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1. INTRODUÇÃO.

O romance gráfico Pílulas azuis (2015)1, publicado pela primeira


vez em 2001 e vencedor do prêmio de melhor edição especial estrangeira do
2
Troféu HQ Mix em 2016, trata da autobiografia de Frederik Peeters, nascido
em Genebra, na Suíça, em 14 de agosto de 1974. Peeters concluiu sua
graduação em artes na École Supérieure d’Arts Appliqués3 em 1995 e tornou-
se um famoso quadrinista premiado por diversos projetos em todo o Mundo. Na
narrativa de Pílulas azuis, o quadrinista descreve seu relacionamento com Cati,
uma mãe solo soropositiva, desde os primeiros encontros do casal quando
iniciaram o contato através de amigos em comum.
A história se passa em Genebra, no final da década de 90 e início
dos anos 2000 e narra o desenvolvimento da relação ainda antes de um
envolvimento amoroso e as dúvidas e dificuldades do casal com a revelação de
que Cati e seu filho (uma criança de quatro anos, de outro relacionamento) são
soropositivos.
Apesar da ausência de conhecimento de ambas as partes, Frederik
em momento algum hesita em dar continuidade à relação; o casal então
embarca em um novo mundo em busca de respostas e conhecimento acerca
de uma síndrome que até hoje carrega o estigma de sentença de morte.
A síndrome da imunodeficiência adquirida, popularmente conhecida
como AIDS, teve seus primeiros indícios na década de 80. Estima-se que em
2017 em torno de 37 mil pessoas conviviam com a doença 4. O vírus HIV ataca
o sistema imunológico e deixa o organismo vulnerável às definidas pela
medicina como “doenças oportunistas”. Inicialmente, a incidência do vírus HIV
foi indicada sobretudo em indivíduos negros e homossexuais, pessoas que já
eram marginalizadas por preconceitos de cor e sexualidade, sendo
popularmente associadas ao vírus e, por conseguinte, à promiscuidade.
Os primeiros sintomas da AIDS eram até então desconhecidos pela
medicina, o que resultou na morte de muitas vítimas que haviam contraído o

1
Originalmente Pilules bleues.
2
Prêmio brasileiro destinado aos quadrinhos.
3
Escola Superior de Artes Aplicadas.
4
Informação retirada do site:
< https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2018/12/04/aids-sintomas-iniciais-da-infeccao-
por-hiv-podem-ser-confundidos-com-gripe.htm >
vírus, devido à rapidez do desenvolvimento da doença e à debilitação do corpo
sem os tratamentos adequados. Esses fatores, unidos aos estigmas sociais,
tornaram a população soropositiva bastante excluída e vítima de preconceitos,
na maioria das vezes causado por falta de conhecimento ou por ideias
errôneas difundidas no início da descoberta do vírus em humanos, algo que é
até hoje replicado por grande parte da população.
À respeito da condição dos portadores do vírus HIV, devemos
ressaltar que existem inúmeras diferenças de acordo com o organismo de cada
indíviduo,o tempo de descoberta e o acompanhamento médico feito por cada
paciente, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS),nem todos
os portadores do vírus HIV são portadores da AIDS,ao ser contaminado pelo
vírus HIV, é imprescindível que se inicie o tratamento médico para que a AIDS
não seja desenvolvida, dessa forma, o paciente pode conviver normalmente
com o vírus;com o acompanhamento e medicações regulares, na maioria dos
casos a carga viral torna-se indetectável. A AIDS é a infecção causada pelo
vírus HIV, sem o tratamento antiviral correto, o vírus ataca células específicas
do sistema imunológico de maneira a enfraquecer todo o organismo, o que o
deixa suscetível as conhecidas como “ doenças oportunistas”
(pneumonia,infecções e parasitas), esse processo acaba por deixar os
pacientes vulneráveis muitas vezes acarretando à morte,o grande estigma que
envolve os pacientes vêm dos primeiros casos em que devido a falta de um
tratamento adequado muitos pacientes eram acometidos pelas doenças
oportunistas,com os tratamentos atualmente disponíveis dificilmente um
indivíduo contaminado pelo vírus HIV irá desenvolver a AIDS.
A importância da narração de Pílulas azuis diante de uma
sociedade ainda tão presa a estigmas relacionados ao HIV torna-se inegável;
no ano de lançamento da primeira versão da história, 2001, os estudos acerca
da AIDS ainda eram extremamente primitivos se considerarmos que o vírus só
havia comprovadamente sido descoberto cerca de 20 anos antes, em um
período que a evolução médica e tecnológica ainda caminhava a passos curtos
e os tabus sociais eram ainda mais latentes.
Mais do que apenas sobreviver com o HIV, Frederick mostra como
conviver com o vírus como um fator da rotina de seu relacionamento e não
como um empecilho. O casal unido desvenda os mistérios e cuidados
necessários para uma vida saudável e segura, consolidando assim a relação
de amor e construindo uma família.
O objetivo geral deste trabalho é analisar a história de Pílulas azuis
na instância da desmistificação dos preconceitos com indivíduos soropositivos.
Como objetivos específicos, pretendemos a) examinar no livro a utilização do
signo “doença”, que é colocado de maneira distante do significado usual; b)
pesquisar os diálogos entre signos verbais e não-verbais presentes na história;
e c) analisar a relação de uma casal soro-discordante de acordo com a
perspectiva do narrador.
Este estudo foi dividido em três capítulospartes, da seguinte forma:
ao primeiro se fundamenta teoricamente em Susan Sontag (1978-1989), em
suas obras que discutem de que forma o signo doença é representado num
contexto de senso comum e como as interpretações acerca de enfermidades
podem ser diferentes de acordo com a cultura, ainda que, do ponto de vista
médico, a aquisição dessas patologias sejam inerentes aos indivíduos.
Posteriormente, na segunda seção, usaremos de referencial teórico científico
para esclarecimentos a respeito da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida
presentes na obra através de elementos gráficos e verbais presentes em
Pílulas Azuis., pPara isto, portanto, nos utilizaremos da obra de Umberto Eco
( 2007) para formular diálogos a fim de analisar a estrutura comunicativa, e de
Décio Pignatari (2004), que busca estabelecer relações significativas em
diferentes linguagens e códigos dentro da obra literária. Para ao últimao seção,
capítulo temos a análise da obra Pílulas azuis a partir do que foi discutido nas
seções anteriores, de forma que em cada um dos subtópicos nos utilizaremos
de distintos signos para exemplificar as ideias expostas. Para esta seção,
dentre outros referenciais, traremos o estudo de Tzvetan Todorov (1970), que
examina as estruturas das dimensões narrativas contidas na literatura
reformulando conceitos do formalismo russo no âmbito do pós-estruturalismo.
Nessa seção, a atividade de análise será foi bastante onerosa,
visto que requereru um intenso trabalho de observação de elementos gráficos e
verbais contidos ao longo da história existente nos quadrinhos e no epílogo,
adicionado nas versões a partir de 2015, que apresentando a história da família
Peeters treze anos depois da primeira publicação do livro. A seleção
bibliográfica deste estudo, como um todo, busca proporcionar aos leitores
interpretações diversas e que se diferenciam do senso comum, como deve ser
o objetivo dos trabalhos acadêmicos.
2. A LITERATURA E O PERCURSO DA DOENÇAREPRESENTAÇÃO
LITERÁRIA

Nesta seção trataremos a teoria deda representação da vida


cotidiana através da literatura. Para isto, usaremos como base Susan Sontag
(1988), que evideência a utilização das metáforas da AIDS; assim como Paul
Ricoeur (1997), que trabalha no quinto capítulo do seu livro Tempo e narrativa
sobre a interseção da Literatura e da História. Por fim nos utilizaremos do
aporte teórico de Umberto Eco (1971) para estabelecer as questões
introdutórias a respeito da semiótica e os signos literários que servirão como
base das análises que virão em sequência. Este tópico então é essencial para
o início da compreensão do estudo.

2.1 A história e a literatura no contexto socialliteratura e a metáfora da


doença
A história e a literatura sempre estiveram, unidas., pPara existir, o
texto necessita de um contexto que é fornecido pela história que vivemos.
Nnão é incomum encontrarmos obras literárias que se passam durante eventos
históricos ou apresentam críticas e mudanças da sociedade em que vivemos.
No livro A poética, Aristóteles (2003) afirma que a arte literária é imitação (
mimese), a arte que é imitada pela palavra e que o imitar é congênito ao
homem, e é isso que o difere dos outros seres vivos, pois aprende pela
imitação e isso os diverte. ComoA exemplo prático, podemos citar o
desenvolvimento infantil, as crianças sobretudo na primeira infância são tidas
como “espelhos” dos adultos com quem convivem, confirmando que o homem
é por natureza um imitador; na literatura não seria diferente, as obras literárias
necessitam de um ponto de partida para sua criação, este na maioria das
vezes é nitidamente a história e o contexto vivenciados pelo autor, como ocorre
em Pílulas azuis: uma obra autobiográfica que relata o relacionamento de seu
autor e as dificuldades encontradas em conviver com uma doença pouco
conhecida e arraigada de preconceitos na sociedade em que ele está
inseridoestão inseridos.
Paul Ricoeur (1997), afirma que a história também herda da escrita
as armações e tradições da criação literária estas expressões estão ligadas de
tal forma que são compostas por elementos muito semelhantes e uma acabou
por torna-se dependente da outra, a literatura na maioria das vezes é
inspiradas nos acontecimentos históricos e estes são representados para a
sociedade através da arte literária não é difícil associar que encontramos na
literatura tudo o que está ao nosso redor e na nossa própria vida: sonhos,
amor, alegrias, doenças, dúvidas, dificuldades, entre outros. Dessa forma
concordamos com o autor quando diz que, “ O espantoso é que esse
entrelaçamento da ficção à história não enfraqueça o projeto de representância
desta última, mas contribua para a sua realização” (RICOEUR, 1997, p. 323).
A arte literária e a história então estão intrinsecamente ligadas de
forma que ambas são referenciais para a sociedade de determinado período e
para os que virão, é também através dos relatos históricos e produções
literárias que nós, como indivíduos podemos sentir representatividade,
conhecer nossas realidades, realidades distintas e desmistificar preconceitos.
É natural que o processo de produção da literatura se dissipe das
referências históricas já que a arte por diversas vezes ultrapassa a realidade, e
não sendoja tão somente uma cópia dos fatos em que foram inspirados.,
cConcordamos com Sandra J. Pesavento (2003) quando afirma:

“Ainda como desdobramento desta compreensão da História que a


aproxima da Literatura, temos o entendimento de que ambas as
narrativas realizam a configuração de um tempo². Seja este o que se
passou, no caso da História, ou que poderia ter se passado, mas que
realmente se passa, para a voz narrativa da Literatura, este tempo se
constrói como uma nova temporalidade, nem presente nem passado,
mas que ocupa o lugar do passado e, no caso da História, a ele se
substitui. É este presente da escrita que inventa um passado ou
constrói um futuro, para melhor explicar-se.
Nesta medida, o momento da feitura do texto torna-se essencial para
o entendimento das ações narradas, sejam elas acontecidas ou não.
(PESAVENTO, 2003, p. 33).

A literatura tem então a liberdade de assumir um papel lúdico


perante os fatos históricos de maneira que reproduza e represente da melhor
maneira possível os acontecimentos temporais e sociais de determinado
período., nNão seria diferente com a narrativa de Pílulas Azuis, que se passa
no final do Séc. XX, trazendo socialmente uma grande mudança e quebra de
paradigmas no contexto histórico e social.

2.2 O “boom” do vírus HIV


Entre a década de 60 e 80 a comunidade médica teve que lidar com
sintomas avassaladores de uma doença até então desconhecida, os pacientes
apresentavam combinações de enfermidades – como pneumonia, baixa
imunidade, fadiga e perda de peso – aparentemente sem ligação comum mas
que progrediam rapidamente, prejudicando severamente o estado de saúde
dos pacientes, dentre eles: Pneumonia, baixa imunidade, fadiga e perda de
peso. A infecção ocasionada pelo vírus HIV só foi identificada e confirmada de
fato no ano de 1981, apesar disso, diversas outras mortes em anos anteriores
foram associadas ao vírus.
A partir do início da década de 80, pesquisadores passaram a
rastrear as possíveis causas da doença não desconhecida, em 1981 Gaëtan
Dugas foi acusado de ser o identifica-se o conhecido “paciente zero” da
síndrome que até então não possuía nome: Gaëtan Dugas, acreditava-se que
ele tenha sido um dos primeiros indivíduos a proliferar a epidemia de AIDS que
se daria nos Estados Unidos nos anos seguintes. Dugas era um comissário de
voo franco-canadense homossexual, sua condição de saúde foi identificada
quando os centros de saúde dos Estados Unidos começaram a gerar relatórios
sobre o novo vírus que apresentava grande incidência em homens que
mantinham relações homossexuais.
Apesar de nunca aceitar o estigma de “paciente original” que
recebeu, Dugas colaborou com a investigação durante o tempo em que viveu
após a descoberta, ele forneceu o nome e número de telefone de todos os
companheiros de que tinha acesso., Aa partir desse material, os pesquisadores
do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) 5 ,associaram que 40 dos
primeiros pacientes identificados com o vírus nos Estados Unidos haviam tido
relações sexuais com Gaëtan Dugas pelo menos uma vez (STRAUB, 2005
apud CARDOSO, 2013). Os cientistas ainda não haviam chegado a em um
consenso a respeito do nome da doença que começou a ser tratada pela
imprensa como “Peste gay” ou GRID - Gay-Related Immune Deficiency. Ainda
em 1981 pelo menos 14 países relataram casos da doença, em sua
esmagadora maioria em indivíduos homo ou bissexuais.
Os anos seguintes foram permeados de incertezas e informações
que estigmatizaram ainda mais os pacientes portadores do vírus HIV., eEm
5
Centro de controle e prevenção de doenças.
1983, a população ficou aterrorizada com a possibilidade de transmissão pelo
ar ou utensílios domésticos, já que foram identificados os primeiros casos em
crianças nos Estados Unidos., cComeça então, pelo menos na comunidade
científica, a se desfazer da ideia de doença como punição., dDe acordo com
Susan Sontag ( 1989): “ A noção da doença como punição gerou a ideia de que
a doença poderia ser um castigo especialmente adequado e justo.” De acordo
com os pensamentos homofóbicos presentes na sociedade ainda hoje, teêm-se
a concepção de que indivíduos que mantêém relações sexuais com pessoas
do mesmo sexo e/ou com vários parceiros diferentes merecem ser castigados
de acordo com as leis morais da igreja e dos "bons costumes";, o argumento da
punição, entretanto, não é sustentado no caso de crianças que sequer tem uma
vida sexual ativa.
Os anos 1983 e 1984 foram anos revolucionários na linha do tempo
de descobertas da AIDS, pois mais de 3.000 casos e 1.200 óbitos já eram
confirmados nos Estados Unidos e pela primeira vez os pesquisadores
conseguiram isolar o vírus. Em 1984, Dugas morre de complicações renais
causadas pelo vírus, e o governo vê a necessidade de tentar frear a
contaminação, visto que a disseminação permanecia incontrolável., aApesar
disso, os pesquisadores mantinham-se otimistas e afirmavam que teriam uma
vacina para a AIDS antes da virada da década, apesar disso, na data
estipulada os estudos a respeito da vacina pouco haviam evoluído e no fim
desses anos, mais de 5000 pacientes tinham a doença apenas nos Estados
Unidos.
Nos anos que se seguiram, o estigma do vírus ainda muito pouco
conhecido apenas aumentava, os próprios cientistas, assim como grandes
influenciadores da mídia difundiam ideias errôneas a respeito da contaminação
por HIV. Para além das dificuldades ocorridas pelo pouco conhecimento da
doença, ainda era necessário lidar com o grande conflito de interesse dos
laboratórios e políticos-econômicos, devido a esses empecilhostes, o teste
sorológico, que facilitou bastante o rastreio de indivíduos contaminados,
demorou mais do que esperado para ser acessível àa população. Em 1987,
quase 10 anos após o primeiro diagnóstico, a Princesa Diana abre o primeiro
hospital especializado em tratamento de AIDS na Inglaterra., Aa imagem da
princesa apertando as mãos de pessoas com o vírus sem utilizar luvas, que é
até hoje amplamente divulgada, e tornou-se símbolo da mudança de estigmas
para com indivíduos soropositivos.

Figura 1-Princesa Diana e um portador de HIV- Canadá

Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/princesa-diana-e-o-aperto-de-
maos-que-representou-uma-conquista-na-luta-contra-o-estigma-social-da-aids.phtml. Acesso
em: 07 maio 2021.

Ao final dos anos 80 e início dos anos 90, juntamente com a grande
evolução de medicamentos e tratamentos para o vírus HIV e suas doenças
oportunistas, mais um estigma foi associado à doença: Aalém dos indivíduos
homossexuais, a parcela de pacientes usuários de drogas injetáveis que
tepostavam positivo para AIDS, era assustadora., nNesse tocante o governo
estabelece metas e campanhas de conscientização populacional com temas
como “ cuide de si e também dos outros”, Aa lém partir de 1988 a Organização
Mundial de Saúde (OMS)de declarar o dia 1 de dezembro como o dia mundial
da luta contra a AIDS,no tocante ao estarrecedor aumento de casos da doença
o governo estabelece metas e campanhas de conscientização populacional
com temas como “cuide de si e também dos outros”,slogan do dia mundial de
luta contra a AIDS em 1989.
neste período estima-se que mais de 10 milhões de indivíduos já haviam se
contaminado pela doença.
Em 1995, pela primeira vez fala-se em cura da AIDS, após o início
do tratamento com o primeiro “coquetel” de medicamentos., Aapós sua
utilização, a mortalidade diminuiu imediatamente e a imunidade melhorou,
proporcionando a recuperação das conhecidas como infecções conhecidas
como oportunistas., Aapós a grande euforia, os exames indicaram uma
evolução, mas não a eliminação total do vírus no organismo dos pacientes.
Apesar da cura não acontecer, a evolução medicamentosa diminuiu a
transmissão viral entre mães e bebês, assim como o índice de mortes de
indivíduos já infectados.
O advento do séc. XXI estabeleceu mudanças significativas em
diversas áreas no mundo inteiro, com a pesquisa e tratamento da AIDS não foi
diferente, a partir desse período, as condições de possíveis contaminações
pelo vírus e as medidas de precaução foram e ainda são amplamente
divulgadas por estratégias dos governos de todos os países; para indivíduos já
infectados ou que foram expostos ao vírus, existe um tratamento eficaz que , se
seguido corretamente, torna a carga viral indetectável, proporcionando uma
vida plena aos pacientes.; Eem Pílulas azuis, Cati e seu filho seguem o
tratamento de maneira correta, com acompanhamento médico regular que
propicia saúde e qualidade de vida aà ambos., cCom ajuda médica, Cati e
Frederik inclusive têm uma criança não portadora do vírus.
Sontag (1989) afirma que: “Na formulação mais recente de Karl
Menninger, a doença é em parte aquilo que o mundo fez a uma vítima mas, na
maior parte, é aquilo que a vítima fez ao seu mundo e a si mesma.” Este
excerto traz o pensamento ainda hoje difundido sobre os portadores do vírus
HIV,e AIDS, apesar do intenso trabalho dos profissionais de saúde e os
governos, o preconceito com indivíduos soropositivos é ainda muito latente da
sociedade., eEsse fato prejudica a comunidade como um todo, e alguns os
indivíduos que se expõem ao vírus são resistentes a realizar os exames e
tratamentos na maioria das vezes porque não querem carregar consigo um
estigma social, pois para grande parte da população, diversas IST’S (Infecções
sexualmente transmissíveis) mas sobretudo a AIDS, são o sinônimo de uma
sentença de morte cruel e solitária.
As manifestações artísticas, como o cinema e a literatura, entram
como artifícios para contar a história de maneira que consigam quebrar os
padrões já tão reproduzidos socialmente, além de personagens históricos,
como Cazuza e Freddie Mercury, que se tornaram símbolos da luta contra a
AIDS, existem diversas produções, que têem o intuito de causar comoção aos
espectadores mostrando as vivências do portadores do vírus, uma delas,
Filadélfia (1993), concedeu a Tom Hanks um Oscar de melhor ator pela
interpretação de um indivíduo homossexual portador de HIV que contrata um
advogado homofóbico para defender seu caso perante a justiça. Além das
manifestações,muitos artistas apoiam as campanhas de conscientização e
combate a AIDS,sobretudo figuras emblemáticas que foram acometidas pelo
vírus como Freddie Mercury e Cazuza que faleceu em decorrência da doença
em 1990, após sua morte, sua família fundou a “Sociedade Viva Cazuza” que
atendeu adultos e crianças portadoras do vírus HIV por mais de 30 anos.
Apesar da importante referência de situações cotidianas nos meios
artísticos, muitas obras têem seu conteúdo exibido de forma branda para que
sejam bem aceitos pela produção e pelos consumidores de determinada obra,
é possível perceber situações como essa no filme A cura (1995), que narra a
história de amizade de Dexter e Eric, duas crianças onde uma foi contaminada
pelo vírus HIV durante uma transfusão de sangue., cConcordamos com o
crítico Stephen Holden, quando diz:

"Quando "The Cure" centra-se nos ritos da infância, ele evoca com
uma claridade intensa a mistura especial de inocência, a curiosidade,
terror e bravatas que leva as crianças para cometer atos
desesperados. Embora o filme lança-se diligentemente em um nível
mais elevado do que o típico filme de doença-da-semana na
televisão, ocasionalmente tem lapsos no sentimentalismo. E a sua
imagem dos estragos da AIDS é muito amolecida, sendo reduzida a
sintomas de fraqueza, febre ocasional e alguns ataques de tosse
leve. [...] O que ele [o diretor Peter Horton] e o roteirista, Robert Kuhn,
criaram é um filme de amigos pré-adolescentes, cujo comovente
apelo emocional não depende do fato de que um dos personagens
principais tem uma doença fatal." ( Stephen HOLDEN, The New York
Times, 21 de abril de 1995).

Ao mesmo tempo que busca apresentar àa sociedade um tema


relevante, como as vivências de uma criança com AIDS, as condições
colocadas na produção seguem muito o conceito já difundido na sociedade:, o
personagem Dexter é uma criança frágil e muito infantilizado pela mãe, sem
vida social, não frequenta aà escola e é constantemente excluído e xingado por
crianças e adultos, há cenas inclusive em que o próprio personagem age com
naturalidade sobre a previsão de morte iminente e chega a brincar sobre ter
“um sangue venenoso”. O papel dos pais e familiares das crianças é bastante
distorcido, Eric sofre diversas agressões por parte da mãe que em diversos
momentos apresenta cuidados negligentes com uma criança, mesmo assim
não há críticas ou punições a mãe por tais atitudes; apesar de passar por
situações difíceis em sua vida pessoal, Eric é o único além da mãe de Dexter
que consegue viver uma relação saudável e livre de preconceitos com o
garoto,. o que é exibido de forma bastante naturalizada no entanto, é o único
que consegue conviver com Dexter de forma comum, uma relação comum de
amigos durante as férias de verão.
Nessa perspectiva, de acordo com o contexto histórico e alguns
exemplos citados nesta seção, iremos adiante nos aprofundar nos conceitos
próprios àde análise semiótica a fim de analisar examinar uma obra que segue
na contramão do pensamento de grande parte da população que ainda hoje
exclui e condena à morte rápida os indivíduos portadores de HIV baseada em
conceitos equivocados surgidos e que há mais de uma década tratam a doença
como sinônimo de morte.
3. ALITERATURA E SEMIÓTICA NOS ESTUDOS LINGUÍSTICOS

Os estudos semióticos correspondem ao estudo dos signos, de acordo


com Lucia Santaella (2017): “O nome semiótica vem da raiz grega semeion,
que quer dizer signo. Semiótica é a ciência dos signos.” (SANTAELLA, 2017, p.
3). A Semiótica é então a ciência que analisa toda e qualquer linguagem e é
através dela que podemos desvendar ea analisar as diversas significações que
um único signo é capaz de abranger.
A Semiótica considera a existência de múltiplos fatores influentes na
tradução de um significado, inclusive conceituando a comunicação como um
fato social que está intrinsecamente ligado àa forma como a linguagem é
emitida e recebida, veremos em sequência, alguns conceitos formulados à
respeito dessa ciência e as características em que esta análise terá base.

3.1 Percursos da Literatura e Semiótica


A publicação póstuma do “Curso de Linguística Ggeral” em 1916
revolucionou os estudos linguísticos, a obra é um apanhado das anotações dos
cursos de Ferdinand Saussure ministrados na Universidade de Genebra e que
foram escritos registrados por três de seus principais alunos: Charles Bally;
Albert Sechehaye e Albert Riedlinger., Aa obra marca o início dos estudos
estruturais da linguagem e também deu início àas análises que posteriormente
resultariam nos primeiros estudos de semiologia como a ciência responsável
pelo estudo dos signos.
Arrivé (2010, p. 20) afirma que Saussure não é o fundador da
Linguística visto que o passado referente a esses estudos já eram bem longos
antes do pesquisador. Ainda assim a importância do autor é inquestionável
visto que suas pesquisas foram o ponto de partida para a evolução dos estudos
linguísticos. Saussure, ainda hoje, é alvo de críticas por algumas ideias que
foram expostas sobretudo para a definição de língua e seus elementos, de
acordo com ele, a semiologia não existia e precisaria ser primeiro elaborada,
segundo Nöth (1996, p.17), o termo “semiologia” foi criado pelo próprio
Saussure para designar a ciência geral dos signos.
De acordo com Saussure (1916), a semiologia é então definida como
parte de uma psicologia social, esta quea qual faz parte de uma psicologia
geral, cabendo a ela explicar em o que consistem os signos e que leis são
aplicadas a eles; a Línguistíca torna-se então parte dessa semiologia até então
inexistente para ele, mas que possui um local determinado, como podemos ver
no exemplo aà seguir:

Figura 2 - Diagrama psicologia e linguística de Winfried Nöth.

Fonte: Nöth,Winfried.A semiótica no século XX (1996, p.18).

Ignorando as análises de signos já elaborados por estudiosos como


Platão e Charles Peirce, Saussure deu início àa “criação” da semiologia e
encontrou semelhanças com a ciência linguística que seria uma ramificação
semiótica já bastante desenvolvida. O pesquisador estabeleceu então que as
áreas são intrinsecamente ligadas, principalmente de duas maneiras: as leis da
semiologia são aplicáveis aos signos linguísticos; as leis da linguística geral
servem como um guia para a ciência dos signos em geral. Essas conclusões
serviram como base para o desenvolvimento da semiótica de acordo com as
ideias saussurianas.(Nöth,1996)
Apesar da grande contribuição de Saussure para os estudos
semióticos, o linguista foi alvo de diversas críticas que consideravam que em
suas teorias haviam falhas que inviabilizavam a análise semiótica em
detrimento dos seus relatos em relação àa língua. De acordo com Nöth (1996,
p.43) Saussure “não conseguiu descobrir nenhuma autonomia semiótica”, isso
se deu pelo fato de os estudos focarem apenas na língua falada, não incluindo
a língua escrita em suas análises. Outra adversidade apontada se deve àa
ideia conhecida como “imutabilidade da língua”, que se referem àas suas
famosas dicotomias, principalmente uma delas: sincronia x diacronia. A
diacronia refere-se àa evolução do sistema linguístico, enquanto a sincronia se
detém ema partes específicas do tempo. Saussure concentrou a maior parte
dos seus estudos com foco na sincronia, o que culminou em um grande déficit
visto que não considerava a autonomia dos falantes perante o sistema de
signos.
O modelo dicotômico de Saussure deixou algumas lacunas em
relação aos estudos semióticos; desse modo, o referencial de significante e
significado não correspondem totalmente àa semiologia, posto que são
desconsiderados o referente e o contexto; sendo assim, temos as ideias
apresentadas de uma linguagem correspondente somente ao social e não
também ao individual de cada um dos falantes. Esses fatores são até hoje
motivo de discussões no âmbito da linguística e consequentemente na
literatura, sem qualquer um destes, não é possível considerar os sentidos
claros que devem existir em uma situação comunicativa.
O surgimento do Funcionalismo, mais especificamente da Semiótica
Funcionalista, veio para preencher algumas dessas lacunas deixadas pelos
estudos de Saussure, a partir desse momento a linguagem foi determinada
como elemento da situação comunicativa e estabeleceu-se uma ligação entre
signo e contexto. O Funcionalismo se torna então oposto àas ideias
saussurianas, ele considera os elementos comunicativos e contexto tão
importantes quanto o texto em si. Com base nessas as ideias,o Formalismo
Russo que havia surgido anteriormente aprofunda seus conceitos descobertas
acontece o desenvolvimento do Formalismo Russo focando na análise literária
que considera o texto como um total formado por várias partes, ponderando a
capacidade formal de funcionamento de cada elemento textual de acordo com
sua estrutura; ainda sim as pesquisas se mostram muito iniciais visto que
consideram os construtores do texto e seus elementos não
elaborandoconceituando as ideias a partir dos falantes.
Os estudos linguísticos continuaram evoluindo a partir das
concepções já estabelecidas anteriormente, mas apenas em torno de 1926
com o surgimento da Escola de Praga, os teóricos consideraram opiniões
diferentes a respeito da linguagem; o Círculo linguístico de Praga se opôs aos
estudos de Saussure ao não considerar a linguagem como um sistema
exclusivamente diacrônico, a abordagem passa a ser mais abrangente, levando
em conta o contexto, a situação comunicativa e sua funcionalidade.
Mukarovsky (1977) apud Nöth (1996, p.95 ) estabelece que “a importância do
contexto social na percepção da arte é enfatizada”, ou seja, ao desconsiderar a
existência do mundo que abrange o processo artístico, perdemos as
possibilidades de significados que aquele trabalho apresenta. Em sequência o
autor afirma que “o trabalho de arte é definido como um signo com função tanto
comunicativa quanto autônoma” (NÖTH, 1996, p.95 ), ou seja, não é possível
desconsiderar o contexto da produção artística, mas também não podemos
atrelar a este todos os significados existentes na obra, pois ela pode também
possuir acepções independentes.
As ideias de Saussure, por muito tempo, foram o ponto de referência
para os estudos linguísticos e seguiram influenciando os teóricos que vieram
em sequência, foi a partir de sua afirmação sobre estudar a língua sob uma
perspectiva social e psicológica que Roman Jakobson (Jakobson apud
Nöth,1996) desenvolveu sua teoria a respeito da comunicação, nessa
pesquisa, o autor “configura” os passos do processo comunicativo: uUm
emissor envia sua mensagem sobre determinado assunto a um receptor
através de um canal, que pode ou não ser verbal, e a cada um desses fatores é
atribuída uma função da linguagem. As mensagens podem possuir todas as
funções ou uma que se destaca em relação àas outras. De todas as funções
apresentadas, Jakobson se aprofundou principalmente na função poética, que
corresponde àas mensagens., Ppara ele as palavras não eram escolhas
puramente aleatórias, sendo assim é impossível que um signo tenha um valor
único, ou seja, dependendo de onde e como é aplicado o significado daquele
determinado elemento será alterado. A partir desse princípio podemos concluir
que na produção de um texto as palavras não são escolhidas de maneira
aleatória, o autor busca atribuir elementos e significados de acordo com as
ideias que ele deseja passar aos seus receptores, como no caso da obra
“Pílulas azuis”, em que o signo doença é desconstruído pelo autor diminuindo
sua acepção majoritariamente negativa.
No entanto, é Julien Greimas que surge com novas ideias e quebra a
concepção que a Semiótica se restringe ao estudo dos signos, segundo o autor
a Semiótica vai além das ideias apresentadas, abrangendo sentidos e
significações .A partir desse entendimentos conseguimos compreender o texto
como uma totalidade buscando analisar não apenas o que é dito mas porque é
dito e qual o objetivo do emissor com a escolha de palavras.
Posteriormente transcorrem as opiniões de Umberto Eco aà respeito
da Semiótica e a teoria dos signos., Oo pensamento de Eco é claramente muito
influenciado pelo estruturalismo de Saussure. A teoria de que os opostos se
atraem está presente em grande parte dos escritos acadêmicos e ficcionais do
autor, o próprio afirmava que esta era um princípio para a criação de suas
obras:
“ [...] estabeleço um jogo de contradições" (1992, p. 140).” Oos estudos do
autor então se aproximam do Estruturalismo, que analisavam a língua de
maneira programática., Aapós se aprofundar nos conceitos e teorias, o linguista
declara em seu livro “ A estrutura ausente”( 1968) que as estruturas não
possuem uma existência ontológica. Assim,, apesar da grande influência dos
estudos estruturais na obra de Eco, é possível perceber que o autor não
considerava o sistema com definições fixas, mas sim como dependentes de
determinados fatores para que gerassem significados.
Eco, defendeu que a Semiótica é uma área baseada na “teoria da
mentira”:

“A semiótica tem muito a ver com o que quer que possa ser assumido
como signo. É signo tudo quanto possa ser assumido como um
substituto significante de outra coisa qualquer. Esta outra coisa
qualquer não precisa necessariamente existir, nem substituir de fato
no momento em que o signo ocupa seu lugar. Nesse sentido, a
semiótica é, em princípio, a disciplina que estuda tudo quanto possa
ser usado para mentir. Se algo não pode ser usado para mentir, então
não pode também ser usado para dizer a verdade: de fato, não pode
ser usado para dizer nada. A definição de 'teoria da mentira' poderia
constituir um programa satisfatório para uma semiótica geral” (ECO,
1975, p. 4).

Baseado nesses conceitos, o autor demonstra que as oposições se fazem


essenciais para que haja a definição dos signos e seus significados:

”A função sígnica vive da dialética de presença e de ausência.


Partindo desta premissa estrutural, pode-se dissolver todo o sistema
dos signos numa rede de fraturas e identificar a natureza do signo
nessa 'ferida' ou 'abertura' ou 'divaricação' que, ao constituí-lo, o
anula.” (ECO, 1984, p. 28).

As observações do autor quanto a teoria da mentira e a função dos


signos podem ser aplicadas na obra de análise Pílulas azuis, visto que os
conhecimentos prévios são essenciais, para a realização de qualquer leitura;
como já destacado, a influência social em torno dos portadores do vírus HIV, é
ainda hoje muito presente e por vezes preconceituosa, partindo desses
conceitos, é natural que a maioria dos leitores venha anteriormente com
definições pré-estabelecidas a respeito do assunto que apesar dos esforços
ainda pode ser considerado um tabu. Inicialmente, na própria obra, o autor
estabelece que também fazia parte desse grupo da grande massa populacional
que possuía pouco conhecimento a respeito do HIV e AIDS: “[...] de resto,
tínhamos que confiar em nossa educação e em alguns livros... E quanto mais
nos aproximávamos mais nos surgiam dúvidas e perguntas elementares...
( PEETERS,2016,p.109). Considerando a situação da AIDS que foi
caracterizada como uma situação de saúde pública em todo o mundo, não é
proporcional que após tantos anos e levando em conta os riscos que podem
envolver a infecção, a população seja tão desinformada a respeito de cuidados
básicos e prevenção.

Eco afirma que o sistema de signos pode ser considerado como


uma rede de fraturas, a partir dessa definição podemos concluir que a
atribuição de determinado signo é definida a partir de diversos fatores que
influenciam o seu receptor, o signo de HIV e AIDS na obra Pílulas azuis vai
contra o que que grande parte da população crê e tomou como verdade, a
princípio, os personagens portadores do vírus fogem do estigma que é
difundido: uma criança e uma mulher possivelmente heterossexual. A partir
dessa característica e de tantas outras que são descritas ao longo da narração
vemos a transformação dos signos para além do que conhecemos
popularmente, o que confirma a influência cultural nessa rede de signos que
podem ser usados para mentir de acordo com o estudioso; as referências que
Peeters utiliza para atribuir significados aos signos construídos em sua obra,
apresentam novas acepções comprovando as inúmeras possibilidades
constantes em um único signo, assim como os possíveis fatores que resultam
nessa significação.

Dessa forma, de acordo com Nöth (2016) podemos classificar os


estudos de Eco como pós-estruturalistas, visto que embora com a notória
influência das teorias saussurianas, afirmar que o signo é dissolvido em uma
rede de fraturas assume a possibilidade de vários significados e fatores que
podem intervir nestes, esse princípio torna-se então uma oposição a um dos
principais preceitos do Estruturalismo que estabelece a língua como um
sistema onde tudo se mantém.

De acordo com estes conceitos, concluímos que a Semiótica pós-


estruturalista de Eco, ao assumir a teoria dos opostos, assim como a
possibilidade de várias significações, consegue fazer a relação de análise dos
signos verbais e não verbais, o que nos auxiliará no exame trabalhados na
história de “Pílulas azuis”, como será visto em sequência.

A apresentação do pensamento de Umberto Eco ficou apressada, sem


aprofundamento.
Além disso, como ponderado nos comentários, a narrativa sobre a semiótica
precisa de referência.
Outro ponto: o capítulo se chama semiótica e literatura, mas o diálogo entre
essas duas áreas não é o foco. O foco parece ser mesmo um resumo do
estabelecimento da semiótica dentro dos estudos linguísticos.
4 AS HISTÓRIAS EM QUADRINHO E OS SIGNOS EM PÍLULAS
AZUISNÁLISE DA NARRATIVA DE PÍLULAS AZUIS
A história mostrada em Pílulas azuis desperta a curiosidade e rende
bons comentários de seus leitores, já que, ainda que se trate de um nicho
literário específico, conhecido como romance gráfico, é repleta das mais
diversas particularidades que tornam a leitura única e específica.
A narração é autobiográfica, aproximando, assim, a experiência do autor
com a de seus leitores; ademais,, a presença de personagens humanos, sem
habilidades mágicas ou superpoderes e que lidam com as alegrias e
diversidades da vida cotidiana, desfaz o conceito do protagonista perfeito que
muitas vezes é construído no imaginário do ledor, que, por isso, não se sente
inserido na história, de acordo com Santos (1992):

“De maneira diferente das HQs tradicionais, cuja trama se assemelha


ao conto (com uma forma de narração normalmente objetiva;
personagens com países definidos; e uma situação básica resolvida
no final), a graphic novel apresenta muitos plots e diferentes
narradores. [...] A narração subjetiva faculta aos personagens
desnudar seu íntimo, tornando claras suas ambiguidades, a ponto de
desaparecer a fronteira entre protagonistas e antagonistas.
”(SANTOS,1992, p.72)

Peeters, ao contar suas vivências, se aproxima dos seus leitores,


trazendo para a realidade situações cotidianas que, por vezes, estão restritas
aos indivíduos que a vivem, como é o caso dos portadores do vírus HIV.,
aAlém disso, a literatura graphic novel costuma agregar a função da
representatividade das minorias sociais, como ocorre com a população que
convive com HIV em “Pílulas azuis” e os pais de crianças com a síndrome T21
em “Não era você quem eu esperava” (TOULMÉAUTORIA, 2014).
O formato das histórias em quadrinho no estilo graphic novel foge da
configuração mais conhecida dos quadrinhos, que geralmente são destinados
ao público infantil e/ou juventils e compostos por várias histórias curtas, esse
tipo de narrativanesse sentido, elas mais se aproximam com ao conceito dos
mangás japoneses, em que uma revista ou livro conta em detalhes apenas
uma história.,
A Essa literatura das histórias em quadrinhos ganhou popularidade com
as sequências de contos de super-heróis a partir da década de 30. Com o foco
em uma história específica e bem desenvolvida, o autor geralmente utiliza das
mais amplas possibilidades no que se diz respeito a signos verbais e não
verbais, dessa forma, sem marcações específicas, é colocada para o leitor uma
obra sequencial, que conta com elementos verbais e imagéticos que são
intrinsecamente ligados na construção de sentido dentro da narrativa.,
cConcordamos com Will Eisner(1985) quando afirma:

[...]“Agora, após quase 50 anos, o surgimento das graphic novels


(novelas gráficas) completas colocou em foco, mais que qualquer
outra coisa, os parâmetros de sua estrutura. Quando se examina uma
obra em quadrinhos como um todo, a disposição dos seus elementos
específicos assume a característica de uma linguagem. O vocabulário
da Arte Sequencial tem se desenvolvido continuamente nos Estados
Unidos. (...) As histórias em quadrinhos comunicam numa ‘linguagem’
que se vale da experiência visual comum ao criador e ao público.
Pode-se esperar dos leitores modernos uma compreensão fácil da
mistura imagem-palavra e da tradicional decodificação de texto.
”(EISNER,1985 apud SANTOS, (1982, p.73.).

A leitura e análise de uma HQ é, para o seu público, repleta de


experiências, visto que, além do texto verbal, os elementos gráficos entram
como parte integral da construção de significados no contexto da história.;
Aa partir desse entendimento da importância da linguagem visualisso,
foram selecionadas temáticas específicas apresentadas em “Pílulas azuis”
para análise semiótica em sequências, são estas: O estigma da doença dentro
da história; os “medos” do vírus HIV; o psicológico dos indivíduos na relação; a
concepção médica dentro do relacionamento; o desejo sexual na relação soro-
discordante.

Figura 3- Apresentação
de Pílulas azuis.
Fonte: Peeters (2015). PEETERS,Frederick.Pílulas azuis.

A obra Pílulas azuis tornou-se mundialmente conhecida por quebrar


paradigmas, desde o início é possível perceber que a apresentação feita pelo
autor foge de qualquer padrão popularizado pela sociedade quando se refere a
indivíduos com o vírus HIV., aAlém disso, antes de iniciar a leitura, sem
conhecimentos prévios, dificilmente os leitores podem associar o título e
imagem da capa com a temática retratada.
O título “Pílulas azuis” faz referência àa medicação tomada por Cati
e seu filho em seus tratamentos, apesar disso, em termos de referências
artísticas ou até mesmo pessoais, o signo "pílulas azuis" dificilmente iráão
remeter, para indivíduos que não vivem em contato direto com essa realidade,
ao vírus HIV para indivíduos que não vivem em contato direto com essa
realidade. O filme “ Matrix” (1999), por exemplo, reporta as pílulas que o
protagonista Neo (Novo) tem direito a escolher para decidir o seu futuro, sendo
que o chefe da realidade paralela em Matrix, Morpheus, dá ao personagem
duas opções: a) uma pílula azul que o fará voltar ao mundo tradicional, que não
corresponde àa realidade, é tedioso, limitado, ilusório e que o fará esquecer a
realidade apresentada pelo mundo Matrix; ou b) uma pílula vermelha, que o
levará a conhecer a realidade e que o apresentará um mundo diferente em que
tudo de bom ou ruim pode acontecer., Oo personagem instantaneamente
decide pela segunda opção, que lhe proporciona um novo mundo além do
mundo de aparências em que vivia anteriormente.
A dualidade das pílulas que dá origem àa franquia de filmes “Matrix” é
baseada em outras referências já utilizadas anteriormente. eEm “ Alice no
país das maravilhas”, de Lewis Carrol (1865), a personagem ao correr atrás
do coelho branco caií em um mundo em que as coisas não fazem sentido, e lhe
são dadas duas opções: ingerir um líquido azul ou vermelho para prosseguir a
aventura, o líquido azul diminui o seu tamanho para que continue tendo acesso
ao mundo em que nada faz sentido,o líquido vermelho a faz voltar ao tamanho
original e consequentemente voltar de onde veio. As irmãs Lilly e Lana
Wachowski, cineastas responsáveis pela franquia de filmes Matrix, confirmam
em diversas entrevistas a influência da história de Lewis Carrol, assim como do
“Mito da Caverna”, do filósofo Platão, e os estudos do filósofo francês Jean
Beaudrillard, que afirma que vivemos em uma dicotomia de “simulacros e
simulações”.

Em todas as sobras supracitadas, que fazem parte do imaginário


popular e são de conhecimento de grande parte dos indivíduos, são
apresentados sempre dois caminhos, um referente àa escuridão, tédio,
monotonia e baixas perspectivas de evolução; e um outro, que apesar de nem
sempre se referenciar a um mundo ideal, apresenta novas possibilidades e
uma vida real. ; No geral,Rreferindo-se àa colorimetria, o azul está presente no
imaginário popular como o caminho comum e o vermelho como o caminho
diferenciado., Opondo-se a esse entendimento, a obra de Peeters (2015),
como analisaremos posteriormente, vem quebrar a metestigmáforaatização
popular das "pílulas azuis", atribuindo um novo significado a este elemento.

4.1 O estigma da doença dentro da história


A apresentação de Pílulas azuis, expõedemonstra a narração de
Peeters, nos primeiros encontros com a jovem que posteriormente se tornaria
sua esposa, Cati., Nnas primeiras páginas da HQ conseguimos perceber o
processo de conhecimento e paixão de ambos, sem que haja interferência
alguma que remeta ao vírus HIV, a princípio, Frederik descreve como sua vida
era solitária apesar de morar em uma grande cidade e possuir muitos amigos,
assim como as diversas vezes que o casal se encontrou ao longo de alguns
anos.
Os personagens no texto literário são essenciais para a construção da
interpretação do leitor, sobretudo como no caso da história analisada, que se
trata de uma narração autobiográfica; nela temos a visão de Peeters, que narra
a história, as dificuldades e situações conflitantes no decorrer do relato. De
acordo com Rosenfeld (1976, p. 21) : “ É, porém, a personagem que com mais
nitidez torna patente a ficção, e através dela a camada imaginária se adensa e
cristaliza” (ROSENFELD, 1976, p. 21)., ou seja, concluímos que a partir das
escolhas de signos e elementos escolhidos pelo autor que são perpassados a
nós,leitores por meio dos personagens, somos imersos no enredo narrativo e
passamos a nos incluir nas experiências ali descritas, Eem se tratando de
Pílulas azuis, sãoé fornecidas a descrição de Frederik, de Cati, e a forma com
que ele vivenciou a revelação do diagnóstico dela, e as decisões do casal
desde então.

Figura 4- Primeiro encontro de Fred e Cati.

Fonte: Peeters (2015, p. 16)PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.16.

Como colocado inicialmente, os primeiros momentos de lembrança


revelados na história mostram os encontros esporádicos entre Fred e Cati ao
longo de alguns anos e a identificação entre ambos apesar de anos eem
momentos bastante distintos., Aa caracterização da personalidade de Fred,
apesar da boa socialização, o mostra sempre solitário e calmo, ao contrário de
Cati, que a princípio aparece como uma personalidade marcante, forte e
animada. Depois é narrado, até o encontro do casal no ano novo de
1999/2000, depois que Cati se torna mãe e onde há uma reaproximação, desta
vez definitiva, entre eleso casal.
Figura 5- O ano novo na casa de Alex.

Fonte: Peeters (2015, p. 27)Fonte:PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.27.

A partir dessa descriçãoe encontro, na festa de ano novo, é


apresentada ao leitor uma nova Cati, totalmente diferenciada da vista
anteriormente: “Cati estava lá sozinha, discreta como uma sombra... Ela não
fazia parte do círculo de pessoas que eu frequentava... Acho que não fazia
mais parte de nenhum círculo...” (PEETERS, 2016, p. 27). Nesse momento, é
perceptível a quem está acompanhando que algo mudou., Oo prólogo mostra
que o casal é soro-discordante, apesar disso, não necessariamente fica
subentendido que a mudança de Cati se deve àa contaminação pelo vírus HIV.,
Ttodavia, a caracterização em que dela aparece nesse momento é bastante
comum aos indivíduos que convivem com o vírus; uma vida reclusa e “cinza”
permeada por vergonha e solidão . De acordo com Sontag (1989):
“ E as doenças tidas como determinadas por múltiplas causas (ou
seja, doenças misteriosas) são aquelas com mais largas
possibilidades de uso como metáforas para o que é visto como moral
e socialmente errado.” (SONTAG, 1989 ,n.p)

Como mencionando anteriormente, a AIDS é uma síndrome que


afeta as defesas do organismo fragilizando o sistema imunológico e o deixando
vulnerável a uma série de outras doenças, conhecidas como “doenças
oportunistas”, estas ,compreendem o conceito de doenças misteriosas
mencionado por Sontag (1989)., Ppartindo deste pressuposto, é notória a
motivação de Cati para a mudança de comportamento a partir deste momento,
a personagem transpassa transforma-se: de uma jovem, feliz e animada para
alguém totalmente deslocada e que não fazia parte de “nenhum círculo”, já que
rapidamente tornou-se parte de dois ciclos socialmente e moralmente
extremamente subjulgados, sobretudo no final dos anos 90 e início dos anos
2000 quando se passa a história: Mmãe solo e portadora do vírus HIV.
Em sequência, acompanhamos o desenvolvimento do início da
relação do casal, até o clímax, que compreende a revelação do diagnóstico de
Cati a seu futuro namorado:

Figura 6- A revelação do diagnóstico.


Fonte: Peeters (2015, p. 36)Fonte:PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.36.

Concordamos com Iuri Lotman quando afirma que há uma dificuldade


em associar os fenômenos sociais a Semiótica:

“O estudo dos fenômenos culturais com a aplicação de recursos da


Semiótica constitui uma das tarefas mais atuais e, ao mesmo tempo,
mais complexas, em todo o conjunto de problemas contemporâneos
do ciclo das Ciências Humanas” (LOTMAN, 1979, p. 31).

Analisando esse excerto,as figura 6 e 7, concluímos que apesar da não


rejeição imediataboa aceitação de Frederik com a notícia que acabara de
receber, é perceptível que as referências moral e socialmente impostas em
alguns momentos ficam sobrepostaos aos seus sentimentos; o mesmo
acontece com Cati, que além de hesitar comunicar seu diagnóstico ao seu
parceiro por medo, logo em sequência decide ir embora do encontro.

Figura 7- Os sentimentos da descoberta.


Fonte: Peeters (2015, p. 37)PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.37.

O momento após o recebimento da informação é repleto de cenas que


remetem a movimento e tensão,apesar disso, diferentemente de seus
pensamentos as imagens mostram o personagem paralisado. Eco afirma:

É signo tudo quanto possa ser assumido com um substituto


significante de outra coisa qualquer. Essa coisa qualquer não precisa
necessariamente existir, nem subsistir no momento em que o signo
ocupa seu lugar. (ECO, 2003, p. 8)

Concluímos que a referenciação de signos selecionadas pelo autor nessas


cenas proporciona aos leitores a apreensão dosos sentimentos que permearam
a cabeça dos personagens naquele momento, no exemplo posto na imagem,
as sensações aparecem de forma desconexa na cabeça de Frederik, ao
mesmo tempo que fogem do pensamento em instantes., aAlém disso, as
emoções muitas vezes snão contraditóriasse correspondem, como sentir
paixão e rejeição ao mesmo tempo.; tTodo esse processo é ainda permeado
pelas onomatopeias de “clique-claque”, agregando a ideia de passagem rápida
de tempo, que ao estar conectada com o as outras partes do texto e seu
contexto momentâneo reforçam a ideia de confusão e estabelecem um “prazo”
para que exista uma ação e determinada situação seja resolvida.

Figura 8- O desespero do relacionamento.


Fonte: Peeters (2015, p. 38)Fonte:PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.38.

Os momentos seguintes àa descoberta da condição de sua


companheira remetem àa velocidade e confusão mental, ainda que discreta,
como é colocado: “Eu me ergui como um farol... por ela, e porque sabia que ia
dar certo entre nós [...] Mas, na verdade, eu estava como um menino
atordoado...” (PEETERS, 2016, p. 38). Além das indicações não verbais
colocadas no texto e que presumem essas sensações, temos o a confirmação
de referência com o signo verbal “atordoado”. aApesar disso, Frederik expõe
uma das mais lindas declarações de amor constantes na obra, ao escolher
continuar por Cati, porque valeria a pena, e quebrando a expectativa dos
leitores ao manifestar a maior preocupação naquele momento: possíveis
segundas intenções.
Com a consolidação do relacionamento, o casal precisa lidar com
outras situações que passam a fazer parte da rotina da família, além do
habitual de um cotidiano familiar e do tratamento médico necessário para a
condição de saúde de Cati e seu filho, no qual Frederik também precisa se
fazer presente, cabe aos três lidarem com os estigmas sociais dos familiares e
amigos mais próximos., Eem um primeiro momento existe um impasse quanto
àa revelação do diagnóstico aos pais de Frederik, este é o primeiro motivo para
a produção da HQ, revelar aos familiares de forma “leve” a condição vivida
pelos personagens,. Eem uma discussão do casal é revelado que os pais
apoiam o relacionamento, posteriormente, é subentendido que após a
exposição, as relações são cortadas. Simultaneamente ambos têem que lidar
com os estigmas dos amigos e aqueles que os próprioso próprio casal também
tinham enraizados devido àa falta de conhecimento a respeito do vírus, mas
quem em sequência são desfeitos.

Figura 9- O estigma social.

Fonte:PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.155.
Fonte: Peeters (2015, p. 155)

O diálogo exposto apresenta uma conversa entre Frederik e um


amigo do casal aà respeito do uso de preservativos durante a relação sexual.
De acordo com o Mministério da Ssaúde do Brasil (Secretária de Saúde do
Ceará,2019) a prática de relações sexuais sem o uso de preservativos é
responsável por mais de 95% dos casos de contaminação por HIV no mundo, e
é cientificamente comprovado que a utilização de preservativo para as relações
sexuais deixa os indivíduos minimamente expostos àa contaminação por
qualquer que seja a IST, sendo e é desde a década de 860, com o advento da
AIDS, até hoje o método de prevenção mais seguro, eficaz e acessível para a
prevenção e saúde dos indivíduos., Nno Brasil, o Sistema Único de Saúde
(SUS) distribui preservativos gratuitamente como estímulo àa sua utilização
nas relações sexuais.
Em contraponto àa eficiência e segurança do uso de preservativos,
temos a construção social referente não só àa prevenção sexual como aos
preconceitos que ainda hoje são reproduzidos socialmente ano que se diz
respeito não só a uma vida sexual ativa e saudável como ao machismo e o
prejulgamento com a associação automática de doenças sexuais a um grupo
restrito de pessoas, grande parte dessas questões são amplamente reforçadas
pelas instituições religiosas mais tradicionais que pré-definem um formato
colocado como correto de construção de um relacionamento:

“...Veja bem, eu respeito todas as religiões, eu não tenho


nenhuma, mas respeito. Se a religião traz paz, sossego e conforto pra
pessoa, ótimo, ótimo, ótimo. Agora deixar que essas questões
influenciem na dinâmica de formação da sociedade isso traz impacto
deletério, impacto em termos de obstrução a estabelecimento da
saúde das pessoas que é um crime...” (TIMERMAN,Artur,Carta para
além dos muros,2019,min.79)

Eco (1971, p. 3) reitera assevera que “ [...]Todos os fenômenos de


cultura são sistemas de signos, isto é, fenômenos de comunicação.”.
(ECO,1971,p.3) Ddessa forma considerando-seumamos que a cultura de
desinformação relacionada ao vírus HIV e demais IST’s está intrinsecamente
ligada com o contexto social, o signo AIDS, assim como os que a este estão
relacionados: Ppreservativo, coquetel, soropositivo, dentre outros, são, ainda
hoje, repudiados por grande parte da sociedade. Em acordo com essa cultura,
as imposições do machismo e ada “imunidade” a qual a população
heterossexual e em relacionamentos estáveis acredita possuir, descredibilizam
as orientações das autoridades de saúde e as ignoram, propagando cada vez
mais as infecções.
A conversa entre Frederik e seu amigo (figura 9) confirma, as ideias
discutidas, sobretudo na fala: “Falo mais pelo lado simbólico, pelo princípio,
entende?”. eEsse posicionamentoconceito levam o leitor a presumir a opinião
do amigo de Frederick sobre a incompletude do relacionamento soro-
discordante, ou seja, devido àa falta de possibilidade da ausência de
preservativos, os princípios de uma das partes seriam desconsiderados
impedindo nesse caso principalmente a autoafirmação masculina.
Concordamos com Eco quando coloca:

“Fique bem claro, finalmente que quando se fala em ”cultura”, o termo


é entendido no sentido que lhe confere a antropologia cultural : é
cultura toda intervenção humana sobre o dado natural, modificado de
modo a poder ser inserido numa relação social.”( ECO,1971,p.5).

As fortes influências da cultura machista que defendem as morais e "bons


costumes" assim como a grande maioria das instituições religiosas
caracterizam então parte da intervenção humana citada por Eco (1971), sendo
que os conceitos defendidos e afirmados não apenas pela população, mas pela
própria área médica e nessascientífica, nessas instâncias
modificaramsedimentaram os signos em torno da AIDS para numa carga
majoritariamente negativa, e expandiu as relações sociais com esses
princípios, que são frequentemente reforçados por outras instituições que ainda
nos dias de hoje ditam muitos dos comportamentos da população, como as
falas de líderes políticos e/ou religiosos. que encontram-se em alta patente de
situação do poder hierárquico.

4.2 Os medos do vírus HIV.


Os medos que envolvem as doenças incurátratáveis, são diversos,
assim como a motivação desses medos;seus motivos, para conviver com uma
doença para qual não há cura, existem uma série de cuidados que devem
impreterivelmente serem cumpridos para que não surjam complicações e
tenha-se qualidade de vida. Socialmente, porém, essa vivência passa por
conclusões, definidas de acordo com o senso comum e que nem sempre se
referem àa real situação de vida desses indivíduos.
Na história de Ppílulas azuis, Frederik e Cati, apesar de inseridos, na
rotina de cuidados com o vírus HIV, visivelmente são bastante influenciados
pelas associações socialmente difundidas, principalmente a mais forte entre
elas: Conviver com uma doença que não há cura inevitavelmente resultará em
uma morte sofrida e precoce.

Figura 10- A possível morte iminente.


Fonte: Peeters (2015, p. 75,76)
Fonte:PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.75,76.

Apesar das dúvidas que permeavam a mente do casal, Frederik foi


muito receptivo com a que viria a ser sua namorada, assim como com o seu
filho dela, ainda assim, com o desenvolvimento da narrativa são apresentadas
diversas dificuldades pelas quais a família passa, por estar estabelecendo
laços, perante um cenário desconhecido e complicado até mesmo para Cati,
que convivia com o vírus e seus tratamentos de forma dupla, já que também
era responsável pelos cuidados de uma criança soropositiva. Dessa forma, o
signo morte constantemente é tomado ao longo da história como algo
irremediável e iminentebreve ao qual ambos estavam condenados., Eem
alguns excertos Cati se sente culpada pela transmissão do filho e chega a
“negociar” com o Universo para que morra primeiro devido àa culpa de ter
contaminado a criança.
Charles Peirce ,postula que na teoria semiótica, realizamos as
inferências a partir de dois conceitos: por contiguidade ou semelhança; na
contiguidade associamos determinada ideia como parte de um sistema de
ideias as quais trazemos àa mente através de elementos correlacionados. A
semelhança é o conceito menos utilizado, visto que exige um pouco mais das
operações mentais onde e usamos propriedades ocultas dos sistemas de
ideias para unir na mente as suas similaridades:

““ Como é da natureza dos símbolos-que nos permitem pensar sobre


pensamentos e, portanto criar abstrações apoiar-se em hábitos já
definitivamente formados (daí a sua capacidade de criar
“automatismos verbais”, no sentido valéryano), as tentativas
semiológicas de tipo saussuriano, no sentido de codificarem os signo
icônicos, estão eivadas, na maioria dos casos, do vício verbalista, na
medida mesma em que tentam transpor, para o universo icônico,
métodos, operações e conceitos eventualmente só pertinentes ao
universo verbal, ou seja, simbólico.” ( PEIRCE apud PIGNATARI,
2004, p. 61)

Ou seja, como já citado anteriormente, as vivências dos indivíduos portadores


do vírus HIV foram e ainda são fortemente influenciadas pelas regras morais
impostas pela sociedade., Peirce cita que nos apoiamos em hábitos já
definitivamente formados, o que nos leva a construir “automatismo verbais”.
Frederik estava ciente do diagnóstico médico de sua namorada e do filho antes
de iniciar o relacionamento, ainda assim, o personagem se mostra muitas
vezes preso aos conceitos que são frequentemente expostos na sociedade, ao
pensar na possibilidade de que qualquer situação poderá findar na morte de
um dos dois. A partir desse momento, Peeters passa por inúmeras situações
pessoais, ao refletir sobre a inconstância de conviver com o vírus., Éé válido
evidenciar que como membros pertencentes de uma sociedade, provavelmente
o casal não viveria esse tipo de situação caso uma das partes portasse
qualquer outra enfermidade, como Aasma, por exemplo, que também é uma
doença incurável, ou hipertensão arterial por exemplo, observando por esta
ótica é notória a carga moral negativa que é atribuída àas vítimas pessoas
soropositivasdo vírus HIV.
É a partir de um momento representado em uma brincadeira com o filho
de Cati que Frederik começa a desassociar o conceito de morte dentro do seu
relacionamento, ao brincar com dinossauros e animais pré-históricos o
personagem se imagina conversando com um mamute sobre as dificuldades
enfrentadas:

Figura 11- Diálogo com o mamute.


Fonte: Peeters (2015, p. 175)Fonte:PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.175.

O mamute é um animal extinto há milhares de anos e que tinha como


principal característica a vida em comunidade, o que de certa forma
distanciava-se daia contra a vivência que a família possuía em decorrência
dos diagnósticos., Éé a partir deste diálogo gerado pelo próprio inconsciente de
Frederik que o personagem se vê capaz alguns dos medos os quais ele, como
parte soronegativa do relacionamento, foi capaz de se desvencilhar dos
conceitos superficiais, que a maioria da população reproduz., eEsse momento
é fundamental para o desenvolvimento da narrativa, visto que é o marco da
história para que o casal siga para um relacionamento familiar saudável, onde
a morte não deixa de ser uma certeza, mas passa a ser concebida como um
evento que independe de diagnósticos.
Eco consolida que o signo "é não só unidade de expressão e
conteúdo mas é uma entidade abstrata, uma classe de expressões
relacionadas com uma classe de conteúdos" (ECO, 2001, p.18). Nesse sentido,
de acordo com as atitudes de Frederik ao longo da história, confirmamos que o
mamute se refere ao seu inconsciente, que ainda estava muito incerto a
respeito das condutas que deveriam ser tomadas em seu relacionamento e
com as pessoas a sua volta. É após o encontro com o mamute em uma floresta
escura, assim como provavelmente estavam seus pensamentos apesar da
certeza do relacionamento, que o personagem começa a se desvencilhar dos
conceitos errôneos que antes ainda eram tão frequentes na sua relação a
respeito da com a condição de sua namorada.
Apesar de um processo de desconstrução frequente a respeito de sua
nova vida, algumas concepções ainda eram muito latentes na vida aà dois, o
uso de preservativo nas relações sexuais, por exemplo, passa a ser muito
evidenciado nos pensamentos de Frederik e por diversas vezes isso é
mencionado durante a obra:
Figura 12- A camisinha perpétua.
Fonte:PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.108.
Fonte: Peeters (2015, p. 108)
Ainda de acordo com Peirce, um objeto não tem o mesmo significado
para pessoas diferentes, os reconhecimentos são individuais,como no caso do
objeto preservativo, de acordo com as sensações de cada indivíduo trará um
significado diferente, neste caso de acordo com as vivências de casal de
Frederik e Cati, o elemento é definido como mais uma imposição definida pela
doença :

“ São assim todas as semelhanças: pois quaisquer dois objetos da


natureza se parecem entre si- e tanto quanto quaisquer outros dois; é
apenas com referência aos nossos sentidos (senses) e necessidades
que uma semelhança conta mais do que outra” ( PEIRCE apud
PIGNATARI, 2004, p. 62)

Dessa maneira, o trecho da história que condena o casal àa “camisinha


perpétua”, assim como todo o universo que envolve a prevenção e infecções
sexualmente transmissíveis carregam em si uma acepção negativa pré-definida
socialmente e que é perpetuada ao longo das gerações que correlacionam a
prevenção sexual aà indivíduos promíscuos ou fora do padrão considerado
correto.; dDe acordo com o Ministério da Saúde( Correio braziliense,2018),, em
2016 apenas 60% dos jovens usavam proteção na primeira relação sexual e
cerca de 30% continuavam utilizando quando o parceiro se tornava fixo .Esses
dados apresentam números baixíssimos e potencialmente perigosos àa saúde
pública, comprovando a ideia de camisinha como prisão e condenação
perpétua, ou até mesmo “sem importância” diante de uma relação estável.,
aApesar de ser sinônimo de proteção, o uso de preservativo por muitas vezes
não é moralmente aceito, o que atribui ao objeto um outro sentido que não o de
preservação; na imagem citada podemos conceber o julgamento de camisinha
perpétua como uma carga obrigatória, de punição, que não aconteceria caso
ambos fossem soronegativos.

4.3 O desejo sexual na relação soro-discordante.


O diagnóstico de infecção pelo vírus HIV na maioria das vezes
condena o indivíduo a uma vida de restrições que não são específicas quanto
ao tratamento médico, mas àa vida pessoal, social e sexual., Nna relação de
Frederik e Cati, devido àa falta de conhecimento, por muito tempo a vida sexual
foi permeada de limitações e medo, de ambas as partes, do contágio de ambas
as partes. A princípio, as relações sexuais foram evitadas e em sequência o
casal estabeleceu limites que aparentavam ser seguros, mas nem sempre
satisfatórios para o casal, que como já citado estava passando pela
"condenação perpétua" ao uso de preservativos e cuidados extremos a fim de
evitar a contaminação.

Figura 13- Relação sexual insegura.


Fonte: Peeters (2015, p. 106)Fonte:PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.106.

Como já posto anteriormente, apesar de não hesitar em iniciar uma


relação soro-discordante, o conhecimento a respeito do vírus, contaminação e
relações sexuais do casal eram restritos aos conceitos sociais carregados de
informações inverídicas, o que fez o início da relação repleto de momentos de
tensão e dúvidas, Frederik passa por situações de dificuldades por não saber
ainda como proceder e como dar suporte da melhor maneira possível à sua
nova parceira. Conforme a relação vai evoluindo, o casal faz inúmeras
consultas médicas, pelo medo do contágio que parecia tão próximo, ainda que
Cati fizesse tratamento regularmente e tivesse carga viral indetectável. Esse
momento narrativo, se mostra bastante tenso já que é narrado pelo autor, que
não considerava adequado expor suas dúvidas e medos relacionados a um
possível contágio com a namorada.

Figura 14- Sinônimo de segurança.


Fonte:PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.109.
Fonte: Peeters (2015, p. 109)
A princípio o uso de preservativos aparece como a salvação da vida
do casal, que vinha de uma prisão: “Como se tivéssemos que fazer amor com
camisas de força...”. Em sequência, como já colocado, os personagens se
sentem condenados àa “camisinha perpétua”, o que atribui a relação sexual
aspectos negativos indo totalmente contra o preceito comum, mais uma vez
sentenciando a relação aà uma vida limitada e diferente de outros casais.
Peeters evidencia as dificuldades de vivenciar uma relação soro-
discordante sobretudo por causa dos provenientes dos traumas carregados por
sua namorada:

“... Às vezes ela parecia se ver como a personificação da doença,


como se ela própria fosse o vírus, com todos os seus perigos... De
minha parte lembro-me de visões fugidias... De sentimentos
fulgurantes... De rejeição, de cólera, de vontade de autopunição...”
(Peeters,2016,p.134).

A oposição de sentimentos que aparece durante grande parte da obra


representa as vivências dos personagens que aparentam permanecer em viver
uma eterna inconstância entre uma existênciavida “comum” e uma vida com
HIV, os dois protagonistas demonstram repetidamente irem contra as próprias
vontades devido ao receio das consequências que poderiam ser geradas a
partir, principalmente, da liberdade sexual dentro do relacionamento. É
somente após um acidente durante uma relação que o casal se encaminha
para uma consulta médica e que ocorre algo que é fundamental para o início
da “liberdade” na vida aà dois.
Figura 15- Alguém que entende sobre o assunto.
Fonte: Peeters (2015, p. 126)Fonte:PEETERS,Frederick.Pílulas
azuis,p.126.

A dualidade de sentimentos exposta pelo narrador ainda é frequente


neste momento narrativo, apesar disso, conseguimos associar que a partir
dessa situação, a história nos é apresentada de outra forma: “Eu me sentia
abalado mas leve..” ( PEETERS, 2016, p.126). A maneira caótica que as ideias
eram apresentadas passam a ter novas características atribuídas, inclusive ano
que se referem à a linguagem não verbal, as imagens aparecem
menosdiminuem seu aparecimento de maneira sombria e escurecida e passam
a adquirir um aspecto mais iluminado, já que segundo o autor: “Pela primeira
vez, alguém envolvido e informado, alguém que dispunha de todas as cartas
tinha me dado uma boa imagem de nós mesmos...” ( PEETERS, 2016, p.141).
É somente desde então que uma vida “normal” pode ser concebida pelo casal,
pois, através das consultas, o profissional transmitiu segurança e estabeleceu
os limites necessários para uma boa convivência, limites estes que eram
totalmente diferentes do que os personagens idealizavam anteriormente., Logo,
a presença de um profissional de saúde foi imprescindível para demarcar as
possibilidades dentro de uma relação soro-discordante.

Figura 16-Liberdade.

Fonte: Peeters (2015, p. 127)Fonte: PEETERS,Frederick.Pílulas azuis,p.127.


Eco (2002), coloca que a literatura é composta por espaços “não
ditos” ou espaços em brancos, a fim de que o leitor possa preencher esses
espaços com sua interpretação pessoal, esses espaços se referem a tudo que
não é manifestado diretamente pelos autores da obra. A literatura torna-se
então composta por duas partes, o sentido colocado pelo autor e a liberdade
interpretativa de seus leitores. O exemplo posto usa principalmente de
elementos visuais para que os destinatários atribuam seus sentidos., Ddurante
toda a obra, o protagonista nos coloca em um espaços de prisão nos quais eles
mesmos sentiam-se vivenciando: tribunais, cercas de arame farpado, hospitais,
camisas de força; é só a partir de inúmeras visitas médicas que aos poucos o
casal consegue adquirir confiança, ter consciência dos cuidados necessários e
se desprender de uma vida de restrições. Concordamos com Camargo quando
expõe:

A ilustração estabelece com o texto uma relação semântica. Nos


casos ideais, uma relação de coerência, aqui denominada coerência
intersemiótica, pelo fato de ocorrer entre dois códigos diferentes, o
visual e o verbal. Assim, entende-se neste estudo como coerência
intersemiótica a relação de coerência, ou seja, convergência ou não
contradição, entre os significados (denotativos e conotativos) da
ilustração e do texto. (CAMARGO, 1998, p. 75).

Assim como é recorrente em histórias infantis, as HQ’s tem como


artifício de compreensão dois formatos de linguagem: verbal e não verbal, onde
em que uma é complementar da outra, em diversos momentos a mensagem
não é representada de forma explícita, mas o leitor é capaz de preencher as
lacunas, ditas por Eco (2002), através da representação de uma das
linguagens., Eem outros momentos, ambas as duas são colocadas como
maneira de enfatizar determinada mensagem, como acontece na liberdade
colocada pela abertura das camisas de força, na figura 16, acima.
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