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TEMAS EM DEBATE O FRACASSO ESCOLAR COMO OBJETO DE ESTUDO: ANOTACOES _ SOBRE AS CARACTERISTICAS DE UM DISCURSO Maria Helena Souza Pato Do Insituto do Psicologia da USP © da Funda Carlos Chagas Se 6 verdade que o ndmero de pesquisas sobre as causas da repeténcia @ da evaséo na escola péblica de primeiro grau, em especial em suas duas primeiras séries, ‘vem crescendo nas times duas décadas, & verdade também que esta linha de investigacéo vem mastrando si nis de cansaco: uma repetida apkcacéo de um modelo ‘experimental de investigacao tem produzido como resut- tado uma viséo reificada da escola e de sua problematica. Mais do que isso, & vis'vel que a crenga na menor capaci ade da crianga pobre para aprender os contetdos esco- lares ter sido uma constante nessas pesquisas, tanto mais presente quanto mais a “teoria da caréncia cultura” '8e estabelece no pensamento educacional brasileiro a Pattr do inicio dos anos setenta. ‘A existéncia de um grande volume de pesquisas corre paraletamente a uma cronificagéo dos altos indices 72 do reprovacdo © evasio nas redes piblicas de ensino ‘elomentar, imunes &s sucessivas reformas educacionais, @ 8s constantes medidas técnico-administrativas tomadas, pelos 6190s oficiais a0 longo dos anos. A partir do pres ‘suposto de que as concepeées dominantes sobre as cau- ‘sas do fra¢asso escolar, geradas no universo da pesqui- ‘sa, subsidiam direta ou indiretamente essas reformas © medidas — 0 que pode ser constatado quando ouvimos @ lemos 0 discurso que prevalece entre os técnicos das Secretarias de Educagao — tornam-se relevantes ques 6es sobre as relagées existentes entre poltica e pesqui- ‘sa educacional, de um lado, e entre ambas e 0 rendimento da escola piblica de primeiro grau, de outro. No momento em que nos propusemos a realizar mais uma pesquisa sobre o fracasso dessa escola, duas tarelas, portanto, tornaram-se imprescindiveis: em primei- Cad. Pesq., So Paulo (65): 72-77, maio 1988 10 lugar, a revisdo critica da literatura especiaizada no ue ela diz, no que nao diz ¢ no que se contradiz ~ ou Seja, uma andlise de seu contetido e da forma de produ- Ho; em segundo lugar, e partir desta crfica, a busca de um referencial tebrico-metodolégico que fizesse mais jus- tiga & complexidade do processo educativo (Patt, 1987). FRACASSO ESCOLAR: DO DISCURSO OFICIAL NATUREZA Na tarefa de caracterizar o discurso oficial, a andl- 80 da Revista Brasiiira do Estudos Pedagdoicos (REP) mostou-se especialmonte indicada, uma vez que, como publicagéo do INEP-MEC, tracicionalmente retne entre ‘seus colaboradores intelectuais e técnicos diretamente envolvides com a politica educacional governamental; além disso, 20 comemorar quarenta anos (1944-1984), Consituiu-se num verdadeito painel das idéias, em suces- sivas décadas, sobre os problemas da escola elementar ¢ suas causas. Uma incurséo nos ensaios e artigos mais voltados para estes problemas permiiu algumas consta- tagbes, enire as quais destacaremos as que guardam uma relac&o mais direta com o problema do fracasso es- colar e suas causas. ‘A primeira delas, de cardter mais goral, 6 a predo- minancia, entre seus colaboradores, de escolanovistas de primeira ou segunda geracdo, o que significa afirmar que predominam, do ponto de vista fiosético-polico, os pres- suposios do lberalisme; do ponto de vista sociol6gico, a tooria funcionalista de sociedade em seu talhe durkhet miana; e do ponto de vista pedagégico os principios que nortearam 0 movimento da Escola Nova. Para nossos fins, 6 sufiiente registrar que, desde os ensaios da autoria de educadores brasileiros escolanovistas como Anisio Teixeira e Lourengo Filho, a maioria dos artigos movi- menta-se nos limites da crenga de que, numa sociedade ccapitalista, a igualdade de oportunidades ¢ real ou poss vel, cabendo & escola promové-la enquanto lugar supos- tamente privilegiado de identiicago dos mais aptos,inde- pendentemente da origem social. Inconformados com as desigualdades sociais flagrantes existentes no pals, muir tos desses autores dedicaram-se com afinco a tentativas de diagnosticar a situaco do ensino pibico e de propor solugées - enive as quais esto includdas reformas edu- cacionais de grande porte - que colocassem a escola & altura de sua misséo histérica que acredtavam redento- ra’, O diagnéstico da situag&o do ensino piblico ele- mentar comparece na RBEP ora descrivamente, ora através de tentativas de explicagéo do estado de coisas descrilo. Quanto & descriggo, 0s autores sé unanimes na dentincia da precariedade do ensino oferecido as classes popuiares, tanto quantiativa como qualtatvamente. Irn Portante salietar, a denéncia da precariedade atravessa esses quarenta anos, configurando uma recorréncia diag- néstica que sugere fortemente que as medidas técnicas e administrativas tomadas ao longo do tempo nao tém atin- gido os objetivos a que se propdem. A localizacdo de ind- meras passagens que, embora formuladas hé duas, trés ou quatro décadas, continuam rigorosamente atuais na caracterizacao da situacao do ensino elementar pico, 6 O tracasso escolar como objeto de estudo. ‘20 mesmo tempo intrigante @ afltiva, na medida em que revela que a poltica educacional brasileira, pelo menos no que se refere a este nivel de ensino, vem, em relaco aos ‘seus problemas fundamentais, se debatenco no beco sem saida de concepebes equivocadas a respeito da natureza dos problemas © de sua solugo. Examinemos algumas destas passagens, apenas a tulo de ilustragao. Em 1932, 0 Manifesto dos Pioneiros da Educagao ‘Nova (1984) registrava 0 sequinte a respeito dos resulta- dos de uma campanha de reciclagem de protessores: “Mas, com esta campanha, de que tivemas a iniciativa assumimos a responsabilidad, @ com a qual se incutira, por todas as formas no magistéro, 0 espiio novo, 0 gosto de crttica @ do debate e a consciéncia da necessidade de lum aperfeigoamento constant, ainda néo se podta consi- derar inteiramente aberto 0 caminho as grandes reformas educacionais (..) A maioria dos espirtes, tanto da velha como da nova geracéo, ainda se arrastam, porém, através de um labirinto de idélas vagas, fora de sau alcance e, ccertamente, acima de sua experiéneia; 6, porque manejam ppalavras com que jé se fanillarizaram, imaginam muitos que possuem as idéias claras, o que thes tra 0 desejo de acquin-as" (p. 409). Esta avaliacdo, feita hd mais de meio século, pode- tia perfeitamente ser transposta para o que acontece com muitos professores hoje, ap6s entrarem em contato - seja através de treinamentos oferecidos por érga0s offciais, sela através da letura da bibiografia de concursos ~ com texios e idéias de vanguarda na literatura educacional Nos anos quarenta, 0 | Congresso Nacional do ‘Sade Escolar (1945) inciua, entre suas conclusées, as seguintes recomendagbes: “Em nome do aprimoramento da escola priméra, enfati- zamos a necessidade urgente de: a) correeo do sistema de remocéo, afastamento, icengas, com a adogéo de ou- tro que evite as constantes mudancas de professores du- rante 0 ano letvo; b) organizacéo de um corpo de profes sores especializados no ensino de 1° ano; ¢) estudo © ‘adoro do métodos @ processos eficientes no ensino da letra e da escnta” (p. 275). ‘Sabemnos que estas recomendagSes, bem como a sityagao escolar que as fundamenta, continuam validas: a preocupago com o sistema de: remogbes @ com os mé- todos de alfabetizacéo continua em pauta em plena déca- de de oltenta. Em 1956, Almeida Junior revelava a seguinte preo- ‘cupagao no | Congresso Estadual de Educacé0, realizado em Rbeirdo Preto (SP): “Precisamos cuidar da produgéo das nossas escolas ‘normals, visto que séo cada vez mais reqdentes os maus professores diplomados por elas. Algumas, ao que pare ce, ndo se preacupam com as técnicas de ensino, seus discfpulos se formam sem terem tido, nesse assunto, a mais breve experiénoia. O resutado & 0 que se vé nas estatisticas: 50%, 60% dos alunos primérios desses mes- tres novatos néo conseguem promover-se. (..) Ndo seré porventura um crime contra a crianca confié-a a professo- 198 em tais condigées?” (Aimeida J, 1957, p. 13) 1A respeto do predominio do liveralismo na RBEP, veja Savin (904). Como sabemos, a qualidade dos cursos de forma- {920 do magistério © a competéncia técnica dos professo- res continua em questo trnta anos depois. Certamente no por acaso, nos anos quarenta 0 terme “calamidade” comparecia na RBEP para caracter- Zar a situago do ensino piblico primério no pals (Cardo- ‘30, 1949); trita e cinco anos depois, a mesma palavra sutge na literatura educacional com a mesma finalidade (Ribeiro, 1984). Segundo o discurso oficial, “os problemas, permanecem, malgrado 0 empenho € devolamento de educadores, administradores ¢ autoridades”. Apesar do fempenho de alguns, sem divida; no entanto, um exame rminucioso dos pressupostos e das explicaobes que sub- sidiam as medidas técnicas @ administratvas tomadas sugere a existéncia de uma relagdo entre as explicagtes: cientficas sobre as causas do fracasso escolar e a pet- manéncia de problemas educacionals fundamentals. Lon- ge de poderem ser responsabilizadas pela incapacidade da escola péblica para atingir a eficiéncia que Ihe é posst- vel, a cada momento conjuntural, numa formagéo social capitaista dependente como a brasileira, essas explica- ‘96es, no entanto, fazer parte integrante desse quad. Quando se trata de explicar as causas das dficulda- des da escola elementar piblica, as andlises contidas na RBEP inciuem desde consideracdes nao-crtcas de natu- teza econémica, poltica, social e cuitural - sempre no marco de uma viséo liberal de mundo e de uma concep ‘0 funcionalista de sociedade - até referéncias as di menses pedagégica © psicolégica do proceso educat- ‘vo. E no mbito destas Oiimas que ee localiza uma incoe- réncia fundamental do discurso educacional que o torna um discurso fraturado: de um lado — ¢ de acordo com uma clara infiuéncia da fiosovia educacional escolanovista — h& cifticas aos métodos de ensino, especialmente & auséncia de significado para o aprendiz de um ensino formalista ba- seado na memorizagdo, ¢ levado a feito por um corpo