
questão do ensino religioso e da lucta em França .
Seu

JACKSON

Agora reparo que os livros que V. escolheu na


lista não estão aqui e não sei se o Antonio Santos
Ih'os levou . Mas irão depois .
Seu
JACKSON

( 1 ) Ultimo bilhete do Jackson , escripto na vespera de


sua morte. A carta anterior, de 2 de Outubro, resumia uma
licção de conformação com as cousas , de abdicação da propria
mesquinhez individual, e concluia com uma phrase ainda pro
phetica " vou para frente atirado no dorso dla grande onda
da vida, para onde Deus quizer ". No dia 4 de Novembro isso
se realizava, nos deixando porem a convicção de que, quando
foi arrastado sobre o dorso de uma onda, na Barra da Tijuca,
o seu ultimo pensamento terá sido o de um inteiro abandono
confiante aos intuitos divinos.
(2) Um romance então publicado.
JACKSON
JACKSON

Nunca se começa sem inquietação, nem se ter


mina sem melancolia. Seja o que fôr, o melhor como
o peor. Pois somos, por natureza, seres que persis
tem no ser e não se aventuram ao novo sem angus
tia, nem abandonam suas posições sem saudade.
Quando se trata, então, de tentar, se não um
retracto definitivo, ao menos um edsses esboços que
recomeçamos mil vezes, mas em que procuramos pôr
o melhor de nós mesmos, de alguem que foi mais do
que um amigo, um guia, um chefe, um irmão, um
exemplo , pois foi tudo isso a um tempo, e mais do
que tudo isso junto, — quando se trata disso, o co
meço é realmente penoso e quasi impossivel.
Por onde começar, para não seguir um caminho
errado ? Como fazer a synthese de tanta coisa espar
sa, que o tempo só fez augmentar ? Como fixar o
indefinivel, traduzir em palavras frias e impessoais
o que se sente transcender a toda expressão verbal ?
Como ser fiel ao objecto , á pessoa, que queremos,
mais que descrever e traduzir, mais que reproduzir
para aquelles que o conheceram e vão confrontar com
as nossas as suas impressões e lembranças, — que
queremos transmitir e revelar aquelles que não ti
veram a ventura de o conhecer de perto ? Como ser
200 JACKSON DE FIGUEIREDO

fiel á verdade, aos entretons de uma personalidade


complexissima, sem trahir a impressão subjectiva,
o retracto indelevel que delle guardamos no fundo de
nosso proprio espelho ?
Todas essas interrogações me assaltam, e mui
tas outras que silencio ou não chego a captar, na
hora em que, dez annos após a morte de Jackson de
Figueiredo, do meu Jackson , do nosso Jackson , tento
recompôr a sua figura, refazer o seu retracto interior
e tentar traduzil-o neste pobre instrumento verbal
que Deus me deu.
Se nunca é sem temor e duvida que começo a
escrever, um bilhete ou um livro, neste momento
quizera — ah ! quanto o quizera — já ter acabado
esta tarefa, tão cara ao coração e ao mesmo tempo
tão difficil , quando confrontamos o que quizéramos
dizer e o que sabemos de antemão poder dizer , a fi
gura viva que continúa a se agitar em nossa me
moria e em nossa saudade , e o retracto morto que
vai sahir de nossa penna .
Era Flaubert que tinha horror ás illustrações dos
romances , pois nunca era possivel reproduzir, na
agua forte, no pincel ou no bico da penna , a figura
physica e moral que o leitor vai imaginando atravez
das palavras do autor. E o contrario ainda é mais
exacto. As formas de expressão são irredutiveis en
tre si . E a mesma figura, a mesma idéa, a mesma
scena viva , a mesma payzagem traduzida em som ,
em côr, em pedra ou em palavra, apresentam outras
tantas formas diversas e não apenas photograficas,
em tamanhos ou material distinctos , do mesmo ob
jecto. Até entre a palavra falada e a palavra es
cripta é radical a differença . E raros são aquelles
que conseguem reproduzir por escrito a vida de um
dialogo. Quanto mais a vida de uma vida, de uma
CORRESPONDENCIA 201

personalidade unica, de alguem que era a propria


expressão do corpo e da alma animados de uma cham
ma incomparavel.
E , no entanto , é preciso recomeçar mil vezes a
tarefa , para ter a esperança de que um momento ,
uma pagina, uma inspiração feliz, um rapido instan
te de sympathia - com o leitor ou com o retractado
possam dar o traço exacto , fixar o gesto expres
sivo, que muitas vezes não é o dominante, nem, muito
menos, será o mesmo para toda especie de leitores
ou de ouvintes. Pois cada um de nós se deixa im
pressionar por elementos ou circumstancias muito
contradictorias e nunca sabemos as reações que va
mos produzir nos demais ... O homem é sempre
uma surpresa para o homem.
E é o homem Jackson que desejo evocar nestas
paginas de immensa saudade e de lancinante revi
vescencia de alguns annos de convivencia muito
intima .
Aliás, creio que em creaturas da especie a que
elle pertenceu, é sempre o homem que domina tudo
mais. E desde logo quero dizer que elle não foi nem
um caso á parte, na sua humanidade, nem apenas
uma alma com valor simplesmente subjectivo. Mas
antes e acima de tudo um ser humano, uma perso
nalidade na qual a humanidade superava tudo mais,
e a tudo comunicava a sua força de attracção e de
imposição.
Não foi um caso á parte, um original, um iso
lado, um excentrico. E muito menos um explorador
do que havia nelle de incomparavel e singular, de seu
e de mais ninguem. Se nenhum homem reproduz
outro homem , Jackson então pertenceu a essa classe
dos que realmente são irreductiveis á série, á massa,
ao rebanho. Não tentava imitar ninguem, nem fazia
202 JACKSON DE FIGUEIREDO

garbo de se apresentar coom um typo á parte. Era


o que era, com simplicidade, e com uma expontanei
dade que não recuava deante de nada. Procurava
mesmo combater o que havia de exageradamente
pessoal e violento em sua individualidade. Tanto
assim que me dizia ter escolhido um confessor de
espirito mediano e apagado, não só para que nelle
sentisse viver mais intensamente a Igreja que o
homem , mas ainda para maltratar o excesso de seu
individualismo, de sua violencia anarchica e revol
tada.
Não se veja, pois, nesse traço que todos os seus
biographos terão de accentuar o de uma perso
nalidade absolutamente original e impressionante
em suas linhas proprias e accentuadamente marca
das -
o menor vislumbre de originalidade procura
da ou de complacencia em suas singularidades. Antes
pelo contrario, quem percorre sua correspondencia,
já agora em vias de mais ampla divulgação, verá que
sempre lutou comsigo mesmo e foi infeliz com o seu
temperamento, em contraste sensivel e doloroso com
a sua consciencia : “ é claro que, para mim, que
me vejo de dentro , para os rarissimos como V. , a
quem deixo penetrar esse mais intimo de mim mes
mo, é claro que o espectaculo dessa luta de uma
consciencia com um temperamento é, não raro, ater
rorisante " ( 24 / 25-3-28 ) “ Nada de mais differente
da minha consciencia do que o meu temperamen
to " ( ( Ibid. ) .
Por essas mesmas palavras, porem, se vê como
trancava no mais intimo da sua sombra interior as
mais subtis revelações de suas particularidades in
dividuais. Sabia que passava aos olhos do mundo
por coisa muito diversa do que era. Via que os pro
prios amigos mais intimos se enganavam a seu res
CORRESPONDENCIA 203

peito, julgando - o um homem de linhas claras e sim


ples, de psychologia unilateral, de attitudes sempre
firmes e nitidas, sem vacilações, sem duvidas, sem
perplexidades, sem lutas - e no entanto só por ex
cepção, e quasi por acaso, como na correspondencia
trocada commigo , só aos que mais de perto o conhe
ciam e privavam com elle, é que se revelava tal qual
era. E isso não por dissimulação ou attitude, mas
porque não via em seu temperamento, naquillo que
para nós era um espectaculo de vida incomparavel
e um foco de attracção e de conversão verdadeira
mente providencial — não via senão a sedução quasi
invencivel pelo super -humanismo nietzscheano, do
homem - pelo homem .
-

E elle que sentia em si a capacidade de ser


" uma expressão de humanidade contemporanea das
mais violentamente distendidas e completas, entre
as que tenho visto florescer nesta hora de angus
tiosos contrastes”, tambem sentia “ e com mais
força ainda, o erro de todas essas aspirações, a visi
nhança , o envolvimento do nada a essas realiza
ções " ( 3-12-27 ) .
Nunca, depois de integrado em sua verdadeira
natureza, cultivou os dotes unicos e impressionantes
do seu temperamento, ora arrebatado e violento, ora
divagante, romantico e aventureiro . Sua vida foi
sempre a busca da verdade e a subordinação de tudo
mais, especialmente do seu proprio eu, a essa exi
gencia transcendente . Foi singular, differente e in
comparavel, porque não podia deixar de o ser . Mas
nunca procurou sel-o e antes lutou, até morrer, para
a sua perfeita integração na Igreja, unica institui
ção , porque sobrenatural, capaz de conter e domar
uma alma como a sua .
204 JACKSON DE FIGUEIREDO

A Igreja tem conhecido, ao longo dos seculos,


essa familia de violentos, que são mesmo os seus
filhos predilectos, pois pertencem á classe dos que
muito merecem o perdão, não porque não peccaram ,
mas porque muito amaram . E Deus perdôa menos
no homem , a ausencia do peccado, que a ausencia
de amor .
Jackson pertencia a essa linhagem espiritual
que vem , ao longo dos seculos, de S. Paulo a Leon
Bloy, de Santo Agostinho a Chesterton . Muitos se
perderam em caminho, por não terem sabido o preço
da renuncia. Muitos se perderam na contemplação
de si mesmos, em vez de voltarem os olhos para o
Alto . Nietzsche foi um delles e os seus filhos espi
rituaes terão sempre aquelles cuja perda será uma
ferida sangrando no lado mystico do Christo.
Jackson foi dos que sempre lutaram . Em sua
alma nunca se fez a paz perfeita . Não houve tempo
para que se operasse a perfeita fusão dos elementos
contradictorios que nelle sempre coexistiram . Mas
já estava tão longe no caminho dessa pacificação,
que para o publico em geral e para muitos daquelles
que julgavam conhecel- o mais de perto , como succedia
com o seu correspondente quasi quotidiano, de ha
dez annos, havia sempre em sua alma surprezas e
imprevistos que a tornavam inexgotavel e sempre
nova .
Porque a sua riqueza interior, sua complexidade,
sua sensibilidade a todas as posições mentaes e mo
raes, nunca degeneravam em eclectismo ou em con
tradicção flagrante. Tinha mesmo horror a um e a
outra . A indefinição dos valores foi sempre o erro
que flagelou com quantas forças teve . Nunca tolerou
a indistincção entre o mal e o bem . Nunca cedeu ao
demonio da indifferença . Jámais supportou a philo
CORRESPONDENCIA 205

sophia primaria do "tanto faz " ou as acrobacias de


cadentes dos philosophos alemães do após guerra, a
cultivarem o “ als -ob ” ou o " sowohl-als -auch ” . Tim
brava, ao contrario, em cultivar a affirmação. Cha
mou mesmo a um de seus livros “ Affirmações ”,
como a outro “Literatura reaccionaria ” e ainda a
outro “Poetas de Nossa Senhora ”, como desafio á ti
midez do meio ambiente, ao respeito humano, ao con
formismo, ao medo de chocar e acimo de tudo á tole
rancia universal. Teve sempre o culto da intolerancia ,
como sendo a propria expressão da confiança da ver
dade da fé na hierarchia dos valores, emfim da pro
pria crença em Deus e na ordem do universo.
Era um homem de caracter, na plena força da
expressão . Isto é, um homem de principios e que
colocava acima de tudo a fidelidade a esse codigo de
humanidade, tão difficil de ser preservado no meio
do progresso material e intellectual . A civilização
moderna é inimiga do caracter . Não que seja in
compativel com elle, mas cria situações que o diffi
cultam . Não que não haja homens de caracter , hoje
como outr'ora, em meios civilisados ou primitivos ,
mas é mais difficil ter caracter à medida que
cresce o progresso material e intellectual. Cria-se
um ambiente de acceitação, de coexistenica , de syba
ritismo, de afrodisismo, de eclectismo de “ politica ”,
que torna ardua a vida dos homens de caracter. Pois
ter caracter é sempre ser simples , ao menos nas rai
zes da personalidade . E a civilização é eminente
mente complicada, tornando por isso mesmo precaria
a existencia das coisas simples .
Ora, Jackson era acima de tudo um homem de
caracter e, portanto, no fundo, um homem simples e
de certo modo primitivo e puro, em suas reacções.
Mas era, ao mesmo tempo e de modo violento, um
206 JACKSON DE FIGUEIREDO

“ ambicioso ”, como elle mesmo se chamava, um ho


mem terrivelmente interessado em todas as coisas,
capaz de tudo comprehender, com uma curiosidade
invencivel, tanto em coisas intellectuaes como em
coisas materiaes , passando trez horas a assistir um
incendio, declarando que nenhum espectaculo ultra
passava em interesse uma noite agitada numa dele
gacia de policia . Tudo o que era vivo era do seu
dominio . Nada de expontaneo, de sincero, de soffrido
lhe era extranho . De modo que não via o primado
dos valores moraes como um anniquilamento dos de
mais valores, mesmo dos amoraes. Jackson nada tinha
de puritano, no sentido usual do termo . Sua defeza
dos valores moraes simples , contra a invasão tre
menda das forças explosivas e dissolventes do pro
gresso material ou do modernismo cultural, nunca o
levou a qualquer forma de moralismo convencional .
Tinha sempre a audacia dos contactos, como o
Christo, seu Mestre de cada dia, seu tormento e seu
Amor apaziguante . Era o typo do anti-fariseu . Seu
amor pelos “ bohemios”, por exemplo, foi bem ex
pressivo desse aspecto de sua complexissima simpli
cidade . Arrastou sempre comsigo toda uma turma
de amigos extranhos, vindos de quadrantes completa
mente diversos entre si e que, se não fôra elle, nunca
se encontrariam nem se comprehenderiam . Jámais
se encerrou num " ghetto " catholico, como se a Igreja
fosse um territorio de puros, opposto e fechado aos
campos dos impuros, fóra della . Sempre gostou mes.
mo de viver em terra de infieis , como os verdadeiros
missionarios . E sua grande alegria não era o con
vivio dos eleitos, mas a reconquista dos filhos pro
digos. Não que os julgasse superiores. Isso acon
tece muitas vezes com os que amam tambem o con
vivio dos “ mouro ” , não por espirito missionario ,
CORRESPONDENCIA 207

mas por liberalismo, tibieza de fé, espirito de contra


dicção ou desejo de passar por “ espiritos largos" .
Tudo isso era perfeitamente indifferente a um cruza
do do genero Jackson . Se vivia mais talvez em ter
ritorio impio que nos campos já conquistados a Deus,
era que o instigavam o amor da aventura, o gosto do
risco, a misericordia pelos errados e o ardor da re
conquista e da lucta . Combatia o erro nos outros
ainda como um reflexo dos proprios erros passados
e das proprias inclinações tremendas ao peccado e
ás negações .
Estava pois no extremo opposto ao eclectismo.
Acompanhava apaixonadamente todas as formas de
vida, das mais perfeitas ás mais criminosas, mas
sempre mantendo lucida a graduação dos valores e
tudo empenhando para impedir a marcha alucinante
do nivelamento e da indistincção, que sempre foi a
obcessão de seus combates mais arduos . Admittia
até a perdição de sua alma, nos caminhos difficeis
que trilhava. Mas tinha a segurança de que, mesmo
no Inferno, " seria o espanto daquellas paragens" ,
pois lá entraria “ com a sua consciencia catholica in
tangivel ” .
Não se pode exprimir melhor o que era o seu
temperamento, a inflexibilidade do seu " caracter " .
O opposto disso o seduzia, mas porque lhe mostrava
justamente onde estava o segredo da indignidade hu
mana . “ Que coisa curiosa a attração que exercem
sobre mim os homens sem norte ou melhor sem outro
norte que o seu proprio eu ? Talvez porque espectaculo
algum me dê segurança mais nitida da miseria da
vida e do que é necessario para dar-lhe um pouco de
dignidade " ( 14 / 15-5-28 ) .
Não foi, portanto, um cultivador de curiosidades,
um diletante de casos extranhos, um colleccionador
208 JACKSON DE FIGUEIREDO

de quadros humanos e de temperamentos raros . Sen


tia sempre a attração por tudo o que não fosse me
diocre, por tudo o que representava uma força hu
mana em acção, um espectaculo raro, uma expressão
nova de vida e de beleza, mas nunca como simples
espectador.
Parece superfluo lembrar, tal coisa , quando, ao
contrario, o que precisamos é desfazer a figura errada
que deixou de si na maioria dos seus contemporaneos
- do homem de um só bloco, violento, unilateral, fa
natico, estreito, colerico. E' certo que desfazer essa
lenda tem sido o trabalho daquelles que conheceram
o verdadeiro Jackson e se comprometteram a re
velal- o á posteridade tal como foi e não tal como,
pirandélicamente, o fizeram os seus contemporaneos,
não só seus adversarios mas ainda, senão principal
mente, os seus correligionarios ... Para isso vai con
correr grandemente, se não decisivamente, a publi
cação de uma parte importante de sua correspon
dencia intima , autopsychologica. Mas como o publico
é sempre inclinado ás reacções violentas, póde per
feitamente ser levado, por uma leitura superficial
de suas cartas intimas , a concluir de modo contrario
e a nelle querer ver um colleccionador de teratologias
psychologicas, uma especie de esteta de quadros vivos.
Nem uma coisa nem outra, sabem bem aquelles
que conviveram com elle e conheceram de perto essa
figura mysteriosa e riquissima, em sua terrivel po
breza material , que tanto amargurou os ultimos an
nos de sua vida, sem aliás conseguir que, por um
minuto, perdesse a linha admiravel do seu julga
mento dos valores . Costumava até fazer & apologia
da riqueza material , pois dizia ser um meio com que
a Providencia compensava, entre os homens, a inopia
CORRESPONDENCIA 209

dos bens moraes ou das alegrias intelectuaes ou


espirituaes ...
E isso, sem as reticencias que ahi coloquei. Jack
son não foi homem de reticencias . Não manejava
a ironia . Não tolerava mesmo a ironia , genero Ana
tole France ou Renan . Não sei mesmo se amava o
" humour " e se Chesterton lhe era de grande agrado .
Creio que não. Amava o estylo directo, a phrase in
cisiva, a argumentação contundente mas logica . Os
floreios, as duvidas, os incidentes, o “ persiflage ” lhe
eram visceralmente extranhos . Por isso mesmo cuida
va pouco do estylo, bem que não o fizesse de pro
posito, como o fez em grande parte nossa geração
que escreveu deliberadamente mal , como reacção ao
purismo ruy-barboseano com que buzinaram os ouvi
dos de nossa adolescencia . Jackson não teve, como
nós outros, a vaidade de escrever mal . Lembra -me
que uma vez , numa das primeiras notas que escrevi
sobre elle , havia uma critica , incidente e sem a mi
nima importancia, a qualquer expressão mal empre
gada . Encontrando-me com elle alguns dias mais
tarde, teve o cuidado de dizer -me: “ Você tinha razão
naquella critica . Consultei o Carlos de Laet e elle
o confirmou " .
Seu amor ás coisas extranhas, ás almas diffe
rentes , ás viagens exoticas , sua "sedução" mesmo,
como confessa , por tudo que era differente delle e
participava da grande agitação do mundo modernn,
dominado pela libertação de todas as formas – não
era portanto nem vislumbre de diletantismo . Foi
um anti-diletante, um anti-ironico, um anti-tolerante .
Seus contemporaneos viram demais nelle o anti e o
julgaram um homem antipathico, um demolidor, um
energumeno . Não viram o seu lado constructivo e
muito menos o seu lado suavissimo e subtil , a sua
14
210 JACKSON DE FIGUEIREDO

" saudade da agua corrente” ( 25-1-28 ) . Viram nelle


o perturbador . E nesse caso não deixaram de ter
razão . Quando Jackson dizia que — " nós catholicos
de verdade somos uma ameaça muito mais séria ao
mundo moderno do que os mais convictos boiche
vistas” ( 18/ 19-1-28 ) , exprimia uma verdade tão es
quecida quanto indisfarçavel .
Grande parte do mundo moderno considera a
Igreja como inoffensiva . E quando assim digo , ex
cluo naturalmente o que nesse mundo representa
justamente o que ha de mais violentamente moderno
o communismo ou o nazismo, ambos violentamente
anti-catholicos. Tanto um como outro, porém, ao co 2
trario do que se pensava ha tempos atraz, são apenas
expressões de minoria . A maioria dos homens de
hoje ainda está profundamente embebida de se
culo XIX. Ha mesmo uma tendencia generalisada
a voltar ao ambiente do seculo passado e estamos
assistindo talvez a um espectaculo deveras surpre
hendente a volta do seculo XX ao seculo XIX .
O seculo XX , que começou em 1914, pareceu
orientar-se por certos caminhos radicalmente distin
ctos dos do seculo anterior . Este fôra um seculo de
paz o novo parecia ser um seculo de guerra .
Aquelle, um seculo do Individuo - este, um seculo
Social. O primeiro acreditava na Evolução — 0 se
gundo assentava na Revolução . No anterior triunfa
va a Burguezia — neste decahia a Burguezia ... 0
passado opprimira o proletariado - o actual assistia
ao seu triumpho . O seculo XIX fora um seculo
optimista – este se apresentava sombrio e pessi
mista . O anterior vira a formação e expansão da
grande Alemanha : este assistia à sua derrota e hu
milhação . E assim por deante, em opposições faceis
e evidentes, que distinguiram bem marcadamente a
CORRESPONDENCIA 211

figura de cada um dos dois seculos, separando radi


calmente o " heroico ” seculo XX, do " stupide XIXe .
siècle " .
Ora, se nem tudo o que ahi está é illusorio e
muitas dessas distincções subsistem e até se impõem ,
temos a impressão de que a separação entre ellas vai
ser ou pelo menos está sendo muito menor do que
julgavamos, em generalisações ou em esperanças um
tanto apressadas.
O seculo XX continua a ser tão burguez como
o XIX . Não que a burguezia se tenha curado dos
seus erros e dos seus males, mas é que o seculo se
vai adaptando tranquillamente a esse burguesismo
moral e com elle se conformando .
A atmosphera heroica , que um tempo pareceu
ser a do novo seculo, vai lentamente cedendo a um
pacifismo conformado e satisfeito . Não sei se será
apenas a euforia, um tanto envergonhada, produzida
pelo inesperado desfecho do caso da Tcheco -Slovaquia,
já hoje no dominio da anedocta popular, - mas
começamos a sentir o desmoranamento de certos
ideaes que um momento pareceram incarnar um espi
rito novo . Fascismo, nazismo, communismo, fran
quismo, tudo o que de politicamente novo appareceu
neste seculo parece iniciar uma era de apazigua
mento (que não exclue ameaças de novas guerras )
e de approximação com o liberal-democratismo her
dado do seculo passado, que até ha pouco parecia
impossivel. A Russia passa do communismo militante
a uma ditadura pequeno-burgueza, bastante occiden
talisada . A Allemanha, de novo triumphante e mais
arrogante do que nunca, volta, como no tempo de
Bismarck , a desafiar o bom senso do mundo, a pa
ciencia britannica , e, sobretudo, a Igreja Catholica .
O Fascismo se estabilisa . A terminação da guerra de
212 JACKSON DE FIGUEIREDO

Hespanha por uma intervenção collectiva dos “ big


four ", parece inevitavel. Ophantasma da Guerra
se afasta. A Revolução perde as garras. A propria
Crise se eternisa e cria um novo ambiente de perma
nencia no mundo . Tudo parece tender ao meio termo
ou á repetição. Os regimens totalitarios começam a
se democratisar, ao passo que a liberal-democracia se
totalitarisa . Ha um ambiente de fusão , de confor
mismo, que parece estimular a volta ás grandes e
doces illusões que embalaram os nossos avós. Até a
ultima moda feminina é a saia balão ...
Mudando de cravelha, o proprio Gide, thermo
metro da modernidade em suas variações successivas,
abandona a aventura communista e volta a disponi
bilidade . Emquanto o turismo cresce , o cosmopoli
tismo levanta a cabeça , o capitalismo se apruma .
O liberalismo encontra de novo grandes theoristas
como Von Mises ou Hayek, o nacionalismo se es
praia nas " Unions pour la Vérité ", o neo -positivismo
reponta . E' toda a ideologia do seculo XIX que res
surge .
E os homens voltam a pensar em novas machi
nas , em novos meios de ganhar dinheiro , em theorias
estheticas, em prazeres faceis , em tudo o que incarnou
a " felicidade " no seculo passado .
Uma grande onda de mediocridade volta a ba
nhar o mundo moderno, que passa de novo a idola
trar os mesmos idolos que adorou ha 100 annos
a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade, a Sciencia ,
olhando para Deus, de quem se approximara um
pouco no desespero, como um idolo morto, e para a
Igreja como uma velha instituição respeitavel, util
ainda ás mulheres, ás creanças e ao povo, mas apenas
até que se encontre coisa melhor ...
CORRESPONDENCIA 213

Eis o ambiente em que, pouco a pouco, sem que


o sentissemos , voltou a viver o seculo XX, que come
çara fazendo a apologia do heroismo, da guerra, da
revolução, da destruição e da reconstrucção de um
mundo, do fim de uma civilização, do inicio de outra ,
do ataque ao Christo ou da apologia da santidade,
- e pouco a pouco se afunda na nevoa do confor
mismo, do bem estar, da indifferença , do neo bur
guesismo, tal como aquelle momento em que o rei
Luiz Felippe resumia a França e o seculo XIX na
sua apostrophe que, se não era pathetica, era extre
mamente veridica – " Enrichissez -vous ". O seculo
XX passa, sem querer, da Tragedia á Comedia .
Será real essa evolução ? Estará mesmo o seculo
XX tomando de novo esse caminho de volta ? Tere
mos de passar a ser apenas um seculo apendice do
seculo passado ? Estaremos assistindo á desforra do
espirito burguez contra os que, cedo demais, anun
ciaram o seu suicidio e a sua morte ?
Ainda é cedo para concluirmos desses indicios,
mesmo vehementes . Neste momento, é o que estamos
vendo . Amanhã ... veremos, como dizia o cego .
Jackson não chegou , felizmente, a ver esse movi
mento de retorno, que seria para elle um dos espe
ctaculos mais tristes que a vida lhe poderia pro
porcionar . Pois era uma alma feita para viver he
roicamente e tinha o horror a esses caminhos, tão
modernos, da mediocridade, do confusionismo, do que
lhe parecia tão horrivelmente expressivo da nossa de
formação moral historica — " a extra-limitação de
todos os valores” .
A essa extra-limitação é que estamos assistindo,
neste seculo, que pareceu uns momentos dividir radi.
calmente os campos . Assistimos primeiro á divisão
214 JACKSON DE FIGUEIREDO

entre o espirito do seculo XIX e o espirito do seculo


XX , com a Guerra de 1914 e a Revolução de 1917 .
Depois, com o fascismo, assistimos á separação
violenta da direita e da esquerda, do socialismo com
munista e do nacionalismo reacionario.
Em seguida verificamos o apparecimento do na
zismo, com a consequente approximação de todos os
totalitarismos e a separação entre elles e o espirito
catholico, que por um momento pareceram incarnar .
Vimos , então, a separação entre totalitarismos e
democratismos, com a tendencia dividida, entre os
catholicos, a participarem de um ou de outro bloco .
E afinal estamos vendo uma fusão geral, aquella
volta ao espirito do seculo XIX, a um individualismo
socialista ou vice -versa, que seria para Jacksono
suprasumo da abdicação e do conformismo mais
atroz . Poupou -lhe a Providencia mais esse motivo
de soffrimento e de indignação . Mais uma occasião
de se mostrar, — como lhe exprobravam os tibios, á
socapa ou publicamente, - um perturbador .
Sim, porque Jackson não se conformava . Era
radicalmente avesso a esse terrivel veneno que cor
rompe o mundo moderno e lança raizes tão fundas
dentro dos meios catholicos — o conformismo. Não se
conformava com as abdicações de principios, de atti
tudes , de valores contradictorios . Reagia, violenta
mente, contra tudo o que fosse negação das dis
tincções necessarias e substanciaes . Era inimigo de
toda paz alcançada á custa de sacrificios moraes .
O estado de guerra lhe era muito preferivel ao da
paz sem honra. Não dava á vida humana um valor
dissociado de suas raizes espirituaes . De modo que
flagelava impiedosamente toda abdicação para man
ter uma paz illusoria . Dahi ser realmente um su
jeito incommodo, um perturbador de consciencias , um
CORRESPONDENCIA 215

agitador perigoso e meio maluco , aos olhos do " catho


lic in the street” ... Tinha horror ao catholicismo
convencional, á religião como simples protecção con
tra os males da vida . Não se cansava de proclamar
que a Fé era o opposto do repouso egoista . Que o
Christo não viera ao mundo para assegurar aos bem
aquinhoados a ruminação tranquila dos seus haveres
ou a posse de suas posições ou de seus privilegios,
mas ao contrario para consolar os afflictos e in
quietar os ruminantes . “ Não é verdade que Jesus
Christo tivesse promettido a felicidade aos povos e aos
individuos. A salvação é coisa muito diversa do que
geralmente ideamos como felicidade. Não. Ele o que
veio attestar foi o valor das almas no espantoso horro !
deste mundo decahido . Elle o que veio attestar foi
a existencia de uma sahida para a luz , de dentro
destes muros de treva" ( 1-8-27 ) .
Em torno do soffrimento girava e sempre gira
ria a historia do christianismo, isto é, do Christo em
sua perpetuação na terra . Jackson tinha da historia
uma visão apocaliptica. Elle conseguira realmente
chegar, não só a comprehender intelectualmente, mas
a sentir e a viver essa verdade elementar para um
catholico, mas terrivelmente difficil e rara de ser
assimilada de que a verdadeira vida é a vida so
brenatural.
Estamos de tal modo presos á nossa natureza
material e á do mundo exterior e visivel , que difficil
mente penetramos a verdade de que o invisivel é que
é a verdadeira natureza das coisas e tudo mais é
apenas manifestação de uma verdade occulta e pro
funda, que é maior, naturalmente, do que a sua mani
festação no tempo .
Ora, isso que é a essencia de toda conversão á
fé catholica, tinha sido de tal modo assimilado por
Jackson, em sua conversão, que realmente passou a
216 JACKSON DE FIGUEIREDO

fazer parte de sua philosophia expontanea da vida .


Elle que até se converter era um puro humanista, elle
que até morrer conservou a “ perpétua tentação de
divinisar o homem ” ( 24/25-3-28 ) , – só acreditava
na realidade incencivel e immortal da vida que Jesus
Christo veio incarnar . E dessa Incarnação, acon
tecimento central de toda historia, não somente de
universo mas do homem em sua vida interior, é que
tudo mais decorria e a que tudo mais ia ter . Patri
monio commum de todo crente na revelação christã
integral , sem duvida , mas que Jackson soube trans
formar em sentido essencial de toda sua vida, de
todo o seu modo de ser e de viver , das coisas mais
elementares da existencia quotidiana, ás meditações
mais transcendentais de ordem metaphysica .
Jackson foi , portanto , um negador de todo natu
ralismo . E um sobrenaturalista integral. Não como
negador da natureza ou como um diminuidor da vida
em qualquer de seus aspectos, mas como um integra
dor de todos elles em sua essencia verdadeira, que é
de ordem sobrenatural. " Amo tudo quanto é vivo "
( 19 /20-6-28 ), exclamava elle numa formula que en
tendia ser e de facto era uma das chaves de sua
psychologia. Pois de facto só detestava o que era
morto, apathico, indifferente. Ao contrario mesmo do
que parecia, era capaz de grandes alegrias . Longe
delle a tristeza merencorea e abatida, o ar confran
gido e sombrio . Era um catastrophico, sem duvida .
O que teve mesmo de incomprehendido pela maioria
dos seus contemporaneos, foi ter vivido os annos tal
vez mais intensos de sua geração em antecipação ao
espirito de seu tempo. Aquelles annos de 1918 & 1922
foram annos de euforia e de certa despreoccupação,
durante os quaes sua geração se occupou principal
mente de assumptos estheticos e literarios. Ora, Ja
CORRESPONDENCIA 217

ckson conservou , durante esse periodo, o mesmo esta


do de espirito de durante a guerra, que o levara á
meditação aprofundada dos problemas ultimos da
origem e do destino dos homens, em contacto como
pensamento universalista de Farias Brito, para quem
a meditação da morte era um dos fundamentos da
metaphysica . E como, ao mesmo tempo, não sabia
nem conseguia permanecer na pura abstração philo
sophica e só comprehendia o pensamento como um
dos aspectos da vida em sua totalidade - ser - lhe- ia
totalmente impossivel permanecer num simples as
pecto da vida e muito menos no seu aspecto mera
mente literario . De modo que ele, que começara
como poeta e Poeta se sentia, em sua aguda sensi
bilidade aos aspectos mais delicados e subtis da rea
lidade, dedicou-se inteiramente á Politica, que nes
se periodo absolutamente não interessava á sua
geração. Dahi o seu isolamento, a incomprehen
são de que foi victima, a imparticipação mais
effectiva na transformação que soffreu a litteratura
nesse periodo, e a sua posição de precursor, tanto
em politica como em litteratura .
Precursor em politica porque o rumo que veio
a tomar mais tarde a politica brasileira, depois de
sua morte, foi nitidamente o que ele, sozinho tal
vez, tinha anunciado e pregado. Não que a politica
effectivamente seguida pelos dirigentes brasileiros
fosse aquella que ele queria, recommendava, instava,
se bem que sentindo pregar no deserto ou aspirar
a puras utopias com o seu sonho de “ monarchia
christã".
Mas o facto é que a sua campanha anti-demo
cratica foi , durante sua vida, considerada como uma
atitude meramente pessoal, sem nenhuma probabili
dade de encontrar a menor repercussão na vida po
218 JACKSON DE FIGUEIREDO

litica brasileira . Foi mesmo asperamente atacado


pelo apoio que deu aos governos fortes e particular
mente ao governo Bernardes, soffrendo com o maior
desassombro , mas não sem profunda amargura, a
campanha de injurias que se abateu sobre o paiz
e de que foi tambem victima poupada . Nenhum be
neficio material ou social tirou dessas attitudes, pura
e exclusivamente provocadas por suas convicções ca
tastrophicas da historia e da situação do Brasil em
particular.
Ora, depois de sua morte, o que se viu foi, a
principio o triunfo apparente das correntes revolu
cionarias que elle tão ardentemente combatera . Mas
logo em seguida a evolução dessa corrente trium
phante para um terreno de anti-liberalismo e de or
ganização autoritaria , que Jackson , aliás em sen
tido muito diverso , sempre pregára como indispen
savel á salvação politica do Brasil . E os pro
prios movimentos e partidos, formados fóra e mes
mo contra a politica dominante , e até por ella
esmagados mais tarde, como o integralismo ou o
timido movimento de restauração monarchista , nas
ceram , cresceram e lutaram depois de seu desappa
recimento .
Foi , portanto, um precursor em politica , depois
de ser um isolado e solitario , porque se antecipou ao
seu tempo. E o foi tambem no campo literario, de
onde se achava um tanto afastado e cujo drama não
tenha talvez penetrado a fundo, quando queria ver
no movimento modernista apenas os aspectos de ca
botinismo, de originalidade forçada, de insincerida
de, de artificio, de espirito destruidor das formas
eternas e intangiveis de beleza classica , que tanto
admirava
CORRESPONDENCIA 219

O facto , porem , é que o modernismo morreu . E


a partir de 1930 ia iniciar-se uma nova phase lite
raria . Ora , o espirito dessa nova phase de nossa
historia literaria está muito mais penetrado de es
pirito - jacksoneano do que a anterior. Não dou uma
definição concisa do que seja essa forma de espirito ,
mas outra coisa não tento fazer neste estudo de sua
psychologia de que captá -lo em suas linhas nitidas ou
em seus entretons fugidios . Ora, esse espirito jack
soneano era baseado num primado da vida em sua
expressão total, de ordem natural e sobrenatural , que
foi talvez o aspecto que mais me seduziu nessa crea
tura extraordinaria , que, passados dez annos de sua
morte, ainda é para nós um fóco ardente e inextin
guivel de luz e de calor, de revelação de cada um
de nós a si mesmo, de rehabilitação de tanta coisa
de sadio que desperdiçamos na mocidade em nossas
aventuras ideologicas e sociaes .
E esse primado da vida essencial se traduzia na
turalmente no zelo pelas qualidades que exprimissem
realmente o homem todo, em sua espontaneidade, em
sua pureza ou em sua maldade profundas, e não qual
quer aspecto accidental ou diminuido delle. Nenhu
ma escola literaria , nenhum genero parcial , podia
pois satisfazer esse espirito avido de expressão in
tegral e violenta do homem , - pallido mas ainda
assim dramatico reflexo do Homem-Deus , a unica
expressão de realidade profunda e de modelo im
mortal, do universo .
Ora, o que vemos modernamente na literatura
brasileira, a partir de 1930 , é justamente uma evo
lução marcada nesse sentido, uma valorização cor
rente de valores vitaes em face de uma decadencia
porventura passageira mas real das preoccupações
220 JACKSON DE FIGUEIREDO

de forma literaria , de pequenas querelas de escolas


e de generos .
Tudo isso está na linha jacksoneana, no seu
amor pelas coisas reais e vivas e no seu horror por
tudo o que fosse pura invenção, capricho de imagi
nação, fantasia mental e particularmente obra de
armar ao efeito, retorica balofa ou piruetas para es
candalisar os burguezes .
Tanto num terreno como noutro, portanto, foi
Jackson um precursor, um annunciador de novos
tempos, um solitario pregador de idéas, que a uns
pareciam retardadas, a outros inadequadas ao nosso
meio, a muitos meramente individuaes ou mesmo in
teressadas e que, no entanto, se iam revelar, na
prova decisiva de um decennio, como simplesmente
novas demais para o seu tempo e propheticas sobre
os dias que se iam seguir á sua morte.
Como bem accentua Barreto Filho na sua ma
gistral introducção á correspondencia que publica
mos, como a melhor das commemorações ao decimo
anniversario do seu desapparecimetno, se bem que
representando uma divulgação que eu quizera quanto
possivel impedir, tal a intimidade dessas paginas que
vivemos no mais intimo de nossos corações como
accentua Barreto Filho, ninguem passou impune
mente por perto de Jackson . Hoje em dia, passados
já tantos annos, e, em vida sua , para aquelles que o
não conheciam ou delle só tinham vista dos aspectos
aggressivos e dogmaticos de suas campanhas, -

muita gente extranha a nossa seducção por esse ho


mem, de fogo e de arminho, e acha naturalmente
descabida e exaggerada a apologia que delle fazemos .
Ora, aquelles que tratam de Jackson como al
guns de nós o fazemos , têm a convicção de que não
estão de modo algum fazendo uma apologia. Com
CORRESPONDENCIA 221

preendemos, perfeitamente a difficuldade de sua di


vulgação, sabemos que elle mesmo conhecia as suas
limitações, podemos discordar de alguns dos seus
meios de acção, deste ou daquelle prognostico e par
ticularmente deste ou daquelle juizo sobre pessoas
ou obras literarias ; devemos sobretudo, cada um de
nós, seguir a linha de seu proprio temperamento e
não imitar o inimitavel, mas o que não podemos
é silenciar a nossa admiração até hoje deslumbrada
por uma figura que ha de ficar como uma das mais
espantosas expressões de humanidade que jamais
viram a luz em nossa terra . >

Temos, alem do mais, uma divida para com a


sua memoria, que jamais poderemos resgatar, por
que a passagem de Jackson , sua presença e convi
vencia com varios de nós, positivamente salvou a
muitos de uma irremediavel absorpção pela vida quo
tidiana, ou de uma perda inevitavel nos meandros
de uma floresta em que nos iamos facilmente am
bientando .
Em Jackson, até os defeitos tinham sentido e
seducção. Fala -se que foi um ambicioso e elle mes
mo como tal se aponta. Mas a sua ambição de do
minio era a expressão de sua pureza de intenções
e de sua convicção da intensidade a que attingira
nossa contaminação pelas formas mais perigosas de
dissolução moral. O mundo moderno e muito em es
pecial o homem brasileiro, de baixo a cima da escala
social, mas sobretudo nas camadas superiores, dei
xou - se invadir pelos mais espantosos venenos que a
literatura , a impiedade, e o progresso material lhe
trouxeram . Para levar de novo esse homem assim
decahido e a sua civilização assim desvirtuada, ao
caminho da pureza , da saúde moral, da disciplina e
da verdadeira caridade, só os meios drasticos lhe pa
222 JACKSON DE FIGUEIREDO

reciam possiveis. E como era, acima de tudo, um


bravo, um homem sem temor, capaz de affrontar os
perigos mais tremendos, e mesmo procurando desa
fiar os poderosos e os temiveis, para lhes desmas
carar a covardia e a peçonha — queria subir para
marcar, para levar o ferro em braza a uma sociedade
corrompida até a medulla dos ossos , e que tinha so
bretudo perdido a noção de sua decadencia e mes
mo o criterio para avalial-a.
Era um violento e foi accusado, quantas vezes,
de falta de caridade. Tambem reconheceu esse de
feito. Mas como não comprehender que uma alma
como a sua não podia supportar calada, nem ficar
silenciosa, perante o espectaculo da mediocridade e
da covardia dominantes ? Para justificar os violen
tos, na Igreja, os Bloys de hontem ou os Bernanos
de hoje, os Jeronymos ou os Chrysosthomos de ou
tróra, para não falar nos Savonarolas que não con
seguiram evitar as passagens objectivamente con
demnaveis -
para justificar essa familia de fla
gelladores, de que fez parte Jackson de Figueiredo,
é preciso olhar para dentro do nosso coração e ver
como deixámos que nelle se aninhassem as serpentes
mais venenosas. E' preciso frequentar um pouco os
meios mundanos e tomar contacto com os homens
ricos ou poderosos , tantas vezes peores, em regra
geral, que os pobres sem posição social, sobre quem
ao menos peza mais o pezo da vida. Quem , nessas
horas, não invejou a coragem de um Jackson, a penna
de um Bloy, o sarcasmo de um Papini , para exprimir
a colera que nos enche em face da vaidade satisfeita ,
da hypocrisia triumphante , da piedade falsificada,
da dissimulação unctuosa , da riqueza arrogante de
politicos e capitalistas, de senhores e senhoras res
peitabilissimos por fora e apodrecidos por dentro,
CORRESPONDENCIA 223

que enchem o mundo com o clamor de suas queixas


e o lustre de suas unhas polidas.
Nas horas em que o mundo soffre, tudo isso des
apparece ou se esconde. Mas quando voltam a paz
e a prosperidade, a face do mundo se torna horro
rosa e as manchas da lepra interior que o corrompe
ostentam -se então, sem pudor, nas faces em que a
imagem do Sacrificado parece ter de todo desappa
recido. Nessas horas de satisfação animal de viver
é que é mais difficil ser fiel a essa figura do Eterno,
que o Christo veio trazer ao mundo. E foi isso o
que Jackson sentiu de modo violento. Foi contra
essa violação do corpo purissimo do Cordeiro que
elie jogou a sua colera e affrontou o odio do mundo,
a despeito de sua pobreza e de seus pesados en
cargos .
Por esse angulo é que devemos considerar os de
feitos de Jackson. Não é pintando delle uma figura
ideal , de Bayard brasileiro e christão, sem manchas ,
sem defeitos, sem vacillações. Foi um homem , um
brasileiro de seus dias e como tal soffreu , como to
dos nós, os reflexos do nosso tempo, de nossa raça,
de nossos defeitos de formação, de nossos erros his
toricos. Participou intensamente da vida , em todos
os seus aspectos e viveu lutando comsigo mesmo,
muito mais do que contra os outros. “ Eu pareço lu
tar com os homens . Mas é um engano. Eu iria can
tando e dançando no meio delles , ás profundas do
inferno. A luta é commigo mesmo" ( 5 /6-10-27 ) .
Esta sua phrase é bem expressiva . Jackson não
foi um triste. Teve o dom da tristeza, isto é, com
prehendeu profundamente que só a dôr eleva o ho
mem, que o christianismo é uma escola de soffri
mento , que o sangue é redemptor, que a felicidade en
tendida como quer o mundo ou como o pede a nossa
224 JACKSON DE FIGUEIREDO

natureza decahida é, quasi sempre, a negação da pro


pria dignidade de viver.
Mas, com esse dom da tristeza , não foi um tris
te, não foi um macambuzio e muito menos um ne
gador da fecundidade admiravel da Alegria sobre a
face da terra, isso que foi o segredo de S. Fran
cisco de Assis, ao revelar um aspecto do christianis
mo, tantas vezes obscurecido pelos seus lados mais
sombrios e lancinantes. A Alegria é tão profunda
mente christã como a Dôr. O que a Igreja con
demna é que o homem se deixe vencer pela Alegria
ou pela Dôr, em vez de vencer a ambas, transfigu
rando -se e dellas retirando o que em ambas existe,
como reflexos de Deus. Por isso mesmo condemnou
a um Savonarola , que se deixou vencer pela Dôr,
e canonizou o Poverello de Assis, que venceu a Ale
gria e a reinstallou no mundo christão.
Jackson foi um catastrophico, mormente numa
geração corroida de sibaritismo, de ironia, de scepti
cismo como foi a nossa geração. Jackson compre
hendeu o sentido do soffrimento. Mas amou a ale
gria. Era mesmo, em casa, quando estava de veneta,
de um “ entrain " como nenhum outro, capaz de can
tar, de dançar, de rir e de fazer rir, horas seguidas,
noites inteiras. E ' outro aspecto que os seus con
temporaneos desconheceram e que sua correspon
dencia mesmo pouco revela. Mas que todos os
seus intimos pódem attestar como absolutamente au
thentico. Podia-se fazer um pequeno volume do ane
cdotario de Jackson e estou certo de que seria muito
revelador desse aspecto que só os seus intimos co
nheciam , de tal modo sua vida foi agitada e difficil ,
de tal modo os acontecimentos dos ultimos anno
de sua existencia o amarguraram e preoccuparam .
Esse aspecto de soffrimento e tragedia é que
CORRESPONDENCIA 225

reponta, quasi sempre, de suas cartas. Mostra o ma


logro de todas as suas ambições politicas, seu ideal
66
de recolher -se para escrever enfim a sua obra ”,
mas ao mesmo tempo o projecto mysterioso a que
se refere Barreto Filho e que iria emprehender mais
uma vez sozinho e sem apoio algum. Creio poder
adeantar que esse projecto se ligava a um movimento
politico nortista, que pretendia emprehender, com a
fundação no Rio de um Monitor Nortista , que seria
o orgão desse movimento . Jackson era visceralmen
te homem -do -Norte. Ficou nortista a vida inteira
e sustentava sempre que no Norte é que estava o
verdadeiro Brasil, a despeito de seu nacionalismo in
tegral. Não creio que chegasse ao separatismo sulis
ta e principalmente paulista. Mas de toda forma,
sentia vibrar em si a fibra do " vaqueiro ", do nor
destino, do nortista , e nunca se adaptou completamen
te, nem mesmo superficialmente, ao espirito do Sul.
Se bem que o comprehendesse e porventura não pu
desse mais viver sem elle, pois representava um ele
mento europeu ou antes universal, que era tambem
caracteristico de sua personalidade.
Nabuco falou dos brasileiros, a cuja classe per
tencia, que sentiam em si a seducção de duas patrias ,
de duas civilizações, de dois mundos, - o europeu e
o americano .
Teria pertencido Jackson , tambem , a essa classe ?
A rigor todo brasileiro, que passa um pouco acima
da média vulgar e que não se deixa apenas viver,
soffre do mal de Nabuco . Jackson não podia escapar
de todo á psychologia dos dois continentes. Mas
nunca soffreu do mal dos dois mundos. Sempre vi
veu no Brasil e visceralmente enraizado nele. Se
bem que desligado de muitos de seus aspectos con
vencionaes — liberalismo, timidez, doçura de trato,
226 JACKSON DE FIGUEIREDO

sentimentalismo, rethorica, falta de tenacidade, etc.


E, pelo contrario, sustentando campanhas, de ordem ,
de disciplina, de hierarchia de valores, de orthodo
xia, de classicismo que pareciam muito mais euro
péas que americanas. Foi levado mesmo a abando
nar a campanha nacionalista que aqui, iniciara
quando se converteu e sentiu vivamente o caracter
universal do christianismo. E como não sabia senão
viver as suas convicções e não apenas possuil -as,
transportou para sua alma essa dualidade que desde
então ficou sendo um dos traços caracteristicos de
sua psychologia.
Tinha uma curiosidade natural insaciavel. Fez
se livreiro, não apenas para sustentar o seu lar com
os parcos recursos que tirava desse precario com
mercio de livros, mas ainda para mais facilmente
privar com todas as formas do pensamento e da curio
sidade humana. Pois, como se vê de suas cartas mais
ainda que de seus livros, tudo o interessava. Foi
mesmo um de seus signaes typicos essa capacidade
de ver que o interessante das coisas e dos homens
está muitas vezes nos objectos ou nas vidas que nos
parecem apparentemente mais apagadas. Nos seus
" Humilhados e Luminosos ", talvez o mais delicioso
dos seus livros ou pelo menos o que revelou aspe
ctos mais profundos de sua alma, e em algumas pa
ginas do “ Aevum ” , bem se vê o carinho que sem
pre teve pelos mais esquecidos, pelos abandonados,
pelos desdenhados do mundo.
Seu catholicismo foi, por isso mesmo, o opposto
do catholicismo convencional e meramente pratican
te, no sentido de obediencia a formulas exteriores do
culto. Nesse ponto, terio mesmo que progredir, como
elle mesmo o confessava com esperança . Não se con
verteu para se enquadrar ou se classificar e sim para
CORRESPONDENCIA 227

participar do que via ser a verdade, em sua expres


são maior. E por isso mesmo chocava a todos aquel
les para quem a religião é apenas o cumprimento de
um ritual , quando não simples attitude de respeito
ás tradições ou ás convenções sociaes acceitas. Tudo
isso era a negação da Fé, para Jackson , peor tal
vez que a propria impiedade aggressiva . Seu papel
foi mesmo de trazer a religião do dominio do coração
e da intelligencia , para o dominio dos factos. E com
isso modificar profundamente o seu meio e os seus
contemporaneos.
Até que ponto ? E' diffici' senão impossivel res
ponder. Qual o effeito de uma igura como essa em
seus companheiros de geração ? Qual o resultado
de sua passagem por meio de nós ?
Somos levados por vezes a crer que muito pouco .
Poucos são, mesmo entre catholicos e entre aquelles
que mais poderiam comprehender sua figura exce
pcional, que o conhecem . A nova geração, muito su
perior aliás á sua , em grande parte devido ao effeito
invisivel operado por sua passagem , a nova geração
nem sempre o reconhece. E o publico em geral o
desconhece .
E ' innegavel, entretanto, como mostramos, que
o ambiente de hoje está muito mais impregnado, sem
que o saiba, de espirito jacksoneano, do que estava
o de seus dias. E os homens e sobretudo os moços
de hoje o podem muito melhor comprehender que
os seus contemporaneos. Acredito mesmo que ha
muito mais gente que o admira e o comprehende do
que nós mesmos podemos avaliar. Tenho feito expe
riencia de que mesmo morto elle continúa a ser um
incomparavel sygnal de approximação, como o foi em
vida .
228 JACKSON DE FIGUEIREDO

E essa tarefa será sempre a nossa. Tivemos a


ventura de conhecer de perto uma das almas mais
extraordinarias que viveram em nossa terra. Tive
mos a ventura de privar com um desses espiritos que
purificam e elevam o mundo e resgatam os erros e
os peccados de toda uma geração. Tivemos a ven
tura de merecer, dessa alma incomparavel, as con
fidencias mais intimas que um coração de homem
como o seu podem vasar em outro coração. Esse co
ração, essa alma, esse homem é que queremos revelar
aos que o não conhecem ou que o desconhecem . A
vida de Jackson foi um apostolado. Sua morte deve
ser uma apologetica viva. Abrindo, ao publico, os
escrinios mais secretos de sua alma, não queremos
apenas dar um alimento precioso ao gosto de curio
sidades vagabundas e sybaritas. Mas temos a convic
ção de que o fazemos para compartilhar com muitos
o que consideramos um thesouro de sabedoria. Essa
" Suma sentimental", de que elle fala, está, em grande
parte, em sua correspondencia intima. Não teve tem
po de escrever a obra que queria, que podia , que de
via ter publicado. As circumstancias não o per
mittiram . Quiz, entretanto , a Providencia que em
suas cartas intimas se apresentasse tal como só a
morte permitte por vezes que o homem se apresente
em sua verdadeira physionomia moral. E essa fi.
gura é maior, muito maior, do que julgavam os que
só de fóra o conheciam e desaprovavam algumas de
suas attitudes politicas.
O homem , em Jackson , domina tudo mais. E
aliás invade tudo mais. Pois como escriptor, como
politico ou como defensor da Igreja , o que sempre
reponta é o Homem. Mas só em suas cartas intimas
é que esse homem se revela em todos os meandros de
sua complexa configuração. E nela vemos como foi,
CORRESPONDENCIA 229

ao mesmo tempo, extremamente simples e extre


mamente complexo.
Simples, porque nunca perdia as linhas nitidas
e claras do homem sadio e puro que sabia bem onde
estava o bem e onde o mal, onde se collocava o de
ver e onde o perigo, onde estava o que se devia pre
servar de puro, de simples e de bom , e onde os re
cantos invadidos pelas aguas sombrias do Stix.
Ao lado, porem , desse sertanejo de lei, 0
homem do seu tempo, o menino impossivel, o ado
lescente liberto , o moço violento, o adulto solicitado
por todos os quadrantes de vida. E a luta continua
de um contra o outro ! E o desafio a um mundo di
minuido em suas fibras mais secretas e que elle fla
gellou sem piedade, não por instincto de destruição,
mas para o accordar de seu sonho avinhado e ver
gonhoso !
Esse homem de pequena estatura, que vagueava
á noite pelos cafés do Rio ; que passava horas en
costado á bengala vendo, com volupia , as chammas
do fogo destruindo um predio ; que só escrevia de
madrugada e deitava -se quando o sol nascia ; que
lera um mundo de coisas e se embrenhava, com tan
to amor, nas paginas austéras de um theologo, como
nas analyses mais subtis de um Amiel ou de um
Proust ; esse homem que tinha horror á mediocri
dade e desafiava o pharisaismo corrente dos meios
catholicos, sem poupar os erros da impiedade ou os
peccados tremendos dos poderosos e dos inimigos da
Igreja ; esse homem que era sujeito a coleras desabu
sadas e quedava-se longamente a meditar sobre o
berço de uma filhinha adormecida ; esse homem que
apostrophava, sem temor, o Presidente da Republica
e tirava anarchistas da prisão, perdia empregos para
não se privar da intimidade de amigos carissimos e
230 JACKSON DE FIGUEIREDO

acceitava encargos arriscados e difficilimos para ser


coerente com a sua energia inflexivel, de restaurador
dos fundamentos da ordem e da autoridade, num
paiz anarchisado e indolente como o nosso ; esse ho
mem que provocava os crapulas na cidade, para mos
trar que um homem de bem não tem menos cora
gem que um canalha, e só se sentia bem pescando
horas seguidas, com o peito aberto ao vento e ao
salitre do Oceano, de pés nús nas areias ou nos ro
chedos, como em menino nas praias do seu Norte ;
esse homem tão pequeno de porte physico e tão gran
de de estatura moral, foi um bólido de luz que cru
zou por nossos céus, mas que deixou nelles um traço
indelevel, se bem que invisivel para muitos.
Tornar visiveis os traços cada vez mais vivos
de sua passagem é o que nos ha -de sempre fazer
viver com esse Amigo que foi, para tantos de nós,
a figura visivel do Christo , chamando- nos suave e
fortemente da morte para a vida.

Rio de Janeiro - Outubro de 1938.

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Depois da leitura deste livro, V. Ex . poderá
falar em Divorcio
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